XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 26 “SERÁ QUE EU SIRVO PARA SER PROFESSOR?”: REFLEXÕES SOBRE A EXPERIÊNCIA NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE BIOLOGIA Lana Claudia de Souza Fonseca Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro Instituto de Educação – Departamento de Teoria e Planejamento de Ensino [email protected] Resumo: Este estudo pretende refletir sobre a ideia de experiência na formação de professores de Biologia, a partir de um entrelaçamento entre a concepção de experiência presente nas Licenciaturas e a concepção de experiência como sentido. Ao questionar a ideia de experiência como prática por observação presente nos curso de formação de professores, vou costurando através das falas dos alunos, as relações entre suas memórias, histórias e trajetórias e a experiência construída durante a formação. Palavras-chave: Formação de professores, ensino de biologia, experiência Introdução “Será que eu sirvo para ser professor?”. A frase acima foi falada por Rafael, aluno do 8º período do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas de uma universidade pública do Rio de Janeiro, na disciplina Prática de Ensino de Biologia durante uma aula sobre as “necessidades formativas dos professores de Ciências e Biologia”. Durante alguns meses refleti sobre ela, realizando conexões sobre o que meus alunos do curso de Licenciatura em Biologia falavam. Essa é a realidade que encontro, na maioria das vezes, nas salas de aula da formação de professores de Biologia na Universidade pública. Em levantamento realizado por 5 anos em turmas de Licenciatura em Biologia com uma média de 18 a 20 alunos por semestre, apenas 1 ou 2 alunos por turma afirmam querer ser professores, os outros alunos dividem-se em dois grupos, um maior, que admite a ideia de ser professor, mas como forma de entrada no mercado de trabalho e outro menor que não vê nenhuma possibilidade de se tornar professor (FONSECA, 2010). Medo, insegurança, desconhecimento são algumas das causas apontadas pelos licenciandos para justificarem o fato de não quererem assumir o magistério como profissão. Essas causas associadas à desvalorização histórica que o magistério vem sofrendo acabaram por dilapidar o desejo de tornar-se professor desses alunos. É comum ouvir dos alunos o imenso medo que sentem com a possibilidade de se transformarem em professores. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.002527 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 27 Nesse trabalho refletiremos sobre a formação de professores de Biologia e as possibilidades de transformação dessa formação, a partir de um caminho teóricometodológico que tem como eixo as histórias de vida dos licenciandos entrelaçadas por uma reflexão sobre a experiência (LARROSA BONDÍA, 2002). Para isso vamos realizar um caminho através das falas desses alunos, falas que registram suas memórias, suas trajetórias e suas experiências e vão costurando e delineando um mosaico dessa formação. As memórias desses alunos são instrumentos poderosos para a reflexão sobre a profissão de professor, afinal, quando chegam a nossa disciplina, esses alunos já estão há, pelo menos, 15 anos nas salas de aula, vivenciando diversas experiências. O registro das memórias através da história oral é uma metodologia contemporânea da realização de estudos históricos (ALBERTI, 2000) nas palavras de Thompson (1992) “uma vez que a experiência de vida das pessoas de todo tipo possa ser utilizada como matériaprima, a história ganha nova dimensão”. Na realização deste trabalho, optamos por registrar essas histórias através das falas dos alunos, por entendermos que no momento em que registram suas memórias, histórias e emoções realizam um trabalho de reflexão profunda, trazendo para o presente as experiências vivenciadas até o momento. Entendo que esse percurso é fundamental para uma reflexão mais profunda do que os licenciandos entendem como “ser professor” e, mais especificamente, “ser professor de Biologia” e que o grande desafio é construir com eles a visão da complexidade do ser/tornar-se professor, rompendo com a ideia simplista de que um professor precisa de muito conteúdo aliado a algumas técnicas de motivação. Nesse sentido basearei esse percurso reflexivo na questão central da experiência, pensando a formação de professores de Biologia, a partir da relação “experiência/sentido” (LARROSA BONDÍA, 2002). A Formação de professores de Biologia: um “Mosaico fluido” Os licenciandos vão traçando seu estar num curso de Licenciatura baseados num modelo de formação que se ancora em duas relações básicas: a existente entre a ciência e a técnica e entre a teoria e a prática. Assim o curso de Ciências Biológicas vai se construindo, não só cotidianamente, mas também no imaginário e na subjetividade desses alunos. Aulas teóricas, as turmas T, e aulas práticas, as turmas P, vão preenchendo a matriz curricular e a formação desses alunos e nessa materialização de um “conceito” Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.002528 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 28 sobre a licenciatura em Biologia, eles vão aprendendo nas aulas do curso que devem se apropriar dos fragmentos da ciência Biologia, ter alguma noção pedagógica e, ao final, como naquilo que chamo de “Mosaico Fluido”, carregarem esses fragmentos tentando construir na vida profissional algo que não viveram ainda. Vamos encontrar nesse mosaico, ao contrário daquele que vemos na membrana celular, uma desconexão entre as partes, uma suposta independência que tira a oportunidade dos alunos de construírem sua visão de todo. Essa matriz curricular fragmentada, fluida em excesso, vai proporcionando uma experiência que concretiza no imaginário desses alunos uma ideia de Educação e de Ensino de Biologia desconectada de princípios teórico-metodológicos que unifiquem a formação, dando a ela sentido. Nosso primeiro desafio na formação é buscar romper com a imagem espontânea de ensino (CARVALHO; GIL-PÉREZ, 1992) com a qual os alunos chegam à Licenciatura e, ainda, analisarmos profundamente a formação docente. Apesar de já termos superado legalmente o modelo da Racionalidade Técnica, conhecido popularmente como Modelo 3+1, as suas raízes ainda se encontram espalhadas na formação, visto que as disciplinas pedagógicas da licenciatura, apesar de já se constituírem como entidades curriculares cada vez mais cedo na matriz curricular, ainda não fazem sentido para os alunos. A ideia de que as chamadas “disciplinas pedagógicas” são desnecessárias é uma fala constante de nossos alunos. Pergunto-me, constantemente, as causas disso e em minhas vivências cotidianas, reflexões e pesquisas, encontro um modelo de currículo de formação de professores fragmentado, desarticulado, com uma visão epistemológica ainda tradicional, calcada num distanciamento da realidade. Inquieto-me por perceber que esse “Mosaico fluido” que constitui o currículo de formação de professores de Biologia, como não poderia deixar de ser, faz dessa fragmentação um “recado” político-ideológico, posto que estamos inculcando em nossos alunos uma visão de mundo também fragmentada, desarticulada e dissociada da realidade. Ao silenciarmos no currículo do curso de Licenciatura os aspectos epistemológicos que envolvem a educação e sua relação com a Biologia, vamos construindo sentidos que se fixam em nossos alunos e vão sendo levados por eles e se constituindo num ciclo, visto que esses alunos já chegam ao curso com aquelas que tenho denominado de “descaracterizações” da profissão professor, a epistemológica, a social e a pedagógica. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.002529 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 29 Nesse currículo fluido vamos enxergando a tensão entre a formação baseada na relação entre os binômios ciência/técnica e teoria/prática e o binômio política/crítica. Entendo que o primeiro par de binômios é hegemônico nas entidades curriculares, mas o discurso que paira no ar e que chega a frente é o binômio política/crítica. Os documentos curriculares, em todas as instâncias, têm, através de uma roupagem da formação de sujeitos críticos e reflexivos, consolidado a hegemonia da ciência/técnica e da teoria/prática e vejo cotidianamente essa situação. Numa tentativa de reflexão e de introduzir no curso de Licenciatura em Biologia uma discussão sobre a experiência/sentido de ser e tornar-se professor, tenho realizado com os licenciandos uma pesquisa que se entrelaça com a formação cotidiana, ao materializar nas disciplinas o levantamento desses “dados/falas”, suas análises, bem como as tentativas de elaboração de uma perspectiva que pense a formação para além da imagem construída pelos alunos antes e durante o curso. Sobre as palavras e o ser professor Durante as disciplinas ministradas por mim no curso de Licenciatura em Ciências Biológicas em uma Universidade pública no Rio de Janeiro, tenho estabelecido uma prática pedagógica cotidiana que se encontra embasada numa perspectiva teóricometodológica da Educação Popular, através da qual levantamos as falas dos alunos, buscando nessas, as pistas de suas histórias de vida que nos colocam em conexão com a formação de professores, a ideia do Magistério como profissão, bem como a forma como eles constituem sua passagem no curso. Essas falas se constituem para além num rico material de pesquisa, posto que também são instrumentos pedagógicos de reflexão e ação no sentido da construção de conhecimentos necessários à formação desses alunos. Usar a palavra apresenta todo um significado que vai além do registro das falas, visto que “(...) as palavras produzem sentido, criam realidades e, às vezes, funcionam como potentes mecanismos de subjetivação” (LARROSA BONDÍA, 2002, p. 21). Devido a isso não realizo categorização das falas, pois “o que consideramos importante não é tanto o que as pessoas estão dizendo, mas, muito mais, o que significa a fala delas. O que está em questão não são as pessoas individualmente” (VALLA; STOTZ, 1994: 67), mas o que as falas trazem de significado para elas. Portanto, procuro “(...) citar ao máximo as falas delas, pois tal procedimento permite que outros tenham a possibilidade de interpretar o que está sendo dito. A própria forma de relatar uma Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.002530 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 30 experiência indica a concepção de mundo de quem faz o relato” (VALLA, 1996: 179), visto que nosso aluno é “(...) um participante da pesquisa, não um informante” (ESTEBAN, 2003, p.136). Vamos constituindo outra noção de “mosaico fluido”, diferente daquela que usamos para apresentar o currículo do curso de Licenciatura. O que queremos nesse fluxo é trabalhar com a constituição de um mosaico em que a intrínseca relação entre as partes e o todo é que fazem o sentido e um sem outro esvazia de essência o que se quer constituir. Para tanto, as palavras dos alunos ganham força nas suas falas e se tornam mais do que meras descrições as quais usamos para estabelecer categorias anteriores ou posteriores. As palavras desses alunos materializam histórias, memórias, sentidos e vão delineando as experiências através de sentidos de força e poder, pois como LARROSA BONDÍA (2002, p.21): “Eu creio no poder das palavras, na força das palavras, creio que fazemos coisas com as palavras e, também, que as palavras fazem coisas conosco. As palavras determinam nosso pensamento porque não pensamos com pensamentos, mas com palavras, não pensamos a partir de uma suposta genialidade ou inteligência, mas a partir de nossas palavras.” Ressalto que a apropriação desta narração não significa uma mera descrição, pois narrar uma história é dar pertinência aquilo que é significativo, permitindo a construção de conhecimentos e “(...) trabalhar com a memória cotidiana (...) exige trazer à tona uma narrativa que não é linear nem progressiva (...) é, sempre, o resultado da interação entre o que está narrando, o público que ouve e a memória comum (...)” (ALVES, 2002, p.36). Para isso, partimos da ideia de que “o homem é palavra” (LARROSA BONDÍA, 2002, p.21) e nesse caminho teórico-metodológico vamos costurando falas, tecendo uma delicada teia que ao ser recheada de palavras, materializa-se num complexo mosaico de reflexões que partem de memórias, trajetórias e histórias que vão se constituindo em mais do que registros, vão se consolidando em experiências. Dessa forma, vou caminhar essa análise/reflexão para trazer a tona questões como as descaracterizações do professor, o desconhecimento da profissão em sua essência e o tornar-se professor. Nessa relação entre a formação de professores e as palavras assumo que trabalho com a ideia de que um professor é um “materializador de palavras”, pois as palavras que saem de nós, esvaziam-se até chegar ao outro, para que sejam novamente Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.002531 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 31 preenchidas de sentido. Quando falamos uma palavra – entendida aqui como conceitos, definições, ou seja, conteúdos – ela sai de nós preenchida, mas vai chegar ao outro apenas no seu contorno, vazia desse “recheio” que é o seu sentido. Trabalho com a ideia de que o professor é aquele que carrega essas palavras com cuidado para que na distância que o separa do outro – o aluno – elas possam chegar plenas e serem materializadas nessa relação. Ser professor de Biologia: a tensão entre o que ainda não é, mas virá a ser. A ideia de experiência é central em qualquer profissão e, ainda mais especial, quando falamos da profissão de professor. Historicamente, encontramos a ideia da experiência do magistério perpassando todas as instâncias da formação de professores, seja nas políticas públicas e na legislação, nos currículos, nas falas de professores e alunos. A experiência é entendida como a prática, a formação a partir das vivências da realidade da profissão e vemos sua materialização na concepção de práticas de ensino, de estágios supervisionados e em outros espaços da formação. Entretanto, percebo que essa ideia de experiência se encontra baseada nos conceitos de informação, de observação e de prática, no sentido do trabalho. Ao colocarmos nossos alunos em contato com o trabalho do professor, mas de um outro professor, imaginamos que ele construirá sua experiência. Parto da ideia que “a experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca” (LARROSA BONDIA, 2002) e nesse sentido a experiência produzida no interior dos cursos de formação de professores vai construindo nos alunos uma ideia da observação da experiência do outro, daquele que por já tê-la pode nos passá-la. Contudo essa experiência vivida “pelo outro” não permite uma experiência de formação, que fica clara na fala “ O que eu vou fazer quando chegar lá?” (Izabella, aluna do 7º período). Essa aluna, já no penúltimo período do curso, tendo passado por inúmeras situações de “experiência”, ainda encarava a ideia da profissão com “lá”, como um espaço distante que ainda não fazia parte de si e de suas histórias. Os currículos dos cursos de Formação de Professores vêm se constituindo um espaço cada vez maior para a experiência, entendida nesses currículos como os espaços de observação e prática, como nos apresentam as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica (RESOLUÇÃO CNE/CP Nº 1, de 18 de Fevereiro de 2002), em seu artigo 12. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.002532 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 32 A dimensão da experiência é apresentada como análoga a uma prática baseada na observação, seu registro e uma posterior reflexão. Entretanto, entendo que essa concepção de experiência ancorada na prática por observação tem contribuído muito pouco para aquilo que entendo como formação, pois essa dimensão da experiência, traçada nas diretrizes e concretizada nas matrizes curriculares, parte de uma concepção baseada na informação, na opinião, no tempo e no trabalho (LARROSA BONDIA, 2002). Desse modo, a dimensão da experiência como algo vivenciado verdadeiramente que nos passa, nos acontece e nos toca, vai ficando subsumida numa formação cada vez mais acelerada, baseada na aquisição de informações e na ideia de prática como observação. Durante o curso de formação poucos são os espaços para a dimensão de uma experiência que realmente nos aconteça. Essa dimensão que poderia ser trabalhada através de uma concepção de pesquisa é substituída por uma dimensão da prática alicerçada na observação. Não vemos no “mosaico fluido” do currículo das licenciaturas espaços que permitam a pesquisa que poderia se constituir num caminho para a experiência, como fica claro na fala de Tiago, aluno do 9º período: “Como é que se faz pesquisa em educação?” Chegando ao final do curso, tendo cumprido as disciplinas específicas, todas as disciplinas de Fundamentos da Educação, esse aluno chega às disciplinas de Ensino de Biologia sem a dimensão da pesquisa e sem ela, também sem uma das possibilidades da experiência de ser professor. A dimensão da prática como observação, em minha análise, não proporciona aos licenciandos se tornarem os “sujeitos de sua experiência”, os sujeitos que, ao se constituírem como professores, se percebem como tal. Assim, sendo a prática por observação não se constitui numa experiência visto que põe o licenciando como passivo, por mais que se encontre receptivo, disponível e aberto a registrar e analisar experiências, mas que são experiências do outro. Viver a experiência do outro, nos estágios, nas práticas de ensino, a partir da observação, materializa uma ideia de prática que nos afasta da concepção de experiência e de sujeito da experiência. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.002533 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 33 Alunos de Prática de Ensino escutaram a seguinte fala de um professor “experiente” na escola pública: “Desiste disso enquanto é tempo menino!”. A indignação com a qual me relataram a fala, expôs a tensão existente entre o ser o tornarse professor. Podemos achar que uma fala dessa pode ser desestimulante para os licenciandos, entretanto, podemos também pensar que o saber da experiência ao se constituir numa íntima relação entre o conhecimento e a vida pode proporcionar uma reflexão que não seja baseada apenas na opinião e na informação. Posso inferir que a indignação causada nos alunos por essa fala do professor dito “mais experiente” trouxe a eles uma possibilidade de viver sua própria experiência sobre a formação, pois ao serem tocados por essa fala, construíram sua própria experiência como sujeitos dela, visto que foram espaço de um acontecimento. Podemos perceber pistas dessa percepção na fala de Ana Luíza, aluna do 8º período: “A Licenciatura é uma forma de se fazer ciência”. Ana Luíza já exercia a profissão durante seu percurso na Licenciatura e pôde estabelecer conexões de sua experiência, daquilo que ela vivenciou, que lhe aconteceu com a formação vivida no curso, ao perceber a Licenciatura como um processo científico, ou seja, como uma produção sistematizada de conhecimentos, ela construiu um mosaico de sua formação que lhe permitiu a visualização da delicada teia que a formação de professores constitui. Nesse sentido vamos delineando aquilo que chamo de descaracterizações da profissão de professor. Descaracterizações essas que vão configurando uma imagem da profissão que passa por fora, que não emerge da experiência em seu sentido pleno, visto que “a experiência é uma paixão” (LARROSA BONDIA, 2002, p.26). Começo pela descaracterização social do professor, resultado da desvalorização material (incluindo aqui não só as condições salariais, mas de infra-estrutura, qualidade de vida e possibilidades de formação) que podemos ver contida na seguinte fala: “Meu pai é professor de Educação Física e me aconselha todo dia a não seguir esse caminho.” (Luana, aluna do 7º período). Como essa fala vinda do próprio pai da aluna, imprime marcas fortes na sua experiência como licencianda e faz com que sua experiência já venha delineada por impressões negativas que, mesmo com uma formação que tente destacar os aspectos materiais positivos da profissão, vão marcar sua forma de encarar a profissão mesmo com a vivência da prática possibilitada no decorrer do curso, posto que não podemos separar a experiência do sujeito que a vive. Ao mesmo tempo em que percebemos marcas externas que vão imprimindo experiências, vamos percebendo, ainda que timidamente, nas falas dos alunos, uma Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.002534 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 34 expectativa social positiva, como encontramos na fala de Tiago (Alunos do 6º período): “Sempre quis ser professor, só não sabia qual seria a matéria.” Percebo nessa fala, marcas de uma trajetória que vai se construindo gradativamente e que vão trazer a esse aluno uma forma diferente de ver a profissão, já que Tiago a apresenta num caminho contrário da grande maioria dos alunos do curso que primeiro escolheram a Biologia como profissão, para só então, irem percebendo as possibilidades do magistério. O magistério é para ele uma escolha primeira, que marca suas decisões posteriores e seu estar no mundo e seu relacionar com as opções que escolheu. Percebo ainda, que a experiência vivida pelos alunos enquanto estavam na educação básica determinará suas trajetórias: “Quando era criança e me perguntavam o que eu seria quando crescesse, respondia prontamente: TIA DE CIÊNCIAS”. A fala de Ana Luíza (8º período) nos remete à história contada por ela, relatando sua relação com uma professora de Ciências do ensino fundamental, pois “aquela professora de cabelos coloridos, que ia fazer Doutorado na França nos ensinava tão bem, explicava tudo, eu queria ser como ela”. Entendo que o saber da experiência é um saber que não pode separar-se do indivíduo concreto em quem encarna. Não está como o conhecimento científico fora de nós, mas somente tem sentido no modo como configura uma personalidade, um caráter, uma sensibilidade ou, em definitivo, uma forma humana singular de estar no mundo (...). (LARROSA BONDÍA, 2002, p.27) A forma como o conhecimento científico é trabalhado nas diversas disciplinas no decorrer do curso acaba por tentar fazer com que os alunos se apropriem de uma “experiência”, através de, na maioria dos momentos, uma exposição, de uma demonstração da experiência construída pelos professores e, em outros, através de pequenos espaços de práticas que também são resultado da experiência de outro, que não o aluno que ali está e vão constituir o que chamo de descaracterização epistemológica da profissão. O que é ser professor de Biologia? Que relações estabelecemos com esse conhecimento específico com o qual iremos construir nossa profissão? A seguinte fala foi apresentada a mim durante uma aula de Didática de Ciências e Biologia, pelos alunos que estavam desenvolvendo uma atividade em uma turma de ensino fundamental de uma escola pública: “Professor, eu tenho que decorar o nome de todos os ossos? Tem alguém perdido aí? Mas é claro que sim!”. O que essa fala nos revela? Ela nos dá pistas da hegemonia de um conteúdo específico descontextualizado ainda presente nas salas de aula de Biologia. Ao ouvirem Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.002535 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 35 essa fala e serem tocados por ela, os alunos estabeleceram um sentido sobre as possibilidades epistemológicas do ensino de Biologia, a dissociação entre o conteúdo e a realidade, a hegemonia de uma ciência enciclopédica que ainda vive nas salas de aula. Essas reflexões só foram possíveis devido à experiência vivida por esses alunos ao estarem numa sala de aula, não apenas com o objetivo da participação, mas compreendendo o sentido da experiência vivida por eles. As trajetórias, as memórias e as histórias desses alunos não são encaradas como um conhecimento válido para a formação, ou melhor, sequer são encaradas como conhecimento. As possibilidades sensíveis, subjetivas da dimensão do viver foram paulatinamente sendo expulsas dos cursos de formação, sendo substituídas por uma ideia de experiência pela observação da prática. Na verdade, temo que essas possibilidades jamais tenham perpassado efetivamente as licenciaturas. A formação de professores de Biologia tem sido o espaço da observação, da prática, do método, do escutar e não o espaço do viver a experiência da Biologia e da profissão de professor de Biologia, afinal como disse um professor da escola básica, reforçando nossa trajetória tradicional: “Dou aula há 20 anos com giz e quadro negro e sempre deu certo.” O que é dar certo? Transmitir aquilo que chamamos de “conhecimentos bulímicos” (FONSECA, 2011)? Seria a observação do outro, escutarmos e registrarmos essa fala e depois analisá-la na Prática de Ensino? Afirmo que não, pois assim fazendo reforçaria uma concepção de experiência a qual não acredito, pois só vivendo a experiência podemos construí-la:“Achava que ser professora era repetir por vários anos a mesma matéria [mas percebi] que o professor é aquele que trabalha com muitas pessoas diferentes, aprende tanto quanto ensina, se diverte e sempre pode ajudar alguém.” (Deize, aluna do 8º período). Chego então à discussão sobre a descaracterização pedagógica do professor, baseada numa fala de uma professora trazida a mim por alunos de Prática de Ensino de Biologia: “DNA não adianta ensinar, porque eles não aprendem mesmo”. Os professores consideram que alguns conhecimentos biológicos são muito sofisticados para que alunos – principalmente na escola pública - possam aprendê-los. Essa fala me revela um empobrecimento pedagógico de nossa profissão, quando encarnamos a impossibilidade do ensino-aprendizagem dos conhecimentos específicos de nossa área. Aos licenciandos resta, então, selecionar conteúdos que são possíveis de serem ensinados? Insisto que não, que as possibilidades da experiência vivida com aquelas Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.002536 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 36 construídas durante a formação podem se constituir em um sentido da profissão de professor: “Comecei a questionar muito o meu curso e, hoje, percebo como é importantíssimo a Licenciatura ser pensada como um todo, ser valorizada e transformada, pois muitas das minhas dúvidas e questionamentos em relação à ‘Ciência’, só agora estou começando a compreender. E esse fato, posso afirmar, só foi possível com esse contato verdadeiro com a Educação. Hoje tenho muito mais dúvidas do que certezas, e acho isso ótimo, pois muitas das certezas estão sendo desconstruídas. É um trabalho difícil pois somos e fomos muito moldados e romper com velhas estruturas e paradigmas é difícil.” (Elisa, aluna do 8º período) As possibilidades da experiência na formação de professores deve se constituir como um espaço/tempo de vivências que permita aos licenciandos o contato com a complexidade da profissão a partir de suas experiências: “Chegando ao final do curso, vejo que tudo que aprendi na graduação não pode ser dissociado das experiências de vida que tive na Universidade. Percebo que minha formação é a congregação de aulas e informações com todas as minhas vivências.”, como nos fala a aluna Raffaela (8º período). Vamos tecendo nesse mosaico uma delicada imagem do que é a Biologia, de como se constituem suas possibilidades em relação com a Educação e como a formação de professores de Biologia pode ser construída e constituída não a partir de experiências, mas sendo a própria experiência. Considerações Finais Ao pensar a formação de professores a partir do binômio experiência/sentido (LARROSA BONDÍA, 2002), e utilizando como caminho teórico-metodológico pressupostos da educação popular, através das falas dos alunos e, por conseqüência, suas memórias e trajetórias, enfim, suas histórias de vida, questionamos a ideia central na formação de professores de Biologia, a prática, principalmente aquela que se constitui como experiência por observação. Entendo que a experiência ao ser o que nos passa, nos acontece e nos toca só pode ser vivenciada pelo sujeito da experiência pelo qual ela é atravessada. Nesse sentido a experiência, entendida nos cursos de formação como prática não vem permitindo aos alunos a vivência real e a constituição do sentido de sua formação, o que pude perceber tanto nas falas ditas por eles como naquelas que os alunos registram em suas experiências. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.002537 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 37 Assim, proponho um repensar da ideia de experiência na formação de professores de Biologia que possa minimizar o que venho chamando das descaracterizações social, epistemológica e pedagógica da profissão. Referências Bibliográficas: ALBERTI, V. Indivíduo e biografia na história oral. Rio de Janeiro: CPDOC, 2000. ALVES, N.; OLIVEIRA, I. B.(orgs.). Pesquisa no/do cotidiano das escolas: sobre redes de saberes. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. FONSECA, L. Possibilidades epistemológicas da construção compartilhada de conhecimento: reflexões sobre a Didática para a Educação de Jovens e Adultos. In: SOUZA, J.S.; SALES, S.R.. (Orgs.). Educação de Jovens e Adultos: políticas e práticas educativas. 1 ed. Seropédica: EDUR; NAU Editora, 2011, v. 1, p. 211-222. FONSECA, L. Escrevo essas mal traçadas linhas... A utilização de cartas na Formação de Professores de Biologia In: BARZANO, M.; ARAÚJO, M.L.H.S. Formação de professores: retalhos de saberes. Feira de Santana: UEFS Editora, 2011, p. 127-145. BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica. RESOLUÇÃO CNE/CP Nº 1, de 18 de Fevereiro de 2002. CARVALHO, A.M.P; GIL-PÉREZ, D. Formação de Professores de Ciências. São Paulo: Cortez, 1992. CHASSOT, A. Ensino de Ciências no começo da segunda metade do século da tecnologia. In: LOPES, A.C.; MACEDO, E. (orgs). Currículo de Ciências em debate. Campinas: Papirus, 2004. ESTEBAN, M. T. Sujeitos singulares e tramas complexas – desafios cotidianos ao estudo e à pesquisa in GARCIA, R.L. (org). Método, métodos, contramétodo. São Paulo: Cortez, 2003. LARROSA BONDÍA, J. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Revista Brasileira de Educação, nº 19 (jan/fev/mar/abr), 2002, p.20-28. LOPES, A.C. Políticas de currículo: mediação por grupos disciplinares de ensino de ciências e matemática. In: LOPES, A.C.; MACEDO, E. (orgs). Currículo de Ciências em debate. Campinas: Papirus, 2004. SELLES, S.E.; FERREIRA, M.S. Formação docente em ciências: memórias e práticas. Niterói: EDUFF, 2003. TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002. THOMPSON, P. A voz do passado. São Paulo: Paz e Terra, 1992. VALLA, Victor Vincent. A crise de interpretação é nossa: procurando compreender a fala das classes subalternas. Porto Alegre: Educação e Realidade, 21(2): 177-190, jul/dez. 1996. VALLA, Victor Vincent; STOTZ, Eduardo Navarro. Educação, Saúde e Cidadania. Petrópolis: Vozes, 1994. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.002538