Sem título, 22 Jan, 1986 • Acrílico sobre tela • 187,3 x 187,3 • © The Estate of Keith Haring
Nº2 da Série Apocalipse, 1988 • Serigrafia • 96,5 x 96,5 cm • © The Estate of Keith Haring
Nº7 da Série Apocalipse, 1988 • Serigrafia • 96,5 x 96,5 cm • © The Estate of Keith Haring
Como Pan para a boca
ou as histórias do flautista
de East Village
No dia em que Pan, Deus do Pânico, foi dado como morto, entrava igualmente em letargia o estado de consciência desperta de que
tudo vive e se significa. Flautista então neutralizado, domesticado
e encarcerado numa silenciadora cadeia de controlo, mantinha a
vigília suspensa em momentos de ruptura com o real, aguardando
o correr da cortina na boca de cena, para que o espectáculo pudesse seguir o seu curso.
Oito anos após a sua participação na “Planet Earth
Conference”, organizada em 1980 pelo Institute of Ecotechnics,
em Aix-en-Provence, o escritor William S. Burroughs é convidado a colaborar com Keith Haring num outro projecto onde as
suas ideias são não apenas aprofundadas como magistralmente
potenciadas pelas imagens do artista.
Antes integrado num painel de oradores composto na sua
maioria por cientistas que tinham em vista o debate sobre os
avanços das tecnologias e sua harmonização com a bioesfera, a
reflexão de Burroughs desenrolava-se a partir do tradicional tema
dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, distanciando-se do lastro
moralizador que lhe esteve na origem. Analisadas sob o espectro
de uma fusão enquanto criações (e falhas) humanas, frutos não de
vicissitudes exteriores ou de contingências de sobrevivência das
espécies ou, a ser tudo isto, ampliadas (e subvertidas) pela indómita vontade do homem em tudo controlar (com a excepção do
seu próprio instinto), a Fome, a Peste, a Guerra e a Morte revisitadas agora no contexto de uma contemporaneidade marcada por
experiências ao nível da manipulação genética e criação de novas
viroses, pela capacidade do homem de não apenas se recriar, mas
selectivamente se destruir e reconstruir, surgiam no discurso do
escritor de forma a consubstanciar a teoria de que a evolução do
Homem se mantém ainda hoje em aberto, sendo este apenas uma
peça mais numa longa cadeia de transformação, num processo em
curso, um ser intermédio ou larvar não concebido biologicamente
para permanecer estacionário no mesmo estado.
Em Apocalypse, o texto escrito para Haring, Burroughs levou
mais longe as suas concepções com a apresentação de um breve
manifesto que sob a futurização do caos intentava o estabelecimento de uma nova ordem, sendo as manifestações artísticas a
única visão possível dessa des-ordem, um estado de alerta denunciador da presença do silenciado Deus Pan. E onde as imagens
de destruição se sucedem, surge avassaladora a presença de uma
força, de uma energia vital na sua máxima potência. Nas suas
palavras, “The final Apocalypse is when every man sees what he
sees, feels what he feels, and hears what he hears. The creatures of all your dreams and nightmares are right here, right now,
solid as they ever were or ever will be, electric vitality of careening
subways faster faster faster stations flash by in a blur”.
Num conjunto de dez serigrafias que funcionam não como
ilustrações do escrito mas como um outro campo de reflexão
aberto sobre o mundo actual, Haring compõe um políptico perturbante. Utiliza ícones da cultura popular e erudita, atravessa o
passado no presente e coloca sob as luzes da ribalta um futuro de
contornos incertos que visualmente fixa uma das mais importantes referências no texto de Burroughs, a de que «Nothing is true,
everything is permited».
Liberto assim de modelos ou paradigmas, único caminho possível de ruptura com a realidade, mas profundamente atento aos
seus sinais, funcionando como um grande radar escrutinador da
história, o trabalho artístico de Haring surge em Apocalypse com o
mesmo fulgor experimental com que os cut-up’s haviam surgido na
literatura de Burroughs. Prática iniciada pelo escritor juntamente
com Brion Gysin, ambos baseavam a sua intervenção no corte e
re-arranjo de palavras (e sons), de forma a permitir o surgimento
de novas conexões entre elas, permitindo a descoberta de novas
ideias a partir desse caos instaurado.
Numa visão também ela caótica do universo de Haring desfilam seres híbridos, metamorfoseados, num grande bestiário
contemporâneo que à memória traz as composições de Pieter
Brueghel ou Hieronymus Bosch. Reflexos de outros contextos,
sintomas dos novos paradoxos, medos e temores surgem em
figuras de conotação sexual expressa, criaturas vergadas ao peso
de televisões, à imagem de Atlas com a Terra às costas, anjos e
demónios, chávenas de café e Santos Graal numa sociedade que
se revê, em transe, submetida a uma panóplia de próteses que lhe
amplifica ou tolhe a acção (e o pensamento).
Se o Apocalipse de Burroughs advém da consciência (dos
abusos) de um poder institucionalizado e da consequente necessidade em corroer-lhe a sua natureza ilusória, a intervenção de
Haring concentra toda a memória de um percurso feito à margem
dos circuitos artísticos e posteriormente neles integrado a tentativa de subversão de um sistema.
Depois de uma infância passada na Pensilvânia, em Kutztown
e de um período de formação no Pittsburgh Arts and Craft
Center, onde realiza a sua primeira exposição individual e a singularidade do seu trabalho começa a ser reconhecida por professores e colegas, chega a Nova Iorque no final da década de setenta.
Inscreve-se na School of Visual Arts e absorve nas ruas da cidade,
em particular na vida artística de East Village, a energia necessária
ao seu trabalho.
Sensível à presença de uma ampla comunidade multicultural
urbana, aos seus ritmos, vocabulários e particularidades, aos movimentos de rua emergentes que tinham no hip-hop, na breakdance
e nos graffiti as suas principais manifestações, à resistência da cena
musical punk-rock, partilha com toda uma nova geração de artistas
(como Jenny Holzer, Barbara Kruger, Ann Magnuson, Kenny
Sharf ou Jean-Michel Basquiat) a vida cultural que ele próprio
ajuda a dinamizar, com intervenções em bares como o Paradise
Garage e o Club 57.
Com um percurso feito à margem dos circuitos comerciais
instituídos, elegendo os túneis de metropolitano e as ruas como o
Sem título, 1980 • Tinta sumi sobre papel • 50,8 x 66 cm • © The Estate of Keith Haring
Sem título, 1980 • Tinta sumi sobre papel • 43,8 x 58,4 cm • © The Estate of Keith Haring
seu principal alvo de intervenção, elabora um discurso visual impressivo capaz de interpelar qualquer tipo de público. Desenhadas
inicialmente sobre painéis publicitários no metro, revivificadas
pelo estímulo de um tempo voraz na intentada fuga à punição e à
transmissão rápida de uma mensagem, as suas imagens funcionavam como grande escaparate do mundo que subvertendo as leis
do marketing ampliava e comentava as notícias que iam pautando
os dias. Como flautista seduzindo e provocando plateias de ratinhos alienados no seu quotidiano, Haring fazia nascer a cada
paragem palavras de ordem e críticas contra a política americana,
definindo um vocabulário pessoal de extrema eficácia que se fundamentava também na experiência e no contacto directo com o
observador.
Possuidor de uma linguagem gráfica de leitura rápida, mas
capaz de se disseminar numa teia polissémica de significados, cria
um complexo código visual que se reformula e acrescenta a cada
intervenção, tanto no graffiti (que abandona em 1986), como no
desenho, na pintura, na gravura, ou nas monumentais esculturas e
painéis murais. Dele fazem parte figuras tão emblemáticas como
o bebé que gatinha, a mulher grávida, o cão que ladra, os ovnis, os
anjos alados, os ratos Mickey ou os homens de enormes falos que
livremente exprimiam a sua sexualidade que podem ser observados na presente mostra.
Ao longo da sua breve carreira, Haring combina um eclético
conjunto de influências na formulação do seu próprio discurso
que lhe chegam através da arte pré-colombiana e norte-americana, do mundo onírico e satírico dos desenhos animados e das
bandas desenhadas, do universo fantástico da literatura e cinema
de ficção científica ou de artistas como Pierre Alechinsky, Jean
Dubuffet e Andy Warhol.
No panteão visual que a partir daí então concebe, as suas
imagens afirmam-se pela imensa vitalidade sedeada no gesto do
fazer, na fluidez das suas linhas de composição e nos temas que
nelas aborda. Permanecendo fiel à sua intenção de dessacralizar a
arte e de a aproximar dos mais diversos públicos, Haring abre em
1986, em Nova Iorque (e dois anos depois em Tóquio), a sua Pop
Shop. Sob a forma de t-shirts, cadeiras, posters, postais, copos ou
porta-chaves, as figuras por si criadas passavam a marcar presença
nos mais variados momentos do quotidiano, dispersas por todo
o mundo.
Implicando-se directamente na arte que produz, fazendo do
seu trabalho um instrumento e um reflexo da sua própria identidade, chama a atenção para causas prementes: o combate à iliteracia, ao apartheid, a qualquer tipo de segregação (em particular
a sexual), a promoção de uma prevenção contra o uso de drogas
ou da necessidade de uma prática de sexo seguro para fazer face
aos avanços da sida. Uma urgência que se adensa especialmente
depois de lhe ter sido diagnosticada a presença do vírus HIV, em
1988, altura em que leva a cabo o projecto com Burroughs.
O Apocalypse de Haring é então um imenso zapping feito pela
história do homem, uma combinação vertiginosa de imagens
pré-existentes com outras por si criadas que, atravessando linhas
temáticas anteriormente referidas, quebra todas as barreiras.
Mesmo as do som… da flauta de Pan.
Ana Ruivo, Maio 2004
Sem título, 1983 • Tinta sumi sobre papel • 182,9 x 350,5 cm • © The Estate of Keith Haring
Sem título, 1982 • Acrílico e tinta sumi sobre papel • 182,8 x 337,8 cm • © The Estate of Keith Haring
Sem título, 9 Abr, 1985 • Acrílico sobre tela • 152,4 x 152,4 cm • © The Estate of Keith Haring
Sem título, 1984 • Tinta vinílica sobre tela de vinil • 182,8 x 182,8 cm • © The Estate of Keith Haring
LISTA DE OBRAS
Sem título, 1981
Acrílico sobre tela de vinil
182,9 x 182,9 cm
Sem título, 1989
Tinta sumi sobre papel
76,2 x 56,5 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi e spray de esmalte sobre cartolina
121,9 x 452,1 cm
Sem título, 22 Jan, 1986
Acrílico sobre tela
187,3 x 187,3 cm
Sem título, 1989
Tinta sumi sobre papel
76,2 x 56,5 cm
Sem título, 1983
Tinta sumi sobre papel
182,9 x 350,5 cm
Sem título, 9 Abr, 1985
Acrílico sobre tela
152,4 x 152,4 cm
Sem título, 1989
Tinta sumi sobre papel
76,2 x 56,5 cm
Sem título, 1985
Tinta sumi sobre papel
272 x 660 cm
Sem título, 1989
Acrílico sobre tela
182,9 x 182,9 cm
Sem título, 1989
Tinta sumi sobre papel
76,2 x 56,5 cm
Sem título, 1983
Tinta sumi sobre papel
182,9 x 335,3 cm
Sem título, 1989
Acrílico sobre tela
182,9 x 243,8 cm
Sem título, 1989
Tinta sumi sobre papel
76,2 x 56,5 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi sobre cartolina Bristol
50,8 x 65,4 cm
Caminhando à chuva, 1989
Acrílico sobre tela
182,9 x 243,8 cm
Sem título, 1989
Tinta sumi sobre papel
76,2 x 56,5 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi sobre cartolina Bristol
50,8 x 65,4 cm
Sem título, 1985
Acrílico sobre tela
304,8 x 457,2 cm
Sem título, 1981
Caneta de feltro sobre papel
50,8 x 66 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi sobre cartolina Bristol
50,8 x 65,4 cm
Retrato de Macho Camacho, 1985
Acrílico sobre tela
304,8 x 304,8 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi e spray de esmalte sobre papel
113 x 138,4 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi sobre cartolina Bristol
50,8 x 65,4 cm
Sem título, 1984
Acrílico sobre tela de vinil
243,8 x 365,7 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi sobre papel
91,4 x 487,7 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi sobre cartolina Bristol
50,8 x 65,4 cm
Sem título, 1984
Tinta vinílica sobre tela de vinil
182,8 x 182,8 cm
Sem título, 1982
Tinta sumi e tinta fluorescente day-glo sobre papel
182,9 x 285,8 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi sobre papel
64,8 x 200,7 cm
Gil, 1988
Tinta sumi sobre papel
63,5 x 51,1 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi sobre papel
50,8 x 66 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi sobre papel
43,8 x 58,4 cm
Gil, 1988
Tinta sumi sobre papel
63,5 x 51,4 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi sobre papel
50,8 x 66 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi sobre papel
43,8 x 58,4 cm
Gil, 1988
Tinta sumi sobre papel
63,5 x 51,4 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi sobre papel
50,8 x 66 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi sobre cartolina Bristol
50,8 x 66 cm
Gil, 1988
Tinta sumi sobre papel
63,5 x 50,4 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi sobre papel
50,8 x 66 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi sobre cartolina Bristol
50,8 x 66 cm
Gil, 1988
Tinta sumi sobre papel
91,4 x 60,9 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi sobre papel
50,8 x 66 cm
Sem título, 1983
Tinta sumi sobre papel
183,5 x 325,1 cm
Sem título, 1982
Tinta sumi sobre papel
182,8 x 293,3 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi sobre papel
50,8 x 66 cm
Sem título, 1989
Tinta sumi sobre papel
56,5 x 76,2 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi sobre papel
50,8 x 66 cm
Série Apocalipse 1-10, 1988
Textos de William Burroughs
Serigrafias de Keith Haring
96,5 x 96,5 cm
Sem título, 1989
Tinta sumi sobre papel
61,5 x 76,2 cm
Sem título, 1982
Tinta sumi sobre papel
182,8 x 219,7 cm
Sem título, 1989
Tinta sumi sobre papel
76,2 x 56,5 cm
Sem título, 1982
Acrílico e tinta sumi sobre papel
182,8 x 337,8 cm
Sem título, 1989
Tinta sumi sobre papel
76,2 x 56,5 cm
Sem título, 1980
Tinta sumi e spray sobre cartolina
121,9 x 79,4 cm
© Estate of Keith Haring
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Galeria aberta de 2ª a 6ª feira, das 10h00 às 18h00 (última admissão às 17h30); sábados, domingos e feriados, das 14h00 às 20h00 (última admissão às 19h30). Encerrada à 3ª feira.
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Sem título, 22 Jan, 1986 • Acrílico sobre tela • 187,3 x