O Ser Humano como integrante da Biodiversidade e a importância da Sustentabilidade nas redes de interação social e ambiental1 Resumo: O presente trabalho tem como objetivo abordar sobre a importância da Sustentabilidade e da Democracia para o Desenvolvimento Humano. O texto abordará a concepção do Planeta Terra como sujeito de direitos e a relação de interdependência que o Ser Humano vive com ele. Se trabalhará com a construção da ideia de que o Ser Humano precisa entrar em comunhão com os demais seres e com o ambiente em que vive, bem como a importância de sua atuação para a concretização da sustentabilidade e da democracia. Palavras chave: Sustentabilidade, Democracia, Ser Humano, Biodiversidade, Desenvolvimento Humano. Abstract: The objective of the present work is to discuss about the importance of Sustainability and Democracy for Human Development. The text will address the design of Planet Earth as a subject of rights and ther elations of interdependence that the Human Being lives with him. Wew ill work with the construct ion of the idea that the Human Being needs to enter in to communion with the other beings and to the environment in which they live, as well as the importance of its activities to the ache evement of sustainability and democracy. Keywords: Sustainability, Democracy, Human Being, Biodiversity, Human Development. Introdução: O tema deste artigo volta-se para a integração do Ser Humano com o meio social e ambiental em que vive, tendo como problema tal cenário e a importância da Democracia e da Sustentabilidade para que o desenvolvimento 1 Trabalho final de avaliação da Disciplina Fundamentos Filosófico-Políticos da Sustentabilidade, ministrada pelo Professor Dr. Sérgio Ricardo Fernandes de Aquino, do Mestrado em Direito da Imed – Faculdade Meridional. Mestranda Aline TaianeKirch humano esteja de acordo com a preservação e proteção dos demais atores da biodiversidade. Tem-se como objetivos abordar sobre as redes em que o Ser Humano está envolvido, quais sejam, a biodiversidade e a convivência em Sociedade; o papel da Democracia, da Sustentabilidade e da Fraternidade em tais redes; e como em especial a América do Sul está utilizando mecanismos de efetivação da Democracia e Sustentabilidade a nível local. Primeiramente, é importante a observação de que a vida no Planeta Terra é complexa, autorregulada e interdependente. O Ser Humano como integrante deste sistema deve visar que seu desenvolvimento se afaste do paradigma mecanicista para a inserção de um novo paradigma, que leve em consideração a dignidade da Pessoa Humana e da Natureza. A seguir, a confirmação de que o antropocentrismo, o individualismo e o atual sistema de desenvolvimento econômico geram desigualdades, entendese que a Democracia e a Sustentabilidade tem a função de reverter paulatinamente o atual cenário para a qualidade de vida e bem estar de todos. A Fraternidade e a Cidadania são fortes elementos para o efetivo Desenvolvimento Humano dentro das perspectivas objetivadas na PósModernidade. Por fim, ao voltar-se o olhar para o Continente Sul Americano, busca-se analisar quais são os passos dados para a concretização do Desenvolvimento Sustentável a nível local. Entende-se que para isso é preciso o a união de todos os povos, sem prejuízo do respeito às diversas culturas que neste local se manifestam, com vistas a proporcionar a qualidade de vida aos Latinos Americanos e a todos os habitantes da Terra. Tem-se como hipóteses que nos dias atuais a sociedade vive um paradigma mecanicista e antropocêntrico. Que de acordo com os pensadores da Pós-Modernidade é possível e necessário a transição para um novo paradigma que envolve a sustentabilidade e a biodiversidade. E ainda, que na América Latina existe um desenvolvimento paulatino de sustentabilidade, que deve ser amplamente difundido. Para a realização deste trabalho utiliza-se o método de pesquisa indutivo e dialético e a técnica de pesquisa bibliográfica. A seguir, será possível obter uma concepção mais clara a respeito do desenvolvimento do texto que não visa esgotar o tema. As redes da Biodiversidade e da convivência em Sociedade quem envolvem o Ser Humano A Terra em sua complexidade biológica e de autorregulação é um organismo vivo. As comunidades vivas são interdependentes e criam condições de autorregeneração, resistência e resiliência, sendo uma presença indefinida na terra2. Nos últimos séculos, o planeta vem recebendo a influência de um paradigma mecanicista. Esta influência negativa consiste em um forte processo de exploração e degradação da natureza. Há necessidade da inserção de um novo paradigma, que envolve a concepção do sistema interdependente que envolve a vida no planeta. Este paradigma ultrapassa a esfera da dignidade da pessoa humana, abrangendo também a dignidade do planeta terra como um todo. De acordo com Maffesoli: Assim, através da iluminação ou do alargamento da consciência, é a vida em sua integralidade que se leva em conta. Para retomar uma expressão de Schellig, assim se pode pôr em prática uma “ciência criativa” que permita estabelecer um vínculo entre a natureza e a arte, o conceito e a forma, o corpo e a alma. O que acentua tal vínculo é a vida. A vida enquanto força pura, enquanto expressão de uma natureza exprimindo-se de uma forma. Trata-se de uma “ciência operante, não mãos desencarnada mas enraizada na globalidade do dado mundano, e isso através de suas diversas componentes, sejam elas naturais, culturais ou sociais. [...] pode-se dizer que o racionalismo moderno contentou-se em analisar o mundo real, enquanto que a racionalidade aberta leva em conta a realidade em 3 sua totalidade. Compreende-se que o ser humano é apenas um dos elementos que integra o sistema da biodiversidade. O ecossistema estrutura-se em rede, da qual o homem faz parte e não lhe cabe uma posição central, pois esta inexiste. 2 GLEISER, Marcelo. CriaçãoImperfeita: cosmo, vida e o código oculto da natureza.3.ed. Rio de Janeiro: Record, 2010. 3 MAFFESOLI, Michel. Elogio da razão sensível. Tradução de Albert Christophe Migueis Stuckenbruck. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998. p. 55. A partir deste paradigma, o meio ambiente e a biodiversidade assumem a posição de sujeitos de direitos, que legitimamente lhes é cabida. Supera-se a condição de meros bens a mercê das necessidades e vontades humanas regidas pelo crescimento econômico e o ser humano é retirado de sua posição central e dominadora4. O verdadeiro desenvolvimento humano é o realizado de forma sustentável, a partir de ações que possibilitem a integração com o ambiente e com o outro ser humano. Isto somente é possível por meio do exercício de visualizarão do “Eu” no Outro e da criação de um sentimento de responsabilidade, respeito e união com os demais. Sobre tal afirmação, Morin esclarece que “o ser humano percebe o outro como um eu simultaneamente diferente e igual a ele. O outro partilha assim uma identidade comigo embora conservando a sua diferença”5. No movimento de perceber o outro encontra-se o vínculo-antropológicocomum6. Cria-se então a existência de um amplo grupo formado pelo “nós”, afastando a individualidade do paradigma dominante do Eu como o centro, e possibilitando o altruísmo7. Este “outro” não se limita ao ser humano, é também o ecossistema e o futuro do planeta Terra e das futuras gerações. O processo de visualização do vínculo-antropológico-comum com o futuro do planeta e com as futuras gerações precisa ser mais observado, uma vez que grande parcela da Sociedade entende que o cuidado com as futuras formas de vida não é relevante de ser pensado, pois ora não irão se beneficiar com um resultado, ora um prejuízo não lhe afetará diretamente. Com a ideia de que “o problema não é meu”, negligentemente deposita-se apenas às futuras gerações a responsabilidade pela garantia do exercício da Democracia e da Sustentabilidade. Para sentir o vínculo-antropológico-comum que nos liga se requer que as gerações futuras sejam vistas como os filhos da atual Sociedade. Geralmente, o filho é a pessoa em que melhor se consegue sentir o vínculo4 GLEISER, Marcelo. CriaçãoImperfeita: cosmo, vida e o código oculto da natureza. MORIN, Edgar. O método 6: ética. Tradução de Juremir Machado Silva. Porto Alegre: Sulina, 2005. 6 MORIN, Edgar. O método 6: ética. 7 MORIN, Edgar. O método 6: ética. 5 antropológico-comum. A Sociedade precisa exercitar o difícil trabalho de sentimento de Fraternidade, Alteridade e Solidariedade com as gerações futuras, assim como os pais o fazem com seus filhos. O ser humano não vive isolado, mas em grupo, e se forma das interações vividas na sociedade, com o outro. Da mesma forma, a sociedade se constitui das ações do indivíduo. O desenvolvimento humano sustentável desafia a compreender o outro, a interagir com o ser que lhe é estranho, que não faz parte da família ou da sua comunidade e que tem outra cultura8. No entanto a dificuldade de se colocar em prática essa ação está na existência de “pré-conceitos”, ou seja, pela falta de conhecimento e de compreensão para com o “Outro” que lhe é diferente e sua cultura. Esta atitude também é dificultada em razão das inúmeras intolerâncias da humanidade (como por exemplo, a intolerância religiosa, política, a xenofobia, entre tantas outras).Percebe-se a necessidade de transição do predomínio do monoculturalismo para o prevalecimento do multiculturalismo. A tribalização deve tomar o lugar do individualismo9. Apesar das inúmeras diversidades culturais, fazemos parte de um grande grupo: a aldeia global10. O individualismo não é mais cabível nessa forma de organização de grupo. Não se pensa isoladamente, pois a ideia advém do meio em que se vive. O que determina o comportamento humano e a rede de interações sociais em que vive não é a cultura apenas, nem tão somente a genética/sua natureza, mas o conjunto, a harmonia, e a relação desses fatores. Portanto, a relação indivíduo-sociedade-espécie11. Ao mesmo tempo que se faz parte de uma grande comunidade, somos integrantes de tribos que se constituem pelo compartilhamento de imaginários tribais, ou seja, a aproximação ocorre através das identificações12. 8 MAFFESOLI, Michel. A transfiguração do político: a tribalização do mundo. Tradução de Juremir Machado da Silva. 3 ed. Porto Alegre: Sulina, 2005. 9 MAFFESOLI, Michel. A transfiguração do político: a tribalização do mundo. MAFFESOLI, Michel. A transfiguração do político: a tribalização do mundo. 11 MORIN, Edgar. O método 6: ética. 12 MAFFESOLI, Michel. A transfiguração do político: a tribalização do mundo 10 A edificação da comunidade global ocorre com a desconstrução da racionalidade estática e o desvelamento da “comum-unidade”, em que não há soberania, mas democracia na convivência comunitária. O respeito e a socialização com o diferente são essenciais neste processo. A vida do indivíduo deve ter em si a dimensão da Alteridade, em que um depende do outro para a preservação da própria existência. Sob este viés, a Cidadania relaciona-se intrinsecamente com a participação do Cidadão na vida da comunidade local e global. A Cidadania é um processo permanente queimplica direitos e responsabilidades, o que significa afirmar que o dever da participação política fortalece o processo de concretização democrática e cidadã sustentável. O exercício do dever de participação política gera o interesse em assuntos públicos e promove a governança. Envolve os processos de tolerância social, reciprocidade e a confiança interpessoal. Desenvolve assim, a busca de uma melhor realidade para todos os cidadãos e uma cultura de participação. Democracia, Sustentabilidade e Fraternidade nas redes de interação do Ser Humano A importância do desenvolvimento sustentável não se aplica apenas em relação ao meio ambiente, mas para as relações sociais também. Ele deve ser observado nas organizações da sociedade, das instituições e na política. O ser humano é frágil e evolui constantemente enquanto ser individual, social e político. É preciso cuidado em suas ações, pois essas geram reflexos no outro. Esta consciência em sua forma de agir é necessária para que não degrade sua própria espécie. Ao passo que o ser humano se omite no respeito à estruturação em rede do ecossistema, ele rompe a interligação que o envolve, gerando danos a toda a estrutura.Este rompimento ocorre principalmente pelo atual sistema econômico que atinge também a todas as demais áreas da organização social, constituído por abusos, adulterações, falta de preços justos e de oferta de produtos de qualidade, bem como de que tais produtos sejam confeccionados de forma respeitosa ao meio ambiente e aos trabalhadores. A baixa participação na Cidadania, embora envolva também outros aspectos, se manifesta pela falta da educação de direitos para a massa. A massa desconhece da existência de vários de seus direitos e quando tem conhecimento, não sabe como efetivá-los. A inexistência de uma Democracia amplamente efetiva e da implementação da sustentabilidade facilitam com que o progresso e desenvolvimento econômico tomem os lugares de fim ao invés de meios para o bem geral e a felicidade dos sujeitos. A Pós-Modernidade observa a Democracia como o melhor modelo de organização social etem como desafio a valorização da Sustentabilidade. Ao entender necessária a união entre Democracia e Sustentabilidade, a PósModernidade tem como um de seus objetivos diminuir o antropocentrismo e promover o ecocentrismo. A afirmativa de que a democracia e a sustentabilidade amenizam o antropocentrismo, é no sentido de que não é possível a superação deste pelo biocentrismo ou ecocentrismo. No entanto, o que ocorre é a aproximação entre ambos, ou seja, não ocorrerá a eliminação do antropocentrismo ou do biocentrismo/ecocentrismo, mas a aproximação, no sentido de cuidado de um para com o outro13. O equilíbrio decorrente da superação de centrismos - ecocentrismo, antropocentrismo, eurocentrismo, etc. – é um desafio histórico que exige uma profunda responsabilidade, visto que para ser humano é mais fácil viver entre extremos, em perspectivas positiva ou negativa, como por exemplo, o excesso da riqueza e a exploração. A Democracia Sustentável limita o antropocentrismo, no sentido de uma nova compreensão do cosmos, que consiste em reencontrar os vínculos de interdependência entre o meio ambiente e tudo que o integra. 13 MAFFESOLI, Michel. A transfiguração do político: a tribalização do mundo Neste sentido, Maffesoli ensina que: Pode-se, enfim, observar o <<espírito objetivo>> na nova relação estabelecida entre a natureza e a cultura. No lugar da clássica dicotomia estabelecida entre sujeito e o objeto, aquele como garantia da cultura, este como testemunha da natureza, há uma fusão, confusão, superação dessa oposição demasiado estrita. A sensibilidade ecológica é, quato a isso, esclarecedora, pois tende a reavivar, a animar esse conjunto de coisas – natureza, meio ambiente, fauna, flora, paisagem – que a modernidade se inclinava a considerar objetos inertes, controláveis e exploráveis à vontade. [...] Isso delimita uma ambiência comum na qual cada um desses pólos, até então separados, entra em interação constante, gerando uma nova relação com a natureza, sem estigma ou desprezo, considerando esta como lugar matriarcal determinante na relação aos outros. Nos seus diversos aspectos, apenas esboçados aqui, o objeto, ou, para melhor enfatizar sua dimensão de conhecimento, o mundo <<objetal>> favorece a participação, como espaço mágico atrelado a esse termo. Em suma, por participar do mundo natural, o dos objetos, comungo com o outro, o <<eu>> cede ligar ao <<nós>>, a distinção inverte-se em viscosidade, a crítica do mundo como ele é se torna afirmação da existência e, enfim, o ativismo tende a deslizar 14 para a impassibilidade . No entanto, se passa por uma época em que os Estados declarados democráticos estão estagnados e não efetivam a democracia em plenitude. Na mesma situação encontra-se a sustentabilidade. A normatividade é integrante fundamental da Democracia, todavia, é necessária a compreensão de que o caráter da lei é instrumental para preservar determinadas situações e prevenir outras. A Sustentabilidade envolve ações que consideram a fragilidade e finitude da vida e do universo. Sendo assim, as ações sustentáveis objetivam prolongar a vida na terra e a sua diversidade. Para tanto, necessita da interdisciplinariedade do Direito, da Química, da Física, da Engenharia e da Biologia. O desenvolvimento almejado deve estar pautado por precauções com os recursos que serão utilizados para a evolução desejada, tendo em vista a preservação de vida, tanto a nível geral, como em se tratando da vida humana, que é frágil e dependente de condições externas. Desse modo, as políticas de 14 MAFFESOLI, Michel. A transfiguração do político: a tribalização do mundo Sustentabilidade pressupõem responsabilidade ética e política para garantir o equilíbrio social e uma vida digna para todos e de bem-estar, não apenas para as presentes, mas também para as futuras gerações. O atual modelo de desenvolvimento promove as desigualdades sociais e o desrespeito ao planeta e suas demais formas de vida. Uma mudança paradigmática em prol do Desenvolvimento Sustentável vinculado à democracia é crucial para a promoção da justiça social e a equidade. A Democracia aparece como uma possibilitadora de construção de uma igualdade que inclui a diferença. Para a cultura ser entendida, é necessária a educação de ordem comunitária, em que o conhecimento implica na vivência diária com o outro e o planeta. A Sustentabilidade desafia a compreender a prevalência do todo em relação às partes no corpo social. O ser individual vive sob a influência dos outros e a ação individual reflete na vida dos demais seres humanos.A Sustentabilidade demanda dos indivíduos responsabilidade com o próximo e com o meio em que se vive. O ser humano é capaz de agir com solidariedade no meio social e esta é a pretensão das ações sustentáveis. Sobre este aspecto, Maffesoli, ensina que: [...] é preciso saber romper com uma postura intelectual, em última análise bem conformista, que busca sempre uma razão (uma Razão) impositiva para além daquilo que convida a ser visto e a ser vivido. É preciso retornar, com humildade, à matéria humana, à vida de todos os dias, sem procurar que causa (Causa) a engendra, ou a fez como é. [...] Mais do que uma razão a priori, convém pôr em ação uma compreensão a posteriori, que se apóie sobre uma descrição rigorosa feita de conivência e de empatia. A Fraternidade toma grande importância para a promoção da Sustentabilidade. Surge da união em prol de uma causa, de um mesmo sentimento de ser sujeito de direito e de pertencer a uma comunidade, pela qual se sente no dever de proteger da violação eminente oujá posta. Há uma inter-relação entre a Fraternidade e a vontade de lutar pelo direito que é seu e que também é do outro15. O Direito Fraterno ocorre pela participação política e cidadã voluntária dos sujeitos, ultrapassando a participação em situações de obrigações legais. Sobre a responsabilidade das ações do Ser Humano, Baggio explica que: Dentro do conceito de “virtudes civis” entendidas como as virtudes do cidadão, encontram-se todos os aspectos relativos á honestidade, à justiça, à ponderação e à prudência que se fazem necessários para o desenvolvimento das funções públicas. Entendidas nesse sentido, todas essas virtudes são aspectos as ethikê, ou seja, do conjunto das “virtudes éticas”, as virtudes da ação, que Aristóteles distingue das virtudes dianoéticas (contemplativas). As virtudes éticas são necessárias para atuar uma práxis voltada à realização racional do bem. Enquanto “práticas”, tais virtudes sempre implicam, por conseguinte, não apenas um processo cognoscitivo, mas também um processo de deliberação, ou seja, um procedimento em que a inteligência e a vontade colaboram para chegar a uma escolha, a uma decisão de ação. Logo, a participação assim entendida está ligada a uma opção de caráter ético, que define o compromisso no espeço público. Tudo isso é focado e delineado por Aristóteles e constitui uma expressão adequada e elevada (embora não a única) 16 do antigo ideal de cidadania ou de vida pública. Ele é essencial para a existência da sustentabilidade pela vontade que nasce de dentro do indivíduo em participar, de partilhar de um evento ou de uma experiência interior. De por meio da reflexão e das ações tornar real a sustentabilidade. A inteligência fraterna, conforme referido, implica na participação, não pela obrigação, mas pela vontade de ser parte, de participar da concretização da Democracia. Exige o exercício de reencontrar as suas fontes, bem como de renová-las. Proporciona a igualdade, uma vez que se não há perspectiva de união (fraternidade) não há como se ter Liberdade e Igualdade, porque essas não irão se aproximar. Os atuais mecanismos de efetivação da Democracia e da Sustentabilidade na América do Sul. 15 BAGGIO, Antonio Maria (Org). O princípio esquecido: exigência, recursos definições da fraternidade na política. Tradução de Durval Cordas. Vargem Grande Paulista: Cidade Nova, 2009. 16 BAGGIO, Antonio Maria (Org). O princípio esquecido: exigência, recursos definições da fraternidade na política. Partindo de uma visão global para uma visão local, na América do Sul assume importância para a sustentabilidade em seu aspecto geral e das relações humanas, a constituição da União das Nações Sul Americanas (UNASUL).A UNASUL é um Bloco Geopolítico mais amplo que o MERCOSUL, uma vez que não se limita a acordos comerciais, mas reconhece a dignidade da vida do planeta e objetiva um desenvolvimento responsável e sustentável. Na UNASUL também não há hierarquia17. A UNASUL objetiva a integração entre os países sul americanos, tanto no âmbito comercial, como nas áreas do meio ambiente, da segurança, da cultura, da infraestrutura entre outros. A UNASUL apresenta assim a possibilidade de ser um instrumento de implementação da ideia de nação regional e sucessivamente planetária,pois as ações em prol de um meio ambiente saudável e sustentável resultam em consequências não somente para os viventes da localidade onde a ação foi implementada, mas para toda a coletividade. A UNASUL se fundamenta no afastamento da visão antropocêntrica e do mecanicismo para dar lugar à visão biocêntrica e sistêmica. Objetiva adsorver a contribuição da sabedoria dos países andinos para a dignidade da Terra, entendendo queelaé um sujeito de direitos e de dignidade. Ao superar o mecanicismo a UNASUL ultrapassa a noção utilitarista da Ciência, compreendendo que não deve ser aplicada apenas para fins de dominação da natureza, tão pouco por meio da fragmentação das partes. A transição do paradigma antropocêntrico para biocêntrico ocorre por meio de uma visão sistêmica que engloba a comunidade em rede, a ecologia profunda, a noção de interdependência e o valor da vida do planeta. Um gesto concreto da UNASUL ocorreu em 2010, na Conferência Mundial dos Povos sobre Mudanças Climáticas e Direitos da Mãe Terra, realizado na Bolívia, que fora a Declaração dos Direitos da Mãe Terra18. Para se alcançar os objetivos propostos na UNASULa sociedade civil precisa assumir o papel de fiscalizadora deste bloco geopolítico, para a 17 BAGGIO, Antonio Maria (Org). O princípio esquecido: exigência, recursos definições da fraternidade na política. 18 BAGGIO, Antonio Maria (Org). O princípio esquecido: exigência, recursos definições da fraternidade na política. verificação de que se este cumpre com todos os seus objetivos, ou se, na prática, estão sendo aplicados apenas os interesses econômicos e comerciais. Outra importante contribuição acerca dos instrumentos para o alcance da democracia e da sustentabilidade é o conceito de “bem viver”, oriundo da Constituição da Bolívia, na qual demonstra a concepção de interdependência entre o ser humano e o planeta e que tem como base a relação dos povos andinos com a natureza. Ressalta-se que o objetivo não é voltar a viver como exatamente as primeiras comunidades, mas um retorno vivido na pós modernidade. Objetivase o arcaísmo, no sentido de retorno à ligação com a natureza, em comunhão com os conhecimentos que adquirimos, bem como a comunhão de culturas. O entendimento do “bem viver” é de que primeiro é preciso saber viver, para assim saber conviver. Assim o movimento é de trazer o indivíduo para a comunidade, mas sem abrir mão de sua individualidade, ou seja, busca-se a harmonia e a conjugação do indivíduo e da comunidade. A Sociedade contemporânea não tem claro o grau de aproximação que a cultura andina tem. Para a cultura ser entendida é necessário educação de ordem comunitária, de forma que o conhecimento implica na vivência diária. A ética, a moral, a norma e o valor são importantes fatores que indicam quais patrimônios que devem ser tutelados por sua relevância histórica ou cultural. No uso destes fora criado um importante movimento no Brasil, denominado Socioambientalismo19. O socioambientalismo pressupõe o envolvimento de comunidades locais no desenvolvimento de políticas públicas de proteção ao meio ambiente e ao patrimônio cultural, objetivando a eficácia social e a sustentabilidade política. Tais políticas públicas devem também promover a distribuição socialmente 19 GUIMARÃES, Bergson Cardoso. Fundamentos Ético-Filisoficos para a Preservação dos Bens Culturais. In: Sustentabilidade, desenvolvimento e democracia/org. Eduardo Bianchi Gomes, Bettina Bulzico. – Ijuí: Ed. Unijuí, 2010. (Coleção relações internacionais e globalização; 25) justa e equitativa dos benefícios derivados da exploração dos recursos naturais20. O bem socioambiental não é público, tão pouco privado, mas tem como sujeito a coletividade21. A defesa dos direitos da natureza/meio ambiente e a proteção de bens culturais, históricos ou artísticos são caracterizadas como direitos difusos. A partir dessas afirmativas, entende-se que no mundo padronizado (inclusive em relação aos comportamentos) é necessário o respeito e a tolerância às culturas e aos seus instrumentos de manifestação.Os complexos desafios apresentados não serão superados a curto prazo. Precisa-se melhorar a nossa responsabilidade, nossas ações para poder se chegar aos seus objetivos e a promoção da qualidade de vidana América do Sul e em todos os cantos do planeta. Considerações finais: Existem limites da natureza que devem ser respeitados, o que não vem ocorrendo. Usufruir a liberdade exageradamente cria o definhamento ou da pessoa, ou do meio ambiente. O limite da liberdade é a responsabilidade. Foram necessárias duas grandes guerras, de grande destruição, para se perceber o valor da vida e se criar uma declaração de Direitos Humanos. O mesmo ocorre neste momento histórico em relação ao meio ambiente. É necessárioimplementar as ações de defesa do meio ambiente. Um passo extremamente importante é a criação de normas protetivas. Diversamente das atuais normativas referentes ao tema, que tem caráter antropocêntrico, as normas devem reconhecer o caráter de sujeito de direitos do meio ambiente eter uma perspectiva ecocêntrica. Mais 20 BAGGIO, Antonio Maria (Org). O princípio esquecido: exigência, recursos definições da fraternidade na política. 21 BAGGIO, Antonio Maria (Org). O princípio esquecido: exigência, recursos definições da fraternidade na política. Os desafios complexos da democracia e da sustentabilidade não serão superados em um curto espaço de tempo. Precisa-se aperfeiçoar a responsabilidade dos sujeitos e suas ações para poder se chegar ao objetivo da promoção mundial da qualidade de vida. A eficácia da democracia se constitui com a atuação da sociedade política em prol da justiça e da cultura de paz.Do mesmo modo, há necessidade de uma educação perene, de se incorporar a educação para a Sustentabilidade e a Democracia. Trata-se de uma tarefa que não é fácil, tão pouco imediata. No entanto, isso não exime a sociedade política da responsabilidade da tentativa, do diálogo e da luta por um espaço de vida plena para todos. Para tanto é necessário que a sociedade política tenha foco nas perspectivas, pois ao se delegar tal função os Estados, serão esquecidas. É ambicioso, mas temos que tentar. Referências: BAGGIO, Antonio Maria (Org). O princípio esquecido: exigência, recursosdefinições da fraternidade na política. Tradução de Durval Cordas. Vargem Grande Paulista: Cidade Nova, 2009. GLEISER, Marcelo. CriaçãoImperfeita: cosmo, vida e o código oculto da natureza.3.ed. Rio de Janeiro: Record, 2010, p.221-290. GUIMARÃES, Bergson Cardoso. Fundamentos Ético-Filisoficos para a Preservação dos Bens Culturais. In: Sustentabilidade, desenvolvimento e democracia/org. Eduardo Bianchi Gomes, Bettina Bulzico. – Ijuí: Ed. Unijuí, 2010. (Coleção relações internacionais e globalização; 25) MAFFESOLI, Michel. A transfiguração do político: a tribalização do mundo. Tradução de Juremir Machado da Silva. 3 ed. Porto Alegre: Sulina, 2005. _________________. Elogio da razão sensível. Tradução de Albert Christophe Migueis Stuckenbruck. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998. MORIN, Edgar. O método 6: ética. Tradução de Juremir Machado Silva. Porto Alegre: Sulina, 2005.