Os desafios da educação popular frente ao bullying
Luís Carlos Borges dos Santos1
Resumo: O diálogo é fundamental no desenvolvimento do ensino-aprendizagem, principalmente
quando se enfoca a educação popular e o saber colocar-se no lugar do outro. Nesse sentido,
apresentamos o relato de experiência de um projeto de intervenção, na perspectiva da educação
popular, por meio do método da dialética da ação-reflexão-ação, objetivando a transformação de uma
realidade social que "assombra" os espaços educacionais, denominado de "Bullying". Participaram do
projeto, 5 Educadores, 1 Psicóloga, 1 Assistente Social e 45 educando com idade entre 06 e 15 anos,
de uma bairro carente da cidade de Porto Alegre, conhecido como Vila Farrapos. A idealização do
projeto surgiu dos profissionais que atuam na Fundação Fé e Alegria/RS, na qual são atendidos 130
educandos entre 06-15 anos no turno inverso à escola, visando desenvolver ações socioeducativa na
perspectiva da educação popular, criamos espaços de intervenção para as discussões e trocas de
experiência sobre as questões ligada ao tema proposto da campanha Bullying Zero: eu curto essa
ideia. Como recurso metodológico foram criado grupos de intervenções denominados de G1, G2 e G3
de acordo com a faixa etária dos educandos, nestes grupos foram utilizados, músicas, vídeos,
trabalhos de pinturas, textos e dinâmicas de acordo com o tema. Os resultados parciais de acordo
com as atividades apontam aspectos positivos, para o enfrentamento ao Bullying, tanto para os
educadores e equipe técnica, quanto para os educandos.
Palavras-chaves: Educação Popular. Bullying. Crianças e Adolescentes.
Abstract: The dialogue is fundamental in the development of teaching and learning, especially when it
focuses on popular education and learns to put you in another's place. In this sense, we present an
experience report of an intervention project in view of popular education, through the dialectic method
of action-reflection-action, aiming at the transformation of a social reality that "haunts" the educational
spaces, called "Bullying". Participated in the project, 5 Educators, 1 Psychologist, Social Assistant 1
and 45 learners aged from 06 and 15 years, a poor neighborhood of the city of Porto Alegre, known as
Vila Farrapos. The idealization of the project came from professionals who work in the Foundation
Faith and Joy / RS, which are served 130 students between 06-15 years at the opposite shift to
school, to develop socio shares the perspective of popular education, creating spaces for intervention
discussions and exchange of experience on issues related to the proposed theme of the campaign
Bullying Zero: I enjoy this idea. As a methodological resource groups were created interventions called
G1, G2 and G3 according to the age of the students, these groups were used, songs, videos, works of
paintings, texts and dynamic according to the theme. Partial results according to activities indicate
positive aspects, for confronting bullying, both for educators and crew, and for the students.
Keywords: Popular Education. Bullying. Children and Adolescents.
Situando a experiência
O presente relato faz parte de um projeto pedagógico que se encontra
desenvolvendo na Fundação Fé e Alegria/RS, sobre a Campanha Bullying Zero: eu
curto essa ideia. Nosso objetivo é apresentar como a prática da educação popular
contribui para o enfrentamento ao bullying.
1
Educador Social da Fundação
[email protected]
Fé
e
Alegria.
Acadêmico
de
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História
(FAPA).Email:
30
A Fundação Fé e Alegria do Brasil, foi fundada em 1955 na periferia da Venezuela
pelo padre Jesuíta José Maria Vélaz, veio para o Brasil em 1981 e para o Rio
Grande do Sul em 2005, está localizada no Bairro Farrapos periferia urbana de Porto
Alegre- RS, atendendo diretamente, cerca de cento e trinta educandos entre
crianças e adolescentes, na faixa etária de 06-15 anos, desenvolvendo ações
socioeducativas2 nas perspectivas da Educação Popular, atuando em duas frentes
de trabalho: Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculo e Trabalho
Educativo. Tem por missão e visão ser um Movimento de Educação Integral, cuja
ação impulsionada pelos valores humanos, se dirige aos setores empobrecidos,
principalmente crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social, a sua visão
é um mundo onde todas as pessoas possam desenvolver suas capacidades, e viver
com dignidade, construindo uma sociedade justa, participativa, solidária3.
O nosso interesse pela campanha foi despertado gradativamente pela observação
de que a prática do bullying vem ocorrendo há muito tempo. Já presenciamos
inúmeras vezes como educadores, embora não atribuíssemos o devido valor por
imaginar que se tratava de "bullying de arreganho" 4. Nosso empenho se intensificou
diante da maneira como o bullying chegava aos âmbitos internos e externos5, e,
principalmente, pelos danos psicológicos causados aos envolvidos, tendo muitas
vezes reações extremas6.
A violência no espaço educacional requer um olhar atento dos educadores. No
entanto, quando tratamos de violência, visualizados apenas uma série de situações
nas quais os educandos discutem, brigam, trocam chutes, se ferem. Porém o
bullying não pode ser visto somente como qualquer ato de violência, mas, sim, como
2
Projetos socioeducativos são ações complementares à escola e que conjugam educação e proteção
social baseadas em legislação afirmativas que atendem, preferencialmente, crianças, adolescentes e
jovens no contra turno escolar. (CARVALHO e AZEVEDO 2004 apud ZUCCHETTI, Moura, 2010, p,
11).As ações complementares que a FyA, propõem, estão estruturadas em eixos integradores que
são: Cidadania, Movimento Corporal e Vida Saudável, Ler e Comunicar e Educação em Valores
Humanos e Cristãos. (Projeto Político Pedagógico, 2011).
3
Ver: www.fealegria.org.br.
4
Esse termo foi dito por um adolescente quando questionado pela sua participação em um momento
de intervenção acerca de suas atitudes perante a um colega que sofrerá o bullying. Arreganho
significa no contexto dos adolescentes "ofensas de brincadeiras”.
5
Educandos relataram que o bullying praticado dentro da escola, continuava no projeto social.
6
Durante as observações às vitimas manifestavam atitudes de descontrole, isolamento, agressão.
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algo que é praticado constantemente e repetidamente ao sujeito ( FANTE, 2011). A
proposta pedagógica da Fé e Alegria/RS está alicerçada nos parâmetros da
Educação Popular, através das teorias de Paulo Freire e da Pedagogia Inaciana que
ambas buscam a emancipação humana em prol da construção de uma educação
para paz, comprometida com a vida, baseada na igualdade, no respeito à dignidade
humana e na fraternidade.
Acreditamos que o trabalho com a EP7, significa criar, partindo dos pressupostos
ontológicos e epistemológicos em Freire, que se define em três termos: “Todos os
seres são incompletos, porque necessitam uns dos outros; são inconclusos, porque
estão em evolução; e são inacabados, porque são imperfeitos8” e na Pedagogia
Inaciana onde se pontua que:” A reflexão sendo um processo formativo e libertador.
Forma a consciência dos alunos ( suas crenças, valores, atitudes e, até mesmo, sua
forma de pensar), de tal sorte que os desafia a ir além do puro conhecimento e
passarem à ação9."
São através dessas vertentes pedagógicas que apostamos na transformação social
dos educandos de Fé e Alegria. O mundo é injusto para aqueles que não se
comprometem com a educação para modificá-la a favor dos mais explorados e
excluídos
(FREIRE,
2005),
comprometer-se,
elaborar
propostas,
cobrar
e
transformar, são premissas da Educação Popular.
Nas palavras de Paulo Freire, em cujas ideias se enraízam a EP, as práticas
educativas devem estar orientadas para desenvolver a capacidade de ler a realidade
e dizer a própria palavra, o mesmo desenvolve reflexões para o ato de conhecer,
referindo-se que o conhecimento adquire o seu sentido no processo de realização
do ser humano, que por sua vez, concerne à sua ontológica de “ser mais 10”. O
conhecimento faz parte da totalidade da vida humana. Para trabalhar com
7
Educação Popular.
ONTOLÓGIA (Freiriana). In: ROMÃO José Eustáquio. Dicionário Paulo Freire. Belo Horizonte:
Autêntica Editora, 2010. p 292.
9
RUFFIER, Mauricio. Pedagogia Inaciana: uma Proposta prática, 1994, p. 55. Edições Loyola. São
Paulo.
10
Na obra de Pedagogia do oprimido, Freire concebe “ser mais” como desafio da libertação dos
oprimidos como busca de humanização. A partir do diálogo crítico e problematizador. ( Dicionário
Paulo Freire, 2011, p.370)
8
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problemática do bullying é preciso conhecê-lo, buscar o conhecimento em
comunhão.
[...] ninguém educa ninguém, como tão pouco se educa a si mesmo: os
homens se educam em comunhão, midiatizados pelo mundo, pelos objetos
cognoscíveis que na prática “bancária” são possuídos pelo educador que os
descreve ou os deposita nos educandos passivos. (FREIRE, 1983 p,79).
No processo de conhecer definido por Paulo Freire, não há como transferir
conhecimento, ou seja, só haverá intervenção contra o bullying, quando os
educadores e educandos estiverem propriedade/embasamento do que estão
trabalhando. Almeida (2008) destaca que se deve saber diferenciar as práticas do
bullying de brincadeiras turbulentas. Portanto, conhecer é sempre um ato dialógico
que envolve sujeitos “o conhecimento do mundo é também feito através das práticas
do mundo" (Freire, 2011, p.34).
Acerca disso a EP deve ser tomada como meio para transformar pessoas e
sociedade, nas palavras de Esclarín (1990), uma educação que desperte o ser
humano que todos nós trazemos dentro de nós. O trabalho com a educação requer
dedicação,
amorosidade11,
comprometimento.
respeito,
afeto,
tolerância
e
acima
de
tudo
O comprometimento é a “chave” principal para atingir a
transformação humana. Na proposta Pedagógica de Fé e Alegria/RS, assumimos a
EP como meio para transformar pessoas e sociedade, uma vez que, isso só será
possível se formarmos pessoas com paz no coração.
Problematizando o termo Bullying
Como preconiza a EP, a transformação social, só será possível, quando o ser
humano for tratado com justiça, igualdade e respeito. Os espaços escolares formais
e não formais, vivem atualmente com um "mal" que assombra os corredores, as
salas de aula, pátios e refeitórios, estando presente em todo local de convivência e
fortalecimento de vínculos, esse "mal" é denominado, bullying.
11
“A amorosidade freiriana [...] materializa-se no afeto como compromisso com o outro, que se faz
engravidado da solidariedade e da humildade." ( Dicionário Paulo Freire, 2011, p. 37).
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Neste texto, vamos focar as problematizações e as ações de enfrentamento ao
bullying na FyA que é um espaço socioeducativo. Paradoxalmente os centros
socioeducativos têm por práxis ofertar às crianças e adolescentes um ambiente de
convívio a fim de ocupar o seu tempo livre. No entanto, justamente no lugar em que,
em tese, as crianças e adolescentes deveriam aprender a conviver socialmente com
respeito ao outro e a exercitar sua subjetividade sem coerção ( DUQUE, 2007), a
prática do bullying ocorre, o que significa que a prática do bullying não fica restrito
somente nos espaços escolares formais.
Mas o que significa a expressão Bullying?
Na definição de alguns estudiosos acerca desse tema o termo “bully” significa:
valentão, tirano. De acordo com Lopes Neto, Monteiro Filho e Saavedra:
[...] vários estudos foram realizados com as finalidades de verificar os
fenômenos sob diversos aspectos. Hoje é reconhecido que o Bullying, como
fenômeno social, pode surgir em diversos contextos, como parte de
problemas de relações pessoais entre adultos, jovens e crianças em
diferentes locais, como: trabalho (workplace bullying), prisões, asilos de
idosos, ambientes familiares, clubes e playgrounds, entre outros. (2012, p.7)
O termo segundo os autores surge a partir de estudos sobre as relações sociais
conflituosas, analisadas em todas as esferas sociais. Para tanto, Cléo Fante em seu
trabalho Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a
paz (2011) define desse modo:
Bullying: palavra de origem inglesa, adotada em muitos países para definir o
desejo consciente e deliberado de maltratar outra pessoa e colocá-la
sobtensão; termo que conceitua os comportamentos agressivos e
antissociais, utilizados pela literatura psicológica anglo-saxônica nos
estudos sobre o problema da violência escolar. (2011, p.27)
O conceito de bullying é bem definido, uma vez que não se deixa confundir com
outras formas de violência, apresenta características próprias, dentre elas, a mais
grave, traumas ao psiquismo de suas vítimas e envolvidos, aproximando-se do
conceito de preconceito, principalmente quando se reflete sobre os fatores sociais, o
termo é caracterizado por "uma atitude de hostilidade nas relações interpessoais,
dirigida contra um grupo inteiro ou contra os indivíduos pertencentes a ele e, que
preenche uma função irracional definida dentro da personalidade". (Jahoda e
Ackerman, 1969 apud Antunes e Zuin 2008, p. 37).
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Neste cenário os mais atingidos são as novas gerações (crianças e adolescentes),
que sendo “bombardeados” pela mídia, são induzidos a competir ao invés de
compartilhar, são “bombardeados” pela “ditadura” da beleza (esteticamente), do
consumismo, “sufocados” a terem o melhor tênis, as melhores roupas, celulares e
entre outros.
Em diversos meios de comunicação aparecem a violência como solução para os
atos maldosos contra a vida humana, parece contraditório, mas não é, em
determinado horário nobre da telenovela brasileira, aparecem cenas de violência
como "alternativas" para os problemas12, em telejornais os apresentadores utilizamse
do senso comum para deixar claro que a melhor forma de acabar com a
violência é mais violência.
Personagens
Para compreender os sujeitos envolvidos é de fundamental importância identificar e
analisar as suas atitudes. O praticante segundo Fante: “Ele sente uma necessidade
imperiosa de dominar e subjugar os outros, de se impor mediante o poder e a
ameaça e de conseguir aquilo que se propõe”(2011, p.73).
A caracterização da prática do bullying torna-se um subconjunto de atos agressivos,
repetitivos, nos quais evidencia um desequilíbrio de poder dessa forma:
Insultos, intimidações, apelidos cruéis, gozações que magoam
profundamente, acusações injustas, atuação de grupos que hostilizam,
ridicularizam e inferiorizam a vida de outros os levando à exclusão, além de
danos físicos, morais e materiais, são algumas das manifestações do
comportamento bullying (FANTE, 2011, p. 29).
As Vitimas
São crianças e adolescentes que aparentam ser “indefesos”, são escolhidos por
motivos banais, por exemplo: estar fora dos “padrões de beleza”, principalmente as
12
Ver dissertação de mestrado de MURAKAMI Mariane. VIDAS OPOSTAS, VIDAS EXPOSTAS.
A Violência na Telenovela. 2009 disponíveis:
http://www.pos.eca.usp.br/sites/default/files/file/bdt/2009/2009-me-murakami_mariane.pdf. Acessado
em 10/03/13.
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meninas, estar acima do peso, possuir cabelos enrolados, ser magra, estatura baixa,
ser alta, etc... Para o agressor qualquer forma de denegrir a pessoa passa a ser
chacota pelos outros.
Silva (2010) nos chama a atenção ao salientar que:
São indivíduos que não conseguem reagir aos comportamentos provocados
e agressivos dirigidos contra elas. Normalmente são mais frágeis
fisicamente alguma “marca” que as destaca da maioria dos alunos: são
gordinha ou magras demais, altas ou baixas demais, usam óculos, são
“caxias”, deficientes físicos, apresentam sardas ou manchas na pele,
orelhas ou nariz um pouco mais destacados, usam roupas fora da moda,
são de raça, credo, condição socioeconômica ou orientação sexual
diferentes ( SILVA, 2010, p.38).
Para trabalharmos com essa temática tão preocupante precisamos acreditar que é
possível acabar com essa prática tão perversa nos espaços escolares e não
escolares, partindo da conscientização do educador, da família que estará a frente
do enfrentamento, uma vez que eles serão os mediadores da mudança.
O homem chega a ser sujeito por uma reflexão sobre sua situação, sobre
seu ambiente concreto. Quando mais refletir sobre a realidade, sobre sua
situação concreta, mais emerge, plenamente consciente, comprometido,
pronto a intervir na realidade para mudá-la ( FREIRE, 1979, p.19).
No trabalho de intervenção, todos possuem papéis importantes de intervir, sem
reforçar o papel dos agressores ou das vítimas, o diálogo é primordial nestas
situações, pois é importante não estimularem as crianças/adolescentes a revidar a
agressão.
Toda pedagogia segue necessariamente uma filosofia, isto, é, o conceito que se tem
da educação e da pessoa que se pretende formar. Para isso o educador que se
propõem trabalhar contra o enfrentamento, precisa primeiramente acreditar que a
educação constitui uma tarefa de libertação, ou seja, “a ação e a reflexão dos
homens sobre o mundo para transformá-lo" (FREIRE, 1970, p.70).
O trabalho sociopedagógico parte de dois conceitos centrais: autoestima e
cidadania. Autoestima no sentido sociopedagógico, refere-se ao crescimento do
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educando, na sua capacidade de resiliência13 com outros educandos, ao invés de
conformismo, a autoestima estimula a autenticidade e a liberdade.
Já a cidadania pode ser definida como a maturidade social do individuo. Cidadania
significa tanto o conhecimento dos direitos e deveres, quanto o crescimento para
uma melhor convivência coletiva, mais igual e mais justa (KURKI, 2006; MACEDO,
2000 apud RYYNÄNEM, 2011,p.51).
As alternativas de enfrentamento devem pautar-se a partir da realidade dos
educandos, o conhecimento do mundo é também feito através das práticas do
mundo(FREIRE, 2011), ou seja, o educador que estará a frente dessa luta, deve
primeiramente saber como é a relação desses educandos com sua família,
comunidade, escola, para partir desses dados, construir as alternativas.
Apropriando-se desses dados, os educadores terão subsídios para desenvolver
junto com educandos, sua identidade pessoal, familiar e social, oportunizando a se
conhecer, elevando a autoestima e tomando rumo de sua própria realização com os
demais.
Ações que somente através do diálogo poderá ser concretizado, repudiando
qualquer forma de autoritarismo ou agressão. Esse clima deve reinar também na
família, que é a primeira educadora, o que vai exigir da Educação Popular, a
necessidade de trabalhar juntos e de agregar a família na educação de seus filhos.
Para tanto o principio pedagógico essencial, é o amor aos educandos. O educando é
amado e ensinado ao mesmo tempo o educador cresce e se humaniza com amor de
seus educandos (FREIRE, 2005). A Educação Popular como enfrentamento ao
bullying precisa promover uma pedagogia do amor, da saúde, da valorização do
corpo, uma busca pela pesquisa, pela pergunta, do diálogo e da participação
coletiva.
13
A resiliência na infância é definida como a capacidade que as crianças expostas a situações de
risco demonstram na resolução dos seus problemas (Rak & Patterson, 1996 Apud GIL, p,469, 2006 ).
Outros autores destacam que o conceito de resiliência, busca dar ênfase aos elementos positivos que
levam um indivíduo a superar as adversidades. A compreensão do conceito envolve o entendimento
da interação entre a adversidade e fatores de proteção internos e externos ao sujeito, assim como do
desenvolvimento de competência que permitam a uma pessoa obter sucesso diante da adversidade (
Rutter, 1987; Assis, 1990 Apud Schenker , Minayo, 2005, p.711).
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Alternativas ao enfrentamento: ação-reflexão-ação
Método
Todo conhecimento começa pela curiosidade, ensinar requer primeiro fazer a
pergunta, mas não qualquer pergunta, mas sim, aquela que desestabiliza, que
problematiza, mostrando ao educando as contradições, oportunizando atitude de
reflexão e investigação para a solução de seus problemas, de ajudá-lo interpretar a
realidade.
A Educação Popular, prima pelo diálogo, a escuta, a participação coletiva e
democrática, uma das ações que foram desenvolvidas, foi uma assembleia com
todos os educandos e educadores para discutirem a campanha Bullying Zero: eu
curto essa ideia com o objetivo de primeiro mostrar que estamos lutando para
erradicar essa prática no espaço e precisamos da colaboração de todos.
As organizações das turmas estão por faixa etária, ex: turmas A: são crianças de 0611anos; turmas B: 12 - 13 anos; turmas C: 14-17 anos. Neste momento vamos
denominá-las
de
grupo
de
intervenção:
1(crianças);
2
(pré-adolescentes);
3(adolescentes). A partir de diagnóstico das turmas as intervenções foram pensadas
de acordo com a faixa etária e interesse.
O G114 grupo composto por crianças, para o desenvolvimento do trabalho foi
adotado a forma de oficinas, com utilização de multimídias, desenhos e pinturas.
Nos primeiros encontros, estimulamos o diálogo sobre o bullying e troca de
experiências entre os educandos, deixando-os livres para falar sobre seus
sentimentos, criar um espaço para o diálogo é fator primordial para o
enfrentamento15.
Para o G1 foram oportunizadas oficinas de desenhos e pintura que nortearam a
reflexão do bullying, por exemplo: a pintura de desenhos que contenha imagens de
14
15
Vamos denominar de G1, G2,G3 ( os grupos de intervenção).
Esse método foi utilizado para todos os grupos.
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personagens que poderiam sofrer bullying, no contexto escolar (imagens de
personagens magros, gordos, narigudos, baixinhos, altos ), a exibição do desenho
Alvin e os esquilos 2, onde aparece neste desenho animado a perseguição
constante dos esquilos pelos colegas de aula. Após as pinturas o educador
organizou a turma em roda e pediu que cada um "lê-se" seu desenho, perguntando
qual dos desenhos sofrem bullying ou não.
Acerca do desenho animado o educador pediu que a turma fizesse um final
alternativo para o desenho sem repetir o que apareceu nas imagens, com isso,
problematizado as questões referente a exclusão/inclusão, estratégia tomada afim
de trabalhar a importância de colocar-se no lugar do outro.
Para o G2 as estratégias de pinturas e desenhos foram a mesma do G1, porém teve
algumas oficinas voltadas para a pesquisa em jornais e revistas, objetivando a
procura de diversas formas de exclusão que aparecem nos jornais, problematizando
a seguinte pergunta: Qual é o significado das imagens nas propagandas de beleza?
Será que todos nós somos iguais? Esses (as) modelos que aparecem nas
propagandas já sofreram bullying? Após as pesquisas o educador propôs que os
grupos montassem painéis sobre as suas pesquisas e apresentassem para a turma,
respondendo as perguntas.
Para o G3 iniciamos o trabalhado com conceito de Bullying, objetivando trazer o
tema de forma estruturada, possibilitando que o grupo expusesse suas duvidas e
questionamentos, de inicio os educadores relataram suas experiências na
adolescência acerca do bullying que destacando que o termo, não existia, mas sim a
sua prática.
As oficinas objetivaram a explicação e o conhecimento da prática, assim como as
consequências que ocorrem, como estratégia foram exibidos através de vídeos
relatos de pessoas que sofreram bullying durante sua adolescência e como eles
lidaram com isso, logo após a exibição, foi proposto que montassem grupos e foram
distribuídos reportagem sobre o tema, com a seguinte pergunta no cabeçalho: Como
você lidaria com essa situação?
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No laboratório de informática foram produzidos cartazes sobre a campanha e
espalhados
estrategicamente
nos
ambientes
partindo
das
sugestões
dos
adolescentes ex: banheiros, refeitório, pátio, ginásio, salas de aula. Após a
confecção dos cartazes foi perguntado o porque que eles deveriam ser espalhados
estrategicamente e a resposta foi o seguinte: " - Os cartazes devem ser colocados
em lugares onde chame mais a atenção, pois são neste lugares que o bullying
ocorre mais" (F 15 anos).
Trabalhamos com filmes16 onde o objetivo foi problematizar a realidade local e
fictícia, após a exibição foi solicitado que relatassem o que mais chamou a atenção
assim como as práticas de intervenção que apareceram nos filmes, como estratégia
foi proposto que a turma elaborasse um curta-metragem sobre alguma prática de
intervenção.
Considerações finais
Frente aos desafios da Educação Popular que busca uma educação libertadora,
temos como propósito formar cidadão críticos e participativos, prontos para
contribuírem com a mudança, acreditamos que essa mudança inicia no convívio na
harmonia e no respeito mútuo, trabalhar com a EP com crianças e adolescentes é
propor uma educação dialógica.
Este relato procurou diante das considerações, problematizar as ações de
enfrentamento do bullying em ambiente não formal, primeiramente apresentando o
local onde pesquisamos e problematizando as alternativas. Também buscamos o
diálogo com as questões do cotidiano, uma vez que o educador não pode silenciarse perante essa prática tão maléfica, procuramos demonstrar neste espaço os
contextos que autores apresentam acerca do bullying tanto no âmbito escolar quanto
social.
16
Ver: Bullying – Provocações Sem Limites (Bullying, Espanha 2009), Bully (Bully, EUA 2001),
Disponível em: http://www.filmesonlinehd.com/bullying-provocacoes-sem-limites-dublado-online/.
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Por sua vez demonstramos sucintamente como a Educação Popular pode contribuir
de forma pedagógica alternativa para o enfrentamento do bullying, utilizando mídias
de diversas formas como ferramenta, mapeando os focos do bullying, intervindo,
estabelecendo diálogos entre os setores que trabalham com a educação.
Por fim utilizando dessas alternativas, podemos contribuir para o enfrentamento
dessa prática, sendo possível prevenir atitudes de violências e também promover os
valores de tolerância e a solidariedade que tanto buscamos na educação. Apesar da
complexidade que demanda a questão bullying e Educação Popular, reconhecemos
o potencial transformador das práticas de intervenção aqui citado.
Referências
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Trabalho apresentado no curso de bullying: teoria, investigação e programas de
intervenção. Florianópolis. UFSC. 2008
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FANTE, Cléo. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e
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FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
_____________Por uma Pedagogia da Pergunta. 7. ed. São Paulo: Paz e Terra,
2011.
_____________Que fazer: teoria e prática em Educação Popular. 11. ed.
Petrópolis: RJ 2011.
_____________Educação como prática de liberdade: a sociedade brasileira em
transição . Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2000.
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GLICÉRIA GIL: As histórias das crianças: Um estudo sobre competência e
capacidade narrativa com crianças em situação de pobreza. Análise Psicológica
, p 467-484, 2006.
LOPES NETO, Aramis Antonio; MONTEIRO FILHO, Lauro; SAAVEDRA, Lucia
Helena. Programa de redução do comportamento agressivo entre estudantes.
Disponível
em:
<http://www.observatoriodainfancia.com.br/IMG/pdf/doc-154.pdf>.
Acesso em: 15 set. 2012.
SILVA, Beatriz Barboza e. Bullying: mentes perigosas nas escolas. Rio de
Janeiro: Objetiva/Fontanar 2010
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