RELIGIÃO E CULTURA NO ALTO RIO NEGRO: UMA ANÁLISE DA FESTA DE SANTO NA COMUNIDADE INDÍGENA DE SÃO JOAQUIM – AMAZONAS/BRASIL 11 2 Leticia Alves da Silva Marilene Alves da Silva RESUMO A “festa de santo” é uma das festividades religiosas celebrada na maioria das comunidades indígenas da Amazônia brasileira, constitui um espaço simbólico que ajuda a manter as relações de identidade do lugar. A manutenção e o fortalecimento da identidade cultural possibilitada pela festa é um dos motivos que Melo (2009) destaca como sendo, em sua maioria, o que mantêm os moradores de um determinado lugar interessados em continuarem vivendo ali. Entretanto, existem comunidades que são ocupadas sazonalmente, especialmente para realização das “festas de santo”. Podemos perceber esta situação na comunidade indígena de São Joaquim, localizada no Alto rio Negro, que é densamente ocupada somente nos dias da festa do Santo padroeiro. Desta forma, o presente estudo almeja evidenciar a importância da festa de Santo como um dos elementos de produção da identidade e reforço do sentimento de pertencimento do lugar. Pois ao longo dos anos, a festa de São Joaquim vem se tornando um evento de grande importância cultural e religiosa no Alto rio Negro. Nesse sentido, o estudo propõe demonstrar a importância das festividades religiosas na manutenção e fortalecimento da identidade indígena na Amazônia brasileira e em especial no Alto rio Negro. Desse modo, a metodologia pautou-se no levantamento e revisão bibliográfica; Pesquisa documental dos aspectos histórico-culturais das comunidades indígenas do Alto rio Negro e festividades religiosas realizadas por elas e em especial da comunidade de São Joaquim. A Pesquisa de campo adotou a observação direta a partir de visitas a comunidade nos períodos festivos e comuns. Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com os grupos étnicos que pertencem e frequentam a referida comunidade. PALAVRAS-CHAVE: Festa de santo. Identidade. Alto rio Negro. São Joaquim. Cultura. INTRODUÇÃO Entre as diversas manifestações culturais na Amazônia as festas religiosas imprimem na paisagem os mais diversos significados, diferenciando e qualificando os lugares com características singulares que só existem durante o período da festa. De acordo com Priore (1994,p.13): (...) as festas nasceram das formas de culto externo, tributado geralmente a uma divindade protetora das plantações, realizado em determinados tempos e locais. Mas, com o advento do cristianismo, tais solenidades se modificaram quando a 1 ;2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas – IF-AM 1 Igreja determinou dias que fossem dedicados ao culto divino, considerando-os dias de festa, os quais formavam em seu conjunto o ano eclesiástico. Nesse contexto, as festas religiosas geralmente configuram-se como eventos conectados ao sacramentalismo cristão que remetem ao universo mental de determinado grupo, influenciando no espaço, na cultura e no modo de vida dos participantes. Saraiva e Silva (2006) ressaltam que desde a chegada dos portugueses na costa brasileira e posterior entrada no interior do país com o intuito de conquista, exploração e dominação do território; já existiam registros de festividades religiosas e de devoção aos santos. Os registros históricos e etnográficos sobre festas na Amazônia fazem referência a um universo relativamente amplo, muitas delas relacionadas ao calendário festivo da igreja católica, enquanto datas alusivas aos santos católicos (BRAGA, 2007). O Alto rio Negro está localizado no noroeste do Estado do Amazonas, faz fronteira com a Colômbia e Venezuela abrangendo os municípios de São Gabriel da Cachoeira e um trecho do município de Santa Isabel, ambas as cidades estão localizadas na margem esquerda do rio Negro. A referida região é habitada tradicionalmente há pelo menos 3.000 anos por 22 grupos étnicos: Desana, Tukano, Pira-tapuia, Arapaso, Wanano, Kubeu, Tuyuka, Mirititapuia, Makuna, Bará, Suriano, Yurutí, Karapanã, Tariana, Baniwa-Kuripako, Warekena, Baré, Hupda, Yuhupde, Nadêb, Dou e Yanomami (CABALZAR; RICARDO, 2006). Cujas etnias são falantes de vários idiomas pertencentes a quatro troncos lingüísticos: tukano oriental, Aruak, Maku e Yanomami, traço marcante na organização social, política e religiosa na região, configurando-se como um sistema cultural. Nesse sentido, as festas de santo são recorrentes por todo o Alto Rio Negro e em sua maioria se utilizam de símbolos e significados da cultura indígena dessa região. Por esta via, o presente estudo elencou como foco principal de pesquisa, a tradicional festa religiosa do glorioso São Joaquim, que faz parte do calendário cultural do município de São Gabriel da Cachoeira, realizado anualmente, no mês de agosto, na comunidade indígena de mesmo nome. Festa esta, que com o passar dos anos, vem crescendo em quantidade de participantes, importância cultural e religiosa para o município, em especial para a cidade de São Gabriel da Cachoeira. Isto posto, o presente trabalho propõe demonstrar a importância das festividades religiosas na manutenção e fortalecimento da identidade indígena na Amazônia brasileira e em especial no Alto Rio Negro. 2 A realização da pesquisa justificou-se pelo fato da comunidade de São Joaquim apresentar uma característica peculiar que se distingue de outras comunidades, pois sua população não reside continuamente na comunidade exceto no período da festa de Santo, que atrai não só as populações indígenas das comunidades, sítios adjacentes, distritos, mas também muitas pessoas provenientes da cidade de São Gabriel da Cachoeira. Entretanto, a comunidade de São Joaquim, que passa boa parte do ano desabitada se transforma nos períodos da festa de Santo, o que nos suscitou uma análise sobre a relação histórico-cultural que as populações indígenas possuem com determinados territórios, bem como os fatores que contribuem na (re)afirmação, manutenção e fortalecimento das relações de identidade do lugar. Desse modo, a metodologia pautou-se no levantamento e revisão bibliográfica; Pesquisa documental dos aspectos histórico-culturais das comunidades indígenas do Alto rio Negro e festividades religiosas realizadas por elas e em especial da comunidade de São Joaquim. A Pesquisa de campo adotou a observação direta a partir de visitas a comunidade nos períodos festivos e comuns. Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com os grupos étnicos que pertencem e frequentam a referida comunidade. ASPECTO HISTÓRICO DA FESTA DE SANTO No Brasil colonial, os jesuítas foram os pioneiros em detectar de que forma o espetáculo audiovisual podia tornar-se pastoral e catequético (PRIORE, 2000. p. 30-31). Desta forma, a vinda de missões jesuítas que datam do século XVII para a Amazônia e o contato com os indígenas, com suas crenças e suas devoções, somado a fenômenos que mais tarde vieram a contribuir para o atual formato da religiosidade praticada na região, colaboram para originar uma forma de catolicismo que dá ênfase ao culto dos santos, às festas de santos e grupos organizados para realizar tais eventos (Saraiva e Silva, 2002 ). Isto posto, as festas de santo, segundo Figueiredo (2009, p.216) são “reminiscências das antigas festas do Sahiré”, criadas e difundidas na região Amazônica pelos jesuítas, na primeira metade do século XVIII. Nunes Pereira (1989) registra o Saíré no Alto Rio Negro, no Tapajós e em outras partes da Amazônia. Trata-se de um cortejo em alusão a Arca de Noé, enquanto triunfo eucarístico das trevas e das agruras do inverno. A Saraipora é representada por uma pessoa de idade que tem a missão de levar adiante o semi-círculo que simboliza a arca. Acompanham o cortejo em procissão duas meninas que seguram as fitas do Sairé, o Espanta Cão, grupo de tocadores, com caixas, rabeca, violão, e 3 demais acompanhantes. O destino é a beira do rio, para apanhar dois mastros que serão fixados na praça, o mastro dos homens e das mulheres. Os mastros são fixados em dia anterior a derrubada. Segue-se à derrubada o oferecimento de tarubá, bebida de mandioca fermentada, aos presentes, o quebra-macaxeira, espécie de “roubo ritual” ou donativos compulsoriamente requisitados aos comerciantes de barracas localizadas na praça. A última parte do ritual é a dança da Desfeiteira, entremeada com quadras de versos que concitam à assistência a participar da brincadeira, quando é possível dizer com ironia certas verdades a um político local ou desafeto qualquer, sempre com muito humor, que faz com que muitos versadores aceitem as provocações ou do outro. (BRAGA, 2007, P.6-7) Lima (1999) enfatiza que a maior parte das comunidades amazônicas tem em seu calendário festivo a celebração de um ou mais santos, sendo a festa do Santo padroeiro o mais festejado pela comunidade, pois é atribuída ao padroeiro a função de guardião da comunidade. A autora comenta também, que as festas de Santo são celebradas com um ritual tradicional, e que por constituir um foco comum de devoção, o santo padroeiro confere à comunidade sua identidade metafísica. A festa de santo realizado no Alto Rio Negro é descrito por Andrello (2004) como uma forma de catolicismo popular que florescera na região desde as missões carmelitas do século XVIII. Assume em seu desenvolvimento uma fusão de pequenos ritos profanos, de sacralização do santo homenageado e de ritos de oferenda como o Dabokuri (OLIVEIRA, 1995). Por esta via, além de fortalecer a identidade do lugar, a festa de santo possibilita incorporar as concepções cosmológicas indígenas e rituais tradicionais, como por exemplo, crenças em seres assustadores, agressivos e causadores de doenças nos homens; e rituais como o Dabukuri – realizado por meio de trocas efetuadas entre grupos afins do Alto Rio Negro, as trocas costumam ser, em sua maioria, de alimentos como frutas ou outro produto que os grupos têm em abundância. O termo dabukuri é de uso corrente nos segmentos da população tradicional do alto rio Negro, significando uma grande festa cerimonial de encontro entre grupos indígenas, quando são oferecidos frutos silvestres, peixes, bebidas fermentadas etc. sempre com muita música e dança. Ocorre tanto nos povoados indígenas quanto na sede do município. Por extensão, pode haver uma forma de dabukuri também para recepcionar convidados de fora, ou incorporado em eventos, como as festas de santo, conforme será melhor referido adiante. (BARROS, 2007, p. 31) De acordo com Melo (2009, p.138-139) as festas de Santo realizadas nas comunidades indígenas, são momentos onde: [...] os santos são homenageados publicamente e é nessa ocasião em que serão requisitados novamente para interceder em problemas do cotidiano humano. No 4 contexto, tornam-se um símbolo que une as pessoas e as mobiliza, permitindo que elas reativem os vínculos sociais e vivenciem um tipo de sociabilidade ideal: comunitário e fundamentado em valores como o parentesco, a comensalidade e a intimidade. Afinal, fazer festa e estar junto de parentes e amigos configura o que os índios entendem por “viver bem”. Portanto, é no tempo das festividades religiosas que muitas comunidades se transformam, pois é o momento de receber parentes e amigos e vivenciar intensamente uma rede de solidariedade e cooperação que uni as pessoas, expressa nas atividades coletivas. É nesse momento de comunhão que é restabelecido e fortalecido a identidade do lugar. Nessa perspectiva, Araujo e Haesbaert (2007) evidenciam que as festas desempenham um importante papel na relação entre o homem e o meio, pois estas manifestações sempre refletiram o modo como os grupos sociais vivem, percebem e concebem seu ambiente, valorizam mais ou menos certos lugares. Assim, é inerente ressaltar que a festa torna-se um instrumento que possibilita a construção de laços afetivos e socioculturais com determinado território, a partir da apropriação da espacialidade territorial por um grupo social, possibilitando a construção de uma identidade que se forma diante de uma perspectiva histórica comum aos membros de determinada comunidade. Frente ao exposto, FRAXE, (2007, p. 59) ressalta que: (...) A festa representa a afirmação do modo de vida que se cristaliza pouco a pouco no cotidiano de um lugar marcado por uma temporalidade, constitui um mecanismo de demarcar território, pois possibilita a igualdade e ao mesmo tempo a diferença entre as pessoas, por outro lado, ela se torna a forma mais concreta de apropriação dos espaços pelas populações locais, que inventam e reinventam suas práticas culturais e as tornam acontecimentos históricos, na medida em que essas práticas traduzem de diferentes maneiras a fisionomia cultural e social local. Dito posto, as festas de santo que ocorrem nas comunidades mais afastadas da cidade de São Gabriel da Cachoeira são tidas pelos indígenas de São Gabriel da Cachoeira, como as verdadeiras e originais, com um período de duração mais extenso, de até quinze dias (BARROS, 2007). CARACTERIZAÇÃO DA COMUNIDADE DE SÃO JOAQUIM A comunidade de São Joaquim está localizada na Terra indígena do Médio rio Negro I, na foz do rio Uaupés, margem direita do rio Negro, distante da cidade de São Gabriel da Cachoeira 120 km. A área da comunidade mede 2.000 m de frente e m de 1.500 m de fundo. 5 Terras Indígenas do Alto e Médio rio Negro (Fonte: AZEVEDO, 2006). A origem da comunidade remonta a fundação de um aldeamento religioso na boca do rio Waupés feito pelos missionários carmelitas em 1700 (Silva apud Figueiredo, 2009, p. 213) com a denominação de São Joaquim da Foz e posteriormente denominado em 1789, como São Joaquim do Coané (Silva, 1977, pág.23). A história das Missões do Caiarý-Uaupés mostra contínuos altos e baixos. As primeiras tentativas da missão eram, como parece, na segunda metade do século 18. Já naquele tempo os missionários da Ordem dos Carmelitas neste rio fundaram São Joaquim e São Jerônimo, o Ipanoré de hoje, ao mesmo tempo com São Felipe e São Marcelino no rio Negro [...] (KOCH-GRÜNBERG, 2005, p.374). Não obstante, SANTOS (2012), também assinala que desde 1768, a comunidade São Joaquim era um núcleo colonial da capitania do Rio Negro, pertencendo a categoria de aldeamento, com a denominação de São Joaquim de Caoné (p. 200). Knobloch (1972), destaca a presença de índios aldeados pertencentes as etnias Coenamas e Uaupés residindo em São Joaquim nos meados do século XVIII. Em outro momento, o autor ressalta a viagem do carmelita Frei Gregório José Maria de Bene à São Joaquim em maio de 1852, onde o missionário registrou a presença de outras etnias indígenas citadas por ele como sendo os Cainatari, Macu, Piratapuia, Cubeo, Tucano, Iarauassu, Baniwa, Itatiana, Arapaço, Carapana, Tabaiana, Itariana, deçana e Cocuane (Knobloch, 1972, pág. 16-17). Posteriormente, verifica-se a passagem de viajantes que adentraram a comunidade de São Joaquim no século XX, como do etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg (1995), o 6 naturalista inglês Alfred Russel Wallace (1979) e o antropólogo Eduardo Galvão (1979), onde ambos assinalam características proeminentes com relação ao aspecto socioespacial, cultural e com relação a ausência de moradores na referida comunidade. Galvão (1979, pág. 183) descreve a comunidade de São Joaquim quando da sua estadia por essa região: (...) Ao forasteiro, o sítio de São Joaquim apresenta-se como um povoado abandonado. Três ruas de casas mais ou menos bem cuidadas, uma igreja a cujo lado ergue-se uma grande ramada de danças e um cemitério. Porém sem um único habitante permanente.(...) (GALVÃO, 1979, pág. 183). Por outro lado Koch-Grünberg (1995) ressalta pormenores da comunidade de São Joaquim: Al llegar a São Joaquim, en la desembocadura del Cayarí-Uaupés, presenciamos la misma imagen que habíamos visto un año antes. Repicar las campanas, disparos de fusil, estallidos de cohetes, música de tambores e flautas, procesiones con imágenes de santos, banderas y estandartes; pero también olor de cachaça; en resumen, una celebración de indios que en un tiempo vivieron en una misión pero que hace ya mucho perdieron la disciplina que los inculcaron los sacerdotes (...)En São Joaquim sólo se encuentra gente en la época de fiestas religiosas, es decir en los meses de junio, julio y agosto; el resto del año cada uno vive con su respectiva familia en sitios distintos. Cuando Schmidt había pasado por aquí en marzo, había encontrado todo desierto y las casas parcialmente derruidas o invadidas por la hierba y la maleza. Pero cuando se acercan las fiestas, el pueblo se arregla y se limpia (KochGrünberg, 1995, p. 354) Atualmente a comunidade de São Joaquim tem em sua organização espacial o salão de festas, capela, cemitério e 82 casas que foram construídas pelos devotos para hospedarem suas famílias, fiéis e convidados durante a festa de São Joaquim, ficando abandonadas durante a maior parte do ano (ver figuras 1, 2, 3 e 4). 7 Figura 2: Vista panorâmica da comunidade São Joaquim – rio Waupés. Fonte: Leticia Alves da Silva, (6 de dezembro de 2013). Figura 3: cemitério da comunidade São Joaquim. Fonte: Leticia Alves da Silva, (11 de agosto de 2013). 8 Figura 4: centro comunitário da comunidade São Joaquim. Fonte: Leticia Alves da Silva, (10 de agosto de 2012). Embora não haja moradores na comunidade de São Joaquim desde o abandono de vários aldeamentos pelas ordens religiosas no final do século XIX (SILVA & SILVA, 2010), há registros de ocupação efêmera no século XX por parte da família Miranda, indígenas da etnia Baré. Desta forma, na década de 30 até 60, a família do já falecido Sr. Antônio Miranda, residiu em São Joaquim, de acordo com o relato feito pela sua neta, Sra. Adelina Miranda Velasques: A minha mãe, Jardelina Miranda, mais conhecida como dona Jadi, se orgulhava em dizer que ela havia nascido e se criado na comunidade de São Joaquim, ela nasceu em 1935, ela morava com meus avós, onde está agora o centro comunitário, mamãe falava que todo ano participava da festa do glorioso São Joaquim. Depois de algum tempo, a família da mamãe passou a morar na comunidade de Sororoca e depois disso fomos para a Colômbia, onde voltamos em 1984 para morar em São Gabriel da Cachoeira. (Adelina Miranda Velasques, entrevista realizada em 08 de maio de 2013). A explicação que os moradores mais antigos apresentam sobre a ausência de habitantes na comunidade São Joaquim perpassam em sua maioria devido o abandono do aldeamento de São Joaquim pelas missões religiosas e consequente pulverização dos 9 indígenas aldeados, que se dispersaram pelo rio Negro e Waupés fundando diversas comunidades circunvizinhas como: Comunidade de Tacira Ponta, Cutipuru, Umiri (Ilha das Flores), Bauari, Sororoca, Monte Cristo, Tatu, Ilha do Açai, Cabeçudo-poço, Carapanã, Jandiá, Tamanduá, Itapinima, Cunuri Ponta, Sarapó, São Gregório, Yawawirá e Trovão. Ainda que a comunidade de São Joaquim passe boa parte do ano sem ter um cotidiano vivenciado pelos membros comunitários, a festa de Santo é uma oportunidade de tornar a comunidade “viva” e principalmente restabelecer os laços de identidade com o lugar, além de reforçar o sentimento de pertencimento, revelando formas particulares de apropriação e de produção do espaço. O CULTO A SÃO JOAQUIM AO LONGO DA HISTÓRIA No Brasil, a difusão do culto a São Joaquim, é creditada a congregação Carmelita que introduziu nas missões implantadas entre os séculos XVII e XVIII, sobretudo para catequizar os indígenas: Entre os santos/as patronos/as das aldeias a metade é composta por santos carmelitas, se a estes adicionamos São Joaquim, Santa Ana e São José, porque são considerados como padroeiros da Ordem e no passado foram muito venerados pelos carmelitas. Assim dá para se ter uma idéia do quanto os missionários do Carmo transmitiram as suas devoções aos índios (SANTIN, 2013). No Alto rio Negro, a festa de São Joaquim, é realizada a mais ou menos 200 anos na comunidade de mesmo nome, e é considerada “uma das maiores e mais antigas festas de santo da região”(FIGUEIREDO, 2009, p.213). Galvão (1979, p.183), também destaca a festa de São Joaquim como umas das festas mais importantes do Alto rio Negro, quando de sua passagem pela referida região: “Santo Antônio, São João e São Joaquim são as festas mais importantes do baixo Içana e Uaupés. Especialmente a última, realizada em agosto, em sítio localizado na boca deste rio”. A festa de São Joaquim é realizada atualmente do dia 10 a 17 de agosto, com duração de uma semana. Porém, de acordo com Monteiro (1983. p.275), o evento festivo, nem sempre ocorreu nestas datas: “Durante os dias dois a dezoito de agosto, comemora-se no alto rio Uaupés (Estado do Amazonas) a festa profano-religiosa em homenagem a São Joaquim, padroeiro daquela localidade [...]”. Desse modo, Melo (2009, p. 42) argumenta que “[...] Estes eventos são transformados em momentos de encontro, de reativação das redes sociais. Ao festejar, também buscam a 10 colaboração dos próprios santos para resolução de seus problemas e “agradecem ritualmente” quando suas preces são atendidas [...]”. Além de fortalecer a identidade do lugar, as festividades religiosas transformam a vida cotidiana da comunidade, é o momento de acolher os parentes e amigos, realizar missas e procissões, refeições coletivas, bailes, enfim festejar. O ALTO RIO NEGRO EM FESTA: ASPECTOS RITUAIS E SOCIOCULTURAIS DA FESTA DE SÃO JOAQUIM De acordo com Lasmar (2005), compreender os significados de certos lugares freqüentados ativamente ou periodicamente pelas populações indígenas é um passo fundamental para o entendimento dos princípios organizadores do universo social dos índios do Alto Rio Negro. Nesse sentido, faz-se necessário uma compreensão da própria festa, sobretudo dos seus entrelaçamentos com a identidade social, percebendo como os grupos sociais vivenciam e concebem seus ambientes. De acordo com o Sr. Humberto da Cruz, antigo participante da festa religiosa, proveniente do sítio Tatu, rio Negro e pertencente a etnia indígena Baré; tradicionalmente, as famílias que organizam e participam da festa, são oriundas de várias comunidades do Rio Negro e Waupés tais como: Tacira Ponta, Cabeçudo-Poço, Ilha das Flores (Umiri), Bauari, Sororoca, Monte Cristo, Tatu, Ilha do Açai, Carapanã, Jandiá, Tamanduá, Cutipuru, Itapinima, Cunuri Ponta, Sarapó, São Gregório, Yawawirá e Trovão ( rio Waupés). Sendo assim, grande parte destes comunitários pertence às etnias Baré, Dessano, Cueuano e Tukano. Muitos deles são descendentes dos indígenas aldeados da época das missões carmelitas. Assim, vários participantes da festa de São Joaquim afirmam que seus antepassados tinham uma ligação muito forte com a comunidade, pois é nesse espaço que passaram a conviver com os freis carmelitas e aprender através da catequese a cultuar São Joaquim e Santo Antônio, como também assimilar o ensino escolar que incluía o aprendizado da língua portuguesa e latim, preparo técnico dos ofícios mecânicos e agrícola. Dessa forma, o Sr. Humberto revelou os nomes das famílias tradicionais imbuídas de organizar e participar da festa de São Joaquim, destacando que a maioria de seus membros já são falecidos, e foram enterrados no cemitério da comunidade São Joaquim, restando apenas seus filhos, primos e netos: 11 Antigamente participavam da festa, as famílias do Seu Sérvulo da Silva, do sítio Cutipuru; Manuel da Cruz, meu pai, do Sítio Tatu; Seu Inocêncio da Cruz, primo do meu pai; Família do Seu Magêncio dos Santos, moradores do sítio Bauari; família do seu Ramiro Lizardo, pai da minha esposa, moradores do sítio Carapanã, família do Sr. Fortunato Melgueiro, do sítio Tamanduá, todos da etnia Baré, ainda participavam vários moradores da ilha das flores, Ilha do Açai, Trovão, Cucuí, família do Sr. Florêncio da Costa, da comunidade de Tacira Ponta, que ainda está vivo e é um dos participantes mais antigos. (Humbero da Cruz , 22 de maio de 2013). Outro relato importante sobre os antigos participantes da festa de São Joaquim advém de um dos tradicionais rezadores da festa, Sr. Raimundo Brazão da Silva, etnia Baré: Seu João Pedro da Silva, meu pai, foi um grande mestre-sala. Minha mãe Creuza Brazão participava também, Seu João Caetano, Sesário Velasques, Sesário Salgado que tinha vários cargos como rezador, gambá, e mestre sala. Ele era bastante respeitado por isso. Também o Sr. Fortunato Soares, pai da Dona Clara Soares, esposo da dona Josefa Soares, ele era uma grande liderança da ilha de Umiri, onde a minha família morava. (Raimundo Brazão da Silva, 29 de maio de 2013.) Sobre as narrativas anteriores, verifica-se a importância se trazer à tona a memória histórica que está relacionada ao vínculo afetivo e social que os antigos moradores e seus descendentes têm com a comunidade São Joaquim, apesar de não residirem cotidianamente, pois revela que “esses vínculos estão relacionados ao fato dos grupos de moradores terem se originado em determinado lugar, possuírem uma história construída nele”[...](FRAXE, 2007.p 113). A preparação da festa de São Joaquin é iniciada tradicionalmente todos os anos, a partir do mês de janeiro e depois em julho com o início da capina de todo o terreno, realizada pelas famílias das comunidades adjacentes. E principalmente no mês de junho e julho, são realizadas na comunidade São Joaquim, a limpeza, consertos diversos, pinturas das casas, capela, centro comunitário e instalação do motor de água e rede de energia elétrica. E nas semanas que antecedem o festejo ocorrem reuniões na comunidade de São Joaquim com os membros nomeados para organizar o evento, tais como: festeiros, encarregados de organizar a festa; mordomos, incumbidos de auxiliar em todas as atividades antes e depois da festa de santo; promesseiros, indivíduos pagadores de promessa; juízes de mastro, são atribuídos a estes a abertura da festa, confecção e levantamento dos quatro 12 mastros do santo; mestres-sala, têm o dever de manter a ordem em todos os espaços em que acontecem a festa; tamborineiros, cargo responsável por recepcionar todos os organizadores do festejo e determinar as atividades realizadas no decorrer da festa, através do batuque de tamborinas confeccionadas com couro de viado, onça ou anta; cozinheiras, encarregadas de fazer e servir a alimentação a todos os participantes do evento; bandeireiros, acompanham os tamborineiros na “chegada” (recepção dos organizadores da festa de santo), como também na procissão terrestre e fluvial durante as rezas, esmolas, carauataí e castelinho (símbolo do barco do santo que leva os pedidos dos fiéis). O momento que assinala a abertura da festa de São Joaquim é o estouro dos foguetes feito pela família dona do santo, que originalmente pertence aos Miranda. Os tiros de foguetes são feitos a partir das 6 horas da manhã. Porém, foi observado que atualmente, devido à ausência de grande parte dos membros da família Miranda, outras famílias ficam encarregadas de realizar essas e outras tarefas no transcorrer do evento festivo. Não obstante, o grupo que realiza o translado dos responsáveis pela festa de São Joaquim prolonga tal ritual até as 15 horas, ao mesmo tempo em que vários participantes vindos das comunidades circunvizinhas e principalmente parentes da cidade de São Gabriel da Cachoeira vão chegando com suas canoas, barcos, lanchas e voadeiras. Por conseguinte, o transporte se inicia com a ida de uma embarcação contendo o mestre-sala, dois tamborineiros, dois bandeireiros, uma pessoa responsável em soltar os foguetes e um motorista fluvial. Este grupo segue até o sítio das famílias organizadoras da festa do santo, e no retorno conforme se aproximam do porto da comunidade de São Joaquim, soltam foguetes que servem para avisar às famílias encarregadas da recepção sobre a chegada dos juízes de mastro que antigamente eram dois componentes e atualmente são quatro. Portanto, em dias alternados, a família “dona do santo” acompanhada dos bandeireiros e tamborineiros, e demais pessoas que se encontrarem na referida comunidade se juntam no porto da comunidade para recepcionar posteriormente os festeiros que eram dois e hoje em dia são seis indivíduos; mordomos que até o final da década de 80 eram trinta e atualmente são sessenta participantes e os promesseiros, que no passado eram dois se elevando para mais de dez. Todos os organizadores da festa do santo são recepcionados com oferecimentos de vinho, sendo que antigamente eram servidos garapa e aluar (bebidas fermentadas feitas com frutas), este momento também é conhecido como correrê. Posteriormente, segue o levantamento dos mastros que ocorre sempre às 17h00min. Onde os dois primeiros são fixados na frente da capelinha e os últimos próximos ao salão de festas (centro comunitário). Estes símbolos que demarcam o culto e devoção dos 13 comunitários, são enfeitados com bandeirinhas da cor branca fixadas no topo de cada mastro contendo a imagem de São Joaquim e frutas da região como banana, açaí, côco, cana-deaçúcar, abacaxi, pupunha entre outras. Desta forma, esse momento é iniciado com uma procissão acompanhada por todas as pessoas presentes, em que duas imagens de São Joaquim são carregadas pelos promesseiros que caminham desde a saída da capela, perpassando a frente desta, transcorrendo a via principal da comunidade, chegando até as proximidades do centro comunitário e depois retornando à capela. Neste trajeto de ida e volta é realizada também o correrê de bebidas fermentadas. Após a colocação dos mastros, todos os comunitários se dirigem ao salão de festas para tomar café com beijujica e posteriormente às 20h00min, os participantes da festa seguem até a capela para iniciar as rezas em forma de ladainha, onde os fiéis rezam em latim e português. Os rezadores mais conhecidos e antigos que comandam as orações são o Sr. Rosendo Melgueiro e Raimundo Brazão. Depois da reza, os comunitários se deslocam até o salão de festas para dançar o macaquinho, uma espécie de dança indígena, puxada pelo gambá, que é o animador das apresentações, onde este é auxiliado por dois tamborineiros que cantam músicas em nheengatú e português e vão formando uma roda em que participam vários homens e mulheres. Geralmente o baile é entremeado pelo correrê, assim como outros ritos que perfazem a festa de São Joaquim. Desta forma, o correrê é um momento em que são servidos bebidas fermentadas como aluar, garapa e vinho de qualquer fruta da região. Participam dessa rodada de bebidas apenas os adultos que estão sendo recebidos na “chegada” ou que estão participando da dança do macaquinho, carauataí, procissão do santo e entrega do barquinho do santo. Destarte, verifica-se que além da presença de famílias que moram em comunidades adjacentes há grande participação de pessoas residentes da cidade de São Gabriel da Cachoeira e Manaus, muitos são parentes das famílias organizadoras da festa, sendo que os mesmos salientaram a grande alegria em reencontrar e compartilhar a cultura dos seus antepassados nesse momento festivo. Outros grupos de participantes são os de não-índios como militares de outros estados da federação, pesquisadores, jornalistas, autônomos, empresários, comerciantes e funcionários públicos. Há igualmente, muitas visitas de políticos do município de São Gabriel da Cachoeira, como prefeitos, ex-prefeitos e vereadores. Conforme as danças indígenas vão finalizando, há o prosseguimento do baile ao estilo caboclo com apresentações dos cantores de “cuximauara”, que quer dizer em nheengatú “música antiga”, pois este estilo musical remete as guitarradas do Estado do Pará. E no 14 transcorrer do baile, o mestre-sala é atuante para verificar e combater algumas transgressões que podem ocorrer no salão, como por exemplo se há homens adentrando o salão de festas sem os trajes adequados (camiseta e calça comprida), desentendimentos ou desrespeito com os casais dançantes e etc. Pois, segundo o Sr. Otávio Miranda, antigamente qualquer falta de respeito com o santo ou demais participantes era castigado com a aplicação da vaqueta, “um tipo de castigo que obriga o transgressor a ficar de joelhos sobre um pau oitavado e rezar quinze padrenossos completos “(Monteiro, 1983. Pág. 276). Outra função destinada ao mestre sala era aplicar a pucuareara, ou amarração do braço com a fita vermelha. Assim obrigando a pessoa a ficar até o final da festa do santo padroeiro (Monteiro, 1983, pág.277). Sendo assim, o baile dançante da festa de São Joaquim se estende até as seis horas da manhã e após a esse, todos os participantes da festa se deslocam até a capela para beijar as fitas do santo. E a partir das 6h30min é realizado o Carauataí, que é um convite diário para o banho comunitário onde os mestres sala, juízes de mastro, mordomos, tamborineiros e bandeireiros passam de casa em casa convidando. A hora do almoço, inicia às 11h30min. Este momento é assinalado geralmente pelo mestre sala que fica responsável por convocar as famílias e demais participantes da festa, para participar do almoço, merenda e jantar no salão de festas, onde é servido os pratos regionais como quinhãpira com beiju de massa ou goma (curada), porco e galinha cozidos, doce de banana, cupuaçu, côco, chibé de farinha de mandioca ou de açaí, caribé de maçoca, mingau de banana, maçoca, goma, farinha e tapioca. O auge da festa do santo se dá nos dias 16 e 17 de agosto, dias esses dedicados às esmolas, descida do barquinho do santo, desfiles dos mascarados, entrega de materiais que restaram da festa e leitura dos responsáveis pela festa do ano seguinte. Verifica-se no dia 16 a inserção de oito árvores na rua principal da comunidade São Joaquim contendo em seus galhos vários doces feitos de côco e banana, como também balas industrializadas; e no entardecer os festeiros acedem fogueiras em suas bases. As esmolas dadas ao santo vão desde dinheiro em espécie, comida, produtos da roça e outros objetos de valor. Ainda ocorre às 20h00min, a soltura do barquinho pelo rio Waupés, que simboliza o pedido dos fiéis que vão ser levados para Deus por intermédio de São Joaquim, momento esse que inicia com uma procissão da capela até o porto principal da comunidade, descendo dois promesseiros carregando a imagem de São Joaquim, um fica na comunidade e o outro embarca em uma canoa de dois metros em que vão dois bandeireiros, dois tamborineiros, dois devotos com suas velas, barqueiro, uma pessoa encarregada de soltar os foguetes, um rezador, um mestre-sala, um motorista e uma pessoa que leva o guarda-chuva para proteger o santo durante o cortejo que se dirige até as proximidades da comunidade de Monte Cristo, onde a 15 correnteza do rio é mais forte, e chegando ao local em meio a escuridão iluminada pelas velas dos fiéis, a embarcação que carrega o santo é recepcionada por outro grupo que sai duas horas antes levando os dois barquinhos que são confeccionados com caule de buriti e enfeitados com foguetes e velas feitas de xincantá (resina vegetal usado pelos indígenas para defumar a casa e afastar maus espíritos). Desse modo, as duas embarcações prosseguem descendo o rio até a frente da comunidade de São Joaquim, onde é feito quatro voltas formando uma meialua com o estouro de foguetes de ambas canoas e cânticos utilizando a língua nheengatú. E finalizadas o cortejo fluvial das canoas, os barquinhos do santo são soltos no meio do rio e a canoa do santo retorna ao porto comunitário, de onde prossegue até a capelinha para realização da reza em forma de ladainhas. Ao final das orações, há prosseguimento deste importante dia com a noite dos mascarados que é realizada no centro comunitário, onde participam jovens fantasiados com máscaras monstruosas, para assustar crianças e pessoas distraídas, após a apresentação dos mesmos, ocorre novamente o correrê e dá-se o prosseguimento da festa dançante ao som do cuximauara. No dia dezessete de agosto, dia do santo padroeiro há uma imensa leva de pessoas que transformam o cotidiano festivo do lugar, pois no ano de 2012 foi registrado a presença de mais de 320 pessoas, parte moradora da cidade de São Gabriel da Cachoeira e distritos de Taracuá e Cucuí, como também viajantes que passam pela comunidade como os Baniwa, Hupda e Yohupde que encostam na comunidade para prestigiar a festa de santo. Em outro momento desse dia festivo, é realizado no salão de baile, a leitura da relação dos nomes dos festeiros, mordomos, juízes, promesseiros e bandeireiros para o ano seguinte. E no dia seguinte às 15h00min, os festeiros e demais ajudantes derrubam os mastros e guardam o santo na capela. Em seguida todos que participaram da festa limpam suas casas, atividade esta conhecida como “varrição” e aos poucos cada família embarca seus pertences e singra o rio Waupés e outros o rio Negro rumo a suas comunidade e assim dando-se encerrada a festa do glorioso São Joaquim, adjetivo dado pelos devotos que assim tratam o santo, pelas grandes graças alcançadas que vão desde a proposição de casamento, aprovação em concurso, cura de enfermidades, solução em problemas judiciais ou familiares. 16 CONSIDERAÇÕES FINAIS Em suma, é nítido observar na festa de São Joaquim, a junção de elementos da cultura indígena do Alto rio Negro nos primeiros momentos e no decorrer do festejo, que seguem desde os cânticos que utilizam o nheengatú, correrê, danças, ladainha, levantação do mastro, refeição, carauataí e recepção que remetem ao dabucuri praticado na região, à prática de se dividir e realizarem refeições juntos, enfim, vivenciar uma comunhão com todos os parentes, amigos e demais convidados. Pois no centro urbano de São Gabriel da Cachoeira, de onde procede grande parte das pessoas que freqüentam a festa, esse modo de vida é quase que inexistente, pois há grande influência do modo de vida ocidental, que advém desde a inserção do exército, marinha e aeronáutica, perpassando outras instituições governamentais e nãogovernamentais, em que grande parte de seus integrantes não são indígenas. Isto posto, a manutenção e o fortalecimento da identidade cultural possibilitada pela festa é um dos motivos que Melo (2009) destaca como sendo, em sua maioria, o que mantêm os moradores de um determinado lugar interessados em continuarem vivendo ali. Pois “[...] Há o desejo de reafirmar um modo de vida que configura uma forma de “viver bem”, isto é, uma vida comunitária, partilhada entre parentes e celebrada principalmente nas “festas de santo”, já que a cidade impõe ritmos diferentes à vida social [...]” (p. 119). Nesse sentido, a possibilidade que a festa de São Joaquim apresenta aos devotos e demais integrantes ao vivenciarem aspectos da cultura indígena do Alto rio Negro e grande parte deles se intitularem parte daquele território remonta às suas referências simbólicas construídas historicamente e que condicionam sua identidade como indígena Baré, Tucano ou Dessano, parte daquela comunidade. Pois, as práticas sociais e culturais vivenciadas durante a festa de São Joaquim são inerentes para a perpetuação e fortalecimento das tradições desse povo. Logo, a festa, o espaço, os atores sociais envolvidos e a representação cultural, pertencentes a um determinado grupo, faz com que o elo entre o passado e o presente se mantenham de alguma forma (Angelo & Corner, 2007) . À vista disso Thompson (1998, p.18) assegura que “as práticas e as normas se reproduzem ao longo das gerações na atmosfera lentamente diversificada dos costumes” contribuindo para que “essa cultura transmite com vigor – desempenhos ritualísticos ou estilizados” importantes veículos de transmissão do modo de vida comungados pelos antepassados dos participantes da festa de São Joaquim. 17 Portanto, o entendimento sobre a devoção ao Santo padroeiro e o vínculo afetivo proporcionado pela festa, com relação ao território onde se encontra a comunidade de São Joaquim , faz com que entendamos que a cultura de um povo é fruto da história coletiva, pois a cultura é uma construção histórica. 18 REFERÊNCIAS AZEVEDO, Marta Maria do Amaral. Demografia dos povos indígenas do Alto Rio Negro/AM: um estudo de caso de nupcialidade e reprodução. Campinas.São Paulo. Tese (Doutorado). Universidade de Campinas, 2003. ANDRELLO, Geraldo L. 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