Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-7: Gilberto de Morães Mendonça - Pag 113 O licenciamento ambiental de petróleo frente às discussões sobre desenvolvimento local: potencialidades e limitações quanto à capacidade de redução de desigualdades sociais Gilberto Moraes de Mendonça1 1. Introdução Nas Ciências Sociais, um dos conceitos repletos de juízos de valor é aquele associado ao termo “desenvolvimento”. Como destaca STAVENHAGEN (1985), desenvolvimento significa mudança, evolução, crescimento, porém ainda não estão definidos os pontos de partida e chegada ou as referências nas quais devem se basear estudos e políticas que buscam promover tal mudança. As questões que se põem para que sejam definidas essas referências podem ser muitas e, como exemplo, têm-se: desenvolvimento de quê e para quem?; de onde para onde?; de pobre a rico?; de tradicional a moderno?; de pequeno a grande? Mesmo assim, o termo é aceito como tema de trabalho e praticam-se as diversas noções desse conceito, seja entre os economistas e sociólogos, seja entre os planejadores e gestores. Outros termos e expressões similares são, também, amplamente usados, tais como “subdesenvolvimento” ou “desenvolvimento perverso” como uma situação desviante de uma noção de desenvolvimento válida, mostrando, assim, que os valores estão postos antes mesmo de se estabelecer um arcabouço consensual de ferramentas para discutir a questão. Não se pode desconhecer o fato de que a disputa do campo semântico do termo “desenvolvimento” apresenta-se como uma arena da política e da hegemonia ideológica vigente. Não se trata, portanto, de um conceito neutro. Sua origem se deu, segundo FAVERO (2003), no seio da economia liberal, cujo objetivo sempre foi apontar caminhos para a reprodução do capitalismo. Por isso mesmo, foi alvo de críticas desde o seu nascimento, permitindo a elaboração de diversas teorias do desenvolvimento. Importa saber se as teorizações e concepções contemporâneas sobre o desenvolvimento trazem, de fato, propostas de alterações estruturais na sociedade, centradas no humano e criadoras de vida digna. Nesse sentido, ressurgem, aqui, outras perguntas clássicas sobre o tema e destacadas por esse autor: quem é o sujeito do desenvolvimento?; quem é o beneficiário do desenvolvimento? 1 Analista Ambiental – Coordenação Geral de Petróleo e Gás – Diretoria de Licenciamento Ambiental – IBAMA. Engenheiro Civil e Agrônomo, Mestre em Ciências em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA/UFRRJ), doutorando em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (PPED/UFRJ). Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-7: Gilberto de Morães Mendonça - Pag 114 A partir de um levantamento sumário sobre as concepções históricas de desenvolvimento e sobre as dinâmicas que envolvem as propostas inseridas no chamado “desenvolvimento local”, o presente artigo pretende apresentar, de forma sucinta, potencialidades e limitações do licenciamento ambiental brasileiro de petróleo e gás no meio marítimo, quanto à sua capacidade de propor redução das desigualdades sociais. Optou-se, para tal, por lançar mão de abordagens de autores que estudam o desenvolvimento e daqueles que tratam do papel do Estado e da participação de atores sociais na elaboração e implementação de políticas públicas, bem como de explanações sobre a prática do licenciamento ambiental dos empreendimentos marítimos de petróleo e gás. 2. As concepções de desenvolvimento em perspectiva histórica COWEN e SHENTON (1996), analisando a obra de diversos autores, dentre eles Malthus, Comte, Marx e Mill, mostram que a ideia moderna de desenvolvimento emergiu na primeira metade do século XIX na Europa e era traduzida como um conjunto de melhoramentos a serem promovidos ante a crise social (pobreza e desemprego) que se sucedeu ao rápido movimento da população do campo para os centros urbanos para dar cabo da expansão da produção industrial. Assim, desenvolvimento era a reconstrução da ordem e combate à miséria social para compensar os efeitos negativos do capitalismo; o progresso somente poderia ser sustentado por meio de uma ação construtivista intencional e a produção industrial e a organização eram aceitas como parte integrante do movimento na direção a um estágio orgânico e positivo da sociedade europeia. Nota-se, aqui, o desenvolvimento ligado à ideia de progresso e o nascimento de um pensamento necessariamente eurocêntrico do termo, bem como a inescapável força com que o conceito é comumente associado ao seu sentido econômico. Foi nesse período que a economia de mercado adquiriu sua maturidade (na Inglaterra e na esteira da Revolução Industrial) e potencializou as diferenças já existentes entre os países em termos de distância entre ricos e pobres, no que diz respeito a seus indicadores socioeconômicos. Mesmo considerando esses fatos, são as três décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, chamada de “era de ouro” do capitalismo (entre os anos 50 e os anos 70 do século passado), que diversos autores registram como sendo o período que marca a explosão do imaginário contemporâneo sobre desenvolvimento. Segundo FALLEIROS, PRONKO e OLIVEIRA (2010), nesse período, consolidou-se a hegemonia do capitalismo no mundo ocidental, pela difusão do “americanismo” (expressão de Antonio Gramsci para designar o modo de vida característico dos norteamericanos no século XX): um conjunto de estratégias dos Estados Unidos da América que, ao se transformarem no principal agente de reconstrução da Europa devastada pela Guerra, Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-7: Gilberto de Morães Mendonça - Pag 115 consolidaram seu projeto societário capitalista frente ao ideário comunista soviético. E ao obterem êxito nessa reconstrução, por meio de significativa melhoria de vida (pleno emprego, consumo de massa, etc.), fortaleceram mundialmente sua posição anticomunista. Também nesse período, foi instaurado, nos países capitalistas centrais, o Estado de bem-estar social e ocorreram, simultaneamente, alto crescimento da industrialização e expansão da produção. As fronteiras nacionais começaram a se flexibilizar, surgiram as empresas multinacionais e uma nova e sofisticada divisão internacional do trabalho. Como salienta STAVENHAGEN (1985), ao longo das décadas citadas anteriormente, predominou uma concepção linear evolucionista sobre o desenvolvimento, tendo como referência o reconhecimento de que determinadas regiões do planeta — a maioria localizada nas colônias e ex-colônias europeias — eram “atrasadas” em termos econômicos, sociais e culturais, algumas delas, também no âmbito político. Esse atraso, conforme entendido na época, se dava nos aspectos da pobreza, fome, baixo produto nacional, baixa renda per capita e baixos padrões de vida. Percebiam-se como remédio para o atraso medidas que fomentassem o crescimento econômico, formuladas e implementadas de diversos modos, a depender da situação diagnosticada, como por exemplo, incentivo à formação de capital, à tecnologia, à educação. Entretanto, o que se percebeu, em seguida, é que nem todos esses fatores agindo em conjunto poderiam solucionar o detectado problema do atraso. Corrobora tal fato o que ressalta MALUF (2000): a partir da segunda metade dos anos 1970 ficaram patentes os impasses teóricos e práticos da promoção do desenvolvimento econômico, a partir do reconhecimento dos limites encontrados nas políticas e programas que buscavam emancipar econômica e socialmente as nações. Diante dessa constatação, houve uma importante distinção entre o crescimento econômico (formulado em termos de produto e renda) e o desenvolvimento em sentido mais amplo, passando o desenvolvimento social e o institucional a serem componentes mais fortes nas discussões. E o subdesenvolvimento não significava mais “ser atrasado”, mas sim “ser dependente e explorado”, passando de um conceito linear a um conceito relacional, ou seja, em termos metodológicos, houve uma mudança de paradigma em relação ao período anterior. 3. A intervenção do Estado e alternativas para se pensar o desenvolvimento A questão da intervenção do Estado e se esta beneficia ou prejudica o bem-estar econômico e social no capitalismo é historicamente recorrente. E defender ou não essa intervenção passam a ser os argumentos centrais na disputa entre projetos políticos que se propõem diagnosticar e equacionar questões econômicas e sociais. Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-7: Gilberto de Morães Mendonça - Pag 116 Em uma economia capitalista existe uma tensão permanente entre dois mecanismos pelos quais os recursos escassos são alocados na produção de bens e serviços e esses são distribuídos entre os cidadãos: o mercado e o Estado. Na esfera política, essa tensão é exacerbada pela democracia e, ideologicamente, pauta o debate contemporâneo em torno do papel do Estado na economia. Conforme REIS (2008), desde meados do século XIX, prevaleceram três teorias ou quadros conceituais, sustentando quatro projetos políticos em disputa: (i) teoria política e econômica liberal, sustentando dois projetos distintos, o liberal-conservador (ou neoliberal) e o liberal-democrata; (ii) teoria marxista, onde se apoia o projeto socialdemocrata; (iii) teoria desenvolvimentista da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe), subsidiando o projeto desenvolvimentista. Entre os anos 1950 e 1980, a discussão atingiu seu auge, principalmente pela apropriação, pelo projeto liberaldemocrata e pela social-democracia, de uma teoria econômica — o keynesianismo — que propunha, por meio da intervenção estatal no funcionamento dos mecanismos de mercado, a elevação e manutenção do bem-estar social. Nesse sentido, o liberal-democrata se distancia do projeto neoliberal, o qual não acredita que as falhas de mercado possam ser corrigidas por meio da intervenção do Estado. Por fim, as contribuições da CEPAL, com pontos em comum com o keynesianismo, forneceram subsídios teóricos para a orientação das ações dos governos nacionais de países da região, no sentido de superarem sua condição por meio da industrialização. Fato é que, entre os anos 1950 e 1970, prevaleceu a visão social-democrata e, dos anos 1980 em diante, voltou a prevalecer a liberalconservadora, que havia dominado no período entreguerras. No que concerne aos países periféricos, no modelo prevalecente de desenvolvimento entre os anos 1950 e 1970, o Estado gestava e implementava uma variante da industrialização orientada para o interior desses países, tendo como meta a substituição de importações. A partir dos anos 1980, instaura-se uma política econômica que, em contraste, alterou quase por completo a intervenção do Estado, com a liberalização do comércio interno e dos investimentos, privatização de empresas estatais e aplicação de uma série de reformas econômicas. Como atestam FALLEIROS, PRONKO e OLIVEIRA (2010), a década marca o início da neoliberalização do mundo, processo capitaneado pelos governos de então da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, o que provocou profundas mudanças em todas as dimensões da vida social, a desregulamentação de todos os mercados, o comércio livre e a mundialização do capital, reforçando a globalização produtiva, financeira e tecnológica e tendo como consequência o aprofundamento das desigualdades sociais. Isto porque, ao fim da década, consolida-se o consenso ideológico global (por vezes, rotulado de Consenso de Washington): uma nova ordem global, onde, conforme EVANS (1997), as prescrições ideológicas angloamericanas Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-7: Gilberto de Morães Mendonça - Pag 117 passam a ser transcritas dentro de regras formais do jogo, com as quais os Estados individuais têm de se comprometer ou, então, arriscarem a se tornar párias econômicos. O receituário foi aplicado aos países em dificuldades financeiras, principalmente aos latinoamericanos. Nesse cenário, o papel do Estado altera-se significativamente, passando a ser, então, o de criar e preservar uma estrutura institucional, de modo a garantir a manutenção da doutrina neoliberal. Nos anos 1990, os efeitos negativos do neoliberalismo provocaram a criação da Terceira Via (também conhecida como “social-liberalismo”), um projeto político que, segundo FALLEIROS, PRONKO e OLIVEIRA (2010), tem a função de desempenhar o papel de nova âncora do capitalismo neoliberal. Esse projeto também tem interferido de maneira intensa no papel do Estado na sua responsabilidade pela execução das políticas sociais, embora diferentemente da doutrina neoliberal: enquanto esta defende a privatização e define que a execução dessas políticas cabe ao mercado, a Terceira Via repassa essa responsabilidade para as organizações da sociedade civil. Dentre outras práticas, o Estado neoliberal da Terceira Via: interfere na legislação e concebe estruturas regulatórias que privilegiam interesses específicos; assume riscos nas parcerias público-privadas; vigia e pune, por meios diversos, a classe trabalhadora; tem o dever de proteger interesses corporativos. Embora receba críticas contundentes, esta é a ideologia hegemônica no início século do XXI em todos os países do chamado “mundo ocidental” e está voltada para a criação de um novo senso comum e um novo padrão de sociabilidade, preservando a lógica da acumulação. O desgaste de cada um dos projetos postos em prática nas últimas décadas fez com que diversos autores venham defendendo, por meio de argumentação teórica e evidências empíricas, que os Estados são vitais para o bem-estar social e econômico de seus cidadãos e que a questão apropriada não é “o quanto” intervir, mas sim “que tipo” de intervenção deve ser processada pelo Estado. Surgem, então, os novos caminhos para se pensar a temática do desenvolvimento, com perspectivas mais amplas e diversificadas. Assim, STAVENHAGEN (1985) propõe um modelo de “desenvolvimento alternativo”, com uma abordagem que envolva vários elementos que nem sempre ocorrem em conjunto. Dentre esses elementos, encontram-se: uma estratégia destinada a satisfazer as necessidades básicas fundamentais de um grande número de pessoas; uma visão endógena, ao invés daquela orientada para exportações e importações; ações válidas do ponto de vista do respeito ao meio ambiente; uso de recursos de forma a ter autossustentação local, nacional e regional; mais participação da sociedade em todos os níveis do processo e menos tecnocracia; aproveitamento de tradições culturais existentes; implantação do “etnodesenvolvimento”, ou seja, respeito e reconhecimento da variedade grupal, tornando Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-7: Gilberto de Morães Mendonça - Pag 118 a etnicidade como aliada do desenvolvimento e da legitimação do Estado-nação e não, como é usual, encoberta ou negada por este último. 4. As noções sobre desenvolvimento local Nas três últimas décadas, ficou patente que a globalização desestrutura a sociedade na periferia e caduca a democracia representativa, potencializando a separação entre dominantes e dominados. Tende a caducar, também, o Estado-nação, o que desfaz a cidadania, caso esta não possa se desenvolver sob sua própria racionalidade, para além da racionalidade burguesa. Tais consequências dos processos de globalização para o Estadonação provocaram o surgimento de novas concepções de desenvolvimento a serem implementadas junto às sociedades situadas no interior dos países. Gestou-se, assim, a ideia de um tipo de desenvolvimento que pudesse promover uma espécie de proteção da realidade local contra os reveses advindos da globalização e que, simultaneamente, elevasse o dinamismo econômico dos territórios em questão, cunhando-se, aí, a expressão “desenvolvimento local”. Exemplos de iniciativas dessa natureza já eram vários, à época, e destaca-se, segundo OLIVEIRA (2001), o desenvolvimento em âmbito local praticado (e bem sucedido) em países europeus, principalmente na Itália, entre a Segunda Guerra e meados dos anos 1980. Ou seja, no seu nascimento, o desenvolvimento local está associado à ideia de um processo a ser construído nos Estados nacionais, pela valorização dos atributos locais, frente à possível desagregação desses atributos promovida pela globalização. O termo “local”, contido na expressão, passou, a partir de então, a ser identificado e significado de formas diversas, a depender da intenção e do discurso de quem pretende implementar alguma forma desse tipo de desenvolvimento ou, mesmo, simplesmente colocá-lo na agenda de debates, sejam estes acadêmicos, políticos, econômicos, sociais. Sendo assim, o que se observa, normalmente, é o “local” como sinônimo de território e os exemplos são dos mais diversos: um determinado país, em uma comparação com os demais ou com outro país específico; uma região que engloba vários países; uma região ou um Estado dentro de um país; um município ou conjunto de municípios; uma comunidade ou localidade dentro de um município. Tudo isso reforça o caráter de territorialidade associado à construção do conceito. Outro caráter inescapavelmente associado ao desenvolvimento local é a sua endogeneidade, o que remete aos grupos sociais que vivem nos territórios em questão, bem como às suas condições de vida, no que diz respeito à cidadania, e ao nível de democracia vivenciado por esses grupos. Nesse sentido, refletir, na atualidade, sobre o que vem a ser desenvolvimento local requer estar atento às atuais tensões na diferenciação entre o que é público e o que é privado, as quais foram enumeradas e comentadas por DUPAS (2003). Dentre essas tensões, para o caso específico da endogeneidade, basta Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-7: Gilberto de Morães Mendonça - Pag 119 observar os fatos citados pelo autor no que concerne à cidadania, descritos, resumidamente, nessa sequência: (i) os mercados globais construíram a metáfora da soberania popular triunfando sobre Estados coercitivos para garantir a liberdade individual, de modo a que o individualismo fosse afirmado como único caminho de inclusão e de sucesso; (ii) essa exaltação desmesurada da individualidade implicou crescente volatização da solidariedade; (iii) a intensificação do narcisismo leva tanto à emancipação do indivíduo quanto a uma aversão à esfera pública, o que causa a consequente degradação desta; (iv) a esfera privada passa a ser, assim, percebida como o único locus possível de liberdade, o que gera progressiva privatização do conceito de cidadania. OLIVEIRA (2001) segue essa linha, sublinhando que a noção de desenvolvimento local, como qualidade, ou se apoia na cidadania, ou então será apenas sinônimo de uma certa acumulação de bem-estar e qualidade de vida nos âmbitos mais restritos. Sob essa perspectiva, a noção de cidadania a nortear a tentativa de mensuração dos processos e estoques de bem-estar e a qualidade de vida deve se referir ao indivíduo autônomo, crítico e reflexivo, longe, portanto, do indivíduo-massa; ou seja, trata-se de uma aquisição por meio do conflito. O autor salienta que o desenvolvimento local é uma noção polissêmica que comporta tantas quantas sejam as dinâmicas de busca do exercício da cidadania e, portanto, qualquer tentativa de transformá-lo em modelos paradigmáticos está fadada ao fracasso. Segundo ele, essas dinâmicas poderiam criar um espaço de interação entre cidadãos e recuperar a autonomia na gestão do bem comum, fazendo com que, dessa forma, o governo poderia estar ao alcance das mãos dos cidadãos. Destaca, entretanto, que a maior parte das definições e ensaios de desenvolvimento local, a rigor, assemelha-se mais com adaptações dos dominados do que com alternativa à dominação. Para romper essa fronteira, ele sugere que seja inventado, ao longo do processo, um novo recurso que não possa ser anulado e que se configure como tendência contrária aos processos dominantes. 5. Aspectos sobre a participação social nos processos de desenvolvimento No que concerne à relação entre os atores, cabe aqui tecer considerações sobre a constituição e as formas de ação política dos grupos sociais e sobre a categoria nomeada de “sociedade civil” e as contradições existentes na inserção desta no debate contemporâneo sobre a democracia, no Brasil e demais países da América Latina. DAGNINO, RIVERA e PANFICHI (2006) salientam que os espaços públicos são as instâncias deliberativas que dão voz aos atores sociais, instâncias estas que não são monopolizadas por um único ator social ou político ou pelo próprio Estado. É certo que nessas instâncias, como sustentado pela teoria da sociedade civil, a ação política se faz presente, pois ela é parte da lógica da própria sociedade civil, cujos atores, quando Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-7: Gilberto de Morães Mendonça - Pag 120 defendem seus projetos na esfera pública e constroem a ação coletiva, estão fazendo política e disputando espaço de poder. Mas, por refletir a multiplicidade social e política, as instâncias são, também, a arena de reconhecimento da diversidade de conflitos, interesses e opiniões na busca por caminhos que estabeleçam igualdade de recursos aos participantes do processo, em termos de informação, conhecimento e poder. FAVERO (2003) alerta, contudo, que o lugar, o papel e o significado dos grupos e movimentos sociais nas dinâmicas do desenvolvimento são definidos em função de quem detém a primazia da determinação dos rumos dos processos. Os diversos grupos sociais, ao longo da história, transitam entre mercado e Estado e, assim, constroem conotações diversas para a ideia de desenvolvimento, o que, na prática, acaba por ser de difícil compreensão, para os diversos atores, o que seja participar ativa ou passivamente dos processos em curso. OLIVEIRA (2001) chama a atenção para o não reducionismo da sociedade civil ao desenvolvimento local e para uma conceituação não apaziguadora tanto da sociedade civil quanto do desenvolvimento local. Cita, então, Antonio Gramsci, no sentido de sublinhar que a sociedade civil é o lugar do conflito pela hegemonia. No Brasil, o autor salienta que, nos discursos governamental, da mídia, das entidades filantrópicas privadas, das organizações não governamentais, da “nova ética empresarial” e em certos discursos acadêmicos, todos pautados pela doutrina neoliberal, a sociedade civil passou a designar um lugar do “não conflito”, onde os interesses não aparecem, e a cidadania virou sinônimo de harmonia, de paz social. Essa visão não é apenas falsa conceitualmente, mas também nas práticas social e política, pois que reduz a sociedade civil ao âmbito dos atores privados. FONTES (2006) salienta que Gramsci, ao estabelecer seu conceito para sociedade civil, forjou um instrumento precioso de análise e compreensão das sociedades capitalistas avançadas. Como o capitalismo sempre produz classes dominantes e subalternos explorados, é na análise da correlação de forças e da organização das classes dominantes e do Estado que se apoiam as ideias desse pensador. A autora ressalta que antes das formulações de Gramsci, os estudiosos davam ao conceito de sociedade civil um sentido que abarcava os interesses, o mercado, a concorrência. Com Gramsci, o conceito é recriado e a sociedade civil passa a ser compreendida como inseparável da noção de totalidade, ou seja, da luta entre as classes sociais, das relações sociais de produção. É o local da consolidação dos projetos sociais e das vontades coletivas, não havendo, portanto, separação ou oposição entre sociedade civil e Estado: Gramsci compreende a sociedade civil como o “Estado integral”; ou, na expressão cunhada por BUCI-GLUCKSMANN (1980), o “ Estado ampliado”. Como declara a autora, essa ampliação do Estado na perspectiva gramsciana se dá nos “pontos de fusão” entre Estado e sociedade, os quais ocorrem por meio da união de frações da classe dominante com unidades da classe burguesa e por meio Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-7: Gilberto de Morães Mendonça - Pag 121 dos vínculos ideológicos e materiais da classe dominante com suas bases. O Estado, em vez de ser reduzido a um instrumento externo às relações sociais, articula-se a elas na forma de dominação de classe, qual seja, um processo de organização do consenso de uma ampla camada da população em torno da política da classe dominante, por meio dos aparelhos de hegemonia. É importante frisar que, na América Latina, como discorrido por MESCHKAT (2000), o conceito de sociedade civil se difundiu quando quase todos os governos eram ditaduras militares: o “civil” era o “não militar”. Esse contexto é bem distinto daquele que existia nos países do chamado socialismo real; porém, em ambos os casos, tratava-se de um esforço para fazer retroceder o Estado e buscar espaço para os grupos sociais. Contudo, deve-se lembrar que nem todas as associações civis foram eliminadas pelos governos militares: associações empresariais existiram livremente, apoiando os regimes enquanto estes garantissem a ordem. O que foi destruído pelos militares foi a outra parte da sociedade civil: as organizações e movimentos sociais das camadas mais baixas da população, dentre elas, campesinos, operários, indígenas, moradores — o conjunto dos oprimidos e explorados da sociedade. Na atualidade, a expressão “sociedade civil” ainda figura como lema para apoiar esforços dos excluídos para alcançar cidadania e como um conceito que legitima a tentativa de acesso às novas ou revividas estruturas democráticas em nível nacional e local. Porém, como assinala o autor, há uma tendência de evocar a expressão para sair da necessidade de confrontações entre forças opostas e desenhar um mundo livre de dominação, equiparando a sociedade civil com a economia de mercado. É preciso, então, cuidado para que um lema de emancipação não seja convertido em um elemento da ideologia dominante. Nesse sentido, é indispensável realizar um esforço para entender o contexto no qual surgem e vão se modificando os conteúdos dos conceitos políticos. Para LOBATO (2006), em países capitalistas de industrialização retardatária (como os da América Latina) a formulação de políticas públicas tem outros complicadores. No Brasil, onde o processo de acumulação está associado à intervenção do Estado em quase todos os setores da sociedade, a identificação das formas de relacionamento Estadosociedade é ambígua e de difícil apreensão. Por um lado, a ausência quase total e quase frequente, ao longo do tempo, de sistemas representativos legítimos; a exclusão de amplos setores sociais do processo político; e um tratamento variante entre a cooptação dominadora e a coerção estrita sobre os setores populares. Por outro lado, as mesmas características da acumulação vêm induzindo a uma complexidade na dinâmica social por meio da convivência de padrões diferenciados de relacionamento entre diferentes segmentos sociais e destes com o Estado e gerando formas pré-capitalistas ou marginais ao processo dominante, junto com formas típicas do capitalismo avançado. A autora destaca, Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-7: Gilberto de Morães Mendonça - Pag 122 como outros complicadores, a ausência de sistemas partidários fortes, a ainda fraca organização de grupos pluralistas de interesse e a presença persistente, na sociedade brasileira, do clientelismo, forma que conviveu juntamente com o corporativismo populista dos períodos burocraticoautoritários e se mantém forte como canal de relacionamento com a sociedade. 6. Contradições que permeiam as noções de desenvolvimento local O deslocamento da territorialidade do plano nacional para o plano local, para se pensar o desenvolvimento, veio acompanhado, segundo REIS (2008), da diversificação de atores envolvidos nos novos fluxos de mercadorias e de capitais do processo de globalização, o que provocou estudos para compreensão da formação e articulação de redes e do papel do terceiro setor. Induziu, também, os Estados a se empenharem em pesquisas para identificar a disponibilidade de recursos junto a atores internacionais e nacionais, onde possam ser engendrados os novos tipos de práticas desenvolvimentistas. Assim, encontram-se projetos de desenvolvimento local financiados: por empresas (por conta de responsabilidade social, por exemplo); por organizações de países, como o PPG-7 (grupo dos sete países mais desenvolvidos); por instituições religiosas nacionais e internacionais; pelo Banco Mundial; por fundações privadas e organizações não governamentais diversas; pelos próprios agentes públicos (municípios, Unidades da Federação, fundações e órgãos públicos). O autor alerta que isso não implicou, entretanto, redução, tanto da desigualdade política e econômica, quanto da dificuldade de emparelhamento verificada anteriormente entre os países, bem como da assimetria de poder entre os atores envolvidos. Isto porque, muitas das iniciativas de desenvolvimento local padecem de uma descontinuidade espacial, temporal e cultural, levando-as ao fracasso e ao desperdício de tempo, energia e esperança quanto aos sentidos de melhoria das condições almejados, embora sucesso e fracasso sejam percebidos de forma diferente pelos atores envolvidos. Além disso, muitos dos projetos de desenvolvimento local, na atualidade, mesmo que surjam com a pretensão de solucionar os dilemas da exclusão social, são inócuos frente à escala dos problemas e despolitizadores quanto às questões sociais — nesse quadro, como ressalta DUPAS (2003), ganham destaque aqueles incluídos na nova tendência de responsabilidade social das empresas. Isto porque, essas ações pressupõem a desqualificação do poder público, desconhecendo a possibilidade de decisão pelo enfrentamento do conflito, o que é viabilizado pelas políticas públicas ao criar compromisso e envolvimento dos cidadãos. Pensar o desenvolvimento local requer considerar que ele se caracteriza por ser eminentemente endógeno. Muitas vezes, a percepção de quem concebe ou financia os Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-7: Gilberto de Morães Mendonça - Pag 123 projetos de desenvolvimento local e está posicionado “fora do local” não coincide com a percepção dos atores locais. Assim, conforme REIS (2008), um dos principais problemas dos projetos está relacionado aos quadros institucionais que encaminham os conflitos e as potencialidades (por exemplo, governança local, disponibilidade de recursos, coordenação e articulação de interesses e dos atores). Na tentativa de romper esses limites, as teorias e enfoques de construção de estratégias de desenvolvimento local vêm introduzindo ou reformulando conceitos diversos, tais como: solidariedade social (economia solidária, economia popular e solidária, economia social); perspectiva ampliada de capital (“ativos de capital”: produtivo, humano, político, social, cultural, ambiental); associação de processos sociais e instituições (inovações e especificidades locais; condicionantes estruturais de cada local; criatividade coletiva; experiências e acumulação de competências; cooperação e intercâmbio entre os atores). Lembra-se que, nas últimas décadas, surgiu uma abordagem que dá às instituições um papel central para se pensar os processos de desenvolvimento. Em que pesem todas as tentativas de teorizar sobre alternativas de desenvolvimento local, é preciso alertar que vários dos elementos citados acima estão enredados na corrente da Terceira Via, que, conforme comentado no item 3 deste trabalho, está situada em países centrais e periféricos e vem operando a ideologia de que a ordem do capital é imutável. Segundo LEHER (2010), essa operação transcorre em diversos países da América Latina, por meio de muitas mudanças ocorridas nos anos 1980 e 1990, as quais vêm reconfigurando a esquerda e, também, a direita desses países, convergindo ambas para um ponto comum. Dessa forma, se forja um aprofundamento do padrão de acumulação capitalista com alto grau de consentimento popular, mesmo com a permanência de desigualdades sociais brutais, da violência da expropriação de terras e direitos sociais e da derrocada das políticas de caráter universalista. Para melhor compreensão desse processo, faz-se necessário observar as ressignificações da socialdemocracia europeia, que nas últimas décadas, assimilou o neoliberalismo e passou a ser operadora das políticas neoliberais, redefinindo a agenda da social-democracia mundial e possibilitando o estabelecimento de um tipo de governo social-liberal em diversos países. 7. O licenciamento ambiental de petróleo e o desenvolvimento local Em outro artigo da presente coletânea, intitulado “Os impactos socioambientais e as medidas mitigadoras/compensatórias no âmbito do licenciamento ambiental federal das atividades marítimas de exploração e produção de petróleo no Brasil”, foram resumidamente descritos a atividade marítima de exploração e produção petróleo e gás, seus riscos e impactos e o licenciamento ambiental dos empreendimentos, o qual está sob Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-7: Gilberto de Morães Mendonça - Pag 124 responsabilidade da Coordenação Geral de Petróleo e Gás (CGPEG), vinculada à Diretoria de Licenciamento Ambiental (DILIC) do IBAMA. Cabe, aqui, trazer outros elementos desse licenciamento, de forma a subsidiar reflexões sobre esse instrumento de política pública e suas potencialidades e limitações frente à discussão anterior sobre desenvolvimento local, reflexões estas que são complementares às levantadas no citado artigo. Para tal, foram utilizadas as medidas mitigadoras e compensatórias associadas aos impactos no meio socioeconômico configuradas em projetos cujas ações educativas buscam ter um caráter crítico e transformador. Nomeadamente, o Plano de Compensação da Atividade Pesqueira (PCAP) e o Projeto de Educação Ambiental (PEA). As reflexões focam, então, três pontos específicos: (i) os municípios onde se realizam tais medidas; (ii) os grupos sociais inseridos nessas medidas; (iii) a legislação que dá suporte ao licenciamento e que pauta as decisões do quadro técnico da CGPEG. Quanto aos municípios e aos grupos sociais, é preciso ter em conta que há critérios para definição da área de influência dos empreendimentos marítimos. Conforme visto no referido artigo, na atividade de petróleo e gás são licenciados empreendimentos de três tipos— Pesquisa Sísmica; Perfuração; e Produção & Escoamento — e os impactos se dão nos meios físico, biótico e socioeconômico. No que tange ao meio socioeconômico, por mais distante da costa que se pretenda implantar um empreendimento, sua área de influência são os municípios costeiros onde há comunidades que realizam atividades econômicas (tais como pesca artesanal, turismo ou outras que venham a ser identificadas) na área do mar requerida pelo empreendimento. Devem ser consideradas a área de exclusão promovida pela atividade do navio sísmico (o que inclui o levantamento de dados e a área de manobra do navio) e aquela do entorno da unidade marítima (plataforma ou sonda) e do sistema de escoamento (dutos), bem como o aumento do tráfego de embarcações de apoio ao empreendimento e as rotas dessas embarcações até as bases de apoio, incluindo os portos ou terminais. Em empreendimento de Produção & Escoamento, também devem ser incluídos os municípios que, por definição da legislação, irão receber royalties quando do início da operação da atividade. De norte a sul do Brasil, são 16 as bacias sedimentares que abrangem a região costeira e oceânica e, sob responsabilidade da CGPEG, há processos de licenciamento de empreendimentos localizados na área marítima adjacente a vários Estados. Os empreendimentos de Sísmica e de Perfuração vêm ocorrendo sistematicamente desde a Bacia da Foz do Amazonas, situada no extremo norte, à Bacia de Pelotas, situada no extremo sul. No que diz respeito à Produção& Escoamento, há empreendimentos licenciados que se encontram frontais aos Estados de São Paulo, Bahia, Sergipe e Rio Grande do Norte, mas a maior concentração de empreendimentos (e dos processos de Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-7: Gilberto de Morães Mendonça - Pag 125 licenciamento) se encontra, atualmente, na Bacia de Campos, área marítima que se estende de Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro, até próximo a Vitória, no Espírito Santo. A título de ilustração sobre a potencialização dos conflitos gerados pelo uso do espaço marítimo, basta observar o tráfego acrescido pela indústria de petróleo off shore somente na Bacia de Campos, onde operam, atualmente, mais de 100 embarcações, exclusivamente para essa atividade. E não são embarcações de pequeno porte. De uma forma geral, uma embarcação lançadora de linha (que instala os dutos de escoamento no assoalho marinho) chega à arqueação bruta de 25.000 t, podendo abrigar cerca de 200 trabalhadores. O navio sísmico se situa em uma faixa que está entre 2.000 e 4.000 t de arqueação bruta. Um barco de apoio ou de emergência, entre 4.000 e 10.000 t. E mesmo as consideradas menores, geralmente, têm mais de 400 t. Para efeito de comparação, uma traineira comumente utilizada na pesca artesanal na costa fluminense encontra-se na faixa de 10 a 20 t de arqueação bruta, onde atuam, em média, de 5 a 8 pescadores. E a julgar pela Produção nos megacampos do pré-sal, na Bacia de Santos (área marítima que se estende de Florianópolis a Arraial do Cabo), todas as questões sobre gestão socioambiental nos municípios costeiros fluminenses irão se intensificar, independentemente da discussão sobre alteração na atual legislação sobre royalties. Assim, em diversos municípios da costa há PCAPs e PEAs sendo realizados, envolvendo comunidades pesqueiras e outros grupos sociais, com as mais díspares dinâmicas sociais, econômicas e culturais e distintos níveis de organização social. Disso decorre que, nas ações participativas desenvolvidas em cada um desses Projetos, nas quais se pretende que sejam exercitadas práticas democráticas e cidadãs, além de resultados coletivos, há que se compreender e reforçar as características de cada grupo trabalhado e respeitar seu ritmo de construção coletiva de ações. Isto para não incorrer no fracasso, alertado por OLIVEIRA (2001) no item 4, caso se pense em promover alguma espécie de desenvolvimento local em uma comunidade, aplicando-se modelos extraídos de outras. Essa compreensão e respeito, caso sejam praticados pelos executores dos Projetos, em última instância, vão ao encontro do caráter de territorialidade e de endogeneidade associados à construção do conceito de desenvolvimento local, também discutidos no mesmo item. Os PCAPs e PEAs exigidos pela CGPEG e atualmente desenvolvidos em municípios do Estado do Rio de Janeiro fazem parte de condicionantes de licenças ambientais das dezenas de empreendimentos localizados na Bacia de Campos e na Bacia de Santos (muitos desses Projetos abrangem, também, municípios do Espírito Santo). São cinco os PEAs vinculados a licenças de empreendimentos de Produção & Escoamento desenvolvidos nos 13 municípios costeiros entre Saquarema e São Francisco do Itabapoana: PEA-BC, Pólen e NEA-BC, da Petrobras; PEA-Devon; PEA-Shell. São Projetos de longa duração, em ciclos de Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-7: Gilberto de Morães Mendonça - Pag 126 dois ou três anos, pois estão associados ao tempo de duração dos empreendimentos, o que pode se estender por até 30 anos (exceção ao da Devon, que tem duração de 9 anos). O PEA-BC trata-se do Programa de Educação Ambiental da Bacia de Campos (em construção) e irá abrigar todos os Projetos de Educação Ambiental existentes e futuros na região, inclusive os citados. O Pólen (assim como o NEA-BC) se desdobra em um projeto por município, onde estão sendo discutidos, dentre outros temas: controle social sobre os royalties; gestão socioambiental em manguezais e lagoas; planos diretores municipais; organização comunitária. Os públicos são diferenciados: jovens, pescadores, moradores, organizações da sociedade civil, professores. O PEA-Devon debate problemas socioambientais, por meio da instrumentalização de jovens em oficinas de cinema e exibição e discussão pública dos filmes realizados. O PEA-Shell trabalha as questões socioambientais com as comunidades quilombolas presentes nos municípios. Quanto aos empreendimentos de Sísmica e de Perfuração, há mais três projetos atualmente em andamento. O Projeto de Caracterização Regional da Bacia de Campos (PCR/BC), da Petrobras, com duração prevista de dois anos, desenvolve-se em 11 municípios litorâneos (entre Saquarema e São Francisco do Itabapoana) e envolve a caracterização dos meios naturais (físico e biótico) e social. Estão vinculados subprojetos de monitoramento ambiental, monitoramento do desembarque pesqueiro em 14 pontos distribuídos nos municípios do Projeto e caracterização socioeconômica da atividade pesqueira (perfil de pescadores e domicílios). Os outros dois projetos têm prazos flexíveis, com mínimo de dois anos, em função das especificidades e do andamento das ações previstas: o PCAP da Petrobras se desenvolve em Casimiro de Abreu, Macaé, Quissamã, Campos dos Goytacazes, São João da Barra e São Francisco do Itabapoana; e o PEA da empresa OGX, em Arraial do Cabo, Cabo Frio, Armação de Búzios, Macaé, Campos dos Goytacazes, São João da Barra, São Francisco do Itabapoana. A experiência da CGPEG tem mostrado que no litoral de um mesmo Estado e até de um mesmo município, os Projetos se desenvolvem de forma absolutamente diferente, em termos de conquistas, progressos e retrocessos, devido, principalmente, ao nível diferenciado de organização social encontrado de um grupo social para outro. Destaca-se, sobretudo, um costume muito arraigado em diversas comunidades, que é o de contar com práticas clientelistas e assistencialistas, promovidas historicamente por políticos e elites empresariais diversas, além do baixíssimo nível (ou total ausência) de organização social de vários desses grupos e, por desdobramento, a pouca prática de participação social, cenário relacionado a fatores históricos, muito comum em toda a sociedade brasileira. A diferenciação na organização social dos grupos é um dos principais motivos pelos quais a CGPEG encontra dificuldades na mensuração qualitativa e na construção de indicadores que permitam retratar com clareza os avanços e sanar, de modo mais célere, os impasses Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-7: Gilberto de Morães Mendonça - Pag 127 verificados ao longo dos Projetos. Soma-se a isso a dificuldade de incorporação, pelas empresas de petróleo e pelas empresas consultoras que conduzem os Projetos, dos princípios propostos e das orientações pedagógicas do IBAMA para serem aplicados na execução dessas medidas mitigadoras e compensatórias. O cenário dessas comunidades confirma as constatações acerca da fraca organização de grupos pluralistas de interesse neste país e da prática de clientelismo, presentes nas ponderações de LOBATO (2006), no item 5. Remete, também, ao baixo nível de democracia vivenciado por esses grupos, conforme comentado no item 4. Essas características dificultam o entendimento, por parte dos grupos trabalhados, sobre a vulnerabilidade aos impactos da atividade de petróleo a que estão sujeitos, bem como sobre as funções do licenciamento e os objetivos dos Projetos. Junta-se a isso outros agravantes, bastante percebidos pela prática do licenciamento na CGPEG, tais como o risco de cooptação de lideranças locais ou, então, a resistência à implementação de medidas de cunho participativo devido ao interesse na manutenção do status quo por atores locais. No que concerne à legislação e às decisões do quadro técnico da CGPEG, vale assinalar que a flexibilidade contida em toda norma legal, quando se trata do “como fazer”, dá margem a diversos tipos de iniciativas por parte dos órgãos executores da política ambiental. Nesse caso, é fundamental a vontade política para criar, manter e fortalecer quadros técnicos nas distintas Coordenações da DILIC/IBAMA e nos órgãos ambientais estaduais, nas suas respectivas competências, o que remete ao comentário do item 6 sobre quadros institucionais mediando conflitos. Este é um dos fatores de maior peso na diferença entre os licenciamentos ditos mais burocráticos e aqueles que implementam e renovam procedimentos por meio da discussão técnica após a verificação prática do cumprimento de condicionantes das licenças concedidas. Ou seja, não se pode perder de vista a perspectiva histórica e a dinâmica do processo de licenciamento. Não existe procedimento pronto e acabado, quando se quer dar forma concreta ao que determina cada lei, decreto, resolução. No licenciamento de petróleo, a experiência tem evidenciado que, para a construção de cada procedimento, são necessários: (i) os avanços anteriores e o envolvimento e constância nas discussões dos Grupos de Trabalho formados por Analistas Ambientais da CGPEG; (ii) a associação das discussões com as práticas de rotina e com a participação da sociedade, o que se dá por meio de reuniões com as empresas, verificação da implementação dos projetos no campo, audiências e consultas públicas. E o licenciamento não é interrompido enquanto é discutido. A permanência de Analistas no setor por tempo suficiente para que sejam sedimentadas as práticas e criada massa crítica em torno dos diversos temas tratados, aliada à entrada de novos concursados, reforçando essa dinâmica, é o que tem permitido avanços no processo de Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-7: Gilberto de Morães Mendonça - Pag 128 licenciamento e melhorias nas medidas de monitoramento, mitigadoras e compensatórias. O que não quer dizer que todos os Projetos estejam em perfeito andamento e que o número atual de Analistas esteja satisfatório para a cada vez maior demanda por licenciamento desses empreendimentos. 8. Considerações finais São diversos os juízos de valor e as premissas presentes nos debates que envolvem as questões do desenvolvimento e, dessa forma, faz-se necessário um recorte que possibilite dar conta de apresentar, a priori, o que está pautando cada debate. As questões se complexificam quando a expressão “desenvolvimento local” está presente. Nesse caso, há necessidade de cautela em qualquer observação sobre o discurso que envolve o termo “local” no debate. Por vezes, as especificidades de uma dada comunidade podem não estar contempladas ou traduzidas de forma evidente, o que torna frustrante qualquer iniciativa quanto à idendidade dos comunitários ou à busca da melhoria de suas condições de vida. Um aspecto a nortear o debate sobre qualquer projeto de desenvolvimento local, no sentido de se evitar as possíveis frustrações nas ações a serem implementadas, é a apropriação das práticas sociais locais como fator de produção, cuidando para que não sejam moldadas de forma a comprometer o bem-estar coletivo e para que o resultado sejam indivíduos críticos e reflexivos. Por outro lado, o debate não pode se furtar, também, à questão da influência da hegemonia do projeto neoliberal nos planos nacionais e locais, que faz com que várias ações levadas em uma dada localidade não sejam capazes de transformar estruturalmente o próprio local, reproduzindo as desigualdades no tempo e no espaço, ainda que o desenvolvimento local esteja sendo perseguido de forma persistente. O desenvolvimento local, como bem lembra DELGADO (2001), não é simplesmente uma questão de acesso ou disponibilidade de recursos econômicos e naturais. Requer, também, a criação das condições para que as comunidades tenham acesso, não somente a recursos para sobreviver, mas a componentes que as auxiliem a dar significado ao mundo, construir uma identidade, agir, se reproduzir socialmente e mudar normas e regras que governam o controle e uso dos diversos recursos. Atualmente, no licenciamento ambiental marítimo de petróleo e gás praticado no Brasil, os aspectos citados anteriormente são considerados nas orientações e metodologias exigidas pela CGPEG às empresas, para serem incorporadas em projetos associados aos grupos sociais afetados pelos empreendimentos. Os projetos têm evidenciado que, por um lado, há potencialidades no licenciamento quanto à emancipação desses grupos sociais, mas há, em paralelo, limitações associadas às características dos próprios grupos, a questões intrínsecas ao processo de licenciamento e à pouca cultura, no meio empresarial, de lidar com processos sociais emancipatórios. Além disso, o licenciamento não tem as funções de uma política pública, senão de um instrumento de política e, portanto, não Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 1-7: Gilberto de Morães Mendonça - Pag 129 pode dar conta de todas as condições e problemas que redundaram nas desigualdades sociais vivenciadas há tempos pelas comunidades que, na atualidade, se encontram vulneráveis aos impactos dos empreendimentos. Todos esses elementos tornam-se balizadores quando da intenção de se tratar de desenvolvimento local junto a esses grupos sociais. BIBLIOGRAFIA BUCI-GLUCKSMANN, Christine. Gramsci e o Estado. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. COWEN, Michael; SHENTON, Robert W. Doctrines of development. London: Routledge, 1996. DAGNINO, Evelina; RIVERA, Alberto Olvera; PANFICHI, Aldo. Para uma outra leitura da disputa pela construção democrática na América Latina. In: (Org.). A disputa pela construção democrática na América Latina. 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