CALOUSTE SARKIS GULBENKIAN O Homem e a sua Obra Nova edição FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN Serviço das Comunidades Arménias Lisboa 2010 Vista de Constantinopla no tempo de Calouste Gulbenkian CALOUSTE SARKIS GULBENKIAN O Homem e a sua Obra Nova Edição FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN Serviço das Comunidades Arménias Lisboa 2010 A Kevork Essayan a quem devemos a criação do Serviço das Comunidades Arménias. Relembramos aqui também a memória de Roberto Gulbenkian, recentemente falecido, sobrinho de Calouste Gulbenkian e primo de Kevork Essayan. Durante toda a sua carreira na direcção da Fundação, consagrou-se às questões relevantes do petróleo e das finanças da instituição bem como às actividades do seu Serviço arménio. GULBENKIAN de Cesareia Serope Sarkis = Dirouhie Gulbenkian (primo afastado) Vahan da Algéria = Françoise Triays Robert (nasc. em Alger) = Paulette Berthelier Georges Mikaël (2 filhos) Serge (2 filhos) ESSAYAN de Cesareia Karnig André Ohannes = Virginie Hovassapian (2 filhos + 3 filhas) Calouste = Nevarte Nubar G. (sem descendentes) Marc (3 filhos) As grandes famílias arménias do Império Otomano casavam-se frequentemente entre si. Sem qualquer margem para dúvidas estes casamentos poderiam ser uma boa forma de fomentar relações e de ascensão na escala social. Foi desta forma que o casamento de Calouste com Nevarte Essayan, permitiu aos Gulbenkian – recentemente estabelecidos em Constantinopla e de acordo com Nubar, considerados um pouco “provincianos” – o acesso à grande família dos Essayan, os quais, tinham acesso à corte imperial. De igual modo, o casamento do primo de Nevarte, Vahan, permitiu relacionar os Essayans com uma família ainda mais prestigiosa, a família Karakehya. A influência desta família remonta ao tempo do avô de Abraham Pacha, que teve oportunidade de ajudar o jovem Mohamed Ali, quando este não era mais do que um simples sargento. Esta foi um golpe de sorte pois o jovem sargento tornou-se Vice-Rei do Egipto e cobriu Karakehya de honrarias e devotou-lhe uma confiança que se manteria ao longo da vida. KARAKEHI A do Egipto (3 filhas + 3 filhos) Meguerditch = Anna (1 filho) Abraham Pacha = Foulik Yazdjian (2 filhos + 2 filhas) Vahan = Anna Rita G. = Kevork Arax Foulik = Nubar Pacha Nubar (1 filho + 2 filhas) Boghos Pacha Nubar = Marie Dadian (4 filhos + 1 filha) Zareh Eram Mikhaël E. = Géraldine Guinness Martin (3 filhos) Joanna (2 filhos) O seu filho Kevork Bey foi tesoureiro do Vice-Rei do Egipto e consolidou a reputação da família em termos de honestidade e lealdade, contrariando todas as armadilhas e tentações da sua função, tendo acabado os seus dias na pobreza. Abraham Pacha era amigo pessoal do Sultão e tinha o hábito de jogar com ele, sem dúvida numa situação de impasse, sem vencedor ou vencido. Foi o único cristão do Império a ter obtido o título de Ministro de Estado, com a designação de Hazret que significa « Mestre ». Foulik, a irmã de Abraham, casou com Nubar Pacha, o futuro Primeiro-Ministro do Egipto. Quanto ao seu filho Boghos Pacha Nubar, que ajudou muito Calouste quando este se estabeleceu em Londres, casou-se na família Dadian que dominava a indústria otomana do armamento. PREFÁCIO Enquanto único neto de Calouste Gulbenkian, e o mais velho dos seus descendentes vivos, é com grande prazer que escrevo um curto prefácio a esta admirável brochura da autoria da minha muito querida, velha amiga Astrig Tchamkerten, com quem partilho um trisavô, Kevork Bey Karakehya, pai de Abraham Pasha. Em 1955, quando meu avô morreu, tinha eu 28 anos de idade. Antes da guerra, ainda criança, pude conhecê-lo de perto, nos anos em que habitei em Paris, parte do tempo na sua casa na Avenida de Iéna. Durante a guerra não estivemos em contacto porque, por essa altura, fazia os meus estudos em Inglaterra, antes de entrar para o Exército, mas depois tive oportunidade de conhecê-lo bem. Penso que ninguém na família consideraria o meu avô como um parente particularmente acessível ou condescendente, mas todos estávamos de acordo de que era uma pessoa de calibre excepcional. Tinha uma personalidade forte e enérgica, que combinada com um julgamento invulgarmente sagaz quanto ao carácter dos outros, lhe permitia quase sempre colocar-se numa posição moral superior, e levar a melhor sobre qualquer pessoa com quem estivesse em desacordo. O que mais admirei nele foi o facto de, ao contrário de tantas outras pessoas que acumularam grandes fortunas, não ter qualquer desejo de grandeza social, e detestar todas as formas de ostentação, que 10 | calouste sarkis gulbenkian encarava como sinais de vulgaridade. (Os seus relógios favoritos eram Ingersolls de 40 xelins, que comprava à dúzia e atirava fora quando não funcionavam). Ao contrário de sua mulher, filho e filha, que sempre apreciaram a vida social, não sentia qualquer desejo de socialização e preferia estar sozinho. “Repliez-vous sur vous même” foi o conselho que me deu quando eu estava em Oxford. A minha mãe observou uma vez que as únicas coisas que de facto interessavam ao meu avô eram o petróleo, a arte e a horticultura. A primeira deu-lhe a sua riqueza, que lhe permitiu construir uma magnífica colecção da segunda e apreciar a terceira em Les Enclos, a sua encantadora propriedade em Deauville, como Astrig tão eloquentemente a descreve. MIKHAEL ESSAYAN O HOMEM Filho do Império Otomano Calouste Gulbenkian descende de uma família arménia ilustre, cujas origens remontam ao século IV. Os seus antepassados, os Príncipes de Rechdouni, possuíam antigas propriedades feudais na parte sul do lago Van, situado na Grande Arménia. Esta região, também conhe- Cesareia na Capadócia no início do século XX 12 | calouste sarkis gulbenkian A antiga casa de Gulbenkian em Talas, perto de Cesareia, presentemente propriedade do estado Turco cida por Vaspourakan, marcou com o seu cunho a história armeno-bizantina até ao século X. No século XI, no reinado de Sénékérim de Vaspourakan, os Príncipes de Rechdouni com os seus familiares estabeleceram-se em Cesareia da Capadócia, um dos mais antigos berços do cristianismo oriental. Adoptaram, então, o patrónimo Vart Badrik, um título nobiliário bizantino. Com a chegada dos Otomanos ao poder, no século XVII, o patrónimo Vart Badrik foi adaptado para a forma turca de Gulbenkian. Desde 1800 e até onde remontam os nossos arquivos, as sucessivas gerações dos Gulbenkian deram sempre mostras de grande generosidade para com as comunidades arménias, tanto na própria Arménia, como no que diz respeito às comunidades no Império otomano, onde a família tem as suas raízes. Os Gulbenkian já contavam na altura com um longo e brilhante passado. O HOMEM E A SUA OBRA | A primeira impressora a funcionar na Terra Santa era propriedade do Patriarcado Arménio de Jerusalém 13 14 | calouste sarkis gulbenkian De facto, os Arménios desempenharam um papel determinante no Império otomano, o qual se organizava segundo o sistema de millets. O millet arménio, em particular, era conhecido pelo seu dinamismo e pela sua lealdade para com o Império. No campo económico, o seu estatuto como ourives, banqueiros, comerciantes ou industriais, fazia deles verdadeiros pontos de referência e forças motrizes nas suas áreas de actividade. A sua reconhecida lealdade ao Império permitiu que algumas famílias arménias acedessem a posições sensíveis como sejam o fabrico de armamento, o apetrechamento do exército, a indústria tipográfica e a actividade bancária comercial, da qual tinham quase o monopólio no Império: dezasseis entre os dezoito banqueiros mais importantes do Império eram arménios. Mas a dinâmica arménia no Império não se traduz apenas ao nível do comércio. Os arménios estão presentes, com responsabilidades ao mais alto nível, praticamente em todos os sectores da economia. No século XIX algumas famílias arménias tornam-se ourives da Corte, ocupando-se da gestão das reservas de moeda, ouro e prata e, também, das taxas aduaneiras. A eles se deve ainda a introdução da arte cerâmica, no século XV em Kutahya, e também da fotografia, no século XIX. Os Arménios adquiriram mesmo o estatuto de fotógrafos oficiais do sultão otomano. É também digno de Os três irmãos Abdullah: Kevork, Abraão e Hovsep, fotógrafos oficiais do sultão O HOMEM E A SUA OBRA | 15 nota que a tapeçaria artesanal foi introduzida e desenvolvida graças aos esforços de Arménios, e ainda que os arquitectos arménios deixaram a sua marca, durante séculos, em numerosas obras de prestígio do Império. Além disso, mais de 45% da produção industrial era propriedade de Arménios. As redes de agentes por eles estabelecidas permitiam-lhes estender as suas actividades de um extremo ao outro do Império. Entre os séculos XVI e XIX encontramo-los à frente do comércio entre o mar Mediterrânico e o mar Negro e, também, no Irão e na Índia. No ocidente tinham contactos com países europeus graças ao porto de Esmirna. A quantidade de mercadorias que os comerciantes arménios transaccionavam era assinalável, podendo avaliar-se a sua dimensão se se tiver em linha de conta que as taxas aduaneiras que pagavam constituíam uma das principais fontes de receita do Estado ! Deste modo, graças às suas relações familiares, os Arménios tinham criado uma eficiente rede de ligações entre diferentes pontos do Império, com ramificações tanto a oriente como a ocidente. A maioria das grandes famílias que se dedicavam à importação-exportação eram também banqueiros. Era o caso da família Gulbenkian, a qual depois de Cesareia tinha estendido as suas relações a Constantinopla e estabelecido delegações em Isfaão, Erzerum, Esmirna, Adana, Alepo, Bassorá, Bagdade, Mossoul e Tiflis. Criaram, em seguida, novas delegações em Marselha, Lion, Paris, Londres e Manchester e, mais tarde, estabeleceram-se mesmo em Nova Iorque. Os Gulbenkian foram também responsáveis pela introdução no Império de numerosas tecnologias de ponta, em particular nas áreas da medicina e da agricultura. Eram detentores de uma das sociedades de exportação mais importantes do Império. Mas, para além desta vibrante dinâmica comercial, os Gulbenkian empenharam-se em várias acções de cariz filantrópico a favor dos seus 16 | calouste sarkis gulbenkian Caricatura de Abraham Pasha Karakehia, um dos dignitários do Ministério das Finanças Otomano com o título de Amir. Bisavô de Mikhael Essayan. Os documentos apresentados nas páginas 16 – apólice de seguro com a assinatura de Abraham Pasha – e 17 – um documento referente a um empréstimo do Banco Imperial Otomano O HOMEM E A SUA OBRA | 17 18 | calouste sarkis gulbenkian compatriotas otomanos, com a criação de hospitais, escolas, igrejas, auxílio a artistas e intelectuais, distribuição de alimentos em tempo de crise e, mais tarde, depois dos acontecimentos de 1915, a criação de espaços na Mesopotâmia para acolher refugiados 1. Calouste com 3 anos Por volta de 1860, Sarkis Gulbenkian, pai de Calouste, instala-se nas margens do Bósforo. Era, então, proprietário de importantes explorações de petróleo, adquiridas na Transcaucásia, e também representante da firma internacional de Alexandre Mantacheff no Império Otomano, no que dizia respeito a petróleo para iluminação e aquecimento. Calouste Sarkis Gulbenkian, filho de Sarkis e Dirouhie, nasce a 23 de Março de 1869, na parte asiática de Istambul, em Scutari da Calcedónia – hoje Üsküdar. Em 1892 desposa em Londres Nevarte Essayan, tal como ele natural de Cesareia e descendente de família arménia nobre e abastada. O seu pai e o seu tio, tal como os seus antecessores, mantêm relações cordiais com a Corte Otomana, as quais viriam a revelar-se inestimáveis para Calouste Gulbenkian. Nevarte 1 Em reconhecimento dos serviços prestados à Pátria, o Governo, em 1872, outorgou ao pai e ao tio de Calouste Gulbenkian, a ordem de Medjidiyeh, a mais alta condecoração otomana. O HOMEM E A SUA OBRA | 19 Retratos de Sarkis e Dirouhie Gulbenkian, Pais de Calouste Gulbenkian dá-lhe dois filhos: Nubar Sarkis, que nasceu em 1896 em Kadikoy (Calcedónia), perto de Istambul, e faleceu em Cannes em 1972; e Rita Sirvarte, nascida em Londres em 1900 (falecida em Paris em 1977), que mais tarde desposará Kevork Essayan, um dos executores testamentários de Calouste Gulbenkian. O filho de Kevork, Mikhael Essayan, é Presidente honorário da Fundação, enquanto que o neto de Kevork, Martin Essayan – bisneto de Calouste Gulbenkian – é, actualmente, administrador da Fundação, responsável pelas actividades na Grã-Bretanha e na República da Irlanda, e também pelo Serviço das Comunidades arménias. Depois de Calouste nascerão ainda dois irmãos, Karnik e Vahan. O último desposará uma Francesa de quem terá, por seu turno, três 20 | calouste sarkis gulbenkian Üsküdar, a parte asiática de Istambul, na altura do nascimento de Calouste Gulbenkian filhos: Georges, André e Roberto (administrador reformado da Fundação). Calouste Gulbenkian faz os seus primeiros estudos em Kadikoy (Calcedónia), inicialmente na escola arménia Aramyan-Uncuyan e mais tarde na escola francesa de St. Joseph. Parte seguidamente para Marselha, para aprofundar o conhecimento Calouste rodeado de Karnig e Vahan O HOMEM E A SUA OBRA | 21 Retrato de família: Em primeiro plano: Calouste e Nevarte Gulbenkian. Em segundo plano, da esquerda para a direita: Kevork Essayan e a sua mulher Rita, Roberto Gulbenkian, Mikhael Essayan, Nubar Gulbenkian e a sua mulher. da língua francesa. Prossegue os seus estudos secundários no prestigiado colégio americano « Robert College », junto ao Bósforo, (hoje uma Universidade) e, em 1887, termina a sua formação, diplomando-se com distinção em Engenharia e Ciências Aplicadas no «King’s College» de Londres. Contava, então, apenas 18 anos. Toda a vida do mecenas decorrerá entre o Médio Oriente, por um lado, e o Ocidente, por outro. Na cidade de Londres (1897-1920) instalou o seu escritório, tendo adquirido a nacionalidade britânica em 1902. Em França, nomeadamente em Paris (1920-1940), estabeleceu a sua residência principal, a qual foi também lar dos prestigiados objec- Foto do Bósforo pelos Irmãos Abdullah tos de arte que foi coleccionando ao longo dos anos e que conservava religiosamente. Mas, Calouste Gulbenkian, o Arménio, acredita, também, no renascimento da Arménia após os acontecimentos trágicos de 1915, e contribui activamente para a causa. Nas suas viagens entre Paris e Londres, e apenas por puro patriotismo, usa o seu passaporte arménio, emitido especialmente por Avedis Aharonian 2. Lisboa corresponde à última etapa da sua vida (1942-1955). Morre nesta cidade a 20 de Julho de 1955, com a idade de 86 anos. Passara os últimos 13 anos neste refúgio que fora capaz de lhe proporcionar paz. Istambul, a cidade mais oriental da Europa, vira-o nascer. Lisboa, a ocidental, receberá as suas últimas vontades. Entre estas duas capitais, do Bósforo ao Tejo, é possível estabelecer paralelismos, encontrar semelhanças e, sem dúvida, traços civilizacionais comuns, que iriam mais tarde servir de alicerces à sua futura instituição. As cinzas de Calouste Gulbenkian repousam em Londres, na Igreja de Saint Sarkis que mandara construir em 1922, em memória dos seus pais. 2 Escritor e Presidente da Delegação da República Arménia na Conferência de Paz de Versalhes em 1918. O HOMEM E A SUA OBRA | 23 A viagem iniciática O jovem Calouste, recém-diplomado, é alvo de atenção e incentivo por parte do futuro Lorde Kelvin, um físico de génio. Sonha, então, enveredar pela investigação científica, mas o seu pai dissuade-o. Calouste Gulbenkian renuncia com relutância. Manterá, no entanto, durante toda a sua vida o interesse pela ciência e pela natureza, como veremos mais adiante. Aos 20 anos, encorajado por seu pai, Calouste Gulbenkian parte para Baku para um primeiro contacto Reedição de uma das suas obras que despertou a atenção do Ministro das Minas do Governo otomano Mapa da Transcaucásia (Império Russo), na parte mais oriental, Baku e a Península de Apcheron que desembocam no mar Cáspio 24 | calouste sarkis gulbenkian com o mundo do petróleo e para enriquecer a sua formação. A viagem apaixonante pelos campos petrolíferos motiva-o a redigir um estudo para a prestigiada Revue des Deux Mondes (Paris), intitulado «Le pétrole, source d’énergie», e no seguimento, descreverá esta aventura na obra «La Transcaucasie et la Péninsule d’Apchéron – Souvenirs de voyage». Essas obras, num prenúncio do reconhecimento do fabuloso potencial das jazidas de petróleo do Médio Oriente, são bem acolhidas e atraem a atenção do Ministro das Minas do governo otomano. Este pede ao jovem Calouste que elabore um relatório sobre as jazidas petrolíferas do Império, em particular as da Mesopotâmia (Iraque). O relatório, que revela uma mente aberta e inteligente, agrada ao Ministro. Ao seu perspicaz autor não passou sem registo a penetração económica alemã, em paralelo com a progressão do caminho-de-ferro na Anatólia (a famosa linha BBB – Berlim, Bósforo, Bagdade), cujo objectivo era alcançar Bagdade e o Golfo Pérsico. Com efeito, os Alemães esforçavam-se por assegurar o controlo dos recursos minerais do Império otomano, e a linha ferroviária que ia de Oeste a Este através do Império até ao Golfo Pérsico e que deveria facilitar a instalação de colónias alemãs em ambos os lados desta fronteira. A par da subjugação da Turquia, os alemães poderiam também, deste modo, cortar aos Britânicos a famosa rota terrestre das Índias. O arquitecto visionário Em 1896, no seguimento dos primeiros pogroms anti-arménios, a família Calouste Gulbenkian deixa a sua terra natal para se refugiar no Egipto. Viaja a bordo de uma embarcação fretada pelos Essayan (família de sua mulher), e trava conhecimento com o famoso Alexandre Mantacheff, reputado concessionário de campos de petróleo em Baku, O HOMEM E A SUA OBRA | 25 Poços de petróleo em Baku que o introduz nos meios mais selectos do mundo do petróleo. O jovem Gulbenkian apreende rapidamente todos os mecanismos e segredos do meio, para o qual demonstra não só refinada sensibilidade, mas também uma veia diplomática apurada, que não tardará a pôr em prática. No final do século XIX, quando a indústria internacional do petróleo era ainda embrionária, Calouste Gulbenkian é confrontado com o cepticismo dos grandes financeiros internacionais e dos industriais. No entanto, como verdadeiro visionário, está já convencido da necessidade de uma exploração racional do petróleo, que pode dar acesso à mais prodigiosa das fontes de energia. As suas batalhas serão disputadas em torno do petróleo da Mesopotâmia. 26 | calouste sarkis gulbenkian O jovem Calouste rapidamente se lança ao trabalho. Enquanto Britânicos e Alemães, cada um por seu turno, procuram sem sucesso obter concessões petrolíferas do Governo turco, Calouste Gulbenkian faz uso dos seus conhecimentos e competências orientais e ocidentais. É assim que ele, o emigrante oriental, conseguirá conciliar os interesses turcos e os interesses de várias nações, então divergentes, como os dos BritâniCalouste Gulbenkian muito hábil cos, Holandeses ou Alemães. no aproveitamento dos seus conhecimentos Estas negociações conduzirão a e competências orientais e ocidentais uma aliança inesperada com os Turcos para a exploração do petróleo do Império otomano. Uma verdadeira proeza! Estas primeiras negociações vão constituir uma espécie de modelo, de trampolim para futuras negociações. Os esforços incansáveis de Gulbenkian permitiam ultrapassar as situações mais inextricáveis. O seu método? Empregava todos os meios para superar o espírito de competição e fazer convergir interesses diferentes em prol de uma causa maior: a outorga de concessões, e mais tarde a exploração organizada e pacífica dos recursos naturais do Médio Oriente. Além disso, Gulbenkian sabe também que a estabilidade do «edifício» que irá laboriosamente construir está dependente de um conjunto de actores. Quanto mais numerosos forem e mais satisfeitos O HOMEM E A SUA OBRA | 27 estiverem, mais sólida será a estrutura e mais consolidada estará a sua própria participação. Mais do que um homem do petróleo, considerava-se um “arquitecto de equilíbrios geopolíticos”, dirá mais tarde sobre ele o seu bisneto, Martin Essayan, “um arquitecto ao serviço de uma visão clara, dos melhores interesses e de estruturas adequadas”. Para além do seu papel decisivo ao mais alto nível “O arquitecto do equilíbrio geopolítico” no mundo do petróleo e da finança, Gulbenkian ganhará ainda uma autoridade notória no campo político. Servirá os interesses do Império otomano, a sua pátria, e será nomeado em 1898, conselheiro económico e financeiro junto das embaixadas otomanas em Paris e Londres. Em 1902, obtém a nacionalidade britânica, um trunfo que lhe permitirá servir os interesses de ambas as pátrias, tendo em conta a grande influência dos Britânicos sobre o Império Otomano. A sua posição sai, assim, reforçada. Além disso, Calouste Gulbenkian, que é igualmente persa por parte de sua mãe, será também abordado pelos serviços diplomáticos da Pérsia. Estes confiar-lhe-ão, após a Primeira Guerra mundial, a responsabilidade de Representante comercial e diplomático da Pérsia em Paris, função que desempenhará durante 24 anos. 28 | calouste sarkis gulbenkian Acção do Banco da Turquia de cujo conselho de administração C. Gulbenkian era membro Acção da Sociedade Comercial Otomana, emitida em 3 idiomas (francês, arménio e árabe). C. Gulbenkian desempenhou um papel importante nesta Sociedade O HOMEM E A SUA OBRA | 29 O Senhor Cinco por cento Pouco antes da Revolução dos Jovens Turcos (1908), o Sultão concedeu a Calouste Gulbenkian a prerrogativa de realizar prospecções em todo o território mesopotâmico. Em 1910 é fundado o Banco Nacional da Turquia com o objectivo de agilizar o desenvolvimento económico do país 3. Gulbenkian, que como vimos é já conselheiro das embaixadas otomanas em Londres e em Paris, é nomeado também conselheiro do novo Banco. Encetará em breve negociações com os interesses alemães que procuram a qualquer preço penetrar no Império otomano e obter concessões mineiras. Gulbenkian está em vias de estabelecer o seu próprio império petrolífero. Cria em 1912, a Turkish Petroleum Company (TPC) com o objectivo de obter uma concessão e explorar os recursos petrolíferos. A concessão que adquire em 1914 vem agitar as águas entre as companhias já instaladas na Mesopotâmia, com actividade em todo o território do Império otomano 4. A nova companhia compreende quatro parceiros: a holandesa/britânica Royal Dutch-Shell (25%), o Banco Nacional da Turquia (35%), o Deutsche Bank (25%) e Calouste Gulbenkian (15%). Graças à TPC o Golfo Pérsico iria em breve dar a 3 Mas, paradoxalmente, os capitais do Banco Nacional da Turquia estão exclusivamente em mãos britânicas. 4 Os Britânicos fundariam em breve, a partir de uma concessão na Pérsia, a companhia Anglo-Persian Oil Company, futura BP. Trata-se de uma concessão que Calouste Gulbenkian tinha, a seu tempo, recusado, por considerar que seria demasiado aleatória e arriscada. A concessão foi adquirida por um Inglês, William Knox D’Arcy. Só após 7 anos de espera vertiginosa e desesperante, o petróleo pôde ser extraído em quantidades comerciais. Afinal, Calouste Gulbenkian perdera uma oportunidade preciosa. 30 | calouste sarkis gulbenkian conhecer ao mundo o potencial das suas fabulosas reservas, correspondentes a metade das reservas de petróleo conhecidas no planeta! Calouste Gulbenkian, com a fundação da TPC, assegurou à nova Turquia trunfos de peso para o seu progresso económico: a concessão dos Alemães, a experiência da Companhia Shell em exploração e refinação, e ainda os apoios do Banco Nacional da Turquia e do Deutsche Bank. Gulbenkian contribuía ainda para este edifício notável com a mais-valia que representavam as suas relações políticas e o seu talento de negociador. A jovem Companhia progride rapidamente. Por seu turno a Anglo-Persian Oil Company (criada em 1909), que não faz parte da TPC, esforça-se, em vão, para estender a sua área de concessão da Pérsia à Mesopotâmia. É então que, decidida a alcançar os seus objectivos, e aproveitando o apoio do Foreign Office 5 Companhia anglo-persa faz pressão sobre a TPC para que a participação do Banco Nacional Turco seja transferida para ela. A Companhia cobiça igualmente as acções de C. Gulbenkian. De tal modo que, após múltiplas e fastidiosas negociações entre o sector do petróleo e os diversos interesses financeiros em jogo, decorridas entre 1913-14, a TPC é reorganizada em 1914 com o aval dos governos inglês, turco e alemão. As acções da TPC são duplicadas e metade é atribuída à Anglo-Persian Oil Company. O Banco Nacional da Turquia divide a sua participação em partes iguais pela Royal Dutch-Shell e pelo Deutsche Bank e desaparece simplesmente da companhia. 5 De facto, no seguimento da decisão de Winston Churchill de substituir o carvão pelo mazoute como combustível para a Royal Navy – a primeira frota de guerra do mundo – o petróleo disparou em flecha. O HOMEM E A SUA OBRA | 31 A distribuição final é a seguinte: Companhia Anglo-Persian Oil, excelentemente posicionada na TPC com 47,5% das acções, o Grupo Royal Dutch-Shell com 22,5% e o Deutsche Bank com 25%. Não restavam a Gulbenkian senão 5%, percentagem disponibilizada em partes iguais pela Anglo-Persan Oil Company e pela Royal Dutch-Shell, daí as percentagens fraccionadas. O grande artesão destas negociações aceitara voluntariamente a redução da sua quota-parte de 15 para 5% para facilitar as conversações. Tinha nascido o “Senhor Cinco por cento”. Infelizmente, apenas seis meses após o acordo, eclodia a guerra. Ela punha fim às actividades da TPC antes mesmo que tivessem começado. Impunha-se proceder à reorganização. O fantástico jogo de equilíbrios tinha de ser reinventado. Ainda em plena guerra mundial, Gulbenkian lança em França a ideia dum “Comité Général du Pétrole”, para recuperar os interesses do Deutsche Bank, colocados sob tutela inglesa na TPC. A sua atribuição aos Franceses permitiria fazer face ao esforço de guerra da França. E assim nasceu em 1924 a Compagnie Française des Pétroles, (futura Total). Tornando-se accionista da TPC, a França obtinha, de uma assentada e pela primeira vez, acesso às reservas de petróleo do Médio Oriente. Mais uma vez graças a Calouste Gulbenkian ! O fim da guerra tem por consequência o desmembramento do Império otomano. A região de Mossul faz doravante parte do novo Iraque. C. Gulbenkian participa nas negociações entre Ingleses, Turcos, Iraquianos e outros governos, mas desta feita para definir as fronteiras definitivas entre a Turquia e o Iraque. É também ele que conduz as discussões entre a TPC e o governo iraquiano, as quais resultam na ratificação em 1925 da concessão à TPC. 32 | calouste sarkis gulbenkian Entretanto, a importância do petróleo no Médio Oriente faz emergir outros interesses: os EUA querem também entrar na corrida. Ora, era melhor ter os Americanos consigo do que contra si; mais valia tê-los como parceiros no seio da TPC do que fora da TPC como concorrentes entravando as actividades. Esta era a con“O Senhor Cinco por Cento” vicção de Gulbenkian, o qual para consolidar a sua participação considerava muito importante apostar num número alargado de parceiros. Assim, é ele, mais uma vez, que fará com que os Americanos sejam aceites nas negociações com a Royal Dutch-Shell, a Anglo Persian Oil e a sua parceira francesa. Em 1928, ou seja, catorze anos após a reorganização da TPC, era estabelecido um novo acordo que, ao mesmo tempo, iria definir um quadro geral para o desenvolvimento futuro da indústria petrolífera no Médio Oriente. Devido a este espantoso acordo as acções da antiga TPC – rebaptizada “Iraq Petroleum Co. Ltd” – depois da primeira guerra mundial e do desmembramento do Império otomano, são repartidas por quatro companhias : a “Anglo-Persian Oil Co.” (hoje em dia a BP), a “Royal Dutch-Shell Group”, a “Compagnie Française des Pétroles”, e a “Near East Development Corporation” (consórcio de cinco das principais companhias americanas de petróleo, entre as quais a futura Exxon Mobil). Serão elas daí para a frente os grandes gigantes do petróleo. A Calouste Gulbenkian toca, mais uma vez, cinco por cento do capital, o que reforça o seu daí em diante célebre cognome de «Senhor Cinco por cento». O HOMEM E A SUA OBRA | 33 Este acordo, designado por “Linha vermelha”, delimita um raio de acção que engloba as fronteiras do antigo Império otomano, ou seja a Turquia, a Jordânia, a Síria, e toda a Península arábica com excepção do Kuwait. Com este acordo as companhias petrolíferas propunham-se explorar, no seio da nova “Iraq Petroleum Co. Ltd”, e unicamente em associação com os seus parceiros, todos os recursos petrolíferos do Médio Oriente incluídos na área da Linha vermelha. O magnata do petróleo recebia, portanto, cinco por cento, mas desta vez de todos os recursos explorados no interior da Linha! Mas, delimitar as fronteiras de acção concertada das companhias petrolíferas passara a ser um verdadeiro desafio. Era necessário contar com as descobertas recentes de ouro negro nalgumas cidades do Iraque, somando milhões de barris, contar ainda com as novas esperanças que, muito provavelmente, encerrava ainda o solo da Arábia, e ter em conta a cobiça que os Americanos manifestavam agora por esses países. Atribui-se muitas vezes a Gulbenkian a paternidade do traçado da famosa Linha vermelha que iria pôr toda a gente de acordo. Com mão de mestre Gulbenkian tê-la-ia traçado com um lápis vermelho sobre um mapa que mandara elaborar, delimitando com firmeza ponderada e sem contestação as fronteiras do Império turco, hoje desmantelado: – São estas as fronteiras que eu conhecia em 1914, disse. E que tinha a obrigação de conhecer. Dentro destas fronteiras nasci, vivi e servi. Se alguém souber mais do que eu, que o diga.” Efectivamente, quem melhor que um cidadão otomano para definir o traçado das suas próprias fronteiras ?! E essas fronteiras de facto incluíam também o Bahrein, o Qatar, a Arábia Saudita e os Emirados. Excluíam o Kuwait, deixando, portanto, o campo livre aos Americanos, de resto já no terreno. A percentagem de Calouste Gulbenkian na Iraq Petroleum Company (5%) foi posteriormente incorporada numa empresa registada em 34 | calouste sarkis gulbenkian A delineação da famosa Linha Vermelha, atribuída a Calouste Gulbenkian Toronto, no Canadá, e controlada a partir do seu escritório em Londres. Mais tarde, essa holding dará origem à “Participations and Explorations Corporation”, mais conhecida pelo nome de “Partex”. A sociedade, baseada em Londres mas cuja sede social estava no Panamá, reunia todas as participações de Calouste Gulbenkian, bem O HOMEM E A SUA OBRA | 35 como as das diversas companhias petrolíferas que haviam sido criadas no território incluído dentro das fronteiras da Linha vermelha pela Iraq Petroleum Company. Mas, a eclosão da Segunda Guerra Mundial irá dar origem a novas tensões nas relações entre os vários interesses petrolíferos em presença. De facto, duas companhias americanas, membros do acordo da Linha mas também membros da Arabian American Oil Company (Aramco), empreenderam entretanto a exploração dos recursos petrolíferos da Arábia Saudita, e isto sem ter em conta os parceiros ingleses e franceses e também o próprio Calouste Gulbenkian. Os Americanos entram em contradição com o Tratado. Simultaneamente, os parceiros de Gulbenkian na IPC esforçam-se por expulsá-lo da companhia, realizando investimentos desmesurados relativamente à liquidez do Magnata, mas sem bombear petróleo. Decididamente as frentes multiplicam-se contra ele. Era necessário voltar à mesa de negociações: negociações memoráveis e extremamente duras. O assunto ficou finalmente resolvido, in extremis, em 1948, mas desta vez à custa da famosa Linha vermelha traçada 20 anos antes e que agora desaparece. A IPC recompõe-se, mas os termos do acordo são de tal modo complexos « que ninguém poderá alguma vez contestá-los, porque ninguém está em condições de compreendê-los », terá exclamado um dos advogados de Gulbenkian. Ainda assim, Gulbenkian conseguira que pelo menos um mínimo de petróleo fosse extraído no Iraque, de forma a repor liquidez, assegurando-lhe um rendimento confortável. De qualquer forma, o objectivo de Calouste Gulbenkian era obter concessões e, sobretudo, manter unidas as suas várias parcerias. Mais uma vez conseguira salvar a obra-prima da sua vida, a coluna vertebral 36 | calouste sarkis gulbenkian das suas realizações, a sua IPC. O seu mérito é tanto mais impressionante, se recordarmos que, depois da Revolução dos Jovens Turcos que marcara o início dos seus trabalhos, e até ao fim da vida, Calouste Gulbenkian foi testemunha de acontecimentos marcantes da história: a revolução bolchevique, a catástrofe de 1915, o desmembramento do Império otomano, o fim da era colonial na península arábica, duas guerras mundiais e o período nazi. Desde 1912, data da fundação da TPC, e até à sua morte em 1955, graças ao seu talento de visionário independente e ao seu papel de negociador prudente, Calouste Gulbenkian conseguiu de modo surpreendente manter o equilíbrio das suas empresas, promover o entendimento entre os seus parceiros, mesmo os mais inexoráveis, e, claro, manter o seu papel de conselheiro económico nas embaixadas turcas em Paris e em Londres. Não é, portanto, motivo de espanto que ele se enfureça se por acaso o tratam por negociante de petróleo. «Não, eu não sou um comerciante de petróleo! Eu sou um arquitecto de empresas!», exclamava com autoridade inquestionável. Como não compreender esta águia dos negócios que no decurso da vida criara um grande número de companhias petrolíferas, conseguira concessões à Grã-Bretanha, à Holanda, à Alemanha, à França, à América e à Rússia, este campeão ímpar que traçara uma carta geoestratégica dos interesses petrolíferos para a indústria moderna?! O sábio dos Enclos A autoridade imperial que tinha, reconhecidamente, no mundo dos negócios e do petróleo era sustentada pelos seus vastos conhecimentos geopolíticos e linguísticos 6, pelas suas aptidões científicas e 6 Calouste Gulbenkian dominava os idiomas da Ásia Menor como o turco, o arménio, o persa, para além, é claro, do francês e do inglês. O HOMEM E A SUA OBRA | 37 competências como engenheiro, e pelo seu excepcional potencial de relacionamento e jogos de influência, sem esquecer a temível tenacidade com que se empenhava na prossecução de um objectivo. Acima de tudo, Gulbenkian era dotado de clarividência e bom senso tais que, melhor que ninguém, soube conciliar os interesses dos seus parceiros no Próximo Oriente e na Europa não hesitando, quando necessário, em cortar nas suas próprias reservas. O coleccionador gozava da mesma autoridade. Era um homem delicioso, brilhante, vivo, dinâmico, de estatura média, e que falava um inglês perfeito, dirá sobre ele William Saroyan, o escritor americano de origem arménia que viera visitá-lo a Lisboa. Aparentava 80 anos, mas afirmava estar perto dos 90 (…).Começámos a cavaquear prazenteiramente em arménio. Era um velhote único... De silhueta frágil, rosto redondo e fino bigode, Calouste Gulbenkian emanava uma autoconfiança tranquila que lhe advinha do sucesso espectacular dos seus negócios. Era com esta mesma confiança que se dirigia aos seus interlocutores e, se algo lhe agradava, nada conseguia detê-lo. Um dia, ficou encantado com duas pequenas miniaturas que iam ser leiloadas. Telefonou ao proprietário e intimou-o a ir a sua casa, propondo-lhe comprá-las ao preço de arrematação. “Uma auto-confiança tranquila” 38 | calouste sarkis gulbenkian O proprietário protestou: Mas se o preço exceder…? e logo Gulbenkian atalhou: O quê? Nenhum preço é para mim excessivo! Quero essas miniaturas. Portanto, mandarei buscá-las esta noite. Adeus, caro Senhor. Inútil insistir. De facto, plenamente consciente da sua autoridade, adoptara por divisa: « Só o melhor é suficientemente bom para mim ». O homem era um verdadeiro perito ! Para além da sua paixão pela estética, da sua sensibilidade excepcional e do seu conhecimento de arte, Calouste Gulbenkian dá provas de rigor e tenacidade. Não só o seu instinto o orientava para tudo o que possuísse algo de original ou uma qualidade rara, como tinha também o hábito de comprar em antiquários um pouco por todo o lado, ou «ao acaso» em leilões, segundo os seus próprios cânones, sem se preocupar em demasia com a opinião dos outros. Nada era deixado ao acaso. A troca de impressões quotidiana com os maiores agentes de comércio de obras de arte mantinha-o informado do movimento dos objectos e permitia-lhe ponderar seriamente as suas decisões, apelando aos melhores especialistas para verificação de autenticidade. Os objectos deviam encontrar-se num estado de conservação impecável: Só o melhor é suficientemente bom para mim... Tal como em matéria de petróleo, a sua vasta erudição permitia-lhe discutir convictamente com os melhores peritos que farão dele um coleccionador de reputação internacional. A sua discrição quase lendária valeu-lhe a realização das suas melhores transacções, frequentemente ao abrigo de cobiçosos e de outros interessados, muitas vezes ultrapassados pela extrema rapidez de acção do coleccionador. Mas, para além dessa discrição, sabia rodear-se de um certo mistério acentuado pelo o facto de evitar de bom grado a convivência social e, sobretudo, de fugir como da peste de toda a publicidade, imprensa e fotografias. Nas suas próprias palavras, a O HOMEM E A SUA OBRA | 39 privacidade era o bem mais precioso que o dinheiro podia comprar. Do mesmo modo, em vez de se submeter a outros especialistas no que dizia respeito à avaliação e depois à decisão de compra, Gulbenkian gostava de ser ele a decidir e, neste sentido, era um coleccionador atípico. Daqui resulta o estilo muito pessoal da sua colecção, que reflecte inevitavelmente os seus gostos particularmente eclécticos e, simultaneamente, o período em que se formou. Retrato da Mrs. Lowndes-Stone, Quanto às obras, não as por Thomas Gainsborough mostrava facilmente, a não ser a pessoas íntimas. E se um desconhecido pedia para ver os seus quadros, era com um toque muito oriental que ele mandava dizer que considerava as suas obras como amigas de toda a vida: – Desvelaria eu as mulheres do meu harém perante um estranho ? O homem amante da natureza revela um aspecto diferente da sua personalidade. Com efeito, e apesar de toda sua autoconfiança, energia e força de carácter, era um homem tímido, sensível e nervoso. Era introvertido, dotado duma vida interior intensa e adorava, sobretudo, a natureza, as belas paisagens, as árvores, as flores, os animais. Adquirira em 1937 uma propriedade na Normandia, perto de 40 | calouste sarkis gulbenkian Antiga casa Vista de Les Enclos, presentemente propriedade da Câmara Municipal de Deauville, França O HOMEM E A SUA OBRA | 41 Deauville, os Enclos 7, na qual conseguira criar uma atmosfera de paz e de harmonia, graças a um cenário de jardins, relvados, árvores e pontos de água. Mandou mesmo construir capoeiras e estábulos, onde os animais eram tratados com atenções equiparáveis às prestadas a clientes de um hotel de luxo! Conta-se, por exemplo, a história de um vitelo recém-nascido, cria de uma vaca holandesa e de um touro de raça pura, que Gulbenkian observava enternecidamente. A atracção deve ter sido recíproca pois o animal veio espontaneamente lamber-lhe a mão. Resultou daí uma amizade idílica entre o grande homem e o pequeno ser, uma amizade inabalável e a protecção da vida do animal, a salvo da sorte mais infeliz dos seus congéneres destinados, mais dia menos dia, ao abate. Era neste cenário que gostava de passar o Verão. Era lá também que se recolhia antes de tomar algumas das decisões que se revelaram ter sido das mais importantes da sua vida. Esta sensibilidade particular face às belezas da natureza levava-o a preferir muitas vezes o isolamento e o silêncio, particularmente propícios à concentração, à contemplação e ao sonho, onde o espírito ia buscar novas emoções. O seu amigo fiel Alexis Léger, aliás Saint-John Perse 8, apelidara-o de o Sábio dos Enclos. Esse amor especial pela natureza, bebido nas fontes dos Enclos, reflecte-se em grande medida na valiosa correspondência que os dois amigos trocaram entre si. Numa das cartas que endereçou a Calouste Gulbenkian, Alexis Léger 7 Em 1973 a propriedade foi entregue pela Fundação Gulbenkian ao Município de Deauville, com a condição de aí criar um parque. Cumprindo o acordado, o Município oferece hoje ao seus residentes a possibilidade de desfrutar de magníficos espaços verdes, numa última homenagem a Calouste Gulbenkian que tanto amava os jardins. 8 Alexis Léger recebeu o prémio Nobel da Literatura em 1960. 42 | calouste sarkis gulbenkian O Sábio de Les Enclos O HOMEM E A SUA OBRA | 43 qualifica os Enclos como a peça principal das sua obras, porque é a mais viva, a mais íntima e a mais delicada, a mais secretamente reservada aos seus devaneios. Todavia, apesar de todo o seu imenso sucesso, o homem não pôde concretizar totalmente as suas ambições. Ele próprio o confessará perto do fim da vida, ele que tão pouco falava de si: Homem de ciência e sonhador num jardim a meu gosto, são as duas coisas, os grandes objectivos da minha vida que não consegui atingir. Selo com Saint-John Perse O Coleccionador A paixão de Calouste Gulbenkian pelas artes revela-se muito cedo. Nada de espantoso considerando a história de sua família, com raízes na Capadócia, e tendo por origem a cidade de Cesareia a qual, evocando inevitavelmente o nascimento das grandes religiões, propicia uma admiração muito compreensível pelas artes. Por sua vez, Constantinopla, cidade que exerceu uma influência marcada na formação de Calouste Gulbenkian, situa-se por excelência no cruzamento de grandes civilizações (capital dos Romanos, depois dos Bizantinos e finalmente dos Turcos otomanos). A intensa paixão que Gulbenkian nutria pelas artes é o corolário natural da conjugação de todas estas influências. Esta paixão traduzir-se-á pela constituição de uma prodigiosa colecção de obras de arte. É pela numismática que vai começar. De facto, Gulbenkian é ainda muito jovem quando manifesta já um gosto inato por moedas antigas. Negociando com uma autoconfiança desconcertante para a 44 | calouste sarkis gulbenkian Moedas retratando o rei arménio Tigrane II (140 BC – 55 AC) idade, gasta na aquisição de moedas antigas todo o seu dinheiro de bolso, apesar das severas reprimendas de seu pai, convicto de que o filho delapidava capital. É acima de tudo a beleza intrínseca das peças que o atrai. Acumula ao longo da vida, ao sabor das suas viagens e por vezes à custa de negociações longas e laboriosas com os melhores peritos e comerciantes especializados, uma colecção muito ecléctica, única no mundo. A colecção comporta hoje mais de 6000 peças, – exactamente 6440 – todas rigorosamente autênticas, remontando da Antiguidade até ao início do século XX. A afeição que tinha pelas suas obras era tal que as considerará como suas filhas. Entre 1928 e 1930, negoceia com o governo soviético a aquisição de algumas peças do Museu Hermitage, ilustre detentor dos tesouros da Rússia imperial. Durante os duros anos da fome e por falta severa de divisas, os Soviéticos punham discretamente em circulação algumas das suas obras-primas. É então que Calouste Gulbenkian, à custa de negociações complexas, discretas e meticulosamente preparadas, incluindo o transporte assegurado das obras, assina quatro contratos com os soviéticos, a despeito de fortes concorrentes e de outros O HOMEM E A SUA OBRA | 45 comerciantes internacionais. Afinal, e uma vez que o governo soviético estava decidido a vender de qualquer modo, o ilustre coleccionador arménio representava certamente um mal menor e, em todo o caso, uma alternativa segura para o Estado. Na sua carta ao governador do Banco Central da União Soviética, o esteta mal reprimia a sua determinação: «Não deveríeis vender, a mim e muito menos a outros… Continuo a prevenir os vossos representantes de que não façam sair essas peças dos vossos museus. Mas, se ainda assim tal vier a acontecer, insisto que me concedais a preferência, por preço igual, e peço-vos que me mantenhais perfeitamente ao cor- Diana de Houdon, adquirida por C. Gulbenkian ao Museu Hermitage rente dos preços aos quais 9 desejais vender» . É assim que, jogando a fundo a cartada da discrição a fim de proteger ao máximo a dignidade dos Soviéticos, Gulbenkian, precedendo os seus mais célebres concorrentes, como Deveen por exemplo, consegue adquirir do Hermitage, a menor custo, algumas das suas peças principais. 9 Carta datada de 17 de Julho de 1930, dirigida por Calouste Gulbenkian a Georges Piatakov, Ministro do Comércio exterior da URSS e vítima das purgas estalinistas em 1937. Figura de Velho por Rembrandt adquirido por C. Gulbenkian ao Museu Hermitage No início do anos vinte, quando as obras acumuladas pelo coleccionador se tornam demasiado numerosas e não podem já ser arrumadas nas suas várias residências, Calouste Gulbenkian compra na avenida de Iéna em Paris, os imóveis que irá transformar em palacete particular. A partir de 1927 fará dele a sua residência principal e não o deixará até ao início da guerra. Pequeno pormenor significativo: o palacete da avenida Iéna alberga igualmente a missão diplomática da Pérsia, junto da qual Calouste Gulbenkian assume a função de conselheiro económico. Durante a guerra, estando o palacete na iminência de ser requisitado e atribuído a uma alta personalidade alemã, foi necessário todo o tacto O HOMEM E A SUA OBRA | 47 Casa de C. Gulbenkian na Avenue d’Iéna, em Paris. Presentemente a Delegação da Fundação em Paris diplomático do genro de Calouste, Kevork Essayan, para evitar a ocupação do palacete pelos Alemães. Kevork Essayan dirigiu-se à legação suíça em Paris, que tinha a seu cargo a salvaguarda dos interesses Persas em França. Solicitou a sua intervenção junto dos Alemães por forma a comunicar-lhes que a propriedade em questão, pertença de uma potência não beligerante, deveria permanecer inviolável. Foi bem sucedido. As suas diligências foram coroadas de êxito e os Alemães mantiveram-se sossegados. Ao longo dos anos, a colecção foi sempre aumentando. Por medida de segurança, uma parte da colecção de Paris foi transferida para Londres. Em 1936, a colecção de arte egípcia foi confiada ao Museu Britânico e os melhores quadros à National Gallery. Mais tarde, 48 | calouste sarkis gulbenkian em 1948 e 1950, em consequência de desentendimentos com os Britânicos, estas mesmas peças serão colocadas à guarda da National Gallery of Art de Washington, até partirem de novo, uns anos mais tarde, agora para Portugal. O Arménio sem fronteiras Para além do seu papel de pioneiro no comércio do petróleo e da sua paixão por objectos de arte, Calouste Gulbenkian é, acima de tudo, Arménio. Um Arménio internacional preocupado com o destino do seus compatriotas espalhados pelo mundo, mas não só. Natural do Império otomano, interessa-se também pelo destino dos naturais dos países árabes, nações que faziam parte integrante do Império otomano e que formaram os novos Estados saídos do Tratado de Sèvres (1920). O seu objectivo é motivar essas nações, jovens mas de tradição antiga, para a aquisição de novos conhecimentos em especial nas áreas cultural, científica e médica, essenciais ao desenvolvimento dos seus próprios países. Com esse objectivo, Calouste Gulbenkian concederá numerosas bolsas de estudo, contribuindo para o despontar, a pouco e pouco, de uma nova geração de quadros nacionais com formação em diversos domínios. Em medicina, em particular, as bolsas de Gulbenkian e mais tarde as da Fundação que lhe sucederá, encorajam os estudantes desses países a prosseguir a sua especialização em França e na Grã-Bretanha. São também encorajados os estudos no domínio da agricultura por forma a desenvolver a produção nos países situados no Crescente fértil (a Síria, o Líbano, o Iraque, a Jordânia). Claro que as áreas associadas à prospecção petrolífera (a geologia, a geofísica) merecem uma atenção particular da parte do mecenas, preocupado em ver emergir novos engenheiros e técnicos desta indústria em plena expansão. O HOMEM E A SUA OBRA | 49 Paralelamente a este empenho na educação, Gulbenkian dotou generosamente de equipamentos os hospitais de várias grandes cidades como Beirute, Tripoli, Damasco, Bagdade, Kirkuk, Basra e Amã. Favorecerá também a abertura de dispensários entre as populações que sofriam de doenças dos olhos (tracoma) ou doenças infecciosas (malária). Por outro lado, o Arménio tinha conseguido impôr que a Placa erguida na enfermaria da Universidade Americana de Beirute (AUB) famosa percentagem de 5%, referente à sua quota-parte na exploração dos poços de petróleo da Iraq Petroleum Company, beneficiasse também as famílias arménias. De facto, Calouste Gulbenkian exigia que pelo menos 5% dos trabalhadores contratados nas explorações da Iraq Petroleum Company fossem arménios. Este facto custou-lhe a inimizade definitiva do Governo soviético que acusava Gulbenkian de exploração. Seja como for, este Arménio, acima de todos os Arménios, não desarmou e manteve durante toda a vida o cuidado pelas comunidades e por um número considerável das suas instalações. As comunidades do Médio Oriente que habitavam as antigas regiões do Império eram, naturalmente, as primeiras a ser atendidas. No seguimento da Primeira Guerra Mundial, dos acontecimentos trágicos 10 levados a cabo pelo governo dos Jovens Turcos em 1915 e 10 Até à data Portugal ainda não reconheceu o genocídio Arménio. T U R Q U I I A A Í R S Beirute I R A Q U E N IA A Cairo R JO R D Â Jerusalém Á B I A S A U D I I T A R Ã O 52 | calouste sarkis gulbenkian do desmantelamento do Império Otomano, as Potências aliadas (França e Grã-Bretanha) tinham acordado, nos termos do Tratado de Sèvres (10 Agosto 1920), restituir à Arménia uma parte dos seus territórios históricos. Mas o Tratado nunca foi ratificado devido à oposição dos nacionalistas turcos. O que conduziu à constatação amarga de Lorde Curzon: «O petróleo pesou mais que o sangue arménio». Calouste Gulbenkian sabia-o bem demais. Jamais pôde aceitar este abandono por parte das potências aliadas e terá no futuro uma visão desiludida dos acontecimentos. Entre os anos 1920 e 1940, escolas arménias e centros médicos da Turquia, Síria, Líbano, Iraque e Jordânia, beneficiarão da liberalidade do mecenas, que cria, assim, também numerosos postos de trabalho. As suas qualidades de fino diplomata têm como consequência consolidar a presença arménia no Médio Oriente junto dos Altos Vista aérea do terreno adquirido por C. Gulbenkian em Ainjar no leste do Líbano, perto da fronteira síria O HOMEM E A SUA OBRA | 53 Comissários francês e britânico. Relembremos que na época, e logo após 1915, Ataturk fazia pressão sobre as potências mandatárias, Grã-Bretanha e França, para afastar os Arménios das fronteiras da República turca. Os infelizes sobreviventes que se concentravam nas fronteiras síria e iraquiana, e também na Grécia e nos Balcãs, na expectativa desesperada de um dia voltar à terra natal, deveriam ser deportados para a Argélia e Madagáscar. Mas a intervenção veemente de Calouste Gulbenkian junto das representações francesa e britânica pôs fim ao plano de Ataturk e teve como consequência o fortalecimento das comunidades arménias que encontraram definitivamente refúgio no mundo árabe. Em particular, Gulbenkian adquirira terras no leste do Líbano, em Anjar perto da fronteira síria, tendo em vista realojar os refugiados arménios do Sandjak de Iskenderun. O que, aliás, lhe valeu mais uma campanha acerba por parte dos Soviéticos que o acusaram de «agente imperialista». No Médio Oriente, no Iraque e no Líbano em particular, Gulbenkian, seguindo as pisadas de seus pais, contribuiu para a construção de várias igrejas arménias em Kirkuk, Bagdade, Tripoli, etc. Em Jerusalém, cidade a que a família Gulbenkian consagra um culto ancestral, Calouste Gulbenkian prosseguiu a tradição de generosidade para com o Patriarcado arménio. À entrada do Túmulo de Cristo, na Basílica do Santo Pintura fornecida por C. Gulbenkian ao Santo Sepulcro Biblioteca Calouste Gulbenkian, localizada no interior do Patriarcado Arménio de Jerusalém Sepulcro, encontra-se um quadro ilustrando a Ressurreição que tem a seguinte inscrição em arménio «à memória da dinastia Gulbenkian de Talas, 1877». Em 1929, Calouste Gulbenkian mandou construir em Jerusalém uma biblioteca que tem o seu nome. Essa biblioteca é actualmente uma das mais importantes da diáspora. Além disso, o mecenas assegurou regularmente os seus favores ao Patriarcado, em especial face às dificuldades conhecidas, resultantes da divisão de Jerusalém em 1948. E, inclusivamente, no seu último testamento, determinará que a Fundação continue a entregar-lhe regularmente o subsídio que lhe concedera em vida. O HOMEM E A SUA OBRA | 55 Em Istambul, sua terra natal, segue a tradição de seus pais que foram os primeiros mecenas do muito famoso hospital Sourp Pirgiç (São Salvador) construído em 1832 em Yédikule. Em 1906 mandou construir no recinto do hospital um pavilhão, designado com o nome Gulbenkian, onde funcionará o bloco operatório. Dispôs ainda que O mausoléu dedicado aos membros da família de C. Gulbenkian no hospital de S. Pirgiç depois da sua morte os imóveis de Selâmet Han no bairro de Eminonu fossem doados a favor das obras de caridade de Yédikulé. Como prova de reconhecimento, foi erigido no recinto um mausoléu Hospital de S. Pirgiç (São Salvador) 56 | calouste sarkis gulbenkian A Catedral de St. Echmiadzin na Arménia, sede patriarcal da Igreja Apostólica Arménia O HOMEM E A SUA OBRA | 57 dedicado aos membros da família. Desde então, todos os anos é aí celebrada uma missa de sufrágio, a qual dá regularmente lugar ao encontro de toda a reconhecida comunidade arménia de Istambul. No entanto, em 1936, quando Calouste Gulbenkian quis legar para fins caritativos os bens imobiliários que ele e sua mulher possuíam na república turca, estes foram confiscados sob o pretexto de ter abandonado o país e adquirido a cidadania britânica. Na Arménia soviética, o mecenas legou uma quantia avultada – 400.000 dólares – para a restauração da catedral de Etchmiadzine e participou, em memória das suas origens, na construção, perto de Erevan, de duas cidades, Nubarachène e Nor Guessaria, (a “Nova Cesareia”), a fim de abrigar os refugiados arménios do Médio Oriente, escapados dos massacres. Em Londres, onde viveu muitos anos, e num respeito quase religioso à memória de seus pais, decide mandar construir em 1922 uma igreja arménia dedicada a São Sarkis, patrono de seu pai. Recordemos que esta igreja foi construída seguindo o modelo da do mosteiro de Haghpat na Arménia, reconhecida em 1996 como Património mundial da UNESCO. Em 1930, e após o falecimento de Boghos Pacha Nubar, fundador da União Geral Arménia de Beneficência (1906), a única organização pan-arménia que garante assistência a qualquer Arménio sem excepção, Calouste Gulbenkian decide assegurar a direcção desta instituição, em Igreja de St. Sarkis, em Londres 58 | calouste sarkis gulbenkian Reunião em Paris, em 1931, dos líderes de AGBU. Ao centro, C. Gulbenkian, à direita Arakel Nubar que irá sucedê-lo um ano depois, e à esquerda, Kapriel Noradounguian, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros do Império Otomano Paris. Tem de facto uma enorme admiração pelo seu fundador. Mas, devido aos entraves que diversas pressões políticas levantam ao seu trabalho, apresentará a demissão dois anos mais tarde. Assim, como transparece do seu percurso de vida, Calouste Gulbenkian é um homem solitário. Só se lhe conhece um número restrito de amigos próximos, facto a que não será alheio o seu carácter excessivo e arrebatado. Em compensação, a sua vocação e o seu empenhamento são absolutamente internacionais. Com efeito, não é homem de um país em particular. Nasceu no Império otomano, formou-se na Europa (França, Grã-Bretanha) e empenhou-se politicamente por várias nações: o Império otomano, a Pérsia, a Arménia, a França, a Grã-Bretanha. Ao nível empresarial, o seu papel de negociador hábil nas transacções petrolíferas colocá-lo-á na vanguarda dos interesses de todos os participantes na exploração do petróleo da península arábica. De tal modo que todas as partes interessadas – Turcos, Franceses, Ingleses, Alemães, Russos, Americanos, O HOMEM E A SUA OBRA | 59 Persas e Iraquianos- estarão sucessivamente em dívida para com este homem visionário, audacioso e hábil diplomata que não hesitava em diminuir a sua própria quota-parte para facilitar as negociações. Calouste Gulbenkian possuía também vários passaportes (otomano, persa, britânico e arménio) e trabalhou em vários países. No que diz respeito à sua fortuna, tomou a decisão de criar uma fundação internacional que confia à legislação portuguesa. Mas por mais internacional que seja, Gulbenkian é único e inteiro como Arménio: é nesta nacionalidade que tem os seus alicerces; é ela que lhe confere identidade. Eis como a Fundação que iria criar deveria, naturalmente, reflectir esta abertura a outras culturas. O facto deste tema ser apenas aflorado nos estatutos ficou a dever-se à determinação toda poderosa e vigilante do regime de Salazar. Este velava meticulosamente, vigiava numa atitude ciumenta e acabou por monopolizar a criação da instituição de envergadura quase ministerial. Esta, com o envolvimento hábil das autoridades locais, iria revelar-se um maná imperial para o pequeno país que a albergava. Num país que vivia ainda num isolamento dramático em virtude da ditadura, a parada era alta, como veremos a seguir. Passaporte britânico de C. Gulbenkian Panorama da cidade de Lisboa Lisboa Em Abril de 1942, a guerra estava no auge e as tropas alemãs tinham invadido Paris. Calouste Gulbenkian encontrava-se junto do embaixador do Irão 11 emVichy, onde se instalara o governo Pétain-Laval. Mas, na sequência da dupla ocupação do Irão e da sua nova orientação pró-aliada, a representação em Vichy deixa de existir 12. Daí em diante Gulbenkian, residente num país ocupado militarmente, é considerado como « inimigo técnico » e vê as suas acções na Iraq Petroleum Company confiscadas pelos Britânicos 13. Gulbenkian ficou consternado. Como era possível que ele, cidadão britânico que não hesitara em abrir principescamente as portas das suas companhias petrolíferas aos Ingleses, fosse tratado desse modo ?! Suspeita mesmo 11 Entretanto em 1935 a Pérsia tornara-se Irão, por imposição dos Alemães que tinham convencido o embaixador persa a requerer às suas autoridades a conversão da denominação do seu país para demonstrar a sua lealdade à Alemanha. Não esqueçamos que os Alemães nazis tinham adoptado a teoria de que os ancestrais dos Arianos eram os Alemães. 12 O Norte do Irão foi ocupado por tropas soviéticas e o Sul pelos Britânicos. O Irão, sob direcção do jovem Mohammed Reza Pahlevi, foi forçado a optar por uma política pró-aliada. Como consequência a representação em Vichy deixou de existir. 13 As acções de C. Gulbenkian ser-lhe-ão devolvidas no final da guerra com compensação de perdas e danos. O HOMEM E A SUA OBRA | 61 que o Governo britânico queira ajudar os seus parceiros a suprimir a sua participação de cinco por cento. Ordena de imediato que parte das suas colecções seja tansferida para os Estados Unidos. O Governo americano, pressentindo uma oportunidade de ouro, propôs-lhe mesmo a construção de um museu em Washington destinado a albergar a colecção. O próprio Gulbenkian preparava-se para se reunir aos « seus queridos filhos». Conheceu entretanto em Vichy, o embaixador de Portugal que elogia os encantos do seu país tranquilo numa Europa a ferro e fogo. País que, além do mais, está situado no ponto mais ocidental da Europa, oferecendo, por conseguinte, acesso privilegiado ao novo continente, caso fosse necessário partir. E assim se fez. Num belo dia do mês de Abril de 1942, Calouste Gulbenkian, a sua mulher Nevarte, a secretária e dama de companhia, Mme Theis, o seu massagista russo e o chefe de cozinha oriental, toma- Lisboa e o seu castelo ao fundo 62 | calouste sarkis gulbenkian ram lugar no sumptuoso Rolls Royce e fizeram-se à estrada a caminho de Portugal. Instalar-se-iam em Lisboa, no célebre Hotel Aviz 14, na companhia de cerca de uma dúzia de gatos e dos seus queridos pássaros. Gulbenkian tinha então 73 anos. Não voltará a partir. Efectivamente, Portugal que acolhe este homem extremamente rico estava em paz e era governado desde 1928 com mão de ferro pela ditadura de Oliveira Salazar. A ordem e disciplina da sociedade portuguesa, corporativa e fortemente hierarquizada, era com certeza tranquilizante para o espírito extremamemte organizado e meticuloso de Senhor cinco por cento. Estritamente contidos, os media, que toda a vida evitara como a peste, não ousavam também importuná-lo. A prestigiada Praça do Comércio em Lisboa, junto ao Tejo 14 Hoje desaparecido, erguendo-se no mesmo local o Hotel Sheraton. A FUNDAÇÃO A Génese No final da guerra, Calouste fará do hotel Aviz a sua residência principal, e aí passará os seus últimos treze anos de vida. Porque permanece em Portugal? Porque não parte Gulbenkian, no fim da guerra, para os EUA, ou porque não regressa a Paris ou a Londres? Podem apontar-se diversas razões, mas nenhuma é satisfatória. Sem dúvida que Lisboa e o Tejo evocavam o Bósforo da sua cidade natal. Hotel Aviz, agora desaparecido 64 | calouste sarkis gulbenkian É ainda indubitável que apreciava o clima agradável e ensolarado de Portugal, o interior do país, a sua hospitalidade, a sua segurança e o seu sistema de impostos. A verdade é que este Arménio, nascido otomano, naturalizado britânico, que vivera em Paris e planeara partir e estabelecer-se nos EUA, acabará por instalar-se em Lisboa e legar aí toda a sua fortuna, apesar das ofertas mirabolantes que receberá dos EUA. De qualquer forma, a vida que leva em Lisboa é austera e extremamente regrada. Nunca aprenderá o português, mas criará laços de amizade com o seu advogado, Perdigão, bem como com o seu médico, Fernando Fonseca, que o acompanharão até à sua morte. Não priva habitualmente com as personalidades célebres que se instalam no país, nem tão pouco com os Portugueses, não obstante o carácter acolhedor e caloroso deste povo. Apesar disso, afirmava-se mais feliz aqui do que em qualquer outro dos lugares da sua vida. Em compensação, recebeu visitas internacionais memoráveis, incluindo dirigentes ilustres de sociedades petrolíferas e, nomeadamente, o Príncipe da Arábia Saudita, que se deslocou especialmente para o visitar. Mantivera o seu escritório em Londres e a sua residência particular em Paris, que considerava ser o seu lar. Viveu em Lisboa um período particularmente rico, vendo-se continuamente implicado em árduas discussões que conduziram aos famosos acordos de 1948. Bateu-se por eles como um tigre para salvaguardar a sua posição na IPC, ameaçada de colapso devido a acções pouco louváveis por parte das companhias petrolíferas. Mantinha contacto quotidiano com o seu escritório e com a família, esforçando-se por estar informado acerca de tudo. Contava já oitenta anos, mas o seu entusiasmo e obsessão não cessavam de causar espanto, quando não exasperavam, aqueles que o rodeavam. Tanto os seus empregados em Londres como os membros da sua família deviam estar disponíveis a qualquer momento para tratar de algum assunto que o perturbasse. O HOMEM E A SUA OBRA | 65 A correspondência que trocou com a família e com o seu escritório de Londres relata detalhadamente a sua complexa luta para fazer frente às acções dos outros parceiros da Irak Petroleum Company. A maior parte desta correspondência era escrita em inglês ou francês mas, convencido de que o seu correio era vigiado, Gulbenkian tinha o hábito de, em questões mais sensíveis, escrever nas margens comentários em arménio. O destino da sua colecção de obras de arte e da sua imensa fortuna inquietavam-no cada vez mais. Que faria? Talvez a National Gallery de Londres? Tinha-o considerado antes da guerra, quando (Lorde) Kenneth Clark ocupava o cargo de director. Mas após a partida deste último, e quando Gulbenkian foi declarado «inimigo técnico» pelo governo britânico, mudou de ideias, preferindo a National Gallery of Art de Washington. Mas sempre sem chegar a qualquer conclusão. Os Americanos nem sempre se tinham comportado como amigos de Gulbenkian, em algumas ocasiões tinham sido rivais e, não tinham, necessariamente, mostrado grande deferência durante as negociações petrolíferas. O único amigo em quem confiava era o seu advogado, Lorde Radcliffe of Wermeth, com o qual manteve longas e amargas discussões sobre este assunto, as quais chegavam a durar horas. «Radcliffe sabe o que quero» costumava responder aos que o interrogavam acerca do seu legado. Infelizmente pouco tem sido escrito sobre este tema, mas a ideia de que Gulbenkian pretendia criar uma fundação internacional, para proveito de toda a humanidade, transparece com clareza da correspondência entre os dois amigos. Lord Radcliffe, o amigo íntimo de C. Gulbenkian 66 | calouste sarkis gulbenkian Sabe-se ainda através desta correspondência que foram considerados diversos modelos: o do Wellcome Trust, na Grã-Bretanha e o da Fundação Rockefeller, nos Estados Unidos. E para evitar que a futura Fundação fosse monopolizada por um único governo, foram reservados dois lugares para diplomatas, um britânico e um português. Calouste Gulbenkian desejava ainda que a sua colecção fosse reunida sob um mesmo tecto, sem que tenha, porém, até à sua morte, eleito um local preciso. É em 1950 que Calouste Gulbenkian, algo reticente, começa a redigir o seu testamento. Decide deixar a quase totalidade dos seus bens a uma fundação, que deveria ser administrada por cinco membros da sua família: a sua mulher, o seu filho, a sua filha, o seu genro e o seu neto. Quanto à sua residência de Paris, seria oferecida como embaixada aos Estados Unidos, caso a sua família não desejasse continuar a habitá-la. Ao mesmo tempo, Gulbenkian esforçou-se por recrutar Radcliffe para dirigir a sua futura Fundação, propondo-lhe, em Outubro de 1951, o cargo de presidente. Mas, com a morte de Nevarte em 1952, Calouste Gulbenkian e o seu amado filho Nubar entram em conflito. Apesar da forte relação que os unia, as discussões entre ambos eram infelizmente frequentes, intermináveis e penosas. Preparou uma segunda versão do testamento na qual indicava Radcliffe como dirigente da Fundação, com o apoio do advogado português, José Azeredo Perdigão, e do seu Nubar Gulbenkian O HOMEM E A SUA OBRA | 67 genro, Kevork Essayan. O seu filho Nubar e o seu neto Mikhael Essayan, então com 26 anos de idade, seriam chamados a integrar o grupo assim que os outros membros da Fundação os considerassem preparados. Pouco antes da sua morte, Calouste estipula que Nubar integre definitivamente a administração da Fundação. No entanto, a decisão não pôde ser consignada no testamento e ficou sem efeito: o mecenas faleceu entretanto. O Testamento e os estatutos Morreu por certo demasiado cedo, visto que no momento da sua morte se lutava por chegar a um acordo acerca do verdadeiro propósito das suas intenções. De qualquer forma, o Testamento foi assinado a 18 de Junho de 1953: Calouste Gulbenkian acabava de criar uma das doze fundações mais importantes do mundo, portadora do seu nome, que declarou herdeira de toda a sua fortuna, depois de previamente ter beneficiado os membros da sua família e atribuído alguns legados particulares. Além da sua A estátua de C. Gulbenkian nos jardins da Fundação 68 | calouste sarkis gulbenkian prestigiada colecção de obras de arte, a fortuna em questão incluía também os seus interesses petrolíferos. Estes proporcionavam à época um rendimento anual de 4 milhões de libras, o qual se elevaria em seguida até aos 10 milhões de libras 15. Mas de que forma deveria actuar uma tal fortuna ? Neste aspecto o Testamento é vago, o que terá por consequência uma interpretação muito restritiva da vontade de Calouste Gulbenkian, em particular no que diz respeito à abertura internacional. Redigido de acordo com a lei britânica, em conformidade com a nacionalidade do testador, o testamento estipula que a Fundação seja criada segundo a lei portuguesa, a fim de evitar os impostos de sucessão devidos ao Reino Unido, bem como as restrições em vigor a respeito de fundações de beneficência. O testamento estipula ainda que a sede seja estabelecida em Portugal, ainda que as actividades não se devessem exercer apenas neste país, mas também nos locais que os seus dirigentes considerassem oportunos. O texto do testamento não diz nada mais e é extremamente vago sobre as intenções do seu testador. Nada mais é dito, por exemplo, acerca da localização do seu futuro museu! Porquê? Provavelmente Gulbenkian desejava manter o suspense e criar expectativa e esperança em diversos países. Mas é igualmente certo que Calouste Gulbenkian não tinha pressa. Ele, que se mostrou toda a vida obcecado pela saúde 16 não pensava morrer tão cedo. À imagem de seu avô, que havia vivido até aos 106 anos, preparava-se para se tornar centenário! 15 Em moeda actual e tendo em conta a inflação, 10 milhões de libras em 1955 equivalem, grosso modo, a 200 milhões de euros 16 Ao seu médico era pago um subsídio mensal, excepto quando C. Gulbenkian adoecia. O HOMEM E A SUA OBRA | 69 Após a morte de Calouste, aquando da redacção dos estatutos, assiste-se a um aceso debate entre os quatro administradores designados 17 que passou por numerosas manobras e acções na justiça, tanto José de Azeredo Perdigão em debate aberto no Reino Unido como em Portugal. Na verdade, as questões de fundo quanto à execução do Testamento ainda hoje se encontram por resolver, e revelam nas entrelinhas a questão delicada da independência da instituição face a um Estado ditatorial. Que composição deveria ter o futuro conselho de administração? Onde seriam recrutados os seus membros? Seriam procurados entre as melhores personalidades do mundo? Que esferas internacionais contactar? Quantos Portugueses seriam incluídos? O litígio focalizava-se também sobre o alcance da fundação: portuguesa ou internacional? Que percentagem dos subsídios deveria ser dispensada a Portugal? Tantas questões que, retrospectivamente, podem parecer deslocadas quando se conhece o carácter internacional do homem e da obra que realizou em vida. Mas, naquele período da história de Portugal, é evidente que Salazar estava por demais determinado em assegurar que a Fundação trouxesse o máximo de proveito ao seu país. Para este fim, Salazar tentou definir uma quota mínima a atribuir a Portugal. Procurou ainda impor uma maioria de administradores portugueses nos assentos do Conselho de administração. Isto deu origem a uma veemente resistência por parte do bloco de Radcliffe, 17 De um lado Radcliffe, Essayan e Nubar – que tinha sido finalmente incluído, apesar dos termos do último testamento não o mencionarem como administrador – e Perdigão do outro. 70 | calouste sarkis gulbenkian Salazar em conversa com Azeredo Perdigão Nubar e Kevork inicialmente, contra o advogado Perdigão, que patrioticamente apoiava Salazar. No entanto tornou-se claro que, para criar a Fundação, ter-se-ia de fazer referência à lei portuguesa e que, sem mais detalhes, o caso ficaria simplesmente sob o controlo de Salazar. Este insistiu em que a Fundação dispusesse de uma maioria de administradores portugueses, o que provocou a ira de Radcliffe. É então que, julgando que as intenções do fundador não seriam realizadas, Radcliffe apresenta a sua demissão. Nubar seguiu-o na sua retirada. Restava Kevork. Este mantém-se e aceita o desafio de servir a nova fundação, com a missão, em particular, de criar um Serviço dedicado ao Médio Oriente e às Comunidades arménias. O HOMEM E A SUA OBRA | 71 José de Azeredo Perdigão tornou-se o primeiro Presidente da Fundação e redigiu os seus estatutos. Estes seriam assinados, ao abrigo de um Decreto-lei, a 18 de Julho de 1956. É evidente que, para a elaboração destes documentos, Salazar e também Marcello Caetano «tomaram parte activa para tornar a instituição completamente apolítica e independente do José de Azeredo Perdigão, Governo» 18. A alusão não é o primeiro presidente da Fundação de somenos importância se se tiver em conta que, desde os seus primeiros anos, a Fundação não hesitou em ajudar a Arménia soviética, sem que o Governo tenha levantado qualquer obstáculo. Uma das primeiras tarefas do novo Presidente foi, naturalmente, reunir em Lisboa todas as obras de arte da colecção Gulbenkian, que se encontravam repartidas entre Paris, Londres e Washington, tarefa essa que desempenhou com notável habilidade. As obras-primas encontram-se hoje instaladas num esplêndido museu especialmente concebido na sede da Fundação, que se encontra imerso num jardim mágico, pleno de essências exuberantes. Assim foi cumprido um dos sonhos do fundador, o de reunir sob um mesmo tecto « todos os seus filhos dispersos ». 18 In Franco Nogueira, Salazar. IV – O Ataque (1945-1958), Porto, Livraria Civilização Editora, 4.ª Edição, 2000, p. 385. 72 | calouste sarkis gulbenkian As primeiras actividades É, todavia, com um cunho muito português que a Fundação iniciará as suas actividades. «Nos anos cinquenta, a sociedade portuguesa era pobre e atrasada. Os Portugueses viviam com enormes dificuldades.» 19 Este facto explica que a sociedade se mostrasse particularmente receptiva a qualquer contribuição de ordem sociocultural. De facto, os indicadores económicos e sociais do país de Salazar são os mais recuados da Europa: a esperança média de vida é a mais baixa do Ocidente, a alimentação deficiente, faltam instalações sanitárias adequadas nas habitações, existe uma predominância da população rural, trabalho infantil frequente, desigualdade de tratamento entre homens e mulheres, saúde pública deficiente, cerca de 70% de taxa de analfabetismo, sistemas educativo e de segurança social praticamente inexistentes, etc. Todos os domínios até então negligenciados, rogam por ajuda. Neste sentido, a nova Fundação vai insuflar o país de sangue novo, garantindo-lhe durante várias décadas o efeito de um maná inesperado 20. A sua acção irá, é certo, evoluir, assim como evolui o país onde exerce as suas actividades. Entre os anos 60 e 80, Portugal ver-se-á envolvido em três guerras coloniais em África, e despenderá um esforço militar colossal. Em 1974, dá-se a Revolução dos Cravos, uma revolução suave que põe fim a uma ditadura que havia reprimido o país durante 40 anos. A democracia é enfim restaurada. Em consequência, mudanças rápidas e profundas vão permitir a criação e consolidação do Estado Providência e, quanto à Fundação Gulbenkian, esta vai poder 19 In “Fundação Calouste Gulbenkian, Cinquenta Anos 1956-2006”, coordenação António Barreto, Lisboa, 2007. 20 Ver a este respeito « Fundação Calouste Gulbenkian, Cinquenta Anos 1956-2006”, coordenação António Barreto, Lisboa, 2007. O HOMEM E A SUA OBRA | 73 A Revolução Pacífica dos Cravos exercer as suas actividades com cada vez mais engenho. Esta acção será reforçada pela integração de Portugal na Comunidade Europeia em 1986. Entretanto, no final dos anos cinquenta, Portugal vive um início de recuperação, ou melhor dizendo, de uma evolução muito lenta: não conheceu a Guerra, mas tira partido da dinâmica de relançamento que abrangeu toda a Europa. A Fundação, que pouco a pouco toma consciência da sua missão, lançar-se-á rapidamente ao trabalho. Em Novembro de 1955, ainda os estatutos da Fundação Calouste Gulbenkian não tinham sido aprovados, já a instituição dirigida por Azeredo Perdigão lançava as suas primeiras iniciativas. É dada prioridade à educação: são imediatamente criadas as primeiras bolsas de estudo, começando pelo ensino secundário, então quase embrionário. As tão estimadas carrinhas “bibliotecas itinerantes” que percorriam Portugal de lés a lés... Ao mesmo tempo é estabelecida uma rede de bibliotecas fixas e itinerantes (as suas famosas carrinhas-biblioteca) que percorrerão todo o país, fomentando a sensibilidade e gosto pela leitura, mesmo nas zonas mais remotas. Mais tarde, seguindo a mesma linha de acção, a Fundação esforça-se por promover uma O HOMEM E A SUA OBRA | 75 política de edições económicas de obras fundamentais (Plano de Edições) para o ensino superior, participando paralelamente num grande movimento de democratização da educação. O próprio Salazar o reconhecerá: «Há que fazer justiça a Azeredo Perdigão. A Fundação que dirige constitui um magnífico Ministério da Cultura (…). Bem sei que a ideia de me ajudar está longe dos projectos da Fundação. Sei também que faria a mesma coisa se o país seguisse uma orientação política diferente. Mas o que faz, fá-lo, e isso é suficiente.» 21 No seu conjunto, as actividades da Fundação organizam-se em torno dos seus quatro objectivos estatutários: a Educação, a Arte, a Ciência e a Beneficência. A Fundação começa, também, a traçar os primeiros projectos de ajuda ao desenvolvimento nos países lusófonos, em África, e em Timor, projectos de estímulo à cultura portuguesa no Fortaleza no ponto estratégico no Estreito de Ormuz. Foi objecto de um projecto de reabilitação financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian 21 In « O Diário de Salazar », Antonio Trabulo, Lisboa 2004. 76 | calouste sarkis gulbenkian Conjunto arquitectónico da catedral Portuguesa em Safi (Marrocos). Foi objecto de um projecto de reabilitação financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian estrangeiro, em benefício da saúde em Portugal e da investigação científica, e projectos em prol da preservação de monumentos históricos e de testemunhos da presença portuguesa por todo o mundo. No âmbito internacional e não lusófono, o Conselho de administração decidiu, naturalmente, estender as actividades da Fundação aos países do Médio Oriente, ao Reino Unido e às comunidades arménias da diáspora. Nas primeiras décadas, a verba dedicada às actividades no Médio Oriente corresponde aproximadamente a um terço do orçamento da FCG. No Oriente, o Iraque foi escolhido, inicialmente, por ter sido o país do qual a Fundação obteve uma parte considerável das suas receitas. O museu de arte antiga e o estádio foram construídos em Bagdade nos anos sessenta, graças à generosidade da Fundação. O HOMEM E A SUA OBRA | 77 Na mesma época, centenas de profissionais autóctones foram formados, graças às bolsas atribuídas pela Fundação. Por sua vez, hospitais na Síria, Jordânia e Líbano recebem ajuda considerável, quer para aquisição de equipamento médico, quer para realização de projectos de construção, de que é exemplo o hospital universitário da American University of Beirut. Escusado será dizer que estes países foram também considerados devido à sua relação com a produção petrolífera da Iraq Petroleum Company e das suas associadas e, naturalmente, por albergarem uma elevada concentração de populações arménias. Mas, as verbas generosas destinadas aos países do Médio Oriente serão consideravelmente reduzidas na sequência da nacionalização do petróleo do Iraque. E não só. Um outro factor veio reforçar a redução das actividades fora de Portugal: na sequência da Revolução dos Cravos em Portugal (1974), a Fundação retrai-se. Assim, o peso das suas actividades no estrangeiro cairá para os 11%. Será necessário esperar até ao final da primeira década dos anos 2000 para ver a instituição retomar as suas disposições iniciais e aumentar o seu envolvimento internacional. Retrato actual A Fundação Calouste Gulbenkian figura hoje entre as mais importantes fundações europeias. Fundação portuguesa, de direito privado, de utilidade pública e de vocação internacional, possuía no seu activo, em 2009, cerca de 2,8 biliões de euros e um orçamento anual de 109 milhões de euros. Cerca de um quarto da sua riqueza é produto de interesses petrolíferos de concessões localizadas, principalmente, no Médio Oriente (Omã e Emirados árabes). No que diz respeito aos activos de Calouste Gulbenkian no Iraque, que a A sede da Fundação C. Gulbenkian Fundação herdou, há que recordar que foram totalmente nacionalizados em 1973. O mesmo se passou com os seus bens no Qatar. Restam hoje os activos petrolíferos de Omã e dos Emirados, bem como participações no Cazaquistão, no Brasil, em Angola e na Argélia, que a Fundação administra através da sociedade Partex. O resto – três quartos da riqueza da Fundação – encontra-se repartido num leque internacional diversificado de activos financeiros. Assinatura do protocolo estabelecido em 2006 entre a Fundação Gulbenkian (representada pelo seu presidente, E. Rui Vilar) e a Emirates Foundation O HOMEM E A SUA OBRA | A instituição, onde trabalham hoje em dia cerca de 500 funcionários, é dirigida por um conselho de administradores, maioritariamente de nacionalidade portuguesa. O conselho integra ainda, por tradição e em conformidade com os estatutos, um membro pertencente em linha directa à família do fundador. Os primeiros membros da família a participar nas actividades do Conselho de administração não tinham necessariamente, uma relação em linha directa com o Fundador – Kevork Essayan e Roberto Gulbenkian, respectivamente genro e sobrinho de Calouste. A relação de descendência directa será reassumida com Mikhael Essayan, seu neto e actualmente Presidente honorário da Fundação e, por fim, pelo seu bisneto, Martin Essayan, que assegura hoje em dia a rendição da terceira geração de administradores membros da família. Mikhael Essayan rodeado pelo seu filho Martin e pelos três netos Roberto Gulbenkian 79 Vista aérea das instalações da Fundação, em Lisboa As instalações da Fundação integram os edifícios da sede e do Museu Calouste Gulbenkian inaugurados em 1969, bem como o do Centro de Arte Moderna, inaugurado em 1983, o qual, após a morte, em 1993, daquele que esteve na sua origem, José Azeredo Perdigão, receberá o seu nome. O complexo arquitectónico abrange um auditório que acolhe 1200 espectadores, quatro anfiteatros polivalentes, um dos quais ao ar livre, uma zona de congressos, duas galerias de exposições temporárias e uma biblioteca de arte criada a partir da biblioteca pessoal de Gulbenkian e detentora de mais de 190.000 volumes. O HOMEM E A SUA OBRA | 81 A entrada principal do Museu C. Gulbenkian A Fundação Calouste Gulbenkian dispõe ainda de uma orquestra e de um coro que actuam tanto em Portugal como no estrangeiro. Visão parcial da orquestra C. Gulbenkian Jardins da Fundação Este importante complexo está rodeado de múltiplos jardins e pontos de água que se estendem por cerca de 7 hectares. A concepção destes espaços verdes, plenos de essências, é propositadamente naturalista. Respeita ao máximo as características da natureza e preserva a existência generosa de espécies por vezes raras. «Homem de ciência e sonhador num jardim a meu gosto, são as duas coisas, os grandes objectivos da minha vida que não consegui atingir»: O jardim da Fundação Gulbenkian procura prestar uma última homenagem ao fundador. A Fundação dispõe ainda do Instituto Gulbenkian de Ciência em Oeiras, perto de Lisboa, instituição Instituto Gulbenkian de Ciência, Oeiras O HOMEM E A SUA OBRA | 83 de âmbito internacional que incute uma nova dinâmica à investigação biomédica e ao ensino pós-graduado. Fora de Portugal, a Fundação possui também uma delegação em Londres e um centro cultural em Paris, instalado na antiga morada do fundador na Avenida de Iéna. Este último, mais precisamente o Centre Culturel Calouste Gulbenkian em Paris, leva a cabo, desde 1968, acção cultural regular, europeia e variada, que passa pela organização de cursos, seminários e conferências, de concertos e recitais, bem como de diversas exposições. O Centro dispõe ainda de uma biblioteca aberta ao público. Além disso, em Paris situa-se a Résidence André de Gouveia que a Fundação construiu e ofereceu à Cidade Internacional Universitária de Paris, e que acolhe estudantes portugueses e de outras nacionalidades. Em Londres, antiga sede dos negócios de Calouste Gulbenkian, que adquiriu a nacionalidade britânica, a Fundação tem uma delegação encarregada de atribuir subsídios no Reino Unido e na República da Irlanda. A Delegação apoia programas piloto nos domínios da educação, das artes, da ajuda social e das relações culturais luso-britânicas. Trata-se de pequenos projectos inovadores que, com frequência, têm o mérito de reve- Fachada da Delegação de Londres da Fundação Calouste Gulbenkian 84 | calouste sarkis gulbenkian lar-se bem sucedidos, aquando da sua posterior generalização. Quatro eixos recebem particular atenção: abordagens para uma melhor compreensão entre etnias, culturas e religiões; o apoio às populações socialmente frágeis para que realizem em pleno o seu potencial; e a relação do homem com o seu ambiente e a inovação social. As actividades realizadas na sede da Fundação articulam-se em torno das suas quatro áreas estatutárias. No domínio da Beneficência, reveste-se de particular importância o esforço realizado no âmbito da saúde em Portugal (subsídios, formação, estudos epidemiológicos, medicina ao domicílio, cuidados paliativos e equipamentos hospitalares). Mas não só. A Fundação envolve-se também em actividades de apoio ao desenvolvimento pessoal, principalmente através dos seus programas de ajuda a jovens desfavorecidos, a migrantes e a idosos. Quanto à Arte, é naturalmente fomentada a partir do Museu Calouste Gulbenkian, em torno do qual se desenvolvem diversas actividades relacionadas, como a edição de publicações sobre a colecção, exposições temporárias, ciclos de conferências, actividades pedagógicas diri- Actividades pedagógicas com crianças desenvolvidas nos jardins da Fundação O HOMEM E A SUA OBRA | 85 Hall de entrada do Centro de Arte Moderna gidas a crianças e, mais tarde, a abertura de um Centro de Arte Moderna (1983), e o apoio a projectos de Artes Plásticas, Teatro e Cinema. A arte é igualmente representada pelas actividades desenvolvidas pela Orquestra, pelo Coro e, anteriormente, pelo Ballet Gulbenkian, agora extinto. A Educação, domínio predilecto da Fundação, é apoiada através das actividades seguintes: atribuição de bolsas de estudo, produção de material educativo, apoio a projectos-piloto, promoção de condições de ensino, e pelo Plano de Edições, já anteriormente referido. A acção da Fundação no domínio da Ciência exerce-se ao nível da investigação científica em Portugal e da comunicação científica. Articula-se em torno de três eixos: a criatividade, a difusão e a interacção “Nos confins do universo” – Poster de conferência, 2009 86 | calouste sarkis gulbenkian entre ciência e sociedade. Nesta área a sua acção é secundada pelo Instituto Gulbenkian de Ciência em Oeiras. Todas estas actividades da Fundação, vocacionadas para dar resposta aos problemas maiores de uma sociedade em evolução, são hoje em dia executadas por uma vintena de departamentos. Beneficiando principalmente Portugal, no início, e também os países lusófonos e antigas colónias africanas, estas acções emancipam-se pouco a pouco do país de origem e da sua área de influência, estendendo-se a outras actividades fora de Portugal. Esta abertura recente por parte da Fundação deve-se, principalmente, a uma nova era de colaboração, iniciada há alguns anos, com outras fundações europeias. O departamento arménio da Fundação é o único que exerce actividade simultaneamente no âmbito dos quatro objectivos estatutários. Estende a sua acção por toda a parte onde se encontra dispersa a diáspora arménia, em particular nos países do Médio Oriente, junto das comunidades arménias caras ao Fundador, esforçando-se por preservar e transmitir a língua arménia e a sua cultura e identidade ancestrais. O Museu O Museu Calouste Gulbenkian está, hoje em dia, entre os melhores do mundo e ocupa, pela sua qualidade, o primeiro lugar ao nível europeu. À imagem do seu fundador, representa uma paleta única, de expressão tanto oriental como ocidental: inclui desde peças do Antigo Egipto, arte islâmica, da China e do Japão, até aos mestres da Escola de Barbizon, sem esquecer incursões na «Art Nouveau» com René Lalique. O HOMEM E A SUA OBRA | 87 Texto assinado por C. S. Gulbenkian que se encontra à entrada do Museu Da colecção fazem parte peças notáveis que remontam ao Antigo Egipto, ou seja 3000 a.C., estatuetas e vasos em terracota, taças em alabastro, uma pequena cabeça do faraó Amenhamat III da 12.ª dinastia (Antigo Egipto) em obsidiana. As suas moedas e medalhas gregas, em que se inclui um lote formado por toda a colecção Jameson (300 peças), constituem por si só uma das colecções mais importantes do mundo, todas elas em estado de Cabeça de Amenhamat III. – Pedra obsidiana 88 | calouste sarkis gulbenkian conservação impecável. Calouste tinha a ideia fixa da beleza: O meu objectivo é constituir uma colecção de moedas gregas muito bela, de um ponto de vista puramente artístico. Para tal, tenciono ater-me aos exemplares que apresentem um estado de conservação impecável e uma beleza excepcional. Encontramos igualmente alguns medalhões romanos descobertos no Egipto, cunhados no século III em honra de Alexandre, o Grande. Na arte da Mesopotâmia, pode ser visto um grande baixo-relevo assírio em alabastro, que representa um génio alado a transportar um vaso de água sagrada (século IX a.C.). Baixo-relevo em alabastro. Génio alado transportando um cântaro de água sagrada. Assíria-Nemrud, 884-859 A.C. Diversas peças expostas no Museu denotam a predilecção de Calouste Gulbenkian pelos objectos do Próximo e Médio Oriente, e evidenciam a ligação clara do coleccionador às suas raízes arménias. Aí se encontra uma rica colecção de objectos da Pérsia, Taça persa, período de Seljúcida O HOMEM E A SUA OBRA | 89 Turquia, Síria, dos países do Cáucaso e da Índia, representando um período que se estende das invasões mongóis de Gengis Khan até ao final do século XVIII. Descobre-se, por exemplo, uma colecção de tapetes, sedas, brocados, trajos, livros com iluminuras, encadernações, etc. Podem ainda admirar-se peças de cerâmica soberbas – com destaque para Vaso – jade branco, Sarmacanda, Dinastia Timúrida as cerâmicas de Iznik, lamparinas da época Mamelouk e vasos sírios, geralmente executados por encomenda para príncipes e sultões. Quanto à parte arménia, estão expostos alguns manuscritos ricamente ilustrados, datados do século XVI, executados em Istambul, na Pérsia e na Crimeia por colonos arménios estabelecidos em Caffa. A colecção é relativamente reduzida porque a maioria das obras “Tapete Português”, assim chamado em virtude das caravelas que adornam os quatro cantos do tapete invocando a presença Portuguesa no Oriente e no Extremo Oriente entre os séculos 15 e 17 90 | calouste sarkis gulbenkian Painel de azulejos Iznik, Império Otomano (ca. 1573) Inro: caixa em laca, Japão (séculos 18-19) Lâmpada de Mesquita, Síria, período Mamelouke O HOMEM E A SUA OBRA | Bíblia Arménia: iluminura. Constantinopla, 1623 Lâmpada Arménia, cerâmica Kütahya, século 18 91 92 | calouste sarkis gulbenkian arménias foi legada ao Patriarca de Jerusalém pelo coleccionador. Mais adiante, do Extremo Oriente podem ver-se uma importante colecção de porcelanas chinesas que remontam ao século XIII, jades translúcidos da arte chinesa, gravuras japonesas, brocados de seda e diversos objectos de laca, onde se inclui uma colecção única de inros. A Virgem e o Menino (mármore) atribuído a Jean de Liège (século 14), escultor ao serviço da corte do rei Carlos V de França Por outro lado, a predilecção de Calouste Gulbenkian pelas obras de arte encontra-se estimulada de forma científica por toda uma série de obras fundamentais que dão informação sobre história da arte, arqueologia, pintura, escultura, cerâmica, mobiliário, ourivesaria, tecidos, numismática e manuscritos ornados de iluminuras, cujo alcance resume bem o eclectismo do gosto e da cultura de Calouste Gulbenkian. Mas não há apenas obras documentais. Gulbenkian era um apaixonado por livros antigos. Legou-nos exemplares raros, manuscritos Orientais com ricas iluminuras e encadernações da Pérsia e da Turquia, e Ocidentais – ingleses, flamengos, holandeses, italianos e sobretudo franceses, remontando até ao século XVI. Estes livros são Par de mostardeiras (Antoine-Sébastien Durant), Prata. França, século 18 Museu Gulbenkian Espaço reservado a mobiliário francês do século 18 94 | calouste sarkis gulbenkian apresentados em associação com marfins medievais, dípticos e trípticos que representam cenas da vida de Cristo e da Virgem. Aproximamo-nos, assim, progressivamente, da arte ocidental, da arte europeia da Renascença e do século XVII, representada por importantes tapeçarias provenientes de grandes centros da região da Flandres e de Itália. Seguem-se peças notáveis de mobiliário francês datadas do século XVIII, da época da Regência, de Luís XV e Luís XVI, bem como relógios de pêndulo e imponentes peças de prata e de baixela da mesma época. Um espaço é especialmente reservado à ourivesaria francesa do século XVIII, com obras de grande qualidade artística assinadas por artistas prestigiados como Thomas Germain, Robert-Joseph Auguste, Martin-Guillaume Biennais, Charles Spire, Louis Regnard, J. N. de La Tour Roettiers. Muitos deles faziam parte do “Serviço de Paris” do Palácio Imperial russo. Podem ver-se diversos centros de mesa, mostardeiras, candelabros, serviços de chá, terrinas, etc., cujos motivos ornamentais evocam, sobretudo, temas relativos ao mar, à caça, à pesca e à natureza nas suas diferentes formas. A colecção de quadros estende-se dos Primitivos Flamengos aos Impressionistas (do século XV ao século XX) com obras dos maiores mestres das escolas alemã, flamenga, francesa, holandesa, inglesa e italiana. Incluem-se entre eles Van der Weyden, e os grandes mestres do século XVII como Van Dyck, Rembrandt e Rubens, e ainda uma plêiade de pintores Busto de São José (Rogier van der Weyden), 1400-1464 “O Espelho de Vénus” (Sir Edward Burne-Jones), Inglaterra, 1875 “Flora” (Jean-Baptiste Carpeaux), Londres 1873 Retrato de Henri Michel Levy (Edgar Degas), França, 1878 96 | calouste sarkis gulbenkian “O naufrágio” (Joseph Mallord William Turner), Inglaterra, 1810 ingleses que ilustram o final do século XVIII e o início do século XIX, como Thomas Gainsborough, George Romney, John Hoppner, Sir Thomas Lawrence e William Turner. A pintura francesa está profusamente representada com obras de Corot, Fragonard, Millet, Lépine e Fantin-Latour, bem como de Manet, Degas, Renoir e Monet, podendo ver-se também algumas esculturas de Carpeaux. Está Escrivaninha (Martin Carlin). Tampo de porcelana de Sèvres que pertenceu à rainha Maria Antonieta de França O HOMEM E A SUA OBRA | 97 ainda representado Francesco Guardi, com uma sala inteiramente dedicada a reproduções de Veneza. Como foi dito anteriormente, nestas peças incluem-se algumas provenientes directamente do Museu Hermitage, que vieram enriquecer a colecção de Calouste Gulbenkian com as suas melhores obras. Para além da Diane de Houdon, Gulbenkian adquiriu dois Rembrandt, um Watteau, um Rubens, e também objectos de prata francesa de François-Thomas Germain que tinham pertencido a Catarina II da Rússia. Outras obras foram também adquiridas a personagens ilustres, com destaque para a família Rothschild. A Tête de Legros foi comprada directamente a Rodin, em Novembro de 1910. “A festa da Ascensão na Piazza San Marco” (Francesco Guardi), Veneza, 1775 98 | calouste sarkis gulbenkian A visita ao Museu termina numa secção completamente distinta, considerada única no mundo, dedicada aos objectos criados por René Lalique, o artista francês da Art Nouveau com quem Calouste Gulbenkian manteve uma fiel relação de amizade. Aí encontramos, veiculado pelas jóias mais preciosas, todo um mundo onírico no qual se exprime uma observação por demais poética e sensual da natureza e do reino animal. Através de uma magnífica composição de pedras preciosas e peças de vidro, o artista recriou meticulosamente todos os pormenores da natureza, associando elegantemente movimentos cores e suavidade. Sob a forma das mais belas jóias, insectos, peixes, répteis, aves, plantas, flores, árvores e nus femininos ganham nova vida, participando numa paisagem que se torna mágica, onde se encontram figuras alegóricas e místicas. Entre estes dois estetas, um poeta-ourives e um poeta da natureza, é fácil compreender quão fecunda a amizade terá sido. Jóia (René Lalique). Gargantilha arvoredo: ouro, esmalte, opalas e diamantes O HOMEM E A SUA OBRA | 99 O Serviço das Comunidades Arménias No seio da Fundação Calouste Gulbenkian, o Serviço das Comunidades arménias ocupa um lugar à parte. De dimensão reduzida, com uma equipa de sete pessoas entre um efectivo total de mais de quinhentos funcionários, este é o único serviço responsável pelas actividades armenófilas da Fundação. O seu administrador de facto, sempre tem sido arménio. O Serviço das ComuniKevork Essayan dades Arménias manteve sempre uma relação estreita com os membros da família de Calouste Gulbenkian, assegurada pelo facto de os seus diferentes administradores terem sempre sido membros da família. Com efeito, o co-executor do testamento Kevork Essayan, genro de Calouste, foi também o primeiro administrador do Serviço. O sobrinho de Calouste, Roberto Gulbenkian, que foi educado pelo seu ilustre parente, sucedeu-lhe em 1964. Retirou-se em 1996, deixando o lugar de Administrador do Serviço ao seu primo, Mikhael Essayan – já membro do Conselho de Administração desde 1981 – neto de Calouste, filho de Rita Gulbenkian e de Kevork Essayan. O Serviço das Comunidades Arménias foi criado por iniciativa de Kevork Essayan, em homenagem ao fundador. A actividade do Serviço destina-se prioritariamente às comunidades arménias da diáspora repartidas, principalmente, pelos países do Médio Oriente (Turquia, Egipto, Líbano, Síria, Jordânia, Palestina e Israel), mas também pela Europa, em particular em França, na Grécia e em Itália, e ainda em países das América do Norte e do Sul. O seu objectivo principal é a 100 | calouste sarkis gulbenkian Escola e Centro Cultural Arménio em Alepo, construído com o apoio da Fundação difusão da educação e da cultura arménias por todos os meios possíveis. É dada prioridade ao estímulo de estabelecimentos escolares e de centros culturais, ao apoio às igrejas arménias e outros centros de culto e a disciplinas de armenologia por todo o mundo, e ainda ao auxílio a estudantes universitários, qualquer que seja a sua área de formação, mas com atenção particular aos seminaristas, instrumentos por excelência de transmissão do património histórico. Alunos numa escola arménia Universidade do Estado da República da Arménia, Yerevan A difusão da cultura arménia passa igualmente por uma preocupação especial com o trabalho de edição de obras científicas de filologia e de história dos Padres da Igreja arménia, incluindo a edição de manuscritos antigos e de bíblias em arménio. Este trabalho de difusão da armenologia é reforçado pelo apoio técnico e científico concedido na Arménia aos diferentes centros intelectuais, culturais e de investigação, nomeadamente a Academia das Ciências, o Matenadaran (Biblioteca de Manuscritos antigos), a Biblioteca Nacional e a Universidade Estatal de Erevan. Matenadaran, Yerevan 102 | calouste sarkis gulbenkian A abertura ao mundo Desde as suas primeiras iniciativas, em 1955, até aos dias de hoje a Fundação evoluiu, atravessando diversas fases no seu percurso. As suas acções iniciais, directas, empíricas e pontuais, deviam responder à urgência e compensar as faltas do Estado. Foi a época das primeiras intervenções em matéria de educação, de investigação científica, de formação artística, de expressão cultural, de saúde pública, de equipamento hospitalar e de assistência aos necessitados. Aníbal Cavaco Silva, Presidente de Portugal, no seu discurso durante a comemoração do cinquentenário da Fundação Calouste Gulbenkian. Também antigo bolseiro da Fundação Gulbenkian Durante três décadas, dos anos 50 aos anos 80, a Fundação Calouste Gulbenkian foi a entidade nacional mais importante a atribuir bolsas de estudo (ensino secundário, universitário e pós-graduado). O país assistiu à formação das suas primeiras elites científicas e culturais. Quase todos os cientistas, artistas, universitários, investigadores, professores de renome em Portugal ou no plano internacional, beneficiaram num momento ou noutro da Gulbenkian. Mais tarde, o Estado alcança a Fundação, depois ultrapassa-a, fortalecido, desta feita, pelos novos apoios assegurados pela Comunidade Europeia. Por sua vez, a sociedade portuguesa vai conhecer um desenvolvimento progressivo. Os seus novos quadros e instituições ganharão O HOMEM E A SUA OBRA | 103 experiência. O jovem Estado democrático que se rege pelos novos princípios do Estado Providência investirá, por sua vez, nos domínios já contemplados pela Fundação. Uma década após a revolução dos cravos, um novo elemento será catalisador destas novas forças: a entrada de Portugal, em 1986, na Comunidade Europeia. Um ganho inesperado para o pequeno país, que beneficiará, de repente, dum quadro internacional de interesses, de redes solidárias e de uma dádiva imprevista para as suas próprias intervenções. De tal modo que, a Fundação, ultrapassada nalgumas das suas acções, é levada a redefinir-se. No final do século, põe em marcha uma viragem nas suas actividades. A acção empírica e em função das circunstâncias, segundo a urgência das necessidades, é descartada em prol de uma actividade indirecta e programada no tempo. Em vez de se dispersar em todas as direcções, a Fundação passa a uma era de estratégia, de planificação a prazo. E porque a Educação e as Artes, em particular, se tornaram domínios em bom funcionamento, que gozam de relevo em matéria de instituições estatais e privadas, a Fundação irá fazer um esforço suplementar no domínio das Ciências e do Social. As novas prioridades já não são especificamente portuguesas ou lusófonas, mas inscrevem-se num quadro internacional em mudança e dizem respeito a questões actuais da sociedade: o ambiente, a inserção social, o diálogo intercultural e religioso, as migrações e a mobilidade, a valorização do capital humano, etc. Novos desafios para a Fundação. Esta esforçar-se-á por encontrar respostas originais, criativas. Cabe-lhe agora a função de dar o exemplo, criar modelos, dar orientação. Para este fim, a Fundação concebeu uma nova linha de actividades que são os «Programas Gulbenkian», que se estendem num quadro temporal limitado, e que constam de acções de natureza diversa sobre um mesmo tema: ciclos de conferências, cursos de formação, edições Conferência Internacional organizada pelo Serviço de Educação e Bolsas dedicada a crianças e sua relação com a Internet de obras, espectáculos, filmes documentais, emissões televisivas, etc. São fruto de iniciativas próprias ou criadas em parceria com outras instituições. Entre estes programas incluem-se o PG da língua portuguesa, o PG de luta contra o insucesso escolar, o PG de criação artística, o PG Ambiente ou ainda o programa consagrado à ajuda ao desenvolvimento. Também os métodos se transformam, sobretudo com vista a economizar, racionalizar e concentrar meios e iniciativas. A Fundação procura, paralelamente, atrair um público mais jovem em consonância com a emergência de uma nova Cultura de Juventude na sociedade. Os seus novos projectos educativos, por exemplo ao nível das artes plásticas e musicais, convidam os jovens a vir às suas instalações descobrir e compreender os grandes mestres da música e da pintura. O HOMEM E A SUA OBRA | 105 Paralelamente às actividades, a sensibilização para os problemas actuais faz igualmente parte dos desafios lançados pela Fundação. As agora famosas conferências nacionais e internacionais que têm lugar regularmente na sede da instituição, com um público diferente e cosmopolita, abordam todos os temas da actualidade: Saúde mundial, Biologia, Artes, Comunicação social, Europa, Paz, Relações internacionais, Migrações, Economia, Filosofia, Ciência, etc. Mas a Fundação, agora parte do European Foundation Centre (EFC), assumiu resolutamente uma política de abertura, para lá das suas fronteiras: cada vez mais envolvida, em conjunto com as principais fundações europeias, em acções concertadas, amplas e bem compreendidas. Neste momento a Fundação participa activamente num projecto denominado «Global Philanthropy Leadership Initiative» que compreende as várias actividades desenvolvidas pela comunidade das organizações de filantropia internacionais. Tem por objectivo assegurar a essas organizações um melhor enquadramento jurídico e fiscal, assim como de incentivar a colaboração dos seus actores a partir de novos modelos, e bem assim de identificar a natureza política et os catalisadores do diálogo. É ainda de notar que a Fundação criou, por ocasião do seu 50.º aniversário, em 2006, um Prémio internacional especial, em memória do seu fundador. O Prémio, no valor de 100.000 euros, é atribuído todos os anos a uma entidade seleccionada por um Júri internacional, que se empenhe na compreensão, defesa e promoção dos valores universais da condição humana. Fortalecida pelas suas novas iniciativas em prol de uma sociedade em evolução e que começam, pouco a pouco, a emergir de Portugal para incidir num cenário internacional, a Fundação empreende uma viragem decisiva. Nas palavras do actual Presidente, Emílio Rui Vilar: Cerimónia de entrega do Prémio Internacional Calouste Gulbenkian atribuído à organização Árabe-Israelita “Hand in Hand” pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. À sua esquerda E. Rui Vilar, Presidente da Fundação e à sua direita, Jorge Sampaio, antigo Presidente da República Portuguesa «A Fundação Gulbenkian, em conformidade com o testamento do seu Fundador, é de natureza internacional. Devemos assumir a nossa responsabilidade enquanto parte activa na sociedade à escala global. É agora o momento de dar conta de uma das características próprias da Fundação, que é a nossa capacidade de trabalhar além das fronteiras nacionais, de tirar partido e partilhar experiências de diversos países para o bem de todos. A nossa missão é O Prémio internacional Calouste Gulbenkian O HOMEM E A SUA OBRA | 107 nada menos que abordar as questões do nosso tempo. E, nesse aspecto, não somos modestos. Dispomos dos meios humanos e financeiros, bem como da determinação necessária para o fazer». À imagem de Calouste Gulbenkian, o arquitecto visionário e cidadão do mundo, a sua instituição aprendeu a adaptar-se, a reagir, a construir e a antecipar. No plano português é certo, mas também em termos internacionais. Aprende-o ainda hoje graças aos seus contactos com outros países, outras instituições, com as quais procura conhecer e partilhar experiências. A sua determinação, aliada aos seus meios financeiros e a um capital humano rico de mais de cinquenta anos de actividades, fornecem-lhe hoje em dia os meios necessários para cumprir a vocação a que se propôs e que é dirigida à sociedade civil a nível global: a de detectar as fragilidades sociais actuais, catalisar a criação de programas adaptados e, por fim, conduzir a sua execução. Ao fazê-lo a Fundação retoma, seguramente, a sua vocação e assume em pleno, doravante, as últimas vontades do seu fundador. AGRADECIMENTOS Duas pessoas orientaram-me na realização desta obra: Zaven Yegavian que pelos seus ricos conhecimentos do mundo arménio, oportunamente sugeriu e permitiu reenquadrar a personagem de Calouste Gulbenkian, e antes dela, a sua ilustre família no seu ambiente natural, o Império Otomano do século XIX. Devo-lhe igualmente uma releitura activa que garante à obra toda a sua autenticidade histórica. Congratulo-me por outro lado pela sua paixão por documentos antigos que permitiu a utilização de raros documentos iconográficos referentes à parte otomana. Martin Essayan, o bisneto de Calouste Gulbenkian cujas preciosas informações, extraídas por vezes da memória da família e geralmente aliadas ao rigor que lhe é próprio e ao cuidado meticuloso pela verdade que me orientaram constantemente nas pesquisas de informação, em particular no que diz respeito às páginas dedicadas ao petróleo. Devo igualmente ao seu sentido inato de objectividade a versão final das páginas que traçam a génese da instituição. Que um e outro encontrem aqui a expressão do meu profundo agradecimento. Gostaria igualmente de agradecer a todas as pessoas que me ajudaram na realização iconográfica desta obra, em particular: Arman Amirkhanian, Elisabete Caramelo, Fernanda Sanchez, Henrique 110 | calouste sarkis gulbenkian Fernandes, Honória Eleutério, Isabel Moura, Joana Grilo, Margarida Caixeiro, Marta Areia e Nuno Vassallo e Silva. Um agradecimento especial ao Paulo Emiliano pelo seu auxílio na realização da árvore genealógica. CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS Arquivos da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa (em particular: Carlos Azevedo, Catarina Gomes Ferreira, Margarida Ramalho, Mário de Oliveira, Nuno Vieira et Reinaldo Viegas) Arquivos da Câmara Municipal de Lisboa, núcleo Fotográfico: pág 60: Autor: Benoliel, Judah – JBN003663, pág 61: Autor: Guedes, Paulo – PAG000429, pág 62: Autor: Guedes, Paulo – PAG000447, pág 63: Autor: Guedes, Paulo – PAG000488, pág 73 – Autor: Fotógrafo não identificado – A77598. Ingrid Yegavian, Lisboa Arsen Yarman, Istambul Silva Trika, Istambul Makrouhie Hagopian, Istambul Alexandre Virabyan, Yerevan Hratchia Tamrazyan, Yerevan Kevork Hintlian, Jerusalém Aroush Essayan, Alepo Mgr Kegham Khatcherian, Beirute Mgr Vahan Topalian, Amman Catherine Pinguet, Paris Garwood & Voigt, England BIBLIOGRAFIA AKYILDIZ, Ali: Osmanli Donemi Tahvil ve Hisse Senetleri “ottoman securities”, 2001 Istanbul (Turk Ekonomi Bankasi A.S.). ANTUNES, José Freire: Salazar e Caetano: Cartas Secretas – 1932-1968, Difusão cultural, Lisboa 1994. BARRETO, António: Fundação Calouste Gulbenkian, Cinquenta Anos 1956-2006, Lisboa 2007. CONLIN, Jonathan: Análise Social, (Revista do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa) vol. XLV (n.º 195), 2010, 277-306: Philanthropy without borders: Calouste Gulbenkian’s founding vision for the Gulbenkian Foundation. ELDEM, Edhem: In search of the Gulbenkian, Sakip Sabanci Muzesi, Istanbul 2006. 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Lisboa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A FUNDAÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A Génese . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . O Testamento e os estatutos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . As primeiras actividades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Retrato actual . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . O Museu . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . O Serviço das Comunidades Arménias . . . . . . . . . . . . . . . . A abertura ao mundo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63 63 67 72 77 86 99 102 AGRADECIMENTOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109 CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111 BIBLIOGRAFIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113 Edição: ASTRIG TCHAMKERTEN © Fundação Calouste Gulbenkian Serviço das Comunidades Arménias (Texto original em Francês) Empresa tradutora: [email protected] Maquette: Pedro António Execução Gráfica: G. C. – Gráfica de Coimbra, Lda Palheira – Assafarge 3001-453 Coimbra [email protected] Nova Edição, 2010 Depósito Legal n.º 319764/10 ISBN 978-972-8767-23-5 CALOUSTE SARKIS GULBENKIAN O Homem e a sua Obra Nova edição FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN Serviço das Comunidades Arménias Lisboa 2010 Vista de Constantinopla no tempo de Calouste Gulbenkian