A HIGIENE NAS PÁGINAS DA REVISTA DE ENSINO Marisa da Silva Cunha Universidade Estadual de Campinas, Campinas - SP - Brasil. E-mail: [email protected] Palavras-chave: Higiene – Revista de Ensino – Impresso Pedagógico No início do século XX, São Paulo viu surgir uma Associação que tinha como objetivo congregar os professores em uma categoria para defender interesses em comum, orientá-los pedagogicamente e oferecer serviços assistenciais. Formados pela Escola Normal de São Paulo, um grupo de profissionais fundou a Associação Beneficente do Professorado Público de São Paulo em 27 de janeiro de 1901. Essa Associação criou um periódico para divulgar os métodos e processos de ensino, consubstanciando uma orientação destinada aos professores e ao governo em relação à legislação da instrução pública. O periódico, Revista de Ensino, foi eleito como fonte de pesquisa para este estudo, por ser utilizado como estratégia para a constituição do campo pedagógico, criando um espaço de diálogos e disputas educacionais, ao trazer para as suas páginas as preocupações dos integrantes da diretoria da agremiação, no que diz respeito à orientação pedagógica destinada ao professorado em geral e à congregação dos professores em uma categoria profissional. A temática da higiene, objeto desse estudo, fez parte dessas preocupações e orientações direcionadas aos professores das escolas primárias. O objetivo desta comunicação é procurar compreender como a higiene figurou em um periódico pedagógico de grande circulação no Estado de São Paulo no início do século XX, e os vínculos que foram engendrados entre a higiene e outras questões que foram surgindo no ambiente escolar, utilizando como metodologia a análise do discurso dos articulistas. Para se compreender a importância da questão da higiene nas escolas, faz-se importante avaliar que a preocupação com a temática surgiu no espaço escolar e urbano no Estado de São Paulo nos finais do século XIX, tendo em vista os problemas de saneamento advindos da elevação da cidade de São Paulo à condição de um centro de poder, relacionado ao desenvolvimento da cafeicultura e ao extraordinário crescimento populacional. Com o desenvolvimento do setor cafeeiro, a cidade de São Paulo transformou-se em uma metrópole, com um aumento populacional desordenado, atraindo fazendeiros e comerciantes abastados que fugiam das epidemias das cidades do interior, negros fugidos do cativeiro, proliferação de casas comerciais, armazéns, escritórios, indústrias, fixação de imigrantes europeus e de pessoas de outras regiões brasileiras, originando bairros desarticulados, com ruas estreitas, sem ligação entre si, aumentando os problemas com urbanismo, transporte e salubridade (BRUNO, 1983). Segundo Decca (1989) a partir de 1870 o Estado de São Paulo assistiu ao aparecimento embrionário de um operariado urbano-industrial. As indústrias eram as mais variadas, como a do setor têxtil, alimentício, vestuário, material de construção, móveis e o setor metalúrgico. Também havia o empresariado de pequeno porte, como sapatarias, marcenarias e pequenas fábricas fomentando o comércio necessário e imprescindível para uma urbe. O empresariado industrial paulista crescia em proporção inversa aos salários, criando um “pauperismo urbano” na Capital, com padrões precários de consumo, e deflagrando greves. Havia um reduzido poder aquisitivo, verificável não só através da manutenção de padrões alimentares deficientes e inadequados, mas também na baixa qualidade habitacional, precários níveis de saúde e higiene, exíguo e modesto vestuário, pequena possibilidade de instrução, escasso tempo de lazer (DECCA, 1989, p.14). A população carente e operária vivia em construções modestas, miseráveis, sem conforto e sem condições de higiene em bairros proletários. Eram casas construídas próximas à estação ferroviária para facilitar o transporte até as indústrias, geralmente em terrenos de várzea mal aterrados formados no contorno do centro da cidade. Eram comuns as habitações muitas vezes serem transformadas em cortiços, padecendo de salubridade. No Estado de São Paulo a saúde pública era regulamentada pelas Posturas Municipais de 1875, com normas sanitárias vagas para as cidades, como a remoção de lixo das ruas. Não havia estatísticas do movimento da população e da ocorrência de doenças, só a partir do avanço de epidemias de febre amarela nas regiões agrícolas, ameaçando a economia da expansão cafeeira e a imigração em massa, é que se organizou e estruturou o Serviço Sanitário no Estado de São Paulo. Criado pela Lei nº. 43 de 18.06.1892 e ficando subordinado à Secretaria do Estado do Interior, foi composto por um Conselho de Saúde Pública, responsável pelos pareceres sobre a higiene e salubridade pública; e uma Diretoria de Higiene, a quem competia estudar as questões de saúde pública, o saneamento das localidades e das habitações, adotar meios de prevenção e combate às moléstias transmissíveis, endêmicas e epidêmicas. A inspeção de escolas fazia parte do policiamento sanitário de responsabilidade da Diretoria de Higiene (RIBEIRO, 1993). A contribuição da medicina se tornou fundamental para combater as epidemias que grassavam na época e, para tanto, “cresceu o papel da higiene na prevenção das doenças e, naturalmente à educação atribui-se uma participação relevante no cuidado com a saúde da população urbana” (BRUZZO, 1989, p.3). Em 1894 foi promulgado o primeiro Código Sanitário do Estado, contendo 520 artigos com normas de higiene e saúde pública regulamentando o espaço público e privado. Este decreto (...) ao estabelecer a fiscalização dos estabelecimentos, habitações e medidas de saneamento, retratava a preocupação do governo com a possibilidade de acometimento de doenças pela população. A escola, local de reunião de pessoas, além de apresentar essa possibilidade podia contribuir, “dada a vigilância continua em que podem ser mantidos os alunos e o próprio lar”, para controlar a disseminação de doenças. O decreto, ao referir-se às questões de higiene pertinentes à escola, abordava aspectos relativos aos prédios escolares do ponto de vista de sua construção, conservação higiênica das instalações, distribuição das horas dos trabalhos escolares e das salas de aula, mobiliário, iluminação, arejamento, profilaxia das doenças transmissíveis, exercícios físicos e orientações quanto aos hábitos de higiene. Entre os locais de aglomeração propícios à transmissão de moléstias estão os grupos escolares, espaços públicos que ao oferecerem um maior número de vagas, provocada pela urbanização, exigiu medidas sanitárias que “procuraram abarcar ao máximo as possibilidades de ordenação do espaço e das condições materiais presentes, embora nem sempre as determinações correspondessem à realidade das escolas públicas” (SILVA, 2001, p.31-32, grifos da Autora). A questão da higiene, além de estar regulamentada no Código Sanitário do Estado, também era tratada no currículo de formação de professores e no ensino primário, porém para Bruzzo (1989) a realidade das escolas estava longe do ideal proposto pela pedagogia, devido às condições precárias em que as mesmas se encontravam. Do ponto de vista da higiene, a garantia do asseio da escola, a boa iluminação e a ventilação adequada eram requisitos insuficientes para qualificar o ambiente escolar como saudável. Seriam necessárias novas regulamentações para higienizar o espaço escolar. Nesse sentido À escola, inserida numa rede de instituições, estava reservado o papel de formar crianças e jovens, futuros cidadãos, produzindo práticas individuais e coletivas, associadas aos propósitos de constituição de sujeitos ocupados com sua higiene e sua saúde, seja pela ruptura face aos hábitos perniciosos herdados da família, seja pela conservação de práticas salutares, acrescidas de novas formas de ser e de pensar, esboçadas pelos médicos a partir da ciência e dos ideais de civilização e urbanidade. (STEPHANOU, 2005, p.150) A escola deveria representar um ambiente saudável, limpo, higiênico, a servir de modelo para os alunos, devendo “transmitir a ideia de que o asseio não é incompatível com a pobreza, sendo importante a atitude rigorosa quando os alunos se apresentarem sujos ou despenteados, porém com o cuidado de não humilhá-los” (BRUZZO, 1989, p.6). Considerando que a criação da Revista de Ensino fazia parte do projeto da Associação com a finalidade de ter um órgão voltado aos interesses da instrução, defesa e orientação do professorado, e tendo em vista a questão premente da salubridade na sociedade paulistana, questiona-se como a higiene era tratada na revista? O que era publicado sobre esse tema? Quem eram os autores dos artigos? Baseados em quais conhecimentos esses artigos eram escritos? A higiene aparece vinculada a quais questões? No ano de 1907, a Revista de Ensino publica, com o título Hygiene Escolar, as providências adotadas na Escola Modelo, anexa à Escola Normal, em relação às moléstias contagiosas que grassavam no período, dentre elas: Febre: retirar a criança imediatamente da escola. Varíola: A criança deverá ser retirada, os livros destruídos e ser feita a desinfecção geral. Revacinar professores e alunos, devendo a criança doente retornar à escola depois de 40 dias. Escarlatina: Retirar os enfermos, destruir os seus livros e cadernos, fazer desinfecção geral, e fechar a escola por 40 dias caso apareçam muitos casos em poucos dias. Sarampão: Manter o enfermo afastado por 16 dias, destruir os seus livros e cadernos, e fechar as classes que tenham crianças menores de 6 anos. Catapora (varicella): Retirar sucessivamente os afetados. Parotedite (cachumba): Retirada sucessiva dos doentes, permanecendo afastados por 10 dias. Coqueluche (tosse comprida): Retirada sucessiva dos enfermos por um mês. Sarnas e empingens: Retiradas sucessivas, retornando depois do tratamento methodico. Diphteria: Retirada dos enfermos por 40 dias. Destruição de livros e outros objectos que possam ser contaminados. Desinfecções seguidas. (REVISTA DE ENSINO, anno VI, nº. 4, setembro de 1907, p.54-55) Em 1909 há um informe intitulado O pó das escolas, apresentado como última nota na seção Noticiário. Trata-se de uma transcrição da Revuei com uma recomendação feita pelo Dr. L. Caze, colaborador da Revista de Ensino, mencionando a existência de uma cruzada, na América, para debelar os vícios oriundos da limpeza dos móveis escolares a seco, que resulta em provocar a disseminação do pó, ao invés de extingui-lo. Menciona uma providência do Ministro da Instrução Públicaii recomendando a instalação urgente de aparelhos modernos de limpeza, modificações nas construções, ventiladores e aberturas para o ar, na tentativa de evitar possíveis problemas de saúde, visto que A varredura a secco das carteiras, em vez de tirar o desasseio, o distribue em partículas mais finas, que fluctuam no ar e descem a cada movel, para se alojar no pulmão da creança, quando a menor corrente de ar se produz a uma entrada qualquer. Chega a ser devéras surprehendente que não se contem mais tuberculosos entre a população escolar. (REVISTA DE ENSINO, anno VIII, nº 2, junho de 1909, p.71). Nos dois informes a preocupação com a higiene recai sobre a saúde da coletividade escolar. Providências para afastar o risco de contaminação tanto da doença que já se faz presente, quanto para a prevenção de doenças com a limpeza do ambiente. Medidas que implicam em abrandar o avanço dos males que se alastravam desde o final do século XIX, o que justifica a fiscalização e vigilância dos inspetores nas escolas. Para Bruzzo (1989), com uma população qualificada como ignorante, desleixada e irresponsável em relação aos cuidados higiênicos mínimos, cabia ao poder público, representado pelos inspetores sanitários, tomar medidas que pudessem garantir a salubridade do meio urbanoiii. Ainda nesse período existem dois textos de autoria do prof. Augusto Ribeiro de Carvalhoiv publicados na seção Questões Geraes, discutindo o tema da educação física. No primeiro, datado de fevereiro de 1903 e intitulado Decadencia physica e moral: como podemos combatel-a, o autor considera que o progresso da civilização e da instrução produz o depauperamento da raça, ao desenvolver as atividades mentais em detrimento das atividades físicas. Carvalho defende o equilíbrio entre essas duas atividades, alegando que no Brasil nunca se cogitou realizar uma “cultura physica”, em que se formasse o hábito de praticar exercícios físicos, sendo excessivo o zelo pela “cultura intellectual”. Alega que apesar dos esforços dos higienistas e psicólogos, defendendo o paralelismo entre as duas culturas, na escola são dados apenas os rudimentos da “hygiene muscular”, sendo necessário propagar as bases da “hygiene activa”, entendida como exercícios ativos nos quais se combateriam na criança a inércia física e a preguiça mental. O autor avalia que “para o desenvolvimento physiologico não bastam os preceitos da hygiene e o regimem da alimentação: são imprescindiveis o exercicio corporal e o ar livre” (REVISTA DE ENSINO, anno I, nº 6, fevereiro de 1903, p.1041). Para Carvalho, as atividades físicas não deveriam ser realizadas na escola, que ele considera impregnada por miasmas, e sim ao ar livre, em contato com a natureza, de modo a assegurar a manutenção de um corpo saudável, pela higiene e pela atividade corporal. Essa atividade ajudaria a combater a degenerescência física, e a promover o desenvolvimento intelectual e os valores morais dos jovens, o que pode ser explicado em outro artigo publicado em setembro de 1908. Com a mesma autoria e intitulado Educação Physica, neste artigo o autor credita à educação física a base da regeneração e melhoramento da raça humana, por contemplar nos exercícios físicos um objetivo higiênico, a saber, a manutenção do equilíbrio das funções vitais do indivíduo. A educação physica deve ser considerada como a base da regeneração e, mormente, do melhoramento da raça humana. Consiste na educação das funções da vida; é a arte de conservar a integridade das funções, melhorando-as sempre afim de contribuir para a harmonia do organismo, em favôr do individuo e da especie, para o bem da patria e da humanidade. Equilibrando as fórmas e as forças do corpo, tem ella uma feliz reacção sobre as faculdades intellectivas e moraes; tempera o caracter, creando simultaneamente o musculo (REVISTA DE ENSINO, anno VII, nº 3, setembro de 1908, p.17). Relata a existência de dois sistemas de ginástica em fins do século XIX: a alemã, que causava fadiga nos músculos, o que a distanciava dos objetivos higiênicos das atividades físicas; e a sueca, com exercícios simples e naturais, com tendência fisiológica e higiênica. Para o autor a importância da ginástica, como meio de cultura física, consolidava-se por preparar a resistência de todos os órgãos, engendrando uma energia interna para o indivíduo agir e reagir ao mundo exterior. Propondo que se abolisse a ginástica da escola, que o autor considerava como atividades atléticas, e defendendo os métodos naturais de atividades físicas, como os jogos, que proporcionariam uma finalidade higiênica, Carvalho recorre à literatura estrangeira para idealizar um “Parque Escolar de Exercicios Physicos” em São Paulo, atestando o valor da iniciativa dos professores da Associação. Segundo acreditava, a intencionalidade dos exercícios físicos seria a de fortalecer o corpo da criança, futuro cidadão, preparando-a moral e civicamente para servir à Pátria. Soares (2004), ao analisar os propósitos que orientaram a defesa da introdução da Educação Física nas escolas, concebida como instrumento que contribuiria para formação de um “indivíduo forte, robusto, saudável e disciplinado” (Soares, 2004, p.91), destaca os ideais defendidos por Rui Barbosa, de que Era dever primário (...) da existência humana “cuidar do corpo”, “da saúde” e a ginástica seria o elemento capaz de promover a saúde através do “saudável” exercitar dos músculos, atividade esta que deveria tornar-se hábito. Portanto, a ginástica não poderia ficar de fora da escola, também alertava Rui Barbosa, afirmando ser a sua obrigatoriedade universalmente aceita. Uma educação popular que não incluísse a ginástica seria considerada indigna desse nome, porque a ginástica deveria acompanhar todo o ensino e plantar no homem o sentimento de sua necessidade, assim como “do pudor, da urbanidade e do asseio” (BARBOSA, apud SOARES, 2004, p.91). Em 1912 o professor Alcides Sangirardi, em um artigo intitulado A responsabilidade dos mestres, destaca a preocupação do governo de países adiantados com um problema de saúde dos escolares: a falta de higiene ocular. Recorrendo a observações médicas, afirma que a miopia era a doença do aparelho visual que mais se alastrava no meio escolar; doença que, segundo Sangirardi, estava relacionada com a deficiência que as crianças tinham nos estudos. O autor defendia que o professor deveria se responsabilizar pelo conhecimento das doenças infantis para preveni-las, aplicando medidas como: evitar que os alunos fizessem leituras longas e aproximassem demasiadamente o livro em relação aos olhos, impedindo também que os alunos inclinassem a cabeça durante os trabalhos escolares. O mais conveniente seria colocar os alunos que já apresentassem o problema em uma posição que lhes fosse favorável na sala de aula, afastando aqueles que se apresentassem sem o asseio necessário a uma casa de educação. Como medida complementar, que não dependia, entretanto, da vontade do professor, seria necessário ter a sala de aula com boa iluminação, uma boa impressão dos livros, mapas e cadernos, assim como carteiras condizentes com a estatura dos alunos. Essas recomendações faziam parte do discurso médico em circulação no período, tema tratado pelo professor Mario Mandelli na conferência realizada na Escola Normal de Pirassununga, e publicada na Revista de Ensino em dezembro de 1916 com o título Concurso da Medicina na Educação Popular. Mandelli inicia o seu artigo falando sobre o serviço de inspeção médico-escolar em vigor em vários países da Europa, nos quais se tomavam medidas preventivas para evitar a miopia escolar, investigar a causa de moléstias epidêmicas e estabelecer a sua profilaxia, dentre as quais estava a exigência de certificado obrigatório de vacinação, a elaboração de caderno individual com os dados do aluno, entre outros. Ao falar do Brasil, o autor aborda a necessidade do estabelecimento da Inspeção Médica Escolar, alegando que não existia o serviço no país. Defendia, nesse sentido, que o professor deveria, na falta de um médico, prestar os primeiros auxílios à criança, delegando ao mesmo o caráter de higienista, pronto a velar pela saúde dos alunos. Mas, para tanto, o professor necessitaria ter conhecimentos médicos, para aplicá-los com segurança, principalmente no caso das enfermidades contagiosas que se desenvolviam na escola, como a miopia. Daqui resulta a necessidade que tem o professor de, não só possuir alguns conhecimentos medicos, como tambem pol-os em pratica. Além disso, o professor deve conhecer os diferentes medicamentos e saber applical-os devidamente, afim de evitar algum engano de funesta consequencia. Por outro lado é necessario ainda que o professor conheça os symptomas e os caracteres de certas enfermidades, sobretudo as contagiosas, para precaver contra ellas a saúde dos seus alunos, compromettida muitas vezes por falta desses conhecimentos (REVISTA DE ENSINO, nº 3, anno XV, dezembro de 1916, p.20). O discurso de Madelli é contraditório, já que, ao mesmo tempo em que afirma que o serviço de inspeção médica dos alunos não existe, traz informações colhidas na estatística da higiene escolar de São Paulo, relacionando as enfermidades que estão mais presentes nesse meio. Em suas reflexões, parece preocupado em demonstrar que cabe ao professor exercer algumas tarefas então reservadas aos médicos, como: investigar as causas das enfermidades, tomar medidas de precaução em caso de epidemias, verificar se alguma criança apresenta sintomas de enfermidade e providenciar medidas profiláticas de higienização. Segundo ele, Há enfermidades que chamam especialmente a atenção do professor, enfermidades essas cujas revelações são favorecidas pela estatistica da hygiene escolar. Referimo-nos ás chamadas enfermidades escolares, que são aquellas em cuja producção ou desenvolvimento exerce a escola uma influencia incontestavel, sinão preponderante ou exclusiva. Entre essas enfermidades figuram em primeiro plano a myopia e as desviações da coluna vertebral. A actividade cerebral a que se submete o alumno nos trabalhos da escola, as attitudes viciosas que toma e o ambiente enrarecido da classe, dôres de cabeça e hemorragia no nariz, enfermidades estas que tambem entrarão para o quadro das escolares (REVISTA DE ENSINO, nº 3, anno XV, dezembro de 1916, p.20). Em março de 1918, os redatores escreveram um artigo intitulado Hygiene e Educação, no qual procuraram evidenciar que “a collaboração mutua da pedagogia e da hygiene escolar tem por escopo crear uma geração perfeita no moral e no physico” (REVISTA DE ENSINO, nºs 3 e 4, anno XVII, dezembro de 1917 e março de 1918, p.6). Para os redatores a sistematização da educação física era a pedra de toque para o desenvolvimento da criança como um todo: intelectual, emotivo e volitivo. Segundo o texto, em São Paulo o serviço de inspeção médica escolar ainda era muito tímido, fazendo-se necessário que o mesmo fosse expandido de forma sistemática nas escolas. Um outro problema apontado dizia respeito à insuficiência de atividade física nas escolas. Os autores se queixavam que para impulsionar este ramo de educação, estimulando a atividade da vida com jogos ao ar livre, as marchas ao sol, a carreira, a gymnastica respiratória e outros exercícios naturaes, agindo não só sobre o physico como sobre a natureza moral da creança e reconstituindo-lhe o organismo em condições atmosféricas mais favoráveis, ainda não temos excursões escolares obrigatórias, passeios, durante os quais os professores aproveitam todas as oportunidades para desenvolver nas creanças as faculdades de observação. (REVISTA DE ENSINO, nºs. 3 e 4, anno XVII, dezembro de 1917 e março de 1918, p.6). As excursões a que se referem os autores faziam parte da rotina escolar de outros países, no período, programadas dentro do horário escolar, tendo duas finalidades: incentivar a frequência escolar e servir como meio de instrução e observação do educador em relação ao caráter (se impulsivo ou reflexivo) e avaliação do aluno (capacidade de observação, raciocínio, julgamento e comparação). Tendo como fundamento os ensinamentos do Dr. Ugo Pizzoliv, os jogos eram importantes por exercerem influência direta sobre a atividade intelectual, física e a formação moral, proporcionando o desenvolvimento físico com a manifestação natural da criança para as atividades. Dentre os efeitos benéficos dos jogos, os autores consideravam que eles eram capazes de tornar a criança mais corajosa, proporcionando, por meio da convivência com os outros, o seu desenvolvimento moral, ao ser útil a si própria e aos demais. Seguindo as orientações do professor Ugo Pizzoli, seria aconselhável que o professor escolhesse como atividades para o horário do recreio (...) jogos que exijam muita atividade muscular, muito movimento. Aos de temperamento passivo muito patente, reserve a parte mais activa do jogo. Encorage-os a vencer toda repugnância, faça-os chefes; incite-os na corrida, no salto, no canto. A principio, elles hesitarão, a affrontrarão timidamente a audacia de certos sports; mas depois, com as insistencias affectuosas do professor, ganharão ousadia, e o jogo physico se lhes tornará agradavel habito. Assim se vence uma grande batalha (REVISTA DE ENSINO, nºs. 3 e 4, anno XVII, dezembro de 1917 e março de 1918, p.7). Nos meses de março de 1917 e junho/setembro de 1917, os redatores publicam o plano para o estudo da moral nas escolas, extraído do relatório do inspetor Guilherme Kulhmann, intitulado Educação Moral. Para Kulhmann, o professor deveria corrigir os casos de má conduta que aconteciam na escola, dando margens à lição de moral. Como em outros textos, postula-se que o professor seja o exemplo de conduta moral perfeita a ser seguida pelos alunos, incentivando a disciplina escolar para que a mesma influa na formação de um caráter íntegro. Para tanto, era necessário evitar cometer injustiça com os alunos e retirar de cada lição um fundo moral, aplicando esse conhecimento na própria conduta do aluno. Kuhlmann assinalava as dificuldades enfrentadas pelos inspetores no trabalho de orientação dos professores; dificuldades essas atribuídas à falta de um preparo mais técnico dos professores para ministrar as aulas. Relatava que, para amenizar a deficiência pedagógica no preparo de muitos professores, foram inauguradas palestras pedagógicas que não obtiveram o resultado esperado pela Diretoria da Instrução Pública, assim como a distribuição de programas com a recomendação de serem colocados em prática em aulas-modelo na presença dos professores, no intuito de prepará-los para a prática. Em seguida o inspetor relata que fez uma conferência na Escola Normal de Casa Branca orientando os professores sobre o ensino das diversas disciplinas, e entregou um plano de orientações para os professores, desdobrado nas seguintes diretrizes: preocupações constantes do professor; princípios a considerar; meios de educação; fins a atingir; direções gerais. Na primeira diretriz, um dos itens refere-se à formação de hábitos de conduta moral pelo exemplo e pelo exercício. Em relação à questão da higiene, podemos entender que o aprendizado do aluno está ligado não apenas às recomendações do professor, mas aos próprios hábitos do mestre com o seu exemplo de conduta, entre eles o asseio e os bons costumes. Na segunda diretriz, o autor fala dos deveres para com o outro e para com a pátria. A terceira diretriz relaciona os hábitos de asseio aos deveres do professor e às finalidades a serem atingidas com a educação moral. Entre os meios de educação direta constam: os “casos práticos de asseio, ordem, pontualidade, obediencia, gratidão, veracidade, sinceridade, urbanidade, justiça, bondade e boa conducta em diversos logares e circumstancias”. (REVISTA DE ENSINO, anno XV, nº 4, março de 1917, p.6). Entre as finalidades a serem atingidas com a educação moral, temos: l. Habitos de : asseio, ordem, obediencia, desinteresse, generosidade, veracidade, lealdade, pontualidade, exactidão, regularidade, diligencia, perserverança, previsão, cortesia, piedade em geral com os animais, perdão, caridade, justiça, respeito á propriedade, respeito aos superiores, submissão á autoridade e ás leis, respeito á dor alheia, tolerância ás crenças religiosas, coragem, prudencia, gratidão, energia, calma, cooperação e bondade. 2. Coherencia entre as acções e a consciência. 3. Sentimentos da dignidade humana, da honra e do dever. 4. Dominio de si proprio, pela libertação das paixões egoístas. 5. Firmeza de caracter. (REVISTA DE ENSINO, nº4, anno XV, março de 1917, p.7) Essas diretrizes deixam clara uma preocupação não só com o asseio, evidenciando que a temática da higiene se articulava a um conjunto de questões que tinham como alvo principal um disciplinamento da criança, no qual as ideias de ordem e a obediência aos preceitos ensinados ocupavam lugar de destaque. Nos meses de junho e setembro de 1911, a Revista de Ensino publicou capítulos do livro intitulado Erros no ensino, do professor canadense J. L. Hughes, traduzidos pelo professor J. Stott. No mês de junho foram publicados os capítulos referentes aos: Erros sobre o objeto da educação; Erros de direção escolar e Erros no ensino moral. Em setembro, os capítulos Erros de disciplina e Erros de método. Hughes considerava que era notório, em vários países, o oferecimento de condições físicas favoráveis para as crianças durante suas atividades escolares, o que demandava a necessidade de se ter em sala de aula: boa luz, calor, posição cômoda ao sentar e ventilação. Defendia que deveriam ser empregados os exercícios calistênicos unidos com o canto, escolhidos por: proporcionar o descanso depois de um longo período em uma mesma posição; desenvolvimento do potencial de resistência; harmonização do corpo com um porte ereto, o que aumentaria o domínio sobre o próprio corpo. Além disso, acreditava que tais exercícios, poderiam auxiliar o professor na manutenção da ordem, na medida em que, já tendo gasto suas energias com os exercícios físicos, os alunos poderiam utilizar as suas energias para as atividades intelectuais em sala de aula. Hughes elaborou um guia para o professor procurando orientá-lo sobre como ele deveria agir em sala de aula para manter o controle da classe. Entre as várias prescrições abordadas, duas dizem respeito mais de perto à higiene. Primeiro: considerava ser um erro forçar as crianças ficarem sentadas e quietas durante meia hora em uma mesma posição. Hughes acreditava que o professor não precisava ser tão severo a ponto de deixar a criança em uma posição durante um período prolongado, ressaltando que ele deveria ter consciência de que as crianças não terão a atenção necessária com um corpo cansado. Sugeria, nesse sentido, unir a calistenia vi com o canto, o que proporcionaria uma mudança necessária. Segundo: o autor propõe a realização do recreio dentro da sala de aula em dias de chuva, já que, segundo acreditava, “pede a higiene frequente descanso para o corpo e para o espírito” (REVISTA DE ENSINO, nº 2, anno X, setembro de 1911, p.23). Alega, assim, que se a escola tivesse recreios menores e mais frequentes, haveria menos repreensão e melhor ordem. Em suas reflexões, o autor defende a necessidade de dar um tempo de descanso aos alunos, oferecendo jogos calistênicos e canto para mantê-los ocupados. Os exercícios calistênicos faziam parte de uma série de exercícios baseados no método sueco de ginástica. Referindo-se a essa modalidade de exercícios, assinala Vago (2004, p.79) que “não havia prescrição de práticas que envolvessem coletivamente as crianças – o destino dos exercícios era localizado e centrado no sujeito individual”. De acordo com a sugestão do professor Hughes, esses exercícios ministrados junto com o canto, deveriam ser trabalhados na coletividade, o que auxiliaria o controle da disciplina. Certamente, a realização dos exercícios acompanhados do canto, sugeridos pelo professor Hughes, invocaria uma tentativa de disciplinamento dos corpos dessas crianças. A publicação deste artigo na Revista de Ensino, orientando sobre os cuidados com a higiene do ambiente escolar, e vinculando a realização de exercícios calistênicos com o canto, pode ser pensada como uma resposta aos problemas disciplinares encontrados nas escolas paulistas. A conclusão do autor se voltava para os verdadeiros fins da educação, que seriam: no aspecto físico, o exercitar do corpo, para torná-lo sadio, vigoroso, harmonioso, hábil e obediente à vontade. No aspecto intelectual, a aquisição de conhecimentos, o despertar do interesse e a autonomia para continuar a busca por mais conhecimentos, e a sabedoria para utilizá-los. No aspecto moral, a formação de hábitos bons, a obediência às leis, o respeito à liberdade, a consciência do poder e da responsabilidade individual e o desenvolvimento da fé da criança em si própria. Em junho de 1912, a redação da Revista de Ensino transcreveu um artigo da revista francesa L’ Education, com o título O movimento novo em educação, sem citar o nome do autor e do tradutor. O autor afirmava que a escola não deveria apenas ensinar, mas preparar para a vida. Deveria ser mais do que um lugar de instrução, constituindo-se em um lugar de adaptação, tendo como objetivo a vida. Recorria ao pensamento pedagógico de Fröebel, para defender que era preciso aprender agindo. Segundo o autor, o ser humano, objeto da educação integral que postulava, para ser completo como cidadão, precisava ter um corpo são, uma inteligência vigorosa, e qualidades morais necessárias para viver em sociedade. Todos esses atributos só poderiam ser adquiridos pela prática. Assim, fazia-se necessário que tais atributos fossem incutidos no indivíduo desde a sua infância, para que na vida adulta tivessem o poder e o hábito para colocá-los a seu serviço. O conceito de escola nova, para o autor, dizia respeito ao trabalho desenvolvido nos internatos, instituições para as quais as famílias enviavam os seus filhos para serem educados. Essas escolas tomaram para si a responsabilidade pela educação que antes era compartilhada com a família. O autor via benefícios nessas escolas, pois poderiam oferecer uma educação integral, que teria como finalidades: o desenvolvimento físico, propício em um ambiente em meio à natureza; o desenvolvimento intelectual e moral, também propícios pela sua localização, por estarem distantes de influências perniciosas, em um ambiente reservado para esse fim. O autor ressaltava a importância da educação física, assinalando que os jogos ao ar livre tiveram o seu desenvolvimento na Inglaterra, especificamente nos internatos. Reconhecendo o seu valor como elemento de educação capaz de melhorar a saúde e o vigor dos alunos, essas atividades foram inseridas no sistema educativo das escolas secundárias, organizando-se, em seguida, nos sistemas de ginástica. A preocupação com o corpo foi além das atividades com os jogos, conforme o relato do autor: Passeios ao campo, banhos em pleno ar, tiro ao alvo, trabalho manual ao ar puro, quartos sempre bem arejados, vestuario simples e racional, alimentação sadia e frugal, alguns principios fixos de hygiene sobre o emprego e o sentido das fricções corporaes, todas estas cousas, posto que não tenham ainda sido geralmente admittidas nas escolas, são tão necessarias como os jogos para adquirir e conservar a saúde, sobretudo para criar habitos que não desapparecerão quando a acção da escola não existir mais, e para inculcar ás crianças o amor de uma existencia sã e vigorosa. Ser-nos-á precizo, pois, um meio que permitta isto tudo; mesmo, porêm, nestas condições não se póde deixar nada ao acaso. A escola que não estabelece em seu programma tudo o que fica enumerado falta ao seu primeiro dever. (REVISTA DE ENSINO, anno XI, nº 1, junho de 1912, p.18) Nas palavras do autor, pode-se perceber que respirar o ar livre, aumentar a capacidade pulmonar, exercer atividades de concentração para disciplinar a atenção, dormir em ambientes salubres, vestir-se adequadamente conforme a estação e fazer uso de alimentação equilibrada, de acordo com a idade, eram tão importantes para o desenvolvimento e manutenção da saúde quanto os jogos ao ar livre. A inculcação de hábitos bons e saudáveis que se adquiriam na escola, reforçados pelo exemplo do professor como modelo, deveriam regrar o comportamento das crianças na sua vida adulta. O autor retratava a sua preocupação com a implantação dos princípios higiênicos no sistema de ensino, tamanha era a sua importância para o desenvolvimento e manutenção da saúde, que, a partir deles, a criança teria disposição e vigor para o desenvolvimento intelectual e moral. Desenvolvimento que o autor via como a atribuição que menos necessitava de transformação, por se restringir à educação escolar, com a instrução reduzida a um sistema. Questionava os conhecimentos eruditos transmitidos pela escola, afirmando ser a escola nova um protesto contra os exames, que teriam como finalidade a educação intelectual. Para ele, a verdadeira educação intelectual estava na capacidade de desenvolvimento de um raciocínio próprio e de resolução dos problemas, à medida que eles aparecessem. Em suas ponderações, o autor mostrava-se favorável ao um programa de ensino que desse mais liberdade para desenvolver as aptidões de cada pessoa, oferecendo a prática do ensino por meio de trabalhos manuais e individuais. A educação moral deveria, segundo o autor, ser pautada na autonomia e na ação. Não bastaria a criança aprender o que era o bem, se este hábito não fosse fortificado pela prática. Assim, a princípio, a criança deveria ser orientada a ser comedida e a adotar regras de conduta. Este direcionamento traria melhores resultados do que a imposição, com liberdade de crescimento e escolha, regrada pela confiança recíproca, para se obter uma verdadeira liberdade moral. O princípio em que se fundamentava a escola nova era, conforme ressaltava o autor, o desenvolvimento da personalidade da criança. A temática da higiene figura em outro artigo publicado na Revista de Ensino em dezembro de 1911. Refere-se a uma conferência realizada pelo Dr. José Azurdia, catedrático em Guatemala e traduzida pelo Dr. Leopoldo de Freitas, intitulada A Higiene nas escolas. Para o autor, a população encontrava-se viciada em hábitos ruins, sendo difícil a tarefa de erradicá-los. A partir desse entendimento, ele defendia a ideia de tornar acessíveis os conhecimentos a respeito da higiene nas escolas, o que implicaria na transmissão de conhecimentos práticos, costumes bons e puros, regime regrado de vida e luta pela saúde, no combate às doenças. Azurdia afirmava que as condições climáticas, a vegetação, as chuvas e o poder sanitário do solo contribuíam para o benefício higiênico do país (presume-se que o autor estivesse falando da Guatemala). Com todos esses benefícios, questionava o motivo da propaganda sanitária e de higienização nacional. Procurando responder a esta questão, avaliava que a prevenção seria melhor que a cura, ou seja, se a higiene era a ciência social por natureza, deveria ser ensinada no presente para ser colocada em prática no futuro. O país, segundo destacava Azurdia referindo-se à Guatemala, mas certamente incidindo sobre aspectos comuns ao Brasil, o que poderia justificar a iniciativa de tradução do artigo, era receptivo à entrada de estrangeiros, que muitas vezes ocultavam doenças contagiosas, degenerescência física e epidemia moral, sendo esta a que se alastrava com mais rapidez. Em suas palavras, “é esse triste e culminante ponto de vista em que nos devemos colocar para aquilatar da importancia da hygiene, apreciando o seu alcance em favor do trabalho, da economia social, do adeantamento, do esforço e da moralidade do Estado. (REVISTA DE ENSINO, nº 3, anno X, dezembro de 1911, p.43). Diante desse quadro, defendia que deveria ser feita a prevenção da população nativa para se abster desses males, alertando-os para a importância da higiene para o desenvolvimento do Estado, no que dizia respeito ao trabalho, economia social e moralidade. O autor responsabilizava o mestre, formador das sociedades e dos povos, pelo exercício de sua influência em proveito do ensino da higiene física e psíquica da criança. Acreditava que o ensino não deveria ser um acúmulo de conhecimentos, mas deveria obedecer a regras para aplicação dos mesmos. Em relação aos princípios da higiene, essa aplicação deveria se basear na figura do mestre como modelo: O mestre deve ser hygienico, ainda mais que hygienista, isto é, ter a pratica, mais do que pregador dos principios de hygiene. Deve saber para executar que: “A hygiene é a sciencia das relações sanitárias do homem com o mundo exterior, e dos meios de contribuírem estas relações para o aperfeiçoamento do individuo e da especie” (REVISTA DE ENSINO, nº 3, anno X, dezembro de 1911, p.44). Pelas palavras do autor, pode-se depreender que caberia ao mestre exercer o seu poder de persuasão, aliado a um comportamento exímio dentro das condutas higiênicas, incutindo os preceitos higiênicos a seus alunos, e ensinando mais pelo exemplo do que pelas palavras. Ainda em relação à aplicação prática da higiene, o autor considerava que esses preceitos deveriam ser ensinados em todos os lugares e a cada momento, quer no ambiente escolar, ou mesmo no ambiente familiar, na igreja, enfim, na sociedade em que a criança estava inserida, com o cuidado de ensinar que “a higiene não é sciencia especulativa e theorica, mas de uma constante, quotidiana e efficaz applicação” (REVISTA DE ENSINO, nº 3, anno X, dezembro de 1911, p.45). Como objetivos a serem alcançados com o ensino da higiene, estariam: a prevenção em relação à salubridade das habitações, que combateria as moléstias de forma lenta e segura; a promoção do melhoramento da raça, investindo em uma população com indivíduos mais saudáveis; e a convicção da constituição de uma sociedade consciente do seu destino superior. O autor questionava como deveria ser ensinada a higiene do corpo. Ao procurar a resposta, assinalava que o mestre deveria ter o cuidado de nivelar o conhecimento que era transmitido à criança, pensando que a eficiência da aprendizagem era construída com a assimilação de cada conhecimento. Não adiantava, afirmava ele, querer infiltrar muitos conhecimentos ao mesmo tempo, desconsiderando a medida de desenvolvimento da mentalidade infantil. O que o autor procurava enfatizar era a reflexão sobre a atenção, que era a última faculdade a ser desenvolvida na criança. Para que o ensino tivesse êxito, necessitaria colocar em sala de aula as crianças que tivessem um mesmo nível de atenção, o que não ocorria com a união de crianças com capacidades de atenção diferentes. Em seguida, o autor oferecia uma lição prática de como utilizar uma linguagem mais acessível para o ensino das crianças, abordando frases de efeito para a prevenção das enfermidades: “Que criança é mais agradável entre os vossos companheiros, a asseiada ou a mal asseiada?” “A limpeza é o capital do pobre. Com ella se entra por todas as portas e se atraem todas as vistas.” “As enfermidades contagiosas e as epidemias têm a sua origem na falta de limpeza.” “Não bebais nunca em copo em que tiverem bebido vossos irmãos, filhos ou mesmo paes.” “Não beijeis as crianças, principalmente na boca. Porque haveis de prejudica-las depositando nos seus lábios indefesos os elementos deletérios que talvez existam em vós mesmos?” “Não consentireis varrer fazendo poeira.” “Não comeceis a comer sem ter lavado as mãos.” “Nunca deveremos comer frutas sem lava-las.” “Antes de ser instruído convem ser sadio” (REVISTA DE ENSINO, nº 3, anno X, dezembro de 1911, p.47-48). Na sequência abordava questões como higiene das mãos, disciplina com os horários de refeições, a ventilação, os cuidados pessoais, a prática de esportes, a explicação sobre os micróbios, os animais considerados malignos, a importância do sono, do descanso, da vacina e o mal provocado pelo álcool e o fumo. Apesar de o autor delegar toda a responsabilidade pelo ensino da higiene ao mestre, recorria à contribuição do médico escolar para corrigir crianças que insistiam em manter hábitos higiênicos considerados ruins: “a criança possuída de paixões ruins será a perdição dos seus companheiros e a ruína da escola”. (REVISTA DE ENSINO, nº 3, anno X, dezembro de 1911, p.52). Para o autor a repressão e castigo dos escolares era uma matéria que se confundia com questões mais complexas, como condição psicológica da criança, ambiente familiar onde proliferavam maus hábitos, enfermidades e degenerescências físicas e morais. Problemas cujo enfrentamento seria atribuição do médico escolar. Conforme o autor, quando as crianças apresentavam intenções nobres, interessando-se pelo conhecimento, perguntando, investigando, então, deveriam ser incentivadas, orientadas pelo professor, para mais tarde colaborarem para o bem da ciência. O autor enaltecia o ensino direcionado à valorização da pátria, visando a sua proposta a constituição de uma sociedade formada por homens dotados de corpos saudáveis, moralmente apresentando bons corações, e intelectualmente, inteligentes. Tendo em vista que esta comunicação trata-se de um projeto em andamento, faz-se necessário efetuar considerações parciais a respeito da temática analisada, em que parece unanime entre os educadores a necessidade de se aplicar exercícios físicos para os escolares. Atividades que, direcionadas a um objetivo higiênico, proporcionariam a saúde e manutenção das funções vitais dos corpos infantis. Promover a saúde com o fortalecimento do corpo, a resistência à fadiga, a prevenção em relação às moléstias que grassavam no período, evitar a decadência física e consequentemente o depauperamento da raça eram preocupações que, aliadas à racionalidade científica, designaram a escola com lócus de educação e saúde. Bibliografia Fontes Primárias REVISTA DE ENSINO. Órgão da Associação Beneficente do Professorado Público do Estado de São Paulo, fevereiro de 1903. REVISTA DE ENSINO. Órgão da Associação Beneficente do Professorado Público do Estado de São Paulo, setembro de 1907. REVISTA DE ENSINO. Órgão da Associação Beneficente do Professorado Público do Estado de São Paulo, setembro de 1908. REVISTA DE ENSINO. Órgão da Associação Beneficente do Professorado Público do Estado de São Paulo, junho de 1909. REVISTA DE ENSINO. Órgão da Associação Beneficente do Professorado Público do Estado de São Paulo e da Diretoria Geral de Instrução Pública, setembro de 1911. REVISTA DE ENSINO. Órgão da Associação Beneficente do Professorado Público do Estado de São Paulo e da Diretoria Geral de Instrução Pública, dezembro de 1911. REVISTA DE ENSINO. Órgão da Associação Beneficente do Professorado Público do Estado de São Paulo e da Diretoria Geral de Instrução Pública, junho de 1912. REVISTA DE ENSINO. Órgão da Associação Beneficente do Professorado Público do Estado de São Paulo e da Diretoria Geral de Instrução Pública, dezembro de 1916. REVISTA DE ENSINO. Órgão da Associação Beneficente do Professorado Público do Estado de São Paulo e da Diretoria Geral de Instrução Pública, março de 1917. REVISTA DE ENSINO. Órgão da Associação Beneficente do Professorado Público do Estado de São Paulo e da Diretoria Geral de Instrução Pública, dezembro de 1917 e março de 1918. Referências Bibliográficas BRUNO, Ernani Silva. História e Tradições da Cidade de São Paulo. São Paulo: Hucitec, 1991, vol.III. BRUZZO, Cristina. Em nome da saúde...da Ordem e do Progresso: discurso e prática dos médicos do Serviço Sanitário Paulista no final do século XIX. Dissertação (Mestrado em Educação). Faculdade de Educação, Unicamp, 1989, 178fs. DECCA, Maria Auxiliadora G. de. Cotidiano de trabalhadores na República. São Paulo - (1889-1940). São Paulo: Brasiliense, 1990. RIBEIRO, Maria Alice Rosa. História sem fim... Inventário da saúde pública. São Paulo: Editora da UNESP, 1993. SILVA, Anete Charnete Gonçalves. Inspeção Médica Escolar em São Paulo (1911-30): a escola como lugar de higiene e saúde. Dissertação (Mestrado em Educação)PUC, São Paulo, 2001, 111fs. SOARES, Carmen. Educação Física. Raízes Européias e Brasil. Campinas, SP: Editores Associados, 2004. STEPHANOU, Maria. Discursos médicos e a educação sanitária na escola brasileira. In: Maria Stephanou e Maria H.C. Bastos (orgs). Histórias e memórias da educação no Brasil.Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2005, p.142-164. VAGO, Tarcísio Mauro. Da ortopedia à eficiência dos corpos: a gymnastica e as exigências da “vida moderna” (Minas Gerais 1906-1930). In: Movimento, Porto Alegre, vol.10, nº3, p.77-97, setembro/dezembro 2004. Notas i Este informe foi retirado provavelmente da “Revue Pédagogique”, coleção composta por 12 volumes e noticiada como acervo pertencente à biblioteca da Associação. Cf. REVISTA DE ENSINO, nº 1, anno I, abril de 1902, p. 135. ii Não foi possível localizar a procedência do Ministro, por falta de acesso aos arquivos. iii Cristina Bruzzo, na sua Dissertação de Mestrado intitulada Em nome da Saúde...da Ordem e do Progresso: discurso e prática dos médicos do Serviço Sanitário Paulista no final do século XIX (1989), ao analisar como a higiene emergiu no espaço escolar e urbano no Estado de São Paulo, nos finais do século XIX, pondera que o discurso sobre a higiene acentuava a responsabilidade individual com os problemas sanitários. iv Augusto Ribeiro de Carvalho formou-se pela Escola Normal em 1895, lecionou em uma classe primária da Escola Modelo, anexa à Escola Normal. Foi Diretor do Grupo Escolar de Jacareí, no qual fundou uma Associação de Escoteiros. Em São Paulo foi inspetor geral de exercícios físicos no período de 1914 a 1930, redator secretário da Revista de Ensino e primeiro-secretário, e bibliotecário da Associação Beneficente. (CATANI, 2003). v O Dr.Ugo Pizzoli foi convidado pelo governo do Estado de São Paulo, presidente Altino Arantes em 1914, para ministrar um curso de psico-pedagogia para alunos da Escola Normal, modernizar e dinamizar o Gabinete de Psicologia Experimental da Escola Normal de São Paulo, organizado pelo professor Clemente Quaglio. Pizzoli criou o Laboratório de Pedagogia Experimental da Escola Normal de São Paulo, na gestão de Oscar Thompson como diretor desta Instituição. Esse laboratório mais tarde foi transferido para a cátedra de Psicologia da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de São Paulo. AZEVEDO, M.L.B. e WAENY, M.F. A Psicologia Escolar e sua história. In: A Psicologia Educacional e Escolar em São Paulo Volume 08, 2009. Disponível em: <http://www.crpsp.org.br/memoria/educacao/artigo_educacao.aspx> Acesso em 25 out 2010. vi De acordo com Campos (2000, p.64), a calistenia consiste em um método baseado nos “exercícios analíticos de efeitos localizados”, cuja finalidade era “combater os efeitos nocivos dos modernismos das grandes cidades, aliado ao avanço da tecnologia e aos maus hábitos adquiridos. Atua especialmente estimulando os grandes grupamentos musculares, agindo na prevenção dos vícios posturais, e desenvolve as grandes funções, especialmente o aparelho cardiovascular e demais órgãos” (idem, p.65). No Brasil a manifestação favorável à adoção da calistenia nas escolas, aparece pela primeira vez nos “pareceres de Rui Barbosa que, inspirado no trabalho de Clias, publicado em 1829, destaca a importância da calistenia para o sexo feminino, justificando que as mulheres deviam praticar atividades de ginástica compatíveis com as características do sexo, harmonia das formas e preocupação das exigências da maternidade futura” (idem, p.65). CAMPOS, Hélio José Bastos C. REVISTA DA FACED, Salvador, n. 4, p.57-74, 2000. Disponível em: <http://www.portalseer.ufba.br/index.php/rfaced/article/viewFile/2939/2103> Acesso em 02 Ago 2010.