MARIANE TOJEIRA CARA ALMEIDA A MARCA NA MODA JOVEM: A RELEVÂNCIA DA EXPERIÊNCIA COLATERAL NA EFICÁCIA COMUNICATIVA DA MARCA PUC/SP MESTRADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA SÃO PAULO 2007 Livros Grátis http://www.livrosgratis.com.br Milhares de livros grátis para download. MARIANE TOJEIRA CARA ALMEIDA A MARCA NA MODA JOVEM: A RELEVÂNCIA DA EXPERIÊNCIA COLATERAL NA EFICÁCIA COMUNICATIVA DA MARCA Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Comunicação e Semiótica - área de concentração Signo e Significação das Mídias - sob a orientação da Profª. Doutora Maria Lúcia Santaella Braga. PUC/SP SÃO PAULO 2007 BANCA EXAMINADORA Para Fabio: um sonhador incurável, que vive com os pés no chão e a cabeça no espaço, entre aviões e foguetes. Agradecimentos Muitas mãos prestativas e pensamentos generosos fizeram parte das linhas que formam esta dissertação. Destes encontros agradeço especialmente: CNPq, pela bolsa de estudos que possibilitou a realização do mestrado; Lúcia Santaella, pela orientação atenciosa em todos os momentos, que confirmam seu brilhantismo acadêmico e energia exemplar; Cida, por todo suporte e pronto-atendimento: elementos decisivos em tantas ocasiões; Suzana Avellar, pela indicação do caminho, auxílio constante e amizade sincera; Grupo de Estudos da Moda do CEPE, pelas reuniões e conversas, em especial à Solange Moreira, por sua contribuição nos aspectos formais do trabalho; Daniel Cara, pela disponibilização de bibliografias e pesquisas sobre jovens e por seu cuidadoso trabalho em prol da juventude e educação brasileira; Alunos do Senac São José dos Campos, turma Moda manhã 2005, pela dedicação à pesquisa de campo que auxiliou na análise do tema proposto; Kazuyo Yamada, pelo modelo de pessoa, professora de Moda e por tantas conexões que nos aproximaram; Marco Andreoni, pelos vários trajetos profissionais e acadêmicos; Júlio Bueno, pela percepção diferenciada da juventude que nos permitiu construir um trabalho inesquecível junto aos adolescentes; Supera Comunicação, pelas experiências enriquecedoras em Publicidade, Marketing e novas oportunidades em Moda; Fabio Almeida, pelo apoio incondicional, amor verdadeiro e por todos os momentos juntos na estrada do conhecimento, em suas mais diversas facetas; Clóvis, Isabel e Beatriz, pelo incentivo ininterrupto. À Deus, autor e criador da vida. SUMÁRIO Introdução ........................................................................................................... 2 Capítulo 1 Moda: Forma de Presença .............................................................. 8 1.1 A Roupa e a Moda .......................................................................................8 1.1.1 Vestir-se é preciso ................................................................................ 8 1.1.2 Diferenças terminológicas da vestimenta ........................................... 11 1.1.3 A dinâmica da Moda ........................................................................... 13 3.3.1 O corpo adolescente .......................................................................... 71 3.3.2 Moda na visão juvenil ......................................................................... 73 3.3.3 Marcas de Moda Jovem ..................................................................... 74 Capítulo 4 A Teoria Peirceana aplicada à Moda Comercial ......................... 78 4.1 Por que aplicar a Teoria Peirceana num estudo de Moda? .......................78 4.2 Teoria Geral dos Signos: Fundamento, Objeto e Interpretante ..................79 4.2.1 Fundamento (Ground) ........................................................................ 80 4.2.2 Objeto ................................................................................................. 81 4.2.3 Interpretante ....................................................................................... 82 4.3 A Experiência Colateral segundo Charles Sanders Peirce ........................86 4.4 Aplicação da Teoria Geral dos Signos na Semiose da Moda Comercial ...96 4.4.1 O Fundamento do Signo .................................................................... 98 4.4.2 O Objeto do Signo ............................................................................ 100 4.4.3 O papel do Corpo ............................................................................. 103 4.4.4 Interpretante ..................................................................................... 105 4.4.5 (X) Experiência Colateral .................................................................. 110 Capítulo 5 O Papel da Experiência Colateral na Eficácia Comunicativa da marca de Moda Jovem ................................................................................... 113 5.1 A vida estetizada ......................................................................................113 5.2 A Experiência Colateral na Eficácia Comunicativa da marca de Moda Jovem ........................................................................................................... 115 5.2.1 Ação do Interpretante Dinâmico ....................................................... 117 5.2.2 Consumo redentor ............................................................................ 119 5.3 Mídias de Massa e Ciberespaço como Experiência Colateral .................121 5.3.1 TV ..................................................................................................... 124 5.3.2 Internet ............................................................................................. 127 5.3.3 Celulares .......................................................................................... 132 5.3.4 Revistas ............................................................................................ 134 5.3.5 Rádio ................................................................................................ 136 5.3.6 Jornais .............................................................................................. 136 5.3.7 Relevância das Mídias ..................................................................... 137 5.4 Outros acessos intermináveis ..................................................................138 5.4.1 O Shopping....................................................................................... 140 5.4.2 Acessos em rizoma .......................................................................... 142 5.5 A memória ................................................................................................144 Considerações Finais ..................................................................................... 150 Referências Bibliográficas ............................................................................. 154 Anexos ............................................................................................................. 165 Tópicos sobre marcas de Moda no Orkut ......................................................165 LISTA DE FIGURAS Figura 1: Funcionamento e Determinações de uma Semiose .........................85 Figura 2: Representação didática de uma semiose ........................................88 Figura 3: Objeto Imediato - Foto da coleção Adidas Inverno 2006. ..............101 Figura 4: Superação do Corpo - Foto da coleção Nike Inverno 2006. ..........105 Figura 5: Formas de apresentação do Interpretante Imediato na Moda .......106 *As figuras ilustrativas que antecedem cada capítulo foram desenvolvidas especialmente para a dissertação. *A foto contida na figura de abertura do estudo, que precede a figura de introdução, foi cedida por Ciceli Gravito em julho de 2006, para fins acadêmicos. LISTA DE TABELAS Tabela 1: Preocupação dos jovens por região ................................................67 Tabela 2: Palavras escolhidas pelos jovens para definir a geração ................70 Tabela 3: Consumo entre os jovens de São Paulo ........................................119 Tabela 4: Principais Estilos de roupas para Adolescentes ............................120 Tabela 5: Fontes de Informação utilizadas pelos jovens ...............................123 Tabela 6: Pesquisa Ibope – Programa Malhação ..........................................125 Tabela 7: Perfil de leitoras da revista “Atrevida” ............................................135 Tabela 8: “Perceptual Map” – Meios de Comunicação. .................................137 Tabela 9: Lugares mais freqüentados por jovens das regiões Metropolitanas. ...................................................................................................................... 141 RESUMO A identidade de uma marca de Moda, em especial no universo jovem, é construída por diversas informações que estão além das roupas comercializadas. Para entender sua complexidade e assim chegar à compreensão maior do fenômeno, o objetivo deste estudo é analisar a relevância da Experiência Colateral - conceito teórico cunhado por Charles Sanders Peirce em sua Teoria Geral dos Signos – na construção da identidade da marca. Neste caso, a Experiência Colateral designa a intimidade prévia dos jovens, em especial na fase adolescente, com o arcabouço simbólico da marca, intimidade que se desenvolve por meio da influência que as diversas mídias de massa e outros sistemas midiáticos exerce sobre os jovens. A definição do corpus foi realizada principalmente a partir da análise de pesquisas recentes, como o Dossiê Universo Jovem 3 do canal MTV e o relatório Retratos da Juventude Brasileira, organizado por Helena Wendel Abramo, que apresentam o panorama atual da juventude no Brasil. Para dar conta do tema proposto, a metodologia aplicada pautou-se na semiótica peirceana de base não racionalista. As etapas da pesquisa contemplam o levantamento bibliográfico dos principais temas, tendo como embasamento teórico os conceitos peirceanos na leitura de seus intérpretes, o estudo de teóricos da Moda, do Marketing e Mídia; análise das pesquisas recentes acima citadas, bem como outras pesquisas relacionadas e observação participativa. Dada a atenção crescente destinada aos estudos que envolvem as marcas, o presente trabalho apresenta relevância no campo da Comunicação e da Moda por levantar questões sobre o comportamento de consumo do público jovem nascido no final dos anos 80 e início dos anos 90, que cresceu em frente à TV e se conectou na internet desde seus primeiros anos de vida, demonstrando a grande relevância dos meios eletrônicos na aquisição de informações e conhecimento, inclusive no âmbito da Moda. Palavras-chave: Marca, Moda, Juventude, Mídia, Semiótica. ABSTRACT The identity of Fashion brand, especially in young universe, is build by several information that are beyond the commercialized clothes. To understand the complexity and therefore to get more knowledge about this phenomena, the present research intends to analyze the relevance of Collateral Experience theoretical concept from Charles Sanders Peirce in his Theory of Signs - to build an identity to brands. In this case, Collateral Experience is what assigns a previous knowledge with the symbolic meaning of brands, mainly in teenager age. This kind of previous knowledge is developed by various contacts with diverse mass media and other media systems used in everyday life by youth. The research corpus was mainly defined from analysis of recent researches, as Dossiê Universo Jovem 3 from MTV music channel and Retratos da Juventude Brasileira, report organized by Helena Wendel Abramo who presents the current situation of youth in Brazil. To give account of considered subject, the applied methodology was based in non-racionalist Peircean semiotics. The stages of this research includes bibliographical survey about main subjects, as theoretical basement of Peircean concepts through his writings and writings from his interpreters; studies from Fashion theoreticians, also books and papers about Marketing and Media, as well as analysis of the recent research above cited, other related researches and pragmatic observation of the fact. Given the increasing attention destined to studies that involves brands, the present work shows relevance in Communication and Fashion area, raising questions about consumption behavior in generation who has been born in later 80’s and early 90’s, those who grew in front of TV and were plugged and connected in Internet since their first years of life, showing the great relevance of cyber culture and media to get information and knowledge, also in Fashion scope. Palavras-chave: Marca, Moda, Juventude, Mídia, Semiótica Introdução Poucos mercados consumidores são tão dedicados à questão da marca como o mercado adolescente, principalmente quando o assunto é roupa. Paralelamente, é a faixa etária que costuma absorver um maior número de informações pelos diferenciados canais de comunicação, quer seja pela TV, revista, rádio, celular ou mesmo pelos meios do ciberespaço como é o caso dos sites, blogs, fotologs, orkut, entre tantos outros. Nesta profusão de informações, a verificação do papel destas e outras formas de contato com a marca é um desafio instigante para a compreensão das relações do público com a marca e com a Moda. O universo simbólico das marcas de Moda jovem ostenta uma série de informações e não se resume apenas às peças de roupa. Uma marca é uma atitude construída a partir de um estilo de vida que geralmente é entendido pelas pessoas que vivenciam ou desejam experiências semelhantes das promessas do produto. Essas marcas - apresentadas ao público com aspectos tangíveis através das formas de suas roupas, estampas, estilos e etiquetas visíveis - são envolvidas também por aspectos intangíveis e importantes na interpretação de sua imagem por parte do usuário, que sente e percebe-a não só por sua questão concreta, mas também por informações existentes nas mídias, no ciberespaço, nas relações pessoais, na vida urbana e em tantas outras formas de comunicação dificilmente classificáveis, em contextos subjetivos e que se localizam fora do signo “roupa”. Desta forma, deve-se considerar que as análises de aspectos estético-formais e técnico-produtivos fazem parte do universo da Moda, entretanto, os aspectos comunicacionais exteriores também devem ser passíveis de atenção. O enfoque aqui pretendido foi selecionado a partir do reconhecimento da importância da construção de identidade para os jovens na faixa etária de 14 a 18 anos, que por possuir menos responsabilidades, podem desfrutar de valores 2 como lazer e diversão entre amigos de forma intensa, sempre em busca de uma atitude ou postura em relação à vida que traga socialização. Nas atividades mais prazerosas que estes jovens fazem, as roupas têm um papel importante porque identificam, seduzem, causam admiração, estranhamento e aproximam os pares. Os adolescentes de hoje cresceram sob a égide da mídia, suas babás eram eletrônicas e sua experiência existencial, desde a mais tenra idade, foi construída em grande parte pelos programas de TV e pelo acesso à internet. A geração das experimentações e da velocidade de mudanças, agora é fruto da cultura tecnológica e possui uma nova sensibilidade, percebida em seus relatos, imagens e ritmos. Outro fator que caracteriza esse grupo é o apelo frenético pela beleza, fruto da vaidade exacerbada, em um excesso de hedonismo, individualismo e consumismo. Neste cenário o que importa não são mais as tribos e seus códigos internos que devem ser seguidos pelos membros - como em décadas passadas - mas sim o encontro de um porto-seguro em relação à identidade, através das marcas de roupas. Estabelecer o problema da marca de Moda jovem, mais especificamente da familiaridade com seus elementos como uma situação semiótica incrementada pelas mídias e ciberespaço constitui o escopo deste estudo. A localização da questão está em iniciar um percurso e uma vertente que apresente a relevância da experiência colateral na eficácia comunicativa da marca de Moda jovem, propondo uma ótica voltada para a questão inseparável da moda e das investidas publicitárias nos ambientes midiáticos. Para elucidar o assunto, considera-se a experiência colateral como algo que está fora do signo, em relação ao objeto, uma outra maneira de acessá-lo, além do que já é fornecido pelo próprio signo. A experiência colateral atua também como uma espécie de garantia, de segurança, ou melhor, de limite e controle da diversidade irredutível entre signo e objeto. Peirce caracteriza como experiência colateral o que apelamos como conhecimento necessário para entender, completar e fortalecer a compreensão da relação objeto e signo. 3 O contexto juvenil desde os anos do pós-Guerra até os dias de hoje é apresentado para referenciar as diferenças existentes entre a realidade presente e o ideal ufanista da juventude dos anos 60, contextualizando as gerações que se seguiram nas últimas décadas e a nítida ruptura dos conceitos relacionados ao idealismo da contra-cultura em prol da força estética da aparência na atualidade, fruto da espetacularização da realidade. A partir de dados de pesquisas nacionais, em especial o Dossiê Universo Jovem 3 da MTV e o relatório Retratos da Juventude Brasileira, averiguamos as manifestações destes atores sociais na fruição da vida cotidiana, com combinações comportamentais que direcionam ao consumo compulsivo, a existência mediada pela vaidade e o interesse pelos assuntos individuais, sugerindo uma certa falta de estímulo em relação aos assuntos coletivos. O relacionamento desses personagens urbanos com as marcas de Moda jovem evidencia um alto valor de identificação e pertencimento, principalmente por ser a fase da vida em que disparam as grandes mutações corporais que clamam por signos específicos que disfarcem ou ressaltem a aparência – signos estes encontrados nas roupas assinadas por grandes marcas, tornando-se um conjunto de expressões e atributos que facilitam o acesso nos grupos. Para situar a aplicação teórica do tema proposto, o quarto capítulo explicita os principais conceitos da Teoria Geral dos Signos de Charles Sanders Peirce e a localização da experiência colateral, originada em sua segunda semiótica. No enquadramento do pensamento filosófico de Peirce e na abundância de seus conceitos, classificações e determinações, desenvolvemos uma aplicação prática da Teoria Geral dos Signos na Semiose da Moda Comercial, sugerindo preocupações úteis para se discutir a Moda enquanto sistema mercadológico e dotado de particularidades próprias. Finalizando, na última etapa do estudo veremos um retrato atual dos meios de comunicação e pontos de contato que fazem a produção imagética do mundo adolescente, no advento dos mídias, nos lugares lúdicos e nos nãolugares cibernéticos que comportam uma miríade de processos de enunciação. 5 Apresentamos, nesse capítulo, como a adolescência é dotada por modos de acesso privilegiados à informação rápida, que se apresenta em um aspecto múltiplo e polissêmico de intervenções instantâneas. Para estes garotos e garotas é praticamente impossível permanecer apenas com um contato sobre determinado assunto de interesse. Com uma inquietude emblemática, eles procuram buscar diversas referências intermediadas pelos aparatos midiáticos. Essa atitude perante os assuntos de interesse incide na construção do pensamento de uma maneira peculiar. Nas variadas unidades de contato é formada a pluralidade existente na memória e no acúmulo de informações, discursos e enunciados disponibiliza-se o início da experiência colateral, que conta com um número infinito de combinações, nos acessos midiáticos, nas intervenções da cibercultura e em outras tantas experiências pessoais. Com os dados e informações apresentadas, é possível traçar algumas considerações e propor novas possibilidades e abordagens acadêmicas que poderão ser desenvolvidas e elucidadas em estudos e pesquisas de campo subseqüentes. 6 Capítulo 1 Moda: Forma de Presença 1.1 A Roupa e a Moda Antes mesmo de existir a Moda, o vestuário sempre foi um elemento importante na significação do homem em sua interação com o mundo e pode ser considerado um mediador entre o indivíduo e a sociedade, por estabelecer o nexo entre o físico e o social. “Com efeito, (...) é um dos instrumentos mais poderosos de integração e desempenha uma função niveladora importante.” (SOUZA, 1987:49) 1.1.1 Vestir-se é preciso Nossa existência, enquanto corpos físicos desprovidos de roupas, está restrita a vida particular e isolada, porém quando nos vestimos abrimos a possibilidade da sociabilidade, sendo a roupa comunicação no sentido mais abrangente do termo, é através dela que podemos apresentar-nos de forma multifacetada, prontos a comunicar mensagens prioritariamente não verbais, também com a possibilidade de expressar mensagens verbais, quando vestimos roupas com estampas de textos e frases de efeito. As roupas se inscrevem no corpo e transmitem uma multiplicidade de significações tanto para os outros como para o próprio usuário, num ato social, por se endereçar às outras pessoas e num ato narcísico, por satisfazer o ego em relação à aparência. A vestimenta é uma das formas do homem se distinguir dos outros animais, rechaçando a nudez natural para adotar peças que protejam o corpo da temperatura e das agressões ambientais, porém as roupas não se esgotam na sua praticidade, no simples fato de cobrir o corpo por proteção ou pudor, mas 8 acima de tudo trazem a oportunidade de transformação pessoal, através dos adornos, enfeites e outros elementos de sedução contidos em qualquer peça de roupa. Flügel (1966) assinala que o ser humano dá prioridade ao sentido estético das roupas (seus enfeites e adornos), tendo ainda iniciado sua jornada pela estetização do corpo nas pinturas corporais que historicamente antecedem o traje. O fato de enfeitar-se e a vontade de chamar a atenção de outros indivíduos é um dos motivos mais fortes para o homem usar roupas. É interessante notar que em todas as culturas os corpos se apresentam vestidos ou pelo menos adornados com pinturas ou acessórios, isso porque as roupas e os adornos têm um papel simbólico e um papel estético extraordinariamente significativo, que gera vínculo entre as pessoas. O caráter artificial da roupa na vida humana não a subestima, antes de tudo é o elemento fundamental que faz com que a questão da mudança se instaure com maior força nas vestimentas. Usamos as roupas como um artifício que possibilita o câmbio constante de pele, em contraste com a perenidade e ausência de autonomia da natureza da indumentária animal (pele e pelos), como cita Dorfles (1990:18). Embora alguns naturistas defendam veementemente a abolição da roupa no dia a dia, alegando que a roupa nos afasta da nossa condição natural e igualitária, a verdade é que não conseguimos escapar da artificialidade da vestimenta quando saímos ao encontro de outras pessoas, para fazermos nossas tarefas cotidianas. A nudez define o natural do homem, deixa-o confinado naquela única forma de apresentação de seu corpo e impossibilita uma série de diferenciações que são parte da necessidade humana de caracterização e de individuação. O fator vestimenta é tão forte nas sociedades que sua obrigatoriedade chega até a constar no sistema legislativo da maioria dos países. No Brasil, a nudez em qualquer local público que não seja destinado a esta forma de apresentação (como as praias de nudismo) é considerada ultraje público ao pudor, sendo definida no artigo 233 do Código Penal Brasileiro como “ato 9 obsceno”, que tem como pena a detenção de três meses a um ano ou pagamento de multa1. Segundo Malcolm Barnard (2002), o traje é um dos fatores que tornam as sociedades possíveis por seu caráter eminentemente social, visto que ajuda a comunicar e acaba por compor uma parte importante da constituição de uma civilização. Leroy-Gourghan (1965:21) chega a considerar que um homem só é homem no momento que está situado em um grupo e revestido de símbolos representativos de sua forma de vida (inserindo aí a questão da vestimenta). Sem a roupa, os homens abdicam da capacidade de carregarem em seus corpos um sistema simbolicamente humano e importantíssimo – o vestuário. Dos muitos símbolos e expressões, a roupa faz parte das principais linguagens existentes, sendo os atributos simbólicos da roupa indicadores da forma de estarmos no mundo, enfim, a nossa condição enquanto indivíduos que sentem a necessidade consciente ou inconsciente de transmitir mensagens, “(...) as roupas são máquinas de comunicar”. (MAFFESOLI, 1996:161) A roupa pode comunicar o grupo de referência do qual a pessoa faz parte, sua auto-imagem, demarcar a época histórica vivida, a faixa etária, a classe social, o gênero, a localização geográfica - cidade, campo ou até mesmo particularidades de bairros distintos - período do dia - roupas específicas para o dia, noite... - se estamos em tempo de lazer ou a serviço, certas hierarquias em casos profissionais, posição religiosa, enfim, comunica diversas dimensões, que fazem do traje um universo simbólico, universo este que foi estudado por Bourdieu (1987) na leitura do mundo social. Por meio das vestes e da combinação dos elementos constitutivos do sistema de vestuário - acessórios, calçados, joalheria - é possível inventar e escolher como se apresentar na sociedade, refletir diversas formas de apresentação e diversas aparências sem mesmo abdicar do próprio “eu”. O indivíduo não precisa mais estar à mercê de sua constituição biológica pura e 1 O Código Penal Brasileiro foi aprovado em 1940, sob o Governo de Getúlio Vargas e entrou em vigor em 1942. Para ler o código penal na íntegra consultar o site: http://www.edutec.net/Leis/Gerais/cpb.htm 10 simplesmente, podendo interferir em seu corpo através da veste, que se torna um suporte criativo camuflando pequenos defeitos corporais e ressaltando virtudes, interferindo na altura através dos saltos, disfarçando o sobre-peso com roupas mais escuras, destacando a pele com cores bem escolhidas e modificando a aparência por completo. Para elucidar a relevância da roupa na relação estética do Homem com a cultura, Elizabeth Wilson (1989) compara o vestuário às outras artes do espetáculo como a dança, o teatro ou a música. Em todos estes casos existe uma linha evolutiva desde os primórdios até os dias de hoje, com três estágios de desenvolvimento. O primeiro estágio é caracterizado pela importância ritualística religiosa na representação de rituais de integração do homem com o místico, em seguida, num segundo estágio, encontra-se a serenidade e austeridade medieval, onde por influências agostinianas e de São Tomás de Aquino foi vetado o prazer e a deliberação do desejo. O terceiro estágio cultural culmina na modernidade e contemporaneidade, com o hedonismo exacerbado e com a exaltação do “eu”, que precisa estar sempre atualizado e modificado. É neste estágio pós-medieval, com a quebra da austeridade, que começamos a falar do sistema da Moda propriamente dito, esse mundo tão rico em frivolidade quanto em importância histórica para a humanidade. 1.1.2 Diferenças terminológicas da vestimenta Para facilitar o entendimento do termo “Moda” faz-se necessário delimitar algumas diferenças marcantes e pontuais em relação às terminologias utilizadas na área. São quatro os termos mais utilizados e que são bem distintos, a saber: o vestuário, a indumentária, a Moda e o estilo. No momento, em um exercício que não está buscando demarcações estanques, mas uma breve nuance de cada termo, descreveremos cada um deles sucintamente. O termo Vestuário inclui todas as vestimentas possíveis do cotidiano, que inclusive não estejam preocupadas com o adorno, entre elas os uniformes, vestes utilitárias, vestimentas de proteção, entre outras. O vestuário seria o 11 termo mais abrangente da área que estuda as roupas, porém deve ser utilizado com cuidado quando o assunto é Moda, por esta última ser uma particularidade específica deste sistema maior. A Moda é uma parte do vestuário, mas não o representa por completo. A Indumentária seria a definição adequada para as roupas tradicionais, religiosas e culturais, que são impostas segundo leis suntuárias ou parâmetros bem definidos que não devem ser quebrados ou modificados, mesmo com o passar do tempo. Fala-se de indumentária especialmente até o final da Idade Média, quando não existiam as mudanças constantes da Moda. Atualmente utiliza-se o termo principalmente para trajes de culturas específicas como é o caso de roupas festivas da região Nordeste do Brasil ou de qualquer outra cultura que mantenha as tradições vestimentárias de seus antepassados, sem se deleitarem ao sabor das mudanças efêmeras. O Estilo é a forma de uma pessoa ou um grupo se expressar através da roupa e acessórios, designando uma certa atitude ou personalidade do usuário, de forma mais perene do que as tendências que vão e vêm e está marcado por uma certa continuidade no tempo. Pode ser considerado como uma espécie de recorrência estrutural interna e impressa que se repete nas criações de um estilista, grupo de criadores ou mesmo em uma marca de roupas, definindo sua singularidade. O conceito de estilo alude a um fato diferencial, à pulsão de uma manifestação particular e um conjunto de traços que permanece no compósito de uma obra e a distingue das demais. Por fim, Moda é o fluxo constante das mudanças efêmeras do vestir no presente; um presente fugaz que não tem ligação direta com o passado (embora dele retire influências e inspirações) e enxerga no futuro seu próximo passo e oportunidade para a frenética corrida pelas novidades, na lógica do novo e na paixão ocidental pelo moderno, conforme apresenta Lipovetsky (1999) em seu livro “O Império do Efêmero”. Não há sistema de Moda senão quando o gosto pelas novidades se torna um princípio constante e regular, e quando a inconstância veloz e volátil ganha espaço em detrimento à perenidade da indumentária. 12 A Moda é efêmera, mas não superficial, pode ser chocante, provocativa, escandalosa e é o resultado de uma apaixonante alquimia de parâmetros móveis, que estão sempre à beira da obsolência. Além da característica de mutabilidade constante que é indelével ao sistema da Moda, enxerga-se nela uma dinâmica específica orquestrada pela diferenciação e identificação. “Compreender o termo “moda” equivale a entender a dinâmica social de imitação e de especificação que ocorre desde o século XV.” (GOMES, 2005:17) 1.1.3 A dinâmica da Moda Muitos autores concordam que a Moda possui um movimento próprio marcado pela imitação e diferenciação. Georg Simmel cita que: “a moda é uma instituição social que unifica, numa proporção peculiar, o interesse pela diferença e a mudança que se dá pela igualdade e coincidência”. (Simmel, 1977: 580) João Braga, na introdução do livro “Personal Stylist” de Titta Aguiar descreve que: “(...) a Moda é tão compreensível quanto paradoxal. Queremos usar algo para nos diferenciarmos, porém acabamos ficando iguais a todos aqueles que também querem se diferenciar com aquilo que é considerado novo ou pelo menos novidade. É o coletivo que gostaria de ser único; é a massa que gostaria de ser individualizada; é o povo que gostaria de ser indivíduo; é o objetivo que gostaria de ser subjetivo. Duas atitudes sociais, a imitação de uma parte, a distinção de outra, que antinômicas por natureza vão, como em eletricidade, criar o movimento da Moda.” (BRAGA, 2004:10) Na Moda a imitação tem o poder de propagar uma maneira de fazer, um comportamento e uma forma de vestir. Sem a imitação seria impossível a 13 disseminação das tendências e até mesmo o sucesso de uma Moda, que precisa ser social. A imitação retira o tormento da eleição, da escolha, se imitamos alguma Moda é para estarmos em acordo, em harmonia com o outro; é um certo modo de estabelecer um elo de proximidade possível, na medida em que o outro me reconhece como parceiro e/ou vice-versa. O elemento seguinte da dinâmica da Moda trata da busca pela individuação/diferenciação ou mesmo a fuga da aparência massificada e padronizada, uma forma de reivindicação da individualidade, na legitimidade da singularidade pessoal no desejo latente de diferenciar-se. É na emancipação da individualidade estética, na abertura do direito à personalização, que se encontra o início do grito de liberdade no vestuário, ainda que vivenciemos os decretos cambiantes do conjunto coletivo da Moda. Lipovetsky (1999) postula que: “A moda(...) é o corolário de uma nova relação de si com os outros, de desejo de afirmar uma personalidade própria. É não ser como os outros, ser único, fazer-se notar exibindo os signos da diferença.” (LIPOVETSKY, 1999:60) O pilar da Moda, fundamentado pela modificação constante e construído através da dinâmica da imitação e da diferenciação, historicamente surgiu no fim da idade média, com o fortalecimento dos conceitos do humanismo e com o desenvolvimento do capitalismo, que exige o consumo acelerado, a produção em massa, a troca constante de produtos e principalmente que instaura a divisão do trabalho, caracterizando uma hierarquia dentro da indústria do vestuário que vai desde o estilista até as costureiras, passando por diversos setores organizados. É uma invenção diferente de todas as anteriores que se preocupavam com a arte de vestir, conforme comenta Hollander (1996), porque a Moda sempre adota um ponto de vista irônico com tudo que é antigo, deleita-se em arranjos provisórios ao invés de procurar soluções estéticas permanentes. 14 1.1.4 Assim caminha a Moda O desenvolvimento da Moda regida por mudanças constantes, como conhecemos atualmente, aconteceu a partir da metade do século XIX, quando o sistema começa a fender-se e adaptar-se (LIPOVETSKY, 1999:69). Seu primeiro representante foi o estilista inglês Charles-Frédéric Worth que possuía seu ateliê em Paris. Antes de Worth, a roupa era o resultado da solicitação do cliente para seu costureiro particular, que estava no nível de artesão, e seguia algumas delimitações sociais e familiares. A partir da figura do grand-couturier e do crescimento das grandes cidades urbanas “a identificação fora do círculo familiar será a prática corrente em nossos dias e caracterizará a moda contemporânea” (GOMES, 2005:18). Lipovetsky chama o período iniciado por Worth em 1857 até meados da década de 60 do século XX de "moda de cem anos", fase em que o sistema se solidifica. Neste período ocorre a ascenção de grandes nomes da alta costura como Coco Chanel, Jean Patou, Jeanne Lanvin, Madeleine Vionnet, Paul Poiret, Elsa Schiaparelli e Cristobal Balenciaga. A figura do estilista de alta costura revoluciona completamente o sistema de manufatura de roupas, porque é ele quem rege e define o que é de bom gosto e o que é de mau gosto e a partir de sua força de opinião erige-se a Moda. “The period between the First World War and Second World War – might be called “ the golden age of the couturiére”. 2 (BEATON apud STEELE, 1992:122) Após o final da Segunda Grande Guerra os parâmetros começam a mudar e o direcionamento principal é dado à produção em série prèt-a-porter3, que viabiliza a Moda criada por estilistas para as grandes massas crescentes nos centros urbanos. Christian Dior é uma das figuras mais importantes desta mudança, seu New Look revolucionário de 1947 retira das cinzas as maisons parisienses, drasticamente afetadas pela guerra e pela invasão alemã na França. Dior é chamado por alguns como o “moderniser of the Haute Couture” 2 Tradução pessoal: O período entre a primeira guerra mundial e a segunda guerra mundial pode ser chamado de “os anos dourados dos costureiros”. 3 Tradução: Pronto para consumir 15 (PARTINGTON, 1992:151), por ser o estilista que moderniza o conceito da Alta Costura, contribuindo para o início do prèt-a-porter. Neste mesmo período há também a popularização da televisão que começa a influenciar o gosto e a forma de vestir da população, bem como o surgimento de diversas revistas femininas que apresentam em suas páginas as últimas tendências. A Moda começa a sofrer a transição do elitismo dos anos dourados, dominados pelos grandes estilistas, para a nova Moda massificada das ruas, da mídia e inspirada intensamente pela juventude. Até os anos 50 era notório o efeito Trickle-Down, denominação dada primeiramente por Georg Simmel em 1904 (PARTINGTON, 1992:148), que designa o modelo vertical de imitação da Moda criada dentro do ambiente de elite e imitada pelas massas. Neste sistema o gosto é determinado pelas classes sociais superiores e pelas mentes dos grandes estilistas, sendo posteriormente disseminada nas classes populares. No momento que alcança as massas esta Moda deixa de ser vanguarda e é necessária a criação de novas Modas inovadoras. A partir da segunda metade do século XX começa a surgir com maior força um efeito contrário ao Trickle Down, sendo chamado de Trickle Up (GERARDI, 2002:33). Neste caso a influência não é mais determinada pela elite, antes vem das ruas, dos jovens e das camadas inferiores que influenciam a grande Moda, na forma vertical de sentido oposto. Nos anos 60 assiste-se a ascenção de diversos estilistas influenciados pela vida urbana como Courrèges e as geometrias construídas nos corpos de suas moon girls (VINCENT-RICARD, 1996:155). Outros nomes importantes desta fase são Pierre Cardin e Mary Quant que encontraram na Carnaby Street de Londres e nas imagens idealizadas do futuro suas principais inspirações. No sentido da Moda padronizada que deve ser seguida pela indústria, com o intuito de auxiliar no desenvolvimento da organização industrial de confecção, surge nos anos 50/60 um poderoso comitê regulador e facilitador do funcionamento das engrenagens da Moda. 16 “Foi criado em 1955, na França, o Comitê de coordenação das Indústrias de Moda (CIM), cuja principal missão era fornecer aos diversos elos da cadeia têxtil, das fiações à imprensa, indicações precisas e coerentes sobre as tendências”. (CALDAS, 2004:56). Este comitê começa a ser o grande responsável pela determinação do que está “na Moda” e do que está totalmente “fora de Moda”, fornecendo as informações aos múltiplos elos da cadeia têxtil, baseado em pesquisas diversas e promovendo uma hegemonia estética na Moda comercial sem precedentes. Da mesma forma, os Bureaux de Style (escritórios de estilo) desde então, são instrumentos de grande importância no meio empresarial, pois fornecem a segurança necessária para o desenvolvimento de um produto de Moda, regem as influências, cores, materiais, formas e temas que geram as tendências e as coleções. Uma empresa extremamente comercial de roupas dificilmente consegue sobreviver sem os conselhos dos Bureaux de Style, por serem estes escritórios os unificadores do pensamento de todos os setores envolvidos no sistema de confecção. Ainda na linha evolutiva da Moda, assistimos na década de 70 o crescimento da Moda Unissex e do Sportswear, que vieram concretizar a força das roupas produzidas em massa como as calças jeans, as camisetas e outras peças que enaltecem a vida confortável, o estilo casual e o bem estar pessoal, na busca crescente pela jovialidade eterna. “O traje esportivo nasce a partir da ideologia do corpo, uma nova coerência entre viver melhor uma nova pele e a realidade do contexto urbano. Se apropria do asfalto, corpo dominado, desejo de expressão corporal, nova conscientização do corpo e do ambiente.” (VINCENT-RICARD, 1996:169) Concomitantemente, a Moda Italiana começa a ganhar força no mercado 17 difusão do conceito da customização, transformada em palavra de ordem nos grandes centros de Moda. No início do século XXI até o presente período, além da junção das diversas possibilidades vestimentares vistas acima, no sentido do Style Surfing, outro conceito de Polhemus (1996) que mostra que passeamos por diversas influências para construir a Moda cotidiana do terceiro milênio, vemos um fenômeno distinto também de grande relevância: o crescimento do mercado das chamadas lojas “Cheap Chic”4 (TUNGATE, 2005:42), onde é possível comprar roupas com estilo, diferenciadas e de qualidade por um preço bem convidativo para qualquer bolso, o que é muito adequado para a situação de recessão econômica do início do século, que sofre principalmente com a crise do petróleo. Grandes editoras de Modas das revistas mais badaladas, celebridades e outras pessoas do Jet Set já confessaram publicamente usarem ou comprarem roupas nestas lojas. As principais marcas do roll são Gap (USA), Zara (Espanha), H&M (Suécia), MNG (Espanha), Mexx (Holanda), entre outras. Nas palavras do diretor de Marketing da H&M: “You can dress from head to toe in Gucci if you like – that proves you´re rich, but it doesn´t prove you have taste. It´s more imaginative to wear your Gucci with some H&M. That´s why Vogue readers are among our most loyal clients.” 5(Tungate, 2005:45) A linha evolutiva da Moda, que pôde brevemente ser apresentada nos momentos acima citados, é o reflexo do zeitgeist6 de cada época, com toda carga cultural, política, econômica e ambiental inserida. A Moda marca presença nos corpos e ali demonstra elementos da história, principalmente se nos prestamos a ler seus códigos. Na aceleração da história a Moda desenvolvem-se e criam-se novas realidades vestíveis para os corpos sociais. 4 Tradução pessoal: O chic barato 5 Tradução pessoal: “Você pode vestir-se dos pés a cabeça com Gucci, se você gostar – isto prova que você é rica, mas não prova que você tem gosto. É mais inventivo vestir sua peça Gucci com alguma peça H&M. É por isso que as leitoras de Vogue são na maioria nossas clientes mais fiéis” 6 Tradução para Zeitgeist: Espírito do tempo 19 Estancar seu movimento em determinado ponto para estudar seus pormenores e filigranas é retirar dela sua essência de mutabilidade, assim é mais indicado reconhecer que, como um processo contínuo, a Moda deve ser observada para encontrarmos os conceitos de sua linha de ação. Dada a característica mutante da Moda, são adequadas as colocações de Greiner, a seguir: “Para não se manter surda ao rumor da ação do tempo, toda área de conhecimento deve lembrar que o que está designado como seu domínio não passa de um recorte e uma rarefação de um saber mais amplo, ao qual o recorte se subordina como uma descontinuidade.” (GREINER, 2005:126) Por ser processo, toda e qualquer definição da Moda atual é parcial, transitória e falível, pois está determinada pela percepção, inferência, experiência e raciocínio. A abordagem que considera o objeto de estudo como algo em processo foi desenvolvida por Charles Sanders Peirce em sua teoria do Falibilismo, que podemos adotar perfeitamente para o campo da Moda. Para Peirce, o falibilismo é o entendimento de que nosso conhecimento nunca é absoluto, mas é como se flutuasse em um continuum de incerteza e indeterminação (CP.1.171). Evoluímos os conceitos em processo com o meio ambiente e a realidade que nos cerca. “(...) Isso nos dá uma idéia de sua concepção da ciência e Filosofia como produtos da processos mente que coletiva amadurecem que obedecem gradualmente, a leis de desenvolvimento interno, ao mesmo tempo que respondem a eventos externos (novas idéias, novas experiências, novas observações) e que dependem, inclusive, do modo de vida, lugar e tempo nos quais o investigador vive." (SANTAELLA, 1994:26) O processo da Moda e suas abordagens teóricas envolvem diversas dimensões, sobretudo a dimensão simbólica e semiótica, onde estudar seus signos é estar apto a analisar significados mutantes, inconstantes e variáveis. 20 Nessa dimensão simbólica há que considerar o aspecto visual da Moda e a importância do olhar neste contexto. 1.2 Olhar na Moda A visão é um dos sentidos mais instigados pela Moda. Suas representações atingem o olhar, não só como palco de apreciação dos outros, mas ao mesmo tempo como uma auto-observação estética. Os mecanismos da Moda estão diretamente ligados com o prazer de contemplar e exibir-se, em especial quando o enfoque é posto na vivência em grupo, onde as pessoas se observam mutuamente. O olhar é uma das principais maneiras de captar a informação e a comunicação da Moda, por que não somos deliberados a tocar todos os corpos alheios que observamos para sentir a Moda ali presente, nos deleitamos apenas em observar com interesse. A presença de um look7 muitas vezes nos arrebata, impõe sua existência sobre nós. Na imagem de uma pessoa vestida há algo de externo que instiga nossa atenção, que está presente naquele momento, tomando conta da nossa apreensão. A observação de um look é a percepção de um existente que está ali para ser visto, admirado, contemplado, desejado, é uma condição de secundidade da Moda: a segunda das três categorias Peirceanas. Se a Moda tem em si um forte apelo a secundidade, embora não se resuma a esta categoria, é importante citar a questão da Percepção na Moda, ou a forma com que percebemos uma roupa. Charles Sanders Peirce construiu uma teoria da Percepção bem concatenada e embasada nos esquemas triádicos. Para o filósofo, o que percebemos, num ato de percepção, é algo que aparece de certo modo. Em síntese, perceber é se dar conta de algo externo a nós, o percepto. 7 A palavra Look é utilizada para designar a aparência completa de uma pessoa. Suas roupas, acessórios, maquiagem, penteado, enfim, o contexto geral que forma a imagem da pessoa no momento em que a observamos. 21 “O que está lá, fora de nós, e que nos chega, que é apreendido num ato de percepção, chama-se percepto.” (SANTAELLA, 1998:59) Diante de uma roupa ou aparência expressiva, a percepção visual se detém para dela extrair conhecimento e representação. Como apresenta Santaella (2005:196), a visão sempre aponta um objetivo e é guiada para um objeto ou uma aparência que chame a atenção. A Moda trabalha ininterruptamente com este intuito. No desenvolvimento do tema da visualidade na Moda é preciso considerar o suporte em que as roupas estão dispostas - o corpo - esse veículo de comunicação primário que nos é tão imprescindível nas relações sociais, bem como a importância da aparência corporal na contemporaneidade. Lúcia Santaella (2004(c):108) frisa que a Moda utiliza-se de fatores econômicos e artísticos, porém trabalha com mais destreza com os signos do corpo, sendo a roupa uma estratégia de aparência corporal na busca de maior expressão para a vida em sociedade. 1.3 Corpo e Aparência 1.3.1 O Corpo pavoneado O corpo é um complexo sistema inserido na cultura que começou a ser recriado pelo próprio homem, tornando-se um corpo não necessariamente natural, mas acima de tudo estético e imagético. Ted Polhemus (1995:109) anunciou que somos a única criatura conhecida que modifica intencionalmente o próprio aspecto, o corpo e a aparência. Esta capacidade unicamente humana é um fator chave para o desenvolvimento de nossa espécie. O corpo é uma narrativa exterior que produz comunicação, ocupa espaço e está em busca da visualidade em um mundo de aparências, é uma espécie de espetáculo sublimado, fenomenal e evanescente. Como uma inesgotável fonte 22 de símbolos, é o primeiro patrimônio de cada ser humano, a essência que organiza a vida em si e que traz a possibilidade de nos personificarmos no mundo. Vários discursos normalizam o corpo e discorrem sobre suas diversas implicações na vida, cada um com enfoque específico, seja no aspecto antropológico, médico, publicitário, tecnológico, estético ou social. São as ênfases estéticas e sociais que mais interessam nos estudos de Moda. A imagem do corpo é um fator preponderante nas relações da Moda. Sua exposição implica a busca do Belo e a noção do outro que lhe é exterior e compele o sujeito a apresentar-se de uma ou de outra maneira. “Meu corpo é para mim mesmo a imagem que eu creio que o 23 cotidiana e se comporta como estando em um teatro, com textos e contextos mutáveis conforme a situação e possibilidade de ação. “Todo corpo contém inúmeros outros corpos virtuais que o indivíduo pode atualizar por meio da manipulação de sua aparência e de seus estados afetivos (...) Roupas, cosméticos, atividades físicas formam uma constelação de produtos cobiçados, destinados a ser o camarim onde o ator social cuida daquela parte de si mesmo que em seguida vai exibir como se fosse um cartão de visita de carne e osso.” (MALYSSE, 2002:79) Neste estado de atuação e operação constante de mudança da paisagem pessoal, o corpo não é algo fechado e absoluto, mas um organismo em interminável composição. Além de ser um terreno fértil para a dramaturgia, por conferir ao sujeito uma história a contar, o corpo, em especial a partir do século XX, como enfatiza Mesquita (2004:61) é também linguagem e um dos meios de comunicação mais imediatos. Seu desenho e linha são a plasticidade do sujeito que arquiteta uma linguagem visual muito expressiva, em movimento. No território da aparência corporal, uma das grandes facetas de diálogo é a roupa, Kathia Castilho (1998) defende que o traje oferece mutação ao corpo e se a pele é o tecido que veste o “conjunto” a que chamamos corpo, com a Moda vestimos nosso tecido natural, pavoneando nossa existência. Como diria Maffesoli (1999), o corpo cintila no espetáculo das ruas e inflama-se com os jogos da Moda. A roupa é o método diário mais utilizado na transformação do corpo, ela pode alterar, esconder e ressaltar diversas partes corporais e assim ajudar na atuação social do mesmo, substituindo a imagem natural por uma imagem ideal. Nada está mais perto do corpo do que a roupa e nada mais arraigado em nossa cultura do que o “ato de vestir”. Quando nascemos, logo após os primeiros “tapinhas” para verificar nosso estado de saúde e os primeiros choros, já somos envoltos por tecidos, como frisa Vincent-Ricard (1996:185). O têxtil é o objeto de transição e a nossa primeira experiência de ruptura. 24 O corpo social, este que vemos no cotidiano em praças, avenidas, elevadores, escolas e tantos outros locais públicos, é o corpo vestido. Até mesmo nas relações sexuais que predispõem a nudez, a erotização é promovida pelas roupas bem construídas (e muitas vezes fetichizadas), como corselets, lingeries e outros adornos sensuais que conferem maior fantasia ao “natural” do ato sexual. Nosso corpo se acostumou a estar transmutado, adornado e vestido. A Moda é um adereço imprescindível da nossa corporeidade, por valorizar e enfatizar a aparência. “No momento que fazemos sobreposições no corpo e interferências em sua aparência através da roupa, (...) criamos uma imagem nova que têm a finalidade de facilitar a interação social, transmitindo narrativas muito particulares de cada indivíduo, posicionando-o em relação ao universo e “fazendo da carne uma túnica de gala”. (GERARDI, 2002:27) O sistema da Moda não está preocupado apenas em pavonear o corpo, sobrepondo tecidos em uma massa “indistinta”, mas também trabalha constantemente com a mudança dos parâmetros aceitáveis das medidas do corpo. Nos últimos anos, o “culto ao corpo” se tornou uma preocupação geral que atinge as mais diferentes classes sociais, faixas etárias e setores da sociedade. O que se observa são jovens, adultos, homens e mulheres cujos corpos seguem um mesmo padrão: músculos à mostra e abdomens moldados nas clínicas de cirurgias plásticas e academias de ginásticas espalhadas por todo o país. Tanto as academias como as clínicas de estética se transformaram em verdadeiras “usinas de corpos”, sob o pretexto de realizarem em seus clientes um completo “body building” que os levará a felicidade. Cosméticos, maquiagem, cirurgia estética, dermatologistas, personal trainers, estilistas e profissionais da elegância permitem mobilizar recursos e operar expedientes para "a boa forma". É o superdimensionamento do corpo, uma espécie de Corpolatria. Ter o corpo ideal é demonstração de auto-controle, segurança, domínio e bom gerenciamento da vida. Sentir-se bem na própria pele torna-se uma palavra de ordem. 25 O interessante é notar que estamos distantes (em tempo e realidade) das práticas eugênicas do início do século XX, porém nesta corrida frenética pelo corpo ideal estamos trazendo novamente à tona o assunto da perfeição corporal, que tem raízes eugênicas. Nos dias de hoje vivemos a construção da beleza, não mais como algo ganho a priori, naturalmente, a perfectibilidade corporal tem que ser construída, formulada, arduamente conquistada, para aparentar uma outra imagem que não necessariamente é a natural e sim a bela que vai facilitar a vida, neste mundo de aparências. “O aparecer é a poesia do ser” (CAMUS, 2000:37) 1.3.2 Aparecer para ser A fascinação pela aparência sempre existiu e na atualidade tende a ser ainda mais relevante. A aparência permeia o imaginário dos dias atuais com uma panóplia estética, embriagante e fulminante. Vivemos no hedonismo exacerbado e ardente, onde a vaidade é um dos principais fatores da existência.9 A vida urbana é a vida das aparências, fundada pela relação do parecer. Valemos geralmente o que parecemos, como uma espécie de atores e manequins desfilando em uma constante passarela, nas performances da ação diária. Há a tendência de avaliar o ser mediante o aparecer, a aparência basta, apropriamo-nos dela para abarcar a realidade e é por este canal que apresentam-se as noções de desejo e de vida. A função da aparência acaba muitas vezes por se tornar também a função do “ser”, como afirma Heiddeger: “Ser ente implica: apresentar-se, aparecer manifestando-se, oferecer-se, ex-por algo.” (HEIDDEGER, 1959:142) Em outros termos, a forma como as pessoas aparecem, partindo do pressuposto de que todos agem eticamente, pode refletir o ente verdadeiro. Somos reconhecidos por formas tênues, pelas aparências. 9 No capítulo 3 – Juventude transmutada, será explanado em detalhes com dados de pesquisas nacionais, a importância da aparência e do individualismo para os jovens estudados – nascidos no final dos anos 80 e início dos anos 90, bem como a relação destes com as marcas de Moda. 26 Embora o assunto da aparência não tenha tanto furor na sociologia clássica, Maffesoli (1999:125) defende que hoje é totalmente admissível falar de aparência e superficialidade, por serem temas que estão na ordem do dia. A preocupação com a aparência ou mesmo com o que podemos chamar de “embalagem” não é uma superficialidade sem conseqüências, mas inscreve-se num vasto jogo de simbologias e no modo de construirmos uma sociedade.10 A cultura dos Reality Shows e da fama feérica aumentou a proporção da importância dada à aparência nos dias atuais. Mesquita (2004:67) comenta que numa sociedade pautada na valorização da imagem, num momento de espetacularização e consumo de imagens, tudo que estiver relacionado com a aparência será levado em consideração. A aparência pode ser considerada uma força interior que pulsa em busca das profundezas da alma humana dificilmente racionalizáveis e definíveis, mas que são representadas, mostradas e sugeridas pela imagem. Não existe uma ligação direta da aparência com a utilidade ou a praticidade, antes, nasce da revolta vazia, puramente estética e ligada ao prazer e ao hedonismo sem limites. “(...) Como a aparência se situa além do sentido, até contra ele, nos limbos da razão e da lógica, (...) ela é por excelência o canal privilegiado de expressão de um discurso habitualmente escondido, tabu, impossível de dizer com palavras comuns lógicas.” (BOLLON, 1993:165) Diversos autores discorrem sobre a ligação da aparência com o social. Entre eles, Cidreira (2005:109) infere que a aparência corporal é mediatizada pelo social por haver um controle social das aparências e uma prática de construção da própria aparência. O universo do vestuário dá condições mais favoráveis à multiplicidade de aparências que podemos possuir. A Moda cresce em importância justamente porque radicaliza a noção de aparência enquanto essência pessoal, este é um dos motivos porque a Moda é tão apreciada pela humanidade: ela gera uma preocupação forte com a imagem e com o investimento pessoal. 10 A questão da aparência na atualidade será tratada com maior propriedade no início do capítulo 5 desta dissertação, na seção intitulada “A vida estetizada”. 27 As aparências marcam presença e esta presença é vestida. 1.4 A Moda como forma de presença Existe uma ligação direta entre Moda e corpo, onde a analogia é feita pela manifestação da aparência, num mundo visual de observadores e observados, que demonstram a inconfundível força simbólica da roupa na vida social cotidiana pós-moderna. A influência da urbanidade, da vida em sociedade e, sobretudo, do olhar do outro na Moda é um processo que começa no final do século XVIII, quando as mais importantes cidades européias começam a instalar os boulevards e os parques de passeio público. As pessoas saem do interior de suas casas e começam a se expor, refletindo a “emergência de uma civilização do exterior.” (CALDAS, 1999:91), longe de andar incógnita, a sociedade está em exibição. O principal desejo desta nova ordem social é o de ver, e o de ser visto. Foi o mesmo Georg Simmel já citado anteriormente quem estabeleceu a relação entre a vida citadina, o individualismo e o desenvolvimento rápido da Moda, na era industrial. O ego se desenvolveu quando homens e mulheres se movimentaram em círculos sociais mais vastos, foram para as grandes cidades e começaram a vivenciar uma série de sensações muito distantes em características do velho ritmo uniforme e sem “ondas” da vida rural. Nas cidades, a exterioridade e as aparências são decisivas pelo fato de estarmos misturados a um emaranhado de informações visuais e convivendo com uma multidão de pessoas semelhantes. Criamos na vida citadina uma consciência maior de nossa subjetividade, que precisa se destacar em meio à massa, sendo a apresentação pessoal um fator de grande relevância. Nas cidades a sobrevivência não depende diretamente do solo, da agricultura ou da subsistência, mas depende completamente do conjunto complexo ao qual damos o nome de “eu”. 28 “Na cidade o indivíduo entra em contato constantemente com outros indivíduos que lhe são estranhos, e sobrevive através da manipulação do seu eu. A Moda é um adjunto desta apresentação pessoal, (...) ela é uma imposição deste eu recentemente descoberto”. (WILSON, 1989:186) Na urbanidade, onde passamos mais tempo fora de casa, na rua, no trabalho e na escola, a roupa é mais visível que a decoração da casa e dos ambientes interiores, pode ser trocada com mais freqüência e traz inúmeras possibilidades de filiação para o indivíduo. Em uma paráfrase de Carlyle (1987:48) as roupas são os emblemas visíveis dos limites invisíveis entre os homens. Dias (1997:30) em seu livro “Moda divina decadência” afirma que vestimonos para estarmos presentes no contato com uma outra pessoa, a estruturação da Moda se deve à imagem cativante do semelhante, assim, vestidos por imagens acabamos por atualizar, no imaginário, a posição que temos na sociedade e por este motivo é possível considerar a Moda como parte da função Moral, vigorando aí a necessidade de reconhecimento. “Moda é modo de presença, construção da existência ou da porção identitária do sujeito” (CASTILHO, 2004:11) A roupa é o envoltório que nos modela, mas isso não significa que nos reduzimos à condição de cabides. Na verdade, a roupa é uma forma de expressão daquilo que idealizamos internamente ser, com todas nossas idiossincrasias, sonhos, ideais, projetos e etc. “Cosmetizar-se tem um papel sacramental: tornar visível essa graça invisível que é estar junto”. (MAFFESOLI, 1999:167) Umberto Eco defende em “Faith em Fakes” (1986) que na civilização a roupa- armadura, no caso o blue jeans, influenciou a postura e portanto a moralidade exterior. O autor crê que a moral e os costumes são determinados por aquilo que vestimos. É como se nossa consciência estivesse sob nossas peles, de forma epidérmica. Através das vestimentas processamos para fora aquilo que está dentro de nós, num ato de presença do próprio sujeito no mundo. 29 Voltando novamente à questão da figura do “outro”, é sensato lembrar que nossas escolhas de roupas são designadas por um forte desejo de reconhecimento. A estética, nessa perspectiva, constitui uma das formas de manifestação mais significativas das atividades diárias. O outro é estímulo e define nossas ações e sentimentos, sendo uma das principais forças para nos reinventarmos a partir de modos de presença. Utilizamos a Moda para estarmos no mundo e essa forma de apresentação varia de pessoa a pessoa. Segundo Garcia e Miranda (2005:100103) o discurso da roupa pode servir como: 1- instrumento de comunicação não verbal, uma espécie de linguagem e código; 2- Instrumento de integração, no sentido da socialização e integração; 3- Instrumento de individualidade, ao fugir de regras e padrões, diferenciando-se; 4- Instrumento de teatralização, no desempenho de diversos papéis do dia a dia; 5- Instrumento de auto-estima, que impõe o ego como estimulador do consumo; 6- Instrumento de transformação, onde a roupa assume um poder mágico de transformação pessoal. 30 Se a roupa é o signo a ser consumido, a marca de Moda é o Objeto de desejo, em especial no público jovem e em públicos que prezam pela visualidade. Usá-la, configura-se como uma grande possibilidade de sucesso no ambiente social. 31 Capítulo 2 Marca de Moda 2.1 Marca No âmbito acadêmico, as áreas de Marketing e Administração predominam nos estudos a respeito das marcas, com o objetivo de buscar o entendimento mercadológico e administrativo deste elemento primordial de uma empresa, mensurando diversos componentes complexos. Esta forma de estudo foi trabalhada por muitos autores, entre eles, Kotler (2000), Cobra (1993), Weilbacher (1994), entre outros. O ponto de vista dominante destas abordagens culminam nos sistemas econômicos que envolvem a marca. Neste presente estudo, a dedicação analítica da marca será feita a partir do pensamento do universo simbólico e semiótico, atendo-se principalmente à familiaridade do público com o arcabouço simbólico contido no ambiente comunicacional. É no ambiente simbólico que podemos avistar a invasão da sedução, identificação e legitimação, é o espaço que nos permite perceber o que leva a intensificação do desejo por parte do público, em especial quando se trata de grupos juvenis pertencentes ao que chamamos de adolescência: uma faixa etária que vivencia atualmente um momento de narcisismo emergente. Em um estudo dedicado ao jovem do século XXI, Osgerby (2004:46) cita que “style and image (...)are seen as playing a more important role in PostFordist economic life”1, reforçando a crescente importância das questões relacionadas à imagem e ao estilo na contemporaneidade, em um mundo totalmente estetizado, onde os elementos imagéticos tornam-se imperativos e neste sentido são imprescindíveis na construção de uma marca forte e consolidada. 1 Tradução Pessoal: “o estilo e a imagem estão ganhando um papel de maior importância na era pós fordista” 33 Especificamente na questão da força de significação da marca, Maria Clotilde Perez Rodriguez (2001), defende que, a cada dia enxergamos mais nitidamente os aspectos simbólicos das marcas, sendo que “a real troca de valor é encontrada na carga simbólica e cultural erguida pela marca”, onde “o significado é o motor central da lógica da marca e dos produtos” (2001:248;250). A partir dos significados ali presentes é que podemos compreender diversas motivações e comportamentos de consumo, que pela via econômica podem permanecer velados ou obscuros em meio aos dados estatísticos quantitativos. Segundo Tavares (2003) a marca é um signo de identificação e construção simbólica, que serve para inscrever, representar e diferenciar produtos e serviços dentro do mercado. A marca, em especial para públicos juvenis, caracteriza-se como signo representativo de um estilo de vida, uma atitude, uma expressão que deve ser levada em consideração. Cimatti, (2003:78) demonstra que as marcas se revestem de conteúdos exclusivos e estes conteúdos são sua força representativa. Neste sentido é possível visualizar que todas as particularizações e construções simbólicas erigidas nos planos de comunicação de uma marca são um ponto crucial para sua colocação no mercado. Fournier (1998) reforça que a marca, antes de tudo, cria significados para a vida das pessoas, ou seja, é no universo da significação, na capacidade de criar sentidos positivos na mente do consumidor, que reside um dos grandes trunfos das marcas. 2.1.1 Elementos representativos da marca O primeiro elemento simbólico constitutivo de toda marca é seu nome. Com a intenção de discorrer sobre o tema, Falk (1994) comenta o caso pioneiro de adoção de um nome a um produto, ainda em 1880, quando a Aveia Quaker se posicionou historicamente como a primeira empresa oficialmente reconhecida a adotar um nome para seu produto, que juntamente ao novo título possuía uma inovação tecnológica que permitia o beneficiamento dos flocos de aveia que ficavam com uma aparência diferenciada. Como aponta o autor: 34 “It was in this particular packaged, identified form – as a representation – that the product became more than just “plain oats”.”2 (FALK, 1994:161) Na representação inovadora criada pela Quaker, a partir de então o produto não era apenas reconhecido como simples “flocos de aveia” como todos os outros flocos existentes, mas sim um produto diferenciado, não só na aparência, mas também “humanizado” pela identidade criada automaticamente pelo nome. Com o evento de “nomeação” a linguagem e a simbologia abrem seu vasto espaço no mundo dos produtos e desde então tornam-se fundamentais nas relações comerciais, onde os produtos comercializados não conseguem permanecer fortes no mercado sem a unidade simbólica verbal. O nome rege de certa forma o produto. No ato de nomear temos automaticamente a atribuição de um signo verbal que não necessariamente tem ligação racional direta com o produto, ou seja, relação com suas características, componentes ou benefícios, mas antes de tudo tem a função de criar laços emocionais que podem, a partir do trabalho de comunicação, sinalizar valores positivos para a vida das pessoas. Baudrillard (2003) sugere que a conotação de status, prestígio e conhecimento do objeto é dada pelo nome, ou seja, sua marca. Um objeto só encontra seu significado simbólico quando encontra significação pelo nome, neste momento ele é reificado como signo de valor representativo, sendo a lógica do consumo uma lógica de signos e diferenciação. O universo simbólico de uma marca não se resume ao ato de nomear, consideramos antes que o nome é o elemento verbal que inicia o processo de representação, porém não é o único. Junto ao nome é necessária toda a programação visual, logotipia, cores predominantes e mais uma série de elementos sígnicos imagéticos que colaboram para aumentar a eficiência simbólica da marca. Tradução pessoal: “Foi nesta embalagem particular, com forma identificada – como uma representação – que aquele produto se tornou mais do que simples aveia”. 2 35 É por meio de todo conjunto semiótico e da somatória de atributos e valores emocionais que envolvem a marca que os produtos tornam-se animados, humanizados e próximos de nossa identidade. Começamos a desejar que os produtos de “marca” façam parte de nossas vidas e nos acompanhem como aglutinadores de emoções, não tratando-os como simples commodities com determinadas funcionalidades. A marca, como a conhecemos atualmente, sobretudo no âmbito visual tem uma espécie de valor semelhante aos antigos brasões de comunidades da Idade Média, que distinguiam com imagens e cores pré-determinadas os cavaleiros nas batalhas, além de serem uma das únicas formas de reconhecer os membros de uma família específica ou grupo comunitário. Benoit Heilbrunn (2004:14) comenta que a marca contemporânea simboliza “uma pertença e um propósito coletivo” tal como os velhos emblemas e brasões. As marcas são a forma moderna dos indivíduos se separarem em grupos distintos de grande força representativa por meio de imagens, nomes e particularidades existentes que ficam alocadas na mente do consumidor. Segundo o pesquisador de tendências do consumo David Shah 3, atualmente as marcas passam a ser como famílias. Elas tentam desenvolver um relacionamento com seu consumidor, construindo um elo emocional que muitas vezes ocupa o espaço anteriormente reservado ao Estado e à Igreja, proporcionando a mínima estabilidade emocional e as referências que a pessoa procura. A riqueza do imaginário que as marcas trazem para a vida cotidiana faz com que vejamos nelas uma certa personificação, uma espécie espírito semelhante à personalidade humana, com a qual temos afinidade. Nesta direção de pensamento, David Aaker (1998:114) afirma que o princípio de marca que traz significado na vida do consumidor é o índice de afinidade desenvolvido em relação aos seus valores: sua personalidade. Após a construção da personalidade de marca é no conjunto de aproximações feitas, seja no ato de compra, nas comunicações e publicidades 3 Texto extraído de Matéria “Não há mais moda” publicada na Revista Época. Disponível em: http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT829801-1666-1,00.html 36 visualizadas ou a partir de outras experiências positivas que nos sentimos confortáveis e criamos com elas familiaridade. Estes dois pontos - personalidade e familiaridade - serão discutidos a seguir. 2.2 Personalidade e Familiaridade com a marca 2.2.1 Personalidade de marca O tema “Personalidade de marca” tem sido um dos pontos focais no planejamento de comunicação das grandes agências de publicidade desde os anos 70. Nos estudos teóricos, Kapferer (2004:108) comenta que o assunto começou a ser levado em consideração somente a partir dos estudos de Aaker (1998), que relacionam a personalidade de marca a uma escala de valores. Kapferer (2004) sinaliza que o método classificatório de Aaker pode ser visto como pouco eficaz, por “fechar” a questão da personalidade em aspectos rígidos e tangíveis, enquanto é possível perceber, a partir de estudos empíricos, que existem aspectos intangíveis distintos que são muito relevantes no tocante da personalidade de marca e que não estão contabilizados na escala de Aaker. Embora as escalas de Aaker possam ser limitantes, existem pontos de sua linha teórica que devem ser ressaltados por serem informações interessantes a respeito da personalidade e familiaridade de marca. Para Aaker e Joachimsthaler (2000:58), a marca tem uma essência, em outras palavras um pensamento único que captura sua alma, e é a partir desta essência que se constroem relacionamentos entre consumidor e empresa. Martins (1999) vai mais longe na importância da personalidade, citando que para haver um envolvimento real com o público é preciso que a marca transmita uma emoção definida, um espírito específico, uma personalidade. Nestes e em outros textos e artigos sobre personalidade de marca vemos uma espécie de tratamento idêntico ao tratamento comportamental dos seres humanos. Considerar que marcas são semelhantes às características humanas parece ser uma metáfora atrativa. Smit, Van den Berg e Franzen (2003:22) consideram que este tipo de vertente empresta definições das teorias da 37 personalidade humana que desde Aristóteles desenvolvem-se nos âmbitos psicanalíticos, behavioristas, comportamentais e nas teorias cognitivas. A partir de elementos semelhantes às teorias tradicionais de personalidade humana é erigida a personalidade dos produtos, tornando-os únicos e “dignos” de atenção do consumidor. Uma das grandes responsáveis pela criação de singularidade para os produtos é a publicidade, ambiente em que a personalidade de marca iniciou sua trajetória. Rocha (1984:68) afirma que o caráter específico da publicidade é o de classificar, nomear, instituir imagens positivas, personalizar e constituir uma identidade própria que se cola nos produtos, trazendo-lhes identificação com o consumidor. Randazzo (1997) comenta que a publicidade é o meio que permite criar um inventário perceptual de imagens, símbolos e sensações que culminam na identidade perceptual que posteriormente reconhecemos como sendo a marca. Naomi Klein, (2004:31) ressalta que o publicitário é o “rei filósofo da cultura ocidental”, a pessoa capaz de dar vida a coisas inanimadas, dotando-as de nomes, imagens e uma espécie de essência antropológica e psicológica que transformam-nas em objetos de desejo personificados. Estas e mais uma série de citações podem ser feitas a respeito do papel da publicidade e do publicitário na construção de marcas com personalidade, nelas é possível notar o caráter lapidatório utilizado pela publicidade para erigir uma imagem ideal, no cuidado de “idealizar” os produtos, mostrando uma face exclusiva da “vida animada” da marca. Para Malcolm Baker e Greet Sterenberg (2003) existe até a possibilidade de aplicar um sentido platônico para as marcas. 38 “It is in this Platonic, idealized world where brands take on life and where they acquire their redemptive role.”4 (BAKER e STERENBERG, 2003) Com uma personalidade ideal, perfeita, incomparável e desejável, os produtos entram no mercado a partir de diversas ações de comunicação inseridas geralmente nos espaços mass midiáticos e complementados por ações em mídias alternativas e diversas campanhas promocionais. Na medida em que os atos comunicativos constituem um grau de conhecimento da marca, quando são feitas associações de um nível considerável, é composta a familiaridade. 2.2.2 Familiaridade com a marca A familiaridade é composta por experiências diretas e indiretas acumuladas na mente e na memória do consumidor. Quanto maior a familiaridade, maior a possibilidade de sucesso mercadológico. Para Kent e Allen (1994) a familiaridade é um componente importante do Brand Equity.5 O posicionamento de marca, ou a forma como a marca deve ser percebida no mercado é também decisivo para a familiaridade. Adotar um modelo bem construído de comunicação, permite que o consumidor tenha maior familiaridade com as informações transmitidas e aumente o índice de afinidade e sinergia. O elemento da familiaridade, as imagens mentais e as experiências sígnicas que a formam devem ser estudadas com maior profundidade 6 por serem fatores da marca que não podem ser renegados a segundo plano. Pesquisas mostram que as pessoas se interessam mais pelo que lhes é familiar e conhecido. De acordo com o psicólogo Robert Zajonc da Universidade de Stanford, citado por Fallon (2004), se uma pessoa não tem familiaridade com um produto ou objeto não verá mérito no mesmo, sendo que quanto mais vemos 4 Tradução Pessoal: É no platônico e idealizado mundo onde as marcas têm vida e é ali que elas adquirem seu papel de redenção”. 5 Brand Equity é o nome dado ao ato de mensurar o valor da marca e pode ser calculado a partir de diversos dados. 6 A teoria da Experiência Colateral de Charles Sanders Peirce trata da familiaridade e destes elementos e será comentada nos capítulos 4 e 5. 39 ou temos experiências positivas com algo, mais nos sentimos confortáveis. A familiaridade faz parte do senso de sobrevivência humana, desta forma, nos afastamos de objetos ou informações não familiariares, por não fazerem parte de nosso arcabouço de conhecimento. Para Aaker (1998:115) uma ligação com a marca será mais intensa quando for baseada em muitas experiências ou exposições a comunicações, sendo que o acúmulo de experiências fortalece a familiaridade. A partir da familiaridade construída pelo grande número de conexões, são organizadas de uma forma significativa figuras mentais e imagens visuais que vem a mente quando a marca é mencionada, proporcionando um meio de assimilação. O mesmo autor ainda ressalta que estas experiências podem ser particulares, assim, cada indivíduo responde a uma marca de forma diferenciada ao unir em sua memória experiências cotidianas e experiências de marca, significando que a percepção do ambiente e a maneira de reagir a ele dependem da história de experiências individuais relevantes. “Para determinada pessoa, Sears pode significar um passeio à loja com o vovô num velho Chevrolet barulhento. Para outra, poderia estar associada à primeira bicicleta e ao sentimento de liberdade que ela produziu. Para outra ainda, Sears usualmente significa pneus e peças de automóveis e um lugar que entrega à domicílio peças de qualidade.” (AAKER, 1998:119) No que tange a marca de Moda ou griffe, quesitos como imagem ideal, personalidade e familiaridade são decisivos, eles garantem o estilo único, a aproximação com a realidade vivenciada pelo usuário e o nível de conhecimento, em meio a uma centena de marcas concorrentes no mesmo segmento. “Agora chegamos a um ponto em que um produto, e especialmente uma griffe, tem de (...) refletir um estilo de vida, ter pedigree e alma. Um produto com alma não só atrai o interesse do consumidor, como também consegue se comunicar com ele e até aumentar seu conhecimento”. (VILLAÇA, 2002:102) 40 A marca de Moda é uma forma muito especial de marca, por revestir a pele de cada indivíduo, é uma espécie de segunda pele, que apropria-se da identidade e do self de cada um. 2.3 A marca de Moda No caso específico da Moda, diferentemente de outros produtos como móveis, eletrodomésticos, computadores ou carros, a marca é epidérmica, uma espécie de invólucro que ressalta a aparência pessoal. Por este motivo, a questão da escolha da marca de Moda é bem mais elaborada e meticulosa do que alguns atos de compra de produtos que não envolvem o corpo. A eleição não é apenas uma questão de preferência, ela passa pela decisão de como nos apresentaremos mediante outros olhares, qual será a visão de mundo proporcionada pelas peças que vestimos, quais logotipos ou símbolos visíveis que escolheremos para nos identificar a primeira vista, etc. Em uma crítica à forma com que a sociedade trata a questão das marcas de Moda e mesmo em uma crítica à dominância dos logotipos na contemporaneidade, Naomi Klein (2004:377) defende que nossas vidas acabam por ser marcadas pelas etiquetas que vestimos. Em outra citação, Mesquita (2004:74) indica que nosso imaginário está povoado pelas significações das grandes marcas, no momento que as roupas, marcam o corpo, inscrevendo-se nele. Para a autora, campos subjetivos produzem-se por meio de uma etiqueta e sua proposta. Em atitudes plenamente emocionais, escolhemos nossa aparência pelas marcas. A força simbólica da marca de Moda é reforçada por Castilho (2004:46) quando a autora afirma que ao comprar determinada peça do vestuário o consumidor não a compra por sua funcionalidade, mas pelo universo de valores que ali estão enunciados e que passam necessariamente pelas marcas. Nessa relação emocional, geralmente elementos como qualidade e conforto são colocados em segundo plano, ainda que não sejam descartados da 41 escolha. O fato é que costuma prevalecer o aspecto visual da peça e toda sua representação imagética. No caso de muitos grupos sociais, em especial no público jovem, o papel da marca aliado ao formato e cores da peça é imprescindível para uma escolha certeira. É na dupla aparência da roupa/marca que domina a preferência de compra nestes mercados. Conforme Cidreira (2005:73), as grandes empresas de Moda, atentas a esta realidade, compreenderam a predominância de desejo pela roupa de marca e realizam uma proximidade afetiva junto ao potencial consumidor, passando necessariamente por um habilidoso trabalho de marketing. Por sua importância no sistema de Moda, a marca pode ser avaliada como sendo maior do que o estilo em si e quando bem trabalhada engloba em seu sentido pleno a linha criativa adotada, carregando consigo a promessa fantástica de recriar o corpo em uma imagem ideal. A marca traz a sensação de segurança e bem-estar para os usuários através dos diversos aspectos simbólicos contidos em sua imagem. Seu preço é alto para poder garantir a significação e diferenciação, sendo que o valor embutido é contabilizado como sendo o “valor de design”, que segundo Castilho (2004) contém uma série de informações e discursos. Na história da Moda, é importante identificar quando as questões relacionadas à marca surgiram no contexto mercadológico. Considera-se que foi com o advento da Alta Costura, no ato de assinatura das roupas por seu criador, e na abertura das Maisons que a marca iniciou sua jornada. 2.3.1 Trajetória da marca de Moda O primeiro costureiro a receber o título de estilista, dando início ao histórico das marcas de Moda, foi Charles-Frédéric Worth, já comentado rapidamente no Capítulo 1 desta dissertação como sendo o primeiro representante das mudanças constantes da Moda. Worth é um verdadeiro “marco zero” da história da Moda, tanto nas engrenagens que a regem quanto no sentido de construção de marca. A fundação de sua Maison data de 1857. 42 “Sob a iniciativa de Worth, a moda chega à era moderna; tornou-se uma empresa de criação, mas também de espetáculo publicitário”.(Lipovetsky,1999:72). Antes de sua Maison, a elite aristocrata mandava fazer suas roupas em costureiras particulares ou alfaiates de senhoras, que eram mais executantes dos pedidos das clientes do que criadoras de um estilo inovador, respeitando todas as ordens e petições à risca, sem sugerir uma opinião criativa própria. O relacionamento afinado e de diálogo entre criador e cliente, que é verificado somente a partir de Worth, permite às linhas da moda se tornarem bem mais rigorosas e evoluírem com rapidez, por contarem com o aval de um estilista regente que orquestra o ritmo das mudanças de formas e cores da estação, conforme cita Vincent-Ricard (1989:56). Na segunda metade do século XIX a ascenção da figura do estilista coincide com o nascimento da indústria em grande escala e a promoção de uma nova classe dirigente da sociedade: a alta burguesia, que não vinha dos círculos aristocráticos, não tinha a educação baseada na etiqueta social e por isso estava disposta a pagar qualquer preço para se fazer notar através da renovação freqüente de seus trajes, e estava ávida pelos conselhos sábios dos grandes criadores, que poderiam trazer o reconhecimento social tão almejado. O papel da burguesia, o surgimento das metrópoles, a visualidade das cidades, a produção em série das fábricas e o advento de uma nova sociedade apegada às aparências faz com que o estilista na figura do “ditador de elegância” ganhe força. Uma de suas funções é ensinar aos emergentes como se portar na vida social citadina, diferenciando-se dos demais e exibindo signos de distinção por meio de suas roupas e acessórios, à moda das histórias de Hollywood como Sabrina e My fair Lady, ambos estrelados por Audrey Hepburn e de grande sucesso na era de ouro do cinema. Outro fator importante da Alta Costura é que ela fornece uma Moda centralizada, internacional e torna o estilista uma figura pública de fama, enfraquecendo os costumes tradicionais e regionais em prol de uma Moda padronizada. A Alta Costura para Lipovestky (1999:109) acaba por reproduzir uma “imagem de marca eterna”. 43 Com a entrada do século XX e principalmente a partir do final da 2a Guerra Mundial, com o desenvolvimento da publicidade e dos meios de comunicação de massa, o papel das marcas ganha maior status, através de diversas ações de promoção como os desfiles de Moda que começam a ter cobertura das principais revistas especializadas, a popularização do prèt-a-porter e o crescimento de ações de comunicação que elevam o conhecimento da Moda e das grandes marcas em âmbito global. Desde então é possível verificar um tratamento particular para a marca em cada mercado consumidor, com funções distintas. Nos círculos de usuários que valorizam o luxo e a alta costura, muitas vezes a marca sinaliza exclusividade, já nos mercados jovens sinaliza identidade e no meio esportivo sinaliza desempenho. Escolhemos aqui tratar de três formas de tratamento da marca de Moda, de acordo com o objeto de estudo deste trabalho. A classificação que se segue não é rígida e definitiva, podendo haver novas inserções ou diferentes visões a respeito, porém foi uma forma de enxergar o panorama da marca de Moda em uma linha que facilite seu entendimento e suas principais características em relação ao consumidor. “brands ocupy a very different place in the fashion universe”7. (TUNGATE, 2005:177) 2.3.2 Marcas de Exclusividade O caso da exclusividade de marca é representado principalmente pela Alta Costura dos grandes estilistas, onde a roupa é feita especialmente para uma determinada cliente, sem produção em larga escala. A peça confeccionada é um signo de particularização, um verdadeiro fetiche e emblema de Luxo. Geralmente é feita com tecidos nobres de primeira qualidade, muitas vezes produzidos especialmente para a peça. A produção é feita em grande parte por processos manuais executados por mão de obra altamente especializada e que demandam grande tempo de execução. 7 Tradução pessoal: “as marcas ocupam um lugar muito diferente no universo da Moda”. 44 Com todas as especificidades deste tipo de marca de Moda o custo final das roupas é altíssimo, porém em contrapartida a peça é dotada de elementos inconfundíveis e exclusivos. Esta forma de marca de Moda existiu principalmente no fim do século XIX e início do século XX, até a crise da Moda parisiense durante a Segunda Guerra. Atualmente ainda existe este tipo de Moda exclusiva, luxuosa e de manufatura minuciosa, porém em menor escala. Atrizes, cantoras, milionárias - em especial do mundo árabe e oriental - e clientes com condições de manter o preço de uma roupa exclusiva assinada por um grande estilista ainda consomem este tipo de Moda e de marca no sentido tácito da exclusividade e luxo. 2.3.3 Marcas de Diferenciação Se a marca de exclusividade é apoiada no luxo ostentatório, e por isso inalcançável à maioria das pessoas, existe uma segunda categoria que ainda se embasa na questão da distinção, porém de maior penetração social. É o que podemos chamar de marcas de diferenciação. Pode-se encontrar o distanciamento desta categoria em relação à primeira a partir do crescimento vertiginoso do prèt-a-porter. Desde o início do século XX Lipovetsky (1999) reforça que existe uma revolução no ato de vestir, onde o chique é não parecer rico. Deixou de ser importante “ostentar” signos de exclusividade e a maioria dos estilistas aderem também a coleções de produção em massa, onde não é mais evocado o privilégio da peça única, mas permanecem os signos de diferenciação pela etiqueta ou assinatura da marca. Além do grande número de peças produzidas nas fábricas, os tecidos são imitados e produzidos em larga escala, as fibras e corantes são encontrados a preços mais acessíveis, a informação de Moda está espalhada pelos quatros cantos do mundo e ocorre a padronização do estilo de roupas (coleções a serem seguidas à risca). Neste cenário o grande diferenciador é a etiqueta reconhecida por seu valor. Para manter um certo status nas roupas semelhantes é necessário incorporar o preço de cada peça ao desenho. Isso é realizado de uma forma 45 muito simples: deslocando o nome da Maison, antes relegado a uma posição modesta no interior da roupa, para um local de proeminência. Lurie (1997:145) afirma que sapatos, camisas, vestidos, calças e lenços comuns são clara e indelevelmente marcados com os nomes, monogramas e logomarcas de seus fabricantes. Esse novo sistema foi acompanhado por uma grande promoção social, que não só permitiu às grandes marcas tradicionais reforçarem sua imagem, mas adquirir um renome internacional. As distâncias quanto às diferenças sociais continuam a ocorrer como no caso das marcas de exclusividade, porém no caso das marcas de diferenciação existem de modo mais brando, uma vez que o luxo do vestuário deixou de ser um imperativo de demonstração de poder pecuniário. Essa categoria de construção e gerenciamento de marca de Moda geralmente se localiza nos casos das griffes de luxo com forte atividade comercial, como o exemplo do conglomerado liderado pela LVHM e tantas outras marcas de luxo que não estão necessariamente no âmbito da Alta Costura, mas se distanciam da grande massa de marcas existentes. 2.3.4 Marcas de Identificação Se construíssemos uma pirâmide das três categorias de marcas sugeridas, o topo seria preenchido pelas marcas de exclusividade, a segunda colocação ficaria para as marcas de diferenciação e a grande base representaria esta terceira categoria: as marcas de identificação, que são as mais próximas do público jovem/adolescente. Para esta categoria, o papel da massificação industrial das roupas e das ferramentas publicitárias é decisivo. O assunto da produção em massa de Moda foi tratado com detalhamento por Leopold (1992), porém aqui basta reter que o fator da disseminação da Moda em grande escala, unida às tecnologias de vestuário e ao minucioso sistema publicitário contribui para sua disseminação, que é feita em larga escala e necessita de adesão maciça para se tornar Hit. 46 “Depois do sistema monopolístico e aristocrático da Alta Costura, a moda chegou ao pluralismo democrático”. (LIPOVETSKY, 1999:117) Aqui as marcas funcionam como elemento de agregação de pessoas que compartilham de uma mesma identidade, na unificação em torno de um estilo de vida ou de um vestir semelhante. O senso de pertencimento ou belonging faz com que o desejo por vestir determinada marca aumente. A comunicação dos logotipos e todo complexo imagético existente influenciam os indivíduos a terem modos de visibilidade análogos aos de seus amigos ou círculo social. Em seu “universo de atuação” o indivíduo é visto por um público que tem competência primária de contato com aquele símbolo ou logomarca expressa na roupa, assim a leitura de sentidos e significados passa a ser muito mais eficaz. A divulgação das marcas de identificação é densa e ocupa as mais diversas mídias, enquanto as marcas de Luxo - tanto de exclusividade como as de diferenciação - estão mais afastadas de ações agressivas de comunicação de massa, exceto em seus produtos de beleza, em especial perfumes. Caracterizam-se como marcas de Identificação e de grande adesão em busca de uma identidade ideal alguns exemplos como Nike, Puma, Diesel, Levi’s, Benetton, entre outras. Mark Tungate (2005) ao comentar sobre esse tipo de marca de identificação, ou seja, marcas com forte apelo publicitário com intenção de altos níveis de venda, sugere que a forma de atuação dessas marcas é mais próxima ao sistema de comercialização do Mc Donald’s se comparado ao sistema utilizado por Chanel ou outros sistemas de Moda tradicionais. Esta afirmativa é interessante porque demonstra o poder da mídia e dos métodos de marketing para as marcas de identificação. Seu principal intuito é transformar o mundo - em especial o jovem - em uma aldeia de indivíduos vestidos com seus emblemas e para isso utilizam-se mais do marketing do que dos elementos tradicionais de Moda. Agins (1999:14) atenta a essa nova característica da indústria do vestuário chega a arriscar que a Moda como a conhecíamos até então teria chegado ao 47 fim. O título de seu livro intencionalmente é: The end of fashion - How Marketing Changed the Clothing Business Forever8, nele, a autora assume que a criatividade do estilista é muito mais expressa pelas técnicas de marketing do que pelo design em si, sendo que a imagem é a forma, porém a principal função desta nova Moda reside no marketing. Cidreira (2005:75) comenta no mesmo sentido que o papel da estratégia de marketing torna-se cada vez mais importante e presente no universo da Moda. O fator marketing na Moda é visível quando verificamos que muitas marcas antes de estarem preocupadas em apresentar roupas, estão preocupadas acima de tudo em transmitir “estilos de vida” ou atitudes a partir de seus conceitos publicitários, erigidos através de diversos códigos que só conseguem ser lidos em plenitude pelos grupos que congregam das mesmas atitudes e opiniões. “À marca agrega-se um sentido de manutenção de valores e de estilos de vida que ela promove e que são recorrentes em todas as suas manifestações.” (CASTILHO, 2004:47) 2.3.5 A aura da Moda Fazendo um paralelo com a teoria da “aura” de Walter Benjamin no texto “A Obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica” é possível dizer que antes da grande massificação da produção de roupas, mais precisamente até a década de 40 do século XX, a roupa possuía sua aura dentro do contexto de peça única, exclusiva, criada e manufaturada especialmente para uma determinada pessoa. Com o advento da indústria da confecção, aperfeiçoando a produtividade de roupas em massa, a “aura” existente na moda mudou de posição, não é mais necessariamente a exclusividade da peça que determina a sua especial existência e sim a imagem mítica das marcas que transmitem sentimentos 8 Tradução pessoal: O fim da Moda – Como o Marketing mudou o negócio de roupas para sempre. 48 intensos e desejáveis para os consumidores. Para conseguir o efeito desejado deste novo padrão de atuação da Moda, podemos arriscar em dizer que a nova “aura” da Moda atualmente está pautada na publicidade. Verificamos que o objeto de desejo da Moda começou a ser regulado pela personalidade da marca, construída pelos “reis filósofos” publicitários, que criam comunicações criativas para expressar os sentimentos exatos que atingem o consumidor final. Desde então, a Moda é um setor econômico dependente de forma integral da publicidade, que geralmente tem eficiência em qualquer camada social, desde que bem trabalhada. O intuito é extrapolar, exteriorizar, comunicar e demonstrar a diferenciação pela marca, em campos subjetivos e conceituais, com pequenos símbolos ou signos ínfimos que são facilmente reconhecíveis e ganham relevância na força identitária. Os significados míticos da roupa com nome e logotipo, trabalhados pelas ações de marketing é intenso, em especial no público adolescente que ainda não pode desfrutar de objetos de consumo de maior porte, como é o caso de motos ou carros e por isso precisam se “contentar” com outros signos que valorizem sua apresentação pessoal. O indivíduo de 14 a 18 anos tem como seu aliado primordial o corpo e é com ele que cria e recria sua existência, em um jogo de aparências e narcisismo sem freios. A roupa neste contexto serve como um objeto mágico que garante sensualidade, poder, virilidade, entre outras qualidades. Para entender o papel da marca de Moda para esse público e principalmente conhecer seu perfil na atualidade a partir de dados recentes de pesquisas nacionais, dedicamos o espaço do próximo capítulo. 49 Capítulo 3 Juventude Transmutada 3.1 Juventude em contexto Conceituar juventude não é uma tarefa fácil. Arriscar uma definição é ainda mais complicado, por ser um território mutável e em constantes transformações, contando com diversos atores sociais que diferem entre si em atitudes e comportamentos. O melhor caminho a seguir é o da revisão bibliográfica de alguns dos principais autores que trataram do tema, e que trazem no bojo de suas reflexões algumas pistas interessantes a respeito da condição juvenil. Sanchis (1996) demonstra o quanto é difícil categorizar a juventude, por ser uma situação complexa e escorregadia. Trata-se de um termo multifacetado que não pode incorrer nas simplificações terminológicas. Abreu (1997) observa que a juventude pode ser uma espécie de construção sociológica para determinar faixas etárias, concordando que a simplificação do termo pode conduzir a um perigoso estudo limitante dessa condição. Margulis (1996) defende que não se deve estudar a juventude somente em função etária, por estar constituída de uma dimensão simbólica relevante, porém enfatiza a situação adolescente, que seria o momento de transição banhado por rebeldias e comportamentos incompreensíveis, em busca de uma auto-definição. Para Groppo (2000), esse é o período de uma fase preparatória para a idade adulta, porém o autor ressalta a imprecisão dos limites etários, por serem confusos, pelo fato dos ritos de passagem e demarcação de gerações não serem fixos. 51 Todos os autores citados concordam que a juventude é um momento significativo e que as marcas sociais históricas de cada recorte temporário da juventude correspondem a uma maneira específica de tratar o assunto. Paul Singer (2004:27) destaca que uma classe juvenil distinta se desenvolve em função do momento histórico em que nasceu, atravessando as mesmas vicissitudes políticas e econômicas, ou seja, a época vivenciada interfere nas ações juvenis. Alguns estudos sobre juventude consideram este período da vida como uma espécie de moratória, um espaço temporal em que é possível gozar das benesses da vida sem ter que se preocupar com o futuro ou com o sustento pessoal, focalizando seus esforços no lazer, no consumo e nos estudos. Esta leitura tem uma ramificação especialmente econômica, dentro de um sistema de produção capitalista que considera o adolescente e o jovem como uma pessoa “improdutiva”, por estar impedida de trabalhar e que, por este motivo, é um amplo espaço para as investidas publicitárias e apelos de consumo. Vianna (1997) cita que o modo de interpretar a juventude como mera transição ou moratória advém de uma compreensão do mundo adulto como algo estático e rígido em contraposição ao mundo instável da juventude, excluindo-se muitas vezes algumas representações simbólicas expressivas e existentes no caldo juvenil. Pierre Bourdieu (1983) lançou uma leitura ousada ao publicar seu texto “Juventude é apenas uma palavra”. Diversas interpretações resultaram deste texto, sendo acusado de ter reduzido a juventude a apenas um estado transitório, porém é possível interpretarmos o texto de Bourdieu como a caracterização da juventude como situação relacional, devendo-se ser estudada segundo o contexto em que está inserida. Para Bourdieu, as fronteiras muito rígidas que separam os jovens dos adultos são arbitrárias, a idade é socialmente construída e varia em cada sociedade, nos diferentes momentos históricos, a partir de distinções de idade, gênero e classe. Em “A Juventud es más que una palabra”, Margulis (1996) respondendo ao texto de Bourdieu qualifica a juventude como um espaço de sensibilidades específicas, com velocidades e ritmos diferentes. 52 admissível estabelecer um recorte que circunscreva um conjunto de sujeitos cujas experiências se encontram em determinado grau, para assim delinear informações e hipóteses com fins de pesquisa acadêmica. 3.1.1 A Adolescência Para viabilizar o estudo aqui sugerido, foi definido como enfoque principal, porém não o único, o período denominado “adolescência”, também chamado como primeira juventude e que atualmente caracteriza-se - por convenção acadêmica - pelos jovens com idade entre 14 e 18 anos moradores das regiões urbanas e metropolitanas. Uma das características que assinalam a adolescência como um todo é a plasticidade deste período da vida. Edgar Morin afirma que: na “adolescência a personalidade social ainda não está cristalizada, os papéis ainda não se tornaram máscaras endurecidas sobre os rostos, o adolescente está à procura de si mesmo e à procura da condição adulta. (...) nessa busca, tudo é intensificado: o ceticismo e os fervores”. (MORIN, 1997:154). O adolescente experimenta tudo de modo mais intenso e segue sua própria Moda, seu próprio modo de vida, suas gírias e suas manias pessoais. Nesse caso específico, vamos reduzir o recorte total da adolescência para os membros das classes A e B prioritariamente, que cursam o ensino médio e cursinhos pré-vestibulares e são moradores dos grandes centros urbanos brasileiros. Durante a realização deste estudo, os jovens desta coorte nasceram em média no final dos anos 80 e início dos anos 90. Ainda dentro desse universo composto por estudantes da classe A e B é possível encontrar algumas particularizações ou perfis específicos. Para este estudo utilizaremos prioritariamente dois perfis - ou agrupamentos - que reúnem jovens com idéias comuns, criados pelo Dossiê Universo Jovem da MTV, publicado em 2005. 54 O primeiro perfil caracteriza os adolescentes chamados pela pesquisa de “antenas do tempo”, (Dossiê MTV3, 2005:52) assinalando 19% da amostra total. Dentre todos os entrevistados estes são os mais modernos, antenados, liberais & liberados a novas experiências, que valorizam ser jovem em tempo de tecnologia, acreditam na superioridade de marcas famosas, são os mais atraídos pelo universo cyber: os que mais possuem computador, celular, câmera fotográfica digital, discman, MP3 player, que mais acessam a internet e que mais conhecem e interagem com seu universo: blogs, fotologs e Instant Messenger. São também os que melhor aceitam o homossexualismo, os que mais beijaram pessoas do mesmo sexo ou que conheceram no mesmo dia e se destacam em cuidados com a própria beleza. Nesse perfil concentra-se a grande parte dos adolescentes de 15 a 17 anos da pesquisa e por isso são considerados destaque para a análise aqui proposta. O segundo perfil, chamado de “vivendo intensamente” caracteriza 22% da amostra total e são ainda mais vaidosos, mais ambiciosos e querem mais diversão que o primeiro perfil citado. Gostam de aproveitar ao máximo a juventude e adiam ao máximo as responsabilidades. Abertos ao consumo, valorizam a Moda e o acúmulo de bens. A TV é seu maior lazer em casa. A partir destes dois perfis, que correspondem aproximadamente a 41% da amostra total da pesquisa da MTV serão delineadas as informações aqui apresentadas e a aplicação metodológica da experiência colateral na eficácia comunicativa da marca. Antes de nos atermos aos dados coletados deste recorte escolhido para o estudo, é importante traçar um panorama geral de como se constituiu a fase da juventude e da adolescência a partir da segunda metade do século XX até os dias atuais. Sanchis (1996) admite que historicamente sempre existiu um momento de transição de uma fase da vida para outra, porém o que diferencia a sociedade moderna no entendimento da juventude como uma das fases da vida, é o tratamento dado a esta condição. Vianna (1997) cita que a cultura adolescente, como a conhecemos hoje, emergiu no seio da cultura de massa, a partir de 1950. De fato, é 55 aproximadamente depois do final da Segunda Guerra mundial que a juventude começa a se converter em objeto de reflexão e o cinema apresenta seus primeiros filmes retratando de maneira mais aprofundada o universo jovem, sempre no sentido Moral Panics, ou seja, representando a juventude como uma fase complicada e uma situação de perigo para a sociedade. Um dos precursores é o filme de 1949 entitulado “Almas Abandonadas” (City Across the River), estrelado por Tony Curtis e que conta a história de um grupo de delinqüentes juvenis de uma escola de ensino médio do Brooklyn. Apesar de “Almas Abandonadas” ter sido lançado ainda nos anos 40, a maior lembrança que guardamos do debùt da juventude como tema cinematográfico é com “Rebel without a cause” ou “Juventude Transviada” de 1955 e que tem no casting James Dean e Natalie Wood. Segue juntamente com o lançamento de “Rebel without a cause”, a febre Elvis Presley e a explosão dos Beatles, que consolidam o reconhecimento de uma nova forma de viver a juventude, ao som do rock’n roll, no ritmo dos bailes de formatura, no estímulo do consumo e, tendo como principal lazer, as sessões de cinema recheadas de pipoca e banhadas por Coca-Cola. Somente a partir dos anos 50 cristaliza-se uma cultura juvenil, no momento em que os meios de comunicação de massa apontam em direção ao jovem, que pode se caracterizar como um certo perigo para a sociedade, mas que por outro lado é um forte consumidor em potencial. Logo após a percepção deste grupo particular que se estabelecia na sociedade iniciou-se, em especial nos Estados Unidos, a distinção dos agrupamentos de pessoas nascidas em determinados períodos da História como sendo participantes de gerações específicas. A distinção das gerações não é exata e a definição do intervalo de anos que comporta cada uma difere de autor para autor. Consideraremos aqui os dados mais utilizados, com a intenção de delinear a juventude num processo cronológico2. 2 Após uma pesquisa ampla a respeito do tema com a consulta de vários artigos, livros e sites chegou-se a determinação de três principais gerações: Baby Boomer, Geração X e Geração Y, porém é importante ressaltar que, por comportarem espaços temporais muito longos, cada geração apresentada possui particularidades que superam a definição cronológica. Considerar outras subdivisões é possível, porém em prol da objetividade e para evitar reduções desnecessárias, seguiremos apenas estas gerações-macro, que em linhas gerais resumem o 56 3.1.2 Três gerações distintas A primeira geração estabelecida como fonte de estudo emergiu a partir do retorno dos soldados da Segunda Guerra. Com o crescimento populacional, surgiu a geração “Baby Boomer”, ou seja, a geração dos nascidos no pós-guerra. Karen Ritchie (1995:12) afirma que os baby boomers são as pessoas nascidas entre 1946 e 1964. A época juvenil desta coorte, entre os anos 60 e 70, foi marcada pela crise dos valores morais, por guerras e guerrilhas sangrentas, ditaduras militares e crises educacionais que levou-os à revolta. Um dos primeiros sinais desta juventude contestadora foi percebido nos Beatniks, jovens americanos, liderados por Jack Kerouak, que ainda em meados dos anos 50 começaram a desconfiar do “sonho americano” e criaram uma espécie de movimento poético/literário para contestar a ordem estabelecida. O nome Beatnik, segundo Paulo Sérgio do Carmo (2003:29) foi cunhado pela imprensa americana, advindo da fusão das palavras beat (barulho/batida) e nik (a terminação nik vem de Sputnik, o primeiro satélite russo, mostrando assim que estes jovens eram simpatizantes das idéias esquerdistas e comunistas). Desiludidos e com um certo vazio existencial os Beatniks rejeitavam os valores burgueses, viajavam sem rumo pelas estradas americanas e estavam completamente insatisfeitos com o sistema. Todos estes ingredientes foram elementos essenciais para o surgimento da chamada Contra-Cultura realizada pelos Baby Boomers nas décadas seguintes. Nos anos 60, das mais variadas formas, a juventude procurou romper com tudo: com a universidade, com os partidos, com a família e com toda e qualquer tradição. O pensamento vigente era anticonformista e contestador, as diferenças entre jovens e adultos eram nítidas, a intenção era libertar-se dos padrões estabelecidos e formar uma nova ordem social, uma nova configuração cultural. comportamento vivenciado em cada época. Estas divisões temporais têm apenas a função de situar o estudo dentro de uma realidade histórica, mas não devem ser levadas como regra de conduta de todos os atores sociais de cada geração. Para buscar uma definição mais apurada e qualificada do grupo adolescente/jovem atual faz-se necessária a atenção ao tópico 3.2 deste capítulo, que exprime dados de pesquisas oficiais. 57 O meio que estes jovens encontraram para a revolução foi a invasão das ruas, em protestos e passeatas. Na França o “Maio de 1968” e a série de eventos iniciados pela greve de estudantes universitários, em especial da Universidade de Sorbonne foi um dos grandes marcos da Contra-Cultura. Embora encontremos na maioria dos autores um aspecto heróico desta revolta e de tantas outras revoltas deste período é interessante citar um contraponto à opinião romântica dominante. Gilles Lipovetsky, em uma visão cética, considera a Revolução Estudantil Francesa de 68 como produto efêmero e sem real aspecto revolucionário. Em suas palavras: “Sem projeto explícito, e sustentado por uma ideologia espontaneísta, Maio de 68 não foi senão um parêntese de curta duração, uma revolução frívola, uma paixonite pela Revolução mais do que uma mobilização de fundo. Houve espetáculo da Revolução, afirmação alegre dos signos da Revolução, não aposta e confronto revolucionário. Diferentemente das revoluções sangrentas centradas na construção voluntária de um futuro diverso. Maio de 68 organizou-se segundo o eixo temporal da moda, o presente, num happening mais parecido com uma festa do que com os dias que abalam o mundo. (...) Maio de 68 foi levado por uma ideologia individualista “libertária”, hedonista e comunicacional, nos antípodas da abnegação de si das revoluções anteriores. O presente coletivo e subjetivo é que foi o pólo temporal dominante de Maio de 68, primeira revolução-moda em que o frívolo prevaleceu sobre o trágico, em que o histórico se uniu ao lúdico”. (1999:245) Embora a opinião de Gilles Lipovetsky contradiga tantas opiniões a respeito de Maio de 68, é notório que as cenas hippie e da contra-cultura tiveram também muita eficácia para as organizações comerciais e para o apelo do marketing. Os resultados efetivos de uma revolução sociológica, com a transformação real do mundo em que vivemos foram algumas vezes eclipsados 58 pelo apelo ao consumo. Enquanto os jovens contestavam a sociedade, a sociedade de consumo fazia produtos para a contestação. Na percepção de tantas expressões juvenis e enxergando as particularidades de cada manifestação, um grupo de teóricos ingleses iniciou entre os anos 60 e 70 alguns estudos pioneiros sobre a juventude, focalizando especificamente a realidade da Inglaterra. Baseados em Birmingham, o Centre for Contemporary Cultural Studies, comumente chamado de CCCS começou a orientar suas reflexões aos itens de consumo dos jovens, sua música, suas roupas e tantos outros signos juvenis que caracterizavam, segundo os autores do CCCS, as subculturas juvenis. Alguns exemplos das subculturas juvenis encontradas pelos estudos de Birmingham foram os Rockers, Mods, Punks, entre outros. Um dos livros de maior repercussão lançado pelo CCCS é “Subculture: The Meaning of Style”, de Dick Hebdige (1979). No livro, Hebdige retrata algumas subculturas como os Rastafaris, Punks, Teddy Boys, Glam, entre outros. Andrew Bennett (2000) critica o recorte analítico do CCCS e mais especificamente de Hebdige por considerar que os estudos excluem da análise questões importantes, focalizando principalmente a questão de classe social, em especial o proletariado. A partir dos anos 90, o termo Subculturas Juvenis criado pelo CCCS foi substituído na maioria dos estudos pelo termo Estilo de Vida, principalmente porque o novo termo possui uma propriedade mais identificada com os jovens e sua sensibilidade, que é de constante mutação. Seguindo o curso das gerações, uma segunda coorte juvenil surgiu com as pessoas nascidas no período entre 1965 e 1981, nomeada pelo escritor Douglas Coupland (1991) como Geração X ou Generation X. As crianças desta geração cresceram em lares onde ambos os pais trabalhavam e a televisão passou a ser sua maior fonte de entretenimento tornando-se sua grande companheira. Confinados em seus quartos - ao invés de aproveitarem a liberdade dos parques e praças - tiveram como brinquedo principal o vídeo game, iniciando um movimento de introspecção em direção oposta da geração 59 precedente, que desejava ganhar as ruas. A crença que o futuro seria melhor e mesmo que a revolução seria um bom caminho esvaiu-se em torno da violência, das angústias e da percepção de que tudo continua como sempre, sem grandes transformações sociais. Uma das poucas formas de contestação desta geração foi encontrada na música, em especial com o advento do Hip Hop e do Rap, uma das mais significantes formas de expressão “X”. O Hip Hop foi um meio encontrado pelos Afro-Americanos nos anos 80 que ganhou repercussão mundial. No Brasil, o movimento ganhou força especial na periferia, nas vozes discordantes que clamavam por justiça e igualdade social. Ainda na música, com um certo pessimismo em relação à vida, outros jovens desta geração aderiram ao Movimento Grunge do início dos anos 90, que expressava as frustrações e a crise juvenil em tom melancólico. Acostumados com a rapidez dos comerciais televisivos e com a profusão de imagens dos clips musicais (uma febre desta geração), a geração X exigia no dia a dia mensagens rápidas, picotadas e simultâneas. A informática já era uma realidade, porém no período da adolescência esta coorte não conviveu com o frenesi da internet, que se popularizou no final do século XX e início do século XXI. A terceira geração é denominada como Geração Y ou Generation Y, termo que apareceu pela primeira vez em um artigo do periódico Advertising Age3 de agosto de 1993. O escopo dos nascidos nesta geração é representado pelo período de 1982 até o início do século XXI (2001, 2002), porém as datas ainda são imprecisas. O termo “Y” é uma espécie de reconhecimento de sucessão da geração X para a próxima, portanto Y. Segundo o boletim NAS4, essa geração é a maior em número de pessoas desde os baby boomers nos Estados Unidos, significando também uma grande faixa de consumo e interesse publicitário. 3 4 O site do periódico pode ser visitado através do link adage.com disponível em http://www.nasrecruitment.com/TalentTips/NASinsights/GenerationY.pdf 60 Uma das principais características dessa coorte é que, mais do que qualquer geração precedente, os Y estão cercados por tecnologia em todas as partes, eles conectam-se ao mundo pelos sinais da internet e o digital faz parte de suas vidas. Maria Rita Kehl (2002) em uma matéria da revista Época ressalta que “vivemos dentro de casa com nossas engenhocas eletrônicas.” No momento de decidirem qual profissão seguir, optam com mais freqüência pelas novas carreiras ligadas à informática, ao meio digital ou mesmo à beleza e à aparência, como é o caso da Moda5. A significância das novas mídias e das novas tecnologias emergentes - da internet ao celular, passando pelos MP3 players e tantos outros gadgets - é imperativa, o capital cultural é desenvolvido nesses meios e as formas comunicacionais são totalmente diferentes se comparadas com as gerações anteriores. O que rege é a experiência on-line, fluída, hipermídia, sem raízes. A informação não cessa, a todo momento surge um novo lançamento, uma notícia quente do planeta pop, um vídeo imperdível no Youtube, um novo amigo virtual e assim por diante. O acúmulo de informações grande parte das vezes é um excesso de distração à disposição dos jovens, em especial adolescentes. Recentemente, segundo o portal de informações da MSNBC6, a Academia da Força Aérea Americana teve que intervir no processo de estudos de seus cadetes (que geralmente estão na faixa de 17 a 21 anos) por motivos relacionados a mau uso da internet e conseqüente queda drástica no rendimento escolar. No último semestre 19% dos estudantes tiveram baixo rendimento escolar, trazendo para a escola a menor aprovação de toda sua história. Para tentar amenizar os problemas, 43 alunos foram proibidos de usar a internet e outras medidas foram tomadas. Muitos psicólogos e psicanalistas enxergam principalmente nessa juventude uma característica clara: a ausência de limites e fronteiras. Jorge Forbes, psicanalista de base Lacaniana, escreve artigos sobre o tema e 5 No capítulo 5 apresentamos dados da Revista Capricho sobre a preferência pelos cursos universitários de Moda pelas garotas desta geração. 6 Link: http://www.msnbc.msn.com:80/id/17037305/ . Acessado em 10/02/07 61 encabeça algumas discussões a respeito. Em agosto de 2004, na conferência internacional do Luxo promovida pela FAAP, Forbes acenou que a coorte atual de jovens "é fruto de uma sociedade onde os limites foram destruídos. Antes a juventude tinha barreiras a lutar, que foram destruídas."7 Além da falta de limites e fronteiras, os “Y” vivem em dois mundos: o real e o paralelo - neste caso virtual. Temos a impressão que eles estão relativamente distantes da realidade, enfurnados no som de seus i-Pods e resguardados em seus quartos, para conversarem pelo MSN e espalharem para seus amigos as fotos mais produzidas, com seus rostos e corpos em zooms diferenciados e imagens surpreendentes, trabalhadas pelo Photoshop. Estas fotos por eles compartilhadas mostram algo a mais em relação à verdadeira aparência, numa espécie de mundo de faz-de-conta. Do outro lado do cabo, fora do universo virtual, o desemprego é uma possibilidade nada remota, os vestibulares são cada vez mais concorridos, a liberdade é cerceada pelo perigo das ruas e a atenção da família e amigos é superficial. Diferenciar-se ou se tornar uma pessoa destacada dos demais é uma tarefa difícil, por isso eles decidem manter uma imagem ideal no ciberespaço, num erotismo pseudo-cool característico desta geração, tanto nas imagens como nas frases e mensagens enviadas por scraps e MSN. O que se constata, na observação comportamental desta geração, é que virtualmente seu estilo de vida parece descolado e com certa facilidade em comunicar-se sobre assuntos pessoais, porém nos encontros reais, a verdadeira identidade apresenta-se mais tímida, insegura e até mesmo com uma outra aparência física.8 Além desses fatores, os adolescentes estão inseridos em um mundo em que a individualidade e a satisfação dos desejos pessoais estão na ordem do 7 matéria em: http://www.gestaodoluxo.com.br/comportamento/comportamento_materia_01.htm acessado em 12/06/06. Escrita por Andrea Ciaffone 8 As percepções contidas neste parágrafo e nos parágrafos precedentes são fruto de observação participativa realizada durante 5 anos (2001-2006) em um trabalho voluntário com aproximadamente 120 adolescentes da cidade de São José dos Campos - SP. Na reunião destas experiências de campo foi possível extrair as inferências citadas. Alguns dados que serão apresentados no desenvolvimento do capítulo corroboram para as informações aqui transmitidas. A escassez de análises aprofundadas sobre o relacionamento da Geração Y com o mundo virtual exige inferências a partir de observação participativa. 62 dia. Nízia Villaça demonstra esta particularidade social do início de século citando frases de uma revista de tendências de jóias. Nas palavras da revista: "Fica cada vez mais claro, e sem culpas, compreender, principalmente depois do fim das utopias dos projetos sociais de bem estar coletivo, a existência dos sonhos e dos desejos dos indivíduos. Desejos que possuem significados específicos para cada um de nós, indivíduos pós-modernos, curtindo a solidão com que construímos nossos projetos pessoais. (...) O que me interessa já não é a felicidade de todos os homens, é a felicidade de cada um" (SIQUEIRA, MACHADO, VIAN, in: VILLAÇA, 2003:4). Na união destes ingredientes é dificílimo pensar as juventudes separandoas das mídias e do consumo. Martin Barbero (1999) discorre sobre o jovem do século XXI como sendo um ator de ritmo acelerado que convive nos não-lugares midiáticos, habitante de uma nova territorialização espacial. Penetrar nesse território desterritorializado e nesses lugares não-lugares para tentar encontrar pistas do relacionamento dos adolescentes com o mundo, torna-se um desafio instigante. 3.2 Dados atuais sobre adolescentes e jovens Atualmente o jovem brasileiro, segundo Lassauce (2004:74), corresponde a cerca de 20,13% da população do país sendo aproximadamente 17,77 milhões de jovens de 15 a 19 anos, onde 80% são moradores da área urbana. Rodriguéz (2005:120) afirma que em 2003 o Brasil foi considerado o 5º país no mundo com maior representação percentual de jovens e de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 1940 ao ano 2000, o número de jovens de 15 a 24 anos saltou de 8,2 milhões para 34 milhões. Os jovens desta era convivem em um país marcado por contradições, com má distribuição de renda e ainda com muita desigualdade social (DE OLIVEIRA, SILVA e RODRIGUES, 2006:65) 63 Os dados analisados na pesquisa realizada no Brasil pela Unesco em 2004, entitulada “Juventudes Brasileiras” (ABRAMOVAY e CASTRO: 2006), demonstram que o recorte de 14-18 anos, classe A e B, na faixa do ensino médio e vestibular, moradores de regiões urbanas possui maior acesso aos meios de comunicação e às novas tecnologias, sendo automaticamente mais “bombardeados” com as mensagens ali inscritas, além de saírem mais para compras, consumo e diversão em shoppings. 3.2.1 Família No ambiente familiar esses adolescentes encontram uma situação completamente nova: a maioria dos pais da atualidade tem atitudes e práticas semelhantes aos filhos, o que para o próprio jovem pode soar estranho. De acordo com o Dossiê MTV3 (2005:22), 55% da amostra concorda total ou parcialmente que não é bom que os pais assumam comportamentos e atitudes iguais aos filhos, como freqüentar a mesma balada, mesmos shows ou usar os mesmos tipos de roupas. Nas palavras de uma das entrevistadas: “Minha mãe tem 40 e alguma coisa, mas ela não fala que tem 40 e alguma coisa e ela vai até para a noite, ela me conta dos namoradinhos dela, parece que ela é minha amiga, e, às vezes, eu fico meio assim, não gosto”. (entrevistada sexo feminino, 15 anos, classe B, Rio de Janeiro. Dossiê MTV3 2005:23). Para Edgar Morin (1997:153), hoje existem pais mais maternais. De fato a imagem passada na família é de pais e mães que são “companheiros afetuosos“, quase iguais aos filhos. Nesse cenário os adolescentes têm que lutar menos com a família para tornarem-se adultos, mas ao mesmo tempo têm maior dificuldade em identificarem-se com seus progenitores. 3.2.2 Vida Social No dia a dia do adolescente, especialmente no caso brasileiro, o apoio dos amigos ou o pertencimento a grupos é muito importante. A sociabilidade é um fator forte e o espaço principal para se fazer amigos é o bairro/vizinhança 64 (47%), seguido pela escola (40%), o que aponta a importância do pedaço para a convivência. (ABRAMO, 2004:64,208). A sociabilidade não é somente feita entre os grupos escolares e vizinhança, mas também através dos recursos crescentes de comunicação à disposição, como mensagens instantâneas, telefones celulares e mensagens em forma de texto. O contato dos adolescentes cresceu de maneira exponencial a partir das novas tecnologias e aumentou a importância das amizades no dia a dia. Segundo dados apresentados por Mc Dougal e Chantrey em 2004, dentre os entrevistados brasileiros, 89% consideram importante o pertencimento em grupo, sendo que na China os números apontam 81%, e a menor porcentagem ficou para a Alemanha, com 71%. A questão comunitária é relevante e os altos índices desta pesquisa mostram o adolescente brasileiro pronto para entrar em uma “turma”. O conceito de belonging e de adesão de Bauman (2001) é evidente em nossas juventudes, onde os membros têm uma história coletiva de construção da identidade. 3.2.3 Lazer Fator de primeira ordem para o adolescente, o lazer vem dividindo espaço com instituições sociais clássicas como família e escola no processo de formação das identidades (ABRAMOVAY e CASTRO 2006:533). Para Bremer, Dayrell e Carrano (2004:176) o lazer é o tempo sociológico no qual a liberdade de escolha é um elemento preponderante e se constitui nessa fase como campo potencial de construção do “eu”. As atividades de lazer e entretenimento ocupam parte considerável do tempo livre dos jovens. Inquiridos sobre o que mais fazem nos finais de semana, as respostas revelam a importância que conferem à diversão. 78% faz atividades fora de casa e destes, 45% se dedica a atividades de lazer e entretenimento. Apenas 4% dos jovens ocupa seu tempo livre com alguma atividade cultural, aparecendo a leitura e o cinema com 1%. 65 Na faixa de renda acima de dez salários mínimos, encontra-se a maior incidência de jovens que revelaram interesse em ampliar a realização de atividades de lazer e entretenimento (51%) enquanto na faixa de renda familiar de até cinco salários mínimos, este número fique em torno de 40%. (ABRAMO, 2004:54, 156, 186) 3.2.4 Preocupações juvenis Não é só de lazer que vive o adolescente brasileiro, ele também tem preocupações em relação à vida e entende que possui direitos que não podem ser violados. Questionados sobre os direitos mais importantes, 50% aponta os direitos individuais como imprescindíveis, sendo que o mais citado é a liberdade, com 25%, seguido da igualdade com 14%. Os direitos políticos foram citados por apenas 5%. (ABRAMO, 2004:68). Em outra pesquisa foi inquirido, em grupos de discussão criados em diversas capitais brasileiras, a respeito das preocupações que afligem a juventude. Os resultados foram os seguintes: 66 Tabela 1: Preocupação dos jovens por região In: Relatório Global Juventude Brasileira e Democracia: participação, esferas e políticas públicas, 2006:18. É visível na tabela acima que as questões relacionadas à violência, segurança e criminalidade são a tônica das apreensões juvenis. Eles possuem consciência dos riscos a que se encontram expostos, onde a liberdade é ameaçada pela violência das ruas. Mesmo no mundo virtual, eles estão expostos à violência e invasão de privacidade, como visto em vários casos de fraudes no Orkut ou mesmo na quantidade de vírus ocorridas no meio digital. 67 Se a violência e o futuro pessoal preocupa os jovens, isso não acontece na mesma proporção nos assuntos relacionados às drogas e à sexualidade. Aqui nos ateremos especialmente à questão da sexualidade que interfere direta ou indiretamente na aparência e está ligada à Moda. 3.2.5 Sexualidade Nessa coorte, os relacionamentos são cada vez mais feéricos e descartáveis, poderíamos até chamá-los de turma “Mc Relacionamento”. Em uma noite podem beijar e se relacionar com diversas pessoas, constando entre eles até mesmo disputas e apostas para verificar quem mais beijou pessoas diferentes numa mesma noite. Na amostra do Dossiê MTV3, 76% dos entrevistados já beijaram na boca uma pessoa que conheceram no mesmo dia e 53% já ficou com mais de uma pessoa na mesma noite. 11% da amostra afirmam já ter beijado na boca uma pessoa do mesmo sexo. “Eu acho que é um reflexo da sociedade, você já tem tanta pressão que às vezes a pessoa não quer assumir mais um compromisso. Eu acho que também banalizou muito, está tudo muito bagunçado. Eu acho que a questão do ficar, você acaba usando a pessoa como um objeto para satisfazer seu desejo naquele momento, mas você não quer nem saber da pessoa, você não tem contato maior com a pessoa. É até um isolamento disfarçado, porque você tem o contato, mas não se envolve. Isso deixa as pessoas mais egoístas, mais fechadas em si.” (entrevistada sexo feminino, 20 anos, classe B, Brasília. Dossiê MTV3 2005:46). Para alcançar maior êxito no número de “ficantes” em uma noite, a aparência é um trunfo de primeira ordem. Roupas, maquiagem, acessórios ou mesmo um comportamento corporal insinuante tendem geralmente a melhores resultados. A Moda como estímulo sexual trabalha constantemente nestes casos, é uma forte aliada em prol da sexualidade emergente. 68 Tabela 2: Palavras escolhidas pelos jovens para definir a geração In: Dossiê Universo Jovem MTV3, 2005:14 Na opinião dos próprios entrevistados, sua geração pode ser definida principalmente pelo trinômio Vaidosa/Consumista/Individualista, características que permitem espaço privilegiado para a Moda. De acordo com o France Presse de Washington9, em publicação do portal Folha On Line de janeiro de 2007, pelo menos 81% dos jovens pertencentes à Geração Y desejam ficar ricos e 51% ter fama, enquanto na Geração X o desejo de ser famoso só atingia 29% dos pesquisados, ficando atrás da vontade de ajudar as pessoas, com 36%. 9 Matéria publicada em 11/01/2007. Link: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u67480.shtml 70 A riqueza almejada pelos membros dessa coorte permite o consumo e a satisfação dos desejos e sonhos individuais, enquanto a fama está relacionada à vaidade e à aparência pessoal. Os Y gostam de se expor visualmente e para isso precisam consumir objetos-fetiche que os tornem diferenciados, para eles a Moda é essencial. Dados de pesquisas, feitas pelo Instituto Ipsos-Marplan, apontam que cerca de 40% do público jovem tem o hábito de fazer compras em shopping, onde se concentram a maioria das lojas de marcas famosas. Segundo o instituto Gismarket, os jovens de 16 a 19 anos freqüentam os centros de compra pelo menos duas vezes por semana, gastando em média R$ 45 por saída. Dados da Abravest (Associação Brasileira de Vestuário) demonstram que os adolescentes são responsáveis por 24% do consumo do setor de vestimentas, atrás apenas das mulheres, com 58%. O relacionamento do adolescente com a Moda e com a aparência em geral sempre foi notório, por se tratar de uma fase de auto-afirmação e busca de identidade. Nas palavras de Gilles Lipovetsky: “O impulso de uma cultura jovem no decorrer dos anos 1950 e 1960 acelerou a difusão dos valores hedonistas, contribuiu para dar uma nova fisionomia à reivindicação individualista. Instalou-se uma cultura que exibe o não-conformismo, que exalta valores de expressão individual, de descontração, de humor e de espontaneidade livre”. (LIPOVETSKY, 1999:120). Atualmente esses valores de expressão pessoal vão além da notoriedade. Enxerga-se uma estima imperativa pela Moda e aparência, conseqüentemente há a probabilidade do aumento de importância das marcas do segmento. 3.3 O adolescente e seu relacionamento com as marcas de Moda 3.3.1 O corpo adolescente Enquanto processo biológico e social (D’ÁVILA, 2005:1), a juventude encontra na roupa um elemento de valorização, ou mesmo de disfarce, para seu 71 corpo em transformação, bem como uma carteira de identidade que facilita a aceitação nos grupos juvenis. Especificamente o corpo é o território que visivelmente marca a iniciação da adolescência, com a mudança de formas e com a miríade de transformações hormonais que inauguram este período da vida. Nas palavras de Nadja Gomes, para o adolescente “o corpo é a mensagem” (2003:3). Esse corpo-mensagem, de uma hora para outra, já não é mais reconhecido como há pouco tempo atrás, tudo está diferente, nas garotas crescem os seios, afina-se a cintura, precisa-se lidar com a menstruação e tantas outras responsabilidades. Do lado dos garotos surge a barba, a mudança estranha da voz, as espinhas, os pés passam a calçar números acima do 40, a altura passa rapidamente de 1,50 a 1,70 e assim por diante. Maria Rita Kehl (2004:94), ao discorrer sobre o corpo adolescente, cita Jean-Jacques Rassial (1999), que reforça o fato do adolescente se encontrar, de uma hora para outra, excedido pelo seu corpo, sem base de apoio para constituir uma atitude, com postura e personalidade que, ao mesmo tempo, acompanhem seu crescimento físico. Além das tantas mutações corporais e a dificuldade de lidar com a nova imagem, o reconhecimento da sexualidade torna-se mais evidente e epidérmico. Em um contexto banhado pela descoberta sexual a roupa tem um papel decisivo. Para Nízia Villaça (2002:99) surge, a partir dos adolescentes, uma espécie de “moda prótese”, onde a Moda atua como extensão do corpo, afim de trazer uma maior expressividade corporal, para também muitas vezes criar maior evidência sexual. Questões como sexualidade, segurança e identificação estão presentes na dimensão vestimentária, onde os adolescentes se sentem emocionalmente “rejeitados e impopulares se não estão com a roupa certa” (KLEIN, 2004:377). Para assegurarem que estão vestidos em conformidade com o que é mais cool, causando boa impressão, os adolescentes gastam muito com roupas e necessariamente com Moda. Esses indivíduos, segundo Kehl (2004), tentam se valer de objetos fetiche, como sutiãs, blusas agarradas ou tênis de tamanho 72 maior ou menor que os próprios pés, sustentando como apêndice do corpo o crescimento que eles reivindicam. A Moda torna-se a máscara do adolescente, com objetos transacionais que ajudam-no a reinscrever seu próprio corpo. 3.3.2 Moda na visão juvenil Os guarda-roupas dos adolescentes possuem pilhas e pilhas de roupas para cada ocasião, que com grande rapidez são encostadas, por não condizerem mais com a atitude pretendida. De acordo com Maffesoli (apud CIDREIRA, 2005:129), o fato dos adolescentes latinos desejarem intensamente o “estar-junto” faz com que eles abandonem certos objetos-signos, ou mesmo troquem seus star-signos com grande rapidez, para poderem se encaixar na nova ordem do grupo. Pela mudança constante dos signos do vestuário adolescente, decodificar exatamente a linguagem das roupas juvenis é muito difícil. Seus membros transitam por diversos estilos ao mesmo tempo, cada hora adotam um determinado padrão de estética. Para eles, Moda é contágio instantâneo e abandono feérico. No intuito de construir um estilo de vestir, espelham-se não só na Moda tradicionalmente regida por tendências, na verdade chegam a evitar este tipo de adoção rígida de Moda, procurando reproduzir imagens e atitudes encontradas em territórios de expressão transversais, como a música, a cultura urbana das ruas, o underground e os esportes radicais. Seu modo de vestir muitas vezes é imprevisível e flexível, misturam materiais, desejam o choque e buscam a desconstrução do padrão estético. Usam roupas do avesso, lingeries à mostra e criam formas de vestir inimagináveis. “Hoje a moda é como um caleidoscópio no qual os looks dos jovens, impossíveis de classificar, se sucedem a um ritmo alucinante, trazendo um sentimento de vertigem e irrealidade”. (VINCENT-RICARD, 1996:155) 73 3.3.3 Marcas de Moda Jovem Para a faixa etária dos 14 aos 18 anos, enquanto a maneira de vestir é mutante, a importância das marcas é perene, principalmente quando as mesmas mantêm um padrão estético moderno e condizente com o estilo de vida almejado. Num momento de oscilações emocionais, os adolescentes encontram nas marcas de Moda alguma segurança, um porto seguro para sua autoafirmação. Em uma pesquisa realizada pelos alunos do Senac São José dos Campos em dezembro de 200510, com amostra de aproximadamente 200 jovens estudantes do Ensino Médio da região, foi constatado que entre os adolescentes, o estilo de roupa mais almejado é relacionado às atividades esportivas como Surf e Skate, bem como as roupas que referenciam o mundo urbano, street e da música, como é o caso do gosto pelo Emocore. Para cada um dos estilos citados, foram catalogadas marcas de Moda fortes, que exprimem atitude e, por este motivo, permanecem no imaginário dos adolescentes como um ideal de Moda. “As marcas realmente fortes tornam-se uma parte significativa da vida do cliente e do conceito que ele tem de si mesmo.” (AAKER, 1998:277) Ao serem questionados sobre as melhores marcas de Moda, os entrevistados tinham na ponta da língua suas preferências, bem como o motivo por desejarem vestir determinadas marcas, ligadas a um estilo de vida específico. Cynthia Andersen Sarti (2004:124) comenta que, nas sociedades tribais ou tradicionais, os ritos de passagem cumpriam a função de marcar o corpo por meio de cicatrizes, fazendo destes rituais verdadeiras provas de coragem e força, habilitando o proponente a ingressar legitimamente no mundo. O que vemos na sociedade contemporânea, em especial na urbana e metropolitana, Pesquisa realizada como exigência parcial de conclusão da matéria “Marketing de Moda” do curso Moda e Estilo do ano de 2005. 10 74 são novas cicatrizes que marcam o ingresso no mundo, não mais sacrificiais como nas sociedades tribais, porém ainda emblemáticas: as marcas de Moda, que de uma nova forma marcam e demarcam os corpos, distinguem e definem muitas atitudes adolescentes. Para Heilbrunn (2004:25), a marca funciona como fetiche sacralizado, “o suporte de um movimento de projeções e introjeções permanentes, de emoções e representações”. Naomi Klein comenta que vivemos em um mundo cercado por “gente de grife, em uma época que as pessoas são marcas e as marcas são cultura” (2004:83). Vemos, tanto na esfera pública quanto na vida privada, o crescente apego às questões identitárias das marcas e seu grande valor de reconhecimento. No caso específico dos Y, esse reconhecimento é ainda mais evidente. Conforme Holland (1998:11) essa geração é mais preocupada com o futuro, por este ser cada vez mais incerto, e tem a necessidade de pertencimento para sentir-se mais segura. Para a autora, a obrigação de fazer parte, numa busca incessante pelo “belonging,” torna estes adolescentes verdadeiros outdoors animados das marcas. No contexto da Moda Jovem, existe uma miríade de possibilidades de marcas, mais ou menos conceituadas, que lutam no mercado para atingir os corações de consumidores fervorosos, que enxergam no consumo um caminho para a aceitação. Para alcançar o êxito, capturando o espírito de individualidade e modernidade, muitas marcas contratam consultores jovens que podem expressar e entender o que se passa no universo adolescente. Estes consultores são profissionais que entendem o frisson da faixa etária e fazem com que as marcas acertem em suas investidas de marketing. Mark Tungate (2005:87), explana sobre uma dessas profissionais: a jovem Claudine Ben-Zenou. O trabalho desta garota, na casa dos 20 anos, é transmitir para as grandes marcas e especialmente para a MTV tudo o que acontece no mundo underground, quais os melhores artistas, tendências, lançamentos, entre outras percepções relevantes. Com o auxílio de sua consultoria, muitas marcas alcançam êxito em ações direcionadas para seus públicos. 75 Trabalhar com Moda Jovem não é uma tarefa simples, segundo Keith Niedermeier11, o mercado de Moda para adolescentes “é incrivelmente lucrativo, mas exige muita fibra. Não há setor de marketing cujas pesquisas tenham vida mais curta do que esse.” Para alcançar notoriedade, uma marca de Moda Jovem precisa de muita afinidade entre os departamentos de marketing e criação/desenvolvimento de coleção, sendo praticamente impossível dissociar o trabalho destes grupos profissionais, principalmente por ser um segmento onde a forma das roupas costuma, 76 Capítulo 4 A Teoria Peirceana aplicada à Moda Comercial 4.1 Por que aplicar a Teoria Peirceana num estudo de Moda? Muitas são as maneiras de ler um determinado fenômeno de forma científica. Podemos escolher, dentre os diversos enfoques, aquele que trará contribuições pertinentes ao Objeto de Pesquisa, chegando a resultados ou mesmo a novas indagações sobre o tema. No caminho em busca do enfoque mais adequado para a leitura da Moda, em especial no que tange à marca de Moda, a Semiótica Peirceana mostrou-se um método de grande contribuição, por ter sido arquitetada a partir de uma ciência formal, ou um “organon” e constituída com a densidade teórica exigida pelas ciências formais. A semiótica Peirceana é parte de um sistema filosófico, cientificamente concebido que a habilita a funcionar como um método heurístico capaz de dar conta da sofisticação da análise da Moda e suas relações com a marca. A base fundamental do pensamento Peirceano está na fenomenologia de concepção não racionalista, também chamada de Faneroscopia, que permite postular formas ou propriedades universais dos fenômenos, numa trajetória que exige atenção aos acontecimentos que surgem e neles encontrar a representação ou signo. “Todo conhecimento, desde a adivinhação mais espontânea até a certeza mais demonstrativa, está fundamentado em evidências; ele é suportado por dados, credenciais, garantias e premissas. Os dados não são em si mesmos evidências para aquilo que eles atestam; eles devem ser interpretados para ser evidências, para dar alguma credibilidade àquilo que eles suportam.” (SAVAN, 1980: 255 apud SANTAELLA, 2005:31) É na representação e na interpretabilidade dos fenômenos que a Semiótica encontra seu campo de estudo, em especial na vasta e interminável 78 ação dos signos, no seu funcionamento e na atividade interpretativa ou inferencial a partir destes mesmos signos. Para esta ação, Peirce deu o nome de Semiose. A Semiótica Peirceana constitui-se como uma ferramenta teórica que lida com o potencial comunicativo e por este motivo tem grande aplicabilidade no estudo das ciências humanas, como defende Liszka (1996). Na leitura das relações mercadológicas, a Semiótica tem um papel crucial, inclusive na Moda e nos aspectos relacionados ao consumo. Ao partirmos da premissa de que Moda é, além de outras coisas, um ato de Comunicação, os aspectos simbólicos deste universo são valiosos, bem como o processo de estabelecimento de sentidos que auxiliam no entendimento do processo de consumo de uma marca de Moda. “A semiótica com aplicações mercadológicas pode ajudar a desmontar, para entender, a cadeia de significação colocada em marcha por uma (...) determinada marca, permitindo analisar sua pertinência e seu potencial comunicativo” (RODRIGUEZ, 2001: 87) A completude da teoria Peirceana para aplicação em processos comunicacionais mostra-se ainda mais evidente quando Peirce desenvolve, no início do século XX, o conceito da Experiência Colateral nos processos de Semiose, conceito este que dá conta da familiaridade que o intérprete de um signo tem com todo o sistema de informações do contexto de inserção do signo, e, por isso mesmo, apura a eficácia de qualquer comunicação. 4.2 Teoria Geral dos Signos: Fundamento, Objeto e Interpretante Antes de estabelecermos uma visão da Semiótica na Moda, é necessário trazer ao conhecimento do leitor um breve panorama da Teoria Geral dos Signos, em especial a relação entre Fundamento, Objeto, Interpretante, e a localização da Experiência Colateral nesta relação. O intuito é apresentar, de forma breve, os pontos que Peirce postulou em sua Semiótica. O Signo é o elemento crucial de toda a Teoria Peirceana, desde o início de sua carreira, na defesa de sua tese anticartesiana, de que todo pensamento 79 se dá em signos. A partir desta concepção do pensamento e do próprio conhecimento por meio de signos, Peirce arquitetou seu sistema semiótico triádico, suportado pelos três elementos, a saber: Fundamento, Objeto e Interpretante, com relações de determinação, em um movimento constante de geração e auto-geração. De forma geral, Peirce afirma que: “O signo é um veículo que comunica à mente algo do exterior. Aquilo em cujo lugar o signo está é denominado seu objeto; aquilo que o signo transmite, seu significado (meaning); e a idéia que ele provoca, seu interpretante.” (PEIRCE, 1.339 apud SANTAELLA, 2000:28) Para explicar em linhas gerais a questão da determinação na relação triádica de uma semiose, Peirce cria a seguinte definição: “Signo é qualquer coisa que, de um lado, é assim determinada por um objeto e, de outro, assim determina uma idéia na mente de uma pessoa (interpretante) é mediatamente determinada por aquele objeto. Um signo, assim, tem uma relação triádica com seu Objeto e com seu interpretante”. (PEIRCE 8.343, apud SANTAELLA, 2000:12) A seguir, explanaremos em breves palavras os principais pontos de cada um dos elementos da semiose, com o intuito de esclarecer o papel e a importância de cada termo. 4.2.1 Fundamento (Ground) O fundamento (Ground), que nos primeiros escritos de Peirce também fora chamado de Representamen, é a propriedade que o habilita a funcionar como signo, ao apresentar, indicar ou representar alguma coisa a um possível intérprete. Essas propriedades são de três ordens: quali-signo (1.1) quando o fundamento do signo se constitui tão só e apenas de uma qualidade; sin-signo (1.2) quando o fundamento se apresenta como um existente e legi-signo (1.3) em que o fundamento é uma lei. 80 O fundamento pode se diferenciar conforme o contexto (common ground) em que o signo se apresenta, ou seja, é possível selecionar a forma como o fundamento se apresenta. Por exemplo, em um dado signo, podemos perceber apenas o seu fundamento de lei e deixar de dar atenção ao seu fundamento como quali-signo. As palavras que estão aqui inscritas, via de regra, são apreendidas como leis no sistema de leis da língua portuguesa, sem que atentemos para o quali-signo, quer dizer, o tipo gráfico, o tamanho desse tipo, sua forma etc. em que essas palavras estão inscritas. 4.2.2 Objeto Para pensar no Objeto é primordial entender que a concepção Peirceana de Objeto não necessariamente significa matéria ou “coisa”, mas um conceito mais amplo que extrai seu valor da posição lógica que ele ocupa na relação triádica, como algo que é representado pelo signo (SANTAELLA, 2005:45). O vínculo com o Objeto sempre permanece em toda semiose, porque é dele que advém a determinação do signo que gera o interpretante. Pode-se dizer que o Objeto seria a fonte da semiose. Por ser um elemento importantíssimo, Peirce teve o cuidado de apresentá-lo em dois conceitos distintos que demonstram a diferença no nível de apreensão do Objeto. Objeto Imediato No seu nível mais próximo, aquele que primeiramente aparece, o objeto é chamado de Imediato. É o objeto interno ao signo, isto é, o modo como o signo representa ou indica ou se assemelha, sugere e evoca o objeto que está fora dele. Deve haver algum tipo de correspondência do signo com aquilo que ele apresenta, designa ou representa. Essa correspondência, que liga o signo ao objeto que tem uma realidade distinta dele, é o seu objeto imediato. Esse algo fora do signo, a que o objeto imediato se reporta, é o objeto dinâmico. 81 “O Objeto imediato depende (...) da natureza do fundamento do signo, pois é o fundamento que vai determinar o modo como o signo pode se referir ou se aplicar ao objeto dinâmico que está fora dele”. (SANTAELLA, 2004:34) Objeto Dinâmico O Objeto Dinâmico é mediado pelo Objeto Imediato e, de um modo geral, pode ser caracterizado como o contexto dinâmico a que o signo se aplica. Em outras palavras, o Objeto Dinâmico é o “real”, em sua complexidade e, por isso mesmo, apresenta uma multiplicidade de informações. Para Peirce este real é amplo e praticamente inatingível em sua totalidade, por isso necessita de uma série de mediações sígnicas que um único o Signo em si não é capaz de exaurir. O fato é que, quanto mais nos aproximamos do Objeto Dinâmico, mais mediações vão sendo feitas e esta amplitude nos leva a uma regressão infinita. Peirce não sugere, em momento algum, que não podemos ter contato com a realidade ou com o Objeto Dinâmico, mas que só é alcançável, via signo, sob determinados aspectos, de forma incompleta. Chegar até uma fonte originária última é certamente impossível, pois sempre terá um ponto da cadeia que nos faltará. Uma maior proximidade só é possível por meio de “contatos” consecutivos, em cada experiência particular e diversa. No que tange aos tipos de relações que o signo pode ter com o Objeto, Peirce distingue três formas, sendo respectivamente (1) Ícone, quando o fundamento do signo é um quali-signo, em uma relação de primeiridade, portanto, (2) Índice, quando o fundamento é um existente, em uma relação de secundidade e (3) Símbolo, no caso do fundamento ser um legi-signo, em uma relação de terceiridade. 4.2.3 Interpretante O interpretante de um signo pode ser definido como o processo que leva o signo a ser interpretado por uma mente interpretadora. 82 A significação, ou o efeito pretendido do signo só se dá quando o signo encontra um intérprete. É na relação Fundamento - Interpretante que reside o significado/sentido e não na relação diádica entre Fundamento e Objeto simplesmente. A mediação do Interpretante é sequencial e possui níveis de interpretação, passando também pelos conceitos pragmáticos das categorias de primeiro, segundo e terceiro. O Interpretante, que também é uma espécie de signo, é produzido como um efeito na mente de um intérprete, efeito que só é possível porque o fundamento carrega a determinação do objeto e, por isso o representa. 83 dada ocasião e num dado estágio de consideração do signo. “Em cada mente interpretadora o signo irá produzir um efeito relativamente distinto.” (SANTAELLA, 2005: 48). São três os tipos de Interpretante Dinâmico: 1. Emocional - qualidade de sentimento provocada, o primeiro efeito produzido; 2. Energético - esforço, seja de qualquer grau - psicológico, físico ou de outra dimensão - posterior ao Emocional; 3. Lógico – pensamento, uma regra de interpretação, um hábito. A regra ou hábito no Interpretante Lógico pode ser vista nestas palavras: “é um padrão de ações que, sob certas condições apropriadas, será repetido indefinidamente no futuro [...]. As ocorrências da regra ou hábito se dão em um conjunto particular de ações dentro de um período de tempo limitado. Estes conjuntos de ações particulares são interpretantes energéticos; mas, uma vez que eles exemplificam um hábito indefinidamente repetível, eles também são réplicas de interpretantes lógicos. Note-se que, enquanto os interpretantes emocional e energético têm uma terminação finita, o interpretante lógico é sempre potencialmente repetível sem terminação.” (SAVAN 1976: 43-4 apud SANTAELLA, 2004(b):82). Interpretante Final O interpretante final (nome advindo de finalidade) é a significância, o efeito generalizado, derradeiro e último, considerando-se a possibilidade da semiose ser levada ao extremo. É a possibilidade de um signo produzir todos os interpretantes dinâmicos de modo total e completo no desenvolvimento de interpretantes. “Uma vez que isso não é possível, o interpretante final está sempre em progresso, num processo evolutivo infinito.” (SANTAELLA, 2005:49). Santaella ainda esclarece que o Interpretante Final deve ser considerado “como um limite ideal, aproximável, mas inatingível, para o qual os interpretantes 84 A característica inalcançável do interpretante final em sua totalidade é paralela à característica inalcançável do Objeto Dinâmico. Assim, é possível dizer que nunca chegaremos à realidade derradeira e muito menos vamos saber todos os significados de forma completa em qualquer semiose, por sua característica de regressão e evolução infinitas. Para sintetizar os elementos acima descritos, segue um gráfico que esquematiza a seguinte assertiva: “O Objeto dinâmico determina o Objeto Imediato, que determina o signo nele mesmo, que determina o interpretante imediato, que determina o interpretante dinâmico, que determina o interpretante final”. (SANTAELLA, 2000:96) Figura 1: Funcionamento e Determinações de uma Semiose Fonte: Figura esquemática baseada em gráfico apresentado por Lúcia Santaella no Curso “Semiótica Peirceana” PUC-SP em 07/11/2005 Na figura, além das determinações designadas pelas direções das setas, também é possível verificar com clareza a localização do Objeto Dinâmico e do Interpretante Dinâmico como estando fora do signo e que o interpretante final, além de estar fora do Signo, também é um ponto mais afastado de alcance. A limitação da ação do signo é visível, visto que o campo de referência é muito mais vasto e complexo do que um signo em si pode representar. O acesso ao Objeto Dinâmico, por parte do Interpretante Dinâmico não é completo dentro do signo em si e deve ser mediado além do Objeto Imediato, deve ter 85 informações extras que estão fora do sistema interno do signo. Neste ponto - na percepção da incompletude do signo e no entendimento da necessidade de “algo mais” para complementar o processo de uma semiose – Peirce desenvolve a teoria da Experiência Colateral. 4.3 A Experiência Colateral segundo Charles Sanders Peirce Como vimos anteriormente, o signo não pode representar a totalidade do Objeto, e uma das maneiras de se conhecer o Objeto Dinâmico é através de informações fora do signo, via contexto: a Experiência Colateral. A noção da Experiência Colateral para Peirce não veio em seus primeiros escritos sobre a Semiótica, e só apareceu no início do século XX, em especial quando Peirce cunhou o MS 318, considerado um manuscrito multifacetado, de alta complexidade e que faz parte dos escritos de sua semiótica tardia, também chamada de segunda semiótica ou later semiotics: período em que Peirce sentiu a necessidade de deixar a noção do Objeto mais fina e apurada, conforme cita Santaella (2004:23). Para exemplificar o papel da Experiência Colateral nesta fase, citamos abaixo algumas passagens escritas pelo filósofo e que são de grande valia: “Como observação colateral não quero dizer intimidade com o sistema de signos. O que assim é inferido não é colateral. Pelo contrário, constitui o pré-requisito para conseguir qualquer idéia significada pelo signo. Por observação colateral refiro-me à intimidade prévia com aquilo que o signo denota”. (PEIRCE, 1980:122, parágrafo 179) “(...) nenhum signo pode ser entendido – ou pelo menos nenhuma preposição entendida -, a não ser que o intérprete possua “familiaridade colateral” com o Objeto do Signo”. (PEIRCE, 1980:124, parágrafo 183) “O Signo só pode representar o Objeto e referir-se a ele. Não pode propiciar trato ou reconhecimento do Objeto; isso é o que 86 se pretende aqui significar por objeto de um signo, ou seja, que ele pressupõe uma familiaridade com algo de sorte a veicular alguma informação adicional concernente a esse algo.” (PEIRCE, 1972:96) “(...) se houver alguma coisa que veicule informação e, apesar disso, não tenha absolutamente relação nem faça referência a algo com o qual a pessoa a quem a informação é transmitida tenha a menor familiaridade, direta ou indireta, quando recebe a informação - informação que seria de uma espécie estranhíssima – o veículo desse tipo de informação, não será, neste contexto, denominado Signo.” (PEIRCE, 1972:97) “Deve-se distinguir entre o Objeto Imediato, isto é, o Objeto representado no signo e o Objeto Real (...) ou antes dinâmico, que pela própria natureza das coisas, o signo não consegue expressar, podendo apenas indicar, cabendo ao intérprete descobrí-lo por Experiência Colateral” (PEIRCE, 1980:125, parágrafo 314 de 14 de março de 1909) Para ser ainda mais didático em suas citações a respeito da Experiência Colateral, Peirce redigiu uma série de exemplos baseados no dia a dia, exemplos estes que apresentavam a relevância da Experiência Colateral (ou familiaridade) com o assunto em questão para poder existir uma semiose mais apurada. Seus exemplos tratam de Napoleão (com a estranha possibilidade do líder ser uma pessoa letárgica), Hamlet (como louco), uma situação de incêndio, uma situação em que um professor e um aluno de Francês tratam sobre o significado da palavra Sol, uma situação de um extra-terrestre ouvindo falar de Theodore Roosevelt, um batalhão de soldados sob a ordem de comando de seu superior, entre outros. As citações podem ser encontradas na íntegra em CP 6.318, CP 8.178-179, CP 8.183, CP 8.314, MS318 pp. 37-40, MS 849.9-101 e em citações de Santaella (2000; 2004; 2005). Podemos dizer que a Experiência Colateral é um conjunto de contatos anteriores, por meio de outros signos ou quase-signos, com o objeto do signo em 1 A abreviação CP diz respeito aos Collected Papers e a abreviação MS diz respeito aos manuscritos de Peirce. Todas as referências de CP e MS citadas foram retiradas do link: http://peircematters.blogspot.com/2005/02/collateral-observation-quotes.html 87 questão: percepções sutis, informações sensoriais particulares, um sentido instaurado que recorda uma série de atributos que o signo em si não pode fornecer totalmente. É uma espécie de estado de consciência que nos conecta com o universo relativo ao signo ali apresentado no momento (PEIRCE 1980:122, parágrafo 178). Para explanar o papel da Experiência Colateral e de quais elementos da semiose ela dá conta, segue o gráfico com as devidas considerações. Figura 2: Representação didática de uma semiose Fonte: Figura desenvolvida para a dissertação por Mariane T.C. Almeida. O elemento 1 diz respeito ao fundamento do signo, a cor amarela representa-o como algo que se apresenta a nós (chama a atenção) e a forma quadrada caracteriza a objetividade intrínseca, que o signo possui em si. Sua maneira de apresentação pode ser 1.1 quali-signo, 1.2 sin-signo e 1.3 legi signo. O elemento 2.1 representa o Objeto Imediato, que está dentro do signo e por isso está em um ponto de intersecção entre 1 e 2, sua cor é o resultado desta relação. Por ser uma forma menor, imediata e resoluta do Objeto em si, seu espaço na forma também é reduzido. O Objeto Dinâmico 2.2, é o real, em toda a sua amplitude e infinidade. Sua cor vermelha representa esta característica de existente, “aquilo que insiste” e sua forma circular caracteriza a amplidão do conceito. 88 O elemento 3.1 é o Interpretante Imediato, interno ao signo e, por este motivo, é apresentado aqui como intersecção com o fundamento. Sua cor verde é resultado desta sobreposição e pode também representar o “disparar” do processo complexo dos interpretantes, por ser o seu primeiro ponto de contato. O sistema 3.2 (chamado sistema por possuir 3 elementos internos em si) diz respeito ao Interpretante Dinâmico, onde se localiza o intérprete, e está fora do fundamento. Seus níveis são: 3.2.1 – Emocional, 3.2.2 – Energético e 3.2.3 – interpretante lógico. A cor azul, para representar o sistema do Interpretante Dinâmico, pode caracterizar nossa condição relativamente “passiva” em relação a uma semiose que se apresenta, principalmente no sentido de retirar de nós um certo “ego” que nos faz crer piamente que somos nós que criamos todo o sentido da vida e das coisas. Somos parte do processo, uma parte importante, porém o sentido pleno está além de nós e é isso que podemos chamar de uma certa “passividade relativa” do intérprete na semiose. No ponto do Interpretante Dinâmico de nível Lógico 3.2.3, existe uma ramificação externa e colateral na cor lilás, denominada no gráfico como (X) que vai ao encontro do objeto dinâmico sem passar pelo caminho do fundamento (1), apresentado no momento da semiose. Esse (X) é a Experiência Colateral, a segunda forma de acesso ao Objeto Dinâmico por parte do Intérprete. A linha por ela representada tem o formato de conexão exatamente por ser esta sua função: a de conectar o Interpretante ao Objeto por outra via. Todas as pequenas ramificações irregulares e multiformes que terminam na linha principal (com os pequenos quadrados em amarelo) designam os outros contatos e as outras experiências com o assunto em questão, em outros signos, em outros momentos e que desencadearam o processo cognitivo colateral que toca o Objeto Dinâmico. As linhas diagonais e divergentes representam as possibilidades de experiências de uma vida, que podem ser múltiplas e variadas, porém interferem em nosso ato de interpretação e enriquecem a própria Experiência Colateral. A definição da letra (X) para representar a Experiência Colateral no Gráfico não foi ao acaso. O (X) é uma letra que tem em si, por tradição e regra, um caráter de indefinição e abertura, representando um fato particular, exclusivo a cada indivíduo. Não existem duas pessoas no mundo que compartilham 89 exatamente as mesmas experiências e embora, em certos momentos da vida, tenhamos uma mesma experiência, temos mais centenas ou milhares de momentos em que as experiências diferem, o X é o múltiplo. A cor lilás pode representar a carga de experiência de vida que interfere no conhecimento da realidade do Objeto Dinâmico, sendo o lilás reconhecido como “vida”. O elemento 3.3 é o ponto do Interpretante Final, que só seria alcançável se a semiose fosse levada ao extremo, com todos os pontos esclarecidos e compreendidos, caracterizando a totalidade ideal de interpretante. A cor branca e o traço preto foram escolhidos para representar a completude que o conceito carrega (cor preta – a soma de todas as cores – o total - quando estamos lidando com o sistema de cores pigmento CMYK) e a impossibilidade de atingí-lo em plenitude (branco – o vazio - no sistema de cores pigmento CMYK)2. Esse exercício da “Representação Didática da Semiose” foi uma tentativa de deixar os conceitos mais claros, em especial no que tange ao funcionamento da Experiência Colateral e seu caráter múltiplo e complexo: resultado de diversos contatos anteriores que estão armazenados na memória e ajudam na cognição das relações de comunicação humana. Para apurar ainda mais a questão da Experiência Colateral, durante o período de pesquisa bibliográfica, foi possível localizar artigos acadêmicos que dedicaram suas linhas especialmente para o assunto. A relevância de cada um destes estudos foi crucial para a aplicação do conceito ao tema proposto, portanto é interessante citar as principais idéias de cada um destes autores e suas contribuições para o tema. David Savan foi um dos tradicionais estudiosos de Peirce que se ateve especialmente ao conceito da Experiência Colateral, demonstrando a carga empírica do conceito, por estar ligado completamente ao campo experimental. Nas palavras de David Savan: 2 CMYK é o sistema de cores utilizado quando estamos lidando com pigmentos e tintas (incluindo as de impressora). As iniciais significam: C – Cyan, M – Magenta, Y – Yellow, K – Black. Esse sistema é também chamado de aditivo e é através da sobreposição das tintas que conseguimos todas as tonalidades de pigmentos. Existe um outro sistema de cores muito utilizado: RGB (Red, Green and Blue), este sistema é utilizado por monitores, telões e todas as formas de obtenção de cores através de luz. 90 “O objeto é o ambiente empírico de que temos conhecimento colateral, independentemente da ação do Signo. É o contexto, as circunstâncias, a situação que é compartilhada pelo signo e pelo interpretante”. (SAVAN, 1977: 190 apud LINZ, 2003:2). Em outro texto, Savan (1994:35) ressalta que a experiência é a segunda forma de assegurar que o interpretante e o signo estejam relacionados com um mesmo objeto. Raimo Anttila (1994), ao desenvolver o tema da colateralidade na linguística genética, refere-se à Experiência Colateral da seguinte forma: “Collateral consideration, or evidence, experience, information, or previous acquaintance, or prior information (...) is again a direct equivalent of the hermeneutic pre-knowledge, Vorverständnis, the immer schon aspect (Biere 189:116-117 “Kontext und Vorwissen in Perzeption”). Cognitions are inferred from previous cognitions. “We cannot begin with complete doubt. We must begin with all the prejudices which we actually have when we enter upon the study of philosophy”(CP 5.256). Experience is interpreted experience, or experience context, Umwelt and not just Umgebung.” 3 (ANTILLA, 1994:38) No texto, o autor cita palavras em alemão que têm relação com conhecimento prévio e aspectos já conhecidos (Vorverständnis e immer schon). Porém são duas outras palavras em alemão, contidas na frase, que têm um conceito muito relevante para a Experiência Colateral, são elas Umwelt e Umgebung. Quando Raimo Anttila diz que com a Experiência Colateral temos Umwelt e não somente Umgebung, significa que, com a Experiência Colateral, 3 Tradução Pessoal: “A consideração Colateral, ou a evidência, a experiência, a informação, ou o conhecimento precedente, ou a informação prévia (...) são outra vez um equivalente direto do pré-conhecimento na hermenêutica, o conhecimento anterior, o aspecto já sabido (Biere 189:116 – “Pré conhecimento e contexto na percepção” 117). A cognição é inferida por cognições precedentes. “Nós não podemos começar com a dúvida completa. Nós devemos começar com todos os preconceitos que nós temos realmente quando começamos o estudo da filosofia” (PC 5.256). A experiência é experiência interpretada, ou contexto da experiência, Umwelt e não apenas Umgebung.” 91 em determinada semiose, temos o conhecimento mais completo e pleno (Umwelt, que pode ser traduzido como ambiente pleno) e não apenas os arredores ou informações superficiais (Umgebung, traduzido como vizinhança, arredores, cercania). Já nas palavras de David Pharies (1985), a Experiência Colateral funciona como uma espécie de “enciclopédia de conhecimento” adquirida sobre determinado assunto, compilada durante a vida e que traz vários aspectos da realidade (Objeto Dinâmico) e usada para aprimorar o decifrar dos signos. Carl Hausmann (2003:31) mostra que os intérpretes, quando são colocados em uma ação de semiose, trazem consigo suas próprias resistências, sentimentos ou qualquer sorte de pré-conhecimento – a experiência colateral que acaba por ser associada com o sistema semiótico de significância em questão (com o Fundamento, Objeto e Interpretante) e que este fator prévio contribui para a interpretação resultante. No Brasil, Aline Grego Linz foi quem escreveu um artigo com o tema da Experiência Colateral, aplicando o conceito no telejornalismo. Alguns trechos deste artigo, apresentado no Intercom de 2003, serão transcritos a seguir: “(...) não sendo o signo o objeto em si, mas uma representação, ele acaba sendo marcado, quase sempre, pela vagueza e pela generalidade que poderá ser reduzida através da Experiência Colateral. (...) A Experiência Colateral do objeto, assim, contribuiria para diminuir, em parte, esse grau de generalidade e de vagueza que acompanha o signo (...) Ela também será garantida por informações, muitas vezes anteriores ao próprio signo, e desencadeadoras de novos signos. Aliás, as experiências colaterais, são elas mesmas também reveladas através de signos. (...) Fica claro, desse modo, o papel do intérprete na utilização dessa experiência. Baseado nesse elemento a mais, nesse conhecimento em relação ao objeto, ele terá mais chances de evitar interpretações equivocadas.” (LINZ, 2003) 92 Por fim, temos os textos do finlandês Mats Bergman, que tem dedicado seus estudos à questão da Experiência Colateral, desenvolvendo uma série de artigos que vão além da definição do conceito e chegam ao ponto filosófico do termo, mostrando como a Experiência Colateral tem a influência do pragmatismo Peirceano e é decisiva na semiótica tardia de Peirce.4 Para a finalidade deste estudo é importante ressaltar de maneira breve alguns pontos cruciais levantados por Bergman. Em uma sequência diacrônica, no primeiro texto – Reflections on the role of the Communicative Sign in Semiotic – publicado em 2000, o autor apresenta uma série de pontos que defendem a semiótica tardia de Peirce (later semiotics) – que é tida por alguns teóricos e matemáticos como uma redução do projeto Peirceano da Semiótica, por se relacionar grandemente com as questões comunicativas. Para rebater tais críticas, o autor apresenta algumas evidências de como esta semiótica “comunicacional” tem relação com o Pragmatismo Peirceano e como sua Teoria tem amplitude de aplicação nos fenômenos comunicativos de forma mais “filosófica” e, por isso mesmo, mais profunda do que os estudos feitos a partir das ciências aplicadas à comunicação. Nas palavras de Bergman: “(…) there would still seem to be room for a philosophical study of communication, as long as we accept that there are communicative phenomena among our persistent everyday experiences; and in my opinion there certainly are. In fact, it may be one of semeiotic's most important functions to analyse such communicative and social aspects of our seemingly private experiences – traits which are so omnipresent that they would otherwise escape our attention.”5 (BERGMAN, 2000:245) 4 entenda-se tardia como sendo os escritos depois de 1885, que modificaram algumas percepções em determinado grau da sua primeira lista publicada em 1867. 5 Tradução Pessoal:“(…) Parece que continua existindo um espaço para o estudo filosófico da comunicação, contanto que nós aceitemos que existem fenômenos comunicativos entre nossas experiências diárias; e em minha opinião há certamente. De fato, se existe uma principal função para a semiótica esta seria para analisar como os aspectos sociais e comunicativos de nossas vidas parecem estar banhados por nossa experiência privada - os traços que estão assim onipresentes e que escapariam de outra maneira de nossa atenção.” 93 Em seu segundo texto analisado - C. S. Peirce on Interpretation and Collateral Experience – de 2002, Bergman enfatiza que a questão da Experiência Colateral é relevante em Peirce para interações de comunicação que envolvam signos, sendo uma forma importante de mediação. Neste texto o autor continua a desenvolver sua defesa da Segunda Semiótica de Peirce e sua relevância teórica, por ter sido desenvolvida em um momento de maior maturidade científica do filósofo, bem como a questão da experiência e da percepção na semiótica madura, trazendo para o seio da teoria uma sensibilidade maior para a variedade e complexidade das relações de significação. “Equipped with a new logical outlook, and a stronger belief in realism, Peirce begins to emphasise the relevance of other kinds of signs besides thought-signs, and attempts to break the hermetic tendency of his earlier theory of signs by calling attention to the role of non-semiotic experience as a forceful factor in semiosis.”6 (BERGMAN, 2002) No mesmo texto apresenta-se o papel central do Objeto e seu status relevante na Segunda Semiótica de Peirce, bem como a necessidade de duas condições distintas para a interpretação: uma relacionada ao sistema interno do signo e outra através da Experiência Colateral do Objeto envolvido, mostrando assim como existe um mundo mais vasto do que o contido no próprio signo, resultado de contatos com outros signos anteriores. O último texto do autor, apresentado no IX Encontro Internacional sobre Pragmatismo da PUC-SP em 2006, “Common Grounds and Shared Purposes On the Pragmatic Contexts of Communication” apresenta as conexões entre os conceitos de common ground (contexto) e Experiência Colateral, demonstrando o enfoque de Peirce para o conceito de Experiência, que não necessariamente está relacionado a um senso clássico de empirismo (simples experiências), principalmente porque o projeto de Peirce é filosófico, não estando, portanto, 6 Tradução pessoal: “Equipado com um novo modelo lógico, e uma opinião mais forte a respeito do realismo, Peirce começa a enfatizar a relevância de outros tipos de signos além dos signos do pensamento, tentando assim quebrar a tendência hermética de sua teoria semiótica primeira através da atenção especial ao papel da experiência não-semiótica como um fator importante na semiose.” 94 interessado em conceitos rasos. Para Peirce, a experiência é um resultante cognitivo da vida, que, segundo Bergman, está fortemente conectado com a secundidade, por ser estritamente particular, um fato bruto, tal como a teoria de percepção de Peirce tem grande influência da secundidade7. Para Bergman, os índices são fundamentais na comunicação, porque contextualizam o fato. Nas palavras de Peirce (1992: CP 5.50): “A experiência é nossa única mestra. Longe de mim está enunciar qualquer doutrina de uma tabula rasa... O que a experiência gradualmente faz é, e por uma espécie de fracionamento, precipitar e filtrar as falsas idéias, eliminando-as e deixando a verdade verter em sua corrente vigorosa.” Um ponto crucial do texto de Bergman diz respeito à indeterminação de toda semiose, demonstrando que nem signo e nem Experiência Colateral conseguem dar conta completamente da determinação de um objeto, o que o torna sempre pronto a novas descobertas. Em suas palavras: “On their own, signs are not capable of properly fixing the reference of discourse purporting to relate information concerning some world. Nor can collateral observation ever bring forth a perfectly particular positive object, determinate in every conceivable respect; singular experience is never adequate by itself. Thus, there will always be a certain degree of indeterminacy or latitude in semiosis, because human beings cannot escape the use of signs to some kind of “hard core” of pure objective perception.”8 (BERGMAN, 2006:18) 7 Sobre a Teoria da Percepção de Peirce o Capítulo 1 desta dissertação apresenta alguns conceitos gerais. A Teoria da Percepção é calcada em como se dá a construção ou apreensão da realidade. Em linhas gerais, os fenômenos nos chegam pela percepção. Os feixes perceptivos (perceptos) que a natureza emite afetam a mente (percipuum) pelas portas de entrada: os órgãos dos sentidos. Para um melhor entendimento desta questão, consultar o livro A Percepção. Uma Teoria Semiótica de Lúcia Santaella e citado nas referências bibliográficas. 8 Tradução Pessoal: “Em si próprios, os signos não são capazes de fixar a referência do discurso proposto para relacionar a informação a respeito de um universo completo. Nem pode a experiênc 95 Em uma citação de Brock, Bergman conclui que esta indeterminação tem um papel positivo, pois faz da semiose um constante elemento evolutivo, sempre um devir. “We should not complain about the fact that our symbols are never completely determined, because if they were, there would be no semiotic growth and change (...) vagueness is the mother of invention”9 (BROCK, 1981:136 apud BERGMAN, 2006:24). Estes foram os pontos concernentes à Experiência Colateral encontrados neste momento, porém a partir da leitura de Bergman percebe-se que o tema ainda apresenta um vasto espaço de análise e dedicação acadêmica que não é possível aprofundar em um projeto científico de cunho inicial. Para embasar a aplicação do conceito da Experiência Colateral na relação da marca de Moda Jovem, que será desenvolvido no próximo capítulo é importante primeiramente localizar os elementos semióticos apresentados em uma Semiose de Moda Comercial.10 4.4 Aplicação da Teoria Geral dos Signos na Semiose da Moda Comercial “Não existe nenhum critério apriorístico que possa infalivelmente decidir como um signo realmente funcionará. Tudo humanos não podem escapar do uso dos signos sem algum tipo de “núcleo” da percepção objetiva pura.” 9 Tradução Pessoal: “Nós não devemos nos queixar sobre o fato que nossos símbolos nunca estão completamente determinados, porque se assim fosse, não haveria nenhum crescimento e mudança semiótica (...) a indeterminação é a mãe da invenção.” 10 A Moda Comercial, com efeito de consumo, mais voltada às questões de vendas, difere-se da Moda Conceitual, criada por estilistas/artistas com “menor” preocupação mercadológica. É notório que existe um ponto de intersecção entre estas duas formas de Moda, onde toda Moda Comercial tem seu aspecto Conceitual para chamar a atenção do público e toda Moda Conceitual tem um certo nível de objetividade mercadológica e comercial, para poder sobreviver no sistema e no mercado. O fato é que a gênese de cada uma reside em sua maior preocupação – enquanto consumo ou enquanto novas possibilidades artísticas de vestir o corpo. A Moda é sempre um elemento que vive com estes dois pesos, parafraseando o título da tese de doutorado de Suzana Avellar, a Moda está sempre entre a Arte e o Consumo, tendo nesta relação a Moda Comercial mais atenta ao consumo e a Moda Conceitual mais dedicada a arte. 96 depende do contexto de sua atualização e do aspecto pelo qual é observado.” (SANTAELLA, 2000:102) Quando nos aventuramos a realizar uma análise semiótica de qualquer assunto, sabemos de antemão que estamos inferindo definições e significações a partir da realidade que se apresenta naquele momento e em determinada situação. Nossa posição nesta leitura é de Interpretante Dinâmico e, por isso, há uma certa abertura de interpretação em cada realidade estudada. “O signo é múltiplo, variável e modifica-se de acordo com o olhar do observador (...) nenhum signo pertence a um tipo apenas” (SANTAELLA, 2004:42) e, ao mesmo tempo, exige de nós o respeito à Objetividade própria que todo signo possui, o que clama pela acuidade na análise. No caso da Moda Comercial, a leitura aqui apresentada leva em consideração os principais elementos contidos em um sistema de consumo de Moda, localizando nos aspectos de Fundamento, Objeto, e Interpretantes as questões que foram consideradas mais relevantes nesta relação, estando ciente, todavia, da existência de outros pontos de relevância, quando o enfoque é mudado na direção do vestuário em geral. A força mercantil e de vendas da Moda colabora para o grande mercado da Moda Comercial, sendo a roupa um dos produtos que mais consumimos durante nossa vida e um dos objetos aos quais rendemos maior tempo de escolha, tanto no ato de compra como no ato de vestir-se para o dia a dia. Nesse universo de escolha, tanto de compra como de uso da roupa, um elemento crucial é a marca: este “nome” - discutido no capítulo 2 – dotado de tantos significados que fazem de uma empresa fabricante um produtor de identidades e conceitos que transcendem a própria roupa em si, principalmente se levamos em consideração o sistema de tendências ditadas pelos Bureaux d’Style, onde existe uma linha bem definida a ser seguida de tecidos, formas e cores utilizadas em cada estação. Sem o elemento “marca” e o toque criativo de cada um destes “nomes” teríamos uma Moda comercial circular, previsível e pouco diferenciada. Em todas as lojas estariam expostas as mesmas roupas e a possibilidade de construção de um look diferenciado seria mais difícil. 97 Vestir-se com roupas de marca e com looks elaborados tem a função de aprimorar a relação de visualidade onde o principal intuito é atrair olhares, incitar o interesse do outro pelo corpo vestido, enfim, um caráter social que preenche a Moda Comercial ou mesmo a Moda de marca de sentidos e a transforma em comunicação: um signo em ação. 4.4.1 O Fundamento do Signo “Em primeiro lugar, é preciso ter em mente que as roupas e acessórios exibem qualidades sígnicas, fato este que coloca a moda em relação direta com a comunicação”. (MOREIRA, 2005:105) Na semiose da Moda, o Fundamento do Signo é o núcleo da ação, e não pode ser outro senão a própria roupa - sozinha, enquanto peça, ou em combinação com outras peças, formando o look. “No domínio do sistema da Moda, a roupa é entendida como a unidade básica fundamental a partir da qual se estabelecem todas as relações que caracterizam este fenômeno sócio-cultural enquanto processo semiótico.” (MOREIRA, 2006:1) A roupa habilita a Moda a funcionar, é sua criação máxima que possui as principais propriedades da Moda, seus elementos essenciais como forma, cor e tecido, como também os elementos complementares como texturas, estampa corrida, estampa localizada, etiqueta, aviamentos, etc. Todos estes caracteres como tantos outros são possíveis de classificar na questão da roupa. Na multiplicidade de análise do Fundamento “roupa” podemos escolher vários Common grounds ou formas de apresentação. Podemos vê-la como a regra de um tempo ou de uma estação (no momento em que estudamos seu aspecto diacrônico e histórico), como o cuidado com que foi produzida se pretendemos analisar as questões fabris e de tecnologia do vestuário, como presença profunda da mente criadora do estilista em cada criação, além de outras formas de apresentação de fundamento que uma roupa tem como potencialidade. 98 No caso específico da Moda Comercial, veremos a questão do Fundamento (e também em todas as demais faces semióticas) enquanto um conjunto de peças vestidas em um corpo que está presente para a observação do outro, em um momento qualquer do cotidiano. Neste caso os aspectos deste signo podem ser: Quali-signo Qualidades que estimulam sensações, tirando-nos de todo e qualquer julgamento apriorístico, onde nos abrimos ao sentimento, mesmo que seja o sentimento de estranhamento. São as sensações dos elementos que compõem a roupa ali observada no corpo e que nos despertam para certas emoções, certas qualidades das formas, das cores e do aspecto geral do look que nos faz contemplar o signo Roupa e a Moda em si. Sin-signo Um existente, uma coleção, uma tendência ali no momento apresentada, com suas características e suas “normas” efêmeras, que, por isso mesmo, não chegam a tocar a complexidade de um sentido geral de regra perene. É um momento passageiro que marca um período, geralmente determinado pelos Bureaux de Style. Uma fase em que a Moda exprime o espírito do tempo vigente. Vemos na Moda uma forte ação de existente e secundidade no sentido peirceano, porém seu o conceito não pára neste ponto semiótico. Legi-signo Uma lei ou uma regra na semiose da Moda Comercial. Esta terceiridade tem maior probabilidade de ocorrência no estilo corrente das roupas criadas por uma grife e que governa todas as suas criações. Uma certa linearidade, traços comuns e padronizados, que resultam numa unicidade, numa assinatura: tendência a gerar o mesmo interpretante ou interpretantes. Esta lei é pautada na continuidade de um determinado estilo em todas as roupas desenvolvidas, um certo perfil único de roupa que a distingue das demais, ainda que coexistindo sob uma mesma estação, e regida pelos mesmos “existentes” transmitidos pelos Bureaux de Style. 99 Objeto Imediato Por ser o elemento interno ao signo, está presente na roupa e é um dos caminhos para o acesso ao conceito geral da marca. Pode ser qualquer elemento ou forma de apresentação que remeta a determinada marca: uma etiqueta, símbolo, logotipo, frase conhecida (como “Just do it “da Nike), elementos exclusivos e que são caracterizados como um padrão (como o estilo inconfundível de Tailleur Chanel), entre outros. Na análise de Objeto Imediato, não devemos considerar apenas o logotipo ou logomarca da empresa de Moda impressa ou colocada de alguma forma; este pode ser o sinal mais evidente, porém, como objeto imediato, podemos ter outras ocorrências também relevantes. Para demonstrar a força de outros elementos enquanto Objeto Imediato, segue uma imagem representativa: Figura 3: Objeto Imediato - Foto da coleção Adidas Inverno 2006. Fonte:www.adidas.com/campaigns/originalsbmc. Acessado em 04/12/2006 Nesta foto da Adidas podemos reconhecer – dentro do signo roupa elementos que remetem diretamente à marca: especificamente aqui as três listras verticais na calça, uma das características padrão da Adidas e bem conhecida pelo senso comum. Por muito tempo a própria Adidas utilizou o slogan: “The brand with three stripes” e facilmente remetemos a imagem das três listras à marca. 101 Na Moda Comercial, o Objeto Imediato é de grande valia, porque é antes de tudo o visível que dispara as primeiras e momentâneas reações em relação a uma roupa e em relação à marca que a confeccionou, bem como é o elemento que distingue o usuário dos demais (principalmente quando vemos a Moda como forma de presença e onde os signos distintivos fazem toda a diferença na apresentação e reconhecimento do corpo). No corpo vestido, o Objeto Imediato é a Moldura particular que está em exibição para os olhares e para a aprovação em determinado grupo, antes de tudo. É a identidade epidérmica, o jeito exterior de se construir um modo de ser através das características por vezes ínfimas que dizem respeito a uma grande identidade de marca e Estilo. Faz-se necessário ressaltar que, para evitar equívocos entre o signo Roupa e o Objeto Imediato apresentado na Roupa, é preciso distinguir que o signo Roupa em si é, acima de tudo, o conjunto da criação, especialmente seus materiais, tecidos, corte (modelagem), formas, cores, etc. Já o Objeto Imediato são os “rastros”, “indícios” e “sinais” da marca presentificados na roupa e que têm o papel de provocar o reconhecimento instantâneo. Para uma roupa de Moda Comercial, o Objeto Imediato bem trabalhado é essencial para o sucesso de uma marca. Objeto Dinâmico O Objeto Dinâmico da Moda Comercial é o fio condutor que liga a marca a suas criações de forma plena e ampla, em sua realidade multifacetada construída ao longo da história e a partir do posicionamento de mercado, representando a totalidade dos elementos que a compõem. Incluem-se aí diversos pontos, como a linha criativa emblemática, a identidade de marca, a equipe de criação unida em uma expressividade de Moda, o sistema de vendas utilizado, distribuição, produção, ética comercial, atitudes perante a concorrência, escolha do plano de ação em comunicação e mídia, pesquisas (tanto de mercado quanto com fins criativos) e inúmeros outros pontos. 102 Conhecer a plenitude do Objeto Dinâmico da Moda Comercial é realmente uma tarefa inalcançável, porém temos acessos limitados que podem trazer um conhecimento razoável. Quanto mais nos aproximamos deste Objeto Dinâmico mais mediações vão sendo feitas e estas conexões nos trazem, passo a passo, a um maior conhecimento da marca. Através do Objeto Imediato da Moda Comercial é possível tocar seu Objeto Dinâmico, porém a familiaridade (experiência colateral) com o sistema de signos relacionados com a marca é a outra forma de acesso também importante para o conhecimento do Real. Ainda no que tange à relação Objetual, Peirce designou a tríade ícone, índice e símbolo, porém elas não serão aprofundadas neste momento.12 4.4.3 O papel do Corpo O corpo é o território no qual a Roupa e a Moda se instalam, com o intuito de torná-lo possível nas relações sociais, território este que, na relação da Moda, funciona como suporte em busca de mudanças, transformação e superação da própria condição atualizada no momento, na espetacularização, enfeite e atratividade. A Moda redesenha o corpo, traz novas linguagens que podem diferenciar a imagem natural. Já na relação do Vestuário - sistema que inclui principalmente vestes utilitárias, uniformes e roupas voltadas ao conforto - esta questão de espetacularização é amenizada, dando espaço para o bem estar do corpo. Enquanto o Vestuário busca primordialmente a racionalidade, ergonomia, utilidade e proteção, a Moda tem maior enfoque no irracional, adorno, diferenciação, fantasia, subversão, volição, truque, ilusão de ótica e até mesmo 12 Em resumo, o ícone apresenta-se na qualidade artística de toda Moda, já o índice é um elemento crucial da Moda Comercial, por se tratar da indexicalidade de toda coleção, um acontecimento temporal bruto. Ainda que venha voltar mais adiante (em outro tempo e espaço), vem em forma de releitura, em um outro existente. O símbolo na Moda Comercial é a representação e a regra de uma marca, “internalizada na mente de quem o interpreta, sem o que o símbolo não pode significar.” (SANTAELLA, 2004:25) 103 no incômodo13. A Moda promete o sonho da imagem perfeita, da mudança do natural para um ápice estético. Pode-se até mesmo utilizar-se artigos que machucam, pinicam ou trazem desconforto físico, mas garantem uma imagem bela para a época vivida. Na dimensão irracional e espetacular da Moda é impossível permanecer apenas na praticidade e funcionalidade14, sua força motora está no ato de trazer um “up” na imagem, seja no âmbito sexual, de status ou de identidade, sempre em conexão com o conceito de beleza. A Moda no corpo é por vezes ir além deste corpo, criar novas formas, aumentar, diminuir, interferir ou melhorar. O corpo na relação da Moda Comercial estaria como o suporte, a finalidade para a qual a roupa é feita. Não seria aqui colocado como o Objeto, mas antes como o Objetivo de uma roupa, que sem um corpo para vestí-la não teria função. Seu objetivo derradeiro é estar em um corpo. Em uma possibilidade drástica de ciclo de consumo e de parâmetros máximos de aparência é possível até mesmo dizer que a determinação do corpo é feita pela Moda, em especial entre os jovens, que muitas vezes morrem de fome para ter o corpo idealizado da Moda, porém isto é assunto para outros estudos dedicados à relação do corpo na contemporaneidade. Também na área de roupas esportivas, que não necessariamente são consideradas Moda, existe a superação do corpo, por exemplo, muitas roupas de esporte procuram aumentar o desempenho do atleta, até mesmo criar nele capacidades “extras” que o próprio corpo não possui, como uma tentativa de reprodução do super-homem ou da mulher maravilha. 13 Para ver mais sobre as diferenças conceituais e estruturais entre Moda e Vestuário, consultar o capítulo1 desta dissertação. 14 Aqui não queremos afirmar que a Moda não se preocupa com tais funções, mas antes dizemos que seu “mainly point” é outro, ligado ao desejo e a aparência ideal. 104 Figura 4: Superação do Corpo - Foto da coleção Nike Inverno 2006. Fonte: http://www.nike.com/index Acessado em 04/12/2006 (site oficial da empresa) Esta peça da linha Nike+ confeccionada com tecido Dry Fit (que mantém o atleta seco e com sensação de frescor durante o exercício) possui o sistema lightweight (tecido leve para facilitar a atividade física), foi desenhada com uma modelagem especial chamada ultra-form fitting (ajuste perfeito ao corpo) e possui um complexo exclusivamente criado para a utilização de iPods nano, incluindo um bolso mínimo na manga da blusa que mantém o aparelho seguro e protegido, sem interferir no desempenho do atleta e um sistema de passagem do fio que conecta o Ipod aos fones de ouvido de forma interna (na própria roupa), com fácil acesso para mudança de músicas ou volume do MP3 player. 4.4.4 Interpretante Dos termos que compõem o signo, o interpretante é um dos elementos mais complexos e para viabilizar sua análise somente aplicaremos a tríade “Interpretante Imediato, Dinâmico e Final” bem como a subdivisão do Interpretante Dinâmico em Emocional, Energético e Lógico, que dá conta do efeito do signo em outro signo. Na figura da Tríade, podemos localizar na Semiose da Moda Comercial os seguintes pontos: 105 Interpretante Imediato É o potencial que toda roupa tem enquanto comunicação e significação, antes mesmo de encontrar alguém que a interprete. O interessante em relação ao Interpretante Imediato da Moda Comercial é a diferença de potencialidade de uma roupa isolada (sozinha em um cabide) e as outras várias potencialidades de significação quando combinada em um look completo, emoldurado por um corpo específico e complementado com acessórios ou elementos diferenciados. Nesses casos, o Interpretante Imediato pode apresentar-se de outra maneira, porque a peça de roupa combinada em um corpo, com outras roupas e elementos surge também com outras potencialidades de significação. A seguir apresentamos três fotos com uma camisa branca em comum, porém em três diferentes formas de potencialidade de significação. Figura 5: Formas de apresentação do Interpretante Imediato na Moda Fonte: Revista Elle - edição 219 – Agosto de 2006. Fotógrafo: Paschoal Rodriguez. Acesso: http://elle.abril.uol.com.br/livre/edicoes/219/05.shtml. Interpretante Dinâmico Na Moda esta é a figura do Interpretante mais fértil, por ser efetivamente a fase em que o efeito potencial existente já no Interpretante Imediato se 106 Energético Posteriormente ao primeiro acesso sensível à roupa e suas primeiras filigranas de interpretação iniciadas pelo nível emocional, passamos ao Interpretante Dinâmico Energético, o esforço em si, uma série de sensações leves, sutis que começam a incomodar ou clamar por um nível maior de acuidade. É o nível de presença ativa, o desejo de observar que sugere uma maior aproximação rumo ao conhecimento da Moda. Esta fase pode ser caracterizada pelo segundo olhar que damos a uma roupa ou a um look, o momento em que focamos nossa percepção e sentimos o desafio de prestar maior atenção ao elemento de Moda ali apresentado, em busca do reconhecimento. É o início do interesse pela decifração da Moda, seus signos e significados, porém ainda não atualizados em regras interpretativas. Lógico Um hábito ou regra de interpretação que é geralmente automatizada. Por estarmos tratando da Moda Comercial (e automaticamente da marca de Moda) este caso de interpretante merece especial atenção. Império do efêmero, do transitório e passageiro, das mutações ininterruptas dos existentes (coleções), a Moda encontra nos significados transmitidos pela marca e em seu estilo corrente a maneira especializada de gerar hábitos mentais. “(...) Enquanto os eventos existentes são descontínuos, transitórios, o hábito é continuidade, garantia de que os particulares irão se repetir de acordo com uma certa regularidade.” (SANTAELLA, 2004(b):82) Por ser um terreno arenoso, móvel, que tem como motor de funcionamento a própria mudança constante, a Moda pode somente atualizar uma espécie de garantia da regularidade no particular de cada peça pelos elementos significativos contidos no estilo ou na marca presente no Fundamento 108 e na familiaridade com a Moda. O hábito interpretativo na Moda Comercial surge geralmente do padrão estético e de identidade intencional do Objeto marca. Em um exemplo extremo, ao vermos um grande logotipo estampado em determinada roupa – como Nike, Levi’s, Chanel ou qualquer outro conhecido – produz-se em nós um interpretante lógico através da marca. O tecido torna-se um ambiente para a impressão de uma lei interpretativa visível, um sentido complexo ao qual nos habituamos. Aqui é importante frisar que estamos tratando da Moda Comercial, mutante e inconstante e mais adiante nos ateremos ao espaço somente da Moda Jovem neste processo, onde em questão de dias muda-se de opinião em relação a uma determinada peça. Cada dia que passa as peças “Must Have” mudam ininterruptamente nas páginas dos jornais, revistas, na mídia eletrônica e nos catálogos de Moda e nesta rapidez de existentes emergentes, somente o estilo e identidade de marca pode reger uma espécie de hábito interpretativo. Por outro lado, nas peças mais tradicionais ou mesmo no vestuário em geral, podemos considerar outras formas de hábitos interpretativos. Um terno ou costume tem em si uma espécie de hábito interpretativo convencional, bem como um uniforme militar com suas insígnias, a veste de um padre, ou casos em que existe uma certa perenidade e uma carga significativa conhecida por todos e, por isso, um hábito interpretativo advindo de outras vias que não passam pela marca comercial. Interpretante Final Caracterizado como tendência de uma interpretação geral e final, especialmente na Moda - uma área do conhecimento dotada de dinamismo - o Interpretante Final é provavelmente inalcançável. Nunca esgotaremos as possibilidades interpretativas da Moda, elas serão sempre um devir, substituídas rapidamente por outros existentes e assim sucessivamente. A inconstância própria da Moda é a mola propulsora do consumo que inviabiliza interpretações estáticas ou perenes. 109 Estar permanentemente no meio do caminho na Semiose da Moda é também contemplar a graça de nunca sabermos o que virá depois, é sermos direcionados pela curiosidade todo tempo, à espera de novidades que tragam sensações, ações e conhecimento. 4.4.5 (X) Experiência Colateral Conforme apresentamos anteriormente no gráfico “Representação Didática de uma Semiose”, no ponto do Interpretante Dinâmico de nível Lógico existe uma ramificação externa denominada Experiência Colateral (X): a segunda forma de acesso ao Objeto Dinâmico por parte do Intérprete. Aqui são incluídas todas as manifestações colaterais (tangíveis e intangíveis) nas quais a marca se dá a conhecer e que são importantes para o reconhecimento apurado dos sentidos e identidade da marca e da própria Moda, onde o conjunto de informações combinadas e misturadas geram sentido. “Existe um vasto repertório de experiências significantes no universo das marcas (...) que somados determinam a percepção integral que o público tem a respeito da marca” (CIMATTI, 2003: 87) É importante frisar que a Experiência Colateral da Moda não contempla necessariamente o conhecimento aprofundado do Signo da Moda, como conhecer a roupa nos mínimos detalhes, o histórico de toda a Moda e do criador, suas formas de produção, ou qualquer outro aspecto teórico ou técnico - isso não é colateral e sim um conhecimento prévio do Sistema Moda. Colateral é o conhecimento da marca, dos desfiles, da sua mídia e principalmente das questões ordinárias e corriqueiras que envolvem o ambiente de consumo e que fascinam a todos que se interessam pelo mundo das aparências.15 15 A colateralidade é voltada para relações com o usuário e público alvo, não exige estudo acadêmico ou tecnológico de Moda, se assim não fosse seria impossível uma leitura da Moda pelo público em geral. Para gostar, ler os códigos exteriores e usar Moda não é preciso estudá-la e esmiuçá-la, esse é um outro plano de intuito acadêmico e produtivo, com outros enfoques mais aprofundados que os presentes na Experiência Colateral. Esta afirmação está embasada no parágrafo 179 de Peirce, citado anteriormente (Peirce, 1980:122) 110 Atualmente a informação corriqueira de Moda está em todos os lugares, permeia todos os âmbitos da vida urbana, formando um repertório vasto de estímulos comunicacionais que interferem no entendimento de seu mecanismo. Incluem-se na Experiência Colateral da Moda certos aspectos externos, transmitidos pela mídias, pelo ciberespaço, pelas relações pessoais tanto na vida urbana cotidiana quanto nos ambientes de diversão, nas experiências de compra, no contato direto com a marca ou com a Moda, na participação em desfiles de coleções, na visualização de merchandising em novelas e seriados, e em tantas outras formas de comunicação difíceis de serem classificadas, que dependem diretamente da experiência única do indivíduo e sua exposição ao universo representativo da Moda em outros contextos que estão fora do signo “roupa” apresentado. A Experiência Colateral engloba, enfim, todas as experiências empíricas que possuam informações relevantes de Moda, capturadas e compreendidas pelo indivíduo em determinado espaço e tempo e que, por sua capacidade comunicativa ou mesmo criativa, permanecem retidas na memória pessoal, pronta para suscitar, a qualquer momento, sensações a respeito dos signos que emanam da Moda, a saber, as roupas. É um processo de experimentação, cognição e memória que juntos formam um complexo imprescindível na comunicação de Moda. A questão da Experiência Colateral será aprofundada no capítulo seguinte, onde será abordada a relevância deste elemento semiótico no mundo juvenil e o papel das mídias e do ciberespaço nesta relação. 111 Capítulo 5 O Papel da Experiência Colateral na Eficácia Comunicativa da marca de Moda Jovem 5.1 A vida estetizada Grande parte das manifestações nas quais a marca de Moda se dá a conhecer possuem, antes de tudo, um caráter estético ou intencionam captar o público através da sensibilidade estética. A apreensão dos sentidos e das experiências permanecem envoltas em imagens e sensações sedutoras. A força estética1 das relações entre consumidores, potenciais consumidores e os objetos não é apenas uma percepção superficial de um fenômeno. A partir dos clássicos da Sociologia, Antropologia e das áreas correlatas podemos encontrar já no final do século XIX e início do século XX nos textos de Georg Simmel, Walter Benjamin e Baudelaire pontos relevantes sobre a estetização da vida. Durante as gerações seguintes, a percepção do caráter estético só veio a intensificar–se nos estudos sociais. Guy Debord (1997) sinaliza que o capitalismo atual bem como a sociedade erigida a partir do conceito do espetáculo é marcada pela onipresença e onipotência da imagem, na intensificação da produção de imagens, de maneira que o texto urbano é constituído pelas questões estéticas. Fredric Jameson, seguindo as idéias de Debord, frisa que: “we consume less the thing itself, than its abstract idea, open to all the libidinal investments ingeniously arrayed for us by advertising. Everything in consumer society has taken on aesthetic dimension”.2 (JAMESON, 1990:117). 1 Estética aqui é levada no termo diminuto do conceito, da percepção do belo no senso comum. Não é o conceito amplo de Estética erigido por Peirce. 2 Tradução pessoal: “Nós consumimos menos a coisa em si do que a idéia abstrata aberta a todas as possibilidades de investimento libidinal e endereçadas ingenuamente a nós através da propaganda. Tudo na sociedade de consumo é visto através da dimensão estética.” 113 Pierre Bourdieu (1983:87) afirma que a construção do estilo de vida se dá pela estilização da vida, por meio de um ponto de vista estético em relação aos produtos, onde estes são vistos como obras apreendidas esteticamente, constituídos esteticamente e feitos para serem admirados no seu aspecto espetacular, partindo também de princípios estéticos. Michel Maffesoli (1999:164) chega a citar que vivemos num período de barroquização da vida, excesso de estetização e que a megalópole traz intrinsecamente o supérfluo da aparência. Gilles Lipovetsky (1999:163) mostra que atualmente o mundo do consumo está sob o jugo do estilismo, charme das aparências, aspecto exterior das coisas, valor estético, alegorias, extravagâncias, prazer. Na geração de novos pensadores temos, na mesma direção, Mike Featherstone reforçando a importância da estetização da vida e da estilização do cotidiano na nossa cultura. “Tendências pós-modernas e pós-modernizantes podem ser observadas nos novos espaços urbanos, assinalando uma estetização maior da trama urbana e das vidas diárias das pessoas”. (FEATHERSTONE, 1995:152) Em outro texto, Featherstone (2003:166) diz que, nesta cultura imagética e do estético, tudo está conectado com o libidinoso e desejável, o ponto alto é que neste meio ambiente (enviroment) o próprio corpo vira espaço de exibição, que deve estar exposto nos diversos lugares, da melhor forma. A ênfase no estético aumenta a produção sígnica e a oferta constante de comunicações, com fluxos velozes de signos, saturação de imagens em colagens superpostas umas a outras, mélange, panóplia, numa constelação de códigos inseridos. Nos textos acima citados é possível traçar pontos em comum: o interesse pelo estilo em si e a exploração lúdica das experiências transitórias e dos efeitos estéticos fascinantes na modernidade e na pós-modernidade. As abordagens variam de críticas sobre esta situação - como no caso de Jameson - ou a defesa 114 do ponto da estetização como integrador social - como nos casos de Lipovetsky e Maffesoli. A partir desses pontos de vista, podemos considerar que a Experiência Colateral na Moda é uma forma experiencial que passa obrigatoriamente pelo apelo estético e imagético, sendo erigida em um mundo que está absorvido pela estética e pelas imagens. Uma faixa etária que especialmente se dedica a estilizar e estetizar a vida é a que contempla o adolescente. Suas vidas são verdadeiras obras de arte do cotidiano, sempre com o cuidado de representação e apresentação do “eu”, em busca de novas possibilidades, prontas a alargar e reinventar a identidade pessoal por meio de outras associações imagéticas coletadas em vivências acumuladas por um cenário vasto de experimentações intensas e extremas, onde o pano de fundo é tecido nas tramas da cidade, na colcha de retalhos da mídia e na rede infinita do ciberespaço, onde não há começo nem fim. 5.2 A Experiência Colateral na Eficácia Comunicativa da marca de Moda Jovem Como um conjunto formado pelas experimentações e observações particulares do indivíduo, a Experiência Colateral é o que apreendemos e extraímos de uma massa imensa de informações, que ali se encerram, em uma intersecção feita na mente, com a conectividade de lembranças diversas que se unem a outros relacionamentos e associações pessoais. Nesse processo, o papel do ator social é crucial, é dele - e de suas construções mentais - que advém uma parcela de significação do processo semiótico. Mesmo sem estar falando sobre o tema da Experiência Colateral, encontramos em uma frase de Everardo Rocha uma boa defesa a respeito da experiência e vivência do indivíduo na significação. Em suas palavras: “Esses atores sociais possuem um olhar próximo, íntimo, de compreensão, entendimento e decodificação de todas essas formas de mensagens que foram, afinal de contas, endereçadas 115 para eles. Numa palavra, eles possuem a chave de sua significação podendo perceber e captar estes diversos planos em que ela está cifrada. Mais ainda, podem transformar todos esses planos numa narrativa.” (ROCHA, 2002:99) O ator social, a pessoa para quem se endereça a mensagem, ou mesmo numa linguagem mercadológica o target/público-alvo, é cada vez mais valorizado em novos approaches teóricos que estudam a marca, especialmente no que tange às experiências pessoais e observações particulares. Susan Fournier, em um estudo direcionado às relações entre consumidor e marca, relata que as percepções pessoais do público e suas experiências são decisivas no entendimento da marca e sua preferência. “The context of particular life experiences does more to reveal the dynamics of brand choice and consumption (…) one brand often fits multiple thematic categories for the same or different consumers reveals the fluid and polysemous nature of goal.”3 (FOURNIER, 1998:367) Se o valor da marca depende também dos contatos pessoais, advindos do próprio destinatário, a significação de uma roupa da mesma forma inclui a pessoa do usuário. Barnard (2000:74) ressalta que a idéia do sentido/significado de uma roupa vir apenas da intenção de um designer é errônea ou ao menos inadequada, porque é preciso lembrar que, se esta afirmativa fosse real, não haveria espaço para as interpretações do público e as pessoas estariam desabilitadas a dar sentido ou intenções próprias às roupas. Para que os produtos - e neste caso a Moda - façam sentido e tenham a potencialidade de consumo, precisam ser passíveis de significação no mundo particular de cada pessoa. Por ser individual e entrelaçada por uma rede imensa de conexões particulares - verdadeiras ou não, válidas ou não - a Experiência Tradução Pessoal: “O contexto de experiências particulares da vida faz mais para revelar a dinâmica da escolha de marca e do consumo. (…) uma marca geralmente se encaixa em categorias temáticas múltiplas para os mesmos consumidores ou consumidores diferentes e revela a polissêmica e fluída natureza do assunto ” 3 116 Colateral ajuda a construir o conhecimento sobre os objetos e será diferente de pessoa a pessoa e isso, além de tolerável é imprescindível para o desenvolvimento cognitivo, resultando em um novo e mais apurado conhecimento que refinará a qualidade da interpretação no intérprete. Especificamente tratamos da marca de Moda Jovem, que tem um papel psicológico na vida de seus consumidores e é endereçada à mente. “Produtos são feitos nas fábricas. marcas são feitas nas mentes” (SCWEITZER apud KLEIN, 2004:219) Uma roupa já está pronta a produzir interpretante ou significação em algum nível em seu caráter de interpretante imediato4. O papel da Experiência Colateral é envolver mentalmente uma série de observações, um arsenal de códigos já familiares que fazem com que o intérprete intua muito mais e tenha diversas informações aguçadas a respeito da identidade da marca, agilizando o processo comunicativo. O bombardeio mental que muitas marcas de Moda Jovem realizam com ações de Marketing Viral contribui para a constituição desta Experiência. As marcas “transformam seu conceito em um vírus e enviam-no para a cultura por uma variedade de canais” (KLEIN, 2004:44) e é neste aspecto viral que o jovem também é atingido por informações da marca. 5.2.1 Ação do Interpretante Dinâmico A Experiência Colateral advém do Interpretante Dinâmico ou I.D que está caracterizado pelo intérprete na pessoa do adolescente, em uma espécie de ramificação do nível Lógico deste interpretante, porém para chegar a este ponto é necessário haver anteriormente outros dois níveis de I.D. 4 Quando frisamos a importância da familiaridade com a Moda pela Experiência Colateral não fazemos apologia à possibilidade de ausência de comunicação em uma roupa. Em uma probabilidade remota de não se conhecer nada de Moda é notório que uma roupa em si comunica, ainda que não haja conhecimento da marca, principalmente porque temos contato e relacionamento estreito com todo o sistema do vestuário desde que nascemos. Existe em todas as pessoas ao menos uma familiaridade mínima com a roupa e com o vestir, porém no caso aqui estudado de marca, como símbolo e uma regra, é necessário o conhecimento e a familiaridade prévia com os elementos constitutivos deste complexo sistema. 117 O I.D de nível emocional para o jovem é necessariamente atualizado, posto que esta faixa etária é apaixonada por Moda ou pelo menos pela aparência, estão reconhecidamente em busca da sexualidade, do pertencimento, da sociabilidade e por isso o desejo de ver e ser visto é passagem obrigatória durante o dia a dia. O nível emocional é produzido no momento em que os jovens se vêem vestidos e a partir daí são despertados desejos sexuais, de amizade, de comparação: o interesse emocional pela Moda. O desprezo, ainda que exista, passará pela observação e será fruto de uma sensibilidade presente no nível emocional. No I.D de nível energético está na reação, choque, surpresa, atenção às novas informações que possam aparecer na roupa ou mesmo em relação à marca, o que não é difícil de acontecer posto que a Moda é feita de transformações, mudanças e efemeridade, onde o fundamento roupa apresentase sempre com novidades e diferenciações. O contato energético com as imagens da Moda é o elo entre a emoção primeira e o entendimento/pensamento lógico sobre a roupa em questão. Esse momento não costuma ser muito demorado nos adolescentes. Na terceira fase do I.D, no nível lógico, o adolescente tece suas considerações em relação à imagem Moda ali presente. Nos membros deste grupo o interpretante lógico vem cedo demais, porque eles dominam as regras interpretativas das marcas, como cita Santaella (2005: 48-49). O jovem enxerga nas cores, formas e combinações de uma roupa de marca não só emoções ou existentes particulares de cada estação, mas um suporte de leis, que são interpretadas como tipos gerais, na verdade eles muitas vezes têm uma espécie de prazer em classificar, denominar e designar os pares, distinguir quem é quem no seu grupo, com quem se parecem ou quem aspiram ser.5 5 No anexo deste trabalho coletamos alguns depoimentos dos jovens sobre as marcas no site de relacionamento “Orkut”, numa pequena amostra de como os jovens inferem instantaneamente a respeito dos outros somente pela aparência em uma foto. 118 5.2.2 Consumo redentor Existe um consumo simbólico e classificatório na juventude, em especial nos adolescentes. O consumo conspícuo parece ainda ser de grande importância nesse segmento de mercado, por ser um grupo etário que está sempre preparado a “ler” os sinais representados nas roupas de seus próximos, mais que qualquer outra faixa etária. O papel da roupa é imprescindível e é uma ferramenta social simbólica essencial em seu dia a dia, podendo libertá-los da preocupação com escolhas próprias ou com auto-afirmação. Um dos amálgamas desses grupos está no ato de consumir, das mais diversas formas, numa forma de escape que escamoteia a insegurança e imprevisibilidade em relação ao futuro da geração nascida entre os anos 80 e 90 do século XX. Na lacuna ideológica da vida urbana metropolitana, o apelo frenético pela beleza ganha força, fruto da vaidade exacerbada e do excesso de hedonismo – espaço fértil para o mundo das marcas, que tem vida longa e próspera nesta coorte. O jovem atual é, nas palavras de Maria Rita Kehl, “livre dos freios morais e religiosos e desligado de qualquer discurso tradicional, trazendo a enxurrada de mercadorias essenciais à felicidade”. (KEHL, 2005:92) O branding alcança o jovem e o adolescente em cada canto de sua vida. Como o jovem em São Paulo gasta seu dinheiro 1- Roupas e acessórios 2- Lanches fora de casa 3- Calçados e tênis 4- Guloseimas 5- Barzinhos e danceterias 6- CDs 7- Condução 8- Passeios 9- Material escolar 10-Cinema, teatro e shows Tabela 3: Consumo entre os jovens de São Paulo 119 Fonte: Pesquisa “O adolescente e a sociedade de consumo na cidade de São Paulo realizada pelo Procon-SP e pela UniFMU. Em direção à identificação em grupo, com o intuito de pertencimento, adolescentes buscam estilos de vestimenta e marcas que demonstrem para os semelhantes partes de sua personalidade ou gostos pessoais. A seguir algumas percepções sobre estilos de roupa teen publicados em uma matéria jornalística que pode dar pistas sobre a questão classificatória entre a juventude. Três principais estilos de roupa do mundo teen 1- Patricinha e Mauricinho Com um estilo bem arrumadinho, as patricinhas e os mauricinhos pagam o preço que for para estar impecável, mesmo que seja para uma simples ida à casa de um colega. marcas preferidas: Diesel, Osklen, Guaraná Brasil, Mercearia, Costume, Spezzato, Doc Dog, Daslu, Arezzo, Corello, Nike. 2- Surfistas/Skatistas Na intenção de não parecer tão engomados, mas não deixando de lado a vontade de gastar, os jovens com estilo surfista e skatista buscam roupas mais confortáveis e com cores alegres. marcas preferidas: Billabong, Quiksilver, Reef, Oakley, Mormaii, Rusty, Volcom e Lui lui. 3- Moderninhos e Alternativos Não revelam um estilo fácil de definir. Na verdade, vão do básico ao eclético. Se a febre é ser Emocore eles serão, se no outro dia mudar, lá estão eles vestindose da outra forma. Misturam tendências e não se ligam muito em seguir as ditaduras da Moda. marcas preferidas: Puma, Cavalera, Adidas, Colcci, Zapping, Triton, M. Officcer e outras marcas alternativas. Tabela 4: Principais Estilos de roupas para Adolescentes Fonte: Texto baseado na tabela do site Vitrine 25 de Março. Matéria: Moda prá que te quero? Por Andréia Meneguete. Publicado em 17/04/2006. Link: www.vitrine25demarco.com.br/noticia_detalhe O nome da marca de Moda é quase um sobrenome ideal adotado pelos jovens, sendo que os educadores prioritários para esta atitude estão na mídia. 120 “é incrível. Os garotos lhe dizem que a Nike é a coisa número 1 em suas vidas. A segunda é a namorada” (COOPER, estilista da Nike apud KLEIN, 2004:99) Com os pais mais preocupados com a situação econômica e, numa espécie de círculo vicioso, precisam trabalhar mais para dar melhores condições de consumo para seus filhos, os momentos de lazer e os momentos onde os adolescentes não estão na escola são mediados e controlados pela mídia, que informa e educa para o consumo. Naomi Klein (2004) chama os jovens de “filhos da mídia”, e é no contato com a mídia e com os sofisticados dispositivos de informação que são tecidas muitas das experiências de vida, alargando a esfera da percepção e de intervenção no mundo, bem como a própria representação da realidade, sempre com a intermediação das marcas patrocinadoras. O jovem ainda indeterminado como indivíduo é “um destinatário por excelência das peças publicitárias” (NOVAES e VANNUCHI, 2004:24) 5.3 Mídias de Massa e Ciberespaço como Experiência Colateral Alta exposição à mídia não é assunto apenas teórico, pelo menos há mais de uma década, vemos os resultados e efeitos na prática. A aquisição de informação e mesmo de formação pessoal é feita pela mídia e cada vez mais intensamente nas novas gerações. Na atualidade, pode-se dizer que são as mídias que fornecem o conhecimento a ser partilhado pela humanidade através do conteúdo ali transmitido. O número de mensagens publicitárias e o incentivo ao consumo através da Mídia e de outros acessos é mais insidioso do que muitos de nós pensamos. Conforme Chris Taylor (2001) os adolescentes e jovens recebem aproximadamente 1.500 mensagens comerciais por dia, informação que eles precisam digerir, filtrar e construir uma opinião ou atitude a respeito.6 6 Os dados foram transmitidos por Simon Brown, diretor de pesquisas da MTV Inglesa na época do artigo de Chris Taylor em 2001. 121 Utilizando as mídias é possível atingir o jovem em qualquer lugar do mundo. Dados da Inglaterra (LIVINGSTONE, 2002: 77) mostram que os adolescentes gastam aproximadamente 5 horas por dia com mídia, entre TV, música, vídeos, games, internet, etc. Vive-se em saturação de mídia, numa ascensão midiática irresistível. As horas, minutos e segundos das vidas juvenis são devoradas pelo entretenimento e pelo uso dos meios de comunicação, que se tornam seu próprio meio de existência indispensável. Livingstone ainda conclui que a relação com a mídia difere de pessoa a pessoa e que a combinação das mídias e suas texturas e significados constrói modos diferentes de atitude. 122 como meros canais para a transmissão de informação, sendo os signos que ali circulam os verdadeiros responsáveis que propiciam o surgimento de novos ambientes socioculturais. Santaella frisa que mídias, antes de tudo, são meios, suportes materiais, canais. Por outro lado, a mensagem ali codificada constituise como o grande propulsor e possuidor de sentido na comunicação. Ainda no mesmo texto verificamos que a cibercultura engendra uma busca dispersa, fragmentada, e cria a cultura do acesso, alinear e individualizado, coexistindo no mesmo espaço todas as seis formações culturais e a convergência das mídias. “As novas tecnologias geram modos de participação mais globais que introduzem jovens e adolescentes em uma nova experiência de socialização”. (D’AVILA, 2005:15) A tabela abaixo é uma amostra da influência da mídia como catalizadora de informações para o público jovem no Brasil. Os dados são recentes, de 2005, e as respostas podiam considerar mais de uma fonte de informação. O que vemos é um jovem que capta informações por meio da mídia e pela opinião dos amigos. As instituições de ensino ou a família têm um papel diminuto nesta relação. Fontes e Meios de Informação utilizados pelos(as) jovens Fontes e Meios de Informação Percentual de Jovens Televisão 84,5 Jornais/Revistas escritos 57,1 Rádio 49,0 Amigos(as)/Turma 28,0 Internet 27,0 Familiares 18,0 Colegas da Escola 15,0 Professores 14,4 Outras Fontes 4,4 NS/NO 0,1 Tabela 5: Fontes de Informação utilizadas pelos jovens 123 Fonte: IBASE/POLIS. Pesquisa de opinião Juventude Brasileira e Democracia: participação, esferas e políticas públicas, 2005. As mídias citadas acima serão brevemente apresentadas a seguir. Não abordaremos todas em profundidade, porém faremos um exercício de explanação destes principais acessos comunicacionais e incluiremos o celular também como meio de comunicação, tendo como base os dados do Dossiê Universo Jovem 3 da MTV Brasileira. Um trabalho aprofundado, a partir de dados primários de pesquisa, poderá ser feito em outras oportunidades, com objetivos bem definidos. 5.3.1 TV Diversos estudos mostram que a TV comporta em sua programação uma grande fonte de informação para a juventude. Nas palavras de Edgar Morin: “os 124 doenças terminais. O site do programa tem um espaço opinativo reservado para tratar dos assuntos abordados.10 O sucesso da novela é confirmado pelos dados de pesquisa de audiência. Em Abril de 2006, a direção geral de comercialização da Globo apresentou os seguintes dados: Audiência Território Nacional Índice Share(%) Índice Malhação 33 100 64 100 Prog. B 5 15 9 14 Prog. C 6 18 11 17 Prog. D 2 6 4 6 Tabela 6: Pesquisa Ibope – Programa Malhação Fonte: Ibope/Telereport Abr 06. Disponível em: http://comercial.redeglobo.com.br/programacao_serie/malha3_globox.php Outro fenômeno que merece especial atenção é a MTV, um canal que desde sua inauguração tem como público-alvo o jovem e adolescente. MTV “O estudo do adolescente do Novo Mundo descobriu que o mais significativo fator isolado contribuindo para os gostos compartilhados dos adolescentes de classe média que participaram do levantamento era a televisão, em especial a MTV. 85% chamou a MTV de boletim noticioso para criação de imagens de marca. O sistema de auto-falantes para uma geração (...) em outras palavras a MTV tornou-se o catálogo mais convincente para a moderna vida com grife”. (KLEIN, 2004:145) A MTV começou como o canal musical do jovem, com ênfase na cultura do videoclipe, formado por imagens que possibilitam sentidos e significações polissêmicas. O videoclipe, antes da criação da MTV Brasileira em 1990, era 10 Mais informações em malhacao.globo.com 125 apresentado em pequenos espaços no Fantástico, da Rede Globo, ou como foco de programas de uma hora, como o Clip Trip da TV Gazeta, o Som Pop da TV Cultura e o Super Special da TV Bandeirantes. No início das atividades da MTV, o videoclipe tinha o status de principal atração. O canal exibia videoclipes durante o dia inteiro, organizados em blocos de interesse, como no caso do programa Gás Total, dedicado ao Rock ou mesmo o Disk MTV que apresentava as músicas da parada de sucessos. Embora ainda tenhamos uma imagem idealizada da MTV como canal especialmente voltado aos videoclipes, seu perfil tem mudado consideravelmente com o tempo. Desde o início desta primeira década do século XXI, a emissora tem alinhado sua programação em direções diferentes, investindo em reality shows, freak shows como Jackass, desenhos animados com temas de violência ou crítica social como Beavis e Butthead e South Park e programas de auditório dedicados aos jovens, como o Beija Sapo e o Fica Comigo, entre outros enfoques de diversão que não estão diretamente relacionados com videoclipes. Em dezembro de 2006, a diretoria da MTV composta por André Mantovani e Zico Góes anunciou que irá aposentar o videoclipe de sua programação. 11 A alegação do canal é que o formato de videoclipe está cada vez mais ligado ao mundo digital, pelo fato dos jovens recorrerem a outras mídias para assistir clipes. Essas mudanças estratégicas estão alinhadas com os resultados das pesquisas que o canal realiza com frequência tanto no Brasil como mundialmente. As pesquisas são realizadas para localizar os gostos e interesses dos jovens e podem também facilitar a atuação dos patrocinadores, que precisam ter uma atitude jovial eficiente e uma linguagem adequada para estar em harmonia com o estilo de intervalo proposto pela MTV. Esse intervalo é cuidadosamente elaborado para também ser entretenimento, com vinhetas especiais bem humoradas e muitas vezes non sense, feitas para prender a atenção do público, que tem neste espaço um aprendizado de consumo. 11 Entrevista coletiva realizada para lançar a programação 2007 do canal. Notícia publicada no boletim Meio e Mensagem. Disponível em www.meioemensagem.com.br/novomm/br/ 126 O intuito da MTV é estar completamente inserida na vida do público-alvo, ser absorvida pela porosidade das mentes adolescentes em transformação e em busca de identidade. Outro fator que contribui para o aprendizado de consumo e de estilo de vida transmitido pela MTV é a convergência das mídias proposta pelo canal. A partir de 2007, a MTV Brasil também deixará de ser apenas uma rede de televisão, unindo em seu “guarda-chuva” meios como TV, revista (já existente há alguns anos), site, mobile, rádio e overdrive - um espaço exclusivo da MTV na internet para apresentações multimídia e videoclipes. A união de uma série de meios de comunicação em um mesmo objetivo reforça a importância das diversas mídias para a construção de conhecimento do jovem e denuncia o surgimento dos cyberteens, cidadãos de uma ordem multifacetada de conexões que desafiam as hierarquias lineares de construção de pensamento. É a confirmação plena da convergência das mídias. “Através da digitalização e da compressão de dados todas as mídias podem ser traduzidas, manipuladas, armazenadas, reproduzidas e distribuídas digitalmente, produzindo o fenômeno que vem sendo chamado de convergência das mídias.” (SANTAELLA, acessado em 07/12/06) Em todas as imagens veiculadas na TV, seja na MTV ou em outros canais, existe sempre um fator de Moda, seja nas roupas de VJs, apresentadores ou atores, nas inserções de merchandising, nos patrocínios, nas publicidades, nos eventos de Moda transmitidos, na cobertura de festas ou aparições de celebridades, entre outros tantos investimentos tanto de Moda quanto de marca. Direta e indiretamente a TV educa para a Moda e para o comportamento social. 5.3.2 Internet O papel da internet é essencial para o adolescente deste início de século. Suas vidas estão enraizadas no ciberespaço, ali realizam trocas de experiências e adquirem conhecimentos dos mais variados em “dimensões inéditas, 127 desenvolvimento de novas funções, novos planos de existência virtualmente trazidos pela inovação técnica”. (LEVY, 2003:207) A existência do jovem, além de física, passa a ser virtual, idealizada e banhada por um universo de signos evanescentes. Especialmente o adolescente é “um usuário em estado de prontidão, conectando-se entre nós e nexos, atravessando rotas multilineares, multiseqüenciais e labirínticas que ele próprio ajuda a construir ao interagir com os nós entre textos, imagens, documentações, músicas, vídeos etc.” (SANTAELLA, acessado em 07/12/06). Há um universo de garotos e garotas que esticam seus braços para tirarem fotos alternativas e estilosas no interior de seus quartos ou em locais que estão sozinhos. Querem encontrar seu melhor ângulo, que crie essa segunda identidade cool, multifacetada. A facilidade da câmera digital e sua utilização no ciberespaço para divulgação de imagens criou um segundo narcisismo, fabricado, digital, fantasioso. Eles registram sua imagem para partilhá-la na rede para amigos reais e amigos que eles possuem somente na Internet. Segundo a jornalista Larissa Coldibeli, “basta um dia sem internet para ficar por fora do que rolou na balada do fim de semana. (...) É no mundo virtual que acontece praticamente metade da vida social dos adolescentes.”12 A situação comunicacional juvenil que se desenha neste início de século é absolutamente original, misturam-se e hibridizam-se formas comunicativas irreverentes, coexistem informações das mais diversas e cria-se uma nova existência profundamente marcada pela desterritorialização e um certo enclausuramento no quarto, sentado à frente do monitor ou da TV. Um distanciamento social (no sentido tradicional) que em contrapartida promove aproximações e encontros sociais de uma outra espécie, o adolescente é um flanêur sonâmbulo que prefere muitas vezes conexões virtuais em um primeiro contato, para depois saber quão interessante será o encontro pessoal. “Eu vejo assim: às vezes você quer falar com a pessoa, mas não falar, entende? Não quer que a pessoa responda nada, 12 disponível em “Guia da semana Teen”, acessado em 15 de fevereiro de 2007. link: http://www.guiadasemana.com.br/noticias.asp?/TEEN/SAO_PAULO/&a=1&ID=16&cd_news=240 82&cd_city=1 128 nem você sabe o que vai falar depois se ela responder, sei lá… Então por isso que é muito bom, você ter o torpedo, ou o MSN, porque você pode matar aquela vontade de falar sem ter que conversar, sem ter que ficar na frente da pessoa… que é mais difícil ainda… Então coisas que você nem pensava em dizer, você diz, porque agora tem como…” (Dossiê MTV3, 2005:26 – depoimento de um entrevistado do sexo masculino do Rio de Janeiro, classe A) 76% dos adolescentes de 15 a 18 anos acessam a internet segundo o dossiê MTV3. A pesquisa ainda revela que a internet mudou para melhor a forma de relacionamento com os amigos para 51% da amostra; deu maior liberdade para tratar assuntos delicados para 51%; trouxe a possibilidade de novas amizades apenas por meios virtuais a 50%; abriu espaço para possíveis mentiras on-line para 48% e facilitou a comunicação com os amigos para 39%. A base de dados é composta pelo total de pessoas que acessam a internet na amostra de pesquisa (fonte: Dossiê MTV3; 2005: 26). Dentre as possibilidades comunicativas existentes na Internet, as principais para o público adolescente são: Blog e Fotolog O Blog ou Webblog é um espaço aberto para as idéias dos internautas e registros freqüentes de informação. Os Fotologs são voltados à publicação de fotos pessoais. Os jovens entre 15 e 17 anos, são os mais envolvidos com este tipo de comunicação. De acordo com o Dossiê, 67% conhecem Blogs e 62% Fotologs; 17% declaram possuir um Fotolog ou Blog e 36% visitam habitualmente. (Dossiê MTV3; 2005: 29) No começo de 2007 a febre dos Blogs e Fotologs foi o impulso para a nova campanha da marca Melissa, dedicada principalmente ao universo Teen. Ao verificar a popularidade deste meio de comunicação entre os adolescentes, os estrategistas de comunicação da marca foram à busca dos blogs e fotologs mais chamativos e bem acessados no Brasil e, a partir desta análise, escolheram quatro garotas famosas no mundo virtual e praticamente desconhecidas no mundo real, chamadas de “Goldies” para serem as protagonistas da Campanha 129 “Create Yourself”, começando as ações de divulgação no SPFW Inverno/2007. A idéia foi um sucesso e continuará com comerciais, anúncios e divulgação permanente no site da marca.13 Vídeos Compartilhados e You Tube Para muitos adolescentes a televisão começa a dar seus primeiros sinais demodè, algo ultrapassado se comparado com o hipertexto e com o mundo cyber, muito mais interativo e multi-tarefa. Até mesmo a atividade de zapping para encontrar um programa interessante na TV, tão comentada há alguns anos atrás como sendo uma das principais características juvenis já é antiquada e entediosa. Hoje, em benefício da escolha pessoal do que ver, fazer e ouvir, conta-se com um dispositivo eletrônico mais avançado - o computador - que habilita o usuário a concomitantemente ver um vídeo, ouvir uma música, acessar um site, verificar mensagens, conferir o prazo de entrega de trabalhos escolares, procurar assuntos interessantes no google, conversar com o namorado, entre tantas possibilidades sem interrupções bruscas, em real time e com um leque infinito de escolhas. Nesse comportamento multi-tarefa e de escolhas inumeráveis o papel da televisão tem sido substituído pelos vídeos compartilhados em You Tube ou mesmo em sites de meios de comunicação tradicionais, como é o caso do Overdrive da MTV. O You Tube é um programa gratuito de compartilhamento de vídeos que permite que seus usuários publiquem vídeos e assistam a vídeos publicados por outros usuários. O sucesso do You Tube, que foi fundado em fevereiro de 2005, fez com que o site fosse considerado pela revista Time a invenção do ano de 2006.14 No meio adolescente o You Tube é responsável por boa parte do tempo gasto na internet, ali eles têm a oportunidade de assistir pequenos vídeos profissionais, clips, programas de TV exibidos anteriormente - o que é impossível 13 para maiores informações acessar www.createyourself.com.br Link: http://www.time.com/time/2006/techguide/bestinventions/inventions/youtube.html acessado em fevereiro de 2007. 14 130 O correio eletrônico ou e-mail é uma forma de comunicação de acesso seguro e fácil, com uma linguagem mais formal que a dos demais recursos disponíveis atualmente. Segundo a pesquisa da MTV, o e-mail ganha relevância para marcar encontros, agendar reuniões de trabalhos escolares e envio de arquivos e fotos. Do total da amostra, 84% enviam e recebem e-mails habitualmente. (Dossiê MTV3; 2005: 29). Por meio do sistema de e-mail é possível também receber e-mail marketing de diversas marcas de Moda e spams a respeito de Moda ou assuntos correlatos. Nesses acessos é possível também construir um conhecimento de marca. Sites Atualmente grande parte das marcas de Moda Jovem, se não for exagero falar em sua totalidade, possui um site empresarial, que apresenta o estilo e conceito da marca, suas coleções atuais e anteriores - tendo em alguns casos substituído os catálogos impressos pela maneira virtual de apresentação – endereços de lojas, espaço para a opinião dos usuários nos blogs oficiais e tantas outras conexões ali possibilitadas que aprimoram o conhecimento da marca geralmente para os mais aficcionados pelo tema Moda. O complexo existente na Internet, como as funções aqui colocadas entre outras formas comunicacionais disponíveis no ciberespaço, proporcionam uma série infinita de contatos e experiências com a Moda e com a marca, educando para o consumo e principalmente definindo uma atitude perante a vida na fase adolescente. 5.3.3 Celulares Se nas gerações anteriores o telefone fixo era um importante instrumento de comunicação entre os adolescentes, onde eram feitas declarações, confissões e conversas das mais diversas, hoje seu espaço foi substituído pelo celular, em que já não mais existe a angústia de intermediários na comunicação, com a vantagem de ser personalizado e acompanhar o proprietário em qualquer lugar. 132 “Acha que eu vou ligar na casa, dizer boa noite para pai, mandar chamar?… Eu não, nem penso mais nisso, se você quer falar com alguém liga pra esse alguém, não pra casa dele”. (Dossiê MTV3, 2005:27 depoimento de entrevistado na fase qualitativa) Em um só aparelho é possível ter agenda de telefones, identificador de chamada, jogos, acesso à internet, envio e recebimento de e-mails, câmeras fotográficas e de vídeo, ringtones e músicas, envio de torpedos, gravador de voz e som, calendário, despertador, protetor de tela, chat, acesso ao Messenger, entre outras facilidades. No Brasil a utilização dos celulares cresceu vertiginosamente de 1999 a 2005. Segundo os dados do Dossiê MTV3 (2005:10) de acordo com a Anatel, em 2004 o número de celulares cresceu 41,5% em comparação com o ano anterior e atualmente no Distrito Federal já existe um celular por habitante. Em janeiro de 2005 o Brasil chegou ao número de 66,6 milhões de celulares, o que significa 36,16 aparelhos para cada 100 habitantes. Um número considerável. Na amostra da pesquisa realizada pela MTV, o celular é usado essencialmente para fazer ligações (96%) e enviar mensagem de texto (79%) porém as funções de jogos, baixar música/ringtones, baixar protetor de tela, email e acesso à internet já são hábitos expressivos, que crescem quanto menor a idade. (Dossiê MTV3, 2005:27) Estes números sobre a utilização do aparelho celular demostram que sua forma comunicacional tem absorvido novas possibilidades antes impossíveis nos telefones fixos e o espaço para intenções publicitárias tem estado cada vez mais aberto. Um fator interessante em relação ao celular é que o investimento publicitário das empresas inseridas neste mercado está geralmente linkado ao conceito da Moda. Empresas de telecomunicação como Tim, Vivo e Claro investem pesadamente em eventos de Moda como o São Paulo Fashion Week, Fashion Rio ou eventos regionais de menor porte. No mesmo sentido, fabricantes de dispositivos de telecomunicação como a Nokia, Samsung ou Motorola também possuem apelo constante para a Moda, vinculando a modernidade de seus aparelhos aos conceitos antes exclusivos à Moda. 133 O adolescente que quer sempre trocar de celular e estar em dia com as novidades telecomunicacionais, é o mesmo jovem que é apaixonado por Moda e por marcas de Moda. 5.3.4 Revistas Durante as décadas de 80 e 90 as revistas teen foram essenciais para o universo adolescente, principalmente do sexo feminino. Com o crescimento da Internet este relacionamento mudou consideravelmente, porém as revistas segmentadas para o público adolescente ainda possuem certa influência na construção de identidade. Os temas abordados são sempre ligados ao jornalismo soft, como denomina Candiani (2000) confundindo jornalismo com publicidade, por tratarem de temas que podem sempre estar atrelados a anúncios ou informes publicitários. Os assuntos circulam em torno do estilo de vida adolescente, vida das celebridades, moda, lançamentos musicais, beleza, sexualidade, viagens, diversão, astrologia e testes de comportamento. As principais revistas do segmento são Capricho e Atrevida. Segundo Teixeira (2002) a revista Capricho representa, sozinha, 13% da circulação de títulos femininos no mercado nacional, onde são destinados 60% em páginas de editoriais e matérias e 40% para publicidade, o que reforça ainda mais a questão do apelo ao consumo nesta mídia. Atenta à linha de convergência das mídias, a revista Capricho criou um site atrativo na Internet com espaços especiais para as assinantes, que podem acessar diversos links exclusivos que aprimoram o relacionamento com o conteúdo proposto pela editoria. É possível participar de fóruns, ler mensagens postadas em blogs e acessar o espaço interativo chamado “República das Meninas”, uma espécie de casa com cômodos distintos que tratam de um assunto específico patrocinado por marcas voltadas ao universo jovem. Um dos espaços da República, chamado ateliê, é dedicado exclusivamente à Moda e neste local é possível encontrar dicas de customização, como é a vida de uma modelo, o que está nas passarelas, textos de Thais Losso (estilista muito 134 conhecida e com criações voltadas a jovens e adolescentes), referências aos cursos de Moda e editoriais com tendências.15 O assunto Moda e o universo que a envolve além de ser tema de interesse cotidiano para a leitora, como a forma de se vestir no dia a dia ou em festas e eventos, passou ao status de interesse de estudo universitário. Segundo uma pesquisa realizada pela Capricho, em amostra de 797 meninas, somente 3% disseram nunca ter pensado em cursar moda como opção no vestibular e 45% afirmaram que moda é a primeira opção na lista de possibilidades.16 Atenta à febre “Moda” no meio feminino adolescente, a revista Atrevida da Editora Símbolo lançou um título dedicado especialmente ao tema. A circulação mensal da nova revista teve início em setembro de 2006, sob o nome “Atrevida Fashion”. Conforme o departamento comercial da revista, o perfil de suas leitoras é de “jovens consumidoras, vaidosas e que adoram estar na moda”. Alguns dados 135 de games, revistas de variedades como TRIP e TPM, onde se verifica sempre algum apelo a Moda e consumo de marcas de Moda. 5.3.5 Rádio O Rádio geralmente é um acompanhante dos jovens nos momentos em que estão realizando outras atividades como estudo, deslocamentos (escola – casa), exercícios esportivos, entre outros. Os horários de maior audiência geralmente estão localizados no início da manhã, horário de almoço - em que se costuma transmitir programas humorísticos - e final de tarde, nos programas de novidades musicais. Por se tratar de um meio que explora a audição e não tanto a visualidade, não possui influência direta nas relações com a Moda. A sensibilidade para a Moda é exposta em spots, jingles, patrocínios de programas, comentários de entrevistados ou mesmo através de uma imagem idealizada ou memorizada dos cantores e grupos musicais que ali são apresentados. Segundo o último IBOPE consultado - Setembro a Novembro de 2006 na cidade de São Paulo e Grande São Paulo - a rádio com maior audiência é a TUPI FM, que possui programação sertaneja/romântica, seguida pela Transcontinental com programação direcionada ao Pagode. Em terceiro lugar permanece a Nativa FM de programação Sertaneja e com outros estilos de música popular, como forró. A primeira rádio dedicada exclusivamente ao público jovem encontrada na pesquisa é a Mix FM, em 4o lugar. Sua programação enfoca músicas pop e rock, nacionais e internacionais. No mesmo perfil segue a rádio Jovem Pan 2 em 6 o lugar. 5.3.6 Jornais O jornal não é considerado um meio de grande penetração no público jovem, que costuma receber as informações por meio eletrônicos ou por mídias impressas segmentadas, como é o caso das revistas. O destaque para o meio 136 jornal é dado ao suplemento juvenil Folhateen, do jornal Folha de São Paulo, em formato tablóide de 12 páginas, todas coloridas, que circula semanalmente, às segundas-feiras, desde 1991. Segundo Gomes (2003), o Folhateen é voltado especialmente aos assuntos relacionados à música jovem, com atenção às bandas em destaque, o que sugere para o leitor um produto diferenciado, especialmente dedicado ao público-alvo de15 à 18 anos. Semelhantemente ao Rádio, o Jornal - especialmente no caso do público jovem - acaba trazendo contatos indiretos com a Moda, menos incisivos, mas que influenciam em determinado grau os leitores desta mídia. 5.3.7 Relevância das Mídias Para apresentar as mídias descritas acima e a relevância de cada uma na vida dos jovens da coorte nascida no final dos anos 80 e início dos anos 90, apresentamos a seguir um esquema desenvolvido pela MTV brasileira. Tabela 8: “Perceptual Map” – Meios de Comunicação. Fonte: Dossiê Universo Jovem MTV4 2005 Conforme o Perceptual Map, vemos que a TV e a Internet são as formas de aquisição de informação, diversão e lazer mais influentes e indispensáveis, com uma linguagem jovem e de grande interesse para a coorte atual. As revistas 137 e jornais, a cada dia que passa, reduzem sua influência, enquanto o rádio e o celular são caracterizados como companheiros inseparáveis. Em todos esses meios de comunicação circulam mensagens de Moda de forma enfática ou branda, que paulatinamente criam experiências externas relacionadas ao signo roupa e que constróem na memória de jovens e adolescentes conceitos de marca e certas atitudes de Moda que se concretizam em consumo posterior. Em relação à mídia e especialmente ao Ciberespaço, os adolescentes são a faixa etária pertencente à juventude que consome mais produtos relacionados e é mais influenciada pelos apelos midiáticos. Para o Dossiê MTV3, quanto menor a idade do jovem maior é a posse de produtos e “gadgets” tecnológicos como webcams, MP3, celulares, câmeras digitais, bem como o próprio computador. Os contatos externos e constantes com a Moda não se encerram na dependência da mídia e do ciberespaço, existem também conexões em outros acessos intermináveis que contribuem para a construção da Experiência Colateral na marca de Moda Jovem. 5.4 Outros acessos intermináveis Além das mídias tradicionais e chamadas comumente de Meios de Comunicação de Massa, o jovem recebe outros fermentos comunicacionais de marca, residentes em espaços e itinerários incomuns, em uma cadeia polissêmica flutuante. Na corrida em prol da expressividade de cada marca, suas vidas podem ser resumidamente caracterizadas pelo código 24/7 (McDOUGAL e CHANTREY, 2004). O código 24/7 designa uma geração disponível a incursões comunicativas e abertas a relações de consumo durante 24 horas por dia e 7 dias por semana. No sentido 24/7 vivenciado ocorre a expansão inquieta das intenções comunicativas. 138 Vemos certos signos ambulantes que a todo tempo transitam nas ruas e invadem as mentes, de forma profusa e ilimitada, a toda hora, por canais estimulantes que incitam o consumo. Mesmo as exterioridades, que parecem banais, concentram em seu bojo uma sucessão de imagens para além das fronteiras da roupa nos muitos fios que inter-relacionam Moda e público-alvo, por efeitos que emanam e geram impactos e sensações de marca. É no acúmulo interminável de informações nas mais diversas possibilidades que reside parte do denso caldo da Experiência Colateral. Os jovens “vêem-se mergulhados simultaneamente a um sem número de contextos culturais e redes de relações sociais preexistentes dos quais selecionam e hierarquizam valores e ideais, estéticas e modas, formas de relacionamento e convivência.” (D’AVILA, 2005:15) Na emergência de signos e no “travelling incessante que a megalópole nos propõe” (MAFESOLLI, 1999: 167) constitui-se um arcabouço de significados que são instaurados nas mentes dos adolescentes e jovens, transformando o modo de enxergar e entender as imagens contemporâneas. São “mil perspectivas, conceitos líquidos que não emergem somente dos fluxos intermináveis: eles deslizam em virtude das pessoas (entities) que pertencem a contextos muito variáveis que estão explorando e produzindo novos territórios comunicacionais.” (CANEVACCI, 2005: 159) O jovem “rodeia-se de sons, vozes, imagens e que, navegando nas arquiteturas fluídas do espaço informacional adquire potencialmente condições de trazer o planeta para dentro de seu espaço privado. (...) significa trafegar na densa floresta de signos de uma cultura da multiplicidade, do diversificado, dos fluxos e deslocamentos, das metamorfoses imprevisíveis.” (SANTAELLA, Link: http://www.videobrasil.org.br/14/port/cult.pdf acessado em 07/12/06) 139 A partir desta realidade, as marcas de Moda começaram a aplicar o conceito de Marketing de Guerrilha17 (OSGERBY, 2004:5), uma política de iniciativas diversas e geralmente não convencionais que atingem o público de forma criativa. Além dos catálogos, desfiles tradicionais, pôsters, outdoors e mídias de grande formato, incluem-se adesivos, divulgação da marca em discotecas e casas noturnas, ações promocionais inusitadas, patrocínio em eventos, performances, realização de campeonatos de esportes radicais, concursos culturais, criação de rádios piratas - como foi o caso da Diesel em alguns paises - e outras formas de comunicação da marca de Moda que contém uma quantidade exponencial e mesmo explosiva de informações, dotadas de certos elementos distintivos que permanecem fixos na memória juvenil. Na corrida para dotar de sentidos uma comunicação de Moda, algumas marcas também expõem suas roupas - especialmente aquelas que possuem o logotipo visível - no corpo de celebridades. Um caso bem conhecido comentado por Paul Smith (1997), é o da marca Tommy Hilfiger que preferiu não explorar o aspecto publicitário convencional, investindo na visibilidade de sua marca em pessoas de alta performance, verdadeiros trendsetters que deixariam a imagem da empresa visível nas páginas jornalísticas das colunas sociais. 5.4.1 O Shopping Um espaço decisivo nas experiências de marca e que contribui na construção cognitiva do adolescente é o próprio Shopping. “Uma coisa é certa: os shoppings são o espaço de grande interesse cognitivo, sobre as mudanças do consumo e a dupla valorização (econômica + estilo de vida) do consumo atual.” (CANEVACCI, 2005:127). O Shopping é o lugar mais freqüentado pelo jovem brasileiro que vive nas regiões metropolitanas, em todas as classes sociais, conforme os dados apresentados pelo instituto IBASE/POLIS: 17 O conceito do MKT de Guerrilha foi criado por Jay C. Levinson, no início dos anos 80 e é usado por pequenas e grandes empresas de diversos segmentos, incluindo a Moda. 140 Lugares mais frequentados por jovens das regiões Metropolitanas* Lugares Total Classes A/B Classe C Classe D/E Shoppings 69,2 82,4 72,3 53,8 Cinemas 51,2 75,0 52,4 29,3 Parques e Praças 47,8 50,9 46,2 47,8 Teatros 15,1 24,6 14,0 8,8 Centros Culturais 13,7 20,3 13,3 8,6 Museus 11,6 17,7 11,4 7,2 Nenhum desses lugares 13,1 6,4 10,8 22,2 NS/NO 0,8 0,4 0,9 1,0 Tabela 9: Lugares mais freqüentados por jovens das regiões Metropolitanas. Fonte: Pesquisa Juventude Brasileira e Democracia: Participação, esferas e políticas públicas (IBASE/PÓLIS, 2005). In: Relatório Global Juventude Brasileira e Democracia: participação, esferas e políticas públicas, 2006:34 O Shopping, que sempre foi considerado a “Catedral do Consumo”, é o grande ponto de encontro dos adolescentes. Para os pertencentes das classes A/B constitui-se um lugar seguro, onde eles podem circular e se divertir sem o perigo das ruas. Os pais buscam seus filhos com todo o conforto dos estacionamentos ou pontos de embarque e desembarque de clientes e no interior dos Shoppings eles podem se divertir de diversas formas: cinema, brinquedos eletrônicos, danceterias, etc., garantindo momentos de lazer e consumo seguro. Já para os adolescentes das classes C/D/E é um lugar freqüentado geralmente por outros motivos, especialmente por ser um espaço lúdico com entrada gratuita, onde eles podem passear sem ter que gastar necessariamente. Este grupo passa horas trafegando pelos ambientes dos Shoppings sem poderem consumir, mas são bombardeados com mensagens de marcas e apelo ao consumo. O Shopping, pelo que observamos no cotidiano, tornou-se a praça dessa geração e seu principal ponto-de-encontro: um verdadeiro parque de diversões de acesso facilitado. No Brasil não é difícil perceber a “horda” de jovens de todas as classes transitando pelos shoppings, em especial nos finais de semana. O 141 adolescente gasta grande parte de suas energias andando nos corredores dos shoppings e esta atividade constitui-se como um importante lazer, que vai estar sempre mediado pelo apelo das marcas, em uma espécie de diversão atrelada às compras que gera uma concepção lúdica da vida intermediada constantemente pelos objetos e pela própria Moda. John Fiske (1989) trata da invasão dos jovens nos shoppings como sendo um fenômeno importante de congregação entre os adolescentes que não podem trabalhar e querem ter momentos de lazer descompromissado. É neste caminhar pelos corredores dos Shoppings que são criadas diversas conexões e conhecimentos de marca, na observação das cenas e vitrines das lojas. Na verificação do papel do Shopping e do ponto-de-venda nas experiências de marca, muitas empresas preocupadas com o branding investem pesadamente em programação visual, em especial para poder diferenciar seu espaço de vendas de tantas outras marcas concorrentes e presentes no mesmo local (muitas vezes como vizinhas). Um exemplo é a marca espanhola Zara, que conforme Alvarez (2000) investe apenas 0,3% de seu faturamento em publicidade, durante ações de liquidação, direcionando grande parte de seu budget para a decoração dos pontos de venda e para o planejamento de novas filiais, instaladas em locais estratégicos. Especialmente nas marcas voltadas ao público jovem, um exemplo de ponto de venda bem pensado é o da marca Colcci. Suas lojas assemelham-se a discotecas, em um ambiente totalmente lúdico e criativo, que desperta sentimentos positivos para o público-alvo durante o contato com as peças de Moda. 5.4.2 Acessos em rizoma Em meio a tantos acessos e incursões conclui-se que uma comunicação eficaz para esta geração deve ter caráter de fluxo e acúmulo, em espécie rizomática, conceito de Guattari e Deleuze. Num rizoma “cadeias semióticas de toda natureza são aí conectadas a modos de codificação muito diversos, (...) colocando 142 em jogo não somente regimes de signos diferentes, mas também estatutos de estado de coisas (...) Um rizoma conecta um ponto qualquer com outro ponto qualquer e cada um dos seus traços não remete necessariamente a traços da mesma natureza; ele põe em jogo regimes de signos muito diferentes, inclusive estados de nãosignos. (...) Não é feito de unidades, mas de dimensões (...) a árvore impõe o verbo ser, mas o rizoma tem como tecido a conjunção e...e...e. É tudo ao mesmo tempo, em um processo cognitivo rápido e de difícil congelamento, até mesmo imperceptível porque liga com a memória. O rizoma tem sempre múltiplas entradas”. (DELEUZE e GUATTARI, 1995:15, 22, 32) A marca é dilatada na galáxia mental, numa atividade intensa que torna impraticável definir o princípio e origem da Experiência Colateral com a marca de Moda Jovem, bem como seu fim. Uma investigação que penetre em todas as avassaladoras experiências é impossível, por tratar-se de uma sequência espiralada, sem encadeamento lógico, rascunhada, inclusiva e apta para novas inserções. A Experiência Colateral reside no ramo do cognoscível, em uma série de memórias curtas e longas em que: “o pensamento não é arborescente e o cérebro não é uma matéria enraizada nem ramificada. (...) o salto de cada mensagem por cima destas fendas fazem do cérebro uma multiplicidade que, no seu plano de consistência ou em sua articulação, banha todo um sistema probabilístico incerto” (DELEUZE e GUATTARI, 1995: 25) Caracteriza-se como um complexo de pensamento da marca, que inclui as formas de sentir diferentes de cada pessoa, conforme a experiência pessoal única que extrai das relações gerais e comuns uma particularidade específica e múltipla. 143 5.5 A memória Todos os acessos, familiaridades e experiências que compõem a Experiência Colateral na eficácia comunicativa da marca de Moda Jovem permanecem armazenadas na memória. É no espaço da mente que se reproduzem lembranças, reminiscências e certas recordações a respeito de uma marca. A memória e os processos mentais de pensamento são decisivos para o Marketing e conseqüentemente para a Moda Comercial, que utiliza das ferramentas de publicidade para atingir seu público. A área de pesquisa dedicada ao Marketing e publicidade comumente utiliza o termo Recall para as lembranças de marca na mente do público alvo ou mesmo das pessoas em geral. O Recall ou recordação é um teste empírico que designa a habilidade de uma determinada pessoa em relação à lembrança de uma marca ou de publicidades específicas, bem como a recordação de percepções passadas e o nível de armazenamento de informações que contribuem para futuras intenções de compra. Estudos psicológicos, comportamentais e pesquisas médicas têm dedicado seus esforços científicos para buscar respostas e mesmo novas questões em relação à memória e à mente. O enfoque é descobrir como as marcas permanecem na mente do indivíduo e como evitar o esquecimento das mensagens publicitárias ou os esforços comunicacionais. Daniel Schacter, professor de psicologia da Universidade de Harvard, dedica seus estudos para assuntos relacionados à memória. Entre seus livros publicados estão: Searching for Memory: The Brain, the Mind, and the Past (1996) e The Seven Sins of Memory: How the Mind Forgets and Remembers (2001). Este último foi utilizado em um artigo de Marketing escrito por Larry Percy (2002), professor da Copenhagen Business School. No artigo, Percy desenvolve o tema da memória para ações comunicacionais e de Marketing, bem como os fatores que podem dificultar a memorização de marcas, chamando o fenômeno de “os sete pecados da memorização de marca”. 144 Conforme o autor, uma memória de marca pode ser dificultada por fatores como rotina diária, ou seja, um público com a rotina de assistir a TV sempre no mesmo horário pode resultar em perda de parte da relevância das mensagens ali inscritas, por estarem associadas a baixos níveis de atividade do córtex préfrontal. Outro fator relaciona-se ao problema do esquecimento de partes das mensagens: o receptor lembra da marca sem necessariamente recordar-se de todos os aspectos que a envolvem. Podem ocorrer falhas de memória advindas de stress ou excesso de atividades, criação de confusão mental em relação a marcas, ao fazer menção a uma determinada marca e na realidade estar pensando em outra; bloqueios mentais em ações que exigem memória; instabilidade do que está guardado na memória e outras questões que abrangem o tema e aumentam a complexidade da lembrança de marca. Para Percy uma das únicas formas de construir-se uma imagem forte de marca, devido aos inúmeros problemas relacionados à memória particular de cada pessoa, é através de múltiplos acessos e diversos esforços de comunicação criativos e exclusivos a uma determinada marca, ou seja, no acúmulo de acessos que constituem a experiência colateral. Em suas palavras: “Memories for objects and experiences are decomposed into a number of different parts and those parts are stored in various areas of the brain, waiting to be reassembled and 'remembered'. (…) This suggests the need to have copy (and packaging as well as other marketing communication) unique to a brand in order to avoid connections in memory that could minimize or override the desired brand-related memory.” 18 (PERCY, 2002). 18 Tradução pessoal: As memórias para os objetos e experiências são decompostas em um número de peças diferentes que estão armazenadas em várias áreas do cérebro, esperando para serem remontadas e “recordadas”. (…) Isto sugere a necessidade de ter uma cópia empacotada com outras ações comunicativas de marketing que sejam únicas à marca, a fim de evitar conexões errôneas que poderiam minimizar ou cancelar a memória exata e relacionada à marca.” 145 Recentemente, a área da medicina também apresentou dados a respeito do impacto das marcas nas mentes dos consumidores. Os avanços científicos na área neurológica demonstram que é plausível medir o impacto das marcas nas mentes dos consumidores, bem como emoções inconscientes e decisões advindas desta relação. “A revolutionary approach to brand equity and management, called Brain Branding, is presented. Case studies show how brand management strategies can directly benefit from brain imaging's ability to measure a brand's impact on consumers, providing not merely new actionable metrics but a new language for emotional branding, offering new validations for brand management and measures of marketing.” 19 (QUARTZ e ASP:2005) Em Novembro de 2006, a Radiological Society of North America (RSNA), durante seu encontro anual em Chicago, num dos maiores eventos relacionados a questões científicas de Medicina, lançou um press release com resultados de uma pesquisa que apresenta dados referentes ao funcionamento do cérebro quando submetido a imagens de marca ou a visualização de logotipos famosos. Pelo ineditismo do tema e por ser voltado ao mercado consumidor, gerou certo frisson em diversos jornais, tanto científicos como comerciais, que lançaram matérias a respeito. As informações que serão aqui transmitidas foram retiradas do portal de notícias BBC News, Washington Post (por E.J. Mundell) e Wall Street Journal (por Kevin Helliker), todos publicados em 28 de novembro de 2006. A pesquisa em questão, realizada por uma equipe da Universidade Ludwig Maximilians, de Munique (Alemanha) foi liderada pela Dra. radiologista Christine Born e utilizou como amostra 20 pessoas saudáveis, homens e mulheres, com idade entre de 27 e 28 anos e com alto nível cultural, escolhidos 19 Tradução pessoal: “Uma abordagem revolucionária para o Brand Equity e a gerência de marcas, chamada Brain Branding, é apresentada ao mercado. Estudos de caso mostram como as estratégias de gerenciamento de marca podem diretamente se beneficiar das imagens construídas na mente e assim medir o impacto de uma marca nos consumidores, fornecendo não apenas métricas e números, mas uma nova linguagem para o Emotional Branding, oferecendo novos conceitos para o gerenciamento de marcas e decisões de marketing.” 146 especialmente para desmistificar a idéia comumente proposta que mensagens de marca são mais suscetíveis em pessoas com menor grau de instrução. Os voluntários foram submetidos a um exame radiológico de Ressonância Magnética chamado fMRI - functional magnetic ressonance imaging - em que a atividade neurólogica foi assistida em tempo real para tornar mais clara a forma de funcionamento cerebral a partir de estímulos de marca. No momento do exame foram apresentados logotipos de marcas de automóveis famosas e outras marcas menos conhecidas, bem como marcas de empresas de seguros no mesmo propósito20. Os resultados demonstraram que marcas mais conhecidas acessam áreas cerebrais do córtex que envolvem emoções positivas e de auto-identificação, além de necessitarem de menos esforços mentais, por já estarem fixadas e por isso são facilmente reconhecidas. Em entrevista concedida a Kevin Helliker do Wall Street Journal, a Dra. Christine Born comentou: “this suggests that the stronger brands were "more fixed in the brain" and "perceived more easily"21, já no caso de marcas “fracas” exige-se um maior trabalho cerebral e geralmente é possível que más recordações venham a tona por existir uma atividade cerebral difusa que dispende muita energia. No caso de marcas fracas o pensamento recorre principalmente a partes situadas no lado direito do cérebro, que segundo a pesquisadora envolvem emoções negativas e mesmo um certo conflito de mensagens. O recente estudo da Universidade Ludwig Maximilians foi realizado no bojo das ciências biológicas em uma área específica denominada neuroeconomics e sugere que a importância de uma marca tem sido fortemente influenciada pelos aspectos cognitivos e cerebrais do consumidor exposto às comunicações das mais variadas formas. 20 É importante ressaltar que na Alemanha, país em que foi desenvolvida a pesquisa, o mercado automobilístico e de seguros detém grande importância econômica e provavelmente por este motivo foram os segmentos de produtos escolhidos. 21 Tradução pessoal: “ isto sugere que as marcas fortes estão mais fixadas no cérebro e são mais facilmente acessadas.” 147 Em ambos os resultados apresentados – de marcas fortes e fracas que estavam armazenadas na mente dos voluntários no momento da pesquisa – vemos claramente o aspecto emocional com que o indivíduo se relaciona com as marcas, seja de forma positiva ou negativa, o que evidencia a carga emotiva construída pelos contatos externos realizados pela experiência colateral, bem como os contatos e experiências reais com o signo em questão, no caso um carro ou um serviço de seguros efetuado, que poderiam tranqüilamente serem adaptados para a relação adolescente-roupa. Os estudos que contemplam a área de neuroeconomics e Brain Branding, citados acima, esmiúçam todo o sistema complexo cerebral existente e relacionado às emoções e armazenamento de mensagens na memória, através de pesquisas científicas avançadas que só são plausíveis por meio de um grupo de pesquisadores experientes em diversas áreas correlatas que esteja reunido no objetivo de entender os processamentos cerebrais no relacionamento com as marcas. O conceito peirceano da experiência colateral, da cognição e percepção humana pode contribuir no desenvolvimento do tema, trazendo para o campo de pesquisa noções abrangentes sobre o funcionamento dos signos e sua rede complexa de conexões e determinações, que apuram detalhadamente o processo de pensamento, lembrando sempre que toda a arquitetura semiótica de Peirce foi construída com o intuito de apresentar uma teoria sígnica do conhecimento, como indica Santaella (1994) e conseqüentemente buscar o entendimento do pensamento humano, que vive ao redor de signos, comunicase através de signos e cria novos signos para garantir sua sobrevivência. 148 Considerações Finais A configuração contemporânea da adolescência, no ritmo informacional 24/7, faz com que pensemos em seus atores como indivíduos cuja extensão de vida transcende o físico e adentra no virtual, convergindo mídias, ciberespaço, ambientes lúdicos de consumo e tantos outros encontros, que apresentam a potencialidade de uma nova práxis experencial e perceptual. Retomando a análise da sustentação da marca de Moda Jovem, vinculada à relevância das mídias e à dominância da cibercultura, verificamos que os argumentos da Experiência Colateral de Charles Sanders Peirce são decisivos na Moda. É a familiaridade constituída pelo arcabouço cultural, armazenado na memória, diante da quantidade enorme de informação recebida, no excesso de intervenções instantâneas e ininterruptas dos meios de comunicação. O ato de vestir, ou a preferência por determinadas roupas e estilos, não se apresenta apenas como uma solução ou possibilidade com fins de proteção, pudor e até mesmo com funções simplificadas de embelezamento, antes, representa a ampla esfera de representação social, num mundo de observadores e observados. Seu espaço legítimo é maximizado, clamando por intervenções comunicacionais, numa relação sem fronteiras no que tange à significação. A influência das novas tecnologias e a interatividade por elas permitida fornece uma visão do público jovem enriquecedora para o campo da Moda, pelo fato de tratar diretamente da dimensão do consumo desta coorte, que é praticamente impossibilitada de viver sem os mídia, seus signos, seus conteúdos e referências, que acabam por moldar grande parte de sua postura perante a vida, definindo muitos de seus traços essenciais. A visualização dos aspectos comunicacionais presentes no universo adolescente, pode alterar a compreensão do papel da Moda e da aparência no contexto em que vivemos. A riqueza de experiências presentes nestes ambientes demonstram leituras plurais, que interferem na apreensão dos 150 códigos de vestimenta pelos indivíduos de 14 a 18 anos e podem influenciar suas escolhas futuras. Os contextos em que esses jovens estão inseridos são completamente diferentes: seus modos de olhar, o foco de sua atenção e o arranjo das preferências pessoais referenciam, constantemente, padrões implícitos no conteúdo das mensagens midiáticas, catalisadas diariamente, juntando-se ao arcabouço pessoal. Tal percurso, movido pela evidência do acúmulo de textos publicitários diretos ou indiretos, demonstra que a abordagem utilizada, contemplando diversos aspectos do pensamento, da memória e do próprio Recall de marcas de Moda na mente do público-alvo é de grande valia, constitui-se um significativo campo de estudo comportamental, envolvendo o conjunto de estudos relacionados ao marketing, psicologia e neurologia. A complementação pela via da teoria semiótica peirceana deve ser considerada em conjunto inseparável: de um lado a perspectiva da tríade sígnica e de outro as questões relacionadas à cognição e à familiaridade prévia com o sistema, a saber a experiência colateral. Articular respostas assertivas e definições exatas nesse campo é impossível, pelo fato da experiência colateral ser construída também a partir das experiências pessoais e únicas de cada indivíduo, com o complexo sistema simbólico presente nos átomos da vida cotidiana, onde interferem desejos particulares, instintos, necessidades e aspirações sociais, na singularidade sistemática de cada ente. O percurso aqui seguido teve a intenção de traçar as primeiras linhas a respeito de uma área pouco estudada e que clama por novas incursões, face às dimensões contidas no denso sistema da experiência humana. A contribuição deste trabalho foi instigar a reflexão, e colocar em pauta, para possíveis análises, a questão da mídia e da cibercultura na relação Moda – marca – adolescente. Os primeiros passos do pensamento teórico a respeito do armazenamento dos contatos com a marca de Moda, a partir da teoria peirceana, foram definidos 151 Referências Bibliográficas AAKER, D. 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Resposta de Marcus em 19/11/05 Caro???ainda eh barato viu, uma camisa de qualidade como as da cavaleras ser 80 reais.. rapaz... sai da comunidade entao seu pobre... vai comprar roupa na C&A Comentário de Giovane 16/12/2006 Senão fosse relativamente caro, não faria sucesso. O q a maioria quer é aparecer pq a ropinha é cara.. Poucos ligam pro q ela e se ela representa algo. A parada perde as qualidades pra virar sonho de consumo.. Tamires, ñ sei onde vc mora, respeito sua opinião, mas aki no RJ existem diversas marcas que fazem o msm estilo brincalhão, sacástico e cheio de trocadilhos como a Cavalera. Só não são famosas sabe.. E cada vez mais vo partir pra essa sabe.. O frisson acabou qdo o kra deixou de falar " q blusa foda! " pra comentar " Blusa da cavalera, deve ter sido X reais " Pra quem realmente não acha uma blusa que custa 1/3 do salário mínimo de um país CARA, só lamento. é muita vontade de achar que é rico. Comentário de Bruna – 10/01/2006 Putz acho essa uma discussão sem fundamento... Pq na verdade vc n compra uma blusa.. vc compra uma marca E pow eh caro tanto qt outras roupas de marca, ate pq se fosse barato ngm iria querer comprar... pq as pessoas se vestiriam iguais. Eh um pensamento mt fútil,, mas eh isso Tópico: Cavalera, Collci, Zapping ou Triton??? Resposta de Caio em 22/10/2004 Cavalera, Colcci, Zapping ou Triton? 166 hmmm abriram esse tópico lá na comunidade da Colcci... E achei que seria interessante fazer o mesmo aqui. Então. Em ordem de preferência, o que vocês gostam mais e o por quê? Pra mim... O top list fica: 1º lugar- Colcci (é perfeita. 1ª sem dúvidas. Nem preciso explicar... É minha grife do coração. Amo tudo que a Colcci faz, apesar de não ter gostado muito da última coleção, a Road Riders) 2º lugar- Cavalera (Fica pau a pau com a Colcci para mim... Mas a modelagem é a que faz ficar em 2º. A P fica gigante em mim e não sou pequeno) 3º lugar- Zapping (ahhhh muito boa... Mas os acessórios me chamam mais atenção do que as blusas ou calças) 4º lugar- Triton (Só gosto das calças... Eu acho as blusas da Triton caras demais e muito simples para cobrarem o preço q cobram) (po axei bem legal esse tópico pq eu axu qi o publico dessas lojas eh mais ou menos o msm.eu adoro todas essas, pq saum bem estilosas) Resposta de Bruno em 19/11/05 sei lá Olha eu acho que a Cavalera é melhor, a Colcci tem muito nome pelos patrocinios e comerciais que recebem da MTV, que muitas pessoas assistem, por isso cresceu tanto eu acho. Resposta de M. Em 19/11/05 Os colcci-maníacos que me desculpem, mas a Cavalera seleciona melhor; por exemplo, pra quem presa pela individualidade e originalidade, como eu, fica difícil sair vestindo colcci e não esbarrar em álguem com a mesma peça. A Cavalera, por ser mais cara (nem sei se há tanta diferença de preço) com certeza caracteriza um estilo único. E by the way, pq a Colcci massifica tanto os looks? As peças são muito parecidas. Resposta de Denis em 28/11/05 167 AFF..sem qrer ser chato? acho colcci uma imitaçao barata da cavalera.. colcci tem um stilo pop...normal..sem graça.. cavalera eh bem + style.. e sobre o material...pra mim os dois usam o msmo...só cavalera sabe fzer um pano virar roupa de mark...colcci n : P hsauhs Comentário de Claudinha em 12/12/05 DEPOIMENTO DE UMA VENDEDORA.! só quem realmente trabalhou ou trabalhou nas 2marcas eh q vai saber responder direito ou quem compra direto as 2 pra saber qual vai se desgastar primeiro!trabalhei 2anos com a marca CAVALERA,tive varias blusas e calcas ...a marca por ser descontraida,engracada,faz com q vc se apaixone...mas tem UM (ou vários)porem:ela nao dura NADA!o silk sai com facilidade e se vc tiver aquelas blusinhas bonitinhas com estampas coloridas furta cor nao comprem!elas na 1lavagem saem e a blusa fica com a aparencia de q foi usada varias vezes,sem contar com as camisas masculinas q ficam TORTAS.blusas brancas ou claras com detalhes vermelhos NEM PENSAR!a cor vermelha da cavalera migra pra clara e olha q eu ja fiz varias analises!!!hj eu estou trabalhando na COLCCI(pra quem trabalhou na cavalera sabe q a colcci eh uma eterna rival!)e olha,estou bestificada com a qualidade e com a seriedade q eles dao a peça e com o cliente.o tecido eh especialmente elaborado pela MENEGOTI(q tem uma parceria de tecidos com a colcci)as peças sao feito analise com todas e isso eh pra gente q eh vendedor saber q o q o cliente esta comprando eh de fato bom.isso nos da uma maior confianca pra vender.resumindo,a COLCCI sem dúvida eh melhor.gosto do estilo irreverente da CAVALERA(amo o estilo deles)porem a COLCCI eh legal e eh melhor! Obs: Lembrar que a Colcci era uma marca que vendia apenas roupas baratas e de repente virou marca, há pouco tempo mudou isso... COMUNIDADE VIDE BULA (acessado em 27/09/2006) – 17.521 membros na data 168 Tópico: Por que vc gosta das roupas Vide Bula? Resposta de Guilherme em 19/07/04 Acho que gosto das roupas da Vide Bula por que quase todas as coleções são ligadas com problemas sociais, política, temas polêmicos em geral. Muitas das estampas não são apenas um desenho bonito e sem sentido. Muitas passam mensagens, e mensagens proveitavéis. Sempre engajada com assuntos diversos, eu acho que é isso que mais admiro na marca: moda consciente. COMUNIDADE ZAPPING (acessado em 27/09/2006) – 13.556 membros na data Tópico Cavalera ou Zapping? Resposta de Diguinho em 15/09/06 CAVALERA SEM DUVIDA...ZAPPING E ZOOMP QUE SAO DA MESMA FABRICA JA TAO FORA DA MODA A ANOS POR CAUSA DA MESMICE... Tópico: Zapping esqueceu suas origens Comentário de Iulo em 5/5/06 o que, na verdade, não me diz nada de bom! e como eu já havia dito em algum tópico aqui, vale reforçar: coleção nova sem graça e sem vida. nada conceitual, extremamente comercial quer vender? beleza! vai vender igual feira, mas onde fica a moda nessa história toda? tragam a thais de volta; o público zapping agradece :) 169 TÓPICO: Qual marca a pessoa acima tem a cara? Humm.. 24/8/2005 20:26 Luana Cavalera 25/8/2005 05:18 gata, vc tem stilo e atitud... nasceu pra vestir Cavalera... Rafael 25/8/2005 06:18 Versace ☆ [DiegÖ] hum... 25/8/2005 13:09 Vc eh bem a cara da Cavalera msm...acertei?! Luana 26/8/2005 09:26 tvz colcci...coca cola... Victor VOLCOM 26/8/2005 12:49 Tem cara de skatista ! Jorge Hierro ellus 26/8/2005 14:42 hhahua tah meio longe mais vai ellus ... Bernardo ¬¬ 26/8/2005 15:12 cOlcci .. ?!! ___yAsm!ne ☆ 26/8/2005 16:43 Colcci.. com ctz! ♥ღ ..Andressa 170 colcci 28/8/2005 07:43 certo? Márcio Goddini 28/8/2005 07:52 rip curl Geraldo 28/8/2005 07:53 rip curl Geraldo 28/8/2005 08:26 se lah, maha talvez! Vanessa 28/8/2005 08:31 zapping =] Olívia 28/8/2005 08:34 Colcci Dragon axo que 28/8/2005 09:18 DISRITMIA Ádamo humm.. 28/8/2005 09:24 Axo q colcci! Luana Sei não... 28/8/2005 09:39 Não sei... Mas ficaria linda de qualquer jeito...hehe Eu falaria DocDog, Colcci e Zapping... Kadu coca cola 28/8/2005 11:05 neh naum?? 171 Geraldo 28/8/2005 11:08 cavalera! Carolza o_o' ellus 28/8/2005 12:10 Até... Alexandre maha / psico street 28/8/2005 12:18 coisas bem street wear, skate... Alessandro Disritmia 30/8/2005 21:29 Sera? ☆ [DiegÖ] M.Officer 30/8/2005 22:23 Po,com certeza ele uma M.Officer! Danilo HUMMM 30/8/2005 22:30 COLCCI e CAVALEIRA :D Carol tvz... 31/8/2005 04:23 Alexandre Herchcovitch, slam, amp... Victor pel estilão dá para citar: 31/8/2005 05:53 lacoste e osklen... Alessandro hering.... 31/8/2005 10:29 como nas fotos soh tinha uma camiseta, foi a primeira coisa que veio na cabeça... Eliseu 172 Livros Grátis ( http://www.livrosgratis.com.br ) Milhares de Livros para Download: Baixar livros de Administração Baixar livros de Agronomia Baixar livros de Arquitetura Baixar livros de Artes Baixar livros de Astronomia Baixar livros de Biologia Geral Baixar livros de Ciência da Computação Baixar livros de Ciência da Informação Baixar livros de Ciência Política Baixar livros de Ciências da Saúde Baixar livros de Comunicação Baixar livros do Conselho Nacional de Educação - CNE Baixar livros de Defesa civil Baixar livros de Direito Baixar livros de Direitos humanos Baixar livros de Economia Baixar livros de Economia Doméstica Baixar livros de Educação Baixar livros de Educação - Trânsito Baixar livros de Educação Física Baixar livros de Engenharia Aeroespacial Baixar livros de Farmácia Baixar livros de Filosofia Baixar livros de Física Baixar livros de Geociências Baixar livros de Geografia Baixar livros de História Baixar livros de Línguas Baixar livros de Literatura Baixar livros de Literatura de Cordel Baixar livros de Literatura Infantil Baixar livros de Matemática Baixar livros de Medicina Baixar livros de Medicina Veterinária Baixar livros de Meio Ambiente Baixar livros de Meteorologia Baixar Monografias e TCC Baixar livros Multidisciplinar Baixar livros de Música Baixar livros de Psicologia Baixar livros de Química Baixar livros de Saúde Coletiva Baixar livros de Serviço Social Baixar livros de Sociologia Baixar livros de Teologia Baixar livros de Trabalho Baixar livros de Turismo