MODELAGEM MATEMÁTICA COMO ESTRATÉGIA DE ENSINO E APRENDIZAGEM: POSSIBILIDADE PARA UMA EDUCAÇÃO MAIS SIGNIFICATIVA Adriana Helena Borssoi Universidade Estadual de Londrina – UEL [email protected] Resumo No contexto do ensino da Matemática, entendemos que a aprendizagem deve estar vinculada a ações que caracterizam o “fazer matemática”, oportunizando ao aluno experimentar, modelar, analisar situações e desenvolver um espírito crítico a respeito das soluções encontradas. Desse modo, o ensino deve se dar ao sujeito, em ambientes nos quais a aprendizagem aconteça de forma significativa, considerando a dimensão do desenvolvimento científico e tecnológico. Neste sentido, temos nos ocupado em investigar em que aspectos a Modelagem Matemática como estratégia de ensino e a aprendizagem pode ser uma facilitadora da Aprendizagem Significativa. Fundamentados nos pressupostos teóricos da Modelagem Matemática na perspectiva da Educação Matemática e na Teoria da Aprendizagem Significativa, estabelecemos algumas relações que podem contribuir com a prática docente no que diz respeito à organização de uma proposta de ensino e aprendizagem viável para ser implementada em cursos regulares. Abordamos nesta oportunidade uma atividade de aprendizagem desenvolvida por um grupo de alunos de um curso de Química desenvolvida no decorrer do estudo de Equações Diferenciais Ordinárias no qual a Modelagem Matemática foi a estratégia de ensino e aprendizagem enfatizada. Palavras-chave: Modelagem Matemática; Aprendizagem Significativa; Atividades de Aprendizagem. 1 Introdução A reflexão sobre a prática é reconhecida como uma importante condição para o aprimoramento da autonomia profissional. Esta é uma questão crucial para o profissional da educação que considera as recomendações atuais que visa a formação do estudante para a cidadania. De acordo com Fiorentini (1995), a construção do ideário pedagógico é uma construção idiossincrática e deve se dar a partir pressupostos teóricos e de sua reflexão sobre a prática. O comprometimento com as tais recomendações para uma educação de fato significativa, que produza o efeito desejado, requer do professor disposição para uma busca constante pelo aprimoramento profissional. Deste modo a busca pode se iniciar por conhecer as diversas possibilidades alternativas para a ação em sala de aula. 2 Para Perez (1999), Uma sala de aula como a que propomos exige que o professor tenha uma fundamentação teórica que lhe dê condições de compreender as razões para a utilização das diversas metodologias, em especial aquelas que envolvem os alunos em atividades abertas, e capacidade de usar efetivamente uma variedade de estratégias de acordo com os objetivos e tendo em conta a idade, a capacidade e as necessidades dos alunos. Uma busca pessoal por alternativas que possam oportunizar atividades de aprendizagem que conduzam a uma aprendizagem significativa dos estudantes é crucial e desejável. Assim, algumas questões relacionadas com o ensino e com a aprendizagem em ambiente escolar devem ser consideradas. A aprendizagem da Matemática efetivamente acontece quando o estudante consegue atribuir significado sobre os conceitos ou idéias matemáticas e passa a usar e compartilhar esses significados. Neste sentido, vimos apresentar uma possibilidade que nos parece estar na direção oportuna para efetivar um ambiente de sala de aula de forma comprometida com uma formação cidadã, no qual o estudante é levado a estabelecer relações, justificar, analisar, discutir e criar a partir das atividades de aprendizagem propostas. Estaremos considerando neste texto dois pressupostos teóricos: Aprendizagem Significativa e Modelagem Matemática. Entendemos que aproximação entre ambos pode proporcionar ao professor uma oportunidade que pode favorecer sua prática docente. 2 Aprendizagem Significativa Para Ausubel et al. (1980), uma educação capaz de promove uma Aprendizagem Significativa deve considerar o processo de construção de significados como elemento central do processo de ensino e aprendizagem. Aliadas a esta condição devem ser consideradas três condições básicas para que o ensino conduza a uma Aprendizagem Significativa: a) O material organizado para o ensino deve ser potencialmente significativo; b) A estrutura cognitiva do aluno deve dispor de 3 conhecimentos prévios que permitam o relacionamento do que o aluno já sabe com os conhecimentos novos; c) O aluno deve apresentar uma predisposição positiva para aprender de maneira significativa, ou seja, para relacionar o conhecimento que já tem com o que deve aprender. O professor tem uma função crucial nesse processo e deve adotar procedimentos que permita estabelecer um ambiente propício à Aprendizagem Significativa. Moreira (1999) orienta que se faça uma análise conceitual do conteúdo a fim de identificar conceitos e procedimentos básicos, para neles concentrar o empenho na organização do material com as atividades de aprendizagem. Segundo ele, outra recomendação é buscar a melhor maneira de relacionar, explicitamente, os aspectos mais importantes do conteúdo a ser desenvolvido, aos aspectos especificamente relevantes da estrutura cognitiva do aluno. Posteriormente, o professor deve ordenar esses conceitos em uma seqüência decrescente e cíclica, de forma que, enquanto alguns conceitos sejam apresentados outros possam ser revisados. O produto da Aprendizagem Significativa é a aquisição de significados, o que pode ser constatado pela ocorrência de uma compreensão legítima, que requer a posse de significados claros, precisos diferenciados e transferíveis (MOREIRA, 1999). Por isso, no processo de aprendizagem significativa de uma nova concepção o estudante aprende a distinguir os significados compartilhados, aceitos em um certo contexto, daqueles que são considerados errôneos nesse contexto. Para Moreira, é importante que na avaliação da Aprendizagem Significativa busquemos evidências de que o aluno, cada vez mais, usa os significados compartilhados no contexto da matéria de ensino. Para Ausubel a medida e a avaliação são centrais no conceito de aprendizagem na sala de aula, segundo ele os dados obtidos com a avaliação devem ajudar o estudante a fim de situá-lo no processo, mostrando-lhe seu nível de desenvolvimento e ainda devem fornecer recursos ao professor para que, além de avaliar o estudante, avalie também o material e os métodos adotados. A sugestão proposta por Ausubel, para evitar a “simulação da Aprendizagem Significativa” é utilizar questões e problemas formulados de maneira diferente e não familiar, exigindo a máxima transformação do conhecimento adquirido pelo aluno. Este é um meio pelo qual é possível perceber se o aluno usa os significados compartilhados no contexto da matéria de ensino. 4 Deste modo, Novak & Gowin (1988), acreditam que em um evento educacional um ser humano (estudante) adquire um conhecimento em um certo contexto, interagindo com um professor (ou algo que o substitua); a avaliação também se inclui no evento porque muito do que acontece no processo ensino-aprendizagemconhecimento-contexto, depende da avaliação, ou, como coloca Novak, “muito do que acontece na vida das pessoas depende também da avaliação”. Levando em consideração estes cinco elementos, Novak propõe como fundamental em sua teoria a idéia de que todo evento educativo implica em ação para trocar significados entre professor e aluno, cujo objetivo é a Aprendizagem Significativa de um novo conhecimento contextualmente aceito. Para novak & Gowin (1988), as boas experiências educativas deveriam ajudar a controlar o significado de maneira a levar tanto a um esforço como a uma satisfação humana apropriados. Cabe ao professor investir esforços para constituir uma proposta de ensino que possa favorecer a ocorrência desta aprendizagem. Nesse intuito, é apropriado escolher estratégias de ensino e aprendizagem potenciais. Abordaremos aqui uma possibilidade, a Modelagem Matemática, que de acordo com o ideário pedagógico do professor pode ser adequada. 3 Modelagem Matemática como estratégia de Ensino e Aprendizagem A Modelagem Matemática, hoje uma tendência da Educação Matemática, tem suas raízes no método científico amplamente utilizado pelos profissionais da Matemática Aplicada. Uma transposição para os propósitos do ensino tem se mostrado um valioso recurso para o processo de ensino e aprendizagem escolar. Na Educação Matemática a Modelagem Matemática pode assumir diferentes perspectivas, dentre as quais pode ser considerada como uma estratégia de ensino e aprendizagem em sala de aula. Esta tem sido fortemente recomendada por pesquisadores como Bassanezi (2002), D’Ambrósio (2002), Blum & Niss (2001), Almeida (2002) entre outros. Adotamos esta perspectiva por reconhecermos que o uso da Modelagem Matemática em um ambiente de ensino e aprendizagem traz a possibilidade de desenvolver nos estudantes participantes do processo, inúmeros aspectos importantes que podem contribuir para sua melhor formação. 5 É desejável que durante a modelagem, ocorra a aprendizagem de conceitos e técnicas do conteúdo que está sendo estudado. Assim o objeto de estudo pode contribuir como agente motivador da aprendizagem e dar suporte para a ocorrência da mesma. Neste sentido, encontramos em D’Ambrósio (1986), um forte argumento, que vem corroborar esta expectativa: [...] o ponto de vista que me parece de fundamental importância e que representa o verdadeiro espírito da Matemática é a capacidade de modelar situações reais, codificá-las adequadamente, de maneira a permitir a utilização das técnicas e resultados conhecidos em um outro contexto, novo. Isto é, a transferência de aprendizado resultante de uma certa situação para a situação nova é um ponto crucial do que se poderia chamar aprendizado da Matemática, e talvez o objetivo maior do seu ensino (p.44). As justificativas para utilização da Modelagem Matemática como estratégia de ensino e aprendizagem podem ser encontradas nas produções de diversos autores. Tais justificativas aparecem não apenas relacionadas à aplicabilidade da Matemática ou no intuito de que os conteúdos sejam trabalhados de forma mais significativa matematicamente, mas também em um sentido mais amplo, considerando aspectos extramatemáticos, como desenvolver, por meio das atividades de modelagem, o conhecimento reflexivo e o engrandecimento humano. Há indicativos de que a aquisição do conhecimento se dá a partir de fatos da realidade, assim, entendemos que a Modelagem Matemática em sala de aula viabiliza a interação da matemática escolar com aquela presente fora do ambiente da sala de aula. Segundo Niss (1992), para que o aluno saia da posição passiva, onde apenas recebe informações, e se torne um sujeito ativo e participante, é necessário que ele se envolva no desenvolvimento de todo o processo de modelagem, não apenas das etapas em que a ênfase são os aspectos puramente matemáticos. As atividades de modelagem podem, de acordo com Bassanezi (2002), levar o estudante a compreender melhor os argumentos matemáticos, incorporar conceitos e resultados de modo mais significativo, e ao mesmo tempo criar predisposição para aprender matemática porque de alguma forma o estudante passa a compreendê-la e valorizá-la. Neste sentido, ressaltamos que, no que diz respeito ao fator motivação dos estudantes, melhores resultados podem ser esperados se as atividades de 6 modelagem estiverem relacionadas com a área de interesse dos estudantes, ou seja, que a realidade de onde o problema emerge não seja qualquer, mas sim a realidade na qual eles estejam inseridos (BORSSOI, 2004). 4 Aproximações entre Aprendizagem Significativa e Modelagem Matemática Reconhecemos a existência de uma série de possibilidades de organizar atividades de aprendizagem com características que favoreçam a ocorrência da Aprendizagem Significativa aos estudantes. Ao nosso ver a Modelagem Matemática é especialmente oportuna para esse fim, pois é possível perceber muitas aproximações entre estes dois pressupostos teóricos. Citamos especialmente a similaridade das características das atividades de aprendizagem sugeridas na teoria de Ausubel para promover a Aprendizagem Significativa e aquelas que emergem das atividades de modelagem. A fim de perceber se a aprendizagem dos estudantes caracteriza uma aprendizagem significativa quando as atividades de aprendizagem ocorrem em um ambiente de Modelagem Matemática, consideramos um conjunto de aspectos que consideramos como indicativos de Aprendizagem Significativa, portanto devem ser considerados durante a avaliação da aprendizagem. Estes aspectos a que nos referimos são caracterizados e discutidos por nós em BORSSOI (2004) e BORSSOI & ALMEIDA (2003). Dividimos estes aspectos em dois grupos, um dos quais compreende os aspectos motivacionais composto por: envolvimento nas atividades, elaboração de estratégias própria e aprendizagem extraconteúdo e o outro compreende os aspectos cognitivos composto por: compreensão conceitual, construção e manipulação de representações múltiplas, aplicação do conhecimento a situações novas e, retenção do conhecimento por longo tempo. Estes aspectos foram levantados considerando principalmente as condições básicas para a Aprendizagem Significativa mencionados no item 2 deste texto e nas características da Modelagem Matemática em situações de ensino. Mencionamos que estes aspectos devem ser considerados durante a avaliação da aprendizagem, mais especificamente sugerimos que a verificação da ocorrência ou não destes aspectos podem levar o professor a concluir se houve ou não 7 a Aprendizagem Significativa no estudante. Desta forma, a avaliação é um elemento ao qual o professor deve dar grande importância ao organizar o ensino. Os instrumentos de avaliação convencionais como as provas devem receber outros aliados de modo que sejam suficientes e eficazes para na evidenciar os aspectos motivacionais e cognitivos aludidos. Em seguida mencionamos brevemente a proposta na perspectiva que vimos explorando até aqui e como ilustração descrevemos uma das atividades de aprendizagem indicadas. 5 Delineamento de uma Proposta Neste trabalho nos referimos a uma proposta de ensino organizada de forma a contemplar características requeridas para a ocorrência da Aprendizagem Significativa dos estudantes. A mesma foi desenvolvida em 2003, na Universidade Estadual de Londrina, com uma turma regular da segunda série do um curso de bacharelado em Química na disciplina de Cálculo e Geometria Analítica. Na elaboração da proposta de ensino levamos em conta as várias possibilidades propostas por Blum & Niss (apud Carreira, 1993) de integrar a Modelagem Matemática no currículo e nos identificamos com alternativa da combinação. Esta alternativa sugere que as atividades de modelagem ora sejam usadas na introdução de conceitos matemáticos novos, ora para a aplicação dos conceitos e métodos estudados. Assim, várias atividades de modelagem permearam as aulas durante o estudo do conteúdo de Equações Diferenciais Ordinárias. Estas eram atividades compartilhadas, em que a professora conjuntamente com os alunos distribuídos em grupos as desenvolviam. No decorrer do estudo, uma das atividades de aprendizagem propostas aos estudantes foi que conduzissem, distribuídos em equipes, uma atividade de modelagem que abordasse as equações diferenciais, da forma mais independente possível da professora. Apesar de contarem com um horário de orientação aos trabalhos, deveriam ser autônomos para escolher o tema que tivessem interesse em estudar, definir o problema a investigar e adotar as estratégias necessárias para obtenção de dados, definição de hipóteses e para formulação, resolução e validação do modelo matemático. 8 Os trabalhos desenvolvidos, em sua maioria, estavam diretamente relacionados com a área de estudo e pesquisa dos alunos, a Química. É possível evidenciar esta afirmação observando os títulos dos trabalhos, os quais foram apresentados em seminários ao final do período de estudo: GT A - Análise da Matéria Orgânica de água de rio; GT B - Efeito da temperatura na solubilidade do Nitrato de Potássio em água; GT C - Farmacocinética Química; GT D - Estudo da variação da Turbidez no tratamento de água da Sanepar; GT E - Estudo da obesidade como fator de risco da Diabetes tipo 2; GT F - Crescimento de Orquídea; GT G - Caracterização de Cálcio nas águas do rio Limoeiro e GT H - Estudo da cinética de oxidação do ácido Málico por Vanádio em meio de ácido Sulfúrico. Abordaremos brevemente o trabalho desenvolvido pela equipe GT B, a fim de evidenciar elementos que consideramos relevantes quanto às relações entre Aprendizagem Significativa e a atividade de Modelagem Matemática. Esta equipe foi entrevistada pela professora após a conclusão do trabalho, deste modo, algumas informações foram fornecidas na entrevista, outras por meio do trabalho escrito e outras constam na ficha de acompanhamento, instrumento formulado pela professora para registrar a evolução do trabalho de cada equipe. O trabalho cujo título é “Efeito da temperatura na solubilidade do Nitrato de Potássio em Água” foi elaborado pelos alunos, aos quais denominaremos, B1, B2, B3 e B4. Para esse trabalho a equipe realizou experimentos de laboratório para obtenção de dados que permitissem estudar, em termos matemáticos, o efeito da temperatura na solubilidade do nitrato de potássio (KNO 3 ) em água. Os dados obtidos pela equipe são mostrados nas duas primeiras colunas da Tabela 1. Segundo a equipe, o experimento do grupo foi motivado e fundamentado em estudos realizados durante as aulas de Química Geral Experimental no ano anterior. Para eles o diferencial neste trabalho é a possibilidade de trabalhar com a ferramenta matemática e determinar por meio desta um modelo que permite ler a variação da solubilidade em qualquer tempo. Por meio da analise da curva de tendência dos dados e do conhecimento teórico a respeito do assunto a equipe levantou duas hipóteses: i) a taxa de solubilidade do sal (KNO 3 ) é proporcional à sua concentração, presente na solução aquosa em cada temperatura T; e, ii) o sal é solubilizado completamente, ou seja, não há corpo de fundo. 9 A equação diferencial dS = kS (T ) de variáveis separáveis é de simples dT solução e se mostrou adequada para o problema. Para a determinação dos parâmetros o grupo linearizou a expressão exponencial S (T ) = M .e kT e fez questão de comparar a regressão linear obtida pelo ajuste de curvas do Excel com os resultados calculados pelo método dos Mínimos Quadrados. Os valores fornecidos pelo S (T ) = 1, 09686.e0,0257T , modelo comparativamente com os dados experimentais estão na Tabela 1, onde podemos observar uma boa aproximação entre ambos, pois a margem de erro é muito pequena. Solubilidade Modelo 1 10 Temperatura (ºC) Tabela 1: Evolução de Solubilidade de Nitrato de Potássio Solubilida Temp de Modelo Erro (°C) (g/5mL S(T) (%) H 2 O) 1,1547 02 1,10 -4,97 1 1,6127 15 1,51 -6,80 7 2,0853 25 2,01 -3,75 8 2,3111 29 2,48 6,80 6 2,8387 37 3,02 6,00 2 3,5774 46 3,50 -2,21 5 4,7462 57 4,82 1,53 3 6,2968 68 6,12 -2,90 6 6,6289 70 6,90 3,92 8 7,9355 77 7,80 -1,74 4 9,0236 82 8,75 -3,13 7 8 6 4 2 0 0 20 40 60 80 100 Solubilidade (g/5mL H2O) Figura 1: Gráfico comparativo dos dados reais e modelo A equipe considerou que o modelo pode ser usado com confiabilidade para explicar, prever, projetar e decidir sobre o fenômeno em estudo. Segundo os alunos, através do modelo pode-se decidir a quantidade de sal que irá solubilizar em determinada temperatura (levando em consideração o volume de água) na realização 10 de um experimento. Quando a finalidade é estudar a solubilidade do sal no meio ambiente pede-se verificar se está em quantidade adequada para servir como fertilizante. Outra possibilidade é de identificar se as águas de determinada região estão com excesso de nitrato (NO 3 ), neste caso podem acarretar conseqüências à saúde, algumas das quais foi discutida pela turma ao final da apresentação. No decorrer dos trabalhos, em algumas situações as estratégias adotadas pela equipe conduziam ao insucesso e precisavam ser repensadas. Nestas situações os alunos recorriam à orientação das professoras que os auxiliavam a pensar em alternativas mais adequadas, ou procuravam meios alternativos. 6 Considerações Acreditamos que as características que emergem em um ambiente de Modelagem Matemática oportunizam a evidenciar os aspectos que consideramos indicativos de Aprendizagem Significativa, aos quais nos referimos no item 4. A atividade de aprendizagem realizada pela equipe GT B nos permite algumas considerações neste sentido. Um dos objetivos da disciplina de Cálculo e Geometria Analítica, de acordo com o Programa da Disciplina (2003) é desenvolver no estudante um conhecimento reflexivo e crítico acerca da solução de problemas que envolvem os conteúdos de Cálculo. Entendemos que este objetivo fica devidamente contemplado quando as atividades de aprendizagem são propostas visando uma aprendizagem significativa, em especial em um ambiente de modelagem. Percebemos por meio das afirmações dos estudantes e pela conduta dos mesmos em relação ao desenvolvimento do trabalho que tanto os aspectos motivacionais como os aspectos cognitivos foram evidenciados. Neste texto faremos algumas considerações em relação aos primeiros, porém uma discussão mais minuciosa pode ser encontrada em (BORSSOI, 2004). Os aspectos motivacionais podem ser ativados quando os estudantes são postos em contato com situações do contexto real, oportunizada pela atividade de Modelagem Matemática, que estimula o envolvimento e a participação ativa dos mesmos. 11 O grupo precisa decidir que problema estudar, como obter dados e informações para o trabalho e principalmente durante o desenvolvimento da modelagem quando, de posse das informações, precisa decidir como usá-las. Assim, deparam com a necessidade de adotar estratégias próprias. De acordo com Ausubel et al. (1980), a elaboração de estratégias próprias, especialmente em situações de ensino que colocam o aluno em contato com um contexto real, pode denotar se o conhecimento está sendo construído de forma significativa. O enfrentamento que inevitavelmente os alunos têm com os problemas da realidade e a aproximação dos problemas que estão fora da sala de aula com os conteúdos estudados os levam a repensar seus papéis enquanto alunos e suas responsabilidades com a própria aprendizagem. Para Bassanezi (2002) é necessário ver o estudante como um participante ativo do desenvolvimento do conteúdo e considera o fato de os alunos escolherem o tema de seu trabalho de grande importância, pois faz com que se sintam responsáveis pelo próprio aprendizado. Neste sentido tocamos no aspecto de aprendizagem extraconteúdo, que envolve também aprendizagem de atitudes, valores, e construção de conhecimentos não essencialmente relacionados com a matemática do problema estudado, mas que são essenciais para o entendimento da situação em estudo. Os alunos reconheceram que, entre outras coisas, aprenderam bastante sobre a própria Química ao investigarem os conhecimentos envolvidos em seus problemas. E atribuíram um valor expressivo à oportunidade de trabalhar em ambiente informatizado durante as aulas, ao mesmo tempo em que trabalhavam com a modelagem. Quanto a motivação para a aprendizagem sabemos que é uma atribuição idiossincrática e que nem todos reagem da mesma forma a uma atividade de aprendizagem, de modo que, o que é altamente estimulante para um estudante pode passar despercebido por outro. Porém, a experiência com o desenvolvimento desta proposta de ensino e aprendizagem nos mostrou que os estudantes, em geral, se mostram estimulados com as atividades. As atividades de aprendizagem compartilhadas como o trabalho com modelagem proporciona uma atmosfera muito propícia para a troca de significados, fato reconhecido tanto por professores quanto por alunos. Assim, as atividades compartilhadas podem contribuir com a aprendizagem de cada participante de forma diferenciada, mas têm uma importante função social de promover um espaço para discussões e troca de significados. 12 Nosso intento com a estruturação de uma proposta que considera a Modelagem matemática como uma estratégia se fundamentou na possibilidade de oferecer ao estudante condições para alcançar a Aprendizagem Significativa. Pudemos perceber indícios de que nossa opção é facilitadora dessa aprendizagem, pois as atividades de aprendizagem em ambiente de modelagem permitem emergir uma grande quantidade de conceitos matemáticos e extramatemáticos que proporcionam interações favoráveis à aprendizagem, mostrando-se bastante adequadas. Conforme destacamos inicialmente, a promoção de uma educação de fato significativa está muito relacionada com a disposição do professor para uma busca constante pelo aprimoramento de sua prática. Uma proposta de ensino que considera a Modelagem Matemática pode ser viabilizada em sala de aula de cursos regulares, porém, o que mencionamos neste texto é uma possibilidade dentre tantas outras que podem ser idealizadas a partir da busca de cada profissional. 7 Referências ALMEIDA, L. M. W. Introdução à Modelagem Matemática. Notas de aula. Mestrado em Ensino de Ciências e Educação Matemática. UEL. Londrina - PR, 2002. AUSUBEL, D. P; NOVAK, J. D. e HANESIAN, H. Psicologia Educacional. 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