Diretor do Instituto Paulo Freire pede "impulso"'para educação de jovens e adultos 2 de Maio de 2007 Juliana Cézar Nunes e Alexandre Souza Repórteres da Agência Brasil Brasília - Uma semana depois do lançamento do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), políticos e educadores relembram a vida e a obra de Paulo Freire. Pernambucano, ele morreu de infarto no dia 2 de maio de 1997. Muitos dos problemas da educação apontados por Freire, no entanto, persistem. O diretor-geral do Instituto Paulo Freire (http://www.paulofreire.org/) , Moacir Gadotti, destaca o atraso do Brasil no combate ao analfabetismo e a necessidade de mais investimento em uma educação de jovens e adultos libertária. Para o pedagogo e filósofo, a Conferência Nacional de Educação, a ser realizada no próximo ano, terá como desafio criar um sistema nacional de educação, nos moldes do Sistema Único de Saúde. “O adulto precisa de uma alfabetização que não seja apenas de escolarização, não apenas para assinar o nome, mas para ser incluído na sociedade do conhecimento e ser respeitado como cidadão”, defende Gadotti, que trabalhou por quase 30 anos com o autor de, entre outras obras, Pedagogia do Oprimido. Nesta entrevista, ele fala sobre Paulo Freire e os desafios da educação no Brasil. Agência Brasil - O que representa a obra de Paulo Freire para a educação brasileira? Moacir Gadotti - Nesse dia em que lembramos os dez anos da morte de Paulo Freire, lembramos não só a obra, mas a pessoa e o mito. Paulo Freire era uma pessoa muito alegre que convivia e aprendia com os diferentes. Era uma pessoa simples e amável. Também tem a questão do mito. Tem muita gente ligada à causa dele, em todos os continentes. Hoje é dia de celebrarmos a causa dele que está viva. ABr - Que conceito de Paulo Freire pode ser considerado fundamental para o atual momento? Gadotti - Eu citaria a escuta. Paulo Freire falava o tempo todo que nós precisamos saber ouvir. Paulo foi portador de uma nova cultura política, que é da escuta. Paulo Freire era uma pessoa que escutava com muito carinho a todas as opiniões. Acho que nos falta isso, porque polemizamos muito antes de politizar. A escuta tem que preceder sempre à disputa. Temos que nos colocar a disposição para criar consensos, e se sobrar tempo a gente mostra nossas diferenças. Primeiro temos que ver o que temos em comum. ABr - Como o senhor avalia o Plano de Desenvolvimento da Educação? Gadotti - O PDE está trazendo para o Ministério da Educação uma enorme responsabilidade de conduzir, orientar e criar uma política pública para a educação básica. A novidade que eu vejo não está tão relacionada ao ensino superior, embora a ampliação do número de vagas no ensino superior seja uma grande perspectiva de eqüidade social. Acho que o coração desse plano é a educação básica e o plano está na linha correta, na linha que Paulo Freire defendeu, de maior justiça, eqüidade, e sobretudo, de levar a sério a questão da educação no país. Acho que pela primeira vez está se tratando a educação de forma sistêmica. ABr – A educação de jovens e adultos está bem contemplada no PDE? Gadotti - Acho que a educação de jovens e adultos precisa de um impulso ainda maior do que este que está no plano. Porque o nosso atraso nessa área é muito grande. O adulto analfabeto é uma vítima do processo. Foi discriminado uma vez, quando criança, e não pode ser discriminado outra vez. Precisamos ter um cuidado especial com ele. O adulto precisa de uma alfabetização que não seja apenas de escolarização, não apenas para assinar o nome, mas para ser incluído na sociedade do conhecimento e ser respeitado como cidadão. Por outro lado, é preciso um maior envolvimento da sociedade civil. ABr – A superação dos problemas passa por uma integração maior entre governo federal, estados e municípios? Gadotti - Estamos caminhando. O próprio Fundeb é um caminho nessa direção. A criação de um sistema único – como existe na saúde – seria uma saída importante, articulando de forma mais consistente a relação entre os entes federativos. Acho que há uma sobreposição de funções. A Conferência Nacional de Educação, a ser realizada no próximo ano, poderia já estar preparando uma articulação para a criação de um sistema nacional de educação. ABr - O Brasil tem muito a aprender com os países da América Latina? Gadotti – Sem dúvida. No caso do analfabetismo, o Brasil tem o pior índice do Mercosul. Nesse campo, estamos em um imenso atraso. Temos muito que aprender no caso da justiça. Somos um país rico e injusto. Acho que não se pode resolver o problema sem vermos de forma sistêmica a relação entre o econômico, o social e o ecológico. Temos que aprender e ensinar o tempo todo, escutando as boas experiências e aprendendo no caminho. Porém, o resultado em educação depende muito de uma sensibilização maior da sociedade, não depende só de investimento. Digo sempre que não é só investindo mais e, sim, gerenciando melhor e envolvendo a sociedade, que também é responsável. NUNES, Juliana Cezar, SOUZA, Alexandre Souza. Diretor do Instituto Paulo Freire pede "impulso"'para educação de jovens e adultos. Agência Brasil. Brasília, 2 maio 2007. Disponível em: http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2007/05/02/materia.2007-05-02.5429519801/view. Acesso em: 4 maio 2007.