A RESPONSABILIDADE ENUNCIATIVA EM ARTIGOS CIENTÍFICOS DE
ESTUDANTES DE LETRAS
Emiliana Souza Soares Fernandes (PPGEL/UFRN)
[email protected]
Maria das Graças Soares Rodrigues (PPGEL/UFRN)
[email protected]
Introdução
Esta pesquisa insere-se nos estudos da Análise Textual dos Discursos (ATD),
elaborada pelo linguista J-M Adam e desenvolvida, atualmente, por estudiosos no
contexto da linguística do texto brasileira. A ATD constitui uma perspectiva teórica e
descritiva do campo da Linguística Textual que se preocupa em com um
posicionamento teórico e metodológico o qual situa a Linguística Textual no quadro
mais amplo da Análise do Discurso. Neste estudo, investigamos no nível enunciativo do
texto a responsabilidade enunciativa (ADAM, 2008, 2010) em 14 exemplares do gênero
acadêmico artigo científico, publicados na Revista Ao Pé da Letra e escritos por
estudantes universitários da Graduação de Letras. A pesquisa é orientada a partir dos
estudos sobre responsabilidade enunciativa de Adam (2008, 2010), Rabatel (2009),
Rodrigues (2010), Guentchéva (1994), perspectiva da heterogeneidade discursiva de
Authier-Revuz (2004), da abordagem de gênero desenvolvida por Bakhtin (1992).. Foi
estabelecido como objetivo geral: (1) Analisar a ocorrência da (não) assunção da
responsabilidade enunciativa no gênero acadêmico artigo científico. A análise seguiu o
paradigma qualitativo de base interpretativista.
Para a apresentação da pesquisa, este artigo encontra-se dividido em quatro
seções. A primeira seção apresenta a fundamentação teórica do trabalho, com os
conceitos teóricos que embasaram a investigação. A segunda parte registra a
metodologia do trabalho, apresentando o contexto de realização da pesquisa e as
categorias que nortearam a análise, selecionadas a partir dos estudos propostos por
Adam (2008), Guentchéva (1994), Rabatel (2009, 2010) e Authier-Revuz (2004). Na
terceira seção apresenta a análise e a discussão dos dados levantados. Finalmente, na
última parte, são feitas considerações que visam a sintetizar os resultados alcançados.
A escolha do tema baseou-se no fato de a responsabilidade enunciativa ser um
fenômeno linguístico ainda pouco estudado no que diz respeito ao gênero discursivo
acadêmico artigo científico. Gênero por excelência fonte de disseminação da produção
do conhecimento, daí nosso interesse em identificar, descrever, analisar e interpretar
como se materializa a responsabilidade enunciativa na circulação do discurso científico.
O artigo acadêmico também chamado de artigo científico é um gênero bastante usado
na divulgação de pesquisas e no desenvolvimento do estado da arte de diversas áreas
que compõem o que comumente chama-se de “academia”.
1 METODOLOGIA
Nesta seção, relataremos como realizamos nossa pesquisa, começando por
delinear uma caracterização do nosso paradigma metodológico, bem como a
contextualização do corpus, apresentando a delimitação do corpus a partir dos
procedimentos de seleção e também as categorias de análise.
Esta pesquisa seguiu a abordagem qualitativa de natureza interpretativista e
caracteriza-se como documental. Nesta direção, a nossa abordagem metodológica é
1
qualitativa, uma vez que tal perspectiva tem a interpretação como foco. Neste sentido,
Anselm e Corbin (2008, p. 23) postulam que esse tipo de pesquisa “produz resultados
não alcançados através de procedimentos estatísticos ou de outros meios de
quantificação”. A pesquisa qualitativa tem como procedimentos a análise de textos e
utiliza-se de diversas estratégias de investigação.
Nossa pesquisa é considerada como análise documental, por que seguimos o
direcionamento teórico de Philips (1974, p. 187 apud LUDKE E ANDRÉ, 1986, p. 38)
que trata da seguinte maneira: “[...] documentos quaisquer materiais escritos que
possam ser usados como fonte de informação [...]”. Neles incluem os discursos, normas,
pareceres, cartas, memorandos, revistas etc. Ademais, seguimos Guba e Lincoln (1981,
s/p apud LUDKE & ANDRÉ, 1986, p.39) que tratam os documentos como uma fonte
estável e rica. Resistindo ao passar do tempo, os documentos podem ser concultados por
diversas vezes e servir de base para outros estudos acadêmicos.
Tomando como base a definição de Holsti (1969), de Philips (1974) e Ludke e
André (1986) vale considerar que a escolha dos documentos não é aleatória, por isso,
iremos descrever nossos procedimentos de escolha da fonte do corpus de pesquisa e
também os procedimentos de coleta, armazenamento e delimitação do corpus.
1.2.1 Fonte do corpus da pesquisa
O corpus analisado, nesta dissertação, constitui-se de 14 artigos científicos
publicados na revista Ao Pé da Letra, disponibilizada na versão virtual e impressa. Tal
revista foi criada em 1998 pelo Departamento de Letras da Universidade Federal do
Pernambuco e tem publicações semestrais com artigos sobre diversos campos do
conhecimento. Esse periódico acadêmico publica artigos elaborados por alunos da
graduação de Letras com ênfase na produção científica do campo do estudo da
linguagem. A referida revista possui como objetivos: (i) estimular e valorizar a escrita
acadêmica dos futuros professores e pesquisadores na área de Letras, (ii) legitimar a
escrita acadêmica em línguas materna e estrangeira e (iii) divulgar as pesquisas
realizadas em diferentes instituições de ensino superior no Brasil, possibilitando o
intercâmbio entre alunos e professores de graduação.
A escolha desse periódico se deve ao fato de ele privilegiar a produção
acadêmica de alunos de Letras, valorizar a iniciação científica, reconhece, pois, a
relevância do ensino conectado à pesquisa, em outras palavras, preconiza o
envolvimento do aluno em pesquisa, desde a graduação, como forma de despertá-lo para
a responsabilidade de cidadão, na condição de alguém que vai se consagrar ao ensino,
mas também que está apto a gerar conhecimento.
1.2.2 Procedimentos e categorias de análise
Conforme foi exposto na introdução, nosso propósito, neste trabalho, é
identificar, descrever, analisar e interpretar como se materializa a responsabilidade
enunciativa na circulação do discurso científico. Para fazer a análise dos textos,
adotamos os seguintes procedimentos:
a)
Leitura dos artigos científicos coletados, destacando os
enunciados nos quais se materializam a responsabilidade enunciativa;
b) Análise interpretativa dos textos, mostrando as estruturas e
estratégias linguísticas que marcam a (não) assunção da responsabilidade
enunciativa;
2
c)
Análise interpretativa de cada excerto, observando o grau
de responsabilidade enunciativa do produtor do artigo com o enunciado;
d) Identificação de Ponto de Vista assumido pelo acadêmico
produtor do artigo;
e)
Identificação e análise de aspectos lingüístico-textuais e
discursivos que apresentam PdV Anônimo ou creditado a uma fonte do
saber (mediação epistêmica) ou de percepção (mediação perceptiva).
2
GÊNEROS DISCURSIVOS
As pesquisas referentes ao gênero discursivo tiveram um grande crescimento nos últimos
anos, incluindo muitas áreas de estudos, tais como a Etnografia, a Linguística, a Linguística
Aplicada etc., contudo, investigações que tratam do gênero não são tão atuais. É preciso
destacar que os trabalhos de pesquisas sistemáticas dos gêneros iniciou-se com Platão e firmouse com o filósofo Aristóteles.
Na contemporaneidade, variadas são as concepções teóricas que abordam sobre o
gênero discursivo e inúmeras são as possibilidades de abordá-las. Dessa forma,
destacaremos a perspectiva bakhtiniana, pois, em nosso ponto de vista, justificará
nossos objetivos e direcionamentos de nosso quadro teórico, razão pela qual as
discutiremos nesta seção.
Para Bakhtin (1992), a utilização da língua pelos falantes é feita por meio de
enunciados orais ou escritos, concretos e únicos, que atendam a condições e finalidades
específicas que estão ligadas à temática, composição e estilo. Consoante esse autor
(1992), há três dimensões essenciais e indissociáveis dos gêneros do discurso: tema,
forma composicional e estilo. O tema define-se como o assunto que vai tratar o
enunciado em questão, a mensagem transmitida; já a forma composicional alude à
estrutura formal propriamente dita; e, por fim, o estilo leva em conta questões
individuais de seleção e de opção: vocabulário, estruturas frasais e preferências
gramaticais. Para tanto, os enunciados pertencem a determinada esfera da atividade
humana; são devidamente localizados em um tempo e espaço (condição sócio-histórica)
e dependem de um conjunto de participantes, suas vontades enunciativas ou intenções.
O gênero discursivo é um dispositivo de linguagem instituído sóciohistoricamente e, para figurar com as palavras do autor, “cada campo de utilização da
língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciado, os quais denominam
gêneros do discurso” (BAKHTIN, 2003, p. 262). [grifos nossos]
No seu artigo intitulado Os gêneros do discurso, Bakhtin (2003) afirma que,
para definir os gêneros do discurso, é preciso destacar as esferas da atividade humana
(tais como a jurídica, a política, a familiar, a acadêmica etc). Considera, ainda, a noção
de gênero, postulando que cada esfera de atividade humana reflete finalidades e
condições específicas que determinam a geração do enunciado.
Nessa direção, os gêneros discursivos são divididos em duas categorias:
primários e secundários. Os gêneros primários são textos da comunicação verbal
“espontânea”, simples, como por exemplo, diálogos orais. Já os gêneros secundários são
textos mais complexos, como teses, dissertações monografias etc.
O artigo científico utilizado como corpus desta pesquisa enquadra-se na
categoria bakhtiniana gênero secundário, pois é um gênero que aborda questões
científicas e complexas de determinadas áreas do conhecimento.
3
2.1 GÊNERO ACADÊMICO ARTIGO CIENTÍFICO: DEFINIÇÃO E
CARACTERIZAÇÃO
Atualmente, a publicação de artigos científicos tem apresentado elevado
crescimento no Brasil e no mundo. (Cf. SANCHES, 2009). De acordo com Teixeira
(2005 apud SANCHES, 2009), esse crescimento está ligado à relevância do gênero para
o progresso da Ciência ao constituir um dos principais meios de disseminação do
conhecimento entre estudiosos, colaborando sobremaneira para o efetivo
desenvolvimento do conhecimento científico. Ao encontro dessa perspectiva MottaRoth e Hendges (2010) consideram esse gênero textual um dos mais conceituados na
divulgação do saber especializado e é um documento escrito por um ou mais
pesquisadores.
A ABNT 6022 (2003, p.2), de maneira concisa, define o artigo científico como
“parte de uma publicação com autoria declarada, que apresenta e discute idéias,
métodos, técnicas, processos e resultados nas diversas áreas do conhecimento”, sendo
constituído por elementos pré-textuais, textuais e pós-textuais.
Para Motta-Roth e Hendges (2010), publicam-se artigos almejando divulgar,
discutir ou apresentar dados concernentes a um projeto de pesquisa experimental sobre
um problema específico (artigo experimental) ou mostrar uma revisão dos livros e
artigos publicados anteriormente sobre o tópico pesquisado (artigo de revisão dentro de
uma área determinada). Os artigos podem ser classificados em três tipos, a saber: (1)
artigo de revisão teórica que consiste na realização de um levantamento da literatura
publicada sobre o tema em questão; (2) o artigo experimental que consiste no tipo de
artigo que relata um experimento a fim de testar determinada hipótese e por fim os
artigos empíricos que são definidos como textos em que o autor ou autores não
relata(m) uma pesquisa elaborada em um ambiente experimental controlado, todavia,
direcionam para a observação direta dos fenômenos, de acordo com o notado durante a
experiência.
Observamos que os manuais de metodologia apresentam para o artigo a seguinte
estrutura:
1.Título
2. Autor (es)
3. Epígrafe (facultativa)
4. Resumo e Abstract
5. Palavras-chave;
6. Conteúdo/ desenvolvimento textual: Introdução, revisão de literatura,
metodologia e conclusão),
7. Referências.
O abstract resume as informações do texto mais longo do artigo científico,
possibilitando que os leitores dos artigos possam ter acesso mais rápido ao conteúdo que
é veiculado no texto, melhor dizendo, o abstract é um texto rápido que é considerado a
essência do artigo. Essa parte do artigo mostra o conteúdo e a estrutura do trabalho que
resume
Na parte introdutória do artigo acadêmico, o autor na maioria das vezes, indica a
relevância do tema, revisa itens de estudos prévios e faz generalizações sobre o assunto
tratado no referido gênero. Como também explicita a necessidade de se pesquisar mais
sobre o assunto.
4
Na seção do desenvolvimento do artigo, especificamente, na parte da revisão da
literatura, tem-se a exposição e uma discussão das teorias que foram utilizadas para
entender e esclarecer o problema, ou seja, revisa-se a literatura ao fazer referência aos
estudos prévios, situando o trabalho, pois ao citar uma série de estudos que servirão
como a base para a pesquisa, o autor estará afunilando a discussão até alcançar o tópico
específico que irá se investigar, haja vista que a contextualização do estudo reportado
dentro de uma grande área é importante tanto no processo da atividade de pesquisa
quanto no de redação do artigo, uma vez que possibilita a delimitação dos estudos
seminais para a construção do trabalho. Nessa parte, consta uma revisão de literatura na
qual tece a respeito das contribuições teóricas a respeito do assunto abordado. Além
disso, o produtor do artigo apresenta o percurso metodológico do estudo elucidado no
artigo.
Na seção de metodologia no artigo acadêmico apresenta-se os materiais e os
métodos a serem adotados na pesquisa, tendo como objetivo narrar os procedimentos de
coleta e análise dos dados e descrever os materiais que direcionam à obtenção de
resultados que dependerá do objeto de estudo. Após isso, mostra-se a análise e
discussões dos resultados.
Na análise e discussão dos resultados de pesquisa, os dados obtidos são
apresentados, comentados, interpretados e discutidos. Por fim, na conclusão do artigo
são relacionadas às diversas idéias desenvolvidas ao longo da pesquisa, por meio de um
processo de síntese dos principais resultados, com reflexões do autor e as contribuições
que a pesquisa poderá proporcionar para a Ciência. Vale ainda destacar que a conclusão
é um fechamento do trabalho estudado, respondendo às hipóteses enunciadas e aos
objetivos do estudo, apresentados na seção da introdução. Na última parte do artigo, tem
as referências que são um conjunto de elementos que permitem a identificação da
listagem dos livros, artigos e outros elementos de autores efetivamente utilizados e
referenciados ao longo do artigo.
Nesse sentido, concluímos que o artigo científico é um construto enunciativo
constituído de reflexões teóricas, análises comparativas, inscrito na esfera do discurso
acadêmico e tem caráter técnico, científico ou cultural, objetiva a rápida divulgação de
determinado assunto, estando sujeito a normas editoriais e os estilos de formatação
variam de um periódico para outro.
3
A RESPONSABILIDADE ENUNCIATIVA
Apenas o Adão mítico que chegou com a primeira palavra num mundo virgem,
ainda não desacreditado, somente este Adão podia realmente evitar por completo esta mútua orientação dialógica do
discurso alheio para o objeto. (Bakhtin)
Pesquisas que abordam sobre o fenômeno linguístico responsabilidade
enunciativa ainda não atingiram um grau de difusão correspondente à relevância do
assunto para os estudos linguísticos. É preciso destacar que compreender os
mecanismos e as estratégias do enunciador para eximir-se da responsabilidade pelo que
enuncia, ou mesmo atribuir a si mesmo, quando lhe é conveniente é, certamente, um
meio de construção da textualidade.
No âmbito teórico de estudos da Linguística brasileira, alguns trabalhos sobre
esse tema são desenvolvidos na UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte
- por Rodrigues (2010) e seu grupo de pesquisa, predominantemente, em corpus
constituído por gêneros acadêmicos e do discurso político.
5
Vale considerar que a noção de responsabilidade enunciativa não é consensual
para os autores que se dedicam a estudá-la. De acordo com a afirmação da citação:
Para Culioli (1971, p.4031) “toda enunciação supõe responsabilidade
enunciativa do enunciado por um enunciador”, ou seja, assenta-se no critério
da asserção. No entanto, para Nolke, Flottum e Norén (2004), os proponentes
da Teoria escandinava da Polifonia Linguística – ScaPoline – , assumir a
responsabilidade enunciativa é ser fonte do enunciado, é estar na origem, é
assumir a paternidade. Para Rabatel (2008, p.21), “o sujeito responsável pela
referenciação do objeto exprime seu PdV tanto diretamente, por comentários
explícitos, como indiretamente, pela referenciação, ou seja, através de
seleção, combinação, atualização do material linguístico”. ( p.153, apud
SOARES, 2010)
A responsabilidade enunciativa é um dos níveis propostos por Adam (2008, p.
61) para análise textual de discursos. Neste trabalho, ela é concebida, conforme o
referido autor, como sendo a (não) assunção ou a atribuição do que é veiculado nos
textos pelo locutor através do(s) ponto(s) de vista (doravante PdV), ou seja, é o PdV do
autor de um texto no que concerne ao que está sendo enunciado, ou, diferentemente, é
quando o autor de um texto credita essa responsabilidade a outrem.
Nesse sentido, a responsabilidade enunciativa que pode ser individual ou
coletiva é compreendida como a (não) assunção por determinadas entidades ou
instâncias acerca do que é enunciado, ou na atribuição de alguns enunciados a certas
instâncias.·.
Convém assinalar que a responsabilidade enunciativa é individual quando um
locutor-narrador assume o(s) enunciado(s). Vale mencionar também que a
responsabilidade enunciativa é coletiva quando o produtor de um texto ou um grupo de
indivíduos assume, por exemplo, os problemas de uma comunidade.
Vale salientar que a assunção ou a atribuição da responsabilidade enunciativa
pelo locutor é possível por meio de PdV do enunciador, que conforme lhe seja
conveniente poderá assumi-lo ou não, todavia, atribuí-lo a outra fonte do saber ou
apresentar, discursivamente, um ponto de vista anônimo ou se distanciar do que está
sendo veiculado, como no caso do uso da figura de linguagem ironia, entre outras
possibilidades.
Quadro 1
PdV (Adam (2008) pode
ser:
Assumido pelo locutor
narrador;
Anônimo;
Creditado a uma fonte do
saber (mediação epistêmica) ou
de percepção (mediação
perceptiva).
.
Vale considerar que Adam (2008) não faz distinção quando se refere à
responsabilidade enunciativa e ao ponto de vista. Para esse autor, a mediação epistêmica
é quando uma zona textual depende de uma zona do saber. No que concerne à mediação
perceptiva, conforme o autor é quando “repousa numa focalização perceptiva (ver,
6
ouvir, sentir etc). Já o PdV anônimo consideramos quando é materializado pela presença
de formas verbais na terceira pessoa do singular.
Para Adam (2008, p.115), “muito frequentemente, esses PdVs são assinalados
por introdutores como segundo, de acordo com, para;” mas também [com introdutores
mais específicos como] indicadores metonímicos e tipo no Partido Socialista etc, além
de marcadores de quadros mediadores ou de fontes do saber (ADAM, 2008, p. 187),
como por exemplo, o pronome indefinido alguns em determinadas proposições.
Portanto, segundo Adam (2008, p. 117), “o grau de responsabilidade enunciativa
de uma proposição é suscetível de ser marcado por um grande número de unidades da
língua. Sem detalhá-las aqui, é preciso pelo menos, enumerar as grandes categorias, a
seguir, que expandem a descrição do que Benveniste (1974, p. 79-88) chamava de
‘aparelho formal de enunciação’.”
Adam (2008, p. 117-120) propõe algumas categorias de análise, como por
exemplo: (1) índices de pessoas: pronomes e os possessivos marcadores de pessoa; (2)
tempos verbais: que são os diversos tipos de localização relativamente à posição do
enunciador e dividem-se em vários planos de enunciação; (3) os diferentes tipos de
representação da fala das pessoas ou dos personagens (discurso direto, discurso indireto
e indireto livre); (4) as indicações de quadro mediadores: consistem em conjunções
adverbiais como segundo, de acordo com, para; modalização por um tempo verbal e
escolha de um verbo de atribuição de fala, como afirmam, parece; reformulações do tipo
na verdade; oposição do tipo alguns pensam; (5) fenômenos de modalização
autonímica: presença de aspas etc.
A noção do mediativo (GUETCHÉVA, 1994) é de suma relevância para a discussão
empreendida por Adam (2008), no que se refere à responsabilidade enunciativa, no
âmbito da ATD. Essa noção permite materializar, de maneira explícita, quando o
enunciador não é a primeira fonte da informação. E quando ele não assume a
responsabilidade pelo conteúdo veiculado no texto. Nessa perspectiva, o enunciador não
assume nenhuma garantia pelos conteúdos reportados. O enunciado não se constitui,
pois, uma afirmação do discurso citante, que não se compromete com afirmações
referenciais. Então, a categoria do mediativo se caracteriza pelo fato do “enunciador não
assumir a responsabilidade pelo conteúdo que ele enuncia, estabelecendo uma distância
entre ele e os fatos reportados.” (apud SOARES, 2010, p.142).
É importante também tratar das perspectivas do estudo do PDV (ponto de vista) e
RE (responsabilidade enunciativa) postulada por Rabatel (2009).
O PDV se define a partir de meios linguísticos através dos quais um
sujeito visa um objeto, em todos os sentidos do verbo visar, seja esses
sujeito singular ou coletivo. Quando ao objeto, ele pode corresponder
s um objeto concreto, mas também a um personagem, a uma situação,
a uma noção ou a um acontecimento, uma vez que em todos os casos
se trata de objeto do discurso. (apud PASSEGGI et al, 2010, p.306).
Rabatel (2009, p.85) trata da noção de “quase-PEC” para os enunciadores segundos,
que se pode imputar um PDV, mesmo que eles não tenham enunciado nada. Nesta
direção, tal autor se distancia de Ducrot (1984), pois para esse autor, assumir a
responsabilidade enunciativa é falar, é dizer.
Para os estudiosos da Scapoline, “X é responsável por pdv se e somente se X é a
fonte de PDV” (Nolke 2001,51), então,“ser fonte de um ponto de vista” equivale a “ter
esse ponto de vista” . Nesta direção,“os pontos de vista (abreviado em PDV) são
entidades semânticas portadoras de uma fonte que é dita ter o PDV. As fontes são
variáveis” (Nolke 2001:31, nosso itálicos). Com outras palavras, para o Scapoline ser
7
responsável de PDV significa ao mesmo tempo "ser fonte de pdv” e "ser agente de um
julgamento particular”.Assim, “ser responsável” implica ter um pdv, porque todo pdv
tem, entre seus componentes, uma fonte e “ser responsável” é ser fonte.
3.1 HETEROGENEIDADE DISCURSIVA DA LINGUAGEM
Nesta seção, trataremos da heterogeneidade da linguagem. Esse conceito é
importante, pois nos auxilia no esclarecimento do assunto de que trataremos no que
concerne à referência ao discurso do outro.
O conceito de heterogeneidade enunciativa é concebida, aqui, como um meio de
identificarmos a presença do outro no discurso. Authier-Revuz (2004) classifica a
heterogeneidade em dois tipos: a constitutiva e a mostrada (marcada e não marcada).
Vale observar que para explanar sobre a heterogeneidade constitutiva, inerente à
linguagem, Authier-Revuz (2004, p. 48) recorre aos estudos d psicanálise, a partir da
concepção de um sujeito do inconsciente, fundamentando-se em Lacan, que teve por
base os estudos de Freud, para quem o sujeito é marcado pelas manifestações do
inconsciente.
A noção de heterogeneidade constitutiva é condição sem a qual não há discurso.
Esse tipo de heterogeneidade não é evidenciada por marcas lingüísticas explícitas, mas é
amparada pelos pressupostos psicanalíticos do discurso atravessado pelo inconsciente e
pelo interdiscurso. Para essa autora, a heterogeneidade constitutiva é condição de todo e
qualquer discurso, visto que o discurso só se constitui numa relação de alteridade, ou
seja, na e pela presença do Outro, conforme a citação da supracitada autora:
Todo discurso se mostra constitutivamente atravessado pelos ‘outros
discursos’ e pelo ‘discurso do Outro’. O outro não é um objeto
(exterior, do qual se fala), mas uma condição (constitutiva, para que se
fala) do discurso de um sujeito falante que não é fonte-primeira desse
discurso (AUTHIER-REVUZ, 2004, p.69).
De acordo com os estudos de Authier-Revuz (2004) observamos que a
heterogeneidade mostrada se liga com a constitutiva e pode ser demarcada no fio
discursivo através da interdiscursividade que todo discurso mantém com outros
discursos, nos quais a presença do outro pode ser identificada por meio da análise, isto
é, “no fio do discurso que, real e materialmente, um locutor ‘único’ produz, um certo
número de formas, linguisticamente detectáveis no nível da frase ou do discurso,
inscrevem, em sua linearidade, ‘o outro’(AUTHIER-REVUZ, 2004, p.12).
Consoante essa autora, a presença da heterogeneidade mostrada pode ser
identificada de duas maneiras. Em alguns enunciados percebe-se, claramente, a
presença do outro. Nesses enunciados, a heterogeneidade da linguagem, inerente a todo
discurso, manifesta-se através de marcas linguísticas explícitas, caracterizando, assim, a
heterogeneidade mostrada marcada. Tais marcas se materializam, por exemplo, no
discurso relatado, através do qual o enunciador transpõe as palavras de outrem.
Podemos constatar isso por meio da presença do uso do discurso direto, em que as
palavras do outro são transpostas para o discurso próprio, utilizando-se para isso, de
recursos com que assinala essa operação, podendo ser através de aspas, itálico, glosas,
entonações específicas ou podendo recorrer, ainda, ao discurso indireto.
É importante considerar que as aspas são operações de distanciamento e constituemse como um sinal que deve ser decifrado pelo interlocutor. No que concerne à sua
função, podem desempenhar várias, tais como: diferenciação, para mostrar que o
enunciador se coloca além desses enunciados, irredutível às palavras empregadas;
8
condescendência; pedagógicas, usadas na vulgarização; proteção, para indicar que a
palavra utilizada é apenas aproximativa; ênfase etc. (cf. AUTHIER-REVUZ, 2004).
No que tange à heterogeneidade mostrada não-marcada, podemos definir como a
ausência de marcas linguísticas visíveis nos enunciados. Tais marcas se manifestam por
meio da imitação, da ironia, do pastiche, do jogo de palavras ou no discurso indireto
livre etc.
Podemos concluir que a heterogeneidade mostrada, que se apresenta por marcas
linguísticas explícitas da presença do “outro” no discurso. A heterogeneidade mostrada
marcada funciona através de um discurso relatado, em que o enunciador ou usa suas
próprias palavras para transmitir o discurso do outro (discurso indireto), ou recorta as
palavras do outro e as cita (discurso direto), assinalando estas palavras no seu discurso
através de “operações locais explícitas” (Authier-Revuz, 2004). A heterogeneidade
marcada busca estabelecer uma distância entre o locutor e o seu objeto, é a que inscreve
o outro nos discursos através de “formas fixas” como as aspas, o itálico, o comentário e
a glosa, ou por meio de manifestações linguísticas do discurso direto e indireto.
4
ANÁLISE E DISCUSSÕES DOS DADOS
Apresentamos abaixo os excertos que analisaremos. Destacamos que os grifos dos excertos
foram feitos para dar mais visibilidade aos dados analisados.
Excerto1 A1
Os teóricos da enunciação praticam os seus questionamentos e elaboram os seus conceitos em
níveis bastante distintos. Uns se preocupam com ocorrências meramente lingüísticas, enquanto
outros adentram em perspectivas ideológicas inseparáveis do fenômeno da linguagem. (A1,
p.59)
No primeiro excerto do A1, observamos que o produtor do artigo faz uso da
expressão “os teóricos da enunciação”, para atribuir o conteúdo a uma outra fonte do
saber que nesse caso é um grupo de estudiosos da Linguística da Enunciação. Dessa
maneira, o produtor do artigo não assume a responsabilidade pelo conteúdo enunciado,
promovendo, assim, uma distância entre ele e o conteúdo apresentado, mostrando,
assim, a ocorrência da mediação epistêmica, ou seja, a remissão a outras fontes do
saber.
Excerto 2 – A1
Exemplo de PdV: mediação epistêmica
Segundo Bakhtin (1934:73), “o romance, tomado como conjunto, caracteriza-se como um
fenômeno pluriestilístico, plurilíngüe e plurivocal”. Ele afirma que a estilística tradicional falha
quando tenta associar o estilo às habilidades lingüísticas do escritor, pois a incidência de
múltiplas vozes, línguas e discursos, requer leis estilísticas distintas, para que sejam constatados
os diversos estilos processados na pluralidade do discurso romanesco. (A1, p. 60)
No excerto 2 de A1, constatamos que o aluno faz recorrência ao uso do conector
segundo, para introduzir a citação de Bakhtin atribuindo o conteúdo veiculado a
responsabilidade do autor Bakhtin. Além disso, o produtor do artigo faz uso das aspas,
marcando ainda mais um distanciamento do que é dito e de uma certa forma utilizando
9
o nome de Bakhtin introduzido pelo conector de conformidade como uma modalidade
de discurso de autoridade e para relacionar o texto escrito com as leituras realizadas
para elaborar seu artigo.
Verificamos que, no excerto 2, ocorre a não assunção do locutor que podemos
classificar como um PdV creditado a uma outra fonte do saber (mediação epistêmica).
Percebemos que, no excerto acima exposto, tem a presença da heterogeneidade
mostrada (marcada) através do uso das aspas, do conector segundo e do verbo dicendi
afirma.
Se analisarmos A2 a partir dos apontamentos feitos por Adam (2008) sobre a
responsabilidade enunciativa, percebemos que o conector e as aspas utilizadas foram
utilizadas para marcar o discurso do outro e apontam para um distanciamento do
enunciador no que concerne à responsabilidade enunciativa pelo conteúdo do
enunciado. Quando o produtor do artigo, utiliza em seu texto uma citação da obra de
Bakhtin, podemos dizer que a responsabilidade pelo dizer recai diretamente sobre o
autor citado, no exemplo Bakhtin, e não no produtor do artigo que utilizou os estudos
bakhtinianos para fundamentar seu trabalho de pesquisa.
No excerto a seguir, o autor assume a responsabilidade pelo conteúdo enunciado,
quando utiliza o verbo na terceira pessoa do plural:
Excerto 3 – A2
No tocante à leitura em voz alta, observamos que prevaleceu a tentativa de decodificação de
signos lingüísticos, já que os alunos possuíam dificuldades freqüentes em ler as palavras
desconhecidas. Uma minoria apresentou leitura fluente, no seu aspecto seqüencial e de
pontuação. (A2, p. 83)
O excerto 3 mostra um enunciador comprometido com o conteúdo veiculado e o
relato apresentado, um enunciador que assume a responsabilidade pelo dizer.
PALAVRAS FINAIS
Nossas considerações focalizaram a (não) assunção da responsabilidade
enunciativa no gênero acadêmico artigo científico publicados em um periódico
destinado aos alunos do curso de Letras. Os fragmentos apresentados para exemplificar
as noções teóricas elucidadas mostraram que existe um distanciamento do enunciador
em relação ao conteúdo veiculado pelo enunciado.
É válido salientar que a escrita de gêneros acadêmicos implica a necessidade de
leituras de referencial teórico anteriores para embasar a pesquisa, muitas vezes, usadas
como recurso de autoridade. Assim, a análise revela uma natureza própria da escrita
acadêmica que faz uso de recursos linguísticos que muitas vezes podem marcar a (não)
assunção do locutor pelo que é dito.
Observamos que na parte do artigo destinada às discussões do referencial teórico
o enunciador recorre a outras vozes, apresentando-as, preferencialmente através de
diferentes modos de citação discurso alheio, marcando sua adesão muitas vezes a esses
discursos. As marcas preferenciais de introdução desses discursos e delimitação das
vozes foram a recorrência ao uso do conector de conformidade: segundo, o uso do verbo
dicendi e utilização das aspas. Constatamos que o produtor do artigo se apropria do
discurso alheio, usando-o como argumento de autoridade para marcar sua linha
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argumentativa e teórica. Mas, apresenta através das aspas um distanciamento ao
discurso citado.
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Emiliana Souza Soares Fernandes