“Aventura do Espírito”: a Sociologia e a formação de jovens no Ensino Médio Rosemary de Oliveira Almeida - UECE Felícia Maria de Sousa Lima - Escola de Ensino Médio Liceu Vila Velha Judas Tadeu Pereira Alves - Colégio Estadual Presidente Humberto Castelo Branco Resumo: Este texto é uma aventura da Sociologia que deságua na formação de jovens no Ensino Médio, que se pretende necessária para o exercício da cidadania. Essa noção tem relação com uma formação complexa, voltada para a compreensão do conhecimento pertinente que se relaciona com o mundo vivido. Assim é a idéia que fazemos das teias complexas do processo de formação de jovens por meio da Sociologia. A analogia com a segurança e a insegurança, com os aspectos que pretendemos tecer aqui sobre a formação de jovens e o papel da sociologia no ensino médio, não é à toa. Trás à tona o entendimento de que o conhecimento é complexo, voltado não apenas para os aspectos formais do saber científico e de seus estatutos e metodologias, como também para a criação artesanal de conteúdos e métodos imbuídos nas incertezas do cotidiano de jovens e educadores. Palavras-chave: Sociologia, ensino médio, conhecimento complexo. OBS.: o tema está articulado ao Saber V – enfrentar as incertezas. 1 “Aventura do Espírito”: a Sociologia e a formação de jovens no Ensino Médio1 Rosemary de Oliveira Almeida2 Felícia Maria de Sousa Lima3 Judas Tadeu Pereira Alves4 Introdução Em 2006, após lutas simbólicas e políticas, o Conselho Nacional de Educação aprovou por unanimidade a obrigatoriedade das disciplinas de Filosofia e de Sociologia nas três séries do Ensino Médio. Em 2 de junho de 2008 foi sancionada a Lei Nº 11.684 e, a partir dessa data, as disciplinas de Sociologia e Filosofia passaram a integrar de forma obrigatória o currículo nacional brasileiro nos três anos de ensino médio. Todavia, diferentemente de disciplinas já consolidadas na escola e no imaginário dos estudantes, a Sociologia ainda carece de um processo de identificação com a juventude. As “Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação de Professores da Educação Básica” expõem que a Sociologia e a Filosofia são necessárias ao exercício da cidadania, cabendo aos professores desenvolver habilidades para que este ensino possibilite aos discentes instrumentos próprios de compreensão das problemáticas sociais, políticas e econômicas da sociedade. Essa concepção tem relação com os ensinamentos do educador Paulo Freire que nos convida a pensar em aprender sobre a vida, algo que não é possível sem liberar o espírito, sem correr riscos, sem se aventurar: “Aprender para nós é construir, reconstruir, constatar para mudar, o que não se faz sem abertura ao risco e à aventura do 1 Esse texto é resultado do trabalho desenvolvido pelo subprojeto da área de Ciências Sociais/Sociologia, do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência/PIBID, financiado pelo Ministério da Educação e CAPES, em desenvolvimento na Universidade Estadual do Ceará, período 2010 a 2012, cujo tema geral é: “A Vida Docente na Escola: aprender e ensinar pela pesquisa”. Tem como foco a aprendizagem da profissão professor mediante o contato direto dos alunos bolsistas de iniciação à docência, com os afazeres do trabalho docente no cotidiano escolar e seus dilemas. Ver Projeto completo em: www.uece.br/pibid. 2 Doutora em Sociologia, professora do Curso de Ciências Sociais e do Mestrado Acadêmico em Políticas Públicas e Sociedade, da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Coordenadora do Grupo de Estudos da Conflitualidade e da Violência/COVIO/UECE. Coordenadora da área de Ciências Sociais do Projeto Institucional da UECE PIBID/CAPES. Email: [email protected] 3 Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará, professora de Sociologia e Filosofia da Escola de Ensino Médio Liceu Vila Velha e supervisora da área de Ciências Sociais do PIBID. Email: [email protected] 4 Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Ceará, professor de Sociologia do Ensino Médio do Colégio Estadual Presidente Humberto Castelo Branco e supervisor da área de Ciências Sociais do PIBID. Email: [email protected] 2 espírito”. (FREIRE, 1997, p. 77). Freire nos faz lembrar dois outros autores, também aventureiros do espírito: Edgar Morin, para quem conhecer é “uma aventura incerta que comporta em si mesma, permanentemente, o risco de ilusão e de erro” (2000, p. 86); e George Simmel, que diz: “o filósofo é o aventureiro do espírito”. Em analogia a escrita dos três, este texto é um convite para todo aprendiz que quer ser o “aventureiro do espírito”. O aventureiro, para dizê-lo numa só palavra, trata o que na vida é incalculável, como em geral tratamos o que pode ser calculado com segurança. (Por isso o filósofo é o aventureiro do espírito [...]). Onde o entrelaçamento com os elementos desconhecidos do destino torna duvidoso o êxito de nossa atividade, cuidamos de limitar o emprego de nossas forças, de manter abertas as linhas de retirada e damos cada passo apenas experimentando. Na aventura, procedemos de um modo diametralmente oposto: apostamos tudo justamente na chance flutuante, no destino e no que é impreciso, derrubamos a ponte atrás de nós, adentramos o nevoeiro, como se o caminho devesse nos conduzir sob quaisquer circunstâncias. (SIMMEL, 2005, pp. 175-176). A aventura é a possibilidade de adentrar os labirintos do conhecimento e da realidade para além de uma racionalidade segura do saber e do estabelecido; é a possibilidade de tecer a vida e aventurar-se nela, mesmo sob o risco de encontrar a insegurança, a incerteza, o inusitado. Mas é o ponto de cruzamento do momento de segurança da vida com o de insegurança, que dá qualidade às nossas práticas. Buscamos a segurança, mas temos que contar com os imponderáveis, significando dizer que, em relação aos nossos objetivos traçados no início de qualquer empreendimento, nem sempre temos a segurança de que serão alcançados. É no processo que tomamos consciência também da incerteza, portanto, lidamos com o seguro e o inseguro o tempo todo e é assim que podemos ter êxito. Assim é idéia que fazemos das teias complexas do processo de formação de jovens por meio da Sociologia no ensino médio. A analogia com a segurança e a insegurança, com os aspectos que pretendemos tecer aqui sobre a formação de jovens e o papel da sociologia no ensino médio, não é à toa. Traz à tona o entendimento de que o conhecimento é complexo: O conhecimento pertinente deve enfrentar a complexidade. Complexus significa o que foi tecido junto; de fato, há complexidade quando elementos diferentes são inseparáveis constitutivos do todo (como o econômico, o político, o sociológico, o psicológico, o afetivo, o mitológico), e há um tecido interdependente, interativo e inter-retroativo entre o objeto de conhecimento 3 e seu contexto, as partes e o todo, o todo e as partes, as partes entre si. (MORIN, 2000, p. 38). A Sociologia é um conhecimento complexo que se tece na teia de outros saberes, que se realiza no ponto de cruzamento entre a ordem e a desordem, o seguro e o inseguro, em que podemos visualizar interações e conflitos entre “as partes e o todo”, “as partes entre si” ao lidar com o campo da educação e da experimentação da multiplicidade de saberes e vivências no mundo da escola. Mas, e quanto ao ensino desta ciência aos jovens do ensino médio? É possível pensá-la como disciplina da compreensão e da interpretação da condição humana e sua multiplicidade? Pensando a sociologia como artesanato: “ensinar a compreensão” Escrever sobre o ensino de Sociologia no Ensino Médio nos faz recordar imediatamente o texto de Wright Mills (1982), “A Imaginação Sociológica”, para quem a sociologia se faz mediante o trabalho artesanal, de construção do raciocínio que não se dá sem uma profunda imersão nas experiências de vida articuladas com a experiência intelectual. Trata-se do cultivo da imaginação sociológica que ocorre por intermédio do trabalho artesanal associado, também, a “certo estado de espírito alegre” que combinam idéias e experiências do mundo comum nem sempre aceitas pela razão técnica, mas que busca sentido nas relações e interações sociais que são sempre conflitantes. Aspecto fundamental da Sociologia no ensino médio é continuar a ser essa experiência artesanal do raciocínio. Trata-se de contribuir para a formação de “juventudes plurais” que, ao se deparar com o conhecimento e com suas diferentes experiências (familiares, amigáveis, profissionais, econômicas, políticas, religiosas, culturais e àquelas ainda estranhas à sua compreensão), não se esqueçam de olhar para o mundo a sua volta, de pensar seus objetos e sujeitos interagindo profundamente com o meio ambiente e humano que o cerca. Morin explicita a ideia de “ensinar a compreensão” que passa pela dimensão e exigências objetivas da explicação intelectual, o que é necessário para o conhecimento, mas não é tudo. A compreensão é também subjetiva, tem a ver com o sujeito em relação uns com os outros, com um processo de identificação e de projeção da vida, dos saberes e dos sentimentos de uns com os outros. Trata-se de compreensão da pluralidade e das diferenças; “permite apreender em conjunto o texto e o contexto, o ser e o seu meio 4 ambiente, o local e o global, o multidimensional, em suma, o complexo...” (MORIN, 2000, p. 100). A sociologia tem o ofício racional e artesanal, objetivo e subjetivo de compreender processos plurais nas sociedades, de ensinar a compreensão que passa bem mais pela identificação e empatia com a vida desses jovens, enfim, pela experiência de intersubjetividade. Entretanto, o desconhecimento da disciplina faz com que ela seja considerada como repetidora de teorias ou que apenas discute a vida do aluno, numa espécie de terapia coletiva. A dificuldade em estabelecer os conteúdos, métodos e suas conexões são aspectos relevantes nessa discussão. O conhecimento das incertezas: conhecimento pertinente Mais uma vez retomamos a aventura de Simmel, de Freire e de Morin como analogia ao ofício da Sociologia no ensino médio, como formadora de jovens. Este ensino passa pela segurança das teorias instituídas e também pela insegurança de conteúdos incertos do mundo vivido juvenil. Ele não está nos muros das universidades, às vezes um tanto fechado aos intelectualismos do mundo seguro do conhecimento; ele está envolto no destino incerto e impreciso da escola pública brasileira. Lembrando a aventura simmeliana, o ensino da sociologia que ocorre no espaço das escolas, quando se depara com “elementos desconhecidos do destino”, que não se objetivam no aprendizado de sua formação cognitiva e técnica, pode tornar “duvidoso o êxito da atividade”, limitar o passo, agir teórica ou tecnicamente e, raras vezes, apostar “na chance flutuante, no destino que é impreciso...”. Onde podemos, de fato, encontrar o vôo da Sociologia no ensino médio? É possível adentrar mais a neblina do conhecimento sem “limitar o emprego de nossas forças” a recursos teórico-formais? Ou melhor, é possível encontrar o ponto de cruzamento entre os aspectos da compreensão objetiva e o da compreensão subjetiva? Como é possível dilatar os sentidos da sociologia e seus recursos para atuar no mundo complexo e incerto da escola e da juventude? A dimensão freireana é imprescindível na experiência de sala de aula em que é possível entregar-se ao espírito aventureiro de um mundo incerto ao entrecruzar a dimensão técnica e teórica com a discussão das experiências de formação, de novos 5 currículos e modos de ser e pensar dos jovens. Entregar-se a aventura é também enfrentar as incertezas, como diz Morin (2000, p. 84): Nova consciência começa a surgir: o homem, confrontado de todos os lados às incertezas, é levado em nova aventura. É preciso aprender a enfrentar a incerteza, já que vivemos em uma época de mudança em que os valores são ambivalentes, em que tudo é ligado. Voltamos à teia da incerteza do conhecimento, da aventura e do risco. O ensino da sociologia para os jovens precisa cuidar para não cair nas ilusões das “certezas doutrinárias, dogmáticas e intolerantes [...] ao contrário, a consciência do caráter incerto do ato cognitivo constitui a oportunidade de chegar ao conhecimento pertinente...” (MORIN, 2000, p. 86). Da mesma forma o ato de ensinar sociologia é pertinente quando consciente de estar voltado para os saberes acumulados da ciência e também para a ação incerta do modo artesanal de criar novos métodos. “Uma vez mais repetimos: o conhecimento é a navegação em um oceano de incertezas, entre arquipélagos de certezas” (IDEM). Assim também compreendemos a navegação do ensino de sociologia para jovens do ensino médio, como uma aventura do conhecimento, da aprendizagem e da experiência humana. Precisamos adentrar o “nevoeiro”. Referências Bibliográficas: MILLS, C. Wright. A Imaginação Sociológica. Rio de Janeiro, Zahar, 1982. MORIN, Edgar. Os Sete Saberes Ligados à Educação do Futuro. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000. FREIRE, Paulo (1997). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra. SIMMEL, Georg (2005). A Aventura. In: SOUZA, Jessé; ÖELZE, Berthold (Orgs.). Simmel e a modernidade. Brasília: Editora Universidade de Brasília. pp. 169-184. 6 ESQUEMA DO POSTER Título: “Aventura do Espírito”: a Sociologia e a formação de jovens no Ensino Médio Expositores: Rosemary de Oliveira Almeida - UECE Felícia Maria de Sousa Lima - Escola de Ensino Médio Liceu Vila Velha Judas Tadeu Pereira Alves - Colégio Estadual Presidente Humberto Castelo Branco Introdução Em 2006, após lutas simbólicas e políticas, o Conselho Nacional de Educação aprovou por unanimidade a obrigatoriedade das disciplinas de Filosofia e de Sociologia nas três séries do Ensino Médio. Em 2 de junho de 2008 foi sancionada a Lei Nº 11.684 e, a partir dessa data, as disciplinas de Sociologia e Filosofia passaram a integrar de forma obrigatória o currículo nacional brasileiro nos três anos de ensino médio. Partimos do pressuposto que a Sociologia é um conhecimento complexo que se tece na teia de outros saberes, que se realiza no ponto de cruzamento entre a ordem e a desordem, o seguro e o inseguro, em que podemos visualizar interações e conflitos entre “as partes e o todo”, “as partes entre si” ao lidar com o campo da educação e da experimentação da multiplicidade de saberes e vivências no mundo da escola. Perguntas de partida: Diante da complexidade do conhecimento científico, como pensar a Sociologia como disciplina direcionada aos jovens do ensino médio? Como pensá-la como disciplina da compreensão e da interpretação da condição humana e sua multiplicidade? 1. Pensar a sociologia como artesanato intelectual: “a imaginação sociológica” A sociologia se faz mediante o trabalho artesanal, de construção do raciocínio que não se dá sem uma profunda imersão nas experiências de vida articuladas com a experiência intelectual (MILLS, 1982). Significa contribuir para a formação de juventudes plurais que, ao se deparar com o conhecimento e com suas diferentes experiências (familiares, amigáveis, profissionais, econômicas, políticas, religiosas, culturais e àquelas ainda estranhas à sua compreensão), não se esqueçam de olhar para o mundo a sua volta, de pensar seus objetos e sujeitos interagindo profundamente com o meio ambiente e humano que o cerca. 7 2. Pensar a sociologia como ofício de compreensão objetiva e subjetiva de processos plurais, de intersubjetividade: “ensinar a compreensão” Ensinar a compreensão passa pela dimensão e exigências objetivas da explicação intelectual, o que é necessário para o conhecimento, mas não é tudo. A compreensão é também subjetiva, tem a ver com o sujeito em relação uns com os outros, com um processo de identificação e de projeção da vida, dos saberes e dos sentimentos de uns com os outros. Trata-se de compreensão da pluralidade e das diferenças; “permite apreender em conjunto o texto e o contexto, o ser e o seu meio ambiente, o local e o global, o multidimensional, em suma, o complexo...” (MORIN, 2000, p. 100). Conclusões Sociologia é conhecimento das incertezas: o conhecimento pertinente A Sociologia no ensino médio não pode se limitar ao emprego de recursos teóricoformais. Então, é possível encontrar o ponto de cruzamento entre os aspectos da compreensão objetiva e o da compreensão subjetiva? Como é possível dilatar os sentidos da sociologia e seus recursos para atuar no mundo complexo e incerto da escola e da juventude? Georg Simmel (2005), Paulo Freire (1997) Edgar Morin (2000) nos alertam para pensar o ensino da sociologia como uma aventura do espírito. É preciso entrecruzar a segurança das teorias instituídas com a insegurança de conteúdos incertos do mundo vivido juvenil. No ensino médio a sociologia não está nos muros das universidades, às vezes um tanto fechada aos intelectualismos do mundo seguro do conhecimento; ele está envolto no destino incerto e impreciso do espaço da escola pública brasileira. O ensino da sociologia para os jovens precisa cuidar para não cair nas ilusões das “certezas doutrinárias, dogmáticas e intolerantes [...] ao contrário, a consciência do caráter incerto do ato cognitivo constitui a oportunidade de chegar ao conhecimento pertinente...” (MORIN, 2000, p. 86). Da mesma forma o ato de ensinar sociologia é pertinente quando consciente de estar voltado para os saberes acumulados da ciência e também para a ação incerta do modo artesanal de criar novos métodos. Referências Bibliográficas: MILLS, C. Wright. A Imaginação Sociológica. Rio de Janeiro, Zahar, 1982. MORIN, Edgar. Os Sete Saberes Ligados à Educação do Futuro. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000. 8 FREIRE, Paulo (1997). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra. SIMMEL, Georg (2005). A Aventura. In: SOUZA, Jessé; ÖELZE, Berthold (Orgs.). Simmel e a modernidade. Brasília: Editora Universidade de Brasília. pp. 169-184.