ESTUDO SOBRE A ATUAÇÃO DO ENFERMEIRO OBSTETRA NO
PARTO DOMICILIAR PLANEJADO E HUMANIZADO
Natalia de Andrade Souza¹
Fernando Reis do Espírito Santo ²
RESUMO
Este estudo trata sobre a atuação do enfermeiro obstetra no parto domiciliar planejado e
humanizado. A inclusão crescente do enfermeiro no auxílio obstétrico estabelece uma das
estratégias que facilita a implantação de um atendimento mais humanizado e
consequentemente livre de intervenções consideradas desnecessárias, o que proporciona
uma maior autonomia da mulher diante do parto. O presente estudo deu-se a partir de uma
pesquisa exploratória de cunho bibliográfico, constituindo-se através da leitura, análise e
interpretação de textos, livros, artigos e periódicos, envolvendo uma revisão de literatura
sobre o tema abordado. Desta forma, analisou-se se é possível considerar o parto domiciliar
como uma opção adequada, e se o enfermeiro obstetra é um profissional indicado para
acompanhar esse processo, proporcionando à parturiente uma assistência humanizada
respaldada no conhecimento técnico-científico. Discutiram-se questões que envolvem a
humanização do parto, explanando a respeito de seu conceito, ressaltando o valor da
atenção dada à mulher e ao bebê durante o nascimento, mostrando a importância que deve
ser dada à autonomia da mulher, a qual necessita possuir a liberdade de escolher onde
deve ocorrer e quem deve auxiliar o nascimento de seu filho. A presente pesquisa pode
concluir que o enfermeiro obstetra é o profissional capacitado para auxiliar no parto em
domicilio, planejado e humanizado, que ocorre num ambiente de aconchego e conforto para
a mãe e para o bebê.
Palavras–chave: parto domiciliar, enfermeiro obstetra, parto humanizado.
1. INTRODUÇÃO
Apresentação do objeto de estudo
A inclusão crescente do enfermeiro no auxílio obstétrico estabelece uma das
estratégias que facilita a implantação de um atendimento mais humanizado e
consequentemente livre de intervenções consideradas desnecessárias, o que
proporciona uma maior autonomia da mulher diante do parto. Desta forma, este
estudo busca analisar se é possível considerar o parto domiciliar como uma opção
adequada, e se o enfermeiro obstetra é um profissional indicado para acompanhar
esse processo, proporcionando à parturiente uma assistência humanizada
respaldada no conhecimento técnico-científico. O presente estudo trata sobre a
atuação do enfermeiro obstetra no parto domiciliar planejado e humanizado.
Justificativa
O tema proposto surgiu com o despertar para a importância da assistência
proporcionada à mulher durante o parto. Anteriormente esse procedimento (o parto)
acontecia de maneira natural, fisiológica. Com o advento de novas tecnologias,
passou-se a interferir nesse processo natural e a medicalização tornou-se algo
indispensável. .
Como enfermeira do PSF (Posto de Saúde da Família) do Vale do Capão,
ouvi relatos de mulheres que vivenciaram partos domiciliares planejados e
humanizados. Esses relatos me remeteram a alguns questionamentos: porque
nascer em casa não é o tradicional? Porque não em casa com o auxílio do
enfermeiro e sim em hospitais? Eis que surgiu a vontade de estudar a respeito do
tema.
No momento atual a temática relacionada à humanização na assistência ao
parto é tida como relevante, pois a atenção dada à mulher demanda uma revisão
das práticas cotidianas vistas em diversos locais.
2
Problema
Trata-se de analisar se é possível considerar o parto domiciliar como uma
opção adequada, e se o enfermeiro obstetra é um profissional indicado para
acompanhar esse processo, proporcionando à parturiente uma assistência
humanizada respaldada no conhecimento técnico-ciêntífico.
Objetivo
Analisar o papel do enfermeiro obstetra no parto domiciliar planejado e
humanizado.
,
Metodologia
O presente estudo deu-se a partir de uma pesquisa exploratória de cunho
bibliográfico, constituindo-se através da leitura, análise e interpretação de textos,
livros, artigos e periódicos, envolvendo uma revisão de literatura sobre o tema
abordado.
2. REVISÃO DE LITERATURA
2.1 Parto domiciliar
De acordo com Melo (apud SANTOS, 2002), a assistência ao parto iniciou-se
desde o momento em que as próprias mulheres auxiliavam umas as outras e
iniciavam um acúmulo de saber sobre a parturição.
A mulher que a comunidade avaliasse como mais experiente era reconhecida
como a parteira, pessoa que não possuía nenhum saber cientifico, mas sabia por
acumular
conhecimentos
baseados
na
prática
e
em
saberes
passados
tradicionalmente entre as gerações.
As parteiras se encarregam do fundamental – elas garantem a temperatura
da sala, a luminosidade e o silêncio, e que cada mulher sinta-se livre para
mudar de posição à vontade. Elas oferecem água, sucos de frutas, mel e
açúcar, o que provém às parturientes fluídos e calorias que elas necessitam
durante o duro trabalho de parto. (ODENT, 2002, p. 45)
3
Segundo Osava (1997) não é possível negar que a tecnologia e os estudos
científicos proporcionaram e vem proporcionando avanços na melhoria da qualidade
ao auxílio obstétrico. Entre esses avanços encontra-se o da operação cesariana,
procedimento anteriormente realizado apenas em mulheres mortas com o objetivo
de salvar a vida da criança. Observa-se, contudo, que esse método passou a ser
usado sem maiores justificativas, o que provoca uma medicalização excessiva em
um ato que deveria ser natural, fisiológico, pertinente a qualquer mulher. (CECATTI
1999).
De acordo com Largura (2000), o Brasil seguiu o modelo americano de
assistência ao parto, marcado pela medicalização e pela forma intervencionista.
Ainda segundo a autora faz-se necessário uma retomada da prática do parto normal
humanizado. É preciso que se redescubra o parto como um evento fisiológico, livre
dos efeitos perversos da tecnologia e de uma intervenção não justificada.
O parto em casa tem muitas vantagens: liberdade de movimentos, segurança,
privacidade e condições excepcionais de acolhida do bebê. As razões que
recomendam o parto em casa são da ordem de três categoria: segurança,
reconhecimento de necessidades afetivas e autonomia. (LARGURA,2000, olhar
pagina)
A percepção do movimento de humanização está intimamente associada à
política de diminuição de partos de forma cesariana e consequentemente à melhoria
da assistência, resgatando uma forma mais natural de nascimento. Largura (2000)
apresenta o conceito de humanização do parto como sendo bastante diversificado, e
ainda como um processo que respeita a peculiaridade de cada mulher, desta
maneira valorizando-a.
O parto, de acordo com Simões (1998) é visto como um período de transição
importante na vida da mulher e da família, um momento no qual é preciso apoiar a
mulher para que ela possa enfrentar o mais naturalmente possível, sabendo que
pode e deve dele participar ativamente, obtendo assim, conforto físico e psíquico.
Haddad (2004) aponta o parto domiciliar como algo que busca a valorização
do fenômeno do parto e nascimento em sua essência, tratando-o como algo natural
e autônomo.
4
2.2 Material necessário para a realização de um parto domiciliar
De acordo com a autora Marília Largura (2000), é necessário que se reúnam
os materiais três semanas antes da data prevista para o parto, pois segundo ela a
partir dessa data o parto pode ser realizado em casa.
Uma característica do recém-nascido é a de perder o calor por essa razão
sua temperatura é instável. O objetivo deve ser de auxiliar o bebê a manter uma
temperatura corporal constante através dos recursos existentes. Já o quarto onde
nascerá o bebê deve estar livre de correntes de ar.
Abaixo está enumerada uma lista com matérias que, segundo Marília Largura
(2000), são necessários para realização do parto em casa.
Uma fonte de luz fácil de transportar próxima ao local onde a criança vai
nascer deve ser providenciada. Por exemplo: abat-jour; alimentos para a família e
para a pessoa que vai assistir o parto. Alimentos que devem ser fáceis de preparar e
também de fácil digestão; um lençol grande para cobrir a mãe e o bebê após o parto;
a primeira muda de roupa deve ser de tecido que mantém o calor, pois o bebê é
muito sensível ao frio. A flanela é um tecido macio que não causa alergia sendo,
portanto, o ideal para o bebê; seis toalhas de rosto e absorventes; três toalhas de
mão; banheirinha para o bebê e sabonete; vasilhas de plástico, vidro ou metal de
tamanho regular para colocar água quente, e para receber a placenta; espelho para
que a mãe possa, se quiser, ver o nascimento; óleo de amêndoas doce para
massagens, principalmente as massagens do períneo; cesta para colocar as roupas
usadas.
Janet Balaskas (1993) evidencia a necessidade de um ambiente agradável,
no qual se possa variar as posições, buscando um maior conforto. Chama atenção
para a luz, que não deve incomodar, para o aquecimento da sala onde ocorrerá o
nascimento. Ela lista sugestões de materiais para o parto domiciliar:
[...] um monitor portátil de batimentos cardíacos fetais tipo Doppler; cortinas
que possam ser abaixadas para escurecer a sala; almofadas; um banquinho
para que a parturiente possa ficar de cócoras; uma poltrona confortável; uma
bolsa de água quente; algo que possa esquentar a água, tipo uma chaleira;
um colchonete lavável de ginástica, ideal para a mãe ficar em pé ou de
cócoras na hora do parto. (BALASKAS, 1993, p. 276)
5
2.3 Contra indicações do parto domiciliar
É necessário que se esclareça que o parto somente pode ocorrer em casa se
a mãe estiver em perfeita saúde e ainda se o desenvolvimento da gravidez prevê um
parto de baixo risco.
Abaixo se encontra uma relação de condições de saúde que excluem a
probabilidade de um parto em casa, de acordo com a autora Largura (2000):
- hipertensão crônica ou súbita; saúde precária incluindo problemas cardíacos,
renais e pulmonares, problemas neurológicos e psiquiátricos sérios e toda outra
condição de doença grave; anemia grave; diabetes; doença hipertensiva específica
da gestação; retardo de crescimento intra-uterino (o desenvolvimento do bebê não
está de acordo com a idade da gestação); gêmeos; apresentação pélvica, quando a
posição do bebê dentro do útero é de nádegas para baixo. A posição mais comum e
que permite o parto em casa é a cefálica, na qual a cabeça se apresenta em
primeiro lugar. Em todos os outros tipos de apresentação o parto em casa deve ser
evitado; - trabalho de parto prematuro (antes que a gestação tenha completado 37
semanas); lesão ativa de herpes nos órgãos genitais no momento do parto,
principalmente se for a primeira crise. O herpes se assemelha à pequenas bolhas de
água disseminadas na mucosa dos grandes e pequenos lábios, mucosa vaginal e
colo do útero; alteração da cor do líquido amniótico. Este é cristalino nos primeiros
meses de gestação tornando-se depois opalescente. O bebê pode evacuar dentro
do útero suas primeiras fezes de cor verde escuro que chamamos de mecônio e que
tornam o líquido da bolsa esverdeado. Este fato às vezes representa que o bebê
está tendo o que em termos técnicos chamamos de "sofrimento fetal". Outras
alterações na cor do líquido para vermelho ou marrom achocolatado são sinais que
indicam e aconselham remoção para o hospital; sofrimento fetal que é indicado por
mudança da freqüência dos batimentos cardíacos do bebê (desacelerações
prolongadas e acelerações importantes); sinais de placenta anormalmente inserida
quando a placenta não permite ou dificulta a passagem do bebê; deslocamento
prematuro de placenta quando a placenta se desprende do útero antes do
nascimento da criança; visualização do cordão umbilical antes da cabeça do bebê. O
cordão corre o risco de ser comprimido e prejudicar a oxigenação do bebê; parada
6
na progressão do trabalho de parto que passa a não se desenvolver no ritmo
esperado ou mesmo que permanece estacionário.
Logo, nascer em casa é uma decisão que necessita estar bem resolvida e
devendo ser tomada muitas semanas antes do acontecimento, pois envolve
responsabilidade e riscos. É necessário que se tome a decisão com tempo hábil
para a preparação de todo o material a ser utilizado durante o parto.
Não se pode promover o parto domiciliar a qualquer custo. Deve haver uma
avaliação criteriosa e a mulher deve estar em boa saúde. “Em termos médicos, é
essencial que você esteja na categoria de gravidez de baixo risco, com saúde
perfeita e sem problemas durante a gestação ou histórias de doenças ou
complicações obstétricas que possam influenciar o parto” (BALASKAS, 1993. p 236)
2.4 Parto planejado e humanizado
Diniz (2005) expõe em seu estudo a respeito dos possíveis sentidos que o
termo assume. Dentre eles está a Humanização como reclamação em favor da
defesa dos diretos das mulheres durante o nascimento, demandando cuidados que,
além de promover um parto seguro, ofereça uma assistência não-violenta,
entendendo que as parturientes devem estar cientes e decidirem a respeito dos
procedimentos que envolvem o parto.
A Política Nacional de Humanização (PNH) do Ministério da Saúde conceitua
o termo humanização como sendo uma valorização de todos os sujeitos,
entendendo como sujeitos usuários, trabalhadores e gestores, deixando claro que a
autonomia desses sujeitos depende da participação coletiva, o que pressupõe
modificações visto que o foco são as necessidades dos cidadãos e a produção de
saúde. Logo, fica estabelecido que para haver humanização tem que haver
compromisso, compromisso buscando a melhoria das condições de trabalho e de
atendimento; compromisso em relação ao respeito às multiculturas e compromisso
com a democratização e valorização dos profissionais envolvidos na saúde, o que
estimula processos de educação permanente (Brasil, 2005).
Nos dias atuais a discussão sobre humanização e direitos humanos vem
sendo algo constante. O conceito de humanização do parto vem gerando mudanças
no que diz respeito à cultura hospitalar, voltando às atenções para as necessidades
7
das mães e do bebê. Mas é necessário que se ressalte que a humanização da
assistência ao parto demanda a atuação de profissionais que respeitem a fisiologia
das mulheres, intervindo o mínimo necessário e oferecendo suporte emocional que
facilitará a concepção dos laços afetivos familiares e a conexão da mãe com o bebê.
(ROLIM e CARDOSO, 2006)
De acordo com Diniz (2005), durante todo o processo que envolve o parto
alguns aspectos são fundamentais para a autonomia da mulher, dentre eles
encontra-se a elaboração de um plano, o qual inclui o direito a um acompanhante, a
informações claras a respeito dos procedimentos que ocorrerão, a ter seu filho em
uma ambiente calmo, tendo ao lado pessoas dedicadas ao nascimento, a se
alimentar conforme desejar, a caminhar com liberdade e a assumir a postura de sua
preferência.
A atenção adequada à mulher no momento do parto representa um passo
indispensável para garantir que ela possa exercer a maternidade com
segurança e bem-estar. Este é um direito fundamental de toda mulher. A
equipe de saúde deve estar preparada para acolher a grávida, seu
companheiro e família, respeitando todos os significados desse momento.
Isso deve facilitar a criação de um vínculo mais profundo com a gestante,
transmitindo-lhe confiança e tranqüilidade. (BRASIL, 2001, p. 38):
De acordo com Tornquist (2003), a humanização recupera técnicas que
auxiliam no alívio da dor, principalmente as menos invasivas, tal como a presença
do acompanhante, e consequentemente do suporte emocional.
Fadynha (2003) concorda com a presença de uma acompanhante, afirmando:
Uma parturiente deve ser acompanhada pelas pessoas em quem confia e
com quem se sinta à vontade, como: seu parceiro, sua melhor amiga, uma
doula ou uma enfermeira-parteira. Em alguns paises em desenvolvimento,
esta lista também poderia incluir a parteira leiga. Em geral, serão pessoas
que conheceu durante sua gestação. (FADYNHA, 2003, p. 190)
A autora Sônia Simões (1998) chama atenção em seu estudo para a solidão
vivenciada por algumas mulheres durante o parto em hospitais:
Nas descrições singulares da vivencia do trabalho de parto emerge a solidão
sentida pela mulher; o isolamento nos boxes de pré-parto aponta para o
atendimento das necessidades fisiológicas ao evoluir do processo parturitivo.
Embora represente direito à privacidade, também determina distanciamento e
prejudica a comunicação visual, gera solidão. (SIMÔES, 1998, p. 53)
8
De acordo com Michel Odent (2002), as parteiras se encarregam de funções
que proporcionam melhor conforto para as parturientes.
As parteiras se encarregam do fundamental – elas garantem a temperatura
da sala, a luminosidade e o silêncio, e que cada mulher sinta-se livre para
mudar de posição à vontade. Elas oferecem água, sucos de frutas, mel e
açúcar, o que provém às parturientes fluídos e calorias que elas necessitam
durante o duro trabalho de parto. (ODENT, 2002, p. 45)
Mas é imprescindível que se lembre que nem sempre o parto humanizado
necessita ser um parto vaginal. A forma cesárea de nascimento também é valida,
desde que indicada e aconteça de maneira que respeite o bem estar da mãe e do
bebê.
2.5 O enfermeiro obstetra no parto planejado e humanizado
De acordo com Melo (apud SANTOS, 2002), a assistência ao parto iniciou-se
desde o momento em que as próprias mulheres auxiliavam umas as outras e
iniciavam um acumulo de saber sobre a parturição. Dessa maneira, a mulher a qual
uma determinada comunidade avaliasse como mais experiente era reconhecida
como a parteira, pessoa que não possuía nenhum saber cientifico, mas sabia por
acumular
conhecimentos
baseados
na
prática
e
em
saberes
passados
tradicionalmente entre as gerações.
A história da enfermagem obstétrica no Brasil, de acordo com Osava (1997),
surgiu no ano de 1931, momento no qual foi introduzida uma disciplina prática de
enfermagem ligada à obstetrícia a qual conferia aos profissionais o título de
enfermeiro obstetra. Ainda segundo ele, o profissional de enfermagem passou a ser
treinado em obstetrícia, o que gerou o envolvimento do mesmo em partos e o inicio
de uma substituição do parto domiciliar pelo parto hospitalar. Não é possível negar
que a tecnologia e os estudos científicos proporcionaram e vem proporcionando
avanços na melhoria da qualidade do auxílio obstétrico. Entre esses avanços
encontra-se o da operação cesariana, procedimento anteriormente realizado apenas
em mulheres mortas com o objetivo de salvar a vida da criança. Observa-se,
contudo, que esse método passou a ser usado sem maiores justificativas, o que
provoca uma medicalização excessiva em um ato que deveria ser natural,
fisiológico, pertinente a qualquer mulher. (CECATTI, 1999).
9
A percepção do movimento de humanização está intimamente associada à
política de diminuição de partos de forma cesariana e consequentemente à melhoria
da assistência, resgatando uma forma mais natural de nascimento. Largura (2000)
apresenta o conceito de humanização do parto como sendo bastante diversificado, e
ainda como um processo que respeita a peculiaridade de cada mulher, desta
maneira valorizando-a.
O profissional enfermeiro normalmente procura prestar assistência no
atendimento de acordo com as peculiaridades de cada gestante, sempre com
grande preocupação com a humanização do parto, oferecendo bastante importância
à fisiologia do parto, ponderando como sendo um processo no qual a mulher tem
domínio, já que faz parte da natureza feminina. Desta maneira, o enfermeiro procura
respeitar a liberdade e autonomia da mulher. (HOGA, 2004).
A Lei do Exercício Profissional de Enfermagem nº 7.498/86 regulamenta o
exercício da enfermeira obstétrica, garantindo que a mesma está apta a assistir ao
parto normal de baixo risco e a desempenhar os procedimentos indispensáveis no
que tange a segurança do bebê e da mãe. Elas também se encontram capacitadas
para identificar distocias obstétricas que necessitem de cuidados médicos
específicos.
Mendes (1991, p. 84) declara:
Existe comprometimento e responsabilidade dos vários elementos da equipe
de saúde, especialmente do enfermeiro especialista em saúde materna e
obstétrica, pelo fato de permanecer 24 horas por dia junto da parturiente, na
obtenção de verdadeira e eficaz relação de ajuda, em todos os momentos de
trabalho de parto.
Sato (2001) afirma que a humanização demanda do enfermeiro uma visão
humanística, no sentido de compreender o outro.
Swanson (1993) afirma que para que o enfermeiro compreenda melhor a as
necessidades da futura mamãe, é necessário que o mesmo conheça sua situação,
desejos e anseios.
Atender às necessidades da parturiente é aspecto relevante na humanização
do parto. Mendes (1991) concorda, afirmando em seu estudo ter que haver uma
relação entre o enfermeiro e a parturiente. Essa relação faz com que a mulher deixe
de ser vista como um objeto, uma máquina e passa a ser respeitada como um ser
que requer cuidados. (ZAGONEL, 1997)
10
Largura (2000) faz uma analogia entre essa relação e o parto em casa:
Em casa, a mulher terá direito a cuidados personalizados e contínuos por
parte de uma profissional que a conhece, que seguiu atentamente a gravidez
e que tem conhecimentos dos problemas de saúde que poderão ocorrer
durante o parto e que ficará junto dando apoio durante todo o decorrer do
trabalho. (LARGURA, 2000, p. 43)
Cechin (2002, p. 445) crê na humanização como um acolhimento à
parturiente, no qual há um respeito as suas individualidades, segundo ela deve-se:
“oferecer ambiente seguro, oportunizar um acompanhante e não intervir em
processos naturais com tecnologia desnecessária”.
Enning (2000) diz que toda mulher deve ver o parto como um processo
espontâneo, no qual não há maiores necessidades de intervenções.
Desta maneira, Tornquist (2003) vê a humanização do parto como um
conjunto de recomendações a serem seguidas: incentivo ao parto vaginal e ao
aleitamento materno; alojamento conjunto; presença de acompanhante; redução da
intervenção tecnológica, estímulo as técnicas que aliviam dores, tais como
massagens e banhos,
Riesco e Fonseca (2002) defendem a necessidade de se introduzir durante o
parto, também na rede pública, a presença de um enfermeiro obstetra, para que o
mesmo possa promover uma assistência à parturiente.
Davim e Menezes (2001, p.63) afirmam que :
A parturiente deve ser acompanhada por pessoal devidamente capacitado,
para que as intervenções ocorram quando necessárias e não como rotinas,
privilegiando o bem-estar da parturiente e do concepto, tentando não utilizar
métodos invasivos. Esse modelo de assistência é mais afeito às enfermeiras
que atuam dentro de uma visão mais humana e holística.
11
3. Considerações finais
Com a institucionalização do parto, ocorreram mudanças no cuidado com a
mulher. Não se pode negar que a hospitalização do parto gerou o desenvolvimento
do saber médico, mas também contribuiu para a transformação no papel da mulher
durante o parto. A mulher deixou de ser sujeito no nascimento.
Faz-se necessário uma retomada do parto normal humanizado. A parturiente
deve estar acompanhada por pessoas capacitadas, para que as intervenções
ocorram somente quando necessárias e não como rotineiras.
A inclusão crescente do enfermeiro no auxílio obstétrico estabelece uma das
estratégias que facilitam a implantação de um atendimento mais humanizado e
consequentemente livre de intervenções consideradas desnecessárias, gerando
dessa maneira uma maior autonomia da mulher diante do parto.
É possível se considerar o parto domiciliar como uma opção adequada, sendo
o enfermeiro obstetra um profissional indicado para acompanhar esse processo,
proporcionando
ao
mesmo
uma
assistência
humanizada
respaldada
no
conhecimento técnico-científico.
É imprescindível que a enfermagem esteja preparada para acompanhar a
parturiente durante todo o parto, informando-a a respeito dos procedimentos a
serem desempenhados. Simples atitudes podem apresentar um significativo
resultado, capaz de influenciar na diminuição da medicalização.
O enfermeiro obstetra representa um importante papel no parto, pois promove
cuidados que geram consequências inclusive nas relações afetivas de toda a família,
atendendo às necessidades tanto físicas quanto emocionais.
Com a execução desse estudo pode-se concluir que o enfermeiro obstetra
pode ser um profissional com saber que resgata o parto como algo fisiológico, no
qual a mulher é sujeito do momento, é a protagonista. Desta forma ele vem
contribuindo para consolidação de um parto mais humanizado e consequentemente
mais desmedicalizado. Entendendo que desmedicalizar não seja simplesmente a
exclusão do profissional médico, mas a exposição de alternativas de cuidado, de
opções e de estratégias que geram o direito de escolha.
Este trabalho não esgota o estudo do tema, mas estimula o desenvolvimento
de outros estudos envolvendo novas interpretações.
12
ABSTRACT
This study talks about a nurse obstetrician in the planned and humanized home birth. The
growing inclusion of nurses in obstetric aid provides a strategy that facilitates the deployment
of a more humane care and therefore free from unnecessary interventions, which provides
greater autonomy for women during the birth. This study happened from an exploratory
survey of bibliographical, being through reading, analysis and interpretation of texts, books,
articles and journals, involving a review of literature on the subject. Thus we analyzed
whether it is possible to consider home birth as an appropriate option, and if the nurse
obstetrician is a professional appointed to accompany this process, giving the mother a
humanized
supported the technical
and
scientific
knowledge.
The
article
discusses issues surrounding the humanization of birth, explaining about his concept,
stressing the importance of attention given to the woman and the baby during birth,
showing the
importance to
be given to
autonomy
for
women, which
needs to possess freedom to choose where it should occur and who should assist the birth
of their son. This research can be concluded that the nurse obstetrician is a trained
professional to assist in home birth, planned and humanized, which occurs in an atmosphere
of warmth and comfort to mother and baby.
Keywords: home birth, nurse midwife, humanized childbirth
¹ Pós-graduanda em Enfermagem e Obstetrícia pela Atualiza Pós-Graduação.
² Doutor em Educação pela PUC/SP – Professor Adjunto da UFBA
E-mail: [email protected]
Salvador – Bahia – 2011
13
4. Referências
BALASKAS, Janet. Parto Ativo. São Paulo: Ground, 1993
BRASIL. Lei 11.108, de 7 de abril de 2005. Altera a Lei 8.080, de 19 de setembro de
1990, para garantir às parturientes o direito à presença de acompanhante durante o
trabalho de parto, parto e pós-parto imediato, no âmbito do Sistema Único de Saúde
- SUS. Diário Oficial da União, Brasília, 8 abr. 2005. Seção 1, p.1.
CECATTI JG, Pires HMB, Goldenberg P. Cesáreas no Brasil: um direito de
opção? In: Galvão L, Díaz J, organizadores. Saúde Sexual e Reprodutiva no Brasil.
São Paulo (SP): Hucitec/Population Council; 1999
CECHIN, P. L. Reflexões sobre o resgate do parto natural na era da tecnologia.
Revista Brasileira de Enfermagem, v. 55, n. 4, p. 444-448, 2002
DAVIM, R. M. B.; MENEZES, R. M. P. Assistência ao parto normal no domicilio.
Revista Latino-Americana de Enfermagem, v. 9, n. 6, p. 62-68, 2001.
DINIZ, C.S.G. Humanização da assistência ao parto no Brasil: os muitos
sentidos de um movimento. Cienc. Saude Colet., v.10, n.3, p.627-37, 2005
ENNING, C. O parto na água: Um guia para pais e parteiros. Co-autoria e tradução:
Heinz Roland Jakobi. São Paulo: Manole, 2000.
FADYNHA. A doula no parto. São Paulo: Ground, 2003.
HADDAD E. B. Revogação da Liminar em Desfavor à Casa de Parto no Rio de
Janeiro
Casas
de
Parto
no
Mundo.
2004.
Disponível
em:
http://www.casasdeparto.com.br/casasdeparto/revogacao.asp [Acesso em 02 de
novembro de 2010].
14
HOGA, L. A. K. Casas de Parto: simbologia e princípios assistenciais.
Rev.Bras.Enf., v. 57, n. 5, p. 537-540, 2004.
LARGURA
M.
Assistência
ao
parto
no
Brasil:
aspectos
espirituais,
psicológicos, biológicos e sociais. Uma análise crítica. Por um parto mais
humano e solidário. 2ª ed. São Paulo (SP): Sarvier; 2000.
MENDES, M. L. Curso de Obstetrícia. Coimbra: Centro cultural da maternidade dos
HUC, 1991.
ODENT, Michel. O Renascimento do parto. Florianópolis: Saint Germain, 2002
OSAVA, Ruth Hitomi. Assistência ao parto no Brasil: o lugar do não médico.
Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 1997.
RIESCO, M. L. G; FONSECA, R.M.G.S. Elementos constitutivos da formação e
inserção de profissionais não-médicos na assistência ao parto. Cadernos de
Saúde Pública, v. 18, n. 3, p. 685-698, 2002.
ROLIM, K. M. C; CARDOSO, M. V. L. M. L. O discurso e a prática do cuidado ao
recém nascido de risco: refletindo sobre a atenção humanizada. Rev. Latino-Am.
Enfermagem, Ribeirão Preto, v. 14, n.1, 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/
scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-11692006000100012>. Acesso em: 22 de
novembro de 2010.
SANTOS, Marcos Leite dos. Humanização da assistência ao parto e nascimento.
Um modelo teórico. dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Santa
Catarina, Florianópolis, 2002.
SATO, R. A percepção do enfermeiro na assistência a mulher grávida,
desvelando a prática da humanização.. dissertação [mestrado] - Universidade
Federal do Paraná, 2001.
15
SIMÕES Sônia Mara Faria. O ser parturiente: um enfoque vivencial. Niterói (RJ):
EDUFF; 1998
SWANSON, K. M. Nursing as informed caring for the well-being of others.
Journal of Nursing Scholarship. 1993, v. 25, p. 352-357.
TORNQUIST, C. S. Paradoxos da humanização em uma maternidade no Brasil.
Caderno de Saúde Pública, v. 19, supl. 2, p. 419-427, 2003.
ZAGONEL, I. P. S. Contribuição do cuidado de enfermagem à humanização da
parturição. Revista Cogitare Enfermagem, v. 2, n. 2, p. 34-38, 1997.
.
16
Download

estudo sobre a atuação do enfermeiro obstetra no parto domiciliar