LINGÜÍSTICA NOSSA QUE SE PRETENDE SER DE CADA DIA Jornal Imagem (Nova Andradina-MS), 20/09/2008, p. 02. NOTA ACERCA DO DISCURSO SOBRE A “PROMOÇÃO” DA LÍNGUA PORTUGUESA O discurso sobre a promoção da Língua Portuguesa ganhou destaque em diversos espaços sociais brasileiros – a mídia e as universidades me parecem lugares privilegiados desse discurso. Esse destaque se deve, principalmente, ao acordo ortográfico que entrará em vigor a partir do próximo ano. Pois bem. Neste texto, não tenho por objetivo discutir esse acordo. Meu interesse aqui é mais modesto. Desejo apontar um detalhe acerca desse discurso, detalhe que poderia (acho até que deveria) chamar atenção do leitor: os sentidos de promoção da língua. O conceito aparece no projeto de lei n°. 1676, de 1999, que foi proposto pelo deputado federal Aldo Rebelo. O projeto em questão, bastante discutido na mídia, objetivava legislar sobre o uso lingüístico no Brasil, especialmente sobre o uso de línguas estrangeiras, e era introduzido nos seguintes termos: “Dispõe sobre a promoção, a proteção, a defesa e o uso da língua portuguesa e dá outras providências.” (itálico acrescentado). Na seqüência do texto, o deputado afirma que o PL “(...) introduz as importantes noções de prática abusiva, prática enganosa e prática danosa, no tocante à língua, que poderão representar eficientes instrumentos na promoção, na proteção e na defesa do idioma pátrio.” Vale observar que promoção, no projeto, aparece em uma enumeração que inclui “proteção” e “defesa” da língua. Muitos estudos desenvolvidos sobre esse projeto de lei e os discursos do deputado em sua defesa apontam seu caráter purista, atualizando o discurso preconceituoso presente na gramática tradicional brasileira acerca do uso de estrangeirismos: considera-se a língua uma unidade, um bem intangível da pátria que deve ser preservado em sua pureza e valorizado como tal. O lingüista Carlos Alberto Faraco, bem como tantos outros lingüistas, recentemente comentou na mídia o acordo ortográfico citado no início deste texto (ver http://www.museulinguaportuguesa.org.br/museudalinguaportuguesa/artigo_mudanca_n ecessaria.html). No texto do lingüista, o conceito de promoção, ligado ao adjetivo “internacional”, também aparece: “No entanto – e este é um ponto que raramente aparece nos debates –, Portugal transformou a duplicidade de ortografias em um instrumento político para embaraçar a presença brasileira seja nas relações com os demais países lusófonos, seja na promoção internacional da língua.” / “Pelo mesmo pretexto, nunca conseguimos uma ação conjunta na certificação de proficiência em português como língua estrangeira e na promoção internacional da língua” (itálico adicionado). O deputado e o lingüista, nos textos citados, buscam poder político para a língua nacional. Mas os lugares sociais de onde as palavras são enunciadas e o contexto lingüístico em que aparecem interferem em seu sentido. No discurso do deputado, promoção, em uma enumeração, é mais uma ação que se soma à “preservação” e “proteção”, o que confere à palavra um tom purista e preconceituoso, já que o discurso de preservação da língua tem rejeitado, na história brasileira, as inovações e variedades desprestigiadas do português; no discurso do lingüista, a palavra promoção, modificada pelo adjetivo “internacional”, aplica-se somente a atividades ligadas à esfera das relações internacionais. Os lugares sociais de onde as palavras são enunciadas também interferem decisivamente na produção de sentido da palavra – esse tema merece um outro texto, que fica prometido desde já ao leitor. Mas uma questão que me coloco aqui, e que fica aberta a maiores reflexões, é se a “promoção do português” na esfera internacional, mesma na voz do lingüista, não traz consigo, como efeito da memória do discurso, o tom purista do discurso do deputado e do gramático. Prof. Dra. Marina Célia Mendonça Universidade de Franca – SP GADI - Grupo de Estudos do Discurso NEAD - Núcleo de Estudos em Análise do Discurso