MARIA JUDITE DE CARVALHO: RELAÇÕES DE MEDIAÇÃO ENTRE
SUA OBRA E O PÚBLICO -LEITOR
Roberta Fresneda VILLIBOR (PG-UEM)
Mirian Hisae Yagashi ZAPPONE (UEM)
ISBN: 978-85-99680-05-6
REFERÊNCIA:
VILLIBOR, Roberta Fresneda; ZAPPONE, Mirian
Hisae Yagashi. Maria Judite de Carvalho: relações
de mediação entre sua obra e o público - leitor. In:
CELLI
–
COLÓQUIO
DE
ESTUDOS
LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS. 3, 2007,
Maringá. Anais... Maringá, 2009, p. 840-847.
INTRODUÇÃO
O presente artigo tem por escopo a análise das relações de mediação entre a obra
da escritora portuguesa Maria Judite de Carvalho e a sua circulação no Brasil. Para
tanto, será utilizada a obra Sociologia da Leitura, do teórico francês Robert Escarpit, a
coletânea de ensaios reunidos na obra Literatura e Mídia, organizada pelos professores
Heidrun Krieger Olinto e Karl Erik Schllhammer, bem como arquivos em mídia
eletrônica.
Percebeu-se a necessidade de estudos brasileiros no tocante à produção, à
circulação e à leitura do texto literário, uma vez que são poucos os estudiosos que se
propõem a tal encargo. Unindo a falta de pesquisa neste campo e o interesse pessoal
pela autora portuguesa Maria Judite de Carvalho, nasceu a proposta de investigação da
pouca (ou quase nula) circulação dos livros da escritora no país, enquanto em Portugal
sua obra já foi merecedora de vários prêmios.
Para melhor compreender o sistema mercadológico do livro, será realizado um
panorama deste no Brasil, necessário para explicar as relações entre público e mídias,
bem como um relato sucinto sobre a autora, muitas vezes desconhecida até mesmo da
Academia. Finalizando o artigo, será realizada a análise da circulação das obras
juditeanas no país, em uma tentativa de se explicar o porquê de sua pouco conhecimento
e estudo.
BREVE HISTÓRICO DA PRODUÇÃO E CIRCULAÇÃO DO LIVRO NO
BRASIL
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É ponto pacífico que o Brasil, tendo sido colônia de Portugal por
aproximadamente trezentos anos (se é que não somos, ainda, colônias culturais de
outras nações), sofreu atrasos significativos em todos seus segmentos, sejam eles
políticos, econômicos e/ou culturais. O fato de termos sido dependentes de uma
metrópole, que cerceava quaisquer atos de autonomia, fez-se sentir sobremaneira em
nossa cultura, hoje claramente influenciada pela cultura yankee.
Ainda no Brasil colônia, os escritores nacionais não tinham permissão de
Portugal para publicarem suas letras, como fica explícito na Provisão Real de 6 de julho
de 17471, que dizia não ser "conveniente [que] se imprimam papéis no tempo presente,
nem ser de utilidade aos impressores trabalharem no seu ofício", já que era melhor que
os livros viessem de Portugal para a colônia, tendo sido pagas e liberadas suas licenças
da Inquisição e do Conselho Ultramarino. Por exigência da lei, também estavam
proibidas as "fábricas de livro", pois essas poderiam beneficiar a divulgação do saber no
país, o que iria na contramão dos interesses exploratórios da metrópole.
É apenas com a chegada da Família Real (e tendo-se a necessidade de tornar a
colônia mais "civilizada") que se revogam as leis de proibição do livro. A tipografia
brasileira somente ganhará estatuto legalizado com a assinatura do Alvará de 1o de
Abril de 1808, no qual Dom João VI revoga a proibição de indústrias e fábricas no país.
Mesmo tardiamente, essas medidas significaram um avanço em rumo à independência
cultural brasileira.
Gilberto Mendonça Teles, em seu ensaio intitulado O mercado do Livro
Universitário2 , cita a criação das primeiras editoras brasileiras, ocorridas em meados da
década de 1830:
A partir daí o Brasil passa para a fase de imprensa, com a fundação de
jornais em vários Estados (...). Com a imprensa, foi inevitável o
aparecimento de editoras, como a de Francisco de Paula Brito que, em
1831, comprou uma tipografia e uma livraria, transformando-se no
primeiro editor do Brasil. (TELES, 2002, p. 48)
Mesmo nas primeiras décadas do século XX, o país engatinhava no setor
editorial. Os modernistas da Semana de 22 ainda encontraram muita resistência para
publicar e fazer circular seus livros; muitos financiaram as próprias obras, presenteando
amigos e tentando convencer as livrarias para que colocassem os livros em exposição.
Se o caso do livro brasileiro já era visto como problemático, o que se dirá então
do livro estrangeiro?
Muitos intelectuais, beneficiados financeiramente pelas suas famílias, viajavam
ao exterior, onde entravam em contato com obras de vanguarda. O livro estrangeiro
começou, desse modo, a ter circulação no país por meio de traduções, muitas das vezes
realizadas de modo pouco sistemático, o que gerava problemas de interpretação.
Contudo algo estava sendo feito para alargar as fronteiras do conhecimento no país.
De 1930 para os anos 2000, o mercado editorial brasileiro cresceu e expandiu-se,
porém ainda não se pode afirmar que estejamos na maior pujança editorial, ou que todos
têm acesso ao livro no Brasil.
1
Apud MARTINS, Wilson. A palavra escrita. São Paulo: Anhembi, 957, p. 340.
TELES, Gilberto Mendonça. O mercado do Livro Universitário. In: Literatura e Mídia. Org. Heidrun
Krieger Olinto e Karl Erik Schllhammer. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2002.
2
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Apesar da criação das Bienais do Livro e da realização da Festa Literária
Internacional de Paraty (FLIP), na cidade litorânea do estado do Rio de Janeiro, cujos
encontros entre Literatura, autores e grande público trouxe, entre outras celebridades
literárias, escritores polêmicos, como é o caso do autor de Os Versos Satânicos, Salman
Rushdie, algumas novidades, como o rapper MV Bill e nomes já consagrados de nossa
literatura, como Marina Colasanti, o livro é um produto custoso ao público de rendas
média e baixa. As bibliotecas municipais e estaduais contam com um acervo pouco
atualizado, os chamados "sebos" ainda enfrentam certo preconceito da população em
geral e as livrarias em shoppings centers disponibilizam volumes voltados mais aos best
sellers, explicado pelos fenômenos Paulo Coelho e a série Harry Potter, ou às listas dos
mais vendidos, publicadas por jornais e revistas de grande circulação. Em meio a tantas
mídias (não esquecendo a criação dos e-books e a divulgação eletrônica de obras), o
nicho ocupado pelas obras em língua estrangeira é escasso.
Dada à expansão da Língua Inglesa, cultuada e estudada no país e no mundo
como uma língua de intermédio, alçada à qualidade de língua mundialmente falada, é
relativamente fácil encontrar títulos de autores anglo-americanos, entretanto o mesmo
não se verifica quando se procuram autores que escrevem em inglês, mas são oriundos
de países fora do eixo Inglaterra/Estados Unidos, como é o caso do sul-africano John
Maxwell Coetzee. O caso de Coetzze, como o de José Saramago e Gabriel García
Márquez, também merece maior atenção. O fato destes autores terem recebido o prêmio
de maior prestígio literário, o Nobel de Literatura, ainda sim muda pouco sua
circulação, se não houver divulgação. Esses autores estão "autorizados" pela crítica
literária a fazer parte do rol das chamadas obras canônicas, mas será que a circulação
de seus livros acompanham seu sucesso na Academia? Pouco provável, a não ser que as
editoras se valham do peso do prêmio como chamariz para a publicidade (o que, ainda
assim, não significa que o livro será realmente lido).
Em se tratando de publicidade do livro, é prática comum entre as livrarias a
venda de espaços de maior destaque para as editoras que desejam dar maior visibilidade
a seus livros, o que explica o porquê do consumo de livros cujas temáticas beiram a
auto-ajuda e autopromoção estejam em evidência, além do fato de se viver em tempos
de competição, o que faz com que a leitura de romances seja considerada inútil. Uma
maior visibilidade pode sim significar maior lisibilidade, ou seja, a capacidade de ser
lido, resultando no boom comercial de obras que versem sobre temáticas de como
ganhar dinheiro, como ser feliz, como educar seus filhos e outras tantas. Que interesse
terá este leitor em ler livros que não produzem algum efeito prático, material, em suas
vidas? Porque, tendo em vista o modelo econômico em vigência, a leitura de ficção não
serve para nada, apenas para deleite, ou para evasão. O que dizer então de uma autora
cujas temáticas esmiúçam a vida humana, que trabalha com o prazer estético oriundo da
morte, da solidão, da perspectiva existencialista? Parece pouco provável que esses
temas irão despertar interesse, uma vez que não produzem efeitos palpáveis, além
daqueles produzidos no íntimo de cada um.
À problemática sugerida, impõe-se mais um obstáculo: o gosto do público. Este
é moldado por práticas de leitura, que dependem do contexto sócio-cultural, de
influências e de interesses, pessoais ou econômicos. Em tempos de violência
exacerbada, com guerras civis eclodindo a todo momento, será bem aceita uma obra que
explore a condição humana, os vieses da solidão e da morte, ou o público preferirá
outras consideradas mais leves, menos invasivas e mais evasivas?
842
Há, porém, uma outra pedra no caminho da circulação de livros estrangeiros no
Brasil: os traduzidos para o português dependem estritamente das condições de mercado
para terem sua circulação autorizada. É o que acontece quando um dos livros da série
Harry Potter é lançado na Grã-Bretanha, o que faz com que a tradução seja quase
simultânea para atender à demanda do mercado infanto-juvenil3 (descobre-se,
gradativamente, que o público adulto também é leitor assíduo das peripécias fantasiosas
e maravilhosas, em seu sentido literário, criadas pela autora J. K Rowling).
Talvez seja esta uma das hipóteses para a pouca circulação da obra de Maria
Judite de Carvalho em solo brasileiro, não no tocante à tradução, evidentemente, mas ao
pouco interesse mercadológico em publicá-la no país. O que se esperar de uma política
do livro que faz com que somente 1,5 livro seja consumido per capita por ano no país,
enquanto a média mundial está em 10 livros per capita/ano?4
A AUTORA
Maria Judite de Carvalho, pode se afirmar, é uma grande desconhecida do
público brasileiro. Estudada por poucos intelectuais no país, mesmo para os integrantes
da Academia (professores dos cursos de Letras e áreas afins) seu nome é raramente
lembrado.
Tendo em vista esta pouca intimidade, faz-se obrigatório situar o leitor
sobre quem foi a autora e sobre o que versa sua obra. Maria Judite de Carvalho nasceu
em Lisboa em 1921, falecendo na mesma cidade em 1998. Foi criada por tias paternas,
pois os pais viviam na Bélgica; com esses, teve pouco contato. Em 1944, conheceu
Urbano Tavares Rodrigues, escritor português com quem se casaria em 1949. Após
morar algum tempo em Paris, retornou a Lisboa e trabalhou na revista Eva como
redatora. Nesta revista, publicou seu primeiro conto, intitulado Crônicas de Paris.
Outras crônicas da autora foram publicadas no jornal Diário de Lisboa, onde começou a
trabalhar, em 1974, após a falência da revista Eva.
A autora é comparada pela crítica às escritoras Clarice Lispector e Katherine
Mansfield, no tocante à narrativa psicológica. O professor Massaud Moisés, em seu
livro O conto português, compara Maria Judite com a escritora Katherine Mansfield,
pois, segundo ele, ambas praticam a "arte do implícito", que consiste em apenas sugerir,
não nomear, deixando para o leitor a responsabilidade em completar os brancos
semânticos deixados pelo narrador e pelas personagens:
O implícito, graças ao processo arquitetônico das narrativas, se
mantém como tal e livra os contos duma empobrecedora linearidade.
Em síntese, denotando a superior delicadeza com que os assuntos mais
dramáticos são tratados por uma escritora de antenas ultrapoderosas
na percepção do microscópico, o implícito denota que só a um olhar
superficial as personagens manifestam claramente o drama que as
habita. (MOISÉS, 1975, p.358)
Algumas das obras da escritora, em ordem cronológica de publicação:
3
No presente artigo, não serão discutidos os méritos e deméritos do que se configurou por Literatura de
massa.
4
Fonte: Plano Nacional do Livro e Leitura. Disponível em http://www.vivaleitura.com.br. Acesso em
18/4/07 às 16h.
843
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Tanta gente, Mariana, de 1959;
As palavras poupadas, de 1961;
Paisagem sem barcos, de 1963;
Os armários vazios, de 1966;
O teu amor por Etel, de 1967;
Flores ao telefone, de 1968;
Os idólatras, de 1969;
Tempo de mercês, de 1973;
Além do quadro, de 1983;
Seta despedida, de 1995;
A flor que havia na água parada, de 1998;
Havemos de rir, de 1998.
Algumas de suas premiações incluem o Prêmio Camilo Castelo Branco, por sua
obra As palavras poupadas, concedido pela Sociedade Portuguesa de Escritores em
1961 e o prêmio Vergílio Ferreira, concedido à autora em Évora, em 1998.
Em pesquisas realizadas eletronicamente, utilizando-se bases de dados das principais
instituições de Ensino Superior do país, foram encontradas apenas oito trabalhos sobre a
obra da autora, sendo que todos aplicaram a Teoria Feminista em suas análises. Dois
trabalhos destacam-se: a tese de doutorado da professora Benilde Justo Caniato,
intitulada A solidão de mulheres a sós, e a tese de doutorado de uma das orientandas de
Benilde Caniato, intitulada Fios que se desfazem: a solidão em Clarice Lispector e
Maria Judite de Carvalho, de autoria de Niube Ruggero de Oliveira, ambas defendidas
pela Universidade de São Paulo.
SOBRE A CIRCULAÇÃO DE MARIA JUDITE NO BRASIL
De acordo com Gilberto Mendonça Teles, em ensaio citado anteriormente,
(...) por mercado do livro se entende o conjunto que envolve o escritor
(ou o autor do livro), o seu editor, a sua distribuição, o seu leitor (no
espaço universitário ou não) e a interação desses elementos no sentido
da avaliação da demanda do livro como agente de transformação
cultural. (TELES, 2002, p. 32-33)
Ora, se para que se tenha um "mercado do livro", como aponta o autor, há
dependência de sua circulação, poder-se-ia dizer que não há, no Brasil, um mercado do
livro para as obras de Maria Judite. Nas grandes livrarias ou lojas de departamentos que
vendem livros, disponíveis on-line para consulta eletrônica, como Saraiva, Livraria
Cultura, Submarino, Lojas Americanas entre outras, não foi encontrada uma única obra
da autora, nem registro de seus livros nos bancos de consulta pesquisados. Nos sebos da
cidade de Maringá, estado do Paraná, a busca também resultou inútil. Nas duas livrarias
especializadas em livros portugueses, a saber Livraria Almedina e Livraria Camões, há
registro da autora, porém não se encontram disponíveis os livros para a compra.
Na Câmara Brasileira do Livro (www. cbl.org.br), em seus arquivos eletrônicos,
registrou-se a publicação no Brasil do livro de estréia da autora, Tanta gente, Mariana,
em setembro de 2003, por meio da editora Publicações Europa -América. No site da
editora (www.europa-america.pt), porém, não foram encontrados registros desta obra e
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sim do livro Havemos de Rir que, para ser adquirido, deve ser encomendado via
Portugal, o que gera um custo de aproximadamente vinte euros, ou R$55, 00. As opções
de pagamento restringem-se às operadoras de cartão de crédito.
Por ocasião da 19a Bienal do Livro em São Paulo, realizada entre 9 e 19 de
março de 2006, a Ministra da Cultura de Portugal, Isabel Pires de Lima, concedeu
entrevista para o site do Conselho das Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil
(www.brasilportugal.org.br), na qual esclareceu que o intercâmbio de autores brasileiros
e portugueses deve melhorar, uma vez que o Instituto Português do Livro e das
Bibliotecas aumentou o número de títulos portugueses editados no Brasil de seis para 48
nos últimos três anos, o que parece ser bastante promissor no que diz respeito à
circulação da Literatura Portuguesa no país.
No que concerne à circulação da obra juditeana no Brasil, por que não existe um
esforço tanto do governo português quanto do brasileiro em disponibilizar os livros no
país? O primeiro argumento soa óbvio, mas coerente: isso se torna custoso, se não
houver um público interessado na leitura das obras. A crítica literária, tanto portuguesa
quanto brasileira, canonizou a escritora, tanto que esta recebeu premiações por sua obra.
Ma só a Academia valida a leitura de um autor? É evidente que não, ou autores
brasileiros consagrados pela crítica, como Guimarães Rosa, seriam lidos por um grande
público, o que de fato não se verifica.
Para que tipo de público destinam-se as obras juditeanas? De acordo com Robert
Escarpit, "todos os escritores, no momento em que escrevem, têm presente um público
para além deles próprios" (ESCARPIT, 1958, p. 165). A narrativa de Maria Judite é
entremeada por monólogos interiores, fluxo de consciência e discurso indireto livre, o
que por si só já afastam a possibilidade de leitura de determinados públicos, como por
exemplo o masculino, que tende a criar afinidade maior com as narrativas de peripécias
em detrimento às psicológicas. Seria o caso de um público basicamente composto por
mulheres se configurar como leitor de Maria Judite? Se, de acordo com Escarpit, "todos
os escritores têm a seus ombros o peso do público possível mais ou menos vasto, mais
ou menos disperso no tempo e no espaço" (ESCARPIT, 1958, p. 168), seria a obra
destinada somente à leitura pelo viés feminista? Pelas leituras da crítica e pelas
freqüentes comparações entre a autora e Clarice Lispector, sim, contudo seria uma
leitura muito simplista da autora.
Voltar-se-ia, deste modo, ao problema inicial: seria o caso do livro estrangeiro?
Neste ponto, têm-se duas observações. A primeira é que, publicar livros em um país que
não é a terra natal de um autor é sempre difícil, e não acontece apenas no Brasil. Mesmo
assim, e então tem-se a segunda observação, escritores portugueses vêm encontrando
um mercado editorial bastante profícuo no país, inclusive na crítica literária brasileira,
como é o caso do escritor José Saramago, mais estudado no Brasil que em Portugal. A
Saramago agregam-se nomes como Helder Macedo, Urbano Tavares Rodrigues, Maria
Ondina Braga, Augustina Bessa-Luís, Antônio Lobo Antunes, além, é claro, dos poetas
Fernando Pessoa, Luiz Vaz de Camões, Florbela Espanca e Cesário Verde, para citar
alguns.
O que parece acontecer com Maria Judite, em primeiro lugar, é que se trata de
uma autora já falecida, o que poderia dificultar a edição de seus livros. Nas pesquisas
realizadas para este trabalho, não foram encontradas informações acerca dos direitos
autorais de Maria Judite, apenas se supõe que eles pertencem a Urbano Tavares
Rodrigues, esposo da autora.
845
Outra explicação para a problemática posta reside no que Escarpit denominou de
"o sucesso", ou seja, se não há convergência de intenções entre o autor e o leitor, cria-se
uma distância entre um e outro e, conseqüentemente, não há circulação. Se não há
circulação, não há a autorização deste autor pelo seu público, mesmo que a crítica diga
o contrário. Não se está questionando a literariedade da narrativa juditeana, e sim
aponta-se para uma questão muito mais prática, entendendo que um bom autor cujas
obras não circulem eventualmente acabará esquecido (se é que foi outrora lembrado) do
grande público, enquanto outros autores serão celebrados. Não se fala em boa ou má
literatura e sim no processo de autorização de autor, que faz com que seja lembrado,
lido, estudado e circule em vários meios. Se esta autora fala sobre morte, solidão,
tristeza, abandono, abismo existencial, características já comentadas e recorrentes em
seus textos, e o público não mostra interesse por estas perspectivas temáticas, não
haverá a circulação.
Se o problema não está na literariedade ou nas preferências de leitura do público
português que efetivamente lê Maria Judite (porque o público brasileiro não opina, uma
vez que seu contato com a obra juditeana é nulo), fica evidente que a autora não é
estudada e lida no país, porque faltam incentivos de várias ordens para a publicação de
suas obras no Brasil, além do gosto do público brasileiro que, é raro, toma
conhecimento da autora.
De acordo com as idéias formuladas por Escarpit, acredita-se que Maria Judite
de Carvalho possui um público que é conhecedor de sua obra, em Portugal e no Brasil,
contudo no Brasil ainda não desenvolveu (se é que desenvolverá) um público
consumidor. Para o autor,
O papel do conhecedor é o de 'passar atrás do palco', de ver as
circunstâncias que rodeiam a criação literária, de compreender as
intenções destas circunstâncias, de analisar os seus meios. Não há para
ele um envelhecimento ou morte da obra, visto lhe ser possível sempre
reconstruir, pelo espírito, o sistema de referência que dá à obra o
relevo estético. É uma atitude histórica. O consumidor, pelo contrário,
vive no presente. (...) Não tem um papel, mas uma existência. Prova o
que lhe é oferecido e decide se isso o agrada ou não. (ESCARPIT,
1958, p. 193)
Desta maneira, como o leitor brasileiro decidirá se ler Maria Judite de Carvalho
lhe agrada ou não, se a possibilidade material do contato com a obra inexiste?
Fica difícil a circulação de um livro que não existe como possibilidade real,
material, de contato. Quem o faz ou é impelido por um leitor treinado, no caso um
professor de Literatura Portuguesa ou alguém tão afeito a ela, ou por ser ele próprio um
pesquisador de Literatura Portuguesa. Em ambos os casos, restringe-se muito o leque de
leitores para autores que estão nas mesmas condições de Maria Judite de Carvalho ( e
então os nomes são vários).
Se não há público leitor, se não há divulgação, maneiras de se entrar em contato
com a obra, como ela pode ser lida e atualizada? Apenas por meio de algumas "traças"
de biblioteca, e a referência ao termo traça não é em absoluto pejorativa e sim alusiva
àqueles que dispõem de paciência e tempo para pesquisa.
Em suma, essas hipóteses podem explicar o porquê da não circulação da
escritora Maria Judite, tão premiada em Portugal e tão próxima de nós por uma questão
846
lingüística (já que o código é aproximadamente o mesmo para Portugal e Brasil), porém
pouco ou nada conhecida do público leitor brasileiro.
CONCLUSÃO
Neste artigo, procurou-se explicitar que não há uma relação de mediação entre a
obra da escritora portuguesa Maria Judite de Carvalho e o público leitor brasileiro. Não
existe mediação, porque não há divulgação, tampouco circulação da obra da autora no
país. Isso pode ser explicado pelo fato de, mesmo sendo ela uma autora portuguesa que
escreve em língua comum aos brasileiros (tomadas as devidas proporções e evitando-se
discutir se há uma língua portuguesa e outra brasileira), há problemas extra-textuais que
devem ser considerados para explicar a não circulação destas obras.
O primeiro deles é econômico, uma vez que a editora mais recente a publicar as
obras de Maria Judite é portuguesa, o que encarece o custo do livro para o leitor
brasileiro já interessado em lê-la.
O segundo advém do primeiro: como tornar conhecida uma obra que, por
motivos financeiros, não é encontrada? Utilizando um ditado popular, se o que é visto é
lembrado, o contrário também é verdadeiro.
Outro fator explica-se por meio das preferências temáticas. Falar sobre morte e
solidão restringe o alcance da autora, pois são poucas as pessoas que se sentem
estimuladas a ler sobre isso, mesmo que tais assuntos façam parte da condição mais
humana de nossa existência.
Deste modo, há de se estabelecer um intercâmbio maior entre Portugal e Brasil,
bem como entre Brasil e outras nações na questão mercadológica do livro. Sabe-se que
este é um problema irrisório para aqueles que não conseguem se alimentar, oxalá saber
ler e escrever, mas a problemática se insere no âmbito justamente nesta globalidade
chamada Educação: enquanto não se modificarem as bases, o acervo cultural será
sacrificado.
Daí decorre a importância da circulação, da publicação e da leitura efetiva de
livros no Brasil, sejam eles escritos por Maria Judite de Carvalho ou não. É preciso que
se aumente a quantidade de livros per capita consumida no país. É preciso que este
quadro se modifique, mesmo que isso pareça ser custoso.
REFERÊNCIAS
ESCARPIT, Robert. Sociologia da Literatura. Almedina: Coimbra, 1969.
MARTINS, Wilson. A palavra escrita. São Paulo: Anhembi, 957, p. 340.
MOISÉS, Massaud. O Conto Português. São Paulo: Cultrix, Ed. da Universidade de
São Paulo, 1975.
TELES, Gilberto Mendonça. O mercado do Livro Universitário. In: Literatura e Mídia.
Org. Heidrun Krieger Olinto e Karl Erik Schllhammer. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio;
São Paulo: Loyola, 2002.
CONSELHO DAS CÂMARAS PORTUGUESAS DE COMÉRCIO NO BRASIL.
Disponível em www.brasilportugal.org.br. Acesso em 23 /08/06, às 14h32min.
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