A IMPORTÂNCIA SOCIOECONÔMICA DA AGRICULTURA FAMILIAR NO DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL DA ZONA SUL DO RIO GRANDE DO SUL [email protected] Apresentação Oral-Agricultura Familiar e Ruralidade LÍRIO JOSÉ REICHERT1; MÁRIO CONILL GOMES2; JOSÉ ERNANI SCHWENGBER3. 1.EMBRAPA CLIMA TEMPERADO, PELOTAS - RS - BRASIL; 2.UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS, PELOTAS - RS - BRASIL; 3.EMBRAPA, PELOTAS - RS - BRASIL. A importância socioeconômica da agricultura familiar no desenvolvimento territorial da Zona Sul do Rio Grande do Sul Grupo de Pesquisa: Agricultura Familiar e Ruralidade Resumo A agricultura familiar cada vez mais se destaca como um dos setores da economia que mais cresce na produção de alimentos, geração riquezas e em distribuição de renda mais eqüitativa, constituindo a base para um desenvolvimento rural. sustentável. Apoiada pelas organizações públicas, cooperativas, associações, ONG´s, representações sindicais dos trabalhadores rurais, iniciativa privada e demais setores da agropecuária, a agricultura familiar se caracteriza como sendo de grande importância para a manutenção do tecido socioeconômico local. Graças ao seu dinamismo e características socioeconômicas pluriativas, o meio rural tem sido objeto de análise e estudo. O Estado do Rio Grande do Sul tem na agricultura familiar sua origem, culturas e tradições onde muitas regiões e cidades se desenvolveram graças ao trabalho dos imigrantes colonizadores. A agricultura familiar vem recebendo uma atenção especial dos governos Federal, Estadual e municipal, por meio da implementação das políticas públicas, tem tido uma projeção social, política e econômica cada vez mais reconhecida e legitimada, graças ao poder de mobilização da categoria com respaldo de suas organizações e representações. Neste sentido, o Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA, regionalizou o Brasil em Territórios Rurais para melhor implementar o desenvolvimento territorial. Foram criados no Rio Grande do Sul sete Territórios e na Zona Sul, foi delimitado o Território Zona Sul. Neste trabalho, será resgatada parte de história de ocupação desta região, destacando algumas das organizações que atuam diretamente com os agricultores familiares e sua importância como mediadores do processo de desenvolvimento rural local e regional. Palavras-chaves: agricultura familiar; desenvolvimento rural; pluriatividade; diversificação socioeconômica. Abstract Family agriculture stands out more and more as an economy sector responsible for a growing food production, job and income generation, to hold families in the country and a fair income distribution which turns it into a base for a local and regional rural sustainable development. Supported by public organizations, cooperatives, associations, NGO’s and rural workers unions, private enterprises and other agriculture sectors, family agriculture is characterized as being of major significance to preserve socioeconomic local tissue. Thanks to its dynamism and socioeconomic pluriactivity characteristics, family agriculture have been largely analyzed and studied. The Rio Grande do Sul State has in family agriculture its origin, culture and traditions where many regions and cities have been developed thanks to the immigrant settlers’ labor. Also it has been getting special attention both by federal, state and county governments through public policies that project it as a social force supported by its organizations. Thus, the Agrarian Development Ministry (MDA in Portuguese) had regionalized Brazilian space into Rural Territories to better accomplish rural development. Therefore, seven Territories were created in Rio Grande do Sul State and in its southern region was set the South Zone Territory. In this work the occupation history of this Territory is partially reviewed as long as some of the organizations which interact directly with family farmers. Their significance to both local and regional rural development is highlighted. Key Words: family agriculture, rural development, pluriactivity, socioeconomic diversification 1 INTRODUÇÃO O debate sobre a importância e o papel da agricultura familiar no desenvolvimento local e territorial vem ganhando cada vez mais força nos últimos anos em todas as esferas da economia mundial. No Brasil a situação não é diferente, como bem expressa Wanderley (2001) “a agricultura familiar não é uma categoria social recente, nem a ela corresponde uma categoria analítica nova na sociologia rural”. No entanto, passou a ter um significado importante em todas as esferas da economia e abrangência em todo o território nacional assumindo para si a responsabilidade social e econômica para milhões de pessoas. Para dar apoio a este segmento da agricultura familiar, tão importante para a economia do país, o Governo Federal, como responsável pela condução das políticas públicas voltadas aos interesses da agricultura familiar, vem implementando várias ações por meio de seus ministérios. Neste sentido, o MDA, o MAPA, juntamente com suas Secretarias vem atuando na organização, na execução dessas ações no sentido de promover o desenvolvimento rural por meio dos Territórios Rurais, visando facilitar o processo de planejamento, implementação e a autogestão do processo de desenvolvimento rural fortalecendo e dinamizando a economia do país. O MDA, regionalizou o Brasil em Territórios Rurais para melhor apoiar e dinamizar as políticas de desenvolvimento territorial. Foram criados no Rio Grande do Sul sete Territórios entre eles o Território Zona Sul. Para aprofundar este debate e fornecer mais elementos sobre a agricultura familiar da Zona Sul do Rio Grande do Sul, a qual está inserida neste processo de desenvolvimento por meio deste Território, o trabalho resgata parte da história de ocupação do território, relatar algumas das ações coletivas que vêm sendo realizadas pelas entidades que representam os agricultores neste espaço geográfico em benefício da agricultura familiar e apresentar dados sobre a economia da região, enfocando as principais atividades desenvolvidas por este segmento tão importante como gerador de desenvolvimento local e regional. 2 REVISÃO DE LITERATURA O processo de Desenvolvimento Territorial apóia-se na formação de uma rede de atores sociais trabalhando conjuntamente para a valorização de atributos de uma região, viabilizando cooperativas e associações de agricultores, grupos sociais e instituições que podem, de alguma forma contribuir para o desenvolvimento territorial rural. Segundo Abramovay (2001), “um território representa uma trama de relações com raízes históricas, configurações políticas e identidades que desempenham um papel ainda pouco conhecido no próprio desenvolvimento econômico”. Afirma ainda o autor que “Ruralidade” é um conceito de natureza territorial e não setorial. A agricultura familiar vive um momento de adaptação frente às novas mudanças socioeconômicas da sociedade atual. Neste sentido, cria alternativas constantemente para adaptar-se aos constantes desdobramentos da agricultura moderna, uma delas hoje bastante discutida no meio acadêmico, a “pluriatividade”. Entendida como a diversificação de atividades e ocupações agrícolas e não-agrícolas, exercidas pelos componentes da unidade familiar dentro ou fora de sua exploração agrária, é mais uma das estratégias econômicas para garantir a sobrevivência do agricultor familiar, sob o ambiente econômico que se mostra, constantemente adverso. Muitos autores tem trazido contribuições valiosas a respeito desta nova dinâmica da agricultura familiar. Carneiro (2006), afirma que a pluriativade adquiriu reconhecimento na caracterização de fenômenos socioeconômicos associados às dinâmicas recentes do meio rural identificadas por alguns como “novo rural”, por outros como “ruralidade”. Em termos genéricos, a autora afirma que essa dinâmica está associada basicamente a dois fenômenos: o aumento das atividades não-agrícolas e a conformação de novas identidades sociais no meio rural, e a crise de reprodução da agricultura de base familiar. Anjos e Caldas (2006) designam a pluriatividade como sendo um tipo de exploração em que os membros da família desempenham inúmeras atividades remuneradas, entre o trabalho agrícola dentro do estabelecimento e o não-agrícola, em setores diversos da economia, de forma a obter os meios necessários para a sua reprodução social e manutenção da unidade de produção. Para Schneider (2003) o fenômeno da pluriatividade está presente pela via das relações com o mercado através de atividades agrícolas e não-agrícolas e não mais somente pela produção, ou seja, se dá pelas relações com o mercado de trabalho. Este autor identifica cinco tipos de atividades pluriativas, reconhecendo que este termo designa um fenômeno social antigo: a intersetorial; a de base agrária; a sazonal ou informal; a paraagrícola; e a tradicional-camponesa. Carneiro (2006), refletindo sobre as atividades pluriativas, conclui que a multifuncionalidade incorpora a noção de pluriatividade se levarmos em conta as múltiplas funções da agricultura para a sociedade e podem se traduzir em atividades exercidas por diferentes membros da família do agricultor e que não estão diretamente associados à produção de alimentos para o mercado. Portanto, conclui a autora que a pluriatividade pode ser então considerada uma dimensão da multifuncionalidade e que ambas são fenômenos recentes concebidos pelas novas configurações das relações campo-cidade e das novas articulações entre agricultura e sociedade. Pois é neste contexto da pluriatividade, da multifuncionalidade e da diversificação de cultivos e criações, que a agricultura familiar busca cada vez mais sua afirmação como grande promotora do desenvolvimento, na geração de renda e na manutenção do homem no campo. 3 CARACTERIZAÇÃO DO TERRITÓRIO ZONA SUL A Zona Sul do Rio Grande do Sul, apresenta peculiaridades quanto ao clima, solo, distribuição fundiária e especialmente as características intrínsecas da população formadora da sociedade Sul-Riograndense, cujos primórdios remonta aos meados do século XVIII. Entre as populações que mais migraram para esta região, foram os portugueses, alemães, italianos e poloneses. Estas etnias formaram núcleos geradores de riquezas e criaram-se colônias que preservam e valorizam suas culturas e relações trazidas com seus antepassados e mantém vivas no seio da família e na comunidade em que vivem. Os sistemas de produção presentes no Território Sul podem ser agrupados em três categorias: sistema pastoril convencional; sistema de lavoura empresarial e sistema de lavoura e pecuária familiar. Ao mesmo tempo em que existem grandes propriedades (áreas acima de 100 ha e que respondem por 12% do total e ocupam 77,6% da área agrícola), há uma predominância de pequenas propriedades que utilizam basicamente mão-de-obra familiar (cerca de 32.500 propriedades, ou 84%, possuem área inferior a 100 ha e ocupam 22,4% da área agrícola), aí incluídos os assentamentos de reforma agrária (IBGE, 2002). 3.1 Aspectos econômicos e sociais da Zona Sul A área geográfica analisada no presente estudo é o pertencente à Zona Sul do Estado do Rio Grande do Sul, que é formado pelo conjunto de 22 municípios que compõem o COREDE-Sul acrescidos de outros três (Aceguá, Candiota e Hulha Negra), os quais se assemelham com os demais quanto aos aspectos socioeconômicos da exploração familiar e por possuírem um grande número de assentamentos da reforma agrária. Estes municípios ocupam uma área de 38.067 km² (13,5 % do Rio Grande do Sul) e contam com a população de 871.733 habitantes, representando 8,2% da população do Estado do RS (IBGE 2007). Os municípios de maior e menor população são Pelotas (339.934hab) e Arroio do Padre (2.734hab) respectivamente. A maior taxa de urbanização é a de Rio Grande (96,85%) e a menor de Arroio do Padre (4,95%). A densidade demográfica do Território é de 22,9 hab/km2, sendo a do Estado de 37,63 hab/km2. A maior densidade demográfica verifica-se em Pelotas (211,3 hab/km2) e a menor em Pedras Altas (1,85hab/km2). A população rural desses municípios vem diminuindo. Em 2007 havia apenas 16% da população no meio rural, totalizando 138.969 habitantes, sendo que três municípios concentraram 47,6% desse total (Canguçu, São Lourenço do Sul e Pelotas). Apesar da redução da população que vive no campo, os dados mostram que a região possui dez municípios com mais de 50% da população ainda no meio rural (Tabela 1). A região possui um dos maiores núcleos de assentamentos do Estado, sendo 117 ao todo com 3.969 famílias, o que corresponde a 40% do total do RS, concentrando-se nos municípos de Candiota e Hulha Negra. (Território 2008). A região tem o eixo de desenvolvimento econômico polarizado pelos municípios de Pelotas/Rio Grande, cercado pela economia de pequena escala (familiar, agroindústrias, comércio e prestação de serviços) dos demais municípios. A diversificação da atividade agropecuária é um dos aspectos fortes dessa região presente na pequena propriedade, proporcionando uma ocupação da mão-de-obra durante o ano inteiro. Isto fez com que surgissem diversas agroindústrias familiares no meio rural, empresas prestadoras de serviços, empregos sazonais e temporários, proporcionando um aumento e melhor distribuição da renda, viabilizando a manutenção de muitas famílias de agricultores no campo associada a uma melhor qualidade de vida. Os municípios que fazem parte desta região constam na Tabela 1 e suas localizações geográficas podem ser vistas na Fig. 1. Tabela 1 – Municípios do Território Zona Sul, população total, urbana e rural e taxa de população urbana e rural do ano 2007. Municípios Aceguá Amaral Ferrador Arroio do Padre Arroio Grande Candiota Canguçu Capão do Leão Cerrito Chuí Cristal Herval Hulha Negra Jaguarão Morro Redondo Pedras Altas Pedro Osório Pelotas Pinheiro Machado População Participação (%) Área Densidade Total Urbana Rural Urbana Rural km² Hab/km² 4.130 1.123 3.007 27,19 72,81 1.549,5 2,67 6.254 1.477 4.777 23,61 76,39 506,5 12,35 2.734 135 2.599 4,95 95,05 124,3 22,00 18.358 15.623 2.735 85,10 14,90 2.158,5 8,50 8.236 3.149 5.087 38,23 61,77 933,8 8,82 53.553 21.298 32.255 39,77 60,23 3.525,1 15,19 23.605 21.698 1.907 91,92 8,08 785,4 30,05 6.629 4.165 2.464 62,83 37,17 451,9 14,67 5.278 5.025 253 95,20 4,80 203,2 25,97 7.044 4.641 2.403 65,88 34,12 681,6 10,33 6.873 4.738 2.135 68,94 31,06 1.758,4 3,91 6.028 3.065 2.963 50,84 49,16 822,9 7,33 27.944 25.748 2.196 92,14 7,86 2.054,4 13,60 6.199 2.561 3.638 41,31 58,69 244,6 25,34 2.546 883 1.663 34,67 65,33 1.376,7 1,85 8.039 7.382 657 91,83 8,17 603,9 13,31 339.934 323.209 16.725 95,08 4,92 1.608,8 211,30 12.939 9.612 3.327 74,29 25,71 2.227,9 5,81 Piratini Rio Grande Santa Vitória do Palmar Santana da Boa Vista São José do Norte São Lourenço do Sul Turuçu Total 20.225 194.351 31.180 8.599 24.905 42.321 3.829 871.733 11.423 8.802 188.229 6.122 27.064 4.116 4.302 4.297 19.179 5.726 25.126 17.195 1.911 1.918 732.764 138.969 56,48 96,85 86,80 50,03 77,01 59,37 49,90 84,06 43,52 3,15 13,20 49,97 22,99 40,63 50,10 15,94 3.561,5 2.813,9 5.244,2 1.420,6 1.117,9 2.036,1 254,9 38.067 5,68 69,07 5,95 6,05 22,28 20,79 15,02 22,90 Fonte: ITEPA 2008/IBGE 2007. Figura 1 – Localização espacial do Estado do Rio Grande do Sul, e municípios integrantes do Território Zona Sul.(Território, 2008). Com relação aos aspectos econômicos da região, os dados do censo agropecuário de 2006, apresentados na Tabela 2, demonstram que a região possui uma atividade agropecuária bem diversificada, o que permite analisar que há uma interação entre lavoura e pecuária muito intensa nesta região. Wanderley (2001) afirma que o sistema de policultivo-pecuária, é uma sábia combinação entre diferentes técnicas e foi uma das heranças trazidas pelos camponeses, perfeitamente integrada aos sistemas atuais da agricultura familiar, pois gera estabilidade, diminui riscos e aumenta a diversidade produtiva. Conforme dados da Tabela 2, há um contingente de 82,2% dos estabelecimentos com cultivo de pastagem e 75% com atividades agrícolas. Outros números que chamam a atenção são os estabelecimentos com atividades de origem animal como as criações de aves (67,1%), suínos (46,1%) e bovinos de leite (42,7%). Estas atividades são típicas da agricultura familiar que procuram de alguma forma produzir alimentos para suas necessidades básicas e também para o mercado como forma de geração de renda e formação de capital. Neste aspecto, cabe destacar a criação de suínos, pois como não há um sistema de produção integrada na região, e que não se caracteriza como um pólo de produção, pode-se concluir que o agricultor cria para suprir a alimentação da família, realizar trocas, bem como a venda, aproveitando alimentos produzidos no próprio estabelecimento. No caso específico do leite, há um universo de mais de 16.500 famílias que informaram desenvolver esta atividade. Os dados confirmam a grande importância desta região como uma das bacias leiteiras mais expressivas do estado. Tabela 2 – Informações econômicas das atividades agropecuária do Território Zona Sul do Rio Grande do Sul, ano 2006. Descrição do item Número de estabelecimentos agropecuários Área dos estabelecimentos agropecuários Número de estabelecimentos com lavouras permanentes Área de lavouras permanentes Número de estabelecimentos com lavouras temporárias Área de lavouras temporárias Número de estabelecimentos com pastagens naturais Área de pastagens naturais Número de estabelecimentos com matas e florestas Área de Matas e florestas Total de pessoal ocupado com laço de parentesco com o produtor Total de pessoal ocupado sem laço de parentesco com o produtor Número de estabelecimentos agropecuários com tratores Número de tratores existentes nos estabelecimentos agropecuários Número de estabelecimentos com bovinos Número de cabeças de bovinos Número de estabelecimentos com bubalinos Número de cabeças de bubalinos Número de estabelecimentos com caprinos Número de cabeças de caprinos Número de estabelecimentos com ovinos Número de cabeças de ovinos Número de estabelecimentos com suínos Número de cabeças de suínos Número de estabelecimentos com aves Número de cabeças de aves Número de estabelecimentos com produção de leite de vaca Produção de leite de vaca Número de estabelecimentos com produção de leite de cabra Produção de leite de cabra Número de estabelecimentos com produção de lã Produção de lã Número de estabelecimentos com produção de ovos de galinha Produção de ovos de galinha Fonte: Censo agropecuário do IBGE 2006. 3.2 Estruturas organizacionais do Território Total Território 38.718 2.493.189 7.107 36.561 29.042 477.875 31.833 1.534.628 24.188 314.842 95.528 15.635 10.785 14.292 31.608 1.592.857 76 8.221 1.230 17.273 7.408 723.404 17.859 127.088 25.979 2.106.685 16.548 247.505 14 4 6.352 2.251 20.025 3.972 Unidades Estabelecimentos Hectares Estabelecimentos Hectares Estabelecimentos Hectares Estabelecimentos Hectares Estabelecimentos Hectares Pessoas Pessoas Estabelecimentos Tratores Estabelecimentos Cabeças Estabelecimentos Cabeças Estabelecimentos Cabeças Estabelecimentos Cabeças Estabelecimentos Cabeças Estabelecimentos Cabeças Estabelecimentos Mil litros Estabelecimentos Mil litros Estabelecimentos Tonelada Estabelecimentos Mil dúzias O Território Sul do RS possui uma significativa representatividade de organizações sociais formais e informais das populações e dos setores produtivos; os conselhos, comissões ou comitês formalizados e as organizações associativas. Há uma quantidade expressiva de cooperativas, associações de agricultores e assentados de reforma agrária e ONG´s, como o Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor – CAPA, atuando na região desde 1982 em benefício dos agricultores familiares na busca do desenvolvimento rural sustentável por meio da produção agroecológica. Estas forças são consideradas o grande capital social do território. Além disso, as prefeituras municipais, através das Secretarias de Desenvolvimento Rural, desenvolvem trabalhos na área rural com agricultura, meio ambiente e pesca. Além dessas organizações, destacam-se as instituições de ensino, pesquisa e extensão rural como o Centro de Pesquisa da Embrapa Clima Temperado; a Fepagro-Sul, órgão de pesquisa estadual, localizada no município de Rio Grande; as Universidades (UFPel, UCPel, FURG) e da Emater/RS-Ascar, órgão de assistência técnica oficial e extensão rural. Quanto ao órgão de assistência técnica oficial, a Emater/RS-Ascar, este está presente em 24 municípios dos 25 que compõem o Território. Além dos escritórios municipais, possui um escritório regional e um Centro de Treinamento em Canguçu. Segundo informações da Emater/RS, os beneficiários das ações sociais em 2007 ultrapassaram as 30mil pessoas distribuídas em 386 comunidades rurais com predomínio da agricultura familiar. Há também a presença do Conselho Regional e Desenvolvimento COREDE-Sul , Fórum Mesosul, um Fórum de Desenvolvimento Integrado e Sustentável da Mesorregião da Metade Sul do RS, os Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural Sustentável e o Fórum de Agricultura Familiar. Exemplo deste trabalho coletivo é realizado através da Cooperativa Mista dos Pequenos Agricultores da região Sul Ltda - Coopar de São Lourenço do Sul, que congrega 2.050 associados, localizados em cinco municípios da região, produzindo leite, grãos, batata e outros produtos. O município de São Lourenço do Sul foi colonizado pelos povos vindos da Pomerânia, os quais trouxeram muitas tradições (agrícolas e agroindústrias), hábitos e costumes que foram dando origem a localidade. Entre os conhecimentos e habilidades trouxeram a experiência de cultivar a terra, o plantio da batata, a produção e seus derivados, tornando-se década de 80 o maior produtor de batatas do Brasil. Muitos costumes ainda são preservados até hoje e para marcar ainda mais esta presença foi criado recentemente uma rota turística conhecida como “Caminho Pomerano”1. A União das Associações Comunitárias do Interior de Canguçu – Unaic, também é uma importante entidade voltada para o fortalecimento das representações das organizações dos agricultores. Tem como objetivo congregar, organizar, representar as associações comunitárias e buscar alternativas sustentáveis para os agricultores familiares da região. Por meio do resgate de sementes crioulas (basicamente feijão e milho), busca valorizar, respeitar e dar credibilidade para a agricultura familiar organizada (SANTOS, 2006). Possui uma atuação regional extrapolando as ações territoriais, pois está presente em cerca de 30 municípios da região. Atualmente congrega 45 associações com cerca de mil famílias de agricultores familiares, assistindo diretamente mais de cinco mil pessoas. 3.2.1 Organização sindical dos trabalhadores rurais A FETAG/RS e CONTAG a nível de federação e confederação respectivamente, apóiam todas as ações desenvolvidas pelos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais como 1 O Caminho Pomerano é um roteiro de turismo rural do município de São Lourenço do Sul , que busca o resgate da história, hábitos e costumes dos imigrantes pomeranos. São visitados agroindústrias, artesanatos típicos, produtos agroecológicos e da agricultura familiar, cafés coloniais, grupos folclóricos típicos da colonização alemã. representação nos municípios, atende diretamente os trabalhadores rurais na busca de soluções aos seus principais anseios e necessidades. Neste sentido, buscam orientar questões relacionadas aos benefícios como a saúde, aposentadorias, atua nas questões agrárias, habitacionais, organizam mobilizações e levam as reivindicações aos órgãos competentes. Executam também outras ações como apoio ao fomento agrícola através da venda de insumos e sementes há um custo mais baixo, o repasse de sementes no processo de troca-troca. Enfim, com suas atuações procuram de todas as formas trazer melhorias e benefícios ao homem e à mulher rural. O município de Pelotas sedia uma das 23 regionais do estado e conta com cerca de cinco mil filiados nos cinco municípios da região. O município de Canguçu possui um dos maiores sindicatos de trabalhadores rurais com mais de dez mil filiados, beneficiando diretamente em torno de quarenta mil pessoas. A força deste sindicato pode ser realçada por alguns números como: o sistema troca-troca repassou em 2008, cerca de 220 toneladas de milho para mais de cinco mil famílias. O município de São Lourenço do Sul, a exemplo de Pelotas e Canguçu, também tem sindicatos com atuação forte, contando com cerca de quatro mil e quinhentos associados. Estes três sindicatos representam a maior força sindical na região, conforme pode ser visto na Tabela 3. Tabela 3 – Número de associados e famílias beneficiadas dos três principais Sindicatos dos Trabalhadores Rurais – STR da Zona Sul, situação em dezembro de 2008. Sindicatos STR de Pelotas STR de Canguçu STR de São Lourenço do Sul Nº de associados Nº de beneficiários 5.000 15.000 10.000 40.000 4.500 18.000 Total 19.500 Fonte: Informações dos Sindicatos dezembro 2008 e elaborado pelo autor 3.2.2 73.000 Políticas de crédito rural Destacamos a atuação das cooperativas de crédito como o SICREDI Zona Sul, que possui 11 agências bancárias em oito municípios da região, sendo que Pelotas possui quatro e conta com quase trinta mil associados, sendo que a maioria deles é de agricultores familiares. A CRESOL, com sede na localidade de Boa Vista, interior de São Lourenço do Sul, possui seis postos de atendimento com cerca de quatro mil associados e visa fortalecer e estimular a interação solidária entre os agricultores familiares e suas organizações através do crédito, visando o desenvolvimento local sustentável. A CREHNOR com sede em Canguçu também tem atuação relevante na região, pois é uma cooperativa de crédito que atende as necessidades dos assentados da reforma agrária. Estes sistemas de crédito cooperativo e solidário têm apoiado de forma intensa os pequenos e médios agricultores familiares, assentados de reforma agrária de forma individual ou em grupos, através de suas linhas de créditos especiais, beneficiando milhares de agricultores e viabilizando as pequenas propriedades na geração de emprego e renda, bem como no desenvolvimento local e regional. A atuação do Banco do Brasil através da Carteira Agrícola, também tem sido um parceiro dos agricultores familiares viabilizando a liberação dos recursos do PRONAF em todos os municípios da região. 3.2.3 Programa de Aquisição de Alimentos - PAA O Programa de Aquisição de Alimentos – PAA, criado em 2003 pelo Governo Federal como política de articulação entre produção, comercialização e consumo tem por objetivo incentivar a agricultura familiar por meio da aquisição de produtos agropecuários destinados a pessoas em situação de insegurança alimentar e a formação de estoques estratégicos. O PAA adquire produtos dos agricultores familiares que se enquadrem nas regras de políticas do PRONAF. O limite atual de compra da produção é de R$ 3.500,00 por ano/agricultor. Este limite está sendo ampliado para R$ 8.000,00 a partir de 2009. O PAA proporciona acesso a uma alimentação diversificada para uma população em insegurança alimentar e nutricional, valorizando a produção e a cultura alimentar das populações dinamizando a economia local, com repercussões sobre a auto-estima tanto de fornecedores quanto de consumidores. Na Tabela 4 pode-se visualizar os valores operados pelo programa na região desde seu início e as entidades beneficiadas. O PAA é administrado pelo Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor – CAPA de Pelotas que tem a responsabilidade administrativa e técnica sobre os processos de produção, comercialização e doação dos produtos da agricultura familiar. Tabela 4 – Valores comercializados pelo Programa de Aquisição de Alimentos na Zona Sul por entidade parceira durante os anos de 2004/2005, 2005/2006 e 2007/2008. Entidades Ano 2004/05 Ano 2005/06 Ano 2007/08 Valores(R$) Valores(R$) Valores(R$) Coopar - São Lourenço do Sul 434.610,00 722.284,40 32.244,00 Unaic - Canguçu 231.936,00 306.632,80 507.730,00 Coop. Sul Ecológica - Pelotas 806.200,00 637.356,52 606.482,00 Coop. Arpa-Sul - Pelotas 26.754,06 100.409,00 80.000,00 Coop. Lagoa Viva - Pelotas 84.000,00 522.476,52 488.755,00 140.000,00 163.421,10 - 131.568,00 - Coopal - Canguçu Coop. Sul Leite - S.Vitória do Palmar Produtores via Emater - Pelotas Totais 74.500,00 1.798.000,06 2.584.148,34 2.515.211,00 Modalidade "Formação de estoque" - - - Coopar - São Lourenço do Sul - - 1.300.000,00 Unaic - Canguçu - - 250.000,00 Totais - - 1.550.000,00 Fonte: CAPA de Pelotas, elaboração do autor, através de dados obtidos junto a CAPA. Além dos valores expressos na Tabela 4, os recursos beneficiaram um contingente de 110 entidades organizadas de agricultores, com a participação de aproximadamente 1.600 famílias distribuídas em doze municípios da região. Como é um programa de compra com doação simultânea, foram feitas doações para 87 comunidades beneficiando cerca de 3.700 famílias carentes que além de receberem um alimento de qualidade, sentem-se integradas ao convívio social. 3.3 Aspectos econômicos de algumas atividades do Território 3.3.1 Desenvolvimento da pecuária leiteira A pecuária leiteira é um setor produtivo de grande relevância para a economia do Território Sul, fazendo com que surgissem várias micro-usinas, pequenas cooperativas e associações de agricultores com o objetivo de viabilizar a produção leiteira dos agricultores familiares e assentamentos. Neste sentido várias organizações e entidades fomentaram a produção de leite à base de pastagens no sistema rotativo de pastejo e o apoio na organização interna da atividade. Citando algumas das organizações que se sobressaem no setor produtivo do leite, destacam-se a Cooperativa Regional dos Assentados de Hulha Negra e Candiota Cooperal com sede no município de Hulha Negra que conta com 1.785 associados, dos quais 626 produzem leite beneficiando diretamente 50 assentamentos dos municípios de Aceguá, Candiota e Hulha Negra; a Cooperativa de Produção Agropecuária Vista Alegre Ltda – Coopava, localizada no município de Piratini, é uma cooperativa onde os agricultores se organizaram e instalaram uma micro-usina, a qual abastece os mercados locais; a Cooperativa Terra Nova de Canguçu viabiliza a produção leiteira de 12 assentamentos e 180 famílias; a Cooperativa dos Pequenos Agricultores Produtores de Leite da região Sul – Coopal, também de Canguçu recebe a produção de 650 agricultores; a Coopar de São Lourenço do Sul está em fase final de instalação de uma micro-usina e possui no seu quadro de associados cerca de 600 famílias produtoras de leite. Há também micro-usinas de caráter familiar, que absorvem a produção de várias famílias. Na Tabela 5 pode-se observar o grande número de associados dessas cooperativas. Tabela 5 – Relação das cooperativas e micro-usinas de leite instaladas na Zona Sul do RS com o número de famílias associadas e o município de localização em novembro de 2008. Nº de Produção Formas de Região de atuação famílias l/dia comercialização Cosulati 2.801 188.700 30 municípios da região Sul Industrialização própria Perdigão SA 760 125.000 São Lourenço e outros Industrialização própria Recolhem e entregam na 55.000 São Lourenço e outros Coopar 590 Cosulati Parte industrializa e parte a Coopal 650 13.500 Canguçu Coopar entrega p/Cosulati 50 assentamentos de Recolhem o leite posto local Cooperal 626 26.700 Hulha Negra e Candiota e repassam para a Cosulati 17.000 Santa Vitória do Palmar Industrialização terceirizada Coop. Sul Leite 74 Coop. de leite 12 Assentamentos de Cosulati e embalam com a 180 3.170 Terra Nova Canguçu marca da Coop. Terra Nova Coopava 17 Assentamento de Piratini Micro usina própria marca Processa o leite com a marca Micro usina Leite 30 2.200 Interior de São Lourenço da Fazenda Leite da Fazenda Micro usina Santa Processa o leite com marca Silvana 35 2.800 Interior de Pelotas própria Micro usina Processa o leite com marca Laticínio Santana 1 350 Interior de Cerrito própria Total 5.769 438.920 Fonte: Informação dos estabelecimentos (dados de nov./2008) elaborados pelo autor Cooperativa Além dessas iniciativas mais de cunho social, há também na região grandes indústrias leiteiras como a Cooperativa Sul-Riograndense de Laticínios Ltda – Cosulati, que atua em 38 municípios da Região Sul e Fronteira Oeste e a Perdigão, com sua fábrica localizada em São Lourenço do Sul e atuação na região Sul. A Cosulati possui no seu quadro social 3.460 cooperados que desenvolvem atividade leiteira, avicultura e grãos. Além do quadro social, possui parceria com nove cooperativas e quatro associações de agricultores totalizando mais de 5.500 beneficiários diretamente. O quadro atual de produtores de leite por estrato de produção pode ser visto na Tabela 6. Este quadro reflete bem a participação da agricultura familiar na atividade dos quais 84,6% produzem menos de 100 l/dia. A Cosulati, além da atividade leiteira, possui um grupo de agricultores produzindo aves de forma integrada. Tem na criação de frangos de corte um contingente de 105 agricultores integrados, gerando renda e promovendo o desenvolvimento regional. Segundo o Superintendente da Cooperativa, a meta da Cosulati para os próximos anos é ampliar o número de criadores e melhorar de forma sistemática a cadeia produtiva do frango. Tabela 6 – Escala dos produtores de leite da Cosulati por faixa de produção, número de agricultores e participação por extratos. Referência mês de novembro/2008. Nº de Estratificação Participação litros/dia agricultores por estrato (%) 1a5 104 3,7 6 a 10 229 8,2 11 a 20 512 18,3 21 a 30 398 14,2 11,5 31 a 40 322 41 a 50 253 9,0 51 a 60 157 5,6 5,2 61 a 70 146 Total Fonte: Departamento técnico da Cosulati Nº de Estratificação Participação litros/dia agricultores por estrato (%) 71 a 80 108 3,9 81 a 90 82 2,9 91 a 100 60 2,1 101 a 150 196 7,0 151 a 200 79 2,8 201 a 300 80 2,9 301 a 400 29 1,0 acima de 400 46 1,6 2.801 100,0 3.3.2 Desenvolvimento do pólo de fruticultura e olericultura A região também se tornou um pólo de produção de frutas e hortaliças de clima temperado, tendo no cultivo do pessegueiro sua principal atividade. O desenvolvimento da fruticultura na região remonta à década de 1930 quando, em 1938 foi criada a primeira Estação Experimental de Viticultura, Enologia e Frutas de Clima Temperado na localidade da Cascata em Pelotas. A produção de pêssego foi a que mais se desenvolveu a partir da década de 1970, e junto com ela o surgimento de muitas agroindústrias aproveitando os incentivos fiscais do Governo Federal para o reflorestamento, chegando a ter na região mais de 50 indústrias processadoras da polpa da fruta. A região conta atualmente com mais de duas mil famílias envolvidas na produção de cerca de 8.000 hectares. No caso específico do pêssego, a geração de renda não se limita apenas à unidade familiar e sim aos trabalhadores temporários que prestam serviços nos pomares e nas indústrias, os quais, em grande parte são oriundos do meio rural. Há também um pólo de produção de hortaliças, onde há uma organização em torno de pequenas associações e cooperativas no sentido de incrementar o processo de produção e comercialização sejam por meio das feiras-livres, vendas diretas ou por intermediários. Segundo Anjos, Godoy e Caldas (2005, p.19), em pesquisa realizada junto às feiras do município de Pelotas: As feiras-livres consistem num sistema local de comercialização muito particular, representando o limite difuso entre o rural e o urbano, fim da fase produtiva e início da fase de consumo, bem como um espaço social detentor de atributos peculiares que, presumivelmente, assegurem sua persistência na sociedade contemporânea. A produção de cebola também é uma atividade de grande importância para a região principalmente para o município de São José do Norte, a qual tem na produção de 2.200 hectares a geração de renda para cerca de 1.500 agricultores. Neste município é a principal atividade econômica de origem agropecuária e que foi trazida pelos colonizadores Açorianos e Africanos e juntos trouxeram hábitos e costumes mantidos até hoje envolvendo práticas de cultivo e processamento da cebola. A cadeia produtiva da cebola envolve um contingente de mais de três mil famílias em todas as fases do processo de produção e comercialização. Os agricultores estão organizados por meio da Cooperativa dos Agricultores Familiares Nortense – COOAFAN, que reúne, atualmente, 50 associados e mais 300 em parceria. Esta cooperativa auxilia os agricultores em todas as fases da produção e comercialização da cebola. De qualquer modo, são estas formas de organização partindo das iniciativas dos agricultores familiares, que viabilizam as unidades de produção agrícola no desenvolvimento das atividades agropecuárias, valorizando e agregando valor ao seu produto. 3.3.3 Desenvolvimento da produção de grãos Destacam-se, na região de estudo, o cultivo do feijão, o milho, arroz, soja, forrageiras. No caso do feijão, a região produz mais de 12.000 hectares, com grande destaque nos municípios de Canguçu e Santana da Boa Vista tipicamente de agricultura familiar, que juntos são responsáveis por cerca de 60% da produção e do VBP em relação à região. A produção do milho, segundo dados do Censo Agropecuário 2006 do IBGE, está presente nos 25 municípios do Território, os quais cultivam mais de 60.000 hectares, produzindo aproximadamente 200.000 toneladas. O milho representa não só uma atividade de renda, mas principalmente a possibilidade de transformação interna na propriedade para múltiplos usos e é fundamental como insumo energético na constituição de rações para criações de suínos, aves e gado leiteiro. A produção de arroz e soja é desenvolvida na maioria das áreas sob o regime patronal, mas também se registra um número muito expressivo de agricultores familiares estruturados desenvolvendo estas atividades. 3.3.4 Desenvolvimento da fumicultura A produção de fumo na região Sul é uma atividade de muita expressão econômica para a agricultura familiar, pois segundo Buanain et.al (2000), esta atividade, que é desenvolvida totalmente por agricultores familiares, detentores de propriedades de reduzidas dimensões, ocupa muita mão-de-obra, é pouco diversificada e investe capital elevado. Apesar dessas características, há um contingente muito grande de agricultores cultivando fumo conforme pode ser observado na Tabela 7. A região tem aproximadamente doze mil famílias que dependem da renda obtida com a venda do fumo. Observa-se que os municípios de Canguçu e São Lourenço do Sul concentram 64,2% dos agricultores, dado este preocupante uma vez que outras culturas deixaram de ser produzidas para dar lugar ao fumo. Tabela 7 – Dados de produção, número de produtores, estufas, área, produtividade e VBP de fumo por município da Zona Sul da safra 2007. Municípios Canguçú São Lourenço do Sul Pelotas Amaral Ferrador Arroio do Padre Cristal Turuçú Piratiní Morro Redondo Produtores 4.385 3.315 1.832 957 527 377 373 94 63 Estufas 5.478 4.475 2.389 1.258 704 684 506 105 69 Área Produt. Produção(t) (ha) (kg/ha) 8.041 17.604 2.189 6.967 15.386 2.209 3.781 8.289 2.193 1.861 4.053 2.178 1.121 2.481 2.213 924 1.991 2.155 864 1.912 2.214 148 327 2.206 120 260 2.161 VBP (R$) 95.061.600,00 83.083.860,00 44.761.680,00 21.885.660,00 13.398.480,00 10.750.320,00 10.326.960,00 1.767.960,00 1.404.000,00 Cerrito São José do Norte Capão do Leão Rio Grande Arroio Grande Pinheiro Machado Candiota Aceguá Herval Hulha Negra Santana da Boa Vista Totais Fonte: Afubra 2007. 26 9 8 8 6 3 2 1 1 1 1 11.989 33 9 9 9 5 3 3 1 2 1 1 15.744 56 10 17 12 8 5 5 2 2 1 2 23.945 121 21 37 27 18 11 10 4 5 2 4 52.564 2.178 655.020,00 2.078 115.560,00 2.211 198.180,00 2.208 143.100,00 2.207 97.740,00 2.208 57.240,00 2.217 55.080,00 2.222 21.600,00 2.190 24.840,00 2.182 12.960,00 2.222 21.600,00 43.841 283.843.440,00 Muitas outras atividades poderiam ser citadas e que representam importantes segmentos para a economia da região como geradoras de crescimento e desenvolvimento rural, porém optou-se por destacar aquelas de maior expressão econômica e de cunho social desenvolvidas pela agricultura familiar. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS A agricultura familiar no Rio Grande do Sul e especialmente na região Sul passou por profundas transformações sociais, econômicas e produtivas desde os anos 1960/70. Essas transformações mudaram consideravelmente o modo de vida e as estratégias de reprodução social de muitas famílias de agricultores familiares. Antes havia a preocupação maior de produzir para o autoconsumo, a subsistência familiar, enquanto que hoje o foco é produzir pensando nas estratégias de reprodução social, no mercado consumidor, estreitando cada vez mais as relações entre o campo e a cidade. As informações contidas neste trabalho nos dão uma pequena mostra da dinâmica de funcionamento da agricultura familiar e das potencialidades desta região. Como bem demonstram os dados, nossa região possuiu uma diversidade agropecuária intensa, fruto da sua origem colonial. É desta forma que se destacam as atividades da pecuária leiteira, fruticultura, horticultura, grãos e no fortalecimento das pequenas agroindústrias familiares. Há também o cultivo do fumo que apesar de não ser um alimento, representa a garantia de sobrevivência para milhares de famílias de agricultores. Poderiam ser citadas muitas outras iniciativas dos agricultores e suas organizações, que de forma associativa e organizada, buscam alternativas para viabilizar a unidade de produção familiar seja no aspecto econômico, social e ambiental. Exemplos destas formas de comercialização citamos o Programa de Aquisição de Alimentos - PAA que adquire produtos da agricultura familiar priorizando a produção agroecológica e realiza doação simultânea a várias entidades assistenciais da região, beneficiado não só os agricultores, mas também quem recebe. Concluindo, pode-se afirmar que a agricultura familiar desempenha uma importância cada vez maior no cenário nacional como produtora de alimentos em quantidade e qualidade necessários à população brasileira. É uma grande promotora e geradora de desenvolvimento local e regional, bem como suas ações estão voltadas para a manutenção e reprodução da família no campo, na preservação dos recursos naturais, da biodiversidade e da promoção do desenvolvimento rural sustentável. 5 REFERÊNCIAS ABRAMOVAY, R. Gazeta Mercantil, São Paulo, 15 abr. 2001. p.A3. Ruralidade e desenvolvimento territorial. Disponível em: http://gipaf.cnptia.embrapa.br/publicações/artigos-e-trabalhos/gzm014rurterr2.pdf. Acesso em 05 jan. 2009 ANJOS, F.S.dos; CALDAS, N.V. Pluriatividade e sucessão hereditária na agricultura familiar. In: SCHNEIDER, S. (Org.). A Diversidade da Agricultura Familiar. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2006. p.186-212. ANJOS, F.S.dos; GODOY, W.I.; CALDAS, N.V. As Feiras-livres de Pelotas sob o império da globalização: perspectivas e tendências. Pelotas, Editora e Gráfica Universitária, 2005, 195p. BUAINAIN, A. M. Agricultura familiar, agroecologia e desenvolvimento sustentável: questões para debate. 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