Educação do campo, economia solidária e agroecologia no sudeste do Pará: o papel dos movimentos sociais e da FECAT Resumo: Este texto, resultado de uma pesquisa de doutorado em andamento, aborda as relações entre a economia solidária, a agroecologia e a educação do campo na reforma agrária no sudeste do Pará. O objetivo é analisar como os movimentos sociais da região, por intermédio de suas organizações produtivas e ações políticas, correlacionam esses três campos de ação social, produzindo, de um lado, resistência ao avanço do agronegócio e, de outro, o alargamento dos direitos humanos dos assentados, rumo ao desenvolvimento como liberdade. O âmbito da análise é a Federação de Cooperativas Tocantins-Araguaia (FECAT), uma organização ligada ao movimento sindical, que por sua vez atua em rede com o movimento sem-terra e outros agentes progressistas em luta pela reforma agrária no Pará. Os resultados parciais do estudo evidenciam que os direitos humanos a que a FECAT visa responder, por meio do cooperativismo, da educação do campo e da transição agroecológica, são complementares e de fato só podem ser consolidados por meio de ações integradas de geração de renda, elevação de escolaridade e de uma nova matriz produtiva. Os desafios a esta consolidação exigem que os movimentos atuem em rede, construindo suas próprias alternativas e pressionando o Estado a refrear sua aliança com o capital. Palavras-chave: movimentos sociais; educação do campo; agroecologia; FECAT. Introdução Este texto resulta de uma tese de doutorado (em andamento) que versa sobre o papel de resistência que os movimentos sociais campesinos do sudeste paraense, por intermédio de suas organizações produtivas e ações educativas, cumprem em relação ao desenvolvimento rural capitalista, que avança naquela região na versão mais degradantes do agronegócio. A tese aborda especificamente o caso da Federação de Cooperativas Tocantins-Araguaia (FECAT), uma organização formada por sete cooperativas regionais de assentados da reforma agrária, ligada ao movimento sindical. Seu propósito é favorecer a geração de renda e a melhoria das condições de vida nos assentamentos, por meio da comercialização de polpas de frutas nativas, produzidas ecologicamente, e do alargamento dos direitos humanos aos assentados rurais, particularmente o direito ao trabalho, à renda e à educação. O objetivo da investigação é conhecer e analisar os limites e potencialidades da FECAT para o cumprimento de seus propósitos, bem como o papel que a rede de ação coletiva em que ela se insere cumpre neste processo. O enfoque teórico metodológico utilizado no estudo é o comunicativo-crítico, cuja epistemologia, ao se orientar pela radicalização da democracia, pressupõe a necessidade de conhecer as contradições sociais, a partir de um olhar cooperativo com os sujeitos que as vivenciam e que interatuam para a superação das desigualdades (GOMEZ et al., 2006). Nesse sentido é que partimos de diálogo com os trabalhadores da FECAT e dos movimentos sociais do sudeste do Pará, realizado em abril de 2013, analisando os dados decorrentes de entrevistas e observações por meio de três conceitos: a economia solidária, a agroecologia e a educação do campo. Ao longo do texto, buscaremos explicitar que tratam-se de conceitos que lidam com aspectos complementares e interdependentes dos direitos humanos, tornando-se chaves para alavancar um paradigma democrático de desenvolvimento nos assentamentos, aqui identificado pela noção de desenvolvimento como liberdade. Contextualizando o estudo: a questão agrária paraense em suas contradições O sudeste do Pará, conhecido como portal da Amazônia, é uma das regiões de maior riqueza natural do Brasil: lá se encontram as jazidas minerais da Serra dos Carajás, os caudalosos rios Araguaia, Tocantins e Xingu e uma imensidão de terras originalmente recorta por uma densa floresta tropical. Justamente por isso, há mais de um século este território atraiu os interesses de diferentes setores capitalistas: comerciantes, que praticaram o extrativismo da castanha e do caucho; empresas nacionais que iniciaram a retirada industrial dos minérios (sobretudo ouro e diamante); fazendeiros que atuaram no desflorestamento para extração de madeiras e produção de carvão e que, em seguida, utilizaram a terra para pastagem direcionada à pecuária de corte (VELHO,1972). A partir dos anos 90, com as políticas neoliberais, as multinacionais que controlam todas as cadeias produtivas das commodities de origem “agro” se inseriram regionalmente. Seguindo a lógica da divisão internacional do trabalho, o território do sudeste paraense foi especializado na produção de minérios e carne bovina (OLIVEIRA, 2009). Como as mercadorias só se realizam como tal mediante sua circulação, a malha rodoferroviária foi ampliada/renovada, com fortes impactos negativos à população e ao ecossistema. Paralelamente, as demandas energéticas da mineração motivaram a expansão das hidrelétricas e carvoarias, deixando desalojados ribeirinhos e povos tradicionais que, com o alagamento e o desflorestamento, perderam seus meios de vida. As condições do trabalho na mineração se deterioraram com a perda de direitos e a intensificação dos tempos e ritmos de produção. Diferentes formas de trabalho análogo ao escravo foram, mantidas muitas vezes nas mesmas fazendas pecuaristas e carvoeiras que também criaram postos de trabalho muito sofisticados (NEPOMUCENO, 2007). Segundo Hébette (2004), esse processo de expansão capitalista foi historicamente caracterizado pela desterritorialização do campesinato e dos indígenas, fruto da grilagem e/ou da expropriação violenta dos seus territórios; pela aliança entre Estado e Capital, confirmando que a acumulação de poder econômico é alavanca da acumulação de poder político 1, em um ciclo que se retroalimenta; e pelo uso da ideologia, enquanto um sistema de ideias que visa ocultar as contradições e fazer com que o povo assuma como interesse geral os interesses dos capitalistas. O próprio termo agronegócio, utilizado atualmente para nomear o modelo de desenvolvimento rural do Brasil, estimulado pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA), é um termo ideológico. Atrás do discurso de que, para satisfazer a crescente demanda alimentar da humanidade é necessário “modernizar” o campo, a ideologia do 1O novo código florestal foi aprovado no congresso nacional por influência do grupo JBS (dono da marca Friboi), que controla o mercado mundial de carnes. Dos 21 deputados cujas campanhas foram financiadas pela Friboi, 20 votaram a favor do código, que inegavelmente se configura como um tratado em prol da expansão pecuária na Amazônia. agronegócio tenta ocultar a apropriação privada dos recursos naturais para satisfazer as demandas do capital. A mídia é que se encarrega de difundir este discurso ideológico, escondendo que a maioria dos alimentos que vão para a mesa do consumidor provêem da agricultura campesina (OLIVEIRA, id.). A ideologia, ao lado dos meios jurídicos e das estratégias ilegais utilizadas pelos capitalistas, tem, portanto, a finalidade de conter a latente resistência 2 dos trabalhadores à opressão capitalista. Mas tal propósito ideológico não manteve sua hegemonia no sudeste do PA. A resistência dos trabalhadores: das lutas dos posseiros aos movimentos sociais Michelotti (2010) destaca dois atores principais nos processos de resistência na questão agrária no sudeste do Pará: os posseiros (a partir de 1960/70) e os sem-terras (a partir de 1990). A presença dos posseiros esteve ligada às migrações de trabalhadores. Uma das características da ditadura civil-militar brasileira iniciada em 1964 foi facilitar a expansão da fronteira agrícola rumo ao norte. Para tanto, um conjunto de ações ideologicamente chamadas de projetos de colonização foram estruturados e difundidos como estratégicos à segurança nacional “ameaçada” pela expansão das revoluções comunistas na América Latina. Entre estas ações figuraram a construção de estradas, hidrelétricas, etc, mas também a distribuição de grandes glebas de terras e de financiamento agrícola para ex-sitiantes sulistas que se tornaram fazendeiros no PA (HÉBETTE,id.). As grandes obras atraíram sucessivas levas de migrantes maranhenses, piauienses e baianas. Se antes já marchavam para o portal da Amazônia atraídos pelo extrativismo da borracha e da castanha, a partir dos anos 70 a motivação era tornarem-se operários das grandes construções ou mesmo enriquecerem no garimpo de pedras preciosas. Sem inserção laboral, a miragem de uma vida melhor que os fez migrantes deu lugar à pobreza. Nesse contexto, muitos se apinharam nas periferias das principais cidades, tornando-se vulneráveis ao trabalho escravo. Outros decidiram, sem uma organização social que fosse muito elaborada, tomar posse de territórios rurais isolados, trabalhando a terra com suas famílias, em busca de subsistência. Entretanto, logo que era possível expandir a fronteira agrícola, os fazendeiros alcançavam as áreas de posse, atacando os agricultores com a pistolagem. No confronto, estes se defendiam também com armas, sendo freqüentemente massacrados por seus oponentes (HÉBETTE, id.). Frente à ofensiva dos fazendeiros e à repressão da ditadura – especialmente violenta na região, como atestou a Guerrilha do Araguaia -, a igreja tornou-se o lugar mais protegido para uma organização inicial dos posseiros. Os debates que estes elaboravam respaldados pela teologia da libertação, é que subsidiou, no período da democratização do país, a formação dos sindicatos de trabalhadores rurais (STRs). Tais organizações cumpririam um papel fundamental na articulação política, na organização produtiva e na formação agrotécnica dos camponeses da região 2 A resistência supera a simples oposição: remete à capacidade da “agência humana” de desenvolver mecanismos coletivos que evidenciam e ajudam a superar a opressão (FERRADA, 2001, p. 18). (MICHELOTTI, id.). Especialmente a partir dos anos 90, a regulamentação neoliberal, incorporada pelas políticas do governo de FHC, aprofundou na região o velho padrão de desenvolvimento desigual e combinado, como um aspecto da acumulação flexível. De um lado, a privatização de estatais da mineração e o fortalecimento econômico dos grupos que controlam o mercado mundial de carnes, em paralelo à impunidade garantida aos capitalistas frente aos seus crimes praticados contra os trabalhadores, aprofundaram as formas de violência contra o campesinato e a natureza. De outro lado, FHC estabeleceu a reforma agrária de mercado, mediante o Branco da Terra (articulado pelo Banco Mundial), criminalizando as ocupações do territórios rurais (OLIVEIRA, id.). Neste contexto, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), nascido no Brasil em 1984, instalou-se no sudeste do Pará e, à revelia da sua criminalização, passou a ocupar terras que não cumpriam sua função social, para exigir do Estado uma política de reforma agrária coerente com a Constituição Cidadã e Estatuto da Terra. Ou seja, uma política que não se esgota na distribuição ou regulamentação de terras aos trabalhadores, mas lhes garante meios para que vivam e trabalhem na terra. Aos poucos, a ação coletiva dos sem-terra, aproveitando o legado das lutas posseiras, foi se fortalecendo como um movimento social na região: os trabalhadores, organizados, foram se conscientizando da existência de um inimigo comum, responsável pela situação em que se achavam de falta de direitos ao trabalho, à vida, à identidade camponesa. Tal processo de conscientização, atrelado à materialidade da luta que o ensejou, é que foi gerando um para os camponeses paraenses um aspecto estruturante de qualquer movimento social: o sentimento de pertencimento que une as pessoas em torno de uma causa comum e as faz mover-se coletivamente, mediante estratégias variadas, pautadas tanto por demandas econômicas quanto por demandas culturais (MELUCCI, 2001). Na medida em que cresceu a organização dos trabalhadores, a reação dos setores capitalistas, com aparo do governo estadual, também cresceu, culminando no massacre de Eldorado dos Carajás, em 1997, quando a polícia militar assassinou 19 trabalhadores do MST. O Massacre repercutiu fortemente na opinião pública, dirigindo a atenção social à reforma agrária. Nesse contexto, sem-terras e sindicalistas se colocaram em rede e ocuparam o INCRA para exigir o reconhecimento dos assentamentos (provenientes de ocupações, posse, reassentamento dos atingidos por barragens), bem como outros direitos humanos dos assentados, especialmente a educação e a assistência técnica em quantidade e qualidade adequadas (ASSIS, 2009). Neste contexto, o Estado viu-se obrigado a agir, no entanto, em vez de uma política de reforma agrária estabeleceu uma política de assentamentos; muitos dos aproximadamente 500 assentamentos que existem hoje no sudeste paraense foram implantados nesta época. Embora eles não tenham alterado a estrutura fundiária da região, pois neste número está contida boa parcela de regularização fundiária, foram importantes para territorializar as lutas camponesas. Em outras palavras: como os assentamentos implementados não receberam do Estado as infraestruturas e serviços públicos básicos previstos constitucionalmente pela reforma agrária, eles se viram obrigados a seguir em luta. Imbuídos de nova vitalidade social, os movimentos sociais passaram a estimular os assentados a criarem organizações produtivas e educativas, viabilizando autogestionariamente suas próprias oportunidades de trabalho, renda e educação. Paralelamente, continuaram exigindo do Estado o cumprimento de suas obrigações. Neste contexto, experiências do âmbito da economia solidária, agroecologia e educação do campo começaram a emergir na ação coletiva dos assentados rurais, dando origem e renovando o sentido de organizações com a FECAT. A educação do campo, a agroecologia e a economia solidária A educação do campo é uma noção forjada a partir da luta dos movimentos camponeses. Ela se opõe à educação rural, um paradigma educativo urbanocentrado, sociocentrado e etnocentrado que cumpre o papel de reprodução capitalista (WHITAKER & ANTUNIASI, 1992). Nutrindo-se das teorias pedagógicas críticas, do legado da educação popular e da própria pedagogia do MST, a educação do campo tem as seguintes características: . abarca e vai além da escola, destacando os movimentos sociais como sujeitos educativos; . refuta as teorias da reprodução, que desconsideram o caráter social e histórico da escola visando esvaziá-la de sua função transformadora e mantê-la imune à disputa social; . assume o trabalho (práxis) como princípio educativo, unindo o que o capitalismo separou: a dimensão instrumental e técnica e a dimensão política e propedêutica da educação; . estabelece o currículo (conteúdos, tempos, espaços e métodos) de acordo com as necessidades dos educandos trabalhadores, visando sua emancipação. Portanto, a educação do campo não visa somente restaurar aos camponeses o acesso a uma educação que lhes foi historicamente vetada, mas também qualifica-la como um direito em detrimento da benesse. Nesse sentido é que os movimentos lutaram para estabelecer a educação do campo como uma modalidade educativa em todas as etapas de ensino, capaz de reverter no meio rural: o analfabetismo e as baixas taxas de escolaridade, a precarização e o fechamento das escolas e o transporte dos alunos para a cidade 3. A concepção epistêmica e metodológica desta modalidade pressupõe os campesinos como sujeitos de uma educação por eles construída no próprio campo e o campo como lugar de vida e não de produção de mercadoria (MOLINA, FREITAS, 2011; CALDART, 2009). A agroecologia é uma área interdisciplinar de conhecimento, cujo objeto de estudo são as práticas agrícolas ecológicas que têm sido empregadas pelos povos tradicionais e campesinos na geração de soberania e segurança alimentar, bem como de autonomia econômica. 3O analfabetismo rural é de 23,5%, contra 9,6% para o conjunto da população brasileira (IBGE, 2010). 90,1% das escolas rurais não possuem internet, 15% não têm acesso à energia elétrica, 10,4% não são abastecidas com água potável, 14,7% não possuem esgoto. Aproximadamente 50% não cursou ensino superior. (Censo Escolar, 2011). 75% dos alunos freqüentam escolas sem biblioteca (MOLINA, OLIVEIRA, MONTENEGRO apud MOLINA, FREITAS, 2001). Trata-se de uma escola de agricultura ecológica especificamente latino americana, que, de um lado, se opõe à agricultura capitalista - dependente da indústria de máquinas, fertilizantes, agrotóxicos e sementes -, e de outro lado estrutura sua epistemologia seguindo a lógica da agrobiodiversidade. Nesse sentido, a agroecologia preocupa-se em analisar aspectos da cultura (versus ideologia), da economia e da política que alavancam ou impedem o desenvolvimento agroecológico dos territórios tipificados como áreas de propriedade e de governança (KAUTONIAN, 2001). Do ponto de vista educativo, a prática da agroecologia pressupõe uma compreensão holística dos ciclos energéticos (bio físico químicos) e das relações sociais que se geram em torno da agricultura, como base para a intervenção produtiva. Portanto, não pode ser tratada como uma mera matriz técnica; é necessário situar a técnica como parte do quefazer cultural e político em defesa do trabalho, da vida e da natureza, contra o capital. Por isso, o enfoque agroecológico tem sido deslegitimado pelas corporações capitalistas (ou por elas apropriado pela via do mercado de alimentos orgânicos). Enquanto isso, os movimentos camponeses passam a incorporar a agroecologia nos currículos de suas escolas populares e a exigir que Estado também o faça na formação profissional agrícola. A economia solidária designa variadas formas de produção, distribuição, comercialização e crédito, baseadas na autogestão e na solidariedade, sendo o cooperativismo sua principal expressão. No Brasil, esta economia emergiu entre os setores populares, como alternativa ao desemprego e via de geração de trabalho e renda, nos anos 90. Seus valores e princípios supõem uma pedagogia da autonomia, geradora de racionalidades econômicas que não as baseadas no lucro. Teoricamente, há divergências em torno da capacidade da economia solidária cumprir seus propósitos no meio capitalista: Singer (2003) chega a vislumbrá-la como gérmen do socialismo; Quijano (1998) a criticá-la como precarização dos direitos do trabalho; e Faria (2009) a ponderá-la como âmbito de sobrevivência que pode gerar novas perspectivas para os trabalhadores. A educação, a matriz produtiva e organizativa da FECAT O histórico da FECAT, fundada em 2003, remonta às primeiras iniciativas do movimento sindical do sudeste do Pará em defesa da reforma agrária. Nos anos 80, quando os primeiros assentamentos já haviam se instalado na região, os sindicatos observaram que as dificuldades enfrentadas pelos assentados na melhoraria de suas condições de vida na terra conquistada se vinculavam ao despreparo desses trabalhadores tanto para implementarem uma agricultura afeita ao ecossistema local, quanto para manejarem as ferramentas do direito em defesa de suas pautas democráticas. Neste contexto, o movimento sindical e setores progressistas da Universidade Federal do Pará (UFPA), fundaram, em parceria, o Centro Agro-Ambiental Tocantins Araguaia (CAT), a Fundação Tocantins Araguaia (FATA) e o Laboratório Sócio-Ambiental Tocantins-Araguaia (LASAT), objetivando fomentar ações e pesquisas de capacitação agro-técnica e política dos assentados. A partir disso, tais trabalhadores foram melhorando sua produção e vislumbraram no cooperativismo uma via para dela extrair renda e alavancar os assentamentos. Nasceu a Cooperativa Camponesa do Araguaia-Tocantins (Coocat) e, das necessidades de gestão e produção da Coocat, somadas às necessidades de educação dos filhos dos assentados, surgiu nos anos 90 a Escola Família Agrícola (EFA), uma escola de ensino médio integrado ao agrotécnico, gerida pelo movimento sindical (via FATA e Lasat), com base na alternância pedagógica e na educação do campo. Mas as políticas neoliberais reverberaram na região: de um lado intensificaram a violência contra os camponeses, a criminalização dos movimentos sociais e a negação dos assentados como sujeitos de direitos. De outro, fortaleceram os atravessadores do mercado frutícola e a geração de cooperativas fraudulentas. A Coocat sofreu os reveses desse processo, perdendo competitividade no mercado da comercialização de frutas, sua atividade produtiva. Era necessário fortalecer cooperativismo dos trabalhadores, criando agroindústrias para agregar valor à produção. A Coocat se desmembrou em algumas cooperativas e se uniu a outras originando a FECAT, a qual criou duas agroindústrias de produção de polpa de frutas e passou a dinamizar processos políticos, produtivos e formativos em favor das cooperativas a ela afiliadas. Já no novo milênio, a articulação entre os movimentos sindical, sem-Terra, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a UFPA fez com que se formasse no sudeste do Pará o movimento de luta pela educação do campo e ali chegasse o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA). Via Pronera, foram criados na UFPA/Marabá alguns cursos especificamente voltados a assentados: licenciaturas em pedagogia, letras e por área de conhecimento; bacharelado em agronomia. A EFA também se beneficiou do Pronera. E, no processo de ampliação nacional dos Institutos Federais (IF) de educação científica e tecnológica, o movimento de educação conseguiu disputar para a região o IF do Pará/Campus Rural Marabá (IFCRM). Este IF, que substituiu as atividades da EFA, também incorporou a política afirmativa atendendo em seus cursos, de ensino médio/técnico e superior, indígenas e assentados. Tanto os cursos da UFPA como do IF foram concebidos e são geridos em parceria com a rede de movimentos sociais local, sobretudo MST e STR´s. Seus currículos se apóiam deliberadamente na educação do campo e, no caso da UFPA, tangenciam a economia solidária e a agroecologia, abordadas diretamente no caso do IFCRM. Encontrei na FECAT esquemas surpreendentes de integração entre a organização econômica do movimento sindical e as instituições educativas afeitas à educação do campo (EFA, UFPA, IF/CRM). Esquemas estes que beneficiam de modo mais direto as gerações mais jovens, que atualmente desfrutar das conquistas obtidas pelas lutas históricas de seus pais e familiares. A FECAT abriu as portas para oportunizar trabalho e renda a muitos dos egressos da EFA, os quais foram/são estimulados a continuar estudando nos cursos de educação do campo, da UFPA ou do IF, por meio da liberação remunerada do trabalho nas cooperativas. A formação (técnica e política) dos cooperados nesses cursos se reflete nas visões críticas e participativas que eles transpõem para as cooperativas, bem como no desempenho de algumas tarefas técnicas que se tornam aptos a realizarem. No entanto, fazer com que as referidas instituições se mantenham coerentes com a educação do campo e respondam ao conjunto de demandas formativas dos filos dos cooperados é um desafio que tem que ser resguardado pela ação vigilante dos movimentos sociais, estudantes e intelectuais orgânicos. A pesquisa de doutorado tem revelado que é somente pela disputa nas instâncias de gestão democrática da universidade e do Instituto que tais atores conseguem refrear os interesses corporativos e burocráticos das instituições, que sobrepõem os propósitos de uma educação transformadora aos propósitos da reprodução. Há incompatibilidades entre as lógicas dos movimentos, bem como debilidades no ensino no que se refere ao cooperativismo, mas isso não impede os movimentos apostem na relevância social da escola. Foi nesse sentido que a FECAT implantou o projeto Juventude e Cooperativismo, financiado pela Petrobras Social, em parceria com diferentes entidades, entre elas o IFCRM. O projeto se dirige aos jovens, estudantes do IF e egressos da EFA, filhos dos cooperados da FECAT, prevendo a implantação de sistemas agroflorestais frutícolas nos assentamentos e a integração da juventude às cooperativas. O desafio é gerar maiores oportunidades de inserção produtiva qualificada aos jovens, evitando que deixem os assentamentos em busca de melhores oportunidades laborais na cidade. Segundo os jovens entrevistados nesta pesquisa, o projeto tem contribuído para incrementar a agrobiodiversidade nos lotes, dando novos sentido aos conteúdos por eles aprendidos no IF ou na EFA. A teorização e a prática que o projeto favorece aprofundam a curiosidade epistemológica, tornando a escola um espaço significativo de aprendizagem em agroecologia. Entretanto o mesmo não ocorre em relação ao tema cooperativismo. De um lado este é tratado com pouco aprofundamento no ensino do IF. De outro, a participação dos jovens no projeto e nas cooperativas é tutelada, característica também presente no discurso da fixação dos mesmos no campo. No tocante à superação deste limite, as formas de fruição e expressão das culturas juvenis assentadas deveriam ser consideradas no projeto como tão importantes quanto a renda. Alargar as escolhas dos jovens entre ficar ou sair do assentamento, significa respeitá-los como sujeitos com direito a optar por um espaço de vida e existência não só de trabalho. As oportunidades de estudos na UFPA de que alguns cooperados da FECAT desfrutam, por facilitação e estímulo da Federação e do corpo docente engajado da Universidade, também se reflete em seu trabalho. O enfoque crítico dos cursos permite que os estudantes compreendam em profundidade a questão agrária regional, aumentando suas chances de acertar no desenho dos planos de ação política das cooperativas, em um meio hostil ao cooperativismo popular. Tal hostilidade aparece na forma de ausência de políticas públicas para a economia solidária e até mesmo de ameaças de expropriação que os assentados sofrem. Aparece ainda na degradação ambiental causada pelo agronegócio, o que dificulta o equilíbrio ambiental e a transição agroecológica nos lotes. Além disso, as experiências frustradas de cooperativismo (fraudulento) que já se estabeleceram na região e a socialização competitiva de muitos cooperados no garimpo acentuam a desconfiança e desagregação nas cooperativas, obstaculizando a participação e, conseqüentemente, a autogestão dos seus membros. Outro aspecto da dificuldade de autogestão é o fato de que o alargamento dos direitos educativos aos povos do campo na região não foi suficiente para consolidar a educação de jovens e adultos (EJA) nos assentamentos, contribuindo para que o analfabetismo e a baixa escolaridade se mantenham sobretudo entre os cooperados mais velhos. De um lado, esta realidade comprova o caráter marginal que a EJA ocupa na agenda política nacional, sendo reduzida a campanhas de alfabetização cujo caráter compensatório e descontínuo as torna ineficientes no enfrentamento do problema que deveriam superar. De outro lado, a falta ou o manejo rudimentar do instrumental lecto escrito, além de dificultar a participação dos cooperados mais velhos nos processos de controle social dos seus empreendimentos, também limita sua inserção em atividades formativas nas quais ler e escrever são requisitos para a aquisição de novos conhecimentos. A essas dificuldades a Fecat tenta responder buscando o diálogo entre os cooperados e o estabelecimento de uma ampla rede de movimentos sociais, que não apenas pressione o Estado a sair da prevaricação como também estruture ela própria práticas de educação popular que ajudem a aprofundar a pedagogia da autonomia dentro e fora das cooperativas. Considerações finais O sudeste paraense é, inegavelmente, uma síntese das contradições mais agudas que caracterizam a questão agrária brasileira. De um lado, a violência material e simbólica do capital nos moldes do agronegócio. De outro lado, a resistência dos trabalhadores organizados. A característica fundamental desta resistência parece ser o formato de rede pelo qual estes movimentos se conectam, entre si e com parceiros progressistas, e a ampliação de suas pautas para além do âmbito econômico. Nesse sentido é que obtiveram suas conquistas ligadas à educação, à agroecologia e ao cooperativismo da economia solidária. A pressão que os movimentos da região têm exercido para romper com as “cercas do latifúndio do conhecimento”, permitiu que os camponeses ocupassem espaços tradicionalmente monopolizados pela elite, tal como a universidade e os IFs. Os currículos que reivindicaram (e que vigiam), para garantir aos camponeses a aquisição do conhecimento técnico-científico em uma perspectiva crítica, refletem a aposta dos movimentos na formação escolar como um aspecto estruturante para êxito de empreendimentos econômicos na perspectiva da economia solidária e agroecologia. A FECAT é uma organização produtiva do movimento sindical que resulta e ao mesmo tempo propulsiona tais conquistas: ela tem criado mecanismos que favorecem que os trabalhadores desfrutem das oportunidades educativas e realizem a transição para uma matriz produtiva ecológica nos assentamentos. E os processos educativos resultados deste quefazer, ao interconectarem-se com os processos educativos vindos da ação coletiva nos movimentos sociais, forma trabalhadores-estudantes engajados, o que dialeticamente reverbera no cotidiano escolar. Novas racionalidades de trabalho, produção e educação, aqui analisadas como economia solidária, agroecologia e educação do campo, estão se produzindo no sudeste do Pará de modo complementar. E, apesar de todos os limites para que se consolidem, é por meio delas que os camponeses tem conseguido tornar-se sujeitos de direitos. Nesse sentido, a realidade estuda na pesquisa mostra que, se desvantagens sociais se potencializam reciprocamente, os direitos humanos que visam superá-las também só podem ser garantidos plenamente quando preservada a lógica da indissociabilidade, a indivisibilidade e a integralidade entre eles. Foi considerando esta lógica da produção/superação das desigualdades sociais que Amartya Sen afirmou que “o desenvolvimento consiste na eliminação de privação de liberdades que limitam as escolhas e as oportunidades das pessoas de exercerem preponderantemente sua condição de agentes” (SEN, 2000, p. 27). Tal perspectiva de desenvolvimento se mostra fundamental para aprofundar o caráter democrático da reforma agrária, o qual os movimentos sociais do sudeste do Pará e a Fecat procuram construir. Referências ASSIS, W. S. Mobilização camponesa no sudeste paraense e luta pela reforma agrária. In: FERNANDES, B. M.; MEDEIROS, L. S.; PAULILO, M. I.. (Org.). 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