07 Editorial 09 Grupos de Teatro no Brasil: convergências e divergências 11 21 31 37 TEATRO DE GRUPO: a busca de identidades André Carreira A DIALÉTICA DAS CONDIÇÕES E A FATURA ESTÉTICA NO TEATRO DE GRUPO Kil Abreu GRUPOS DE TEATRO NO BRASIL: convergências e divergências Rosyane Trotta O CISMA E O SISMÓGRAFO Valmir Santos 45 Grupos de Teatro: um olhar europeu e latino-americano 47 57 EL TEATRO COMO METÁFORA SOCIAL Comentarios sobre el “teatro de grupos” en España Óscar Cornago NOTAS SOBRE UMA METODOLOGIA LATINO-AMERICANA Silvana Garcia 65 Teatro e Política 67 POLÍTICAS PÚBLICAS: um debate ainda a ser feito Beth Néspoli 75 Galpão em foco AVENTURAS COM O CINEMA Eduardo Moreira 83 77 Cine Horto em foco 85 91 UM INTERCÂMBIO INTERNACIONAL Chico Pelúcio ENTREVISTA David Jubb e David Micklem Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto . nº 5 – ISSN 1807-5959 COORDENAÇÃO EDITORIAL: Luciene Borges JORNALISTA RESPONSÁVEL: Luciene Borges (MG 09820 JP) CONSELHO EDITORIAL: Chico Pelúcio, Fernando Mencarelli e Leonardo Lessa COLABORADORES DESTA EDIÇÃO: André Carreira, Beth Néspoli, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Kil Abreu, Oscar Cornago, Rosyane Trotta, Silvana Garcia e Valmir Santos Argvmentvm Editora PRODUÇÃO EDITORIAL: Daniela Antonaci REVISÃO ORTOGRÁFICA: Erick Ramalho CAPA & PROJETO GRÁFICO: Milton Fernandes Fotos GRUPOS DE TEATRO NO BRASIL: CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS PÁGINA 13 Nelson Kao; PÁGINA 15 Marina Reis; PÁGINA 18 Renato Mangolin; PÁGINA 23 Idinaldo Silva; PÁGINA 24 Zeca Caldeira; PÁGINA 25 Pablo Peinado; PÁGINA 27 Guto Muniz; PÁGINA 30 Sérgio de Carvalho; PÁGINA 40 Arquivo da Tribo de Atuadores Oi Nóis Aqui Traveiz; PÁGINA 38 Joana Mattei; PÁGINAS 39 e 43 Joana Mattei GRUPOS DE TEATRO: UM OLHAR EUROPEU E LATINO-AMERICANO PÁGINA 49 Jean Benoit Ugeux; PÁGINA 50 Quique Escorza; PÁGINA 52 Ros Ribas; PÁGINAS 54/55 Baltasar Patiño; PÁGINA 58 Elenize Dezgeniski; PÁGINA 62 Pablo Delano TEATRO E POLÍTICA PÁGINAS 70 e 71 Arquivo da Tribo de Atuadores Oi Nóis Aqui Traveiz GALPÃO EM FOCO PÁGINA 80 Bianca Aun CINE HORTO EM expediente FOCO PÁGINA 88 www.haworthtompkins.com; PÁGINAS 90 e 100 www.londontown.com Centro de Pesquisa e Memória do Teatro / Galpão Cine Horto Rua Pitangui, 3613 – Horto | 31.030-065 Belo Horizonte – Minas Gerais – Brasil | Tel. +55 31 3481 5580 www.galpaocinehorto.com.br/galpaocinehorto_cpmt.php | centro de [email protected] Argvmentvm Editora Rua dos Caetés, 530 . sala 1113 – Centro | 30.120-908 Belo Horizonte – Minas Gerais – Brasil | Telefax +55 31 3212 9444 www.argvmentvmeditora.com.br | [email protected] A Revista Subtexto é uma publicação independente. As opiniões expressas nos artigos são de responsabilidade exclusiva de seus autores. TIRAGEM 2000 EXEMPLARES IMPRESSÃO DEL REY INDÚSTRIA GRÁFICA DEZEMBRO DE 2008 A primeira edição da revista, nascida junto com o Redemoinho, apresentou ações realizadas por grupos e coletivos em diferentes estados brasileiros cujo ponto em comum é o fomento à efervescência criativa e ao trabalho em grupo. O espaço da cena, da arte e da cultura foi debatido em sua relação com a política, com a globalização e com o circuito cultural contemporâneo. No ano seguinte, focalizamos o processo de criação em grupos de teatro de significativa atuação no cenário nacional. O Redemoinho entrou na pauta da discussão sobre teatro e política, assim como a formação de atores nos cursos livres do Galpão Cine Horto, cuja proposta pedagógica está fundamentada no modelo de atuação do teatro de grupo. O tema foi aprofundado no terceiro número da Subtexto, que abordou a formação para o teatro de grupo e contou com a colaboração de diretores e pesquisadores que atuam em escolas e projetos que compartilham de uma proposta pedagógica orientada pela experiência de grupo. Na revista Subtexto número 4, o Galpão Cine Horto se propôs à ousada e difícil tarefa de tentar mapear a realidade e a diversidade do teatro de grupo no país, fazendo um levantamento inicial, porém significativo, do cenário em que sobrevivem esses grupos Brasil afora e da amplitude de linguagens e modos de produção com os quais trabalham. O panorama revelado instigou-nos a aprofundar sobre o tema, abordando-o sob diferentes perspectivas. Assim, convidamos para colaborar nessa edição um grupo de pesquisadores e especialistas que têm se debruçado sobre o tema e cuja visão privilegiada do contexto lhes confere a capacidade de refletir sobre as convergências e divergências do teatro de grupo no Brasil, na América Latina e na Europa. O sucesso dessa história de reflexões, debates e revelações suscitadas pela revista provocou em nós o desejo de consolidar e ampliar o espaço para publicações dentro do Galpão Cine Horto. Assim, nessa edição em que comemoramos cinco anos da revista inauguramos o selo Edições CPMT. Com essa iniciativa, o CPMT – Centro de Pesquisa e Memória do Teatro, centro de informação criado pelo Galpão Cine editorial No primeiro número da Subtexto o editorial assinado pelo Galpão Cine Horto dizia que a revista nascia como uma provocação. E explicava que “nossa intenção, ao colocá-la em circulação, é de abrir espaços para os grupos, profissionais e entidades que insistem em seguir uma trajetória coletiva de trabalho.” Cinco anos depois, a revista se afirma como espaço de reflexão sobre o teatro de grupo, sem furtar-se ao debate sobre as questões políticas que envolvem a prática e a produção teatral no Brasil de hoje. Horto em 2005, assume a incumbência de gerar e fomentar projetos e parcerias para a área de publicações sobre teatro. Em 2009, o selo lançará a coleção Cadernos de Dramaturgia do Oficinão, que publicará os textos dramáticos originais criados para o projeto, acompanhados de ensaios reflexivos sobre o processo de criação. Nesse número, trazemos ainda, na seção Teatro e Política, uma reflexão sobre a polêmica que envolveu as Leis de Incentivo durante esse ano e o relato de Eduardo Moreira sobre a experiência do Grupo Galpão no cinema. Na seção Cine Horto em Foco, Chico Pelúcio conta sobre o intercâmbio que viveu com o BAC – Battersea Arts Centre, centro de produção teatral localizado em Londres, com perfil similar ao do Galpão Cine Horto. Uma entrevista com os diretores do BAC acompanha o artigo. Galpão Cine Horto Grupos Gruposde deTeatro Teatrono noBrasil Brasil: convergências e convergência e divergências divergência Grupos de Teatro no Brasil: convergências e divergências | 11 TEATRO DE GRUPO: a busca de identidades André Carreira* A pesquisa sobre teatro de grupo1 desenvolvida pela equipe do ÁQIS2 trata de estabelecer um panorama do teatro de grupo no Brasil, sem a pretensão de criar uma fotografia acabada desse movimento. O foco deste projeto é buscar uma melhor compreensão da atividade desses grupos, que têm ampliado sua importância no contexto da cena nacional. Nosso estudo aborda a diversidade de formas e modos de trabalho que constituem a cara mais visível do teatro de grupo. Neste sentido, as experiências dos grupos surgidos nos anos 80 e 90, quando o movimento experimentou um incremento significativo, aparecem como elemento fundamental para a reflexão sobre esse modo de produção teatral. Desde os anos 80, a expressão teatro de grupo começou a circular de forma insistente no ambiente teatral brasileiro, fazendo-se, uma década depois, uma idéia comum que sempre aparece vinculada a um teatro alternativo. Aparentemente, este movimento – que surgiu no processo de democratização do final do século XX –, estaria conformado por um conjunto de grupos com características estruturais semelhantes, e relacionados com um tipo de projeto teatral bem definido, cujo principal valor residiria exatamente no seu sentido de grupalidade e de alternativa a um teatro que se organizaria a partir de premissas mais próximas aos modos empresariais de produção. No entanto, o contato com grupos espalhados pelo país3 permite afirmar que a idéia de que o teatro de grupo em sua totalidade é algo que se opõe aos modelos mais empresariais e que não se coaduna com a realidade observada. 1 2 3 Projeto Teatro de grupo: conformação de modelos de trabalho do ator. Núcleo de pesquisas sobre processos de criação artística fundado em 1997. O projeto do ÁQIS já entrevistou mais de sessenta grupos nas regiões Sul, Sudeste, Centro–Oeste. Professor do Programa de PósGraduação em Teatro da UDESC, Pesquisador CNPq PQ, diretor do Grupo Teatral Experiência Subterrânea. * 12 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto Muitos dos grupos que se identificam como parte do movimento do teatro de grupo têm estruturas de trabalho que mais se assemelham a empresas que ao antigo modelo do grupo amador, ou semi-amador, ou mesmo profissional, cujo elemento central é o coletivo e seu projeto estético e ideológico. A atividade dos grupos dos anos 60 e 70, que tinham como modelo o Teatro de Arena e o Oficina, definiu procedimentos de trabalho baseados no vigor militante e exerceu uma forte influência em grupos que trabalharam no período final da ditadura militar. Esse paradigma militante entrou em crise durante o processo de democratização de tal forma, que no início dos anos 90 presenciamos a predominância de um novo modelo de trabalho grupal. Essa nova geração de grupos, aparentemente carente de modelos de trabalho fortemente estruturados, dirigiu sua atenção para espaços de experimentação, mas uma das marcas que nos ajuda a compreender essa tendência foi a relação com a própria noção de grupalidade. Isto implica dizer que o grupo, enquanto estrutura organizativa e forma geradora do trabalho criativo, passou a constituir um ponto-chave nesse processo. Um exemplo importante que se relaciona com essa mudança de foco se refere ao fato de que, se antes os grupos buscavam sedes para poder estabelecer relações com as comunidades dos bairros – fenômeno característico dos anos 70 em São Paulo –, a sede passou a representar, nos anos 90, o lugar de treinamento e reunião a partir do qual o grupo articula seus projetos espetaculares e pedagógicos. Lugar onde o grupo se funda cotidianamente como unidade criativa. Mas este não é o único elemento que caracteriza o processo do final do século XX. A adoção de processos de produção que incorporam procedimentos do mundo dos negócios é um componente-chave neste contexto. Por isso, atualmente, não surpreende a capacidade que alguns os grupos têm de navegar pelos meandros dos processos de financiamento da produção. Isso se dá especialmente a partir do treinamento a que todos os realizadores teatrais foram submetidos pela existência quase onipresente das leis de incentivo à cultura como forma de financiamento da produção. Grupos de Teatro no Brasil: convergências e divergências | 13 Hoje em dia a incorporação da lógica da administração se fez algo natural, e por isso já não estranhamos o fato de que grupos teatrais modulem suas práticas a partir de princípios do marketing. Como hábito adquirido no permanente elaborar de projetos, os grupos dialogam com facilidade com uma categoria que no universo dos negócios se chama razão instrumental. Por isso, ‘vender’ passou a ser algo muito mais complexo que convidar o público a passar pela bilheteria para adquirir seu ingresso. Vender significa, para os grupos, construir estratégias amplas de relação com empresas e com órgãos de fomento, através de instrumentos diversos. Aqui reside um primeiro aspecto importante para a compreensão do teatro de grupo brasileiro na atualidade: a relação entre criação de espaços de experimentação e as aproximações com modos operacionais do mercado da cultura. Espetáculo BR3 – Grupo Teatro da Vertigem 14 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto É necessário compreender como essas dinâmicas operam em paralelo com a articulação de discursos coletivos que pretendem construir um espaço alternativo, e que auto-reconhecem esse fazer teatral como fala crítica ao sistema hegemônico. Desde o campo do teatro de grupo observa-se um discurso crítico que reconhece a carência de políticas públicas de fomento permanente da atividade teatral. O uso dos mecanismos tais como leis de incentivo à cultura e editais constitui hoje alternativas quase únicas no nosso panorama. Mas os grupos, obrigados a fazerem uso destes instrumentos, se vêem comprometidos com uma trama complexa. O dilema fundamental é que as empresas e os agentes financiadores (FUNARTE, Prefeituras, etc.) através de suas comissões de seleção terminam por estabelecer os parâmetros que permitem acesso aos recursos e assim condicionam a elaboração de projetos. Neste sentido, é pertinente perguntar se a abundância de projetos que apresentam nos seus argumentos discursos sobre o papel social da proposta, listagens de contrapartidas oferecidas para populações em condição de risco, ou mesmo o planejamento de práticas pedagógicas abertas à comunidade, o fazem porque isso constitui um elemento-chave da vida do grupo e de seus processos de criação, ou porque isso pretende atender as expectativas do agente financiador com vistas à aprovação do respectivo projeto para se ter acesso aos recursos disponíveis? Não é possível discutir o teatro de grupo sem tocar este complicado tema, dado que existe uma forte presença de projetos dessa natureza que estão associados à idéia do grupo como lugar de realização de uma prática teatral distinta, que tem um sítio político mais definido caracterizado como de resistência cultural no contexto nacional. Outro aspecto que é importante discutir quando falamos de teatro de grupo nasce da percepção de que este teatro seria distinto daquele feito pelos grupos de teatro e característico dos anos 60 e 70. Ainda assim, não existem elementos que permitam delimitar um campo homogêneo deste teatro. Algumas características que aparecem de forma insistente quando pensamos os projetos Grupos de Teatro no Brasil: convergências e divergências | 15 grupais da atualidade remetem à associação entre projetos de criação cênica, articulação de práticas pedagógicas, referência no grupal como mecanismo de autonomia, identidade e resistência, e, sobretudo, consciência de que este projeto se distingue de outros procedimentos coletivos, pois busca um lugar específico. Isto implica dizer que pertencer ao teatro de grupo é, antes de mais nada, estabelecer um lugar de identidade auto-definido pelos próprios grupos. Por isso vemos sob a mesma classificação conjuntos quase familiares conformados, por exemplo, por marido e mulher, que organizam suas produções convocando atores para cada ocasião; grupos com grande quantidade de membros que administram seu trabalho por meio dos procedimentos de cooperativas; grupos cujos membros têm uma associação sem fins de lucros e contratam atores com carteira de trabalho assinada para gestão quase empresarial de suas montagens; grupos que, carecendo inclusive de estrutura jurídica regularizada, trabalham nos moldes dos grupos amadores dos anos 70, como nos tempos da Confederação Nacional de Teatro Amador (CONFENATA); grupos que são reconhecidos como tais pelos pares, mas que estão conformados por um diretor que detém uma marca e monta espetáculos com diferentes atores segundo as circunstâncias; grupos cuja rotação de componentes faz com que periodicamente sua composição se renove quase completamente. Espetáculo BR3 – Grupo Teatro da Vertigem 16 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto Ainda existiriam outras formas organizacionais que se situam no terreno do teatro de grupo, mas isso parece não ser fundamental para aqueles que se enquadram neste contexto. Algo os reúne e cria um sentimento de pertencimento que parece suficiente para construir um campo específico dentro da cena brasileira. O que cimenta este lugar parece ser, especialmente, a idéia de que este conjunto diverso e multifacético reúne majoritariamente aqueles realizadores que se percebem opostos a uma lógica empresarial na qual predominaria um agente contratante que regeria a empresa teatral. Mas, existiria tal empresa no conjunto do país? Isso ainda representaria um modelo de hegemonia como foi até os anos 70? Hoje, aquilo que poderia ser considerado um teatro empresarial, a empresa do entretenimento nos palcos, seria aquele teatro associado ao sistema da fama televisiva. Estaria ali a hegemonia à qual se opor? Não é possível analisar essa situação complexa buscando uma dicotomia radical. Observando a complexidade dos diferentes ambientes teatrais do país, onde convivem realidades muito díspares, é possível dizer que não se pode identificar de fato um ‘sistema teatral brasileiro unificado’. Se o fazemos, não é mais que como instrumento didático. Pensamos um ‘teatro brasileiro’, mas ele é apenas a somatória de uma enorme quantidade de modos de produção e de uma diversidade na qual convivem modos de produção muito distintos. Em todas as zonas do Brasil conseguimos identificar agrupações que reivindicam o lugar do teatro de grupo. Isso implica colocar, aparentemente, em um mesmo lugar um conjunto do Acre, que com recursos da ordem dos vinte mil reais realiza uma produção, e um grupo paulistano que necessita de valores muito superiores para poder montar seus espetáculos, além de contar com o suporte da lei de fomento municipal para sua manutenção permanente. Essa disparidade não ocorre apenas no plano dos recursos financeiros. As diferenças de acesso às informações e as chances de intercâmbio com outros modelos espetaculares, bem como outros modos de produção, constituem finalmente contextos extremadamente distintos no que se refere à própria compreensão do lugar do teatro de grupo. Grupos de Teatro no Brasil: convergências e divergências | 17 Para aqueles cujo acesso às relações claramente empresariais não passa de uma narrativa distante, o convívio com algumas práticas do âmbito da relação produtor-empregado não parece algo a ser criticado. Enquanto nos ambientes onde a distância entre uma prática teatral independente e as relações empresariais (seja nos palcos ou nos estúdios) é mais próxima se verifica um reforço do discurso crítico, mas também uma maior permeabilidade no que se refere à utilização de procedimentos de produção empresariais. Um exemplo claro disso pode ser observado no esmero da realização dos books e dos websites dos grupos. O instrumento do marketing reconhecido como ferramenta inevitável para a sobrevivência é incluída como componente-chave da atividade grupal na atualidade, pois a fronteira entre empresa e projeto grupal se estreita de forma extrema. Onde começa o mundo do negócio? A partir de onde é o projeto artístico que domina? Existe uma fronteira a ser delimitada? Esse dilema é hoje central no contexto do teatro de grupo que se estrutura como discurso alternativo, como fala criativa de resistência, mas que não pode escapar das tensões geradas pelo sistema de financiamento que domina nosso contexto político-cultural. Dentro desse mundo de tensões ainda é pertinente nos perguntarmos sobre questões técnicas e estéticas. Existe no teatro de grupo um conjunto de procedimentos técnicos ou de projetos estéticos que permitem delimitar um universo com certa especificidade? Outra vez a idéia de diversidade impera e dificulta uma delimitação clara. A pesquisadora Rosyane Trotta afirma que vários grupos, tais como o Galpão, Oi Nóis Aqui Travéiz, Imbuaça, Teatro de Anônimo, Quem tem boca é prá gritar, tomaram como referência da Antropologia Teatral4 a noção de teatro A primeira visita de Eugenio Barba (1987) organizada pelo Instituto Nacional de Artes Cênicas (INACEN) gerou mudanças no que diz respeito à adoção de novos elementos técnicos. Apesar das controvérsias, a partir deste evento, e das subseqüentes visitas de Barba e dos grupos relacionados com o projeto da Antropologia Teatral (AT), se abriu um diálogo intenso entre as formas e modos de trabalho de vários grupos do Brasil e as referências dos europeus. Hoje em dia, passados já quase vinte anos dessa visita, podemos dizer que a difusão das idéias de Barba representou uma ruptura – ainda que não central – com a 4 18 Espetáculo Pequenos Milagres – Grupo Galpão | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto de grupo como um elemento de identidade (2005), como algo que permite perceber um espaço de pertinência bastante delimitado ainda que não restritivo. A experimentação sobre o trabalho do ator caracterizou o movimento do teatro de grupo no final do século XX. Os grupos Galpão de Belo Horizonte, Oi Nóis Aquí Travéis de Porto Alegre, a Companhia do Latão de São Paulo, Lume de Campinas, Teatro da Vertigem cumpriram um papel central neste período discutindo questões relacionadas com o ator e com as formas do trabalho grupal. Delimitar o trabalho dentro do campo do teatro de grupo significou para estas agrupações definir um âmbito particular no contexto teatral, e linha histórica do movimento dos grupos brasileiros, pois isso contribuiu para instalar no ambiente dos grupos uma série de procedimentos técnicos que se caracterizam pela ênfase no treinamento do ator e nas práticas inter-culturais, bem como na implementação de projetos pedagógicos. Grupos de Teatro no Brasil: convergências e divergências | 19 assim, estabelecer novas relações com os padrões hegemônicos, construindo mecanismos de sobrevivência e uma nova situação no quadro da cultura nacional, a partir de experimentações sobre modelos de teatro baseados no trabalho do ator. Um dos pilares do teatro de grupo é uma noção de ator que está centrada na produção de experiências técnicas fundadas na prática do treinamento. A partir disso nasceram os elementos-chave das poéticas dos grupos. A idéia de que o ator produz com seu trabalho elementos axiais da dramaturgia dos espetáculos coletivos fez comum o uso da expressão “ator compositor”, isto é, um ator que funciona como ponto de ancoragem do trabalho coletivo. Este novo olhar sobre o ator esteve apoiado na idéia de treinamento ou, melhor, de uma preparação permanente que operasse como elemento propulsor de um espaço social diferenciado para o ator e para o grupo. Este ator do teatro de grupo seria capaz de reinventar-se e de inventar o próprio trabalho grupal. Esta disciplina regida por uma ética coletiva procura fazer do projeto teatral uma prática estritamente relacionada com o próprio sentido da vida. Esta nova perspectiva para o trabalho grupal significou a abertura de um espaço social e político, e foi, sem lugar para dúvidas, o que mais repercutiu como referência modelar para os grupos no período. Com a aparente dissolução da herança das lutas políticas, o lugar de contestação ocupado pelo grupo, característico dos anos 60 e 70, foi substituído por novos elementos de coesão muito mais relacionados com o trabalho específico do teatro. As práticas de pesquisa e preparação técnica, e uma dramaturgia nascida do trabalho criativo do ator, constituíram então um ponto de apoio alternativo que se apresentou como uma via possível para a reagrupação dos coletivos sem, no entanto, negar um lugar ético que situa os grupos em relação ao estado das coisas na vida do país. 20 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto Referências BURNIER, Luis Otávio. “Primeiras reflexões sobre o trabalho de Eugenio Barba”. In Boletim informativo INACEN, ano II, 2ª. Série, n. 9, outubro de 1987. FERNANDES, Silvia. Grupos teatrais, anos 70. Campinas: Ed. Unicamp, 2000. GARCIA, Silva. Teatro da militância. São Paulo: Perspectiva, 1992. MICHALSKI, Yan. “Eugenio Barba no Rio: azar e rigor”. In Boletim informativo INACEN, ano II, 2ª. Série, n. 9, outubro de 1987. TROTTA, Rosyane. “Eu não sou um realista”. In Boletim informativo INACEN, ano II, 2ª. Série, n. 9, outubro de 1987. Teatro de Grupo: utopia e realidade. (no prelo). 2005. Grupos de Teatro no Brasil: convergências e divergências | 21 A DIALÉTICA DAS CONDIÇÕES E A FATURA ESTÉTICA NO TEATRO DE GRUPO Kil Abreu* Especular a respeito das convergências e divergências do teatro de grupo no Brasil quanto aos processos e resultados artísticos é tarefa espinhosa, e por diversos motivos. Primeiro, porque apesar do grande volume de reflexão que se tem produzido nos últimos anos – através da pesquisa acadêmica, um pouco menos da crítica jornalística e, sobretudo, através dos esforços de registro dos próprios grupos – não nos parece que haja muita disposição para o enfrentamento de poéticas, a comparação entre os achados formais e a discussão do pensamento que o trabalho criativo gera. Seja por causa do tempo dedicado às coisas úteis da vida, como a definição das estratégias de circulação dos trabalhos, fator hoje imperioso sem o qual uma parte dos grupos não sobrevive enquanto tal; seja por causa de certa tendência à especialização, também muito característica da época, que acaba ensimesmando o fazer porque o resultado estético pede competência técnica e a competência carece de treinamento e dedicação; seja por causa de certo comportamento igrejeiro, que isola alguns de nossos melhores coletivos nos limites firmes das suas convicções; o fato é que o debate só se incendeia provisoriamente, mantendo-se hoje muito mais vivo – e, portanto, com chances mais efetivas de tornar-se produtivo – nos terrenos vizinhos ao da criação propriamente dita. É o caso do “diálogo” que se tenta firmar na área das políticas públicas para o setor, em que estão pautados os instrumentos disponíveis de fomento ao teatro, a partir das suas contradições, diferenças e propósitos. * Jornalista, crítico e pesquisador. Atualmente escreve para a revista Bravo! Compõe o júri dos prêmios Shell e da Cooperativa Paulista de Teatro. Coordena o Núcleo de Estudos do Teatro Contemporâneo da Escola Livre de Teatro de Santo André e é curador do Festival Recife do teatro nacional. 22 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto As notas que seguem são, portanto, um tatear na direção dos pontos de contato e mais das diferenças que das divergências destes aspectos que colocamos em pauta aqui, visto que a divergência se explicitaria apenas com a tomada de posição em relação ao contexto. Grupo/agrupamento – a primeira coisa é que um Grupo de teatro – nos sinaliza a prática dos anos recentes – não é o mesmo que um agrupamento de artistas que se reúnem para fazer um trabalho determinado. O que marca a existência do grupo, no sentido que nos interessa, é uma Experiência comum colocada em perspectiva. Qual seja, a de um tipo de organização que não tem como finalidade a criação pontual de um evento artístico, ainda que um evento, um espetáculo, por exemplo, possa estar entre os planos, como, de fato, quase sempre está. Trata-se, antes, de um projeto estético, de um conjunto de práticas marcadas pelo procedimento processual e em atividade continuada, pela experimentação e pela especulação criativa, que pode inclusive se desdobrar ou alimentar desejos de intervenção de outra ordem que não a estritamente artística. Condições de existência Dito isto, o problema inicial, que nos impõe a necessidade de alargamento do olhar ao tempo em que já nos indica um primeiro contraste, é que uma visão equilibrada sobre as linguagens da cena de grupo pediria o reconhecimento das condições materiais de existência em que o teatro surge, Brasil afora. O capítulo dos recursos – e não apenas de apoio financeiro, claro – é suficientemente complexo para permitir o cotejamento pacífico entre resultados artísticos que contam com diferentes instrumentos de estímulo à formação, produção, circulação e fruição do teatro. Ou seja, se quisermos compreender de maneira ampliada o Teatro de grupo no Brasil – e se, ao perguntarmos sobre isso, pensarmos que este país não é apenas um determinado recorte no mapa –, será preciso considerar antes de tudo que os contextos de sustentabilidade têm, por vezes, descompassos dramáticos, ainda que estes não sejam novidade, porque somente reiteram a Grupos de Teatro no Brasil: convergências e divergências | 23 lógica das oportunidades sociais, arquitetada, como sabemos, sobre as infinitas formas de perpetuação da desigualdade. Então, as condições de produção de um grupo de teatro no Acre, no Maranhão ou no Pará não são as mesmas de um grupo em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Minas ou em Porto Alegre. Se nestes últimos Estados já é possível vislumbrar uma cultura política mais permissiva a instrumentos que têm facilitado muito a infra-estrutura para a mínima sustentação dos coletivos, assim como têm colocado o teatro mais próximo do lugar de arte pública; nos primeiros em geral permanecem as formas ilusórias de fomento, baseadas no falso mecenato, que serve mais aos planos dos próprios governos – que insistem em ocupar o lugar de produtores culturais, que aos artistas e à população. Dialética das condições Sem precisar desmenti-lo, é necessário, entretanto, desconfiar da certeza do juízo acima, em um certo aspecto. Porque a realidade é quase sempre mais complexa que o esquema, de maneira que é possível encontrar no trabalho de um mesmo grupo a pressão de forças que levam determinadas condições ou princípios a um resultado estético que visita, em uma ou outra direção, o seu contrário. Se olharmos, por exemplo, para o último espetáculo do grupo Cuíra, de Belém (PA), “PRC-5, a voz que fala e canta para a planície”, de Edyr Augusto e encenação de Wlad Lima, veremos ali, a despeito da frágil rede de apoio à produção local, um trabalho em que as características da pesquisa são notáveis, valorizadas em cena pela defesa firme dos intérpretes e pelo esmerado acabamento plástico do trabalho. Se formos procurar um pouco mais no entorno, descobriremos que, como qualquer outro grupo do sudeste que caminhe amparado por Espetáculo PRC-5, A voz que fala e canta para a planície – Grupo Cuíra 24 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto subvenção pública, o Cuíra tem espaço próprio e conseguiu formar uma platéia cativa, nas suas concorridas apresentações. O fôlego das temporadas ainda é curto, mas também está bem acima da média de permanência em cartaz se for considerada a realidade do norte/nordeste. Uma espécie de desvio feliz na ordem reinante, portanto. Que se sustenta como exceção, mas, claro, não abole as diferenças, que permanecem como regra. Lideranças artísticas, colaboratividade e grupos sem centro Um outro aspecto interessante, relacionado com a organização interna dos grupos, é o de quanto é decisivo para a vida do coletivo e para a experimentação estética a existência de uma liderança artística forte, com a qual os demais componentes atuam; e de como, por vezes, essa liderança é Espetáculo 3x3 – praticamente dispensada, em favor de uma dinâmica que ora promove Núcleo Bartolomeu o rodízio pelas diversas funções criativas (por exemplo, grupos que de Depoimentos a cada trabalho experimentam a direção de um dos integrantes, como no último projeto do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos,”5X4 – Particularidades coletivas”(SP); ora convida outros artistas para interferirem na elaboração de um trabalho determinado (como tem feito o Grupo Galpão, de MG, nos seus últimos espetáculos, nas áreas da direção e dramaturgia). Exceção feita a algumas companhias que se mantém em modos mais tradicionais de criação – normalmente tendo uma dramaturgia pré-existente como base e as funções artísticas bem definidas e com pouca mobilidade (o grupo TAPA, de São Paulo, é exemplar neste modelo, pelo nível de excelência artística das Grupos de Teatro no Brasil: convergências e divergências | 25 produções), boa parte dos grupos tem experimentado ou inventado possibilidades para a prática colaborativa de trabalho, que segue como uma espécie de mecanismo regente. Isso, no entanto, não significa que sob este rótulo os processos se igualem. Ao contrário, são múltiplas as maneiras como a colaboratiEspetáculo Cindi Hip Hop– Núcleo Bartolomeu vidade se dá e elas dependem muito dos propósitos específicos de de Depoimentos cada grupo, às vezes mais concentrados na exploração dos materiais e dos aspectos específicos da linguagem teatral (por exemplo, a Cia. Balagan e o grupo Lume, de SP, a Oficcina Multimedia, de MG, a Usina Contemporânea de Teatro, do PA); e por vezes mais interessados na articulação entre forma artística e processo social, como a Cia. do Latão e Folias Darte, de SP, e o Centro de Pesquisa teatral, de PE. Ainda que este tema já tenha sido suficientemente explorado, cabe esclarecer que nos processos colabo-rativos há uma relação evidente com os princípios de uma criação coletiva. Aqui, porém, preserva-se o procedimento do trabalho compartilhado, mas respeita-se a especificidade das funções criativas, mesmo que haja uma permeabilidade grande na troca dos materiais de criação – por exemplo, dos atores em direção ao dramaturgo e vice-versa. É essa relação, baseada nas provocações mútuas, que caracteriza o processo colaborativo, e é aqui que a cultura de grupo tem encontrado, por opção ou necessidade, novas saídas formais no campo da pesquisa de linguagem e novos modos de aproximação com a realidade. Um flagrante ponto de encontro entre os diferentes processos colaborativos está na sala de ensaio, mas antecipa-se na ante-sala da criação. Salvo engano, parece que o aprendizado da criação compartilhada (aqui é preciso mesmo 26 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto forçar a expressão ao limite, porque em tese toda criação teatral seria um movimento de partilha) força necessariamente um tipo de apropriação, por parte de todo o grupo, mais generosa e mais fluida dos materiais que vão à cena e do debate de idéias que está em pauta. Então, não seria exagero creditar à força de algum idealismo que é cultivado nesses processos um rasgo de socialização da experiência, que é muito evidente hoje, em São Paulo, por exemplo. E que já teve influência decisiva na discussão da política pública para o teatro, com a criação de uma Lei municipal que, não por acaso, coloca em perspectiva o abrigo ao trabalho continuado e à criação de meios que oportunizem o acesso desse trabalho à população. Sem importar muito, no caso, o que vem antes e o que vem depois, parece que há esta abertura modesta e valiosa para processos mais politizados, mesmo quando o interesse do grupo não se alinha às coordenadas do teatro engajado. Quando um grande encenador com a fama e condição paradigmática de Antunes Filho se auto-intitula “supervisor” de um experimento, algo realmente novo está acontecendo. Dramaturgias em trânsito e desvios de gênero Há muitas variações e novidades que resultam destes procedimentos. Algumas delas deixam para a crítica farto material de investigação. É o caso da chamada “dramaturgia do ator”, difundida na prática do teatro profissional e estimulada quase que como método de criação nas escolas de teatro, a ponto de praticamente definir um gênero na cena atual. Trata-se de uma “dramaturgia pessoal” que muitas vezes não dispensa o coletivo, fazendo valer o diálogo entre a expressão íntima, base das narrativas, e o suporte estrutural do grupo. Nesta linhagem, muitas vezes marcada por certo lirismo suspeito e vocação forte para o ensimesmamento, há projetos de grande sofisticação quanto à linguagem cênica, como se pode ver em três trabalhos comoventes do grupo Espanca, de MG: Por Elise, Amores Surdos e Congresso Internacional do Medo. Neste caso, o fundamental é que a lírica que dá o tom dos espetáculos é Grupos de Teatro no Brasil: convergências e divergências | 27 compensada por uma ordem objetiva muito disciplinada, que trata o ordinário da vida cotidiana em chave de linguagem extra-ordinária, nas fronteiras do non-sense. De todo modo, a problemática destes processos, especialmente a valoração da fatura estética, ainda está por ser explorada. Um outro aspecto interessante, que percorre dois caminhos dentro das dinâmicas de criação dos grupos, é o da busca de certa unidade estrutural ou de estilo na dramaturgia (entendida agora na sua relação umbilical com o espetáculo) e o assumir deliberado de estruturas que, pela própria vocação do processo que as gerou, assumem o fragmento e a descontinuidade como elementos fundamentais da narrativa. O curioso é que o trânsito entre um e outro procedimento quase sempre se dá na trajetória de um mesmo grupo. Tomemos como exemplo dois grupos de São Paulo: a Cia. do Latão e o teatro da Vertigem. No primeiro, em que o legado brechtiano já evidencia um trabalho necessário com a forma fragmentada, a Companhia tanto pode radicalizar esta visão caleidoscópica sobre a realidade, em estrutura e recursos estilísticos, como o faz em Equívocos Colecionados, a partir da obra de Heinner Muller; quanto pode buscar fundamente a unidade de estilo, sobretudo nas peças Espetáculo Bê-a-Bá Brasil: Memória, Sonho e Fantasia – Grupo Oficcina Multimédia Espetáculo Bê-a-Bá Brasil: Memória, Sonho e Fantasia – Grupo Oficcina Multimédia autorais. Inspirados no marxismo como princípio filosófico e em Brecht como modelo de um sistema teatral capaz de problematizar a vida em sociedade, os integrantes do grupo escreveram uma dramaturgia que guarda na própria forma o espírito do processo que a gerou. A intervenção viva dos atores através dos improvisos, procedimento que estimulou boa parte da escritura, é implícita à dinâmica das peças e indica claramente a origem do material – o trabalho em sala de ensaio – e a sua vocação: o palco. A colaboração variada, entretanto, não dispensa o esmerado acabamento literário a que se dedicou a dupla de diretores-dramaturgos Márcio Marciano e Sérgio de Carvalho, que procuram a unidade de estilo, e correspondem sempre ao propósito fundamental do grupo, a que servem este e todos os outros meios poéticos empregados: o de representar o mundo como coisa transformável, sendo a transformação da realidade vista como fruto do esforço coletivo. O caráter experimental da criação, no caso, não se confunde com o esteticismo aleatório. Toma o lugar de método através do qual se busca contrastar os movimentos do capitalismo hoje em modos críticos de representação. O teatro da Vertigem, por sua vez, experimentou tanto a geração de materiais que – em que pese o espírito de criação coletiva –, tiveram a forte marca autoral de seus dramaturgos, como em O Livro de Jó (Luis Alberto de Abreu) e BR-3 (Bernardo Carvalho), quanto processos que levaram a resultados em que a impureza de gêneros e estilos é assumida na forma e coloca-se no primeiro plano, como fator constituinte dos sentidos. É o caso de Apocalipse 1,11, texto final de Fernando Bonassi: O que resulta desta experiência dos atores, dramaturgo e encenador no submundo de São Paulo, em cotejo com a passagem bíblica que dá título ao espetáculo, é uma dramaturgia naturalmente estilhaçada, em que a profusão e mistura de gêneros, tons e modos estilísticos é resultado necessário de um projeto escrito a dezenas de mãos, corações Grupos de Teatro no Brasil: convergências e divergências | 29 e mentes, ainda que o filtro final seja operado pelo dramaturgo (que se autodenomina “um dos” autores). A marca performática, com aproximação deliberada entre ficção e realidade, é o que totaliza e dá unidade à montagem, sem nunca, porém, esconder a sua assumida descontinuidade formal. Pesquisa de linguagem que resulta em uma espécie de poética da mistura.1 Pós-dramático sem drama Por fim, é interessante notar como esta nova cena, seus movimentos de convergência e, também, suas diferenças dialogam muito intimamente com conceitos em voga, como o de teatro pós-dramático ou rapsódico. O importante, aqui, talvez seja verificar que, se o conceito encontra a prática, é porque, ao menos neste caso, o primeiro veio em direção a esta, e não o contrário. Produto de processos compartilhados, é provável que este “teatro de coro” invente de algum modo, por força das suas circunstâncias de produção, uma alternativa brasileira, necessária, ao drama e mesmo a formas modernas mais avançadas, como a épica brechtiana. É assim que estas teses sobre expressões dissonantes podem ganhar, no capítulo brasileiro, uma leitura que não vem da teoria do teatro, mas, talvez, da economia política. Feito o desvio do contexto socioeconômico para o estético, parece adequado dizer, com o sociólogo Francisco de Oliveira, que o Brasil atual é uma espécie de ornitorrinco, aquele animal que não é nem uma coisa, nem outra. Na tentativa de flagrar o que determina a sociabilidade brasileira em particular, vamos experimentando, pelas condições dadas, cruzamentos traduzidos em estruturas inusuais. Então, às incongruências entre gêneros e ao hibridismo da narrativa corresponde a incompletude histórica, mimetizada na forma. As estranhezas que se criam revelam, no campo estético, as falhas e descontinuidades do campo social, às vezes mais, às vezes menos criticamente. Abreu, Kil. Próximo Ato – Encontro Internacional de teatro contemporâneo. Itaú Cultural, São Paulo, 23/ 05/2007. 1 30 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto Impossibilitados historicamente de cumprir o drama exemplar e as estruturas teatrais modelares, talvez venha dos coletivos alguma originalidade possível, constituída a partir das vozes múltiplas que forjam essas formas impuras, à procura de definições. Esses desvios que se instalam na representação não estariam distantes dos impasses de identidade do próprio país. Nesse sentido a cultura de grupo também se oferece como um excelente problema crítico, porque, ao invés de vermos nessas experiências prováveis erros de construção, talvez seja preciso considerá-las como evidências conseqüentes de um teatro que encontra na incompletude o modo mais original de dizer o seu lugar e a sua época, ou seja, de dizer sobre a sua historicidade.2 Espetáculo O Círculo de Giz Caucasiano – Cia. do Latão Abreu, Kil. Próximo Ato – Encontro Internacional de teatro contemporâneo. Itaú Cultural, São Paulo, 23/ 05/2007. 2 Grupos de Teatro no Brasil: convergências e divergências | 31 GRUPOS DE TEATRO NO BRASIL: convergências e divergências Rosyane Trotta* Em sua quarta edição, a Revista Subtexto apresenta um panorama do teatro de grupo brasileiro. Para tanto, buscou em cada estado ou região um artista ou pesquisador e solicitou que os autores dos artigos preenchessem um quadro sobre as leis de incentivo, as entidades representativas, o número de grupos e de espaços geridos por grupos. O objetivo do presente artigo é fazer uma análise deste mapeamento. A primeira divergência, que salta aos olhos desde as primeiras páginas, diz respeito à falta de parâmetros comuns de análise entre os observadores. Fica claro que a Subtexto deixou a cada pesquisador a eleição de seus próprios critérios, sem definir o que se entende por teatro de grupo ou a que tipo de grupo se deveria referir a pesquisa. Assim, enquanto a articulista do Pará contabiliza 93 grupos, incluindo todas as formas de associação artística e cultural, como as agremiações de danças dramáticas, a articulista de Rondônia se limita a mencionar 5 grupos e deixa claro que seu critério é o teatro de pesquisa. Trata-se claramente de uma diferença de pontos de vista: a primeira autora se define como performer e pesquisadora de dança dramática; a segunda é diretora de teatro. O propósito da pesquisa encomendada pela revista parece ter sido acercar-se da realidade de cada região. Seria de fato importante fazer um mapeamento no sentido de identificar – e divulgar – quais os estados e municípios possuem leis de incentivo em funcionamento, editais de montagem e/ou circulação, assim como grupos ligados a universidades, unidades do Sesc com projetos em vigor, grupos com sede aberta ao público. Mas este primeiro levantamento não permite fazer um estudo transversal da pesquisa porque nem todos os observadores * Pesquisadora e diretora teatral, dramaturgista da Cia Marginal (RJ) e autora da tese A autoria coletiva no processo de criação teatral (Uni-Rio, 2008). 32 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto fornecem tais informações e nem todos os que fornecem as informações focam o mesmo objeto. O que se entende por “entidades representativas”, por exemplo, varia bastante. Alguns artigos se dedicam mais à reflexão ideológica e ética sobre a definição e os limites do teatro de grupo do que propriamente ao levantamento de dados concretos – possivelmente porque tais dados não estão acessíveis ou porque os articulistas não puderam empreender uma investigação neste sentido. Sete dos textos apontam para o problema da instabilidade na composição dos conjuntos, que se mantêm graças à permanência de um núcleo ou de um diretor incansável que se vê obrigado a recompor periodicamente seu elenco. Alguns destes textos fazem um questionamento sobre a pertinência de, em tais circunstâncias, nomear como “grupo” um conjunto que não se define pela continuidade de seus componentes e projetos. Será que a falta de continuidade atinge apenas sete estados? Se os outros textos não abordam este aspecto, isto significa que as demais regiões não conhecem o mesmo problema? Parece que não. A divergência entre os panoramas apresentados não corresponde necessariamente a diferenças regionais: apenas significa que a maioria dos autores não se dedicou a contemplar a questão. Da mesma forma, o fato de apenas um artigo afirmar que as entidades de classe se destacam “muito mais pelo ideal que as faz existir do que propriamente por suas realizações e conquistas” (p.29) não quer dizer que nas demais localidades tais entidades sejam atuantes. Em resumo, uma das dificuldades de uma análise transversal é distinguir o olhar do observador e o objeto de análise. Diante da falta de normatização da observação e de acesso à informação, as abordagens variam de acordo com a visão pessoal do articulista. Em alguns casos, no entanto, ela pode comprometer a credibilidade do artigo e, por extensão, do próprio levantamento proposto. O texto referente ao estado do Acre, por exemplo, faz parecer que existe apenas um grupo em atividade contínua, ao qual pertence a autora. Como o estado possui uma Federação de Teatro, dez casas de espetáculo na capital e uma lei de incentivo que disponibiliza um milhão de reais, restam dúvidas sobre as incongruências entre Grupos de Teatro no Brasil: convergências e divergências | 33 as informações fornecidas e os dados das instituições oficiais, que não são mencionadas. Se, pela falta de conhecimento e pesquisa, a escrita do observador se contamina de subjetividade, talvez seja necessário recorrer a pesquisadores ligados a instituições, pluralizar as análises para confrontá-las ou exigir a citação das fontes de pesquisa. Os artigos publicados na Subtexto nº 4, mesmo que não permitam um mapeamento objetivo de seu objeto de análise, confirmam algumas características do teatro brasileiro. Em São Paulo e Minas Gerais há um forte movimento teatral liderado por grupos, assim como editais, leis de incentivo, e sedes que funcionam como salas de espetáculo. Na região Sul, os grupos vêm se fortalecendo, buscando atuação junto à política cultural, sendo fomentados por instituições de ensino e pesquisa. Nas regiões Centro e Norte, os grupos têm pouca continuidade em sua constituição, ao mesmo tempo em que desempenham papel importante (e único) na formação de público em uma região de pouca circulação e reduzido movimento teatral. Em Pernambuco, Paraíba e Bahia, o movimento teatral parece regular, com muitos artistas ativos, leis em vigor e espaços geridos por grupos. No restante da região, os poucos grupos existentes lutam com uma série de dificuldades, inclusive a falta de representação institucional. Por outro lado, há uma diferença significativa entre os centros que recebem migração – principalmente São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro – e as cidades que sofrem evasão. Em algumas regiões, a dissolução dos grupos está ligada ao próprio fluxo migratório, enquanto em outras se explica pela diversificada oferta de trabalho no mercado das artes e das mídias. Uma política cultural voltada para o incremento ao teatro de grupo não poderia ignorar a especificidade de cada caso. As convergências dizem respeito às condições que favorecem ou debilitam o meio ambiente do teatro de grupo. Os artigos mostram que a mesma lei, a mesma instituição ou o mesmo órgão que tem representação nacional, e que deveria funcionar com a mesma coerência em todos os estados da federação, têm atuação muito diversa em cada unidade. Em alguns municípios, eles são 34 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto fomentadores efetivos. Em outros, são ferramentas apenas potenciais, aguardando que um gestor realmente interessado e comprometido com a comunidade venha tirar os projetos da gaveta. Assim, as convergências apontam: • o papel das instituições públicas de ensino superior, que começam a estabelecer um diálogo entre teoria e prática, em projetos de pesquisa, produção e difusão; o papel dos projetos de fomento e circulação criados por algumas unidades do Sesc; • • a inoperância das leis de incentivo em função do desvirtuamento de sua aplicação, que beneficia projetos de marketing particular; • a desativação ou sub-atuação das entidades de classe. O quadro abaixo sintetiza as respostas aos quatro itens solicitados pela Subtexto. Os dados reproduzem as informações fornecidas sem interpretálas. No entanto, no item “espaços geridos por grupos ou entidades”, a maioria dos autores contabiliza não apenas aqueles abertos ao público como também o que André Carreira chama de “espaços de formação e de ensaio” (p.62), ou seja, espaços de uso privado e não salas de apresentação. Por isso, o quadro apresenta o título “sedes”, que parece condizer melhor com as informações fornecidas. (Alguns autores provavelmente se referem de fato a espaços de apresentação, mas não é possível precisar quais.) Sublinho mais uma vez que os dados fornecidos não podem ser tomados como equivalentes entre si, pois cada autor selecionou livremente seu campo de visão (é o que explica que Pernambuco tenha 11 entidades representativas, contra 3 de São Paulo). O quadro reflete tanto a diversidade brasileira quanto a diversidade de parâmetros. Estão marcadas com (X) as ausências de dados. Grupos de Teatro no Brasil: convergências e divergências | 35 Como última consideração, valeria a pena responder à questão levantada pelos articulistas que tratam da dificuldade em definir grupo a partir de uma realidade que os dissolve ao invés de fortalecê-los. Aceitar e praticar um conceito a partir daquilo que a história neoliberal vem produzindo é apenas disseminar sua eficácia. Parece evidente que estamos diante da necessidade de afirmar uma definição qualitativa de grupo, ainda que ela não seja quantitativamente majoritária. E quais seriam os elementos desta definição? O texto de André Carreira, que introduz o mapeamento, parece dizer o necessário. Os artigos que apontam os problemas endêmicos mencionam a rotatividade dos integrantes. Fala-se também do círculo vicioso produzido pelas leis de incentivo: curtos processos e curtas temporadas. Descontinuidade parece ser o maior sintoma no diagnóstico de debilidade do teatro. Por oposição, a palavra-chave do teatro de grupo está naquilo que gera e frutifica: continuidade de constituição, de formação, de criação, produção e circulação. Se este critério não contempla 36 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto a maior parte dos grupos atuais, certamente não será porque ela é muito restrita, mas porque os “grupos” se flexibilizaram demais às circunstâncias. Os movimentos que, desde o início dos anos 90, vêm instaurando fóruns de debate e ação conjunta, exercem uma função de formação ideológica e ética, para além das lutas que travam para obter êxitos imediatos. Difícil para todos estes protagonistas é injetar em sua classe e em si mesmos um objetivo mais largo do que obter melhores condições para ser o que já são. Optar por uma definição estrita de grupo não consiste em excluir aqueles que ela não contempla, mas projetar uma possibilidade de futuro, por mais que hoje ela pareça utópica. Grupos de Teatro no Brasil: convergências e divergências | 37 O CISMA E O SISMÓGRAFO Valmir Santos* Os trabalhadores do teatro, sobretudo aqueles vinculados a grupos, são conhecidos pela disponibilidade em protagonizar mobilizações, justamente, coletivas. É sina de classe: passeata, campanha, texto-manifesto, lá estão os artistas nas plenárias, nas ruas, nos folhetos ou na boca-de-cena dando seu recado após os espetáculos. Os colegas das artes plásticas ou do cinema, por exemplo, admiram essa vocação-cardume para fazer muito barulho por tudo. O poder dessa condição impulsionou momentos como o lançamento do Manifesto Arte contra a Barbárie, em 1999, fruto da vontade de alguns representantes de coletivos e entusiastas do teatro na cidade de São Paulo. Nos dez anos seguintes, compondo-se já o 2009 vizinho, o que se vislumbrou foi uma explosão sem precedentes da atividade dos grupos. A produção transcendeu ao centralismo político-econômico do Sudeste e alcançou outras regiões do Brasil, guardadas as proporções. Há muito a comemorar nessa década, portanto. A começar pela capacidade de ação no debate sobre a premissa de políticas públicas para a cultura, no geral, e para as artes cênicas, em particular. Leis e programas surgiram como marcos simbólicos, às vezes paliativos. Restam ainda – e sempre? – importantes avanços, revisões, ancoragens. E idem, idem, idem aos grupos e o papel que lhes cabe. Quando se trata de adotar uma perspectiva endógena, olhar para dentro, os representantes de grupos tendem a sublinhar as tensões ideológicas, idiossincráticas. Às vezes, chegam ao cisma. No Arte contra a Barbárie (que, curiosamente, jamais se definiu como movimento, conforme a constituição clássica, mas sempre resultou fonte norteadora aos seguidores), o refluxo ficou mais evidente já na primeira e emblemática vitória: a aprovação do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, na virada de 2001 para 2002. Nos primeiros editais, desdobraram-se os maldizeres de que * Jornalista e mestrando em artes cênicas 38 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto comissões múltiplas privilegiariam X em detrimento de Y, que aqueles coletivos embrionários do Manifesto seriam tratados com deferência, que determinado conjunto artístico fora contemplado mais de duas, três, quatro vezes. Isso porque o primeiro parágrafo da lei indica que seu objetivo é “apoiar a manutenção e criação de projetos de trabalho continuado”. A discussão veio a público, gerou mal-estar e provocou certo esvaziamento nas reuniões do Arte contra a Barbárie. Porém, súbito, diante da ameaça de extinção do Fomento numa mudança de turno na prefeitura paulistana, eis que ressurgiram os atores, diretores e demais profissionais com as energias fortemente concentradas para fazer frente ao balbucio de um secretário de Cultura descontextualizado do vespeiro em que tocava. Até o então prefeito fez questão de veicular na imprensa que não derrubaria uma conquista da classe teatral. Espetáculo Orestéia – Grupo Folias D'Arte O Arte contra a Barbárie transformou-se em fórum permanente de temas os mais variados, como a necessidade de reforma/ampliação na Lei de Fomento, a elaboração de um programa equivalente em nível nacional ou a crise de um espaço de grupo ameaçado de fechar por falta de recursos. Ao longo dos anos, a roda incorporou novas vozes, tantas foram as dezenas de coletivos que pipocaram, a dialogar com aqueles que estão na estrada há mais tempo. No entanto, a crise de fundo, o papel dos grupos, a consciência crítica para com a arte que apregoa, esta sim é continuada, não se tasca. Tanto que não passou despercebida, em plena adaptação de uma tragédia grega, a trilogia Orestéia, de Ésquilo, que o Grupo Folias D’Arte apresentou em sua sede, em 2007, como que expondo as próprias vísceras e a dos demais agrupamentos com os quais contracena em São Paulo. Não por acaso, o espetáculo carrega o subtítulo “O Canto do Bode”, lamento pela morte, mas celebração da vida em moto-contínuo. Para uma história paradigmática da relação do homem com a polis, suas implicações políticas, sociais e culturais na formação do chamado estado democrático, Grupos de Teatro no Brasil: convergências e divergências | 39 nada mais oportuno que pôr a angústia em relevo; clamar a “ira” como reação mais digna diante da pasmaceira, ausência de ação e de sonho nos dias e noites presentes. Há indícios de que o teatro de grupo brasileiro encerra um ciclo. A reta final desta primeira década dos anos 2000 flagra as razões econômicas em sobreposição às razões artísticas. O álibi é sobrevivência. Em nome dela, desembesta-se a correr atrás de patrocínios, leis de incentivo, programas de fomento e outras variantes municipais, estaduais e federais. A percepção é de uma obsessiva determinação em fazer projetos de teatro para disputar fatias do bolo em prejuízo de um teatro de projeto que dê sentido às ambições artísticas. Parte dos coletivos faz jus à sanha de certos produtores instalados no corredor paulistano da Avenida Brigadeiro Luís Antônio ou nos shoppings cariocas transformados em nichos lucrativos de diversão. Um modo de produção dúbio descarrila o trem da criação; expõe constrangimentos. Em linhas gerais, a revitalização dos grupos, nos moldes do que vemos hoje, tem seu fio em 1991, no 1° Encontro Brasileiro de Teatro de Grupo na cidade paulista de Ribeirão Preto, acolhido pela equipe local do Fora do Sério. No mesmo ano, nasce a Associação Movimento Teatro de Grupo de Minas Gerais, na capital mineira, que ampliou o olhar para a atuação no espaço público, ruas e praças. Uma parcela expressiva da atual boa safra de coletivos de Belo Horizonte é tributária indireta daquele momento. O segmento ganhou mais corpo no final daquela década, tomou pulso com o Arte contra a Barbárie e obteve outros contornos nacionais a partir do movimento Redemoinho, proposto pelo Galpão Cine Horto em 2004 e reinventado no meio do caminho, lá se vão cinco anos, também como acionador político, indo além da nomenclatura original Redemoinho – Encontro Brasileiro de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral. Todas essas iniciativas cabem sob o mesmo guarda-chuva Espetáculo Orestéia – Grupo Folias D'Arte 40 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto nas articulações dos conjuntos teatrais em solo brasileiro. E no calor do fechamento deste texto, citam-se ainda boas novas de duas articulações recémnascidas: o Arte contra a Barbaridade, um brado da capital gaúcha, e o Núcleo de Laboratórios Teatrais do Nordeste, o Nortea, ativismo de grupos das respectivas regiões que fazem supor mais alento e fé na atividade. Movimento Redemoinho encontro 2007 Na fase seminal, insinuou-se a busca de auto-afirmação de identidade. Conspirou-se para uma correlação de forças com os pares, a fim de conhecer o outro, seu modo de produção, procedimentos conceituais, estéticos, as afinidades ideológicas nem sempre eletivas, etc. Em seguida, as forças foram canalizadas para impasses estruturais, as conquistas de políticas púbicas mínimas, de modo a dar um rosto a essa produção (da qual a vigência da Lei de Fomento tornou-se paradigma histórico no país). Esse segundo momento teve como fórum privilegiado os encontros do Redemoinho. Ainda incipiente na primeira edição, Belo Horizonte-2004, e com mais ênfase nas rodadas seguintes: Belo Horizonte-2005, de novo, e Campinas-2006 e Porto Alegre-2007. Entre os assuntos dominantes, a luta por uma Programa de Fomento ao Teatro Brasileiro, o embate com as vicissitudes da Lei Rouanet e o exercício de lidar com as artimanhas do fazer político que se conhece, trânsito por gabinetes de deputados federais ou senadores, comissões e afins. Tudo legítimo, jogo jogado e imprescindível à democracia. Uma retrospectiva da trajetória recente dos grupos, porém, pede tocar em outras feridas mais, digamos, coronárias. Qual a idade da razão que os coletivos embrionários dos anos 90 Grupos de Teatro no Brasil: convergências e divergências | 41 teriam alcançado ou que estão na iminência de alcançar? Isso concerne mesmo àqueles remanescentes de duas, três, quatro ou cinco décadas atrás, uma vez que, a rigor, não há linha cronológica da arte que estanque as contaminações de correntes atemporais. A razão em pauta não se arvora absolutista, ao contrário, a dúvida lhe cai bem. À razão de viver, pressupõe a razão de fazer. São os preceitos, as filosofias, as melhores e as piores intenções que podem mover mulheres e homens na gestação do teatro. Diferentemente da calculada gestão atrás de subsídios públicos e privados, quase que tão-somente. Em temporadas mais férteis de boas criações, quer em São Paulo, quer no circuito dos festivais pelo Brasil, este autor, certamente ingênuo, fora mais otimista. A despeito da tendência dos grupos, chegou a anotar em texto de 2005: “São procedimentos catalisadores de uma identidade artística; de um desejo manifesto de afirmar o lugar do teatro na sociedade. Diz mais respeito a esses conjuntos, por exemplo, a investigação estética imbricada no modo de atuar, escrever, encenar ou conceber o espaço cênico. Importa dialogar com tradições, mas, principalmente, instaurar rupturas, experimentar novos caminhos. Trata-se de verticalidade da qual raramente se ocupam projetos refratários a um diálogo mais instigante com a platéia, que escape ao mais do mesmo”. Pois as coisas mudaram com brevidade. A floração de grupos transparece, na média, e paradoxalmente, a falta de qualidade e de consistência de muitos trabalhos. É aqui que o fim de um ciclo se insinua: a confusão de modos de produzir e de criar similares ao do mercado mediano que se conhece, embaralhando vestígios e auras da presumida arte do teatro de grupo no Brasil deste século 21. Nos encontros do Redemoinho, os vetores políticos e economicistas costumam catalisar de tal forma os debates, que pouco sobra para aferir linguagens em comum ou dissonantes. Conspiram para isso as urgências e carências do sistema cultural do país. O que se sugere é justamente uma guinada para o pensamento artístico que conduz à prática e à ética teatrais. Por que um grupo deve submeterse à pressão de prazos curtos que violem a construção do seu espetáculo? Um exemplo, hipotético. A verba do edital do Prêmio Myriam Muniz (MinC/Funarte) é liberada com atraso, meses depois, justamente quando sai do forno a aprovação 42 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto de um projeto “plano B” inscrito no Programa de Fomento de São Paulo. As atividades ou o espetáculo destinados ao Fomento saem calibrados, a equipe trabalha com um mínimo de dignidade em tempo, espaço, remuneração. Já o espetáculo a reboque do Myriam Muniz, este nasce a toque de caixa, pois é preciso cumprir metas do edital. E no meio dessa ciranda, desponta ainda um terceiro projeto com patrocínio incentivado. Uma frota “C” de artistas do conjunto, ou “terceirizados”, se esfola para dar conta de mais essa demanda. Em maior ou menor grau, não é raro encontrar tal dose cavalar. E os efeitos negativos são sentidos instantaneamente na cena e na recepção. A propósito, um contraste radical em relação a esses descaminhos vem de um coletivo chileno que participou da 3ª Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em maio de 2008, organizada pela Cooperativa Paulista de Teatro. Criado há menos de dois anos, o Teatro en el Blanco não aceita subsídios públicos. Seu diretor e dramaturgo, Guilhermo Calderón, alega independência para exercer a crítica política de sua arte em relação aos governos. O En el Blanco é formado por artistas egressos de outros grupos, alguns em âmbito universitário. De alguma forma, alimentam o espírito “amador” do ofício. Não quer dizer que esmolam. Recebem cachê, auferem bilheteria, enfim, eles se viram no contexto do sistema cultural do Chile. Aliás, o evento anual da Cooperativa Paulista tem exibido exemplos de grupos, veteranos ou jovens, que perseveram na coerência entre pensamento e prática. A fala de um Santiago García, o diretor do Teatro La Candelaria, fundado há 42 anos, é irretocável. Pode-se concordar ou não, mas seus artistas não dissociam a cena dos conflitos sociais, políticos e econômico de quem lutaram por um lugar ao sol na história contemporânea da Colômbia, e sem abrir mão de experimentar segundo suas convicções. No balanço do 4º Redemoinho (Porto Alegre-2007), publicado no jornal da própria rede, o autor destas linhas sentenciou que o teatro de grupo era “o mais vital e inventivo do Brasil contemporâneo”. Não recua. Mas é preocupante o estágio inconcluso, esboçado, quando muito, com que certos trabalhos são levados à cena por coletivos calejados ou de primeira viagem. O território está minando. E o sismógrafo ignora as condições para se produzir; o que lhe importa é ler o que vai pela cabeça e pelo coração de cada um dos coletivos. Grupos de Teatro no Brasil: convergências e divergências | Das armadilhas “Nós vivemos uma espécie de ressaca do humanismo. Eu acho que ou a gente se põe novamente de modo criativo, a gente encontra uma postura criativa e a gente ultrapassa a tutela da forma e aí a gente começa a encontrar a necessidade de qualificar força e de entender que força forte é força generosa, é força produtiva, é força dadivosa e não força violenta, que se apropria, que se apodera ou que cria poder. Nós temos uma idéia completamente equivocada do que é força, do que é potência. E onde há poder é preciso que o impotente o quê? É sempre impotente que quer o poder. Onde há potência o poder não cola. Ele não cola. Eu acho que é essa zona da experiência de nós mesmos que nós precisamos começar a instigar, a produzir. Talvez o teatro, assim como outras artes, tenha aí um papel importante. Mas não como uma função de engajamento. Não com uma intenção de produzir isso, porque você tem que produzir isso antes em você. Você tem que fazer de si um laboratório. Você tem que entrar numa zona de intensidade e não de intencionalidade, é o contrário. Talvez a gente tenha que se tornar desimportante. Tenha que desinvestir o reconhecimento. Tenha que quebrar os espelhos. Essa necessidade de existir pelo olhar do outro é constitutiva da sociedade moderna. E nós muitas vezes acreditamos nisso. E, claro, a arte está numa situação difícil porque a arte talvez seja a que menos receba investimento. A que mais precise criar uma espécie de identidade, de instância que seja reconhecida, justamente para captar recursos. Isso e uma pegadinha. Todo artista que se queixa: ‘Não temos verba, não somos reconhecidos, nossa arte não sei o quê’, deveria imaginar que isso é uma pegadinha. Deveria começar a pensar que isso é uma pegadinha. Que a queixa é uma péssima idéia. Só funciona para a gente mesmo entrar na gaiolinha que a gente investe.”* Trecho da fala final do filósofo Luiz Fuganti no debate “O Artista e a Rua: Pedagogia do Espectador”, realizado em São Paulo pela Companhia São Jorge de Variedades e parcialmente editado no número 6 do fanzine “São Jorges”, de 2008. * 43 Espetáculo Orestéia – Grupo Folias D'Arte Grupos de Grupos TeatrodenoTeatro Brasil: um olhar europeu e convergência e latino-americano divergência 46 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto | 47 EL TEATRO COMO METÁFORA SOCIAL Comentarios sobre el “teatro de grupos” en España um olhar europeu Grupos de Teatro: um olhar europeu e latino-americano Óscar Cornago* (CSIC-Madrid) La transformación de los modelos sociales y políticos a partir de los años ochenta terminó de consolidar una nueva época de liberalismo, economía de consumo y cultura del individuo, un “individuo” convertido en sí mismo en objeto de mercado. El adelgazamiento de lo social en beneficio de comportamientos individuales o, siguiendo las tesis del sociólogo inglés Zygmunt Bauman (1999), la invasión de lo público por lo privado puede seguirse en la evolución de los comportamientos escénicos desde aquellos años setenta, cuando se hablaba del Teatro Independiente. En ese momento la escena tenía una función de resistencia, a la que aludía el término “independiente”, vinculada a la creación de una identidad que expresaba unas utopías sociales, un proyecto político que se va a ir disipando a medida que avanzan los años ochenta y se extiende un clima de desencanto que marca la vida cultural desde entonces. El director y dramaturgo español Carlos Marquerie, en una entrevista incluida en Políticas de la palabra, se refiere al momento en que su grupo teatral, La Tartana, abandona los espacios públicos para encerrarse en las salas: en los ochenta se inicia un proceso de distanciamiento —de incomunicación— entre el teatro y la sociedad. Los escenarios de la política recurren, tanto en el plano oficial como artístico, a estrategias espectaculares que terminan dejando fuera de juego a los individuos, incluidos los creadores. No sólo se institucionaliza la política, también el teatro. La escena queda como un espacio * Pesquisador do Centro de Humanidades e Ciências Sociais do Conselho Superior de Pesquisas Científicas de Madri, Coordenador do Archivo Virtual de las Artes Escénicas. 48 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto para directores, autores y actores profesionales, donde no se busca el acercamiento al otro, sino un acto de exhibición de lo ya logrado.1 Este progresivo desencuentro tiene en los fastos del ’92 con la celebración del quinto centenario del descubrimiento de América en España, la Exposición Universal de Sevilla y los Juegos Olímpicos de Barcelona un hito simbólico. Todo ello coincide con la apertura de una década inaugurada con los casos de corrupción que terminaron con el Partido Socialista, que había liderado el proceso de normalización democrático en los años ochenta, tras la dictadura militar del General Franco (1939-1975). Tras su ajustada victoria en las elecciones generales de 1993, el Partido Popular sube al poder en 1996, consolidando una política conservadora que termina de agravar la fractura entre individuo y sociedad, o en un plano paralelo, entre creación escénica y entornos públicos, expresión del fortalecimiento a nivel internacional del neoconservadurismo al que se refería Margaret Thatcher ya en 1988 con aquel «la sociedad no existe». Éste es uno de los puntos de partida de nuestra historia teatral y social, cuando una vez más desde los años sesenta y setenta, la necesidad de replantear las relaciones entre lo privado y lo público, el yo y lo social, lo local y lo universal, el adentro y el afuera adquiere un tono de urgencia que resuena en los ámbitos de la creación escénica. Tras las energías y sueños colectivos de la Transición política hacia la democracia (1975-1982), el teatro de creación se encierra en las salas, pero su marginalidad ya no es la de aquel estar afuera del sistema social —teatral— institucionalizado, como lo fue en los setenta, sino una marginalidad permitida y subsidiada; para la política cultural va a resultar más rentable mantener estos espacios, exhibiéndolos como escaparate de una política que no se cierra al “teatro alternativo”, que abrirse a un diálogo efectivo con el panorama actual de la creación escénica. Mientras tanto, los todopoderosos teatros públicos y La información a la que remite este ensayo puede ampliarse en el libro de Óscar Cornago, ed., Éticas del cuerpo. Juan Domínguez, Marta Galán, Fernando Renjifo, Madrid, Fundamentos, 2008, y en el Archivo Virtual de las Artes Escénicas (http://artesescenicas.uclm.es). 1 Grupos de Teatro: um olhar europeu e latino-americano | 49 otros espacios institucionales pueden seguir con una programación de lo previsible, del teatro como ceremonia de reconocimiento y de la cultura como objeto de mercado. Las relaciones entre teatro y sociedad sirven como metáfora de lo que está ocurriendo en las relaciones entre individuo y política, y viceversa. Entre lo público y lo individual se produce un hiato, como dos bordes que pierden el contacto que en otro momento funcionó como utopía artística y también social. Una consecuencia de esta distancia es la dificultad para abordar temas políticos al margen de unas instituciones que han perdido, como el propio teatro, credibilidad, es decir, capacidad de comunicación. Los noventa son una década de desintegración, no sólo del tejido escénico que se había logrado hasta entonces (Sánchez 2006), sino también de desintegración del sentido público que había tenido el proyecto social heredado de la Transición, y como reflejo de éste, del proyecto de estructuración de las artes escénicas puesto en marcha con las instituciones democráticas. A medida transcurren los años noventa comienzan los recorridos en solitario, una especie de sálvese-quien-pueda escénico, los exilios hacia distintos puntos de Europa, de Óskar Gómez, La Ribot, Olga Mesa o Rodrigo García, o interiores, como Carlos Marquerie o Sara Molina. Si el teatro busca una identidad grupal en los sesenta y setenta, a cuyo imaginario aluden los nombres de formaciones de estos años, como Goliardos, Cátaros, Bululú, Ditirambo, Els Comediants o Els Joglars, ahora se dejan ver los creadores en primera persona, con nombres y apellidos; ya no es La Tartana, sino Carlos Marquerie, ni tampoco es Espetáculo Aproximacion a la Idea de Desconfianza – Rodrigo García e La Carnicería Teatro 50 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto Bocanada, sino Blanca Calvo, La Ribot u Olga Mesa. Incluso aquellos que nacieron en estos últimos años ochenta, a pesar de estar ligados a un núcleo de producción fijo, serán más conocidos por el nombre de su creador, como Rodrigo García, Angélica Liddell u Oskar Gómez, antes que por el de los respectivos grupos, La Carnicería Teatro, Atra Bilis o la Compañía de L’Alakrán. Las nuevas agrupaciones, como la formada por Marquerie en 1996 tras La Tartana, la compañía Lucas Cranach, van a funcionar siguiendo modos de organización característicos de esta modernidad líquida, estructuras flexibles, espacios de encuentro e intercambio, que se acomodan a las necesidades de cada proyecto; de ahí que, por ejemplo, en esta etapa los intérpretes con los que trabaja Marquerie varíen para cada obra, a diferencia de la homogeneidad que todavía caracterizaba el tipo de grupo de La Tartana. Sólo en los casos de los grandes elencos consolidados en los ochenta, transformados a menudo en centros de producción, se mantuvieron las identidades grupales, utilizadas en muchos casos como etiquetas de marca de cara a su proyección. Espetáculo Homo Politicus – Fernando Renjifo e Grupo La Republica Una evolución paralela han seguido las nuevas compañías procedentes del ámbito teatral, que nacieron todavía con un modelo heredado de décadas anteriores, y se vieron en la necesidad, como resultado del propio crecimiento interno, de concebir de otro modo su trabajo. Resulta significativo en este sentido la trayectoria de La República (1992-2002), de la que formaba parte Fernando Renjifo. Su último trabajo, Homo politicus v. Madrid, marca un punto de llegada, un grado de madurez manifestado en la puesta en escena de una confrontación directa de los intérpretes con ellos mismos, lo que lleva al director a buscar un modo de trabajo que se ajuste de manera más flexible a las búsquedas creativas de cada momento. De esta manera, las dos versiones posteriores de Homo politicus, México y Río de Janeiro, comparten el Grupos de Teatro: um olhar europeu e latino-americano | 51 planteamiento al que se había llegado con La República, pero trabajado en otros entornos culturales y con distintos intérpretes. Esto modificó los resultados finales sin renunciar al tono escénico que da unidad a la trilogía. El entorno grupal de La República, que había servido para llegar a ese estadio de desarrollo y confrontación personal, se disuelve; a partir de ahí los artistas con los que ha ido trabajando Renjifo se han congregado expresamente para cada proyecto, de modo similar a lo que ocurre con Marquerie a partir de El rey de los animales es idiota (1996), que marca la andadura de Lucas Cranach. En este lugar confluyen otros grupos que venían de los últimos años ochenta, como Matarile Teatro, que sin cambiar de nombre ni de estructura básica, se ha ido ajustando a esta dinámica de creación. Esto ha permitido la colaboración fluida con actores de distinta procedencia. Matarile Teatro, formado por Ana Vallés y Baltasar Patiño, llega desde un teatro plástico y de danza hasta una suerte de teatro de los actores, donde la figura de éstos, sus vidas y experiencias personales son la base de la creación, lo que de algún modo aconseja la movilidad de ese paisaje humano. El resultado responde a un proceso de convivencia y colaboración entre personalidades distintas. Esta nueva fase se anticipa con Teatro para camaleóns (1998), un pulso entre dos personalidades escénicas como Juan Loriente, actor habitual de Rodrigo García, y Carlos Sarrió, director de Cambaleo Teatro; aunque es en A brazo partido (2001) cuando esta nueva gramática empieza a desarrollarse sistemáticamente hasta alcanzar en Historia natural (elogio del entusiasmo) (2005) uno de sus exponentes más acabados. Llegado un momento en este proceso de evolución, es frecuente que sean los propios creadores, incluso cuando no son actores profesionales, los que terminan subiendo a escena para mostrar de una forma u otra su propio paisaje humano, como Roger Bernat en La, la, la, la (2004), donde un escenario, convertido en un espacio de intimidad, que se asemeja al dormitorio de una casa, se presenta como ocasión para el acercamiento físico y emocional entre él, Agnès Mateus y Juan Navarro, y por extensión con el público, al que termina invitando a jugar un partido de fútbol, mientras se proyectan a lo largo de la 52 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto obra fragmentos de e-mails personales intercambiados entre el creador y su pareja; o Elisa Gálvez y Juan Úbeda en Trece años sin aceitunas (2007), construida sobre las experiencias personales de dos trayectorias vitales que confluyen en la penumbra de un espacio de representación, El Canto de la Cabra, habitado por el pasado, los recuerdos y voces de amigos grabadas en el contestador del teléfono de la sala. Espetáculo Amnesia de fuga – Roger Bernat e Grupo General Elétrica El caso de la General Elèctrica, fundada por Roger Bernat y Tomás Aragay en 1997 como un Centro de Creación para las Artes Escénicas y Visuales, es un buen ejemplo del nuevo modelo de organización, que ha de moverse entre lo inestable de un colectivo de personalidades distintas que renuncian a una organización jerárquica clara, y el peligro de llegar a una fijación excesiva de su estructura. La General Elèctrica, por la que pasaron más de cincuenta creadores, termina dando lugar a una infraestructura cuyo mantenimiento obliga a trabajar para financiar el propio centro, lo que pone en peligro la vocación investigadora con la que nace. Su cierre en 2001 marca una nueva fase en las trayectorias de sus fundadores, que continúan trabajando a partir de colaboraciones, no ya sólo desde distintas disciplinas, como en el caso de la Societat Doctor Alonso, impulsada por Aragay y Sofia Asensio como núcleo abierto y cambiante de artistas, sino también con personas de fuera del mundo de la escena; algo que ya se había empezado a hacer en la General Elèctrica y que en trabajos posteriores Roger Bernat va a desarrollar de forma sistemática, así en Amnesia de fuga (2004), con inmigrantes indios y paquistaníes de Barcelona, Bona gent (2002-2003), a modo de encuentros puntuales con distintas personas, o Rimuski (2006-2007), un proyecto itinerante con colectivos de taxistas de diferentes ciudades del mundo. Las formaciones de la segunda mitad de los años noventa describen trayectorias paralelas a éstas, aunque concretadas de distintas maneras. La disolución de las narrativas sociales hace difícil aglutinarse en torno a un Grupos de Teatro: um olhar europeu e latino-americano | 53 relato colectivo que vaya más allá de las necesidades concretas de cada proyecto o el acuerdo sobre un modo específico de entender el trabajo escénico, a menudo de tipo colectivo. No se trata de proyectar una identidad de grupo en torno a un discurso estético o ideológico previamente consensuado, sino de una búsqueda o proceso de investigación, desde el que se genera un espacio de coexistencia de individualidades distintas, como las que pasaron por La Vuelta, dirigida por Marta Galán entre 1998 y 2002, por Amaranto, formado en 1998 por Lidia González, Àngels Ciscar y David Franch, o por Lengua Blanca, que se inicia en el 2000 con Juan José de la Jara y Ana María García; contextos de creación que se dejan ver como espacios de confluencia entre distintas disciplinas, de choque y tensión entre artistas que deciden recorrer juntos un camino sin que esto implique la disolución de la individualidad en el grupo o la integración en un orden jerárquico, sino más bien al contrario, una ocasión para potenciar las diferencias, lo que a su vez explica la fragilidad de estas estructuras. A este estadio se llega también desde la danza. Juan Domínguez se refiere en la conversación incluida en Éticas del cuerpo a esta falta de jerarquía en los nuevos grupos, y al hecho de que todos los intérpretes estén al mismo tiempo en escena, diferente de lo que ocurría en los colectivos de danza de los ochenta. El tipo de organización de estos núcleos, vistos de manera general y en su transcurso temporal, se termina asimilando a la idea de red, en la que cada nudo corresponde a un punto de encuentro entre creadores de distintos ámbitos que luego continuarán caminos propios. A esta dinámica de redes contribuyen espacios, festivales o colectivos, como Mugatxoan, coordinado por Blanca Calvo y Ion Munduate en el País Vasco, In-Presentable, coordinado por Juan Domínguez en Madrid, el espacio La Porta, en Barcelona, o el festival de Montemor-o-Velho, Citemor, en Portugal. La identidad de grupo se construye mediante la confrontación con el otro, con lo distinto: el cuerpo frente a la imagen, el actor profesional frente al que no lo es, la interpretación frente a la realidad, la unidad frente a lo fragmentario. No se busca la idea de identificación, sino de diferencia. El punto de llegada es provocar el efecto de encuentro, que puede ser también de desencuentro, hecho visible sobre este espacio de aproximaciones; no mostrar un resultado, sino un 54 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto proceso en el que tiene lugar un cuerpo a cuerpo que termina apuntando al espectador. Éste último, convertido en un personaje más, se integra en el espacio espectacular; sobre él se proyecta esta nueva otredad producida por la mirada del propio actor sobre el público, ese público al que Juan Domínguez pregunta con cierta desesperación «pero quiénes sois» o al que Carlos Marquerie se acerca para compartir pensamientos, dudas y miedos, o al que Angélica Liddell increpa con un profundo sentimiento de rabia. La figura del espectador es el punto de llegada de una estética, de un planteamiento social y un discurso ético que aparece con más fuerza a medida que avanzan los años noventa; lo que lleva a pensar nuevamente en otras épocas, como los sesenta y setenta, en las que la necesidad de llegar más directamente al espectador respondía también a una inquietud de orden social antes que estético. Este nuevo imaginario de lo social se desarrolla, sin embargo, en unas condiciones históricas muy distintas de las que se dieron en los dos primeros tercios del siglo XX. En Goodbye Mr. Socialism, Toni Negri hace una revisión de las posturas de la izquierda clásica adaptándolas a las condiciones de producción y organización del trabajo desde los años setenta. La idea de lo colectivo, como la del obrero, la fábrica o la organización laboral, se transforman como resultado de unas leyes de producción que están en la base de un sistema mundial. Este sistema afecta de desigual manera a unas zonas y otras del mundo, así como a los distintos niveles socioculturales, sin embargo es el mismo para todos. La organización grupal del hecho escénico y Grupos de Teatro: um olhar europeu e latino-americano | 55 sus estrategias de comunicación se transforman a lo largo de los noventa, como reflejo de estos cambios en la manera de percibir lo social, y frente a lo social al sujeto que trata de encontrar un nuevo espacio de actuación. De este modo, cuando Negri (2006: 72) se refiere a lo «colectivo» confiesa tener un cierto sentimiento de duda, cuando no de falsedad, porque «los objetivos se construyen mediante el diálogo, mediante la participación», y esto quiere decir que en la base de esta participación hay subjetividades que en un plano social más amplio devienen en multitudes, uno de los conceptos claves del pensamiento político del activista y pensador italiano. Al final llega a una conclusión que podemos trasladar a los nuevos modelos de organización del trabajo escénico en tanto que fenómeno social, que «el movimiento está compuesto por singularidades, que la subjetividad misma es un conjunto de singularidades y no una identidad, que ya no hay alma sino redes y relaciones» (Negri 2006: 72). La concepción de lo común y del espacio público deja de ser algo estático, un capital fijado en función de un discurso previo, para convertirse en un acontecimiento, un estallido de energía que surge a partir de una voluntad de encontrarse, de un acto siempre inestable: «Esto es lo fundamental en la concepción de lo común —continúa Negri—, que nunca es un depósito, sino precisamente una energía y una potencia, es capacidad de expresión». Espetáculo Historia Natural (elogio Del entusiasmo) – Matarile Teatro 56 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto Referencias bibliográficas AA.VV., Archivo Virtual de las Artes Escénicas, en http:// artesescenicas.uclm.es BAUMAN, Zygmunt (1999), En busca de la política, Buenos Aires, Fondo de Cultura Económica, 2001. CORNAGO, Óscar (2005), Políticas de la palabra. Esteve Grasset, Carlos Marquerie, Sara Molina, Angélica Liddell, Madrid, Fundamentos. CORNAGO, Óscar (2008), Éticas del cuerpo. Juan Domínguez, Marta Galán, Fernando Renjifo, Madrid, Fundamentos. NEGRI, Toni (2006), Goodbye Mr. Socialism. La crisis de la izquierda y los nuevos movimientos revolucionarios, Buenos Aires, Paidós, 2007. SÁNCHEZ, José Antonio (2006a), «Génesis y contexto de la creación escénica en España: 1978-2002», en Artes de la escena y de la acción: 1978-2002, Cuenca, Universidad Castilla-La Mancha, pp. 15-34. | 57 NOTAS SOBRE UMA METODOLOGIA LATINO-AMERICANA Silvana Garcia* Com a revitalização do teatro de grupo ocorrida na última década, o Brasil voltou a aproximar-se dos outros países latino-americanos, redescobrindo uma contigüidade que ficou mais ou menos esquecida durante praticamente toda a década de 1980 e começo da seguinte. Para os jovens artistas que começaram a produzir teatro nos últimos tempos, esse acercamento deve produzir uma grande e positiva surpresa, por permitir o acesso a um sítio de sólida tradição, a do teatro coletivo. um olhar latino-americano Grupos de Teatro: um olhar europeu e latino-americano Haverá também assombro ao constatarem que muitos grupos de diferentes lugares da América Latina resistem há décadas e continuam apresentando um teatro vigoroso e atual: grupos como La Candelaria, da Colômbia, Yuyachkani, do Peru, Malayerba, do Equador, foram fundados nos anos 1960701 e pertencem ao núcleo pioneiro das práticas coletivistas, juntamente com outros grupos importantes que já desapareceram, e dos quais somos herdeiros, mesmo sem o saber. O teatro de grupo que se fortaleceu nos anos de 1970 não é fenômeno latinoamericano, mas aqui, mais do que talvez em qualquer outro lugar, podemos pensar em uma rede de solidariedade armada desde cedo entre os diversos grupos, resultado em primeira instância da politização que, em diferentes tonalidades, marcou suas fundações. Embora não configure uma regra, podemos indicar que o teatro coletivo, na origem de sua tradição latino-americana, conformou-se a uma série de motivos que foram determinantes para o desenvolvimento das suas práticas e 1 La Candelaria foi criada em 1966, Yuyachkani, em 1971 e Malayerba, em 1979. * Pesquisadora e dramaturgista, professora da Escola de Arte Dramática (ECA/ USP), autora dos livros Teatro da Militância e As Trombetas de Jericó – Teatro das Vanguardas Históricas. 58 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto procedimentos. Em primeiro lugar, constaria a subordinação dos processos criativos e de produção aos propósitos ideológicos. Há na base da atividade artística o reconhecimento do importante papel que o teatro pode cumprir no contexto de uma dinâmica social e os artistas politicamente inquietos depositam aí a expectativa de um engajamento eficiente. Isso pode ser traduzido também pelo fortalecimento da convicção política acerca do papel social do artista: juntamente com a formulação anterior, são esses os temas que animam e conduzem a reflexão dos teatreros dos processos coletivos. Não podemos esquecer, ademais, que o pano de fundo desse engajamento esteve constituído em grande parte dos casos por governos autoritários, com conseqüente cerceamento de liberdades civis, aí incluída a censura da produção artística. Espetáculo Antigone – Grupo Yuyachkani Outro motivo forte que se acrescenta a esses diz respeito à busca de diálogo com novos públicos, à busca de novas formas de participação do público. A insatisfação com o teatro tradicional praticado nos centros urbanos e o repúdio à relação meramente mercantil que demarca as relações dominantes entre palco e platéia conduzem os artistas a definirem novos parâmetros para o intercâmbio com o espectador. Esse processo de reinvenção do lugar do Grupos de Teatro: um olhar europeu e latino-americano | 59 espectador obviamente põe em xeque a organização espacial dominante, o edifício teatral de palco italiano; buscam-se outras formas de abrigo para as novas e desejadas relações, que vão da desconstrução do palco à utilização de espaços não convencionais, incluindo a revalorização das formas de teatro de rua. Motivo correlato a esse, os grupos empenham-se em encontrar uma pedagogia para o trabalho do ator e uma prática artística que marquem uma diferença em relação às formas consagradas do teatro. Esse é um momento em que olhares e corações voltam-se para a nacionalidade, conceito ameaçado de incorporação espúria pelos regimes autoritários dominantes. Para os representantes do teatro coletivista, faz-se necessário um investimento na dramaturgia nacional, que dê voz a temas e questões relevantes e responda aos anseios de arregimentação de novas platéias. Na esteira do mesmo movimento que conduz à afirmação de uma identidade nacional, dá-se o resgate da memória e da história, vinculado à revalorização das tradições populares da cultura em geral e do próprio teatro em particular. Esses são os componentes que impulsionaram muitos dos grupos de teatro naqueles anos e que iriam determinar uma metodologia de criação que, com variáveis, disseminou-se e tornou-se desde então tema de intercâmbio entre os grupos. A constituição dessa metodologia sustentou-se via de regra na pesquisa de campo, com procedimentos que iam da observação atenta da realidade do entorno até atividades de interação, de interferência mais direta. Desse modo, a produção artística do grupo estabelecia-se no próprio processo de sondagem e experimentação das formas e das relações. Quando surgiu, em 1968, o Teatro Escambray pretendia ser uma resposta às questões que cercavam a atividade teatral no contexto da ainda recente revolução cubana. O grupo empenhou-se em constituir um duplo movimento de renovação: a da transformação artística no seio da transformação social. Escolheram para atuar a região montanhosa do Escambray, na parte central da ilha, cuja população dominantemente agrária tivera pouco ou nenhum contato com o teatro. 60 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto Para nós, tratava-se da busca resoluta de outro público, de uma comunicação que fossemos capazes de controlar, de outra ética teatral, de outras formas artísticas e organizativas. (...) Estávamos atraídos pela experiência com um público desconhecido, ao qual concederíamos de antemão a importância de protagonizar essas transformações e que iriam despertar muitas dúvidas a respeito da comunicação artística (...) obrigando-nos a encontrar respostas.2 A convivência com a comunidade, a investigação de suas tradições, de seu contexto social e econômico, das questões que mobilizavam seus habitantes, foram o primeiro passo para a inserção do grupo e também as vias pelas quais começou a sedimentar seu projeto artístico. O pesquisador cubano Omar Valiño qualifica essa fase como “acumulação sensível”,3 significando uma etapa de observação e vivência, de atitude de “envolver-se social, emocional e imaginativamente na realidade”, que ocorre tanto no plano individual de cada integrante do grupo quanto no plano coletivo, já que as referências são as mesmas e é na instância do coletivo que se processa artisticamente esse conhecimento. No caso do Escambray, essa etapa permitiu ao grupo “conhecer o camponês (habitante da região) de um ponto de vista antropológico, penetrar sua essência e compreender a profundidade de sua alma e sua cultura”.4 Isso significou não apenas um entendimento da realidade em que vivia aquela comunidade, mas também uma incorporação dos elementos que constituíam seu acervo cultural, seu arcabouço mítico e os elementos “teatralizáveis” dessa cultura (por exemplo, as formas da oralidade e de outras manifestações expressivas). O projeto artístico do grupo construiu-se, então, pelo processamento criativo dos dados vividos e assimilados, resultantes dessa adesão à comunidade e do intercâmbio permanente do grupo com os campônios. Desse modo foram 2 Depoimento de integrante do grupo, apud Rine Leal, La dramaturgia del Escambray (La Habana: Editorial Letras Cubanas, 1984, p. 39). 3 Valiño tomou emprestado o termo do vocabulário de trabalho do grupo Yuyachkani, utilizando-o em seu livro La aventura del Escambray (La Habana: Ediciones Almargen, 2004). 4 Valiño, op. cit., p. 35 Grupos de Teatro: um olhar europeu e latino-americano | 61 designados os temas, os procedimentos e a espacialidade que constituiu o repertório do grupo, em especial em seus primeiros anos. Essa relação próxima com a realidade, além de fazer-se espinha dorsal da criação artística, também condiciona, subsidiariamente, os corpos teóricos que passam a identificar a práxis do grupo. Em El Juício (1973), de Gilda Hernández, por exemplo, o grupo construiu o espetáculo sob a forma de um tribunal, no qual eram julgados, ficticiamente, mas por espectadores eleitos no momento, os personagens que, de acordo com a trama, eram acusados de envolvimento com a bandidagem da região, tema central da peça. Radicalizando procedimentos participativos de espetáculos anteriores, a condição de tribunal que caracteriza El Juício apresenta um deslocamento do momento de intercâmbio com o público, representado principalmente pela prática do debate – tradicionalmente delegado para após a apresentação – para o interior da representação, passando a integrá-lo como elemento estrutural do espetáculo.5 No caso do Escambray, tratava-se de encontrar o ponto de conexão no qual a arte do teatro pudesse incidir ativamente em um contexto social: “conseguir que uma vocação indagatória e de debate social pudesse transformar-se em uma condição de arte”.6 Uma busca que, no contexto de uma revolução socialista, como neste caso, ou na contra-corrente da resistência, como em outros países latino-americanos, foi comum a muitos grupos. Focando em exemplo mais recente, destacamos as realizações cênicas do grupo Yuyachkani. Marcando presença ativa durante as mobilizações cívicas que, em todo Peru, exigiam a apuração das mortes e desaparecimentos de quase 70 mil pessoas, resultado de duas décadas de conflitos entre as Forças Armadas e o Sendero Luminoso, as ações do Yuyachkani atualizam o empenho de participação nos acontecimentos sociais, plasmando seus resultados artísticos sob a forma de interferências performáticas. 5 6 Ver Rino Leal, op. cit., pp. 45, 50-51. Valiño, op. cit., p. 26. 62 Espetáculo Rosa Cuchillo – Grupo Yuyachkani | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto Quando finalmente a ONU instalou a Comissão de Verdade e Reconciliação (2001-2003), o grupo acompanhou de perto as audiências, participou das vigílias, testemunhou os depoimentos de parentes e vítimas, realizou viagens pelos povoados da região de Ayacucho. Durante esse tempo de vivência cívica, o Yuyachkani (que significa “estou pensando, estou recordando”), contribuiu com alguns trabalhos significativos, performances criadas e executadas por seus atores, com a direção de Miguel Rúbio. Três dessas criações formam uma contundente trilogia: Teresa Ralli apresenta Antígona (criação de 2000), associando Sófocles ao poeta José Watanabe, para contar a história da mulher que desafia as autoridades para enterrar seu irmão; Augusto Casafranca em Adiós Ayacucho revive o líder camponês Alfonso Cánepa, que, tendo sido torturado, morto e esquartejado, viaja à capital, ao palácio presidencial, para “recuperar as partes perdidas de seu corpo”, e Ana Correa produz Rosa Cuchillo (2002), baseado em texto de Óscar Colchado Lucio, e no depoimento de Angélica Mendoza, conhecida como Mamá Angélica, mãe de Arquimedes Ascarsa Mendoza, seqüestrado e desaparecido em Ayacucho em 1983 – em sua performance, a atriz perambula por áreas públicas dos mercados locais das cidades em que se apresenta, Grupos de Teatro: um olhar europeu e latino-americano | 63 caracterizada como uma alma rediviva que busca o filho desaparecido. Nessa trilogia “do corpo ausente”, no dizer do diretor Miguel Rubio, “Alfonso Cánepa poderia ser o irmão morto de Antígona e Rosas Huanca sua mãe, que se encontra com ele depois de sua própria morte em uma dança sem fim que se nega ao esquecimento”.7 A esta síntese, a pesquisadora Ileana Diéguez, no Prólogo do livro El cuerpo ausente, complementa com sua análise: Estes trabalhos foram realizados como tentativas de reparação simbólica, buscando, a partir da arte, contribuir para o processo de cura e justiça social. Essa incontornável quota de responsabilidade que compete a toda a sociedade civil, a cada um dos cidadãos, quando vivem tais períodos de barbárie, encontrou na arte um canal transcendente de expressão, estabelecendo também uma série de dilemas a respeito das maneiras pelas quais dar credibilidade a tais atos. (...) Os corpos e os textos do real se mesclaram nas teatralidades do presente para fazer emergir, com menor mediação possível, os terríveis dramas de nosso tempo, e sobretudo para que a memória não se apague e a condição humanista não seja um tema dos discursos literários.8 Aqui se evidencia em que medida essa prática incide sobre outra tradição, a do teatro-documentário (e também à das performances-solo, performances interativas e outros processos assemelhados), e de cujo cruzamento, não fosse o limite de espaço, esta análise poderia muito se beneficiar.9 Por ora, nesse dois exemplos – na busca ainda um tanto esquemática do Escambray e na elaboração performática das vivências artivistas do Yuyachkani –, relatados de modo precariamente resumidos, revelam-se os fundamentos de uma criação artística que se constrói por intermédio de uma metodologia de prospecção da realidade que exige a interação, além da mera Miguel Rubio Zapata, El cuerpo ausente (Lima: Grupo Cultural Yuyachkani, 2008, pp. 66-67). Ibidem, pp. 22-23. 9 Esse tema também é explorado por Ileana Dieguez no referido Prólogo. Ver ainda nos arquivos do Projeto Próximo Ato – Itaú Cultural (São Paulo, 2004) os textos “Os teatro do real”, de Silvia Fernandes, e “Teatro e (sua) realidade”, de Silvana Garcia. Esses textos foram escritos como apresentação, especialmente para essa versão do projeto, que foi dedicada ao tema. 7 8 64 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto observação ou estudo livresco, e pressupõe procedimentos de transcrição artística que transcendem a cópia factual. Mas, à parte outras referências e independentemente do grau de coletivismo que rege as práticas dos grupos – não demos destaque às práticas coletivas de constituição da dramaturgia, que constituem um outro capítulo desse exercício de análise da tradição do teatro de grupo – importa aqui fomentar a discussão sobre as possíveis metodologias, que definem a pesquisa artística e a diferenciam do que poderíamos chamar de “pesquisa escolar”, da pesquisa que corre paralela e/ou alheia ao trabalho de criação. A isso, que o diretor Antonio Araújo chama de “pesquisa chantilly”, deve contrapor-se o trabalho investigativo que nasce do projeto artístico do grupo e se constitui na relação interativa com seu objeto de pesquisa.10 Uma vez definida a atualidade (ou a história, ou a memória) como campo de interesse – o que por si só não a institui como única fonte legítima de inspiração, diga-se de passagem – não há como não se referir à já estabelecida tradição latino-americana como reservatório de práticas cuja análise merece ser incentivada. Lembrando que o Teatro da Vertigem tem uma rica experiência no quesito pesquisa artística e que merece aqui a citação, sem desmerecer outros grupos que representam também significativos exemplos. 10 Grupos de Teatro no Brasil Teatro e Política convergência e divergência 66 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto Teatro e Política | 67 A vida vem em ondas como o mar Lulu Santos e Nelson Motta POLÍTICAS PÚBLICAS: UM DEBATE AINDA A SER FEITO Beth Néspoli* Arte viva, marca da presença do homem na Terra, o teatro vive um constante movimento de fluxos e refluxos. Na verdade, a História com h maiúsculo é feita de períodos de tensionamento de conflitos, de crise e conseqüente efervescência criativa, alternados por outros de acomodação. Pelo menos é assim que apreendemos a vida em sua superfície. Claro que o aparente marasmo prepara a futura turbulência. O mesmo se dá com a mobilização política e, mais especificamente, com o foco de interesse aqui, os movimentos reivindicatórios da classe teatral brasileira. Quando esse artigo foi solicitado, em junho deste ano, vivia-se um intenso debate sobre políticas públicas, tema que desde março vinha provocando polêmica e ganhando espaço raro na chamada grande imprensa. Na berlinda, os mecanismos de distribuição de verba. Criticavam-se os existentes, propunham-se outros. No momento em que escrevo este texto, tal mobilização arrefeceu, está num período de refluxo, sem que nenhuma conquista significativa tenha sido alcançada. Naquele período, no entanto, reuniões abundaram, propostas de fomento ao teatro foram apresentadas oficialmente a representantes do poder público, artistas de diferentes segmentos da atividade teatral foram recebidos e ouvidos na Comissão de Educação e Cultura do Senado. Pelo menos dois anteprojetos de lei foram entregues e debatidos em Brasília. Um deles, formulado pela * Beth Néspoli é repórter especializada em teatro e crítica do Caderno 2, suplemento cultural do jornal O Estado de S. Paulo, desde 1995. 68 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto Associação de Produtores Teatrais do Rio (APTR), integrada por 140 produtores, baseado em renúncia fiscal e inspirado na Lei do Audiovisual, propunha a criação de uma secretaria que administraria os recursos de uma nova lei de incentivo específica para o teatro. Outro, entregue pelo Redemoinho, movimento que une 70 grupos teatrais de diferentes estados, propunha financiamento público, via orçamento da União, a grupos e companhias, produções independentes e circulação de espetáculos, com valores diferenciados por região. Entrevistado por mim para uma matéria publicada em abril no jornal O Estado de S. Paulo, o então secretário executivo do MinC, Juca Ferreira, criticou ambos – o da APTR, por inspirar-se na “ideologia da década de 90” de transferência de responsabilidade para o mercado; já os argumentos dos representantes do Redemoinho foram por ele considerados “sustentáveis por partirem de constatações muito próximas das detectadas pelo ministério”. Mas ele deixou claro que não jogaria suas fichas na aprovação de nenhum desses dois projetos. Afirmando que “não basta investir nos mecanismos regulatórios e legais, é preciso pensar na Cultura como componente fundamental na construção do Brasil que a gente quer”, acenou com um anteprojeto, do próprio MinC, a ser lançado, uma lei geral das artes. E declarou, na mesma entrevista, que depois de cinco anos de debates o MinC estaria maduro para propor uma política cultural ampla para a Nação. Bem, em setembro, o compositor Gilberto Gil deixou o cargo de ministro e Juca Ferreira assumiu o Minc. Mas até agora não houve nenhuma mudança significativa nos mecanismos regulatórios de subsídio à Cultura. E muito menos foi anunciado um projeto amplo de políticas públicas para as artes, a atividade teatral aí incluída. O argumento principal para tal adiamento é o de que a proposta depende de financiamento público e, conseqüentemente, do aumento do orçamento da Cultura. “Com esse orçamento não dá para sustentar nenhuma política de financiamento, fomento e estímulo à produção cultural”, argumentara na mesma entrevista. E nesse ponto vale voltar à polêmica que tomou as páginas da imprensa. Teatro e Política | 69 Se vinha de longa data o debate em torno do tema, por que se acirrou no início deste ano? Numa mirada mais imediatista, um artigo assinado por Celso Frateschi, presidente da Fundação Nacional das Artes (Funarte), publicado na Folha de São Paulo em março, teria sido o estopim da polêmica. Em síntese, o texto de Frateschi apontava a necessidade de reformas nos procedimentos de aplicação da lei federal de incentivo à Cultura, a Lei Rouanet, e apoiava sua argumentação ressaltando distorções como a concentração de recursos na região Sudeste, em reduzido número de produções. Até aí, nada que não tenha sido ouvido anteriormente, de diversas fontes. Três anos antes desse artigo de Frateschi, em março de 2005, uma matéria publicada no Caderno 2, o suplemento cultural d’O Estado de S. Paulo, denunciava as mesmas distorções com números bastante eloqüentes. Naquele início de ano, o Ministério da Cultura anunciara uma captação recorde por meio da Lei Rouanet para o teatro: só em São Paulo o valor da verba investida foi de 24,7 milhões. Pois bem, na ocasião, apurei (e publiquei em reportagem no Caderno 2) que só a captação da CIE para o musical Chicago concentrou 16% desse total – R$ 3.952.000,00. E, mais grave ainda, o segundo maior captador, R$ 1.664.556,94, havia sido o Criação Teatral Volkswagen – suposto projeto de apoio a jovens criadores que beneficiara apenas uma companhia com um total de R$ 50 mil, alvo de duas reportagens críticas no Caderno 2 e também de um artigo escrito por mim, de tom bem mais contundente, publicado no jornal O Sarrafo. Também produção da CIE, o musical O Fantasma da Ópera ficara com a terceira maior captação, R$ 1.465.000,00. Apenas três espetáculos concentraram 28,7% da verba total destinada ao teatro na cidade de São Paulo. No mesmo período, o Grupo Tapa, então com 27 anos de existência, 45 montagens e 79 prêmios no currículo, captara apenas R$ 240 mil. Ainda assim, alcançara a proeza de ter, em 2004, cinco espetáculos de seu repertório em cartaz simultaneamente. Todos esses dados foram publicados no jornal O Estado de S. Paulo em reportagens críticas. Mais. O absurdo da captação de 70 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto R$ 9 milhões, via Rouanet, para a turnê brasileira do Cirque du Soleil já fora alvo até mesmo de um editorial do Estadão. Por que então a fala sem novidades de Celso Frateschi provocou uma avalanche de réplicas e o efeito de provocar mais uma onda de mobilização de diferentes segmentos da classe teatral? Arranhando um pouco além da superfície, no momento da publicação do artigo, uma forte insatisfação com a instituição presidida por Frateschi tomava conta justamente daquela parcela da classe teatral que consegue financiamento via Lei Rouanet. A greve de 85 dias dos funcionários do Ministério da Cultura – e especialmente da Funarte, instituição responsável pela habilitação – teve como conseqüência um grande passivo nessa área. Ao apontar falhas num mecanismo (mal) administrado pela instituição por ele presidida, Frateschi abriu um canal de extravasamento para críticas à suposta inoperância do Ministério da Cultura e da Funarte, em especial vinda desse segmento da produção teatral. O atraso nos pareceres não era a única fonte de insatisfação. Uma nova apuração envolvendo a captação mostra uma mudança significativa: em vez de superproduções musicais como em 2004, oito instituições estão entre os dez maiores captadores de 2007, entre elas as fundações Roberto Marinho e Itaú Cultural. E mais. Aumentara visivelmente a quantidade de intermediações Movimento Redemoinho encontro 2007 Movimento Redemoinho encontro 2007 entre a fonte de investimento e o beneficiário. O dinheiro público circula em traçados cada vez mais emaranhados, pois os grandes patrocinadores são empresas públicas, entre elas a Petrobrás. E a própria Funarte está entre os captadores ao fazer da Petrobrás fonte para conseguir financiar os Prêmios Miriam Muniz e Klaus Viana. Ora, se são tão evidentes os problemas desse mecanismo de financiamento, por que produtores temem sua extinção e até propõem a criação de outro semelhante, como faz a APTR? Simples. Desconsiderando desonestidades e espertezas, levando-se em conta apenas a banda boa da laranja, pode-se afirmar que se teme o fim desse mecanismo e, com ele, o sumiço puro e simples de 1 bilhão de reais do investimento à arte. Sem substituição. Sem ampliação do orçamento. Se recolhido à Receita Federal, esse montante de “renúncia” fiscal dificilmente seria incorporado ao orçamento do MinC. O raciocínio, mesmo quando não explicitado, ou nem mesmo articulado, segue claramente a lógica do “ruim com ele, pior sem ele”. Esse é o pensamento hegemônico, ainda que não unânime. O consultor Yacoff Sarkovas, por exemplo, está entre os que defendem a extinção desse mecanismo que vicia a relação entre patrocinador e produtor cultural. Para ele, os produtos da indústria cultural podem e devem receber patrocínio privado, pois é interessante para as empresas associar suas logomarcas a essas 72 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto criações. E, ainda na opinião dele, cabe ao governo apoiar as manifestações culturais e artísticas julgadas importantes na construção do imaginário coletivo, porém pouco atraentes ao mercado. Visão essa explicitada em artigo assinado por Sarkovas e publicado no Estado, em abril, na já citada reportagem sobre a polêmica em torno das propostas de lei para o teatro. Ressalte-se ainda, para compreender o acirramento do debate naquele período, que grupos reunidos em Porto Alegre em dezembro de 2007, no 4º encontro anual do Movimento Redemoinho, tinham planejado concentrar no dia 27 de março diversos atos públicos. E nessa data – escolhida por ser o dia do teatro – manifestações públicas realmente foram organizadas em pelo menos 11 cidades, o que também deu ‘notícia’ e rendeu reportagens nos principais jornais do Brasil. Assim como é preciso um conjunto de erros para derrubar um avião, uma série de fatores concorreram para que nos meses de março e abril deste ano a mobilização da classe teatral e a questão do financiamento à Cultura ganhassem visibilidade na grande imprensa. Não por acaso, a busca de estratégias para que a questão do financiamento à Cultura se transformasse em debate público, envolvendo toda a sociedade, foi um dos temas debatidos no exaustivo 4º Encontro do Redemoinho – daí os atos do dia 27. Como discutir a dimensão pública da arte teatral num Brasil onde as dimensões pública e privada se misturam numa fronteira nebulosa? Como pensar no direito do cidadão a ter acesso aos bens simbólicos num país onde educação e saúde estão privatizados? Por que o teatro é importante? Qual o teatro que queremos ter? Não existe uma cena experimental potente sem uma cena tradicional forte. Qual segmento deve receber apoio oficial, qual deve disputar o patrocínio privado? Pensar que sociedade queremos é pensar o lugar da arte nela. Sem dúvida esse é o grande debate. Mas não é fácil colocar essa discussão na ordem do dia. No Brasil, mesmo em espaços muito politizados nem sempre há compreensão do papel da arte como manifestação cultural potente na construção da sociedade. Por isso é tão difícil ampliar orçamento da Cultura. Teatro e Política | 73 Mas na mesma medida em que é importante e intensamente desejado, é também ingênuo imaginar que num dado momento, subitamente, uma luz se fará e toda a sociedade brasileira vai parar para discutir o papel da arte, e mais especificamente do teatro, na vida do País. Essa é uma consciência que se conquista em etapas, num gráfico não-retilíneo, feito de avanços e recuos, ondas. Vale lembrar que o segundo pedido de patrocínio ao Cirque du Soleil foi negado. Leis de incentivo são fruto de um momento histórico, iniciado na década de 80, que dá seus sinais de esgotamento: o neoliberalismo econômico. Claro que seria diferente o súbito mergulho nas regras de mercado num Estado europeu do bem-estar social – onde havia muito a cena artística estava mapeada, subsidiada, sedimentada – e a mesma mudança num Brasil recémsaído de mais um período de ditadura. Num país onde políticas públicas, fruto de debate com a sociedade – não confundir com ações governamentais –, jamais existiram efetivamente. Vale lembrar o discurso que acompanhou a implantação das leis de incentivo: instrumento para ‘incentivar’ o patrocínio privado, espécie de projeto didático de duração limitada. Como o Brasil não é para amadores, o que se vê agora é esse estranho emaranhado: dinheiro público sendo aplicado na indústria cultural e em fundações dos grandes conglomerados de mídia e financeiros. Mais ainda, os grandes investidores não são empresas públicas e os próprios governos ‘tomam’ dinheiro para os seus projetos dessa forma. A complicação é brasileira, porém a origem se enquadra na ordem mundial da mercantilização globalizada. Por isso, não dá para imaginar que é possível discutir políticas públicas para a arte em geral, e o teatro em particular, sem entender qual ‘ordem pública’ se quer. “Temos que ter um conjunto complexo de mecanismos, inclusive de mercado”, disse Juca Ferreira, na já citada entrevista. Terá ele, agora como ministro da Cultura, vontade e força política para fazer avançar o processo? Talvez com o apoio de uma nova onda de mobilização. 74 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto Dados sobre Economia da Cultura no Brasil Total da captação de recursos através da Lei Rouanet no teatro em São Paulo em 2004, quando o MinC anunciou recorde de captação: R$ 24,7 milhões – 81 projetos Três maiores captadores 1) Musical Chicago – R$ 3.952.000,00 – 16% do total 2) Criação Teatral Volkswagen – R$ 1.664.000,00 3) O Fantasma da Ópera – R$ 1.465.000,00 Neste ano de 2004, em São Paulo, os três maiores captadores concentraram 28,7% da verba Neste mesmo ano, 2004, o Grupo Tapa, na época com 27 anos de existêcia, 45 montagens e 79 prêmios no currículo captou apenas R$ 240 mil e chegou a ter cinco espetáculos em cartaz simultaneamente. LEI ROUANET 1 BILHÃO – VALOR DA VERBA UTILIZADA EM TODO O BRASIL NO ANO DE 2007 3% DOS CAPTADORES FICARAM COM 44,68% DOS RECURSOS 80,4% DOS RECURSOS FICARAM CONCENTRADOS NA REGIÃO SUDESTE 8 INSTITUIÇÕES OU FUNDAÇÕES ESTÃO ENTRE OS 10 MAIORES CAPTADORES, ENTRE ELAS A FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO E ITAÚ CULTURAL 8 EMPRESAS PÚBLICAS ESTÃO ENTRE OS 10 MAIORES INCENTIVADORES, LIDERADAS PELA PETROBRÁS, SEGUIDA DA VALE DO RIO DOCE, BANCO DO BRASIL E ELETROBRÁS ORÇAMENTO – EM BILHÕES DE REAIS – DE ALGUNS MINISTÉRIOS EM 2008 PREVIDÊNCIA – 52, 5 DEFESA – 42,7 TRABALHO – 38,1 EDUCAÇÃO – 31,7 CULTURA – 1,03 Galpão Grupos de Teatro no Brasil convergência e divergência em foco Galpão em foco | 77 AVENTURAS COM O CINEMA Eduardo Moreira* Depois de uma série de experiências individuais e algumas (quase todas frustrantes) coletivas, o Galpão começou 2008 com o pé no cinema. Uma delas nos caiu quase por acaso: o documentário proposto por Eduardo Coutinho sobre o processo de criação de um espetáculo teatral, com a participação do Galpão e a direção do Henrique Dias. A segunda teve uma razoavelmente longa e bem urdida articulação, que foi a criação de quatro curtas a partir de uma oficina ministrada pelo preparador de elenco e diretor Sergio Penna, tendo como base o cinema instantâneo ou cinema de ator, que propõe que o roteiro e todo o trabalho do “set” de filmagem gravitem sobre a improvisação e o jogo nascido entre os atores. Fiel à sua proposta de pesquisa e experimentação com diferentes tipos de linguagens, há um bom tempo o Galpão vem discutindo a necessidade de enveredar pelas searas do cinema. Até para entender melhor o teatro que fazemos. Isso, porque nossa atuação sempre teve um pé muito marcado no teatro popular e de rua, com a utilização de elementos de circo, farsa, circoteatro e melodrama. (É claro que nem sempre foi assim e que as generalizações são necessariamente reducionistas e empobrecedoras). Nesse sentido, pesquisar um contraponto de uma interpretação naturalista e contida, como pede o cinema, sempre nos pareceu importante. Além, é claro, de adorarmos o cinema, não só na nossa reduzida experiência como atuadores, mas também, e principalmente, como espectadores e aficionados. E ambas experiências foram e continuam sendo um prato cheio para essa pesquisa de comparação entre a linguagem do teatro e a do cinema. Digo que continuam sendo porque elas ainda estão em processo de elaboração, e as conclusões desse aprendizado ainda estão em aberto. * Ator e diretor de teatro, integrante do Grupo Galpão. 78 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto O filme do Coutinho, por exemplo, está na fase de montagem. Ao todo, tivemos mais de trezentas e trinta horas de filmagem com um conteúdo das mais diversas naturezas. No material colhido estão coisas tão diversificadas como exercícios de aquecimento, improvisações, atores estudando e se concentrando na solidão dos camarins, cenas ensaiadas, cenas criadas, atores, diretor de cena, assistente e diretor de câmera, todos quase sempre num momento extremo de crise da criação. Interessado em tocar nos limites entre a ficção e a realidade do documentário, a proposta do Coutinho parece dar continuidade ao seu último filme, Jogo de cena. Qual a fronteira entre a ficção do personagem e da realidade da vida de um ator que o encarna? Para isso, nada mais apropriado do que o universo do autor russo Anton Tchekov, com seus personagens paralisados num passado e congelados num presente cheio de sonhos e projetos que nunca se concretizam. A imposição da memória estava sempre presente em exercícios com fotos de família, reminiscências de infância, relatos de família. Como se o tempo todo o processo dissesse que o personagem é apenas uma folha de papel a ser preenchida pela carga de vida e de experiência com que cada ator é capaz de preenchê-la. Foram dezoito dias de filmagem, sendo que trabalhávamos uma média de dez horas por dia. Isso sem contar com as tarefas que eram pedidas para o horário extra de trabalho, como a criação de cenas para apresentações. O texto, que foi um segredo só desfeito no primeiro dia de filmagem, foi As três irmãs de Tchekov, que já havia sido montado por Henrique Dias, mas que era um grande mistério para o Galpão. Durante o processo, o cinema e o teatro se encontravam, se desencontravam e se completavam, até que, em determinado momento, Coutinho teve uma reunião secreta com Henrique, e dali em diante ficou acertado que montaríamos algo feito prioritariamente para o olhar da câmera. Mas o que se viu durante todo o trabalho foi uma permanente tensão entre forma e improvisação, jogo teatral e cena para a câmera, teatro e cinema. O resultado será uma surpresa, porque a montagem é a realização de um outro Galpão em foco | 79 filme. Inteligentemente o Coutinho quer que a edição seja feita junto com alguém que não tenha a menor idéia do que seja o trabalho do Galpão e que não seja do “métier”. Isso para evitar a cilada dos hermetismos, coisas que só o pessoal de teatro e cinema vá entender. O resultado final do nosso esforço concentrado de três semanas concluiu a encenação dos dois primeiros atos de As três irmãs, uma leitura dramatizada, em volta da mesa, do terceiro e uma leitura simples do quarto ato. Resta agora esperar pelo resultado que não temos a menor idéia do que pode ser. O próprio Coutinho terminou as filmagens bastante animado e jurando que não tinha a mínima pista do que fazer do material. O outro processo cinematográfico ficou por conta da oficina de quatro dias com o Sergio Penna, preparador de elenco de uma porção de filmes bons como Bicho de sete cabeças e com quem alguns de nós travamos um primeiro contato no Batismo de sangue, filme dirigido em Belo Horizonte por Helvécio Ratton. Sergio também é diretor de teatro, desenvolvendo experiências com diferentes grupos, inclusive com um trabalho junto a deficientes mentais. Ao longo da sua vasta experiência, vem buscando uma linguagem de criação para o cinema a partir do ator, que intitulou de “cinema instantâneo” ou “cinema do ator”, em que a improvisação e o jogo entre os atores é a matriz essencial e a chave para o trabalho. Ele chegou a dar uma oficina no Galpão Cine Horto, vendo grandes afinidades entre o seu método e o trabalho de criação colaborativa que foi sendo urdido ao longo de anos no nosso espaço cultural. O ponto de partida da oficina era mais radical ainda ao propor uma dramaturgia, ou um roteiro, que nascesse dessa interação entre os atores, sem nenhum tipo de elaboração prévia. Tudo deveria nascer das relações surgidas ente os atores. O estímulo básico era a respiração e a preparação de um estado interior de concentração e de abertura para o jogo. Os atores acabaram se agrupando em grupos de três e de dois, e a partir de ações e reações essencialmente físicas, começavam a brotar relações que não sabíamos exatamente o que eram, mas que ficavam vivas e intensas. Grupo Galpão com Eduardo Coutinho e equipe Eu participei do trabalho com dois olhares – o de ator e o de diretor. Na primeira função, a cena criada pelo nosso núcleo surgiu da relação basicamente física entre dois homens (Arildo e eu) e uma mulher (Fernanda). Depois de um primeiro esboço de relação, que nascia da respiração e que lembrava uma espécie de curra sexual, Penna nos pediu que fôssemos para a cozinha do Galpão, e ali se desenvolveu um jogo cujo sentido não sabíamos exatamente, mas que era vivo e suscitava um olhar curioso da parte de quem assistia. E que, principalmente pela extraordinária capacidade de improvisar do nosso câmera, o Byron, também funcionava no material colhido pela sua lente. Só depois desse primeiro esboço foi que o material foi apresentado para os diretores (no nosso caso, Rodrigo Campos e Chico Pelúcio) e a improvisação, refeita mais duas vezes. Nas três seqüências, havia climas que se repetiam, mas o resultado final acabava sendo bastante variado. Enquanto outros grupos acharam que essas primeiras improvisações criaram um material suficiente, o nosso optou por discutir e avaliar uma primeira edição e, a partir daí, criar algumas referências comuns para o improviso a Galpão em foco | 81 fim de que os atores vissem o mesmo filme e chegassem a um jogo mais eficaz. Claro que com isso corremos riscos tanto de melhorar e aperfeiçoar o trabalho, quanto de perder um frescor que existia no primeiro encontro entre os atores. Já no trabalho em que estive do outro lado do olhar, na direção, junto com a Cris Zago e o Rodolfo Magalhães, nossa opção foi trabalhar a edição sobre as duas improvisações que foram feitas pelos atores, sem refazer ou buscar outros sentidos para a cena. Nossa avaliação foi que o material era de boa qualidade, dentro é claro de uma idéia de cinema que se faz sempre a partir de uma precariedade técnica, e que seria impossível rememorar aquele frescor apresentado e que, finalmente, se fosse para tentar outra improvisação, era melhor que se fizesse também um outro filme. A oficina tocou o tempo todo nos dilemas da improvisação para o ator, tanto no cinema como para o teatro. Como conciliar frescor e rigor, como evoluir sem perder a naturalidade de novas descobertas, como repetir e avançar sem cair no previsível. A especificidade da linguagem do cinema aparecia não só na presença concreta de uma câmera, mas também nas indicações bastante precisas que nos eram apontadas pelo Sergio Penna. Por exemplo, a busca pela cotidianeidade, o naturalismo, a presença de uma locação clara e precisa (uma porta de padaria, uma rua, um quarto, uma cozinha). Nossos personagens eram transportados para um cenário real e concreto do quotidiano, o que diminuía a dimensão do teatro e os fazia prontamente habitar o mundo do cinema. E, essencialmente, essa forma de atuação que, sendo contida e precisa, demanda do ator um preenchimento interior bastante intenso. Ainda é cedo para tirar conclusões mais definitivas. O que temos certeza é que ambas experiências foram muito significativas e que esperamos que elas não só nos possibilitem abrir novos campos na área do cinema e do áudio visual, como também criar novas referências e estímulos para o trabalho desenvolvido dentro do teatro. Cine Horto em foco Cine Horto em foco | 85 UM INTERCÂMBIO INTERNACIONAL Chico Pelúcio Pelúcio* O Galpão Cine Horto chega aos seus dez anos de existência. Mais do que comemorar as vitórias, os encontros e os sucessos conquistados, acreditamos que o momento é de avaliação de nossas fragilidades. Completar uma década de trabalho sugere revisão, sugere renovação e aperfeiçoamento. No momento, nossa vontade é de abrir novos caminhos mais próximos dos artistas, dos grupos de teatro e do público. Assim, neste ano de 2008 já iniciamos o processo de reestruturação dos projetos implantando uma série de modificações em diversos deles. O Oficinão passou a selecionar por edital o seu diretor/coordenador, abrindo espaço para novos artistas do Brasil e novas propostas. O Festival de Cenas Curtas sofreu muitas alterações buscando melhor aproveitar a cenas apresentadas como também abrir mais espaços para discussão e reflexão sobre elas. O Galpão Cine Horto também convidou uma das cenas a desenvolver sua proposta de encenação, oferecendo infra-estrutura e alguns serviços para que ela possa se converter em um espetáculo. Tivemos também um Galpão Convida ampliado, que promoveu um encontro de teatro de rua, com apresentações de 5 grupos de Belo Horizonte, um grupo convidado de São Paulo e um seminário com três mesas que discutiram assuntos pertinentes ao teatro de rua em Minas e no Brasil. O mesmo aconteceu em Ipatinga, onde levamos uma versão reduzida do evento. Na tentativa de atuar em áreas importantes e que são carentes de apoio e de iniciativas, programamos para o início de 2009 o lançamento de uma coleção de livros que registra os textos das peças e o seus respectivos processos de * Ator e diretor de teatro, integrante do Grupo Galpão e Diretor Geral do Galpão Cine Horto. 86 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto criação, especialmente os escritos para montagens dos Oficinões, que são, em sua maioria, resultado das oficinas de dramaturgia. Essas publicações fazem parte dos projetos do nosso Centro de Pesquisa e Memória de Teatro – CPMT – que, em ação pioneira, também está criando um portal de artes cênicas, em parceria com a PUC Minas, com lançamento previsto para dezembro de 2008. Muitas dessas mudanças são resultados de um seminário que iniciamos no final de 2007 e que busca a reestruturação do nosso funcionamento estabelecendo novas metas a serem perseguidas. Assim como no início de implantação do Galpão Cine Horto tivemos forte influência da Escola Livre de Santo André e do Centro de Construção e Demolição de Espetáculo coordenado por Aderbal Freire Filho no Rio de Janeiro, agora o contato com um centro cultural de Londres chamado Battersea Arts Centre – BAC vem trazendo luz para o planejamento e o aperfeiçoamento de nossas ações. Há quatro anos eu participei do evento do Itaú Cultural em São Paulo chamado Próximo Ato. Nessa ocasião eu conheci David Jubb, diretor artístico do BAC; foi quando tomei conhecimento da filosofia e dos princípios que norteiam as ações dessa entidade inglesa. Ela funciona como um centro cultural de produtores e define como sua missão “inventar o teatro do futuro”, e por isso está ligada às propostas contemporâneas, proporcionando sua exibição, compartilhamento e, principalmente, apoiando e fomentando sua produção. Buscam um contato estreito com os artistas, estabelecendo parcerias para elaboração de seu planejamento, como também para produção de espetáculos. Para tanto, O Battersea Arts Centre lança mão, entre outras coisas, de dois mecanismos de funcionamento. Um dos mecanismos utilizados para diagnosticar as tendências, as preocupações dos produtores, dos artistas e gestores culturais, se dá através dos encontros para realização do “open space”. O Open Space foi criado pelo grupo de teatro inglês Improbable e logo se tornou prática na Inglaterra entre certos artistas e produtores. Ele consiste em sistematizar um procedimento que possibilita a todos os presentes no encontro Cine Horto em foco | 87 propor e discutir os assuntos que individualmente lhes interessam. Todos os presentes podem sugerir temas que são discutidos pelas outras pessoas que também se interessam por eles. Há uma sistematização, que prevê relatores, tempo, grupos de trabalho, espaço, salas para discussão, rotatividade das pessoas por diferentes fóruns de discussão que garantem ao final uma participação efetiva e democrática de todos os presentes. Tal funcionamento permite que se tenha um resultado concreto dos temas discutidos que são posteriormente compartilhados com todos numa grande plenária. No primeiro encontro com o David em São Paulo ele falou da “development ladder” que seria a outra forma de funcionamento que tem como objetivo criar espaço para a criação teatral colocando-a desde o início perto do público que acompanha e contribui com o processo de criação da obra. A escada do desenvolvimento, como é traduzida para o português, consiste em envolver a participação do espectador desde o primeiro momento da criação de um espetáculo até o seu resultado final. Cada degrau da escada equivale a um estágio da cena e a esses momentos de encontro com o espectador se chama “scratch”. A cada diferente “scratch” se prevê uma forma diferente de retorno, inclusive o financeiro, do espectador que tem a oportunidade de acompanhar todo o processo de criação de um espetáculo desde o primeiro experimento de uma idéia até a sua estréia. Essa forma de trabalhar é também utilizada pelo BAC para orientar sua definição de apoio e parceria com os artistas envolvidos. A escolha artística de quem e como apoiar tem, nos degraus da escada do desenvolvimento, sua referência e suporte. Isto é, as propostas de cenas e espetáculos passam, desde o início, pelos diferentes degraus e vão revelando ou não o seu potencial de se tornarem espetáculos. A partir de um certo estágio (degrau), o BAC vai incorporando a proposta do artista e/ou grupo, oferecendo produção, infra-estrutura e financiamento para o seu trabalho. Esse apoio se dá até a estréia, a temporada e, em alguns casos, até mesmo na organização de uma turnê do espetáculo por algumas cidades da Inglaterra. Os artistas e/ou grupos, ao final dessa trajetória, se tornam colaboradores do BAC, e se dispõe a dar apoio aos novos artistas Battersea Arts Centre que estão entrando no primeiro degrau de uma nova escada do desenvolvimento. Portanto, é uma estratégia de gestão e fomento muito interessante, que prevê não só o processo artístico, como também princípios de gestão. Ao cumprir o ciclo e se tornar um novo colaborador do BAC, o artista/grupo realimenta a escada, fechando assim uma cadeia auto-sustentável, fortalecendo cada vez mais a rede de apoio e suporte às novas propostas. O BAC foi pioneiro no desenvolvimento dos “scratchs”, da escada do desenvolvimento e, junto com outros grupos, vem realizando o “open space” como referência para o seu planejamento. Ao conhecer o David Jubb e o BAC fiquei bastante interessado em passar alguns dias em Londres estabelecendo um intercâmbio presencial que pudesse de fato iniciar uma parceria. Então, organizei minha viagem para maio de 2008 na mesma época que estaria acontecendo o BURST – Festival internacional de Teatro, Dança, Música e Performance organizado pelo próprio BAC. Com apoio da Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais cheguei a Londres três dias antes do início do Festival e pude participar da prévia organização do evento e conhecer o trabalho dos diversos setores que compõe o BAC. Além das atividades coletivas, eu também tive encontros separados com os responsáveis de cada área para melhor conhecer o funcionamento do BAC. Durante minha estadia de 25 dias, além de participar efetivamente do dia-adia da casa, pude também conhecer outros centros culturais semelhantes ao Cine Horto em foco | 89 Galpão Cine Horto. Um dos mais interessantes foi o Young Vic, dirigido por David Lan. Ali pude assistir a uma instigante montagem da Alma Boa de Setsuan de B. Brecht em uma das três salas multimeios utilizadas para a série de oito produções anuais que eles promovem em média. Outro espaço interessante foi o Shunt Lounge na London Bridge, no sub-solo do metrô onde abriga diversos espaços e bares. Dentro da programação do próprio BURST Festival foi possível assistir a muitos espetáculos de teatro, dança, música e muitos scratchs. Todos voltados para uma linguagem contemporânea, misturando canto com movimento, dança sem música, teatro sem palavra, teatro e movimento, cantos distorcidos, música eletrônica, imagens projetadas, performances, apresentações individualizadas, participação simultânea do espectador na construção da apresentação, etc. A escolha dos espetáculos do Festival revelava também o perfil de interesse dos organizadores à medida que os espetáculos tinham uma forte tendência de se distanciar da formalidade das artes cênicas. Segundo um dos diretores do BAC David Micklen: “aqui falamos muito sobre 4 vieses de atividades. O viés do teatro, o viés do evento, o da participação e também o viés do espaço. Cada um desses se conecta para reverenciar esta missão que é inventar o futuro do teatro” (leia a entrevista completa na página 91). A atividade programada para o Gran Hall dentro do BURST Festival foi um exemplo bastante claro de como eles utilizam o scratch na conexão desses pontos e, também como provocação, como desafio aos artistas a produzirem resultados que lhe interessam. O Gran Hall é um salão imenso, com vitrais vitorianos e um pé direito altíssimo. Pouco apropriado para ser utilizado como espaço cênico devido às suas proporções, ele vinha sendo alugado para grandes eventos, gerando fonte de recursos, e não como espaço cênico. Esse ano eles resolveram utilizá-lo para teatro. Então eles convidaram diversos diretores e artistas para criarem uma cena de 15 minutos (scratch) que utilizasse aquele imenso espaço. Então, todo dia às 17:00 público e funcionários se dirigiam ao Gran Hall para assistirem a uma nova cena pensada especialmente para 90 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto ocupar aquele imenso espaço. Foi uma delicia assistir a uma série de diferentes proposta teatrais de utilização do salão. A partir dessa experiência o BAC deverá convidar uma ou mais propostas para efetivamente desenvolverem-se em espetáculos para serem exibidos naquele espaço. Hoje o BAC é reconhecido na Inglaterra como o lugar onde se encontra a produção contemporânea do teatro e da dança. Um espaço preocupado em promover a arte dos dias atuais, em formular perguntas e em buscar respostas. Certamente, ter passado essa temporada dentro do Battersea Arts Centre em Londres alimentou nossa vontade de continuar a busca de novos caminhos, assim como reafirma em todos nós a importância das parcerias e do compartilhamento com outras experiências. Aponta, cada vez mais, para uma maior participação do público e dos artistas em nossos projetos. Battersea Arts Centre Cine Horto em foco | 91 ENTREVISTA CONCEDIDA POR DA VID JUBB E DA VID MICKLEM DAVID DAVID DIRETORES ARTÍSTICOS DO BATTERSEA ARTS CENTRE/LONDRES A CHICO PELÚCIO DIRETOR-GERAL DO GALPÃO CINE HORTO David Jubb: Certo, bem... então falaremos para você. Chico Pelúcio: Sim, ok. David Jubb: Então... meu nome é David Jubb. Sou diretor artístico do Battersea Arts Centre (BAC) localizado na região sudoeste de Londres. David Micklem: Eu sou David Micklem. Também sou diretor artístico do BAC aqui na região sudoeste de Londres. David Jubb: Nós estamos instalados em uma pequena sala na frente deste prédio... daqui a pouco vamos falar mais sobre o prédio e a função que ele cumpre no que diz respeito ao BAC. Mas a primeira coisa da qual falaremos é sobre a missão desta organização, que é muito simples: inventar o futuro do teatro. Estamos interessados em novas formas de teatro, em criar novas formas de trabalho. A razão para isso é simples. Acho que a maioria das pessoas que trabalham ou freqüentam o BAC, sejam artistas, platéias, ou equipes, provavelmente pensa que a maior parte do teatro feito no Reino Unido não é muito excitante, é muito amarrada (comprometida) como forma de arte. Muito disso tem a ver com a arquitetura do teatro, sobre a qual falaremos mais tarde. Mas uma parte disto tem a ver com o fato de que as formas tradicionais de teatro estão enraizadas na dramaturgia e não em processos colaborativos. São mais um teatro de idéias, o que faz com que às vezes, no teatro, nós nos sintamos como se estivéssemos ouvindo um sermão, mais do que sentir que 92 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto estamos envolvidos, que sentimos uma cumplicidade com o artista e, conseqüentemente, uma cumplicidade com nosso companheiro de platéia. Portanto, nossa missão é muito simples, ou seja, reinventar o futuro do teatro. Se o teatro deseja ser uma forma de arte vibrante, excitante e dinâmica no século XXI, ele precisa buscar as platéias, engajá-las, envolvê-las nesta forma de arte, e não tratá-las como pessoas que precisam ler mais livros. David Micklem: E tudo o que fazemos converge para esta visão. Aqui falamos muito sobre 4 vieses de atividades, sobre os quais falaremos mais tarde. Eles são: o viés do teatro, o viés do evento, o da participação e também o viés do espaço. Cada um desses se conecta para reverenciar esta missão que, como disse o David, é inventar o futuro do teatro. David Jubb: Bem, falaremos sobre 3 coisas nos próximos 20 minutos. Uma delas é a programação e a estrutura de programação, como nós fazemos a programação, e as relações dentro da estrutura de programação. A segunda é falar sobre o playgrounding e a arquitetura teatral, e sobre o processo que David e eu vamos desenvolver aqui no BAC nestes próximos 4 anos. A terceira é falar sobre a questão financeira e nossa relação com os acionistas do mundo lá fora, e como o Battersea Arts Centre é mantido. Então, a gente vai começar falando um pouco sobre a programação, a nossa estrutura. Nós temos um jeito muito particular de trabalhar no BAC no que diz respeito ao modo como desenvolvemos teatro, porque o trabalho que desenvolvemos não começa com um roteiro, não começa com um dramaturgo, geralmente começa com uma idéia. Só um minuto... Você tem uma apresentação marcada pra agora? (David é interrompido por um ator que utilizará o espaço para uma pequena performance.) Ator: Sim, sim, em alguns minutos... David Jubb: E se a gente continuar fazendo isto aqui enquanto ele trabalha lá? Seria melhor não estarmos aqui? Cine Horto em foco | 93 Ator: Provavelmente sim. Talvez não seja um grande problema, mas poderá distraí-lo. David Jubb: Com certeza, está entendido. Então, quando ele entrar, será que a gente vai naquela direção? Ator: Sim, sim, ou... ele entra através desta porta então... David Jubb: ... então, a gente acena pra ele e vai naquela direção e, assim que ele sair por ali, a gente volta... David Micklem: E a apresentação dura mais ou menos 5, 10 minutos? Ator: Ah, mais ou menos 3 minutos. David Micklem: 3 minutos, certo, bom! Ator: Sinto muito... David Jubb: Ótimo! Você vai ter a chance de ver como nós desenvolvemos teatro no BAC enquanto continuamos. Então, algo importante sobre o modo de desenvolver trabalhos é que, pelo fato do trabalho começar com uma idéia, e não com um dramaturgo; isto significa que ele pode começar com um ator, um designer, um diretor, um coreógrafo, etc. Esta pessoa terá uma idéia e, então, começará a formar um grupo de atores, ou designers, diretores, coreógrafos, dramaturgos ao redor daquela idéia. Cada grupo formado no BAC é diferente, é único. Então, criamos algo chamado ESCADA DE DESENVOLVIMENTO. A ESCADA DE DESENVOLVIMENTO é um processo através do qual artistas compartilham seu trabalho com platéias e recebem retorno. Então, o 1º nível na escada é chamado NOITE DO RASCUNHO (DO PRIMEIRO ARRANHÃO). Nesta noite os artistas, as companhias mostram às platéias 5 a 10 minutos de trabalhos em estágios muito iniciais de desenvolvimento. Talvez tenham trabalhado apenas 2 horas, ou talvez dois dias naquela idéia... e vão tentar algo neste momento inicial de desenvolvimento do trabalho. A noite é dividida em metades... uma metade no teatro, outra metade no bar. 94 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto Pedimos à platéia que pague bebidas para os artistas e lhes digam o que acharam do trabalho. Os artistas, esperamos, terão boas perguntas para fazer à platéia. A platéia contribui então com idéias e o trabalho, naquele momento, ou ele será colocado de molho, pois todos sentem que não vale a pena continuar com aquela idéia e que ela não é interessante, ou continuará e se tornará um trabalho mais longo, talvez não para o espaço de um teatro... Portanto, a ESCADA DE DESENVOLVIMENTO contém uma série de temporadas, em que, a cada vez, o trabalho se expande, se enriquece, se torna mais longo às vezes... e também fica gradualmente mais caro para a platéia. Quando uma platéia vem assistir a um rascunho, eles pagam pouco dinheiro, talvez 50 pence ou uma libra (o que seria talvez 4 reais, eu acho...). É muito barato. E, na medida em que o trabalho cresce e amadurece, processo que pode às vezes durar dois anos, o trabalho se torna mais caro para a platéia. O trabalho também cresce em público na medida em que sobe a escada. David Micklem: será que devemos falar sobre o playgrounding? David Jubb: Sim, mas pensei em antes falar um pouco sobre a questão produção/artista... David Micklem: É com você! David Jubb: Então, a outra coisa... nós fazemos programações através da ESCADA DE DESENVOLVIMENTO. Há nela uma estrutura de relações muito importante, que nos ajuda a escolher, que nos ajuda a compreender quais projetos seguirão na escada e quais não. Estamos falando da relação entre o artista e o produtor. É esta a relação central que conduz todo o programa no BAC. Temos também relações extremamente importantes com as platéias, como já descrevemos, com os patrocinadores, com terceiros, mas a relação entre o produtor e o artista é o espaço onde as decisões relativas ao trabalho são tomadas. E a gente tenta assegurar que haja uma ecologia de relacionamentos entre artistas e produtores no BAC. Assim... existem jovens artistas emergentes fazendo trabalhos em nosso festival de formatura, vindo ao BAC para arranhar alguma coisa pela primeira Cine Horto em foco | 95 vez com idade de 16, 18, 20. Mas existem também artistas experientes, que talvez tenham trabalhado no BAC ao longo dos últimos 20 anos e que, depois de terem saído e feito turnês nacionais ou internacionais, voltam para experimentar algo novo e testar novos métodos, ver e conhecer novos artistas e seus trabalhos, o que enriquece o próprio trabalho deles. Então, aquela ecologia envolve um grande grupo, quero dizer, nós temos uma família de aproximadamente 350 artistas, uma equipe... os artistas incluem dramaturgos, designers, coreógrafos, etc., e muitos produtores na equipe, mais ou menos, 8 ou 9 em tempo integral, e David e eu, que nos consideramos produtores, embora nosso título seja de diretores artísticos. Nós não dirigimos de fato. Somos produtores. E, a cada semana, a equipe de produção se reúne e toma decisões sobre o que será programado e o que não será. E este é um processo muito lento e gradual. Às vezes pode levar até 3 ou 6 meses dos primeiros sinais da semente de uma idéia e das reuniões de programação até que aquele programa esteja completo... pode levar 1, 2 anos antes que a função de um programa esteja completa. Outra estrutura muito importante que usamos em nosso processo de programação é o ESPAÇO ABERTO, que é uma forma democrática de conversar, na qual qualquer pessoa que entre na conversa, seja esta entre 5 ou 500 pessoas, pode democraticamente estabelecer a pauta para aquela conversa. E as pessoas podem então votar por si mesmas em qual conversa desejam participar. Nós temos 3 ou 4 reuniões em conjunto; uma família muito grande de artistas e produtores; mais ou menos 3 ou 4 vezes ao ano. E usamos o ESPAÇO ABERTO para essas reuniões, o que significa dizer que nós, enquanto produtores do BAC, não estabelecemos a pauta para aquelas reuniões. Significa que os artistas podem contribuir com suas idéias e também que quando chegamos àquelas reuniões de programação semanais, aquelas idéias que surgiram no ESPAÇO ABERTO estão lá, sobre a mesa, para que nós possamos tomá-las. 96 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto David Micklem: Então o David falou muito sobre a relação ente artistas e produtores, a importância dessa relação, e também sobre como essas duas relações funcionam em relação às platéias e ao quarto componente a ser adicionado a essa mistura, que é o prédio no qual estamos agora. O BAC é sediado em um velho prédio da cidade, o antigo Battersea Town Hall, construído em 1893 por E. W. Mountford, um dos grandes construtores do final da era Vitoriana. A intenção nunca foi fazer dele um teatro, um centro de artes. Ele foi um prédio da administração municipal até o final dos anos 70, quando mudanças levaram Battersea a mudar seu departamento administrativo para outro prédio municipal, a mais ou menos duas milhas daqui, em Wandsworth. Falaremos sobre o patrocínio do Conselho de Wandsworth daqui a pouco... Portanto, nós ocupamos um prédio... qual o seu tamanho?... não sei, aproximadamente 1 acre, não tenho certeza quantos hectares, mas é um grande prédio, que inclui tudo, do Grand Hall com capacidade para 1.000 pessoas até espaços bem pequenos e íntimos, que se tornam propostas excitantes para os artistas com os quais estamos ligados, com os quais trabalhamos. E uma das coisas que aprendemos nesses 25 anos... bem, é que a gente tem que ... CARA: Tudo bem, vocês podem ficar aí... David Jubb: Tem certeza? CARA: Sim... David Micklem: E se nós ficarmos conversando? CARA: Faremos algo silencioso, não se preocupem. David Jubb: Ok. David Micklem: Tem certeza? CARA: Sim... David Micklem: Ok... então, este prédio é uma grande provocação. Uma das coisas que aprendemos é que a própria natureza do fato de que este não é um Cine Horto em foco | 97 teatro, de que não é um centro de artes, tem sido de imenso valor, e também uma rica provocação para os artistas e... embora nós tenhamos alguns espaços neste prédio construídos como palcos (temos 3 estúdios, 2 pequenos e 1 mais significativo), é provável que tenhamos outras 50, 60 salas que, na medida em que nos abrimos, se tornam uma provocação cada vez maior para os artistas. Bem, ao longo do último ano, nós estabelecemos..., bem, mais do que um ano... nos últimos 2 anos nós estabelecemos uma relação extraordinária com arquitetos, os mais bem sucedidos arquitetos visuais deste país, que ganharam uma série de prêmios nacionais e internacionais por seus trabalhos. Nós desenvolvemos um relacionamento com eles, que afeta a co-produção, para vermos como poderíamos desenvolver este prédio a cada dia. Conversamos muito sobre como reter os fantasmas do nosso passado do século XIX em um ambiente de performance do século XXI. Nós queremos criar um espaço, ou melhor, uma série de espaços, onde os artistas possam fazer trabalhos, vivenciá-los em diferentes escalas, em diferentes ambientes arquitetônicos. Então, em parceria (co-produção) com uma firma de arquitetos, nós desenvolvemos um princípio, ou filosofia, chamada playgrounding – que é efetivamente ver este prédio, este prédio extraordinário, através dos olhos de um artista; imaginar o que este prédio poderia... como nós o desenvolveríamos para adequá-lo melhor aos propósitos de um playground para artistas. Acabamos de terminar um primeiro e importante projeto de ocupação do prédio, que fez exatamente isto. Trabalhamos com uma companhia sediada em Londres chamada PUNCHDRUNK. Nós transformamos o prédio, usamos 75% do prédio com a produção de The Masque of the Red Death (A Máscara da Morte Vermelha), baseada no texto de Edgar Allan Poe, oferecendo ao público uma extraordinária experiência visceral, participativa e de imersão, e também acesso a este prédio extraordinário. David Jubb: Acho que um bom exemplo de playgrounding é que, enquanto estávamos sendo entrevistados aqui, aconteceu uma pequena performance 98 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto logo ali. Gire a câmera um pouco, só pra mostrar o espaço. Naquela plataforma um homem acabou de se despir, ficar só de cueca, colocar um vestido e atuar através de uma janela para o interior de um café onde há um membro da platéia, mas também pessoas almoçando, basicamente pessoas da comunidade local ou outros usuários do prédio. Playgrounding significa na verdade abrir o prédio e usar qualquer espaço para as performances. Exatamente como David disse, ver o prédio através dos olhos de um artista. Portanto, tem a ver com criar um espaço onde tudo isso possa acontecer, e a performance não seja de certa forma escondida atrás de portas fechadas, selada ou enclausurada. De fato, o que é excitante sobre as performances são os camarins; são as performances que acontecem de forma inusitada, que surpreendem a platéia e capturam sua imaginação. Playgrounding é em parte uma filosofia que envolve a arquitetura do local, e vem desenvolver um novo tipo de espaço teatral em um espaço encontrado e adaptado. Mas também é simplesmente sobre o princípio fundamental de compartilhar um trabalho que é lúdico, envolvente e surpreendente, que acontece em locais que você não imaginaria. David Micklem: Nós gostamos muito de dar o sangue, dissolver as barreiras entre o palco e os bastidores que existem nas formas mais tradicionais de teatro. Gostamos de ver o mapa deste prédio como um lugar onde tudo pode acontecer, onde possamos nos engajar com nossa arte, seja a rua lá fora ao lado do prédio, para a qual estamos planejando espaços de performance, ou o minúsculo quarto da enfermeira, com capacidade para 5 ou 6 pessoas, ou até mesmo o Grand Hall, um vasto e lindo exemplo da grandeza dos anos de 1893 que se encontra neste prédio. Todos esses espaços diferentes oferecem uma gama de, digamos, provocações aos artistas e platéias. Isto explica porque a minha explanação sobre playgrounding foi um pouco hesitante mais cedo. Eu estava assistindo à cena aqui... David Jubb: Talvez algumas estatísticas antes de falarmos sobre o financeiro, nossos acionistas e as relações com essas partes. Vamos imaginar alguns números para ajudá-lo a imaginar a escala da organização na qual trabalhamos. Como o David disse, estamos em uma área de 1 acre e o prédio tem cerca de Cine Horto em foco | 99 69 salas de tamanhos e escalas muito diferentes. Todas essas salas são interconectadas. Existem duas grandes passagens, como dois grandes pulmões a leste e oeste do prédio. E, exatamente como disse o David, o prédio fica em sua própria rua privada, o que nos dá grandes oportunidades de atuar lá fora. Existem mais ou menos 40 funcionários em tempo integral e vários funcionários em meio-expediente que trabalham para o BAC em variadas equipes. Existem 7 equipes-chave: a equipe de produção/espaço, que é uma nova equipe que administra o prédio inteiro; uma equipe de comunicação; uma equipe de produção (existe a equipe de produção teatral que participa desta. Elas estão se fundindo); a equipe de finanças, como em qualquer outro espaço e... David Micklem: Desenvolvimento. David Jubb: A equipe de desenvolvimento; uma equipe de captação de recursos, sobre a qual falaremos daqui a pouco. David Micklem: Então, é importante notar essa combinação de 40 funcionários em tempo integral, para reconhecer que o BAC é imensamente dependente de uma enorme equipe de voluntários. Nós temos uma rede de voluntários de provavelmente 200 indivíduos, indo de muito jovens a muito velhos, que realmente ajudam o BAC a continuar seguindo, ajudando a construir cenários ou a pintar o prédio, dando boas vindas aos que nele chegam... Tem um casal maravilhoso de 60 e tantos anos que vem ao BAC como voluntários todos os dias. Eles enchem envelopes com filipetas, informam às pessoas o que o BAC está fazendo, ou sobre os arquivos que temos no prédio, podem ajudar a servir drinks para a platéia... Então, a gente conta incrivelmente com esse trabalho não pago, mas extremamente valioso, vindo da comunidade. David Jubb: Outras estatísticas incluem... a cada ano nós criamos e apresentamos aproximadamente... depende do ano, mas... aproximadamente 250 shows. Isto te dá uma dimensão da escala desta ESCADA DE DESENVOLVIMENTO. Existem centenas e centenas de diferentes trabalhos sendo apresentados. Nós provavelmente temos a maior, em termos de número de apresentações, programação teatral em todo o Reino Unido. 100 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto Nós também temos um significativo programa de participação envolvendo vários grupos jovens e também um grande programa escolar, que trabalha com crianças de escolas primárias do bairro. Cerca de 4000 crianças ao ano se beneficiam deste relacionamento, das oficinas, ou simplesmente de momentos no prédio ou do lado de fora quando convivem com artistas. Battersea Arts Centre David Micklem: Nós temos uma programação de 52 semanas/ano e estamos seriamente considerando a possibilidade de ficarmos abertos 24 horas. Uma das coisas da qual iríamos falar sob o título Playgrounding é a idéia de LAR. Estamos a fim de desenvolver a idéia deste prédio se tornar um lar para artistas, equipe e, ocasionalmente, para membros da platéia também. Um lugar onde as pessoas possam se encontrar, cozinhar juntas, beber algo e passar a noite. Quer dizer, se alguém tem uma idéia de manhã e quer desenvolver um trabalho ou estender os ensaios por um período de 24 horas, este prédio poderia oferecer a eles a oportunidade de fazer exatamente isto. Acender as luzes do estúdio e continuar até cair... Bem, este pensamento é ainda embrionário, mas nós gostamos muito da idéia de envolver artistas internacionais, começar a desenvolver um modelo de residência, o que quer dizer que pessoas poderiam de fato viver aqui no BAC por uma noite, uma semana, seis meses. Então, esperamos conversar com pessoas de muitos países, como o Brasil, sobre este modelo de lar que desenvolveremos nos próximos 6 a 12 meses. Chico Pelúcio: Vocês poderiam nos dar alguns números como... quantidade de funcionários permanentes, Cine Horto em foco | 101 quanto custa o BAC por ano, quantas apresentações vocês promovem... alguns números... David Jubb: Mais números, muito bem... cerca de 250 mil pessoas vêem ao BAC por ano, entre platéia, pessoas envolvidas nos trabalhos de teatro, nos trabalhos participativos, eventos e... em termos de número de... nossa movimentação anual é de mais de 2 milhões de libras. Portanto, isto nos situa, em relação à Londres, como um teatro de médio porte. E... o que mais...? Outros números? Bem sobre a equipe permanente, nós somos 40 funcionários em tempo integral. David Micklem: Ainda um pouco mais sobre a questão financeira, talvez... David Jubb: Sim. David Micklem: Falar sobre como nossa verbas é constituída. Nosso patrocinador principal é o Conselho de Artes, que é a organização nacional para o desenvolvimento das artes na Inglaterra. Chico Pelúcio: Qual é o valor dado pelo Conselho de Artes por ano? David Micklem: Aproximadamente 635 mil libras por ano. Este patrocínio é revisto em ciclos de 3 anos. Nós acabamos de iniciar um novo ciclo de 3 anos; portanto, daqui a 2 anos, nós entraremos em negociação sobre o próximo período de 3 anos. Mas, no momento, a gente se encontra, como disse o David, no patamar do meio em termos de financiamento. O Teatro Nacional ganha cerca de 16 milhões de libras e há outras companhias e pequenas organizações com as quais trabalhamos que talvez ganhem 20 ou 30 mil libras ao ano. Portanto, com 630 mil libras anuais, somos uma organização de porte médio no portfolio de financiamentos do Conselho de Artes. Também somos financiados pela poder público local, o Conselho do Bairro Wandsworth, que nos dá uma quantidade pequena de dinheiro, embora muito importante em nosso pacote de desenvolvimento. Este nos permite fazer muitos trabalhos com pessoas jovens. Como disse o David, alguns dos trabalhos com as escolas são financiados especificamente pelo poder público local. 102 | Subtexto . Revista de Teatro do Galpão Cine Horto O poder local também é dono deste prédio. Este era um prédio municipal e ainda pertence à autoridade local. Mas hoje, em maio de 2008, acabamos de assinar um novo contrato de leasing de 125 anos para uso deste prédio, o que efetivamente significa que o prédio é nosso, embora ainda pertença ao poder público. Eles só o terão de volta daqui a quantos anos... não sei exatamente. Então, o BAC esta agora muito enraizado, como uma residência permanente neste prédio... Temos uma relação muito boa com o poder público local... David Jubb: Uma questão muito importante sobre nosso pacote de captação de recursos é algo que o David e eu compartilhamos como produtores, um verdadeiro pioneirismo no modo pelo qual buscamos parceiros financiadores... Não apenas trabalhamos com grandes organizações governamentais como o Conselho do Bairro WandsWorth ou o Conselho de Artes. Buscamos também dinheiro em fundações privadas, com indivíduos, nos certificando de que as pessoas estão vindo ao teatro, fazendo suas próprias contribuições individuais, trabalhando com co-patrocinadores potenciais, que emplacam nossos primeiros projetos de peso do playgrounding. Então, é muito importante para a vida, a saúde, o bem estar do BAC, e também dos artistas, platéias e equipes que o habitam, que nós estejamos, sempre que possível, buscando essas parcerias. Esta certamente tem sido uma área de significativo crescimento no BAC nos últimos 2, 3 anos. David Micklem: Sim, nós temos uma base de financiamento muito diversa. Hoje somos muito menos dependentes de um único patrocinador do que éramos a 5, 10 anos atrás. Embora o patrocínio do Conselho de Artes seja fundamental para a saúde do BAC, conseguimos espalhar nossa rede de captação de recursos criando diferentes áreas de apoio, o que nos possibilita levar adiante um programa dinâmico para o prédio. Se um faltar, ainda temos outras relações que constantemente cultivamos e que poderão apoiar as ações do BAC. David Jubb: Se você assistiu a esta entrevista e quer saber mais sobre o BAC, o endereço eletrônico é www.bac.org.uk. Se você quiser escrever para mim ou para o David, ou qualquer um no BAC, escreva para feedback no Cine Horto em foco | 103 bac.org.uk e entre em contato. A gente se interessa em ouvir sobre você e seu trabalho. Chico Pelúcio: Mas acho que o melhor é vir à Inglaterra, à Londres ver O BAC pessoalmente, não é? David Jubb: Sim, certo... Chico Pelúcio: Eu gostaria de dizer muito obrigado a ambos vocês e espero que este seja apenas o primeiro encontro... depois de São Paulo, onde eu o conheci (David Jubb), e espero que seja apenas o primeiro... David Jubb: Nós também. Chico Pelúcio: Aqui ou em Belo Horizonte, Brasil. Obrigado por me receberem aqui. David Jubb: Foi um prazer. Chico Pelúcio: O prazer foi meu. Tchau! David Jubb / David Micklem: Tchau! Ficha Técnica GALPÃO CINE HORTO GRUPO GALPÃO DIREÇÃO GERAL: Antonio Edson Arildo de Barros Beto Franco Chico Pelúcio Eduardo Moreira Fernanda Vianna Inês Peixoto Júlio Maciel Lydia Del Picchia Paulo André Rodolfo Vaz Simone Ordones Teuda Bara Chico Pelúcio Beto Franco, Lydia del Picchia e Júlio Maciel COORDENAÇÃO GERAL : Leonardo Lessa COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO: Joyce Malta ASSISTENTES DE PRODUÇÃO: Cristiane Moreira, Erica Vilhena e Patrícia Campolina COORDENAÇÃO DO CENTRO DE PESQUISA E MEMÓRIA DO TEATRO (CPMT): Luciene Borges ASSISTENTE DO CPMT: Natália Barud BIBLIOTECÁRIA DO CPMT: Fernanda Christina da Costa ESTAGIÁRIA DO CPMT: Sabrina Paolucci COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA: Ana Domitila e Lydia del Picchia SECRETÁRIO DE CURSOS: Jacson Melo NÚCLEO PEDAGÓGICO: Cristiano Peixoto, Gláucia Vandeveld, Juliana Barreto, Juliana Martins, Laura Bastos, Silvana Stein e Tarcísio Ramos COORDENAÇÃO DO PROJETO SÓCIO-CULTURAL CONEXÃO GALPÃO: Lúcia Ferreira EQUIPE DO PROJETO CONEXÃO GALPÃO: Carolina Bahiense, Dayane Lacerda, Gustavo Baracho e Reginaldo Santos GERÊNCIA ADMINISTRATIVA E FINANCEIRA: Maria José dos Santos AUXILIAR ADMINISTRATIVO: Leandro Dias GERÊNCIA OPERACIONAL: Rose Campos RECEPCIONISTA: Cláudia Maria PORTEIRO: Eberton Pereira SEGURANÇA: Anselmo dos Santos SERVIÇOS GERAIS: Maria Márcia, Juarez Pereira e Rozeli Dias EQUIPE TÉCNICA: Orlan Torres (Sabará) e Juliano Coelho CONSULTORIA PEDAGÓGICA: Fernando Mencarelli CONSULTORIA EM PLANEJAMENTO: Romulo Avelar ASSESSORIA DE PLANEJAMENTO: Regina Célia ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO: Tiago Penna ESTAGIÁRIO DE COMUNICAÇÃO: Caio Otta FOTOGRAFIA: Guto Muniz / Casa da Foto PROGRAMAÇÃO VISUAL: Otávio Santiago CONSELHO GESTOR: COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO: Gilma Oliveira Romulo Avelar ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO: Paula Senna ILUMINAÇÃO E SONOPLASTIA: Alexandre Galvão ILUMINAÇÃO: Wladimir Medeiros CENOTÉCNICA: Helvécio Izabel PRODUÇÃO EXECUTIVA: Beatriz Radicchi ASSISTÊNCIA DE PLANEJAMENTO: Regina Célia GERÊNCIA ADMINISTRATIVA: Arlene Marques ESTAGIÁRIO DE COMUNICAÇÃO: Gabriel Leite Motta AUXILIAR ADMINISTRATIVO: Andreia Oliveira RECEPÇÃO: Luciana Araújo SERVIÇOS GERAIS: Marlene de Oliveira ASSESSORIA DE PLANEJAMENTO: