Camila
A COBERTURA INTERNACIONAL EM UM VEÍCULO
DE COMUNICAÇÃO REGIONAL:
O CASO DIÁRIO DO GRANDE ABC
Autora: ESCUDERO, Camila.
Formada em Jornalismo pela UMESP,
pós-graduada em Comunicação Jornalística
pela PUC-SP e mestranda da
UMESP em Comunicação Social.
UMESP – Universidade Metodista de São Paulo
2
São Bernardo do Campo, abril de 2005
Resumo: O que leva um jornal regional — que além de estar distante em termos
geográficos, editorial e ideológico dos assuntos mundiais — a publicar notícias da
agenda internacional, bem como de que maneira esta cobertura é feita? Após analisar a
cobertura da agenda internacional do Diário do Grande ABC e compará-la com a de a
Folha de S.Paulo e de O Estado de S.Paulo, concluímos que: a cobertura regional de
temas internacionais sofre pressões internas (referentes à importância de assuntos
políticos na região e da prestação de serviços em determinada comunidade), mas não
externas (uma vez que não se deixa influenciar na sua totalidade pela massificação das
notícias dos veículos de comunicação em geral). O leitor, ao comprar um jornal
regional, sabe que vai encontrar notícias de sua região; se a publicação trouxer como
“plus” notícias internacionais ele pode até consumi-las. Porém, esta não é sua intenção
e/ou preocupação inicial, uma vez que não há demanda (de acordo com a técnica de
pesquisa adotada) por esse tipo de informação entre os leitores de um jornal regional.
Este paper é resultado parcial da monografia de Lato Sensu apresentada em 2002 junto à
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Palavras-chave: jornalismo internacional; veículo de comunicação regional
INTRODUÇÃO
O que é mais importante para você:
1. O que acontece na política da sua cidade ou o prato preferido do
ministro da Malásia?
2. A qualidade de vida no ABC ou o aumento dos aluguéis na Cracóvia?
3. O resultado do jogo do seu time ou a final de bandminton em Buffalo?
4. O aumento de empregos no Grande ABC ou o acidente de charretes em
Madagascar?
Estas foram algumas das perguntas veiculadas na campanha publicitária do
jornal Diário do Grande ABC lançada em 19 de agosto de 2001. Sob o título O Nosso
Jornal, a propaganda1 teve como foco principal ressaltar a importância de manter o
leitor bem informado ao destacar principalmente o que acontece no Grande ABC, como
complemento das principais notícias do Brasil e do mundo. As questões propostas
levam o leitor a uma reflexão sobre a mídia e o conteúdo da notícia que melhor atende
1
Diário do Grande ABC, 19 de agosto de 2001. Diário reforça opção regional em campanha. Matéria
publicada na página 3 do caderno de Economia & Negócios, explicando os procedimentos e objetivos da
campanha publicitária, bem como anunciando seu lançamento.
3
suas necessidades de conhecimento e atualização. De acordo com o diretor comercial do
Diário, Oscar Osawa2, “as interrogações (acima) evidenciam a tese adotada pelo jornal
de que o que acontece na região prevalece sobre os fatos do Brasil e do mundo para
quem trabalha ou mora no Grande ABC (sic). O jornal é regional por opção estratégica
e concorre com veículos da Grande São Paulo que raramente divulgam notícias da
região. Assim, pretende-se mostrar que o nosso jornal é um veículo que causa impacto
na vida dos leitores que trabalham ou moram na região”.
Esta campanha vem ilustrar perfeitamente o tema deste trabalho: a importância e
função do Jornalismo Internacional e sua cobertura em um veículo de comunicação
regional, tendo como estudo de caso o espaço da agenda internacional no Diário do
Grande ABC, desde sua fundação (em 11 de maio de 1958, quando circulou pela
primeira vez sob o título de News Seller), até os dias de hoje (especificamente dezembro
de 2000, delimitando assim o período de jornais analisados). O objetivo é esclarecer o
que leva um jornal regional — que além de estar distante em termos geográficos,
editorial e ideológico dos assuntos mundiais e propõe-se a atender determinada
localidade — a publicar notícias da agenda internacional, bem como de que maneira
esta cobertura é feita. Esclarecemos que o Diário do Grande ABC visa atender com
informações, prestação de serviços, classificados, notícias variadas etc. aqueles que
integram a região denominada ABC Paulista, que compreende as cidades de: Santo
André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e
Rio Grande da Serra.
Partimos da hipótese de que o jornalismo regional pode sofrer pressões internas
e externas. As internas referem-se à importância de temas políticos no regional e da
prestação de serviços em determinada comunidade; as externas estão relacionadas aos
oligopólios da mídia mundial e à relevância de determinados assuntos da esfera
internacional na massificação das notícias dos veículos de comunicação, independente
da cultura ou dimensão geográfica que este pretende atingir ou abordar. Além disso,
destaca-se ainda a questão da demanda por notícias internacionais e sua variação junto
aos leitores.
DESCRIÇÃO DA PESQUISA
2
IDEM. Ibid.
4
Desde a primeira edição do News Seller, em 1958, até os dias atuais do Diário
do Grande ABC foram publicadas notícias da agenda internacional. Obviamente, todas
essas publicações ocorreram de forma variada — dependendo da fase de estrutura da
empresa ou relevância do fato; mas o que merece atenção especial é essa ‘cumplicidade’
do jornal com os acontecimentos mundiais. Nesse contexto, uma pergunta é pertinente:
as notícias internacionais foram publicadas ao longo de todos este anos (de 1958 a
2000) por que tinham importância para o leitor do ABC ou por que havia a necessidade
de se preencher as páginas de cada edição e, por se tratar de um material de custo baixo
e fácil acesso (no que se refere ao de agências internacionais) eram passadas adiante,
apenas para ‘fechar a página’ ou ‘tapar buraco’?
Dessa maneira, a fase inicial da pesquisa consistiu em analisar todas as edições
do Diário, numa espécie de retrospectiva da “editoria Internacional” a fim de
apontarmos qual foi o caminho que ela percorreu até chegar nos moldes atuais: se houve
evolução, se ela ganhou mais espaço, quais foram as principais modificações que sofreu
com os anos etc. Como se trata de um número muito grande de exemplares (a edição de
14 de junho de 2002 — data em que foi feito este trabalho — aponta o número 11.433,
ano XLIV) e pouco tempo para a pesquisa (seis meses no total — de 01 de fevereiro a
31 de julho de 2002), fizemos um corte no material. Foram adotados os períodos
conforme detalhado abaixo por considerar marcos importantes na história do Diário e a
melhor forma de organizar os textos:
1.
De janeiro de 1958 a outubro de 1961: O Diário do Grande ABC
surgiu como semanário, em 11 de maio de 1958, com o nome de News
Seller, distribuído à população de Santo André gratuitamente. Foi
ganhando mais páginas, matérias e se transformando gráfica e
editorialmente até chegar a ser vendido em banca e por meio de
assinaturas;
2.
De janeiro de 1968 a janeiro de 1971: Nesta época, o News Seller
tornou-se bi-semanário e passou a ser vendido em todas as cidades do
ABC Paulista: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá,
Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Entretanto, em 08 de maio de 1968
deixa de ser News Seller para se transformar no Diário do Grande ABC
(publicado todos os dias, exceto às segundas-feiras).
5
3.
De janeiro de 1974 a dezembro de 1979: Neste intervalo de tempo, o
Diário do Grande ABC se consolidou na imprensa regional e até do Estado
de São Paulo, passando a ser considerado (em número de páginas e de
classificados) o maior jornal regional do país. Ganhou sede própria e
passou por mudanças gráficas editoriais.
4.
De janeiro a dezembro dos anos de 1980/1981, 1990/1991 e 2000
e eventuais anos intermediários entre estas três últimas décadas nas quais
tenham acontecido mudanças na própria estrutura do jornal (como por
exemplo em 1998, quando passou a circular às segundas-feiras e aumentou
o número de páginas por edição).
A fase seguinte da pesquisa consistiu em comparar a cobertura do Diário com a
da chamada “grande imprensa”. Destacamos aqui que para a escolha dos títulos que
serviram para a comparação, foi levado em conta o que se segue: uma das idéias do
Diário do Grande ABC que é passada para o leitor (como, por exemplo, na campanha
publicitária citada no início deste) é a de que quem lê o Diário não precisa ler outro
jornal; porque além das notícias do ABC, ele oferece informações sobre o Brasil e o
mundo. Já a imagem institucional que o jornal passa para seus funcionários, mesmo que
de maneira informal, (verifiquei isso porque trabalhei lá durante cerca de sete anos —
de 1998 a 2004) é a de que a Folha e o Estadão são seus concorrentes diretos, ou seja,
uma pessoa que compra o Diário do Grande ABC recebe notícias do mundo, do Brasil e
mais as das sete cidades da região. Ao passo que, o leitor que adquire O Estado de
S.Paulo e/ou a Folha tem “apenas” o noticiário do Brasil e do mundo.
É claro que entre Diário do Grande ABC, a Folha de S.Paulo e O Estado de
S.Paulo há diferenças gritantes como: de público, circulação, tiragem, estrutura física,
história da empresa e outros fatores que influenciam no resultado da edição. Porém,
uma vez que o próprio Diário considera os dois jornais paulistas como concorrentes —
talvez pela proximidade geográfica da região do ABC com São Paulo ou pelo fato de
possuir os mesmos cadernos dos outros, como o de cultura, esportes, cidades, feminino,
infantil etc., isto é, segue os mesmos títulos editoriais dos jornais paulistas — julgamos
a comparação válida e pertinente.
Como seria impossível analisar toda a cobertura internacional feita ao longo da
história dos três jornais, escolhemos temas para fazer a comparação. Foram eles:
6
1. A queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989
2. A guerra do Golfo, em janeiro de 1991
3. O início da derrocada da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
(URSS), em agosto de 1991
Reunimos estes assuntos por se tratarem de acontecimentos importantes, que
mudaram o curso da história do mundo, e tiveram reflexos em todo os países do globo.
Além disso, os temas foram, na época, incessantemente debatidos em toda a mídia dos
cantos do planeta. Isso sem falar na questão de que são fatos relativamente recentes, o
que facilitou o recolhimento do material.
Novamente: como a quantidade de informações sobre estes três acontecimentos
históricos é enorme — se levarmos em conta que os três não aconteceram de um dia
para o outro e sim resultaram de processos — o foco foi delimitado. Então,
selecionamos apenas um dia de cada assunto, da seguinte maneira: a queda do Muro de
Berlim, por exemplo, saiu nos jornais brasileiros no dia 10 de novembro de 1989. Então,
foram reunidas as edições da Folha, do Estadão e do Diário apenas deste dia; a notícia
de que havia estourado a guerra no Golfo saiu na imprensa nacional no dia 17 de janeiro
de 1991; logo foram selecionadas as edições dos três jornais desta data. Por fim, a
derrocada da URSS começou no dia em que a KGB aplicou um golpe militar e tomou o
poder de Michail Gorbachev, publicado na imprensa do Brasil em 20 de agosto de 1991.
Deste modo, foram reunidas as edições das três publicações (Folha, Estadão e Diário)
deste dia. Por exemplar, é bom destacar que foram analisados: a primeira página do dia
de cada jornal, o editorial e os respectivos cadernos internacionais (entre texto principal,
retrancas, fotos, gráficos, artigos, colunas e traduções).
ASPECTOS METODOLÓGICOS
Por se tratar de análise de assuntos internacionais nos deparamos com a seguinte
questão: um fato acontecido em outro país e publicado na imprensa do Brasil, não é de
interesse de determinado público (morador do ABC ou de São Paulo); e sim dos
brasileiros em geral, independente de sua localização. Isto é, passa da esfera regional
para a nacional. Dessa maneira, foi feita uma revisão teórica que buscou reunir autores
que tratassem do tema: global x local x nacional, globalização, regionalização etc.,
7
como: Renato Ortiz, Milton Santos, Ladislau Dawbor, Carlos Camponez, Xosé Lopes
Garcia, Wilson de Oliveira Souza, Castells, Alain Bourdin, entre outros.
Em seguida, utilizamos a técnica da análise de conteúdo para classificar, avaliar
e responder as hipóteses propostas. A fase inicial foi, como bem classifica Laurence
Bardin3, organizada em torno de três pólos cronológicos, levando-se em consideração
que “a exploração do material nada mais é do que a administração sistemática das
decisões tomadas”:
a) a pré-análise
b) a exploração do material
c) o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação
Mesmo delimitando apenas três temas, no total foram recolhidas 55 páginas de
jornais, no formato standard. Como a quantidade de material ainda era grande (e o
tempo para a pesquisa pequeno), a análise deste foi dividida em quantitativa e
qualitativa, esta última feita por alguns princípios da análise do discurso (além da
análise de conteúdo), uma vez que seria necessário verificar como a questão do histórico
e, conseqüentemente, do ideológico se inseriram no lingüístico e com isso acarretou
perspectivas discursivas diferentes.
A observação mostrou que enquanto a questão do histórico e do ideológico não é uma
preocupação que se coloca, o sujeito está centrado na dominância de um enunciador
marcado pela unicidade, pela idéia de fonte absoluta do sentido. À medida que passa a se
incorporar a relação “autor-leitor”, numa perspectiva dialógica, como elemento fundamental
no processo de significação, entra para o âmbito da lingüística a preocupação com o social,
com as condições de produção. (...) Essa preocupação introduz necessariamente o conceito
de história e o de ideologia que vêm deslocar o de sujeito. Este perde seu centro e passa a se
caracterizar pela dispersão, por um discurso heterogêneo que incorpora e assume diferentes
vozes sociais.4
Segue então, o tratamento dos resultados obtidos e sua interpretação, o último
item do “roteiro” para análise de conteúdo descrito por Laurence Bardin.
3
BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. São Paulo, Edições 70, p. 95.
BRANDÃO, Helena H. Nagamine. Introdução à Análise do Discurso. Campinas, Editora da Unicamp,
p. 9-11.
4
8
Os resultados brutos são tratados de maneira a serem significativos (“falantes”) e válidos.
Operações estatísticas (percentagens), ou mais complexas (análise fatorial), permitem
estabelecer quadros de resultados, diagramas, figuras e modelos, os quais condensam e
põem em relevo as informações fornecidas pela análise.
(...) O analista, tendo à sua disposição resultados significativos e fiéis, pode então propor
inferências e adiantar interpretações a propósito dos objetivos previstos, ou que digam
respeito a outras descobertas inesperadas.
Por outro lado, os resultados obtidos, a confrontação sistemática com o material e o tipo de
inferências alcançadas, podem servir de base a uma outra análise disposta em torno de novas
dimensões teóricas, ou praticada graças a técnicas diferentes.5
Dessa forma, a análise quantitativa foi feita sobre todo o material, ou seja, as
capas, editoriais e cadernos completos de internacional dos três jornais, Diário, Folha e
Estadão. Já a análise qualitativa abrangeu apenas as capas, editorias e manchete
principal dos cadernos de internacional de cada um dos três jornais estudados, isto é, as
retrancas, sub-retrancas, gráficos, fotos, colunas e outras matérias dos respectivos
cadernos não foram inclusos.
Por fim, para mostrar a demanda dos leitores do Diário do Grande ABC por
informações das notícias internacionais (item citado na hipótese) foi feita uma pesquisa
na seção Palavra do Leitor — durante o mês de janeiro de 1992, dos dias 01 a 31. Este
espaço de tempo foi escolhido aleatoriamente. No entanto, de certa forma, está
relacionado com a análise dos temas do estudo comparativo entre Diário, Folha de
S.Paulo e O Estado de S.Paulo, descrito anteriormente. Ou seja, como foram expostos
fatos internacionais de importância relevante na agenda mundial, ocorridos em 1989 e
1991 — a queda do Muro de Berlim, a Guerra do Golfo e a derrocada da URSS —,
imagina-se que no início de 1992, as pessoas estavam “bombardeadas” e até
acostumadas a se depararem com fatos internacionais em todos os veículos de
comunicação, tamanha a repercussão destes acontecimentos. Logo, teriam uma
consciência maior da situação e ordem do planeta. Além disso, pesquisei também a
mesma seção das dez edições seqüentes à data de cada fato. O objetivo foi verificar se
há ou não demanda por notícias internacionais, e se o pedido dos leitores influencia no
número de páginas destinadas à cobertura da agenda internacional, ou seja, se o espaço
é ou não proporcional à demanda.
5
BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. São Paulo, Edições 70, p. 101.
9
ANÁLISE DOS RESULTADOS
Vimos pela análise do conteúdo das páginas da editoria de Internacional, que a
quantidade de informação do Diário difere bastante, ou seja, é bem inferior a de textos,
fotos, tabelas, gráficos etc. da Folha e do Estado. Logo, a idéia passada aos leitores do
Diário de que ao comprar o jornal do ABC o leitor adquire informações do Brasil, do
mundo, além das notícias regionais, não é verdadeira. Pelo menos nos temas
internacionais analisados, podemos perceber que o que é publicado no Diário é apenas
um “resumo” do fato — sua idéia principal. Com exceção das matérias sobre o início da
derrocada da URSS, os outros temas não trazem artigos analíticos, propostas de debates,
repercussões, retrospectivas e expectativas dos acontecimentos. Apenas notas copiadas
de agências internacionais.
Isso não acontece na Folha e no Estado, que até correspondentes internacionais
têm (a Folha, principalmente) para cobrir os fatos dos outros países. Além disso, esses
dois jornais se posicionam frente aos acontecimentos mundiais, pelos seus respectivos
editoriais, o que em nenhum dos casos, aconteceu no Diário.
É claro que a estrutura física das três empresas influencia no resultado da edição.
Então, isso deveria ser levado em conta na hora do Diário “vender” sua imagem
institucional, e não omitir a sonegação de informações internacionais, como ocorre. É
preciso ressaltar ainda o antigo ditado que diz que “quantidade não significa
necessariamente qualidade”, mas neste caso, a influência de um sobre outro é marcante.
A cobertura da derrocada da URSS do Diário foi a que mais se aproximou da
cobertura da Folha e do Estadão. Não é possível identificar em que circunstâncias isso
ocorreu, já que é bem mais completa das demais analisadas (queda do Muro de Berlim e
guerra do Golfo). Mesmo assim, apesar de mais rica ainda deixa a desejar — pela
qualidade do material publicado (das agências FP e AFP) — em relação ao material da
Folha — que trouxe informações de correspondentes de Paris, Washington, Chicago,
Londres, Milão, Tóquio, Moscou, entre outros — e do Estado, que além de
correspondentes em menor quantidade, publicou análises de jornais estrangeiros, o que
acaba dando uma dimensão diferente e mais ampla do fato e sua importância.
O material comprado das agências internacionais tem um custo baixo se
comparado como o custo de um enviado especial. Mas este fator influi decisivamente na
qualidade da informação. Não que as agências publiquem matérias erradas ou com
informações incorretas. Mas nada como ter um próprio funcionário no local do
10
acontecimento cobrindo os fatos. Só ele pode dar a proporção exata do que está
ocorrendo e aproximá-lo do dia-a-dia do seu leitor. Aliás, uma das principais
dificuldades do correspondente e do jornalismo internacional em si é passar o clima do
fato para um leitor que está a milhares de quilômetros dele. As agências, entretanto, não
têm essa preocupação. Porque o mesmo texto sobre um fato acontecido nos EUA, por
exemplo, vai para os jornais que compram suas informações no Brasil, na África do Sul,
na Itália ou na Austrália. Logo há uma massificação da informação e o texto, muitas
vezes, se torna desinteressante para o leitor e a dimensão do fato diminuída.
É óbvio que por sua estrutura, o Diário não tem condições financeiras de manter
correspondentes internacionais. Mas nem por isso precisa só publicar material de
agências. As análises de jornalistas especializados ou cientistas políticos são
fundamentais para complementar a cobertura e isso, infelizmente, quase não se vê em
seus cadernos internacionais. Quem acaba perdendo, com certeza, é o leitor. Isso porque
se o fato é extremamente importante, como os três analisados neste trabalho, pode-se
supor que o leitor vai se interessar por ele do mesmo jeito que se interessa pelos
acontecimentos da sua cidade.
A única questão que o aproxima da Folha e do Estado de S.Paulo é em relação
às fotos. Definitivamente não existem nestes três jornais ‘fotógrafos correspondentes’.
Logo, as imagens são compradas da Associated Press, Frande Press e Reuters. Neste
aspecto, a única diferença entre eles é a quantidade de fotos publicadas, mas não a
qualidade, já que os três utilizam as mesmas fontes.
Enquanto a análise quantitativa mostrou a freqüência e tamanho das aparições
dos itens estudados, a qualitativa permitiu a dedução pelo raciocínio ser fundada na
presença ou até mesmo na ausência de índices (tema, palavra, personagem etc.). Nos
mostrou, por exemplo, que nenhum dos três jornais estudados destacou a queda do
Muro de Berlim em sua manchete principal do dia 10 de novembro de 1989 — todos
deram o espaço, em texto e fotos, para a cassação da candidatura do empresário Sílvio
Santos à Presidência da República. Isso mostra, numa primeira abordagem, que o
assunto “Muro”, apesar de toda sua dimensão mundial, tinha menos importância para o
leitor dos três jornais do que a situação política do Brasil, que vivia um processo
eleitoral após anos de ditadura. Apesar de a Folha e o Estadão serem jornais de
circulação nacional, priorizaram o regional (o país), assim como o Diário, frente a um
acontecimento mundial. Como bem definiu Camponez, “é a proximidade que permite
ao jornalismo perceber os contextos que determinam os valores-notícia e, a partir daí,
11
organizar os restantes elementos valorativos, como a novidade, a actualidade, a
relevância, a consonância, o desvio e a negatividade”. Porém, “a proximidade já não se
mede em metros. Devemos estar preparados para conceber a produção de conteúdos
que, embora longe de nossas casas, nos são próximos, bem como para assistir à
produção nas regiões de conteúdos tão homogeneizantes e massificadores quanto os das
grandes corporações de media”6.
Espaço do leitor - Assim como os demais jornais de São Paulo e até do país, o
Diário do Grande ABC disponibiliza um espaço no Primeiro Caderno — na mesma
página do Expediente, Editorial e textos de colunistas — chamado Palavra do Leitor.
Nele são publicados, diariamente, de duas a quatro cartas, fax ou e-mails que os leitores
escrevem ao jornal comentando ou opinando sobre determinado assunto em destaque na
mídia em geral, criticando ou elogiando alguma matéria publicada pelo próprio Diário,
ou sugerindo temas para eventuais debates na sociedade.
Esta seção é muito importante para este trabalho porque foi só por meio dela é
que pudemos verificar o que o leitor, alvo das matérias feitas e publicadas pelo jornal,
se interessa por temas internacionais. Além disso, permitiu observar se o espaço
dedicado à agenda internacional pelo Diário é ou não proporcional à demanda deste
assunto. É claro que, por uma questão de tamanho físico do jornal, nem todas as
opiniões são publicadas. Sabemos também que há, em toda a imprensa escrita, uma
certa “promiscuidade” em relação a esta seção, já que os textos podem ser editados.
Como não tivemos a possibilidade de avaliar o que, nesta coluna do Diário do Grande
ABC, é editado ou não, partimos do pressuposto de que as notas publicadas, no período
escolhido para análise deste trabalho, tenham saído sem modificações de idéias — um
dos fatores que nos permite pensar isso, é o tamanho razoavelmente grande dos textos
publicados (de aproximadamente duas colunas de 12 cm² cada).
De todos os dias de janeiro de 1992, apenas três edições trouxeram cartas de
leitor (todos moradores de Santo André) que se referiam à questões mundiais (as outras
tratavam sobre aposentadorias, situação política do Brasil, desrespeito ao consumidor ou
comentários e críticas de matérias publicadas pelo jornal):
1. Dia 18/01: título “Cuba”, assinado por Salvador Bento (não há na página
qualquer referência de idade ou profissão do autor). Fala, em tons de elogio,
6
CAMPONEZ, Carlos. Jornalismo de Proximidade. Coimbra, MinervaCoimbra, 2002, p. 116 e 129
12
sobre o fato da Ilha de Fidel Castro prestar ajuda na área de saúde às vítimas
do acidente nuclear de Chernobill.
2. Dia 19/01: título “Modernidade”, escrito por Teresa Fávero Rodrigues.
Nele, a autora recorre aos princípios religiosos para criticar a “nova ordem
mundial” após a queda do comunismo no Leste Europeu e da URSS.
3. Dia 28/01: “Socialismo”, de Adilson Fornazieri; aborda a situação e os
rumos do socialismo após a derrocada da URSS (outro tema que justifica o
período escolhido da análise).
Destas, nenhuma fazia comentários a respeito de alguma matéria publicada no
caderno de Internacional do Diário, como aconteceu em outras editorais — a de
Esportes, Política ou Cidades, por exemplo. Elas discorriam sobre assuntos variados da
agenda mundial não necessariamente relacionados a sua repercussão na mídia no
momento. Isto prova que o leitor comenta outros assuntos publicados, mas não os de
internacional, já que os exemplos não têm referência direta.
CONCLUSÃO
A cobertura do jornalismo internacional em um veículo de comunicação
regional, no caso o Diário do Grande ABC, de fato sofre pressões internas. Estas se
referem à importância de temas políticos na região e da prestação de serviços em
determinada comunidade. Ou seja, para ser considerado regional, um jornal tem
necessidade de focar toda sua estrutura, equipe e linha editorial para determinada
localidade. É óbvio que, por causa deste aspecto, alguns assuntos se sobressaem dos
demais. É por isso, por exemplo, que no Diário as editorias Setecidades e Política
Regional são bem mais “fortes” que as outras (até mesmo em número de repórteres,
redatores etc).
No entanto, isso não significa que, por ser um jornal que atende uma
determinada localidade, o Diário não possa publicar assuntos referentes a outras esferas.
Mas, o importante é que, um leitor, ao comprá-lo, saiba exatamente que vai receber
mais informações sobre um tema (regional) que outro (nacional). O que vier em relação
aos outros assuntos, que não inclua a cobertura regional, é um "plus", isto é, algo a
mais, Logo, não pode haver demanda pelo noticiário internacional em um veículo de
comunicação regional.
13
Tal hipótese é confirmada quando analisamos a seção Espaço do Leitor. Como
explicado anteriormente, não foi publicada (no período estudado) nenhuma carta em
relação aos temas internacionais delimitados — queda do Muro de Berlim, guerra no
Golfo e início da derrocada da URSS, Simplesmente porque o leitor do Diário não
esperava receber informações deste âmbito ao adquirir a edição. Talvez uma notícia
publicada sobre a falta d'água em sua cidade tenha-lhe despertado bem mais o interesse
que uma falando do conflito entre EUA e Iraque, praticamente do outro lado do mundo.
Claro que, se ele ver uma notícia desta em seu jornal regional, provavelmente irá ler,
para ficar atualizado sobre o que está acontecendo no mundo. Mas não vai esperar uma
grande cobertura, porque as informações básicas sobre o assunto já lhe são suficientes.
Entretanto, se ele tiver mais interesse no fato, vai procurar publicações especializadas
para se informar melhor. Sendo assim, utiliza o Espaço apenas para veicular suas idéias
como os três leitores citados acima.
Por outro lado, à medida que o Diário passa para seu leitor e funcionário (pela
imagem institucional) a idéia de que, ao comprar o jornal, o leitor recebe as informações
do Brasil e do mundo, somadas as do Grande ABC — logo ele não precisa adquirir a
Folha ou o Estado de S.Paulo — está sonegando informações. Porque seu noticiário
nacional e internacional não é igual ao destes dois jornais simplesmente, porque suas
características são diferentes: enquanto os dois veículos paulistas são de circulação
nacional, ele é de regional. Utilizando uma metáfora popular, é como falar que abacaxi
é igual a laranja e banana, só porque é uma furta e tem casaca, como as outras. O que
não é verdade: cada uma tem seu sabor, suas vitaminas, cor, forma etc.
Já a hipótese de que a cobertura da agenda internacional em um veículo de
comunicação regional sofre ainda pressões externas — relacionadas aos oligopólios da
mídia mundial e à relevância de determinados assuntos da esfera internacional na
massificação das notícias dos veículos de comunicação, independente da cultura ou
dimensão geográfica que este pretende atingir ou abordar — é refutada. Porque se um
jornal regional se submeter às influências da globalização ele perde a sua característica
de regional. Isto é, apesar de todas as influências, seja pelas agências de notícias
internacionais, TVs, Internet, entre outras mídias, ele tem que seguir o seu caminho, às
vezes deixando de lado fatos importantes da esfera global, para se dedicar somente ao
seu limite, o regional. A partir do momento que o Diário, ou qualquer outro jornal
regional, se permite refletir aspectos da globalização — por exemplo transformar um
fato que acontece num lugar geograficamente distante de onde ele atua, como se este
14
tivesse acontecido na “sua esquina” — ele vai deixar de atender às expectativas de seu
leitor.
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O CASO DIÁRIO DO GRANDE ABC Autora: ESCUDERO, Cami