C O L E Ç Ã O ESCRITOS ACADÊMICOS Volume 8 Capoeira E EDUCAÇÃO PÓS-COLONIAL Ancestralidade, Cosmovisão e Pedagogia Freiriana Ernesto Jacob Keim Carlos José Silva ©2012 Ernesto Jacob Keim; Carlos José Silva Direitos desta edição adquiridos pela Paco Editorial. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação, etc., sem a permissão da editora e/ou autor. J9591 Keim, Ernesto Jacob; Silva, Carlos José Título: Capoeira e Educação Pós-Colonial: Ancestralidade, Cosmovisão e Pedagogia Freiriana. Jundiaí, Paco Editorial: 2012. 152 p. Inclui bibliografia. ISBN: 978-85-8148-182-1 1. Educação freiriana 2. Ancestralidade 3. Estudos Pós-coloniais 4. Capoeira. I. Keim, Ernesto Jacob II. Silva, Carlos José CDD: 370 Índices para catálogo sistemático: Educação - pedagogia Cultura e processos culturais História do Brasil IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL Foi feito Depósito Legal Rua 23 de Maio, 550 Vianelo - Jundiaí-SP - 13207-070 11 4521-6315 | 2449-0740 [email protected] 370 301.2 981 Dona Nina... Dona Frida, Mães corajosas e desafiadoras Mães inquietas que promoveram a partilha partilha onde o quase nada se transformava no suficiente Mães lutadoras com amorosidade e dignidade Mães bondosas a quem dedicamos esta obra. Milene e Veronica... Companheiras que estão ao lado Incondicionais no afeto e no amor Verdadeiras no estímulo Sinceras nas críticas Com vocês compartilhamos a festa desta obra. Capoeira é Luta de Bailarino Capoeira é luta de bailarino é dança de gladiadores duelo de camaradas Capoeira é jogo, é bailado Capoeira é disputa simbiose perfeita de força e ritmo poesia e agilidade Capoeira é um artista Capoeira é um atleta é um jogador é um maestro, é um poeta Da sublimação da força ao ritmo da violência à melodia da sublimação do antagonismo Capoeira eu jogo é noite e dia Capoeira é manifestação autêntica da índole e do espírito do gênio do nosso povo E com ela nós mandamos ao mundo uma mensagem que bom se todo conflito, todo litígio pudesse ser resolvido com música e poesia Salve o Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia! Música: Mestre Geraldo da Costa Filho (Mestre Gegê) Inspirado no poema de Dias Gomes RENASCIMENTO Num jardim, entre plantas e pedras vejo um olho. Olho que observa, pisca, convida. Chego perto, afasto as folhas-cílios e toco a íris. Se retrai e logo se abre. Aceito o convite e nele mergulho Sou sugado e puxado – empurrado. Penetro nele, o atravesso. Chego a outro mundo. Mundo novo, Vista embaçada Levito e apalpo, Se faz a luz, nova luz, miríades de cores e sons percebo coisas estranhas e familiares Acredito e aceito, entrego e busco. Vem o medo. Impossível voltar. Já está maior. Não cabe e não passa mais. Se expande – é inevitável. Se integra no novo – Renasce. Está livre – é belo. Tudo encanta – tudo assusta Tudo desafia – tudo esclarece Novo tudo – tudo novo Sempre novo, apesar do tempo que passa inexorável infinito – eterno. Tempo que passa, traz vida – faz renascer O novo passa a ser o seu tempo O tempo deixa de existir, ao renascer a plenitude Plenitude de sentimento Prenhe de paixão Novo no destino renascido Destino como aceite ao convite de entrar no olho que observa, seduz, convida e suga. Ele está lá Vê quem pode Vai quem quer Se procura acha Se acha realiza Se realiza constrói. Se constrói Se satisfaz, fica feliz Se é feliz, espalha amor. Se espalha amor Emprenha a Terra Fertiliza o mundo. Fertilidade que gera esperança que multiplica o Ser que É e busca sempre mais, encontros para renascer renascer o amor amor para criar criar para chegar chegar para Ter Ter-se inteiro é renascer-se possuído da plenitude de quem se permite renascer na vida plena de SER (Ernesto Jacob Keim) Sumário Prefácio........................................................................................................11 Capítulo 1 Consciência de Resistência e Libertação como Propósito.............................19 1. Origem, motivação e sustentação desse livro..............................................20 2. A Capoeira como possibilidade de resistência e libertação.........................23 3. A sociedade como lócus político................................................................27 Capítulo 2 O Negro Africano como Pessoa Escravizada no Brasil..................................31 1. O não reconhecimento do negro como pessoa..........................................32 2. O negro escravizado na realidade social brasileira.....................................39 3. A reação dos negros inserindo sua cultura na sociedade colonial..............41 Capítulo 3 Cosmovisão e Ontologia da Libertação.........................................................45 1. Cosmovisão, ontologia e a constituição do ser humanizado.....................46 2. A cosmovisão africana e a organização/resistência dos escravizados.........54 3. A Capoeira como representação da cosmovisão africana...........................58 4. A Pedagogia de Paulo Freire e a Resistência Anticolonial...........................60 Capítulo 4 Capoeira como Revitalização/Reumanização do Negro................................69 1. A Capoeira como resistência à escravização e à colonização.....................69 2. A abolição da escravatura e a condenação dos negros à indigência...........73 3. A Capoeira como libertação é resposta educativa à colonização/exclusão.................................................................................77 Capítulo 5 Capoeira de ação reprimida à emancipação e Identidade Humana...............85 1. Capoeira e motricidade humana................................................................89 2. Capoeira e a representação de identidade humana....................................96 3. A ficção histórica como metáfora identitária da libertação........................103 4. A ficção histórica como denúncia para a educação da libertação.............111 Capítulo 6 Cosmovisão e ontologia social na Capoeira..................................................115 1. A cosmovisão como identidade e postura anticolonial............................116 2. A ontologia Social da Capoeira como Resistência anticolonial..............117 2.1 Interação da pedagogia da autonomia com a ontologia social da Capoeira....................................................................121 2.1.1 Ontologia social, educação e Capoeira como interação humana.....123 2.1.2 Ontologia social, educação e Capoeira como interação fraterna.....126 2.1.3 Ontologia social, educação e Capoeira como especificidade humana..129 Considerações Finalizadoras.......................................................................135 Pela vida e com a vida... com dignidade.......................................................141 Referências.........................................................................................143 Memorial de apresentação dos pesquisadores...........................................149 Carlos José Silva.........................................................................................149 Ernesto Jacob Keim....................................................................................150 Prefácio Fiquei muito lisonjeado quando fui convidado por um dos autores, professor Carlos José Silva, a prefaciar esta obra que hora é apresentada aos leitores. É com muita solicitude e prazer que atendo este convite advindo de um amigo e um parceiro das rodas de Capoeira, professor Carlos, a quem me permito chamar de Contramestre Tigre. Lembro-me da primeira vez que estivemos juntos, foi em uma roda na academia de Mestre Burguês em Curitiba/PR. Somente aqueles que chegaram a participar “destas rodas” sabem dimensionar o quão significativo foi para nossas vidas enquanto praticantes, enquanto professores da modalidade, enquanto professores de Educação Física e enquanto cidadãos. Foram momentos de desafios; momentos que oportunizaram confrontos entre aquilo que acreditávamos e nossas reais capacidades, momentos em que a luta, a dança e jogo misturavam-se confundindo até mesmo o mais hábil praticante desta manifestação genuinamente brasileira. Esse contexto, é que me dá muita satisfação em saber que esta obra tem gênese na pessoa de um guerreiro, de um lutador, de um professor, de um perseverante. Só isto já justifica a leitura e apreço por este livro. Um livro feito por brasileiros, de algo brasileiro, que trata da resistência ao colonialismo ainda presente em nosso cotidiano, da libertação e transformação social pela educação, da Capoeira, de Paulo Freire, ou seja, um livro que trata do Brasil e de brasileiros. Sustentados em diversos autores, mas especialmente em Paulo Freire, os autores procuraram oportunizar o diálogo, que aqui poderíamos chamar de jogo, entre a educação e a Capoeira como processos inter, intra e trans étnico e como construções humanas que implicam em transformações sociais e culturais. Os autores entendem que ainda vivemos sob os efeitos da colonização, que os sentimentos de colonizados ainda estão impregnados em nosso ser e, consequentemente, em nossas ações e cotidiano. Neste sentido, segundo os autores, a Capoeira e Paulo Freire em sua Pedagogia da Autonomia têm a capacidade e potencialidade de desenvolver o processo de humanização “libertador” que se apresenta como potencial de resistência ao colonizador por meio de um processo essencialmente político e humano. Quem melhor do que Paulo Freire para alicerçar tal entendimento, tal debate e tal discussão? Para sustentar um estudo que acredita na educação como elemento de transformação e libertação. Para despertar a necessidade de resistirmos e nos conscientizar da necessidade de constantemente nos sentirmos inacabados, pronto para aprendermos e nos transformarmos. 11 Ernesto Jacob Keim & Carlos José Silva O que melhor para sustentar e colaborar com o debate sobre resistência e libertação do que uma manifestação genuinamente brasileira, oriunda de movimentos comunitários e lutas de classes e que, desde sua gênese, transgrediu os códigos das culturas dominantes – a Capoeira? Mestre Pastinha, em sua simplicidade e extrema sabedoria já falava: “Capoeira – mandinga de escravos em ânsia de liberdade. Seu princípio não tem métodos, seu fim é inconcebível ao mais sábio dos mestres”. O que melhor que o encontro, ou poderíamos chamar de jogo, oportunizado pelos autores entre Capoeira e Paulo Freire para sustentar a necessidade de constantemente nos transformarmos, de resistirmos às ações colonizadoras ainda presentes em nosso ser e cotidiano. É neste sentido que os autores destacam que a educação e a Capoeira têm elementos comuns. São realizadas por pessoas, motivadas pelo encontro, pela relação fraterna e recíproca. Falam sobre interação humana, defendem que todo tipo de interação é política e que a Capoeira, em sua essência, oportuniza todo tipo de interação. O livro ainda nos traz mais justificativas para a inserção (de vez) da Capoeira nos currículos escolares. Inúmeros trabalhos já a justificam, mas este que hora prefaciamos o faz a partir de discussões da educação popular e da Capoeira enquanto brasileira, enquanto parte da identidade do oprimido, enquanto elemento dignificante de resistência contra o colonialismo ainda presente em nosso cotidiano e, por fim, como propositora de libertação e autonomia. Enfim, em busca de uma educação brasileira. Afinal, o que é mais humanizador que um conhecimento novo, uma nova leitura? O que é mais potencializador de uma autonomia do que um novo olhar, do que novos sons? O que é mais motivador e conscientizador do que uma nova postura e uma ressignificação? O que mais nos estimula a resistir do que a esperança e o eterno incabamento? São fascinantes as características deste livro, principalmente para aqueles que acreditam nas transformações sociais por meio da educação e para aqueles que acreditam na Capoeira enquanto instrumento de resistência e de desenvolvimento humano. Entendo que a Capoeira só alcançou o patamar em que se encontra devido ao atrevimento dos seus praticantes, ao empreendedorismo de alguns, à viva necessidade de libertação e resistência em seu cotidiano e reconhecimento da mesma como elemento de integração e educação, como muito bem fazem os autores desta obra. Desejo aos autores o reconhecimento pela obra, pelo tema desenvolvido, pelo jogo proporcionado e, é claro, pelo ”atrevimento” necessário à ciência e ao desenvolvimento humano. É uma obra que deve ser lida, avaliada, debatida (ações cotidianas do universo acadêmico). É uma obra que deve acima de tudo 12 Capoeira e Educação Pós-Colonial: Ancestralidade, Cosmovisão e Pedagogia Freiriana ser apreciada, degustada, principalmente por aqueles que acreditam na transformação humana, social, coletiva e popular. Sinto-me honrado e feliz em participar deste momento, agradeço aos autores tal generosidade. Aos leitores, êxito em sua leitura. Sérgio Augusto Rosa de Souza Mestre Sanhaço – Grupo Muzenza de Capoeira Professor Ms. da Universidade Federal do Maranhão/UFMA 13 Do protesto negro À acomodação ou revolução social? Carlos Bauer Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Nove de julho – PPGE/ Uninove. O livro Capoeira e Educação Pós-Colonial: Ancestralidade, Cosmovisão e Pedagogia Freiriana, de Ernesto Jacob Keim e Carlos José Silva, é uma excelente oportunidade para que possamos refletir e reconhecer que, em nosso país, os negros são os testemunhos vivos da persistência de um colonialismo destrutivo e dilacerante, disfarçado com habilidade e soterrado por uma opressão inacreditável, que se constituiu de episódios sórdidos, indescritíveis e incontáveis na cotidianidade social. O mesmo ocorre com o indígena, com os trabalhadores rurais excluídos da posse da terra e com os trabalhadores da construção civil das cidades. Por isso, como deixam bem claro nossos autores, “esse é um livro com clara posição política e ideológica a favor de reflexão que exponha algumas contradições sobre as quais se organiza o contexto civilizatório ao qual estamos submetidos e que nele interagimos.” (p.12) Por que o negro produziu o protesto mais demorado e consistente da história social brasileira? Porque ele sofreu todas as humilhações e frustrações da escravidão, de uma Abolição feita como um arremedo político, como um arranjo do grande proprietário branco para o branco, proprietário de tudo, de coisas, terras e gentes, e dos ressentimentos que teve de acumular, purgando nas cidades, ocupando os postos de trabalho mais degradados e degradantes da condição humana, tentando ser gente, ser povo e encontrar o seu reconhecimento social e lugar na construção da cidadania. Na sociedade brasileira, o negro surgia como um símbolo, uma esperança indelével e o desafio, transformado em utopia, do que deveria ser a democracia como fusão de igualdade com liberdade. De fato, as linhas desse oportuno e instigante livro, deixam muito claro que, no Brasil, foi o negro quem marcou presença como mão de obra escrava no período colonial, como mão de obra barata nos momentos que imediatamente antecederam a industrialização, e garantia para a transnacionalização do capitalismo, sob o olhar de decantada democracia racial que se fez por essas paragens! Não bastasse isso, o contingente de ex-escravos, após a abolição, não foi integrado como mão de obra livre nas regiões que se modernizavam e se industrializavam. Para estes setores, vieram trabalhadores imigrantes europeus. Não porque esses homens e mulheres mostrassem qualquer deficiência em relação 15