ARRANJO PRODUTIVO LOCAL DO LEITE DO SUDESTE DO
PARÁ
Lívia Navegantes Alves*
1
INTRODUÇÃO
A produção de leite transformou-se numa importante atividade econômica no
Sudeste do Pará, constituindo-se hoje no segmento comercialmente mais expressivo para a
agricultura familiar. Essa produção vem aumentando nos últimos dez anos em
conformidade com o fortalecimento e expansão da agricultura familiar na região, que
ocorreu diante das pressões sociais pela regularização fundiária de terras da União ou de
domínio irregular, sob posse de levas de migrantes trazidos pelos grandes projetos, pelo
garimpo, pela abertura de estradas e pelas dificuldades de sobrevivência da família em
suas regiões de origem.
Essas pressões forçaram a implantação de políticas públicas ligadas à colonização e
à reforma agrária, referentes ao acesso ao crédito produtivo e à infra-estrutura básica, que
garantiram uma maior estabilização da agricultura familiar na região. Através da melhoria
da estrutura viária, a principal função comercial da pecuária, que era a venda de bezerros,
passou a sofrer a concorrência da venda do leite, especialmente para as áreas
circunvizinhas às cidades.
A possibilidade de expansão da atividade leiteira na região, plausível diante da
estabilização da agricultura familiar, atraiu vários laticínios que, com a melhoria das
estradas tinham condições para a aquisição da matéria-prima, mas, principalmente, para o
escoamento do produto processado, em condições de localização bastante vantajosa pela
confluência de três importantes rodovias: BR – 230 (a Transamazônica), a BR 222 e a PA
150. O fato de os laticínios poderem fazer a coleta do leite de pequenos produtores, em
áreas onde a comercialização a varejo seria impraticável pelas distâncias dos centros
consumidores, provocou uma rápida expansão espacial da atividade leiteira. Porém, este
incremento e expansão da produção de leite acarretam uma expressiva dependência da
indústria consumidora.
A possibilidade de sobrevivência das processadoras de leite instaladas na região é
de fundamental importância para a viabilidade da pecuária leiteira. Daí a relevância de
identificar essas indústrias, compreender suas dificuldades de funcionamento e apontar
políticas que possam favorecer sua consolidação na região. Diante do reconhecimento do
papel dos laticínios para a pequena produção leiteira e desta atividade para a economia
regional é que a ADA – Agência de Desenvolvimento da Amazônia - fomentou o presente
estudo.
2
OBJETIVOS
O objetivo geral desta pesquisa foi a realização do diagnóstico do Arranjo
Produtivo do Leite no Sudeste do Pará (APL Leite SE-PA), com ênfase nos laticínios
formais.
2.1
Objetivos específicos
- Identificar, localizar e caracterizar as indústrias formais de processamento de leite
instaladas na região Sudeste do Pará.
- Levantar as principais vantagens encontradas pelos laticínios no arranjo produtivo
do leite do Sudeste do Pará.
- Analisar as dificuldades dos laticínios para a manutenção e consolidação de suas
atividades na região.
- Subsidiar políticas públicas que possam apoiar o arranjo produtivo do leite no
Sudeste do Pará.
3
METODOLOGIA
O presente trabalho refere-se ao diagnóstico do Arranjo Produtivo do Leite no
Sudeste do Pará (APL Leite SE-PA), com ênfase nos laticínios formais que foram
identificados a partir do cadastro de RAIS (Registro de Atividades Industriais, do
Ministério do Trabalho), de informação do Sindicado das Indústrias de Laticínios do
Estado do Pará - Regional Sudeste do Pará – SINDLEITE e do SEBRAE (Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). A pesquisa foi realizada no período
de abril de 2005 a janeiro de 2006. Insere-se no âmbito do convênio ADA/UFPA para
estudos de APLs da Amazônia, e envolve a Rede de Pesquisa em Sistemas Produtivos e
Inovativos Locais – RedeSist, sediada no Instituto de Economia da UFRJ.
Na primeira parte do trabalho foram analisados os processos históricos
estruturantes da bacia leiteira do Sudeste do Pará e o contexto regional onde está inserida.
Para isto, partiu-se de estudos anteriores, levantamento de dados secundários sobre a
produção de leite e entrevistas semi-estruturadas com informantes de referência,
conhecedores da origem da atividade de processamento do leite na região. Desta forma,
foram entrevistados o presidente do SINDLEITE - regional Sudeste do Pará, um gerente
de laticínio que trabalha há mais de 10 anos na região, e um funcionário da ADEPARÁ –
Agencia de Defesa Sanitária do Estado do Pará.
Na segunda parte do estudo buscou-se identificar os agentes econômicos, políticos
e sociais envolvidos no processamento do leite, as relações existentes entre eles, e as
principais limitações para o desenvolvimento desta atividade.
Esta segunda parte teve como base o enfoque teórico-metodológico da RedeSist,
que conceitua os Arranjos Produtivos Locais como um conjunto de agentes envolvidos em
determinada atividade econômica, localizados em um mesmo território, mas sem
apresentarem uma significativa articulação entre si (LASTRES; CASSIOLATO, 2005). A
metodologia da RedeSist aqui utilizada compreendeu a aplicação de questionários e de
planilha de sistematização dos dados elaborados pela rede.
Diante da necessidade de entender o comportamento da bacia leiteira do Sudeste do
Pará, foi almejado um panorama mais amplo, para além das indústrias formais e das
frágeis estatísticas oficiais. Assim, tratou-se de identificar a importância da produção
regional do leite (quanto ao volume e número de produtores) e de seu processamento em
estabelecimentos informais. Este estudo foi realizado em paralelo ao projeto do APL Leite
SE-PA, mas com seu apoio e estreita articulação, e foi realizado por Sophie Chaxel,
2
estudante da Ecole Nationale Supérieure Agronomique de Montpellier – França, recebida e
orientada pela UFPA/NEAF/LASAT.
A área de estudo (Figura 1) compreendeu onze municípios da mesorregião Sudeste
do Pará, equivalente a 50.986 km², estando a maior parte dos laticínios localizados no
recentemente criado Território do Sudeste do Pará, nomenclatura definida pelo governo
federal, através da Secretaria de Desenvolvimento Territorial, do Ministério do
Desenvolvimento Agrário, como área prioritária para investimentos da federação, em face
de sua importância estratégica para o desenvolvimento regional. Além dos sete municípios
do Território do Sudeste do Pará: Marabá, Itupiranga, São João do Araguaia, São
Domingos do Araguaia, Eldorado dos Carajás, Parauaupebas e Nova Ipixuna; foram
também coletadas informações em Jacundá, Rondon do Pará, Curionópolis e Canaã dos
Carajás.
De acordo com as meso-regiões geográficas definidas pelo IBGE, o Sudeste do
estado do Pára, compreende uma área de 291.680 km², envolvendo 38 municípios. Não
foram estudados todos os municípios incluídos nesta meso-região do Pará, pois além da
impossibilidade de estudar todos os laticínios formais nesta amplitude de área, com a
metodologia, o tempo e os recursos disponíveis, a proposta era de identificar o espaço
geográfico de articulação dos laticínios situados em torno de Marabá, tendo esta sede
municipal como principal referencia para suas trasações comerciais e interinstitucionais.
A amplitude de escala da pesquisa foi determinada pela forma de atuação dos
laticínios, que disseminam a captação do leite muito além dos limites municipais onde
estão instalados, influenciando a atividade leiteira a nível territorial, e estabelecendo
relações de concorrência por fornecedores, ou de cooperação com empresas localizadas em
municípios vizinhos. A primeira ação deste estudo foi, portanto, de identificar os
municípios com mais forte relação com as indústrias lácteas localizadas no entorno de
Marabá. Esta delimitação foi realizada previamente através das indicações feitas pelo
presidente do Sindicado das Indústrias de Laticínios, através de entrevista, e confirmada
pelos questionários aplicados a todos os laticínios formais.
Figura 1: Mapa de localização da área de estudo.
3
4
A PROBLEMÁTICA DA PECUÁRIA NA REGIÃO E AS ALTERNATIVAS
APONTADAS PELA PRODUÇÃO LEITEIRA
O Sudeste do Pará é uma região de fronteira agrária com forte tradição pecuária,
estimulada, principalmente, pela política de Incentivos Fiscais a grandes projetos
agropecuários. Ao mesmo tempo, o processo de colonização espontâneo do Sudeste do
Pará, que, segundo Hébette (2004), acarretou na expansão irrestrita do latifúndio nesta
região, por falta de garantias efetivas para os agricultores pioneiros, favoreceu o
predomínio das fazendas de gado. Por outro lado, a garantia que a implantação das
pastagens traz para a posse e valorização da terra (MUCHAGATA; BROWN, 1999) era
importante em uma região de instabilidade fundiária.
Mesmo em condições adversas, parte dos agricultores familiares pioneiros
conseguiu permanecer na região e vem conquistando importantes espaços. A partir de
meados dos anos 1990 inicia-se um processo de dinamização da implantação das políticas
de reforma agrária na região, face às pressões sociais e aos insustentáveis conflitos
fundiários.
Hoje no Sul e Sudeste do Pará existem 443 projetos de assentamento e, segundo
estudos da USP/MDA/FAO (SPAROVEK, 2003), o Pará detinha 23,3% das áreas de
assentamento do Brasil, com 73,6% destes assentamentos localizados no Sul e Sudeste do
Pará. A criação dos assentamentos trouxe consigo uma série de políticas públicas, como
construção de estradas vicinais, habitação, demarcação dos lotes e acesso ao crédito
produtivo subsidiado, o PRONAF.
Apesar de ainda existir uma precária condição quanto à infra-estrutura nesta região,
principalmente com relação às estradas e à eletrificação rural, percebe-se grandes avanços,
de forma que o contexto da região é outro, muito mais favorável à estabilização da
agricultura familiar.
Porém, a pecuária na região permanece forte. Vários aspectos complexificam a
análise desta realidade. Além dos fatores históricos acima referidos, que estruturaram um
sistema de produção regional baseado na pecuária, de forma que muitos assentamentos já
foram estabelecidos em áreas de pastagens, em antigas fazendas. Temos também outros
fatores que despertam o interesse pela pecuária, mesmo em agricultores familiares,
Muchagata e Brown (1999) destacam motivos como: flexibilidade de mão-de-obra, baixo
risco climático, produção dessazonada; Veiga et al (2001) apontam a remuneração para
cobrir as necessidades diárias da familia, quando a pecuária é do tipo leiteira.
Por outro lado, nas regiões de fronteira agrícola é comum o ciclo de substituição da
vegetação nativa por lavouras de subsistência e posteriormente por pastagens, além da
característica particular das frentes de migração destas regiões, que, originárias do Norte
de Goiás e do sertão Nordestino, trouxeram na bagagem uma forte tradição pecuária (DE
REYNAL et al., 1996).
O fortalecimento da agricultura familiar e a melhoria da infra-estrutura
possibilitaram o incremento da produção de leite na região, uma vez que, os agricultores
familiares que tiveram acesso às estradas, e que possuíam um rebanho mestiço,
4
começaram a explorar comercialmente o leite, diante das possibilidades de escoamento da
produção.
A possibilidade de expansão da produção leiteira e a melhoria da estrutura viária
atraíram a instalação de vários laticínios para a região, também motivados pela busca de
novas regiões produtoras de leite, face ao declínio da produção em regiões tradicionais, a
partir do início dos anos 90. Este prejuízo na produção de leite dos estados do centro-sul
do país ocorreu devido à abertura do mercado nacional que provocou a importação de
produtos subsidiados pelos países de origem, o que levou à queda do preço do leite pago
ao produtor. Os laticínios impulsionaram ainda mais a atividade leiteira na região. Sem
eles o desenvolvimento da produção leiteira não é possível, em vista da fragilidade da
matéria-prima (POCCARD-CHAPUIS, 2004) e da demanda por produtos elaborados
.
Atribui-se como fatores propulsores da implantação de um parque industrial de
processamento de leite em torno de Marabá a redução do ICMS incidente sobre os
produtos industrializados de origem láctea (redução de 12% para 2%) e a melhoria da
qualidade das estradas, inclusive com o asfaltamento da BR-222, que liga Marabá à BR316, conhecida como Belém-Brasília. Todos estes fatos ocorreram no final dos anos 1990.
As transformações dos sistemas de produção, necessárias para atender as
exigências da criação de bovinos leiteiros revelam maiores possibilidades de
sustentabilidade da pecuária e de sua inter-relação com outras atividades produtivas. A
pecuária leiteira, em contraposição com a de corte, apresenta menor requerimento de área,
porém com maiores exigências nutricionais, sanitárias, bio-climáticas, infra-estruturais, e
de utilização de mão-de-obra, incompatíveis com os sistemas de criação extensivos. O
menor requerimento em área poderia frear a pressão sobre a mata e, aliado às necessidades
de substituição de práticas comuns aos sistemas extensivos, como a queimada das
pastagens e o monocultivo de determinadas gramíneas, poderia proporcionar a
diversificação dos sistemas de produção, através da introdução de cultivos perenes em
consorciação com o pasto ou em sua contigüidade. Em decorrência, a atividade leiteira
torna-se mais capaz de superar os problemas de degradação das pastagens que, em
conjunto com o desmatamento são os principais problemas ambientais da região.
Diante da diminuição da produção das bacias leiteiras mais tradicionais, localizadas
nos estados do sudeste do país, a partir de 1990 (POCCARD-CHAPUIS, 2004), e do
avanço da fronteira agrícola na região Norte ocorreu um grande aumento da produção de
leite em todo o Norte do Brasil. Uma vez que esta região apresenta vantagens
comparativamente grandes para a pecuária leiteira, tendo-se alta disponibilidade de
pastagens, baixo custo da mão-de-obra, terras mais baratas e clima tropical quente úmido
(TOURRAND et al, 1997), que favorece a produção forrageira.
Os dados do IBGE (Pesquisa da Pecuária Municipal) demonstram um aumento de
88% da produção de leite no Norte do país no período de 1999 a 2003, contra uma média
de crescimento da produção brasileira da ordem de 41,9%, no mesmo período. Segundo
estes mesmos dados, dois estados se situavam no topo da produção no Norte: o Pará com a
maior produção de leite no ano de 2003 e Rondônia maior produtor em 2002. Estes dois
estados detinham respectivamente 39% e 37,3% da produção total da região Norte em
2003. Apesar da importancia regional do Pará na produção de leite, nesta época, segundo o
IBGE, este estado detinha apenas 2,63% da produção nacional. Com relação à distribuição
interna da produção do Pará, a mesorregião do Sudeste é de longe a maior produtora,
conforme mostra o Grafico 1.
5
Gráfico1: Percentual da produção de leite das meso-regiões do Sudeste do Pará, em 2003.
4,40%
1,90%
7,20%
0,50%
6,20%
Baixo Amazonas
Marajo
Metropolitana de Belém
Nordeste Paraense
Sudeste do Pará
79,6%
Sudoeste do Pará
Fonte: IBGE – Pesquisa da pecuária municipal. – Sistematização dos autores
Especificamente nos municípios da meso-região Sudeste que foram estudados o
crescimento da produção de leite sofreu um grande aumento (Gráfico 2), em média 389%
de 2001 a 2004, ocorrendo crescimento máximo de 787% em Jacundá (IBGE- Pesquisa da
Pecuária Municipal). Destaca-se porém, a possibilidade de alta margem de erro por se
tratar de estimativas e não de censo, porém a repetição anual da pesquisa com mesma
base metodológica diminui o erro quanto à evolução da produção.
Gráfico 2 : Evolução da produção de leite em alguns municípios do Sudeste do Pará
Lts /ano
20.000.000
16.000.000
12.000.000
8.000.000
4.000.000
2002
2003
os
D
om
in
g
po
li s
C
ur
io
nó
pe
ba
s
P
ar
au
a
M
ar
ab
á
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xu
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N
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2004
S
ão
2001
C
an
aã
E
ld
or
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o
a
Ja
cu
nd
Itu
pi
r
an
ga
0
Fonte: IBGE – Pesquisa da pecuária municipal – Sistematização dos autores
5
OS LATICÍNIOS DO SUDESTE DO PARÁ
5.1
Uma bacia leiteira em construção
Existem atualmente quatorze laticínios formalmente registrados no Sudeste do Pará,
todos eles são pequenas e microempresas, com uma proporção ligeiramente superior das
microempresas (57,1%). Somente a metade das pequenas empresas é coligada a algum
6
grupo, todos os outros laticínios da região são independentes. Nenhuma indústria declarou
ser subcontratada ou subcontratante de atividades de outras empresas.
Apenas estes dados já antecipam a hipótese de instabilidade e de delimitação de um
a fase inicial de construção de uma bacia leiteira.
Neste sentido, constata-se também que o processamento do leite no Sudeste do Pará
é bastante recente como atividade industrial formalizada. O pioneiro nesta atividade se
instalou em 1991 em Curionópolis. Porém, só existiam dois laticínios legalizados nesta
região em 1995, ambos de pequeno porte. Portanto, ou não haviam microempresas formais
de processamento do leite até 1995 no arranjo do sudeste do Pará, ou elas não se
mantiveram ao longo dos anos. A grande maioria dos laticínios (85%) se instalou na região
a partir de 1996, e quase a metade das indústrias existentes hoje se estabeleceu a partir de
2001, conforme está demonstrado no Gráfico 2.
N˚de Laticínios
Gráfico 3: Períodos de criação dos laticínios no Sudeste do Pará
7
6
5
4
3
2
1
0
1991-1995
1996-2000
2001-2005
Pe ríodos de cria çã o
Fonte: pesquisa de campo
O período de maior crescimento do número de laticínios na região corresponde ao
período de dinamização das políticas públicas, especialmente daquelas ligadas à reforma
agrária, que ocorreu diante das pressões internas e externas pela diminuição dos conflitos
agrários através da regularização fundiária, tendo como marco o massacre de Eldorado dos
Carajás, em 1996. A partir daí foi criada a Superintendência do INCRA de Marabá, em
1997, o que intensificou a criação de assentamentos e a implementação de políticas de
apoio à consolidação destes, graças à dotação orçamentária própria a nova
superintendência e da autonomia com a capital (ALVES et al, 2004). O apoio do governo
aos assentamentos é materializado por meio de melhorias na infra-estrutura, assistência
técnica e crédito produtivo subsidiado. Portanto, criar assentamentos significa aumentar a
infra-estrutura, principalmente viária, no caso do Sudeste do Pará, e o acesso à assistência
técnica e ao crédito produtivo. Estas políticas acabaram favorecendo a atividade leiteira na
região, o que atraiu a instalação dos laticínios
A evolução do número de empregados e do faturamento dos laticínios do sudeste
do Pará também demonstram o crescimento da atividade leiteira. A quantidade de pessoas
empregadas cresceu 85% desde a fundação das empresas até o segundo semestre de 2005,
quando foi realizada a pesquisa, saltando de um efetivo de 192 para 355 pessoas ocupadas,
considerando-se o total das pequenas e microempresas. Porém nestes números não se
considerou o emprego gerado pelo transporte do leite, que é realizado por pequenos
proprietários de caminhões ou camionetes, e nem pelos demais empregos indiretos. Para
esta avaliação o aumento do faturamento pode nos fornecer maiores pistas, pois ele
implica em maior movimentação de matéria-prima.
7
Os faturamentos das empresas apresentaram significativo aumento, porém, estes
dados podem não ter a devida representatividade uma vez que somente três indústrias
aceitaram informar seus faturamentos, e só duas apontaram a evolução deste indicador.
Mesmo assim, é importante observar a perspectiva de crescimento do faturamento, uma
microempresa apresentou incremento de 66% ao ano no faturamento, enquanto que uma
pequena empresa só conseguiu um aumento de 11% ao ano.
Outro indicador de crescimento da bacia leiteira é a produção de leite, que segundo
os dados do IBGE (Pesquisa da Pecuária Municipal) vem aumentando com grande
intensidade, conforme foi demonstrado anteriormente. Quando este crescimento é
comparado ao restante do país pode-se ter a devida impressão de sua importância. Em um
período de dez anos, de 1994 a 2003, o crescimento da produção leiteira brasileira foi de
37%, contra um incremento de 173,9% na média de todos os municípios da mesorregião
do Sudeste do Pará, o sexto maior crescimento por mesorregião do Brasil.
5.2
Perfil dos sócios fundadores
Os sócios fundadores das indústrias de laticínios são originários de várias regiões
do Brasil, principalmente do Sudeste. Não foi encontrado nenhum fundador nascido na
região do arranjo ou mesmo no Pará, por esta atividade não ter nenhuma tradição no estado
e porque no sudeste do Pará, por ser uma região de fronteira, grande parte da população é
originária de outros estados. Os sócios fundadores que vieram do Sudeste, são
principalmente paulistas e mineiros, mas existem também proprietários de laticínios
oriundos do Nordeste. A maior parte dos pequenos laticínios é de propriedade de
nordestinos, já a maioria das microempresas, são propriedades de mineiros e paulistas.
Merece destaque o fato de que somente 15% dos proprietários tinham alguma
experiência anterior com a atividade de processamento do leite, e que 75% não tinham
experiência alguma com a atividade empresarial. O que por um lado mostra determinada
habilidade de visualizar e buscar oportunidades nas circunstâncias onde se encontram,
mas, por outro lado, pode demonstrar algum risco para a atividade por falta de experiência
anterior. Mas este arrojo e pioneirismo também são comuns em regiões de fronteira.
A metade dos sócios fundadores das indústrias de laticínios do Sudeste do Pará
estava na faixa etária entre 31 e 40 anos na época de criação das indústrias. De acordo com
o gráfico abaixo, percebe-se um domínio do sexo masculino nos fundadores das empresas
pesquisadas.
Gráfico 4: Sexo e faixa etária dos sócios fundadores dos laticínios do Sudeste do Pará
7%
21%
79%
Masculino
Feminino
43%
50%
31-40anos
41-50 anos
acima de 50 anos
Fonte: Pesquisa de campo
8
Quanto à escolaridade, os sócios fundadores das empresas de maior porte possuem
uma educação formal mais completa, porém, mesmo nestas empresas a formação
universitária é pequena, menor do que a média nacional. Outro destaque se dá é a alta
ocorrência de sócios com baixa escolaridade nas microempresas (Tabela 1).
Tabela 1: Escolaridade dos sócios fundadores das indústrias de leite estudadas.
4. Escolaridade (%)
4.1. Analfabeto
4.2. Ensino Fundamental Incompleto
4.3. Ensino Fundamental Completo
4.4. Ensino Médio Incompleto
4.5. Ensino Médio Completo
4.6. Superior Incompleto
4.7. Superior Completo
4.8. Pós-Graduação
Total
Micro empresa
0,0%
25,0%
12,5%
25,0%
37,5%
0,0%
0,0%
0,0%
100,0%
Pequena empresa
0,0%
0,0%
0,0%
16,7%
50,0%
16,7%
16,7%
0,0%
100,0%
Fonte: Pesquisa de campo
5.3
Localização: uma concentração em Marabá
Mais da metade (57%) das indústrias da região está localizada em Marabá. Nos
outros municípios onde existem laticínios formais eles estão isolados, com exceção de
Jacundá, onde existem duas empresas legalizadas, conforme apresentado na Figura 2. A
proximidade e centralidade regional quanto a localização são estratégias importantes para a
estruturação das indústrias. A proximidade entre elas pode ocasionar, ao mesmo tempo,
uma concorrência por fornecedores de matéria-prima, como também uma articulação entre
as indústrias. A concentração que ocorre em Marabá é explicada pela centralidade
regional deste município e por sua estrutura urbana e viária, muito menos do que por sua
proporção quanto à produção de leite, comparada aos municípios vizinhos (CHAXEL,
2005).
9
Figura 2: Mapa de localização dos laticínios formais do Sudeste do Pará.
Estudos realizados com o apoio deste projeto demonstram que Marabá é
apenas o quarto maior município fornecedor de matéria-prima para os laticínios do Sudeste
do Pará, estando atrás de Eldorado dos Carajás, Jacundá e Canaã dos Carajás (CHAXEL,
2005), conforme demonstrado na tabela 2. A produção de leite de Marabá só corresponde a
11,2% da produção dos municípios estudados, apesar da importância econômica e do
tamanho deste município, correspondendo a 29,6% da área total dos municípios do arranjo.
Contudo, a disposição espacial deste município, com grande superfície dispersa em direção
ao Oeste, região do Pará com melhor preservação florestal e com menor infra-estrutura,
dificulta o escoamento do leite. Diante disto, na região Oeste de Marabá poderiam ser
estimuladas atividades mais compatíveis com a preservação ambiental do que a pecuária.
Neste município, como nos demais, esta atividade deveria ser incentivada apenas em locais
onde as pastagens já estão instaladas.
Os três municípios com maior produção de leite do arranjo têm uma superfície de
tamanho intermediária (Tabela 2), entre os maiores municípios da região (Marabá,
seguido de Rondon, Itupiranga e Parauapebas) e aqueles de pequeno porte (como Abel
Figueiredo, São João e São Domingos do Araguaia). Isto se deve ao fato de os municípios
de maior porte apresentarem maiores problemas com o escoamento da produção, face as
grandes distancias e às dificuldades de construção e manutenção de estradas e da
desproporção em área e em número de produtores de leite dos municípios de menor
tamanho. Existe uma grande vantagem para o escoamento quando as rodovias cortam
proporcionalmente todo o município, como ocorre em Eldorado dos Carajás e São
Domingos do Araguaia, e em grande parte de Jacundá (Figura 2).
10
TABELA 2: Produção anual de leite e tamanho dos municípios estudados.
Município
Eldorado
Jacundá
Canãa dos Carajas
Marabá
Bom Jesus
Nova Ipixuna
São Domingos
Rondon
Itupiranga
Abel Figueiredo
Curionopolis
São João
Parauepebas
TOTAL
PRODUÇÃO
% DA PRODUÇÃO
ÁREA
ANUAL ( mil l/ano)
22908
20382
18137
15557
14179
12625
12018
8715
5954
3620
3385
1220
657
139362
DO APL
16,4
14,6
13
11,2
10,2
9
8,6
6,3
4,3
2,6
2,4
0,9
0,5
100
(km²)
2957
2008
3147
15092
2816
1600
1392
8247
7880
614
2369
1280
7008
50.986
Fonte: Chaxel, 2005.
Existem exceções relativas à geografia dos municípios que fazem com que eles se
diferenciem quanto à produção de leite esperada em relação a seu tamanho. Um exemplo é
Parauapebas que apesar de ser o quarto maior município do arranjo apresenta a menor
proporção de produção de leite, o que é explicado pela elevada ocorrência de áreas de
conservação e terras indígenas em sua superfície, correspondendo a mais de 75% do total.
Outro caso é São Domingos do Araguaia, que apesar de uma pequena superfície apresenta
uma produção de leite proporcionalmente grande.
Muitos municípios que constam na tabela acima não possuem laticínios
formalizados, no entanto são importantes produtores de leite e fornecedores para as
indústrias. Isto se explica por duas razões:
1) As indústrias fazem captação de leite muito além dos limites municipais onde estão
instaladas. Em trajetos e quantidades menores esta captação é feita sem
resfriamento, mas quando as quantidades são maiores, acima de 10.000 litros/dia,
os laticínios instalam postos de resfriamento, com um ou mais tanques e certa
estrutura administrativa, ou instalam tanques isolados, geralmente bem implantados
em localidades de alta produção leiteira situadas na zona rural.
2) Existe uma quantidade bastante importante de indústrias informais de
processamento de leite no Sudeste do Pará. Chaxel (2005) identificou 63 indústrias
informais, chamadas de queijarias, que possuem uma capacidade de processamento
diário de leite bem menor (no máximo 9.000 l/dia) do que a dos laticínios formais
(com capacidade média de processamento de 65.500 l/dia). Segundo a mesma
autora, as queijarias podem estar localizadas tanto em áreas centrais do município e
da região, portanto no mesmo espaço das indústrias formais, como em regiões
marginais, onde os laticínios não instalam nem mesmo postos de resfriamento, em
vista das importantes dificuldades de acesso, como é o caso do Oeste de Marabá,
conhecido localmente como região das Quatro Bocas.
Muitas queijarias da região não se formalizam pelas dificuldades de cumprirem a
legislação sanitária, que para serem atendidas requerem importantes investimentos na
instalação física e estruturação das indústrias. E, como a fiscalização sanitária é
11
historicamente deficiente existem grandes possibilidades de se trabalhar na informalidade,
principalmente com o processamento e comercialização em escala reduzida. Contudo,
durante os levantamentos de campo deste trabalho havia uma forte campanha de
fiscalização em curso pela Defesa Agropecuária do Estado do Pará - ADEPARÁ, o que
induziu o fechamento de sete queijarias e acarretou grande desconfiança com relação a esta
pesquisa.
Este movimento de controle do estado tende a se acirrar já que a legislação
sanitária brasileira referente à produção, transporte e industrialização vem sofrendo fortes
transformações no sentido da melhoria da qualidade, em conformidade com as normas
internacionais e em vista da exportação. Mesmo os laticínios formais têm dificuldades de
cumprir estas normas. Um dos motivos é que ela se refere à qualidade da matéria-prima
que é muito baixa nesta região, devido à precariedade das instalações produtivas. Outra
dificuldade de cumprimento da legislação, por todos os tipos de laticínios no Sudeste do
Pará, é o resfriamento para transporte, através do uso de caminhões com tanques
isotérmicos, que será obrigatório a partir de meados de 2007 (conforme prazo estabelecido
pelo Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal – DIPOE, para o
cumprimento da Instrução Normativa 51, na região Norte). O transporte de leite resfriado
é praticado de forma incipiente na região, sendo o padrão dominante de transporte aquele
em recipientes plásticos, sujeitos a elevado grau de contaminação bacteriológico. Por outro
lado, o resfriamento só será possível se for superada a quase absoluta falta de energia
elétrica na zona rural do Sudeste do Pará.
5.3.1 Vantagens relativas a localização
Conforme demonstrado, a proximidade de fornecedores de matéria prima não é
uma vantagem tão importante quanto à localização das indústrias no Arranjo, já que elas
podem lançar mão da estratégia de irradiação da captação através de postos e tanques de
resfriamento, o que também é confirmado pelos dados da Tabela 3.
TABELA 3: Vantagens da localização do laticínio no arranjo, por tipo de empresa.
Externalidades
1. Disponibilidade de mão-de-obra
qualificada
2. Baixo custo da mão-de-obra
3. Proximidade com os
fornecedores de insumos e
matéria prima
4. Proximidade com os
clientes/consumidores
5. Infra-estrutura física (energia,
transporte, comunicações)
6. Proximidade com produtores de
equipamentos
7. Disponibilidade de serviços
técnicos especializados
8. Existência de programas de
apoio e promoção
9. Proximidade com universidades
Micro
Pequena
Nula Baixa Média Alta Índice* Nula Baixa Média Alta Índice*
1
4
1
2
1
4
1
0
0,48
0,30
12,5% 50,0% 12,5% 25,0%
16,7% 66,7% 16,7% 0,0%
0
2
4
2
0
1
4
1
0,63
0,62
0,0% 25,0% 50,0% 25,0%
0,0% 16,7% 66,7% 16,7%
1
4
2
1
1
0
4
1
0,43
0,57
12,5%
0
0,0%
0
0,0%
4
50,0%
2
25,0%
3
37,5%
3
50,0%
3
37,5%
3
37,5%
4
50,0%
5
62,5%
2
25,0%
3
25,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
1
12,5%
0
12,5%
5
62,5%
5
62,5%
0
0,0%
1
12,5%
2
25,0%
2
0,74
0,74
0,15
0,31
0,40
0,36
16,7%
3
50,0%
0
0,0%
4
66,7%
4
66,7%
5
83,3%
4
0,0%
1
16,7%
4
66,7%
2
33,3%
1
16,7%
0
0,0%
1
66,7%
2
33,3%
2
33,3%
0
0,0%
1
16,7%
1
16,7%
1
16,7%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,25
0,40
0,10
0,15
0,10
0,15
12
e centros de pesquisa
10. Outra
37,5% 37,5% 0,0% 25,0%
66,7% 16,7% 16,7% 0,0%
8
0
0
0
6
0
0
0
0,00
100,0% 0,0% 0,0% 0,0%
100,0% 0,0% 0,0% 0,0%
*Índice = (0*Nº Nulas + 0,3*Nº Baixas + 0,6*Nº Médias + Nº Altas) / (Nº Empresas no Segmento)
Fonte: Pesquisa de campo
0,00
Já a proximidade de infra-estrutura fixa (energia, transporte, comunicação) foi uma
elevada vantagem aduzida à localização no arranjo para a maioria das microempresas
(62,5%, Tabela 3). Todas as microempresas que atribuíram alta vantagem da localização
quanto à presença de infra-estrutura estão localizadas em Marabá. Já as pequenas empresas
não imputaram grande proveito a este fator. De uma maneira geral, as pequenas empresas
encontram poucas vantagens quanto à localização no arranjo. Isto explica o fato de seis das
oito microempresas (75%) estarem localizadas em Marabá, contra apenas duas (25%) das
seis pequenas. O que pode manifestar a maior possibilidade de empresas maiores
superarem limites infra-estruturais.
Tanto micro como pequenas empresas de processamento do leite atribuíram ao
baixo custo de mão-de-obra uma vantagem apenas relativa quanto a localização, só 25%
das micro e 16,7% das pequenas empresas (Tabela 3) atribuíram alta vantagem para este
fator. Mesmo assim, esta foi a maior vantagem da localização indicada pelas pequenas
empresas. Esperava-se atribuição de maior importância para este fator pelos laticínios, uma
vez que vários autores atribuíram ao baixo custo de mão-de-obra um atrativo para a
instalação de laticínios na região (TOURRAND et al, 1997 ; MACHADO, 2000;
POCCARD-CHAPUIS et al, 2001)
No Sudeste do Pará o baixo custo da mão-de-obra pode estar sendo equilibrado
pela baixa qualificação da mesma, uma vez que mais da metade dos entrevistados
relataram a baixa qualificação da mão-de-obra como um sério problema para o arranjo
local. Da mesma forma, o arranjo oferece dificuldades quanto à disponibilidade de
serviços técnicos especializados, e somente duas indústrias, ambas localizadas em Marabá,
atribuíram alta vantagem quanto à localização para este critério.
Mesmo havendo duas universidades públicas em funcionamento no arranjo, a
UFPA (Universidade Federal do Pará) e a UEPA (Universidade do Estado do Pará),
inclusive com o curso de tecnologia de produtos, em funcionamento no campus da
universidade do estado situado em Marabá, isto não está se traduzindo em vantagem
quanto à localização no arranjo, ao contrário. Possivelmente porque, pelo porte das
empresas do arranjo, elas apresentam uma demanda pequena de pessoal especializado em
nível superior, a demanda por formação de pessoal deve estar mais em nível técnico.
A baixa vantagem encontrada na localização próxima a universidades e centros de
pesquisa pode ter sido influenciada pela inexistência de centros especializados em pesquisa
no arranjo. Só as universidades poderiam suprir esta lacuna, porém, como suas estruturas
de pesquisa são precárias não poderiam atender as demandas dos laticínios.
Esta ausência de instituições de pesquisa é incompatível com a proporção estadual
da produção agropecuária do sudeste do Pará. Esta vem sendo uma importante restrição ao
desenvolvimento da produtividade regional. E pode ser um entrave ainda maior para a
estruturação da bacia leiteira do sudeste do Pará, especialmente diante das novas normas
sanitárias de controle de qualidade do leite, que necessitam de laboratórios públicos para
fiscalizarem seu cumprimento.
13
Como no Sudeste do Pará não existem produtores de equipamentos para laticínios,
sempre foram atribuídas baixas ou nulas vantagens para este fator quanto à localização.
Ainda quanto à vantagem da localização no arranjo a proximidade de
clientes/consumidores foi uma das maiores vantagens encontradas para as microempresas,
ao contrário das pequenas que demonstram pouco grau de importância quanto a este
aspecto. Isto porque são as menores empresas que mais vendem seu produto a nível local,
37,5% das microempresas vendem todo seu produto nos municípios do arranjo. Enquanto
que as pequenas empresas vendem no máximo 20% do produto industrializado no arranjo
(com uma média de 9% das vendas no arranjo) e outra pequena parte é vendida nos demais
municípios do estado, mas o principal de sua produção é vendida em outros estados do
país. Nenhum laticínio do arranjo exporta produtos para o exterior.
As vendas dos laticínios no município do arranjo vêm aumentando
progressivamente, conforme demonstra o gráfico abaixo, para os quais foram computados
apenas os dados das empresas que estavam no ramo no ano 2000, ou antes.
Proporcionalmente, as vendas das pequenas empresas no arranjo aumentaram mais do que
aquelas das microempresas. As vendas em outras regiões do estado cresceram em menor
proporção. Ao contrário, as vendas destinadas a outros estados do país apresentaram
decréscimo, porém continuam sendo o principal destino das produções dos laticínios do
arranjo.
Gráfico 5: Evolução do destino das vendas das indústrias do Sudeste do Pará
2000
51,43%
2003
30,71%
17,86%
50,71%
2004
31,43%
17,86%
35%
45%
20%
Municipios do Arranjo
Municipios do Arranjo
Es tado do Pará
Es tado do Pará
Municipios do Arranjo
Es tado do Pará
Bras il
Bras il
Bras il
FONTE: Pesquisa de campo
Este aumento é atribuído muito mais ao aumento potencial de consumo local do
que ao crescimento populacional dos municípios estudados, que foi de 6,5% entre 2002 e
2004, segundo dados do IBGE. Já o crescimento das vendas no arranjo foi da ordem de
4,3% entre os anos de 2000 a 2004, na média das micro e pequenas empresas. Porém, nem
toda a população tem acesso a produtos lácteos.
Para ensaiar uma demanda aparente de leite e seus produtos nos municípios do
arranjo foram usados os dados de população urbana do IBGE, confrontados com a
recomendação de consumo de leite por faixa etária do ministério da saúde. Utilizou-se
somente os dados da população urbana por considerar que grande parte da população rural
ou produz o leite que consome, ou o compra de vizinhos. Mas deve-se ressaltar que esta é
uma estimativa grosseira da demanda.
Tabela 4: Demanda de consumo de leite nos municípios do APL SE-PA – 2.000
14
Recomendação
(litros/ano)
População urbana no
APL2.000-2001
(habitantes)
Demanda
( l/ano)
146
56.868
8.302.728
256
62.855
16.090.880
219
167.614
36.707.466
219
11.972
2.621.868
Total
Fonte: Ministério da Saúde e IBGE
299.309
61.101.074
Faixa Etária
Crianças
(até 1 ano)
Adolescentes
(10-19 anos)
Adultos
(20-60 anos)
Idosos
( + de 70 anos)
Para obter-se a proporção de leite que deveria ser vendida no arranjo para suprir
sua demanda confrontaram-se os dados da tabela três com aqueles da Tabela 1, que
estimou em 139,362 milhões de litros de leite processados por ano pelas indústrias do
arranjo. Assim as indústrias precisariam vender localmente 43,84% de seus produtos.
Mesmo considerando que parte dos produtos lácteos consumidos localmente são oriundos
de outros estados, e que o hábito arraigado de consumo de leite em pó é revertido com
dificuldade, ainda assim, se cogita uma possibilidade de aumento discreto das vendas dos
laticínios nos municípios do arranjo.
Contudo, os dados sugerem que as empresas possuem mercados bem estabelecidos,
e declararam não ter dificuldades na comercialização de seus produtos, não existindo
grandes alterações quanto a este aspecto.
A grande disputa dos laticínios do arranjo é por fornecedores de leite,
principalmente aqueles que tenham produto de boa qualidade e que estejam concentrados
em determinados locais de fácil acesso. Esta afirmativa foi expressa nas entrevistas e
confirmada pelos dados de Chaxel (2005), que demonstram uma média de ociosidade dos
laticínios de 49,6% (Tabela 5). Ou seja, as indústrias estão preparadas para dobrar sua
produção, o que lhes falta é o fornecimento de matéria-prima, conforme apresentado na
tabela 4. Também, possivelmente não exista uma desproporção tão importante na produção
de leite, o problema está no transporte, principalmente em regiões de difícil acesso, em
vista da precariedade de muitas estradas vicinais.
TABELA 5: Níveis de funcionamento e capacidade ociosa de laticínios do Sudeste do
Pará.
Nome do Laticínio
R.L. de Castro Laticínios (Ouro Bom)
LEBOM Ind. de Laticínio Ltda
PARALEITE In. e Com. de Laticínios
M.C. Derivados do Leite Ltda (Marilia)
Ind. e Com. De Laticínios Canaã Ltda
Laticínio Eldorado dos Carajás
Industria e Comércio de Laticínio Ina
Laticínio Mineiro Ltda
Laticínio Jk
Capacidade
máxima
(l/dia)
100.000
80.000
80.000
70.000
40.000
80.000
45.000
30.000
7.000
Nível de
funcionamento
atual (l/dia)
60.000
55.000
50.000
30.000
27.500
16.000
12.000
11.500
3.500
Capacidade
ociosa
(%)
40%
31,2%
37,5%
57,1%
31,2%
80%
73,3%
61,7%
50%
15
Laticinio Rio Preto
Coelho & Handen Ltda Me (Usbel)
Ind. e Com. De Laticínios Kennyo Ltda
TOTAL
7.000
4.000
2.000
545.000
2.500
1.000
1.300
270.300
64,3%
75%
35%
49,6%
Fonte: Chaxel (2005).
A disputa por matéria-prima na verdade é uma disputa por espaço, e ele é que
define a bacia leiteira. Ela pode se expandir aos limites das possibilidades de acesso e dos
custos de transporte, que podem ser significativamente reduzidos pela implantação de
postos de captação e tanques de resfriamento, que garantem o transporte de grandes
quantidades de produto de forma espaçada e melhor armazenada.
Porém esta possibilidade de armazenamento traz para o arranjo a concorrência de
laticínios de outras regiões. Estão instalados atualmente no Sudeste do Pará quatro postos
de resfriamento de três laticínios sediados no Maranhão.
Outro fator que acirra a disputa pela delimitação da bacia leiteira de cada laticínio é
o fechamento das queijarias pela defesa sanitária, deixando lugar para o domínio do espaço
por laticínios mais bem estruturados e de maior porte. Esta possibilidade traz o sério risco
de monopólio da atividade por poucas empresas.
Face à concorrência por fornecedores, algumas empresas buscam conquistar
produtores com o início de algumas ações de apoio ao aumento da produtividade ou da
qualidade do leite. Neste sentido, pelo menos uma indústria vem apoiando a organização de
cursos e seminários voltados para os produtores de leite, e está sendo montada uma área
demonstrativa de produção de leite por um laticínio da região.
A realização de eventos de capacitação é efetivada através da interação das empresas
com outras instituições, como universidades, empresas de consultoria e assistência técnica,
mas especialmente com o SEBRAE.
As possibilidades e vantagens de articulação entre as empresas e delas com outras
instituições poderiam ser facilitadas pela proximidade entre elas. A cooperação entre
diferentes agentes do arranjo que possibilitem a realização de atividades conjuntas e de
apoio mutuo poderiam resultar na superação de muitos problemas, especialmente para as
microempresas. As cooperações podem ser realizadas tanto por interações de ações, como
as ações de capacitação, como por intercâmbios e pela integração de competências
(LASTRES ; CASSIOLATO, 2005).
Porém, foram encontradas dificuldades de cooperação envolvendo os laticínios do
arranjo, especialmente para as empresas de menor porte (Tabela 6), que poderiam ser as
mais beneficiadas pela cooperação. As atividades cooperativas deveriam ser estimuladas
por programas de sensibilização, ainda mais em uma região onde esta atividade não é
natural, uma vez que as pessoas e as empresas não se conhecem, por estarem a pouco
tempo na região, o que é comum no Sudeste do Pará
.
Tabela 6: Atividades de cooperação dos laticínios do arranjo em 2004.
Tamanho da Empresa
1. Micro
2. Pequena
Sim
Não
Total
3
5
8
37,5% 62,5% 100,0%
5
1
6
83,3% 16,7% 100,0%
16
Fonte: Pesquisa de campo
As vantagens aludidas para a cooperação relativas à localização, que poderiam ser
favorecidas pela proximidade de diferentes agentes do arranjo, não são sustentadas pelas
informações da Tabela 7, que mostra uma maior parceria dos laticínios com agentes
externos ao arranjo e ao estado, especialmente para as pequenas empresas. Porém, em
geral a tabela 9 demonstra poucas relações de parceria estabelecidas pelos laticínios,
independente de sua localização.
Tabela 7: Quantidade e percentagem de laticínios que atribuíram algum grau de
importância ao papel de parceiros desempenhado por agentes situados em diferentes
localizações.
Agentes
1. Empresas
1.1. Outras empresas dentro do grupo
1.2. Empresas associadas (joint venture)
1.3. Fornecedores de insumos (equipamentos,
materiais, componentes e softwares)
1.4. Clientes
1.5. Concorrentes
1.6. Outras empresas do setor
1.7. Empresas de consultoria
2. Universidades e Institutos de Pesquisa
2.1. Universidades
2.2. Institutos de pesquisa
2.3. Centros de capacitação profissional de
assistência técnica e de manutenção
3. Outros Agentes
3.1. Representação
3.2. Entidades Sindicais
3.3. Agentes financeiros
Local
Micro
Estado
Brasil
Pequena
Local Estado Brasil
0
0,0%
1
12,5%
0
0,0%
1
12,5%
1
12,5%
1
12,5%
1
12,5%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
2
25,0%
1
12,5%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
1
16,7%
1
16,7%
0
0,0%
0
0,0%
1
16,7%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
3
50,0%
0
0,0%
5
83,3%
5
83,3%
2
33,3%
1
16,7%
2
33,3%
1
12,5%
0
0,0%
0
0,0%
1
12,5%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
1
12,5%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
1
16,7%
0
0,0%
0
0,0%
1
16,7%
0
0,0%
2
25,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
1
16,7%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
1
16,7%
0
0,0%
Fonte: Pesquisa de campo
6
DIFICULDADES ENCONTRADAS PELAS EMPRESAS DO ARRANJO
A maior dificuldade para a operação das empresas, expressa pela totalidade dos
laticínios da região, foi a contratação de empregados qualificados (Tabela 8). Apesar de
17
haver um pequeno avanço neste aspecto, identificado pelas pequenas empresas entre o
primeiro ano de funcionamento e 2004, ele ainda permanecia como principal entrave.
Como a atividade de processamento do leite é relativamente recente na região não se tem
acumulado um conhecimento prático neste ramo. Mas a falta de instituições de ensino
profissionalizante que atendam a este setor é uma lacuna em todo o estado, na verdade o
ensino técnico é deficiente em todos os ramos, existindo, por exemplo, uma única escola
técnica agrícola no Pará, situada em Castanhal (próximo a Belém) e, portanto, a uma
distancia de 600 km de Marabá. Os dados desta pesquisa mostram que este está sendo um
sério limite para o desenvolvimento do arranjo produtivo do leite no Sudeste do Pará.
Tabela 8: Índice de dificuldade de operação dos laticínios do Sudeste do Pará.
Dificuldade
Micro empresa
1º Ano
Em 2.004
Índice*
Índice*
Pequena empresa
1º Ano
Em 2.004
Índice*
Índice*
1. Contratar empregados qualificados
0,95
0,95
0,93
0,87
2. Produzir com qualidade
0,78
0,59
0,75
0,52
3. Vender a produção
0,48
0,35
0,15
0,17
4. Custo ou falta de capital de giro
5. Custo ou falta de capital para aquisição de
máquinas e equipamentos
6. Custo ou falta de capital para
aquisição/locação de instalações
0,83
0,83
0,48
0,72
0,91
0,86
0,42
0,65
0,60
0,44
0,58
0,33
7. Pagamento de juros
0,16
0,13
0,22
0,22
8. Outras dificuldades
0,13
0,13
0,00
*Índice = (0*Nº Nulas + 0,3*Nº Baixas + 0,6*Nº Médias + Nº Altas) / (Nº Empresas no Segmento)
Fonte: Pesquisa de campo.
0,00
O Custo ou falta de capital para a aquisição de máquinas e equipamentos foi uma
grande dificuldade sentida pelas empresas, especialmente para as microempresas (Tabela
8). Já para as pequenas empresas a maior dificuldade quanto aos custos e falta de capital é
relativa ao capital de giro, e para este tipo de empresa esta dificuldade vem aumentando
visto o aumento do volume processado, porém, esta dificuldade não deixa de ser
importante para as microempresas. Menores problemas foram encontrados quanto ao custo
e falta de capital para aquisição de instalações, uma vez que os laticínios estão instalados
fora dos centros urbanos, onde os custos de instalações são menores e por não
necessitarem de estruturas sofisticadas.
Os limites de infra-estrutura da região estão presentes nas dificuldades apresentadas
para produzir com qualidade, uma vez que, superados os problemas estruturais e
operacionais das indústrias, a qualidade dependerá da matéria-prima, o que é
especialmente importante para a industrialização do leite, devido a sua rápida
perecibilidade.
A atual situação de transporte do leite no Sudeste do Pará, sem resfriamento,
acarreta sérios problemas de qualidade do produto final, para o qual o tempo entre a
extração na propriedade rural e o processamento na indústria é decisivo, face à rápida
18
multiplicação bacteriológica. É comum o leite demorar quatro a cinco horas para chegar ao
laticínio, por vezes até mais tempo, provocando enormes prejuízos a qualidade do produto
que desde a origem não é muito boa, devido a sérios problemas sanitários na ordenha,
diante das precárias instalações produtivas. Se o leite já estivesse sendo resfriado, o
determinante da qualidade seriam as técnicas e infra-estrutura de extração pelo produtor,
pois aí estaria o principal fator de contaminação.
Apesar de ter havido um aumento significativo das estradas na zona rural nos
últimos 10 anos, a manutenção destas estradas é muito deficiente, e pouco tempo depois de
sua abertura já apresentam problemas, em grande parte devido à elevada intensidade das
chuvas. Estas estradas são construídas principalmente através da política de apoio aos
assentamentos do Governo Federal, implementada pelo INCRA – Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária, que algumas vezes conta com a parceria do poder público
municipal. A precariedade das estradas vicinais atrasa muito o transporte do leite e
aumenta os custos, além de inviabilizar completamente o acesso a algumas localidades.
Como para o tempo de transporte o que mais importa são as distâncias entre produtor e
indústria e as condições de acesso, a melhoria na manutenção das estradas poderia
diminuir as dificuldades encontradas pelas empresas do arranjo para produzir com
qualidade, uma vez que, elas possuem mecanismos próprios para minimizar o problema da
distancia entre produtor e indústria.
Diante dos problemas de escoamento do leite e de sua relação com o resultado
quanto à qualidade dos produtos dos laticínios, se justifica a elevada dificuldade
encontrada pelas indústrias do arranjo de produzir com qualidade. No primeiro ano de
instalação das indústrias as dificuldades quanto a este aspecto eram bem maiores, tanto
para as micro como para as pequenas empresas (Tabela 8). A proporcionalidade
encontrada entre as empresas de diferentes portes quanto a dificuldade de produzir com
qualidade demonstra que os problemas que acarretam este fenômeno são dificilmente
superados pela estrutura própria da empresa. Contudo, este grau de dificuldade para
produzir com qualidade vem caindo (Tabela 8), correspondendo às melhorias de infraestrutura viária ocorridas na região.
A competição por mercado ainda não parece ser muito acirrada entre os laticínios
formais, assim como, entre eles e os informais, uma vez que a pesquisa demonstrou um
grau de dificuldade baixo para vender a produção .
Apesar de a maioria das empresas do arranjo não encontrarem dificuldades para
vender seus produtos, as microempresas apresentam maiores dificuldades do que as
pequenas empresas. Porém, o grau de dificuldade para vender os produtos caiu para as
microempresas, contra um discretíssimo aumento da dificuldade para as pequenas
empresas, entre o primeiro ano de operação e 2004 (Tabela 8), sugerindo um aumento do
consumo de produtos de origem láctea no interior do arranjo, já que estas são as empresas
que mais vendem nos municípios pesquisados.
A superação dos problemas identificados pelas empresas depende grandemente da
intervenção do estado e poderiam levar a um boom da atividade leiteira no Sudeste do
Pará, em vista de sua capacidade ociosa. Para impulsionar este setor, as políticas públicas
devem focar a qualificação da mão-de-obra e a melhoria da infra-estrutura, principalmente
quanto às estradas e eletrificação rural.
6.1
As dificuldades relativas a mão-de-obra
19
A qualificação da mão-de-obra apresenta problemas não só quanto à formação
profissional específica para atividades na área agroalimentar de processamento do leite,
mas também quanto à escolarização formal. Com efeito, mais de 67% dos funcionários das
micro e pequenas empresas têm no máximo o ensino fundamental completo (Tabela 9).
Tabela 9: Nível de escolaridade do pessoal ocupado nos laticínios.
Grau de Ensino
Micro empresas
4
6,5%
25
40,3%
13
21,0%
9
14,5%
11
17,7%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
62
100,0%
1. Analfabeto
2. Ensino Fundamental Incompleto
3. Ensino Fundamental Completo
4. Ensino Médio Incompleto
5. Ensino Médio Completo
6. Superior Incompleto
7. Superior Completo
8. Pós-Graduação
Total
Pequenas empresas
12
4,2%
97
34,2%
82
28,9%
61
21,5%
24
8,5%
4
1,4%
2
0,7%
2
0,7%
284
100,0%
Fonte: pesquisa de campo
Contudo, a escolaridade nas pequenas empresas é sempre maior do que nas
microempresas (Tabela 9), reforçando os dados anteriormente discutidos de que existe
maior dificuldade para as microempresas na a contratação de mão-de-obra qualificada,
possivelmente pelas melhores condições de trabalho das pequenas empresas. Por outro
lado, isto também pode ser explicado pelo fato de as microempresas apresentarem menor
proporção de funcionários com contratos formais do que as pequenas empresas, tendo
menos da metade de seu pessoal nesta situação (Tabela 10), o que torna menos
interessante os investimentos na qualificação. Os dados relativos à alta incidência de
serviços temporários nas microempresas demonstram a instabilidade de operação deste
tipo de laticínio, o que é um problema para a gestão da indústria, mas também para a
estabilidade do emprego dos funcionários. A contratação de serviço temporário é utilizada
como forma de diminuir as despesas com os encargos sociais, e para flexibilizar a
disponibilidade de mão-de-obra com a oscilação do nível atividade da indústria durante o
ano.
Tabela 10: Tipos de relação de trabalho existentes nos laticínios do arranjo.
Tipos
Micro
Nº
%
Pequena
Nº Pessoas
%
20
Sócio Proprietário
Contratos Formais
Estagiário
Serviço Temporário
Terceirados
Familiares sem contrato formal
Total
Pessoas
12
10,6%
54
47,8%
2
1,8%
35
31,0%
8
7,1%
2
1,8%
113
100%
9
276
6
1
63
0
355
2,5%
77,7%
1,7%
0,3%
17,7%
0,0%
100%
Fonte: Pesquisa de campo.
Nas microempresas pesquisadas, não foi encontrado pessoal ocupado com
formação universitária, mesmo considerando os sócios. A pequena ocorrência de
funcionários com nível superior nas pequenas empresas está sempre relacionada com o
serviço de gestão e com as empresas de maior porte. Os funcionários com pós-graduação
trabalham nas duas maiores indústrias (em número de empregados) do arranjo.
O problema de qualificação da mão-de-obra se agrava pelo fato de as empresas
terem pouco acesso a programas de treinamento e capacitação de recursos humanos, a não
ser os treinamentos internos da empresa. Nenhum funcionário de microempresas e
somente um das pequenas empresas participou de estágios em empresas fornecedoras ou
em clientes. Apenas uma pequena empresa absorveu um formando dos cursos
universitários localizados no arranjo.
7
POSSIBILIDADES DE INOVAÇÃO DOS LATICÍNIOS
Os laticínios do arranjo produtivo do Sudeste do Pará apresentaram, no
período de 2002 a 2004, diferentes formas de inovação, dependendo de seu porte. As
empresas de maior tamanho apresentaram vantagens bastante superiores na a introdução de
diferentes tipos de inovação quando comparadas às microempresas (Tabela 11). De
maneira geral, as maiores dificuldades de inovação foram encontradas para inovações de
produto, que são referentes à introdução de novos produtos cujas características
tecnológicas diferem significativamente de todos os produtos que a empresa já produziu,
mas que já existem no mercado. Não foi identificada a introdução de produtos novos para
o mercado.
Tabela 11: Percentual dos laticínios que introduziram diferentes tipos de inovação, entre
2002 e 2004, conforme seu tamanho.
Tipo de Inovação
Micro
Sim
Pequena
Sim
0,0%
16,7%
44,4%
100,0%
25,0%
83,3%
25,0%
66,7%
12,5%
66,7%
37,5%
100,0%
1. Inovações de produto
2. Inovações de processo
3. Outros tipos de inovação
3.1. Criação ou melhoria substancial, do ponto de vista tecnológico, do
modo de acondicionamento de produtos (embalagem)?
3.2. Inovações no desenho de produtos?
4. Realização de mudanças organizacionais (inovações organizacionais)
Fonte: Pesquisa de campo.
21
A única implementação de inovação de produto apontada pelas indústrias do
arranjo, no período de 2002 a 2004, foi a fabricação de iogurte pelo laticínio mais antigo
no Sudeste do Pará, sediada em Curionópolis, que inicialmente trabalhava somente com
queijo e manteiga. O iogurte apresentou participação de 76 a 100% nas vendas da empresa
no período indicado, mostrando-se um produto bastante promissor, principalmente para as
empresas pioneiras neste tipo de fabricação na região.
Todas as pequenas empresas do arranjo incorporaram novos processos de
produção, porém, que já eram utilizados no setor, envolvendo a introdução de novos
métodos, procedimentos, maquinas ou equipamentos que diferem substancialmente
daqueles previamente utilizados, o que demonstra uma boa capacidade dos laticínios de
maior porte em adaptarem processos mais eficientes. As empresas de menor porte
apresentaram menor percentual de incorporação deste tipo de inovação, apesar de serem o
tipo de inovação mais difundida entre elas. Grande parte das pequenas empresas (83,3%)
declarou ter uma constância rotineira na introdução de máquinas que implicaram em
significativas melhorias tecnológicas de produtos ou de processos, e o restante das
empresas deste porte fazem isto ocasionalmente. Ao contrário as microempresas não têm
constância na introdução destes processos.
As mudanças no acondicionamento dos produtos foram importantes para as
pequenas empresas e de menor importância para as microempresas, da mesma forma do
que as inovações quanto ao desenho dos produtos. Estas diferenças quanto a adoção deste
tipo de inovação são devidas ao fato de as empresas de maior porte atenderem mercados
mais exigentes, e as microempresas trabalharem com os mercados locais e/ou pontos de
compra em atacado, como as padarias e lanchonetes.
A realização de mudanças organizacionais compreendeu: 1) Implementação de
técnicas avançadas de gestão; 2) Implementação de significativas mudanças na estrutura
organizacional; 3) Mudanças significativas nos conceitos e/ou práticas de marketing; 4)
Mudanças significativas nos conceitos e/ou práticas de comercialização. As mudanças que
envolveram maior quantidade de pequenas empresas foram referentes aos itens 2 (83,3%
das empresas), seguido do item 1 (em 66,7% dos casos) e dos itens 3 e 4 na mesma
proporção de efetivação pelas pequenas empresas (33,3%). A maior proporção de micro
empresas realizou inovações organizacionais referente a mudanças significativas nos
conceitos e/ou práticas de comercialização, o que envolveu 37,5% destas empresas.
Em muitos aspectos estudados os laticínios de maior porte apresentam maiores
vantagens do que os de menor porte, porém as diferenças foram mais acentuadas em
relação às possibilidades de incorporação de inovação.
A maior importância dos impactos resultantes da introdução de inovações foi
atribuída à melhoria da qualidade dos produtos, seguida da possibilidade de manutenção
das empresas nos mercados de atuação, e conquista de novos mercados.
Como as próprias empresas reconheceram, a inovação é um processo importante
para a competitividade, manutenção e até crescimento das empresas, podendo gerar
transformações entre as relações de domínio de mercado, geralmente exercidas pelas
grandes empresas. O que torna mais preocupante a desvantagem encontrada nas
microempresas de implementarem inovações, o que pode conduzir muitas delas ao
fechamento, se estas condições persistirem. A possibilidade de reversão deste quadro está
no acesso destas empresas ao conhecimento de novas formas de atuação, que podem
22
resultar da contratação de novos quadros, nos investimentos na qualificação dos
funcionários, da realização e acesso a pesquisas, além das trocas de informações com os
diferentes atores do arranjo, como os consumidores, fornecedores de equipamentos e
insumos, outras empresas, instituições de ensino e pesquisa.
8
UM ARRANJO COM POUCO APOIO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS
Foram identificadas três ações públicas que beneficiaram diretamente alguns
laticínios do arranjo produtivo do Sudeste do Pará, cada uma delas relativa a uma esfera do
poder público. O Governo Federal atua através de programas do SEBRAE (Serviço
Brasileiro de Apoio à micro e pequenas Empresas) que realizaram treinamentos, cursos,
estudos e assessoria envolvendo algumas empresas do arranjo. O Governo do Estado
reduziu drasticamente o ICMS sobre produtos de origem láctea, a partir do final dos anos
90. E pelo menos uma Prefeitura Municipal realiza a constante manutenção das estradas,
especialmente em localidades com alta concentração de produção do leite, evitando a
comum interrupção do escoamento durante os meses de chuva.
Não foram identificadas políticas que beneficiassem especificamente os produtores
de leite, fora as acima referidas, que influenciam a atividade mais que estão mais
direcionadas às indústrias. O crédito produtivo, implementado a partir de 1996 através do
PRONAF – Programa Nacional de Apoio à Agricultura Familiar, foi em grande parte
direcionado para a bovinocultura, porém ele só começou a atender, em alguns casos, as
especidades da pecuária do tipo leiteira nos últimos dois anos, por meio de financiamento
de matrizes selecionadas para este fim. Desta forma, este tipo de crédito pouco contribuiu,
até o momento, para uma efetiva melhoria da atividade leiteira, no máximo proporcionou
um aumento da produção e da dispersão desta atividade, o que não significou em aumento
da produtividade e intensificação das técnicas e práticas produtivas. Por estes motivos
estes créditos não foram computados neste item como uma política de apoio aos
produtores de leite.
Porém, mesmo se o crédito pudesse ser elaborado para melhorar as condições de
produção de leite específicas de cada propriedade, ele não atingiria as condições sociais e
estruturais necessárias para a intensificação da produção, para isto seria necessária uma
estratégia de articulação de várias políticas, como algumas sugeridas aqui, que pudessem
mudar o contexto regional, ainda muito favorável à pecuária de corte.
Não existem programas, como os que ocorrem em regiões tradicionais de produção
de leite no país, de treinamento do produtor, de apoio à melhoria da genética do rebanho,
de financiamento de resfriadores de leite, de melhoria das pastagens e da nutrição em
geral. O que se tem é a assistência técnica em algumas localidades, mas que não é
específica e nem suficiente em quantidade para uma atividade tão intensa e importante
para a região. Muito se tem atribuído e criticado o produtor pela baixa produtividade na
pecuária leiteira regional, Chaxel (2005) encontrou no arranjo do Sudeste uma média de
produção/vaca de 4,5 l/dia, mas os produtores têm poucas condições e baixo apoio para
conseguirem aumentos desta produtividade. Existem poucos estímulos para a organização
social em torno da comercialização da produção, que poderia contribuir, por exemplo, para
23
aumentar as possibilidades de resfriamento do leite, através da instalação de tanques
coletivos.
A baixa participação e conhecimento de políticas públicas voltadas para os
laticínios, por parte das empresas do arranjo, foram evidenciados nesta pesquisa,
confirmando o pequeno apoio a esta atividade. As microempresas apresentaram uma
dificuldade bem maior do que as pequenas quanto a este aspecto (Tabela 14). As pequenas
empresas têm mais facilidade de acesso à informação e assim conseguem se beneficiar
mais das políticas. A cooperação entre as empresas poderia facilitar o fluxo de informação
entre elas.
A alta participação atribuída às ações do governo do Estado pelas pequenas
empresas é relativa à redução dos impostos, que na verdade beneficiam também as
microempresas, apesar de não ter sido bem identificado por elas. Merece destaque também
a atuação do SEBRAE, cujas ações são conhecidas por todas as microempresas (Tabela
12), lhes conferindo alta participação, mas com uma participação menor das pequenas
empresas. A única empresa do arranjo que não conhece as ações do SEBRAE é aquela de
Canaã dos Carajás, provavelmente pelo fato de estar mais afastada da sede do arranjo, com
dificuldade de acesso a esta instituição.
A maior dificuldade de conhecer as ações de apoio aos laticínios, tanto para as
microempresas como para as pequenas empresas, foi atribuída aos governos municipais e a
outras instituições (Tabela 12). Porém, as pequenas empresas apresentaram maiores
possibilidades de tomar conhecimento e acessar as políticas municipais, uma vez que o
apoio mais comum dispensado aos laticínios pelos governos locais é a diminuição ou
isenção de impostos cabíveis a esta esfera de governo. Como, neste caso, esta isenção se
faz através de negociação individual de cada empresa com as prefeituras, as empresas de
maior porte têm maiores possibilidades de obterem êxito neste aspecto. Em alguns
municípios, a prefeitura apóia a atividade leiteira, assim como toda atividade agrícola,
através da manutenção das estradas vicinais, mas isto só ocorre em poucas situações e
mesmo assim de forma irregular, em função da disponibilidade de verbas e das prioridades
eventuais dos governos municipais, que em mitos casos oscilam bastante em função da
conjuntura política.
Tabela 12: Participação ou conhecimento de alguma ação do governo voltada aos
laticínios.
Instituição
1. Governo Federal
2. Governo Estadual
3. Goevrno
Local/Municipal
4. SEBRAE
5. Outras Instituições
Não
conhece
5
62,5%
3
37,5%
3
37,5%
0
0,0%
7
87,5%
Micro
Conhece,
mas não
participa
3
37,5%
2
25,0%
4
50,0%
3
37,5%
0
0,0%
Conhece e
participa
Não
conhece
0
0,0%
3
37,5%
1
12,5%
5
62,5%
1
12,5%
2
33,3%
0
0,0%
3
50,0%
1
16,7%
5
83,3%
Pequena
Conhece,
mas não
participa
2
33,3%
0
0,0%
1
16,7%
3
50,0%
0
0,0%
Conhece e
participa
2
33,3%
6
100,0%
2
33,3%
2
33,3%
1
16,7%
Fonte: Pesquisa de campo
24
Quando solicitada uma avaliação destes programas a grande maioria das
microempresas (87,5%) expressou uma avaliação positiva do SEBRAE, contra 50% das
pequenas. Os dados de participação e de avaliação das empresas do arranjo quanto à
atuação do SEBRAE parece deixar claro o maior investimento desta instituição nas
microempresas.
Certamente a avaliação dos programas dos governos voltados para as empresas do
setor leiteiro foi confundida como uma avaliação do nível de aprovação política destes
governos, distorcendo o objetivo da pesquisa quanto a este aspecto. A maioria das
microempresas teve uma avaliação negativa dos programas dos governos federais e
municipais, e metade delas tiveram a mesma avaliação das ações do governo estadual. Já
as pequenas empresas tiveram, em sua grande maioria (83,3%), uma avaliação positiva do
governo estadual e a metade se declarou sem elementos para avaliação dos governos
municipais e federais.
As indicações feitas pelos laticínios sobre as políticas públicas que poderiam
contribuir para o aumento da eficiência competitiva das empresas do arranjo do Sudeste do
Pará oferecem importantes possibilidades quanto a linhas de ação para o apoio do poder
público a este setor. Para todas as alternativas referentes a ações políticas apresentadas
pelo questionário foi atribuída alta relevância diante das possíveis contribuições para o
aumento da eficiência competitiva das indústrias do arranjo, e não foram indicados outros
tipos de políticas para o mesmo fim (Tabela 13).
Tabela 13: Indicações de políticas públicas que poderiam contribuir para o aumento da
eficiência competitiva das empresas no arranjo.
Micro
Nula Baixa Média Alta Índice* Nula
1. Programas de capacitação profissional e
0
1
0
7
0,91
0
treinamento técnico
0,0% 12,5% 0,0% 87,5%
0,0%
2. Melhorias na educação básica
0
0
0
8
1,00
0
0,0% 0,0% 0,0% 100,0%
0,0%
3. Programas de apoio a consultoria
0
0
0
8
1,00
0
técnica
0,0% 0,0% 0,0% 100,0%
0,0%
4. Estímulos à oferta de serviços
0
0
1
7
0,95
0
tecnológicos
0,0% 0,0% 12,5% 87,5%
0,0%
5. Programas de acesso à informação
0
0
1
7
0,95
0
(produção, tecnologia, mercados, etc)
0,0% 0,0% 12,5% 87,5%
0,0%
6. Linhas de crédito e outras formas de
0
0
0
8
1,00
1
financiamento
0,0% 0,0% 0,0% 100,0%
16,7%
7. Incentivos fiscais
0
0
0
8
1,00
0
0,0% 0,0% 0,0% 100,0%
0,0%
8. Políticas de fundo de aval
1
0
0
7
0,88
1
12,5% 0,0% 0,0% 87,5%
16,7%
9. Programas de estímulo ao investimento
0
0
0
8
1,00
1
(venture capital)
0,0% 0,0% 0,0% 100,0%
16,7%
10. Outras
8
0
0
0
0,00
6
100,0% 0,0% 0,0% 0,0%
100,0%
*Índice = (0*Nº Nulas + 0,3*Nº Baixas + 0,6*Nº Médias + Nº Altas) / (Nº Empresas no Segmento)
Fonte: Pesquisa de campo
Ações de Política
Baixa
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
0
0,0%
Pequena
Média
Alta
Índice*
0
6
1,00
0,0% 100,0%
0
6
1,00
0,0% 100,0%
0
6
1,00
0,0% 100,0%
0
6
1,00
0,0% 100,0%
0
6
1,00
0,0% 100,0%
0
5
0,83
0,0% 83,3%
0
6
1,00
0,0% 100,0%
0
5
0,83
0,0% 83,3%
1
4
0,77
16,7% 66,7%
0
0
0,00
0,0%
0,0%
Os dados constantes da Tabela 13 mostram uma elevada importância atribuída às
ações educativas, ainda mais expressivas para as pequenas empresas do que para as
25
microempresas, uma vez que estas apresentam maior preocupação na contratação de
funcionários qualificados e na capacitação de seu pessoal.
Já as políticas de financiamento, ao contrário, são mais importantes para as micro
do que para as pequenas empresas. As empresas não foram questionadas quanto à
importância das melhorias da infra-estrutura para o desenvolvimento de suas atividades, o
que foi considerada uma falha em uma região tão deficiente quanto a este aspecto. Porém,
outras questões apresentadas anteriormente ajudaram a avaliar esta importância.
9
POSSIBILIDADES DE APOIO À CONSOLIDAÇÃO DA ATIVIDADE
LEITEIRA NO SUDESTE DO PARÁ
A elevada capacidade ociosa das indústrias de processamento de leite, e os
problemas de acesso que inviabilizam o escoamento constante do produto de muitas
comunidades são os principais indicativos de uma expectativa de crescimento ainda maior
da atividade leiteira no Sudeste do Pará. Para tanto, o investimento das políticas públicas
na melhoria da malha viária, tanto para construção como manutenção de estradas, seria o
maior impulsor para o crescimento da bacia leiteira desta região, o que apoiaria a
manutenção e crescimentos dos laticínios da região. Porém seriam necessárias outras
formas de apoio para superar os problemas referentes à qualidade dos produtos e à
intensificação da produção de leite.
Ações públicas estruturantes de avanços em maior prazo foram identificas como
de grande relevância para a consolidação do arranjo e deveriam ser atreladas aos
investimentos em infra-estrutura para alcançarem resultados quanto ao aperfeiçoamento da
atividade leiteira. Investimentos para a melhoria da qualificação da mão-de-obra seriam
importantes em todos os níveis, a formação técnica em processamento agroindustrial e em
agropecuária seria estratégica. Da mesma forma, poderia haver significativos incrementos
na produtividade através de assistência técnica ao produtor de leite em quantidade e com
formação apropriada, aliada aos programas especiais voltados para a atividade leiteira,
como: melhoria e recuperação das pastagens, controle sanitário, melhoramento genético e
controle leiteiro.
A recente norma de transporte do leite submetido a resfriamento, que entrará em
vigor na região a partir de julho de 2007, terá dificuldade de ser cumprida sem a instalação
de energia elétrica na zona rural, que hoje está presente, no máximo, em 5% dos
estabelecimentos rurais da região. O que além do transporte gera outros problemas
importantes para a qualidade do leite. Ainda com relação à necessidade de melhoria da
qualidade leite, para que a referida norma seja cumprida será necessária a montagem de
um laboratório de análise do leite, que deverá ser vinculado a uma instituição pública,
como a ADEPARÁ ou as universidades instaladas na região.
Como existe uma ampla problemática para o fortalecimento do arranjo produtivo
do leite do Sudeste do Pará, suas necessidades de apoio são de diferentes tipos, e não
devem ser tratadas isoladamente pelas políticas públicas, sob risco de não surtirem os
efeitos desejados.
Por outro lado, o crescimento da produção leiteira na região pode trazer sérios
riscos, tanto ambientais como financeiros. Da forma como a pecuária tem sido praticada,
vem se mostrando uma atividade pouco sustentável, com uma rápida degradação dos
pastos, o que é hoje o principal limite para a produção de leite na região. Por outro lado, de
maneira geral, a criação de gado vem apresentando pouca compatibilidade com outras
26
atividades produtivas, levando a uma especialização que impossibilita a diversificação
produtiva, que é importante para o sustento da agricultura familiar.
REFERÊNCIAS
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rurais das regiões Sul e Sudeste do Pará. In: Anais do XI Encontro de ciências sociais do
Norte e Nordeste – 2003. Aracaju: UFS/NPPCS, 2004. (CD-ROM)
CHAXEL, S. Diagnostic sócio-economique des laiteries du territoire Sud-Este du
Pará, Bresil. Marabá: UFPA/NEAF/LASAT, 2006, (mimeo).
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Familiares e Desenvolvimento em Frente Pioneira Amazônica. Edição Bilíngüe. Paris –
Pointre-à-Pitre - Belém: GRET/UAG/UFPA, 1996. 148 p.
HÉBETTE, J. Cruzando a fronteira: 30 anos de estudo do campesinato na Amazônia
(Vol. I). Belém: EDUFPA, 2004. 373 p.
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – Pesquisa da Pecuária Municipal,
1994 – 2004.
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Produtivos e Inovativos Locais. Rio de Janeiro: IE/UFRJ, 2005. Disponível em:
<www.ie.ufrj.br/redesist>
MACHADO, R. da C. Estudos dos Sistemas de Criação através da abordagem das
práticas: o caso de bovinos leiteiros da agricultura familiar, na Microrregião de Marabá –
PA. Dissertação apresentada para o grau de Mestre do Curso de Pós-graduação em
Agriculturas Amazônicas. Belém : UFPA, 2000. 181p.
MUCHAGATA, M.R.G e BROWN, K. Smallholders Farming Systems in Amazônia:
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POCCARD-CHAPUIS, R.; VEIGA, J.B. da; PIKETTY, M.G.; FREITAS, C.M.K.H. de;
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Oriental, 2001. 33p. (Embrapa Amazônia Oriental - Documentos, 114).
SPAROVEK, G. A qualidade dos assentamentos da reforma agrária brasileira. São
Paulo: USP/MDA/FAO, 2003. 203 p.
27
VEIGA, J.B. da; POCCARD-CHAPUIS, R.; PIKETTY, M.G.; TOURRAND, J.F.
Produção leiteira e o desenvolvimento regional na Amazônia Oriental. Belém:
Embrapa Amazônia Oriental, 2001. 24p. (Embrapa Amazônia Oriental. Documentos, 80).
28
Download

Leite do Sudeste do Pará - Superintendência do Desenvolvimento