EDITORIAL
A
o longo de sua obra, Lacan buscou tecer uma série de articulações
entre os conceitos freudianos e outros campos do conhecimento.
Assim, diversas disciplinas - como a lingüística, a antropologia e a
filosofia – propiciaram valiosas interlocuções e contribuições ao campo da
psicanálise.
Nessa direção, a partir dos anos de 1961 e 1962, no seminário sobre
a identificação, tem início o diálogo com a topologia, o qual irá ocupar uma
grande proporção e ganhar fundamental importância no ensino de Lacan.
Com freqüência, a densidade e a complexidade dessa interface propicia uma
posição resistencial àqueles que se dedicam ao estudo da psicanálise. O
efeito de tal resistência é de que uma extensa parte da obra lacaniana, que
abrange mais de uma década de seu seminário, seja pouco explorada e
conhecida.
A seção temática desse número está composta por um conjunto de
textos que se articulam em torno da topologia e, principalmente, do seminário de Lacan dos anos 1966 e 1967, intitulado “A lógica do fantasma”.
O estudo e discussão dos seminários de Lacan é central na transmissão de seu ensino. Retornar a eles tem sido uma preocupação sistemática
do Correio da APPOA. Em edições anteriores, já tivemos oportunidade de
propiciar este debate que, com este número, mais uma vez ganha o espaço
de nossas páginas
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SEMINÁRIO: O DIVÃ E A TELA
CONVERGENCIA
O próximo “O divã e a tela” traz para a discussão “Os
sonhadores”, trabalho mais recente de Bernardo Bertolucci exibido no Brasil. Com elementos referenciais da filmografia do diretor, o filme possibilita
uma discussão a respeito da paixão pelo cinema servindo de suporte para
um outro olhar sobre os acontecimentos de maio de 68. Entre os tópicos que
abordam a subjetividade contemporânea podemos citar qual o lugar que é
dado ao pai e a função paterna para os jovens que escreveram “é proibido
proibir” e jouissez sen entraves. O que permite um diálogo comparativo com
a posição paterna apontada por Bergman em “Saraband”.
Nos dias 21 a 23 de junho, aconteceu em Paris a reunião do Comitê
de Enlace Geral de Convergencia, movimento lacaniano para a psicanálise
freudiana. Foram três dias de trabalho (em que estiveram representadas 31
das instituições que integram o movimento1) sobre os rumos do movimento e
sobre a articulação de trabalho comum, em especial o próximo Congresso
Internacional.
Após longa discussão, sempre tendo em mente garantir condições
para a transmissão da psicanálise e evitar a fragmentação do movimento
lacaniano internacional, a deliberação sobre o projeo dos próximos grandes
Congressos resultou do seguinte modo:
Filme: “Os sonhadores” de Bernardo Bertolucci
Data: 10 de agosto, quarta-feira às 19h30min.
Local: Sede da APPOA
Coord: Enéas de Souza e Robson Pereira
TESOURARIA
A Associação Psicanalítica de Porto Alegre informa que, a partir do
mês de agosto, haverá um acréscimo nas mensalidades de membros, participantes e Percurso de Escola em função da inflação acumulada no último
ano. Seguem, abaixo, os novos valores:
·Congresso em Paris – 1 a 4 de fevereiro de 2007
·Congresso em Buenos Aires – 24 a 26 de julho de 2008
O tema provável para o próximo Congresso é “comunicar a experiência”.
Além dos trabalhos durante os encontros maiores, têm acontecido
jornadas e cartéis interinstitucionais, dos quais se pode saber mais no site
www.convergenciafreudlacan.org
Ingressam em Convergencia duas instituições, a saber: Centre
Psychanalytique de Chengdu, da China e L’Acte Psychanalytique, da Bélgica.
Marta Pedó
CATEGORIA
VALOR R$
Membros
Membros Correspondentes
Participantes
Percurso de Escola
165,00
220,00*
121,00
185,00
1
12 francesas, 13 argentinas, 8 brasileiras, 3 italianas, 1 norte-americana, 1 equatoriana, 1
uruguaia, 1 mexicana, 1 chinesa, 1 belga.
* Valor anual.
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COLÓQUIO EM PARIS
Entre 24 e 26 de junho, seguindo-se ao trabalho da Comissão de
Enlace Geral, aconteceu o Colóquio internacional “Efeitos de Significante e
Violência Política”. O debate foi em torno do assunto anunciado no título e
incrementado pela constatação dos movimentos estatais para a regulamentação da prática psicanalítica a nível mundial.
Dentre os trabalhos, Allain Didier-Weill falou sobre “A Psicanálise e
os direitos do homem”; Isidoro Vegh questionou o “Sujeito da política”; PaulLaurent Assoun trouxe elementos para um diálogo sobre a psicanálise hoje;
Robert Lévy trabalhou sobre a prática psicanalítica na irredutibilidade do ato
(singular) e Paola Mieli trouxe idéias em torno de violência, democaria e laço
social.
A política – seja ela idealista ou fanática – é relativa à “boa forma”, ao
vislumbre do “bom” (P. L. Assoun). No contrato social contemporâneo, na
busca do bem comum e do ideal de igualdade, a heterogeneidade da alteridade
fica excluída, pois sua própria presença rompe esse laço social, diz Robert
Lévy. A conseqüência dessa exclusão do que é diferente é de que o sujeito
“se perde”, no sentido de que se torna hetero, heterogêneo ao ideal igualitário da democracia política.
Junto com isso tudo vai ainda a política “correta” e seus corolários
que, em países como a América do Norte, ganha força com a religião. Em
meio a um debate que não nos é estranho, G. Pommier aponta o sujeito do
inconsciente como o sujeito político, o sujeito da pólis, imerso no laço social. Fica, no final, a impressão de um debate já conhecido, desde preocupações com as quais temos trabalhado também aqui, mas também o interesse
em pensar sobre as possibilidades de intervenção da psicanálise e em que
modo.
Marta Pedó
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CICLO DE DEBATES
MACHADO DE ASSIS NA CULTURA
PSICANÁLISE E LITERATURA
O conto “O Alienista” é o tema da edição de agosto do ciclo de debates sobre a obra de Machado de Assis, promovido pela APPOA, Instituto de
Letras da UFRGS e Livraria Cultura. Para falar sobre essa obra, que satiriza
a ciência psiquiátrica quando investida de poder absoluto sobre uma cidade
inteira, foram convidados o psicanalista Abrão Slavutzky e o professor de
literatura Sérgio Fischer. O personagem-título do conto, o doutor Simão
Bacamarte, estudioso e cientista obcecado, representa a ciência como senhora absoluta da verdade e como fator de explicação das frustrações humanas.
A programação segue até outubro, sempre na última quinta-feira de
cada mês, e já tem confirmadas as presenças de Ana Costa, Flávio Loureiro
Chaves.
Data: 25 de agosto, quinta-feira
Hora: 20 horas
Local: Livraria Cultura de Porto Alegre
Palestrantes: Abrão Slavutzky e Sérgio Fischer
Entrada Franca
EXERCÍCIOS CLÍNICOS
Prescrição de Psicofármacos: A Intersecção da Clínica
Psiquiátrica e Psicanalítica
Data: 13 de agosto, sábado, às 10h
Local: Sede da APPOA
Apresentadores: Adão Luiz Lopes da Costa, Luis Roberto Dorneles
Benia e Nilson Sibemberg
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JORNADA DO PERCURSO VI
NOVIDADES DA BIBLIOTECA/JULHO 2005
“QUANDO A PRÁXIS FAZ QUESTÃO:
CARTOGRAFIAS DE UM PERCURSO”
É com satisfação que passamos a divulgar as novidades da biblioteca
no Correio da APPOA. Lembramos que esse mesmo informativo é enviado a
todos que participam da APPOA por e-mail.
Nesse mês a biblioteca adquiriu alguns livros da bibliografia básica de
Lacan e também livros que foram sugeridos na Mesa Diretiva. Essa aquisição está, com certeza, enriquecendo ainda mais nosso acervo. Aproveitamos também para divulgar as revistas que recebemos por permuta e por
doação.
Agradecemos todas as doações recebidas e lembramos que a biblioteca se encontra sempre a sua disposição.
A jornada, realizada no dia 2 de julho, realmente fez jus ao título que
portava. Durante um dia inteiro de trabalho, pudemos testemunhar alguns
dos efeitos produzidos pelo encontro com a psicanálise naqueles que fizeram do Percurso de Escola da APPOA uma etapa de sua trajetória.
Cada qual, a sua maneira, tratou de se ocupar dos interrogantes suscitados pela psicanálise a sua prática cotidiana, fosse ela clínica, pedagógica, institucional, etc. Mais uma vez pudemos ver que a psicanálise não se
restringe ao trabalho privado dos consultórios. Mais do que isso, ela não se
define pelo lugar onde o discurso psicanalítico é exercido, e sim pela ética
que o sustenta.
Certamente, ocasião de orgulho para aqueles que participaram, de
alguma forma, desse percurso. Contudo, também momento que nos remete
à pergunta: o que é mesmo que se transmite? O que é que passa de um a
outro?
Sabemos que não é algo que possa ser positivado, como um saber,
por exemplo; mas, antes, algo da ordem de uma perda. Perda de gozo corporal, de mestria, quando, por exemplo, se atribui ao outro um saber no seu
próprio dizer.
Portanto, essa jornada sinaliza, ao mesmo tempo, o fim de uma etapa
da trajetória de formação de cada um e a abertura a outras, tal como a
inserção do trabalho e da produção na instituição.
Valéria Machado Rilho
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LIVROS:
1.BERLINCK, Manoel Tosta (org.). Obsessiva neurose. São Paulo:
Escuta, 2005. (Biblioteca de psicopatologia fundamental).
2.LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
3.LACAN, Jacques. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
4.DIDIER-WEILL, Alain. Os três tempos da lei: o mandamento
siderante, a injunção do supereu e a invocação musiacal. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1997.
5.KEHL, Maria Rita. Ressentimento. 6.ed. São Paulo: Casa do psicólogo, 2004. (Clínica Psicanalítica).
6.CALLIGARIS, Contardo. Cartas a um jovem terapeuta: Reflexões
para psicoterapeutas aspirantes e curiosos. 6.ed. Rio de Janeiro: Alegro,
2004. 155 p
7.LACAN, Jacques. Le séminaire livre XXIII: Le sinthome. Paris: Du
seuil, 2005. XXIII.
8.GORI, Orlando. Lógica das paixões. Rio de Janeiro: Campo
Matêmico, 2004.
9.ECO, Humberto. História da beleza. Rio de Janeiro: Record, 2004.
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10.BRADBURY, Ray. Fahrenheit 451. São Paulo: Globo, 2003.
11.SOUSA, Edson. Freud. São Paulo: Abril, 2005. (Coleção para saber mais).
PERIÓDICOS:
1.Revista Brasileira de Psicanálise. São Paulo: Associação Brasileira
de psicanálise, v.38, n.4, p.781-784. dez./2004.
SUMÁRIO: Junqueira Filho, Luiz Carlos Uchôa. Alteropoese: sobre a
gênese da ideogramaticização no trabalho-onírico-alfa. Sampaio, Camila
Pedral. Freud e a literatura: fronteiras e atravessamentos. Engel, Jaques
Vieira. Reflexões sobre a natureza e a função da interpretação: a questão
das interpretações inconscientes. Migliavacca, Eva Maria. A dimensão trágica do psiquismo: um ensaio. Marques, Thaís Helena Thomé. Conjeturando a
expressão dos estados mentais primitivos na relação analítica. Mota, Regina Lúcia Braga. A clínica do vazio: novas exigências para o psicanalista.
Gálvez, Manuel José. A paciência na elaboração psicanalítica. Fagundes,
José Otávio. O homem de alma oxidada. Fleming, Manuela. No limiar do
pensável: intolerância à frustação, pensamento e dor mental. Almeida, Roberto
Santoro. Freud e Ésquilo: uma visão psicanalística ds relações da tragédia
grega com o desenvolvimento da civilização.
2. Mudancas: Psicologia da Saude. São Paulo: UMESP, v.12, n.2.
jul.-dez./2004. 227-460 p
SUMÁRIO: Dimenstein, Magda; Vasconcelos, Ana Karina de Freitas;
Leitão, Monique. Stress infanto-juvenil e vivência de rua . Granato, Tania Mara
Marques; Aiello-Vaisberg, Tânia Maria José. Tecendo a pesquisa clínica em
narrativas psicanalíticas. Romero-Rodriguez, Ana Cecília. Relações objetais
e equilíbrio psíquico em adolescentes gestantes e sexualmente ativas.
Coimbra, Maria Célia Crepschi. Contamo-nos histórias para nos dizer verdades. Armony, Nahman. Boderline e espaço potencial winnicottiano. Hara,
Raquel Naomi; Priszkulnik, Léia. Obesidade na criança: algumas considerações. Gavião, Ana Clara D.; Costa, Frederico S.J.; Oliveira, Ana Cristina de
O.A. de; Nascimento, Rosemeire Aparecida; Lúcia, Mara Cristina S. de;
Arap, Sami. Escuta psicanalítica no setting hospitalar: o procedimento de
desenhos-estórias como intermediador.
3.Revista lationoamericana de Psicopatologia fundamental. São Paulo: Escuta, v.8, n.2, jun./2005. 392 p
SUMÁRIO: Ávila, Lazslo Antonio. Um modelo para representar o
“irrepresentado” na mente. Ferreira, Ademir Pacelli. A construção do caso
clínico na internação psiquiátrica: uma direção para o plano terapêutico. Kuhn,
Roland. Psicofarmacologia e análise existencial. Marcantonio, Aurélio
Palmeiro da Fontoura. Um estudo sobre a somatose infantil em paciente
portador de leucemia. Moro, Marie Rose. Os ingredientes da parentalidade.
Quintella, Rogério Robbe. Psicossomática: historicidade ou atualidade? Saurí,
Jorge J. A contrução do conceito de neurose (II) Nosologia e neurose. Silva,
Martinho B.B. Responsabilidade e reforma psiquiátrica brasileira: sobre a
relação entre saberes e políticas no campo da saúde mental. Entrevista a
Mônica Teixeira: a crítica à reforma psiquiátrica, da sua implantação e de
seus fundamentos – os argumentos de Valentim Gentil. Facchinetti, Cristiana;
Venancio, Ana Teresa A. “Gentes provindas de outras terras” – ciência psiquiátrica, imigração e nação brasileira. Moreira, Juliano. A seleção individual
de imigrantes no programa da higiene mental.
4.Latitudes. Paris: Association Cahiers lusophones, v.23, avril/2005.
103 p
SUMÁRIO:
Debs, Sylvie. presence du cinéma brésilien en France. Munoz, MarieClaude. Etudians brésiliens: le choix de la France. Bleil, Susana. Le
mouvement des sans terre. Álvaro, Egídio. Artistes brésiliens en France.
Santiago, Jorge P.. Musique brésiliense. Machado, Vladimir. A fotografia na
pintura da Batalha do Avahí(Paraguai) de Pedro Américo. Viallard, Monique.
La communauté afro-brésilienne du golfe du bénin. Entrevista de Daniel
Lacerda. Dois doutorandos brasileiros em Paris. Aboab, Denis. Isaac Aboad
da Fonseca, premier Rabin des Amériques. Mira, Feliciano de. Notas do
Índico, a propósito do 25 de abril em Moçambique. Rodrigues, Urbano Tavares.
Sarabanda de luzes e sombras.
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SEÇÃO TEMÁTICA
VÍDEOS:
1. Brasil, Ângela. Cleptomania. Porto Alegre: TVCOM - Falando Abertamente, abr./2005.
2. Rilho, Valeria. Pessoas que trocam o dia pela noite. Porto Alegre:
TVE (Programa Radar), jul./2005.
3. Brasil, Ângela ; Tavares, Eda. Documentário Extremo Sul. Porto
Alegre: TVCOM - Falando Abertamente, Jun../2005.
NÚCLEO DE PSICANÁLISE DE CRIANÇAS
Por intervir no período da vida em que o sujeito atravessa os processos cruciais de sua constituição, a psicanálise de crianças delimita um conjunto de particularidades, as quais têm levantado uma série de questões
àqueles que a ela tem se dedicado. Além disso, são inúmeras as disciplinas
que se dedicam ao trabalho com a infância e que dirigem à psicanálise interrogações relativas a sua prática.
Na APPOA, tem sido permanente o trabalho em torno das questões
levantadas pela prática analítica com crianças e pelas articulações
interdisciplinares feitas a partir dela. O núcleo de psicanálise de crianças da
APPOA se propõe como um espaço sistemático para o desdobramento dessas interrogações, a partir do estudo e discussão das especificidades levantadas pelo trabalho psicanalítico com a infância.
As reuniões acontecerão com freqüência mensal, sábados pela manhã. O primeiro encontro será no dia 27 de agosto, das 10h às 12h, quando
trabalharemos em torno da leitura e discussão de um texto a ser em breve
divulgado. As reuniões são abertas e destinam-se a todos os que se sintam
concernidos pela clínica psicanalítica com crianças.
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“Eu vou partir de uma questão idiota que me foi
colocada – eu adoro os idiotas e as idiotas... O que eu
chamo de idiota é natural: um idiotismo é algo natural,
simples e muito freqüentemente ligado à situação. A pessoa nunca tinha aberto meu livro e me perguntava: qual é o
laço entre seus Escritos?”
L
acan acabara de publicar os “Escritos” quando pronunciou a frase aci
ma. Talvez ele tenha se irritado com a pergunta, mas ela o fez pensar,
tanto que se esforçou para respondê-la, durante o seminário La logique
du fantasme, lição de 16/12/66: “o que me parece fazer o laço, não do meu
ensino, mas entre meus Escritos, para qualquer um que vá abri-los, é da
ordem do que se chama de identidade – que cada um está no direito de se
relacionar com eles para aplicá-los a si mesmo”
Da mesma forma, quando se ouve uma notícia, ou uma estória, ou
quando se conta uma, a maneira de abordar é única, passa por um filtro
próprio. Este filtro é tecido pela rede de significantes de cada um. Os acontecimentos “reais” contribuem, junto com a sensibilidade, a imaginação e a
forma pessoal para organizar estes elementos. A lógica do fantasma passa
pela identificação, mas vai além: reúne o real, o imaginário e o simbólico em
uma articulação única.
“Por que logo agora que estou grávida existem tantas mulheres grávidas?”, perguntou uma paciente. “Provavelmente pelo mesmo motivo de que
quando se compra um carro azul parece que todos também resolveram fazêlo!” Sejam os escritos, as observações, as notícias, a história de uma vida,
todos têm uma coisa em comum. E essa “coisa” é quem os está lendo,
vendo, escutando... Uma mesma estória pode ser contada infinitas vezes
sem se repetir. A cada nova versão, ela pode retornar de um outro jeito,
incluindo ou subtraindo elementos. Tudo articulado inconscientemente, por
essa estranha relação entre o sujeito e seu desejo.
A lógica do fantasma foi desenvolvida no seminário de Lacan de 1966/
67, e em 2004 foi tema do Seminário de Verão da Associação Lacaniana
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SEÇÃO TEMÁTICA
VÍCTORA, L. G. O conceito de fantasma...
O CONCEITO DE FANTASMA NA OBRA DE LACAN
Internacional, em Paris. Nesta seção temática apresentamos algumas produções que consideramos importantes no debate sobre este tema tão
instigante.
Nossos agradecimentos a todos os que contribuíram com esta edição.
Ligia Gomes Víctora
Marcia Helena de Menezes Ribeiro
Ligia Gomes Víctora
E
m francês, conforme o dicionário Le Petit Robert, existem vários ter
mos para designar os frutos da imaginação. Entre outros:
1) fantasme ou phantasme (do latim phantasma) – produção imaginária pela qual o eu tenta escapar do domínio da realidade, imaginação, ilusão,
sonho. Um exemplo de uso neste sentido é em “viver de fantasmes”.
2) fantôme – aparição de espíritos, visão sobrenatural de pessoas
mortas. Pode ser usado também com o sentido de imaginação como em
“bater-se contra fantômes”.
3) fantaisie – ostentação, ou quando algo é falso, como em bijouxfantaisie (jóia falsa), mas que também pode ser usado como quimera, desejo, como na expressão “as vãs fantaisies de nossos sonhos”.
4) fantasia – termo oriundo do espanhol fantasia, que se refere ao
quadro de Delacroix (às alegorias dos cavaleiros que faziam demonstrações
e jogos hípicos) e, por analogia, aos divertimentos barulhentos de crianças
ou adultos, acompanhados por gritos de alegria1.
5) fantasmagorie – arte de fazer aparecer figuras através da ilusão de
ótica, na moda no século XIX. Usada também no sentido de ilusão, como em
“o medo é uma fantasmagorie do demônio”.
Lacan empregou todos estes termos, ao longo de sua obra, mas foi
pouco a pouco construindo o que entendemos hoje como conceito de fantasma. 2 Nos seus primeiros seminários, como veremos a seguir, parece que o
termo fantasme foi utilizado mais com o sentido de desejo.
1
Estranho Lacan não ter ligado este termo ao krawall do Pequeno Hans – o barulhento ruído
das patas dos cavalos – que ele mesmo chamou de um “tumulto desordenado”. Esta fantasia
participou do “fantasma fóbico” de Hans (Seminário “A relação de objeto”, lição de 10/04/
1957).
2
Optei, após discussão com colegas que trabalham com tradução francês-português (ver
nota no final deste texto), por traduzir fantasme por fantasma.
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SEÇÃO TEMÁTICA
São muitas as referências a este termo em suas diferentes manifestações. Por exemplo, quando Lacan fala de fantasme de gravidez,
fantasme de sevícia, fantasme sádico, de auto-mutilação, de homossexualidade, de espancamento, parece ser no sentido de desejo inconsciente.
Para Freud, em “Introdução ao narcisismo”, phantasie era função do
imaginário, presente ao lado da função simbólica da fala. Foi neste sentido
que Lacan referiu-se a fantasme, em “Os escritos técnicos de Freud”. Neste
seminário, de 1954/55, ele considera como sendo a única diferença para
Freud, entre psicose e neurose, o fato de os sujeitos perderem sua relação
com a realidade, mas não a relação erótica e afetiva. Lacan cita Freud: “...
(os psicóticos) conservam (a relação) em seu fantasma, isto é, substituem
os objetos reais por outros imaginários, baseados em lembranças, ou mesclam uma coisa com a outra... Parecem ter retirado realmente sua libido das
pessoas e coisas do mundo exterior, sem havê-las substituído por outras em
seus fantasmas. Isso significa que, de fato, recria este mundo imaginativo.
Quando em algum caso, achamos tal substituição, é sempre de caráter
secundário e corresponde a uma tentativa de cura que quer voltar a legar a
libido a seu objeto.” 3 Mais adiante, Lacan refere que a primeira vez que
apareceu na obra de Freud a noção de fantasma inconsciente foi para distinguir entre fantasma, sonho e devaneio.
No Seminário “As psicoses” (lição de 15/02/1956), Lacan apresentou o que eu penso ser uma diferenciação entre os termos fantasma e
fantasia. Referindo-se ao fantasme de Schreber: “Como seria lindo ser
uma mulher sofrendo o acasalamento”, explicou, “Qualquer que seja o
papel atribuído na economia psíquica, um ego (sic) nunca está só. Conta
sempre com um estranho irmão gêmeo, o eu-ideal (moi-idéal) (...) este
eu-ideal nos indica na fenomenologia mais aparente da psicose, que ele
fala, ele é idêntico a essa parte da fantasia (fantaisie) que convém ao
3
Lacan, J. Les écrits techniques de Freud. Lição de 10/03/1954. Tradução da autora.
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VÍCTORA, L. G. O conceito de fantasma...
menos distinguir da fantasia (fantaisie) ou do fantasma (fantasme), em
que nós podemos observar de uma maneira mais ou menos implícita nos
fenômenos da neurose, que é uma fantasia (fantaisie) que fala, ou mais
exatamente, que é uma fantasia falada, deste personagem que faz eco
aos pensamentos do sujeito, que intervém, que o vigia, que nomeia, à
medida que se sucedem suas ações, ele as prescreve, não se explica
de modo suficiente pela teoria do imaginário, do resto do sujeito do eu
especular.” 4
Já no seminário do ano seguinte5, Lacan referiu-se a fantasma
fálico, fantasma de incorporação fálica, e a fantasma perverso (Seminário “A relação de objeto”, lição de 19/12/56, na análise que fez do texto
de Freud “Uma criança é espancada, uma contribuição ao estudo da
origem das perversões sexuais”, 1919). No mesmo seminário, falou no
fantasma do Pequeno Hans, de Freud, como sendo uma passagem do
Imaginário ao Simbólico. Referia-se ao episódio das girafas: “Nós vemos
surgir neste momento o fantasma da grande girafa e da pequena girafa.
(...) Não é um sonho, é um fantasma que o próprio Hans fabrica. (...) Não
há nenhuma contradição, nenhuma ambigüidade no fato de que uma das
girafas possa ser amassada, como uma folha de papel.” Lacan provavelmente se referia à seguinte passagem de Freud: “Em sua linguagem,
Hans estava dizendo com determinação que tinha sido uma fantasia”
(vemos aqui que o termo phantasie foi traduzido nas obras de Freud para
o português como “fantasia”). 6
Lacan (Seminário “A relação de objeto”, lição de 10/04/57) parece
apontar para a passagem de um objeto, que até então tinha uma função
imaginária (representação imagética do animal girafa), para uma
simbolização (a palavra ou o desenho da girafa no papel).
4
Lacan, J. Les psychoses. Tradução da autora. Entre parênteses, os termos do original em
francês.
5
Lacan, J. La relation d’objet (1956/57). Idem.
6
Freud, S. O pequeno Hans.(1909) Imago.Vol. X, pág. 47.
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SEÇÃO TEMÁTICA
O FANTASMA E O OBJETO a
Com este esquema publicado em 1917 7, Freud tentou mostrar como
o símbolo “o pequeno” (o tico, em espanhol) se transformava de pênis em
bebê, fezes e dinheiro: estariam aí os primórdios do objeto a de Lacan?
Pois a letra “a” minúscula, no início do ensino de Lacan referia-se ao
outro enquanto semelhante, como na expressão [i (a)] que aparece no grafo
do desejo: à imagem especular. Só bem mais tarde “a” passou a simbolizar
o objeto causador de desejo.
ANÁLISE DA FÓRMULA DO FANTASMA
Foi no seminário “A Identificação”, de 1961/62, que Lacan apresentou sua topologia das superfícies (toro, banda de Moebius, crosscap) para trabalhar as três principais identificações citadas por Freud
em “Psicologia de grupo e análise do ego” (1921). Na lição de 05/05/62,
o “a” foi apresentado formalmente como objeto causador do desejo, e
assim continuará até o fim de sua obra. Nesse seminário, Lacan montou
também equações complexas, como {i + 1/ [(i + 1/ (i + 1)]}, onde i = (√1) (raiz quadrada de menos um), para formalizar o nascimento do sujeito
7
Freud, S. As transformações do instinto exemplificadas no erotismo anal. (1915/1917).
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VÍCTORA, L. G. O conceito de fantasma...
do desejo. Todas essas matemáticas foram retomadas no seminário “A
lógica do fantasma” (1966/67) .
A partir de então, o conceito de fantasma não se resumiria mais à
fantasia inconsciente. A análise da lógica do fantasma baseia-se na relação
do sujeito com o Outro, que resulta sempre na queda do objeto a. Nesta
relação, o sujeito tenta apanhar o objeto do desejo do Outro, mas depara-se
com o vazio, e esse acaba escapando-lhe.
O que conhecemos como fórmula do fantasma ($ <> a) representa
a relação entre Sujeito e objeto, onde <> (lê-se punção ou corte) é uma
função que conjuga os seguintes símbolos matemáticos:
^ = ∩ intersecção, “e” ou produto lógico;
V = U união, “ou” ou soma lógica;
< = “está contido” ou “menor que”;
> = “contém” ou “maior que”.
O fantasma seria, então, para Lacan, uma construção imaginária
para simbolizar o real inacessível? Fazendo uma montagem do Simbólico sobre o Real, o fantasma seria um laço possível entre ambos, lembrando que, na época, Lacan ainda não conhecia o nó borromeano, que
possibilitou o enlace das três instâncias de uma só vez.
Na fórmula do fantasma, o pequeno a resultaria de uma operação
de estrutura lógica, efetuada pelo significante. “O corte não atua sobre o
sujeito mesmo... – não in vivo, não no corpo, não na famosa libra de
carne” 8. Segundo Lacan, seriam as peças sobressalentes, destacáveis,
delivery do corpo, “prontas para levar”, porém profundamente relacionadas com o corpo, que representariam o objeto a: o seio, as fezes, o olhar
e a voz.
Para poder escrever esse conceito, Lacan precisava de uma estrutura capaz de suportá-lo – e este “prêt-à-porter” foi uma superfície que
ele recortou do plano-projetivo e que chamou de cross-cap.
8
Lacan, J. Seminário La logique du fantasme, lição de 16/11/66.
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SEÇÃO TEMÁTICA
VÍCTORA, L. G. O conceito de fantasma...
O falasser imagina-se esférico, ou em forma tubular. Lacan nos provou que o corpo
humano é um cross-cap recortado, e mais tarde vai recorrer à Garrafa de Klein para
representá-lo, com sua falsa borda, por onde circulariam as pulsões.
A importância da falta na origem do sujeito também pode ser acompanhada pelos cortes que Lacan vai operar. Os cortes feitos nesta “bolha” (crosscap) representam para nós as diferentes figuras da falta: a necessidade, a
demanda e o desejo da/pela mãe. Conforme o tipo de corte, nós teremos a
inscrição da privação do corpo materno, a frustração do bebê que não pode
ser saciado todo tempo, ou a castração simbólica.
Em uma análise, digamos que o “tecido” a ser cortado é o discurso do
paciente. A “faca” ou “tesoura” é a voz, ou o silêncio, do analista. O operador
lógico é o falo (o phallus, de Lacan), ou seja: a linguagem. Podemos pensar
nos seguintes tipos de cortes, entre outros: a pontuação (equivalente à punção), a interrupção da sessão (corte simples), a interpretação (corte em oitointerior). Lembrando que os cortes têm a função de criar uma borda e são as
bordas que organizam as superfícies.
Um corte sobre o cross-cap, por exemplo, pode transformar o que
antes era uma só dimensão moebiana, em uma superfície de duas dimensões. O corte simples passando pela linha de interpenetração resultaria em
um disco, torcido, com uma borda. Este corte representa a transformação
do Outro em objeto a. Neste caso, o sujeito ainda não se destacou do outro
(p.ex.: o psicótico como objeto do desejo da mãe).
Já o corte em oito-interior no cross-cap resultaria em dois pedaços:
um, semelhante ao resultante do corte simples (conforme explicado acima,
que nos dava a estrutura do objeto a): “abre” a superfície com a criação de
uma borda. O outro pedaço seria uma banda de Moebius, equivalente à estrutura do sujeito barrado pelo significante ($).
Lacan utilizou-se da topologia para fazer uma análise lógica desta superfície prêt-à-porter do fantasma. Para ele, o sujeito tem uma estrutura moebiana,
e o corte em oito-interior representa a interpretação do analista. Este corte
pode criar mais uma superfície, a do desejo, com a queda do objeto a.
A lógica do fantasma concerne à relação, inconsciente, do sujeito
com seu objeto de desejo, após o corte do significante (a palavra do Outro).
De uma só vez, se revela o sujeito do desejo e ocorre a separação de seu
objeto causador do desejo.
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C. da APPOA, Porto Alegre, n.138, agosto 2005
O CROSS-CAP DE LACAN
O cross-cap de Lacan difere do boné-cruzado dos topólogos (que é
uma superfície aberta, com uma borda) e também do plano-projetivo da geometria analítica, que seria impossível de ser construído em três dimensões.
Lacan precisava de uma superfície unilátera que pudesse ser construída e
recortada. A cinta de Moebius não bastava, pois, como ficou demonstrado
no seminário “A identificação”, quando recortada, seu resto ficava pendurado, circulando em torno do próprio corte.
O que Lacan fez foi uma imersão em D3 (três dimensões) de uma
superfície D4, o que, na época, provocou muita polêmica. O cross-cap de
Lacan seria, então, uma superfície unilátera, fechada, sem bordas e que
teria a propriedade moebiana: pode-se passar do lado aparente ao lado oculto, já que são um só, sem cortes e sem passar por nenhuma fronteira. Reuniria assim desejo e realidade – inconsciente e consciente postos em continuidade, graças a uma linha imaginária de interpenetração. Esta linha culminaria no ponto Φ (Fi).
O que os matemáticos que o criticaram talvez não tenham compreendido é que estas três dimensões, para Lacan, não eram as tradicionais altura-largura-profundidade que dão o volume de uma figura. Esta dimensão terceira é o Outro, que será recortado do Real pelo significante, dando origem
ao Sujeito. Aqui temos presentificada no corte, a função da falta na origem
do falasser (parlêtre) de Lacan. 9
9
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SEÇÃO TEMÁTICA
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
FREUD, S. Análise de uma fobia em um menino de cinco anos (1909). Volume X
Ed. Eletrônica das Obras Psicológicas de Sigmund Freud. Imago.
________ Sobre o narcisismo: uma introdução (1914). Vol. XIV. Ed. Eletrônica
das Obras Psicológicas de Sigmund Freud. Imago.
________ As transformações do instinto exemplificadas no erotismo anal (1917).
Vol. XVII. Ed. Eletrônica das Obras Psicológicas de Sigmund Freud. Imago.
________ A Psicologia de grupo e a análise do ego (1921). Vol. XVIII. Capítulo 7:
A identificação. Ed. Eletrônica das Obras Psicológicas de Sigmund Freud. Imago.
LACAN, J. Séminaire Les écrits techniques de Freud. Lição de 10/03/1954. Site
www.gaogoa.free.fr.
________ Seminário El yo en la teoría de Freud. Lição de 12/05/1955. CD-Rom
El Seminario.
________ Séminaire Les psychoses (1955/56). Site www.gaogoa.free.fr.
________ Seminário A identificação (1961/62). Ed. Interna do C.E.F. de Recife.
________ Séminaire La logique du fantasme (1966/67). Ed. Interna da Associação freudiana internacional.
VICTORA, L.G. Lição XXIV ou o que faltou no Objeto da Psicanálise. In: Correio da
APPOA -julho/2003.
CORRESPONDÊNCIA SOBRE A TRADUÇÃO
DO TERMO FANTASMA EM PORTUGUÊS
Visando a uma interlocução com psicanalistas que trabalham também com tradução de obras de Lacan, enviei uma mensagem a alguns dos
que eu considero importantes neste árduo e importante trabalho. Recebi –
além de vários pedidos de desculpas por não terem tempo de responder no
momento – três respostas, as quais passo a reproduzir a seguir.
VÍCTORA, L. G. O conceito de fantasma...
Tenho dificuldades em aceitar a tradução para “fantasia”, como foi
adotada por alguns tradutores de publicações no Brasil, mas gostaria de ter
argumentos para justificar o que poderia ser tomado como uma transcrição
intuitiva ou um galicismo.
Abraços, da
Ligia Víctora
19/06/2005
Ligia,
Eu mesmo, certa vez, defendi que o correto seria traduzir fantasme
por fantasia. Depois, mudei de opinião, e estou traduzindo fantasme por
fantasma. Creio que o que atrapalha, quando se traduz, são os sentidos
evocados - de roldão, via associativa - pela palavra escolhida na língua alvo.
Fantasma pode evocar assombração, visagens, essas coisas. Isso
atrapalha. Mas fantasia é pior: 1) evoca fantasia (roupa); 2) evoca fantasia,
no sentido de devaneio; 3) e o pior é que evoca, com a idéia de fantasia, algo
que poderia ser cotejado e seria oposto à realidade (isso se disseminou com
a egopsychology). Ora, sabemos que a realidade psíquica é pautada pelo
fantasma. Então, essa oposição não se sustenta, e devemos evitá-la.
Agora, quando dá para evitar um galicismo, a gente faz força.
Um abraço do
Francisco Settineri.
17/06/2005
Queridos colegas
Estou organizando o Correio sobre A lógica do fantasma, e quero
saber como vocês estão traduzindo o termo fantasme de Lacan em português.
19/06/2005
Oi amigos
Quanto ao termo fantasme temos traduzido, aqui, por “fantasma”.
Creio que colocamos uma nota explicativa em algumas das traduções, porque fatalmente caímos num risco face a qualquer escolha, com perda de um
lado ou de outro. Pela cultura popular verificamos a predominância de “fantasia” no sentido do vestuário, de uma peça de roupa usada no folclore. Creio
ter sido esse um dos aspectos levados em conta. Por outro lado, enfocamos
bem a diferença de fantasme enquanto utilizada por Lacan (com o matema
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SEÇÃO TEMÁTICA
específico, etc), da acepção corrente que lhe é dada. Ainda, posteriormente,
reforçando nossa opção, encontramos no dicionário de Chemama, os dois
termos - fantasma/fantasia, estando ‘fantasma’ em primeiro lugar. Mantendo
as devidas observações, acho que o fantasma já está devidamente legitimado e dicionarizado. Particularmente, fico torcendo para que reforces nossa
decisão, forçando nosso idioma.
Abraços,
Letícia Fonseca
30/06/2005
Oi pessoal
Quanto ao termo “fantasia”, para fantasme, me parece que fantasia
tem no final das contas o mesmo peso que “fase” para stade, dá conta de
apenas alguns aspectos do conceito.
Mas me parece que em “fantasia” há o agravante do senso comum
interpretar de uma maneira vulgarizante e psicologizante. Isso sim, me parece que não vale a pena estimular, confundir conceitos psicanalíticos tão clínicos com lugares comuns da psicologia.
Maria Rosane Pereira
MELMAN, C. A topologia não...
A TOPOLOGIA NÃO FAZ CRUZ 1
Charles Melman2
Primeiramente, obrigado a todos os que aceitaram preparar esta Jornada, nela se expor, e apresentar nossas dificuldades bem como nossos
talentos, aliás, com a mesma simplicidade e a mesma coragem. Esta Jornada marca certamente um início no trabalho que podemos agora propor à
Association lacanienne internationale.
O significante não tem estrutura linear. É o que experimentamos à
menor análise do sonho, onde nos encontramos expostos ao encontro de
uma rede, e como Freud a especificou, de uma rede esburacada, esburacada
por aquilo que ele chama o umbigo do sonho; isto quer dizer que a lógica, ela
que tem uma estrutura linear, não está certamente em condição de dar conta
das propriedades do significante; até porque um de seus traços capitais é
que, se ela respeita o real sem saber – Lacan diz que a lógica é a ciência do
real – sabemos, no entanto, que, ao mesmo tempo, ela forclui o sujeito.
Então, se o significante tem uma estrutura em rede esburacada , qual
poderia ser o campo matemático suscetível de dar conta de suas leis, do
seu funcionamento, de suas incidências e – ao mesmo tempo, é claro – das
possibilidades da nossa ação sobre os efeitos desta rede?
No seminário, que eu recordava outro dia, há uma pequena frase de
Lacan: “há um desafio em toda esta questão, quer dizer, esta partida que
jogamos continuamente de modo que, em todos os casos, ela seja
indubitavelmente perdida”.Como esta partida pode ser ganha? Reside nisso,
parece-me, o maior problema, o problema crucial para a psicanálise. Eis aí o
problema crucial para a psicanálise: esta partida que o significante nos leva
1
Conclusão da Jornada de 16 de março de 2002. Publicado originalmente no Bulletin de
l’Association Lacanienne Internationale, nº 111. Paris, janeiro de 2005.
2
Charles Melman é psicanalista, membro fundador da Associação Lacaniana Internacional
e da antiga Associação Freudiana Internacional. Autor de vários livros e inúmeros artigos,
muitos já traduzidos para o português, entre eles: “Novas formas clínicas do terceiro milênio”, Porto Alegre: CMC Editora, 2003 e “O homem sem gravidade”, Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2003.
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MELMAN, C. A topologia não...
a jogar e que sistematicamente somos conduzidos a perder, poderia ser
ganha? Então, sejamos sensíveis ao fôlego que anima aqui o esforço de
Lacan em seu uso da teoria matemática das superfícies para dar conta dos
efeitos do significante.
Primeira questão, e que me parece essencial: por que o espaço
moebiano seria o espaço próprio ao campo, para retomar o termo de Brini,
ao campo do significante? Por que o espaço moebiano? Pois, afinal de contas, este não é o único espaço que se poderia encontrar nesta teoria matemática das superfícies. Por que esta eleição, que faz Lacan, do espaço
moebiano?
As respostas que eu estaria tentado a dar seriam, por um lado, que
este espaço é organizado não pelo gesto de um demiurgo que teria vindo
pegar, tirar o cinto de suas calças e torcer suas bordas para criar uma banda
moebiana e ao mesmo tempo o mundo; mas que este espaço moebiano é
instaurado pela perda, pelo corte operado sobre o plano projetivo deste objeto particular que vocês conhecem, e que vai, doravante, marcar o que ele
tem, em si, de buraco próprio à organização, à rede do significante, e, ao
mesmo tempo, esta particularidade da borda constituindo este buraco, ou
seja, sua natureza borromeana. Não me deterei sobre o que isso implica
entre outras coisas: para que um objeto possa vir a completar este buraco
será necessário que ele tenha uma propriedade geométrica perfeitamente
específica. Então, em primeiro lugar, a presença na banda moebiana deste
objeto cortado, destacado, do qual ela guarda evidentemente a memória –
não há banda moebiana sem a memória deste buraco que veio constituí-la.
Evocava também outro dia este fato com o qual lidamos na teoria e ao
qual respondemos bastante mal: o lugar do recalcado. Onde vocês o situam,
o recalcado ou, para retomar o termo de Freud, o Unterdrückt? Simplesmente o que é posto de lado em um canto do espaço plano?
É o que veio se marcar, se inscrever do outro lado da mesma face e
que o percurso do significante vai inelutavelmente trazer de volta – porque o
próprio do recalcado, o Unterdrückt, é evidentemente retornar. Se vocês admitem alguma importância à distinção feita por Lacan entre o recalcamento
e a forclusão, é um retorno que se faz sem transposição de nenhuma borda.
Logo, organização deste espaço a partir do esburacamento . Lacan insistirá
sobre o fato de que ele é introduzido, este buraco, pelo próprio jogo da letra.
Material organizador desta questão: a letra. Sejamos materialistas conseqüentes: a letra se encontra aqui organizadora deste buraco na rede e, se
posso dizer, dá valor erótico ao que se encontra recalcado; recalcado do qual
nenhum entre nós, ou entre vocês, jamais conseguiu se livrar, uma vez que
sua propriedade, independentemente dos esforços de vocês, é retornar, inevitavelmente, de estar no outro lado de uma mesma face.
É, em todo caso, a interpretação que lhes proponho desta excelência
que Lacan atribui ao espaço moebiano, uma vez que todas as outras figuras
com as quais vamos lidar têm por propriedade essencial, capital, precisamente, serem moebianas.
Ao apresentá-lo assim, não faço mais que evocar outra vez para vocês o
fracasso inevitável de Freud ao trabalhar no espaço plano, no espaço euclidiano,
ao procurar desesperadamente o lugar que poderia ocupar aí o inconsciente, o
recalcado, e evidentemente sua captura pela distribuição imaginária que nos é
comum, deste espaço plano, dominado pelo fato de que ele é o suporte do eu
(moi), que ele é organizado por este eu – e a esse respeito, imagina-se, o
quanto ele é defensivo contra a castração! E ele é devidamente orientado e
hierarquizado entre a parte superior e a parte inferior, a direita e a esquerda, a
parte interna, o que está dentro do corpo e que é suposto ser o bom, e a parte
externa que é o cocô, que é o mau, entre o que está adiante e o que é suposto
ser tranquilizador, e tudo o que está atrás, tudo o que se move atrás, suposto
ser obscuro, ameaçador, evidentemente sujo, erótico.
Conhecer o que há por trás? Hoje, os meios de comunicação social
só se interessam por isso. Quando se interroga alguém é necessário, imediatamente, saber o que ele tem por trás. O que ele pode dizer, o que ele pode
manifestar, não é isso que conta, sua verdade, ela estaria atrás dele. Esta
profunda estupidez que nos domina, que nos inquieta e que até o século XIX
ordenou a composição da geometria: vejam a certeza, por exemplo, de Kant,
de que a geometria estava concluída!
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MELMAN, C. A topologia não...
Parece-me que podemos ser sensíveis ao mesmo tempo à virulência
que o espaço moebiano vem aqui introduzir, e que temos que responder a
isto: este espaço é o que se revela especificamente instaurado pela rede
significante?
Tomemos o cross-cap, o cross-cap enquanto plano projetivo. O plano
projetivo, a instauração descoberta da perspectiva na arte, da organização
do plano pelo ponto no infinito. Isso foi um grande negócio, evidentemente
com todas as potências que evocamos ao nível deste infinito, deste olhar,
em primeiro lugar –claro! E igualmente de tudo o que vem reger o mundo das
representações. Pude me aventurar a pensar que Descartes tinha feito sua
colocação a partir do que antes dele fizeram os pintores: a descoberta e a
organização da perspectiva, com o que o mundo das representações devia,
em suas deformações, à organização por um ponto situado no infinito, que é
permanente, não poderia se mover, é sempre o mesmo, do qual podemos
estar certos. Isto não tem nenhuma importância, é só uma digressão...
Observem como com o cross-cap, o que vocês têm no lugar deste
ponto assim no infinito, não é mais que o objeto, este objeto cortado e destacado. Não sei se vocês são sensíveis a esta espécie de extraordinária
operação de laicização que uma tal formulação é suscetível de agenciar.
A garrafa de Klein: uma das questões, parece-me, às quais teríamos
que responder, é saber que tipo de progresso ela constitui em relação ao
grafo, ao grafo do desejo. Porque, olhem o grafo: verão que para além do fato
de haver uma torção moebiana – o que não vou acentuar exageradamente
aqui, mas o grafo é organizado por uma torção mœbiana – trata-se aqui
também de um percurso que se desenrola entre o sujeito e o ideal, com uma
reversibilidade, diz Lacan, entre os dois, e que concerne à passagem e à
interrogação pelo Outro. O grafo – ter-se-ía vontade de dizer – é uma banda
de Moebius, única, evidentemente.
Mas não está exatamente aí a questão. A questão é saber se a garrafa de Klein constitui o suporte supostamente legítimo da relação do sujeito
com o grande Outro, a partir deste orifício que, ao sujeito e ao grande Outro,
seria comum.
Há pouco e muito precisamente, Jean-Jacques Tyszler evocou o fato
de que “o sujeito recebe do grande Outro sua própria mensagem sob uma
forma invertida”. Qual mensagem? Aquela na qual estamos todos tomados.
É esta mensagem que nos devota ao sexo e à morte, isto não é complicado
e não sustenta a discussão! Isso sustenta a rebelião, mas às expensas do
sujeito. É a mensagem que recebemos do grande Outro sob uma forma
invertida, e que faz com que, certamente, nossos propósitos venham inscrever-se no que préviamente foi, eu ia dizer, sinalizado a partir do grande Outro.
Este tempo – o futuro anterior – que muitos dentre vocês não gostam
de forma alguma (devo dizer, aliás, sobretudo as senhoras, elas não gostam
muito do futuro anterior...). Para se situar – é maravilhosa essa inteligência
da gramática – ao menos em francês, pois que este tempo não existe em
todas as línguas – poder se colocar de cara no fim, ao fim do percurso; e
sendo o fim bem marcado, bem situado, ser capaz de vir em posição antecedente, retrógrada, para evocar o que terá sido cada vez o futuro do sujeito e
que o precedia, seu futuro evidentemente.
Então, a garrafa: ela será susceptível de ser disso o suporte metafórico, imaginário? Pois Lacan não procura de modo algum deixar-nos completamente loucos – um pouquinho, mas não completamente – ele jamais diz:
“é o real”. Diz que são metáforas, que são suportes imaginários, modelos,
mas cuja eficácia se deve ao desafio da partida. Por que depois de tudo, a
lógica também, a lógica clássica ou as outras mantêm suas virtudes do
desafio das suas partidas, que é obviamente chegar a realizar o impossível
programa de Hilbert: algebrizar o mundo. Elas têm, elas também, seus desafios.
Por outro lado, o que nos embaraça é que Lacan, este saber, ele não
o espera de antemão, ele não está decifrando o que seria uma ordem do
mundo, ele está em vias de constituí-lo com aqueles a quem ele se endereça. O que faz, evidentemente, que isso possa evoluir, que isso possa mudar.
E isso, isso é muito inquietante...
Vejam o tipo de golpe que este gênero de topologia representa ao
mesmo tempo para o eu (moi) colocado em causa pela queda do espaço
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plano, e depois igualmente pela nossa transferência, nossa relação com o
saber; já que Lacan não é aquele que vem decifrar a ordem e as leis do
mundo; ele tenta construir com aqueles que querem, o tipo de organização
matemática susceptível de dar conta e de agir para ganhar uma partida.
Ele está livre, neste negócio? Lógico que não! E se ele não está, se
ele é limitado, é porque há este material que eu evocava no começo, o da
letra – que não é o do número – que é primordialmente o da letra.
Com esta garrafa de Klein, a questão é a do tipo de interpretação
susceptível de fazer o corte que seria necessário. Como Jean-Jacques o
evocou: qual corte? Qual seria o bom corte? Seria o corte que permitiria
mostrá-la como sendo constituída por duas bandas de Moebius simétricas?
Foi muito bem sublinhado há pouco de que maneira isso era específico da psicose, e também, faço vocês observarem, estranhamente, da
neurose obsessiva. As injunções se produzem aqui ao mesmo tempo
em que o paciente as ouve. Por que de forma assim simultânea? O que
é específico do neurótico obsessivo é ter procurado forcluir o que era do
sexo e da morte, quer dizer, o que constituía esta mensagem invertida
vinda do Outro. Como se, pelo fato de tê-la forcluído não pudesse existir
mais nada no Outro que fazendo destino, que fazendo mensagem, pudesse vir recordar-lhe sincronicamente, simultaneamente, tudo o que ele
tinha traído em relação ao sexo e à morte. E precisamente aí, a posição
de escândalo onde ele se coloca recusando a mensagem que se torna
então um imperativo: “Vai, vai lá, pega tua navalha, e corta o pescoço da
mulher! Ou então o teu!” E depois, injunções sexuais que ele julgava
abomináveis e que vinham sob a forma de comando e sempre no temor
do lugar onde tudo isso o levaria: ao final. Este final que precisamente o
obsessivo procura forcluir por uma operação que se refere, sem dúvida, à
nossa relação à garrafa de Klein, isto é, renunciando ele mesmo ao que
é sua própria demanda em relação ao grande Outro, para se fazer o
objeto que viria tapar a exigência do Outro, tapar este buraco a partir do
qual isso entra em movimento. E nós sabemos que isso não funciona
assim tão facilmente e que é um problema.
Então qual seria o bom corte? Certamente não o que seria capaz de
isolar duas bandas simétricas! Seria aquele capaz de isolar duas bandas
opostas? Nada mal! Nada mal precisamente por situar o que o neurótico
injuria, ao que ele se opõe, ou seja: à mensagem que lhe vem do Outro com
as prescrições que ela implica no que concerne à sua vocação ao sexo e à
morte. Só isto já não seria pouco...
Talvez isso fizesse demasiado sentido, mas o que me permito pensar
é que o bom corte seria certamente este, surpreendente, que foi evocado há
pouco, e que permite mostrar que, finalmente, aquilo de que o sujeito depende é de uma banda de Möebius, e que o quê ele tomava pelo grande Outro
nada mais era do que este espaço investido pelo seu objeto a, e neste tipo
de corte, Lacan insiste sobre o fato de que há esta banda única, e um resíduo. Um resíduo que ele aliás vai até procurar no que seria o conteúdo da
garrafa, naquele resto, “a não negligenciar”, diz ele.
Tudo isso nos diz respeito tanto mais que esta partida que Lacan
interrogava para saber se ela era susceptível de ser ganha, ele a abandonou,
ele deixou a mesa. Ele abandonou a teoria matemática das superfícies para
partir para a dos nós. Mas creio que, para nós, tudo isto constitui um formidável convite para seguir sua tentativa, tudo que ela tem de instrutiva. De
fato, pouco importa se ele estava errado, ou se ele tinha razão! O que isso
quer dizer, aliás? Mas o que importa é prosseguir este esforço para dar conta
ao mesmo tempo das especificidades da neurose, das especificidades da
cura, e das possibilidades de direção da cura.
Eu posso assegurar a vocês, que, em realidade, sei que os efeitos de
tudo isto estão presentes em nosso meio, e não somente em nosso meio,
eles são ativos mesmo se eles não são necessariamente sempre isolados e
pensados como tais. Mas lhes asseguro que, quando vocês se confrontam
com analistas para os quais o espaço plano permaneceu como sendo o
organizador do mundo, quer dizer, os “freudianos” – isso foi efetivamente o
obstáculo para Freud – verão imediatamente que, em realidade, para os
lacanianos, isto, mais ou menos bem, mais ou menos claramente, foi transmitido; e que este ensino de forma alguma foi em vão, e mesmo que ele
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SEÇÃO TEMÁTICA
PINTO, M. R. P. O Homem de pedra...
tenha deixado a teoria matemática das superfícies para passar a dos nós,
tudo isso teve seus próprios efeitos, e efeitos que permitem hoje aos
lacanianos não parecerem extraviados, completamente perdidos no mundo.
A topologia não faz cruz. Primeiro porque a cruz não é uma figura
topológica, e depois porque, como vocês sabem, a topologia é a resposta, o
modo de conceitualização jamais visto anteriormente para responder por nós
à questão da relação com o ideal, àquele que nos crucifica, e de que maneira
o sujeito poderia sustentar-se e manter-se sem ser o crucificado desta identificação.
Muito obrigado!
Tradução: Marcia Helena de Menezes Ribeiro
Revisão: Mônica Vasconcelos Delfino
O HOMEM DE PEDRA E O FANTASMA SEM LÓGICA
Maria Rosane Pereira Pinto1
O
mito de Don Juan2, difundido desde a antiguidade até nossos dias,
sofreu todas as variantes históricas e estéticas que cada contexto
de época lhe exigiu. Mas, desde a Idade Média, um elemento permanece invariável: a presença e a função do personagem do homem de
pedra. O “eterno menino”, perverso sedutor encontra, no momento limite de
sua trajetória, a famosa “estátua do comendador”, pai de uma de suas belas
seduzidas e que ele havia assassinado. O retorno desse pai morto, cuja
estátua fúnebre Don Juan cinicamente convidara para jantar, é emblemático
do limite do homem em relação a seus atos. À hora prevista, o “convidado de
pedra” se faz presente e, apertando a mão de seu assassino anfitrião, o
conduz aos infernos. Molière e Mozart 3 mostraram magistralmente a saga
desse herói quase atemporal, colocando em cena a père-version4 de Don
Juan em sua mais plena humanidade.
Essa figura do homem de pedra nos interessa aqui, assim como a
posição infantil perversa polimorfa de D. Juan, para refletirmos sobre uma
questão da atualidade clínica: a recusa de realidade, funcionamento psíquico ao qual Freud chamou de Verleugnung para definir a perversão a partir de
seu artigo sobre o fetichismo em 1927. Mas, também, como elemento
constitutivo da clivagem do eu (Ichspaltung) em seus processos de defesa,
conforme seu artigo de 1938, onde ele não mais se contenta em situar a
Verleugnung apenas na perversão enquanto estrutura, mas também enquanto um funcionamento psíquico presente na neurose.
1
Psicanalista, membro da Association Lacanienne Internationale e da Association
Psychanalyse et Médecine de Paris.
2
A versão do mito a qual nos referimos aqui é a de Molière, Dom Juan. Paris: Flammarion,
1998
3
Cfe. A versão de Mozart em sua ópera Don Giovanni.
4
Neologismo de Jacques Lacan enviando ao termo francês perversion e à noção mesma da
psicanálise, ao mesmo tempo em que envia aos termos de père (pai) e version (versão).
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SEÇÃO TEMÁTICA
Particularmente, trata-se aqui de pensar de que modo a recusa da
realidade - essa dupla posição do sujeito de aceitar e repudiar, no mesmo
movimento, a realidade que a ele se impõe - pode engendrar uma dificuldade
na atividade psíquica do sujeito à qual Freud chamou de “fantasma”. Atividade esta que consiste em fazer correções na realidade frustrante e com isso
sustentar o princípio de prazer, o que de certo modo equivale a “indenizar” à
economia psíquica pelas renúncias impostas a ela pelo princípio de realidade. Considerando que a fonte do fantasma é o brincar infantil e que o adulto
prolonga, pelo viés do fantasma, essa atividade psíquica através da qual a
realidade lhe é suportável, pensemos também na questão da temporalidade
psíquica a partir da qual o fantasma se organiza: ele se situa entre o desejo
passado, a impressão presente e a projeção futura.
Isso somado ao fato de a realidade psíquica do fantasma se desdobrar a partir do que Freud chamou de “fantasmas originários” – ou seja, a
observação do coito parental, a fantasia de sedução, o temor à castração –
não é sem conseqüências para a clínica. Pois sabemos o quanto é estruturante
a possibilidade que a criança tem, com isso, de se servir de suas verdades
pré-históricas para sustentar as lacunas de sua verdade individual.
Minha hipótese é de que uma precariedade dessas possibilidades
pode se apresentar quando o sujeito se encontra enredado em uma posição
de recusa da realidade que ele, ao mesmo tempo, sabe que se impõe. Como
servir-se de suas verdades “pré-históricas”, como construir a partir delas uma
verdade individual fantasmática sem estar efetivamente inscrito, subjetivamente, na problemática prazer-realidade já que um desses termos é repudiado?
Parece-me que, cada vez mais, deparamo-nos com essa dificuldade
em nossas clínicas, pois, mais do que nunca, os sujeitos que nos pedem
ajuda estão na posição do “eu sei, mas mesmo assim...”5, essencialmente
repudiadora da realidade, como se o fato de sermos fundamentalmente seres de linguagem não nos colocasse por si só na lógica do interdito, do
PINTO, M. R. P. O Homem de pedra...
MANNONI, O. “Je sais, mais quand même.. “ in Clefs pour l´imaginaire ou l´Autre Scène.
Paris: Éditions du Seuil. 1969.
desejo. Vivemos em uma cultura da eterna criança, em cuja lógica, a exemplo de Don Juan, não inscrevemos a figura do homem de pedra, do limite.
Sabemos que ela existe, mas mesmo assim...
No final dos anos 80, tomei em tratamento um menino de dez anos.
Este menino, com constituição física de uma criança de no máximo seis
anos, franzino e pálido, chegou ao meu consultório com sua mãe e me impressionou o número de cicatrizes e curativos espalhados por seu corpo. O
pedido de ajuda era na verdade uma exigência da escola. Não podiam mantêlo inscrito sem tratamento porque ele estava “perigoso para ele mesmo”,
segundo o enunciado da direção da escola. Tratei de saber qual era o “perigo” e perguntei imediatamente o que significavam aqueles “ferimentos de
guerra”. A mãe me responde que esse é o problema: ele sofre muitos acidentes. Quedas de escada com clavícula quebrada, chutes em marcos de goleira
que lhe custaram um osso do dedo do pé quebrado, tropeços enquanto caminha com freqüentes ferimentos no nariz. Em três semanas ele havia sido
atropelado duas vezes nas imediações da escola, embora sem gravidade
importante (ele apenas caiu e se esfolou, um hematoma aqui e ali mas enfim, sem fraturas). Até mesmo quando ia apontar seu lápis ele conseguia
passar a lâmina na ponta dos dedos. O último acidente tendo sido relativamente grave, pois ele “atravessou” a porta de vidro de um armário sem se dar
conta que estava aberta e isso lhe custara uma intervenção cirúrgica dolorosa, com pontos hemorrágicos importantes e mesmo necessidade de correções plásticas, a mãe decidiu então buscar ajuda, apesar da exigência da
escola ter sido feita meses antes.
Quanto a sua escolaridade, repetia o ano e corria o risco de ser mais
uma vez reprovado. Desde os seis anos de idade, sofria de crises de “ausência” que eram atribuídas ao uso dos antiepiléticos que tomava. Antes do uso
dos antiepiléticos, ele dormia pouco e mal, pois tinha tremores, dores abdominais e suores noturnos intensos. Nenhum eletro-encefalograma acusou
lesão cerebral, mas a fenomenologia indicava a medicação e efetivamente
ele desde então dormia muito bem. Uma psicopedagoga, um pediatra e um
neuropediatra acompanhavam seu caso havia já algum tempo. Manifestava
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 138, agosto 2005
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SEÇÃO TEMÁTICA
PINTO, M. R. P. O Homem de pedra...
uma agressividade verbal e um desinteresse pelo aprendizado, uma recusa
em acompanhar o trabalho escolar, comia muito pouco e era absolutamente
insuportável que lhe dissessem “não”.
Pergunto o que o pai pensa disso e a mãe me responde “não existe
pai, meu filho é uma produção independente”. Era um pouco a moda nos
anos oitenta, socialmente se ouvia isso com certa freqüência, mas clinicamente , pelo menos para mim, era a primeira vez. Reagi dizendo à mãe que
isso era impossível, que se esse menino podia estar ali, se ele falava e até
mesmo aprontava tantas peripécias, era porque sim, ela havia encontrado
um homem com o qual o concebera, logo, ele tinha um pai.
Pergunto ao menino o que acontecia quando ele se acidentava e ele
me diz “não sei, nunca tou nem aí!” Termino essa primeira sessão dizendo
ao menino que se ele queria voltar ao meu consultório, se queria estar em
algum lugar, era necessário que se mantivesse vivo, pois eu não tinha como
tratar uma criança morta, eu só poderia trabalhar com um menino vivo e que
ele me parecia bastante “vivo” para entender o que eu lhe dizia. “Um morto
não vai a lugar nenhum, um morto é apenas um nome na pedra de um cemitério”, concluí para ele.
Antes de sair, a mãe me pede para escutá-la só, e marcamos uma
sessão. O menino, então, intervém perguntando quando seria sua próxima
vez.
Escutei essa mãe por quase dois anos e ela seguiu sua análise com
outro colega. O menino permaneceu em análise comigo até os treze anos.
Durante o período em que a escutei, o discurso dessa mãe ficou muito
centrado em seu próprio romance familiar. Quando ela tinha onze anos de
idade, seu pai, cujo prenome ela havia dado ao menino, havia desaparecido
e jamais soubera dele, nem se estava vivo ou morto.
Na época da concepção, ela havia tido mais de um amante e nunca
quis certificar-se da paternidade, pois nenhum deles era, na sua opinião, um
pai viável. Ela era uma mulher independente, os homens lhe eram dispensáveis. Sabia que havia sido necessário o encontro, mas mesmo assim, não
via necessidade de um pai para o menino, lhe parecia que estavam muito
bem assim. Até nosso primeiro encontro, apesar de várias outras advertências, nunca havia pensado que seu filho pudesse estar em risco.
O menino, que é o caso em si, me dizia, no início do tratamento, que
ele na verdade nunca sabia ao certo porque fazia ou não fazia alguma coisa.
E os estados de “ausência”, que pareciam causar os acidentes, ele explicava de uma maneira muito curiosa: “é como se eu saísse de meu corpo e ele
não me obedecesse mais, ele faz o que bem entende quando eu não estou
nele. Quando eu volto, já estou machucado. É a mesma coisa na aula. Quando eu falo ou presto atenção no que estão dizendo, meu corpo pode sair se
machucando, então fico cuidando para isso não acontecer e não aprendo
nada”.
O fato é que, logo depois da entrada no dispositivo da transferência,
esses acidentes cessaram. Um ano depois, o neuropediatra concluiu que
ele não precisava mais dos neurolépticos e ele passou a ter as doenças de
infância que antes nunca havia tido. Enfim, se deixava “contaminar” por seus
pequenos outros. As notas nunca foram brilhantes, mas ele conseguiu fazer
uma escolaridade relativamente satisfatória, sem repetir mais suas séries.
É importante assinalar que ele passou a uma importante depressão.
Em análise, interrogava muito a vida e a morte, e tentava construir teorias.
Interessava-se a ponto de ter desenvolvido a capacidade de leitura lendo
obituários de jornal, pois queria saber quantas pessoas morriam por dia na
cidade e se eu as conhecia. Com o tempo, parece que algo da ordem de um
luto se organizou como trabalho de análise. No decorrer do tratamento, ele
conseguiu estabelecer conflitos de convívio e tinha mesmo enfrentamentos
físicos com outros meninos. Narrava, feito um “Homero”, suas odisséias escolares. Uma agressividade especular se havia instalado, havia um corpo e
um sujeito. Ele não precisava mais “encarnar” o fantasma do corpo independente ou do espectro paterno para sua mãe. Podia brincar de Outra coisa,
pois não seria mais um eterno menino nem um menino eterno.
Esse caso ensinou-me muito quanto à importância das primeiras
sessões. Parece-me que a possibilidade que esse paciente teve de ingressar, no momento inaugural de sua análise, em um trabalho de elaboração de
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SEÇÃO TEMÁTICA
elementos mórbidos importantes, produziu-se porque eu, de saída, me coloquei na posição do “homem de pedra” para essa mãe “donjuanesca” e seu
filho. Ou seja, algo da presentificação da morte deve ter tido efeito ali mesmo. E esse registro da morte - não esqueçamos - é nosso maior referencial
da linguagem. Além disso, quando eu “desmenti” o desmentido da realidade
materna quanto à inexistência de pai, estava dizendo ao menino “tu estás
aqui, falas, tens este corpo, estás vivo e podes morrer porque um homem e
uma mulher te conceberam”. De certo modo, algo da experiência do estádio
do espelho se recapitulou e ele pôde então, a partir daí, começar a assumir
sua palavra e seu corpo. Fundamentalmente, pode-se dizer que tudo isso
pôde ter lugar porque a mãe suportara assujeitar-se ao Outro com sua decisão de pedir ajuda, de construir uma demanda a um terceiro.
Esse deslocamento da posição materna possibilitou ao menino começar e prosseguir sua análise, ingressar na lógica do Édipo, sem a qual ele
não poderia colocar em ato a sua realidade psíquica, e sustentar seu desejo.
Isso exigia que o fantasma materno encontrasse a sua lógica, pois enfim,
não há fantasma sem uma mãe em seu horizonte, mãe que possa formular
uma versão do pai para sua criança.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
FREUD, S. Le Fétichisme (1927), in La vie sexuelle, Paris: P.U.F., 1969.
FREUD, S. Le Clivage du moi dans les processus de défense, (1938) in: Oeuvres
complètes, Paris: P.U.F., 2000.
PIMENTEL, F. G. Lacan é lacaniano?
LACAN É LACANIANO?
SOBRE RUSSEL E LACAN
Felipe Garrafiel Pimentel
1
“Que queres tu? É a eterna contradição humana”.
Machado de Assis2
O
jogo da psicanálise tem algumas regras. Uma delas: somos obri
gados a topar com paradoxos. Desde o seminário “A angústia”,
Lacan postula que é a partir deles que surgem os sintomas. Acrescenta Ivan Corrêa: “e é a partir da escuta destes paradoxos que podemos ter
uma escuta do sujeito”. (CORRÊA, 2001, p.11). No L´Étourdit Lacan coloca:
“Nenhuma elaboração lógica, e isso desde antes de Sócrates e de outros
lugares que não nossa tradição, jamais proveio senão de um núcleo de
paradoxos”.(LACAN, 2003, p.494) E se buscamos compreender a “Lógica
do fantasma”, que paradoxos podem nos auxiliar?
Já na primeira aula deste seminário, Lacan recorre a um paradoxo
de longa data na lógica, no caso, o Paradoxo de Russel. Que diz ele?
“Alguns conjuntos são elementos de si mesmos, enquanto outros
não o são (por exemplo, o conjunto de objetos abstratos, sendo ele próprio um objeto abstrato, é um elemento de si mesmo; o conjunto das
vacas, não sendo uma vaca, não o é) Consideremos agora o conjunto
dos conjuntos que não são elementos de si mesmo. Ele é um elemento
de si mesmo ou não? Se ele é um elemento de si mesmo, então ele tem
a propriedade que todos seus elementos de si mesmo têm, ou seja, ele
não é um elemento de si mesmo; se, entretanto, ele não é um elemento
de si mesmo, então ele tem a propriedade que qualifica um conjunto
1
Pesquisador do Laboratório de Filosofia e Psicanálise da UNISINOS. E-mail:
[email protected]
2
“A igreja do diabo”. Contos: uma antologia.Porto Alegre: Companhia das letras, 1998.
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SEÇÃO TEMÁTICA
para pertinência a si mesmo, logo, ele é um elemento de si mesmo.
Assim, o conjunto de todos os conjuntos que não são elementos de si
mesmo é um elemento de si mesmo se e somente se não é um elemento de si mesmo”.(HAACK, 2002, p.187).
Russell, tratando do paradoxo do maior e do último número de
Cantor, formula algo que o conduz ao encontro com seu paradoxo. A
versão mais inicial data de novembro de 1900 (a publicação será somente em 1903). Este paradoxo encontra paralelo3 no paradoxo que data da
Antigüidade – o Mentiroso. Diz-se que um sujeito ouve de Epimênides,
que é cretense, o seguinte: “Todos os cretenses são mentirosos.” Vocês
têm saída? Sucede que, se Epimênides fala a verdade, qual seja, que
todos cretenses são mentirosos, então Epimênides fala uma mentira, já
que não mente. Mas, se Epimênides fala uma mentira, isto é, que os
cretenses falam a verdade, então ele fala uma verdade, já que mente.
(Uma outra formulação está no paradoxo do barbeiro: O barbeiro que
barbeia todos habitantes da aldeia que não se barbeiam a si mesmos, se
barbeia?).
A primeira reação de estupefação diante da questão dirige-nos,
todos, a uma tentativa de resposta. Mas encontramo-nos, após algumas
elaborações, sem saída. Aceitamo-lo. Sabendo que Lacan serve-se deste paradoxo (e para pôr lenha na fogueira do leitor adiantamos, Lacan4
afirma que estes paradoxos não são paradoxos, mas “imagens”, verdades “confusas” de um tempo “ingênuo” da lógica) – poderíamos dirigir o
olhar, não à psicanálise, mas à lógica contemporânea, e enxergar qual a
pertinência desta questão nas formulações atuais.
Qual o nosso susto? É que, em contato com as mais recentes
produções da lógica, os lógicos confirmam a atualidade do Paradoxo de
Russell. Em uma obra dedicada ao estudo detalhado de diversos parado3
Segundo Sainsbury (1995), o paralelo entre os dois paradoxos é pertinente. Para uma
discussão detalhada, ver Capítulo 5, ps. 126-129.
4
LACAN, J. Seminário “A lógica do fantasma”, classe do dia 16 de novembro de 1966.
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PIMENTEL, F. G. Lacan é lacaniano?
xos, Sainsbury postula que este é o mais complexo e atual da lógica.
Que tentativas de resposta a lógica formula?
A primeira é apresentada pelo próprio Russell, já em 1903, na obra
Principles of Mathemathics. Ela divide-se em dois intentos, um formal,
outro filosófico. A resposta formal, intitulada “Teoria dos tipos”, subdivide
o universo do discurso em níveis: indivíduos, conjunto de indivíduos, conjunto de conjuntos de indivíduos... Desta forma, enunciar que x Ε y (x
pertence a y) só é possível se o índice do tipo y é superior ao índice de x.
É desta forma, evitada a possibilidade de articular x E x. A pergunta se
“o conjunto dos conjuntos que não são elementos de si mesmos é elemento de si mesmo” fica anulada. Subjaz a compreensão de que uma
proposição sobre todas as proposições não pode ser elemento dela mesma porque cria uma proposição que não estava na totalidade anterior. A
segunda resposta, filosófica, afirma Russell, postula que todo paradoxo
deriva de uma violação do Princípio do Círculo Vicioso (PCV). O PCV
afirma: “Nenhuma totalidade pode conter membros totalmente
especificáveis somente nos termos de si mesma”. (SAINSBURY, 1995,
p.128) Estas restrições de tipo russellianas bloqueiam a prova da infinidade dos números – que teriam que ser contados a partir de sua própria
propriedade – e não abarcam certos conjuntos que violam o PCV – entre
eles, Ramsey propõe que especificar um homem como aquele que tem a
maior média de pontos de seu time, viola o PCV, apesar de aceitável.
(HAACK, 2002, p.194).
Próxima da resposta de Russell, temos a formulação de Tarski.
Ele elabora uma hierarquia de linguagens. Teríamos uma linguagem-objeto que fala das coisas, e uma linguagem que fala desta linguagem.
Uma metalinguagem. E para esta uma outra linguagem,
“metametalinguagem”. E daí em diante. Desta feita, a verdade de uma
sentença é expressa por um predicado do nível superior. A frase do mentiroso não é avaliada em seu nível, mas no nível seguinte. Dizer que algo
é tal, está na linguagem-objeto. Dizer que é verdadeiro que algo é tal
está no próximo nível, no caso, na metalinguagem. O paradoxo deixa de
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SEÇÃO TEMÁTICA
ser paradoxo e passa a ser uma falsidade. Temos uma solução formal,
mas nada nos indica por que, do ponto de vista filosófico, deveríamos
aceitar esta hierarquização.5
Uma outra resposta temos em Kripke, na teoria da fundamentação
(groundedness). Ele parte da rejeição de que toda sentença deve ser ou
verdadeira ou falsa. O argumento: pensemos que alguém tenha que explicar
a outrem que não compreende o que é a palavra verdadeiro. Então, ele faz
tal: uma sentença é verdadeira se alguém está tentado a afirmar essa sentença; e afirmar que uma sentença não é verdadeira se dá quando alguém
está tentado a negá-la. Então, se o aprendiz está tentado a dizer “O céu é
azul “ ele está em posição de afirmar que “O céu é azul” é verdadeira. Podendo também estender a outras sentenças que contenham a palavra verdadeiro, tais como ‘’O céu é azul” é verdadeira é verdadeira. Uma sentença é
fundamentada quando ela está habilitada a ganhar o título de verdadeira ou
falsa. Assim, a frase do mentiroso que diz, “o que eu estou dizendo é falso”
ou “essa sentença é falsa”, não tem critério de avaliação como verdadeiro ou
falso. Desta feita, os paradoxos não têm nenhum valor de verdade. Esta
solução conduz-nos ao perigo da arbitrariedade da atribuição de verdade.
“Esta sentença é verdadeira” compartilha da mesma estranheza de “esta
sentença é falsa”. Soma-se a isto, o fato que o predicado primeiro está completamente indefinido. Segundo Haack, “a situação também deixa margem
ao caráter ‘arriscado’ das atribuições de verdade, pois o caráter paradoxal de
uma sentença pode ser intrínseco (‘esta sentença é falsa’) ou empírico (‘a
frase da linha 20 é falsa’). (HAACK, 2002, pág.200)
O que nos resta? Nenhuma solução, somente seus efeitos. O Paradoxo de Russell fornece a Lacan a imagem das aporias que certas concep-
PIMENTEL, F. G. Lacan é lacaniano?
ções lingüísticas terminam. Quando Lacan abre mão de articular significado
e significante a partir do signo, tal como em Saussure, ou de colar o significado no significante, tal como na Lógica 6, ele propõe que a unidade está
perdida, mas o substrato se dá pela cadeia de significantes em sua vinculação.
A fórmula de Lacan, que todos conhecemos, “um significante é o que
representa o sujeito para outro significante” (e na “Lógica do Fantasma” ele
acrescenta: “o que encontra paralelo com o funcionamento da metáfora do
inconsciente”. (Classe do dia 14 de dezembro de 1966)) fere um princípio
básico da Filosofia: empregar a palavra definida na definição7. Como isto é
possível?
O paradoxo aqui reside que, no mínimo, uma letra deve estar ausente
para que todas as outras funcionem, ou melhor, esta falta radical é exatamente a “fecundidade da operação” (Classe do dia 23 de novembro de 1966).
Assim, Lacan insere a temática do “menos-um”, na qual enuncia que “ao
menos-um” significante deve faltar para que a linguagem se exerça. Este
significante “menos-um” direciona o autor para a temática do inefável, já presente em outras tematizações da filosofia da linguagem – tais como a de
Wittgenstein – mas, em vez de cercar a questão pela negatividade e impossibilidade do universo do discurso, Lacan toma o paradoxo como positividade
em sua formalização.
Perpassa a noção de que “não há metalinguagem” (classe do dia 23
de novembro de 1966), ou melhor, “não há universo do discurso” (classe do
dia 22 de fevereiro de 1967). Há um uno que não comparece na cadeia
significante, e que a faz funcionar – fórmula S A (barrado) – e esta falha –
tendo sempre em mente o caráter positivo de qualquer falha – está em todo
o paradoxo, tal como o de Russell (classe do dia 14 de dezembro de 1966).
5
Praticamente temos as seguintes decorrências: pensemos que Dirceu diga “Todas as
declarações de Roberto Jefferson sobre o ‘mensalão’ são falsas”. Esta sentença deve
estar num nível acima das sentenças de Jefferson. E não nos permite avaliar as próprias
declarações de Jefferson. E para complicar, suponhamos que entre as declarações de
Jefferson esteja: “Todas as afirmações de Dirceu sobre o ‘mensalão’ são falsas”. Assim,
todas as declarações de Dirceu têm de estar num nível mais alto que as de Jefferson, e
todas as de Jefferson num nível mais alto ainda que as de Dirceu.
40
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6
Responder o que a lógica faz com o significante, como ela procura suturar o fato de não
haver universo do discurso pela introdução de “letras” mereceria outro estudo. Deixamos
algumas indicações da relação entre Lacan, a Lógica de Aristóteles e a formalização do
Princípio da Contradição. (Para tal, ver Tugendhat, cap. 5 2005).
7
O que empresta à Ontologia a mais difícil das tarefas: responder “o que é Ser”. Para uma
discussão detalhada, remetemos a Heidegger, Ser e Tempo, 1927, Primeiro Capítulo.
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SEÇÃO TEMÁTICA
Lacan esclarece este aparente equívoco e nos dá indícios do que podemos traçar como sua concepção de linguagem: “O significante não está a
serviço do princípio da contradição, já que a não é a.” (Classe 10 de 21 de
fevereiro de 1962,do seminário “A identificação”). Interna contradição humana!
O significante um-a-mais é o que coloca o relacionado sob seu jugo.
Isto responde às perguntas dos atentos alunos do seminário de Lacan que
lhe perguntavam: O falo é fálico? O seio é mamário? Encontrando como
resposta que ‘à medida que o significante falo aparece como fator revelador
do sentido da função significante em um certo estágio’, (Classe 10 de 21 de
fevereiro de 1962, do seminário “A identificação”) o falo não é fálico, mas
coloca o pênis real sob a ameaça da castração. E se, com Melman, enxergamos que há um desvio deste significante que articula a cadeia significante,
sob que ameaça estamos?
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CORRÊA, Ivan. A Psicanálise e seus paradoxos. Bahia: Ágalma, 2001.
CRAIG, Edward. Routledge Encyclopedia of Philosophy. London: Routledge, 1998.
HAACK, Susan. Filosofia das Lógicas. São Paulo: UNESP, 2002.
LACAN, Jacques. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
LACAN, Jacques. El Seminario. CD Rom
MEULEN, Alice; BENTHEM, Johan. Handbook of Logic and Language. Amsterdam:
Elsevier, 1997.
SAINSBURY, R. M. Paradoxes. USA:Cambridge Univesity, 1995.
TUGENDHAT, Ernst; WOLF, Ursula. Propedêutica Lógico-Semântica. Petrópolis:
Editora Vozes, 2005.
SEÇÃO DEBATES
OS GRUPOS DE KLEIN NA OBRA DE LACAN1
Ligia Gomes Víctora
Felix Klein
F
elix Klein (1849-1925) foi um matemático nascido em Düsseldorf, an
tiga Prússia, atual Alemanha, que ficou conhecido por suas pesqui
sas na geometria não-euclidiana. Herdeiro do trabalho de Plücker,
colega de Engel e contemporâneo dos fundadores da Topologia, De Morgan,
Jordan e Poincaré, Klein deu uma importantíssima contribuição às teorias do
Grupo e da Função. As primeiras descobertas matemáticas importantes de
Klein foram feitas em 1870 em colaboração com Marius Lie. Em 1875, Klein
casou-se com Anne Hegel, neta do filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel.
Klein desenvolveu a geometria de Riemann e a teoria das funções.
Mas sua saúde delicada conspirava contra sua força de trabalho. Como se lê
em sua biografia2: “nele conviviam duas almas... uma que aspirava a uma
vida acadêmica tranqüila, a outra, à vida ativa de editor, professor, e pesquisador científico... Durante o outono de 1882, estes dois mundos vieram abaixo... sua saúde desmoronou completamente, e durante os anos de 1883-84
foi flagelado por uma depressão”. (Será que temos aqui mais um matemático
angustiado?!)
Além da teoria dos Grupos, Klein inventou a nossa querida “Garrafa de
Klein”. Ele também desenvolveu uma teoria de funções automórficas,
conectando resultados algébricos e geométricos em seu livro de 1884, sobre
o icosaedro. Entretanto, na mesma época (1881), Poincaré – conhecido como
o pai da topologia – começou a publicar um esboço da teoria das funções
automórficas e isso provocou uma acirrada competição entre ambos. Primeiramente, iniciou-se uma correspondência entre eles, que logo deu lugar a
uma “rivalidade amigável”, cada um procurando formular e provar um teorema
que servisse como a pedra angular dessa nova ciência.
1
Resumo do Seminário de Topologia da APPOA, ministrado pela autora em 09/07/2004.
Estes e outros dados encontram-se no site: http://www-gap.dcs.st-and.ac.uk/~history/
BiogIndex.html. Tradução da autora.
2
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SEÇÃO DEBATES
REFLEXOS NO ESPELHO
O texto kleiniano (do Félix, não da Melanie!), conhecido como “Reflexos no espelho” ou “programa de Erlanger” (1872), influenciou profundamente
o desenvolvimento da matemática. Este foi escrito para a ocasião da aula
inaugural de Klein, quando ele foi nomeado professor em Erlangen (embora
não tenha sido realmente o discurso que ele deu nessa ocasião). O programa, inovador na época de Klein, propõe uma aproximação entre a geometria
espacial (euclidiana) e a geometria analítica (não-euclidiana). Hoje as contribuições de Klein já foram completamente absorvidas pela matemática moderna.
O Grupo de Klein é uma função de transformação. Transformações
jogam um papel fundamental na matemática moderna. Klein mostrou como
as propriedades essenciais de uma geometria poderiam ser representadas
por grupos de transformações, em que dois elementos jogam entre si para
formar um terceiro, onde:
VÍCTORA, L. G. Os grupos de Klein...
UMA LÓGICA QUATERNÁRIA
Podemos considerar a lógica de Lacan uma lógica quaternária. Vejam, por exemplo, os esquemas L, R e I; o sistema a, ß, γ, δ; o Grafo do
desejo; a fórmula da metáfora; os quatro discursos; a lógica da sexuação...
Os grupos de Klein estão presentes na maioria das elaborações de
Lacan. Desde o “diamante” do Seminário “Os escritos técnicos de Freud”
(53/54), no qual as três “paixões do sujeito” (amor, ódio e ignorância) são
postas nos lados de um primeiro triângulo, que vai se desdobrando em uma
análise. Mas o que eu gostaria de retomar aqui é o tratamento que Lacan
deu ao cogito de Descartes, a partir de um grupo de Klein.
Primeiramente, no seminário “A identificação”, Lacan transformara os
laços cartesianos entre o pensamento e o ser (“penso, logo sou”), através de
uma abordagem “morganiana” (do matemático e lógico De Morgan (18061871), dos círculos de Euler (1707-1783).
0 = neutro (o elemento, em contato consigo mesmo, nada faz)
axb=c
bxc=a
axc=b
A relação entre os quatro elementos pode ser organizada nesta tabela:
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45
SEÇÃO DEBATES
Mais tarde, no seminário A Lógica do Fantasma (lição de 14/12/66) o
cogito cartesiano foi retomado sob o prisma dos grupos de Klein.
E foi também a partir de uma associação sobre o cogito cartesiano que
Lacan recuperou este raciocínio, no seminário O ato psicanalítico (1967-68).
Com a lógica da alienação (ou... ou...), Lacan encontrou uma alternativa de escritura para a falta original do sujeito. “O interesse desta teoria dos
conjuntos é que ela introduz no pensamento matemático sob uma forma
mascarada, o sujeito da enunciação que vem, assim, se igualar à função de
conjunto vazio. Isso justifica no cogito a passagem do” penso, logo sou “, à
sua negação “não penso, não sou”, sob forma de uma reunião: reunião daqueles que negam a conjunção das duas proposições”. 3
O que se operava em Descartes era, conforme Lacan, a transformação da relação patética (no sentido de pathos) da interrogação filosófica, em
uma outra coisa: em um questionamento da função do eu, ou seja, do sujeito. Esta substituição (do penso pelo sou) precisava ser questionada justamente pela negação. Se “eu penso” é necessário para “eu sou”, se não
houver “penso”, não haverá “sou”. Logo, sem “pensar”, nada de “ser”! Na
linguagem lógica, diríamos: se P logo Q; não P, logo não Q. Ora, como o
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VÍCTORA, L. G. Os grupos de Klein...
sujeito nasce do nada, do vazio ou do lugar falta, que não por acaso também
é o lugar do desejo, a lógica é subvertida, pois o lugar mais “vazio” é o lugar
mais “cheio”. Entre o pensar e o ser, o lugar é do objeto a e do -ϕ(fi negativo)
– o desejo sempre vem no lugar da falta.
Negando-se ambas as expressões: “ou eu não penso, ou eu não sou”,
e se juntarmos a isto o soll Ich werden freudiano – “Eu devo advir” – teremos
a seguinte equação: “lá onde Isso era... Eu não penso”! Observem que no
seminário “O ato...” está grafado ao contrário de como se costuma nos livros
de lógica: o conjunto ‘hachureado’ contém elementos, e onde está em branco, é vazio. Com a ressalva de que os campos que contêm elementos são
sempre negativos (Não penso, Não sou), o que faz com que onde contém,
não contenha, e vice-versa.
Mais uma vez 4, Lacan se utilizou de uma estrutura tetraédrica (grupos de Klein):
4
LACAN, J. Seminário O Ato Psicanalítico, 10/01/67.
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.
SEÇÃO DEBATES
CALLEGARI, A. I. Tempo
Onde estaria o analista neste esquema?
Lacan indicou que o Inconsciente, isto é, o lugar da Verdade, possui
um estatuto lógico no qual o sujeito é suposto se alojar só depois (aprèscoup). Por isso, o discurso analítico seria como um “lugar reserva”, sendo a
interpretação uma tentativa de preservar esse lugar.
O mais interessante deste esquema é o lugar “de eclipse”, em que o
psicanalista seria colocado, na transferência. Ali o analista estaria, de certa
forma, preservado no lugar de sujeito suposto saber.
A estrutura de uma análise seria a mesma da construção subjetiva.
Partindo da divisão inaugural do sujeito (“ou... ou...”), passando pelo lugar do
“lá onde Isso era” (“sou, não penso”), seguindo para a instalação em seu
falso-ser inconsciente (“penso, não sou”), para se reencontrar finalmente no
lugar do desejo.
O final de uma análise traria necessariamente uma certa realização
do que Lacan chamou de “operação verdade”, em que o analista seria destituído do lugar do suposto saber. Seria percorrer um percurso completo no
grafo acima, até chegar a esta falta que define a essência do homem – que
chamamos de desejo – e que corresponde ao acesso à castração simbólica.
-oOoEsta é apenas uma leitura possível dessa viagem de Lacan através
dos grupos de Klein e da lógica da alienação. Muitas outras são possíveis, e
convido vocês a lerem as aulas 5 e 6, do Seminário “O ato psicanalítico”, e a
fazerem as suas!
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
LACAN, J. El Seminario, versão em CD- rom.
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C. da APPOA, Porto Alegre, n. 138, agosto 2005
TEMPO
Anna Irma Callegari
Instantes... instantes...
Infindável sucessão
Instantes de sessão
Impensável cessação.
Imprevisível no silêncio
Interminável às vezes,
Imperceptível, outras.
Imponderável na leveza
Indefinível na duração
Incalculável na ação.
Ação de tempo longo,
Longo tempo...
Longa espera!
Nada vai fluindo,
Nada vai escoando,
Nada vai passando...
Mas... a sessão
Vai ecoando
E, num crescendo,
Vai significando,
Vai se distendendo,
E vou falando
E vou dizendo:
Que longo tempo
Que não passa...
Que me passa é medo,
Medo da fala,
Do som prolongado
De uma palavra
E o tempo não passa!
Se passa, é limite.
Limite? Aí se (A.I.C.)
(me) apaga!
Que seria o limite?
O tempo curto?
Mas, se curto o tempo,
Estou sofrendo,
Estou vivendo,
Vivendo o tempo
Vi, vendo o tempo.
Vivendo.
Então, vivo a vida
E... vivo o tempo,
Um tempo finito.
(julho1990)
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 138, agosto 2005
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RESENHA
RESENHA
O PACIENTE, O TERAPEUTA E O
ESTADO
ROUDINESCO, Elisabeth. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editora Ltda, 2005. 149 p.
Dividido em cinco capítulos e três anexos, nos quais a autora transcreve: 1. o “Juramento de Hipócrates”; 2. “Uma tentativa
de classificação das medicinas da alma e
do corpo” e, no terceiro, ela lista “As seitas
contemporâneas”. O que resulta da leitura
desta “lista” é a reflexão sobre o lugar de
onde falamos ou escutamos. A tentativa de
classificação dos tratamentos põe em
check, na cronologia histórica, o período em que estamos envolvidos. O
juramento confronta felicidade e honradez com a palavra dada.
O primeiro capítulo está centrado na figura estrutural do que a autora
chamou de “heterogêneo” (p.18), que seria um ser duplo: envenenador ou
reparador, o “charlatão” se configuraria como o “outro” da ciência e da razão,
o outro de nós mesmos. Da clássica definição de saúde preconizada pela
OMS(Organização Mundial da Saúde): “num estado de bem-estar físico,
social e mental do indivíduo”, passando por questões da cultura do narcisismo,
cai-se na espetacular cultura da ilusão terapêutica que promete nada menos que a imortalidade.
A criação do termo psicoterapia por Tuke em 1872 (fundador da
psiquiatria inglesa) desdobra curiosas associações no catálogo da própria OMS, em especial tratamentos ditos clássicos, de medicinas alternativas, sectárias, espirituais ou corporais. A relação da psicanálise com
esses tratamentos, e a relação dos pacientes e terapeutas com a crença na cura prometida é criteriosamente discutida, sob ângulos de tratamentos religiosos, acadêmicos e culturais. Tudo isso sob a ótica de um
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C. da APPOA, Porto Alegre, n. 138, agosto 2005
estado que se atribui o direito e o dever de proteger os seus cidadãos
tornando-os infantis.
O terceiro ponto do livro trata sobre o fenômeno sectário, essa coisa
inominável – essa “charlatanice sem bordas” – pela qual uma comunidade
designa incessantemente aquilo que não é. A seita é ao mesmo tempo a
provedora de uma droga (phármakos) e a própria droga (phármakon), pretendendo depurar seus adeptos. Com mais de quinhentos milhões distribuídos
pelo mundo, particularmente nos EEUU e na América Latina, a seita dos
evangélicos (oriunda das Igrejas protestantes tradicionais) estabeleceu como
missão organizar o “Armagedon” (a batalha final entre o bem e o mal) despertando os cristãos do seu adormecimento. No Brasil, além do comando de
universidades, houve tentativa de regulamentar a formação do psicanalista,
reivindicando ao Estado uma lei que a regulamentasse. 1
Sob o instigante título “Miragens da perícia” este capítulo trata
fundamentalmente da formação do terapeuta e suas relações com o Estado. É interessante observar o acento colocado pela autora de um
distanciamento entre a psiquiatria – colocando-se a serviço dos laboratórios farmacêuticos e da ditadura das perícias técnicas – e a psicanálise. No capítulo sobre a ideologia de avaliação, Roudinesco (p.92) argúi:
“A questão fundamental a ser colocada é saber de que instância legal
provém aquele que pretende avaliar os outros? Quem está em condições
de avaliar o avaliador? Como controlar as derivas ligadas às miragens
dessa ideologia da perícia generalizada que assaltou as sociedades democráticas e que pretende, em nome da segurança das populações,
controlar o incontrolável?”. Também o custo dos tratamentos é levantado
na questão de avaliação e controle das práticas terapêuticas na sociedade de consumo, onde o melhor tratamento deve ser o mais barato.
1
Submersos num confronto em nosso país, que já passa de um ano e que envolve poder,
obrigações, formação, igrejas, delimitação de espaço, reserva de mercado, ortodoxia, mídia,
liberdade, entre outros pontos, discute-se sob a égide política sobre o dito “ato médico”:
quem faz, ou o quê cada um poderá fazer.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 138, agosto 2005
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RESENHA
AGENDA
No último capítulo Roudinesco salienta em Freud2 as afirmações
que atestam sobre a contradição inerente ao status da psicanálise: do ponto
de vista teórico um sistema de pensamento, do ponto de vista clínico, uma
arte. Sob o título “Do bom e do mau governo” a autora diz: “Quanto aos
membros das ‘boas’ sociedades lacanianas, agora subordinadas à IPA, o
luto da figura do mestre levou-as não à sabedoria ou à reconciliação com a
ética freudiana, mas à normalização profissional e, finalmente, por
autoimunização, à raiva dos ‘outros’ ”. (p.122).
Em tempo: é conveniente salientar que a obra resenhada trata em
especial da França, no ano 2000. E de uma emenda à constituição daquele
país que tentava “legalizar” (?) as atividades “psi”. Considerando a nossa
posição geográfica, histórica e cultural parece ser necessário observar com
atenção os desdobramentos aqui, espelhados no já acontecido naquele país.
– Tememos qual charlatão? Parece ser a questão final que não cala.
Gilson Firpo
Data
04, 11,
Hora
Local
Atividade
19h30min
Sede da APPOA
Reunião da Comissão de Eventos
08 e 22 20h30min
Sede da APPOA
Reunião da Comissão do Correio da APPOA
04
21h
Sede da APPOA
Reunião da Mesa Diretiva
12, 19
e 26
8h30min
Sede da APPOA
Reunião da Comissão de Aperiódicos
05 e 19 15h15min
Sede da APPOA
Reunião da Comissão da Revista da APPOA
18
Sede da APPOA
18 e 25
21h
Reunião do Mesa Diretiva aberta aos
Membros da APPOA
Data
Hora
Local
Evento
01 e 02/10/05 9h às 18h
Plaza São Rafael
Jornadas Clínicas
13/08/05
10h
Sede da APPOA
Exercícios Clínicos
25/08/05
20h às 22h
Livraria Cultura
Núcleo Passagens
06/08/05
10h às 12h
Sede da APPOA
Núcleo Toxicomanias
01/08/05
20h30min
Sede da APPOA
Núcleo das Psicoses
27/08/05
10h às 12h
Sede da APPOA
Núcleo Psicanálise de Crianças
06/08/05
11h
Livraria Cultura
Lançamento do Livro “Prostituição O Eterno Feminino” de Eliana dos
Reis Calligaris
PRÓXIMO NÚMERO
FREUD, S. As perspectivas futuras da terapia analítica (1910), ESB, vol.II. e Sobre o
ensino da psicanálise nas universidades. ESB, vol.XVII.
PERCURSO DE ESCOLA
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 138, agosto 2005
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 138, agosto 2005
2
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53
Revista da APPOA
e Correio da APPOA
Capa: Manuscrito de Freud (The Diary of Sigmund Freud 1929-1939. A chronicle of events
in the last decade. London, Hogarth, 1992.)
Criação da capa: Flávio Wild - Macchina
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1a Tesoureira: Maria Lúcia Müller Stein
2a Tesoureira: Ester Trevisan
MESA DIRETIVA
Alfredo Néstor Jerusalinsky, Ângela Lângaro Becker, Carmen Backes,
Edson Luiz André de Sousa, Ieda Prates da Silva, Ligia Gomes Víctora,
Maria Auxiliadora Pastor Sudbrack, Maria Ângela Cardaci Brasil,
Maria Beatriz de Alencastro Kallfelz, Maria Cristina Poli, Nilson Sibemberg,
Otávio Augusto Winck Nunes, Robson de Freitas Pereira e Siloé Rey
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EDITORIAL
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NOTÍCIAS
2
SEÇÃO TEMÁTICA
O CONCEITO DE FANTASMA NA OBRA
DE LACAN
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A TOPOLOGIA NÃO FAZ CRUZ
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O HOMEM DE PEDRA E O FANTASMA
SEM LÓGICA
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LACAN É LACANICANO?
SOBRE RUSSEL E LACAN
Felipe Garrafiel Pimentel
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OS GRUPOS DE KLEIN NA OBRA DE
LACAN
Ligia Gomes Víctora
TEMPO
Anna Irma Callegari
RESENHA
O PACIENTE, O TERAPEUTA E O
ESTADO
Gilson Firpo
AGENDA
N° 138 – ANO XII
N° 138 – ANO XII
AGOSTO – 2005
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A TOPOLOGIA E A
LÓGICA DO FANTASMA
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AGOSTO – 2005
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EDITORIAL Ao longo de sua obra, Lacan buscou tecer uma série de