IZABEL CRISTINA VIEIRA ANTÔNIO A ATUAÇÃO DA PERSONAGEM EMÍLIA NA OBRA DE MONTEIRO LOBATO: MEMÓRIAS DA EMÍLIA CRICIÚMA, 2005 1 IZABEL CRISTINA VIEIRA ANTÔNIO A ATUAÇÃO DA PERSONAGEM EMÍLIA NA OBRA DE MONTEIRO LOBATO: MEMÓRIAS DA EMÍLIA Monografia apresentada para a obtenção do título de Especialista em Língua Portuguesa – Fenômeno Social Político da Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC. Orientador: Prof. Dr. Gladir da Silva Cabral CRICIÚMA, 2005 2 “Tudo é loucura ou sonho no começo. Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra maneira, mas já tantos sonhos se realizaram que não temos o direito de duvidar de nenhum” (Monteiro Lobato, 1923). 3 RESUMO O presente trabalho visa, inicialmente a resumir um pouco da vida e da obra de Monteiro Lobato, que começou sua carreira como escritor, foi um importante editor, mas cujo sucesso e reconhecimento se deu quando resolveu voltar a escrever para um público carente de uma literatura de qualidade: o público infantil. Abordaremos neste trabalho um universo complexo e de difícil apreensão, tendo em vista que para muitos ainda é difícil separar personagem de pessoa. Monteiro Lobato, por meio da obra Memórias de Emília, passou a nós leitores conhecimentos científicos e filosóficos. Fez definições a respeito da verdade e da vida, língua e esperteza. Revelou também o quão preconceituosa é a nossa cultura. Palavras-chave: Monteiro Lobato, literatura infantil, personagens, Emília. 4 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO................................................................................................... 05 2 MONTEIRO LOBATO E A LITERATURA BRASILEIRA................................... 08 2.1 Biografia de Monteiro Lobato........................................................................... 08 2.2 Monteiro Lobato, o editor do Brasil.................................................................. 10 2.3 Monteiro Lobato, o escritor.............................................................................. 11 2.4 Monteiro Lobato, o criador do Sítio do Picapau Amarelo.............................. 13 3 TEORIA DA PERSONAGEM............................................................................. 16 3.1 Personagens e pessoas................................................................................... 16 3.2 A personagem e a tradição crítica................................................................... 18 3.3 Recursos de construção.................................................................................. 19 3.4 Literatura infanto-juvenil................................................................................... 21 3.5 As personagens dos contos de fadas.............................................................. 24 4 EMÍLIA: VIDA E LIBERDADE............................................................................ 26 4.1 Emília: conquistando a liberdade..................................................................... 27 4.2 Emília: consciente e crítica.............................................................................. 29 4.3 Emília: fazendo críticas sociais........................................................................ 31 4.4 Emília: preconceituosa..................................................................................... 32 4.5 Emília: pretensiosa e sonhadora...................................................................... 34 4.6 Emília e Visconde............................................................................................ 36 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................... 39 REFERÊNCIAS..................................................................................................... 42 5 1 INTRODUÇÃO Monteiro Lobato, o criador da personagem Emília, contribuiu muitíssimo com a literatura no nosso país, primeiro como escritor, depois como editor, afinal editou vários livros de escritores que se consagraram em nosso país. Depois de ter fracassado como editor, passou a escrever novamente, e dessa vez se dedicou à literatura infantil. Foi nessa ocasião que Lobato realmente se consagrou, consagrando consigo a surpreendente e encantadora boneca Emília. Lobato colocou nessa personagem verossímil tudo o que vivenciou enquanto homem e tudo o que gostaria de viver, pois Emília assume uma postura de gente vivida e madura, e essa postura se torna cheia de graça por ser representada por uma boneca que parece criança. A escolha por analisar a personagem Emília deve-se ao fato de que tudo o que a boneca fala leva-nos a pensar sobre nossa situação enquanto parte de uma sociedade com muitos problemas já resolvidos e muitos ainda por resolver. Emília, a seu modo, tenta explicar quase tudo e sempre consegue ser convincente. Emília completa o que falta em muitos de nós, e esse complemento só é possível a essa personagem porque ela fala e é extremamente corajosa. Emília é uma boneca que se comporta como gente, gente que vive plenamente. No primeiro capítulo deste trabalho, mostra-se um pouco da vida e da obra de seu criador: Monteiro Lobato, mostra-se ainda de que forma surgiu o Sítio do Picapau Amarelo e, finalmente, como sua personagem mais encantadora adquiriu vida, tornando-se o que é, independente e cheia de graça. A independência dessa personagem se deu a partir do momento em que começou a falar: - “Fiquei falante com uma pílula que o célebre Doutor Caramujo me deu” (LOBATO, 1987a, p. 22). E desde então, a boneca começou a falar tudo o que pensava, pensou sobre esperteza, sobre a vida e fez filosofia, surpreendendo a todos. Surpreendeu porque foi a partir desse momento que a boneca provou e comprovou que é por meio da linguagem que se consegue: independência, respeito, credibilidade e, na maioria das vezes, afeto, afinal quem não gosta de Emília? Emília jamais falou o que os outros gostariam de ouvir, falou apenas aquilo que queria. Aí se encontra sua independência. A boneca não se prende a cerimônias, a convenções, ao fato de falar sobre determinado assunto com o intuito 6 de agradar; pelo contrário, muito do que fala desagrada bastante, tia Nastácia e Visconde que o digam. Outra questão memorável é o fato de que, sendo boneca, não possui vida, porém, como é falante, consegue definir vida mesmo sem tê-la, e sua definição sobre a vida é tão convincente que nenhum de nós ousa discordar. Para Antônio Cândido (1976, p. 54), “a criação literária repousa sobre este paradoxo (a boneca não possui vida, no entanto faz definições sobre ela) e o problema da verossimilhança no romance depende dessa possibilidade de um ser fictício, isto é, algo que sendo uma criação da fantasia, comunica a impressão de uma verdade existencial”. Ela compara a vida ao ato de piscar e a última piscada, para ela, é a morte. Para detalhar parte da vida e obra de Monteiro Lobato, foi necessária a leitura da obra de Cassiano Nunes, a qual tem como título Monteiro Lobato o editor do Brasil. No segundo capítulo, entraremos num “mundo” bastante complexo, o “mundo” em que estão inseridas todas as personagens da arte literária. A personagem Emília, objeto principal de nossa pesquisa, deve ser classificada como uma personagem redonda, pois ao longo da obra de Lobato ela se mostra de forma complexa e surpreendente por meio de seus atos. De acordo com Beth Brait (1987, p. 44), personagens redondas “são aquelas definidas por sua complexidade, apresentando várias qualidades e surpreendendo convincentemente o leitor. São dinâmicas, são multifacetadas, constituindo imagens totais e ao mesmo tempo muito particulares do ser humano”. Para averiguarmos se Emília é uma personagem redonda, foi necessária a leitura de vários teóricos, os quais abordaram o universo das personagens de forma clara e objetiva. As obras lidas foram: O que é a Literatura Infantil, de Lígia Cademartori; A personagem, de Beth Brait; Personagens da Literatura Infantojuvenil, de Sonia Salomão Khéde; A personagem de ficção, de Antônio Cândido; e Análise Literária, de Massaud Moisés. No decorrer do terceiro capítulo, entraremos em contato direto com a obra de Monteiro Lobato, que tem como título Memórias da Emília, quando buscaremos de forma convincente mostrar que a personagem Emília vive, sim, e vive livremente, adquiriu sua liberdade por meio da fala, falou coisas fantásticas e chocou ao mesmo tempo, mostrando-se preconceituosa e racista. Entretanto, Emília possui um senso 7 crítico bastante aguçado, afinal essa personagem faz inúmeras reflexões. Emília também faz críticas sociais, mas ela foi a protagonista número um do que ela mesma, criticava e se desculpou dizendo: “Ser esperto é tudo”. Isso faz com que a desculpemos, poupando-lhe qualquer julgamento. Emília mostra-se completa, não falta nada a essa personagem, ela vive, é livre, é preconceituosa, é crítica e possui sonhos, sonhos grandiosos, os quais podese chamar: “Pretensões de uma boneca que parecia ser gente”. Por último, abordaremos a questão de que Emília é como é porque tem junto de si um amigo fiel e parceiro inseparável, Emília é encantadora porque tem por perto o intelectual, o parceiro perfeito, Visconde de Sabugosa. Emília e Visconde se completam, são um só corpo de sabugo e pano, unidos por tia Nastácia e inseparáveis para o resto do mundo. Emília e Visconde serão para sempre um casal inesquecível dentro da literatura infantil. 8 2 MONTEIRO LOBATO E A LITERATURA BRASILEIRA 2.1 Biografia de Monteiro Lobato De acordo com informações da Editora Brasiliense (1972), Monteiro Lobato nasceu em 18 de abril de 1882, em Taubaté, Estado de São Paulo, filho de José Bento Marcondes Lobato e Olímpia Augusta Monteiro Lobato. Recebeu o nome de José Renato Monteiro Lobato, que por decisão própria modificou mais tarde para José Bento Monteiro Lobato, desejando usar bengala do pai, gravada com as iniciais J.B.M.L. Juca – assim era chamado – brincava com suas irmãs menores, Ester e Judite. Naquele tempo não havia tantos brinquedos, eram toscos, feitos de sabugos de milho, chuchu, mamão verde, etc. Adorava os livros de seu avô materno, o Visconde de Tremembé. Sua mãe o alfabetizou, teve depois um professor particular e aos sete anos entrou num colégio. Leu tudo o que havia para crianças em língua portuguesa. Em dezembro de 1896 presta exames, em São Paulo, das matérias estudadas em Taubaté. Monteiro Lobato (1972) perdeu seu pai aos 15 anos, vítima de congestão pulmonar e, aos dezesseis anos, sua mãe. No colégio, fundou vários jornais, escrevendo sob pseudônimo. Aos dezoito anos entrou para a Faculdade de Direito, por imposição do avô, pois preferia a Escola de Belas-Artes. Era anticonvencional por excelência, dizia sempre o que pensava, agradasse ou não. Defendia a sua verdade com unhas e dentes, contra tudo e todos, quaisquer que fossem as conseqüências. Monteiro Lobato (1972) diplomou-se Bacharel em Direito no ano de 1904, e em maio de 1907 foi nomeado promotor em Areias. Casou-se, no ano seguinte, com Maria Pureza da Natividade (Purezinha), com quem teve os filhos Edgard, Guilherme, Marta e Rute. Viveu no interior, nas cidades pequenas, sempre escrevendo para jornais e revistas: Tribuna de Santos, Gazeta de Notícias do Rio e Fon-Fon, para onde mandava caricaturas e desenhos. Em 1911 morreu seu avô, o Visconde de Tremembé, e dele herdou a fazenda Buquira, passando de promotor a fazendeiro. A geada e as dificuldades levaram-no a vender a fazenda no ano de 1917, transferindo-se para São Paulo. Mas na fazenda escreveu sobre o “Jeca Tatu”, símbolo nacional. 9 Em 4 de julho de 1948 perdeu-se esse homem, vítima de colapso, em São Paulo. Mas o que ele tinha de essencial, seu espírito jovem, sua coragem, está vivo no coração de cada criança. Viverá sempre, enquanto estiver presente a palavra inconfundível de “Emília” (LOBATO, 1972). Monteiro Lobato foi o maior escritor de literatura infantil brasileira. Foi um homem extremamente dedicado a causas sociais. Preocupou-se muito com o bemestar do povo brasileiro. Manifestou sua indignação contra a falta de saneamento da época, criando a polêmica figura do Jeca Tatu. Conforme a obra Problema Vital, de Monteiro Lobato (1972, p. 173), Jeca Tatuzinho foi lançado em 1924. Nessa obra, Lobato deixa claro que o que é preguiça e falta de vontade para uns pode ser doença para outros: “o doutor receitou-lhe o remédio adequado; e depois disse: e trate de comprar um par de botinas e nunca mais me ande descalço [...] três meses depois ninguém mais conhecia o Jeca. A preguiça desapareceu”. Assim foi quase toda a vida de Monteiro Lobato, esteve sempre preocupado com o bem estar do povo brasileiro. Não legislou em causa própria. De acordo com Cassiano Nunes (2000), Monteiro Lobato viveu durante quatro anos em New York, ficou lá de 1927 a 1931, ficou fascinado por Henry Ford, pela metalurgia e pelo petróleo. Quando voltou para o Brasil, entregou-se à campanha em prol de nossas riquezas naturais: o ferro e o petróleo. Enviou cartas ao país inteiro, fez conferências, manifestou-se de inúmeras formas, queria conscientizar o país da riqueza natural que aqui se escondia. Por causa disso foi preso, pois não era de interesse do governo de Getúlio Vargas deixar a exploração do petróleo nas mãos dos brasileiros. O referido governo já estava comprometido com as multinacionais. Percebe-se que Lobato fora um homem versátil, pois fez política social atirando-se à causa do petróleo e à sua famosa personagem Jeca Tatu. Mas não parou por aí, era um homem ambicioso e preocupado em revelar o “verdadeiro Brasil”. Graças a seu espírito empreendedor e à necessidade de se expressar livremente, passou do estágio de renomado jornalista para o estágio de “Editor do Brasil”. 10 2.2 Monteiro Lobato, o editor do Brasil Em 1918, Lobato comprou a Revista do Brasil. Assumiu uma empresa em decadência, mas em pouco tempo ele a fez prosperar. O aumento no volume dos negócios levou Lobato e seu colaborador na revista, Octalles Marcondes Ferreira, a criarem, em 1920, a Monteiro Lobato e Cia. De acordo com Cassiano Nunes (2000), em 1924, no bairro do Brás, em São Paulo, Lobato montou o maior parque gráfico da América Latina. E para dar maior suporte ao projeto de expansão, a Monteiro Lobato e Cia., transformou-se em maio daquele ano na Companhia Gráfica Editora Monteiro Lobato SA, que tinha como presidente, na época, José Carlos Macedo Soares, e reunia a nata da classe dirigente paulistana. Durante o período em que Monteiro Lobato esteve à frente de sua Companhia Gráfica, muito contribuiu com a publicação de livros brasileiros. Antes de Lobato ser editor, os livros eram todos impressos em Portugal e a impressão era precária. Com o Lobato editor, a impressão ganhou uma nova feição. Lobato publicou obras de escritores que marcaram época, dentre eles destacamos: Oswald de Andrade, Ribeiro Couto, Lima Barreto, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, entre outros. De acordo com Cassiano Nunes (2000, p. 43), “em pouco tempo de existência a editora de Lobato era o fato cultural mais importante do país”. O sucesso da editora de Lobato não durou um ano, pois em 1925 as finanças da editora foram seriamente abaladas pelas dívidas contraídas para a importação do maquinário. Somou-se ainda a seca que castigou São Paulo, que acabou reduzindo de forma drástica o fornecimento de energia elétrica. E, se isso não bastasse, uma súbita mudança na política econômica desvalorizou a moeda e suspendeu o desconto de títulos pelo Banco do Brasil. Com isso, a Monteiro Lobato e Cia entrou em crise terminal. Após a falência da editora, que outrora fora administrada por Lobato, é então fundada, por Marcondes, a Cia. e Editora Nacional. A linha dessa nova editora continuava sendo a de Lobato, tendo em vista que mantinha o mesmo requinte iniciado por ele e seus colaboradores na preparação dos livros. A Editora Nacional começou então a lançar um sucesso atrás do outro e se firmou como a editora mais 11 importante do país. De acordo com Cassiano Nunes (2000), no ano de 1945 Lobato organizou sua obra completa para a Editora Brasiliense, que fora fundada em 1943 por Caio da Silva Prado, Leandro Dupré, Hermes Lima, Artur Neves e Caio Prado Júnior. Em 1946 Lobato tornou-se um dos sócios dessa editora. A organização da obra de Monteiro Lobato é composta de 32 volumes e traz na 1ª série a divisão – Literatura Geral (11 volumes) encabeçando a série temse Urupês. Já na 2ª série, a divisão se dá com o título – Literatura Infantil (12 volumes). Iniciando a série temos: Reinações de Narizinho. E na última série temos: Traduções e Adaptações (9 volumes). Tais traduções e adaptações iniciaram-se com contos de fadas e contos de Andersen, passando por Alice no País das Maravilhas e finalizando com os memoráveis Robinson Crusoé e Robin Hood. Por meio dessa vasta biografia, percebe-se que Monteiro Lobato, durante toda sua existência, sempre esteve ligado de forma direta ou indireta ao que houve de mais importante no universo editorial brasileiro. Primeiro atuou como jornalista (nessa ocasião procurou a seu modo fazer um trabalho crítico consciente, o que desagradou muita gente), depois de forma clara e ousada como editor. Fez ainda traduções e adaptações que marcaram e marcam inúmeras crianças brasileiras. Mas com certeza o seu maior talento foi como escritor. Tendo em vista que, quando Lobato escrevia, o “Brasil” parava para ler e para refletir sobre sua condição, condição essa de submissão e conformismo. A maior virtude de Lobato estava centrada na maneira corajosa que ele tinha de denunciar os desmandos políticos da época. 2.3 Monteiro Lobato, o escritor Monteiro Lobato fora um editor consagrado, um jornalista polêmico, temido e respeitado pelo povo brasileiro. De acordo com Cassiano Nunes (2000), Monteiro Lobato, já cansado e decepcionado com os adultos, retornou a literatura, e tinha como alvo o público infantil. Cassiano Nunes diz ainda que o que levou Lobato a escrever para crianças foi a falta de uma literatura dedicada a elas. 12 Marisa Lajolo, por meio de sua obra Do Mundo da Leitura para a Leitura do Mundo, revela ao leitor um outro fato, no que se refere ao retorno de Lobato à literatura. Para ela, Lobato insistia na literatura como fonte de renda, especificando que a literatura infantil (ao lado do jornalismo), como gênero economicamente rentável, garantia rentabilidade mais assegurada. Mas independentemente de crise financeira ou a falta de uma literatura infantil tipicamente brasileira, o mais importante é que Lobato retornou. Retornou em grande estilo, com excelentes personagens. Lobato criou personagens para todos os gostos. Criou o extremamente culto, o culto ponderado, o criativo, o imaginário e sua mais encantadora personagem: Emília, “a boneca atrevida” que ainda encanta o público adulto e infantil. Monteiro Lobato, além de divertir e encantar o público infantil, também contribuiu muitíssimo, assessorando os trabalhos escolares, afinal todos conheciam Lobato, e Lobato conhecia todos os clássicos estrangeiros, somando a vasta experiência do já consagrado escritor. Lobato anuncia em 1933 a Anísio Teixeira Emília no País de Gramática: “Estou escrevendo Emília no país da Gramática. [...] Está estupendo. Inda agora fiz a entrevista de Emília, na qualidade de repórter do Grito do Picapau Amarelo, um jornal que ela vai fundar [...]” (NUNES, 1986, p. 3031). A contribuição de Lobato para com os trabalhos escolares não ficou apenas com Emília no País da Gramática, Lobato colaborou ainda com outros títulos memoráveis que auxiliam ainda hoje trabalhos acadêmicos, são eles: Aritmética da Emília, Geografia de D. Benta, a Reforma da Natureza, entre outros. Monteiro Lobato foi um escritor extremamente criativo, não aceitava cópias do estrangeiro, queria algo dele e, por isso, sempre afirmou: “Quero puxar fila, jamais segui-la”. De acordo com Ligia Cademartori (1987, p. 43): A literatura infantil brasileira inicia sob a égide de um de nossos mais destacados intelectuais: Monteiro Lobato. Se isso por um lado, prestigiou o gênero no seu surgimento, por outro, fez com que, após Lobato, por muito tempo, a literatura infantil brasileira vivesse a sombra de seu nome. Sabe-se que Monteiro Lobato fora um homem muito crítico, alguém que sabia e não escondia de ninguém os problemas do nosso Brasil. Muito desse homem crítico e sincero está presente na sua literatura. 13 Jeca Tatu é exemplo de um dos protestos de Lobato enquanto escritor. Por meio dessa personagem tão polêmica, Lobato discutiu a estagnação e o marasmo da vida nacional. Com a personagem do Jeca Tatu, Lobato discutiu a aceitação passiva das arbitrariedades do poder. Com a personagem do Jeca, Lobato alfinetou sutilmente os governantes da época, observa-se isso pelo fragmento retirado do livro de Monteiro Lobato Mr; Slang e o Brasil: Problema Vital (1972, p. 176): “Hei de empregar toda a minha fortuna nesta obra de saúde geral, dizia ele: o meu patriotismo é esse. Minha divisa: curar gente. Abaixo a bicharia que devora o brasileiro”.1 É desta forma a literatura de Monteiro Lobato: são protestos e denúncias que o escritor faz com muita maestria. Pode-se dizer ainda que Lobato foi um nacionalista, porém foi um nacionalista crítico, sem ufanismo e sem patriotada, afinal tinha um olhar crítico e impiedoso sobre a realidade do país. 2.4 Monteiro Lobato: o criador do Sítio do Picapau Amarelo Quando se ouve falar em Lobato, logo lembra-se do Sítio do Picapau Amarelo, afinal essa obra marcou a infância de muita gente. A maneira como Lobato criou o Sítio do Picapau Amarelo é muito interessante. Cassiano Nunes (2000, p. 46) nos conta com muita riqueza e precisão de detalhes. Um dia o escritor jogava xadrez com o amigo Toledo Malta. O autor de “Madame Pommery”, e este lhe conta a história de um peixinho que, por haver passado algum tempo fora d’água, desaprendera a nadar; de volta ao rio, afogara-se. A história mexeu com a imaginação do criador de Dona Benta e tia Nastácia. Mal saiu o companheiro, foi para mesa e escreveu “A História do Peixinho que morreu afogado”. Depois veio-lhe a idéia de desenvolver o enredo. Ao fazê-lo, vieram à memória cenas de sua meninice na roça. Nascia o Sítio do Picapau Amarelo. Foi na televisão que o Sítio do Picapau Amarelo se consagrou, tornou-se acessível a todos, indiferentemente de classe social ou credo religioso. Nessa 1 Retirado do Capítulo “Jeca Tatu (A Ressurreição)”, no livro Mr. Slang e o Brasil: Problema Vital, na primeira série das obras completas de Monteiro Lobato, 1972. 14 ocasião, todas as crianças sonhavam ser como as personagens criadas por Lobato. Toda menina queria ser como Narizinho e possuir o que ela possuía: uma boneca falante. Todo menino queria ser como Pedrinho, forte e corajoso. Cassiano Nunes (2000, p. 23 e 25) tece alguns comentários sobre as personagens que encantaram e continuam encantando as crianças brasileiras. Na saga Lobatiana, Narizinho representa a feminilidade com discrição e encanto. Pedrinho tem caráter forte e é simpático. Dona Benta une o carinho materno (ser avó é ser mãe duas vezes) a lição de ética e saber. Tia Nastácia tem sentimentos ingênuos e puros. A boneca Emília constitui o protesto contínuo, a rebeldia criadora, como próprio Lobato seu inventor [...] O Marquês de Rabicó é a sujeição aos instintos orgânicos. O Visconde de sabugosa tem os lados bom e mau da erudição. O Sítio do Picapau Amarelo ainda faz muito sucesso no meio do público infantil, e o êxito disso está garantido na imediatez da narração e na credibilidade que é dada às crianças. Tudo é descrito vivamente e de modo rápido. No Sítio do Picapau Amarelo, não existe diferença entre realidade e fantasia. A obra infantil de Lobato caracteriza-se pela vontade de libertação. Moralismo convencional e sugestões religiosas foram aí abolidos. Lobato antes de mais nada, louva a vida. Seus livros acreditam na inteligência das crianças. Não será difícil descobrir nesses textos em prosa uma filosofia de vida. (NUNES, 2000, p. 45) Reinações de Narizinho é o primeiro volume da série Sítio do Picapau Amarelo. Nele Monteiro Lobato apresenta suas propostas culturais básicas. De acordo com Sônia Salomão Khéde (1986, p. 46), na obra Reinações de Narizinho, Lobato traz delineadas as personagens nucleares de sua obra: Dona Benta, Tia Nastácia, Narizinho, Pedrinho, Emília, Visconde de Sabugosa, Rabicó, Faz-de-Conta e o Burro Falante. Para a escritora Sonia Salomão Khéde, o faz-de-conta das crianças, longe de ser escapismo ou alienação, é a maneira que as personagens inventam para participar ativamente da realidade, inovando-a e questionando-a criativamente. Pelas aventuras, os heróis aprendem vivenciando. O conhecimento não é apenas livresco. Toda a filosofia pragmática de Lobato está gravada nas cenas em que seus personagens questionam os tabus e convencionalismos, tornando-se um grupo coeso e com personalidade própria. Os integrantes do grupo divergem entre si, mas os valores que os norteiam são mantidos: “Este é o modelo de democracia liberal 15 que Lobato tanto defendeu como projeto político, e que se manifesta em seu projeto Literário” (KHÉDE, 1986, p. 51). Monteiro Lobato foi genial ao escolher as personagens de sua obra, pois ao longo dela temos personagens que são humanos, temos também personagens que representam o maravilhoso e, por fim, temos as personagens intermediárias. As personagens que representam pessoas são dois adultos (Dona Benta e Tia Nastácia) e duas crianças (Narizinho e Pedrinho). As personagens que representam o maravilhoso puro são Emília, a boneca, e o Visconde de Sabugosa, sabugo de milho que se torna sábio. Como elementos intermediários, temos os animais que falam. Monteiro Lobato, ao longo de sua obra, consegue como poucos de sua época fazer com que o leitor viaje num mundo encantado de sonho, magia e beleza. E este mundo encantado de sonho e magia tem endereço certo: o Sítio da D. Benta, uma senhora calma e simpática. Nesse sítio, encontram-se outras pessoas, cada qual com seu valor e encanto, porém o maior encantamento está reunido em torno das crianças do sítio: Pedrinho, Narizinho e a espalhafatosa Emília. 16 3 TEORIA DA PERSONAGEM 3.1 Personagens e pessoas As personagens de ficção são essenciais para que se tenha uma obra de valor cultural atrativa, tendo em vista que elas são um dos principais argumentos do autor, vindo depois o cenário, o qual também contribui para com o sucesso da narrativa. É muito comum, para um leitor despreparado, confundir personagem e pessoa. Vejamos o que diz a escritora Beth Brait sobre essa confusão: é provável que os leitores mais críticos achem curioso e até engraçado que muitos leitores de ”Conan Doyle” reservem um espaço de sua viagem turística à visita a Baker Street, nº 221 B, na esperança de ali encontrar os aposentos, o laboratório e os velhos livros de Sherlock Holmes. Esses amantes da ficção acreditam realmente na existência de uma pessoa chamada Sherlock Holmes. (BRAIT, 1987, p. 9) Uma personagem bem elaborada e bem conduzida por seu criador, dentro de uma narrativa sólida e rica em acontecimentos do mundo real, torna-se quase que um “ser vivo”, fazendo com que a confusão entre personagem e pessoa se torne cada vez mais acentuada: A confusão entre personagem e pessoa é tão acentuada que chegaram a escrever “biografia” de personagens explorando partes de sua vida ausente do livro. Esquece-se que o problema da personagem é antes de tudo lingüístico, que não existe fora das palavras, que a personagem é “um ser de papel”. Entretanto recusar toda a relação entre personagem e pessoa seria absurdo: as personagens representam pessoas, segundo modalidades próprias da ficção. (BRAIT, 1987, p. 11) Comumente, leitores experientes se surpreendem discutindo a “vida” das personagens fora do texto ou contexto, no qual elas foram inseridas como se elas realmente tivessem vida própria. Isso acontece porque seu criador faz com que a personagem adquira uma espécie de vida que ultrapassa o texto. Para Massaud Moisés (1984), ocupa um lugar relevante o setor representado pelas personagens. Para ele e para muito teóricos da literatura, as personagens podem ser ordenadas em dois grupos: personagens redondas e personagens planas. 17 As personagens planas “seriam bidimensionais, dotadas de altura e largura, mas não de profundidade, um só defeito ou uma só qualidade” (p. 109). No que se referem às personagens redondas, o escritor nos informa que “ostentariam a dimensão que falta às outras, e, por isso possuiriam uma série complexa de qualidades ou defeitos” (MOISÉS, 1984, p. 110). Massaud Moisés (1984), ao longo de sua discussão literária envolvendo as personagens, alerta-nos para o seguinte equívoco: [...] uma personagem plana é suscetível de ser analisada estática e/ou dinamicamente. Idêntico raciocínio se adapta às personagens redondas, pois seu dinamismo enquanto personalidade não impede a adoção da análise estática e/ou dinâmica, pois se trata de dois dinamismos, o da personagem em si e do processo de interpretá-la. (MOISÉS, 1984, p. 111) De acordo com o escritor mencionado anteriormente, após esclarecidos os equívocos, podemos então partir para o processo de análise: “a análise estática diz respeito à descrição da personagem, segundo as palavras diretas do próprio ficcionista” (MOISÉS, 1984, p. 111). Faz-se essa análise por meio de uma leitura atenta, procurando identificar em que estágio se encontra a personagem a qual se deseja analisar. Procura-se ainda observar se houve evolução com a personagem ou se ela está estagnada. Para Massaud Moisés (1984), a tarefa do analista reside no confronto entre as diversas descrições da personagem, no rumo às suas metamorfoses. Esclarece ainda que a “análise dinâmica, realiza-se pela desmontagem de evolução da personagem, plana ou redonda ao longo do romance” (p. 113), ou seja o analista necessariamente precisa estar atento à personagem, observar suas evoluções e suas metamorfoses, a partir daí traçar um perfil sobre a mesma, para em seguida concluir se a personagem em questão é plana ou redonda. Pode-se exemplificar o que foi dito anteriormente com a personagem Emília, objeto principal deste estudo. Afinal, Emília era uma boneca de pano como outra boneca qualquer, porém ao longo da obra de Lobato essa boneca sofreu metamorfoses, evoluindo bastante. Sua maior evolução deu-se com a fala. Foi pela fala que Emília se declarou independente, fez filosofias e esbravejou contra muita gente. Logo conclui-se: Emília é uma personagem com características marcantes de uma personagem redonda. Massaud Moisés finaliza sua discussão sobre as personagens com o 18 seguinte fragmento: “Dir-se-ia que as personagens planas não evoluem (por dentro), mas que se repetem, ao passo que as redondas somente nos dão idéia de sua identidade profunda quando fechado o romance” (p. 113). Pode-se concordar plenamente com Massaud Moisés quando ele diz “que as personagens redondas nos dão idéia de sua profunda identidade quando encerra-se a leitura do romance”, pois é muito comum para o leitor, ao término de uma obra, ficar tão encantado com a profundidade de algumas das personagens, ao ponto de internalizar muitas de suas palavras, deixando que elas de alguma forma participem ou modifiquem algumas de suas práticas cotidianas. 3.2 A personagem e a tradição crítica Conforme o esclarecimento de Beth Brait (1987), pensar a questão da personagem significa percorrer alguns caminhos trilhados pela crítica. Aristóteles é o primeiro a discutir as manifestações da poesia lírica, épica e dramática. Esse pensador grego levantou alguns aspectos, como mimesis e verossimilhança, que marcam até hoje o conceito de personagem e sua função na literatura (BRAIT, 1987, p. 29). Um aspecto relevante desses estudos diz respeito à semelhança existente entre personagem e pessoa, conceito centrado na discutida e pouco compreendida mimesis “Aristotélica”. Durante muito tempo o termo mimesis foi traduzido como sendo “imitação do real”, como sendo referência direta à elaboração de uma semelhança da natureza (BRAIT, 1987 p. 31). A escritora Beth Brait faz uma classificação das personagens. Classificaas em planas e redondas, baseada em Brooth. Ela e Massaud Moisés têm a mesma opinião sobre as personagens planas e redondas. Para ela, as personagens planas são construídas ao redor de uma única idéia ou qualidade. Geralmente são definidas em poucas palavras, não evoluem no decorrer da narrativa, de forma que suas ações apenas confirmem a impressão de personagens estáticas. Não reservando qualquer surpresa ao leitor. Segundo ela, o mesmo não acontece com as personagens redondas, pois essas são dotadas de grande profundidade interior, e nos surpreendem a todo momento com suas ações. 19 3.3 Recursos de construção Uma das formas que um escritor tem para dar consistência às suas personagens é manifestada através da linguagem escrita. Afinal, esse tipo de recurso, estando impresso, pode ser manifestado a qualquer momento. Ao contrário da fala, a qual é representada no cinema ou teatro, que pode ser esquecida logo que finaliza a seção ou a peça teatral. Para Beth Brait: Como um bruxo vai dosando poções que se misturam num mágico caldeirão, o escritor recorre aos artifícios oferecidos por um código a fim de articular suas criaturas. Quer elas sejam tiradas da sua vivência real ou imaginária, a materialidade desses seres só pode ser atingida através da linguagem, que torna tangível sua presença e sensíveis os seus movimentos. (BRAIT, 1987, p. 53) Quando Beth Brait fala em bruxo, é evidente que está se referindo ao escritor, afinal o escritor tem realmente esse poder, ele pode dosar, pode misturar, pode interceder e pode esculpir sua personagem, evidenciando os elementos básicos de sua natureza. Quando pensamos nas personagens que povoam a tradição literária e que nos tocam tão de perto que temos a impressão de terem existido numa dimensão que as torna imortais e capazes de falar eternamente das inúmeras possibilidades de existência do homem no mundo, tocamos necessariamente no poder de caracterização de seus criadores. (BRAIT, 1987, p. 66) Na obra de Beth Brait (1987), vários escritores foram entrevistados e interpelados com a seguinte pergunta: “De onde vêm seus personagens?”. A maioria respondeu que seus personagens eram seres que existiam realmente, pessoas que eles observavam, no dia-a-dia ou lembravam de um passado remoto, e a partir daí iam se incorporando às suas narrativas. Foram categóricos em dizer que suas personagens existiam dentro e fora do texto. Entre esses escritores, estão: Ignácio Loyola Brandão, Lya Luft, Ligia Fagundes Telles, Marcos Reis e outros. Antônio Cândido (1976, p. 65) não comunga com essa idéia, para ele não é possível levar para um romance uma personagem que tenha “vida”, como muitos escritores afirmaram anteriormente, pois quando o escritor se apropria de um ser que tem existência própria ele sempre acrescenta a esse ser sua incógnita pessoal. 20 O autor é obrigado a construir uma explicação que não corresponde ao mistério da pessoa viva, mas que é uma interpretação deste mistério; interpretação que elabora com sua capacidade [...] soberanamente exercida. (CÂNDIDO, 1976, p. 65) O autor declara também que é ilusória a declaração de um criador a respeito da sua própria criação. “Ele pode pensar que copiou quando inventou, que exprimiu a si mesmo, quando se deformou, ou que se deformou quando se confessou” (CÂNDIDO, 1976, p. 69). Na verdade, “enquanto na existência cotidiana nunca sabemos as causas, os motivos da ação das pessoas, no romance estes são desvendados pelo escritor, cuja função é ilustrar o jogo das causas, revelando tudo sobre a personagem” (p. 73). Pode-se perceber que é com o escritor que está o poder de desvendar ou não o mistério da sua personagem, afinal ele declara tudo o que quer a respeito de sua criação. De acordo com Antônio Cândido (1976, p. 48): A diferença profunda entre pessoa e personagem é que as pessoas reais são totalmente determinadas, apresentam-se como unidades concretas, integradas a uma infinidade de predicados especiais. Enquanto a personagem de um romance é sempre uma configuração esquemática, tanto no sentido físico como psíquico, embora seja projetada como um indivíduo “real” e determinado. Para o escritor, a personagem parece o que há de mais vivo no romance, isso nos leva erradamente a pensar que o essencial do romance é a personagem. No entanto, não podemos negar que a personagem é o elemento mais atuante, mais comunicativo da arte novelística, mas que só adquire significado no contexto. Segundo Antônio Cândido (1976), o romance, ao abordar as personagens de modo fragmentário, nada mais faz do que retomar, no plano da técnica de caracterização, a maneira insatisfatória com que elaboramos o conhecimento dos nossos semelhantes. Na vida, a visão fragmentária está ligada à nossa própria experiência. No romance ela é criada, é estabelecida e racionalmente dirigida pelo escritor, que delimita e encerra a aventura sem fim que é a vida. Antônio Cândido finaliza sua discussão sobre as personagens declarando que: 21 A natureza da personagem depende em parte da concepção que preside o romance e das intenções do romancista. Se este está interessado em traçar um panorama de costumes, a personagem, dependerá mais da sua visão [...], e da observação das pessoas cujo comportamento lhe parece significativo, se está interessado nos problemas humanos, como são vividos pelas pessoas, a personagem tenderá, complicar-se destacando-se com a sua singularidade sobre o pano de fundo social. (CANDIDO, 1976, p. 74) Descrever uma personagem é uma tarefa árdua e que exige muita experiência do escritor. Afinal de contas a personagem por si só precisa necessariamente convencer o leitor. Descrever uma personagem é apontar suas características permitindo que o leitor consiga imaginar sua dimensão mesmo sem ver seu retrato, por esse motivo pode-se concordar com Beth Brait quando ela diz que o escritor pode agir como um bruxo que vai dosando sua personagem. 3.4 Literatura infanto-juvenil Dificilmente encontrar-se-á alguém que não goste ou que nunca tenha lido algo sobre literatura infanto-juvenil, tendo em vista que já faz algum tempo que esse gênero literário acompanha muitos de nós. Quem nunca foi embalado ao som de uma cantiga que fala de um bicho malvado que pretende pegar a criancinha que no momento não está disposta a dormir? Quem nunca ouviu falar de bruxas que amaldiçoavam crianças desobedientes e lobos que enganavam meninas aparentemente ingênuas? Pode-se citar o exemplo do clássico Chapeuzinho Vermelho, que conta a história de uma menina que não seguiu o conselho da mãe, pegou um atalho para encurtar o caminho e teve sua vida ameaçada pelo “Lobo Mal”. Tem-se nessa história um típico exemplo de punição por desobediência. Por muito tempo a Literatura Infanto-Juvenil pautou suas histórias e definiu suas personagens por meio de narrativas punitivas. Marisa Lajolo (2001), em seu livro Do mundo da leitura para a leitura do mundo, informa que a Literatura Infanto-Juvenil “emergiu como gênero no momento em que a sociedade necessitou dela para burilar e fazer cintilar em meio à poesia as 22 lições de moral e bom Costumes” (p. 22). A escritora citada diz também que a noção de criança altera-se com o tempo. Para ela “a criança da qual falava Rousseau não é a mesma para qual escrevia Perraut; e que esta por sua vez, não é a criança para qual Edmond de Amicis escreveu Cuore; a qual a seu turno, é diferente do pimpolho para o qual Collodi escreveu Pinocchio e asssim indefinidamente” (p. 23). Felizmente é possível fazer essa distinção, afinal de contas, muda-se a época, mudam-se as crianças e conseqüentemente transformam-se também os escritores. É preciso perceber que as crianças, hoje em dia, se apresentam mais maduras do que as crianças de outrora. Hoje, a maioria das crianças sabe que bruxas não existem e papai Noel é pura fantasia. Segundo Marisa Lajolo (2001), essa noção de “infância como construção histórica sempre retomada implica perceber que a noção de criança que assumem os educadores de cada época tem tanto ou nada a ver com os pimpolhos de carne e osso quanto os raios de sol tem a ver com as formulações dos físicos sobre a luz” (p. 23). Sendo assim, quando inseridas na história, essas formulações que fazem das crianças anjos ou demônios começam então a mostrar a fragilidade de sua construção. Marisa Lajolo diz ainda “que tanto a criança a qual se destina a literatura infantil é uma construção, quanto o jovem a que se destina a literatura juvenil é outra construção, e ambas são sociais. Tanto o infantil de uma quanto o juvenil de outra são conceitos instáveis: O que é Literatura Infantil, em determinado contexto pode ser juvenil em outro e vice-versa” (LAJOLO, 2001, p. 24). Dessa forma, fica difícil diferenciar a Literatura Infantil da Literatura Juvenil, pois muitas vezes nos vemos filosofando em meio a muitos ensinamentos colhidos de uma literatura aparentemente infantil. Vale lembrar que a obra de Miriam Aparecida Rocha, que tem como título Uma Casa No Meio Da Rua, a qual tem ilustrações puramente infantis e letras garrafais propícias para crianças e adolescentes, possui um significado muito abrangente, pois ali se percebe o desespero das pessoas que possuem apenas uma casa e não um “lar” (chegam em casa apenas para dormir). Percebe-se também o drama daquelas que nem casas possuem. Baseado nisso torna-se difícil dizer se essa obra literária é realmente literatura infanto-juvenil, pois a referida obra traz 23 temas filosóficos um tanto quanto profundos, tornando-se um tanto quanto inacessível para o público a qual ela foi destinada. O mesmo fez Ziraldo, quando escreveu O Menino Maluquinho, usou muitas imagens para descrever as traquinagens de um menino inteligente e levado, mas conseguiu surpreender o leitor no final da história. Ziraldo reservou para o leitor da sua literatura uma espécie de filosofia normalmente encontrada em um outro estágio da literatura. Os pais do menino se separaram; com a separação, o menino sabiamente inventou a teoria dos lados: “Todo lado tem seu lado. Eu sou meu próprio lado e posso viver ao lado do seu lado, que era meu” (p. 85). Pode-se citar ainda escritores estrangeiros que também se apropriam desse recurso que encanta muito o público adulto. Saint Exupéry, ao escrever O Pequeno Príncipe, dá voz ativa a uma singela criança que sonhava ser artista, porém fora dissuadida de seus sonhos pelos adultos. Inicia então uma brilhante carreira na aviação. Esse livro aparentemente infantil, está repleto de questionamentos que só podem ser apreendidos por um público maduro. Além de Marisa Lajolo, outros críticos literários escreveram sobre a literatura infantil e seus personagens. Sônia Salomão Khéde é uma delas. Por meio de seu livro Personagens da Literatura Infanto-Juvenil, a autora ressalta que “as traquinagens da Emília, a eterna infância de Peter Pan, a mudança de sorte de Cinderela nos acompanham vida afora e, em muitas ocasiões, nos vemos comparando pessoas conhecidas com esses personagens” (KHEDE, 1986, p. 12). Para a autora, os personagens moldados pelos escritores são interpretações dos perfis culturais de cada época e de cada povo. E não é à toa que o malandro e o pícaro, no estilo de Pedro Malazartes, ou personagens autoritários, como a Mônica, de Maurício Souza, recebem caloroso reconhecimento por parte de todos; nós nos identificamos com eles, reconhecemos neles parte de nossa identidade. Segundo a escritora em questão, para que o texto para crianças e jovens alcance status literário, o papel da personagem é fundamental, seja ele como personagem adulto ou criança. Para ela, na literatura infanto-juvenil a posição do narrador e dos personagens será de importância primordial para assegurar ao gênero seu estatuto literário, e com isso libertá-lo da vocação pedagógico moralizante proveniente da história do seu surgimento. 24 Para Sônia Salomão Khéde (1986, p. 14): O que torna específica a literatura infanto-juvenil é o status de seu receptor – a criança –, é que o problema da construção e da relação dos personagens no texto ganha relevância [...]. Considerar o gênero infantojuvenil um gênero menor dependerá da habilidade do escritor. Essa tendência se deve a confusão, por parte de escritores e críticos, de que escrever para crianças significa escrever infantilmente ou escrever um texto simplório. O presente trabalho tem mostrado exatamente o contrário, escrever para crianças não significa escrever de forma infantil ou simplória, tendo em vista que o atual universo infantil é rico em informações. Escrever para crianças está cada vez mais difícil, pois esse público atualmente está muito bem informado com a Internet, e em virtude disso tem se mostrado bastante exigente. 3.5 As personagens dos contos de fadas As origens dos contos de fadas são as mais diversas. Provenientes de contos folclóricos europeus e orientais. Esses contos atualizam ou reinterpretam questões universais, como os conflitos pelo poder e a formação dos valores, misturando realidade e fantasia no clima do “Era uma vez [...]”. A escritora Sônia Salomão Khéde (1986) traça o perfil literário dos contos de Perralt, Grimm e Andersen. Para ela, Perralt foi denominado “Homero Burguês”, pela propriedade com que retratou a sociedade de sua época a partir da metamorfose de certos símbolos dos contos populares (transformou monstros e animais aos quais os camponeses atribuíam poderes mágicos em fadas). Perralt foi responsável pela introdução dos desprivilegiados nos salões, em contos cujos personagens são mais estereotipados. Ele também se apropria do confronto dualista entre bons e maus, feios e belos. Os contos de Grimm surgiram na primeira metade do século XIX, em plena vigência da estética romancista. O Romantismo, como se sabe, valorizou o popular, o nacional, as “raízes históricas”, num momento de afirmação do idealismo e do espiritualismo. Hans Christiam Andersen, filho de sapateiro, que traz nos seus contos 25 marcas de sua própria vivência social, utiliza-se do maravilhoso com maior freqüência. Como se sabe Monteiro Lobato traduziu contos de Christian Andersen, dos irmãos Grimm, entre outros. Além de traduzi-los, Lobato também os adaptou, ou melhor, os abrasileirou. E assim como eles, Lobato representou ao longo da sua extensa literatura questões de conflitos e poder, retratou também os problemas sociais vividos em nosso país. Fez isso brilhantemente por meio de seu artigo: Jeca Tatu. Tal como Perralt que transformou monstros e animais em fadas, Lobato também fez transformações: transformou sabugo de milho em sábio e boneca de pano em marquesa, fazendo com que essa boneca fosse progredindo paulatinamente ao ponto de fazer filosofias e deixar o leitor perplexo com muitas de suas manifestações. Assim como os Irmãos Grimm, que valorizaram o popular e o nacional, as raízes históricas num momento de afirmação, Lobato também o fez com maestria, trouxe à tona o folclórico Saci-Pererê, a Mula-Sem-Cabeça, a Cuca malvada e monstros que foram vencidos pelas crianças do Sítio. Trouxe também personagens marcantes de esferas internacionais para interagir com as crianças do Sítio, que na ocasião representavam as crianças brasileiras. Para finalizar este paralelo, vale lembrar que Lobato e Hans Christiam Andersen trazem nos seus contos marcas de sua própria vivência social. Sabe-se que Lobato, ao escrever a história do Sítio, relembrou muito de sua vida infantil, que fora passada no sítio de seu avô: o Visconde de Tremembé. 26 4 EMÍLIA: VIDA E LIBERDADE A personagem Emília, assim como outras personagens da literatura infantil, sobrevive há algumas décadas. Essa contínua permanência na literatura se deve à genialidade de seu criador, Monteiro Lobato, que reuniu em torno dessa personagem características marcantes de uma personagem redonda, tendo em vista sua elaboração. Emília começou como mera boneca inanimada, foi evoluindo e se solidificando ao ponto de se manter e de se fixar como uma criança encantada, extremamente esperta, que surpreende o leitor a toda hora, porém com aparência de boneca. Lobato esculpiu essa personagem de forma tão surpreendente, que fez com que ela se mantivesse dentro da literatura, sem ser uma personagem ultrapassada desde 1936. Afinal, Emília foi e continua sendo atualíssima. A personagem Emília resume o que Lobato gostaria de repassar para a humanidade enquanto escritor. É por meio dessa personagem que se ouvem os seus protestos. Com Emília, Monteiro Lobato grita independência ou morte, mostrando um pouco de si, isto é, determinado e teimoso, mas com um belo coração, um coração cheio de sonhos, um coração que sofre diante dos dissabores da vida. Por toda a narrativa, o escritor se apropria de recursos geniais. Tem uma capacidade encantadora de jogar com as palavras, tornando-as verdadeiras melodias para o leitor. Observa-se isso com a definição de “verdade” feita pela personagem Emília: “Verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia” (LOBATO, 1987a, p. 8). Quem pode discordar de tal definição? Quantas mentiras tornaram-se e ainda se tornam verdades absolutas ao longo da história, sem que ninguém desconfie? Emília, por ser uma personagem dinâmica e mostrar-se eternamente viva, desconfiou de muitas verdades que foram ditas e aceitas como verdades indissolúveis. Após a definição de verdade, a boneca resolve definir “vida”. Afinal, não há nada que Emília não consiga definir. Para ela, não há obstáculos, há saídas estratégicas ou não, mas há. Não há indefinição, há começo, meio e fim. Sua 27 predileção é pelo início, pois para ela não existe fim. Segundo Emília, o fim somos nós que fazemos. E o fim vira hipótese. A personagem Emília cresce gradativamente dentro da narrativa e pouco a pouco o leitor consegue desvendar os mistérios que norteiam essa personagem. O maior e mais surpreendente mistério envolvendo essa personagem está em sua fala. Emília não é apenas falante, Emília tem voz ativa. Esse foi um dos recursos de seu criador. Deu voz ativa a um ser aparentemente inanimado. Afinal, como pode um ser “inanimado” fazer definições convincentes de algo que não possui, se vida propriamente boneca não tem? Monteiro Lobato se apropria de um recurso muito comum na literatura infantil que, quando bem trabalhado, foge à percepção do leitor. O recurso usado por Lobato, e manifestado por meio da personagem Emília, para fazer a definição de vida foi o da imaginação. A personagem Emília não foi pretensiosa, foi convincente ao definir vida, fez isso brilhantemente: A gente nasce, isto é, começa a piscar, quem pára de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – Viver é isso. É um dorme e acorda [...] A vida da gente neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; [...] pisca e ama; pisca e cria filhos. Por fim pisca pela última vez e morre. – E depois morre? Perguntou Visconde. – Depois que morre vira hipótese. É ou não é? O Visconde teve de concordar que era. (LOBATO, 1987a, p. 13) 4.1 Emília: conquistando a liberdade Monteiro Lobato, ao criar a personagem Emília, deixa marcado nessa personagem muito do que ele foi e do que ele queria ser, pois Emília consegue manifestar, de forma convincente, os anseios e aspirações do mundo adulto. De acordo com Marisa Lajolo (2001, p. 121) em seu artigo “Emília, a boneca atrevida”, “a excepcionalidade de Emília começa quando ela começa a falar de verdade”. Sabe-se que é por meio da linguagem que se faz conquistas significativas, tendo em vista que foi por meio da linguagem que se declarou a nossa independência, independência essa que a personagem Emília manifesta sempre 28 que tem oportunidade, chegando a parafrasear D. Pedro ll ao dizer: “Independência ou Morte”. É sabido e notório que, a partir do momento em que Emília começou a falar, tornou-se independente. Sua conquista foi tão acentuada que não conseguiu esconder a ironia quando explicitamente manifestou sua liberdade. Não se pode negar que, ao fazer alusão ao grito do Ipiranga, a boneca ironiza a independência dela e a nossa, afinal de contas, até hoje nossa independência pode ser questionada. Como é possível uma boneca de pano que mede quarenta centímetros, possui olhos de retroz e enchimento de macela se declarar independente ao ponto de se manifestar dizendo: “sou independência ou morte”? E se não bastasse a incógnita da independência da boneca, há outro fato no mínimo, surpreendente: a boneca de pano consegue também filosofar e manifestar brilhantemente sua filosofia quando definiu vida: “Viver é isso. É um dorme e acorda” (LOBATO, 1987a, p.13). Segundo a escritora Lígia Cademartori (1987, p. 51), “Monteiro Lobato cria entre nós, uma estética da literatura infantil, [...] sua obra estimula o leitor a ver a realidade através de conceitos próprios”. Sobre as personagens criadas por Lobato, a escritora Lígia Cademartori (1987, p. 51) diz: Grande desafio delas é o conhecimento, através dele que as personagens se impõem. A moralidade tradicional não há, o grande valor passa a ser a inteligência: a esperteza, habilidade quase maliciosa da inteligência, é igualmente valorizada. Ao longo da narrativa, somos surpreendidos de várias formas, afinal de contas a boneca consegue filosofar, fazer definições e surpreender a todos com sua esperteza declarada, esperteza que só quem vive a vida intensamente pode manifestar, chocando muitas vezes os mais conservadores. Emília diz que: “Ser esperto é tudo na vida”. Aprendi o grande segredo da vida [...] a esperteza! Ser esperto é tudo (nesse momento Emília está se dirigindo a Visconde, a maior vítima de sua esperteza). – Quem fez a aritmética? Você. Quem vai ganhar nome e fama? Eu. (LOBATO, 1987a, p. 76) Para fazermos considerações sobre a vida, precisamos estar livres. Livres para pensar sobre incorreções que se encontram na língua falada ou escrita. E só 29 quem é livre, só quem não se prende às amarras criadas nas chamadas “convenções”, pode questionar as irregularidades, as incompreensões e as questionáveis “verdades” a respeito da língua falada e escrita. Se nos prendermos ao tradicional, jamais perceberemos o que Emília percebeu ou percebe. Ainda talvez, jamais nos daremos conta de que existem palavras que, dependendo do contexto em que estão empregadas, tanto podem ser nobres como ofensivas. Tudo isso nos surpreende, porém surpreendidos ou não temos que concordar que, para que tais observações aconteçam, a liberdade precisa imperar. A liberdade da personagem Emília é o que tem de mais marcante em toda a obra de seu idealizador, Monteiro Lobato. 4.2 Emília: consciente e crítica A personagem Emília consegue deixar claro em toda a obra de Monteiro Lobato a extensão de seu potencial. Não se pode negar que essa personagem é completa, é plena e magnífica, pois se comporta como alguém que “vive a vida” intensamente, é livre e tem plena consciência de tudo o que está desencontrado no mundo dos humanos. Para Emília, é difícil entender porque alguém se ofende quando é chamado de cão, pois o cão é tido como melhor amigo do homem. Todos sabemos que há uma história tradicional de fidelidade e amizade entre esse animal e o homem. Então, porque ficar ofendido ao ser comparado com tão nobre animal? Para Emília, essa ofensa faz parte de uma das calamidades da língua: “Eu penso que todas as calamidades do mundo vêm da língua. Se os homens não falassem, tudo correria muito bem, como entre os animais que não falam [...] A língua é a desgraça dos homens na terra” (LOBATO, 1987a, p. 18). Emília, a boneca atrevida, vive plena e criticamente, pois para escrever memórias precisa antes de tudo ter vivido. Se não viveu, não há o que recordar. Segundo Emília, “o escrevedor de memórias vai escrevendo, até sentir que o dia da morte vem vindo. Então pára, deixa o finalzinho sem acabar. Morre sossegado” (LOBATO, 1987a, p. 7). 30 Só quem vive e tem a sabedoria de que suas memórias vão se perpetuar é capaz de concluir com genialidade que o que foi escrito ficará para a posteridade: “[...] porque não pretendo morrer. Finjo que morro, só [...] pisco o olho e sumo atrás do armário para que Narizinho fique mesmo pensando que morri” (LOBATO, 1987a, p. 8). Monteiro Lobato, ao longo de sua obra Memórias da Emília, consegue deixar claro para nós, leitores, que Emília realmente é livre. E como uma “pessoa” livre se comporta durante toda a narrativa. Emília é uma personagem extremamente crítica. Suas críticas são manifestadas de forma bem objetiva, fazendo com que pensemos sobre sua liberdade crítica de expressão: Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta idéia do escrevedor. Mas para isso ele não pode dizer a verdade, porque senão o leitor fica vendo que era um homem igual aos outros, logo tem de mentir [...], para dar idéia de que está falando a verdade... (LOBATO, 1987a, p. 8) Emília convoca Visconde para que ele escreva suas memórias. Em meio a esses escritos, Emília precisa se ausentar, porém a boneca autoriza Visconde a continuar com suas memórias. Visconde, então, decide contar a “História do Anjinho de Asa Quebrada”. O que Visconde nos revela sobre essa personagem e sobre Emília é algo que encanta e desencanta muitos de nós leitores. Conforme Visconde, Emília foi a professora do Anjinho, que desconhecia todas as coisas terrestres. Entretanto, a “professora” Emília explicou-lhe sabiamente qual era a origem das calamidades universais: “E qual o segredo da felicidade desses animais? (perguntou o Anjinho). Um só: não falam. No dia que derem de falar, adeus ordem, adeus paz, adeus mel” (LOBATO, 1987a, p. 18-19). A personagem Emília, por meio de seu senso crítico e aguçado, consegue convencer o leitor de que uma das calamidades universais está centrada na língua. Afinal, Emília tem a capacidade encantadora de jogar com as palavras, apropriandose de recursos tipicamente infantis: simplicidade e sinceridade. 31 4.3 Emília: fazendo críticas sociais Toda a obra de Monteiro Lobato é marcada, de forma declarada, pela consciência que o escritor tinha da situação de decadência e servilismo do povo brasileiro, Jeca Tatu é um exemplo disso. Na obra Memórias da Emília o escritor também não se omitiu. Na primeira oportunidade, logo no início das memórias, Lobato manifestou seu descontentamento com algumas das situações que ainda são vivenciadas hoje por muitos de seus leitores. Para fazer essa crítica, Lobato usou a encantadora personagem Emília, para se aproveitar da bondade e ingenuidade do intelectual Visconde de Sabugosa. É sabido e notório que Visconde nutre um grande carinho por Emília, sabe-se ainda que ele sempre atende às solicitações da boneca. E a boneca sabe muito bem como se aproveitar disso. Vejam o que realmente é verdadeiro a respeito das Memórias da Emília. Essas memórias foram escritas por Visconde, que vivenciou com Emília todos os fatos da história. Visconde conhecia profundamente a história, porém o intelectual não ficou com mérito nenhum dessas memórias, todos os méritos foram para a boneca, a personagem que menos trabalhou nas memórias, mas foi a única que colheu os frutos do trabalho alheio. Escute, Visconde... Fique escrevendo. Vá escrevendo [...] conte as coisas que aconteceram no sítio e ainda não estão nos livros. – A história do anjinho serve? – Indagou Visconde. – Ótimo, ninguém lá fora sabe o que aconteceu... Conte isso e mais... O que quiser. Vá contando, contando. – Mas assim as memórias ficam minhas e não suas, Emília. – Não se incomode com isso. No fim dou um jeito; faço como na “aritmética”. (LOBATO, 1987, p. 16) Emília já tinha se apropriado do trabalho do Visconde em outra ocasião. Há uma obra de Monteiro Lobato: Aritmética da Emília, voltada para o ensino de matemática, que foi feita por Visconde e levou o nome de Emília. Aprendi o grande segredo da vida [...] a esperteza! Ser esperto é tudo (nesse momento Emília está se dirigindo a Visconde, a maior vítima de sua esperteza). – Quem fez a aritmética? Você. Quem vai ganhar nome e fama? Eu. Quem está escrevendo as memórias? Você. Quem vai ganhar nome e fama? Eu. (LOBATO, 1987a, p. 76) 32 Emília, depois de deixar Visconde por um bom tempo sozinho escrevendo suas memórias, resolve inspecionar, para ver se tudo estava certinho: “– Está bem – disse ela. – Minhas memórias vão a galope. Quero provar ao mundo que faço de tudo – que sei brincar [...] que sei escrever memórias” (LOBATO, 1987a, p. 76). Visconde não resistiu diante das pretensões da boneca e respondeu a ela: “– Sabe escrever memórias, Emília? [...] Isso de escrever memórias com a mão e a cabeça dos outros é saber escrever memórias?” (LOBATO, 1987a, p. 76). Emília não se intimidou, pelo contrário, disse a ele o óbvio, evidenciou a ele que a esperteza do ser humano é tudo, esperteza essa que não é qualquer bonequinha que tem. Essa esperteza não é típica de uma boneca. Essa esperteza é de gente, de gente que vive e vive entre nós. – Perfeitamente! Isso é que é o importante [...] Ganhar dinheiro com o trabalho dos outros [...] Olhe Visconde, eu estou no mundo dos homens há pouco tempo, mas já aprendi a viver [...] Ser esperto é tudo [...] Se eu tivesse um filhinho, dava-lhe um conselho: seja esperto meu filho. (LOBATO, 1987a, p. 76) Diante disso, Visconde tentou argumentar, mas foi inútil. Com Emília não é possível competir. “Visconde tomou a pena com toda a resignação e continuou” (LOBATO, 1987a, p. 77). Continuou escrevendo a história do anjinho. Cansado da Terra e com sua asinha já curada, o anjinho resolve se despedir do pessoal do sítio e partir para o céu. Visconde resolveu ler tudo o que escreveu sobre as “Memórias da Emília”, pensando consigo: “sou um danadinho para escrever! [...] Jamais conquistarei fama de escritor. Emília não deixa. Aquela diaba assina tudo que eu produzo” (LOBATO, 1987a, p. 83). Visconde tem plena consciência de sua habilidade como escritor, porém é consciente também que, enquanto Emília viver da forma que vive: esperta e habilidosa, ele viverá sempre à sua margem. 4.4 Emília: preconceituosa Preconceito é algo que sempre existiu, preconceito com relação às crianças, aos idosos, aos deficientes, mas o maior de todos os preconceitos e que vem se mantendo há alguns séculos é o preconceito racial. Esse tipo de preconceito 33 já foi muito maior do que é hoje. Monteiro Lobato, no decorrer de sua obra, revela o quão preconceituosa é nossa cultura. E é por meio da personagem Emília que o escritor manifesta a dimensão do nosso preconceito cultural. Nós, seres humanos, preconceituosos ou não, durante nossas vidas, somos capazes de atos heróicos. Muitas vezes nos desfazemos de coisas que nos são estimadas para ver a alegria do outro. O contrário também é possível, pois, enquanto humanos, vivendo intensamente, somos igualmente capazes de nos manifestar de forma desprezível e preconceituosa, chegando a surpreender a nós mesmos com atos tão pequenos. Com a personagem Emília, isso também ocorreu. Vejamos as palavras ofensivas que a boneca manifestou à Tia Nastácia, ao ver que sua solicitação não foi atendida, pela empregada, uma negra que teme o desconhecido: “Perdemos o anjinho por sua culpa só. Burrona! Negra Beiçuda! Deus te marcou, alguma coisa em ti achou. Quando ele preteja uma criatura é por castigo [...] Tia Nastácia rompeu em choro alto” (LOBATO, 1987a, p. 81). A personagem Emília, manifestando-se dessa forma tão preconceituosa, mostra o quão verossímil é sua personagem, personagem essa que assume posturas tipicamente humana. Emília, assim como todo ser humano, diante de uma situação desagradável, que não sai a seu contento, resolve encontrar alguém para crucificar. Acabou “crucificando” tia Nastácia com duras palavras: “Por causa da sua lerdeza, do seu medo, do tal sacrilégio, perdemos o nosso anjinho. Eu vivia insistindo [...] E ela com esse beição todo: não tenho coragem [...] É sacrilégio [...] Sacrilégio é esse nariz chato” (LOBATO, 1987a, p. 82). O preconceito de Emília para com tia Nastácia não se restringiu apenas ao fato da fuga do anjinho, já que foi nessa ocasião que Emília começou a se mostrar rancorosa e preconceituosa. Após esse episódio, em meio às suas memórias, Visconde começa a fazer críticas pesadas com relação à sua “pessoa”. A boneca lê as críticas e concorda com elas, mas coloca a culpa de suas fraquezas na empregada: [...] pensando bem, vejo que sou assim mesmo. Está certo [...] Sou tudo isso e ainda mais [...] Pode ficar como está. Cada um de nós dois, Visconde, é como tia Nastácia nos fez. Se somos assim ou assado, a culpa não é nossa é da negra beiçuda [...] não posso falar nessa negra beiçuda sem que o sangue não me venha à cabeça. (LOBATO, 1987a, p. 90) 34 É importante ressaltar que, mesmo manifestando tamanho preconceito racial em relação à tia Nastácia, Emília sutilmente reconhece que ela e Visconde precisaram de tia Nastácia para existir, e isso ela deixa claro quando diz: “[...] Cada um de nós dois, Visconde, é como tia Nastácia nos fez [...]” (LOBATO, 1987a, p. 90). Monteiro Lobato, com isso, mostra que mesmo sofrendo numerosos preconceitos a raça negra foi de grande valor para a humanidade, pois sabemos que essa raça até hoje contribui muitíssimo com seus serviços domésticos ou não para com todo o povo, seja brasileiro ou estrangeiro. 4.5 Emília: pretensiosa e sonhadora Não se pode negar que a personagem Emília é extremamente pretensiosa, e na obra Memórias da Emília o episódio que apresenta mais evidente suas pretensões é o momento em que a boneca impede Visconde de continuar escrevendo suas memórias, e ela mesma diz querer terminar com suas próprias mãos. Emília começa a contar a respeito de uma viagem que supostamente teria acontecido, nessa viagem literalmente sonhada pela boneca embarcaram para Hollywood no Wonderland. Estavam juntos o anjinho, o Visconde e toda a tripulação inglesa. Emília começa a narrar a viagem de forma extremamente pretensiosa: “Fomos para Hollywood. Eu já andava enjoada de bolinhos, de pitangueiras, de países da gramática [...]” (LOBATO, 1987a, p. 91). Depois de esnobar a vidinha que passara toda no sítio, a boneca continua divagando. Cada vez mais pretensiosa, começou a enaltecer exageradamente seu inglês: [...] a viagem foi ótima, exceto para o Visconde que enjoou a ponto de deitar ao mar metade da sua ciência [...] Eu não enjoei [...] aproveitei o tempo todo para estudar [...] a língua de Alice [...] O velho declarou a Peter Pan: – É extraordinária a inteligência dessa criança! Já está falando inglês sem o menor sotaque português! [...] De fato assimilei com tal perfeição aquela língua que cheguei até a corrigir muitos erros de Alice. (LOBATO, 1987a, p. 91-92) 35 Após exaltar seu mais recente idioma, a boneca continua se enaltecendo, dizendo que o almirante Brown queria levá-la para Washington, para apresentá-la ao presidente Roosewelt, porém ela não queria. Só queria saber do cinema e resolveu fugir para se encontrar com a famosa atriz Shirley Temple. A pretensão e os sonhos de Emília crescem gradativamente e tomam proporções extremamente hilários. Vejamos como a boneca narra seu encontro com a atriz Shirley Temple. – Dona Shirley está? – perguntei [...] – Shirley, corra!... Venha ver três fenômenos – [...] – Um anjinho, uma boneca e um sabugo de cartola [...] Shirley veio de galope [...] Abraçou-me dizendo: – Eu sabia que você acabava chegando até aqui. Ainda ontem disse a mamãe: “Qualquer coisa está me dizendo que Emília não tarda”. (LOBATO, 1987a, p. 92) Emília prossegue narrando seu encontro com Shirley Temple, sempre dizendo que Shirley já ouvira falar dela e que conhecia todos os livros que contavam suas histórias. Shirley conhecia várias histórias a respeito de Emília: Sabia como Emília começara a falar, sabia como Emília virou marquesa, enfim as duas concluíram que tanto Emília quanto Shirley eram celebridades mundiais. Emília, após ver sua fama reconhecida no exterior, resolve retribuir o reconhecimento de Shirley. – Pois então minha cara Shirley estamos mais do que pagas – ... – no Brasil não há quem não conheça você. Aquela sua fita do tempo da guerra quando você foi pedir ao presidente Lincon que soltasse o prisioneiro, e começou a comer a maçã no colo dele – “Este pedaço é meu, este agora é seu”, não há por lá quem não conheça. Sabemos você de cor, Shirley. (LOBATO, 1987a, p. 92) E assim prosseguem as duas célebres personagens, dialogando por muito tempo, tornando-se amigas íntimas, até que Shirley resolve perguntar a Emília qual é a sua pretensão por lá, Emília não se intimida e responde: – Que pergunta! Pretendemos virar estrelas. Minha idéia é empregar-me na Paramount, eu e estes companheiros formaremos o mais estupendo trio que ainda houve. Que acha? – Acho que vai ser um sucesso louco, Emília! (LOBATO, 1987a, p. 93) Pode-se perceber que as pretensões da personagem Emília são infindáveis, afinal chegou a Hollywood, travou grande amizade com a famosa estrela de Hollywood, Shirley Temple, a qual já ouvira falar de Emília, e podia dar seu aval 36 para que Emília realmente pudesse, junto com seus amigos, fazer parte do elenco da tão sonhada Paramount. Emília finalmente estava conseguindo consagrar sua fama internacional. 4.6 Emília e Visconde Emília não seria Emília se não existisse ao seu lado, para contracenar com ela, a figura do comedido Visconde, Visconde garante a essa personagem a maior parte do seu sucesso. Não se pode negar que Visconde está sempre à margem de Emília, mas também não se pode negar que Emília é do jeito que é porque, atrás dela, está a personagem de Visconde. Emília e Visconde formam um casal quase perfeito. É sabido que Emília deseja a morte de seu atual marido, Rabicó, para se casar com Visconde. “[...] Todos pensaram que Rabicó fora assado [...] Narizinho e Pedrinho choraram [...] Emília pulou de alegria. Estava viúva! Podia finalmente casar-se com Visconde de Sabugosa [...] chegou a bater palmas e cantar” (LOBATO, 1987ab, p. 91). No entanto, esse casamento não aconteceu. Afinal de contas, Rabicó ainda está vivo e Emília carrega seu sobrenome. Emília e Visconde não têm outra saída, precisam se comportar como amigos inseparáveis. Visconde é um amigo muito solícito, atende a qualquer pedido ou ordem da boneca: “- Visconde! – disse ela, venha ser meu secretário. Veja pena e tinta. Vou começar minhas memórias. O sabuguinho científico sorriu” (LOBATO, 1987a, p. 8). Embora Visconde seja tão solícito com a boneca, às vezes também consegue perder a calma. Afinal, ao iniciar suas memórias, Emília mostrou-se um pouco indecisa, não sabia por onde e nem como começar: “Visconde foi se irritando, começou a se abanar e disse: - Sabe que mais Emília? O melhor é você ficar sozinha aqui até resolver definitivamente o que quer que eu escreva” (LOBATO, 1987a, p. 10). A amizade entre Visconde e Emília é pautada na sinceridade. Visconde fala e escreve tudo o que pensa sobre ela. Para Visconde, é mais fácil escrever sobre Emília, pois enquanto escreve Emília normalmente não o interrompe. O mesmo não acontece quando ele está falando. Emília logo arruma um jeito de 37 desfazer o que ele disse a seu respeito. Observa-se isso em uma conversa dos dois a respeito da fala de Emília: [...] E tanto falei que esgotei o reservatório. A fala então ficou no nível. – Tenha paciência Emília muito acima do nível, porque a verdade é que você ainda hoje fala mais do que qualquer mulherzinha. – Mas não falo pelos cotovelos, como elas, só pela boca. E falo bem. Sei dizer coisas engraçadas e até filosóficas. (LOBATO, 1987a, p. 12) A amizade dos dois durante toda obra permanece dentro dos padrões de sinceridade, ora Visconde manifesta-se verbalmente para ela, ora escreve o que pensa dela. Visconde resolveu protestar contra Emília em meio às suas memórias. Afinal, “As Memórias da Emília” foram escritas por ele e, naquele momento, ele era o dono da pena, ou da verdade, a respeito da boneca. Emília é uma tirana sem coração, não tem dó de nada [...] Só pensa em si, na vidinha dela, nos brinquedos dela [...] Emília é uma criaturinha incompreensível. Faz coisas de louca e também faz coisas que até espantam a gente, de tão sensatas. (LOBATO, 1987a, p. 87-88) No momento em que Visconde escrevia suas impressões sobre Emília, a boneca entra e lê o que Visconde escrevera. E mais uma vez somos surpreendidos por essa personagem que cresce gradativamente ao longo da obra: “– O senhor me traiu. Escreveu aqui uma porção de coisas perversas e desagradáveis com o fim de me desmoralizar [...] Mas pensando bem, vejo que sou assim mesmo. Está certo” (LOBATO, 1987a, p. 89). Essas palavras de Emília nos surpreendem bastante, afinal precisa de uma certa maturidade para aceitar críticas tão duras impressas em meio as suas memórias. Emília resolve terminar com suas próprias mãos suas memórias. Afinal, o toque mágico tinha que ser dela, ela que não se cansa de surpreender adultos e crianças, seja no século passado ou neste século. Emília nos fez rir com seu invejável bom humor. Emília, a protagonista dessa e de tantas outras histórias, faz inúmeras reflexões sobre si mesma. Suas reflexões são profundas, deixando o leitor convencido de que Emília não é apenas uma boneca de pano, Emília é algo mais. Emília ultrapassa essa esfera, Emília é atemporal, foi ontem, é hoje e será o 38 amanhã. Podemos dizer também que Emília vive dentro de muitos de nós. Antes de pingar o ponto final quero que saibam que é uma grande mentira [...] Dizem todos que não tenho coração. [...] Coisinhas à toa não o impressionam; mas ele dói quando vê uma injustiça. [...] Quando vejo certas mães baterem nos filhinhos, meu coração dói. Dói tanto que estou convencida que o maior mal deste mundo é a injustiça. (LOBATO, 1987a, p. 108) Após protestar contra as injustiças da vida, Emília prossegue filosofando e conclui que era mais feliz quando não sabia ler. Depois que começou a ler jornais, começou a ficar triste. Emília não é uma personagem estática, ela está em constante evolução, tal evolução levou essa personagem ao aprendizado da leitura, e esse aprendizado fez com que a personagem se entristecesse, pois passou a conhecer fatos que antes da leitura desconhecia. Por fim, conclui que a felicidade e a paz têm endereço certo: o sítio da D. Benta. Para finalizar este capítulo, escolhemos uma das personagens, muito íntima de Emília, e que, assim como ela, também não é gente, é boneco e é de milho: Na realidade o que Emília é, é isso: Uma independência de pano − independente até no tratar as pessoas pelo nome que quer e não pelo nome que as pessoas tem. Para ela eu sou o milho; o almirante é o bife [...] aqui no sítio quem manda é ela [...] Quem consegue tudo o que quer é a Emília. (LOBATO, 1987a, p. 89) As personagens Emília e Visconde dão um significado especial à obra de Monteiro Lobato, ambos tornam a obra interessante, reflexiva e significativa. A literatura de Lobato não alcançaria o sucesso que alcançou se Emília e Visconde não tivessem se conhecido e vivenciado juntos os episódios mais marcantes no Sítio do Picapau Amarelo. 39 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Monteiro Lobato foi um nacionalista realista, não teve medo de dizer a verdade. Disse sempre o que pensava, agradasse ou não. Com certeza desagradou mais do que agradou. Entretanto, algo estava reservado para esse escritor: as crianças. Elas foram sua maior conquista. Elas entenderam e viveram seus sonhos, sonhos de um grande homem que há muito nos deixou, deixando também muitas saudades. Concluir algo sobre as personagens é bastante complexo, pois esses seres fictícios conseguem nos confundir bastante, tendo em vista que, quando bem elaborados, imaginamos que os conhecemos de algum lugar no mundo real. Massaud Moisés (1984) e Antônio Cândido (1986) concluem que o autor, embora se oculte o mais que possa, sempre conduz as personagens, de modo que elas comuniquem seu modo de ver o mundo. Massaud Moisés (1984, p. 212) finaliza sua discussão sobre as personagens esclarecendo que: “a personagem não é totalmente livre [...] não é cópia fiel dos seres de carne e ossos, mas não é símbolo ou projeção irracional”. Como sabemos, a personagem Emília constitui o protesto contínuo e a rebeldia criadora do próprio Lobato, que sofria com as injustiças sociais, que queria contribuir para a ascensão social do nosso país. A personagem Emília representa o verdadeiro Monteiro Lobato. Com essa personagem, Lobato mantém-se imortal, incomodando ainda muita gente, pois Lobato ou Emília diz tudo o que pensa, agrade ou não. De acordo com Marisa Lajolo, em seu artigo, “Emília: a boneca atrevida”: “Emília incendeia a imaginação de todos os seus leitores. E ao mesmo tempo, inferniza a vida de quem quer estudá-la embaralhando de propósito os fios que poderiam tecer a sua história” (p. 119). Concordamos com Lajolo (apud MOTA; ABDALA JR, 2001) quando ela diz que Emília incendeia a nossa imaginação, pois estudar essa personagem é algo prazeroso e significativo, tendo em vista que as aventuras dessa personagem são ricas e variadas, sendo sempre ela a estrela maior. Concluímos que Emília não é apenas um ser que vive e vive livre. Emília é também muitíssimo inteligente, pois define a vida brilhantemente, sabe quais as 40 calamidades universais, sabe ainda que ser esperto é importante. Uma das coisas que mais nos chamou atenção nessa personagem foi seu jeito auto-crítico, pois essa figurinha loquaz e desbocada assume sem titubear muitas de suas fraquezas. Visconde resolve escrever as memórias da Emília sob a ótica dele, dizendo: “Emília é uma tirana, sem coração [...]”. Somos surpreendidos pela personagem que concorda com tamanho comentário. “[...] pensando bem vejo que sou assim mesmo, está certo [...]” (LOBATO, 1987a, p. 90). Emília é imprevisível e irreverente, comporta-se o tempo todo como gente que vive a vida com amor e intensidade, gente que faz críticas e questiona verdades estabelecidas, sempre propondo novos pontos de vista. Emília compara a vida ao ato de piscar. Diz que cada pisco é um dia e a última piscada é a morte. Diz que uma das calamidades do mundo está centrada na língua. Se não falássemos, tudo correria bem como entre os animais que não falam. Emília comporta-se como uma sábia, sabe que suas memórias serão estudadas, chegando a chamar os historiadores de “gente mexeriqueira”. Sabiamente, apropria-se desse dom que tem e sabe como ninguém tirar proveito disso. Pobre Visconde! O ser humano possui inúmeras qualidades; solidariedade, gratidão e amizade sincera são algumas das qualidades normalmente manifestadas por gente, mas não se pode negar que é típico de gente culpar os outros por suas fraquezas. Emília faz isso descaradamente: “cada um de nós dois Visconde, é como tia Nastácia nos fez [...] A culpa não é nossa é da negra [...]” (LOBATO, 1987a, p. 90). Seu invejável bom humor é manifestado intensamente no final de suas memórias, quando ela finge ter ido a Hollywood com toda a criançada inglesa. A boneca diz ter aprendido inglês perfeitamente, chegando a corrigir alguns erros do idioma de Alice. Diz ainda estar falando inglês sem o menor sotaque português. Emília é autêntica, tudo nela é original, não aceita cópias e nem se interessa por novos títulos, afinal já possui um: o de marquesa de Rabicó. E esse, para ela, já basta. Ofereceram-lhe outro, de Baronesa do Império Britânico, mas recusou-o, ou melhor, trocou por outra coisa: “prefiro que sua majestade britânica me mande uma caixa de latas de leite condensado − respondeu a boneca” (LOBATO, 1987a, p. 73). Para Emília, viver é melhor que possuir títulos. Com certeza, leite 41 condensado, para ela, representa uma das tantas delícias da vida, enquanto título é apenas um rótulo para pesar sobre si. Emília é livre, conforme já se anunciou. E a liberdade não precisa de títulos, precisa apenas de um lugar para viver. Emília precisa ser compreendida do jeito que é. Emília é independente, sem independência não há Emília. E essa independência faz dela um ser todo especial, um ser que tem sonhos. Emília sonha em ser feliz ao lado de seu fiel companheiro Visconde. Infelizmente não foi possível a nós, leitores de Lobato, ver essa união confirmada, porém nada nos impede de, assim como Emília, continuar sonhando e imaginando de forma mágica como seria o enlace de tão nobre casal. Emília deixa marcas de sua personalidade em toda a obra infantil de Lobato. Se Emília não existisse, não haveria motivos para a existência de Visconde, de Pedrinho e de Narizinho. Enfim, sem Emília, o Sítio do Picapau Amarelo não seria o sucesso que é. Emília é o resumo original de toda a literatura de Monteiro Lobato. 42 REFERÊNCIAS BRAIT, Beth. A Personagem. 3. ed. São Paulo: Ática, 1987. CADEMARTORI, Ligia. O que é Literatura Infantil. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. CANDIDO, Antônio et al. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 1976. EXUPÉRY, Antoine de Saint. O pequeno príncipe. Tradução de Dom Marcos Barbosa. 38. ed. São Paulo: Agir, 1991. KHÉDE, Sônia Salomão. Personagens da Literatura Infanto-Juvenil. São Paulo: Ática, 1986. LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 6. ed. São Paulo: Ática, 2001. LOBATO, Monteiro. Mr. Slang e o Brasil e o problema vital. 13. ed. São Paulo: Brasiliense, 1972a. _________. Mundo da Lua e Miscelânea. 14. ed. São Paulo: Brasiliense, 1972b. _________. Reinações de Narizinho. Obras completas. 16. ed. São Paulo: Brasiliense, 1979. _________. Memórias da Emília. São Paulo: Círculo do Livro, 1987a. _________. O Marquês de Rabicó. São Paulo: Círculo do Livro, 1987b. MOISÉS, Massaud. A Análise Literária. 7. ed. São Paulo: Cultrix, 1984. MOTA, Lourenço Dantas; ABDALA JR, Benjamim. Personae: personagens da Literatura brasileira. São Paulo: SENAC/Cultrix, 2001. grandes NUNES, Cassiano. Monteiro Lobato: o editor do Brasil. São Paulo: Gráfica Editora, 2000. PINTO, Ziraldo Alves. O Menino Maluquinho. 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