UM ESTUDO DO DISCURSO DE GÊNERO: “SEIOS CAÍDOS” E EFEITOS E SENTINDO NO DISCURSO DOS SUJEITOS “o corpo é a nossa memória mais arcaica. Nele, nada é esquecido. Cada acontecimento vivido deixa no corpo a sua marca profunda (...). O corpo freqüentemente é o último que perdoa. Sua memória é sempre muito viva.” (LELOUP, 1998, p.15) Fernanda Alinde de ANDRADE UFMS/PG Introdução Os seios femininos é um diferencial de gênero.Conseqüentemente, o “discurso” (Pêcheux, 1997) sobre essa parte do corpo feminino sempre teve uma significativa influência na “formação imaginária” (Pêcheux, 1969: 82) social que se faz da mulher. Por trazer em si algo de “místico”, os seios feminino “cambaleiam”, no imaginário social, entre os limites dos “sentidos” (Pêcheux, 1997: 160) entre o sagrado e o profano. Efeito e constatação disso, é que em determinados momentos históricos, os seios, traço de feminilidade, maternidade e sensualidade da mulher - sócio historicamente construído nos discurso a partir da divisão cultural masculino/feminino foram louvados e admirados na pintura e na poesia; já em outros, foram encobertos e silenciados, na arte, e em discursos religiosos “moralistas” presentes na Idade Média, e que se perpetuam seu “efeito de sentido” (Pêcheux, 1997: 163) ainda hoje na “memória discursiva” (Pêcheux, 1999: 52) de alguns discursos, no discurso feminista entre outros. Na década de [19]70, sob o efeito de um certo discurso feminista, tentou-se igualar a mulher até mesmo fisicamente ao homem, com o intuito de romper com os sentidos das formações imaginárias femininas construídas ao longo da história: mulherobjeto, mulher-mesa-cama, mulher-mãe... Os seios fartos eram uma forma de remetê-la a essas representações e, por esse motivo, o seu sentido foi fortemente combatido pelo padrão estético feminino desse período que perdurou, no Brasil, até meados da década de [19]90. No final da década de 90, esse padrão estético começa a perder força e o implante mamário de próteses de silicone passa a ser incorporado cada vez mais pelas 1 brasileiras. Em território nacional, o número desse tipo de implantes é crescente e tem superado as expectativas do comércio: no ano de 2003, na véspera do carnaval, o estoque brasileiro de silicone chegou a acabar em razão da sua grande procura nas clínicas. A mídia trabalha de forma meticulosa na instituição desses “novos” parâmetros de beleza por meio da repetição e da glamourização de imagens corpóreas do que é definido como “ideal” num determinado momento. A “biomedicina” como forma de “controle social” é um pressuposto foucaultiano incorporado por muitos teóricos contemporâneos. Segundo Foucault, o “saber médico sobre o corpo”, histórico e culturalmente construído pelos/ nos discursos, tem contribuído para a “docilização” do corpo, ou seja: um “saber” que tem orientado e disciplinado o corpo - determinando seus “gestos” e suas “posturas” de modo conveniente à sociedade. Para corroborar a sua tese, em Vigiar e Punir, ele mostra que, durante a época clássica, houve, “uma descoberta do corpo como objeto e alvo do poder” (Foucault, 2002, p. 117). Foucault observa que o “controle social” exercido sobre o corpo pelo discurso moral começa a perder espaço para o discurso médico, no momento em que esse discurso passou a inventar “toda uma patologia orgânica, funcional, mental, originada nas práticas sexuais ‘incompletas’; classificou com desvelo todas as formas de prazeres anexos; integrou-os ao ‘desenvolvimento’ e às ‘perturbações’ do instinto; empreendeu gestão de todos eles”(Foucault, 1988:41). Para Foucault (1999:22) o corpo é “a superfície de inscrição dos acontecimentos”. O corpo é alvo de diferentes e variados marcadores identitários. O discurso se inscreve no corpo e funciona como um modo de classificar, agrupar, ordenar qualificar, diferenciar, revelando marcas que posicionam os sujeitos em diferentes modos na escala social, conforme Alfredo Veiga-Neto, quem pertence ou não a certas classificações de corpo, seja corpo magro, alto, belo branco, jovem, malhado, saudável. Tais marcadores identitários não são definitivos, pois, estão em constante processo. Em Microfísica do Poder, (1999:145-147), Foucault vem falar da transição da sociedade disciplinar – que esteve presente na primeira fase do capitalismo – para a sociedade de controle – que se desenvolve na modernidade. Na sociedade disciplinar o comando social é realizado pelas instituições (prisão, asilos, clínica psiquiátrica, escolas etc.) que oferecem justificativas “plausíveis” para a disciplina, por um método de “assepsia” que busca isolar da sociedade os indivíduos que apresentam uma “ameaça” à ordem social. Já na sociedade de controle o poder se desloca e não age mais sob o corpo como forma de “controle-repressão”, mas de “controle-estimulação”, ou seja, o sujeito é 2 estimulado, por intermédio das redes de informações, a deixar o seu corpo sempre à mostra, mas, para tanto, faz a ele uma série de exigências que vão de encontro aos interesses das sociedades de consumo: “Fique nu...mas seja magro, bonito bronzeado!”. Nesse novo paradigma começa a haver, segundo Foucault, a “exploração econômica” do erotismo pelo “poder” e os investimentos no corpo, na ideologia do bem-estar social, entram na ordem do discurso do dia. Conforme Sant’Anna (1995), na esteira de Foucault, ao referir-se sobre os “Cuidados de si e embelezamento feminino”, à “psicologização da experiência”, observa que, no Brasil, a associação entre beleza e feminilidade vem de longa data, a mudança está apenas no “modo de conceber e de produzir o embelezamento”. Na década de 60 a mulher “feia” adquire uma singularidade psicológica atribuída à ausência de auto-estima recaindo sobre a mulher toda a responsabilidade por tal condição de “feiúra”. O caráter moralizante da “feiúra” é resultado de um trabalho intenso da publicidade de então que passou a incorporar aos produtos de beleza a função de promotores de bem- estar e foi dessa maneira que assim, segunda a autora, os cosméticos deixaram de ser vistos apenas como remédios responsáveis por curar “defeitos da aparência feminina” – concepção que vigorou entre os anos de 1900 e 1930. Segundo a autora, o “ser moderna” depende do “cultivo“ de uma aparência beleza e do bem-estar corporal”: ideologia presente, no imaginário do brasileiro, importada da cultura americana (p. 129). Na concepção de Wolf (1992: 13) a ideologia da beleza feminina tem se fortalecido e exercido o papel de “coerção social” que os “mitos da maternidade, domesticidade, castidade e passividade não conseguem mais realizar”. Para a autora: A “beleza” é um sistema monetário semelhante ao padrão ouro. Como qualquer sistema, ele é determinado pela política e, na era moderna no mundo ocidental, consiste no último e melhor conjunto de crenças a manter intacto o domínio masculino. Ao atribuir valor às mulheres numa hierarquia vertical, de acordo com um padrão físico imposto culturalmente, ele expressa relações de poder segundo os quais as mulheres precisam competir de forma antinatural por recursos dos quais os homens se apropriam. ( WOLF, 1992, p. 15) Na contemporaneidade, modelos sócio-cultural e ideologicamente impostos nos discursos veiculados pela mídia acabam norteando parâmetros do que é considerado “feio” ou “belo” num determinado momento histórico. Tais parâmetros são voláteis e transitórios dificílimos de serem atingidos uma vez que cada época investe 3 diferentemente sobre os corpos construindo e re-construindo corpos e sentidos sempre provisórios. Constatação desse caráter provisório de “corpos” e de “sentidos” é a mudança na estética do corpo mulher brasileira produzida pelo implante mamário de prótese de silicone. Em razão dessa mudança, tomou-se nesse trabalho, o discurso sobre os seios como objeto de investigação, na tentativa, de discutir, elementarmente, sobre a sua resignificância nos discursos dos sujeitos envolvidos na pesquisa. Segundo os pressupostos da Análise do Discurso de orientação francesa, as identidades são historicamente construídas nos discursos e materializam-se nas práticas dos sujeitos constitutivas dos discursos. Na sociedade contemporânea, estas representações discursivas não são fixas, nem unificadas e muito menos estáveis, pois, encontram-se em constante configuração e re-configuração em torno dos seus sentidos. O fenômeno da globalização intensificou esse processo, já que, há uma interação constante entre diferentes formas de constituição dos sujeitos, dando origem a novas formas de “ser e agir” ou representar enunciativamente. Porém, uma identidade não nasce do nada, mas da incorporação de fragmentos e de reminiscência de outras identidades que - por meio da “rede de memórias” (Pêcheux, 2002:56) - passam a resignificar aos sujeitos que delas se “apropriam” num processo de identificação. Os enunciados do corpus de análise foram obtidos a partir de uma pesquisa de campo realizada no ano de 2006 que tinha como objetivo verificar, elementarmente, alguns efeitos de sentido do discurso sobre os seios na formação imaginária que se faz da mulher nas marcas discursivas dos sujeitos da pesquisa do gênero feminino e do gênero masculino. Nesse trabalho, levar-se-á para a discussão um pequeno recorte dos discursos obtidos na referida pesquisa, visando observar efeitos de sentido, sobre o feminino, construídos a partir dos “seios caídos”, que produziram no imaginário desses sujeitos a crença de que esse tipo de seios é “feio” ou “indesejável”. Na análise desses discursos será levado em consideração o modismo presente no cenário nacional de implantes mamários de próteses de silicone fortemente impulsionado pelos discursos e pelas imagens dos corpos femininos difundidos pela mídia, pois, acredita-se que, se, por um lado, esses discursos re-constroem “novos” sentidos sobre o “feminino”, por outro, reforçam estereótipos e estigmatizações, uma vez que a sensualidade e a feminilidade nesses discursos parecem estar reservadas a representações femininas que não apresentam em seus seios traços que evoquem sentidos de pobreza, maternidade e velhice Para tal discussão, optou-se pela concepção foucaultiana de corpo : “lugar” de 4 inscrição dos discursos, produto do “poder” que gera divisões sociais e permite organizar sistemas de classificação, social, cultural, política ou econômica, instituindo a cada um dos sujeitos uma “posição” a ocupar nas representações sociais que estão em jogo. No entanto, é válido ressaltar que cada época investe diferentemente sobre os corpos, construindo e (re)construindo corpos e sentidos sempre provisórios. 1. Procedimentos metodológicos Os procedimentos teórico-metodológicos utilizados para a obtenção dos enunciados que constituem o corpus1 de análise foram os seguintes: elaboração de dois questionários, um para as mulheres e outro para os homens; aplicação desses questionários a alunos do Ensino Médio e Superior; recorte dos enunciados mais significativos; agrupamento dos enunciados segundo as suas formações discursivas e, finalmente, a análise dos discursos presentes nessas enunciações. Um dos princípios da individualização de um discurso utilizados por Foucault pressupõe a existência de um sistema de formação de enunciados, caracterizado por relações normativas, apresentando regularidades de objetos, temas, tipos de enunciação, funcionamentos. Desse pressuposto nasceu o termo “formação discursiva” (Foucault, 2004: 43), que Pêcheux preferiu designar como espaço de “reformulação-paráfrase” (1997: 172), lugar onde os sujeitos e os sentidos são constituídos. Elaborado no interior do interdiscurso, o pré-construído, “pré-existe ao sujeito” (Pêcheux, 1999:102) e aproxima-se da noção de senso comum: àquilo “que todo mundo sabe”(p.171). Sob a forma de evidência de um “contexto situacional”, encontra-se presente no interior das FDs e atua como uma espécie de “sujeito universal” que serve de referência para o sujeito enunciador no processo de identificação. Foucault e Althusser são os dois pilares nos quais Pêcheux alicerça os seus pressupostos teóricos. Adepto da tese foucaultiana de que o indivíduo só se constitui em sujeito ao assumir uma posição enquanto enunciador, a noção de FD, é fundamental Para obtenção dos enunciados foi elaborado um questionário diferenciado para ambos os sexos. Questionários estes, que se encontram anexados no final do trabalho. As questões foram aplicadas a alunos do Ensino Médio de uma Escola Pública: Colégio Estadual Nicanor Bueno Mendes- EM, no interior do Paraná - Jundiaí do Sul; e a alunos do Ensino Superior do 1º e 2º Ano do Curso de Letras na Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul – Unidade Nova Andradina. A aplicação do questionário se deu por uma pessoa fora do cotidiano escolar dos alunos: Fernanda Aline de Andrade, que na época, ainda era A/E do Programa de Mestrado em Letras – Campus Três Lagoas – MS. Participaram da pesquisa 146 informantes: sendo 76 do Ensino Superior e 70 do Ensino Médio. Antes da aplicação dos questionários foi deixado em aberto aos alunos à questão da identificação. Resultado: 04 alunos do Ensino Médio optaram por não se identificar, enquanto, 55 do Ensino Superior assumiram a preferência por não revelar as suas identidades. Das 146 fichas preenchidas, foram selecionadas 6 de sujeitos do gênero feminino e 5 de sujeitos do gênero masculino, que após terem sido enumeradas, deu-se então o recorte dos enunciados que serão submetidos às análise. 5 para ele. Porém, desenvolve sua “teoria não-subjetivista da subjetividade” (Pêcheux, 1999: 133) a partir do conceito althusseriano de interpelação pelo fato de comungar da posição teórica de que o indivíduo não é livre, pois, encontra-se assujeitado pela ideologia que acaba por estabelecer o que o sujeito pode (ou não pode) dizer a partir de um determinado “lugar”. Essa adesão à tese althusseriana, assenta-se no caráter ideológico do discurso que revela a formação social a qual o indivíduo pertence e que o submete a condição de sujeito sob a “ilusão de autonomia”. Todo discurso encontra sustentação em já ditos produzidos anterior e exteriormente ao que está sendo dito. Este pressuposto é base da noção de “interdiscurso” (Pêcheux, 1999: 162-164), e representa as FIs presentes no interior das FDs. A interpelação do sujeito pela ideologia acontece no nível do interdiscurso no momento em que o sujeito da enunciação se identifica com o “sujeito universal”. A materialização lingüística da fala do sujeito se dá no “intradiscurso”, “funcionamento do discurso em relação a si mesmo”, sendo esse “um efeito do interdiscurso sobre si mesmo” (Pêcheux,1999:166-167). Pois, ao falar, o sujeito deixa rastros lingüísticos a partir dos quais se constrói uma aparente evidência de sentido. É no intradiscurso, “fio discursivo”, que se obtém condições para as análises discursivas. A negação da transparência do sujeito e do sentido é elementar na AD. Essa afirmação se apóia na articulação de três áreas do conhecimento: Marxismo, Psicanálise e Lingüística que, respectivamente, fundam seus pressupostos na opacidade existente na história, no sujeito e na língua. Pois, a re-configuração de indivíduo para sujeito se dá no discurso – materialização da ideologia responsável pela ilusão de evidência de sentido e de sujeito - da relação da língua com a história ocorrendo num deslocamento dos sentidos. Assim, o sujeito, descentrado pelo inconsciente e pela ideologia na sua relação com o simbólico, uma posição entre outras, projeta-se de um lugar no mundo para uma posição no discurso: “situação social (empírica)” transformada em “posição sujeito (discursiva)”. (Orlandi, 2001: 99) No entanto, a condição de existência de sentido e de sujeito é a sua “submissão” constitutiva à língua, a história e a ideologia. Entende-se por “memória discursiva” aquela inscrita em práticas sociais e históricas: “um espaço móvel de divisões, (...) de deslocamentos e de retomadas, de conflitos de regularização...(...) polêmicas e contra-discursos”. Encontra-se em constante processo, pois, pode tanto recuperar um enunciado num discurso como 6 rejeitá-lo num determinado momento histórico Entre atualizações e apagamentos interessa saber os efeitos produzidos por tal mecanismo (Pêcheux, 1999: 49-56). 2. Análise Os enunciados2 constituem um pequeno recorte do corpus. Sujeito da pesquisa 1 - “Algum tempo atrás eu tinha belos seios/ não eram grandes, mas para o meu tamanho eram perfeitos./ Depois veio à gravidez que os deixaram caídos e com estrias. E olha que eu cuidei para que isso não acontecesse.” (48/F/1L) O sujeito1 da pesquisa, nesse enunciado, apresenta, em seu discurso, sinais de insatisfação com os seus próprios seios. Tal insatisfação tem raízes no discurso institucionalizado do “mito da beleza” que se encontra em congruência com o discurso midiático e impele esse sujeito mulher a posicionar-se num “lugar” distante de sua feminilidade: uma vez que, “ser” feminina segundo esse discurso é ser “bela” (!) e, para tanto, a mulher precisa apresentar seios em “pé” e sem estrias, conforme o padrão estético instituído pelas práticas discursivas midiáticas. Desse modo esse sujeito feminino, ao assujeitar-se a esse discurso, apresentou em suas marcas discursivas uma rejeição ao próprio corpo e atribui a “amamentação” como o elemento “deformador” da sua beleza. Segundo Orlandi (2001:100), “na relação discursiva são as imagens que constituem as diferentes posições”, uma vez que “as identidades resultam desses processos de identificação, em que o imaginário tem sua eficácia.” Discursos relacionados ao corpo feminino, difundidos pela mídia, que ganham autoridade no discurso da medicina estética, constroem (e controlam) sentidos de um corpo feminino que deve ser “perfeito” e que não pode “deformar-se”. Por meio da discursivização ocorre então a manipulação e a comercialização do ideal do corpo no século XXI: o corpo reconstruído pela ginástica, cirurgias estéticas e outros artifícios. Assim, na pós-modernidade, em tempos de “biotecnologias” capazes de promover a (de/trans)formação do corpo (e até mesmo da mente!), os seios caídos – que poderia ser visto,por esse sujeito feminino, como naturais – passa a ser abjeto, pois, não entram na “ordem do discurso” institucionalizado do mito da beleza. Concepção de beleza cada 2 - Todos os enunciados submetidos à análise foram recortados dos questionários, portanto, a possível ocorrência de “desvio” de questões gramaticais e lingüísticas foi mantida. 7 vez mais impregnada pelo econômico: uma vez que a mídia visibiliza os seios “siliconados” como ideal. Mas se o “corpo”, conforme Foucault (1999:22),é “a superfície de inscrição dos acontecimentos” nada parece mais “natural” que se encontre inscrito nele os avanços tecnológicos da ciência alcançados pela humanidade. O corpo reconstruído pela cirurgia plástica, emerge então como uma metáfora de uma cultura “superiormente” mais evoluída - uma vez que a ciência conseguiu driblar os efeitos do tempo no corpo. Certo? Não! Se focar essa evolução, apenas na perspectiva da ciência, a resposta até poderia ser positiva. No entanto, o próprio Foucault, alerta seus leitores a colocarem em “xeque” todo discurso com pretensão universalista, para que se possa então descobrir as relações de poder que estão sendo colocadas em jogo nesses discursos. É preciso, segundo Foucault, observar os “efeitos” do poder no corpo. E é evidente que há muito interesse em jogo por trás dessa homogeneização corpórea requerida por esses discursos. A presença, em seu “intradiscurso”, da locução temporal “algum tempo atrás” e a utilização tempo verbal no “pretérito mais-que-perfeito” do indicativo, “tinha/eram”, são marcas discursivas que produzem um “efeito de sentido” de nostalgia no discurso desse sujeito mulher ao corpo jovem e “perfeito” que um dia já teve. Esse sujeito feminino é atravessado pelo interdiscurso da “beleza” que institui apenas o corpo jovem como atraente. Assim, esse sujeito-mulher ao relacionar o real de seus seios ao padrão estético instituído atribui, em sua “fala”, à ação do tempo em seus seios como responsável pela destituição de sua feminilidade e do seu “poder” de sedução. Tal posicionamento parece naturalizar-se em Formações Discursivas, com bases patriarcais, que repetem com exaustão que a mulher tem a “obrigação” de “ser” (ou pelo menos parecer) “bela”. E como “beleza” e “juventude”, na contemporaneidade, fundem-se, numa só ideologia, tais discursos acabam funcionando como um “sistema de exclusão” que delimita um “lugar” social de um sujeito feminino não desejável e nem desejante, pois, o padrão de corpo institucionalizado, que ganha visibilidade na mídia, é antagônico à velhice. Os enunciados que serão elencados, a seguir, obtidos na pesquisa realizada e são atravessados pela mesma ideologia do corpo jovem encontrada no discurso proferido pelo sujeito1: “Colocaria silicone para eles ficarem firmes novamente e não mole como estão hoje.” (48/F/1 L); “Queria que tivesse a textura dos meus 15 anos.” (47/F/2 L) “Não sinto necessidade de prótese de silicone, quem sabe futuramente, mas 8 com o intuito de plástica (para enrijecê-los) quando estiver bem mais velha.” (56/F/ 2 L). Observa-se então, que esse discurso se repete na fala de outros sujeitos femininos envolvidos na pesquisa. Essa repetição revela o “poder” exercido pelos discursos midiáticos na construção da “consciência” dos sujeitos sociais, pois, ao instituir um padrão “único” como ideal acabam por estigmatizar os sujeitos e estabelecer divisões sociais. Naomi Wof (1992) põe em questionamento a suposta liberdade feminina alcançada: uma vez que a mulher acaba sendo aprisionada pelo ideal de beleza imposto. A autora diz existir “uma subvida secreta” que envenena a liberdade feminina, fazendo a mulher refém de conceitos de beleza, tornando-se um escuro “filão de ódio” a si próprias, obsessões com o físico, pânico em envelhecer e pavor de perder o controle (WOLF, 1992, p. 12). Os enunciados acima analisados revelam esse universo de contradição mencionado por Wolf que envolve o sujeito mulher nesse momento histórico de ascensão feminina. Na contemporaneidade, as exigências com a aparência impostas por discursos que tem como pano de fundo o mito da beleza não recaem apenas sobre o gênero feminino, porém, por questões culturais, a mulher ainda é mais cobrada a exibir atributos físicos impecáveis, conforme as exigências do momento. Retomando a análise do sujeito da pesquisa 1, em seu discurso, também aparece marcas discursivas que revelam a incorporação do padrão de beleza norteamericano na cultura brasileira, pois, ao introduzir em seu discurso do advérbio de negação “não”, conforme Maingueneau (1993), o sujeito supõe uma afirmação anterior de que os seios “perfeitos” são os fartos. Assim, ao deixar resquícios, em seu discurso, do padrão de beleza que lhe serviu de parâmetro para a construção de seu “fala” - o da mulher norte-americana - esse sujeito feminino revela uma suposta superioridade da beleza das americanas. No entanto, é possível observar em seu intradiscurso uma certa tensão desse sujeito ao padrão homogêneo instituído por intermédio da locução adversativa “mas”, o que revela um ponto de fuga, de resistência, de singularização, uma vez que: embora considere os seios fartos como “perfeitos”, esse sujeito feminino não os consideram proporcionais ao seu tamanho. A infiltração da cultura americana na cultura nacional é fruto da globalização e da presença marcante do cinema americano nas redes de canais televisivos - uma vez que os norte-americanos dominam o cinema mundial. Assim, por intermédio desse canal que permite a destituição de fronteiras entre as nações, a mídia constrói toda uma 9 aura de “glamour” em torno das atrizes “hollywoodianas”: seja por meio da ficção ou das “fofocas” que as envolve. A presença contínua das norte-americanas, em território nacional, criam no imaginário dos sujeitos a “idéia” de que esse é o padrão estético a ser perseguido pelas brasileiras, pois, são apresentadas pela mídia como ícones de mulheres bem sucedidas e sexualmente mais desejáveis em virtude da sua beleza. E como culturalmente foi estabelecido, por sociedades patriarcais, que a mulher sempre deve exercer uma um papel atrativo nos homens a partir da sua aparência física a atribuição de sucesso ou fracasso é conferida à mulher a partir de projeções de noções - de “beleza” e feúra”estabelecidas na sua relação com o estereótipo social do momento. Atendendo (é claro!) a interesses socioeconômicos das sociedades capitalistas. Assim, a indústria da beleza, por intermédio dos discursos veiculados pela mídia, oferecem a “beleza” não apenas como um produto a ser comercializado, mas como um passaporte para o “sucesso” feminino. O discurso midiático é fortemente marcado por discursos machistas e encontram-se em franca aliança com os discursos da cultura “psico”, na qual, o importante é sentir-se “bonita” e “atraente”, “de bem consigo mesma”. Revestidos de modernidade, esses discursos acabam explorando antigos estereótipos de mulher-objeto que não condizem com a posição social que a mulher ocupa. A presença do verbo no imperativo “olha”, no discurso do sujeito1 produz um “efeito de sentido” de advertência que proíbe o seu leitor de responsabilizá-la por tal condição de “feiúra”: seios caídos e com estrias. Mas, na seqüência, em seu fio discursivo, esse sujeito mulher acaba posicionando-se no lugar de ré – “eu cuidei para que isso não acontecesse” – onde o sujeito parece querer confessar-se e desculpar-se perante o seu “interlocutor” pelo caimento de suas mamas: a transição para o pretéritoperfeito, “cuidei”, produz, em seu discurso, um outro “efeito” - o de verdade absoluta. O sujeito reafirma essa posição em seu discurso, pois, a presença do verbo no pretéritoimperfeito do subjuntivo, “acontecesse”, acaba produzindo em seu discurso um “efeito de sentido” de um passado presente que a insere na condição de culpada. Daí se vê o caráter moralizante provocado pelos discursos que emergem da “cultura psico”, na qual, recai sobre os sujeitos toda a responsabilidade pela sua aparência física, uma vez que institui a “feiúra” como resultado da falta de “cuidados consigo próprio”. Para Susan Bordo, (1997: 19), o corpo funciona como uma metáfora da cultura, e esta densa rede discursiva tece as malhas simbólicas e normativas da definição do 10 feminino. A autora afirma que “por meio de disciplinas rigorosas e reguladoras de dieta, maquiagem e vestuário – princípios organizadores centrais do tempo e do espaço nos dias de muitas mulheres” – o sujeito feminino passa a ser convertido em pessoas menos orientadas para o social e mais centradas na “automodificação”. Então, pode-se pressupor que se trata de uma manobra do poder utilizada na manutenção dos papéis que a mulher “pode” e “deve” exercer na sociedade - históricos e culturalmente definidos por sociedades patriarcais. Porém, embora, tenha-se mencionado Susan Bordan, e, em partes, considera-se o seu posicionamento como relevante, seria redutor pensar na mulher como “vítima” indefesa do estereótipo. Concordar plenamente com a autora seria incorrer no apagamento da alteridade. Considera-se seu posicionamento um tanto perigoso, pois, afirmar que a automodificação feminina resulta em pessoas menos orientadas para o social, acaba, igualmente, estereotipando a mulher. Todos esses discursos manifestam sujeitos que partilham elementos de saber comuns, ligados a formações discursivas compatíveis entre si, que tem como pano de fundo, bases patriarcais. Como se pode observar, no enunciado analisado, o sujeito1 evidenciou, em suas marcas discursivas, uma relação negativa com a maternidade, amamentação e a velhice. Negatividade em seu posicionamento que parece naturalizar-se e justificar-se em discursos que insistem em repetir que tais fases na vida de uma mulher “deformam” o corpo feminino, principalmente as mamas, parte do corpo diferencial de gênero. Sujeito da pesquisa 2 - “Apesar de já ter duas filhas, as quais amamentei seis meses, o tamanho permaneceu o mesmo, não são flácidos e não tenho problema na minha vida conjugal.” (52/F/1 L) Embora o sujeito feminino, em seu discurso, aparentemente, apresente uma relação de satisfação como os seus seios após a maternidade o sei posicionamento discursivo não difere do enunciado acima analisado: uma vez que o seu discurso é fortemente atravessado pelo discurso machista e pelo discurso da medicina estética e a satisfação com os seus seios não reside em ter amamentado as suas filhas, mas sim por não ter perdido o seu formato estético. No fio de seu discurso, esse sujeito feminino revela rapidamente traços da cultura androgênica, na qual, encontra-se inserida, onde a mulher tem que manter-se “bela” para continuar atraindo o desejo do homem e assim poder garantir uma vida conjugal sem “problemas”. “Permaneceu o mesmo”, “não são flácidos” e “não tenho 11 problemas na minha vida conjugal” são marcas discursivas que coadunam com o “Sujeito Universal” presente no interior de FDs machistas, que colocam a mulher numa posição de objeto de prazer masculino que deve continuar “irretocável” à ação do tempo. Observa-se nesse enunciado, que esse sujeito mulher, ao proferir o seu discurso, coloca-se numa posição privilegiada: os seus seios não se “deformaram”(!) após a amamentação como constrói o discurso da medicina estética que indica o implante de prótese de silicone mamária aos “danos” causados nos seios femininos após a maternidade: flacidez, diminuição do tamanho da mama etc. A presença da preposição “apesar” em seu intradiscurso desconstrói alguns sentidos já cristalizados senso comum pela grande veiculação desse discurso nos suportes midiáticos: de que a amamentação “deforma” os seios. A presença dessa locução adversativa revela apenas uma certa tensão desse sujeito a esse discurso, mas que, no entanto, não deixa de revelar o “PréConstruído” que esse sujeito se identificou para proferir a sua “fala” . Assim, numa leitura superficial, poder-se-ia assegurar que esse sujeito feminino tem uma relação positiva com a maternidade. Porém, em seu “fio discursivo” há marcas do discurso da medicina estética e do discurso machista que afirmam uma relação de negatividade em relação à maternidade, na qual esse sujeito feminino, por uma concessão “divina”, não se inclui: a inserção do advérbio de negação “não” supõe, concomitantemente, em seu discurso, a afirmação de que a maternidade “deforma” os seios e traz problema para a vida conjugal. Tais sentidos já se encontram cristalizados no imaginário social. Desse modo, a medicina estética, que alimenta a indústria da beleza, com a promessa de juventude eterna, apoiando-se no discurso “psico”, nas sociedades de “culto ao corpo”, apresenta-se como uma prática salvadora capaz de recuperar a “autoestima” da mulher a fim de que ela possa, sentir-se bem “consigo mesma” e ter relacionamentos afetivos/sexuais satisfatórios. Mas afinal: satisfatório a quem? O formato dos seios interfere então diretamente na sensibilidade dessa parte do corpo feminino para a mulher? Até que ponto os seios são, de fato, uma zona erógena feminina, se, nesses discursos, eles estão condicionados ao seu formato? A sensibilidade nessa parte do corpo feminino é biológica ou sócio-culturalmente construída por um “saber” sobre o corpo feminino construído a partir do discurso médico? 12 Embora não se tenha a pretensão de responder, nesse trabalho, as indagações aqui colocadas, considera-se importante ressaltar o posicionamento de Foucault a respeito do funcionamento da medicina (1999:201), para o qual, constitui-se numa instância de controle social”. Porém, vale lembrar que esse filósofo social não tem uma visão “negativa” sobre o “poder”, pois, segundo ele, a disciplina é responsável pela produção de saberes. As questões aqui suscitadas serão deixadas abertas ao leitor ou serão retomadas numa possível discussão futura. Sujeito da pesquisa 3 - “Quando os seios recaem perde toda sua beleza e curiosidade e pode até virar objeto de zombaria.” (14/M/1L) O sujeito masculino, nesse enunciado, inseriu-se na Formação Discursiva da indústria, perpassada discurso machista, para referir-se a seios, “objeto”: uma vez que essa parte do corpo feminino vem sendo fabricada e comercializada conforme a preferência do público feminino(?). Não! Do público masculino, pois, as “idéias” e a cultura foram produzidas pelos homens e a “voz” sempre foi cedida aquele que detém o poder. Assim, sob o peso da historicidade, sempre coube ao homem discursivamente estabelecer os padrões estéticos que a mulher deve ter, seja na literatura, na pintura ou na arte em geral, pois, o matrimônio, de acordo com Coutinho (1994:43), gerou condições desiguais de apropriação ao capital cultural. Dessa forma, a “passividade” feminina [que foi possível constatar anteriormente nas análises dos enunciados obtidos de sujeitos do gênero feminino] aos discursos masculinos é resultado de um longo processo “histórico-social” e é constantemente re-atualizado no discurso da indústria, porém, não sem tensão. Tal comparação estabelecida por elementos lingüísticos “seio/objeto” é compatível, no nível discursivo, com os elementos de saber que vinculam-se ao préconstruído, ideologicamente articulados pelos interdiscurso de FDs ligadas à tradição social da qual fazem parte de discursos que perpassam esses sujeitos descritos acima. Esse sujeito masculino é fortemente atravessado pelo discurso machista e pelo discurso midiático, pois, introduz a mulher na categoria de objeto de prazer. A partir das marcas discursivas “perde toda sua beleza e curiosidade” esse sujeito masculino revela, em seu discurso, que a mulher que apresenta “ptose” nas mamas é considerada um sujeito feminino “menor” destituído de “beleza” e sensualidade, uma vez que não se assemelha as imagens de feminino sexualmente “legítimo” difundidas 13 pela mídia: com partes do corpo pontualmente “eróticas” construída por/ nesses discursos. A beleza imposta ao gênero feminino por discursos masculinos machistas é tanta que beira a crueldade. Sem dúvida, trata-se de discursos extremamente opressores. Veja que no imaginário desse sujeito, os seios caídos não remetem apenas a falta de beleza e sensualidade, mas a possibilidade do ridículo: “seios caídos podem até virar objeto de zombaria”. Isso porque, a presença desse tipo de seios em discursos humorísticos presentes no cotidiano é bastante comum e a sua “ridicularização” são “efeitos de sentidos” já cristalizados no imaginário dos sujeitos. Porém, trata-se de um “humor” perverso, nada inocente, que revela as relações de poder entre os gêneros presente nesses discursos. Trazendo esse discurso “humorístico” que traz a tônica dos seios caídos e os ridiculariza, pode-se pensar que talvez seja esse um dos discursos que mais impelem os sujeitos femininos a procurarem a mamoplastia: uma vez que os discursos se fazem “prática social”. Desse modo, a mulher que se submete a cirurgia estética de levantamento das mamas, vivencia esses discursos em sua “corporeidade” e experimenta a sua elevação na escala social, haja visto, que não se assemelha mais a imagem de feminino “depreciada” e construída por esses discursos. Pois, conforme Hall2 (2000:39) “A identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é ‘preenchida’ a partir de nosso exterior pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outro.” Pensando os seios caídos, nessa Formação Discursiva “humorística”, é possível constatar nesse tipo de discurso um estigma de ordem sócio-econômica. Uma vez que esses discursos emergem, num momento histórico, em que a medicina estética promove uma suposta “democratização” da beleza por intermédio da cirurgia plástica. Porém, constata-se que houve apenas um deslocamento, pois, se antes a “beleza” era determinada pela genética hoje ela determinada muito mais pelo econômico. Assim, trazendo essa questão para o campo prático da vida, uma vez que: “os sentidos não estão só nas palavras, nos textos, mas na relação com a exterioridade, nas condições em que eles são produzidos e que não dependem só das intenções do sujeito (ORLANDI, 2001:30), ”, presume-se que, diante desse contexto histórico, a mulher que apresenta 2 HALL, Stuart. A identidade cultural da pós-modernidade. RJ: DP&A,2001. 14 “ptose” nas mamas é aquela que não tem condições econômicas para levantá-las por intermédio da intervenção cirúrgica. Põe-se então um questionamento: afinal, tal “efeito de riso” provocado pelos seios caídos, nessa formação discursiva, na qual esse sujeito se inseriu ao “proferir” o seu discurso, resume-se apenas ao seu formato? Sujeito da pesquisa 04 - “O seio que mais me atrai é o seio farto e firme, de preferência [ciliconado]; pois é fabricado e tira as imperfeições do corpo e resistem à força gravitacional do tempo” (04/M/1L). No enunciado desse sujeito, o “efeito de sentido” produzido chega até ser cômico, pois, os seios reivindicados pelo sujeito contrariam a lei da física sobre a gravidade, haja visto, que se forem grandes, com o tempo, a tendência é cair em maior ou menor grau de acordo com a textura da pele e com o formato. Esse discurso possui uma relação com um certo discurso da medicina que trata de cirurgia plástica voltada para a estética. A formação imaginária feminina aqui é de uma “verdadeira” Barbie e não o sentido de uma mulher “real” de carne e osso, já que, o molde reivindicado nesse discurso: “fartos”, “firmes”, livre das “imperfeições” humanas se enquadram bem mais às características desta boneca. O discurso machista também se constitui e atravessa o midiático, na medida que, sexualiza a imagem da mulher, apresentando-a como um produto a ser comercializado. Aliás, esse discurso é historicamente estabilizado, considerando que a prostituição esteve presente desde os tempos bíblicos. O uso de léxicos, nesse discurso, freqüentemente utilizados no setor fabril evidencia isto: “fabricado” e “tira as imperfeições”, ou seja, a mulher pode ser fabricada numa clínica estética e sair de lá sem nenhuma “imperfeição” pronta para ser consumida. Assim, a indústria da beleza, por intermédio da mídia, explora os estereótipos de mulher-objeto, de forma freqüente e ainda mais evidente, nos quadros “antes” e “depois”muito presentes em revistas femininas e em programas de auditórios. Há também, nesse discurso, uma incorporação do discurso do padrão de beleza americana “seio farto e firme” decorrentes do processo de globalização. Considerando que os norte-americanos “dominam” o mercado do cinema mundial. É possível constatar este fato nos filmes que passam nas redes de televisão brasileira. Nesse discurso está imbricado o sentido de definição dos seios “siliconados” toda uma valoração econômica socialmente reconhecida: “(...) o poder penetrou no corpo, encontra-se exposto no próprio corpo...” (Foucault, 1999:146). Assim, constituído por esse discurso, o sujeito assumiu a sua preferência por esse tipo de seios. 15 No entanto, a questão não é nem a forma e nem a textura dos seios, considerando que o formato e textura são relativos, mas o que ele representa perante a sociedade, ou seja, um maior poder aquisitivo e de visibilidade de quem o possui. No campo prático da vida, ( se homem estiver com uma mulher que tiver os seios “siliconados” mesmo que ninguém o saiba, em seu imaginário e no imaginário social, ela irá lhe conferir um certo status social, pois, estará ao lado de uma mulher “poderosa”, tanto no sentido sexual quanto no sentido econômico, levando-se em consideração que, no Brasil, devido às desigualdades sociais, apenas uma minoria de mulheres teria condições de realizar o implante de próteses de silicone. Dessa forma, o sujeito da pesquisa, num processo de espelhamento de inflação narcísica, movido pela crença arraigada na memória discursiva, passa acreditar, evidência da ideologia, que todas às implicações conferidas a ela possam igualmente ser atribuídas a ele. Tanto os seios, na mulher, quanto o pênis, no homem, são partes do corpo representativas da sexualidade. Assim, se o falo “duro” ou ereto é sempre associado à virilidade, a firmeza dos seios femininos igualmente pode estar carregada desses sentidos. A juventude eterna prometida pelas práticas de embelezamento presentes nos discursos da “tecnologia sexual” é reforçada pela mídia e vai de encontro a FD presente no ideário masculino. No entanto, os dois discursos são conservadores, na medida que, têm como parâmetro ideológico a estereotipação da mulher a antigos moldes seja como mulher-fêmea ou como mulher-mãe. Não se pretende alongar nas análises dos enunciados virão a seguir, pelo fato de apresentarem uma certa unidade de sentido entre si, ou seja, são “paráfrases” (Fuchs 1982) uns dos outros, na medida em que esses os enunciados articulam os mesmos sentidos produzidos por FDs já discutidas anteriormente. Supõe-se apenas que com pequenas diferenciações nas análises que não iriam acrescentar considerações relevantes. No entanto, a razão pela qual, decidiu-se incorporar tais enunciados, foi para evidenciar a rejeição aos seios caídos pelos sujeitos da pesquisa do gênero masculino: “Gosto de mulher com seios grandes e durinhos sem se caído.” (23/ M/1 EM); “Porque os homens gostam mais de seios sensual não grandes e caídos e sim grandes e definidos, ou seja, firmes.”; (39/M/1 EM) “Os seios mais redondinho sem ser caído e bem grande.”; “Seios não tão grandes e que não sejam caídos.” (45/M/3 EM). Considerações finais: 16 Ao colocar o discurso dos seios femininos em discussão foi possível observar, no corpus analisado, que o mito da beleza tem suplantado o mito da maternidade. Se no decorrer da história, devido à função biológica dos seios, os seios femininos veiculavam a imagem feminina à maternidade, hoje, essa articulação parece não mais vigorar. Os seios femininos na sociedade vigente adquiriram um caráter puramente estético e decorativo na representação feminina, ligado muito mais à sensualidade e ao erotismo. No entanto, seria redutor pensar o sujeito mulher como um sujeito receptáculo produzido por moldes fabricados em outro lugar. As identidades são construídas e (re) construídas tensivamente nos discursos em processos de (des) identificação constantes e por esse motivo, conforme Gregolin, em seu texto Memória, História e Produção de identidades na mídia, não há um agenciamento coletivo completo das subjetividades pelo “poder”. Assim, se tais mitos como o da maternidade e a passividade não têm mais a força que um dia tiveram no processo de identificação feminina, a concepção feminina greco-romana do mito da beleza parece estar mais atual do que nunca, revestida e resignificada pela ideologia do sujeito narcísico que “cuida de si” porque se ama. É bom deixar claro ao leitor, que o objetivo desse trabalho não foi de forma alguma atacar a instituição médica de cirurgias plásticas e muito menos prestar militância ao feminismo. Pois, não se é, absolutamente contra a prática de cirurgias plásticas: uma vez que se reconhece que em determinada perspectiva ela é realmente um avanço da biomedicina, haja visto que, nos tempos de outrora a “beleza” era um tributo de apenas alguns poucos eleitos pela genética, hoje ela passa a ser “democratizada”. Porém, se antes do seu surgimento, a beleza, era determinada pelo “gen”, hoje, ela é determinada muito mais pelo econômico - o que de certa forma ainda a torna restrita a um grupo seleto. No entanto, observa-se que com um agravante, pois, torna-se definidora de classe sócio-econômica. E, embora algumas teorias feministas tenham auxiliado na discussão a pensar as relações de gênero, reconhece-se que tais discursos com pretensões de “libertadores” acabam funcionando como “opressores” na medida em exclui a alteridade e acaba, do mesmo modo, estereotipando a mulher. A percepção estética pode ser entendida como um processo de aprendizado constante ao longo da vida dos indivíduos, socialmente construída e reiterada, passando a constituir-se como norma. O impacto causado pela mídia, por intermédio da exposição exacerbada do corpo, cria nos sujeitos uma necessidade de adequar-se ao padrão “ideal”. Constituem-se então em um “...processo de sujeição ou dos processos contínuos 17 e ininterruptos que sujeitam os corpos, dirigem os gestos, regem os comportamentos etc. (FOUCAULT,1999: 22)” Segundo David Le Breton, (1995:65), “pensar o corpo é outra maneira de pensar o mundo e o vínculo social; uma perturbação maior introduzida na configuração do corpo é uma perturbação introduzida na coerência do mundo”. Por esse motivo, a “feiúra” causa estranheza ao ambiente. O “deficiente” de beleza constitui-se um desvio, um “à parte”. O temor das pessoas a se enquadrarem em tal configuração revela o “porquê” de tanta preocupação com a beleza. Para finalizar, retoma-se aqui as palavras de Pêcheux, citadas por Maingueneaus (1993:11), uma vez que a leitura dos enunciados apresentadas nesse trabalho, constitui-se apenas em um modo de leitura dentre tantas outras possíveis, pois, compactuando-se com os pressupostos da Análise do Discurso francesa, teve-se por finalidade apenas elaborar “procedimentos” que pudessem “expor o olhar-leitor a níveis opacos à ação estratégia de um sujeito” onde o “desafio crucial” foi “o de construir interpretações, sem jamais neutralizá-las seja através de uma minúcia qualquer de um discurso, seja no espaço lógico estabilizado com pretensão universal.” Referências Bibliográficas COUTINHO, M. L. R. Tecendo por trás dos panos: a mulher brasileira nas relações familiares. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. BARTHES, R. Système de la mode. Paris: Seuil, 1981. p. 263 BORDO, S. O corpo e a reprodução da feminilidade: uma apropriação finita de Foucault. In: JAGGAR, A.; BORDO, S. Gênero, corpo e conhecimento. 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