MARIA JUDITE DE CARVALHO: RELAÇÕES DE MEDIAÇÃO ENTRE SUA OBRA E O PÚBLICO -LEITOR Roberta Fresneda VILLIBOR (PG-UEM) Mirian Hisae Yagashi ZAPPONE (UEM) ISBN: 978-85-99680-05-6 REFERÊNCIA: VILLIBOR, Roberta Fresneda; ZAPPONE, Mirian Hisae Yagashi. Maria Judite de Carvalho: relações de mediação entre sua obra e o público - leitor. In: CELLI – COLÓQUIO DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS. 3, 2007, Maringá. Anais... Maringá, 2009, p. 840-847. INTRODUÇÃO O presente artigo tem por escopo a análise das relações de mediação entre a obra da escritora portuguesa Maria Judite de Carvalho e a sua circulação no Brasil. Para tanto, será utilizada a obra Sociologia da Leitura, do teórico francês Robert Escarpit, a coletânea de ensaios reunidos na obra Literatura e Mídia, organizada pelos professores Heidrun Krieger Olinto e Karl Erik Schllhammer, bem como arquivos em mídia eletrônica. Percebeu-se a necessidade de estudos brasileiros no tocante à produção, à circulação e à leitura do texto literário, uma vez que são poucos os estudiosos que se propõem a tal encargo. Unindo a falta de pesquisa neste campo e o interesse pessoal pela autora portuguesa Maria Judite de Carvalho, nasceu a proposta de investigação da pouca (ou quase nula) circulação dos livros da escritora no país, enquanto em Portugal sua obra já foi merecedora de vários prêmios. Para melhor compreender o sistema mercadológico do livro, será realizado um panorama deste no Brasil, necessário para explicar as relações entre público e mídias, bem como um relato sucinto sobre a autora, muitas vezes desconhecida até mesmo da Academia. Finalizando o artigo, será realizada a análise da circulação das obras juditeanas no país, em uma tentativa de se explicar o porquê de sua pouco conhecimento e estudo. BREVE HISTÓRICO DA PRODUÇÃO E CIRCULAÇÃO DO LIVRO NO BRASIL 840 É ponto pacífico que o Brasil, tendo sido colônia de Portugal por aproximadamente trezentos anos (se é que não somos, ainda, colônias culturais de outras nações), sofreu atrasos significativos em todos seus segmentos, sejam eles políticos, econômicos e/ou culturais. O fato de termos sido dependentes de uma metrópole, que cerceava quaisquer atos de autonomia, fez-se sentir sobremaneira em nossa cultura, hoje claramente influenciada pela cultura yankee. Ainda no Brasil colônia, os escritores nacionais não tinham permissão de Portugal para publicarem suas letras, como fica explícito na Provisão Real de 6 de julho de 17471, que dizia não ser "conveniente [que] se imprimam papéis no tempo presente, nem ser de utilidade aos impressores trabalharem no seu ofício", já que era melhor que os livros viessem de Portugal para a colônia, tendo sido pagas e liberadas suas licenças da Inquisição e do Conselho Ultramarino. Por exigência da lei, também estavam proibidas as "fábricas de livro", pois essas poderiam beneficiar a divulgação do saber no país, o que iria na contramão dos interesses exploratórios da metrópole. É apenas com a chegada da Família Real (e tendo-se a necessidade de tornar a colônia mais "civilizada") que se revogam as leis de proibição do livro. A tipografia brasileira somente ganhará estatuto legalizado com a assinatura do Alvará de 1o de Abril de 1808, no qual Dom João VI revoga a proibição de indústrias e fábricas no país. Mesmo tardiamente, essas medidas significaram um avanço em rumo à independência cultural brasileira. Gilberto Mendonça Teles, em seu ensaio intitulado O mercado do Livro Universitário2 , cita a criação das primeiras editoras brasileiras, ocorridas em meados da década de 1830: A partir daí o Brasil passa para a fase de imprensa, com a fundação de jornais em vários Estados (...). Com a imprensa, foi inevitável o aparecimento de editoras, como a de Francisco de Paula Brito que, em 1831, comprou uma tipografia e uma livraria, transformando-se no primeiro editor do Brasil. (TELES, 2002, p. 48) Mesmo nas primeiras décadas do século XX, o país engatinhava no setor editorial. Os modernistas da Semana de 22 ainda encontraram muita resistência para publicar e fazer circular seus livros; muitos financiaram as próprias obras, presenteando amigos e tentando convencer as livrarias para que colocassem os livros em exposição. Se o caso do livro brasileiro já era visto como problemático, o que se dirá então do livro estrangeiro? Muitos intelectuais, beneficiados financeiramente pelas suas famílias, viajavam ao exterior, onde entravam em contato com obras de vanguarda. O livro estrangeiro começou, desse modo, a ter circulação no país por meio de traduções, muitas das vezes realizadas de modo pouco sistemático, o que gerava problemas de interpretação. Contudo algo estava sendo feito para alargar as fronteiras do conhecimento no país. De 1930 para os anos 2000, o mercado editorial brasileiro cresceu e expandiu-se, porém ainda não se pode afirmar que estejamos na maior pujança editorial, ou que todos têm acesso ao livro no Brasil. 1 Apud MARTINS, Wilson. A palavra escrita. São Paulo: Anhembi, 957, p. 340. TELES, Gilberto Mendonça. O mercado do Livro Universitário. In: Literatura e Mídia. Org. Heidrun Krieger Olinto e Karl Erik Schllhammer. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2002. 2 841 Apesar da criação das Bienais do Livro e da realização da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), na cidade litorânea do estado do Rio de Janeiro, cujos encontros entre Literatura, autores e grande público trouxe, entre outras celebridades literárias, escritores polêmicos, como é o caso do autor de Os Versos Satânicos, Salman Rushdie, algumas novidades, como o rapper MV Bill e nomes já consagrados de nossa literatura, como Marina Colasanti, o livro é um produto custoso ao público de rendas média e baixa. As bibliotecas municipais e estaduais contam com um acervo pouco atualizado, os chamados "sebos" ainda enfrentam certo preconceito da população em geral e as livrarias em shoppings centers disponibilizam volumes voltados mais aos best sellers, explicado pelos fenômenos Paulo Coelho e a série Harry Potter, ou às listas dos mais vendidos, publicadas por jornais e revistas de grande circulação. Em meio a tantas mídias (não esquecendo a criação dos e-books e a divulgação eletrônica de obras), o nicho ocupado pelas obras em língua estrangeira é escasso. Dada à expansão da Língua Inglesa, cultuada e estudada no país e no mundo como uma língua de intermédio, alçada à qualidade de língua mundialmente falada, é relativamente fácil encontrar títulos de autores anglo-americanos, entretanto o mesmo não se verifica quando se procuram autores que escrevem em inglês, mas são oriundos de países fora do eixo Inglaterra/Estados Unidos, como é o caso do sul-africano John Maxwell Coetzee. O caso de Coetzze, como o de José Saramago e Gabriel García Márquez, também merece maior atenção. O fato destes autores terem recebido o prêmio de maior prestígio literário, o Nobel de Literatura, ainda sim muda pouco sua circulação, se não houver divulgação. Esses autores estão "autorizados" pela crítica literária a fazer parte do rol das chamadas obras canônicas, mas será que a circulação de seus livros acompanham seu sucesso na Academia? Pouco provável, a não ser que as editoras se valham do peso do prêmio como chamariz para a publicidade (o que, ainda assim, não significa que o livro será realmente lido). Em se tratando de publicidade do livro, é prática comum entre as livrarias a venda de espaços de maior destaque para as editoras que desejam dar maior visibilidade a seus livros, o que explica o porquê do consumo de livros cujas temáticas beiram a auto-ajuda e autopromoção estejam em evidência, além do fato de se viver em tempos de competição, o que faz com que a leitura de romances seja considerada inútil. Uma maior visibilidade pode sim significar maior lisibilidade, ou seja, a capacidade de ser lido, resultando no boom comercial de obras que versem sobre temáticas de como ganhar dinheiro, como ser feliz, como educar seus filhos e outras tantas. Que interesse terá este leitor em ler livros que não produzem algum efeito prático, material, em suas vidas? Porque, tendo em vista o modelo econômico em vigência, a leitura de ficção não serve para nada, apenas para deleite, ou para evasão. O que dizer então de uma autora cujas temáticas esmiúçam a vida humana, que trabalha com o prazer estético oriundo da morte, da solidão, da perspectiva existencialista? Parece pouco provável que esses temas irão despertar interesse, uma vez que não produzem efeitos palpáveis, além daqueles produzidos no íntimo de cada um. À problemática sugerida, impõe-se mais um obstáculo: o gosto do público. Este é moldado por práticas de leitura, que dependem do contexto sócio-cultural, de influências e de interesses, pessoais ou econômicos. Em tempos de violência exacerbada, com guerras civis eclodindo a todo momento, será bem aceita uma obra que explore a condição humana, os vieses da solidão e da morte, ou o público preferirá outras consideradas mais leves, menos invasivas e mais evasivas? 842 Há, porém, uma outra pedra no caminho da circulação de livros estrangeiros no Brasil: os traduzidos para o português dependem estritamente das condições de mercado para terem sua circulação autorizada. É o que acontece quando um dos livros da série Harry Potter é lançado na Grã-Bretanha, o que faz com que a tradução seja quase simultânea para atender à demanda do mercado infanto-juvenil3 (descobre-se, gradativamente, que o público adulto também é leitor assíduo das peripécias fantasiosas e maravilhosas, em seu sentido literário, criadas pela autora J. K Rowling). Talvez seja esta uma das hipóteses para a pouca circulação da obra de Maria Judite de Carvalho em solo brasileiro, não no tocante à tradução, evidentemente, mas ao pouco interesse mercadológico em publicá-la no país. O que se esperar de uma política do livro que faz com que somente 1,5 livro seja consumido per capita por ano no país, enquanto a média mundial está em 10 livros per capita/ano?4 A AUTORA Maria Judite de Carvalho, pode se afirmar, é uma grande desconhecida do público brasileiro. Estudada por poucos intelectuais no país, mesmo para os integrantes da Academia (professores dos cursos de Letras e áreas afins) seu nome é raramente lembrado. Tendo em vista esta pouca intimidade, faz-se obrigatório situar o leitor sobre quem foi a autora e sobre o que versa sua obra. Maria Judite de Carvalho nasceu em Lisboa em 1921, falecendo na mesma cidade em 1998. Foi criada por tias paternas, pois os pais viviam na Bélgica; com esses, teve pouco contato. Em 1944, conheceu Urbano Tavares Rodrigues, escritor português com quem se casaria em 1949. Após morar algum tempo em Paris, retornou a Lisboa e trabalhou na revista Eva como redatora. Nesta revista, publicou seu primeiro conto, intitulado Crônicas de Paris. Outras crônicas da autora foram publicadas no jornal Diário de Lisboa, onde começou a trabalhar, em 1974, após a falência da revista Eva. A autora é comparada pela crítica às escritoras Clarice Lispector e Katherine Mansfield, no tocante à narrativa psicológica. O professor Massaud Moisés, em seu livro O conto português, compara Maria Judite com a escritora Katherine Mansfield, pois, segundo ele, ambas praticam a "arte do implícito", que consiste em apenas sugerir, não nomear, deixando para o leitor a responsabilidade em completar os brancos semânticos deixados pelo narrador e pelas personagens: O implícito, graças ao processo arquitetônico das narrativas, se mantém como tal e livra os contos duma empobrecedora linearidade. Em síntese, denotando a superior delicadeza com que os assuntos mais dramáticos são tratados por uma escritora de antenas ultrapoderosas na percepção do microscópico, o implícito denota que só a um olhar superficial as personagens manifestam claramente o drama que as habita. (MOISÉS, 1975, p.358) Algumas das obras da escritora, em ordem cronológica de publicação: 3 No presente artigo, não serão discutidos os méritos e deméritos do que se configurou por Literatura de massa. 4 Fonte: Plano Nacional do Livro e Leitura. Disponível em http://www.vivaleitura.com.br. Acesso em 18/4/07 às 16h. 843 Tanta gente, Mariana, de 1959; As palavras poupadas, de 1961; Paisagem sem barcos, de 1963; Os armários vazios, de 1966; O teu amor por Etel, de 1967; Flores ao telefone, de 1968; Os idólatras, de 1969; Tempo de mercês, de 1973; Além do quadro, de 1983; Seta despedida, de 1995; A flor que havia na água parada, de 1998; Havemos de rir, de 1998. Algumas de suas premiações incluem o Prêmio Camilo Castelo Branco, por sua obra As palavras poupadas, concedido pela Sociedade Portuguesa de Escritores em 1961 e o prêmio Vergílio Ferreira, concedido à autora em Évora, em 1998. Em pesquisas realizadas eletronicamente, utilizando-se bases de dados das principais instituições de Ensino Superior do país, foram encontradas apenas oito trabalhos sobre a obra da autora, sendo que todos aplicaram a Teoria Feminista em suas análises. Dois trabalhos destacam-se: a tese de doutorado da professora Benilde Justo Caniato, intitulada A solidão de mulheres a sós, e a tese de doutorado de uma das orientandas de Benilde Caniato, intitulada Fios que se desfazem: a solidão em Clarice Lispector e Maria Judite de Carvalho, de autoria de Niube Ruggero de Oliveira, ambas defendidas pela Universidade de São Paulo. SOBRE A CIRCULAÇÃO DE MARIA JUDITE NO BRASIL De acordo com Gilberto Mendonça Teles, em ensaio citado anteriormente, (...) por mercado do livro se entende o conjunto que envolve o escritor (ou o autor do livro), o seu editor, a sua distribuição, o seu leitor (no espaço universitário ou não) e a interação desses elementos no sentido da avaliação da demanda do livro como agente de transformação cultural. (TELES, 2002, p. 32-33) Ora, se para que se tenha um "mercado do livro", como aponta o autor, há dependência de sua circulação, poder-se-ia dizer que não há, no Brasil, um mercado do livro para as obras de Maria Judite. Nas grandes livrarias ou lojas de departamentos que vendem livros, disponíveis on-line para consulta eletrônica, como Saraiva, Livraria Cultura, Submarino, Lojas Americanas entre outras, não foi encontrada uma única obra da autora, nem registro de seus livros nos bancos de consulta pesquisados. Nos sebos da cidade de Maringá, estado do Paraná, a busca também resultou inútil. Nas duas livrarias especializadas em livros portugueses, a saber Livraria Almedina e Livraria Camões, há registro da autora, porém não se encontram disponíveis os livros para a compra. Na Câmara Brasileira do Livro (www. cbl.org.br), em seus arquivos eletrônicos, registrou-se a publicação no Brasil do livro de estréia da autora, Tanta gente, Mariana, em setembro de 2003, por meio da editora Publicações Europa -América. No site da editora (www.europa-america.pt), porém, não foram encontrados registros desta obra e 844 sim do livro Havemos de Rir que, para ser adquirido, deve ser encomendado via Portugal, o que gera um custo de aproximadamente vinte euros, ou R$55, 00. As opções de pagamento restringem-se às operadoras de cartão de crédito. Por ocasião da 19a Bienal do Livro em São Paulo, realizada entre 9 e 19 de março de 2006, a Ministra da Cultura de Portugal, Isabel Pires de Lima, concedeu entrevista para o site do Conselho das Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil (www.brasilportugal.org.br), na qual esclareceu que o intercâmbio de autores brasileiros e portugueses deve melhorar, uma vez que o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas aumentou o número de títulos portugueses editados no Brasil de seis para 48 nos últimos três anos, o que parece ser bastante promissor no que diz respeito à circulação da Literatura Portuguesa no país. No que concerne à circulação da obra juditeana no Brasil, por que não existe um esforço tanto do governo português quanto do brasileiro em disponibilizar os livros no país? O primeiro argumento soa óbvio, mas coerente: isso se torna custoso, se não houver um público interessado na leitura das obras. A crítica literária, tanto portuguesa quanto brasileira, canonizou a escritora, tanto que esta recebeu premiações por sua obra. Ma só a Academia valida a leitura de um autor? É evidente que não, ou autores brasileiros consagrados pela crítica, como Guimarães Rosa, seriam lidos por um grande público, o que de fato não se verifica. Para que tipo de público destinam-se as obras juditeanas? De acordo com Robert Escarpit, "todos os escritores, no momento em que escrevem, têm presente um público para além deles próprios" (ESCARPIT, 1958, p. 165). A narrativa de Maria Judite é entremeada por monólogos interiores, fluxo de consciência e discurso indireto livre, o que por si só já afastam a possibilidade de leitura de determinados públicos, como por exemplo o masculino, que tende a criar afinidade maior com as narrativas de peripécias em detrimento às psicológicas. Seria o caso de um público basicamente composto por mulheres se configurar como leitor de Maria Judite? Se, de acordo com Escarpit, "todos os escritores têm a seus ombros o peso do público possível mais ou menos vasto, mais ou menos disperso no tempo e no espaço" (ESCARPIT, 1958, p. 168), seria a obra destinada somente à leitura pelo viés feminista? Pelas leituras da crítica e pelas freqüentes comparações entre a autora e Clarice Lispector, sim, contudo seria uma leitura muito simplista da autora. Voltar-se-ia, deste modo, ao problema inicial: seria o caso do livro estrangeiro? Neste ponto, têm-se duas observações. A primeira é que, publicar livros em um país que não é a terra natal de um autor é sempre difícil, e não acontece apenas no Brasil. Mesmo assim, e então tem-se a segunda observação, escritores portugueses vêm encontrando um mercado editorial bastante profícuo no país, inclusive na crítica literária brasileira, como é o caso do escritor José Saramago, mais estudado no Brasil que em Portugal. A Saramago agregam-se nomes como Helder Macedo, Urbano Tavares Rodrigues, Maria Ondina Braga, Augustina Bessa-Luís, Antônio Lobo Antunes, além, é claro, dos poetas Fernando Pessoa, Luiz Vaz de Camões, Florbela Espanca e Cesário Verde, para citar alguns. O que parece acontecer com Maria Judite, em primeiro lugar, é que se trata de uma autora já falecida, o que poderia dificultar a edição de seus livros. Nas pesquisas realizadas para este trabalho, não foram encontradas informações acerca dos direitos autorais de Maria Judite, apenas se supõe que eles pertencem a Urbano Tavares Rodrigues, esposo da autora. 845 Outra explicação para a problemática posta reside no que Escarpit denominou de "o sucesso", ou seja, se não há convergência de intenções entre o autor e o leitor, cria-se uma distância entre um e outro e, conseqüentemente, não há circulação. Se não há circulação, não há a autorização deste autor pelo seu público, mesmo que a crítica diga o contrário. Não se está questionando a literariedade da narrativa juditeana, e sim aponta-se para uma questão muito mais prática, entendendo que um bom autor cujas obras não circulem eventualmente acabará esquecido (se é que foi outrora lembrado) do grande público, enquanto outros autores serão celebrados. Não se fala em boa ou má literatura e sim no processo de autorização de autor, que faz com que seja lembrado, lido, estudado e circule em vários meios. Se esta autora fala sobre morte, solidão, tristeza, abandono, abismo existencial, características já comentadas e recorrentes em seus textos, e o público não mostra interesse por estas perspectivas temáticas, não haverá a circulação. Se o problema não está na literariedade ou nas preferências de leitura do público português que efetivamente lê Maria Judite (porque o público brasileiro não opina, uma vez que seu contato com a obra juditeana é nulo), fica evidente que a autora não é estudada e lida no país, porque faltam incentivos de várias ordens para a publicação de suas obras no Brasil, além do gosto do público brasileiro que, é raro, toma conhecimento da autora. De acordo com as idéias formuladas por Escarpit, acredita-se que Maria Judite de Carvalho possui um público que é conhecedor de sua obra, em Portugal e no Brasil, contudo no Brasil ainda não desenvolveu (se é que desenvolverá) um público consumidor. Para o autor, O papel do conhecedor é o de 'passar atrás do palco', de ver as circunstâncias que rodeiam a criação literária, de compreender as intenções destas circunstâncias, de analisar os seus meios. Não há para ele um envelhecimento ou morte da obra, visto lhe ser possível sempre reconstruir, pelo espírito, o sistema de referência que dá à obra o relevo estético. É uma atitude histórica. O consumidor, pelo contrário, vive no presente. (...) Não tem um papel, mas uma existência. Prova o que lhe é oferecido e decide se isso o agrada ou não. (ESCARPIT, 1958, p. 193) Desta maneira, como o leitor brasileiro decidirá se ler Maria Judite de Carvalho lhe agrada ou não, se a possibilidade material do contato com a obra inexiste? Fica difícil a circulação de um livro que não existe como possibilidade real, material, de contato. Quem o faz ou é impelido por um leitor treinado, no caso um professor de Literatura Portuguesa ou alguém tão afeito a ela, ou por ser ele próprio um pesquisador de Literatura Portuguesa. Em ambos os casos, restringe-se muito o leque de leitores para autores que estão nas mesmas condições de Maria Judite de Carvalho ( e então os nomes são vários). Se não há público leitor, se não há divulgação, maneiras de se entrar em contato com a obra, como ela pode ser lida e atualizada? Apenas por meio de algumas "traças" de biblioteca, e a referência ao termo traça não é em absoluto pejorativa e sim alusiva àqueles que dispõem de paciência e tempo para pesquisa. Em suma, essas hipóteses podem explicar o porquê da não circulação da escritora Maria Judite, tão premiada em Portugal e tão próxima de nós por uma questão 846 lingüística (já que o código é aproximadamente o mesmo para Portugal e Brasil), porém pouco ou nada conhecida do público leitor brasileiro. CONCLUSÃO Neste artigo, procurou-se explicitar que não há uma relação de mediação entre a obra da escritora portuguesa Maria Judite de Carvalho e o público leitor brasileiro. Não existe mediação, porque não há divulgação, tampouco circulação da obra da autora no país. Isso pode ser explicado pelo fato de, mesmo sendo ela uma autora portuguesa que escreve em língua comum aos brasileiros (tomadas as devidas proporções e evitando-se discutir se há uma língua portuguesa e outra brasileira), há problemas extra-textuais que devem ser considerados para explicar a não circulação destas obras. O primeiro deles é econômico, uma vez que a editora mais recente a publicar as obras de Maria Judite é portuguesa, o que encarece o custo do livro para o leitor brasileiro já interessado em lê-la. O segundo advém do primeiro: como tornar conhecida uma obra que, por motivos financeiros, não é encontrada? Utilizando um ditado popular, se o que é visto é lembrado, o contrário também é verdadeiro. Outro fator explica-se por meio das preferências temáticas. Falar sobre morte e solidão restringe o alcance da autora, pois são poucas as pessoas que se sentem estimuladas a ler sobre isso, mesmo que tais assuntos façam parte da condição mais humana de nossa existência. Deste modo, há de se estabelecer um intercâmbio maior entre Portugal e Brasil, bem como entre Brasil e outras nações na questão mercadológica do livro. Sabe-se que este é um problema irrisório para aqueles que não conseguem se alimentar, oxalá saber ler e escrever, mas a problemática se insere no âmbito justamente nesta globalidade chamada Educação: enquanto não se modificarem as bases, o acervo cultural será sacrificado. Daí decorre a importância da circulação, da publicação e da leitura efetiva de livros no Brasil, sejam eles escritos por Maria Judite de Carvalho ou não. É preciso que se aumente a quantidade de livros per capita consumida no país. É preciso que este quadro se modifique, mesmo que isso pareça ser custoso. REFERÊNCIAS ESCARPIT, Robert. Sociologia da Literatura. Almedina: Coimbra, 1969. MARTINS, Wilson. A palavra escrita. São Paulo: Anhembi, 957, p. 340. MOISÉS, Massaud. O Conto Português. São Paulo: Cultrix, Ed. da Universidade de São Paulo, 1975. TELES, Gilberto Mendonça. O mercado do Livro Universitário. In: Literatura e Mídia. Org. Heidrun Krieger Olinto e Karl Erik Schllhammer. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2002. CONSELHO DAS CÂMARAS PORTUGUESAS DE COMÉRCIO NO BRASIL. Disponível em www.brasilportugal.org.br. Acesso em 23 /08/06, às 14h32min. 847