e s L tra d i g i t a i s Teses e Disser tações originais em formato digital es õ ç i u b i Contr ra a p a c i t üís g n i L a d tim a L o d o o Ensin e u g r e b i t u L a v l i S e g n a Sol i Cavalcant 2002 Programa de Pós-Graduação em Letras Ficha Técnica Coordenação do Projeto Letras Digitais Angela Paiva Dionísio e Anco Márcio Tenório Vieira (orgs.) Consultoria Técnica Augusto Noronha e Karla Vidal (Pipa Comunicação) Projeto Gráfico e Finalização Karla Vidal e Augusto Noronha (Pipa Comunicação) Digitalização dos Originais Maria Cândida Paiva Dionízio Revisão Angela Paiva Dionísio, Anco Márcio Tenório Vieira e Michelle Leonor da Silva Produção Pipa Comunicação Apoio Técnico Michelle Leonor da Silva e Rebeca Fernandes Penha Apoio Institucional Universidade Federal de Pernambuco Programa de Pós-Graduação em Letras Apresentação Criar um acervo é registrar uma história. Criar um acervo digital é dinamizar a história. É com essa perspectiva que a Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Letras, representada nas pessoas dos professores Angela Paiva Dionisio e Anco Márcio Tenório Vieira, criou, em novembro de 2006, o projeto Letras Digitais: 30 anos de teses e dissertações. Esse projeto surgiu dentre as ações comemorativas dos 30 anos do PG Letras, programa que teve início com cursos de Especialização em 1975. No segundo semestre de 1976, surgiu o Mestrado em Linguística e Teoria da Literatura, que obteve credenciamento em 1980. Os cursos de Doutorado em Linguística e Teoria da Literatura iniciaram, respectivamente, em 1990 e 1996. É relevante frisar que o Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE, de longa tradição em pesquisa, foi o primeiro a ser instalado no Nordeste e Norte do País. Em dezembro de 2008, contava com 455 dissertações e 110 teses defendidas. Diante de tão grandioso acervo e do fato de apenas as pesquisas defendidas a partir de 2005 possuirem uma versão digital para consulta, os professores Angela Paiva Dionisio e Anco Márcio Tenório Vieira, autores do referido projeto, decidiram oferecer para a comunidade acadêmica uma versão digital das teses e dissertações produzidas ao longo destes 30 anos de história. Criaram, então, o projeto Letras Digitais: 30 anos de teses e dissertações com os seguintes objetivos: (i) produzir um CD-ROM com as informações fundamentais das 469 teses/dissertações defendidas até dezembro de 2006 (autor, orientador, resumo, palavras-chave, data da defesa, área de concentração e nível de titulação); (ii) criar um Acervo Digital de Teses e Dissertações do PG Letras, digitalizando todo o acervo originalmente constituído apenas da versão impressa; (iii) criar o hotsite Letras Digitais: Teses e Dissertações originais em formato digital, para publicização das teses e dissertações mediante autorização dos autores; (iv) transportar para mídia eletrônica off-line as teses e dissertações digitalizadas, para integrar o Acervo Digital de Teses e Dissertações do PG Letras, disponível para consulta na Sala de Leitura César Leal; (v) publicar em DVD coletâneas com as teses e dissertações digitalizados, organizadas por área concentração, por nível de titulação, por orientação etc. O desenvolvimento do projeto prevê ações de diversas ordens, tais como: (i) desencadernação das obras para procedimento alimentação automática de escaner; (ii) tratamento técnico descritivo em metadados; (iii) produção de Portable Document File (PDF); (iv) revisão do material digitalizado (v) procedimentos de reencadernação das obras após digitalização; (vi) diagramação e finalização dos e-books; (vii) backup dos e-books em mídia externa (CD-ROM e DVD); (viii) desenvolvimento de rotinas para regularização e/ou cessão de registro de Direitos Autorais. Os organizadores es õ ç i u b i Contr ra a p a c i t üís g n i L a d tim a L o d o n i s n E o e u g r e b i t u L a v l i S e g n Sola i t n a c l a v a C 2002 Copyright ©Solange Silva Lutibergue Cavalcanti , 2002 Reservados todos os direitos desta edição. Reprodução proibida, mesmo parcialmente, sem autorização expressa do autor. UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE ARTES E COMUNICACAO PROGRAMA DE POS-GRADUACAO CONTRIBUICOES EM LETRAS E LINGOiSTICA DA LINGOiSTICA PARA 0 ENSINO DO LATIM RECIFE 2002 UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE ARTES E COMUNICACAO PROGRAMA DE POS-GRADUACAO EM LETRAS E LINGOiSTICA CONTRIBUICOES DA LINGOiSTICA PARA 0 ENSINO DO LATIM DISSERTACAo DE MESTRADO Apresentada ao Programa de P6s-Gradua9ao em Letras e LingOistica da Universidade Federal de Pernambuco, como requisito parcial para a obten~o do grau de Mestre em LingOistica, sob a orienta~o da Professora Doutora Virginia Leal. RECIFE 2002 a UF" un,versldade reGera! de Pernambuco Programade Pos-Graduayao em lelras CONTRIBUIC;OES DA LlNGOiSTICA PARA 0 ENSINO DO LATIM A Iiberdade eomeQa onde aeaba a ignoraneia. Victor Hugo conseguiria lutar por meus ideais e sem cujas gragas eu nada seria. A minha mae, Ivonete Santiago, exemplo de mulher, nao s6 pela pela aten~o e pela presenga nas horas diffceis. A minha sogra, Maria Eulalia, e as minhas cunhadas, Ladilza, Ao amigo Izaias, que me deu muita forga durante 0 mestrado. A amiga Carla Cybele, pelo carinho, amizade sincera e pela fi\ Un:verSloade reaerai de Pernambuco ~ Programa<Je P6s-Gradu3yaO em Lelras l/FF' Ao professor Jose Ricardo Paes Barreto, por acreditar neste plano desde 0 princfpio e pela grande ajuda e estfmulo. Tambem agradego a Jose Ricardo pelo tao util presente: 0 livro InfrodUf;ao a didafica do latim, de Ernesto Faria, de grande utilidade para este trabalho. Aos professores Marigia Viana, Francisco Gomes de Matos e Luiz Antonio Marcuschi, pelo estfmulo e, principalmente, pelo calor humano, elemento importantfssimo que muitas vezes falta na convivencia academica. A professora Ana Lima, que, com competencia metodol6gica, me fez entender com clareza 0 processo de fragmentagao do latim e tambem me ajudou a ter certeza do meu caminho profissional. Aos professores desta instituigao que contribuiram para a realizagao deste trabalho, especialmente a minha orientadora, professora Virginia Leal, cujas observagoes fortaleceram deveras este trabalho, e aos professores da Banca Examinadora, Artur Morais e Marlos Pessoa. Aos professores e aos alunos que aceitaram participar deste trabalho, pelo acolhimento e pela disponibilidade. Agrade90 principalmente aos alunos que deram sugestoes para modificar processo de ensino-aprendizagem do latim. 0 Observando 0 ensino de latim no curso de Letras, verificamos que, apesar dos avanyos alcanyados pela IingOfstica,ele ainda esta sendo efetivado com base nos moldes do ensino tradicional. Em virtude dessa realidade, e por ser 0 aprendizado da lingua latina importante para a fOrmay80 do profissional da area de letras, este trabalho tem como objetivos descrever como esta 0 ensino do latim atualmente no curso de Letras; analisar, com base nas teorias lingOfsticas contemporaneas, a metodologia de ensino do latim, observando como 0 professor avalia os alunos; sugerir uma nova metodologia para 0 ensino do latim, utilizando trabalhos desenvolvidos na area da IingOfstica aplicada ao ensino de Ifnguas. Realizamos uma pesquisa empfrica, observando as aulas de dois professores de latim e aplicando a eles e a seus alunos um questionario sobre a receptividade da metodologia do professor, sobre os objetivos da aprendizagem do latim para 0 professor de Ifnguas; alem disso, pedimos sugestoes para melhorar 0 ensino do latim. Analisamos os questionarios e as observay6es em sala de aula sobre a aValiay80 e os materiais didaticos utilizados, a luz das teorias IingOfsticas contemporaneas, espedalmente aquelas radicadas na lingOfsticatextual. As conclusoes apontam para 0 fate de que, em que pese a especificidade do ensino-aprendizagem de uma Ifngua c1assica, os preceitos da lingOfstica contemporanea ainda nao foram adotados nos dois estudos de caso realizados. A tftulo de contribuiy80 da dissertayao, oferecemos sugestoes didatico-pedag6gicas que aproximam 0 ensino-aprendizagem da lingua latina dos contributos te6rico-metodol6gicos e didaticos da lingOfsticaaplicada ao ensino de Ifnguas. VII. Sugest6es para Modificar 0 Processo de Ensino - Aprendizagem do Latim 88 INTRODUCAO 1 Trecho de um texto escrito por mim na epoca da Graduacao em Letras, durante 0 curso da disciplina Portugues Hist6Jico (Portugues 6), a partir da solicitar;ao da professora Ana Maria Lima, no segundo semestre de 1997. navalha do marinheiro", "Uma peninsula e quase uma i1ha", "As tropas da rainha ultrapassaram em audacia as tropas dos estrangeiros", com 0 objetivo de decorar as declina~6es e os tempos verbais, pronunciando as palavras conforme ditava 0 professor, como se hoje fosse necessario ensinar 0 aluno a falar latim. Na hora da prova, unico meio de avalia~ao, 0 professor distribula peda~os de papel contendo frases para tradu~ao. Como conseqO€mcia dessa metodologia, muitos alunos desenvolveram aversao ao latim. Alguns diziam que a lingua latina nao servia para nada. Era comum alguns alunos trancarem a disciplina para esperar a aposentadoria do professor de latim, atrasando, assim, a formatura. 0 professor era antipatizado por quase todos os alunos de Letras (havia alunos que nao suportavam ouvir 0 nome dele, no entanto, ele nao se importava com isso, fazendo questao de ser "carrasco"). Esse exemplo e emblematico do que geralmente acontecia em outros cursos de Letras e, nesse sentido, poderia representar 0 modo como estavam sendo tra~ados os objetivos e os metodos de ensino-aprendizagem como se processava a escolha dos materiais didaticos do latim e e dos metodos de avalia~o. Diante desse quadro, perguntamos: qual 0 objetivo de um ensino que se baseia na gramatica tradicional, somente com a utiliza~ao de metodos que contemplam a repeti<;ao? Fazer 0 estudante decorar, mecanicamente, regras que depois serao esquecidas? Afinal, qual eo objetivo do pure ensino de regras? A fim de sugerir uma mudanl;a para essa realidade, desenvolvemos projeto de pesquisa caracterizando um essa perspectiva de ensino-aprendizagem, que nao leva em conta os preceitos da IingUfstica aplicada contemporanea, e apresentando outra metodologia para 0 ensino do latim, projeto esse que resultou nesta dissertal;ao. Este trabalho e, pois, fruto de duas reflexoes. Por um lado, verificamos que, apesar do grande avanl;o da lingOfstica, 0 ensino do latim ainda 'esta baseado no metoda tradicional, estruturalista. Ou seja, muitos professores ainda recorrem a tecnicas, materiais didaticos e metodolagias distantes dos atuais preceitos da lingOrstica contemporanea. Par outro lado, 0 estudo da lingua latina e muito importante para 0 estudo do portugues como lingua vernacula. Conhecenda a lingua latina, mais condil;oes de aprender e compreender 0 aluno tern melhor a hist6ria das Iinguas romanicas. Isso ocorre porque 0 latim predominou durante mais de vinte seculas na Europa Ocidental. Por isso, todas as Iinguas modernas desse territ6rio "estao cheias de latim, mesmo aquelas que mais parecem estar inteiramente independentes" (Meillet, apud Faria, 1959:113). 0 acesso a essa hist6ria permite um entendimento mais adequado das concepl;oes de Iinguagem que tomam 0 latim como um objeto s6cio-hist6rico, um objeto fruto das praticas sociais entre os membros de uma determinada comunidade. Ja que hoje varios autores se manifestam em prol de um ensino de Hngua mais atrelado as pn3ticas socia is vigentes, mais cativante e mais condizente com a realidade cultural, e precise mudar tambem a metodologia de ensino do latim. Parafraseando Madre Olivia (apud Matos, 1978:58), a formacao do professor de latim nao pode mais dispensar 0 conhecimento da ciencia da linguagem. Professor de latim sem conhecimento de lingOfstica e comparavel a medico sem anatomia, sem fisiologia, sem biologia. Ademais, a revolucao cultural desencadeada na segunda metade do seculo XX, centrad a na comunicacao eletr6nica, modificou sensivelmente a forma e a velocidade da transmissao e ampliacao do conhecimento, 0 que exige da atividade docente em sala de aula uma revisao dos conteudos a serem veiculados e uma redefinicao do papel das disciplinas que constituem 0 currfculo escolar. E mais: tornou-se essencial que 0 professor reveja os metodos e tecnicas empregados, incorporando, "pontos de vista novos, abordagens mais vivas e criativas, alem de recursos visuais compatfveis com a dinamica da realidade do cotidiano e com os avancos tecnol6gicos 2000:5). de que lanca mao a mfdia eletronica" (Alzir Carvalho, Em relal;ao aos estudos IingOisticos, a mudanl;a de ponto de vista trauxe como conseqO€mcia a sUbstituil;ao de uma visao de Ifngua meramente estrutural, centrad a na modalidade escrita e distante da realidade do falante e da situal;ao de liso, por uma visao social, que busca compreender 0 fen6meno da linguagem a partir da observa~o dela no usa quotidiano dos falantes. A partir dessa nova perspectiva, surge a inevitavel necessidade de se rever a forma de estudar a lingua, materna ou estrangeira. Assim, canstantemente 0 texto didatica esta sendo modificado e atualizado, incluindo-se nessas mudanl;as os conteudos veiculadas, os metados e tecnicas empregados, a integra~o interdisciplinar das diferentes areas do conhecimento e, ate mesmo, a apresental;ao grafica Udem). Grandes tem sido os avanl;os na area do ensino de IInguas estrangeiras modernas, "sempre norteados pelo principio de que tal ensina tem que levar em conta 0 dinamismo da Ifngua falada e a realidade cultural determinante da expressao IingOistica". Entretanto, nao faz parte dessa realidade a ensino das chamadas Ifnguas classicas. Estas estao desfavorecidas pela inexistencia, modernamente, de usa natural em uma comunidade de fala e pela heranl;a de uma tradi~o que distancia escolastica que insiste em trata-Ias como Ifnguas martas, percep~o momentos anteriores de uma lingua e de sua cultura com a realidade atual, rompendo 0 saudavel e indispensavel equilibrio dialetico entre a tradi~o e a modernidade. Soma-se a isso a inexistencia de uma reflexao mais Em relaCao ao latim, 0 desconhecimento do papel que essa Ifngua desempenhou na formacao das Ifnguas e da cultura ocidental como um todo e a ~ Universidaae reveral de Pernambuco 9 Programade Pos-Gradua\ao em letras b) analisar, a luz das teorias lingOfsticas contemporaneas, a metodologia de ensino do latim, observando os materiais didaticos e como 0 professor avalia os alunos; \ c) sugerir uma nova metodologia para em trabalhos desenvolvidos 0 ensino do latim, com base na area da lingUfstica aplicada ao ensino de Ifnguas e da IingOfstica textual. Para uma melhor explanacao, dividimos esta dissertacao em oito capftulos. No primeiro, apresentamos os principais autores que nos deram suporte para fundamentar nosso trabalho. No segundo, expomos resumidamente a hist6ria do latim, a fim de contextualiza-Io no passado e no presente. No terceiro, julgando pertinente, visto que tambem faz parte do nosso objetivo mostrar 0 falamos da importancia dessa Ifngua e da sua utilidade para aprendizado do portugues. 0 valor do latim, No quarto capftulo, tratamos da lingOfstica aplicada ao ensino de Ifnguas, enfatizando concepc;oes de linguagem e 0 trabalho com 0 texto. No quinto, discorremos sobre aspectos metodol6gicos coleta de dados. No sexto, discutimos questionarios. 0 e instrumento utilizados na resultado das observacoes, analisando os No setimo, apresentamos, como contribuic;oes deste trabalho, algumas sugestoes que tentam estreitar os lacos entre 0 ensino do latim e a area da IingOfstica aplicada ao ensino de Ifnguas. No oitavo capftulo, conclufmos nosso trabalho, 0 qual aponta ainda hoje um distanciamento do ensino de latim das propostas te6rico-metodol6gicas da lingOfstica aplicada ao ensino de Ifnguas (distanciamento esse em parte justificado por se tratar de uma Ifngua que nao constitui mais as interacoes lingOfsticas cotidianas em uma comunidade). Para fundamentar este trabalho, buscamos a contribuiCao de alguns te6ricos cujos trabalhos vem contribuindo para 0 desenvolvimento da IingOfstica aplicada ao ensino de Ifnguas. IIari (1986) fala do papel da lingOfstica no curso de Letras. Geraldi (1997) e Travaglia (1996) sugerem, para a melhora do ensino de linguas, uma mudanca na concepcao de Iinguagem do professor. Marcuschi (1996) propoe, a partir da lingOfstica textual, um ensino de lingua centrado no texto, com enfase na leitura e na compreensao. Koch (2002) mostra 0 texto como lugar de interacao de sujeitos sociais, como um evento em que convergem acoes lingOfsticas, cognitivas 'e sociais. Outros autores, como Kleiman (1993), para quem a leitura e uma pratica social que remete a outros textos e a outras leituras, Kleiman (1989), Cavalcanti (1989), Favero e Koch (1998), enfatizam 0 papel desempenhado pela leitura nos processos de ensino-aprendizagem de Ifnguas. Os autores acima nao fazem referencia ao ensino do latim, mas ao do portugues. Em virtude disso, adaptamos esses estudos aos nossos objetivos, tendo consciencia de que ha uma especificidade no caso dos estudos de Ifnguas classicas. Sobre 0 ensino do latim, buscamos fundamento no Iivro Introdur;ao a didtJtica do latim, de Ernesto Faria (1959), um estudo minucioso da lingua latina. Contem informacoes sobre questoes envolvendo 0 ensino do latim no Ocidente, como ele e efetivado e 0 valor dado a essa lingua em diversos pafses. Faria mostra quais devem ser as finalidades do ensino do latim, com base na IingOistica. E importante frisar que 0 livro nao e atual e que, portanto, nao incorpora importantes discussoes realizadas no interior dos estudos IingOisticos nos ultimos 40 anos. Esse intervalo de tempo, por exemplo, marca a passagem da hegemonia dos estudos formais, estruturais, para os estudos funcionalistas centrados nao no sistema, mas nos usos que fazemos da Ifngua. Deixamos claro que 0 merito desse livro, que contem lacunas em relacao as perspectivas atuais da IingOfstica, conseqOentes da visao de ensino da epoca, esta na apresentacao de urn novo metoda para 0 ensino do latim. Outra fonte consultada foi a adaptacao do Manual Aditus, feita pelo professor Alzir Oliveira (2000), da UFRN. Preocupado com 0 ensino das Iinguas classicas, sobretudo com 0 ensino do latim, 0 professor coordena 0 Projeto Latim Novo, cujo objetivo e contribuir para melhorar 0 ensino da lingua latina na graduacao em Letras, mediante analise critica da pratica atual e da definicao da representacao social dessa lingua, de modo a adequa-Ia a realidade academica atual e conforma-Ia metodologicamente, na medida do possfvel, as modernas tecnicas empregadas no ensino de Ifnguas estrangeiras. 0 objetivo do projeto e analisar criticamente os procedlmentos metodol6gicos que tern side utillzados no ensino do latim, Identificando os aspectos positivos e negativos, a fim de tomar uma posicao capaz de modificar 0 processo de ensino-aprendizagem. Segundo Alzir Carvalho, a consecucao desse objetivo trara como resultado a melhoria tambem do suporte ao ensino de disciplinas que pressupoem um conhecimento razoavel do latim, como Literatura Latina, Historia da Ungua Portuguesa e Filologia Romanica. A traducao e adaptacao do Manual de LaUm Aditus tem carater experimental e esta sendo testada em sala de aula, na disciplina Ungua Latina I, oferecida pelo Departamento de Letras aos alunos do Curso de Direito da UFRN, desde 0 primeiro semestre de 2000. A utilizacao da traducao, sem fins comerciais, destina-se exclusivamente ao uso experimental em sala de aula. Apos comprovada a adequacao dela ao ensino da disciplina Ungua Latina, sera submetida ao processo legal de traducao para uma posslvel publicacao. Com excecao desses dois Iivros, durante a pesquisa bibliografica, constatamos que a literatura sobre 0 ensino do latim centrado nos preceitos teorico-metodologicos da IingOfstica aplicada e praticamente inexistente. Em Cardoso (1993), Burke (1995), Carvalho e Nascimento (1969), encontramos apenas suporte para falar da historia do latim. Conseguimos levantar alguns artigos, divulgados pela Internet, que versam apenas sobre 0 valor do latim. Um deles e 0 artigo A importancia do ensino do latim para a cultura ocidenta/, do professor Marcio L. M. Ribeiro, da UCB/UERJ. No referido artigo, 0 professor faz algumas reflex6es e questionamentos sobre a "lingua mae" do portugues, tentando responder a pergunta: "Sera que realmente a Ifngua latina tem alguma relevancia para os dias de hoje?". Outro artigo utilizado foi A importancia do latim, de Jose Geraldo Vidigal de Carvalho, que mostra 0 valor dessa lingua, sobretudo em outros parses, como Alemanha, Franca, Belgica, Holanda, Austria, Hungria, Italia, Estados Unidos, Escandinavia e Japao. Frisemos: esses artigos buscados na Internet nao apresentam sugest6es para 0 ensino do latim com base na IingOrstica, apenas falam sobre a importancia dessa Ifngua para os estudantes de lingua portuguesa. o latim era a lingua falada no Lacio, regiao central da Italia, onde fica a cidade de Roma, desde os tempos pre-hist6ricos.2 Porem nao era a (mica lingua latim, 0 latim da epoca de Cicero, Cesar, Seneca. Esse periodo vai do seculo II a.C. ao seculo I d.C. 20 E a epoca em que se estabeleceu uma distincao entre latim de ontem e de hoje. Dispon!vel em <httplwww.geocities.com/athens/ 0 agora/1417/Iatim1>. Acesso em 25/09/2001. 3 CARVALHO, Jose Geraldo Vidigal de. A importfmcia nethistoria.com/autores/cre08>. Acesso em 08/07/2001. do latim. Dispon!vel em <httplwww. Em outras palavras, existiam em Roma duas modalidades distintas: 0 latim classico (sermus urbanus), "sempre escrito lingOfsticas e como que estereotipado pelo rigor dos Iiteratos (....), a lingua das escolas ou Academias"; eo latim vulgar espontaneamente (sermus vulgaris), "linguagem do povo, que transmite suas ideias sem a preocupacao de submeter a fala ao cinzel dos preceitos gramaticais" (Carvalho e Nascimento, 1969:14). Nao eram duas Ifnguas diferentes, mas duas modalidades da mesma lingua. Desse modo, "0 latim vulgar nao conceitua uma lingua, mas um conglomerado de falares de varios tipos": 0 latim falado pela classe media, pela classe baixa, pelos soldados, pelos marinheiros, pelos operarios, pelos camponeses (idem). Quando os povos romanos resolveram conquistar outras terras fora da penfnsula italica, como a penfnsula iberica e a penfnsula galica (regioes onde hoje se localizam, respectivamente, Portugal e Franca), 0 latim se espalhou pela Europa. Estava consolidado 0 Imperio Romano. Com as invasoes, os soldados romanos levaram 0 latim vulgar aos locais conquistados, lingua que os povos submetidos ao imperio romano tiveram que aprender a falar. Naquela epoca, nao havia na Europa uma lingua oficial, mas varios dialetos, pois os povos estavam separados em tribos, as vezes ate inimigas. Na dinamica do dia-a-dia, esses novos falantes foram acrescentando ao latim caracterlsticas de seu dialeto, 0 que gerou modificacoes importantes. Somando-se a isso, tempos depois, as regioes dominadas pelos romanos foram invadidas por povos inimigos, cham ados "barbaros" porque nao falavam latim, 0 que contribuiu para aumentar a fragmentacao da lingua latina. Segundo Cardoso (1993:9), a partir dessa invasao e do "esfacelamento do Imperio Romano, 0 latim perdeu a sua unidade como lingua, gerando inumeros falares locais, que se desenvolveram em numerosos idiomas" - as chamadas Ifnguas romanicas, que SaD 0 latim transformado no tempo e no espaco - como 0 portugues, 0 espanhol, 0 italiano, 0 frances, etc. Como os romanos conquistaram diversos povos em regioes e em epocas diferentes, e como os povos conquistados possuiam falares pr6prios, origem a Ifnguas diferentes, mas com semelhancas comuns quanto 0 latim deu a origem. Ap6s essa fragmentacao, a classe culta ainda procurou manter, por muito tempo, 0 uso do latim escrito, como mostra Cardoso (1993:9-10): as tabeliaes utilizavam-no ate 0 seculo XII em documentos oficiais, muito embora nesses textos a lingua ja se mostre bastante deteriorada. A Igreja fez do latim a sua lingua oficial, sendo tal idioma obrigat6rio, ate 1961, tanto na redac;ao de documentos eclesiastico como na realizac;ao de cultos e cerimonias religiosas. A ciencia, por sua vez, ate seculo xx, 0 inicio do viu no latim uma especie de lingua universal, e ~ Uniyersidaoe reaeral de Pernambuco 9 Programade Pos·Gradua~ao em lelias Em contrapartida, existem estudiosos que concebem 0 latim como uma lingua evolufda, transformada no tempo e no espago. Faria (1959:110) faz parte dessa Iinha de pensamento: o latim, transformado atraves do tempo e do espa~o, longe de se ter finado, continua hoje a viver multiplicado e ate enriquecido de uma dupla vida: hodiernos, vida prolongada e vida etemizada nas nos falares obras-primas romanicos dos autores latinos. Lingua de uma grande civiliza~ao que assimilou todas as civiliza~oes anteriores, em seus textos ela revive e faz reviver essas mesmas civiliza~oes que sintetizou. Sob este aspecto 0 latim nao e uma lingua morta, mas uma lingua classica, e seu estudo, de um interesse sempre renovado. Em acordo com essa visao, defendemos aqui a utilidade do latim, cujos elementos portugues, IingOfsticos estao 0 que justifica presentes em diversas a relevancia do tema para Ifnguas, 0 inclusive desenvolvimento no dos estudos lingOfsticos. Desse modo, a via e de mao dupla: de um lado, 0 estudo do latim pode ser enriquecido pelos aportes da lingOfstica, em especial da lingOfstica aplicada ao en sino de Ifnguas; de outro, a IingOfstica, ao se debrugar sobre uma lingua com as especificidades que caracterizam 0 latim, tern a possibilidade de enriquecer 0 debate sobre as relag6es sujeito -Iinguagem. Para methor defendermos a realizacao de uma pesquisa sobre a lIngua latina, desenvolvemos os t6picos que se seguem a este capitulo. Surgida como uma pequena aldeia, fundada por pastores albanos no centro do Lckio, por volta do seculo VIII a.C., Roma tornou-se a principal cidade de uma confederacao italica, a grande metr6pole do Mediterraneo e a capital de um dos maiores imperios que a civiliza.;ao conheceu. Nesse mundo romano, que abrangia grande parte da Europa, 0 norte da Africa e parte da Asia ocidental, 0 latim era a Ifngua de comunicacao. Nos locais culturalmente menos desenvolvidos, a lingua de Roma, divulgada por soldados e ensinada nas escolas, foi implantada sem muitas dificuldades. Nos lugares mais desenvolvidos culturalmente, nao houve, a rigor, a latinizacao. Mesmo assim, sem ser lingua "oficial" do Imperio, 0 latim foi sempre uma especie de Ifngua comum, cujo papel a Igreja acentuou (Cardoso, 1993:9).4 Na ldade Media e no infcio dos tempos modernos, 0 latim foi a Ifngua da comunicacao universal, da polltica, da cultura e da ciEmcia. Hoje, a sua maior importancia se deve principalmente ao legado cultural que e sua vasta e rica Iiteratura, a qual nos permite desfrutar de autenticas obras de arte e tambem "estende seu alcance por outras areas do conhecimento: pela historiografia, pela filosofia, pela antropologia, pela teoria litera ria em todos os seus matizes, pela Atualmente, a latim e estudada na Europa, par exemplo, na Alemanha, na Franca, na Belgica, na Holanda, na Austria, na Hungria, na Italia, e tambem nos o latim s6 I e visto nas universidades, principalmente nos cursos de Letras, em que Segundo Alzir Oliveira (2000:5), continua a reproduzir 0 latim ensinado nos cursos de Letras os procedimentos enfadonhos e desmotivadores de antigamente, que tanto contribufram para a desvalorizag80 dessa lfngua. Desse modo, 0 professor de Latim esta se tornando uma 'especie em exting80'. Diante disso, sugerimos aqui um ensino do latim centrado nas propostas oferecidas pela IingOfstica, com base em textos, que nao contemple unicamente 0 aspecto estrutural, formal. Parte dessa mudanga reside na reflexao sabre as finalidades do ensino do latim e sabre quais os beneficios que 0 aprendizado dessa Ifngua pode trazer aos estudantes de Ifngua portuguesa. Essas reflex6es devem ser suscitadas pelo professor assim que a aluno comega a ter cantata com a latim. Ou seja, ao comegar a aprender a latim na universidade, deverfamos perguntar: Par que e para que estudar a lingua latina? Sera que 0 seu estudo tem alguma relevancia para os dias de hoje? Primeiro, a lingua latina e a raiz do portugues, que tem milhares de palavras derivadas de nomes latinos. Estudando latim, a aluno amplia 0 seu lexica. 0 latim e importante para os medicos, pais a ciencia medica contem grande quantidade de nomenclatura grega e latina, assim como tambem a Qufmica, a Geometria, a Filosofia, a Psicologia, a Sociologia, a Biotipologia, a Pediatria, a Microbiologia, enfim, todas as ciemcias naturais. Alem do mais, ha grandes obras escritas em latim, que era usado na Ifrica e na epica, na poesia e na prosa, na fic<;aoe na nao-fic<;ao (Burke, 1995:59). Para Queiroz (1976:181), e necessario algum conhecimento de latim, principalmente aos que vao dedicar-se ao magisterio e ao ensino especializado do nosso vernaculo. o latim e util nao s6 aos professores de portugues, mas tambem aos profissionais que trabalham escritores. Porque o seu estudo 0 diretamente com a lingua, como jornalistas e latim predomina na formac;ao de todas as Ifnguas ocidentais e fornece elementos valiosos para 0 mais rapido e segura conhe.cimento dessas mesmas Ifnguas, alem de ser "a base para 0 melhor e mais proveitoso estudo de uma outra lingua, estrangeira ou nacional" (Faria, 1959: 105106). Para 0 fil610go A. Meillet (apud Faria, 1959:112), um dos grandes valores do iatim e 0 seu prolongamento nas Ifnguas romanicas modernas, que sac 0 !atim transformado no tempo e no espac;o. o latim tambem e fonte de cultura, por isso podera oportunizar a forma~ao cultural do aluno, "se os professores nao tornarem a aula exclusivamente uma esteril memoriza~ao gramatical" (Faria, 1959: 107). A Ifngua latina esta ligada a cultura classica, com uma vasta literatura, ja que foi usada "nElOs6 pelos grandes classicos do perfodo aureo da literatura dos romanos, como tambem de todos os perfodos anteriores e posteriores" (Faria, 1959:127). Ela foi, durante muitos seculos, lingua de cultura. Dante escreveu em latim (De Vulgari Eloquentia e outras); Petrarca, poeta italiano, escreveu poemas em latim; grandes obras cientfficas de Kepler, Newton (e algumas de Galileu), de Lineu, do fil6sofo Spinoza, de Francis Bacon, estao todas escritas em latim. Fora isso, 0 latim ainda permanece em obras que nem foram escritas nesta lingua, como afirma Ribeiro (2001): A propria poesia italiana, pelo menos em Leopardi e ainda outros mais, e tao plena de express6es recolhidas no latim, de ecos da poesia latina, que dificilmente pode ser compreendida inteiramente por quem nao saiba a lingua de Cicero. Existem mais valores culturais legados pelos romanos, como 0 teatro, as obras arquitet6nicas do Arco do Triunfo, as obras de engenharia, com bellssimos aquedutos, pontes e encanamentos, 0 Direito Romano, 0 nosso alfabeto, entre outros. analise formal. E bom lembrar que ate modernamente 0 latim e usado na escrita, &! Un.iversioaoe Feoeral oe Pernamouco ~ ~Pl! Prograrnade P6,·Gradu3yao ern lelia, A lingOfstica no curso de Letras cientfficas e necessaria, pois fornece as bases para 0 estudo da linguagem, possibilitando ao professor de Ifngua materna ou estrangeira "Ievantar hip6teses intuitivas, dar a essas hip6teses uma formulac;ao exata, inferir suas conseqOencias e confronta-Ias com os fatos, para confirmacao sempre provis6ria ou uma refutacao". Ou seja, ele adotara em relaCao aos fatos a mesma atitude do cientista natural (ilari, 1986: 11). Desse modo, ainda segundo lIari (1996:12), a lingUfstica tem um potencial formativo multo grande, pois: (a) introduz na formacao do professor de Letras um elemento de participacao ativa na analise da lingua, que 0 habilitara a reagir de maneira crftica as opini6es correntes e lhe permitira, em sua vida profissional, avaliar com independencia os recursos didaticos disponfveis, as observac6es e as dificuidades de seus alunos; (b) amplia as perspectivas a partir das quais a estrutura da lfngua pode ser observada; multiplica as horizontes do que pode considerar curiosidade legftima acerca da lingua e da competencia para comunicar; (c) proporciona-Ihe uma vivencia do metodo proprio das ciencias naturais, envolvendo momentos de intuicao e momentos de formalismo; empenhando-o a formuiar e avaliar outras hip6teses. A conseqOencia previsfvel e a maior abertura para outras areas e men or dogmatismo. Essa e uma visao interacionista, que se opoe a visao estruturalista, na qual se baseia 0 ensino tradicional de Ifnguas. Como exemplo de uma abordagem estruturalista no processo de ensinoaprendizagem de Ifnguas podemos citar a aula de leitura "reduzida, quase sem exce<;oes, a manipulac;ao mecanicista de seqOencias discretas de senten«as, nao havendo preocupa<;ao pela depreensao do significado global do texto" (Kleiman, 1989:18). Essa abordagem do texto e apenas um exemplo de uma atitude generalizada do professor diante da "Iinguagem escrita: a linguagem perde a sua natureza de a<;ao entre interlocutores e passa a ser objeto de manipula<;ao e transforma<;ao estrutural". 0 texto escrito nao se constitui no meio que serve de interac;ao entre autor e leitor (idem). Alem disso, em uma perspectiva social, 0 papel do interlocutor se esvazia toda vez que 0 leitor ace ita 0 texto como objeto acabado, sempre que nao exerce seu direito de interlocu<;ao, privilegiando com isso 0 autor do processo (ibidem, p. 39). Segundo Cava!canti (1989:45), a interaCao leitor-texto tem por base nao apenas a competEmcia comunicativa dos leitores, mas tambem seus sistemas de crencas, que influenciam e sac influenciados por variaveis de desempenho. Sendo sistemas decrencas entendidos como sistemas de valores, vista que crencas estao subjacentes a valores pessoais. E bom lembrar que muitos professores de Ifngua declaram que adotam enfoques interacionistas para 0 ensino, porem "a explicitaCao dos fundamentos linguisticos, sociais, pedag6gicos desses enfoques e muitas vezes tarefa que 0 professor parece nao exercer" (idem). Talvez esses professores nao saibam que os enfoques que partem do princfpio de que linguagem Por isso, e compreender importante e interacao complementar as fundamentos decisoes com base trazem resultados positivos, defensaveis. a forma<;ao do professor para ele te6ricos de uma proposta nessa linha, tomar na avaliacao de um problema ou situa<;ao, tornando-se um professor gerador e irradiador de mudan<;as (idem). Para que essa abertura ocorra, 0 professor de Hnguas deve, primeiramente, pensar sobre as concepcoes de linguagem que permeiam ° ensino de Hnguas, passando a conceber a linguagem como interaCao, como detalharemos adiante. Uma questao importante para 0 ensino, quer seja de lingua materna ou Oao, e a maneira como 0 professor concebe a linguagem, ja que, segundo Travaglia (1996:21), 0 modo como se concebe a natureza fundamental da lingua altera bastante quando se estrutura 0 trabalho com a lingua em termos deensino. Para Travaglia, a concepcao de linguagem modifica sobremaneira a postura que se tem relativamente a educa~o. Ou seja, dependendo de corno concebe a Iinguagem, 0 professor pode contribuir para 0 sucesso au 0 fracasso dos seus alunos. Infelizmente, menos em re!a~o a lingua portuguesa e mais em relaC;8o a lingua latina, verificamos um distanciamento entre os mais recentes postulados da lingOfstica e as metodos, materiais didaticos e sistema de avaliac;ao efetivamente usados nas aulas de lingua. Em outras palavras, 0 desempenho dos estudantes de latim nao se assemelha hoje ao desempenho dos estudantes de portugues, embora ambos apresentem problemas relativos ao alcance dos objetivos trac;ados nos cursos dos quais participam. Geraldi (1997) afirma que 0 fraco desempenho IingOfstico apresentado pela maloria dos estudantes com relaC;8oao portugues falado e escrito e consequencla do modo como 0 ensino de Hngua portuguesa vem sendo praticado. A base desse entrave esta na maneira como 0 professor concebe a linguagem e a lingua, ja que a pratica pedag6gica e reflexo dessa concepcao. De acordo com Geraldi (1997), fundamentaimente, existem tres concepc6es de linguagem, as quais correspondem, respectivamente, as tres grandes correntes de estudos lingUfsticos - a gramatica tradicional, 0 estruturalismo e a lingUfstica da enunciac;ao: a) linguagem como expressao do pensamento - segundo a qual as pessoas que nao conseguem se expressar nao pensam; b) linguagem como c6digo, estrutura, merc instrumento de comunicac;ao; c) Iinguagem como forma de (inter)acao - a qual ve a linguagem como lugar de interac;ao humana. Segundo Koch (2002:13-15), a concePCao de sujeito varia de acordo com a concepcao de lingua. Desse modo, pensamento corresponde a concepcao de lingua como expressao do a de sujeito psico/6gico, individual. 0 sujeito e visto como urn ego que constr6i uma representaC80 mental e deseja que ela seja "captada" pelo interlocutor da maneira como foi mentalizada. lingua como estrutura corresponde qualquer fen6meno consideracao e para a de A concepc;ao de urn sujeito determinado: a explicac;ao para qualquer comportamento do sistema, quer !ingQfstico, quer social. individual A reside na concepc;ao de lingua como iugar de interar;;ao corresponde a psicossocial, ativo, interativo, (re)produzindo nOC;8o de sujeito como 0 entidade social, ja que participa ativamente da definiC;8o da situac;ao na qual se acha engajado, sendo ator na atualizac;ao das imagens e das representac;oes sem as quais a comunicaC;30 nao poderla existir. Vejamos essas tres teorias na pratica. Se como expressao certamente do pensamento ou como 0 professor entende a iinguagem instrumento de comunicac;ao, difunde em sala de auia a noc;ao de lingua estatica, acabada e Como conseqOencia disso, as aulas desse professor serao cansativas, ja que a Hngua e "metalinguagem vista como urn jogo, cheio de regras; e os alunos aprendem de analise da Ifngua, com alguns exercfcios", como meres personagens de uma competic;ao de erros x acertos e como se todos falassem de acordo com a gramatica normativa, quer dizer, como se nao houvesse variac;oes lingOfsticas. Esse professor se iimita a corrigir as "erras" gramaticais dos alunos, deixando de lado a importancia da lingua em uso, va!orizando apenas a gramatica padrao, difundindo-a como 0 modele para se falar bem. Seguindo essa concepc;ao de linguagem, 0 professor acaba deixando seus alunos com "medo" da lingua. de refletir sobre ela e entender que a linguagem nao serve apenas para expressar pensamentos, mas serve tambem para interagir, persuadir, enfim, atuar sobre ° outro. Nas aulas de um professor que ve a Iinguagem como interacao, os alunos aprendem a gramatica com 0 use, mediante leitura, compreensao e interpretacao de textos dediversos generos, tendo condicoes de "dominar as habilidades de usa da lingua em situacoes concretas de interacao, entendendo e produzindo enunciados, percebendo as diferencas entre uma forma de expressao e outra", 0 que e muito mais interessante Concebendo e proveitoso (Geraldi, 1997). a Iinguagem como fruto do coletivo, 0 professor podera explorar as variedades IingOfsticas, a fim de desfazer a visao preconceituosa de que apenas a variedade "padrao" variedades, consideradas e "correta" "nao-cu/tas", e "bonita", mostrando que as outras sac IingOisticamente validas e que 0 "padrao" precisa ser aprendido como uma forma a mais de interacao. E assumindo uma postura crftica com relacao ao ensino de lingua, mudando a concepcao de Iinguagem e, conseqOentemente, 0 fazer pedag6gico que 0 professor tera condic5es para comecar a modificar as falhas existentes no ensino do latim. Para isso, ele precisa refletir sobre sua pratica, pois a "reflexao, ainda que assistematica, i1umina toda a atuacao do professor em sala de aula" (Geraldi, 1997). Geraldi e Travaglia propoem uma nova concepc§o de Iinguagem para os professores de portugues. Enos, embasados neles, propomos essa mesma concep<;ao de lingua aos professores de latim. Devemos esclarecer que nao se trata de ensinar a falar latim, pois isso nao esta em consonancia com as necessidades do aluno. Um professor de latim que concebe a lingua como lugar de intera<;ao nao vai se dedicar somente ao estudo e a analise das estruturas IingOisticas nem vai exigir que 0 aluno decore todas as declina<;oes e pronuncie as palavras "correto", pois 0 aluno nao precisa falar latim. Tambem nao vai ensinar a lingua com frases descontextualizadas. Ele dara, sim", enfase a fatos relevantes, como a comparacao constante entre as formas latinas e as portuguesas, a leitura, compreensao e interpreta<;ao de textos originais e a divulga<;ao da cultura romanica, como formas de constru<;8o de sentido para a realidade circundante. Podera pedir aos a/unos que eles identifiquem nos textos lidos fatos ocorridos com povos antigos que podem ser interpretados como atuais, como inveja, guerras, ciume, vingan<;a, etc. Enfim, procurara agu<;ar 0 espirito critico e observador do aluno, ja que formar cidadaos pensantes, transformadores da realidade, sujeitos constituidos pela linguagem, sujeitos que participam ativamente das praticas socia is que historicamente criaram, deve ser 0 principal objetivo do professor de lingua (e, por que nao, de todos os professores), independentemente de ensinar a lingua vernacula ou uma estrangeira. A IingOistica textual tem se desenvolvido bastante, nos ultimos 40 anos, com o objetivo de "tomar como unidade basica, como objeto particular de investigal;~o, nao mais a palavra ou a frase, mas sim 0 texto, por serem os textos a forma especlfica de manifesta~o da linguagem" (Favero e Koch, 1998:11). Segundo Koch (2002: 16), 0 conceito de texto depende das concepl;oes que se tem de lingua e de sujeito. Para a concepl;ao de lingua como expressao do pensamento e de sujeito individual, 0 texto e um produto - 16gico - do pensamento do autor, cabendo ao leitor/ouvinte apenas "captar" essa representacao essencialmente passivo. Ja sujeito (pre)determinado, 0 emissor a ser decodificado segundo a concep~o texto inferaQ80 0 texto e sujeitos que para isso 56 precisa ter total mente expllcito. Na concepl;ao de (diaI6gica), 0 texto e os interlocutores, de lingua como estrutura e de um simples produto da codifical;ao de um pelo leitor/ouvinte, conhecimento do c6digo, pois lingua como intera~o e mental, exercendo urn papel e ativos considerado 0 pr6prio fugar da que, dialogicamente, nele se constroem e saD construrdos. Segundo esta concepl;ao, existe no texto lugar para elementos impllcitos, dos mais variados tipos, somente detectaveis quando se tem, como pano de fundo, 0 contexto sociocognitivo dos participantes da interagao (Koch,2002:16-17). Quando se adota l:Imaconcepgao de Ifngua, sujeito e texto como interagao,a compreensao deixa de ser entendida como simples "captagao" de uma representagao mental ou como decodificagao de mensagem resultante de uma codificac;aode um emissor. E vista como uma atividade interativa muito complexa de produgao de sentidos, realizada com base nos elementos lingOfsticos presentes na superffcie textual e na forma de organizagao deste, solicitando a mobilizagao de um conjunto ample de saberes e a reconstn-ic;aodeste no interior do evento comunicattvo. Desse modo, interagao texto-sujeitos 0 sentido de um texto e construfdo na e nao como algo que preexista a essa interagao. A coerencia tambem deixa de ser vista como mera propriedade ou qualidade do texto, passando a dizer respeito ao modo como os elementos presentes na superficie textual, somados a todos os elementos do contexte sociocognitivo mobilizados na interlocugao, vem constituir uma configuragao veiculadora de sentidos (Koch, 2002:17). Marcuschi (1983:01) hierarquicamente superior afirma a frase", dele. Segundo os peN (1998:21), que 0 texto "e uma unidade lingOfstica por isso, "a gramatica da frase nao da conta" 0 texto e "uma seqOencia verbal constitufda por 'um conjunto de relaeoes que se estabelecem a partir da coesao e da coerencia". Tendo consciencia da importancia de 0 estudo de lingua ser realizado de forma contextualizada, a IingOfstica textual surgiu defendendo 0 ensino de Ifnguas com base em textos. Desse modo, os IingOistas desenvolveram textuais por diversos gramaticas motivos: as gramaticas de frase (estruturais) deixavam lacunas no tratamento de fenomenos como "a correferencia, a pronominalizaC§o, a seleeao dos artigos (definido e indefinido), a ordem das palavras no enunciado, a relayao t6pico-comentario, a entoayaO, as relayoes entre sentenyas nao ligadas por conjuneoes, a concordancia podem ser devidamente dos tempos verbais", alem de outros que s6 explicados no texto ou, entao, com referencia a um contexto situacional (Favero e Koch, 1998:12) . Favero e Koch (1998:17) lembram que uma gramatica textual nao e um tipo especifico de gramatica, como a estrutural, a gerativo-transformacional ou a funcional. A gramatica textual se define pelo tipo de objeto que propoe descrever de maneira explfcita - 0 texto ou 0 discurso. Segundo Dressler (apud Favero e Koch, 1998:12-13), varias partes da morfologia, da fonologia e da lexicologia SaD excluidas pela gramatica da frase. ou seja, 0 nivel basico privilegiado e sempre intrafrastico. a """ Universidade Federal de Pernamr,l, Programa de Pos-Gradua\30 em letras professor utiliza 0 texto para desenvolver uma serie de atividades gramaticais, analisando, para isso, a lingua como: Conjunto de classes e fun<;oesgramaticais, frases e ora<;oes.as Iivros didaticos estao cheios de exemplos em que para 0 ensino de regras sintaticas, isto e, 0 texto e apenas pretexto procurar adjetivos, sujeitos ou frases exclamativas (Kleiman, 1993:17). Sabemos que ensinar qualquer lingua sem texto dificulta a formacao de urn cidadao critico, transformador da realidade que 0 cerca. Contudo, 0 texto nao pode servir como pretexto para 0 ensino da gramatica, nem pode vir fragmentado, descontextualizado, visto que a comunicacao humana par meio "da linguagem nao se da no abstrato nem de forma univoca, mas em situacoes reais de fala e sempre sujeita a variac;oes" (Marcuschi, s.d.:37). Linguagem e, pois, "criac;ao de sentido, encarnacao de significacao e, como tal, ela da origem a comunicacao" (Geraldi, 1999:23). Em toda circunstancia de interlocuc;ao, 0 discurso ocorre lingOisticamente por meio de textos. E estes devem ter coesao e coerencia, "dois fatores importantes da" textualidade" (Favero, 1998:8). A coesao se manifesta no nivel microtextual e "refere-se aos modos como os componentes do universo textual, isto e, as palavras que ouvimos ou vemos, estao Iigados entre si dentro de uma sequencia". Ja a coerencia se manifesta em sua maior parte no nivel macrotextual e "refere-se aos modos como os componentes do universo textual, isto e, os conceitos e as relac6es subjacentes ao texto de superffcie, se unem numa configuraCao, de maneira reciprocamente acessivel e relevante". Desse modo, a coerencia resulta "de processos cognitivos operantes entre os usuarios", nao sendo "mero traco dos textos" (ibidem, p.10). Vale ressaltar que 0 texto significados localizados, e pensado nao como a sequencia ou a soma de mas como um todo estruturado cuja significaCao e coerencia se fazem no plano global (Azeredo, 2000:36). Por isso, nao se deve ensinar lingua mediante frases descontextualizadas, nem utilizar 0 texto apenas com 0 objetivo de ensinar gramatica, fazer 0 aluno decorar regras. Deve-se valorizar sobretudo a analise do texto, em resumo, explorando-o mais na sala de aula. Quanto ao ensino do latim, podemos afirmar que, de forma hegemonica, ele nao esta alicercado no texto, isto e, vem se concretizando basicamente a luz da gramatica tradicional. Cabe aqui dizer que 0 ensino baseado nessa gramatica enfatiza um conjunto de regras referente a estrutura gramatical, que sac ensinadas aos alunos mediante uma pratica que nao se adapta aos objetivos reais do ensino de lingua, visto que fragmenta 0 saber, porque as regras gramaticais passam a ser 0 conteudo basico do ensino, esquecendo-se das habilidades de leitura e escrita. Essa forma de ensino de lingua e falha, pois nao se pode, tecnica, levar 0 a luz de metalinguagem aluno a adquirir conhecimento significativo. Aprender uma lingua nao se restringe a decorar regras gramaticais, ainda mais quando essas sac ensinadas de forma descontextualizada. Aprender uma lingua e conhecer 0 mundo, como afirma Suassuna (1999:129): No que diz respeito a pedagogia da lingua, mais especificamente, o objetivo primeiro seria ampliar as formas de inter-aC;80 atraves da Iinguagem. Inter supoe social, hist6rico, dial6gico. Ac;80 sup6e postura inquieta diante do mundo. Nessa perspectiva, a concep<;8o de Iinguagem como pratica hist6rica e intersubjetiva se transpoe para a sala de aula, determinando que a a<;130 pedag6gica seja, acima de tudo, uma interlocuyao. Verificamos, portanto, que hoje nao e mais coerente ensinar latim de 0 modo desarticulado, basicamente centrado no estudo das estruturas gramaticais e de forma descontextualizada. Com numerosas pesquisas feitas no interior da lingOfstica, nos ultimos 40 anos, em especial, e necessaria mudar 0 quadro anteriormente tracado, pois no momenta em que se enfatizam regras gramaticais questoes mais importantes do ensino de latim sac deixadas de lado. Segundo Marcuschi (s.d.:33), hoje e consenso entre IingOistas te6ricos e aplicados que oensino de lingua possa se dar por meio de textos, por varias razoes: 1. nao ha limite inferior ou superior na utilizaCao do texto para explorar qualquer tipo de fenomeno lingOistico ou manifestaCao de usa da lingua; 2. 0 texto introduz 0 aluno na percepcao e analise de fatos lingOisticos em situacoes de uso e nao em unidades isoladas, solicitando mais do que os conhecimentos da lingua; 3. 0 texto permite ao aluno se expressar na forma escrita sem ter que abandonar a fala, conscientizando-o das semelhancas e diferencas entre a fala e a escrita. Marcuschi (ibidem, p. 34) afirma que a dificuldade no emprego do texto como base para 0 ensino de lingua nao reside na aceitaCao da proposta, mas no modo como isso e posta em pratica. E mostra que, partindo do texto, pode-se trabalhar: a) grafia, pontuacao e paragrafaCao; b) fonologia, morfologia e sintaxe (categorias estruturas de frase); c) organizacao do lexico (exploracao do vocabulario); gramaticais, padroes e ~ Universidade Federal de Pernambuco 9 Programa(ie P6s-Gradua~ao em Letras Por tudo isso, refon;amos a necessidade de 0 latim ser ensinado com base em textos originais, nao com frases feitas, criadas pelo professor com fazer 0 aluno decorar declina<;5es e tempos verbais. E 0 fim de precise que se valorize 0 texto como um todo, verificando e tentando compreender as inten<;5es de quem 0 escreveu, os modos como eles significam, os efeitos de sentido de uma escolha lingufstica, 0 papel ativo do leitor, etc. E necessario que, assim como deve ser no ensino de Ifnguas vivas, os alunos conhe<;am as varias expressoes da lingua, que, no caso do latim, sao exclusivas da modalidade escrita. Dessa maneira, eles interagem com 0 texto, provando que a leitura e um processo feito de multiplos processos, que ocorrem tanto simultanea com'o sequencialmente e incluem desde habilidades de baixo nivel, executadas de modo automatico na leitura proficiente, ate estrategias de alto nfvel, executadas de modo consciente (Leffa, 1996: 18). Para Kleiman (1993:10-12), a leitura e uma pratica social que remete a outros textos e a outras leituras. Ou seja, quando lemos um texto, acionamos "todo 0 nosso sistema de valores, cren<;as e atitudes que refletem em que se deu nossa sociabiliza<;ao primaria, isto e, criados". 0 enciclopedico: baseadas no seu conhecimento grupo social grupo social em que fomos A leitura e um processo psicol6gico em que estrategias 0 0 leitor utiliza muitas lingu[stico, sociocultural, Essa utilizayao requer a mobilizayao e a interayao de diversos niveis de conhecimento, 0 que exige operay6es de ordem superior, inacessiveis a observayao e demonstrac;ao, como a inferencia, a evocac;ao, a analogia, a sintese e a analise (idem). Ja Maria Helena Martins (1982) define leitura como "um processo de compreensao de express5es formais e simb6licas, nao importando por meio de que linguagem". Os argumentos acima nos levam a crer que, assim como acontece com 0 ensino do portugues, ensinar latim partindo de textos e necessario e urgente, ja que, como afirma J. Marouzeau (apud Faria, 1959:177), nao podemos permanecer presos ao passado, os estudos latinos tambem devem ser renovados. Nessa renovacao, a compreensao/interpretacao modalidade escrita da linguagem, compreensao/interpretaCao merece de textos, notadamente na lugar de destaque. Falamos em de textos escritos porque fundamentalmente e este tipo de texto a que temos acesso em latim. Na compreensao, analisa-se 0 que realmente esta escrito, au seja, coletamse dados do texto; na interpretacao, infere-se 0 que esta escrito. o professor deve, pois, trabalhar 0 texto visando a compreensao interpretacao por parte do aluno, ja que essas quest5es sac importantes. e a Segundo Orlandi (1988:73), na interpretacao, 0 interprete formula apenas o(s) sentido(s) constitufdo(s) (0 repetfvel), estando ele (Ieitor) afetado tanto pela ilusao que produz a eficacia do assujeitamento quanta pela que institui a estabilidade referencial, de que resulta a impressao de que ha uma relacao direta entre 0 texto e 0 que ele significa. Ja na compreensao, hist6rico). Ter acesso enunciacao/enunciado, a e preciso ir ao contexto de situacao (imediato e compreensao e formulacao/constituicao atingir (desconstruir) a relacao do sentido. 0 sujeito que produz uma leitura a partir de sua posigao interpreta. 0 sujeito-Ieitor que se relaciona criticamente com sua posicao, que a problematiza, explicitando as condic6es de producao da sua leitura, compreende (ibidem, 74). A compreensao supoe, portanto, uma relagao com a cultura, com a hist6ria, com 0 social e com a linguagem. Para Orlandi (1988:73), que parte da perspectiva de Halliday, chegando ao discursivo, a compreensao e do nfvel da consistencia de registro, ou seja, da coerencia externa. Desse modo, existem: a) 0 inteligfvel: (codificacao); ao que se atribui sentido atomizadamente ~ Unlversiaade federal de Pemambuco @ Programa de P6s-Gradua\ao em Lelras UfPE segundo Van Dijk & Kintsch (apud Koch, 2002:45-46), estrategias do tipo procedural, au seja, estrategias de usa dos varios tipos de conhecimento que temos armazenados na mem6ria. Ainda de acordo com esses autores, quando lemos au ouvimos um texto, construimos, na mem6ria epis6dica, uma representa9Bo textual (RT), definida em termos de conceitos e proposic;:6es. Adicionalmente a essa representac;:ao mental do texto, construimos um modelo epis6dico ou de situa9Bo (MS) sabre a qual a texto versa. Para isso, temos que ativar na mem6ria nossos modelos de situac;:6es similares, que constituem a registro cognitivo de nossas experiencias, mediatas au imediatas, isto e, contem as acontecimentos, ac;:6es, pessoas, enfim, todos as elementos da situac;:aoa que a texto se refere (ibidem, p. 47-48). Em vista disso, uma teoria sociocognitiva da compreensao nao pode abstrair a noc;:ao de modelo de situac;:ao (au modelo epis6dico). Os textos sao coerentes em relacao ao(s) modelo(s): se as usuarios forem capazes de construir au recuperar na mem6ria um modelo satisfat6rio, eles dirao que entenderam a texto e que a texto e coerente. Compreensao e coerencia sao, desta forma, subjetivas e variaveis. A cada vivencia do mesmo tipo de situa<;ao - au a cada leitura/conversa sabre ela - nossos modelos sao atualizados e/ou reformulados, a que vai implicar a crescimento de nosso conhecimento epis6dico (ibidem, p. 48). Segundo Koch (2002:48-49), para 0 processamento textual, concorrem tres grandes sistemas de conhecimento: 0 lingi.Hstico, 0 enciclopedico e 0 interacional. o conhecimento lingO/stico compreende 0 conhecimento gramatical e 0 lexical, sendo 0 responsavel pela articula<;:80 som-sentido. Ele e 0 responsavel pela organiza~o do material IingO/stico na superf/cie textual, pelo uso dos meios coesivos que a I/ngua nos poe a disposi<;:80 para efetuar a remiss80 ou a seqOencia<;:80textual, pela sele<;:80lexical adequada ao tema e/ou aos modelos cognitivos ativados, entre outros. o conhecimento encontra armazenado enciclopedico ou conhecimento na mem6ria de longo termo, de mundo tambem e 0 que se denominada semantica ou social. o inter-ar;8a conhecimento sociointeracional par meio da Iinguagem. e 0 conhecimento sobre as formas de Engloba os conhecimentos do tipo (a) ilocucional, (b) comunicacional, (c) metacomunicativo e (d) superestrutural. a) 0 conhecimento ilocucional permite reconhecer os objetivos ou prop6sitos que um falante, em determinada situa<;:8ode intera<;:80,pretende atingir; b) 0 conhecimento comunicacional e aquele que diz respeito as normas gerais da comunica<;:8o humana, a quantidade de informa<;:8o necessaria numa situa<;:80 concreta para que 0 parceiro seja capaz de reconstruir 0 objetivo do produtor do a lII'.E Umversldaoe reaerai OePernambuco Programade Pos-Graduayao em letras A metodologia empregada na coleta dos dados desse estudo de caso sera apresentada no proximo capitulo. Para observar as aulas de latim, escolhemos duas faculdades particulares, estando uma delas localizada no interior de Pernambuco. Nao nomearemos as faculdades para preservar os professores das duas instituigoes, visto que, como sac poucos os professores de latim, 0 fato de nomea-Ias ja os identificaria. Assistimos as aulas de dois professores de lingua latina, durante dois meses, no primeiro semestre deste ano, com carga horaria de 36 horas-aula em cada sala de aula. Observamos os materiais didaticos utilizados, a metodologia empregada pelos professores e 0 sistema de avaliagao. No fim das observagoes, aplicamos um questionario (em anexo) para os professores e para os seus alunos que aceitaram participar da pesquisa, com objetivo de comparar as representagoes 0 que esses diferentes grupos haviam construfdo sobre 0 processo de ensino-aprendizagem experimentado. Procuramos saber se professores e os alunos compreendem a importancia do estudo da lingua e literatura latinas para a formagao profissional deles. Tambem pedimos sugestoes para modificar 0 processo de ensino-aprendizagem do latim, que estao inseridas no capftulo VII. aprendizado do latim nos cursos de Letras e buscando pistas sobre a metodologia dos professores, elaboramos dois questionarios. 1) Qual a importancia da lingua e da literatura latinas para a sua formac;ao profissional? 2) A seu ver, 0 latim deveria voltar a ser ensinado nas escolas de ensinos Fundamental e Medio? Justifique. 3) Ap6s ter cursado latim, voce percebeu alguma melhora no que tange assimilac;ao da gramatica portuguesa ou a a compreensao de outras Iinguas? Se houve, situe essa melhora. 4) Voce ensina latim fazendo comparac;5es com a lingua portuguesa? - - - -_ ... 5) Quais recursos didaticos voce utiliza durante as aulas? 6) Voce ensina latim utilizando textos? Em caso afirmativo, que tipo de texto voce utiliza? 7) Como voce avalia seus alunos? 8) Voce tem alguma sugestao a dar para a modificaCao do processo de ensinoaprendizagem do latim? 1) Qual a importancia da lingua e da Iiteratura latinas para a sua formacao profissional? 2) A seu ver, 0 latim deveria voltar a ser ensinado nas escolas de ensinos Fundamental e Medio? Justifique. 3) Voce acha, agora que estuda latim na universidade, que se tivesse estudado latim antes, por exemplo, no Ensino Fundamental, teria compreendido melhor a lingua portuguesa? (Sim ou nao?) 4) Ap6s ter cursado latim, voce percebeu alguma melhora no que tange assimilaCao da gramatica portuguesa ou a compreensao a de outras IInguas? Se houve, situe essa melhora. 5) Seu professor ensina latim fazendo comparac6es com a lingua portuguesa? 6) Quais recursos didaticos (materiais) 0 seu professor de latim utiliza durante as aulas? 7) Seu professor ensina latim com textos? Em caso afirmativo, como ele trabalha 0 texto? 8) Como 0 seu professor de latim avalia voce? 9) Voce tem alguma sugestao a dar para a modificacao do processo de ensinoaprendizagem do latim? ocampo ser restrito, visto que 0 latim s6 e ensinado no curso de Letras, ouvimos muitas respostas negativas: em algumas faculdades, os professores alegavam que a nossa presenca na sala de aula poderia constranger os alunos, ou que estavam sem tempo para nos dar atenCao. Apesar dessas respostas, tentamos em varias faculdades de Recife, ate que conseguimos selecionar duas turmas: uma na capital e outra no interior de Pernambuco. Em uma, 0 professor nos aceitou, mas com reservas; em outra, fomos bem-aceitos. A formacao desses professores e a seguinte: um e graduado em Letras, ja ensina latim ha muito tempo e esta perto de se aposentar; 0 outro tambem e graduado em Letras, mestre em lingOfstica e ensina latim ha pouco tempo. Aquele sera chamado de 'professor 1 (P1); este, de professor 2 (P2). Como 0 estudo de caso e um tipo de pesquisa que tem muitas vezes carater explorat6rio, tomemos essas duas faculdades como representativas do que acontece no ensino do latim, fornecendo indfcios do modo como os aportes te6rico-metodol6gicos apropriados da IingOfstica contemporanea pelos professores estao sendo difundidos e que nao estao vinculados a institui90es que realizam pesquisas basicas ou aplicadas na area da IingOfstica ou dos processos de ensino-aprendizagem. Os alunos que responderam ao questionario (em media, 25% de cada turma -- 13 do P1 e 15 do P2) serao chamados A28, os do P2. de A1 a A13, os do P1; e A14 a Durante as observa<;oes das aulas do P1, constatamos que, como material didatico, 0 professor adotava uma apostila confeccionada por ele, a qual continha as declina<;oes e os tempos verbais, com exercfcio de frases e textos para versao. Ele dizia aos alunos que era "muito diffcil conseguir materiais para 0 ensino do latim". As poucas c6pias de textos que ele utilizava eram, na maioria das vezes, fragmentos de textos escritos, cujas hist6rias nao prendiam a aten<;ao dos alunos. Mesmo utilizando texto, 0 professor s6 extrafa dele questoes de gramatica e tradu<;ao. Em nenhum momenta ele trabalhou a compreensao ou a interpreta<;ao. Ou seja, ele aproveitava textos como "pretexto" para ensinar gramatica. A avalia<;ao foi feita par meio de provas, cujas questoes eram de tradu<;ao de frases do latim para 0 portugues. Algumas pesquisa, que s6 contemplavam latinas?"; "quais verbos regem sequer poderiam ser 0 a gramatica: vezes solicitou trabalhos de "quantas sac as declina<;oes acusativo?". Ou seja, quest5es que muitas vezes classificadas como pertencentes a uma abordagem estruturalista do texto. Alem disso, raros foram os momentos em que 0 professor comparou 0 latim com 0 portugues; geralmente isso aconteceu quando algum aluno observou e comentou a semelhan<;a entre as duas Ifnguas. S UFPE ~niverSldade Federal de Pernambuco rograma de pos-Graduarao em 1 y elras Seu professor ensina latim fazendo comparac;oes com a lingua portuguesa? Numero de Resposta alunos 7 Nao 5 Poucas vezes 1 Nao me lembro Verificamos que a pratica do P1 nao valoriza a comparac;ao do latim com 0 portugues, ja que ele quase nunca coteja as duas Iinguas, 0 que tambem foi verificado nas nossas observar;:oes. Pela maneira como ele ensina, parece que 0 ensino do latim nao deve estar atrelado a uma relar;:8o mais estreita com a lingua portuguesa. Para a 6a pergunta, "quais recursos didaticos (materiais) latim utiliza durante as aulas?", as respostas foram estas: 0 seu professor de Quais recursos didaticos (materiais) 0 seu professor de latim utiliza durante as aulas? Numero de Resposta alunos 13 Textos xerocados, apostila, quadro, lapis pilato -- - Seu professor ensina latim com textos? Em caso afirmativo, como ele trabalha 0 texto? Numero de alunos Resposta 10 As vezes utiliza texto 3 Nao utiliza texto. Exemplifica usando frases. --- Como vemos nas respostas acima, 10 alunos afirmaram que nao centra 0 0 professor ensino de latim no trabalho com texto e 3 disseram que ele utiliza pequenas frases. Pelo que observamos em sala de aula, descontextualizada, 0 P1 ensina de forma privilegiando a gramatica formal. As vezes faz uso de uma serie de frases, como se fosse um texto, 0 que para n6s (e talvez para os alunos que responderam "nao" a pergunta) nao passa de frases sem vinculo umas com as outras. Desse modo, ja se pode afirmar que as modern as perspectivas de ensino instrumental de uma lingua nao integram 0 trabalho que 0 P1 realiza em sala de aula. A seguir, mostraremos um dos poucos trabalhos com texto de autor latina realizado pelo P1. Em uma aula, serviu somente 0 como P1 utilizou a fabula de Fedro A raposa e as uvas, mas esta pretexto para 0 ensino de gramatica, pois ele nao contextualizou s6cio-historicamente 0 surgimento das fabulas, nao trabalhou a sua estrutura textual, nem partiu dos conhecimentos de aluno possui para chegar nao trabalhou, interpretac;ao. a compreensao e a mundo e de lingua que 0 interpretac;ao desse genero textual; portanto, quest6es de base que levam a compreensao e a 5 Fabula de Fedro. Tradu9ao: Alta vinha, mais conhecida como A raposa e as uvas. "Numa parreira frondosa, uma raposa, esfomeada, pulando com todas as for9as, tentava pegar uva. Como neo conseguiu pega-Ia, disse, afastando-se: 'Ainda nao esta madura, nao quero comer (uva) azeda'. Aqueles que justificam com palavras 0 que neo podem fazer deverao tomar este exemplo para si." Uma gramatica abstrata, (...) fragmentada, ensinada a partir de exerdcios repetitivos de palavras e frases isoladas, centrada na memorizayao de regras, classificayoes. (SILVA; Cinara definiyoes, Santana nomenclaturas da; BRANOAo, e Ana Carolina Perrusi, in MORAIS, 1999: 121) Essa maneira de trabalhar 0 texto, baseada no ensino tradicional, quase nada acrescenta ao aluno nem mostra a potencialidade que tem a utilizaCao do texto no ensino de lingua ja amplamente apontada pela IingOfstica contemporanea. Essas abordagens sao apenas uma instancia de uma atitude generalizada do professor diante da linguagem escrita: a Iinguagem perde a sua natureza de aCao entre interlocutores e passa a ser objeto de manipulaCao e transformaCao estrutural. 0 texto escrito nao se constitui, entao, no meio em que autor e leitor interagem, em que 0 autor constr6i um texto, propondo uma leitura, enquanto 0 leitor aceita, refuta, critica, (Kleiman, 1989: 18-19). Quanto a8 3 pergunta, "como SaGas respostas obtidas: 0 seu professor de latim avalia voce?", estas Como Numero de seu professor de latim avaiia voce? 0 Resposta alunos 13 Utiliza provas escritas e trabalhos individuais Todos os alunos foram unanimes: 0 P1 avalia somente por meio de provas e trabalhos, nao valorizando as atividades feitas em sala de aula. Nenhum deles falou em avalia<;ao continua, essa nao o 0 que comprova nossas observa<;oes, mostrando que e uma pratica utilizada pelo P1. P1 s6 se diferencia do professor de latim citado na Introdu<;ao deste trabalho porque solicita dos alunos trabalho de "pesquisa" (as aspas suspendem 0 sentido que a ciencia moderna associ a a essa palavra). Fora isso, a metodologia e a mesma: aulas mon6tonas, com 0 professor expondo um conteudo sem sentido, alunos dispersos, sem interesse pela disciplina. Esse professor tambem ensina portugues, por isso resgata as rela<;oes entre as duas Ifnguas. Mas ainda esta preso aos preceitos do ensino tradicional. Vejamos de que modo. Seu professor ensina latim fazendo comparagoes com a lingua portuguesa? Numero de Resposta alunos 15 Sim ~. UD'versidade feoera\ de Pernambuco @ p;l~gramade P6s·Gradua\ao em Le\las UfPO Quanto aos recursos didaticos utilizados pelo P2, as alunos responderam 0 seguinte: Quais recursos didaticos (materiais) 0 seu professor de latim utiliza durante as aulas? Numero de Resposta alunos 15 C6pia do Iivro Curso Basico de Latim, dicionario, gramatica, quadro, lapis Sobre 0 livro adotado pelo P2, Curso basico de fatim - gradus primus, de Paulo R6nai, ha uma ressalva a ser feita. Esse livro, que segundo uma aluna e maravifhoso, apresenta textos, porem estes nao sao tirados da literatura latina, mas criados com fun<;ao didatica. As hist6rias nao prendem a aten<;ao dos alunos,que parecem, de modo intuitivo, perceber a artificialidade desses textos. Segundo Otani (1987:23), a texto fabricado de certo modo oculta a emprego efetivo da lingua, do discurso: Os textos 'higienizam lingUisticamente fabricados, 0 discurso', isto e, e sintaxe, enquanto 0 0 de algum modo, parecem que discurso passa a ser controlavel via lexico texto autentico e cultural por natureza e defini<;;ao, isto e, esta comprometido e inserido num discurso efetivo. Pode-se dizer Eis alguns tftulos dos microtextos: Duae amicae (duas amigas); Domina et serva (patroa e empregada); Vita agricolarum (a vida dos agricultores). Para exemplificar melhor, transcreveremos 6 Tradugao: Sobre a aranha e a mosca. a seguir um texto trabalhado na sala de A aranha mora sabre a janela. Tece a teia e espera a comida. Do lado de fora, uma pequena mosca voa para dentro pela janela. Enquanto examina belo tecido, de repente cai na teia. A aranha corre e agarra imprudencia, a mosca perdeu a vida. 0 0 inseto curiosa. Par causa da Oepois de ler esse texto, seguida, de acordo com 0 0 professor fez a "tradw;ao" com os alunos. Em livro, trabalhou a declinagao dos substantivos, os generos, os adjetivos da 1a declinagao e as preposigoes. Quando terminou 'conteudo de gramatica, 0 pediu aos alunos que respondessem ao exercfcio da pagina seguinte, 0 qual sera transcrito a seguir. 1. Procurar, na lista seguinte, os nomes masculinos: mensa, magistra, poeta, serva, agricola, domina, discipula, nauta. 3. Oeclinar jun,tas: aranea mala, musca parva. 4. Copiar a leitura, sublinhando os adjuntos adverbiais formados com 0 auxllio de preposigoes. 5. Oizer em latim: Sobre a mesa. Do lado da f1oresta. Acerca da professora e das alunas. Atraves das janelas. Por causa da vida. 6. Traduzir por escrito: As meninas frequentam a escola por causa da amizade da professora. Lemos fabulas bonitas acerca dos insetos. Pela leitura do texto e pelo exercfcio proposto pelo livro, constatamos que 0 professor utiliza 0 texto como pretexto para veicular 0 mesmo ensino tradicional, textos sem nenhuma atragao para os alunos (todos os textos do livro didatico adotado pelo professor estao formulados pelo mesmo princfpio), forjados para ensinar latim. Sem falar nos exercfcios do livro. Afinal, masculinos, declinar palavras adverbiais formados com 0 no singular 0 que procurar nomes ou no plural, sublinhar adjuntos auxllio de preposi<;oes, pronunciar em voz alta e traduzir fragmentos acrescenta as necessidades de compreensao e interpreta<;ao Poderiamos mostrar outros exemplos de atividades realizadas em sala de aula pelo P1 e pelo P2, porem acreditamos que os ja apresentados sac suficientes para demonstrar a metodologia tradicional desses professores, pois todas as outras atividades tem essas mesmas caracteristicas. No que diz respeito ao ensino ser efetivado de forma contextualizada ou nao (78 pergunta), as respostas estao no quadro abaixo: Seu professor ensina latim com textos? Em caso afirmativo, como ele trabalha 0 texto? Numero de Resposta alunos 12 Sim. Ele exemplifica assuntos da gramatica usando textos. 3 As vezes utiliza texto. As vezes exemplifica os assuntos usando frases no quadro ou no livro. Quase todos os alunos disseram que ensinar. Apenas tres acrescentaram 0 professor utiliza textos na hora de que 0 professor as vezes exemplifica os conteudos de gramatica com frases. Como ja acrescentamos nos comentarios da questao anterior, os textos nao sao bem trabalhados, alem de ter pouco atrativo semantico. Sobre 0 modo como 0 P2 avalia os alunos, estes deram as seguintes respostas: Como 0 seu professor de latim avalia voce? Numero de Resposta alunos 5 Nao sabe. 0 professor ainda nao aplicou "prova". 10 Chamadas ao quadro, trabalho em grupo, prova com anc~lisee traducao de texto, participacao em sala de aula. Ha urn dado importante a acrescentar a essas respostas. Cinco alunos responderam que nao sabem como 0 professor avalia. Isso ocorre porque ele ensina ha pouco tempo naquela faculdade responderam com base no que 0 (comecou este ana). Os outros professor diz: ele avalia os alunos considerando todas as atividades realizadas por eles. Segundo 0 que observamos e segundo a resposta do P2 ao questionario, como recursos de avaliacao, ele observa a participacao do aluno em sala, utiliza provas escritas, exercicios, chamadas ao quadro e trabalhos. 0 P2 diz que aproveita todas as atividades dos alunos, diferentemente do que ocorre com 0 P1. Com base em Luckesi (1984:47), para quem "0 atual exercicio da avaliacao escolar esta a servico de uma pedagogia que nada mais e do que uma concepcao te6rica de educaC80, que, por sua vez, traduz uma concepC80 te6rica da sociedade", verificamos que, na verdade, 0 que difere 0 P1 do P2 e, entre outros fatores igualmente importantes, concepC80 de educa<;ao. Ambos a veem de forma diferente, logo, priorizam diferentes recursos de avaliac80. Contudo, ha pontos que aproximam os dois: eles concebem a Iinguagem como algo pronto, acabado, um c6digo, e utilizam 0 texto como pretexto para veicular 0 mesmo ensino tradicional, que visa antes de tudo a gramatica. Percebemos que ha uma certa combinaC80 entre 0 conteudo das aulas dos dois professores: 0 ensino e centrado pelo fate de os programas em regras gramaticais. Isso pode ser explicado de latim estarem direcionados para 0 aspecto estrutural, formal, da lingua. Tambem devemos salientar que, apesar de 0 P2 ser mestre em IingOfstica, ele ainda esta "preso" a metodologia de ensino tradicional. Sobre isso, ele informou que e ditrcil encontrar orientacoes para 0 ensino do latim na IingOfstica; que esta procurando mudar a metodologia, buscando n80 se espelhar no seu antigo professor de latim. Alem das questoes relativas a metodologia dos professores, fizemos perguntas sobre 0 latim, direcionadas aos professores e aos alunos (perguntas 1 a 4), as quais tem como objetivo saber como eles avaliam a utilidade do latim para a vida profissional deles. Acrescentamos tambem as respostas do P2, unico professor que respondeu ao questionario. Perguntamos aos alunos e aos professores "qual a importancia da lingua e da Iiteratura latinas para a sua formacao profissional?" (1a pergunta). As respostas estao no quadro a seguir. Qual a importancia da lingua e da Iiteratura latinas para a sua forma9ao profissional? Numero de Resposta alunos Facflita 20 0 aprendizado da lingua portuguesa, esclarecendo duvidas sobre ela, facilita a compreensao da lingua portuguesa, na morfologia, na sintaxe, na etimologia. 3 Ajuda a desenvolver a inteligencia, a refJexao. 1 Conhecimento de grandes nomes da hist6ria (ffsicos, matematicos, quimicos). 3 Ajuda a enriquecer 0 nosso vocabulario e amplia a nossa cultura. 1 Melhora no entendimento nao s6 do portugues, mas de outras Hnguas. Dos 28 alunos, 27 responderam o latim serve principalmente a questao, a/em do P2. Segundo a maioria, para ajudar a compreender 0 portugues, maxi me a morfologia, a sintaxe e a etimologia deste. Outros responderam que 0 latim ajuda a melhorar 0 raciocfnio (0 que nao encontra comprova9ao cientffica); ajuda a pistas geneal6gicas sobre alguns elementos sintaticos do portugues. 8 SCHWARTSMAN, Helio. e 8 Perdendo com. brlfolha/pensata/schwartsman/20001207>. morfol6gicos 0 fatim. Disponivel Acesso em 23/09/2001. em <www.uol. A seu ver, 0 latim deveria voltar a ser ensinado nas escolas de Ensinos Fundamental e Medio? Justifique. Numero de Resposta respondentes 28 Sim. 1 Nao. E preciso insistir no vocabulario para que os alunos aprendam 0 portugues. As justificativas para as respostas positivas sac: 0 estudo do latim agu9aria o poder de raciocfnio do estudante, tornando-Ihe mais claras e firmes as conclus6es; evitaria que os alunos de Letras estranhassem 0 latim ao chegar a universidade; questoes parecidas inexplicaveis na lingua portuguesa ficariam mais claras; se comec;assemos a estudar 0 latim cedo, refletiriamos melhor sobre a se voltar, 0 latim nao deve servir como mais uma materia de reprovac;ao. Deve, sim, ser ensinado com 0 objetivo de prom over a reflexao sobre nossa lingua, pais, Fundamental e Media que garantiraa a sucessa dessa lingua. E precisa a UFPE Unrversidade Feaeral de Pernambuco Programade Pos-Graduaqao em lelras Voce acha, agora que estuda latim na universidade, que se tivesse estudado latim antes, por exemplo, no Ensino Fundamental, teria compreendido melhor a lingua portuguesa? Numero de Resposta alunos 27 1 Sim. Nao. Se os professores de portugues forem competentes, nao todos reconhecem e necessario. a utilidade dele, sempre para um melhor aprendizado do portugues, ratificando a rela~ao de dependencia entre as duas Ifnguas. Ampliando a questao anterior, na quarta pergunta, procuramos saber dos entrevistados se apes terem cursado latim eles perceberam alguma melhora no que tange a assimila~ao da gramatica portuguesa ou Ifnguas. As respostas estao a seguir: a compreensao de outras Ap6s cursar 0 latim, voce percebeu alguma melhora no que tange assimilacao da gramatica portuguesa ou a compreensao a de outras Iinguas? Numero de Resposta alunos 15 1 Sim. Estou assimilando melhor 0 portugues. Sim. Estou assimilando melhor 0 ingles. .- 12 Nao ajuda muito. Dos 28 alunos entrevistados, todos responderam a essa pergunta. Quinze afirmaram que vocabulario. 0 latim ajudou na compreensao do portugues - morfologia, sintaxe, Um aluno disse que, conhecendo melhor a lingua inglesa. 0 latim, passou a compreender Entretanto, doze disseram que 0 latim nao ajuda. Eles o latim a outras Ifnguas. Alguns afirmaram que nao gostam do latim, pois a aula e cansativa, contemplando muitos exerdcios de declinacao. Novamente, as representacoes em jogo apontam a difusao da dependencia do portugues em relacao ao latim, corroborando, portanto, a tese de superioridade Tentando apresentaremos, contribuir para a mudanc;:a da didatica do ensino do latim, a seguir, algumas sugest6es, que estao baseadas tanto na pesquisa avanc;:ada na area da lingOfstica ao ensino de Iinguas respostas dos alunos entrevistados. quanta nas VII. SUGESTOES PARA MODIFICAR 0 PROCESSO DE ENSINO· APRENDIZAGEM DO lATIM Apesar do esforyo de IingOistas e educadores para combater 0 ensino de Ifngua baseado nos preceitos teorico-metodologicos assistimos a uma pratica que privilegia somente 0 0 concePCao 0 de linguagem como hoje texto nao ocupa lugar de que importa e 0 puro ensino da gramatica, transmitidas de modo descontextualizado. ainda emprego dos processos da gramatica formal no ensino de Ifnguas. Nessa pratica, destaque, tradicionais, cujas regras sac Isso ocorre porque nao se adota uma atividade interacional socio-historicamente constitufda. Na perspectiva tradicional, a Ifngua e tomada em si mesma; ou seja, de modo a-historico, com enfase no estudo das formas. as professores ainda "gastam" a maioria do tempo de aula fazendo 0 aluno decorar declinacoes e tempos verbais. Na verdade, decorar regras nao e (ou nao deveria ser) a finalidade do estudo da Ifngua latina, segundo os preceitos ate da lingOfstica anterior a opcao pelo estudo dos usos socio-historicamente constitufdos: A finalidade da lingOistica no ensino do latim e essencialmente tornar-Ihe o ensino mais racional, assentando tambem na compreensao e no raciocinio do aluno, e nao unicamente em sua memoria, no aprendizado da gramatica (Faria, 1959:210-211). Por isso, em vez de continuar a ensinar 0 latim seguindo os ditames do ensino tradicional, 0 professor deve buscar uma metodologia de ensino mais coerente com os recentes postulados da IingOfstica, sem os famigerados exercitatio declinationis e exercitatio verborum. Como exemplo, apresentamos uma sugestao para trabalhar 0 texto A raposa e as uvas, visto em uma aula do P1. Antes de fazer a traduc;ao do texto, sem dizer 0 tftulo em portugues, 0 professor pode perguntar aos alunos sobre que fala 0 texto; se ha nele alguma palavra que lembre outra da nossa lingua (vinea, uvam, matura, possunt, verbis); se, pelas palavras encontradas, 0 texto lembra algum outro. Alem disso, ele pode falar da origem da fabula, que, segundo Fedro, foi inventada por escravos que nao ousavam expressar as claras os pr6prios sentimentos (Faria, 1958:267). Tambem pode informar aos alunos que nas fabulas de Fedro predomina 0 conteudo satlrico, com alusoes diretas aos contemporaneos dele. Seguindo texto/realidade, esse caminho, lembrando, 0 professor pode mostrar a relar;ao como diz Silva (1991 :22), que "0 bom escritor, autenticamente revolucionario, nao e alheio aos problemas e as contradir;oes do seu tempo e do seu contexto". Pelo contra rio, por meio de sua percepr;ao crftica e agucada, ele desentranha, desmascara, torna visfveis os problemas vividos em sociedade. Ap6s buscar muitas pistas no texto, 0 professor deve passar a traducao, operacao IingOfstico-cognitiva que nao prescinde da compreensao/interpretacao textual. Para utilizar de modo mais eficaz e cientffico 0 texto na sala de aula, 0 professor deve apresentar os elementos vinculados a estrutura que a macroestrutura, diretamente relativa Iigada ao assunto; a construcao e a estrutura constitui. a superffcie de um significado, estando Deve observar dois aspectos globais profundos, que nao pertencem textual: 0 ou superestrutura, relativa a construcao de uma arrumacao sustentadora do assunto, estando ligada ao genero (Kleiman, 1993:84). 2. Qual foi a reacao da raposa quando viu que nao ia conseguir pegar as uvas? Busque no texto elementos que comprovem sua resposta. Garantida a compreensao, 0 professor pode passar a analise lingUfstica, dependendo do assunto gramatical que ele queira explanar com esse texto. lembrar que 0 aproveitamento do texto para a analise formal nao E bom e obrigatorio, vai de pender dos objetivos do professor. Essa e apenas uma sugestao de trabalho com texto, que podera ser complementada pelo professor. Outras sugest6es serao mostradas a seguir. Para tomar a aula de latim mais proveitosa, 0 professor deve escolher para os alunos bons textos, que servirao de base para 0 curso que ministrarc3. E preciso que esses primeiros textos sejam simples. acostumando, 0 medida que os alunos forem se professor vai apresentando textos mais complexos. 0 Segundo facilitariam A Kleiman (1993:87), "entre os textos mais simples, que assim aspecto processual da leitura, podemos pensar em textos mais curtos, que requerem menos da memoria de trabalho". Como 0 foco principal do ensino do latim deve ser 0 texto, este tem de vir em primeiro lugar. A leitura em sala de aula deve ser frequente, a fim de se tomar um habito para 0 aluno, uma vez que a finalidade imediata de estudar latim e ler textos latinos. Contudo, conforme afirma Silva (1991 :25), a leitura nao se configura como um processo passivo. Pelo contrario, ela exige descoberta e re-cria<;ao, colocando-se como produ<;ao e sempre supondo trabalho do sujeito-Ieitor. Por isso, em vez de ensinar previamente declina<;6es e conjuga<;6es para depois passar a tradu<;ao, 0 professor pode come<;ar por leituras intensivas de latim, com breves explica<;6es, para facilitar a compreensao por parte dos alunos, possibilitando-Ihes experimentar diferentes estrategias cognitivas de leitura, explicitando-as e ampliando-as. Pode-se seguir a essa etapa a leitura de pequenos trechos e nao de palavra por palavra. Sobre isso Faria diz 0 seguinte: Uma das grandes causas das mas tradU';:6es em latim e que 0 aluno isola a palavra da frase, colocando-a por vezes numa tira de papel a parte, alinhando em seguida uma serie de significados colhidos no dicionario. Este processo e indicado pela grande maioria dos professores, que assim mostram desconhecer ou olvidar que a palavra fora da frase e pura abstra~ao, sem conteudo semantico determinado (1959: 185). Se escrito nos' anos 90, certamente Faria teria acrescentado que a leitura de frase por frase tambem e Iimitadora, pelas mesmas raz6es de uso que aventou para 0 nao uso de palavras isoladas. o professor deve, portanto, desde a primeira aula, trabalhar com textos, nao se detendo em fornecer aos alunos listas de palavras isoladas, tampouco em ensinar-Ihes desde cedo a gramatica formal da lingua. Esse metoda nao devera consistir no emprego do latim como uma lingua viva, devera, sim, visar a compreensao e a interpreta9aO do texto. ~ Unlversidaoe rederal de~ernambuco ~ Programade Pbs-Graduayao em Lelras \lFPE Como urn processo ativo, a leitura (...) exige competencia comunicativa. Como um processo construtivo, a leitura baseia-se em interpretayao de pianos das expressoes indexicais sinalizadas no texto. Como um processo interativo, e influenciadapor r variaveis de desempenho. Como um processo reconstrutivo, a leitura permite a introduyao de vieses e distor<;oesprovenientes das variaveis de desempenho e dos sistemas de valores do leitor (Cavalcanti, 1989:48). Marcuschi (s.d.:41-44) mostra duas possibilidades de trabalhar a lingua por meio do texto. A primeira segunda e tratar 0 e, como ja mostramos, analisar 0 texto como um todo; a texto por partes, dedicando-se a detalhes especfficos, lembrando que tanto em uma como em outra deve ser preservada a perspectiva textual, em que as diversas formas de contextualiza~ao dos fatos lingOfsticos seriam sempre contempladas. A seguir, apresentaremos algumas sugestoes para a analise dos aspectos formais do texto. Antes IingOfstico, de passar professor 0 compreensao a analise formal em diferentes nfveis do sistema deve, como ja dissemos, trabalhar bem a leitura, a e a interpreta<;ao do texto. A analise em nfveis das formas lingOfsticas, segundo sugerimos, nao deve preceder a leitura dos textos, mas ser orientada a partir do texto. Desse modo, os exemplos nao podem vir isolados, mas vistos dentro de um contexto. E habito entre os professores come<;ar 0 estudo do latim pela memoriza<;ao previa das declina<;oes e conjuga<;oes, para depois iniciar a compreensao do texto. Isso ocorre porque muitos acreditam que os alunos s6 podem traduzir um texto depois de conhecer todo 0 sistema regular de f1exoes latinas. Todavia, 0 professor que deseja tomar 0 seu ensino menos fastidioso, mais interessante para 0 aluno e mais coerente com as modernas diretrizes pedag6gicas e IingOfsticas deve par essas ideias a margem. Outra pratica corrente entre os professores de latim, quando VaG ensinar a declina<;ao e a conjuga<;ao latinas, e fazer 0 aluno recitar os paradigmas. E bom lembrar que essa atitude nao corresponde mais as necessidades atuais do ensino, conforme ja frisava Faria em 1959 (p. 218-219): ~ UiI:VerSlda08 r8uerai de Pernambuco C Programade P6s~Gradua\ao em Lelres UFP' ao conhecimento do vernaculo, 0 que constitui uma das finalidades dos estudos latinos (Faria, 1959:174-175). Procedendo assim, 0 professor sincretismo do latim, comparando-o com 0 oportunizara ao aluno conhecer 0 vernaculo, um idioma analftico: Habilitando-se dessa maneira a identificar 0 caso lexicogenico da lingua portuguesa, do qual procedeu a maioria das palavras (de origem erudita), que depois do sEkulo XVI tanto enriqueceram 0 vocabulario da nossa lingua (Queiroz, 1975:183). o ensino comparativo entre latim e portugues deve ser constante. vez de sobrecarregar a memoria do aluno com 0 aprendizado mecanico das declina90es e conjuga90es, portuguesa, Se, em procurando 0 antes professor comparar uma forma latina com outra explicar a forma9ao dessas declina90es e conjuga90es, chamando a aten9ao do aluno para a identidade das desinencias, para os elementos m6rficos dos vocabulos, ele nao corre 0 risco de provocar, naquele, aversao ao latim, e faz legitimamente analise IingiHstica. Agindo assim, longe de se dificultar 0 ensino do latim, 0 professor tornara 0 aprendizado dessa lingua mais facil, "mais proveitoso e, principalmente, 0 que cumpre bem atentar, mais coerente com as finalidades que Ihe sao propostas" (Faria, 1959:209). Vale lembrar tambem que, antes de comec;ar 0 estudo das declinac;6es, 0 professor deve explicar ao aluno a grande diferenc;a que existe entre sistema 0 morfologico latina e 0 portugues, fazendo-o ver que essa diferenc;a e maior, 'mormente, nas formas nominais. exemplo, chamar "a atenc;ao para 0 Desse modo, utilizando 0 texto, pode, por relativamente parco emprego das preposic;6es e para 0 usa de casos como 0 genitivo, 0 dativo, 0 ablativo" (Faria, 1959:219), entre outras possibilidades. Quando for explicar os casos, sua func;ao, lembremos, 0 professor nao poden3 deixar de indicar a sempre partindo do texto ja estudado, em que os exemplos sao vistos contextualizados. Nessa pratica, a gramatica sera utilizada como uma verdadeira explicaC;ao do texto e nao como forma de reduzir simples ilustrac;ao dos fatos gramaticais estudados abstratamente 0 texto a em aulas teoricas (ibidem, p. 220). Depois de expor substantivos e adjetivos, 0 0 sistema da declinac;ao nominal, que abrange professor pode fazer os alunos verem como os casos se reduziram ao chamado caso lexicogenico, frisando que essa reduc;ao ja era uma antiga tendencia da lingua latina, que reduzira os antigos oito casos do primitivo indo-europeu a seis; no plural ja apenas a quatro pela identidade sempre constante das duas desinencias de nominativo e vocativo, como tambem de dativo e ablativo. ~ UfP, VlllierSldaoe ,:eaerJI de Pernambuco Programade Pos~Graduayao em lelras Essas sugestoes serviram para ratificar as nossas hip6teses: 0 ensi~o :~; do "Se amar a Ifngua ptJtria esludar Lacio" 0 latim seja e e um alo de civismo, fazer com que "a ullima flor do cultivada com aquele primor que merece este formoso idioma patrio." Jose Geraldo Vidigal de Carvalho. Diante do que foi exposto, resta-nos dizer que 0 ensino do latim nao pode continuar sendo transmitido com base metodol6gica tradicional. 0 ensino de latim alicer<;ado nas pesquisas IingOfsticas atuais proporcionara ao estudante ler e compreender melhor textos latinos. Quanto aos recursos metodol6gicos, 0 professor de latim deve lan9ar mao de outros instrumentos, alem das gramaticas latinas, tais como: filmes, musicas e textos de autores latinos, enfatizando a leitura e a compreensao. Ademais, 0 ensino do latim deve dialogar com 0 do portugues, pois 0 principal objetivo do latim no curso de Letras deve ser auxiliar de portugues a compreender 0 futuro professor melhor os fundamentos s6cio-hist6ricos da lingua Segundo Kleiman (1989:33), "0 professor tem a responsabilidade de se manter atualizado, para incorporar, em sua prcHica, resultados de pesquisa". Por isso, diante de tantas descobertas feitas pela lingOfstica e tambem das sugestoes 'aqui apresentadas, e horizontes, pois mandar necessario 0 que 0 professor de latim busque novos aluno decorar, declinar palavras e treinar a pronuncia nao reflete os postulados atuais da IingOistica aplicada ao ensino de Ifnguas. Se enfoques que partem do princfpio de que a linguagem e interagao trazem resultados complementar positivos validos, defensaveis, entao torna-se importante a formagao do professor para ele compreender os fundamentos te6ricos de uma proposta nessa Iinha, tomar decisoes com base em sua avalia9aO de um problema ou de uma situa9ao e se tomar um professor que se faga gerador e irradiador de mudan9as (Kleiman, 1989:18). Sabemos que toda mUdanga e diffcil, mas que 0 papel do professor nao e apenas 0 principal e comegar. Lembramos receptivo: a sua contribui9aO nao se Iimita a adaptar sua pratica as descobertas na area. Ele produz conhecimento a medida que identifica e avalia resultados e efeitos nao previstos (Kleiman, 1989:34). Para finalizar mandamentos este capitulo, faremos do professor as dez em desenvolvimento, do uma sintese do artigo de Ifnguas em pafses professor Francisco Gomes de Matos (1987), buscando ampliar as contribui90es oferecidas neste trabalho para a mudan9a do ensino do latim. 1) amar 0 proximo lingOfstico, ou seja, cultivar um sentimento de amor IingOfstico por aquele que aprende, colocando-se no lugar dos aprendizes, incentivando-os, em vez de desestimula-Ios; 2) formular objetivos do curso coletivamente dar a contribui<;ao dele, desde conteudos, 0 aprendiz precisa ter espa<;o para a formula<;ao dos objetivos, ate a ativa<;ao e cria<;ao de novos conhecimentos a sele<;ao de IingOfsticos e culturais; 3) ser um avaliador construtivo - a avaliac;ao deve ser centrada no desenvolver e no aprimorar lingOfstico e cultural das pessoas. 0 professor nao deve punir os alunos durante a corre<;ao dos "erros", pois 0 aluno precisa ser ajudado, orientado a descobrir as causas de seus erros, num clima construtivo e cooperativo; 4) planejar cada licao, refletindo sobre os objetivos lingOfsticos e culturais a serem alcanc;ados, pois, se aprender e criar conhecimentos ou capacidades e ensinar ajudar alguem na cria<;ab desse novo conhecer, e preciso e planejar, com flexibilidade, 0 que se pode fazer, como, quando, por que e para que. Planejar as estrategias motivadoras (como incentivar os alunos para 0 bom desempenho nas atividades previstas), exercendo seu direito de co-autor do material didatico, suplementando a Ii<;aocom conteudos e atividades oriundos de sua criatividade ou de ideias sugeridas pelos alunos; ~ Universidade Federal de Pernambuco 9 Programade Pos-Graduayao em Letras esquecer que a profissao de docente constitui uma eterna relacao de troca, pois tanto ensinamos quanta aprendemos com os alunos. Este estudo nao se encerra aqui. Constituindo-se em um trabalho de carater explorat6rio, ele e s6 um comer;o. REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS Livros AlEREDO, J. C. de (org.). Ungua portuguesa em debate: conhecimento e ensino. Petropolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2000. BARlOTTO, Valdir Heitor (org.). Estado de leitura. Campinas, SP: Mercado de letras, 1999. BATISTA, Antonio Augusto Gomes; GAlVAO, Ana Maria de Oliveira (ergs.). Bela Horizonte: Autentica, 1999. BURKE, Peter. A arte da conversaq80. 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Voce tem alguma sugestao a dar para a modificayao ensino/aprendizagem do latim? do processo de '1. Qual a importancia da lingua e da Iiteratura latinas para a sua formaC;ao profissional? 2. A seu ver, 0 latim deveria voltar a ser ensinado nas escolas de ensinos Fundamental e Medio? Justifique. 3. Voce acha, agora que estuda latim na universidade, que se tivesse estudado latim antes, por exemplo, no Ensino Fundamental, teria compreendido melhor a lingua portuguesa? 4. Ap6s ter cursado latim, voce percebeu alguma melhora no que tange assimilac;ao da gramatica portuguesa ou a a compreensao de outras Ifnguas? Se houve, situe essa melhora. 5. Seu professor ensina latim fazendo comparac;oes com a Ifngua portuguesa? 6. Quais recursos didaticos (materiais) 0 seu professor de latim utiliza durante as aulas? 7. Seu professor ensina latim utilizando textos? 9. Voce tern alguma sugestao ensino/aprendizagem do latim? a dar para a modificac;ao do processo de