Camila A COBERTURA INTERNACIONAL EM UM VEÍCULO DE COMUNICAÇÃO REGIONAL: O CASO DIÁRIO DO GRANDE ABC Autora: ESCUDERO, Camila. Formada em Jornalismo pela UMESP, pós-graduada em Comunicação Jornalística pela PUC-SP e mestranda da UMESP em Comunicação Social. UMESP – Universidade Metodista de São Paulo 2 São Bernardo do Campo, abril de 2005 Resumo: O que leva um jornal regional — que além de estar distante em termos geográficos, editorial e ideológico dos assuntos mundiais — a publicar notícias da agenda internacional, bem como de que maneira esta cobertura é feita? Após analisar a cobertura da agenda internacional do Diário do Grande ABC e compará-la com a de a Folha de S.Paulo e de O Estado de S.Paulo, concluímos que: a cobertura regional de temas internacionais sofre pressões internas (referentes à importância de assuntos políticos na região e da prestação de serviços em determinada comunidade), mas não externas (uma vez que não se deixa influenciar na sua totalidade pela massificação das notícias dos veículos de comunicação em geral). O leitor, ao comprar um jornal regional, sabe que vai encontrar notícias de sua região; se a publicação trouxer como “plus” notícias internacionais ele pode até consumi-las. Porém, esta não é sua intenção e/ou preocupação inicial, uma vez que não há demanda (de acordo com a técnica de pesquisa adotada) por esse tipo de informação entre os leitores de um jornal regional. Este paper é resultado parcial da monografia de Lato Sensu apresentada em 2002 junto à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Palavras-chave: jornalismo internacional; veículo de comunicação regional INTRODUÇÃO O que é mais importante para você: 1. O que acontece na política da sua cidade ou o prato preferido do ministro da Malásia? 2. A qualidade de vida no ABC ou o aumento dos aluguéis na Cracóvia? 3. O resultado do jogo do seu time ou a final de bandminton em Buffalo? 4. O aumento de empregos no Grande ABC ou o acidente de charretes em Madagascar? Estas foram algumas das perguntas veiculadas na campanha publicitária do jornal Diário do Grande ABC lançada em 19 de agosto de 2001. Sob o título O Nosso Jornal, a propaganda1 teve como foco principal ressaltar a importância de manter o leitor bem informado ao destacar principalmente o que acontece no Grande ABC, como complemento das principais notícias do Brasil e do mundo. As questões propostas levam o leitor a uma reflexão sobre a mídia e o conteúdo da notícia que melhor atende 1 Diário do Grande ABC, 19 de agosto de 2001. Diário reforça opção regional em campanha. Matéria publicada na página 3 do caderno de Economia & Negócios, explicando os procedimentos e objetivos da campanha publicitária, bem como anunciando seu lançamento. 3 suas necessidades de conhecimento e atualização. De acordo com o diretor comercial do Diário, Oscar Osawa2, “as interrogações (acima) evidenciam a tese adotada pelo jornal de que o que acontece na região prevalece sobre os fatos do Brasil e do mundo para quem trabalha ou mora no Grande ABC (sic). O jornal é regional por opção estratégica e concorre com veículos da Grande São Paulo que raramente divulgam notícias da região. Assim, pretende-se mostrar que o nosso jornal é um veículo que causa impacto na vida dos leitores que trabalham ou moram na região”. Esta campanha vem ilustrar perfeitamente o tema deste trabalho: a importância e função do Jornalismo Internacional e sua cobertura em um veículo de comunicação regional, tendo como estudo de caso o espaço da agenda internacional no Diário do Grande ABC, desde sua fundação (em 11 de maio de 1958, quando circulou pela primeira vez sob o título de News Seller), até os dias de hoje (especificamente dezembro de 2000, delimitando assim o período de jornais analisados). O objetivo é esclarecer o que leva um jornal regional — que além de estar distante em termos geográficos, editorial e ideológico dos assuntos mundiais e propõe-se a atender determinada localidade — a publicar notícias da agenda internacional, bem como de que maneira esta cobertura é feita. Esclarecemos que o Diário do Grande ABC visa atender com informações, prestação de serviços, classificados, notícias variadas etc. aqueles que integram a região denominada ABC Paulista, que compreende as cidades de: Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Partimos da hipótese de que o jornalismo regional pode sofrer pressões internas e externas. As internas referem-se à importância de temas políticos no regional e da prestação de serviços em determinada comunidade; as externas estão relacionadas aos oligopólios da mídia mundial e à relevância de determinados assuntos da esfera internacional na massificação das notícias dos veículos de comunicação, independente da cultura ou dimensão geográfica que este pretende atingir ou abordar. Além disso, destaca-se ainda a questão da demanda por notícias internacionais e sua variação junto aos leitores. DESCRIÇÃO DA PESQUISA 2 IDEM. Ibid. 4 Desde a primeira edição do News Seller, em 1958, até os dias atuais do Diário do Grande ABC foram publicadas notícias da agenda internacional. Obviamente, todas essas publicações ocorreram de forma variada — dependendo da fase de estrutura da empresa ou relevância do fato; mas o que merece atenção especial é essa ‘cumplicidade’ do jornal com os acontecimentos mundiais. Nesse contexto, uma pergunta é pertinente: as notícias internacionais foram publicadas ao longo de todos este anos (de 1958 a 2000) por que tinham importância para o leitor do ABC ou por que havia a necessidade de se preencher as páginas de cada edição e, por se tratar de um material de custo baixo e fácil acesso (no que se refere ao de agências internacionais) eram passadas adiante, apenas para ‘fechar a página’ ou ‘tapar buraco’? Dessa maneira, a fase inicial da pesquisa consistiu em analisar todas as edições do Diário, numa espécie de retrospectiva da “editoria Internacional” a fim de apontarmos qual foi o caminho que ela percorreu até chegar nos moldes atuais: se houve evolução, se ela ganhou mais espaço, quais foram as principais modificações que sofreu com os anos etc. Como se trata de um número muito grande de exemplares (a edição de 14 de junho de 2002 — data em que foi feito este trabalho — aponta o número 11.433, ano XLIV) e pouco tempo para a pesquisa (seis meses no total — de 01 de fevereiro a 31 de julho de 2002), fizemos um corte no material. Foram adotados os períodos conforme detalhado abaixo por considerar marcos importantes na história do Diário e a melhor forma de organizar os textos: 1. De janeiro de 1958 a outubro de 1961: O Diário do Grande ABC surgiu como semanário, em 11 de maio de 1958, com o nome de News Seller, distribuído à população de Santo André gratuitamente. Foi ganhando mais páginas, matérias e se transformando gráfica e editorialmente até chegar a ser vendido em banca e por meio de assinaturas; 2. De janeiro de 1968 a janeiro de 1971: Nesta época, o News Seller tornou-se bi-semanário e passou a ser vendido em todas as cidades do ABC Paulista: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Entretanto, em 08 de maio de 1968 deixa de ser News Seller para se transformar no Diário do Grande ABC (publicado todos os dias, exceto às segundas-feiras). 5 3. De janeiro de 1974 a dezembro de 1979: Neste intervalo de tempo, o Diário do Grande ABC se consolidou na imprensa regional e até do Estado de São Paulo, passando a ser considerado (em número de páginas e de classificados) o maior jornal regional do país. Ganhou sede própria e passou por mudanças gráficas editoriais. 4. De janeiro a dezembro dos anos de 1980/1981, 1990/1991 e 2000 e eventuais anos intermediários entre estas três últimas décadas nas quais tenham acontecido mudanças na própria estrutura do jornal (como por exemplo em 1998, quando passou a circular às segundas-feiras e aumentou o número de páginas por edição). A fase seguinte da pesquisa consistiu em comparar a cobertura do Diário com a da chamada “grande imprensa”. Destacamos aqui que para a escolha dos títulos que serviram para a comparação, foi levado em conta o que se segue: uma das idéias do Diário do Grande ABC que é passada para o leitor (como, por exemplo, na campanha publicitária citada no início deste) é a de que quem lê o Diário não precisa ler outro jornal; porque além das notícias do ABC, ele oferece informações sobre o Brasil e o mundo. Já a imagem institucional que o jornal passa para seus funcionários, mesmo que de maneira informal, (verifiquei isso porque trabalhei lá durante cerca de sete anos — de 1998 a 2004) é a de que a Folha e o Estadão são seus concorrentes diretos, ou seja, uma pessoa que compra o Diário do Grande ABC recebe notícias do mundo, do Brasil e mais as das sete cidades da região. Ao passo que, o leitor que adquire O Estado de S.Paulo e/ou a Folha tem “apenas” o noticiário do Brasil e do mundo. É claro que entre Diário do Grande ABC, a Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo há diferenças gritantes como: de público, circulação, tiragem, estrutura física, história da empresa e outros fatores que influenciam no resultado da edição. Porém, uma vez que o próprio Diário considera os dois jornais paulistas como concorrentes — talvez pela proximidade geográfica da região do ABC com São Paulo ou pelo fato de possuir os mesmos cadernos dos outros, como o de cultura, esportes, cidades, feminino, infantil etc., isto é, segue os mesmos títulos editoriais dos jornais paulistas — julgamos a comparação válida e pertinente. Como seria impossível analisar toda a cobertura internacional feita ao longo da história dos três jornais, escolhemos temas para fazer a comparação. Foram eles: 6 1. A queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989 2. A guerra do Golfo, em janeiro de 1991 3. O início da derrocada da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em agosto de 1991 Reunimos estes assuntos por se tratarem de acontecimentos importantes, que mudaram o curso da história do mundo, e tiveram reflexos em todo os países do globo. Além disso, os temas foram, na época, incessantemente debatidos em toda a mídia dos cantos do planeta. Isso sem falar na questão de que são fatos relativamente recentes, o que facilitou o recolhimento do material. Novamente: como a quantidade de informações sobre estes três acontecimentos históricos é enorme — se levarmos em conta que os três não aconteceram de um dia para o outro e sim resultaram de processos — o foco foi delimitado. Então, selecionamos apenas um dia de cada assunto, da seguinte maneira: a queda do Muro de Berlim, por exemplo, saiu nos jornais brasileiros no dia 10 de novembro de 1989. Então, foram reunidas as edições da Folha, do Estadão e do Diário apenas deste dia; a notícia de que havia estourado a guerra no Golfo saiu na imprensa nacional no dia 17 de janeiro de 1991; logo foram selecionadas as edições dos três jornais desta data. Por fim, a derrocada da URSS começou no dia em que a KGB aplicou um golpe militar e tomou o poder de Michail Gorbachev, publicado na imprensa do Brasil em 20 de agosto de 1991. Deste modo, foram reunidas as edições das três publicações (Folha, Estadão e Diário) deste dia. Por exemplar, é bom destacar que foram analisados: a primeira página do dia de cada jornal, o editorial e os respectivos cadernos internacionais (entre texto principal, retrancas, fotos, gráficos, artigos, colunas e traduções). ASPECTOS METODOLÓGICOS Por se tratar de análise de assuntos internacionais nos deparamos com a seguinte questão: um fato acontecido em outro país e publicado na imprensa do Brasil, não é de interesse de determinado público (morador do ABC ou de São Paulo); e sim dos brasileiros em geral, independente de sua localização. Isto é, passa da esfera regional para a nacional. Dessa maneira, foi feita uma revisão teórica que buscou reunir autores que tratassem do tema: global x local x nacional, globalização, regionalização etc., 7 como: Renato Ortiz, Milton Santos, Ladislau Dawbor, Carlos Camponez, Xosé Lopes Garcia, Wilson de Oliveira Souza, Castells, Alain Bourdin, entre outros. Em seguida, utilizamos a técnica da análise de conteúdo para classificar, avaliar e responder as hipóteses propostas. A fase inicial foi, como bem classifica Laurence Bardin3, organizada em torno de três pólos cronológicos, levando-se em consideração que “a exploração do material nada mais é do que a administração sistemática das decisões tomadas”: a) a pré-análise b) a exploração do material c) o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação Mesmo delimitando apenas três temas, no total foram recolhidas 55 páginas de jornais, no formato standard. Como a quantidade de material ainda era grande (e o tempo para a pesquisa pequeno), a análise deste foi dividida em quantitativa e qualitativa, esta última feita por alguns princípios da análise do discurso (além da análise de conteúdo), uma vez que seria necessário verificar como a questão do histórico e, conseqüentemente, do ideológico se inseriram no lingüístico e com isso acarretou perspectivas discursivas diferentes. A observação mostrou que enquanto a questão do histórico e do ideológico não é uma preocupação que se coloca, o sujeito está centrado na dominância de um enunciador marcado pela unicidade, pela idéia de fonte absoluta do sentido. À medida que passa a se incorporar a relação “autor-leitor”, numa perspectiva dialógica, como elemento fundamental no processo de significação, entra para o âmbito da lingüística a preocupação com o social, com as condições de produção. (...) Essa preocupação introduz necessariamente o conceito de história e o de ideologia que vêm deslocar o de sujeito. Este perde seu centro e passa a se caracterizar pela dispersão, por um discurso heterogêneo que incorpora e assume diferentes vozes sociais.4 Segue então, o tratamento dos resultados obtidos e sua interpretação, o último item do “roteiro” para análise de conteúdo descrito por Laurence Bardin. 3 BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. São Paulo, Edições 70, p. 95. BRANDÃO, Helena H. Nagamine. Introdução à Análise do Discurso. Campinas, Editora da Unicamp, p. 9-11. 4 8 Os resultados brutos são tratados de maneira a serem significativos (“falantes”) e válidos. Operações estatísticas (percentagens), ou mais complexas (análise fatorial), permitem estabelecer quadros de resultados, diagramas, figuras e modelos, os quais condensam e põem em relevo as informações fornecidas pela análise. (...) O analista, tendo à sua disposição resultados significativos e fiéis, pode então propor inferências e adiantar interpretações a propósito dos objetivos previstos, ou que digam respeito a outras descobertas inesperadas. Por outro lado, os resultados obtidos, a confrontação sistemática com o material e o tipo de inferências alcançadas, podem servir de base a uma outra análise disposta em torno de novas dimensões teóricas, ou praticada graças a técnicas diferentes.5 Dessa forma, a análise quantitativa foi feita sobre todo o material, ou seja, as capas, editoriais e cadernos completos de internacional dos três jornais, Diário, Folha e Estadão. Já a análise qualitativa abrangeu apenas as capas, editorias e manchete principal dos cadernos de internacional de cada um dos três jornais estudados, isto é, as retrancas, sub-retrancas, gráficos, fotos, colunas e outras matérias dos respectivos cadernos não foram inclusos. Por fim, para mostrar a demanda dos leitores do Diário do Grande ABC por informações das notícias internacionais (item citado na hipótese) foi feita uma pesquisa na seção Palavra do Leitor — durante o mês de janeiro de 1992, dos dias 01 a 31. Este espaço de tempo foi escolhido aleatoriamente. No entanto, de certa forma, está relacionado com a análise dos temas do estudo comparativo entre Diário, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo, descrito anteriormente. Ou seja, como foram expostos fatos internacionais de importância relevante na agenda mundial, ocorridos em 1989 e 1991 — a queda do Muro de Berlim, a Guerra do Golfo e a derrocada da URSS —, imagina-se que no início de 1992, as pessoas estavam “bombardeadas” e até acostumadas a se depararem com fatos internacionais em todos os veículos de comunicação, tamanha a repercussão destes acontecimentos. Logo, teriam uma consciência maior da situação e ordem do planeta. Além disso, pesquisei também a mesma seção das dez edições seqüentes à data de cada fato. O objetivo foi verificar se há ou não demanda por notícias internacionais, e se o pedido dos leitores influencia no número de páginas destinadas à cobertura da agenda internacional, ou seja, se o espaço é ou não proporcional à demanda. 5 BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. São Paulo, Edições 70, p. 101. 9 ANÁLISE DOS RESULTADOS Vimos pela análise do conteúdo das páginas da editoria de Internacional, que a quantidade de informação do Diário difere bastante, ou seja, é bem inferior a de textos, fotos, tabelas, gráficos etc. da Folha e do Estado. Logo, a idéia passada aos leitores do Diário de que ao comprar o jornal do ABC o leitor adquire informações do Brasil, do mundo, além das notícias regionais, não é verdadeira. Pelo menos nos temas internacionais analisados, podemos perceber que o que é publicado no Diário é apenas um “resumo” do fato — sua idéia principal. Com exceção das matérias sobre o início da derrocada da URSS, os outros temas não trazem artigos analíticos, propostas de debates, repercussões, retrospectivas e expectativas dos acontecimentos. Apenas notas copiadas de agências internacionais. Isso não acontece na Folha e no Estado, que até correspondentes internacionais têm (a Folha, principalmente) para cobrir os fatos dos outros países. Além disso, esses dois jornais se posicionam frente aos acontecimentos mundiais, pelos seus respectivos editoriais, o que em nenhum dos casos, aconteceu no Diário. É claro que a estrutura física das três empresas influencia no resultado da edição. Então, isso deveria ser levado em conta na hora do Diário “vender” sua imagem institucional, e não omitir a sonegação de informações internacionais, como ocorre. É preciso ressaltar ainda o antigo ditado que diz que “quantidade não significa necessariamente qualidade”, mas neste caso, a influência de um sobre outro é marcante. A cobertura da derrocada da URSS do Diário foi a que mais se aproximou da cobertura da Folha e do Estadão. Não é possível identificar em que circunstâncias isso ocorreu, já que é bem mais completa das demais analisadas (queda do Muro de Berlim e guerra do Golfo). Mesmo assim, apesar de mais rica ainda deixa a desejar — pela qualidade do material publicado (das agências FP e AFP) — em relação ao material da Folha — que trouxe informações de correspondentes de Paris, Washington, Chicago, Londres, Milão, Tóquio, Moscou, entre outros — e do Estado, que além de correspondentes em menor quantidade, publicou análises de jornais estrangeiros, o que acaba dando uma dimensão diferente e mais ampla do fato e sua importância. O material comprado das agências internacionais tem um custo baixo se comparado como o custo de um enviado especial. Mas este fator influi decisivamente na qualidade da informação. Não que as agências publiquem matérias erradas ou com informações incorretas. Mas nada como ter um próprio funcionário no local do 10 acontecimento cobrindo os fatos. Só ele pode dar a proporção exata do que está ocorrendo e aproximá-lo do dia-a-dia do seu leitor. Aliás, uma das principais dificuldades do correspondente e do jornalismo internacional em si é passar o clima do fato para um leitor que está a milhares de quilômetros dele. As agências, entretanto, não têm essa preocupação. Porque o mesmo texto sobre um fato acontecido nos EUA, por exemplo, vai para os jornais que compram suas informações no Brasil, na África do Sul, na Itália ou na Austrália. Logo há uma massificação da informação e o texto, muitas vezes, se torna desinteressante para o leitor e a dimensão do fato diminuída. É óbvio que por sua estrutura, o Diário não tem condições financeiras de manter correspondentes internacionais. Mas nem por isso precisa só publicar material de agências. As análises de jornalistas especializados ou cientistas políticos são fundamentais para complementar a cobertura e isso, infelizmente, quase não se vê em seus cadernos internacionais. Quem acaba perdendo, com certeza, é o leitor. Isso porque se o fato é extremamente importante, como os três analisados neste trabalho, pode-se supor que o leitor vai se interessar por ele do mesmo jeito que se interessa pelos acontecimentos da sua cidade. A única questão que o aproxima da Folha e do Estado de S.Paulo é em relação às fotos. Definitivamente não existem nestes três jornais ‘fotógrafos correspondentes’. Logo, as imagens são compradas da Associated Press, Frande Press e Reuters. Neste aspecto, a única diferença entre eles é a quantidade de fotos publicadas, mas não a qualidade, já que os três utilizam as mesmas fontes. Enquanto a análise quantitativa mostrou a freqüência e tamanho das aparições dos itens estudados, a qualitativa permitiu a dedução pelo raciocínio ser fundada na presença ou até mesmo na ausência de índices (tema, palavra, personagem etc.). Nos mostrou, por exemplo, que nenhum dos três jornais estudados destacou a queda do Muro de Berlim em sua manchete principal do dia 10 de novembro de 1989 — todos deram o espaço, em texto e fotos, para a cassação da candidatura do empresário Sílvio Santos à Presidência da República. Isso mostra, numa primeira abordagem, que o assunto “Muro”, apesar de toda sua dimensão mundial, tinha menos importância para o leitor dos três jornais do que a situação política do Brasil, que vivia um processo eleitoral após anos de ditadura. Apesar de a Folha e o Estadão serem jornais de circulação nacional, priorizaram o regional (o país), assim como o Diário, frente a um acontecimento mundial. Como bem definiu Camponez, “é a proximidade que permite ao jornalismo perceber os contextos que determinam os valores-notícia e, a partir daí, 11 organizar os restantes elementos valorativos, como a novidade, a actualidade, a relevância, a consonância, o desvio e a negatividade”. Porém, “a proximidade já não se mede em metros. Devemos estar preparados para conceber a produção de conteúdos que, embora longe de nossas casas, nos são próximos, bem como para assistir à produção nas regiões de conteúdos tão homogeneizantes e massificadores quanto os das grandes corporações de media”6. Espaço do leitor - Assim como os demais jornais de São Paulo e até do país, o Diário do Grande ABC disponibiliza um espaço no Primeiro Caderno — na mesma página do Expediente, Editorial e textos de colunistas — chamado Palavra do Leitor. Nele são publicados, diariamente, de duas a quatro cartas, fax ou e-mails que os leitores escrevem ao jornal comentando ou opinando sobre determinado assunto em destaque na mídia em geral, criticando ou elogiando alguma matéria publicada pelo próprio Diário, ou sugerindo temas para eventuais debates na sociedade. Esta seção é muito importante para este trabalho porque foi só por meio dela é que pudemos verificar o que o leitor, alvo das matérias feitas e publicadas pelo jornal, se interessa por temas internacionais. Além disso, permitiu observar se o espaço dedicado à agenda internacional pelo Diário é ou não proporcional à demanda deste assunto. É claro que, por uma questão de tamanho físico do jornal, nem todas as opiniões são publicadas. Sabemos também que há, em toda a imprensa escrita, uma certa “promiscuidade” em relação a esta seção, já que os textos podem ser editados. Como não tivemos a possibilidade de avaliar o que, nesta coluna do Diário do Grande ABC, é editado ou não, partimos do pressuposto de que as notas publicadas, no período escolhido para análise deste trabalho, tenham saído sem modificações de idéias — um dos fatores que nos permite pensar isso, é o tamanho razoavelmente grande dos textos publicados (de aproximadamente duas colunas de 12 cm² cada). De todos os dias de janeiro de 1992, apenas três edições trouxeram cartas de leitor (todos moradores de Santo André) que se referiam à questões mundiais (as outras tratavam sobre aposentadorias, situação política do Brasil, desrespeito ao consumidor ou comentários e críticas de matérias publicadas pelo jornal): 1. Dia 18/01: título “Cuba”, assinado por Salvador Bento (não há na página qualquer referência de idade ou profissão do autor). Fala, em tons de elogio, 6 CAMPONEZ, Carlos. Jornalismo de Proximidade. Coimbra, MinervaCoimbra, 2002, p. 116 e 129 12 sobre o fato da Ilha de Fidel Castro prestar ajuda na área de saúde às vítimas do acidente nuclear de Chernobill. 2. Dia 19/01: título “Modernidade”, escrito por Teresa Fávero Rodrigues. Nele, a autora recorre aos princípios religiosos para criticar a “nova ordem mundial” após a queda do comunismo no Leste Europeu e da URSS. 3. Dia 28/01: “Socialismo”, de Adilson Fornazieri; aborda a situação e os rumos do socialismo após a derrocada da URSS (outro tema que justifica o período escolhido da análise). Destas, nenhuma fazia comentários a respeito de alguma matéria publicada no caderno de Internacional do Diário, como aconteceu em outras editorais — a de Esportes, Política ou Cidades, por exemplo. Elas discorriam sobre assuntos variados da agenda mundial não necessariamente relacionados a sua repercussão na mídia no momento. Isto prova que o leitor comenta outros assuntos publicados, mas não os de internacional, já que os exemplos não têm referência direta. CONCLUSÃO A cobertura do jornalismo internacional em um veículo de comunicação regional, no caso o Diário do Grande ABC, de fato sofre pressões internas. Estas se referem à importância de temas políticos na região e da prestação de serviços em determinada comunidade. Ou seja, para ser considerado regional, um jornal tem necessidade de focar toda sua estrutura, equipe e linha editorial para determinada localidade. É óbvio que, por causa deste aspecto, alguns assuntos se sobressaem dos demais. É por isso, por exemplo, que no Diário as editorias Setecidades e Política Regional são bem mais “fortes” que as outras (até mesmo em número de repórteres, redatores etc). No entanto, isso não significa que, por ser um jornal que atende uma determinada localidade, o Diário não possa publicar assuntos referentes a outras esferas. Mas, o importante é que, um leitor, ao comprá-lo, saiba exatamente que vai receber mais informações sobre um tema (regional) que outro (nacional). O que vier em relação aos outros assuntos, que não inclua a cobertura regional, é um "plus", isto é, algo a mais, Logo, não pode haver demanda pelo noticiário internacional em um veículo de comunicação regional. 13 Tal hipótese é confirmada quando analisamos a seção Espaço do Leitor. Como explicado anteriormente, não foi publicada (no período estudado) nenhuma carta em relação aos temas internacionais delimitados — queda do Muro de Berlim, guerra no Golfo e início da derrocada da URSS, Simplesmente porque o leitor do Diário não esperava receber informações deste âmbito ao adquirir a edição. Talvez uma notícia publicada sobre a falta d'água em sua cidade tenha-lhe despertado bem mais o interesse que uma falando do conflito entre EUA e Iraque, praticamente do outro lado do mundo. Claro que, se ele ver uma notícia desta em seu jornal regional, provavelmente irá ler, para ficar atualizado sobre o que está acontecendo no mundo. Mas não vai esperar uma grande cobertura, porque as informações básicas sobre o assunto já lhe são suficientes. Entretanto, se ele tiver mais interesse no fato, vai procurar publicações especializadas para se informar melhor. Sendo assim, utiliza o Espaço apenas para veicular suas idéias como os três leitores citados acima. Por outro lado, à medida que o Diário passa para seu leitor e funcionário (pela imagem institucional) a idéia de que, ao comprar o jornal, o leitor recebe as informações do Brasil e do mundo, somadas as do Grande ABC — logo ele não precisa adquirir a Folha ou o Estado de S.Paulo — está sonegando informações. Porque seu noticiário nacional e internacional não é igual ao destes dois jornais simplesmente, porque suas características são diferentes: enquanto os dois veículos paulistas são de circulação nacional, ele é de regional. Utilizando uma metáfora popular, é como falar que abacaxi é igual a laranja e banana, só porque é uma furta e tem casaca, como as outras. O que não é verdade: cada uma tem seu sabor, suas vitaminas, cor, forma etc. Já a hipótese de que a cobertura da agenda internacional em um veículo de comunicação regional sofre ainda pressões externas — relacionadas aos oligopólios da mídia mundial e à relevância de determinados assuntos da esfera internacional na massificação das notícias dos veículos de comunicação, independente da cultura ou dimensão geográfica que este pretende atingir ou abordar — é refutada. Porque se um jornal regional se submeter às influências da globalização ele perde a sua característica de regional. Isto é, apesar de todas as influências, seja pelas agências de notícias internacionais, TVs, Internet, entre outras mídias, ele tem que seguir o seu caminho, às vezes deixando de lado fatos importantes da esfera global, para se dedicar somente ao seu limite, o regional. A partir do momento que o Diário, ou qualquer outro jornal regional, se permite refletir aspectos da globalização — por exemplo transformar um fato que acontece num lugar geograficamente distante de onde ele atua, como se este 14 tivesse acontecido na “sua esquina” — ele vai deixar de atender às expectativas de seu leitor. BIBLIOGRAFIA ARBEX, José Jr. Showrnalismo – A Notícia Como Espetáculo. Casa Marela, São Paulo, 2001. BAHIA, Juarez. Jornal, História e Técnica: As Técnicas do Jornalismo. Ática, S.Paulo, 1990. BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. Edições 70, São Paulo. BOFFETTI, Valdir Aparecido. A Construção da Nova Imagem da Região do ABC. UMESP, São Bernardo do Campo, 1999. 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