MEDIÇÃO POR CONTACTO VERSUS MEDIÇÃO ÓPTICA EM MÁQUINAS DE MEDIR POR COORDENADAS (3D) Fernando Ferreira CATIM – Centro de Apoio Tecnológico à Indústria Metalomecânica RESUMO A metrologia é, na actualidade, uma das áreas do conhecimento científico mais relevante e das que maior aplicabilidade tem nos meios industriais, representando um dos mais importantes instrumentos de desenvolvimento tecnológico das empresas e contribuindo em grande parte para a sua competitividade. Neste contexto, a metrologia surge por um lado com a necessidade de esbater a confusão industrial e por outro lado procura implementar uma cultura metrológica, isto é, tudo que seja passível de medição é sujeito a controlo. Assim, partindo do princípio que sem comprovação metrológica não existe fiabilidade no processo e no fabrico de um produto, esta área tem procurado desenvolver a sua actividade na concepção de meios de medição adequados às grandezas a controlar. Desta forma, a metrologia dimensional com um peso de 36% no total da metrologia, foi capaz de desenvolver variados meios de medição. No entanto, entre os vários meios de medição, aqueles que mais se têm evidenciado pela sua exactidão e versatilidade tem sido as MMC’s. Estas máquinas têm dado um salto qualitativo no que diz respeito às suas capacidades e aos meios utilizados, permitindo-nos não só medir mas sobretudo medir bem. Como tal, procurar-se-á demonstrar que perante variadas formas de medir em MMC’s aquela que mais se aproxima da realidade é a medição por contacto uma vez que representa a materialização mais próxima do real de uma dimensão, apresentando uma incerteza baixa. No entanto, as medições em MMC’s com sistemas ópticos apresentam-se como medições versáteis e teoricamente fáceis, sobretudo na realização de medições onde o contacto não é possível, no entanto estes sistemas apresentam incertezas associadas a cada medição mais altos comparativamente com as medições por contacto, contabilizando dispersão, incerteza da MMC e incerteza do sistema óptico. Assim, procurar-se-á fazer uma explanação da medição por contacto e da medição óptica apresentando os resultados obtidos e as respectivas conclusões. ABSTRACT The metrology is one of the areas of the more excellent scientific knowledge and of that bigger applicability has to a large extent in half industrials, representing one of the most important instruments of technological development of the companies and contributing for its competitiveness. In this context, the metrology appears on the other hand with the necessity of reduce the industrial confusion and on the other hand it looks for to implement a metrological culture, that is, everything that is possible of measurement is subject to control. Thus, leaving of the principle that without metrological evidence does not exist reliability in the process and the production of a product, this area has looked for to develop its activity in the conception of adequate ways of measurement to the largenesses to control. In such a way, the dimensional metrology with one weight of 36% in the total of the metrology, was capable to develop varied half of measurement, however those that more have proven for its accuracy and versatility have been the CMM's. These machines have given a qualitative jump in what it says respect to its capacities and the used ways, allow-in not only measuring but over all to measure well. As such, it will be looked to demonstrate that before varied forms to measure in CMM's that one that more is come close to the reality it is the measurement for contact a time that represents the materialization next to the Real of a dimension, presenting an uncertainty low. However, the measurements in CMM's with optic systems are presented as versatile measurements and theoretically easy, over all in the accomplishment of measurements where the contact is not possible, however these systems present uncertainties comparativily higher associates to each measurement with the measurements for contact, entering uncertainty and, dispersion uncertainty MMC of the optic system. Thus, to look it self to make a communication of the measurement for contact and the optic measurement being presented the gotten results and the respective conclusions. 1. Introdução O desenvolvimento industrial das últimas décadas, em especial o desenvolvimento tecnológico nos processos industriais, provocou alterações nas exigências quanto à conformidade dos produtos produzidos. Todo o processo produtivo nas empresas foi-se tornando cada vez mais flexível, sendo capaz de se ajustar às cada vez maiores exigências do mercado, procurando atingir processos de produção rápidos, de menor custo e com elevados níveis de qualidade. A qualidade, por sua vez foi aumentando exponencialmente a partir do controlo de todo o processo produtivo, isto é, passou-se a obter melhores índices de qualidade a partir do cada vez maior conhecimento de todo o processo. Poder-se-á então afirmar que a crescente exigência pela qualidade existente nas denominadas indústrias de ponta, provocou uma aceleração no desenvolvimento tecnológico dos sistemas automáticos quer de produção quer de controlo de componentes/peças nos últimos anos. Da mesma forma que se desenvolveram as máquinas de ferramenta e de produção também os meios de controlo dimensional tiveram necessidade de se desenvolver e adaptar de forma a não serem limitativos nos controlos rápidos e exigentes que eram necessários efectuar. Assim, numa visão, sobre a evolução tecnológica que tem ocorrido nos últimos anos, temos associado aos crescentes níveis de qualidade um crescente controlo metrológico em geral. 2. As Máquinas de Coordenadas (MMC’s) Medir por Num contexto, em que aumentam os meios de controlo dimensional, surge aquele que maior potencial apresenta no que diz respeito a este tipo de controlo: As Máquinas de Medir por Coordenadas (MMC’s), vulgarmente conhecidas como máquinas 3D e que basicamente são equipamentos que medem as características geométricas tridimensionais de qualquer tipo de peças. A primeira MMC surge em 1959 e foi desenvolvida pela Ferranti, Ltd. Of Dalkeith, na Escócia. De imediato foi introduzida na indústria de forma a tentar acompanhar o ritmo da produção das máquinas automatizadas, uma vez que os equipamentos convencionais existentes não conseguiam dar a resposta que muitas vezes se lhes exigia. Desde então, as máquinas de medir por coordenadas (MMC’s), cuja utilização se tem generalizado nas mais diversas áreas da indústria, com especial relevância nas exigentes indústrias automóvel, espacial e aeronáutica, têm vindo a desempenhar um papel fundamental no que diz respeito aos avanços que a metrologia dimensional têm obtido nos anos mais recentes. Assim, as MMC’s apresentam-se como o recurso mais poderoso que as industrias possuem para o desenvolvimento de produtos e para o controlo dimensional que devem realizar. O desenvolvimento deste tipo de máquinas de medir por coordenadas (MMC’s) foi favorecido também pela evolução dos sistemas de medição de deslocamento electrónicos. Estes sistemas permitiram elevar a qualidade das MMC’s e viabilizaram a sua integração nos sistemas automatizados de fabricação e controlo. Desta forma, as MMC’s pelas suas capacidades (boa exactidão, boa flexibilidade e capacidade de automatização) são já consideradas como um equipamento indispensável nos processos produtivos das empresas quer seja no desenvolvimento do produto, no desenvolvimento de processos ou no próprio controlo do processo. Assim, as MMC’s tornaram-se, cada vez mais, parte integrante dos sistemas de controlo da qualidade. 3. As Máquinas de Medir por Coordenadas de Ponte Móvel e Mesa Fixa As máquinas de medir por coordenadas mais frequentemente encontradas na indústria, laboratórios e centros de investigação são as MMC’s de ponte móvel e de mesa fixa. Estas máquinas materializam um sistema de coordenadas cartesiano, em que os três eixos (X, Y e Z) são lineares e perpendiculares entre si. Entre as principais vantagens deste tipo de máquinas destacam-se a robustez, alto grau de estabilidade, boa capacidade de carga da mesa e também um bom volume útil de medição associado a uma muito boa exactidão (caso especifico por exemplo da máquina ZEISS UPMC Ultra). Figura 1 - MMC ZEISS CONTURA G2 Length Measuring Uncertainty MPE_E=1,9+L/300 (µm) Figura 2 - MMC ZEISS UPMC Ultra Length Measuring 1/2D Uncertainty MPE_E=0,3+L/1000 (µm) 4. Sistemas de Medição As MMC’s contam com sistemas mediante os quais é efectuada a aquisição das coordenadas, normalmente cartesianas, dos pontos a medir. Na actualidade, as MMC’s contam com dois tipos de sistemas de medição, os sistemas de medição por contacto e os sistemas de medição de não contacto. 4.1. Sistemas de contacto O sistema de contacto, vulgarmente conhecido como sistema de apalpação, tem como finalidade fazer a aquisição de um determinado ponto medido através do contacto com a superfície a medir, apresentando as coordenadas nos eixos X, Y e Z, relativamente a um sistema de coordenadas definido. Figura 3 – Exemplos de palpadores de uma MMC Contura G2 da Zeiss (sistema rotativo) 5. Vantagens e desvantagens nas medições por e sem contacto 5.1. Vantagens contacto Figura 4 – Exemplos de palpadores de uma MMC UPMC Ultra da Zeiss (sistema fixo) 4.2. Sistemas de não contacto Os sistemas de medição por não contacto, tem como principal objectivo, tal como o sistema por contacto, a aquisição de coordenadas de um ponto localizado numa superfície da qual se pretende obter medições. Uma vez que na indústria actual muitas peças são de grande complexidade geométrica, onde muitas vezes é de todo impossível obter medições através do contacto com um simples apalpador, os principais fabricantes de MMC’s desenvolveram novos equipamentos para as máquinas de forma a substituir, em medições muito especificas, os habituais apalpadores de contacto. Entre esses equipamentos destacam-se dois pelas suas capacidades e versatilidade. dos sistemas de O sistema de contacto tem como função transmitir ao processador da máquina a existência de um toque numa determinada superfície de forma a registar as coordenadas desse ponto onde se efectuou o contacto e simultaneamente efectuar a travagem e consequente paragem da máquina. Apesar deste meio de controlo ser mecânico, é um sistema flexível que permite efectuar a esmagadora maioria das medições. Entre as principais vantagens dos sistemas de medição por contacto destacam-se: • Incertezas de medição baixas (caso da máquina UPMC Ultra que tem uma incerteza de 0,3+L/1000 µm, com L em mm); • Muito boa versatilidade. 5.2. Desvantagens dos sistemas de contacto Estes sistemas apesar de versáteis também têm algumas desvantagens que se deve ter em conta. Entre essas desvantagens destacam-se: • A deformação que pode provocar na peça a medir no momento do contacto; • A impossibilidade de efectuar medições em superfícies reduzidas e de difícil acesso. Figura 5 - O sistema de leitura óptica da Zeiss, ViSCAN. Figura 6 - Os sistemas de leitura lazer da Zeiss, WOF&BECK. 5.3. Vantagens dos sistemas de não contacto O método de medição sem contacto, têm-se mostrado como uma solução atractiva na medição geométrica de peças e apresenta como principais vantagens: • Total ausência de contacto com a superfície a medir; • Não provoca deformação das peças ao medir; • Boa riqueza de detalhes, o que permite efectuar medições de cotas com dimensões muito reduzidas onde o contacto é muitas vezes impossível; • Permite digitalizar de modelos; • Permite efectuar o que vulgarmente é conhecido como engenharia inversa. 5.4. Desvantagens dos sistemas de não contacto 6.2. As medições por leitura óptica Valores Obtidos (Bloco Padrão 150 mm) Apesar da versatilidade destes sistemas, ainda existem algumas desvantagens que tendem a esbaterem-se cada vez mais. Entre as principais desvantagens destacam-se: • Incertezas de medição ainda altas, quando comparadas com os sistemas de medição por contacto; • Possibilidade de existir distorções provocadas pela lente. 6. Medição por Contacto versus Medição com Sistema Óptico – Um caso prático 150,0121 150,0119 150,0116 150,0116 150,0116 150,0116 150,0118 150,0116 150,0120 150,0119 150,0120 150,0120 150,0120 150,0115 150,0119 150,0120 150,0117 150,0117 150,0116 150,0115 150,0116 150,0119 150,0120 150,0120 150,0116 150,0117 150,0114 150,0117 150,0116 150,0116 Media Var Count u (med.) Erro Incerteza Expandida 150,0118 mm 3,9E-08 30 ± 0,04 µm 0,0118 µm ± 12 µm Medição sem contacto 150,0200 150,0150 150,0050 150,0000 149,9950 149,9900 149,9850 149,9800 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 nº medições Valores obtidos Valor do padrão Limite inferior Limite superior 6.3. As incertezas da MMC Contura G2 6.1. As medições por contacto Valores Obtidos (Bloco Padrão 150 mm) Incerteza da MMC Contura G2 U = 1,9 + (L / 300) µm, (com L em mm) 149,9997 149,9996 149,9997 149,9997 149,9998 149,9997 149,9991 149,9994 149,9993 149,9993 149,9994 149,9992 149,9995 149,9996 149,9994 149,9995 149,9996 149,9995 149,9997 149,9997 149,9998 149,9995 149,9996 149,9996 149,9995 149,9995 149,9996 149,9996 149,9994 149,9996 Media Var u (med.) Erro Incerteza Expandida Count 150,0100 valores obtidos Conforme tem sido descrito, quer a medição por contacto, quer a medição através de sistema óptico, apresentam enormes potencialidades, no entanto, foi através da medição de um bloco padrão que se pretendeu confrontar os dois sistemas. Assim, efectuou-se a medição, com os dois sistemas descritos, a um bloco padrão de valor nominal 150mm e de valor real 150,0000mm. As medições foram efectuadas na mesma máquina (MMC Contura G2 da Zeiss, com sistema de apalpação e com sistema óptico – ViSCAN), e em condições ambientais iguais (temperatura 20,0ºC e humidade relativa 44%). Incerteza da MMC Contura G2 U = 10 + 1,9 + (L / 300) µm, (com L em mm) com o sistema óptico - VISCAN 7. Conclusão 149,9995 mm 2,9E-08 30 ± 0,03 µm 0,0005 µm ± 2,8 µm Medição por contacto 150,0200 150,0150 valores obtidos 150,0100 150,0050 150,0000 149,9950 149,9900 149,9850 149,9800 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 nº medições Valores obtidos Valor do padrão Limite inferior Limite superior A comparação entre sistemas de medição aqui apresentada não pretende ser de forma alguma depreciativa para o sistema de medição por leitura óptica, mas tem como objectivo levar o metrologista a equacionar qual o sistema de medição que mais se adequa às medições que pretende efectuar. No entanto, conclui-se que, face ao estudo desenvolvido cujos valores são aqui apresentados, sempre que seja possível a medição por contacto, esta deve ser a opção que deve prevalecer. Mesmo assim, existem vários factores que devem ser considerados na medição em máquinas de medir por coordenadas e que muitas vezes são esquecidos. Assim, é fundamental que na medição de uma peça a estratégia de medição a adoptar seja aquela que mais se ajusta às medidas que se pretendem realizar. Também a qualificação do metrologista é fundamental para que toda a operação de medir seja bem sucedida, daí muitas vezes afirmar-se que a experiência do metrologista é o principal factor na minimização dos erros nos processos de controlo dimensional evitando assim que o factor humano nas operações de medição por coordenadas seja responsável por erros de medição (não basta saber medir, é necessário medir bem). Em suma, a rápida disseminação das MMC’s pelas empresas, revelou-se pois um recurso fundamental no esforço pelo desenvolvimento dimensional dos produtos, pelo controlo dimensional de peças e pela melhoria da capacidade dos processos. Assim, foi com o contributo decisivo que as MMC’s deram no campo da metrologia dimensional, que o nível de qualidade dos produtos fabricados aumentou exponencialmente e contribuiu para que o próprio desenvolvimento tecnológico das empresas fosse fundamental na sua afirmação pela competitividade. REFERÊNCIAS [1] VIM – Vocabulário Internacional de Metrologia – IPQ, 2005. [2] H. Schwenke, PTB – Optical Methods for Coordinate Metrology – Metromeet, 2007. [3] E. Manske, University of Ilmenau – Optical noncontact and tactile high precision measurements with the nanopositioning and nanomeasuring machine - Metromeet, 2007. [4] LEBLOIS, Comma Consulting / France Industrial metrology : needs and expectations of companies – 13º Congrès International de Métrologie, Lille, 2007. [5] Thierry Coorevits, François Hennebelle, Benjamin Charpentier - Comportement des palpeurs dynamiques à déclenchement: méthodes de correction et de calibration - 13º Congrès International de Métrologie, Lille, 2007. [6] A. S. Alves - Metrologia Geométrica - Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1996.