AUTORRETRATO, UM OLHAR PARA SI: ANÁLISES COMPARADAS DE POESIA E PINTURA Hilquias Eufrásio Stirle, (IC, CNPq), Unespar – Câmpus de Campo Mourão, [email protected] Mônica Luiza Socio Fernandes, (OR), Unespar – Câmpus de Campo Mourão, [email protected] RESUMO: O presente estudo visa o estudo do autorretrato sob uma perspectiva diferenciada, ou seja, estabelecendo relações comparativas entre poemas e pinturas que tratam dessa temática. O autorretrato é o espelho do artista, nele o retratado é quem se retrata (CANTON, 2001), refletindo, portanto, o criador em seu processo de criação. Utilizando-se dessa forma de autorrepresentação, o pintor e/ou poeta recria as memórias de sua vida, de sua poesia e de seus traços, reconstruindo a sua história por meio de uma sondagem de si mesmo. Mediante esses aspectos, o autorretrato apresenta-se como uma retrospectiva do interior do artista, demonstrando suas inquietudes diante da vida e do mundo que o cerca e a sua maneira particular de ver e conceber a arte. Teremos como base teórica para o nosso estudo os pressupostos da literatura comparada, Carvalhal (1986) e Nitrini (2010), que possibilitarão o confronto dessas diferentes expressões artísticas, visando refletir sobre as relações intertextuais que estabelecem entre si com relação à temática. A intertextualidade proveniente dos estudos dialógicos de Bakhtin também orientará nosso estudo, permitindo entender como uma obra retoma a outra, como elas se relacionam, absorvem umas às outras e se transformam, levando-nos a uma leitura que se afasta dos aspectos monológicos. Palavras-chave: Literatura Comparada. Intertextualidade. Autorretrato. INTRODUÇÃO Ao realizar um autorretrato, o artista revela ao mundo não só sua aparência física, mas também sua maneira de ver e conceber a arte. Por meio do trabalho com as palavras e/ou as cores, tanto o pintor quanto o poeta refletem em suas criações artísticas, a essência do seu próprio eu e as suas inquietações diante da vida e do mundo. Dessa forma, o estudo do autorretrato permitirá ir além da imagem, no caso da pintura, e além das palavras, ao se tratar da poesia, pois possibilitará a análise de aspectos da subjetividade e da existência do artista, a fim de desvendar não só a sua identidade, mas também alguns mistérios de sua criação artística. O presente artigo vai tratar desse tema como uma possibilidade de confronto intertextual entre obras de linguagens diferentes. Podemos tomar, para exemplificar essas relações intertextuais, as pinturas de Romero Britto e Juan Miró, ambas intituladas Autorretrato, confrontando-as a dois poemas de Fernando Pessoa considerados autorretratos, o poema Autopsicografia do mesmo autor e o poema Auto Retrato de Manuel Bandeira. Ao compararmos essas obras (poesias e pinturas), percebemos que em ambas as expressões artísticas, tanto o pintor quanto o poeta enfatizam a importância que a arte tem em suas vidas, refletindo a sua visão de mundo e a sua história. Além de demonstrar sua maneira particular de conceber a sua obra que é reflexo de suas experiências no mundo. IX EPCT – Encontro de Produção Científica e Tecnológica Campo Mourão, 27 a 31 de Outubro de 2014 ISSN 1981-6480 Para realizarmos essas discussões, dividiremos esse artigo em algumas se secções. Discutiremos primeiramente algumas noções da Literatura Comparada e intertextualidade e em seguida apresentaremos a relação entre a literatura e as artes visuais. Por fim, enfocaremos o objeto do nosso trabalho, ou seja, o autorretrato, abordando seus aspectos mais relevantes. LITERATURA COMPARADA E INTERTEXTUALIDADE O surgimento da Literatura Comparada ocorreu na França com Abell-François Villeman, um dos primeiros a difundir a expressão “estudo da literatura comparada”, utilizando-a em cursos de Literatura no século XVIII. Entretanto, é difícil chegar a um acordo no que se refere à natureza da Literatura Comparada, pois seus objetivos e métodos crescem cada vez mais por meio da diversidade de suas noções e orientações metodológicas. Devido ao seu ecletismo metodológico, “torna-se cada vez mais claro que a Literatura Comparada não pode ser entendida apenas como sinônimo de comparação” (CARVALHAL, 1986, p.6), pois, a comparação não é um recurso próprio do comparatista, mas é proveniente do processo mental que possibilita a generalização ou a diferenciação. Dessa forma, a Literatura Comparada compara não pelo procedimento em si, mas porque, como recurso analítico e interpretativo, a comparação possibilita a esse tipo de estudo literário uma exploração adequada de seus campos de trabalho e o alcance dos objetivos a que se propõe.( CARVALHAL,1986, p.7) Embora a Literatura Comparada tenha sido apreendida primeiramente pelos franceses, devendo a eles certa exclusividade, comparatistas americanos têm em René Wellek, seu representante mais importante, uma vez que ele por meio de suas ideias foi o responsável pelo distanciamento das orientações básicas da Literatura Comparada francesa da americana, fortalecendo as diferenças entre elas. Foi com Wellek que a LC sofreu seu primeiro e grande abalo em 1958, quando o mesmo publicou o artigo intitulado “A Crise da Literatura Comparada”, no 2° congresso da Associação Internacional De Literatura Comparada, em Chapel Hill, por meio do qual considerava o comparatismo como” uma represa estagnada” (CARVALHAL, 1986, p. 34), criticando, portanto, o estudo das fontes e das influências provenientes dos manuais clássicos franceses. Mediante essas questões, ele propunha a substituição do que considerava como “ passatempo de antiquário”, ou “ cálculo de créditos e débitos nacionais” ou ainda “mapeamento de rede de relações”, por uma modalidade de análise sinônima de crítica e, talvez, a partir daí, pela realização de um “ estudo comparativo da literatura”, expressão que lhe parece mais adequada que de Literatura Comparada.” ( CARVALHAL, 1986, p. 37). Em suma, Wellek defendia a “introdução da reflexão critica nos estudos comparados” (CARVALHAL, 1986, p. 38). IX EPCT – Encontro de Produção Científica e Tecnológica Campo Mourão, 27 a 31 de Outubro de 2014 ISSN 1981-6480 Durante o século XX, buscou-se uma reformulação dos conceitos da Literatura Comparada, sendo um dos contribuintes dessa mudança tangente aos estudos comparados, Mikhail Bakhtin por meio de sua pesquisa concernente ao dialogismo no discurso literário. A compreensão de Bakhtin, do texto literário como um “mosaico”, construção caleidoscópica e polifônica estimulou a reflexão sobre a produção do texto, como ele se constrói , como absorve o que escuta. Levou-nos, enfim, a novas maneiras de ler o texto literário. (CARVALHAL, 1986, p. 49) Com base nos pressupostos dialógicos de Bakhtin, Julia Kristeva formulou na década de 60, a teoria da intertextualidade que permite reconhecer que nenhum texto é autônomo, que “todo texto se constrói como um mosaico de citações, todo texto é a absorção e a transformação de outro texto” (KOCH, 2007, p.14). Por meio da intertextualidade podemos entender como uma obra retoma a outra, como elas se relacionam, absorvem umas as outras e se transformam nos levando a atingir os aspectos mais profundos dessas criações artísticas. Além disso, quando buscamos referências em outras obras e em outros campos artísticos, podemos observar como a temática se atualiza bem como se estabelece o confronto entre as diferentes linguagens e obras, extraindo novas dimensões significativas. Atualmente, tal qual as outras artes, a literatura tem se tornado campo de infinitas relações, amálgamas e, diante dessa característica marcante das artes na contemporaneidade, a Literatura Comparada constitui-se num dos meios mais importantes para o entendimento das obras sob nova perspectiva, pois mediante o confronto com outras diferentes manifestações artísticas, ela sugere a compreensão das mesmas por meio de um ângulo inovador. Para Pichois e Rousseau apud Nitrini (2010, p. 30), a Literatura Comparada é A arte metódica, pela pesquisa de liames de analogia, de parentesco e de influências, de aproximar a literatura dos outros domínios da expressão e do conhecimento, ou então, os fatos e os textos literários entre eles, distantes ou não no tempo ou no espaço, desde que pertençam a várias línguas ou várias culturas, participando da mesma tradição, a fim de melhor descrevê-los, compreendê-los e apreciá-los. Ela possibilita a aproximação de diferentes expressões artísticas, neste caso, poesia e pintura, tornando evidentes as peculiaridades de cada obra e os traços que possuem em comum e a maneira como evoluem no tempo e no espaço. E por meio do estabelecimento de analogias e diferenças entre as artes também nos permite, refletir sobre essas relações e discernir como as obras se transformam quando confrontadas, ampliando a abrangência significativa das mesmas. A Literatura Comparada também não desfaz a peculiaridade do objeto estudado, mas pelo do estabelecimento de relações que enfatizam tanto as semelhanças quanto as particularidades de cada uma das obras, permite que sejam diluídas as fronteiras entre a literatura e as outras artes, permitindo compreendê-las em contextos IX EPCT – Encontro de Produção Científica e Tecnológica Campo Mourão, 27 a 31 de Outubro de 2014 ISSN 1981-6480 diferenciados. Assim sendo, “um elemento retirado de seu contexto original para integrar outro contexto, já não pode ser considerado idêntico. A sua inserção em um novo sistema altera sua própria natureza, pois aí exerce outra função” (CARVALHAL, 1986, p. 47). A Literatura Comparada constitui-se, à vista disso, como um modo diferenciado de pensar e solucionar problemas recorrentes em diferentes manifestações artísticas por meio de diversos contextos, renovando o sentido dessas obras mediante um horizonte de expectativas e permitindo desvendar o mistério entranhado em cada uma elas por meio do diálogo estabelecido entre as mesmas. O diálogo entre o texto verbal e o visual amplia a capacidade de compreensão dos elementos de uma obra presentes em outra. Essa aproximação entre a poesia e a pintura constitui-se num dos meios possíveis para desvendá-los sob uma nova perspectiva, na qual um participa da construção de sentido do outro. Ao mesmo tempo em que essas obras se unem, expandindo sua área de abrangência significativa, elas se separam, isolam-se, adquirindo significados distintos. Entretanto, Tal constatação muda a compreensão do comparativista que persegue um tema, uma imagem ou mesmo um simples verso ao longo de diferentes textos. Ela o faz considerar não mais apenas o elemento em si, mas a função que ele exerce em cada contexto. Enfim, graças a isso, o elemento rastreado é o mesmo, sendo já outro por força da nova função que lhe é atribuída. (CARVALHAL, 1986, p. 47) A comparação trata-se, portanto, de um meio e não um fim, pois permite por meio do confronto das obras, compreender o processo criativo de cada uma delas sugerindo, ao mesmo tempo, o caminho para a compreensão dessas criações artísticas. Mediante essas relações, a pintura pode ser considerada como a tradução do poema e vice-versa, pois ao serem comparadas, uma obra busca completar o sentido da outra, revelando aspectos que analisados separadamente ficariam limitados do ponto de vista significativo. Existe sempre algo que não podemos expressar com palavras, desta forma, a pintura entra como um complemento do poema, da mesma forma que o poema pode complementar aquilo que a imagem não consegue expressar. Além do mais, ao se identificar também as características presentes nessas expressões artísticas, podemos perceber a forma como esses elementos são representados em cada uma delas, nos permitindo, a partir disso, descrever os laços de parentesco estabelecidos entre essas diferentes visões de mundo. Segundo Foucault apud Nitrini (2010, p.241) “A comparação das obras nos permite observar o discurso no seu jogo e todo um feixe de relações se estabelecem na medida em que as obras se aproximam e se afastam, se cruzam ou se distanciam”. Esses aspectos tornam evidente o fato de que Literatura Comparada se ampara nos pressupostos da intertextualidade proveniente dos estudos backtinianos como fundamento teórico. IX EPCT – Encontro de Produção Científica e Tecnológica Campo Mourão, 27 a 31 de Outubro de 2014 ISSN 1981-6480 A LITERATURA E AS ARTES VISUAIS À medida que o diálogo entre o texto verbal e o visual amplia a capacidade de compreensão dos elementos de uma obra presentes em outra, a intertextualidade permite não só a reflexão sobre os textos pelo intercâmbio entre os mesmos, mas também pela transformação recíproca que sofrem a partir do momento em que essas relações de trocas são estabelecidas. Esse confronto entre as obras é possível, pois a matéria da poesia e da pintura é a mesma, ambas têm a imitação das ações humanas no mesmo grau; do mesmo modo representam ambas os costumes: ambas são painéis da vida humana. Nas coisas que fazem o pintor e o poeta sempre se deve guardar verossimilhança, que é norte de ambos, e ambos têm o mesmo fim que é aproveitar com deleite os ânimos. (MUHANA, 2002 p. 80) Mesmo o poeta não possuindo os recursos utilizados pelo pintor, ele busca, de acordo com suas possibilidades, os elementos necessários para compor a imagem desejada no imaginário do leitor. E, da mesma forma, o faz o pintor que sem o recurso das palavras procura relatar por meio de traços e cores o que o poeta expressa por meio da elocução, possibilitando um espaço de confluências. Tanto o pintor quanto o poeta “são levitas do mesmo templo. Servem, senão a um mesmo Deus, pelo menos a divindades congêneres” (SOURIAU, 1892, p.14). Assim, ambas as manifestações artísticas “diferem em espécie apenas pelo meio material com que operam: a poesia com o ritmo, a linguagem e a harmonia; a pintura, com cores e figuras.” (MUHANA, 2002, p.16) Nessa relação, a pintura se manifesta pela poesia e vice-versa, pois quando lemos um poema, muitas vezes, temos a impressão de que visualizamos um quadro, enquanto que a pintura por sua vez, por meio da imagem, sugere o que o poema nos diz com palavras, inspirando a poesia, ou seja, ambos (tanto a poema quanto a pintura) acabam por configurar, dessa forma, uma ligação surpreendente entre texto e imagem. Ao mesmo tempo em que o pincel faz representar as coisas da natureza, as ações humanas e o próprio homem, a pena também relata todas as coisas. Essa ligação entre texto e imagem nos permite engendrar novos caminhos interpretativos para as obras por meio de contextos diferenciados, pois os conceitos sobre as coisas presentes no mundo e as ideias que controlam o entendimento humano e que são constituídos em nossa mente, não estão presentes nas palavras e nem mesmo nas figuras, mas na relação entre elas, possibilitando, dessa forma, por meio do confronto das mesmas, a produção de sentidos. Diante disso, “a poesia carrega figuras e as figuras poesia, para quem as escuta e vê, porque uma é metáfora da outra, uma pela outra se declara” (MUHANA, 2002, p.42). São os aspectos subentendidos na pintura que estabelece relações profundas com o tecido do poema que por sua vez é constituído de fios dialógicos, vozes que debatem entre si, se completam ou contrapõem-se umas às outras. Assim, a aproximação entre a poesia e a pintura constitui-se num dos IX EPCT – Encontro de Produção Científica e Tecnológica Campo Mourão, 27 a 31 de Outubro de 2014 ISSN 1981-6480 meios possíveis para desvendá-los sob uma nova perspectiva, na qual um participa da construção de sentido do outro. De acordo com Bakhtin, apud Koch (2007, p. 16). O texto só ganha vida em contato com outro texto (com contexto). Somente neste ponto de contato entre textos é que uma luz brilha, iluminando tanto o posterior como o anterior, juntando dado texto a um diálogo. Enfatizamos que esse contato é um contato dialógico entre textos... Por trás desse contato está um contato de personalidades não de coisas. A partir desse pressuposto, passamos a entender que o sentido do texto depende da relação que o mesmo estabelece com os demais e que nenhum Texto (enunciado) existe nem pode ser avaliado e\ou compreendido isoladamente; ele está sempre em diálogo com outros textos. Assim, todo texto revela uma relação radical de seu interior com seu exterior. Dele fazem parte outros textos que lhe dão origem, que o predeterminam, com os quais dialoga, que ele retoma, a que alude ou aos quais se opõe (KOCH, 2007, p. 9). Entretanto, mesmo encontrando similitudes entre as obras e embora a poesia retome alguns aspectos da pintura , assim como a pintura da poesia, nem o pintor e nem o poeta planejaram isso, pois um tem a capacidade de pensar plasticamente e outro poeticamente. A similitude das obras está presente nos próprios princípios de cada arte, sendo esses aspectos aqueles que permitem o confronto entre as mesmas. O poema ultrapassa o nível das palavras assim como a pintura vai além da imagem, assim, ao visualizarmos a imagem podemos evocar algo ausente por meio de uma presença convencionada, apresentada em outro plano existencial. Já a poesia permite tornar algo presente novamente por meio da imaginação, produzindo na mente imagens dos seres dos quais fala (SOURIAU, 1892, p. 67 e 68). Ambas as obras, entretanto, existem antes de ter um corpo, pois tanto o poema quanto a pintura são suscitados da alma do artista enquanto compõe suas obras. Elas existem primeiramente na alma de seus criadores para posteriormente se materializarem em um quadro ou poema (SOURIAU, 1982, p.55) E, diante dessa materialidade poética e pictórica, “o pintor transmite em uma imagem visual, aquilo que o poeta comunica numa linguagem que alude vagamente às implicações do cenário natural” (PRAZ,1896, p. 62). Embora os meios de expressão utilizados pelo pintor e pelo poeta sejam diferentes, ambos têm os mesmos gostos e preceitos. O pintor usa o desenho, cor e forma, juntamente com as percepções de prado, céu, casa ou catedral, para dar forma ao deleite e ao mistério que estão no próprio centro de nossa experiência terrestre. O poeta narra ocorrências de energia e movimento, IX EPCT – Encontro de Produção Científica e Tecnológica Campo Mourão, 27 a 31 de Outubro de 2014 ISSN 1981-6480 vinculando entre si as forças naturais dentro e fora do homem, e exprime a solene quietude existente no coração das coisas (PRAZ, 1896, p. 61). Considerando essa relação, Praz (1896, p. 70) enfatiza também que a afinidade entre pintor e poeta revela-se, primeiro que tudo, na afinidade dos tipos que apresentam e, depois, na descoberta de certos estados de espírito, certas situações de intimidade espiritual e psicológica. Podemos concluir por meio de todos esses aspectos que as relações entre a literatura e as outras artes, especialmente a pintura, nos permite novas formas de compreensão para essas correspondências (CARVALHAL, 1986, p. 49), ampliando nossa visão e conhecimento sobre o fazer artístico. RETRATO E AUTORRETRATO A tradição do retrato teve início na Antiguidade e destinava-se ao registro de pessoas da classe dominante, pois somente estas poderiam ter suas imagens representadas. O retrato, neste caso, funcionava como uma forma de publicidade que permitia a consolidação do poder e do prestigio social dos burgueses. Nesse período, ainda não havia o advento da fotografia e os burgueses e nobres contratavam os artistas e pagavam pelo serviço dos mesmos para que a imagem de seus rostos e corpos fosse representada. No entanto, ao fazerem obras sob encomenda, esses artistas não podiam se expressar livremente, demonstrar seus gostos ou realizar inovações, pois havia um grande risco de terem suas encomendas canceladas. Surge, então, um subgênero do retrato, o autorretrato, forma na qual os artistas poderiam trabalhar sua própria imagem, experimentar inovações, buscando, desta forma, agradar a si mesmos. Produzindo seu autorretrato, poderiam não só expressar sua criatividade, como também deixarem marcadas em suas obras, sua visão de mundo e as influências recebidas, as quais teriam determinado sua maneira de conceber a arte, se expressar e sentir. Entretanto, segundo o crítico Ernst van de Wetering apud Alberto Manguel (2001), termo autorretrato só passou a ser utilizado a partir do século XIX. Além disso, de acordo com o autor, se alguém desejasse falar de um autorretrato nos séculos anteriores, apenas diria, “a imagem de Rembrandt feita por ele mesmo” ou “ o retrato de Rembrandt pintado por ele mesmo” ( MANGUEL, 2001, p.195).Com relação a essa questão, Manguel (2001, p.195) também afirma que o dicionário Oxford English Dictionary não registrou a palavra antes de 1940, sendo que a mesma apareceu pela primeira vez em Miscellanies of Literature e Isaac D’Israeli. Outro aspecto importante a ser ressaltado é que Rembrandt, um dos precursores do autorretrato, via suas autorrepresentações como criações artificiais, como poses imaginadas pelo artista, quase como se estivesse arranjando os gestos de um modelo no estrado. (MANGUEL, 2001, p.196). IX EPCT – Encontro de Produção Científica e Tecnológica Campo Mourão, 27 a 31 de Outubro de 2014 ISSN 1981-6480 Diante desse ponto de vista, o artista, por meio dessas autorrepresentações poderia salientar, valorizar suas qualidades assim como ocultar seus defeitos, pois sempre buscava fazer sua auto imagem, tentando mostrar como gostaria de ser visto pelas pessoas, desta maneira, nem sempre essas obras eram fiéis à imagem de seu criador. Além do mais, a autorrepresentação também conferia aos pintores status social, pois comprovava o valor do artista, antes mero artesão, igualando-o às pessoas ilustres da sociedade que poderiam ter seus retratos pintados. Devido a esses aspectos, esses artistas se julgavam dignos de serem representados, pois se consideravam seres especiais e diante da representação de sua própria imagem poderiam reafirmar também a sua importância enquanto profissionais. Nesta época, a produção de retratos era extremamente prática e quando não havia encomendas, a produção de autorretratos constituía-se em um dos meios para o artista demonstrar suas habilidades de pintor aos seus possíveis, futuros clientes. O autorretrato, como um subgênero independente do retrato, reflete um dos anseios vivenciados pelo homem, enquanto ser racional e iminentemente social, desde os primórdios de sua existência, ou seja, o de representar-se a si mesmo e ao mesmo tempo, deixar o legado relativo à sua imagem para os seus sucessores, com o objetivo de demonstrar seu sucesso. Desde a pré-história, homens e mulheres já desenhavam suas identidades com as marcas das mãos dentro das cavernas com o intuito de deixar identificações de sua imagem para a posteridade, pois o retrato ou o autorretrato são uma forma de congelar o momento, representam um instante fixo que não se altera com o passar do tempo, permitindo eternizar a imagem capturada e trazer novamente a pessoa à nossa memória. Assim, essa autorrepresentação adquiriu diferentes formas com o decorrer do tempo e tornou-se realmente popular no Renascimento, época em que ao contrário da era medieval, extremamente religiosa, o ser humano tornou-se o centro do universo. Com o advento do antropocentrismo, os ideais teocêntricos entraram em decadência e, por conseguinte, o subgênero autorretrato passou a se configurar como uma importante representação dessa nova concepção do homem diante do mundo. Ainda com relação aos motivos que levaram o homem a autorretratar-se Canton enfatiza alguns deles, tais como o desejo de: Deixar sua imagem gravada para o futuro; Sentir que eram importantes como pessoas humanas e profissionais; Expressar em suas pinturas o que sentiam internamente, suas emoções e seus pensamentos; Usar suas próprias imagens como pretextos para elaborar obras de arte, cuidando das cores, das pinceladas, dos contornos, das texturas. (CANTON, 2001, p.5). Ao produzirem seus autorretratos os artistas podiam demonstrar alguns traços de suas vidas, registrando sua existência a fim de perpetuá-la na obra de arte. Por meio de sua autorrepresentação, IX EPCT – Encontro de Produção Científica e Tecnológica Campo Mourão, 27 a 31 de Outubro de 2014 ISSN 1981-6480 esses profissionais poderiam ir além da própria imagem, conhecendo-se a si mesmos e, ao mesmo tempo, revelando os conflitos existenciais. Essa forma de autorrepresentação constitui-se também como um importante meio para se desvendar questões concernentes à personalidade do artista, revelando a intimidade de seu criador, a maneira como ele gostaria de ser visto ou alguma verdade que o mesmo anseia que seu expectador descubra ao conhecer sua obra. O autorretrato é o espelho do artista, nele o retratado é quem se retrata (CANTON, 2001), ao fazer um autorretrato, o artista ou o poeta mergulha em si mesmo, buscando vislumbrar a introspecção humana. Ele não somente se vê como deixa comtemplar quer seja na pintura ou no poema, pois existem várias formas de se autorretratar. Não só revela suas características físicas e/ou psicológicas como aparece no trecho do poema Auto Retrato de Manuel Bandeira (1961, p.227): “Provinciano que nunca soube/ Escolher bem uma gravata/ pernambucano a quem repugna/ a faca do pernambucano (...)”, mas também os diversos valores presentes no momento em que a obra foi produzida. Manifesta seu ponto de vista diante da realidade que representa, tem o poder de captar a vida, o instante, produzindo os mais diversos sentimentos, emoções e, às vezes, até mesmo certo estranhamento. Assim, ao se autorrepresentar, o artista “reflete não só a sua imagem externa, assim como seu estado de espírito e a sua própria maneira de ver a arte, conforme vai usando cores, luzes, traços, formas e texturas” (CANTON, 2001, p.10). Entretanto, não é somente na pintura que podemos encontrar autorepresentações, pois ao lermos alguns poemas também podemos perceber que alguns elementos presentes nos mesmos permitem aproximá-los da pintura. Embora o poeta não faça uso das luzes, das cores e do desenho, ele usa em sua obra o recurso das metáforas, da adjetivação, estabelecendo, desta forma, um ritmo poético, ou seja, o poeta expressa com palavras o que o pintor tenta demonstrar por meio das pinceladas e das cores: a busca eterna pela sua identidade. Mesmo utilizando-se de diferentes formas para se autorrepresentar tanto o pintor quanto o poeta expressam por meio de suas obras a necessidade de desapegar-se do lógico e da razão e transformar o inexpressivo cotidiano por meio do trabalho com as cores e/ou palavras, buscando refletir em suas obras o seu próprio eu, suas inquietações diante da vida e do mundo além de suas concepções. O autorretrato que, segundo Manguel (2001, p. 196), é um retrato, “pois aquilo que é reproduzido na tela está fora do pintor”, também leva à representação da pessoa para além de sua própria imagem. Destina-se “a ser lido não apenas como identidade do modelo, como registro histórico ou privado, mas também como símbolo do que aquela pessoa significava: autoridade, amor amizade”. (MANGUEL, 2001, p.149). Por conseguinte, passa a refletir a sociedade e os valores que a permeiam, marcando o momento histórico ao qual pertence. Além do mais, essa forma de IX EPCT – Encontro de Produção Científica e Tecnológica Campo Mourão, 27 a 31 de Outubro de 2014 ISSN 1981-6480 autorrepresentação permite capturar diversos momentos da nossa existência, possibilitando a reconstrução da nossa história por meio da volta ao tempo passado em uma sondagem de nós mesmos, demonstrando o que diz Pessoa em seus versos: “Não sei quantas almas tenho./Cada momento mudei/Continuamente me estranho/Nunca me vi nem acabei (...)” (1993, p.48). Considerando o autorretrato um objeto contemplado que nos contempla podemos dizer também que o espectador dialoga com a representação que está a sua frente e, a partir da imagem visualizada, passa a relacionar determinados elementos com o objetivo de elaborar uma significação, algo que o possibilite compreender a si mesmo a partir do outro ou como sendo “um outro”. Assim, o modelo pergunta ao expectador a todo o momento: Quem sou eu? Traduzindo-se como um enigma que exige do espectador uma relação mais íntima com o mesmo para que possa estabelecer as relações necessárias para desvendá-lo. A partir dessa contemplação de si ou do outro que ali se constitui, são reconstruídos todos os aspectos concernentes àquele momento retratado, nos revelando o flagrante de um instante, o qual nunca mais será repetido. Para Manguel (2001, p.177), “todo retrato é em certo sentido, um autorretrato que reflete o expectador. Como o olho não se contenta em ver, atribuímos a um retrato as nossas percepções e a nossa experiência”, e nos definimos a partir do outro que ali se revela. Esse ponto de vista remete novamente a Fernando Pessoa (1998, p.39), em um de seus poemas: “ Nem nunca, propriamente reparei,/ Se na verdade sinto o que sinto. Eu/ Serei tal qual pareço em mim? Serei/ Tal qual me julgo verdadeiramente?(...)” Assim sendo, não podemos afirmar se a imagem representada é verdadeira ou falsa, pois de acordo com Manguel (2001, p.183), não sabemos se a mesma “é tal qual ela se apresenta ao mundo, uma vez que a construímos de acordo com as nossas percepções, o que pode diferenciar-se do outro, não sabemos se as pessoas nos comtemplam tal qual pensamos ser”. Além desses aspectos, para que seja considerado arte, o retrato (e, consequentemente, o autorretrato) deve desvincular-se do real e ser apreendido como ficção, pois para Ortega e Gasset apud Manguel (2001, p.153) “ o confronto com a fonte, com o ser real, invalida a contemplação ou a leitura da obra de arte” . Podemos perceber isso em Autopsicografia , poema no qual o Pessoa destaca o exercício da arte como uma fuga da realidade: “O poeta é um fingidor/Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente/E os que lêem o que escreve/Na dor lida se sentem bem, /Não as duas que ele teve/Mas só as que eles não têm.”(PESSOA,1972, p.104). Ainda com relação a essa forma de autorrepresentação, é possível observar que quando contemplamos o modelo retratado com sua aparência reveladora em seu ambiente particular, podemos contemplar ser humano de forma mais abrangente e, por meio de sua presença e aparência podemos apreendê-lo em profundidade, além de analisarmos certos aspectos de forma a compreender alguns mecanismos que regem a construção da identidade humana. Manguel (2001, p.195) relata que “Todo IX EPCT – Encontro de Produção Científica e Tecnológica Campo Mourão, 27 a 31 de Outubro de 2014 ISSN 1981-6480 retrato é um espelho: por outro lado os espelhos quer instrumentos da vaidade, quer reflexos da alma, são retratos”. Transpondo essas características para o autorretrato, poderíamos considerá-lo como vários reflexos do eu, pois o espelho devolve ao dono da imagem o reflexo dos seus pensamentos, e esse reflexo permite uma compreensão mais exata do outro que sou eu. Portanto, podemos considerar o espelho como um reflexo ampliado das marcas do tempo no corpo e na alma, que permite uma descrição dos nossos traços mais profundos e imperfeitos, pois nele se confluem os diversos “eus” concebidos ao longo dos anos. Ao considerar essa relação, Manguel (2001, p. 185) explica que “para conhecer objetivamente quem somos, devemos nos ver de fora de nós mesmos, em algo que contém a nossa imagem, mas não é parte de nós, descobrindo o interno no externo”. Logo, para alcançarmos o reconhecimento da nossa identidade, “deveríamos permanecer parados no tempo, procurar a nossa face num reflexo, passarmos a ser a nossa própria testemunha” (MANGUEL, 2001, p.185). Fernando Pessoa (1993, p.48), em um dos trechos de seus poemas também deixa destacado esse aspecto: “Por isso, alheio, vou lendo/Como páginas meu ser/O que segue não prevendo/O que passou a esquecer./Noto à margem do que li/O que julguei que senti/Releio e digo: “fui eu ?”(...)” Outra característica evidente no autorretrato é que o mesmo apresenta sempre uma dicotomia, pois reflete tanto o corpo quanto a alma, ou seja, representa ao mesmo tempo, o humano e o divino. Coexistem em uma mesma face duas personalidades: uma objetiva e outra subjetiva. A primeira tratase da imagem que os outros possuem sobre nós e a segunda, é aquela que temos de nós próprios, a qual se mostra sempre misteriosa, pois não conseguimos defini-la com precisão, marcando sempre o conflito entre o interior e o exterior, o espiritual e o carnal, mediada pelas nossas convicções. Concernente a isso, Manguel (2001, p.186) menciona que A face que vemos no espelho pode ser a de nosso eu, aquele que deve ser apresentado a deus, pois toda face humana é o autorretrato de deus: é também um retrato do eu desejoso, o duplo, o proibido, o eu desejado ou imaginado á procura de conhecer a própria identidade. O espelho humano apresenta, portanto, uma natureza dupla e reflete tanto o corpo como a alma, a graça da vaidade e a realidade da prudência. “As duas qualidades são oferecidas pelo espelho, e podemos escolher ver uma ou outra; qualquer que seja a face que vemos, ela é nossa” (MANGUEL, 2001, p. 188). Em vista disso, passamos a nos conhecer a partir do momento que nos contemplamos em outro plano, no qual somos um outro, algo diferente de nós , visto que podemos apreende-lo em sua totalidade. Ao produzir seu autorretrato o artista traz marcas não só de sua aparência física, mas busca evidenciar seu estilo artístico. O pintor faz isso por meio do uso das palavras, enquanto o pintor utiliza-se das cores, das texturas, das diferentes pinceladas e de outros recursos estilísticos para produzir sua representação, é o que veremos nos exemplos que seguem: IX EPCT – Encontro de Produção Científica e Tecnológica Campo Mourão, 27 a 31 de Outubro de 2014 ISSN 1981-6480 Imagem 01- Autorretrato, Fonte:http://treslacinhos.blogspot.com/2012/02/evoce-conhece-romero-britto.html Imagem 02-Autorretrato, Juan Miró, Fonte: http://www.fundaciomirobcn.org/coleccio_obra.php?obra=642&idioma=6 É possível notar, quando aproximamos as artes pintura e poesia que tratam da temática autorretrato, que ambas possuem um mesmo objetivo, ou seja, deixar registrada a presença e a imagem do artista no mundo pela sua maneira peculiar de criação. Considerando essas relações podemos estabelecer o confronto entre as diferentes expressões artísticas, pois tanto o pintor quanto o poeta deixam marcados os seus “eus”, o artístico e o real em suas obras, revelando suas características físicas e/ou psicológicas e alguns mistérios de suas criações artísticas. IX EPCT – Encontro de Produção Científica e Tecnológica Campo Mourão, 27 a 31 de Outubro de 2014 ISSN 1981-6480 CONSIDERAÇÕES FINAIS O pensamento comparativo aliado à intertextualidade nos tem permitido confrontar diferentes expressões artísticas, neste caso poesia e pintura. Essa relação nos auxilia a entender como uma obra retoma a outra, transformando-a e redimencionando-a siginificativamente, nos levando a ampliação dos sentidos do texto que se torna cada vez mais completo a cada particularidade observada. Assim, a pesquisa contribuiu para ampliar as reflexões sobre a aproximação entre as obras literárias e as obras pictóricas, envolvidas nas análises intertextuais, que implicaram em uma nova maneira de ler e conceber os textos literários. REFERÊNCIAS BANDEIRA, Manuel. Antologia Poética. 6ª ed. Rio de Janeiro: Sabiá, 1961. BANDEIRA, Manoel. Obra completa: volume único. 4° edição. Organizada pelo autor. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. BRITTO, Romero. Autorretrato. Disponível em: http://treslacinhos.blogspot.com/2012/02/e-voceconhece-romero-britto.html - acesso em 07 de julho de 2014. CANTON, Katia. Espelho de artista. São Paulo: Cosac e Naify, 2001. CARVALHAL, Tânia Franco. Literatura Comparada. São Paulo: Ática, 1986. KOCH, IngedoreGrunfeld Villaça. Intertextualidade: diálogos possíveis. São Paulo: Cortez, 2007. MIRÓ, Juan. Autorretrato. Disponível em: http://www.fundaciomirobcn.org/coleccio_obra.php?obra=642&idioma=6- acesso em 07 de julho de 2014. MUHANA, Adma. Poesia e Pintura ou Pintura e Poesia. Trad. do latim de João Ângelo Oliva Neto. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo/Fapesp, 2002). NITRINI, Sandra Margarida. Literatura comparada (história, teoria e crítica)-3. Ed.- São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2010. PAZ, Octavio. O Arco e a Lira. Trad. de Olga Savari. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1982. PESSOA, F. Novas Poesias Inéditas. 4°ed. Lisboa: Ática, 1993. PESSOA, Fernando. Obra poética em um volume. 4° ed. São Paulo: Companhia José Aguilar Editora, 1972. PESSOA, Fernando, Poemas (Antologia). Trad. Miguel Ángel Flores. México: Letras Vivas, 1998. PESSOA, Fernando. Poesias Coligidas; Quadras ao Gosto Popular; Novas Poesias Inéditas. 5° ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1981. IX EPCT – Encontro de Produção Científica e Tecnológica Campo Mourão, 27 a 31 de Outubro de 2014 ISSN 1981-6480 MANGUEL, Alberto. Lendo Imagens: uma história de amor e ódio. Trad. de Rubens Figueiredo, Rosaura Eichemberg, Cláudia Strauch. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. SOURIAU, Étienne. A Correspondência das Artes: elementos da estética comparada. Trad. de Maria Cecília Queiroz de Moraes Pinto e Maria Helena Ribeiro da Cunha. São Paulo: Cultrix: Editora da Universidade de São Paulo, 1983. PRAZ, Mario. Literatura e Artes Visuais. Trad. de José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1982.