CALOUSTE
SARKIS
GULBENKIAN
O Homem e a sua Obra
Nova edição
FUNDAÇÃO
CALOUSTE
GULBENKIAN
Serviço das Comunidades Arménias
Lisboa 2010
Vista de Constantinopla no tempo de Calouste Gulbenkian
CALOUSTE
SARKIS GULBENKIAN
O Homem e a sua Obra
Nova Edição
FUNDAÇÃO
CALOUSTE
GULBENKIAN
Serviço das Comunidades Arménias
Lisboa 2010
A Kevork Essayan
a quem devemos a criação
do Serviço das Comunidades Arménias.
Relembramos aqui também a memória
de Roberto Gulbenkian, recentemente falecido,
sobrinho de Calouste Gulbenkian e primo de Kevork Essayan.
Durante toda a sua carreira na direcção da Fundação,
consagrou-se às questões relevantes do petróleo e das finanças
da instituição bem como às actividades do seu Serviço arménio.
GULBENKIAN de Cesareia
Serope
Sarkis = Dirouhie Gulbenkian
(primo afastado)
Vahan da Algéria = Françoise Triays
Robert (nasc. em Alger) = Paulette Berthelier Georges
Mikaël
(2 filhos)
Serge
(2 filhos)
ESSAYAN de Cesareia
Karnig
André
Ohannes = Virginie Hovassapian
(2 filhos + 3 filhas)
Calouste = Nevarte
Nubar G.
(sem descendentes)
Marc
(3 filhos)
As grandes famílias arménias do Império Otomano casavam-se frequentemente entre si. Sem qualquer
margem para dúvidas estes casamentos poderiam ser uma boa forma de fomentar relações e de
ascensão na escala social. Foi desta forma que o casamento de Calouste com Nevarte Essayan, permitiu
aos Gulbenkian – recentemente estabelecidos em Constantinopla e de acordo com Nubar, considerados
um pouco “provincianos” – o acesso à grande família dos Essayan, os quais, tinham acesso à corte
imperial. De igual modo, o casamento do primo de Nevarte, Vahan, permitiu relacionar os Essayans com
uma família ainda mais prestigiosa, a família Karakehya. A influência desta família remonta ao tempo do
avô de Abraham Pacha, que teve oportunidade de ajudar o jovem Mohamed Ali, quando este não era
mais do que um simples sargento. Esta foi um golpe de sorte pois o jovem sargento tornou-se Vice-Rei
do Egipto e cobriu Karakehya de honrarias e devotou-lhe uma confiança que se manteria ao longo
da vida.
KARAKEHI A do Egipto
(3 filhas + 3 filhos)
Meguerditch = Anna
(1 filho)
Abraham Pacha = Foulik Yazdjian
(2 filhos + 2 filhas)
Vahan = Anna
Rita G. = Kevork
Arax
Foulik = Nubar Pacha Nubar
(1 filho + 2 filhas)
Boghos Pacha Nubar = Marie Dadian
(4 filhos + 1 filha)
Zareh
Eram
Mikhaël E. = Géraldine Guinness
Martin
(3 filhos)
Joanna
(2 filhos)
O seu filho Kevork Bey foi tesoureiro do Vice-Rei do Egipto e consolidou a reputação da família em
termos de honestidade e lealdade, contrariando todas as armadilhas e tentações da sua função, tendo
acabado os seus dias na pobreza. Abraham Pacha era amigo pessoal do Sultão e tinha o hábito de jogar
com ele, sem dúvida numa situação de impasse, sem vencedor ou vencido. Foi o único cristão do
Império a ter obtido o título de Ministro de Estado, com a designação de Hazret que significa « Mestre ».
Foulik, a irmã de Abraham, casou com Nubar Pacha, o futuro Primeiro-Ministro do Egipto. Quanto ao
seu filho Boghos Pacha Nubar, que ajudou muito Calouste quando este se estabeleceu em Londres,
casou-se na família Dadian que dominava a indústria otomana do armamento.
PREFÁCIO
Enquanto único neto de Calouste Gulbenkian, e o mais velho dos
seus descendentes vivos, é com grande prazer que escrevo um curto
prefácio a esta admirável brochura da autoria da minha muito querida,
velha amiga Astrig Tchamkerten, com quem partilho um trisavô,
Kevork Bey Karakehya, pai de Abraham Pasha.
Em 1955, quando meu avô morreu, tinha eu 28 anos de idade.
Antes da guerra, ainda criança, pude conhecê-lo de perto, nos anos em
que habitei em Paris, parte do tempo na sua casa na Avenida de Iéna.
Durante a guerra não estivemos em contacto porque, por essa altura,
fazia os meus estudos em Inglaterra, antes de entrar para o Exército,
mas depois tive oportunidade de conhecê-lo bem.
Penso que ninguém na família consideraria o meu avô como um
parente particularmente acessível ou condescendente, mas todos
estávamos de acordo de que era uma pessoa de calibre excepcional.
Tinha uma personalidade forte e enérgica, que combinada com um
julgamento invulgarmente sagaz quanto ao carácter dos outros, lhe
permitia quase sempre colocar-se numa posição moral superior, e levar
a melhor sobre qualquer pessoa com quem estivesse em desacordo.
O que mais admirei nele foi o facto de, ao contrário de tantas
outras pessoas que acumularam grandes fortunas, não ter qualquer
desejo de grandeza social, e detestar todas as formas de ostentação, que
10
|
calouste sarkis gulbenkian
encarava como sinais de vulgaridade. (Os seus relógios favoritos eram
Ingersolls de 40 xelins, que comprava à dúzia e atirava fora quando não
funcionavam). Ao contrário de sua mulher, filho e filha, que sempre
apreciaram a vida social, não sentia qualquer desejo de socialização e
preferia estar sozinho. “Repliez-vous sur vous même” foi o conselho
que me deu quando eu estava em Oxford.
A minha mãe observou uma vez que as únicas coisas que de facto
interessavam ao meu avô eram o petróleo, a arte e a horticultura.
A primeira deu-lhe a sua riqueza, que lhe permitiu construir uma
magnífica colecção da segunda e apreciar a terceira em Les Enclos, a
sua encantadora propriedade em Deauville, como Astrig tão eloquentemente a descreve.
MIKHAEL ESSAYAN
O HOMEM
Filho do Império Otomano
Calouste Gulbenkian descende de uma família arménia ilustre,
cujas origens remontam ao século IV. Os seus antepassados, os Príncipes de Rechdouni, possuíam antigas propriedades feudais na parte sul
do lago Van, situado na Grande Arménia. Esta região, também conhe-
Cesareia na Capadócia no início do século XX
12
|
calouste sarkis gulbenkian
A antiga casa de Gulbenkian em Talas, perto de Cesareia, presentemente propriedade do estado Turco
cida por Vaspourakan, marcou com o seu cunho a história armeno-bizantina até ao século X. No século XI, no reinado de Sénékérim de
Vaspourakan, os Príncipes de Rechdouni com os seus familiares estabeleceram-se em Cesareia da Capadócia, um dos mais antigos berços
do cristianismo oriental. Adoptaram, então, o patrónimo Vart Badrik,
um título nobiliário bizantino. Com a chegada dos Otomanos ao
poder, no século XVII, o patrónimo Vart Badrik foi adaptado para a
forma turca de Gulbenkian.
Desde 1800 e até onde remontam os nossos arquivos, as sucessivas gerações dos Gulbenkian deram sempre mostras de grande generosidade para com as comunidades arménias, tanto na própria Arménia, como no que diz respeito às comunidades no Império otomano,
onde a família tem as suas raízes. Os Gulbenkian já contavam na altura
com um longo e brilhante passado.
O HOMEM E A SUA OBRA |
A primeira impressora a funcionar na Terra Santa
era propriedade do Patriarcado Arménio de
Jerusalém
13
14
|
calouste sarkis gulbenkian
De facto, os Arménios desempenharam um papel determinante
no Império otomano, o qual se organizava segundo o sistema de
millets. O millet arménio, em particular, era conhecido pelo seu dinamismo e pela sua lealdade para com o Império. No campo económico,
o seu estatuto como ourives, banqueiros, comerciantes ou industriais,
fazia deles verdadeiros pontos de referência e forças motrizes nas suas
áreas de actividade. A sua reconhecida lealdade ao Império permitiu
que algumas famílias arménias acedessem a posições sensíveis como
sejam o fabrico de armamento, o apetrechamento do exército, a indústria tipográfica e a actividade bancária comercial, da qual tinham quase
o monopólio no Império: dezasseis entre os dezoito banqueiros mais
importantes do Império eram arménios.
Mas a dinâmica arménia no Império não se traduz apenas ao nível
do comércio. Os arménios estão presentes, com responsabilidades ao
mais alto nível, praticamente em todos os sectores da economia. No
século XIX algumas famílias
arménias tornam-se ourives da
Corte, ocupando-se da gestão
das reservas de moeda, ouro e
prata e, também, das taxas
aduaneiras. A eles se deve ainda
a introdução da arte cerâmica,
no século XV em Kutahya, e
também da fotografia, no
século XIX. Os Arménios adquiriram mesmo o estatuto de
fotógrafos oficiais do sultão
otomano. É também digno de
Os três irmãos Abdullah: Kevork, Abraão
e Hovsep, fotógrafos oficiais do sultão
O HOMEM E A SUA OBRA |
15
nota que a tapeçaria artesanal foi introduzida e desenvolvida graças aos
esforços de Arménios, e ainda que os arquitectos arménios deixaram a
sua marca, durante séculos, em numerosas obras de prestígio do Império.
Além disso, mais de 45% da produção industrial era propriedade
de Arménios. As redes de agentes por eles estabelecidas permitiam-lhes
estender as suas actividades de um extremo ao outro do Império. Entre
os séculos XVI e XIX encontramo-los à frente do comércio entre o mar
Mediterrânico e o mar Negro e, também, no Irão e na Índia. No
ocidente tinham contactos com países europeus graças ao porto de
Esmirna. A quantidade de mercadorias que os comerciantes arménios
transaccionavam era assinalável, podendo avaliar-se a sua dimensão se
se tiver em linha de conta que as taxas aduaneiras que pagavam constituíam uma das principais fontes de receita do Estado !
Deste modo, graças às suas relações familiares, os Arménios
tinham criado uma eficiente rede de ligações entre diferentes pontos
do Império, com ramificações tanto a oriente como a ocidente.
A maioria das grandes famílias que se dedicavam à importação-exportação eram também banqueiros. Era o caso da família Gulbenkian, a
qual depois de Cesareia tinha estendido as suas relações a Constantinopla e estabelecido delegações em Isfaão, Erzerum, Esmirna, Adana,
Alepo, Bassorá, Bagdade, Mossoul e Tiflis. Criaram, em seguida, novas
delegações em Marselha, Lion, Paris, Londres e Manchester e, mais
tarde, estabeleceram-se mesmo em Nova Iorque. Os Gulbenkian
foram também responsáveis pela introdução no Império de numerosas
tecnologias de ponta, em particular nas áreas da medicina e da agricultura. Eram detentores de uma das sociedades de exportação mais
importantes do Império.
Mas, para além desta vibrante dinâmica comercial, os Gulbenkian
empenharam-se em várias acções de cariz filantrópico a favor dos seus
16
|
calouste sarkis gulbenkian
Caricatura de Abraham Pasha Karakehia, um
dos dignitários do Ministério das Finanças
Otomano com o título de Amir. Bisavô de
Mikhael Essayan. Os documentos apresentados nas páginas 16 – apólice de seguro
com a assinatura de Abraham Pasha – e 17
– um documento referente a um empréstimo do Banco Imperial Otomano
O HOMEM E A SUA OBRA |
17
18
|
calouste sarkis gulbenkian
compatriotas otomanos, com a
criação de hospitais, escolas, igrejas, auxílio a artistas e intelectuais,
distribuição de alimentos em tempo de crise e, mais tarde, depois
dos acontecimentos de 1915, a
criação de espaços na Mesopotâmia para acolher refugiados 1.
Calouste com 3 anos
Por volta de 1860, Sarkis
Gulbenkian, pai de Calouste, instala-se nas margens do Bósforo.
Era, então, proprietário de importantes explorações de petróleo,
adquiridas na Transcaucásia, e
também representante da firma
internacional de Alexandre Mantacheff no Império Otomano, no
que dizia respeito a petróleo para
iluminação e aquecimento.
Calouste Sarkis Gulbenkian, filho de Sarkis e Dirouhie, nasce a
23 de Março de 1869, na parte asiática de Istambul, em Scutari da
Calcedónia – hoje Üsküdar. Em 1892 desposa em Londres Nevarte
Essayan, tal como ele natural de Cesareia e descendente de família
arménia nobre e abastada. O seu pai e o seu tio, tal como os seus
antecessores, mantêm relações cordiais com a Corte Otomana, as quais
viriam a revelar-se inestimáveis para Calouste Gulbenkian. Nevarte
1
Em reconhecimento dos serviços prestados à Pátria, o Governo, em 1872,
outorgou ao pai e ao tio de Calouste Gulbenkian, a ordem de Medjidiyeh, a mais alta
condecoração otomana.
O HOMEM E A SUA OBRA |
19
Retratos de Sarkis e Dirouhie Gulbenkian, Pais de Calouste Gulbenkian
dá-lhe dois filhos: Nubar Sarkis, que nasceu em 1896 em Kadikoy
(Calcedónia), perto de Istambul, e faleceu em Cannes em 1972; e Rita
Sirvarte, nascida em Londres em 1900 (falecida em Paris em 1977),
que mais tarde desposará Kevork Essayan, um dos executores testamentários de Calouste Gulbenkian. O filho de Kevork, Mikhael
Essayan, é Presidente honorário da Fundação, enquanto que o neto de
Kevork, Martin Essayan – bisneto de Calouste Gulbenkian – é, actualmente, administrador da Fundação, responsável pelas actividades na
Grã-Bretanha e na República da Irlanda, e também pelo Serviço das
Comunidades arménias.
Depois de Calouste nascerão ainda dois irmãos, Karnik e Vahan.
O último desposará uma Francesa de quem terá, por seu turno, três
20
|
calouste sarkis gulbenkian
Üsküdar, a parte asiática de Istambul, na altura do nascimento de Calouste Gulbenkian
filhos: Georges, André e Roberto
(administrador reformado da
Fundação).
Calouste Gulbenkian faz os
seus primeiros estudos em Kadikoy (Calcedónia), inicialmente
na escola arménia Aramyan-Uncuyan e mais tarde na escola
francesa de St. Joseph. Parte
seguidamente para Marselha,
para aprofundar o conhecimento
Calouste rodeado de Karnig e Vahan
O HOMEM E A SUA OBRA |
21
Retrato de família:
Em primeiro plano: Calouste e Nevarte Gulbenkian.
Em segundo plano, da esquerda para a direita: Kevork Essayan e a sua mulher Rita, Roberto Gulbenkian,
Mikhael Essayan, Nubar Gulbenkian e a sua mulher.
da língua francesa. Prossegue os seus estudos secundários no prestigiado colégio americano « Robert College », junto ao Bósforo, (hoje
uma Universidade) e, em 1887, termina a sua formação, diplomando-se com distinção em Engenharia e Ciências Aplicadas no «King’s
College» de Londres. Contava, então, apenas 18 anos.
Toda a vida do mecenas decorrerá entre o Médio Oriente, por um
lado, e o Ocidente, por outro. Na cidade de Londres (1897-1920)
instalou o seu escritório, tendo adquirido a nacionalidade britânica em
1902. Em França, nomeadamente em Paris (1920-1940), estabeleceu
a sua residência principal, a qual foi também lar dos prestigiados objec-
Foto do Bósforo pelos Irmãos Abdullah
tos de arte que foi coleccionando ao longo dos anos e que conservava
religiosamente. Mas, Calouste Gulbenkian, o Arménio, acredita, também, no renascimento da Arménia após os acontecimentos trágicos de
1915, e contribui activamente para a causa. Nas suas viagens entre
Paris e Londres, e apenas por puro patriotismo, usa o seu passaporte
arménio, emitido especialmente por Avedis Aharonian 2.
Lisboa corresponde à última etapa da sua vida (1942-1955).
Morre nesta cidade a 20 de Julho de 1955, com a idade de 86 anos.
Passara os últimos 13 anos neste refúgio que fora capaz de lhe proporcionar paz. Istambul, a cidade mais oriental da Europa, vira-o nascer.
Lisboa, a ocidental, receberá as suas últimas vontades. Entre estas duas
capitais, do Bósforo ao Tejo, é possível estabelecer paralelismos, encontrar semelhanças e, sem dúvida, traços civilizacionais comuns, que
iriam mais tarde servir de alicerces à sua futura instituição. As cinzas de
Calouste Gulbenkian repousam em Londres, na Igreja de Saint Sarkis
que mandara construir em 1922, em memória dos seus pais.
2
Escritor e Presidente da Delegação da República Arménia na Conferência de Paz
de Versalhes em 1918.
O HOMEM E A SUA OBRA |
23
A viagem iniciática
O jovem Calouste, recém-diplomado, é alvo de atenção e incentivo
por parte do futuro Lorde Kelvin,
um físico de génio. Sonha, então,
enveredar pela investigação científica,
mas o seu pai dissuade-o. Calouste
Gulbenkian renuncia com relutância.
Manterá, no entanto, durante toda a
sua vida o interesse pela ciência e
pela natureza, como veremos mais
adiante.
Aos 20 anos, encorajado por seu
pai, Calouste Gulbenkian parte para
Baku para um primeiro contacto
Reedição de uma das suas obras que
despertou a atenção do Ministro
das Minas do Governo otomano
Mapa da Transcaucásia (Império Russo), na
parte mais oriental, Baku e a Península de
Apcheron que desembocam no mar Cáspio
24
|
calouste sarkis gulbenkian
com o mundo do petróleo e para enriquecer a sua formação. A viagem
apaixonante pelos campos petrolíferos motiva-o a redigir um estudo
para a prestigiada Revue des Deux Mondes (Paris), intitulado «Le
pétrole, source d’énergie», e no seguimento, descreverá esta aventura
na obra «La Transcaucasie et la Péninsule d’Apchéron – Souvenirs de
voyage».
Essas obras, num prenúncio do reconhecimento do fabuloso
potencial das jazidas de petróleo do Médio Oriente, são bem acolhidas
e atraem a atenção do Ministro das Minas do governo otomano. Este
pede ao jovem Calouste que elabore um relatório sobre as jazidas
petrolíferas do Império, em particular as da Mesopotâmia (Iraque).
O relatório, que revela uma mente aberta e inteligente, agrada ao
Ministro. Ao seu perspicaz autor não passou sem registo a penetração
económica alemã, em paralelo com a progressão do caminho-de-ferro
na Anatólia (a famosa linha BBB – Berlim, Bósforo, Bagdade), cujo
objectivo era alcançar Bagdade e o Golfo Pérsico. Com efeito, os
Alemães esforçavam-se por assegurar o controlo dos recursos minerais
do Império otomano, e a linha ferroviária que ia de Oeste a Este através do Império até ao Golfo Pérsico e que deveria facilitar a instalação
de colónias alemãs em ambos os lados desta fronteira. A par da subjugação da Turquia, os alemães poderiam também, deste modo, cortar
aos Britânicos a famosa rota terrestre das Índias.
O arquitecto visionário
Em 1896, no seguimento dos primeiros pogroms anti-arménios,
a família Calouste Gulbenkian deixa a sua terra natal para se refugiar
no Egipto. Viaja a bordo de uma embarcação fretada pelos Essayan
(família de sua mulher), e trava conhecimento com o famoso Alexandre
Mantacheff, reputado concessionário de campos de petróleo em Baku,
O HOMEM E A SUA OBRA |
25
Poços de petróleo em Baku
que o introduz nos meios mais selectos do mundo do petróleo.
O jovem Gulbenkian apreende rapidamente todos os mecanismos e
segredos do meio, para o qual demonstra não só refinada sensibilidade,
mas também uma veia diplomática apurada, que não tardará a pôr em
prática.
No final do século XIX, quando a indústria internacional do
petróleo era ainda embrionária, Calouste Gulbenkian é confrontado
com o cepticismo dos grandes financeiros internacionais e dos industriais. No entanto, como verdadeiro visionário, está já convencido da
necessidade de uma exploração racional do petróleo, que pode dar
acesso à mais prodigiosa das fontes de energia. As suas batalhas serão
disputadas em torno do petróleo da Mesopotâmia.
26
|
calouste sarkis gulbenkian
O jovem Calouste rapidamente se lança ao trabalho.
Enquanto Britânicos e Alemães, cada um por seu turno,
procuram sem sucesso obter
concessões petrolíferas do
Governo turco, Calouste
Gulbenkian faz uso dos seus
conhecimentos e competências
orientais e ocidentais. É assim
que ele, o emigrante oriental,
conseguirá conciliar os interesses turcos e os interesses de
várias nações, então divergentes, como os dos BritâniCalouste Gulbenkian muito hábil
cos, Holandeses ou Alemães.
no aproveitamento dos seus conhecimentos
Estas negociações conduzirão a
e competências orientais e ocidentais
uma aliança inesperada com os
Turcos para a exploração do petróleo do Império otomano. Uma
verdadeira proeza!
Estas primeiras negociações vão constituir uma espécie de
modelo, de trampolim para futuras negociações. Os esforços incansáveis de Gulbenkian permitiam ultrapassar as situações mais inextricáveis. O seu método? Empregava todos os meios para superar o
espírito de competição e fazer convergir interesses diferentes em prol
de uma causa maior: a outorga de concessões, e mais tarde a exploração
organizada e pacífica dos recursos naturais do Médio Oriente.
Além disso, Gulbenkian sabe também que a estabilidade
do «edifício» que irá laboriosamente construir está dependente de um
conjunto de actores. Quanto mais numerosos forem e mais satisfeitos
O HOMEM E A SUA OBRA |
27
estiverem, mais sólida será a
estrutura e mais consolidada
estará a sua própria participação. Mais do que um homem
do petróleo, considerava-se um
“arquitecto de equilíbrios geopolíticos”, dirá mais tarde
sobre ele o seu bisneto, Martin
Essayan, “um arquitecto ao
serviço de uma visão clara, dos
melhores interesses e de estruturas adequadas”.
Para além do seu papel
decisivo ao mais alto nível
“O arquitecto do equilíbrio geopolítico”
no mundo do petróleo e da
finança, Gulbenkian ganhará
ainda uma autoridade notória no campo político. Servirá os interesses
do Império otomano, a sua pátria, e será nomeado em 1898,
conselheiro económico e financeiro junto das embaixadas otomanas
em Paris e Londres.
Em 1902, obtém a nacionalidade britânica, um trunfo que lhe
permitirá servir os interesses de ambas as pátrias, tendo em conta a
grande influência dos Britânicos sobre o Império Otomano. A sua
posição sai, assim, reforçada.
Além disso, Calouste Gulbenkian, que é igualmente persa por
parte de sua mãe, será também abordado pelos serviços diplomáticos
da Pérsia. Estes confiar-lhe-ão, após a Primeira Guerra mundial, a
responsabilidade de Representante comercial e diplomático da Pérsia
em Paris, função que desempenhará durante 24 anos.
28
|
calouste sarkis gulbenkian
Acção do Banco da Turquia de cujo conselho de administração C. Gulbenkian era membro
Acção da Sociedade Comercial Otomana, emitida em 3 idiomas (francês, arménio e árabe).
C. Gulbenkian desempenhou um papel importante nesta Sociedade
O HOMEM E A SUA OBRA |
29
O Senhor Cinco por cento
Pouco antes da Revolução dos Jovens Turcos (1908), o Sultão
concedeu a Calouste Gulbenkian a prerrogativa de realizar prospecções
em todo o território mesopotâmico.
Em 1910 é fundado o Banco Nacional da Turquia com o objectivo de agilizar o desenvolvimento económico do país 3. Gulbenkian,
que como vimos é já conselheiro das embaixadas otomanas em Londres e em Paris, é nomeado também conselheiro do novo Banco.
Encetará em breve negociações com os interesses alemães que
procuram a qualquer preço penetrar no Império otomano e obter
concessões mineiras. Gulbenkian está em vias de estabelecer o seu
próprio império petrolífero.
Cria em 1912, a Turkish Petroleum Company (TPC) com o
objectivo de obter uma concessão e explorar os recursos petrolíferos.
A concessão que adquire em 1914 vem agitar as águas entre as companhias já instaladas na Mesopotâmia, com actividade em todo o território do Império otomano 4. A nova companhia compreende quatro
parceiros: a holandesa/britânica Royal Dutch-Shell (25%), o Banco
Nacional da Turquia (35%), o Deutsche Bank (25%) e Calouste
Gulbenkian (15%). Graças à TPC o Golfo Pérsico iria em breve dar a
3
Mas, paradoxalmente, os capitais do Banco Nacional da Turquia estão
exclusivamente em mãos britânicas.
4 Os Britânicos fundariam em breve, a partir de uma concessão na Pérsia, a
companhia Anglo-Persian Oil Company, futura BP. Trata-se de uma concessão que
Calouste Gulbenkian tinha, a seu tempo, recusado, por considerar que seria demasiado
aleatória e arriscada. A concessão foi adquirida por um Inglês, William Knox D’Arcy. Só
após 7 anos de espera vertiginosa e desesperante, o petróleo pôde ser extraído em
quantidades comerciais. Afinal, Calouste Gulbenkian perdera uma oportunidade
preciosa.
30
|
calouste sarkis gulbenkian
conhecer ao mundo o potencial das suas fabulosas reservas, correspondentes a metade das reservas de petróleo conhecidas no planeta!
Calouste Gulbenkian, com a fundação da TPC, assegurou à nova
Turquia trunfos de peso para o seu progresso económico: a concessão
dos Alemães, a experiência da Companhia Shell em exploração e refinação, e ainda os apoios do Banco Nacional da Turquia e do Deutsche
Bank. Gulbenkian contribuía ainda para este edifício notável com a
mais-valia que representavam as suas relações políticas e o seu talento
de negociador. A jovem Companhia progride rapidamente.
Por seu turno a Anglo-Persian Oil Company (criada em 1909), que
não faz parte da TPC, esforça-se, em vão, para estender a sua área de
concessão da Pérsia à Mesopotâmia.
É então que, decidida a alcançar os seus objectivos, e aproveitando o apoio do Foreign Office 5 Companhia anglo-persa faz pressão
sobre a TPC para que a participação do Banco Nacional Turco seja
transferida para ela. A Companhia cobiça igualmente as acções de
C. Gulbenkian.
De tal modo que, após múltiplas e fastidiosas negociações entre o
sector do petróleo e os diversos interesses financeiros em jogo, decorridas entre 1913-14, a TPC é reorganizada em 1914 com o aval dos
governos inglês, turco e alemão. As acções da TPC são duplicadas e
metade é atribuída à Anglo-Persian Oil Company. O Banco Nacional da
Turquia divide a sua participação em partes iguais pela Royal Dutch-Shell e pelo Deutsche Bank e desaparece simplesmente da companhia.
5
De facto, no seguimento da decisão de Winston Churchill de substituir o carvão
pelo mazoute como combustível para a Royal Navy – a primeira frota de guerra do
mundo – o petróleo disparou em flecha.
O HOMEM E A SUA OBRA |
31
A distribuição final é a seguinte: Companhia Anglo-Persian Oil, excelentemente posicionada na TPC com 47,5% das acções, o Grupo
Royal Dutch-Shell com 22,5% e o Deutsche Bank com 25%. Não restavam a Gulbenkian senão 5%, percentagem disponibilizada em partes
iguais pela Anglo-Persan Oil Company e pela Royal Dutch-Shell, daí
as percentagens fraccionadas. O grande artesão destas negociações
aceitara voluntariamente a redução da sua quota-parte de 15 para
5% para facilitar as conversações. Tinha nascido o “Senhor Cinco
por cento”.
Infelizmente, apenas seis meses após o acordo, eclodia a guerra.
Ela punha fim às actividades da TPC antes mesmo que tivessem começado. Impunha-se proceder à reorganização. O fantástico jogo de
equilíbrios tinha de ser reinventado.
Ainda em plena guerra mundial, Gulbenkian lança em França a
ideia dum “Comité Général du Pétrole”, para recuperar os interesses
do Deutsche Bank, colocados sob tutela inglesa na TPC. A sua atribuição aos Franceses permitiria fazer face ao esforço de guerra da
França. E assim nasceu em 1924 a Compagnie Française des Pétroles,
(futura Total). Tornando-se accionista da TPC, a França obtinha, de
uma assentada e pela primeira vez, acesso às reservas de petróleo do
Médio Oriente. Mais uma vez graças a Calouste Gulbenkian !
O fim da guerra tem por consequência o desmembramento do
Império otomano. A região de Mossul faz doravante parte do novo
Iraque. C. Gulbenkian participa nas negociações entre Ingleses, Turcos,
Iraquianos e outros governos, mas desta feita para definir as fronteiras
definitivas entre a Turquia e o Iraque. É também ele que conduz as
discussões entre a TPC e o governo iraquiano, as quais resultam na
ratificação em 1925 da concessão à TPC.
32
|
calouste sarkis gulbenkian
Entretanto, a importância
do petróleo no Médio Oriente
faz emergir outros interesses:
os EUA querem também entrar
na corrida.
Ora, era melhor ter os
Americanos consigo do que
contra si; mais valia tê-los
como parceiros no seio da
TPC do que fora da TPC
como concorrentes entravando
as actividades. Esta era a con“O Senhor Cinco por Cento”
vicção de Gulbenkian, o qual
para consolidar a sua participação considerava muito importante
apostar num número alargado de parceiros. Assim, é ele, mais uma vez,
que fará com que os Americanos sejam aceites nas negociações com a
Royal Dutch-Shell, a Anglo Persian Oil e a sua parceira francesa.
Em 1928, ou seja, catorze anos após a reorganização da TPC, era
estabelecido um novo acordo que, ao mesmo tempo, iria definir um quadro geral para o desenvolvimento futuro da indústria petrolífera no
Médio Oriente. Devido a este espantoso acordo as acções da antiga TPC
– rebaptizada “Iraq Petroleum Co. Ltd” – depois da primeira guerra mundial e do desmembramento do Império otomano, são repartidas por quatro companhias : a “Anglo-Persian Oil Co.” (hoje em dia a BP), a “Royal
Dutch-Shell Group”, a “Compagnie Française des Pétroles”, e a “Near
East Development Corporation” (consórcio de cinco das principais companhias americanas de petróleo, entre as quais a futura Exxon Mobil).
Serão elas daí para a frente os grandes gigantes do petróleo. A Calouste
Gulbenkian toca, mais uma vez, cinco por cento do capital, o que reforça
o seu daí em diante célebre cognome de «Senhor Cinco por cento».
O HOMEM E A SUA OBRA |
33
Este acordo, designado por “Linha vermelha”, delimita um raio
de acção que engloba as fronteiras do antigo Império otomano, ou seja
a Turquia, a Jordânia, a Síria, e toda a Península arábica com excepção
do Kuwait. Com este acordo as companhias petrolíferas propunham-se explorar, no seio da nova “Iraq Petroleum Co. Ltd”, e unicamente
em associação com os seus parceiros, todos os recursos petrolíferos do
Médio Oriente incluídos na área da Linha vermelha. O magnata do
petróleo recebia, portanto, cinco por cento, mas desta vez de todos os
recursos explorados no interior da Linha!
Mas, delimitar as fronteiras de acção concertada das companhias
petrolíferas passara a ser um verdadeiro desafio. Era necessário contar
com as descobertas recentes de ouro negro nalgumas cidades do Iraque,
somando milhões de barris, contar ainda com as novas esperanças que,
muito provavelmente, encerrava ainda o solo da Arábia, e ter em conta
a cobiça que os Americanos manifestavam agora por esses países.
Atribui-se muitas vezes a Gulbenkian a paternidade do traçado da
famosa Linha vermelha que iria pôr toda a gente de acordo. Com mão
de mestre Gulbenkian tê-la-ia traçado com um lápis vermelho sobre
um mapa que mandara elaborar, delimitando com firmeza ponderada
e sem contestação as fronteiras do Império turco, hoje desmantelado:
– São estas as fronteiras que eu conhecia em 1914, disse. E que tinha a
obrigação de conhecer. Dentro destas fronteiras nasci, vivi e servi. Se
alguém souber mais do que eu, que o diga.” Efectivamente, quem melhor
que um cidadão otomano para definir o traçado das suas próprias
fronteiras ?! E essas fronteiras de facto incluíam também o Bahrein, o
Qatar, a Arábia Saudita e os Emirados. Excluíam o Kuwait, deixando,
portanto, o campo livre aos Americanos, de resto já no terreno.
A percentagem de Calouste Gulbenkian na Iraq Petroleum Company (5%) foi posteriormente incorporada numa empresa registada em
34
|
calouste sarkis gulbenkian
A delineação da famosa Linha Vermelha, atribuída a Calouste Gulbenkian
Toronto, no Canadá, e controlada a partir do seu escritório em
Londres. Mais tarde, essa holding dará origem à “Participations and
Explorations Corporation”, mais conhecida pelo nome de “Partex”.
A sociedade, baseada em Londres mas cuja sede social estava no
Panamá, reunia todas as participações de Calouste Gulbenkian, bem
O HOMEM E A SUA OBRA |
35
como as das diversas companhias petrolíferas que haviam sido criadas
no território incluído dentro das fronteiras da Linha vermelha pela Iraq
Petroleum Company.
Mas, a eclosão da Segunda Guerra Mundial irá dar origem a novas
tensões nas relações entre os vários interesses petrolíferos em presença.
De facto, duas companhias americanas, membros do acordo da Linha
mas também membros da Arabian American Oil Company (Aramco),
empreenderam entretanto a exploração dos recursos petrolíferos da
Arábia Saudita, e isto sem ter em conta os parceiros ingleses e franceses
e também o próprio Calouste Gulbenkian. Os Americanos entram em
contradição com o Tratado.
Simultaneamente, os parceiros de Gulbenkian na IPC esforçam-se
por expulsá-lo da companhia, realizando investimentos desmesurados
relativamente à liquidez do Magnata, mas sem bombear petróleo.
Decididamente as frentes multiplicam-se contra ele.
Era necessário voltar à mesa de negociações: negociações memoráveis e extremamente duras. O assunto ficou finalmente resolvido, in
extremis, em 1948, mas desta vez à custa da famosa Linha vermelha
traçada 20 anos antes e que agora desaparece. A IPC recompõe-se, mas
os termos do acordo são de tal modo complexos « que ninguém poderá
alguma vez contestá-los, porque ninguém está em condições de compreendê-los », terá exclamado um dos advogados de Gulbenkian.
Ainda assim, Gulbenkian conseguira que pelo menos um mínimo de
petróleo fosse extraído no Iraque, de forma a repor liquidez, assegurando-lhe um rendimento confortável.
De qualquer forma, o objectivo de Calouste Gulbenkian era obter
concessões e, sobretudo, manter unidas as suas várias parcerias. Mais
uma vez conseguira salvar a obra-prima da sua vida, a coluna vertebral
36
|
calouste sarkis gulbenkian
das suas realizações, a sua IPC. O seu mérito é tanto mais impressionante, se recordarmos que, depois da Revolução dos Jovens Turcos
que marcara o início dos seus trabalhos, e até ao fim da vida, Calouste
Gulbenkian foi testemunha de acontecimentos marcantes da história:
a revolução bolchevique, a catástrofe de 1915, o desmembramento do
Império otomano, o fim da era colonial na península arábica, duas
guerras mundiais e o período nazi. Desde 1912, data da fundação da
TPC, e até à sua morte em 1955, graças ao seu talento de visionário
independente e ao seu papel de negociador prudente, Calouste
Gulbenkian conseguiu de modo surpreendente manter o equilíbrio das
suas empresas, promover o entendimento entre os seus parceiros,
mesmo os mais inexoráveis, e, claro, manter o seu papel de conselheiro
económico nas embaixadas turcas em Paris e em Londres.
Não é, portanto, motivo de espanto que ele se enfureça se por
acaso o tratam por negociante de petróleo. «Não, eu não sou um
comerciante de petróleo! Eu sou um arquitecto de empresas!», exclamava com autoridade inquestionável. Como não compreender esta
águia dos negócios que no decurso da vida criara um grande número
de companhias petrolíferas, conseguira concessões à Grã-Bretanha, à
Holanda, à Alemanha, à França, à América e à Rússia, este campeão
ímpar que traçara uma carta geoestratégica dos interesses petrolíferos
para a indústria moderna?!
O sábio dos Enclos
A autoridade imperial que tinha, reconhecidamente, no mundo
dos negócios e do petróleo era sustentada pelos seus vastos conhecimentos geopolíticos e linguísticos 6, pelas suas aptidões científicas e
6
Calouste Gulbenkian dominava os idiomas da Ásia Menor como o turco, o
arménio, o persa, para além, é claro, do francês e do inglês.
O HOMEM E A SUA OBRA |
37
competências como engenheiro, e pelo seu excepcional potencial de
relacionamento e jogos de influência, sem esquecer a temível tenacidade com que se empenhava na prossecução de um objectivo. Acima
de tudo, Gulbenkian era dotado de clarividência e bom senso tais que,
melhor que ninguém, soube conciliar os interesses dos seus parceiros
no Próximo Oriente e na Europa não hesitando, quando necessário,
em cortar nas suas próprias reservas.
O coleccionador gozava da mesma autoridade.
Era um homem delicioso, brilhante, vivo, dinâmico, de estatura
média, e que falava um inglês perfeito, dirá sobre ele William Saroyan,
o escritor americano de origem arménia que viera visitá-lo a Lisboa.
Aparentava 80 anos, mas afirmava estar perto dos 90 (…).Começámos a
cavaquear prazenteiramente em arménio. Era um velhote único...
De silhueta frágil, rosto
redondo e fino bigode, Calouste
Gulbenkian emanava uma
autoconfiança tranquila que
lhe advinha do sucesso espectacular dos seus negócios. Era
com esta mesma confiança que
se dirigia aos seus interlocutores e, se algo lhe agradava, nada
conseguia detê-lo. Um dia,
ficou encantado com duas
pequenas miniaturas que iam
ser leiloadas. Telefonou ao proprietário e intimou-o a ir a sua
casa, propondo-lhe comprá-las
ao preço de arrematação.
“Uma auto-confiança tranquila”
38
|
calouste sarkis gulbenkian
O proprietário protestou: Mas se o preço exceder…? e logo Gulbenkian
atalhou: O quê? Nenhum preço é para mim excessivo! Quero essas
miniaturas. Portanto, mandarei buscá-las esta noite. Adeus, caro Senhor.
Inútil insistir. De facto, plenamente consciente da sua autoridade,
adoptara por divisa: « Só o melhor é suficientemente bom para mim ».
O homem era um verdadeiro perito ! Para além da sua paixão pela
estética, da sua sensibilidade excepcional e do seu conhecimento de
arte, Calouste Gulbenkian dá provas de rigor e tenacidade. Não só o
seu instinto o orientava para tudo o que possuísse algo de original ou
uma qualidade rara, como tinha também o hábito de comprar em
antiquários um pouco por todo o lado, ou «ao acaso» em leilões,
segundo os seus próprios cânones, sem se preocupar em demasia com
a opinião dos outros.
Nada era deixado ao acaso. A troca de impressões quotidiana com
os maiores agentes de comércio de obras de arte mantinha-o informado do movimento dos objectos e permitia-lhe ponderar seriamente
as suas decisões, apelando aos melhores especialistas para verificação de
autenticidade. Os objectos deviam encontrar-se num estado de conservação impecável: Só o melhor é suficientemente bom para mim... Tal
como em matéria de petróleo, a sua vasta erudição permitia-lhe discutir convictamente com os melhores peritos que farão dele um
coleccionador de reputação internacional.
A sua discrição quase lendária valeu-lhe a realização das suas
melhores transacções, frequentemente ao abrigo de cobiçosos e de
outros interessados, muitas vezes ultrapassados pela extrema rapidez
de acção do coleccionador. Mas, para além dessa discrição, sabia rodear-se de um certo mistério acentuado pelo o facto de evitar de bom
grado a convivência social e, sobretudo, de fugir como da peste de toda
a publicidade, imprensa e fotografias. Nas suas próprias palavras, a
O HOMEM E A SUA OBRA |
39
privacidade era o bem mais
precioso que o dinheiro podia
comprar.
Do mesmo modo, em vez
de se submeter a outros especialistas no que dizia respeito à
avaliação e depois à decisão de
compra, Gulbenkian gostava
de ser ele a decidir e, neste
sentido, era um coleccionador
atípico. Daqui resulta o estilo
muito pessoal da sua colecção,
que reflecte inevitavelmente os
seus gostos particularmente
eclécticos e, simultaneamente,
o período em que se formou.
Retrato da Mrs. Lowndes-Stone,
Quanto às obras, não as
por Thomas Gainsborough
mostrava facilmente, a não ser
a pessoas íntimas. E se um
desconhecido pedia para ver os seus quadros, era com um toque muito
oriental que ele mandava dizer que considerava as suas obras como
amigas de toda a vida: – Desvelaria eu as mulheres do meu harém perante
um estranho ?
O homem amante da natureza revela um aspecto diferente da sua
personalidade. Com efeito, e apesar de toda sua autoconfiança, energia
e força de carácter, era um homem tímido, sensível e nervoso. Era
introvertido, dotado duma vida interior intensa e adorava, sobretudo,
a natureza, as belas paisagens, as árvores, as flores, os animais.
Adquirira em 1937 uma propriedade na Normandia, perto de
40
|
calouste sarkis gulbenkian
Antiga casa Vista de Les Enclos, presentemente propriedade da Câmara Municipal de Deauville, França
O HOMEM E A SUA OBRA |
41
Deauville, os Enclos 7, na qual conseguira criar uma atmosfera de paz e
de harmonia, graças a um cenário de jardins, relvados, árvores e pontos
de água. Mandou mesmo construir capoeiras e estábulos, onde os
animais eram tratados com atenções equiparáveis às prestadas a clientes
de um hotel de luxo!
Conta-se, por exemplo, a história de um vitelo recém-nascido, cria
de uma vaca holandesa e de um touro de raça pura, que Gulbenkian
observava enternecidamente. A atracção deve ter sido recíproca pois o
animal veio espontaneamente lamber-lhe a mão. Resultou daí uma
amizade idílica entre o grande homem e o pequeno ser, uma amizade
inabalável e a protecção da vida do animal, a salvo da sorte mais infeliz
dos seus congéneres destinados, mais dia menos dia, ao abate.
Era neste cenário que gostava de passar o Verão. Era lá também
que se recolhia antes de tomar algumas das decisões que se revelaram
ter sido das mais importantes da sua vida.
Esta sensibilidade particular face às belezas da natureza levava-o a
preferir muitas vezes o isolamento e o silêncio, particularmente propícios à concentração, à contemplação e ao sonho, onde o espírito ia
buscar novas emoções. O seu amigo fiel Alexis Léger, aliás Saint-John
Perse 8, apelidara-o de o Sábio dos Enclos. Esse amor especial pela
natureza, bebido nas fontes dos Enclos, reflecte-se em grande medida
na valiosa correspondência que os dois amigos trocaram entre si.
Numa das cartas que endereçou a Calouste Gulbenkian, Alexis Léger
7
Em 1973 a propriedade foi entregue pela Fundação Gulbenkian ao Município
de Deauville, com a condição de aí criar um parque. Cumprindo o acordado, o
Município oferece hoje ao seus residentes a possibilidade de desfrutar de magníficos
espaços verdes, numa última homenagem a Calouste Gulbenkian que tanto amava os
jardins.
8 Alexis Léger recebeu o prémio Nobel da Literatura em 1960.
42
|
calouste sarkis gulbenkian
O Sábio de Les Enclos
O HOMEM E A SUA OBRA |
43
qualifica os Enclos como a peça principal das sua
obras, porque é a mais viva, a mais íntima e a mais
delicada, a mais secretamente reservada aos seus
devaneios.
Todavia, apesar de todo o seu imenso
sucesso, o homem não pôde concretizar totalmente as suas ambições. Ele próprio o confessará perto do fim da vida, ele que tão pouco
falava de si: Homem de ciência e sonhador num
jardim a meu gosto, são as duas coisas, os grandes
objectivos da minha vida que não consegui atingir.
Selo com
Saint-John Perse
O Coleccionador
A paixão de Calouste Gulbenkian pelas artes revela-se muito
cedo. Nada de espantoso considerando a história de sua família, com
raízes na Capadócia, e tendo por origem a cidade de Cesareia a qual,
evocando inevitavelmente o nascimento das grandes religiões, propicia
uma admiração muito compreensível pelas artes. Por sua vez, Constantinopla, cidade que exerceu uma influência marcada na formação de
Calouste Gulbenkian, situa-se por excelência no cruzamento de
grandes civilizações (capital dos Romanos, depois dos Bizantinos e
finalmente dos Turcos otomanos). A intensa paixão que Gulbenkian
nutria pelas artes é o corolário natural da conjugação de todas estas
influências. Esta paixão traduzir-se-á pela constituição de uma
prodigiosa colecção de obras de arte.
É pela numismática que vai começar. De facto, Gulbenkian é
ainda muito jovem quando manifesta já um gosto inato por moedas
antigas. Negociando com uma autoconfiança desconcertante para a
44
|
calouste sarkis gulbenkian
Moedas retratando o rei arménio Tigrane II (140 BC – 55 AC)
idade, gasta na aquisição de moedas antigas todo o seu dinheiro de
bolso, apesar das severas reprimendas de seu pai, convicto de que o
filho delapidava capital.
É acima de tudo a beleza intrínseca das peças que o atrai.
Acumula ao longo da vida, ao sabor das suas viagens e por vezes à custa
de negociações longas e laboriosas com os melhores peritos e comerciantes especializados, uma colecção muito ecléctica, única no mundo.
A colecção comporta hoje mais de 6000 peças, – exactamente 6440 –
todas rigorosamente autênticas, remontando da Antiguidade até ao
início do século XX. A afeição que tinha pelas suas obras era tal que as
considerará como suas filhas.
Entre 1928 e 1930, negoceia com o governo soviético a aquisição
de algumas peças do Museu Hermitage, ilustre detentor dos tesouros
da Rússia imperial. Durante os duros anos da fome e por falta severa
de divisas, os Soviéticos punham discretamente em circulação algumas
das suas obras-primas. É então que Calouste Gulbenkian, à custa de
negociações complexas, discretas e meticulosamente preparadas,
incluindo o transporte assegurado das obras, assina quatro contratos
com os soviéticos, a despeito de fortes concorrentes e de outros
O HOMEM E A SUA OBRA |
45
comerciantes internacionais.
Afinal, e uma vez que o governo
soviético estava decidido a
vender de qualquer modo, o
ilustre coleccionador arménio
representava certamente um
mal menor e, em todo o caso,
uma alternativa segura para o
Estado. Na sua carta ao governador do Banco Central da
União Soviética, o esteta mal
reprimia a sua determinação:
«Não deveríeis vender, a mim e
muito menos a outros… Continuo a prevenir os vossos representantes de que não façam sair
essas peças dos vossos museus.
Mas, se ainda assim tal vier a
acontecer, insisto que me concedais a preferência, por preço
igual, e peço-vos que me mantenhais perfeitamente ao cor- Diana de Houdon, adquirida por C. Gulbenkian
ao Museu Hermitage
rente dos preços aos quais
9
desejais vender» . É assim que,
jogando a fundo a cartada da discrição a fim de proteger ao máximo a
dignidade dos Soviéticos, Gulbenkian, precedendo os seus mais célebres
concorrentes, como Deveen por exemplo, consegue adquirir do
Hermitage, a menor custo, algumas das suas peças principais.
9
Carta datada de 17 de Julho de 1930, dirigida por Calouste Gulbenkian a
Georges Piatakov, Ministro do Comércio exterior da URSS e vítima das purgas
estalinistas em 1937.
Figura de Velho por Rembrandt adquirido por C. Gulbenkian ao Museu Hermitage
No início do anos vinte, quando as obras acumuladas pelo coleccionador se tornam demasiado numerosas e não podem já ser arrumadas nas suas várias residências, Calouste Gulbenkian compra na
avenida de Iéna em Paris, os imóveis que irá transformar em palacete
particular. A partir de 1927 fará dele a sua residência principal e não o
deixará até ao início da guerra.
Pequeno pormenor significativo: o palacete da avenida Iéna
alberga igualmente a missão diplomática da Pérsia, junto da qual
Calouste Gulbenkian assume a função de conselheiro económico.
Durante a guerra, estando o palacete na iminência de ser requisitado e
atribuído a uma alta personalidade alemã, foi necessário todo o tacto
O HOMEM E A SUA OBRA |
47
Casa de C. Gulbenkian na Avenue d’Iéna, em Paris.
Presentemente a Delegação da Fundação em Paris
diplomático do genro de Calouste, Kevork Essayan, para evitar a
ocupação do palacete pelos Alemães. Kevork Essayan dirigiu-se à
legação suíça em Paris, que tinha a seu cargo a salvaguarda dos interesses Persas em França. Solicitou a sua intervenção junto dos Alemães
por forma a comunicar-lhes que a propriedade em questão, pertença
de uma potência não beligerante, deveria permanecer inviolável. Foi
bem sucedido. As suas diligências foram coroadas de êxito e os Alemães
mantiveram-se sossegados.
Ao longo dos anos, a colecção foi sempre aumentando. Por
medida de segurança, uma parte da colecção de Paris foi transferida
para Londres. Em 1936, a colecção de arte egípcia foi confiada ao
Museu Britânico e os melhores quadros à National Gallery. Mais tarde,
48
|
calouste sarkis gulbenkian
em 1948 e 1950, em consequência de desentendimentos com os
Britânicos, estas mesmas peças serão colocadas à guarda da National
Gallery of Art de Washington, até partirem de novo, uns anos mais
tarde, agora para Portugal.
O Arménio sem fronteiras
Para além do seu papel de pioneiro no comércio do petróleo e da
sua paixão por objectos de arte, Calouste Gulbenkian é, acima de tudo,
Arménio. Um Arménio internacional preocupado com o destino do
seus compatriotas espalhados pelo mundo, mas não só. Natural do
Império otomano, interessa-se também pelo destino dos naturais dos
países árabes, nações que faziam parte integrante do Império otomano
e que formaram os novos Estados saídos do Tratado de Sèvres (1920).
O seu objectivo é motivar essas nações, jovens mas de tradição antiga,
para a aquisição de novos conhecimentos em especial nas áreas cultural, científica e médica, essenciais ao desenvolvimento dos seus próprios países.
Com esse objectivo, Calouste Gulbenkian concederá numerosas
bolsas de estudo, contribuindo para o despontar, a pouco e pouco, de
uma nova geração de quadros nacionais com formação em diversos
domínios. Em medicina, em particular, as bolsas de Gulbenkian e mais
tarde as da Fundação que lhe sucederá, encorajam os estudantes desses
países a prosseguir a sua especialização em França e na Grã-Bretanha.
São também encorajados os estudos no domínio da agricultura por
forma a desenvolver a produção nos países situados no Crescente fértil
(a Síria, o Líbano, o Iraque, a Jordânia). Claro que as áreas associadas
à prospecção petrolífera (a geologia, a geofísica) merecem uma atenção
particular da parte do mecenas, preocupado em ver emergir novos
engenheiros e técnicos desta indústria em plena expansão.
O HOMEM E A SUA OBRA |
49
Paralelamente a este empenho
na educação, Gulbenkian dotou
generosamente de equipamentos
os hospitais de várias grandes
cidades como Beirute, Tripoli,
Damasco, Bagdade, Kirkuk, Basra
e Amã. Favorecerá também a abertura de dispensários entre as populações que sofriam de doenças dos
olhos (tracoma) ou doenças infecciosas (malária).
Por outro lado, o Arménio
tinha conseguido impôr que a Placa erguida na enfermaria da Universidade
Americana de Beirute (AUB)
famosa percentagem de 5%, referente à sua quota-parte na exploração dos poços de petróleo da Iraq Petroleum Company, beneficiasse
também as famílias arménias. De facto, Calouste Gulbenkian exigia que
pelo menos 5% dos trabalhadores contratados nas explorações da Iraq
Petroleum Company fossem arménios. Este facto custou-lhe a inimizade
definitiva do Governo soviético que acusava Gulbenkian de exploração.
Seja como for, este Arménio, acima de todos os Arménios, não
desarmou e manteve durante toda a vida o cuidado pelas comunidades
e por um número considerável das suas instalações. As comunidades
do Médio Oriente que habitavam as antigas regiões do Império eram,
naturalmente, as primeiras a ser atendidas.
No seguimento da Primeira Guerra Mundial, dos acontecimentos
trágicos 10 levados a cabo pelo governo dos Jovens Turcos em 1915 e
10
Até à data Portugal ainda não reconheceu o genocídio Arménio.
T
U
R
Q
U
I
I
A
A
Í
R
S
Beirute
I R A Q U E
N
IA
A
Cairo
R
JO R D
Â
Jerusalém
Á
B
I
A
S
A
U
D
I
I
T
A
R
Ã
O
52
|
calouste sarkis gulbenkian
do desmantelamento do Império Otomano, as Potências aliadas
(França e Grã-Bretanha) tinham acordado, nos termos do Tratado de
Sèvres (10 Agosto 1920), restituir à Arménia uma parte dos seus
territórios históricos. Mas o Tratado nunca foi ratificado devido à
oposição dos nacionalistas turcos. O que conduziu à constatação
amarga de Lorde Curzon: «O petróleo pesou mais que o sangue
arménio». Calouste Gulbenkian sabia-o bem demais. Jamais pôde
aceitar este abandono por parte das potências aliadas e terá no futuro
uma visão desiludida dos acontecimentos.
Entre os anos 1920 e 1940, escolas arménias e centros médicos
da Turquia, Síria, Líbano, Iraque e Jordânia, beneficiarão da liberalidade do mecenas, que cria, assim, também numerosos postos de trabalho. As suas qualidades de fino diplomata têm como consequência
consolidar a presença arménia no Médio Oriente junto dos Altos
Vista aérea do terreno adquirido por C. Gulbenkian
em Ainjar no leste do Líbano, perto da fronteira síria
O HOMEM E A SUA OBRA |
53
Comissários francês e britânico. Relembremos que na época, e logo
após 1915, Ataturk fazia pressão sobre as potências mandatárias, Grã-Bretanha e França, para afastar os Arménios das fronteiras da República turca. Os infelizes sobreviventes que se concentravam nas fronteiras síria e iraquiana, e também na Grécia e nos Balcãs, na expectativa
desesperada de um dia voltar à terra natal, deveriam ser deportados
para a Argélia e Madagáscar. Mas a intervenção veemente de Calouste
Gulbenkian junto das representações francesa e britânica pôs fim ao
plano de Ataturk e teve como consequência o fortalecimento das
comunidades arménias que encontraram definitivamente refúgio no
mundo árabe. Em particular, Gulbenkian adquirira terras no leste do
Líbano, em Anjar perto da fronteira síria, tendo em vista realojar os
refugiados arménios do Sandjak de Iskenderun. O que, aliás, lhe valeu
mais uma campanha acerba por parte dos Soviéticos que o acusaram
de «agente imperialista».
No Médio Oriente, no
Iraque e no Líbano em particular, Gulbenkian, seguindo as
pisadas de seus pais, contribuiu
para a construção de várias
igrejas arménias em Kirkuk,
Bagdade, Tripoli, etc.
Em Jerusalém, cidade a
que a família Gulbenkian consagra um culto ancestral,
Calouste Gulbenkian prosseguiu a tradição de generosidade
para com o Patriarcado arménio. À entrada do Túmulo de
Cristo, na Basílica do Santo
Pintura fornecida por C. Gulbenkian
ao Santo Sepulcro
Biblioteca Calouste Gulbenkian, localizada no interior do Patriarcado Arménio de Jerusalém
Sepulcro, encontra-se um quadro ilustrando a Ressurreição que tem a
seguinte inscrição em arménio «à memória da dinastia Gulbenkian de
Talas, 1877». Em 1929, Calouste Gulbenkian mandou construir em
Jerusalém uma biblioteca que tem o seu nome. Essa biblioteca é
actualmente uma das mais importantes da diáspora. Além disso, o
mecenas assegurou regularmente os seus favores ao Patriarcado, em
especial face às dificuldades conhecidas, resultantes da divisão de
Jerusalém em 1948. E, inclusivamente, no seu último testamento,
determinará que a Fundação continue a entregar-lhe regularmente o
subsídio que lhe concedera em vida.
O HOMEM E A SUA OBRA |
55
Em Istambul, sua terra
natal, segue a tradição de seus
pais que foram os primeiros
mecenas do muito famoso
hospital Sourp Pirgiç (São
Salvador) construído em 1832
em Yédikule. Em 1906 mandou construir no recinto do
hospital um pavilhão, designado com o nome Gulbenkian, onde funcionará o bloco
operatório. Dispôs ainda que
O mausoléu dedicado aos membros da família
de C. Gulbenkian no hospital de S. Pirgiç
depois da sua morte os imóveis
de Selâmet Han no bairro de
Eminonu fossem doados a favor das obras de caridade de Yédikulé.
Como prova de reconhecimento, foi erigido no recinto um mausoléu
Hospital de S. Pirgiç (São Salvador)
56
|
calouste sarkis gulbenkian
A Catedral de St. Echmiadzin na Arménia, sede patriarcal da Igreja Apostólica Arménia
O HOMEM E A SUA OBRA |
57
dedicado aos membros da família. Desde então, todos os anos é aí
celebrada uma missa de sufrágio, a qual dá regularmente lugar ao
encontro de toda a reconhecida comunidade arménia de Istambul. No
entanto, em 1936, quando Calouste Gulbenkian quis legar para fins
caritativos os bens imobiliários que ele e sua mulher possuíam na
república turca, estes foram confiscados sob o pretexto de ter
abandonado o país e adquirido a cidadania britânica.
Na Arménia soviética, o mecenas legou uma quantia avultada
– 400.000 dólares – para a restauração da catedral de Etchmiadzine e
participou, em memória das suas origens, na construção, perto de
Erevan, de duas cidades, Nubarachène e Nor Guessaria, (a “Nova
Cesareia”), a fim de abrigar os refugiados arménios do Médio Oriente,
escapados dos massacres.
Em Londres, onde viveu muitos anos, e num respeito quase
religioso à memória de seus pais, decide mandar construir em 1922
uma igreja arménia dedicada a São Sarkis, patrono de seu pai. Recordemos que esta igreja foi construída seguindo o modelo da do mosteiro
de Haghpat na Arménia, reconhecida em 1996 como Património mundial da UNESCO.
Em 1930, e após o falecimento de Boghos Pacha Nubar,
fundador da União Geral Arménia de Beneficência (1906), a
única organização pan-arménia
que garante assistência a qualquer
Arménio sem excepção, Calouste
Gulbenkian decide assegurar a
direcção desta instituição, em
Igreja de St. Sarkis, em Londres
58
|
calouste sarkis gulbenkian
Reunião em Paris, em 1931, dos líderes de AGBU. Ao centro, C. Gulbenkian,
à direita Arakel Nubar que irá sucedê-lo um ano depois, e à esquerda,
Kapriel Noradounguian, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros do Império Otomano
Paris. Tem de facto uma enorme admiração pelo seu fundador. Mas,
devido aos entraves que diversas pressões políticas levantam ao seu
trabalho, apresentará a demissão dois anos mais tarde.
Assim, como transparece do seu percurso de vida, Calouste
Gulbenkian é um homem solitário. Só se lhe conhece um número
restrito de amigos próximos, facto a que não será alheio o seu carácter
excessivo e arrebatado. Em compensação, a sua vocação e o seu
empenhamento são absolutamente internacionais.
Com efeito, não é homem de um país em particular. Nasceu no
Império otomano, formou-se na Europa (França, Grã-Bretanha) e
empenhou-se politicamente por várias nações: o Império otomano, a
Pérsia, a Arménia, a França, a Grã-Bretanha. Ao nível empresarial, o
seu papel de negociador hábil nas transacções petrolíferas colocá-lo-á
na vanguarda dos interesses de todos os participantes na exploração do
petróleo da península arábica. De tal modo que todas as partes interessadas – Turcos, Franceses, Ingleses, Alemães, Russos, Americanos,
O HOMEM E A SUA OBRA |
59
Persas e Iraquianos- estarão sucessivamente em dívida para com este
homem visionário, audacioso e hábil diplomata que não hesitava em
diminuir a sua própria quota-parte para facilitar as negociações.
Calouste Gulbenkian possuía também vários passaportes (otomano, persa, britânico e arménio) e trabalhou em vários países. No que
diz respeito à sua fortuna, tomou a decisão de criar uma fundação
internacional que confia à legislação portuguesa. Mas por mais internacional que seja, Gulbenkian é único e inteiro como Arménio: é nesta
nacionalidade que tem os seus alicerces; é ela que lhe confere identidade.
Eis como a Fundação que iria criar deveria, naturalmente, reflectir
esta abertura a outras culturas. O facto deste tema ser apenas aflorado
nos estatutos ficou a dever-se à determinação toda poderosa e vigilante
do regime de Salazar. Este velava meticulosamente, vigiava numa atitude
ciumenta e acabou por monopolizar a criação da instituição de envergadura quase ministerial. Esta, com o envolvimento hábil das autoridades locais, iria revelar-se um maná imperial para o pequeno país que a
albergava. Num país que vivia ainda num isolamento dramático em
virtude da ditadura, a parada era alta, como veremos a seguir.
Passaporte britânico de C. Gulbenkian
Panorama da cidade de Lisboa
Lisboa
Em Abril de 1942, a guerra estava no auge e as tropas alemãs
tinham invadido Paris. Calouste Gulbenkian encontrava-se junto do
embaixador do Irão 11 emVichy, onde se instalara o governo Pétain-Laval. Mas, na sequência da dupla ocupação do Irão e da sua nova
orientação pró-aliada, a representação em Vichy deixa de existir 12. Daí
em diante Gulbenkian, residente num país ocupado militarmente, é
considerado como « inimigo técnico » e vê as suas acções na Iraq
Petroleum Company confiscadas pelos Britânicos 13. Gulbenkian ficou
consternado. Como era possível que ele, cidadão britânico que não
hesitara em abrir principescamente as portas das suas companhias
petrolíferas aos Ingleses, fosse tratado desse modo ?! Suspeita mesmo
11
Entretanto em 1935 a Pérsia tornara-se Irão, por imposição dos Alemães que
tinham convencido o embaixador persa a requerer às suas autoridades a conversão da
denominação do seu país para demonstrar a sua lealdade à Alemanha. Não esqueçamos
que os Alemães nazis tinham adoptado a teoria de que os ancestrais dos Arianos eram os
Alemães.
12 O Norte do Irão foi ocupado por tropas soviéticas e o Sul pelos Britânicos.
O Irão, sob direcção do jovem Mohammed Reza Pahlevi, foi forçado a optar por uma
política pró-aliada. Como consequência a representação em Vichy deixou de existir.
13 As acções de C. Gulbenkian ser-lhe-ão devolvidas no final da guerra com
compensação de perdas e danos.
O HOMEM E A SUA OBRA |
61
que o Governo britânico queira ajudar os seus parceiros a suprimir a
sua participação de cinco por cento. Ordena de imediato que parte das
suas colecções seja tansferida para os Estados Unidos. O Governo
americano, pressentindo uma oportunidade de ouro, propôs-lhe
mesmo a construção de um museu em Washington destinado a albergar a colecção. O próprio Gulbenkian preparava-se para se reunir aos
« seus queridos filhos». Conheceu entretanto em Vichy, o embaixador
de Portugal que elogia os encantos do seu país tranquilo numa Europa
a ferro e fogo. País que, além do mais, está situado no ponto mais
ocidental da Europa, oferecendo, por conseguinte, acesso privilegiado
ao novo continente, caso fosse necessário partir.
E assim se fez. Num belo dia do mês de Abril de 1942, Calouste
Gulbenkian, a sua mulher Nevarte, a secretária e dama de companhia,
Mme Theis, o seu massagista russo e o chefe de cozinha oriental, toma-
Lisboa e o seu castelo ao fundo
62
|
calouste sarkis gulbenkian
ram lugar no sumptuoso Rolls Royce e fizeram-se à estrada a caminho
de Portugal. Instalar-se-iam em Lisboa, no célebre Hotel Aviz 14, na
companhia de cerca de uma dúzia de gatos e dos seus queridos
pássaros. Gulbenkian tinha então 73 anos. Não voltará a partir.
Efectivamente, Portugal que acolhe este homem extremamente
rico estava em paz e era governado desde 1928 com mão de ferro pela
ditadura de Oliveira Salazar. A ordem e disciplina da sociedade portuguesa, corporativa e fortemente hierarquizada, era com certeza tranquilizante para o espírito extremamemte organizado e meticuloso de
Senhor cinco por cento. Estritamente contidos, os media, que toda a
vida evitara como a peste, não ousavam também importuná-lo.
A prestigiada Praça do Comércio em Lisboa, junto ao Tejo
14
Hoje desaparecido, erguendo-se no mesmo local o Hotel Sheraton.
A FUNDAÇÃO
A Génese
No final da guerra, Calouste fará do hotel Aviz a sua residência
principal, e aí passará os seus últimos treze anos de vida. Porque
permanece em Portugal? Porque não parte Gulbenkian, no fim da
guerra, para os EUA, ou porque não regressa a Paris ou a Londres?
Podem apontar-se diversas razões, mas nenhuma é satisfatória. Sem
dúvida que Lisboa e o Tejo evocavam o Bósforo da sua cidade natal.
Hotel Aviz, agora desaparecido
64
|
calouste sarkis gulbenkian
É ainda indubitável que apreciava o clima agradável e ensolarado de
Portugal, o interior do país, a sua hospitalidade, a sua segurança e o seu
sistema de impostos. A verdade é que este Arménio, nascido otomano,
naturalizado britânico, que vivera em Paris e planeara partir e estabelecer-se nos EUA, acabará por instalar-se em Lisboa e legar aí toda a
sua fortuna, apesar das ofertas mirabolantes que receberá dos EUA.
De qualquer forma, a vida que leva em Lisboa é austera e
extremamente regrada. Nunca aprenderá o português, mas criará laços
de amizade com o seu advogado, Perdigão, bem como com o seu
médico, Fernando Fonseca, que o acompanharão até à sua morte. Não
priva habitualmente com as personalidades célebres que se instalam no
país, nem tão pouco com os Portugueses, não obstante o carácter acolhedor e caloroso deste povo. Apesar disso, afirmava-se mais feliz aqui
do que em qualquer outro dos lugares da sua vida.
Em compensação, recebeu visitas internacionais memoráveis,
incluindo dirigentes ilustres de sociedades petrolíferas e, nomeadamente, o Príncipe da Arábia Saudita, que se deslocou especialmente
para o visitar. Mantivera o seu escritório em Londres e a sua residência
particular em Paris, que considerava ser o seu lar.
Viveu em Lisboa um período particularmente rico, vendo-se continuamente implicado em árduas discussões que conduziram aos famosos acordos de 1948. Bateu-se por eles como um tigre para salvaguardar a sua posição na IPC, ameaçada de colapso devido a acções
pouco louváveis por parte das companhias petrolíferas. Mantinha contacto quotidiano com o seu escritório e com a família, esforçando-se
por estar informado acerca de tudo. Contava já oitenta anos, mas o seu
entusiasmo e obsessão não cessavam de causar espanto, quando não
exasperavam, aqueles que o rodeavam. Tanto os seus empregados em
Londres como os membros da sua família deviam estar disponíveis a
qualquer momento para tratar de algum assunto que o perturbasse.
O HOMEM E A SUA OBRA |
65
A correspondência que trocou com a família e com o seu escritório de
Londres relata detalhadamente a sua complexa luta para fazer frente às
acções dos outros parceiros da Irak Petroleum Company. A maior parte
desta correspondência era escrita em inglês ou francês mas, convencido
de que o seu correio era vigiado, Gulbenkian tinha o hábito de, em
questões mais sensíveis, escrever nas margens comentários em arménio.
O destino da sua colecção de obras de arte e da sua imensa fortuna
inquietavam-no cada vez mais. Que faria? Talvez a National Gallery de
Londres? Tinha-o considerado antes da guerra, quando (Lorde) Kenneth
Clark ocupava o cargo de director. Mas após a partida deste último,
e quando Gulbenkian foi declarado «inimigo técnico» pelo governo
britânico, mudou de ideias, preferindo a National Gallery of Art de
Washington. Mas sempre sem chegar a qualquer conclusão. Os Americanos nem sempre se tinham comportado como amigos de Gulbenkian,
em algumas ocasiões tinham sido rivais e, não tinham, necessariamente,
mostrado grande deferência durante as negociações petrolíferas.
O único amigo em quem confiava
era o seu advogado, Lorde Radcliffe of
Wermeth, com o qual manteve longas
e amargas discussões sobre este assunto,
as quais chegavam a durar horas.
«Radcliffe sabe o que quero» costumava responder aos que o interrogavam acerca do seu legado. Infelizmente
pouco tem sido escrito sobre este tema,
mas a ideia de que Gulbenkian pretendia criar uma fundação internacional,
para proveito de toda a humanidade,
transparece com clareza da correspondência entre os dois amigos.
Lord Radcliffe,
o amigo íntimo de C. Gulbenkian
66
|
calouste sarkis gulbenkian
Sabe-se ainda através desta correspondência que foram considerados diversos modelos: o do Wellcome Trust, na Grã-Bretanha e o da
Fundação Rockefeller, nos Estados Unidos. E para evitar que a futura
Fundação fosse monopolizada por um único governo, foram reservados dois lugares para diplomatas, um britânico e um português.
Calouste Gulbenkian desejava ainda que a sua colecção fosse reunida
sob um mesmo tecto, sem que tenha, porém, até à sua morte, eleito
um local preciso.
É em 1950 que Calouste Gulbenkian, algo reticente, começa a
redigir o seu testamento. Decide deixar a quase totalidade dos seus
bens a uma fundação, que deveria ser administrada por cinco membros
da sua família: a sua mulher, o seu filho, a sua filha, o seu genro e o seu
neto. Quanto à sua residência de Paris, seria oferecida como embaixada
aos Estados Unidos, caso a sua família não desejasse continuar a habitá-la. Ao mesmo tempo, Gulbenkian esforçou-se por recrutar Radcliffe
para dirigir a sua futura Fundação, propondo-lhe, em Outubro de
1951, o cargo de presidente. Mas, com a morte de Nevarte em 1952,
Calouste Gulbenkian e o seu
amado filho Nubar entram em
conflito. Apesar da forte relação que os unia, as discussões
entre ambos eram infelizmente
frequentes, intermináveis e
penosas.
Preparou uma segunda
versão do testamento na qual
indicava Radcliffe como dirigente da Fundação, com o
apoio do advogado português,
José Azeredo Perdigão, e do seu
Nubar Gulbenkian
O HOMEM E A SUA OBRA |
67
genro, Kevork Essayan. O seu filho Nubar e o seu neto Mikhael
Essayan, então com 26 anos de idade, seriam chamados a integrar o
grupo assim que os outros membros da Fundação os considerassem
preparados. Pouco antes da sua morte, Calouste estipula que Nubar
integre definitivamente a administração da Fundação. No entanto, a
decisão não pôde ser consignada no testamento e ficou sem efeito: o
mecenas faleceu entretanto.
O Testamento e os estatutos
Morreu por certo demasiado cedo, visto que no
momento da sua morte se
lutava por chegar a um
acordo acerca do verdadeiro
propósito das suas intenções.
De qualquer forma, o
Testamento foi assinado a
18 de Junho de 1953:
Calouste Gulbenkian acabava de criar uma das doze
fundações mais importantes
do mundo, portadora do
seu nome, que declarou
herdeira de toda a sua fortuna, depois de previamente ter beneficiado os
membros da sua família e
atribuído alguns legados
particulares. Além da sua
A estátua de C. Gulbenkian nos jardins da Fundação
68
|
calouste sarkis gulbenkian
prestigiada colecção de obras de arte, a fortuna em questão incluía
também os seus interesses petrolíferos. Estes proporcionavam à época
um rendimento anual de 4 milhões de libras, o qual se elevaria em
seguida até aos 10 milhões de libras 15.
Mas de que forma deveria actuar uma tal fortuna ? Neste aspecto
o Testamento é vago, o que terá por consequência uma interpretação
muito restritiva da vontade de Calouste Gulbenkian, em particular no
que diz respeito à abertura internacional.
Redigido de acordo com a lei britânica, em conformidade com a
nacionalidade do testador, o testamento estipula que a Fundação seja
criada segundo a lei portuguesa, a fim de evitar os impostos de sucessão
devidos ao Reino Unido, bem como as restrições em vigor a respeito
de fundações de beneficência. O testamento estipula ainda que a sede
seja estabelecida em Portugal, ainda que as actividades não se devessem
exercer apenas neste país, mas também nos locais que os seus dirigentes
considerassem oportunos.
O texto do testamento não diz nada mais e é extremamente vago
sobre as intenções do seu testador. Nada mais é dito, por exemplo,
acerca da localização do seu futuro museu! Porquê? Provavelmente
Gulbenkian desejava manter o suspense e criar expectativa e esperança
em diversos países. Mas é igualmente certo que Calouste Gulbenkian
não tinha pressa. Ele, que se mostrou toda a vida obcecado pela
saúde 16 não pensava morrer tão cedo. À imagem de seu avô, que havia
vivido até aos 106 anos, preparava-se para se tornar centenário!
15
Em moeda actual e tendo em conta a inflação, 10 milhões de libras em 1955
equivalem, grosso modo, a 200 milhões de euros
16 Ao seu médico era pago um subsídio mensal, excepto quando C. Gulbenkian
adoecia.
O HOMEM E A SUA OBRA |
69
Após a morte de Calouste,
aquando da redacção dos estatutos, assiste-se a um aceso
debate entre os quatro administradores designados 17 que
passou por numerosas manobras e acções na justiça, tanto
José de Azeredo Perdigão em debate aberto
no Reino Unido como em
Portugal. Na verdade, as questões de fundo quanto à execução do Testamento ainda hoje se
encontram por resolver, e revelam nas entrelinhas a questão delicada da
independência da instituição face a um Estado ditatorial. Que composição deveria ter o futuro conselho de administração? Onde seriam
recrutados os seus membros? Seriam procurados entre as melhores
personalidades do mundo? Que esferas internacionais contactar?
Quantos Portugueses seriam incluídos? O litígio focalizava-se também
sobre o alcance da fundação: portuguesa ou internacional? Que
percentagem dos subsídios deveria ser dispensada a Portugal? Tantas
questões que, retrospectivamente, podem parecer deslocadas quando se
conhece o carácter internacional do homem e da obra que realizou em
vida. Mas, naquele período da história de Portugal, é evidente que
Salazar estava por demais determinado em assegurar que a Fundação
trouxesse o máximo de proveito ao seu país.
Para este fim, Salazar tentou definir uma quota mínima a atribuir
a Portugal. Procurou ainda impor uma maioria de administradores
portugueses nos assentos do Conselho de administração. Isto deu origem a uma veemente resistência por parte do bloco de Radcliffe,
17
De um lado Radcliffe, Essayan e Nubar – que tinha sido finalmente incluído,
apesar dos termos do último testamento não o mencionarem como administrador – e
Perdigão do outro.
70
|
calouste sarkis gulbenkian
Salazar em conversa com Azeredo Perdigão
Nubar e Kevork inicialmente, contra o advogado Perdigão, que patrioticamente apoiava Salazar.
No entanto tornou-se claro que, para criar a Fundação, ter-se-ia
de fazer referência à lei portuguesa e que, sem mais detalhes, o caso
ficaria simplesmente sob o controlo de Salazar. Este insistiu em que a
Fundação dispusesse de uma maioria de administradores portugueses,
o que provocou a ira de Radcliffe. É então que, julgando que as
intenções do fundador não seriam realizadas, Radcliffe apresenta a sua
demissão. Nubar seguiu-o na sua retirada. Restava Kevork. Este
mantém-se e aceita o desafio de servir a nova fundação, com a missão,
em particular, de criar um Serviço dedicado ao Médio Oriente e às
Comunidades arménias.
O HOMEM E A SUA OBRA |
71
José de Azeredo Perdigão tornou-se o primeiro
Presidente da Fundação e
redigiu os seus estatutos.
Estes seriam assinados, ao
abrigo de um Decreto-lei, a
18 de Julho de 1956. É evidente que, para a elaboração destes documentos,
Salazar e também Marcello
Caetano «tomaram parte
activa para tornar a instituição completamente apolítica e independente do
José de Azeredo Perdigão,
Governo» 18. A alusão não é
o primeiro presidente da Fundação
de somenos importância se
se tiver em conta que, desde os seus primeiros anos, a Fundação não
hesitou em ajudar a Arménia soviética, sem que o Governo tenha
levantado qualquer obstáculo.
Uma das primeiras tarefas do novo Presidente foi, naturalmente,
reunir em Lisboa todas as obras de arte da colecção Gulbenkian, que
se encontravam repartidas entre Paris, Londres e Washington, tarefa
essa que desempenhou com notável habilidade. As obras-primas
encontram-se hoje instaladas num esplêndido museu especialmente
concebido na sede da Fundação, que se encontra imerso num jardim
mágico, pleno de essências exuberantes.
Assim foi cumprido um dos sonhos do fundador, o de reunir sob
um mesmo tecto « todos os seus filhos dispersos ».
18
In Franco Nogueira, Salazar. IV – O Ataque (1945-1958), Porto, Livraria
Civilização Editora, 4.ª Edição, 2000, p. 385.
72
|
calouste sarkis gulbenkian
As primeiras actividades
É, todavia, com um cunho muito português que a Fundação iniciará as suas actividades. «Nos anos cinquenta, a sociedade portuguesa
era pobre e atrasada. Os Portugueses viviam com enormes dificuldades.» 19 Este facto explica que a sociedade se mostrasse particularmente
receptiva a qualquer contribuição de ordem sociocultural.
De facto, os indicadores económicos e sociais do país de Salazar
são os mais recuados da Europa: a esperança média de vida é a mais
baixa do Ocidente, a alimentação deficiente, faltam instalações sanitárias adequadas nas habitações, existe uma predominância da população
rural, trabalho infantil frequente, desigualdade de tratamento entre
homens e mulheres, saúde pública deficiente, cerca de 70% de taxa de
analfabetismo, sistemas educativo e de segurança social praticamente
inexistentes, etc. Todos os domínios até então negligenciados, rogam
por ajuda. Neste sentido, a nova Fundação vai insuflar o país de sangue
novo, garantindo-lhe durante várias décadas o efeito de um maná
inesperado 20.
A sua acção irá, é certo, evoluir, assim como evolui o país onde
exerce as suas actividades. Entre os anos 60 e 80, Portugal ver-se-á
envolvido em três guerras coloniais em África, e despenderá um esforço
militar colossal. Em 1974, dá-se a Revolução dos Cravos, uma revolução suave que põe fim a uma ditadura que havia reprimido o país
durante 40 anos. A democracia é enfim restaurada. Em consequência,
mudanças rápidas e profundas vão permitir a criação e consolidação do
Estado Providência e, quanto à Fundação Gulbenkian, esta vai poder
19
In “Fundação Calouste Gulbenkian, Cinquenta Anos 1956-2006”, coordenação António Barreto, Lisboa, 2007.
20 Ver a este respeito « Fundação Calouste Gulbenkian, Cinquenta Anos 1956-2006”, coordenação António Barreto, Lisboa, 2007.
O HOMEM E A SUA OBRA |
73
A Revolução Pacífica dos Cravos
exercer as suas actividades com cada vez mais engenho. Esta acção será
reforçada pela integração de Portugal na Comunidade Europeia
em 1986.
Entretanto, no final dos anos cinquenta, Portugal vive um início
de recuperação, ou melhor dizendo, de uma evolução muito lenta: não
conheceu a Guerra, mas tira partido da dinâmica de relançamento que
abrangeu toda a Europa. A Fundação, que pouco a pouco toma consciência da sua missão, lançar-se-á rapidamente ao trabalho.
Em Novembro de 1955, ainda os estatutos da Fundação Calouste
Gulbenkian não tinham sido aprovados, já a instituição dirigida por
Azeredo Perdigão lançava as suas primeiras iniciativas. É dada prioridade à educação: são imediatamente criadas as primeiras bolsas de
estudo, começando pelo ensino secundário, então quase embrionário.
As tão estimadas carrinhas “bibliotecas itinerantes” que percorriam Portugal de lés a lés...
Ao mesmo tempo é estabelecida
uma rede de bibliotecas fixas e
itinerantes (as suas famosas carrinhas-biblioteca) que percorrerão
todo o país, fomentando a sensibilidade e gosto pela leitura,
mesmo nas zonas mais remotas.
Mais tarde, seguindo a mesma linha de acção, a Fundação
esforça-se por promover uma
O HOMEM E A SUA OBRA |
75
política de edições económicas de obras fundamentais (Plano de Edições) para o ensino superior, participando paralelamente num grande
movimento de democratização da educação. O próprio Salazar o
reconhecerá: «Há que fazer justiça a Azeredo Perdigão. A Fundação
que dirige constitui um magnífico Ministério da Cultura (…). Bem sei
que a ideia de me ajudar está longe dos projectos da Fundação. Sei
também que faria a mesma coisa se o país seguisse uma orientação
política diferente. Mas o que faz, fá-lo, e isso é suficiente.» 21
No seu conjunto, as actividades da Fundação organizam-se em
torno dos seus quatro objectivos estatutários: a Educação, a Arte, a
Ciência e a Beneficência. A Fundação começa, também, a traçar os
primeiros projectos de ajuda ao desenvolvimento nos países lusófonos,
em África, e em Timor, projectos de estímulo à cultura portuguesa no
Fortaleza no ponto estratégico no Estreito de Ormuz.
Foi objecto de um projecto de reabilitação financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian
21
In « O Diário de Salazar », Antonio Trabulo, Lisboa 2004.
76
|
calouste sarkis gulbenkian
Conjunto arquitectónico da catedral Portuguesa em Safi (Marrocos).
Foi objecto de um projecto de reabilitação financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian
estrangeiro, em benefício da saúde em Portugal e da investigação científica, e projectos em prol da preservação de monumentos históricos e
de testemunhos da presença portuguesa por todo o mundo.
No âmbito internacional e não lusófono, o Conselho de administração decidiu, naturalmente, estender as actividades da Fundação aos
países do Médio Oriente, ao Reino Unido e às comunidades arménias
da diáspora. Nas primeiras décadas, a verba dedicada às actividades no
Médio Oriente corresponde aproximadamente a um terço do orçamento da FCG.
No Oriente, o Iraque foi escolhido, inicialmente, por ter sido o
país do qual a Fundação obteve uma parte considerável das suas receitas. O museu de arte antiga e o estádio foram construídos em Bagdade
nos anos sessenta, graças à generosidade da Fundação.
O HOMEM E A SUA OBRA |
77
Na mesma época, centenas de profissionais autóctones foram
formados, graças às bolsas atribuídas pela Fundação. Por sua vez, hospitais na Síria, Jordânia e Líbano recebem ajuda considerável, quer
para aquisição de equipamento médico, quer para realização de projectos de construção, de que é exemplo o hospital universitário da
American University of Beirut. Escusado será dizer que estes países
foram também considerados devido à sua relação com a produção
petrolífera da Iraq Petroleum Company e das suas associadas e, naturalmente, por albergarem uma elevada concentração de populações
arménias.
Mas, as verbas generosas destinadas aos países do Médio Oriente
serão consideravelmente reduzidas na sequência da nacionalização do
petróleo do Iraque. E não só. Um outro factor veio reforçar a redução
das actividades fora de Portugal: na sequência da Revolução dos Cravos
em Portugal (1974), a Fundação retrai-se. Assim, o peso das suas actividades no estrangeiro cairá para os 11%. Será necessário esperar até ao
final da primeira década dos anos 2000 para ver a instituição retomar
as suas disposições iniciais e aumentar o seu envolvimento internacional.
Retrato actual
A Fundação Calouste Gulbenkian figura hoje entre as mais
importantes fundações europeias. Fundação portuguesa, de direito
privado, de utilidade pública e de vocação internacional, possuía no
seu activo, em 2009, cerca de 2,8 biliões de euros e um orçamento
anual de 109 milhões de euros. Cerca de um quarto da sua riqueza é
produto de interesses petrolíferos de concessões localizadas, principalmente, no Médio Oriente (Omã e Emirados árabes). No que
diz respeito aos activos de Calouste Gulbenkian no Iraque, que a
A sede da Fundação C. Gulbenkian
Fundação herdou, há que recordar que foram totalmente nacionalizados em 1973. O mesmo se passou com os seus bens no Qatar.
Restam hoje os activos petrolíferos de Omã e dos Emirados, bem como
participações no Cazaquistão, no Brasil, em Angola e na Argélia, que
a Fundação administra através da sociedade Partex. O resto – três
quartos da riqueza da Fundação – encontra-se repartido num leque
internacional diversificado
de activos financeiros.
Assinatura do protocolo estabelecido
em 2006 entre a Fundação Gulbenkian
(representada pelo seu presidente,
E. Rui Vilar) e a Emirates Foundation
O HOMEM E A SUA OBRA |
A instituição, onde trabalham hoje
em dia cerca de 500 funcionários, é
dirigida por um conselho de administradores, maioritariamente de nacionalidade portuguesa. O conselho integra
ainda, por tradição e em conformidade
com os estatutos, um membro pertencente em linha directa à família do
fundador. Os primeiros membros da
família a participar nas actividades do
Conselho de administração não tinham
necessariamente, uma relação em linha
directa com o Fundador –
Kevork Essayan e Roberto
Gulbenkian, respectivamente genro e sobrinho de
Calouste. A relação de
descendência directa será
reassumida com Mikhael
Essayan, seu neto e actualmente Presidente honorário
da Fundação e, por fim,
pelo seu bisneto, Martin
Essayan, que assegura hoje
em dia a rendição da terceira geração de administradores membros da família.
Mikhael Essayan rodeado pelo seu
filho Martin e pelos três netos
Roberto Gulbenkian
79
Vista aérea das instalações da Fundação, em Lisboa
As instalações da Fundação integram os edifícios da sede e do
Museu Calouste Gulbenkian inaugurados em 1969, bem como o do
Centro de Arte Moderna, inaugurado em 1983, o qual, após a morte,
em 1993, daquele que esteve na sua origem, José Azeredo Perdigão,
receberá o seu nome. O complexo arquitectónico abrange um auditório
que acolhe 1200 espectadores, quatro anfiteatros polivalentes, um dos
quais ao ar livre, uma zona de congressos, duas galerias de exposições
temporárias e uma biblioteca de arte criada a partir da biblioteca pessoal
de Gulbenkian e detentora de mais de 190.000 volumes.
O HOMEM E A SUA OBRA |
81
A entrada principal do Museu C. Gulbenkian
A Fundação Calouste Gulbenkian dispõe ainda de uma orquestra
e de um coro que actuam tanto em Portugal como no estrangeiro.
Visão parcial da orquestra C. Gulbenkian
Jardins da Fundação
Este importante complexo está rodeado de múltiplos jardins e
pontos de água que se estendem por cerca de 7 hectares. A concepção
destes espaços verdes, plenos de essências, é propositadamente naturalista. Respeita ao máximo as características da natureza e preserva a
existência generosa de espécies por vezes raras. «Homem de ciência e
sonhador num jardim a meu gosto, são as duas coisas, os grandes objectivos da minha vida que não consegui
atingir»: O jardim da Fundação Gulbenkian procura prestar uma última
homenagem ao fundador.
A Fundação dispõe ainda do
Instituto Gulbenkian de Ciência em
Oeiras, perto de Lisboa, instituição
Instituto Gulbenkian de Ciência, Oeiras
O HOMEM E A SUA OBRA |
83
de âmbito internacional que incute uma nova dinâmica à investigação
biomédica e ao ensino pós-graduado.
Fora de Portugal, a Fundação possui também uma delegação em
Londres e um centro cultural em Paris, instalado na antiga morada do
fundador na Avenida de Iéna. Este último, mais precisamente o Centre
Culturel Calouste Gulbenkian em Paris, leva a cabo, desde 1968, acção
cultural regular, europeia e variada, que passa pela organização de
cursos, seminários e conferências, de concertos e recitais, bem como de
diversas exposições. O Centro dispõe ainda de uma biblioteca aberta
ao público. Além disso, em Paris situa-se a Résidence André de Gouveia
que a Fundação construiu e ofereceu à Cidade Internacional Universitária de Paris, e que acolhe estudantes portugueses e de outras
nacionalidades.
Em Londres, antiga sede
dos negócios de Calouste Gulbenkian, que adquiriu a nacionalidade
britânica, a Fundação tem uma
delegação encarregada de atribuir
subsídios no Reino Unido e na
República da Irlanda. A Delegação
apoia programas piloto nos domínios da educação, das artes, da
ajuda social e das relações culturais
luso-britânicas. Trata-se de pequenos projectos inovadores que, com
frequência, têm o mérito de reve-
Fachada da Delegação de Londres
da Fundação Calouste Gulbenkian
84
|
calouste sarkis gulbenkian
lar-se bem sucedidos, aquando da sua posterior generalização. Quatro
eixos recebem particular atenção: abordagens para uma melhor compreensão entre etnias, culturas e religiões; o apoio às populações socialmente frágeis para que realizem em pleno o seu potencial; e a relação
do homem com o seu ambiente e a inovação social.
As actividades realizadas na sede da Fundação articulam-se em
torno das suas quatro áreas estatutárias. No domínio da Beneficência,
reveste-se de particular importância o esforço realizado no âmbito da
saúde em Portugal (subsídios, formação, estudos epidemiológicos,
medicina ao domicílio, cuidados paliativos e equipamentos hospitalares). Mas não só. A Fundação envolve-se também em actividades de
apoio ao desenvolvimento pessoal, principalmente através dos seus
programas de ajuda a jovens desfavorecidos, a migrantes e a idosos.
Quanto à Arte, é naturalmente fomentada a partir do Museu Calouste
Gulbenkian, em torno do qual se desenvolvem diversas actividades
relacionadas, como a edição de publicações sobre a colecção, exposições temporárias, ciclos de conferências, actividades pedagógicas diri-
Actividades pedagógicas com crianças desenvolvidas nos jardins da Fundação
O HOMEM E A SUA OBRA |
85
Hall de entrada do Centro de Arte Moderna
gidas a crianças e, mais tarde, a abertura de um Centro de Arte
Moderna (1983), e o apoio a projectos de Artes Plásticas, Teatro e
Cinema. A arte é igualmente representada pelas actividades desenvolvidas pela Orquestra, pelo Coro e, anteriormente, pelo Ballet Gulbenkian, agora extinto.
A Educação, domínio predilecto da Fundação, é
apoiada através das actividades seguintes: atribuição de bolsas de estudo, produção de material educativo, apoio a projectos-piloto, promoção de condições de ensino, e pelo Plano de
Edições, já anteriormente referido. A acção da
Fundação no domínio da Ciência exerce-se ao
nível da investigação científica em Portugal e da
comunicação científica. Articula-se em torno de
três eixos: a criatividade, a difusão e a interacção
“Nos confins do universo” – Poster de conferência, 2009
86
|
calouste sarkis gulbenkian
entre ciência e sociedade. Nesta área a sua acção é secundada pelo
Instituto Gulbenkian de Ciência em Oeiras.
Todas estas actividades da Fundação, vocacionadas para dar
resposta aos problemas maiores de uma sociedade em evolução, são
hoje em dia executadas por uma vintena de departamentos.
Beneficiando principalmente Portugal, no início, e também os países
lusófonos e antigas colónias africanas, estas acções emancipam-se
pouco a pouco do país de origem e da sua área de influência,
estendendo-se a outras actividades fora de Portugal. Esta abertura
recente por parte da Fundação deve-se, principalmente, a uma nova era
de colaboração, iniciada há alguns anos, com outras fundações
europeias.
O departamento arménio da Fundação é o único que exerce actividade simultaneamente no âmbito dos quatro objectivos estatutários.
Estende a sua acção por toda a parte onde se encontra dispersa a
diáspora arménia, em particular nos países do Médio Oriente, junto
das comunidades arménias caras ao Fundador, esforçando-se por preservar e transmitir a língua arménia e a sua cultura e identidade
ancestrais.
O Museu
O Museu Calouste Gulbenkian está, hoje em dia, entre os melhores do mundo e ocupa, pela sua qualidade, o primeiro lugar ao nível
europeu. À imagem do seu fundador, representa uma paleta única, de
expressão tanto oriental como ocidental: inclui desde peças do Antigo
Egipto, arte islâmica, da China e do Japão, até aos mestres da Escola
de Barbizon, sem esquecer incursões na «Art Nouveau» com René
Lalique.
O HOMEM E A SUA OBRA |
87
Texto assinado por C. S. Gulbenkian que se encontra à entrada do Museu
Da colecção fazem parte peças notáveis que remontam ao Antigo Egipto, ou
seja 3000 a.C., estatuetas e vasos em terracota, taças em alabastro, uma pequena
cabeça do faraó Amenhamat III da 12.ª
dinastia (Antigo Egipto) em obsidiana. As
suas moedas e medalhas gregas, em que se
inclui um lote formado por toda a
colecção Jameson (300 peças), constituem
por si só uma das colecções mais importantes do mundo, todas elas em estado de
Cabeça de Amenhamat III. – Pedra obsidiana
88
|
calouste sarkis gulbenkian
conservação impecável. Calouste
tinha a ideia fixa da beleza: O meu
objectivo é constituir uma colecção
de moedas gregas muito bela, de um
ponto de vista puramente artístico.
Para tal, tenciono ater-me aos
exemplares que apresentem um
estado de conservação impecável e
uma beleza excepcional. Encontramos igualmente alguns medalhões
romanos descobertos no Egipto,
cunhados no século III em honra
de Alexandre, o Grande. Na arte
da Mesopotâmia, pode ser visto
um grande baixo-relevo assírio em
alabastro, que representa um
génio alado a transportar um vaso
de água sagrada (século IX a.C.).
Baixo-relevo em alabastro. Génio alado
transportando um cântaro de água sagrada.
Assíria-Nemrud, 884-859 A.C.
Diversas peças expostas no
Museu denotam a predilecção de
Calouste Gulbenkian pelos objectos do Próximo e Médio Oriente,
e evidenciam a ligação clara do
coleccionador às suas raízes arménias. Aí se encontra uma rica
colecção de objectos da Pérsia,
Taça persa, período de Seljúcida
O HOMEM E A SUA OBRA |
89
Turquia, Síria, dos países do
Cáucaso e da Índia, representando um período que se
estende das invasões mongóis
de Gengis Khan até ao final do
século XVIII. Descobre-se, por
exemplo, uma colecção de
tapetes, sedas, brocados, trajos,
livros com iluminuras, encadernações, etc. Podem ainda
admirar-se peças de cerâmica
soberbas – com destaque para
Vaso – jade branco, Sarmacanda,
Dinastia Timúrida
as cerâmicas de Iznik, lamparinas da época Mamelouk e
vasos sírios, geralmente executados por encomenda para príncipes e
sultões. Quanto à parte arménia, estão expostos alguns manuscritos
ricamente ilustrados, datados do século XVI, executados em Istambul,
na Pérsia e na Crimeia por colonos arménios estabelecidos em Caffa.
A colecção é relativamente reduzida porque a maioria das obras
“Tapete Português”, assim chamado em virtude das caravelas que adornam
os quatro cantos do tapete invocando a presença Portuguesa no Oriente
e no Extremo Oriente entre os séculos 15 e 17
90
|
calouste sarkis gulbenkian
Painel de azulejos Iznik, Império Otomano
(ca. 1573)
Inro: caixa em laca, Japão
(séculos 18-19)
Lâmpada de Mesquita,
Síria, período Mamelouke
O HOMEM E A SUA OBRA |
Bíblia Arménia: iluminura.
Constantinopla, 1623
Lâmpada Arménia, cerâmica Kütahya,
século 18
91
92
|
calouste sarkis gulbenkian
arménias foi legada ao Patriarca de
Jerusalém pelo coleccionador.
Mais adiante, do Extremo Oriente
podem ver-se uma importante colecção
de porcelanas chinesas que remontam
ao século XIII, jades translúcidos da arte
chinesa, gravuras japonesas, brocados
de seda e diversos objectos de laca,
onde se inclui uma colecção única de
inros.
A Virgem e o Menino (mármore)
atribuído a Jean de Liège (século 14),
escultor ao serviço da corte do rei
Carlos V de França
Por outro lado, a predilecção de
Calouste Gulbenkian pelas obras de
arte encontra-se estimulada de forma
científica por toda uma série de obras
fundamentais que dão informação
sobre história da arte, arqueologia, pintura, escultura, cerâmica, mobiliário,
ourivesaria, tecidos, numismática e
manuscritos ornados de iluminuras,
cujo alcance resume bem o eclectismo
do gosto e da cultura de Calouste
Gulbenkian. Mas não há apenas obras
documentais. Gulbenkian era um apaixonado por livros antigos. Legou-nos
exemplares raros, manuscritos Orientais com ricas iluminuras e encadernações da Pérsia e da Turquia, e Ocidentais – ingleses, flamengos, holandeses,
italianos e sobretudo franceses, remontando até ao século XVI. Estes livros são
Par de mostardeiras (Antoine-Sébastien Durant), Prata. França, século 18
Museu Gulbenkian Espaço reservado a mobiliário francês do século 18
94
|
calouste sarkis gulbenkian
apresentados em associação com marfins medievais, dípticos e trípticos
que representam cenas da vida de Cristo e da Virgem.
Aproximamo-nos, assim, progressivamente, da arte ocidental, da
arte europeia da Renascença e do século XVII, representada por importantes tapeçarias provenientes de grandes centros da região da Flandres
e de Itália. Seguem-se peças notáveis de mobiliário francês datadas do
século XVIII, da época da Regência, de Luís XV e Luís XVI, bem como
relógios de pêndulo e imponentes peças de prata e de baixela da mesma
época.
Um espaço é especialmente reservado à ourivesaria francesa do
século XVIII, com obras de grande qualidade artística assinadas por
artistas prestigiados como Thomas Germain, Robert-Joseph Auguste,
Martin-Guillaume Biennais, Charles Spire, Louis Regnard, J. N. de La
Tour Roettiers. Muitos deles faziam parte do “Serviço de Paris” do
Palácio Imperial russo. Podem ver-se diversos centros de mesa, mostardeiras, candelabros, serviços de chá, terrinas, etc., cujos motivos ornamentais evocam, sobretudo, temas relativos ao mar, à caça, à pesca e à
natureza nas suas diferentes formas.
A colecção de quadros estende-se dos
Primitivos Flamengos aos Impressionistas (do
século XV ao século XX) com obras dos maiores
mestres das escolas alemã, flamenga, francesa,
holandesa, inglesa e italiana. Incluem-se entre
eles Van der Weyden, e os grandes mestres do
século XVII como Van Dyck, Rembrandt e
Rubens, e ainda uma plêiade de pintores
Busto de São José (Rogier van der Weyden), 1400-1464
“O Espelho de Vénus” (Sir Edward Burne-Jones), Inglaterra, 1875
“Flora”
(Jean-Baptiste Carpeaux), Londres 1873
Retrato de Henri Michel Levy
(Edgar Degas), França, 1878
96
|
calouste sarkis gulbenkian
“O naufrágio” (Joseph Mallord William Turner), Inglaterra, 1810
ingleses que ilustram o final
do século XVIII e o início
do século XIX, como Thomas Gainsborough, George
Romney, John Hoppner,
Sir Thomas Lawrence e
William Turner. A pintura
francesa está profusamente
representada com obras de
Corot, Fragonard, Millet,
Lépine e Fantin-Latour, bem
como de Manet, Degas,
Renoir e Monet, podendo
ver-se também algumas esculturas de Carpeaux. Está
Escrivaninha (Martin Carlin).
Tampo de porcelana de Sèvres que pertenceu à rainha
Maria Antonieta de França
O HOMEM E A SUA OBRA |
97
ainda representado Francesco Guardi, com uma sala inteiramente
dedicada a reproduções de Veneza.
Como foi dito anteriormente, nestas peças incluem-se algumas
provenientes directamente do Museu Hermitage, que vieram enriquecer a colecção de Calouste Gulbenkian com as suas melhores obras.
Para além da Diane de Houdon, Gulbenkian adquiriu dois Rembrandt, um Watteau, um Rubens, e também objectos de prata francesa
de François-Thomas Germain que tinham pertencido a Catarina II da
Rússia.
Outras obras foram também adquiridas a personagens ilustres,
com destaque para a família Rothschild. A Tête de Legros foi comprada
directamente a Rodin, em Novembro de 1910.
“A festa da Ascensão na Piazza San Marco” (Francesco Guardi), Veneza, 1775
98
|
calouste sarkis gulbenkian
A visita ao Museu termina numa secção completamente distinta, considerada única no mundo, dedicada aos objectos criados por
René Lalique, o artista francês da Art Nouveau com quem Calouste
Gulbenkian manteve uma fiel relação de amizade.
Aí encontramos, veiculado pelas jóias mais preciosas, todo um
mundo onírico no qual se exprime uma observação por demais poética
e sensual da natureza e do reino animal. Através de uma magnífica
composição de pedras preciosas e peças de vidro, o artista recriou meticulosamente todos os pormenores da natureza, associando elegantemente movimentos cores e suavidade. Sob a forma das mais belas jóias,
insectos, peixes, répteis, aves, plantas, flores, árvores e nus femininos
ganham nova vida, participando numa paisagem que se torna mágica,
onde se encontram figuras alegóricas e místicas.
Entre estes dois estetas, um poeta-ourives e um poeta da natureza,
é fácil compreender quão fecunda a amizade terá sido.
Jóia (René Lalique). Gargantilha arvoredo: ouro, esmalte, opalas e diamantes
O HOMEM E A SUA OBRA |
99
O Serviço das Comunidades Arménias
No seio da Fundação Calouste
Gulbenkian, o Serviço das Comunidades arménias ocupa um lugar à
parte. De dimensão reduzida, com
uma equipa de sete pessoas entre um
efectivo total de mais de quinhentos
funcionários, este é o único serviço
responsável pelas actividades armenófilas da Fundação. O seu administrador de facto, sempre tem sido
arménio. O Serviço das ComuniKevork Essayan
dades Arménias manteve sempre
uma relação estreita com os membros
da família de Calouste Gulbenkian, assegurada pelo facto de os seus
diferentes administradores terem sempre sido membros da família.
Com efeito, o co-executor do testamento Kevork Essayan, genro de
Calouste, foi também o primeiro administrador do Serviço. O sobrinho de Calouste, Roberto Gulbenkian, que foi educado pelo seu
ilustre parente, sucedeu-lhe em 1964. Retirou-se em 1996, deixando
o lugar de Administrador do Serviço ao seu primo, Mikhael Essayan
– já membro do Conselho de Administração desde 1981 – neto de
Calouste, filho de Rita Gulbenkian e de Kevork Essayan.
O Serviço das Comunidades Arménias foi criado por iniciativa de
Kevork Essayan, em homenagem ao fundador. A actividade do Serviço
destina-se prioritariamente às comunidades arménias da diáspora
repartidas, principalmente, pelos países do Médio Oriente (Turquia,
Egipto, Líbano, Síria, Jordânia, Palestina e Israel), mas também pela
Europa, em particular em França, na Grécia e em Itália, e ainda em
países das América do Norte e do Sul. O seu objectivo principal é a
100
|
calouste sarkis gulbenkian
Escola e Centro Cultural Arménio em Alepo,
construído com o apoio da Fundação
difusão da educação e da cultura
arménias por todos os meios
possíveis. É dada prioridade ao
estímulo de estabelecimentos
escolares e de centros culturais, ao
apoio às igrejas arménias e outros
centros de culto e a disciplinas de
armenologia por todo o mundo, e
ainda ao auxílio a estudantes
universitários, qualquer que seja a
sua área de formação, mas com
atenção particular aos seminaristas, instrumentos por excelência
de transmissão do património
histórico.
Alunos numa escola arménia
Universidade do Estado da República da Arménia, Yerevan
A difusão da cultura arménia passa igualmente por uma preocupação especial com o trabalho de edição de obras científicas de
filologia e de história dos Padres da Igreja arménia, incluindo a edição
de manuscritos antigos e de bíblias em arménio. Este trabalho de
difusão da armenologia é reforçado pelo apoio técnico e científico concedido na Arménia aos diferentes centros intelectuais, culturais e de
investigação, nomeadamente a Academia das Ciências,
o Matenadaran (Biblioteca
de Manuscritos antigos),
a Biblioteca Nacional e a
Universidade Estatal de
Erevan.
Matenadaran, Yerevan
102
|
calouste sarkis gulbenkian
A abertura ao mundo
Desde as suas primeiras iniciativas, em 1955, até aos dias de hoje a
Fundação evoluiu, atravessando diversas fases no seu percurso. As suas
acções iniciais, directas, empíricas e
pontuais, deviam responder à urgência e compensar as faltas do Estado.
Foi a época das primeiras intervenções
em matéria de educação, de investigação científica, de formação artística, de expressão cultural, de saúde
pública, de equipamento hospitalar e
de assistência aos necessitados.
Aníbal Cavaco Silva, Presidente de Portugal, no seu discurso durante a comemoração do cinquentenário da Fundação
Calouste Gulbenkian. Também antigo bolseiro da Fundação Gulbenkian
Durante três décadas, dos anos
50 aos anos 80, a Fundação Calouste
Gulbenkian foi a entidade nacional
mais importante a atribuir bolsas de estudo (ensino secundário,
universitário e pós-graduado). O país assistiu à formação das suas
primeiras elites científicas e culturais. Quase todos os cientistas,
artistas, universitários, investigadores, professores de renome em
Portugal ou no plano internacional, beneficiaram num momento ou
noutro da Gulbenkian.
Mais tarde, o Estado alcança a Fundação, depois ultrapassa-a, fortalecido, desta feita, pelos novos apoios assegurados pela Comunidade
Europeia.
Por sua vez, a sociedade portuguesa vai conhecer um desenvolvimento progressivo. Os seus novos quadros e instituições ganharão
O HOMEM E A SUA OBRA |
103
experiência. O jovem Estado democrático que se rege pelos novos
princípios do Estado Providência investirá, por sua vez, nos domínios
já contemplados pela Fundação. Uma década após a revolução dos
cravos, um novo elemento será catalisador destas novas forças: a
entrada de Portugal, em 1986, na Comunidade Europeia. Um ganho
inesperado para o pequeno país, que beneficiará, de repente, dum
quadro internacional de interesses, de redes solidárias e de uma dádiva
imprevista para as suas próprias intervenções.
De tal modo que, a Fundação, ultrapassada nalgumas das suas
acções, é levada a redefinir-se. No final do século, põe em marcha uma
viragem nas suas actividades. A acção empírica e em função das
circunstâncias, segundo a urgência das necessidades, é descartada em
prol de uma actividade indirecta e programada no tempo. Em vez de
se dispersar em todas as direcções, a Fundação passa a uma era de
estratégia, de planificação a prazo. E porque a Educação e as Artes, em
particular, se tornaram domínios em bom funcionamento, que gozam
de relevo em matéria de instituições estatais e privadas, a Fundação irá
fazer um esforço suplementar no domínio das Ciências e do Social.
As novas prioridades já não são especificamente portuguesas ou
lusófonas, mas inscrevem-se num quadro internacional em mudança e
dizem respeito a questões actuais da sociedade: o ambiente, a inserção
social, o diálogo intercultural e religioso, as migrações e a mobilidade,
a valorização do capital humano, etc. Novos desafios para a Fundação.
Esta esforçar-se-á por encontrar respostas originais, criativas. Cabe-lhe
agora a função de dar o exemplo, criar modelos, dar orientação.
Para este fim, a Fundação concebeu uma nova linha de actividades que são os «Programas Gulbenkian», que se estendem num quadro
temporal limitado, e que constam de acções de natureza diversa sobre
um mesmo tema: ciclos de conferências, cursos de formação, edições
Conferência Internacional organizada pelo Serviço de Educação e Bolsas
dedicada a crianças e sua relação com a Internet
de obras, espectáculos, filmes documentais, emissões televisivas, etc.
São fruto de iniciativas próprias ou criadas em parceria com outras
instituições. Entre estes programas incluem-se o PG da língua portuguesa, o PG de luta contra o insucesso escolar, o PG de criação artística, o PG Ambiente ou ainda o programa consagrado à ajuda ao
desenvolvimento.
Também os métodos se transformam, sobretudo com vista a economizar, racionalizar e concentrar meios e iniciativas. A Fundação
procura, paralelamente, atrair um público mais jovem em consonância
com a emergência de uma nova Cultura de Juventude na sociedade. Os
seus novos projectos educativos, por exemplo ao nível das artes plásticas e musicais, convidam os jovens a vir às suas instalações descobrir e
compreender os grandes mestres da música e da pintura.
O HOMEM E A SUA OBRA |
105
Paralelamente às actividades, a sensibilização para os problemas
actuais faz igualmente parte dos desafios lançados pela Fundação. As
agora famosas conferências nacionais e internacionais que têm lugar
regularmente na sede da instituição, com um público diferente e cosmopolita, abordam todos os temas da actualidade: Saúde mundial,
Biologia, Artes, Comunicação social, Europa, Paz, Relações internacionais, Migrações, Economia, Filosofia, Ciência, etc.
Mas a Fundação, agora parte do European Foundation Centre
(EFC), assumiu resolutamente uma política de abertura, para lá das
suas fronteiras: cada vez mais envolvida, em conjunto com as principais fundações europeias, em acções concertadas, amplas e bem compreendidas. Neste momento a Fundação participa activamente num
projecto denominado «Global Philanthropy Leadership Initiative» que
compreende as várias actividades desenvolvidas pela comunidade das
organizações de filantropia internacionais. Tem por objectivo assegurar
a essas organizações um melhor enquadramento jurídico e fiscal, assim
como de incentivar a colaboração dos seus actores a partir de novos
modelos, e bem assim de identificar a natureza política et os catalisadores do diálogo.
É ainda de notar que a Fundação criou, por ocasião do seu
50.º aniversário, em 2006, um Prémio internacional especial, em
memória do seu fundador. O Prémio, no valor de 100.000 euros, é
atribuído todos os anos a uma entidade seleccionada por um Júri
internacional, que se empenhe na compreensão, defesa e promoção dos
valores universais da condição humana.
Fortalecida pelas suas novas iniciativas em prol de uma sociedade
em evolução e que começam, pouco a pouco, a emergir de Portugal
para incidir num cenário internacional, a Fundação empreende uma
viragem decisiva. Nas palavras do actual Presidente, Emílio Rui Vilar:
Cerimónia de entrega do Prémio Internacional Calouste Gulbenkian atribuído à organização Árabe-Israelita “Hand in Hand” pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. À sua esquerda E. Rui Vilar,
Presidente da Fundação e à sua direita, Jorge Sampaio, antigo Presidente da República Portuguesa
«A Fundação Gulbenkian, em conformidade com o testamento do seu
Fundador, é de natureza internacional. Devemos assumir a nossa responsabilidade enquanto parte activa
na sociedade à escala global. É agora
o momento de dar conta de uma
das características próprias da Fundação, que é a nossa capacidade de
trabalhar além das fronteiras nacionais, de tirar partido e partilhar
experiências de diversos países para
o bem de todos. A nossa missão é
O Prémio internacional Calouste Gulbenkian
O HOMEM E A SUA OBRA |
107
nada menos que abordar as questões do nosso tempo. E, nesse aspecto,
não somos modestos. Dispomos dos meios humanos e financeiros,
bem como da determinação necessária para o fazer».
À imagem de Calouste Gulbenkian, o arquitecto visionário e
cidadão do mundo, a sua instituição aprendeu a adaptar-se, a reagir, a
construir e a antecipar. No plano português é certo, mas também em
termos internacionais. Aprende-o ainda hoje graças aos seus contactos
com outros países, outras instituições, com as quais procura conhecer
e partilhar experiências. A sua determinação, aliada aos seus meios
financeiros e a um capital humano rico de mais de cinquenta anos de
actividades, fornecem-lhe hoje em dia os meios necessários para cumprir a vocação a que se propôs e que é dirigida à sociedade civil a nível
global: a de detectar as fragilidades sociais actuais, catalisar a criação de
programas adaptados e, por fim, conduzir a sua execução. Ao fazê-lo a
Fundação retoma, seguramente, a sua vocação e assume em pleno,
doravante, as últimas vontades do seu fundador.
AGRADECIMENTOS
Duas pessoas orientaram-me na realização desta obra: Zaven
Yegavian que pelos seus ricos conhecimentos do mundo arménio,
oportunamente sugeriu e permitiu reenquadrar a personagem de
Calouste Gulbenkian, e antes dela, a sua ilustre família no seu ambiente
natural, o Império Otomano do século XIX. Devo-lhe igualmente uma
releitura activa que garante à obra toda a sua autenticidade histórica.
Congratulo-me por outro lado pela sua paixão por documentos
antigos que permitiu a utilização de raros documentos iconográficos
referentes à parte otomana.
Martin Essayan, o bisneto de Calouste Gulbenkian cujas
preciosas informações, extraídas por vezes da memória da família e
geralmente aliadas ao rigor que lhe é próprio e ao cuidado meticuloso
pela verdade que me orientaram constantemente nas pesquisas de
informação, em particular no que diz respeito às páginas dedicadas ao
petróleo. Devo igualmente ao seu sentido inato de objectividade a
versão final das páginas que traçam a génese da instituição.
Que um e outro encontrem aqui a expressão do meu profundo
agradecimento.
Gostaria igualmente de agradecer a todas as pessoas que me
ajudaram na realização iconográfica desta obra, em particular: Arman
Amirkhanian, Elisabete Caramelo, Fernanda Sanchez, Henrique
110
|
calouste sarkis gulbenkian
Fernandes, Honória Eleutério, Isabel Moura, Joana Grilo, Margarida
Caixeiro, Marta Areia e Nuno Vassallo e Silva.
Um agradecimento especial ao Paulo Emiliano pelo seu auxílio na
realização da árvore genealógica.
CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS
Arquivos da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa (em particular:
Carlos Azevedo, Catarina Gomes Ferreira, Margarida Ramalho,
Mário de Oliveira, Nuno Vieira et Reinaldo Viegas)
Arquivos da Câmara Municipal de Lisboa, núcleo Fotográfico:
pág 60: Autor: Benoliel, Judah – JBN003663,
pág 61: Autor: Guedes, Paulo – PAG000429,
pág 62: Autor: Guedes, Paulo – PAG000447,
pág 63: Autor: Guedes, Paulo – PAG000488,
pág 73 – Autor: Fotógrafo não identificado – A77598.
Ingrid Yegavian, Lisboa
Arsen Yarman, Istambul
Silva Trika, Istambul
Makrouhie Hagopian, Istambul
Alexandre Virabyan, Yerevan
Hratchia Tamrazyan, Yerevan
Kevork Hintlian, Jerusalém
Aroush Essayan, Alepo
Mgr Kegham Khatcherian, Beirute
Mgr Vahan Topalian, Amman
Catherine Pinguet, Paris
Garwood & Voigt, England
BIBLIOGRAFIA
AKYILDIZ, Ali: Osmanli Donemi Tahvil ve Hisse Senetleri “ottoman securities”,
2001 Istanbul (Turk Ekonomi Bankasi A.S.).
ANTUNES, José Freire: Salazar e Caetano: Cartas Secretas – 1932-1968, Difusão cultural, Lisboa 1994.
BARRETO, António: Fundação Calouste Gulbenkian, Cinquenta Anos 1956-2006,
Lisboa 2007.
CONLIN, Jonathan: Análise Social, (Revista do Instituto de Ciências Sociais
da Universidade de Lisboa) vol. XLV (n.º 195), 2010, 277-306: Philanthropy without borders: Calouste Gulbenkian’s founding vision for the
Gulbenkian Foundation.
ELDEM, Edhem: In search of the Gulbenkian, Sakip Sabanci Muzesi, Istanbul
2006.
ELDENE, Edhem: 135 Yillik bir Hazine, Osmanli Bankasi Arsivinde Tarihten
Izler, 1997 Istanbul.
OSOKINA, Elena A.: De l’or pour l’industrialisation, in Cahiers du Monde
russe, 41/1, Paris, Janvier-mars 2000, pp. 5-40.
GUIRAGOSYAN, Aleksan: No limiar do crepúsculo: Memórias e reflecções redigidas em Arménio pelo Vice Presidente do Conselho da Républica da
Arménia, Yerevan, Nayri, 2002.
GULBENKIAN, Nubar: Pantaraxia, An autobiography, London 1965.
HEWINS, Ralph: Calouste Gulbenkian – O Senhor Cinco Por Cento, Ed. Texto
Editores, Lda, Lisboa 2009.
114
|
calouste sarkis gulbenkian
NOGUEIRA, Franco: Salazar, O Ataque (1945-1958). Vol. IV, 4.ª ed., Civilização Editora, Porto, 1986.
OUGHORLIAN, Père Drdad: História da Família Gulbenkian (em Arménio e
sob a direcção de Kevork Pamboukdjian), Antelias 2006.
PAMPER MADERATARANI, vol. 14, Madenataran, Yerevan 1984.
PERDIGÃO, José Azeredo: Calouste Gulbenkian Coleccionador, Fundação
Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2006.
TRABULO, António: O Diário de Salazar, ed. Parceria A.M. Pereira, Livraria
Editora Lda, Lisboa 2008.
YERGIN, Daniel: The Prize: the epic quest for oil, money and power, Free Press,
New York, 1990.
ÍNDICE
PREFÁCIO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
9
O HOMEM . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
11
11
23
24
29
36
43
48
60
Filho do Império Otomano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A viagem iniciática . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O arquitecto visionário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O Senhor Cinco por cento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O sábio dos Enclos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O Coleccionador . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O Arménio sem fronteiras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Lisboa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A FUNDAÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A Génese . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O Testamento e os estatutos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
As primeiras actividades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Retrato actual . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O Museu . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O Serviço das Comunidades Arménias . . . . . . . . . . . . . . . .
A abertura ao mundo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
63
63
67
72
77
86
99
102
AGRADECIMENTOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
109
CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
111
BIBLIOGRAFIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
113
Edição:
ASTRIG TCHAMKERTEN
© Fundação Calouste Gulbenkian
Serviço das Comunidades Arménias
(Texto original em Francês)
Empresa tradutora:
[email protected]
Maquette:
Pedro António
Execução Gráfica:
G. C. – Gráfica de Coimbra, Lda
Palheira – Assafarge
3001-453 Coimbra
[email protected]
Nova Edição, 2010
Depósito Legal n.º 319764/10
ISBN 978-972-8767-23-5
CALOUSTE
SARKIS
GULBENKIAN
O Homem e a sua Obra
Nova edição
FUNDAÇÃO
CALOUSTE
GULBENKIAN
Serviço das Comunidades Arménias
Lisboa 2010
Vista de Constantinopla no tempo de Calouste Gulbenkian
Download

CALOUSTE SARKIS GULBENKIAN - Fundação Calouste Gulbenkian