Desenvolvimento do projeto Tambá aplicando o biomimetismo inserido na cultura brasileira Yago W. Rodrigues Caroline Müller Maria Lucia Okimoto UFPR Curitiba, PR, Brasil [email protected] UFPR Curitiba, PR, Brasil [email protected] UFPR Curitiba, PR, Brasil [email protected] Marcio F. Catapan Albertina Pereira Medeiros Célio Teodorico UFPR Curitiba, PR, Brasil [email protected] UDESC Florianópolis, SC, Brasil [email protected] UDESC Florianópolis, SC, Brasil [email protected] RESUMO ABSTRACT Esta pesquisa visa contribuir para o entendimento do processo criativo e de desenvolvimento do projeto “Mesa de Centro Tambá” aplicando princípios que envolvam o biomimetismo inserido na temática da cultura brasileira. A abordagem escolhida começa com a problemática e questionamento do que é ser brasileiro segundo o movimento modernista da fase Pau-Brasil, ademais, o que a multiculturalidade pode oferecer através da biodiversidade no território do Brasil. A metodologia segue os princípios da biônica vinculada ao processo de design, com uma analise morfológica e funcional do animal tamanduá-bandeira para criação do produto e, além disso, uma análise semiótica da mesa. Por fim, foi elaborado um modelo funcional através de moldes de madeira para demonstrar o produto criado - o conjunto mesa de centro Tambá baseada no movimento antropofágico. This research aims to contribute to the understanding of the creative process and project development of "Table Tambá" applying biomimetism inserted in the theme of Brazilian culture. The approach begins with the problematic and questioning of what is actually being brazilian according to the modernist movement of stage Pau-Brazil, moreover, what multiculturalism can offer through the biodiversity in the territory of Brazil. The method follows the principle of bionics linked to the design process, with morphological and functional analysis of giant-anteater for product creation. In addition, a semiotic analysis table. Finally, was made a functional model usign wooden molds to demonstrate the product created - the set table Tambá based anthropophagic movement. Keywords: Brazilian design, design process, Tambá table. Palavras-chaves: design brasileiro, biomimetismo, processo de design, mesa Tambá. biomimetism, 1 Fourth International Conference on Integration of Design, Engineering and Management for innovation. Florianópolis, SC, Brazil, October 07-10, 2015. 1 INTRODUÇÃO entendida como um sistema de atitudes, valores e significados compartilhados e incorporados. Porém, o autor alerta para os cuidados do termo cultura, já que o termo pode induzir confortáveis homogeneizações. Segundo Laraia [2] demonstra que superando o orgânico, o homem de certa forma libertou-se da natureza. Tal fato possibilitou a expansão da espécie por todos os recantos da Terra e de sua manifestação cultural. Nenhum outro animal tem toda a Terra como seu habitat, apenas o homem conseguiu esta proeza, desta forma, o autor cita Alfred Kroeber. Esta pesquisa foi iniciada em uma disciplina de prática projetual a fim de desenvolver um móvel inspirado na cultura brasileira, dessa forma, seu enfoque se torna mais experimental e concentra-se no desenvolvimento do produto final. Na introdução foram abordados dois temas relacionados à fundamentação da pesquisa, o primeiro tema é referente aos conceitos da cultura brasileira, explorando as variadas ideias sobre as brasilidades, e o segundo tema relacionado ao debate de algumas características do design brasileiro e sua existência. A metodologia utilizada nesta pesquisa foi o biomimetismo aplicado em projetos de produto na área do design, estabelecendo a relação do território brasileiro, pelo entendimento do meioambiente encontrado nos aspectos da fauna dentro do PDP (Processo de desenvolvimento de novos Produtos). Nos resultados a pesquisa aborda o desenvolvimento do produto e suas delimitações de produção, sendo um móvel teve três características principais: a primeira foi englobar um ou mais conceitos da cultura brasileira, a segunda é a realização de um móvel com até 3 matérias primas; e a última a utilização de uma analogia morfológica de algum animal da fauna do país, através de uma análise semiótica. Por fim, a conclusão descreve os pontos positivos e negativos do processo em relação ao produto desenvolvido através da metodologia proposta. De fato, o que faz o habitante humano e normalmente é adaptar-se a um contexto ou situação. Enquanto o urso polar não pode mudar de seu ambiente, pois não suportaria um grande aumento de temperatura, um esquimó pode transferir-se de sua região gelada para um país tropical e em pouco tempo estaria adaptado ao mesmo, bastando apenas trocar o seu equipamento cultural pelo desenvolvido no novo habitat [2]. No Brasil, segundo Moraes [3] a constante convivência entre povos distintos gerou um fenômeno múltiplo, plural no sentido mais amplo e alargado do termo. Em linhas gerais, isso teve início quando o encontro dos europeus, no século XVI, com a população indígena local e posteriormente com os africanos, trazidos como escravos a partir do século XVII. Já mais recentemente, com a forte imigração para o país do século XIX até a metade do século XX, o caráter plural da sociedade brasileira se intensificou ainda mais. Com este conceito de cultura, o Brasil, que foi constituído por um amplo território e formado por variadas expressões culturais, prevalece uma multicultariedade ou mestiçagem, isso é marcado principalmente na clássica frase de Macunaíma – “Eu sou um Tupi tangendo um alaúde” de Mario de Andrade [4]. Esta frase reflete a diversidade cultural, no modo de vida da população brasileira, como o jeito de pensar, utilizar e viver. O conceito de mestiçagem só pode ser entendido mediante o constante movimento das 1.1 BRASILIDADES E DESIGNS A cultura pode ser compreendida por um processo acumulativo, resultante de toda a experiência histórica. E dessa forma, resulta de significações e práticas de um determinado grupo em um determinado contexto social. O termo cultura para Thompson [1] desenvolve o conceito de experiência. O autor reconstitui a dinâmica da vida social a partir do conjunto de normas, valores, obrigações, expectativas e tabus existentes a cada grupo. Ele define cultura não só no campo simbólico, mas, e principalmente, no campo material. Ela pode ser 2 Fourth International Conference on Integration of Design, Engineering and Management for innovation. Florianópolis, SC, Brazil, October 07-10, 2015. sociedades, num contexto fragmentado, inseguro, caótico, imprevisível e ambíguo resultado do choque entre culturas. É por se dar num contexto fragmentado e heterogêneo que conceitos imóveis, unificados e totalizantes são questionados por Gruizinski [5]. Dessa forma conceitos como exotismo, cultura, identidade e sincretismo por possuírem essa característica totalizante e imóvel, ou seja, de colocar uma realidade única e não múltipla são problemáticos em seu uso. Mediante isto, estudos atuais discutem a impossibilidade de definir com contornos claros uma noção única de cultura brasileira ou brasilidades. Dessa forma, optam por debates que entendam o Brasil a partir de uma lógica de uma cultura híbrida ou mestiça [5]. Esta foi à percepção dos modernistas da década de 1920, sobretudo da geração pau-brasil que identificou na exuberância da fauna e flora brasileira uma, entre tantos outras, marcas da identidade brasileira. Característica esta, que estará no núcleo central da conceituação do mobiliário. O resultado desses encontros entre povos distintos se manifestou em todos os campos da cultura no Brasil. Este complexo fenômeno de multiculturalismo e mestiçagem presente em território brasileiro trouxe, para dentro da práxis da disciplina do design [3], elementos paradoxais, de proveniências distintas, fontes diversas e contrastantantes, porém de grande conflitualidade. O autor enfatiza que a falta de unicidade dentro do teorema do design brasileiro não provem da ausência de cultura, mas ao contrário, do seu excesso. Dessa maneira, assim como as brasilidades existentes, existem de certo modo variados conceitos sobre o design brasileiro. Este fenômeno ocorrido no design brasileiro, fruto da sua multiculturalidade e das suas microcontradições [3], não lhe confere, ao fim valores simbólicos e icônicos estáticos, mas sim, fluídos e renováveis. Estes aspectos apresentam-se hoje, após décadas de amadurecimento do design local, como relevante riqueza e potencial da cultura. Continua Moraes que ao negar o valor cultural intrínseco ao design mestiço brasileiro seria como negar a pluralidade cultura brasileira. Dessa forma, ele mostra que ao analisar os valores culturais presentes no design brasileiro, se aponta para as várias faces, ou melhor, para as suas diversas características como aborta Gruizinski [5]; assumir não haver unicidade no âmbito do design local no Brasil significa reconhecer que nenhuma das culturas existentes foi subestimada em relação às outras. Isto mostra a curiosa realidade de que a unicidade que se vê fortemente presente em países de cultura homogênea significa, por outro lado, que algumas culturas foram subestimadas para dar espaço àquela que se sobressaiu como modelo único (processo de colonização). Neste contexto, o verdadeiro desafio do design brasileiro é de transformar o excesso de informação cultural, oriunda de forte miscigenação de povos, em um modelo em equilíbrio. Isto é, o desafio de conferir harmonia estética e estésica aos bens de uma cultura material provenientes de uma cultura múltipla. [3]. Contudo, o design brasileiro está em contínuo processo de desenvolvimento e liquidificação e isto se mostra pelo hibridismo de seus produtos e serviços. Utilizando-se de combinações de materias, métodos e processos diferenciados dentro de contextos experimentais para o mercado globalizante que também está processo de construção. 2 MÉTODO Para Gerardin [6] a biônica é abordada como a ciência dos sistemas cuja função é baseada nos sistemas vivos, ou a qual apresenta características dos sistemas vivos, ou, ainda que lhes sejam análogos. Ou seja, serve para adaptar os produtos ou dispositivos para um contexto humano. Ademais, para Benyus [7] seria uma ciência que estuda os modelos naturais e depois imita ou se inspira para resolver problemas humanos. A aplicação da biônica ou biomimetismo está fundamentada em duas atividades complementares: a primeira é a pesquisa que parte da natureza, buscando, interpretar fenômenos naturais, sem necessidade de visar à aplicação imediata. A segunda é a pesquisa aplicada que parte de problemas de projeto, e busca, nos sistemas naturais, princípios de solução 3 Fourth International Conference on Integration of Design, Engineering and Management for innovation. Florianópolis, SC, Brazil, October 07-10, 2015. que possam contribuir para resolver esses problemas (suas necessidades). Assim, consiste em analisar os sistemas naturais e reproduzir seus princípios de solução, buscando contribuições relevantes no processo de desenvolvimento de produto. Essas adaptações permitem a criação de formas análogas, funções análogas ou ainda comportamentos análogos [8]. Na área do design os conceitos mais atuais definem biônica, como o estudo dos sistemas e organizações naturais que visam analisar soluções funcionais, estruturais e formais para aplicá-las à resolução de problemas humanos através da geração de tecnologias e concepção de objetos e sistemas de objetos [9]. Assim, fica ainda mais claro sua aplicação para o processo de design no desenvolvimento de produtos (PDP) segundo Rozenfeld [10] na qual busca inovação do produto desde sua concepção inicial até o ponto de venda no mercado [11]. PDP com base em conceitos relacionados à cultura brasileira, destacando a fase da análise funcional e morfológica do tamanduá-bandeira conforme figura 1. A pesquisa de campo foi realizada segundo Prodanov e Freitas [12] através de entrevista com 10 funcionários da empresa destinada a produzir. Além disso, foi inserida na metodologia uma análise semiótica segundo Santaella [13]. Esta parte da metodologia contribuiu para enfatizar e mostrar de fato o entendimento do conceito do produto (validação), considerando também o contexto cultura de um movimento modernista brasileiro. 3 RESULTADOS 3.1 PESQUISA DE CAMPO Baseado nas observações de campo dentro da loja da empresa frequentada pelo público foi percebido a vontade do público alvo em desempenhar práticas de consumo, em nível simbólico [14], de desejo, comprando aquilo que os satisfaz visualmente, porém, deverá ter grande funcionalidade – função prática. Os produtos mais vendidos segundo os dados da empresa foram cadeiras, mesas, puffes e racks (móveis de porte médio), de fácil transporte e também decorativos. Dentro do conceito de “Pronta Entrega”, a empresa oferece ao cliente embalagens seguras e toda a estrutura para o transporte de produtos por conta própria no porta-malas do automóvel do comprador. Dessa forma, os móveis devem ser empilháveis e desmontáveis, fornecidos em caixas de dimensões e peso delimitados (compactos). Através das entrevistas com os funcionários da loja em relação ao atendimento e fornecimento de produtos pela experiência com o público foi notado às mesmas características que na observação do público alvo, dessa forma foi transcrito um trecho de uma entrevista que sintetiza esta ideia. O que mais vende sem dúvida nenhuma, são cadeiras/puffes, estantes/rack, mas uma coisa que o público adora bastante é a Figura 1. Processo do método inserido do PDP. Deste modo, nesta pesquisa foi utilizada uma metodologia mista e experimental para aplicar a pesquisa de campo e o biomimetismo inserido do 4 Fourth International Conference on Integration of Design, Engineering and Management for innovation. Florianópolis, SC, Brazil, October 07-10, 2015. funcionalidade, um móvel que seja leve, fácil de montar e consequentemente tenha uma boa resposta do cliente pelo preço. O que você tem que ficar bem atento é nos materiais, porque a loja por mais que pareça ser coisa de rico, não é a intenção. É atender a esse novo brasileiro que está transitando entre classe média e classe alta [...] (Funcionário perguntado consumo do público alvo). sobre O tamanduá-bandeira é o maior dos tamanduás; sendo um animal calmo que habita o cerrado, campos e algumas florestas como ocorre no Pantanal, figura 2. Ele pode viver até 25 anos e medir até 120 cm, tendo mais de 90 cm de cauda. Possui quatro patas, uma cauda enorme com pelos, um focinho gigante com o qual se alimenta de pequenos insetos. o As coleções são coordenadas dentro dos estilos urbanos, peças com madeira ou fibras (junco e vime) com cores suaves e texturas naturais que proporcionam o aconchego. Além de um estilo neutro que em sua maioria utilizam a cor preta e o metálico em peças menores. 3.2 O TAMANDUÁ-BANDEIRA A grande extensão territorial do Brasil abrange diferentes ecossistemas, como a floresta Amazônica, reconhecida como tendo a maior diversidade biológica do mundo, a Mata Atlântica e o Cerrado, que sustentam também grande biodiversidade, sendo o Brasil reconhecido como um país megadiverso. Por exemplo, ao sul, a floresta de araucárias cresce sob condições de clima temperado e ao norte á o clima que prevalece ao longo da região é o equatorial úmido, caracterizado por elevadas temperaturas e grande quantidade de chuvas durante todo o ano. A rica vida selvagem do Brasil reflete uma grande variedade de habitats naturais. Os cientistas estimam que o número total de espécies vegetais e animais no Brasil seja de aproximadamente de quatro milhões, cerca de 70% da biodiversidade total do planeta [16]. Em relação à fauna, existem pequenos mamíferos que incluem os pumas, onças, jaguatiricas, antas, tamanduás, gambás e tatus e entres outras espécies. Dentro deste contexto foi escolhido o tamanduá-badeira ou Tamanduá-açu para a análise da forma, sendo um mamífero terrestre considerado também um pouco exótico devido ao seu camihar e sua grande cauda traseira. Figura 2. Tamanduá – bandeira em seu habitat natural. Fonte: http://petfriends.com.br/blog/?p=1822. A mãe Tamanduá ao carregar seu filhote nas costas até um pouco depois do desmame (de 6 a 9 meses). Ela o acompanha até a próxima gestação, quando então o filhote passará a viver sozinho. É encontrado em diversos Estados do Brasil, porém, apesar dessa larga ocorrência no território nacional, ele está entre as espécies ameaçadas de extinção, sendo classificado como espécie vulnerável. Conforme figura 3, que é uma das primeiras representações deste animal no Brasil no século XVII, através de um desenhista que veio trabalhar nos país como soldado da Companhia das Índias Ocidentais por volta de 1634 onde permaneceu até 1641. Suas aquarelas têm por tema a fauna, flora, cotidiano e a topografia do Brasil, acompanhadas de breve descrições e, muitas vezes, apresentando o objeto tratado em situações diversas [16]. Wagener retratou os animais, as plantas e os homens do ’’Novo Mundo’’ em seu Diário de Viagem particular, o Thierbuch (Livros dos 5 Fourth International Conference on Integration of Design, Engineering and Management for innovation. Florianópolis, SC, Brazil, October 07-10, 2015. Animais). Mostrando uma primeira imagem desses animais bem como seu comportamento e naturalidades, assim impactaram o imaginário cultural e também bases para biodiversidade [17]. algumas delimitações básica para elaboração do projeto conforme citados na tabela 1. 1 2 3 4 5 6 7 Um produto para a categoria Casa > Sala > Sala de Estar > Mesas auxiliares. Com até 3 materiais – predominando a madeira. Com custo médio (200-400 reais) Segue a forma e função do animal – destaque para o fucinho. Caracterize a nação com adereços. Mesa com superfície plana com três apoios no chão. Caracteristicas do produto: Fluído, elegante, natural e funcional. Tabela 1. Principais itens considerados no briefing Fonte: os autores (2015). Através do briefing, foi possível a caracterização conceitual da mesa, que conforme representam os esboços da figura 4, demostrando uma parte das gerações de alternativas finais. As ideias iniciais apresentaram-se mais ligada a forma do fucinho do animal, formando mesas mais finas e menos estáveis, com pouca área para colocar objetos (menos funciona e mais decorativa). Na segunda geração pensou em inserir adereços de cordões com matérias artesanais e cores neutras, lembrando a cauda do animal. Também foram feitos testes de cores e de textura da madeira até chegar ao desenvolvimento do conceito final, inspirando-se na forma de todo o animal e não apenas uma parte, isso, deu mais estabilidade para a mesa e também aumento sua área de uso. As últimas alternativas, lembram de maneira mais fácil a interpretação da inspiração, onde mostram um animalzinho de estimação de pequeno porte. Figura 3. Tamanduá-bandeira em aquarela, abaixo da figura a descrição do estranho bicho dos trópicos. Biblioteca central do museu Dresden, Alemanha, 1641. 3.3 DESENVOLVIMENTO TAMBÁ DA MESA A brasilidade, entendida em seu aspecto cultural e composta por um processo de significação da riqueza da fauna, despertou a possiblidade conceptiva deste projeto baseado no movimento modernista em sua fase antropofágica, da década de 1920. Este movimento ficou caracterizado, entre outros aspectos, por buscar uma interpretação sobre o que significava ser brasileiro e também um contato maior com a origem natural do país. Deste modo, foram adotadas como referência visual na configuração do conjunto as características biomórficas do Tamanduábandeira, animal tipicamente do habitat brasileiro e símbolo deste movimento como melhor descrito na análise do modelo. Tomando como referência a fundamentação da pesquisa, a pesquisa de campo, as análises de forma e função do animal (biônica) foi elaborado um briefing com 7 itens principais, propondo 6 Fourth International Conference on Integration of Design, Engineering and Management for innovation. Florianópolis, SC, Brazil, October 07-10, 2015. Para um posicionamento no mercado foi pensando um conjunto de três peças, com tamanhos diferentes, que possibilita um maior campo de possiblidades para o usuário dentro das varias aplicações dentro de uma casa ou apartamento (figura 5). Assim, foram criados com as mesmas características que a geração final dois produtos menores representando filhotes do produto ou a mãe. O empilhamento do conjunto resultou em uma embalagem compacta que propicia a redução de custos no transporte em que o usuário pode levar direto para sua residência, carregado pela mão e também entrando em um carro ou ônibus. Figura 5. O conjunto Mesa de Centro Tambá. Por fim, o conceito teve como objetivo a satisfação dos usuários, despertando a compra simbólica, pois o usuário adota um “bixinho”, levando-o (os) para casa na embalagem, sem necessitar de entrega, sendo uma mesa é fina (12 mm de espessura), leve (até 9 kg) e com personalidade própria. A seguir melhor representando na figura 6 a ambientalização da mesa dentro de uma sala de estar, simulando uma situação de lazer e repouso, como um momento de leitura ou até uma janta na sala. Figura 4. Processo de geração de alternativas. Ademais, as gerações finais foram trabalhadas com apenas dois matérias (madeira e cordões), se tornando ainda mais fácil a produção do que 3 materias propostos. 7 Fourth International Conference on Integration of Design, Engineering and Management for innovation. Florianópolis, SC, Brazil, October 07-10, 2015. Figura 6. Ambientalização do produto. Figura 7. Dimensões e vistas do produto. 3.4 ERGONOMIA E DETALHAMENTO No processo de detalhamento do produto foi utilizado mais de oito modelos ergonômicos para acertar a altura adequada bem como os dimensões principais. Os modelos foram feitos incialmente de cartolinas grossas, e depois para melhor estruturação foi utilizado papelão com uma estrutura de ferro embaixo, dessa forma deu a arcada necessária para os estudos volumétricos. Para facilitar a movimentação na sala de estar ou em outro cômodo pequeno as dimensões totais da mesa maior são 1360 mm x 491 mm x 440 mm com uma espessura de 12 mm. O móvel fornece fácil pega com os cantos arredondados, sendo que suas dimensões proporcionam um simples e bom manuseio, adaptado assim, para um ambiente onde o usuário sentando ao sofá consiga sem esforços pegar os objetos em cima da mesa de centro como controle, copo, chaves e etc (altura da peça grande é cerca de 40 mm, e a da intermediária de 320 mm), a menor (Tambá Filho) como já comentado, é uma peça opcional. Em relação à área para o uso, a mesa possui uma forma de trapézio com 1.520 cm², sendo o comprimento maior com 626 mm por 389 mm. As partes laterais servem como sustentação da base junto com o apoio de 3 pés, com 74 mm. Os furos para os cordões possuem 10 mm de diâmetro (figura 7). A estrutura dos arcos laterais possuem raios diferentes não alinhados, o raio maior pertencendo a do bico do tamanduá (ponta) com 726 mm e a outra menor com 402 mm. 3.5 O PROCESSO CONSTRUTIVO DO MODELO FUNCIONAL O conjunto pode ser produzido pelo processo de prensagem a frio e a vapor, no caso da prensagem a frio a produção pode ser realizada com a utilização de lâmina de madeira como, por exemplo, vindo de árvores certificadas: Cerejeira, Goiabão, Nogueria, Pequiá, Marupá e entre outras brasileiras, coladas entre si e prensadas por molde e contra molde. Se o processo de fabricação for a vapor, além das lâminas é possível utilizar o compensado multilaminado na sua composição. 8 Fourth International Conference on Integration of Design, Engineering and Management for innovation. Florianópolis, SC, Brazil, October 07-10, 2015. Dessa forma, o modelo da Tambá foi feita totalmente através de prensagem a frio, conforme o processo da figura 8: com a construção do molde inferior (negativo) completo, tem-se um perfil curvo onde é incluída a primeira folha de compensado flexível (6 mm) cortada numa dimensão maior, fixada com pregos pequenos, em seguida, é posta a segunda folha ( formando 12 mm), coladas uma na outra com cola de madeira, dessa maneira criando uma laminação contínua. Para melhores resultados é roscado parafusos de 8 mm aumentando a área o de colagem por pressão. Como este é um processo frio, a mesa é deixada no molde por 24 horas até que a cola tenha curado totalmente. Após isso, ela é removida do molde, cortando cantos de sobra usando a serra circular, recorte da bunda oval, e os arredondamentos dos pés, depois lixada. Após a colagem sobre o molde é feito os detalhes em tinta spray preta nos pés. O acabamento superficial é feito por meio de uma cobertura de selador e finalmente com o verniz brilhante. O produto pode ser personalizado a partir de atributos estéticos, como cordão que faz uma alusão a cauda do Tamanduá. Dentro desta proposta é possível ser desenvolvida uma gama de acabamentos superficiais de acordo com a combinação das lâminas de maneira conforme desejado. Este processo não necessita de grandes tecnologias, demanda apenas corte colagem, curvatura do compensado, furos e acabamentos. Utiliza-se assim, várias vezes o mesmo molde. 1 - Corte do molde. 2 – Construção do molde. 3 – Colocar o compensado. 4 – Recorte dos detalhes da mesa. 5 – Revestimento das lâminas. 6- Acabamentos finais (pintura e selador). Figura 8. Processo construtivo do modelo funcional da mesa Tambá. 9 Fourth International Conference on Integration of Design, Engineering and Management for innovation. Florianópolis, SC, Brazil, October 07-10, 2015. do produto em um primeiro contato é descrito a seguir: Um Móvel de porte pequeno, em torno de 9 kg, brilhante envernizado, com formas curvadas com textura de madeira (marrom e preto), possuindo furos onde são amarrados cordões. Sua altura é em um nível baixo e possui três pontos de apoio com uma espessura fina. Pode-se aqui, descrever mais características, porém não aborda uma análise das emoções ou sensações sentidas em primeira vista. As referências, ou relações de comparação por semelhança são chamadas de icônicas, referente à composição visual, à forma, ao movimento, às cores, luz, interferências e planos que se sucedem. A interpretação é tanto a preferência do produto como a percepção que o utilizador tem do mesmo, podem ser estudadas através da semântica do produto. Os objetos e as imagens não são apenas elementos cumpridores das suas funções básicas, estes implicam também significados pragmáticos (usos). Ademais, a análise do produto através da referência e interpretação do usuário poderia ser primeiramente a lembrança do animal. Dessa maneira, vamos descrever a parte significante (tabela 1) sobre o animal e conceituação do mesmo em um nível semiótico. O animal remetido é encontrado em diversos estados do Brasil, entretanto, apesar dessa larga ocorrência no território nacional, ele está entre as espécies ameaçadas de extinção, sendo classificado como uma espécie vulnerável. No movimento antropofágico que tinha por objetivo a deglutição (por isso o caráter metafórico da palavra "antropofágico") da cultura estrangeira é um dos marcos do modernismo brasileiro e usou como emblema o tamanduá. Este é citado na revista antropofágica de 1928 a 1929 [19]. O movimento pensava que as referências têm que ser buscadas na “terra”, esta - a terra brasileira, mesmo que ao aglutinar, queime nossa língua como é o caso do Tamanduá ao comer as formigas (sugá-las), ao invés das ideias serem completamente imitadas do exterior. 3.6 ANÁLISE SEMIÓTICA A semiótica é capaz de revelar a potência comunicativa dos signos e sua capacidade de gerar efeitos nas mentes interpretadoras (imagens e características que o produto passa) [18]. Daí a relevância de sua aplicação no PDP, uma vez que o produto possui significados intrínsecos dos quais é alterado conforme a cultura e a experiência do usuário. A análise foi elaborada segundo o método semiótico de Santaella [13]. Segundo esta, na definição de Pierce, o signo possui natureza triádica, podendo ser analisado em si mesmo, em sua referência àquilo que ele indica e nos tipos de efeito que está apto a produzir nos seus interpretantes. Portanto, a análise semiótica que segue, está estruturada em três níveis: a mensagem do produto em si, a referencialidade da mensagem, e a interpretação da mensagem. Os signos são coisas representativas de outras coisas, é uma unidade mínima de primeira articulação. Para que exista signo é necessário que exista alguém que o interprete. Sema = é um conjunto de signos, porém sua decomposição não o torna legível. Dessa forma foi elaborado conforme a tabela 1 as estruturas aplicado na mesa. Signo = Mesa de Centro Tambá (produto). Significado decorativo. = Objeto de apoio/Objeto Significante = Desenho, palavra ou som provocado pelo produto no uso ou animal representado (tamanduá-bandeira). Significação = Status, contexto dado pela pessoa / Poderoso, belo, atraente, elegante, fluídico. Tabela 1. Decomposição semiótica aplicado à mesa de centro Tambá. Fonte: Os autores (2015). [...] O nosso bicho é o tamanduá bandeira. Nossa bandeira é o tamanduá. Ele enterra a língua na Em relação às características físicas do produto ou objeto imediato, ou seja, a descrição 10 Fourth International Conference on Integration of Design, Engineering and Management for innovation. Florianópolis, SC, Brazil, October 07-10, 2015. terra, para chupar o tutano da terra. As formigas grudam na língua dele, mordendo, queimando. Ele engole as formigas. [19] informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais [20]. Na língua Tupi o anima também é de forte representação, sendo um animal selvagem, nativo e faminto de renovação (alimentando-se de insetos, digerindo-os). Como o país que cresce com as mais variadas manifestações, acabamos morando na mesma terra descoberta, e ainda em fase de processo de digestão. A diversidade existe da fauna até a cultura e processamos como os variados insetos comidos pelo animal. As formas do produto, analogicamente remetendo a forma do animal, bem como sua forma de se sobreviver diante do chão/terra, e também sustentando a vida (o filhote) nas costas por um longo período, que constrói um conceito de sustentação/apoio, por essa razão, a ideia de fazer uma mesa de estar, que simbolize essas características ligando o tamanduá com o Brasil. Ademais, de estrutura simples, possuindo o apoio de três pontos dando estabilidade no chão como os dedos da pata do bixo, que sustenta todo o seu corpo. Dessa forma, o trio de peças representa uma família básica e pode ser oferecido em conjunto ou separadamente, pois a mesinha menor tem função decorativa, porém a “mãe” e o “pai” demostra as duas funções (decorativa e funcional). Sua área plana proporciona um espaço para dispor objetos decorativos, mantendo-os numa bela exposição, além de permitirem que você coloque algum objeto pessoal ou apoiar uma bandeja, servindo visitas e amigos, usados em situação de lazer. Um dos mais significativos trabalhos realizados a respeito do lazer fundamentam-se nas teorias do sociólogo Dumazedier (p. 31, 1976), que define lazer como sendo. Assim, o lazer, visto como uma prática cultural contemporânea é um fenômeno que cada vez mais ganha espaço no âmbito social, inserindo no cotidiano das pessoas dentro das comunidades e nas discussões acerca de seus potenciais e reflexos no mundo em que vivemos. Em relação ao nome proposto, está ligado com aglutinamento de duas palavras do nome do animal, conforme demostra a figura 10 - Tambá (Tamanduá + Bandeira), que seu próprio nome também remete ao ufanismo da bandeira brasileira ligada a cauda do mesmo. Além de soar com uma pronúncia indígena (devido ao acento no final). Para aprofundar a identidade do produto, a logo ficaria com os traços do conjunto com nome ao centro, de simples entendimento e cores básicas – ligando o amarelo e o marrom às terras brasileiras e os tons da madeira do produto. Figura 10. Nome e logo propostos para o produto. 4 CONCLUSÃO A metodologia proposta se mostrou eficaz com os resultados e a análise semiótica. O produto ficou mais limpo e estável, evoluindo das suas alternativas anteriores, bem como os modelos volumétricos auxiliaram também para o sucesso do refinamento do produto, considerando os aspectos ergonômicos para um móvel de sala. Um conjunto de ocupações às quais o individuo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se, ou ainda, para desenvolver sua 11 Fourth International Conference on Integration of Design, Engineering and Management for innovation. Florianópolis, SC, Brazil, October 07-10, 2015. Houve preocupações técnicas, como a distribuição do peso e ponto de equilíbrio, para que ao uso ela não tombasse, porém, com uma mudança nos posicionamento dos pés e o sistema de três pontos a mesa ficou firme. A analogia morfológica do animal ajudou e facilitou o desenho final do produto, pois ela explora os princípios formais e funcionais do modelo biológico, visando à criação de novas formas, isto é, de novas soluções aplicáveis ao design, além de possibilitar uma gama de aplicações com o conjunto. Dessa maneira, a metodologia proposta auxiliou na construção da mesa, atendendo as necessidades físicas, culturais e semânticas dentro do contexto do PDP posposto. A inspiração para a conceituação do projeto não busca definir o que é brasilidade ou representar toda sua multiplicidade, mas se basear numa das primeiras tentativas de interpretação cultural do Brasil, criando novas possibilidades para projetos e processos de produto com a inclusão cultural na metodologia e também uma fase de validação do que foi desenvolvido (análise do modelo). Por fim, a mesa, assim como se apresenta a natureza, a forma seguiu a função do produto, passando o propósito da elegância, contemporaneidade e abordando um conceito de brasilidades para o design dentro de um movimento muito importante para o Brasil, que buscou caracterizar uma identidade brasileira. [6] Gerardin, Lucien., 1968, Bionics. Ed. World University Library. New York. [7] Benyus, J.M., 1997. Biomimética, Ed. Cultrix São Paulo. [8] Forcellini, F. A. Apostila de Projeto de Produto. [S.l.]:[s.n.], 2002. [9] Broeck, A. F., 1989, “O uso de analogias biológicas”. Revista Design e Interiores, São Paulo, n.l5, pp.97-100. [10] Rozenfeld, H.; Forcellini, F. A.; Amaral, D. C.; et al., 2006., Gestão de Desenvolvimento de Produto: uma referência para a melhoria do processo. Saraiva. São Paulo. [11] Baxter, M., 1998, Projeto de produto guia prático para o desenvolvimento de novos produtos. Ed. Edgard Blücher Ltda. [12] Prodanov, Cleber C; Freitas, Ernani C. de., 2013. 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