1 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE COORDENAÇÃO GERAL DE PÓS-GRADUAÇÃO ESCOLA DE ENFERMAGEM AURORA AFONSO COSTA MESTRADO EM CIÊNCIAS DO CUIDADO EM SAÚDE ENVELHECIMENTO E FINITUDE NA PERSPECTIVA DE IDOSOS HOSPITALIZADOS: CONTRIBUIÇÕES PARA O CUIDADO DE ENFERMAGEM BÁRBARA DA SILVA E SILVA CUNHA Niterói-RJ 2013. 2 BÁRBARA DA SILVA E SILVA CUNHA ENVELHECIMENTO E FINITUDE NA PERSPECTIVA DE IDOSOS HOSPITALIZADOS: contribuições para o cuidado de enfermagem Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado Acadêmico em Ciências do Cuidado em Saúde da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial à obtenção do Título de MESTRE EM ENFERMAGEM. Área de Concentração: a Complexidade do Cuidado em Enfermagem e Saúde. Linha de Pesquisa: o Cuidado nos Ciclos Vitais Humanos – Tecnologias e Subjetividades na Enfermagem e Saúde. Orientadora: Profª Drª FÁTIMA HELENA DO ESPÍRITO SANTO Niterói – RJ 2013. 3 ENVELHECIMENTO E FINITUDE NA PERSPECTIVA DE IDOSOS HOSPITALIZADOS: contribuições para o cuidado de enfermagem Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado Acadêmico em Ciências do cuidado em Saúde da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial à obtenção do Título de MESTRE EM ENFERMAGEM . Aprovada em Niterói, 21 de Janeiro de 2013. BANCA EXAMINADORA Profª Drª Fátima Helena do Espírito Santo – Presidente Universidade Federal Fluminense - UFF Profª Drª Rosângela da Silva Santos –1ª Examinadora Universidade do Estado do Rio de Janeiro-UERJ Profª Drª Rose Mary Rosa Costa Andrade e Silva – 2ª Examinadora Universidade Federal Fluminense - UFF Profª Drª Jaqueline Da Silva – Suplente Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ Profª Drª Elaine Antunes Cortez – Suplente Universidade Federal Fluminense - UFF 4 DEDICATÓRIA Dedico esta pesquisa aos meus pais César Roberto da Silva Cunha e Maria Elizabeth da Silva pelos ensinamentos, pelo amor incondicional, pelo incentivo empreendido que fizeram de mim essa pessoa autodeterminada, que luta e corre atrás de seus objetivos. Ao meu irmão Raphael da Silva e Silva Cunha e minha cunhada/irmã Renata Garcia Fontes, que sempre estiveram ao meu lado me apoiando em todos os momentos da minha vida, pela paciência nos meus dias de tensão durante o mestrado, pela ajuda emocional, pelo companheirismo e dedicação que fazem de minhas dúvidas– minhas certezas. Aos meus queridos padrinhos: Júlio César Rego Gama e Maria Angélica Gama Ervatti pelo apoio e orientação espiritual. Aos meus avôs Maria Elizabeth Lopes da Silva e Renato Pinheiro Dias da Cunha (in memorian) pelos cuidados, pelo amor e carinho e pela família maravilhosa que construímos. Minha eterna saudade. 5 AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a Deus pela dádiva da vida, pela paz interior e equilíbrio e pela crença na espiritualidade que me trouxeram um significado transcendental em si. Aos eternos amigos Júlio César Santos da Silva (Julinho) pelo incentivo e motivação para que eu consolidasse mais uma etapa da minha vida. A Joice Cordeiro Ferreira Lamego, Daiana Paula Bolzan, Emerson Márcio dos Santos pelo apoio e amizade durante esses anos. A Liz Bastista da Silva por toda cooperação e auxílio quando sempre precisei. A minha querida orientadora Profª Drª Fátima Helena do Espírito Santo pelos ensinamentos e lições de vida, pela compreensão, pelo zelo e carinho, pela cumplicidade e dedicação na elaboração do projeto e ainda por ter aceitado prontamente esse desafio que a pesquisa proporcionou. Em sua essência maternal e acolhedora obtive além do refúgio durante minhas ansiedades, esclarecimentos e reflexões. Comigo carrego minha eterna admiração, gratidão e amizade. Aos professores do Curso de Mestrado Acadêmico em Ciências do Cuidado em Saúde da EEAAC/UFF pela abordagem interdisciplinar de conteúdos pertinentes à construção da pesquisa e pelas sugestões e apontamentos conexos ao Programa. Um agradecimento especial à Profª Drª Marilda Andrade que acompanhou de perto a minha trajetória acadêmica e que me amparou nos momentos de angústia. Aos funcionários da Coordenação de Pós-Graduação que nos forneceu esclarecimentos, além do auxílio necessário. Aos colegas e amigos, que diante de todas as adversidades, colaboraram para a construção de novas concepções. Em especial as amigas Daniela Ferreira da Silva que compartilhou comigo muitas dúvidas, queixas, como também alegrias e vitórias, por proporcionar momentos prósperos de descontração fora da universidade. A amiga e psicóloga Adriana Marques de Souza pelo apoio emocional, pela amizade, pela troca de experiências. As companheiras Aline Schultz e Graziele Bittencourt pelo convívio, incentivo e apoio. Aos docentes membros da banca: Profª Drª Rosângela da Silva Santos, Profª Drª Rose Mary Rosa Costa Andrade e Silva, Profª Drª Jaqueline Da Silva e Profª Drª Elaine Cortez pelos apontamentos e sugestões que trouxeram grandes constribuições à dissertação, e pelo aceite quanto a participação. As chefias das unidades das clínicas médica e cirúrgica, masculina e feminina, ao corpo médico, aos enfermeiros e colegas que um dia fizeram parte da minha vida 6 profissional (Carla, Samanta, Fabiane, Mauro, Welington, Cláudio, Marinet, Paulo), a equipe técnica de enfermagem do Hospital Universitário Antônio Pedro (HUAP) pela colaboração durante a coleta de dados. Aos idosos entrevistados que aceitaram espontaneamente participar da pesquisa. Aprendi com os senhores os verdadeiros ensinamentos quanto aos aspectos pertinentes ao envelhecimento e finitude, com o enfoque da história de vida de indivíduos dotados de experiências, saberes, valores e crenças. A todos e todas o meu Muito Obrigada!! 7 RESUMO Trata-se de uma pesquisa qualitativa, descritiva-exploratória, que utilizou o método de história de vida, que teve como objeto de estudo o envelhecimento e a finitude na trajetória de vida dos idosos hospitalizados. Os objetivos do estudo foram descrever a trajetória de vida do idoso, identificar a perspectiva de envelhecimento e finitude na trajetória de vida do idoso hospitalizado, discutir as implicações dessas perspectivas para o cuidado de enfermagem ao idoso hospitalizado. A pesquisa teve como cenário as unidades de clínicas médica masculina e feminina e cirúrgica masculina e feminina de um hospital Universitário situado em Niterói. A coleta de dados se deu através de entrevista aberta com 15 idosos hospitalizados durante o período de março a agosto de 2012. Os resultados da pesquisa apontam para a primeira categoria (Re)Vivendo Histórias surgiram três sub-categorias: O jogo da memória no significado do envelhecer - os idosos rememoram aspectos vividos desde infância, que apresenta sentido negativos e positivos da velhice; Percebendo as “perdas” no carrossel da vida - os idosos revelaram que durante a trajetória de vida, perceberam a maior predominância das perdas, e assim, influenciou para a forma de enfrentamento e reflexão diante da sua hospitalização; Superando os limites da vida - os idosos discutiram sobre as fases dificultosas que passaram no decorrer da vida, em que houve a necessidade de superação para encontrar um novo sentido à vida. Na segunda categoria Refletindo Situações Limites da Vida Durante a Hospitalização surgiram duas sub-categorias que foram: Compreendendo sua própria finitude diante da hospitalização - os sujeitos refletiram sobre a própria finitude no ambiente hospilar, enfatizando essa percepção através das perdas enfrentadas na história de vida da; Analisando as novas perspectivas diante da vida - os idosos manifestaram grande influência para revalorização dos seus significados, enquanto sujeitos cidadãos dotados de direitos e deveres na sociedade. Conclui-se que trazer à tona essas representações sobre as perspectiva do envelhecimento e finitude aos idosos hospitalizados, permitiu a análise da história de vida em que possibilitou reflexão quanto o sentido da sua existência, tendo em vista que as representações das perdas são comuns aos idosos, e remetem-se no momento da hospitalização por decorrência da fragilidade e vulnerabilidade. Então, as ações voltadas para a assistência à população idosa internada devem contribuir para o bem estar físico e psíquico, além do maior envolvimento da equipe de saúde na compreensão da finitude e do envelhecimento, uma vez que há representações sociais negativas impostas pela sociedade, na qual a temática é empurrada para o confinamento institucional. Descritores: Envelhecimento; Morte; Cuidados de Enfermagem. 8 ABSTRACT It is a descriptive-exploratory, qualitative research that has used the method of life history and that has as aim to study aging and finiteness in the life trajectory of institutionalized elderly. The objectives of the study have been to describe the life trajectory of the elderly, to identify the perspective of aging and finiteness in the life trajectory of the institutionalized elderly, to discuss the implications of these perspectives for the nursing care of the institutionalized elderly. The research had as environment the male and female medical clinic units and male and female surgical units of a University hospital in Niteroi. Data collection was made through open interview with 15 institutionalized elderly during the period from March through August, 2012. The research results indicate for the first category (Re)Living Histories and three subcategories came out of it: The memory game in the meaning of aging – elder people remember aspects lived since childhood with negative and positive senses of elderly; Perceiving the “losses” in the life merry-go-round – elder people revealed that during life trajectory they have perceived the great predominance of losses and, thus, it has influenced the way of facing and reflecting about the difficult times they lived during their lives and in which there was the need of overcoming the fact for finding a new sense for life. In the second category, Reflecting the Limit Situations of Life During Institutionalization two categories came out: Understanding their own finiteness before institutionalization – subjects reflected on their own finiteness in the hospital environment, emphasizing this perception through the losses faced in life history; Analyzing the new perspectives before life – elderly manifested a great influence for revalorization of their meanings, as citizens with rights and duties in the society. One concludes that giving life to theses representations on the perspectives of aging and finiteness to the institutionalized elderly allowed the analysis of the life history in which it was possible the reflection as to the meaning of their existence, since the representations of the losses are common to elder people and they are alive at the moment of institutionalization due to their fragility and vulnerability. So, the actions towards to the assistance to the elder population institutionalized should contribute for the physical and psychic well-being, besides the greatest involvement of the health team in the understanding of the finiteness and aging, since there are negative social representations imposed by society, in which the theme is pushed to the institutional confinement. Descriptors: Aging; Death; Nursing Care. 9 RESUMEN Tratase de una pesquisa cualitativa, descriptiva-exploratoria, que ha utilizado el método de historia de vida, que tuvo como objeto de estudio el envejecimiento y la finitud en la trayectoria de vida de los ancianos hospitalizados. Los objetivos del estudio fueron describir la trayectoria de vida del anciano, identificar la perspectiva de envejecimiento y finitud en la trayectoria de vida del anciano hospitalizado, discutir las implicaciones de esas perspectivas para el cuidado en el trabajo de enfermeros al anciano hospitalizado. La pesquisa tuvo como escenario las unidades de clínica médica masculina y femenina e quirúrgica masculina y femenina de un hospital Universitario ubicado en Niterói. La coleta de datos se dio a través de entrevista abierta con 15 ancianos hospitalizados durante el período de marzo al agosto de 2012. Los resultados da pesquisa apuntan para el primer categoría (Re)Viviendo Historias han surgido tres sub-categorías: El juego de la memoria el significado del envejecer - los ancianos rememoran aspectos vividos desde la infancia, que presenta sentidos negativos y positivos de la ancianidad; Percibiendo las “pérdidas” en el carrusel de la vida - los ancianos han revelado que durante la trayectoria de vida han percibido la mayor predominancia de las pérdidas y, así, eso ha influenciado para la forma de enfrentamiento y reflexión delante su hospitalización; Superando los límites de la vida los ancianos han discutido sobre las fases dificultosas porque han pasado en el descorrer de la vida, en que hubo la necesidad de superación para encontrar un nuevo sentido en la vida. En la segunda categoría, Refletando Situaciones Límites de la Vida Durante la Hospitalización han surgido dos sub-categorías, que fueron: Comprendiendo su propia finitud delante la hospitalización - los sujetos han refletado sobre la propia finitud en el ambiente hospitalario, enfatizando esa percepción a través de las pérdidas enfrentadas en la historia de vida; Analizando las nuevas perspectivas delante de la vida - los ancianos han manifestado grande influencia para revalorización de sus significados, mientras sujetos ciudadanos dotados de derechos y deberes en la sociedad. Concluyese que traer a la superficie esas representaciones sobre las perspectiva del envejecimiento y finitud a los ancianos hospitalizados ha permitido el análisis de la historia de vida en que ha posibilitado reflexión cuanto al sentido de su existencia, ya que las representaciones de las pérdidas son comunes a los ancianos y remeten se en el momento de la hospitalización en consecuencia de la fragilidad y vulnerabilidad. Entonces, las acciones direccionadas para la asistencia a la populación anciana internada deben de contribuir para el bien-estar físico y psíquico, además del mayor envolvimiento del equipo de salud en la comprensión de la finitud y del envejecimiento, una vez que ha representaciones sociales negativas impostas por la sociedad, en la cual la temática é empurrada para el confinamiento institucional. Descriptores: Envejecimiento; Muerte; Cuidados de Enfermeros. 10 LISTA DE FIGURAS Figura 1 Esquema gráfico das Categorias e Sub-categorias definido por Cores...................................................................................................... 71 11 LISTA DE QUADROS Quadro 01 Caracterização dos idosos pesquisados distribuídos por sexo, idade, estado civil, número de filhos, ocupação, religião, clínica de internação................................................................................. 74 12 LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS AAS - Ácido Acetil Salicílico AIVD - Atividades Instrumentais da Vida Diária AVC - Acidente Vascular Cerebral AVD - Atividades da Vida Diária BAVT - Bloqueio Átrio Ventricular Total BVS - Biblioteca Virtual em Saúde CP- Controle Primário CS- Controle Secundário DAC- Doença Arterial Crônica DANT- Doenças Não Transmissíveis e seu Agravos DCNTs- Doenças crônicas não transmissíveis DeCS - Descritores em Ciências da Saúde DM - Diabetes Melitus DNA - Deoxyribonucleic Acid DPOC - Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica DVP - Doença Vascular Periférica HAS - Hipertensão Arterial Crônica HCTZ - Hidroclorotiazida HUAP - Hospital Universitário Antônio Pedro IAM - Infarto Agudo do Miocárdio IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IOT - Intubação Oro-Traqueal Lilacs - Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde OMS - Organização Mundial de Saúde 13 OPAS - Organização Pan-Americana da Saúde PNSPI - Política Nacional da Saúde da Pessoa Idosa SCA - Síndrome Coronariana Aguda SciELO - Scientific Electronic Library Online SUS - Sistema Único de Saúde TCLE - Termo de Consentimento Livre Esclarecido UFF - Universidade Federal Fluminense Unifesp - Universidade Federal de São Paulo USP - Universidade de São Paulo 14 SUMÁRIO CONSIDERAÇÕES INICIAIS Objeto de Estudo………………………………………………………………....... 22 Questões Norteadoras…………………………………………………………....... 22 Objetivos………………………………………………………………………....... 22 Justificativa Relevância da Pesquisa………………………………......................... 22 CAPITULO I: O ENVELHECIMENTO, O IDOSO E A FINITUDE HUMANA Considerações sobre o Envelhecimento Humano……………………………......... 26 Aumento da População Idosa: Quais Repercussões?................................................ 28 Estereótipos do Idoso na Sociedade Moderna………………………………........... 33 O Envelhecimento como um Processo Contínuo…………………………….......... 37 Princípios Gerontológicos no Cuidado ao Idoso……………………………........... 40 Aspectos Emocionais e Espirituais no enfrentamento do Envelhecimento e 42 Finitude…………………………………………………………………………...... Dimensões da Morte/Morrer para os Profissionais da Saúde………………........... 44 A Finitude Humana diante de sua Face Subjetiva…………………………............ 46 Sobre a Morte e o Morrer…………………………………………………….......... 50 CAPITULO II: PERCURSO METODOLÓGICO Caracterização da Pesquisa………………………………………........................... 59 O Método História de Vida...................................................................................... 59 Cenário do Estudo…………………………………………………………….......... 62 Sujeitos do Estudo…………………………………………………………….......... 64 Aspectos Éticos da Pesquisa…………………………………………………........... 64 A Coleta de Informações………………………………………………………........ 65 O “Caminhar” da Coleta de Informações................................................................... 66 Organização e Análise das Informações.................................................................... 70 CAPITULO III: APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 15 Perfil dos Idosos do Estudos………………………………………............................. 74 Historiograma dos Sujeitos da Pesquisa………………………………………........... 77 (Re)Vivendo Histórias…………………………………………………………........ 92 O jogo da memória no Significado do Envelhecer……………………………......... 92 Percebendo as “perdas” no Carrossel da Vida………………………………......... 114 Superando os Limites da Vida…………………………………………………........... 129 Refletindo Situações Limites da Vida Durante a Hospitalização…………............. Compreendendo sua Própria Finitude Diante 137 da 138 Hospitalização………….............................................................................................. Analisando as novas Perspectivas Diante da 145 Vida……………………………...................................................................................... CONSIDERAÇÕES FINAIS…………………………………………………....... 153 REFERÊNCIAS………………………………………………………………........ 158 APÊNDICES Apêndice A: Termo de Consentimento Livre e Esclarecido…………….................. 175 Apêndice B: Roteiro de Entrevista ………………………………............................ 177 ANEXO Anexo A: Carta de Aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa ……….................. 178 16 Desejo que você Não tenha medo da vida, tenha medo de não vivê-la. Não há céu sem tempestades, nem caminhos sem acidentes. Só é digno do pódio quem usa as derrotas para alcançá-lo. Só é digno da sabedoria quem usa as lágrimas para irrigá-la. Os frágeis usam a força; os fortes, a inteligência. Seja um sonhador, mas una seus sonhos com disciplina, Pois sonhos sem disciplina produzem pessoas frustradas. Seja um debatedor de idéias. Lute pelo que você ama. Augusto Cury 17 CONSIDERAÇÕES INICIAIS Considero o envelhecimento e a finitude relevantes para a reflexão da vida, uma vez que a partir daí redimensionamos o significado da existência. Assim, dissertar sobre temas tão subjetivos e delicados trouxeram desafios na busca de respostas, tendo em vista que ainda são pouco explorados nos entudos na área de Gerontologia e Enfermagem. Neste sentido, foi através de intensa dedicação e compromisso que me debrucei neste campo ainda visto na sociedade atual com um silêncio multidimensional, cercado de fragilidades. Apoiado nesta afirmativa, alguns autores esboçam a ideia de que tanto o envelhecimento quanto a finitude humana são considerados na sociedade ocidental como um tabu, pois apresenta grande complexidade na sua percepção, além de que é cordialmente escondida e negada (AGRA do Ó, 2008; OLIVEIRA, 2008; OLIVEIRA; QUINTANA; BERTOLINE, 2010; ARAÚJO; VIEIRA, 2004; COMBINATO; QUEIROZ, 2006) e, em alguns sentidos, recorre-se à medicalização e à medicina estética para atenuar esse fato real (HENAO, 2003). Alguns apontamentos referem-se ao envelhecimento e à finitude, presumindo que a velhice não deve ser confundida com a precipitação para o seu findar, ainda mais em se tratando de situação de hospitalização. Ao longo da minha trajetória acadêmica e profissional no âmbito hospitalar, no cuidado de enfermagem a clientes idosos hospitalizados presenciei algumas situações que me fizeram refletir quanto ao significado da finitude para esses idosos que muitas vezes verbalizavam: “não estou bem, já dei o que tinha que dar”, “isso… são os problemas da vida”, ou “o que eu tenho é problema de velhice”. Tais experiências contribuíram para despertar meu interesse em abordar mais profundamente essa temática de pesquisa visando proporcionar aos idosos internados, 18 uma assistência que contribua para a revalorização dos seus significados existenciais. O que pode repercutir diretamente na qualidade de vida e também nortear o cuidado de enfermagem no ambiente hospitalar a esses idosos. Assim, em estudo quanto ao levantamento do perfil sociodemográfico e de saúde de idosos atendidos no setor de emergência de um hospital geral, foi possível levantar uma variedade de informações relevantes para qualidade da assistência de enfermagem a essa clientela, que consome os serviços de saúde em decorrência de complicações por doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) (CUNHA; SÁ; NASCIMENTO, 2013). No entanto, um estudo paralelo de revisão integrativa no qual se identificou a percepção do envelhecimento e finitude para os idosos e equipe de enfermagem, evidenciando-se compreensões distintas sobre a temática. Pois, tais questões apresentam faces subjetivas, que possibilitam reflexões e transformações individuais, em que o saber e os valores construídos durante a trajetória de vida possuem significados de acordo com a visão de mundo e história de vida dentro de um contexto social (CUNHA; ESPÍRITO SANTO, 2013). Portanto, ao entender envelhecimento e finitude, devem-se considerar a finalidade do envelhecer como um projeto de individual, afirmando o apoio coletivo (PY; TREIN, 2006). Braz e Bitencurt (2000) e Zinn e Gutierrez (2008) destacam que uma das questões fundamentais da velhice é a vivência da finitude, em que se configura num caminhar continuo em direção ao fim da vida. Nesse sentido, o idoso é um ser situado no tempo, em que sua presença no mundo se constrói através das experiências vividas, logo o processo de envelhecer requer expressão existencial do indivíduo como em qualquer outra fase do desenvolvimento humano, entretanto a velhice só será entendida no seu fim quando houver significado no seu todo (BORGES, 2011). Sendo assim, Frumi e Celich (2006) discorrem sobre o fato de que o envelhecimento e a finitude representam um processo natural da existência humana, contudo nem sempre aceito pelos seres que o vivenciam; e ainda, quando a sabedoria e história de vida do idoso são valorizadas, entendidas e consideradas, o sujeito percebe que sua existência possui significação. Portanto é fundamental entender alguns aspectos sobre o envelhecimento e finitude que trazem uma série de interpretações que variam de um indivíduo para outro, levando em consideração as relações sociais que contribuem para a desvalorização da 19 velhice no mundo moderno e, além disso é preciso desmistificar o fenômeno da morte o qual é omitido na cultura contemporânea. No início da década de 70 a inserção da mulher no mercado de trabalho, os avanços na área da medicina diagnóstica e implantação de políticas públicas de saúde, bem como o incentivo à amamentação exclusiva, a vacinação infantil, atenção ao prénatal e campanhas quanto ao uso de métodos contraceptivos contribuíram para a redução da mortalidade infantil e redução da natalidade, repercutindo diretamente no aumento da expectativa de vida. Desta forma, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010d), a esperança de vida ao nascer subiu para 73,48 anos em ambos os sexos, considerando que a mulher vive mais que o homem. Em contrapartida, nos dias atuais, observa-se um aumento da violência urbana nos grandes centros urbanos, atingindo principalmente jovens que morrem precocemente. Nesse contexto, a morte se faz presente através da mídia a todo o instante, nos jornais, revistas, noticiário, obrigando o indivíduo a encarar este fato constantemente. Portanto, toda a humanidade está sujeita à morte e essa realidade assusta os indivíduos e a vulnerabilidade é um fato universal que está intrinsecamente ligada à condição humana, já que “o ser humano está exposto a multiplos perigos: o perigo de adoecer, o perigo de ser agredido, o perigo de fracassar, o perigo de morrer. Viver humanamente significa, pois, viver na vulnerabilidade” (ROSELLÓ, 2009, p. 57). Para Novaes (2000, p. 28), “pela proximidade concreta da finitude as pessoas desenvolvem fantasias e medos da morte, não conseguindo libertar-se dessa angústia, muitas vezes paralisadora”. No que tange a abordagem da velhice e morte para a sociedade ocidental, esta traz representações e significações positivas ou negativas sobre sua própria finitude, pois permite a elaboração de conceitos na sua perspectiva de vida, que envolve a trajetória de vida do sujeito e as experiências que envolvem a morte. Assim, procurou-se para o presente estudo, referências sociológicas que pudessem contribuir para maior compreensão dessas questões, o que conduziu ao pensamento do sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990) o qual propõe algumas reflexões sobre a temática do envelhecimento e a morte como um problema social. Sobre a referida temática Elias (2001, p. 7) revela que a morte e o morrer são vistos na sociedade ocidental como tabu, onde o sujeito a reprime do convívio social, 20 afastando de si o máximo possível e, ainda, assumindo uma crença inabalável em nossa própria imortalidade em que “os outros morrem, eu não”. Para entender a dinâmica dessa sociedade que encobre o campo consciente da morte e ainda, a problematização da velhice. Assim, o que é abordado na sociedade atual, num movimento de exclusão dos velhos para a esfera privada, na qual cabe ao idoso o afastamento e isolamento do espaço público para os cuidados de especialistas, para o declínio da vitalidade que acaba no processo final da morte (AGRA do Ó, 2008). A obra de Elias (1982-2001) retrata essa realidade evidenciada em “A solidão dos moribundos”, a qual trata da problemática como consequência da exclusão dos velhos e a retirada desse sujeito do meio social, ressaltando a convivência parcial dos jovens com os idosos que nega a identificação com o outro, sendo distanciado do cotidiano. E, além disso, há uma dificuldade em aceitar a morte, que é empurrada para longe do convívio social, dessa forma esta tende a ser “recalcada”: Pode-se tratar de um “recalcamento” tanto no plano individual como no social. No primeiro caso, o termo é utilizado no mesmo sentido de Freud. Refere-se a todo um grupo de mecanismos psicológicos de defesa instilados pelos quais experiências de infância excessivamente dolorosas, sobretudo conflitos na primeira e a culpa e a angústia a eles associadas, bloqueiam o acesso à memória (ELIAS, 2001, p. 15). Ainda sob esse aspecto, o recalcamento tido na segunda instância, refere-se ao condicionamento da psique humana em relação à morte, que se manifesta no meio social. Pois, “essas situações de enfrentamento individual e social são duas linhas próximas de atuação, e só podem ser percebidas quando comparadas a épocas anteriores e ou outras sociedades” (ELIAS, 2001, p. 18). Corroborando para a análise da morte para o ser humano, na perspectiva social nos tempos atuais, outra obra de grande referência é a do historiador francês Philippe Ariès (1975-2003) em a “História da Morte no Ocidente: da Idade Média aos nossos dias”, a qual reflete a compreensão acerca da morte e morrer em épocas distintas, onde para o autor: As transformações do homem diante da morte são extremamente lentas por sua própria natureza ou se situam entre longos períodos de imobilidade. Os contemporâneos não a percebem porque o tempo que as separa ultrapassa o de várias gerações e excede a capacidade da memória coletiva (ARIÈS, 2003, p. 20). 21 De um modo geral, a abordagem de Ariès discorre sobre a ideia de que a sociedade moderna sofreu transformações ao longo dos tempos, que representou o afastamento da morte do convívio do homem para um isolamento institucionalizado, o que permitiu a atuação da medicina e da tecnologia. Houve uma centralidade da morte para a família e o falecido como coadjuvante. Bem diferente dos tempos da era Idade Média, em que havia serenidade quanto ao enfrentamento da morte pela sociedade, na qual era exaltada publicamente em um ritual. Outro ponto a destacar varia de acordo com o advento das doenças crônicas na vida do idoso, em que as circunstâncias do processo do adoecimento geram alterações na integridade subjetiva da dimensão humana. Desta forma, as doenças nos idosos são fenômenos complexos identificadas de acordo com aspectos genético-biológicos, variando conforme o surgimento (agudo ou gradual), destacando a sintomatologia (gravidade), o curso (progressiva, constante ou reincidente/esporádica), finalizando em seus efeitos (modificações, incapacidade, redução da expectativa de vida e morte) (SILVA, 2009). Para Oliveira (2008, p. 21), “nos dias de hoje com a produtividade sendo o pilar de nossa sociedade, um idoso que não trabalha perde o valor, recobre-se de estigmas de deteriorização e é colocado à margem da sociedade”. O mundo contemporâneo, segundo Borges (2008), preocupado com seus objetivos, se contrapõe à qualidade de vida e à valorização simbólica da velhice, pois os indivíduos tendem a se esconder diante de inúmeras tecnologias a fim de evitar o que é inevitável pelas condições temporais. Aliado a isso, há também uma atmosfera negativa sobre o envelhecimento dotado de paradigmas que contribuem para a vulnerabilidade e fragilidade. Para Zinn e Gutierrez (2008, p. 82): Os idosos convivem com crenças sociais e estereótipos que supervalorizam os pontos negativos da velhice, tais como: perdas fisiológicas, incapacidades funcionais, restrições, déficit cognitivo, entre outros, muitas vezes, essa atmosfera negativa sobrepõe o lado positivo da velhice, marcado pela fase constituída por ganhos e experiências compensatórias. Nesse sentido, as estratégias de ações voltadas para a assistência à população idosa hospitalizada devem contribuir para o bem estar físico e psíquico, além do maior envolvimento da equipe de saúde na compreensão da finitude e do envelhecimento, uma vez que há representações sociais negativas compartilhadas pela sociedade, na qual a temática tende a ser empurrada para o confinamento institucional. 22 Logo, algumas considerações se inserem no campo da enfermagem gerontológica, a fim de estabelecer uma assistência humanizada, além do empreendimento de esforços visando à integralidade da assistência ao idoso, na qual o tema relativo à morte ainda é um mistério, cercado de fragilidades. Deve-se salientar também, que vivemos em uma época onde os avanços tecnológicos predominam e isto contribui para um distanciamento da equipe em relação ao sujeito, o que leva a um isolamento afetivo-emocional. Pois, às vezes, não sabemos lidar com certas questões que envolvem o sofrimento, o medo, a finitude em relação à sua temporalidade e certos anseios. Diante de todos esses aspectos acerca da finitude e da velhice, torna-se importante ampliar esta temática nas pesquisas, haja vista que ainda há poucos estudos na perpectiva da enfermagem gerontológica, que busque a assistência integral e holística voltado à população idosa, considerando o aspecto biopsicossocial, tendo como meta a melhoria da qualidade de vida do idoso. Assim, à luz dessas considerações, delimitou-se como objeto de estudo: O envelhecimento e a finitude na trajetória de vida do idoso hospitalizado. Questões Norteadoras Qual a perspectiva de envelhecimento e finitude na trajetória de vida do idoso hospitalizado? Quais as implicações do envelhecimento e finitude para o cuidado de enfermagem ao idoso hospitalizado? Objetivos Descrever a trajetória de vida do idoso; Identificar a perspectiva de envelhecimento e finitude na trajetória de vida do idoso hospitalizado; Discutir as implicações dessas perspectivas para o cuidado de enfermagem ao idoso hospitalizado. Justificativa e Relevância da Pesquisa O crescimento populacional brasileiro frente ao aumento da expectativa de vida e à redução da fecundidade trouxeram mudanças em um curto espaço de tempo. O que 23 vemos atualmente é que a demanda no setor saúde traz novos desafios no que se refere à transferência de recursos, e o envelhecimento populacional que implica um aumento das doenças crônicas não transmissíveis que levam a constantes internações hospitalares, consultas ambulatoriais, e aumento no consumo de medicamentos (CAMARANO et al, 1999). Portanto, o Brasil passa a vivenciar um aumento na demanda de idosos nos serviços de saúde necessitando investir em politicas públicas e estratégias de suporte a esses indivíduos, visando melhoria do atendimento a partir de uma abordagem adequada que considere as especificidades inerentes ao processo de envelhecimento e às necessidades individuais dos sujeitos. Além disso, deve-se considerar que a medo da própria finitude revela ao indivíduo um sentimento natural e universal, indistinguível a classes sociais, idade, sexo e culturas. Assim, a morte e o morrer variam conforme o contexto sócio-cultural e histórico das diferentes civilizações (AGRA; ALBUQUERQUE, 2008). Nesse sentido, os aspectos relacionados ao processo de envelhecimento e finitude humana emergem através de momentos reflexivos da vida e a Enfermagem destaca-se pela possibilidade de oferecer um cuidado que proporcione bem estar fisico e psíquico aos idosos hospitalizados. Com base nessas considerações, os enfermeiros que atuam na assistência com idosos devem considerar que no momento do processo de internação hospitalar ocorrem mudanças comportamentais que variam de um indivíduo para outro. O idoso nesse momento se afasta de sua centralidade, o que leva ao comprometimento do bem estar subjetivo. Logo, um dos aspectos relacionado a bem estar subjetivo pode ser compreendido como medidas cognitivas na qual se destaca a satisfação global com a vida, medidas essas emocionais ou afetivas, como valores positivos ou negativos (SIQUEIRA, 2007). Dentro desse propósito, a Enfermagem destaca-se na aderência à linha de pesquisa do Mestrado - Cuidado nos ciclos vitais humanos, tecnologia e subjetividades na saúde - no que tange à contribuição da integralidade do Cuidado ao idoso. Portanto, é necessário oferecer aos profissionais subsídios para que compreendam aquilo que se apresenta de forma invisível aos olhos, e isto é considerado uma forma de cuidado (COSTENARO; LACERDA, 2001). Corroborando com o autor, Penha (2009, p. 91) diz que: 24 Ter a oportunidade de estar junto ao outro que perpassa com maior proximidade pelo fenômeno do morrer exige uma habilidade que pouco aprendemos nos cursos de formação profissional: A arte do silêncio. O silêncio, aliado à escuta terapêutica, proporciona o contato com a essência do outro. A partir daí, o Enfermeiro poderá implementar estratégias para a mudança no comportamento, através de programas que incentivem à função cognitiva, autonomia, independência, contribuindo para o bem estar físico, mental e social, além de contribuir de forma perspicaz para a qualidade de vida. Pois, a educação para os profissionais da enfermagem que atuam na assistência, torna-se relevante uma vez que a morte e o morrer fazem parte do cotidiano do profissional, já que estão não apenas em um quantitativo maior no ambiente hospitalar, mas também por um tempo maior nas diretrizes assistenciais. Dentro desse propósito, viabiliza a aplicabilidade do conhecimento técnicocientífico, no sentido de trabalhar o envelhecimento e a finitude de maneira que contribua para a análise da história de vida do idoso, a fim de desenvolver a assistência humanizada, na escuta quanto ao alívio de suas emoções de modo a aceitá-lo de forma individual e integral. As experiências de perdas e lutos, levando em consideração a análise da vulnerabilidade frente aos fatores de risco que se desenvolve com a internação, a partir de sua identificação e percepção dos grupos mais desfavoráveis. Souza et al (2010, p. 3943) identificam que “o cuidado ao idoso deve prezar pela manutenção da qualidade de vida, considerando os processos de perdas próprias do envelhecimento”. A aplicabilidade do tema para a representação acadêmica permitirá o conhecimento técnico-científico em uma área pouco explorada, que é a representação do envelhecimento e finitude ao idoso hospitalizado, a qual envolve uma série de questões de representações sociais, onde a velhice e morte são silenciadas. Também desenvolverá para prática acadêmica a adoção de conteúdo científico, a partir da problemática sob o ponto de vista do sujeito que a vivencia. Ainda sob esse ponto de vista, propiciará a formulação quanto às grades curriculares para adoção mais precisa e específica, quanto à abordagem da morte a qual também é pouco abordada. Para o campo da pesquisa, que até então, encontram-se poucas produções científicas por pesquisadores enfermeiros, fornecerá subsídios para construção de novos paradigmas da subjetividade humana. Portanto, há necessidade de melhores 25 compreensões para a investigação desta temática ainda tratada com temor, pois existe a escassez de respostas. Assim, o papel fundamental da pesquisa para a instituição será o de viabilizar ensino e treinamento aos profissionais de enfermagem que atuam na assistência a idosos; programa de informação e educação para a clientela idosa internada na unidade hospitalar; adotar planejamento e métodos de cuidados alternativos, que permitirá o resgate dos valores de idosos fragilizados e sem expectativa de vida, minimizando seus medos e anseios em relação à morte. Logo, os profissionais de enfermagem devem se comprometer com o cuidado integral ao idoso hospitalizado, no sentido de entendê-lo como um indivíduo que possui uma história de vida, pois desta forma, oferecem “proteção ao qual pode dar sentido e legitimidade ao nosso agir profissional enquanto princípio ético de qualquer prática de cuidado” (SCHRAMM, 2002, p. 18). Em virtude disso, não podem limitar sua atenção no atendimento daquilo que é visível no corpo, principalmente em áreas críticas onde a vivência com situações de vida – morte é sempre tão próxima. 26 CAPÍTULO I: O ENVELHECIMENTO, O IDOSO E A FINITUDE HUMANA Considerações sobre o Envelhecimento Humano O tema “envelhecimento da humanidade” sempre esteve presente na sociedade, e é hoje visto como um fenômeno mundial. Atualmente, configura-se um crescimento na demografia mundial, aonde a população longeva brasileira vem adquirindo destaque ao longo dos tempos, e ainda continua crescente essa pirâmide etária. A demanda do crescimento populacional na dimensão mundial já apresenta um aumento significativo em relação a outros grupos etários. Isso é validado, quando a estatística mundial mostra que de 1990 a 2025, haverá aumento na população idosa de 2,4% ao ano, contra 1,3% de outros grupos etários em sua totalidade (PAPALÉO NETTO, 1996). O aumento de idosos que em 1999 era de 9,1%, obteve um avanço de 13,9% em 2009 (IBGE, 2009). Na esfera brasileira, teremos 64 milhões de idosos em 2050, representando 29.7% da população total (MAMEDE, 2011). Assim, o fenômeno denominado como transição demográfica, resulta na mudança de característica do regime demográfico de alta natalidade e alta mortalidade para outro com baixa natalidade e baixa mortalidade (LEBRÃO, 2009). A redução da taxa de fecundidade teve início na década de 70, onde houve um aumento da produtividade no mercado de trabalho por mulheres, representado por profundas mudanças nos setores econômicos, políticos e sociais. Neste sentido, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2001) a queda da taxa de natalidade nas três últimas décadas, de 5.8 filhos em 27 1970, para 2.3 filhos em 1999; traduz na inserção maciça de mulheres no mercado de trabalho, e também no aumento do nível de escolaridade. Além disso, outro fator importante a ser considerado é a redução da mortalidade infantil e aumento da esperança de vida ao nascer, que trazem mudanças da estrutura etária do país, ocasionando aumento progressivo na estatística do envelhecimento. Fato esse abordado pelos autores, Vermelho e Monteiro (2003, p. 91) que discutem a consequência da transição demográfica, identificando três fases que são: estágio primitivo, onde ocorre um equilíbrio populacional, marcado por elevado número de mortalidade e natalidade; estágio intermediário de “divergência de coeficiente”, sendo compreendida pela taxa de natalidade que permanece alta, enquanto reduz a taxa de mortalidade, assinalando para a “explosão populacional”; estágio intermediário de “convergência de coeficiente”, onde a natalidade diminui mais que mortalidade, neste é visível o “envelhecimento” da população; por último, estágio moderno, em que há um equilíbrio populacional pelos valores de fecundidade que se aproxima do nível de reposição. Deve-se considerar que as taxas de mortalidade no Brasil tiveram redução nas estatísticas pela valorização das entidades públicas, no fortalecimento da saúde preventiva, como o progresso na assistência à saúde e sanitária da população, além da urbanização, contribuindo para melhoria das condições de vida. De acordo com o IBGE (1999, p. 10): A partir de meados da década de 70, o Estado brasileiro vem patrocinando algumas medidas de ações compensatórias (como saneamento básico, programas de saúde materno-infantil, imunização e ampliação da oferta de serviços médico-hospitalares descentralizados). Coincidindo com um período em que se observam fortes declínios dos níveis médios da fecundidade brasileira, que vêm tendo impactos positivos sobre a sobrevivência dos grupos infantis, e também sobre as condições de vida e de saúde da população em geral. Portanto, observa-se que ainda vivenciamos situação de pobreza extrema, e condições precárias de saneamento. Mesmo assim, os avanços tecnológicos permitiram a mudança do perfil de mortalidade por doenças infecto-parasitárias, que nos anos 60 e 70 eram fatais. Então, o histórico do envelhecimento populacional brasileiro nos aponta uma demografia com transformações progressivas na sociedade, no sentido que é visto como questão social. 28 Dias Júnior e Costa (2006, p. 2) analisam esse fato dizendo que: Desde a consolidação da transição demográfica, a problemática em relação aos estudos da população mudou de foco. Hoje a preocupação está em relação ao baixo crescimento populacional, que aliado ao aumento da proporção e da longevidade da população idosa, já está gerando, em alguns países, novas demandas sociais. Ao abordar a temática do envelhecimento humano, considera-se que essa ideologia, diante da sociedade brasileira, apresenta uma análise sob uma dimensão, repleta de desafios. Pois o envelhecimento é um fato real e progressivo, onde produz um impacto principalmente nos setores públicos; a destacar o setor saúde, que apesar de esforços serem desprendidos para a população longeva como avanços tecnológicos da medicina moderna, e a promoção do envelhecimento saudável, o idoso continua a consumir grandes despesas com tratamento hospitalar de saúde. Aumento da População Idosa: Quais Repercussões? A explosão do envelhecimento populacional é um fato considerado na atualidade como um fenômeno mundial, e também há um destaque na sociedade brasileira. Desta forma, existe um fator de crescimento maior dos grupos de idosos em relação aos outros grupos de outra faixa etária (CAMARANO, 2006). As perspectivas do envelhecimento no Brasil sugerem mudanças de paradigmas - para os defensores do aumento da natalidade - no que se refere ao enfraquecimento econômico e social, alimentando a ideia de que a velhice traria decadência individual e coletiva (ALVES JÚNIOR, 2009). Com isso, observam-se alguns significados distintos sobre a velhice, que traz à luz da visibilidade contemporânea, dois polos distintos; ao qual o primeiro representa a figura negativa do velho como: pessoa sem serventia, dependência, solidão, isolamento social e familiar. No segundo eixo, reflete a figura do aposentado ativo, com sabedoria e experiências acumuladas (SHIRATORI et al, 2009; ALVES JÚNIOR, 2009). As representações sociais, econômicas e políticas dos idosos no Brasil buscam mudanças no redimensionamento das prioridades no que tange ao comprometimento a uma nova demanda, tornando-se assim, um desafio aos setores públicos. Onde provoca mudanças em relação à oferta de serviços que forneçam atendimento de qualidade, assim como políticas que proporcionam a garantia de direitos e constituições referentes 29 ao idoso. É importante considerar que o envelhecimento produz mudanças individuais, familiares e sociais, onde o sujeito muitas vezes representa um papel secundário. Gonçalves (2005) discorre sobre a ideia de que o idoso na sua perspectiva de trajetória de vida, geralmente apresenta uma dificuldade de viver o presente, devido a fatores como limitações do corpo, doenças e suas comorbidades, convívio familiar desfavorável, declínio das atividades, e também, dependência financeira. Assim sendo, o processo de envelhecimento acontece de forma individual, onde os sujeitos passam por transformações contínuas que são inevitáveis. Deste processo, a velhice produz impactos psicológicos, biológicos, sociais, econômicos, configurando-se muitas vezes, em enfrentamentos internos decorrentes das alterações do ciclo vital. Por essas razões, os idosos cuja maior parte é representada por aposentados e pensionistas, também são cidadãos políticos, e isso é uma forma de identidade já que atualmente eles podem interagir e mobilizar mudanças para o reconhecimento de sua presença na vida do país (FIGUEIREDO; SANTOS; TAVARES, 2009). Segundo Goldman (2009, p. 34), os instrumentos utilizados enquanto direitos sociais incluem “educação pública, laica e universal, a saúde, a habitação, a previdência pública e a assistência social, dentre outros”. Neste contexto, visando à garantia dos direitos dos idosos, contemplados na Constituição Federal de 1998 (BRASIL, 1988, s/p) no seu Art.3º; inc. IV, o bem estar de todos sem qualquer discriminação é assegurado da seguinte forma: Art. 3º- Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: IV- promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. E ainda, para a construção do alicerce aos Direitos dos idosos (BRASIL, 1988, s/p) destaca-se: Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: § 1º - O alistamento eleitoral e o voto são: II - facultativos para: b) os maiores de setenta anos; Art. 230º- A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida. 30 § 1º - Os programas de amparo aos idosos serão executados preferencialmente em seus lares. § 2º - Aos maiores de sessenta e cinco anos é garantida a gratuidade dos transportes coletivos urbanos. Com vistas ao cumprimento dos interesses e necessidades da população idosa, o Estatuto do Idoso possibilita o envolvimento das entidades governamentais em defesa aos direitos fundamentais, medidas de proteção, acessibilidade jurídica, a também política de atendimento ao idoso. O referido Estatuto do Idoso (Lei Federal nº 10.741/2003) foi sancionado pelo ex-presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, e têm o objetivo de regulamentar os direitos dos idosos assegurados pela Constituição Federal de 1988. Esta Lei amplia a anterior (Lei Federal de 8.842, de 04 de janeiro de 1994), que dispõem sobre a Política Nacional do Idoso, cria o Conselho Nacional do Idoso e dá outras providências. (BRASIL, 2003). A seguir, destacam-se os principais artigos pertinentes aos direitos dos idosos os quais são relevantes à proposta do estudo, e que se referem aos direitos da pessoa humana como garantia de “oportunidades e facilidades, para preservação de sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade” (art. 2º do Estatuto do Idoso); quanto à efetivação de todos os direitos dos idosos, de acordo com o bem estar físico, social, psicológico, saúde, liberdade, respeito é obrigação da família, sociedade, e Estado (art. 3º); bem como, de acordo com (art. 4º) “nenhum idoso será objeto de qualquer tipo de negligência, discriminação, violência, crueldade ou opressão, e todo atentado aos seus direitos, por ação ou omissão, será punido na forma da lei” (BRASIL, 2003, p. 9). No que refere à saúde do idoso, o Estatuto do Idoso em seu (art. 10º) que relaciona a assistência de forma integral na rede do Sistema Único de Saúde (SUS) “acesso universal e igualitário, em conjunto articulado e contínuo das ações e serviços, para a prevenção, promoção, proteção e recuperação da saúde [...]” (BRASIL, 2003, p. 13); quanto às considerações de internação hospitalar pelos idosos, estes possuem o Direito de ter um acompanhante durante sua permanência no hospital (art. 16.º); para a adequada assistência de acordo com as necessidades do idoso na unidade de saúde, os profissionais devem ser capacitados, assim como os cuidadores e grupos de auto-ajuda (art. 18.º) (BRASIL, 2003). 31 De acordo com o Estatuto do Idoso (art. 20.º) traz relevância aos direitos quanto às atividades “educação, cultura, esporte, lazer, diversões, espetáculos, produtos e serviços que respeitem sua peculiar condição de idade” (BRASIL, 2003, p. 17); também para a prática das referidas atividades, o idoso terá direito à desconto de 50% em “[...] eventos artísticos, culturais, esportivos e de lazer, bem como o acesso preferencial aos respectivos local” (art. 23.º) (BRASIL, 2003, p. 18). Em relação ao (art. 29º), que se refere à Previdência Social, os idosos aposentados e pensionistas terão direito ao benefício previdenciário de acordo com “[...] critérios de cálculo que preservem o valor real dos salários sobre os quais incidiram contribuição, nos termos da legislação vigente” (BRASIL, 2003, p. 20). Para o transporte coletivo, o Estatuto do Idoso garante a gratuidade aos maiores de 65 anos, e em “[...] transportes coletivos públicos urbanos e semi-urbanos, exceto nos serviços seletivos e especiais, quando prestados paralelamente aos serviços regulares” (art. 39º) (BRASIL, 2003, p. 25). Visando à melhoria dos direitos fundamentais da população idosa, a Política Nacional do Idoso (Lei Federal nº 8.842/1994) deve proporcionar a garantia da autonomia e participação social. Ainda, quanto aos seus princípios, (art. 3º) destaca em seus incisos que é dever do Estado, da família e sociedade proporcionar o bem estar e o direito à vida ao idoso, além da cidadania e participação na comunidade; o processo de envelhecimento se refere à sociedade em geral, que deve ter o conhecimento e informação para todos; a população idosa não deve sofrer discriminação de qualquer natureza; o idoso deve ser o principal das transformações desta política (BRASIL, 1994). E quanto às diretrizes deve-se destacar: o convívio do idoso com as demais gerações; prioridade no atendimento ao idoso através das famílias, em detrimento ao atendimento asilar, à exceção dos idosos que não possuam condições que garantam sua própria sobrevivência; acessibilidade nas informações educativas sobre os aspectos biopsicossociais do envelhecimento; prioridade de atendimento em órgãos públicos e privados prestadores de serviços; apoio às pesquisas sobre o envelhecimento (art. 4º) (BRASIL, 1994). Também, no que tange às políticas públicas destinadas à população idosa, o Ministério da Saúde (2006) através do Caderno de Atenção Básica - Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa - lança mão de políticas de saúde com a finalidade de contribuir 32 para a longevidade saudável e envelhecimento ativo. Nesta perspectiva, têm como referência o Pacto pela Vida 2006 (tendo a saúde do idoso como uma das prioridades), Políticas Nacionais de: Atenção Básica, Atenção à Saúde da Pessoa Idosa, Promoção da Saúde e Humanização no SUS; além do aumento populacional de idosos no Brasil (BRASIL, 2006a). No que se refere ao Pacto pela Vida, em defesa do SUS e de Gestão (2006) traz algumas diretrizes principais que são: Promoção do envelhecimento ativo e saudável; atenção integral à pessoa idosa; implantação do serviço domiciliar; Acolhimento preferencial em unidades de saúde, respeitado o critério de risco; Formação e educação permanente dos profissionais de saúde do SUS na área de saúde da pessoa idosa; Divulgação e informação sobre a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa para profissionais de saúde, gestores e usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) (BRASIL, 2006b). O Pacto pela Vida também cita como estratégias: a Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa, que contém informações sobre a saúde dos idosos; Manual de Atenção Básica e Saúde para a Pessoa Idosa, voltado para as ações de saúde, tendo em vista as diretrizes contidas na Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa; Programa de Educação Permanente à Distância, o qual se refere à educação permanente na área do envelhecimento e saúde do idoso, voltado para profissionais da saúde; Acolhimento à pessoa idosa nas unidades de saúde; Assistência Farmacêutica, que desenvolve a dispensa de medicamentos à população idosa; Atenção Diferenciada na Internação, que contribui na avaliação ao idoso internado, visto que é realizada por uma equipe multidisciplinar; Atenção Domiciliar, que beneficia o idoso quanto ao atendimento residencial, valorizando o ambiente além dos familiares no processo de recuperação do paciente (BRASIL, 2010). Neste sentido, as políticas de saúde propostas no Caderno de Atenção Básica, visam oferecer suporte técnico e científico aos profissionais da saúde na atenção básica, levando em consideração que o aumento populacional de idosos no Brasil é contínuo, e com isso, ocorre o aumento das doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) (BRASIL, 2006a). Visando à melhoria da qualidade de vida do idoso de forma sistematizada, a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI) surge como meta para a avaliação funcional do idoso, na qual os objetivos são a independência e autonomia pelo maior 33 tempo possível, de acordo com o Ministério da Saúde (2006) no Caderno de Atenção Básica - Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa (BRASIL, 2006a). Assim, essa afirmação é complementada com o manual do Ministério da Saúde (2010) na Série Pactos pela Saúde 2006, v. 12 - Atenção à Saúde da Pessoa Idosa e Envelhecimento que diz: É função das políticas de saúde contribuir para que mais pessoas alcancem idades avançadas com o melhor estado de saúde possível, sendo o envelhecimento ativo e saudável, o principal objetivo. Se considerarmos saúde de forma ampliada, torna-se necessária alguma mudança no contexto atual em direção à produção de um ambiente social e cultural mais favorável para população idosa (BRASIL, 2010, p. 12). Considerando as especificidades do idoso, as políticas públicas devem fornecer acessibilidade e integralidade quanto aos Direitos e Deveres, de modo a fornecer subsídios para a qualidade de vida a uma população que cresce, e tende a crescer ainda mais nos próximos anos. Pois, “[...] é obrigação do Estado garantir à pessoa idosa a proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam um envelhecimento saudável e digno” (SHIRATORI et al 2009, p. 340). Estereótipos do Idoso na Sociedade Moderna O que pode ser entendido sobre o envelhecer, a área da medicina preventiva procurou estudar os processos do envelhecimento, definindo assim seus estágios no século XV; no século XVIII era visto como algo que o indivíduo trazia em si, cujo enfraquecimento acarretaria a velhice e, consequentemente, a morte; já no século XIX, a velhice era considerada como doença, tornando-se sinônimos; e, no século XX, surge a geriatria como especialidade médica, e logo após a gerontologia como uma ciência proposta a investigar o envelhecimento como um processo natural (OLIVEIRA, 2009). Assim, as atitudes diante do envelhecimento são as mais variadas, primeiro há uma recusa na identificação interior com a percepção da chegada à terceira idade, sendo que muitos recorrem à tecnologia para o adiamento deste fato que é real e progressivo. Deste modo: Há idosos que tentam adiar a velhice, pelo fato de não a aceitarem. São aqueles que fazem cirurgias plásticas, compram roupas diferentes e procuram parceiros jovens; tudo isso com diferentes saídas para manter a ilusão de que não estão envelhecendo (FIGUEIREDO; SANTOS; TAVARES; 2009, p. 19). 34 Tendo em vista essa imagem que o idoso coloca de si, torna-se difícil a aceitação do processo de envelhecimento, quando o corpo dá os primeiros sinais. Delalibera (2005, p. 9) enfatiza que “o corpo é atingido culturalmente pelas mais variadas esferas de poder, é vitimizado por apelos de consumo, pela forma como o trabalho o molda, como as crenças religiosas o concebem entre outros”. Com isso, essa recusa individual que também é repassada à sociedade, há uma negligência íntima de percepção das alterações do corpo com o envelhecimento, sendo visíveis essas alterações através da imagem refletida do outro como um espelho. A autora também relata que: É o outro do espelho quem denuncia sua condição de quem não pode mais satisfazer o outro e assim a idade se transforma em angústia. O sujeito constrói, portanto, a sua realidade a partir do encontro com sua imagem no espelho (DELALIBERA, 2005, p. 23). Em conformidade com essa questão, segundo o pensamento de Lévinas, considera-se que “O outro se destaca da multidão e, no entanto não é apenas diferente dela” (HUTCHENS, 2007, p. 39). As transformações do envelhecimento na sociedade como um problema social, tiveram além da influência do crescimento populacional de idosos e ainda aumento do número de aposentados, outras questões como a pobreza e dependência, e relações entre gêneros (ALVES JÚNIOR, 2009). Trazendo à luz esses questionamentos sobre o problema da pobreza, aposentadoria, e a dependência financeira remetem especialmente a população idosa humilde, que produz uma renda insuficiente para as suas demandas. Ainda mais se essa população tiver comprometimento em sua saúde, o que leva um maior gasto. Sendo assim, os idosos em situações de pobreza, principalmente quando a previdência social se torna a única fonte de renda, pode representar situações negativas e precárias no que se refere à qualidade vida; pois, além disso, ainda implica hábitos alimentares precários e asilamento, aliado às doenças (SILVA, 2009; NERI, 2007). Os idosos na sociedade moderna convivem com crenças estruturadas e formadas sobre o envelhecimento, com sentido negativo. Tais reflexões podem ser vistas quando Oliveira (2007, p. 279) destaca que “a sociedade capitalista, em particular a brasileira, impõe um isolamento social às pessoas que envelhecem e não participam diretamente 35 do processo produtivo”. Assim, quando as pessoas se aposentam e passam da categoria produtiva para a não produtiva, trabalhador para ex-trabalhador, ativo para inativo, estabelece desafios para própria existência; pois diante disso, encontram solidão pelo afastamento da vida social e convívio com amigos que é interrompida, além da família algumas vezes se distanciar, quando cada um segue o curso da própria vida ou então quando essa se desinteressa pelo idoso, e esse idoso não encontram a companhia dos jovens, e os adultos não dispõem de tempo para eles (SIQUEIRA; BOTELHO; COELHO, 2002; FIGUEIREDO; SANTOS; TAVARES, 2009). Outra situação que traz conflito para o idoso se refere à institucionalização, que traz solidão, falta de autonomia, vulnerabilidade. Pois, a institucionalização do sujeito idoso, considerado um tipo de violência, torna-o tendencioso a um isolamento dos laços afetivos sociais, empurrando-a para os bastidores da vida normal. Assim, para Loreiro (2008, p. 858), “o velho asilado, abandonado, com a autoestima em baixa, pode desejar a própria morte”. Desta forma, o ambiente institucional dos asilos é um local frio, dotado de normas e rotinas que deixam os idosos fragilizados pela perda da autonomia e dependência, ficando à mercê das regras impostas pela sociedade, no sentido de exclusão. Essa vulnerabilidade para os idosos ocorre por conta do distanciamento da rotina e convívio social que tinham antes de entrarem para a instituição, fato este que ocorre devido às barreiras que a instituição apresenta e que impedem o contato ao mundo externo pelos internos sem a permissão da divisão administrativa (BRASIL; SOUZA, 2005). São diversos os motivos que levam à institucionalização: impossibilidade de cuidar do idoso em domicílio; dificuldade de relacionamento intergeracional; dificuldades econômicas, para acompanhamento e tratamento médico do idoso dependente; dificuldade de adaptação dos membros da família quanto à modificação do domicílio que apresenta riscos físicos; compreensão dos familiares nos momentos difíceis, como lapsos de memória, história repetitivas, e avareza (FIGUEIREDO et al, 2009). Os mecanismos de vulnerabilidade e fragilidade pelo processo de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) influenciam também na estereotipia dos idosos na sociedade, que só valoriza o indivíduo saudável e dependente. 36 Para Silva (2009), o equilíbrio dinâmico positivo do idoso relaciona-se com a capacidade autônoma do sujeito, mecanismos participativos da comunidade, organização e reestruturação dos cuidados do indivíduo, além da habilidade do idoso em interagir com o meio histórico, cultural, social, econômico, natural e tecnológico; e quando ocorre o desequilíbrio dessas estruturas, pode ocorrer o desajuste gerontológico para doenças crônicas, resultando em problemas geriátricos de diferentes magnitudes. Assim sendo, o surgimento de doenças crônicas na vida do idoso requer tratamento em longo prazo e autocuidado, o que leva o idoso à desmotivação quanto a esta prática, no sentido de algumas limitações e recomendações específicas quanto à alteração do estilo de vida. Então, no tocante à saúde dos idosos, Cunha; Sá e Nascimento (2013) revelam que os serviços de saúde no Brasil devem se preparar para o atendimento de qualidade prestado à população idosa, pois em muitos os casos de internação hospitalar dessa clientela na clínica de emergência, ocorre por instabilidade de um quadro crônicodegenerativo, que é comum aos idosos. Desta forma, Leite (2007, p. 14) ressalta que: O impacto do envelhecimento humano em toda a sociedade deve ser considerado como sendo visível particularmente, no sistema de saúde, no qual se constata déficit em sua infraestrutura necessária para atender as demandas desse estrato populacional, em termos de espaço físico, políticas, ações e intervenções específicas e, especialmente, de recursos humanos capacitados qualitativa e quantitativamente. O que gera um problema aos idosos, pois além de conviverem com o fator doença, também se defrontam com a situação de superlotação das instituições públicas hospitalares, as quais estão despreparadas para a demanda excessiva o que provoca desconforto no ser que é cuidado e para os que cuidam pela falta de estrutura física e condições para a assistência humanizada, de qualidade. Algumas representações negativas sobre a finitude humana no processo de hospitalização tornam-se mais presentes quando o idoso vivencia momentos angustiantes de perda dentro da mesma unidade de internação. Daí, o idoso redimensiona aquela situação de morte para si, tendo em vista suas condições de saúde desfavoráveis diante da fragilidade emocional e isolamento social. Outras representações quanto ao envelhecimento humano levam-nos a refletir que a sociedade em que vivemos não concebe essa realidade como algo natural e 37 universal. Cada vez menos os jovens pensam na sua finitude e na construção de uma relação com o velho, ou seja, um futuro inevitável. Desta maneira, a abordagem do envelhecimento para o idoso possui diversas dimensões de significado, em conformidade com o que é experimentado ao longo da vida; sendo assim, contextualizados conforme os múltiplos aspectos da vida humana, que são compreendidos de acordo com a história pessoal, crenças e valores do indivíduo. Neste sentido, observa-se cada vez mais a necessidade de uma nova atenção da sociedade para a população idosa, reconhecendo os valores e sentidos do envelhecimento, no sentido de transformar a sociedade atual, abandonando estereótipos excludentes (SHIRATORI, 2009). O Envelhecimento como um Processo Contínuo Compreende-se o envelhecimento humano como fenômeno multidimensional, no qual ocorrem profundas alterações no organismo vivo. Essas transformações ocorrem por um processo contínuo, que fazem parte da evolução humana, assim sendo, inevitável. É preciso considerar que o envelhecimento trata de questões relativas ao tempo, estabelecendo progressivamente os aspectos cronológicos, que sinaliza as etapas da vida percorrida e revela a chegada à terceira idade. Desta forma, o Estatuto do Idoso (Lei 10.741, de 1º de outubro de 2003) através do seu primeiro parágrafo define que o sujeito é considerado idoso com a idade cronológica de 60 anos ou mais. Já a Organização Mundial de Saúde (OMS) considera dois fatores cronológicos para caracterizar o indivíduo idoso, na qual a idade de sessenta anos seria em países em desenvolvimento, e em países desenvolvidos, a idade igual ou maior que 65 anos (ALVES JÚNIOR, 2009). Outras definições sobre o envelhecimento humano o tratam como uma etapa natural, sequencialmente progressiva que acarreta a diminuição da reserva funcional do indivíduo – senescência - não costuma provocar problemas em condições normais; já que em quando há um mecanismo de sobrecarga, como doenças, acidentes, estresse emocional, pode ocorrer condição patológica, que demanda assistência especializada – senilidade (BRASIL, 2006b). 38 Assim, o processo de envelhecimento acontece de forma individual, em que os sujeitos passam por transformações contínuas. Deste modo, a percepção do envelhecimento é própria do indivíduo, e está relacionada às experiências vividas e como a mesma é encarada pelo sujeito. Com isso, diversas transformações ocorrem de acordo com o decorrer do tempo, na qual o organismo tende a se adaptar ao fenômeno do envelhecimento. Neste sentido, algumas teorias foram desenvolvidas para a compreensão do envelhecimento como etapa sequencial da vida. As teorias biológicas focalizam o envelhecimento como alterações fisiológicas, normais neste processo. Smeltzer et al (2009, p. 187) consideram que: [...] é o envelhecimento intrínseco (a partir de dentro de uma pessoa) referese às alterações causadas pelo processo de envelhecimento normal que estão geneticamente programadas e que são essencialmente universais e irreversíveis dentro de uma espécie. Também, essa contribuição é multifatorial, pois acontece em que todos os níveis de organismo, do molecular ao fisiológico e morfológico (JACKEL-NETTO, 2007). Na referida teoria, encontramos outras teorias agrupadas, que podemos citar: a teoria do desgaste, que sugere uma modificação na estrutura por conta da utilização excessiva (assim como a máquina que se desgasta); a teoria do sistema imunológico ocorre transformação das células auto-imune, e assim a destruição das células sadias; a teoria dos radicais livres ou ligação cruzada, que leva ao acumulo de produtos tóxicos e prejudicam o funcionamento celular; teoria neuroendócrina, que através da falência progressiva da função integradora do organismo e o sistema nervoso, levam à senescência e à morte (SANTANA; SANTOS, 2009; SMELTZER et al, 2009). Dando sequência às teorias, chega-se à teoria psicológica do envelhecimento, ou teorias do desenvolvimento, que traz a ideia comportamental do indivíduo em todas as fases de sua vida, e ainda destaca características individuais do sujeito. Assim, de acordo com as fases da vida desenvolvida por Erikson 1 (1963) que define que a vida consiste em oito estágios que revelam as mudanças de característica desde o nascimento até a velhice; e quando o indivíduo atinge a velhice, sofre alteração no ego, que pode identificar integridade (aceitação do propósito de vida) ou desespero (que se caracteriza em desapontamento e insatisfação na vida) (SMELTZER et al, 1 Erik Erikson nasceu na Alemanha (1902/1994) desenvolveu a teoria do desenvolvimento psicossocial. 39 2009). Também, nesta perspectiva, Goldstein (2007) observa a concepção de Jung 2 (1930) no que diz respeito ao desenvolvimento humano contínuo, em que se definem as etapas como infância, vida adulta, meia idade e velhice; estas trazem à tona a questão do envelhecimento, que na meia idade, ocorre à individuação através da análise de si em relação às demandas interiores. Nesta fase para Jung, os valores espirituais são considerados pelo indivíduo e há a percepção quanto à finitude humana, que inclui o despertar para o sujeito através do self 3; e, além disso, valoriza o sujeito velho na questão da sabedoria (GOLDSTEIN, 2007). Smeltzer et al (2009) enfatizam também a contribuição desta teoria, combinando os conceitos de Erikson e Havighurst para o idoso, dos quais podemos considerar a conservação da autovalorização, resolução de conflito, ajuste às perdas de papéis dominantes, ajuste à morte de entes queridos, adaptação ambiental e ajuste quanto aos níveis de bem estar. A teoria sociológica perpassa o processo de transição na relação dos indivíduos com a sociedade. Sendo assim, as teorias sociológicas influenciam para a busca do bem estar e envelhecimento bem sucedido. Desta forma, podem-se destacar algumas teorias que fazem parte da teoria sociológica, estando então relacionadas de forma temporal. A teoria da atividade segundo Santana e Santos (2009, p. 53) que se refere “[...] ao declínio das atividades psicológicas e mentais associado à velhice é um fator determinante das doenças psicológicas e do retraimento social do idoso”. Essa teoria propõe uma qualidade de vida através da satisfação no envelhecimento, de maneira a contribuir com envelhecimento bem-sucedido. Já a teoria do desengajamento ou afastamento social reflete o retraimento social do idoso com a sociedade, que se manifesta por reações psicológicas diante do envelhecimento. Esse fato ocorre por um processo contínuo, na qual o idoso tem dificuldades de adaptação na sociedade, e resulta na inatividade no ambiente social. Para Santana e Santos (2009, p. 52), “idosos subordinados a tratamento de saúde sem orientação, violência e abuso doméstico (principalmente financeiro) dos idosos, violência física quando o idoso é dependente”. A teoria da modernização trata basicamente do processo capitalista e tecnológico de transformação que a sociedade passou, evidenciando na mudança de papel do idoso quanto aos processos evolutivos e reclusão social. 2 3 Carl Gustav Jung nasceu na Suíça (1875/1961) e desenvolveu a psicologia analítica. O self se caracteriza pelo conhecimento de si mesmo, através da sua consciência. 40 Desta forma, alguns fatores foram determinantes para esse processo: como a tecnologia científica, rompendo os trabalhos artesanais que eram passados de geração a geração; urbanização e migração dos jovens para os centros urbanos em busca de trabalho, ocorrendo à separação de outros grupos etários; educação intensiva aos jovens e segregação de idosos, considerados incapazes para aprender (SANTANA; SANTOS, 2009). Ainda nesta vertente, os idosos sentem desmotivação quanto ao processo tecnológico, por haver preconceito de diversas faixas etárias, inclusive os próprios idosos, quanto ao procedimento de aprendizagem que é descrita como incompatível com a velhice (GOLDMAN, 2009). Na teoria da continuidade, requer um compromisso dos padrões no estilo de vida satisfatórios ao envelhecimento ideal. Neste sentido, há adaptações comportamentais para o envelhecimento positivo, como por exemplo, hábitos saudáveis de vida. Segundo Smeltzer et al (2009, p. 187), “a continuidade e uma conexão com o passado são mantidas através de uma continuação dos hábitos, valores e interesses bem estabelecidos que façam parte do estilo de vida atual de uma pessoa”. Conforme as teorias anteriormente descritas, o bem-estar dos idosos depende de alguns fatores de ordem individual, como também social. Como o processo de envelhecimento é progressivo, os idosos necessitam de capacidade adaptativa quantos às alterações físicas, sociais, psicológicas, de modo a contribuir para o equilíbrio e envelhecimento bem–sucedido. Tendo em vista que os mecanismos de enfrentamento do envelhecimento envolvem a concepção individual de acordo com a história de vida e percepção de mundo, algumas questões influenciam para o estereótipo negativo para a velhice. As representações sociais impostas para a velhice podem ser consideradas como ageísmo que “[...] baseia-se nos estereótipos, crenças simplificadas e com frequência, inverídicas que reforçam a imagem negativa da sociedade em relação às pessoas idosas” (SMELTZER et al, 2009, p. 187). Diante do exposto, as representações individuais e sociais sobre o envelhecimento influenciam nas dimensões subjetivas para a qualidade de vida, no que se refere à percepção positiva do envelhecimento quanto aos seus valores, desmistificando somente a imagem negativa do idoso, como um problema. Princípios Gerontológicos no Cuidado ao Idoso 41 Considera-se que com o processo de envelhecimento, o sujeito idoso necessita de cuidados dentro de um amplo aspecto quanto à suas especificidades. Por essa razão, que a responsabilidade dos cuidados aos idosos compete aos familiares, à sociedade, o Estado, e assim à equipe de saúde. Desta forma, Figueiredo; Leite e Machado (2009) revelam que para compreender a representação e os significados do idoso exige-se de quem cuida do mesmo mergulhar em sua intersubjetividade, seus sonhos e imaginação. Assim, torna-se fundamental compreender os sujeitos idosos de forma individual e integral, tendo em vista suas necessidades, para a eficiência do cuidado. A enfermagem, por sua natureza, tem o princípio do cuidado e à prestação de serviços individuais, à família, à comunidade sem discriminações de qualquer origem, e se preocupa com a promoção da saúde em todos os níveis de assistência, fornecendo bem–estar e qualidade de vida em todas as dimensões; assim como, planeja e integra ações de enfermagem de acordo com as necessidades de sua clientela. A enfermagem gerontológica ou geriátrica relacionada às Ciências do Cuidado em Saúde exerce contribuições essenciais para a subjetividade dos idosos, quanto às necessidades em amplo aspecto. Desta maneira, devem compreender todas as etapas relacionadas ao processo de envelhecimento como uma fase natural pelas quais todos passarão; e fortalecer a confiança do idoso ao profissional na assistência. Considerando os conceitos da Geriatria e Gerontologia, define-se que a Geriatria “é um ramo das ciências da saúde que trata das doenças de pessoas em idade avançada; é mais relacionada à especialidade médica” (SILVA, 2009, p. 75). A Gerontologia, contudo, é um estudo científico do processo de envelhecimento normal, tendo em vista o cuidado de enfermagem de forma holística que inclui promoção e manutenção do estado funcional dos idosos, para a autonomia e independência (SMELTZER et al, 2009). A enfermagem gerontológica fornece subsídios para o idoso hospitalizado, quanto às perspectivas do envelhecimento e finitude, de modo a contribuir para o cuidado em saúde. Assim sendo, de acordo com a representação da história de vida do sujeito, o trabalho da enfermagem gerontológica permite desmistificar a velhice como negativa, e valorizar o envelhecimento através da percepção dos aspectos positivos, conforme as crenças e valores individuais, além de visão de mundo. 42 O envelhecimento e a finitude apresentam faces subjetivas, que possibilitam reflexões individuais durante a trajetória de vida. Assim, para Zinn e Gutierrez (2008, p. 80), “O envelhecimento e a morte são fenômenos que envolvem sentimentos variados e que são contextualizados conforme os múltiplos aspectos da vida humana”. E possibilitam neste sentido, transformações individuais, em que o saber e os valores construídos durante a trajetória de vida possuem significados distintos que devem ser considerados na prática profissional e na interação com o cliente, seja ele idoso ou não. Entretanto, a postura do homem atual é da negação da própria finitude, por isso se submete a um ritmo acelerado de vida, caracterizado pela alta produtividade no âmbito pessoal, social, econômico. Nesse sentido, a equipe de enfermagem deve estar preparada para novas possibilidades de conhecimento, de modo a compreender sobre o processo de envelhecimento e finitude, para uma interação com este sujeito que vivencia experiências de perdas ao longo da vida. Aspectos Emocionais e Espirituais no enfrentamento do envelhecimento e finitude Os sentimentos de envelhecimento e finitude para o idoso se destacam por suas variações de sentido, em conformidade com o que é experimentado ao longo da vida; sendo assim, contextualizados conforme os múltiplos aspectos da vida humana, que é compreendido de acordo com a história pessoal, crenças e valores do indivíduo. Então, o sentido positivo para o envelhecimento satisfatório, destaca-se: dificuldade superada; valorização da sabedoria, como saber único dos anos vividos; apoio da família nos momentos de hospitalização; desejo de uma boa morte, sem sofrimento e respeitando os desejos do paciente e dos familiares; crença da espiritualidade e amparo à religiosidade, que é considerada como essenciais para o sentido da vida pessoal; já pelo lado negativo encontra-se: a crença da desvalorização do novo pelo velho, que é visto na sociedade; o medo do abandono nos asilos, que gera uma ansiedade e reforça a concepção da desvalorização do idoso (ZINN; GUTIERREZ, 2008). A conscientização histórica sobre a misteriosa espiritualidade na vida humana teve inicio nos cultos do Mediterrâneo Oriental, em que era valorizada a ressurreição após a morte. Assim, é visto na afirmativa de (BECKER, 2007, p. 32): 43 O herói divino de cada um desses cultos era alguém que tinha voltado dos mortos. E como sabemos, hoje, com base na pesquisa de mitos e rituais antigos, o próprio cristianismo era um concorrente dos cultos misteriosos e saiu vencedor – entre outras razões – porque também tinha em destaque um homem que curava, tinha poderes sobrenaturais e havia ressuscitado. O grande triunfo da Páscoa é o grito de alegria “Cristo ressuscitou!”, um eco da mesma alegria que os devotos de cultos secretos demonstravam em suas cerimônias da vida sobre a morte. Os aspectos religiosos, como se pode destacar segue caminhos opostos aos da ciência, que acredita na verdade através da comprovação de fatos. Assim, temos o campo da teologia, que trata o conceito de morte e vida após a morte como uma das linhas de compreensão, e a ciência voltada para a verdade daquilo que são provadas por método experimental (SANTOS, 2009). Nesta dimensão, Saporetti (2009, p. 269) considerou que: Os estudos com pacientes internados demonstram que 77% gostariam que seus valores espirituais fossem considerados pelos seus médicos e 48% gostariam, inclusive, que seus médicos rezassem com eles. Diante da magnitude espiritual na vida do indivíduo, devemos considerar os fatores relacionados com a crença e à fé, no tocante à importância da vida no envelhecimento, para a compreensão da morte. Desta forma, Novaes (2000, p. 126) concebe que “[...] toda religião traz uma visão global da existência, das relações com os semelhantes e com a totalidade do universo, através dos ditos, dos símbolos e dos ritos comunitários e religiosos”. Então, o conceito de religião segundo Liberato e Macieira (2008, p. 418), é: [...] um conjunto de crenças, práticas e linguagem característico de determinada comunidade que busca o significado da transcendência de modo particular, geralmente baseado na crença de uma divindade. Corroborando com essa ideia, traz também a relação da espiritualidade que: [...] está relacionada com atitude, reação interna, ampliação da consciência, contato com indivíduos com sentimentos e pensamentos superiores e, ainda, com fortalecimento e amadurecimento que esse contato pode trazer para a personalidade (LIBERATO; MACIEIRA, 2008, p. 418). Assim “a religião e a espiritualidade podem servir como uma maneira de aumentar o grau de confiança frente ao desconhecido e ao risco” (GOLDIM, 2007, p. 120.). 44 Deste modo, o amparo na religiosidade e a fé para o idoso representam o reconhecimento existencial da vida. Diante disso, “a espiritualidade é fator de abertura do sentido da vida do idoso, sendo o papel da fé o de descobrir o sentido de sua vida e sua verdadeira visão terrena” (NOVAES, 2000, p. 129). O significado da religiosidade para os idosos apresenta-se diante de questões expressas conforme as crenças de cada indivíduo, e de acordo com as características sociais e culturais. Pois os valores e a fé dos idosos devem ser levados em consideração, no que se refere ao comportamento humano diante do envelhecimento e finitude. Dimensões da Morte/Morrer para os Profissionais da Saúde Os profissionais da área da saúde que lidam com a morte constantemente, não estão preparados para essa árdua tarefa. Portanto, torna-se necessário entender o sentido e o fazer do profissional a partir do significado de morte atribuído pela cultura, assim como a influência dessa cultura na sua formação profissional (COMBINATO; QUEIROZ, 2006). Esse despreparo em lidar com a morte surge desde a formação profissional, ainda na graduação, quando o estudante da área da saúde vivencia essa questão nas primeiras aulas de Anatomia; podendo eliciar pensamentos acerca da morte e do morrer, bem como suas experiências vividas, redimensionando para a questão do existir (AQUINO et al, 2010; SCHLIEMANN, 2009). Neste sentido, as questões reflexivas sobre a morte e morrer podem vir à tona na vida do profissional, provendo uma análise existencial sobre o sentido da vida, assim como questões sobre a finitude humana. Considerando o significado da vida para o profissional da saúde, que na sua atividade profissional também se insere num contexto sócio-histórico de negação da morte, não estão preparados para lidar com as emoções do indivíduo sobre a morte; visto assim, ocorre à necessidade da educação sobre a tanatologia para os profissionais que atuam e lidam com esse ofício constantemente, considerando a humanização do atendimento, àqueles que vivem em condições terminais e em situações de luto (COMBINATO; QUEIROZ, 2006; KOVÁCS, 2008). Santos (2009) destaca que poucos cursos de graduação em enfermagem no Brasil abordam a morte na grade curricular, ou apresentam-se em disciplinas optativas; 45 visto que em algumas universidades em São Paulo, como a Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e a USP de Ribeirão Preto adotam a temática na formação acadêmica. A enfermagem como profissão traz em sua essência o Cuidado, que integra saberes práticos, científicos e éticos na assistência, quanto às necessidades do paciente para uma assistência de qualidade durante seu percurso de vida. Desta forma, algumas considerações sobre o cuidado diante da finitude, trazem à tona a reflexão do sentido da existência e dos seus limites; pois ainda, a enfermagem como profissão voltada ao modelo biomédico de eficiência, exerce dificuldades quanto ao enfrentamento da morte no âmbito do exercício profissional. Segundo Silva, Ribeiro e Kruse (2009, p. 454), “No que se refere à equipe de saúde, a terminalidade do ser é considerada natural, porém relacionada a sentimentos de medo, impotência, tristeza, depressão, culpa, fracasso e falha”. Kovács (2009) aponta que o esforço da equipe se saúde em salvar o paciente a qualquer custo dentro da unidade hospitalar, diante da ocorrência de morte ou doença incurável causa sentimentos frustrantes, desmotivadores, sem significado. Também, outra vertente do Cuidado em Saúde, que implica na qualidade da assistência está no despreparo da equipe em lidar com situações adversas, sobrecarga de trabalho refletido na mecanização do cuidado, falta de sensibilização profissional com o doente e os familiares, pois segundo Silva, Ribeiro e Kruse (2009, p. 454): A figura da enfermeira emerge como a profissional que presta cuidados com fortes sentimentos e que deve os conter perante o paciente. É citado, também, que essas profissionais para se afastarem da morte valorizam procedimentos técnicos em detrimento da relação interpessoal. Elias descreve (2001, p. 17) que “a visão de uma pessoa moribunda abala as fantasias defensivas que as pessoas constroem como uma muralha contra a ideia de sua própria morte”. Essa questão também, segundo Puggina (2004), é uma habilidade difícil de ser implementada porque as pessoas possuem limiar de sensibilização, mas quando assumimos a ideia do sofrimento alheio, ou seja, de terceiros, há uma sensação de desconforto e constrangimento, o que leva um a redimensionamento quanto à conduta e compromisso de atender aos outros; pois, no mesmo pensamento da autora, “[...] todos os seres humanos são iguais a nós e nos tornamos capazes de nos relacionar mais 46 facilmente com eles” (PUGGINA, 2004, p. 26 - 27). Para Aquino (2010, p. 292), “[...] a finitude desperta o senso de responsabilidade e isso confere à vida um sentido, posto que a morte torne a existência humana única e irreversível”. Há um modelo de assistência humanizada, voltado para a clientela sob cuidados paliativos, que se denomina “movimento hospice”. Neste sentido, com essa abordagem inicia-se um novo conceito de cuidar focado no paciente até o final de sua vida e seus familiares, garantindo conforto e bem-estar geral (MELO; CAPONERO, 2009). Quanto à temática da Bioética do final da vida, Floriani (2009), em sua Tese de Doutorado, ressalta que o movimento hospice oferece um desafio aos seus princípios, como o não abandono do paciente em cuidados paliativos, garantindo a sua autonomia no tratamento; além disso, tende a reconhecê-lo como “boa morte”, que organiza um conjunto de ações humanizadas dentro de um cenário médico de alta tecnologia, na qual o maior interessado, o paciente, tenha um processo de morte digna e protegida. Zinn e Gutierrez (2008, p. 86) discutem o termo boa morte como “[...] a morte sem dor nem sofrimento, que respeita os desejos do paciente e seus familiares, e segue os princípios clínicos, culturais e éticos que permeiam a sociedade em questão”. Para a discussão da finitude no contexto da Educação para a Morte, Kovács (2009) sugere um projeto com quatro filmes, no qual é abordado um instrumento facilitador para a comunicação em relação à morte para crianças, adolescentes, adultos e idosos, famílias e profissionais da saúde e da educação. Essa proposta para o idoso “Falando de Morte com o Idoso” sobre a morte como tabu na sociedade moderna, destaca as seguintes situações (perda de si – saúde e doença), (perda do outro), (perda contra si – suicídios e comportamentos autodestrutivos). Desta forma, abre um espaço para a análise das perdas de si e de pessoas significativas de convivência, já que são assuntos normalmente evitados pelo constrangimento que provocam. Neste entendimento, o envelhecer e o morrer se constituem em um processo natural da existência humana, porém nem sempre aceitos pelos seres que o vivenciam, mas quando a história de vida do idoso é avaliada num contexto, este percebe o significado de sua existência. A Finitude Humana diante de sua Face Subjetiva 47 Considerando a finitude um fenômeno inerente à capacidade finita de todos os seres vivos, torna-se necessário a abordagem reflexiva e compreensiva desta temática, no sentido de trazer questões que fundamentem o sentido da existência humana na sua concepção subjetiva. Para a abordagem dessa temática, primeiramente apresenta-se o conceito de finitude, que é proveniente do “Latim ‘finitus’ de ‘finire’ que significa findar, terminar” (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2008, p. 112); além disso, compreende o encerramento do que é limitado e transitório, sabendo-se que “a angústia do homem não vem da limitação temporal da vida, mas da finitude do âmbito em que ele se move” (BORBA, 2004, p. 619). Já na concepção de Pisetta (2007, p. 220) significa “[...] a contingência a que está submetido tudo que vive e, por extensão, tudo que é, todo ente, em contraposição a estabilidade ou permanência do ser”. Ainda em um sentido mais abrangente, a finitude pode ser compreendida através de qualquer condição capaz de produzir um começo, meio e fim, como bem menciona Pisetta (2007, p. 220): Quando um escritor, finalmente, termina seu livro, estamos tanto diante da morte (ainda que parcial) de um processo de criação, quando de um nascimento, o da coisa-livro em sua autonomia de ser [...]. De igual forma entendemos por “finitude”, sem mais, a contingência a que está submetido tudo que vive e, por extensão, tudo o que é, todo ente. Em contraposição à estabilidade e a permanência do ser. Visto assim, considera-se a finitude no sentido a ser compreendido como um todo, como sendo as ‘pequenas mortes’ que o indivíduo sofre durante a trajetória de vida. Portanto, ao refletir sobre as perdas durante a história de vida, proporciona ao indivíduo a análise de sua existência, assim como, o significado da vida para si. O essencial sentido da percepção da sua pópria finitude ocorre a partir do despertar para a vida, em que “na medida em que o idoso percebe que morrer é libertarse, que morrer é dar um significado a uma trajetória de realização pessoal rica e consistente, entende que sua vida tem sentido” (NOVAES, 2000, p. 28). Assim, o comprometimento filosófico sobre a finitude abarca algumas considerações sobre o tema, que abrange um mundo no qual estamos inseridos. Assim, produz-se uma ordem que é finita, limitada; ou seja, “a ordem que nele reina o ‘cosmo’ repousa no limite” (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2008, p. 112). Então a existência 48 produz caracteristicas finitas aos seres vivos, assim como em todo processo temporal de nascimento, crescimento e enevitavelmente a morte (SCOPINHO, 2010). Em virtude disso, a existência do homem no mundo anseia por suas possibilidades autênticas, em que são “realizadas dentro da temporalidade existencial, marcada pelo intervalo entre finito e infinito, pela solidão e sociedade, pelo envelhecimento e pela mortalidade” (MARTINS, 2007, p. 175). Neste entendimento, o homem é um ser dotado de possibilidades. Entretanto, os indivíduos possuem liberdade no que se referem às decisões, compreensões, escolhas que se relacionam com o projeto de vida, e quando passam por um processo de doença, tendem à redução da liberdade exterior do ser humano (ROSELLÓ, 2008). Isso implica pensar na finitude, pois o mesmo autor considera que “a liberdade humana jamais deve ser considerada de um modo onipotente e absoluto, mas sempre no plano da vulnerabilidade e da finitude humana” (ROSELLÓ, 2008, p. 77). Sob essa perspectiva, o pensamento de Heidegger 4, determina a impossibilidade de imortalidade ou “o ser para a morte”, através da angústia originária diante da finitude (SANTOS, 2009). Para Costa (2010), Heidegger sustenta três aspectos fundamentais na análise da vida do homem contemporâneo ocidental que são: facticidade, na qual o ser é jogado para o mundo sem sua participação; existencialidade, que considera as atitudes dos homens frente aos objetos (o homem sempre objetiva algo); à ruína, que se refere à capacidade de distanciamento do seu projeto essencial que o Ser (deixa se levar por banalizações corriqueiras, perdendo sua característica de ser individual). Sendo assim, o homem um ser lançado ao mundo, a sua análise existencial torna-o capaz de compreender a essência de sua presença. A análise existencial em Heidegger descreve que o ser dotado de pré-sença - o Dasein – que reflete o modo que se apresenta ao mundo no exato momento de seu aparecimento (PISETTA, 2007). No entanto essa filosofia remete aos aspectos do ser-aí como algo que o homem busca fora de si, pois esse sentido, sem dúvida inautêntica, enquadra-se dentro dos processos contemporâneos, deixando de lado sua essência. Confirma-se esse fato em Costa (2010, p. 155) para quem: 6 Martin Heidegger (1889/1976) utilizou o método fenomenológico Hermenêutico na sua prática, contribuindo para filosofia existencialista. 49 O homem contemporâneo é dominado pelo processo técnico, no sentido de enxergar nele o único sentido de sobrevivência e consequentemente de se adequar no mundo moderno, se diluindo em meio aos outros entes, se deixando arrastar pela vida inautêntica em meio aos objetos que manipula. Então, pode-se dizer que um dos fatores que contribuem para a negação da finitude se dá através inapropriação do sentido existencial, pois o homem para sua estabilidade no mundo deixa de lado a dimensão do seu Ser. Pois de acordo com Martins (2007, p. 175) “O mundo recebe o Homem e não se preocupa com ele, é somente mais um ente lançado na existência em um lugar nada amistoso, porém não é possível existir fora do mundo, portanto ser é estar-no-mundo”. O pensar da finitude pode ser um reflexo intrinseco da condição humana, que desperta a consciência de dor que tem “sobretudo, um sentido subjetivo, pois é vivida dentro da realidade do indivíduo, e essa realidade está junto com o despertar, logo, a dor desperta a consciência da morte subjetivamente” (MARTINS, 2007, p. 176). A interpretação de Epicurista sobre a finitude humana trás em destaque a angústia da morte, pois reflete a transição da existência para a inexistência (LUPER, 2010), e esta se relaciona à experiência contemporânea. Assim, o processo de civilização da sociedade moderna se oculta quanto aos fenômenos da morte, em que pode ser vista como um recalcamento da morte (AGRA do Ó, 2008; COMBINATO; QUEIROZ, 2006; ARIÈS, 2003; ELIAS, 2001). Quanto ao temor da morte, o pensamento de Epicuro surge na teoria dos átomos da alma, compreendendo essencialmente à ideia de aceitação da morte, uma vez que quando morremos os átomos da alma se dispersam. Pois, “[...] dissolvendo-se seus átomos sutis, após a morte, eles poderão fazer parte dos átomos de outra alma” (ULLMANN, 2006, p. 111). Desta forma, com a desintegração da matéria física, os átomos poderiam constituir outro corpo físico, já que a composição atômica decorre da natureza infinita. Portanto, Ullmann (2006, p. 19) identifica que “[...] a morte não significa outra vida, mas uma eternidade de não vida. Por isso deve o homem filosofar agora, para ser feliz, sem delonga”. Neste sentido, os indivíduos que buscam a compreensão dos aspectos da existência humana refletem sobre novas perspectivas diante de sua finitude. Segundo Costa (2010, p. 152) “[...] o homem é o único ente capaz de escolher a si próprio, de 50 escolher seu modo de se posicionar ao mundo, de questionar ou não pelo sentido do Ser”. Japiassú e Marcondes (2008, p. 113) contemplam que os filósofos existencialistas contribuem dissertando sobre a finitude no tocante subjetivo sendo que “pelo medo, pela angústia ou pelo sentimento do absurdo, o homem experimenta os limites de seu ser, a contingência radical de sua existência”. Logo, observa-se que existem diversos caminhos para a compreensão do homem em relação à sua existência, contribuindo para o reconhecimento da finitude humana. Sobre a Morte e o Morrer O processo de morte e morrer representam significações diferenciadas no contexto histórico-cultural, destacando a história de vida do sujeito e suas representações, como também a realidade vivenciada no mundo contemporâneo. Assim sendo, a definição da morte para o geneticista consiste na interrupção dos processos bioenergéticos e das funções que a eles subentendem; na concepção do fisiologista, é a parada completa e definitiva de todas as funções vitais (SANTOS, 2009). Ressalta-se ainda sob outra ótica, a diferenciação da morte para o morrer. Pois, segundo Araújo e Vieira (2004), a morte é considerada como um momento único de se encerrar a vida biológica, já o morrer é um processo que o indivíduo vivencia a cada momento da vida. De um lado, sabe-se que o indivíduo defronta-se a cada dia com a morte, pois cada etapa da vida em que há uma mudança pode ser evidenciada pelo seu morrer. Mesmo que não ocorra a morte de fato, o processo do morrer é um fenômeno existencial. Assim, ainda que seja desagradável, não deve ser negado. Neste sentido, os aspectos relacionados ao fenômeno da morte quando discutido, causa certo desconforto, uma vez que redimensiona a ideia da própria finitude. Pois, como destaca Cassorla (2009, p. 59) “o ser humano se defronta com a ideia do nada, do deixar de ser, e a impossibilidade de representar esse nada é desesperante”. No sentido temporal, a morte assim como o nascer faz parte do processo da vida do ser humano, então se torna importante sua consideração e a atitudes diante dela, uma vez que os rituais vêm se revezando nos tempos e nas culturas (COMBINATO; 51 QUEIROZ, 2006). As discussões sobre a morte na sociedade contemporânea, que cada vez mais ignora sua existência afastando do convívio social, eram enfrentadas de formas distintas em outras sociedades antigas. O desenvolvimento reflexivo sobre a morte e morrer na concepção de Ariès (2003) reporta o sentido histórico da morte para o indivíduo e suas representações diante dela. Ainda para o autor, a morte na Idade Média era domada ou sincrônica, na qual se acreditava que a morte era previsível. Isso se complementa quando destaca “observemos que o aviso era dado por signos naturais, ou ainda, com maior frequência, por uma convicção íntima, mais do que uma premonição sobrenatural ou mágica” (ARIÈS, 2003, p. 27). Também, essa afirmativa pode ser vista quando confirma dizendo que “sabendo do seu fim próximo, o moribundo tomava suas providências” (ARIÈS, 2003, p. 31). Essa constatação nos remete a pensar sobre o fato de que a morte na Idade Média, diferentemente da que se tem hoje, era planejada pelos indivíduos que pressentiam a sua chegada. Além disso, o doente diante da expectativa da sua própria finitude, revelava uma preparo de si, no sentido de aceitá-la harmoniosamente. Também sobre esse aspecto, Kovács (2003, p. 28) diz que: Por um longo período histórico, a morte era anunciada através de um ritual – era importante ressaltar que precisava de um tempo para ser percebida. Se ocorresse nas guerras ou após doenças, não havia a necessidade de controlar as emoções. Ela podia se fazer anunciar nos pressentimentos como, por exemplo, pelo aparecimento de alma de outro mundo. Havia a crença de que os mortos sempre estavam presentes entre os vivos, em certos lugares e momentos, sendo então percebidos pelos que iriam morrer. Outro fator importante se dá com a organização da morte em espaço público, em que o moribundo organiza e prepara sua morte em forma de cerimônia, e a estrutura física do quarto do doente se transforma em um local em que se entravam livremente, como as pessoas da família, crianças, padres, dentre outros. (ARIÈS, 2003). Finalmente, sobre essa compreensão pode-se destacar a simplicidade como era conduzida a morte, assim como o processo cerimonial, sem dramaticidade ou gestos de emoção excessivos, na qual se tornava um acontecimento público (CORTEZ et al, 2009; KOVÁCS, 2003). A morte sempre foi e será um mistério, e Ariès chamou a atenção quando destaca que apesar de toda a convivência ajustada com a morte, a sociedade temia os 52 mortos. Para isso, revela que os cemitérios localizavam fora da cidade, no sentido de manterem certa distância dos túmulos, temendo possíveis tormentos e assombrações (ARIÉS, 2003). Outro aspecto a destacar neste sentido era através da contribuição da igreja, que dentro do “[...] contexto cristão, tornava-se importante enterrar os mortos pertos dos santos, que ofereciam proteção ao corpo até o dia do julgamento, era uma segurança para o morto, e também para os vivos” (KOVÁCS, 2003, p. 32). Dentro desse entendimento, a ocasião que viabiliza a abordagem do estudo da morte e do morrer entre a sociedade antiga e a contemporânea, mostra-nos uma ideia comportamental ainda perceptível. Pois apesar de encontrarmos atualmente, uma sociedade recalcada quantos aos aspectos inerentes à morte e o morrer, o que não era visto anteriormente, a morte continua sendo temida. Também na apropriação histórica da morte deve-se destacar a importância da crença da morte de si mesmo e dos outros. Neste primeiro aspecto, a narrativa sobre a morte de si através da do julgamento final se dava no momento da própria morte, em que se acreditava na salvação da alma, para aqueles que mantêm suas orações e crenças; mesmo com isso, havia certo receio em relação ao momento da ressurreição que trazia a influência da separação do paraíso e do inferno (KOVÁCS, 2003). Esse temor à morte na sociedade antiga produz profundas inquietações no que concerne a aceitação, pois havia certos preceitos em se respeitava todo ritual fúnebre. Desde o momento da morte, era contextualizado o preparo do morto para o sepultamento, segundo Oliveira (2008, p. 33), “é nesta época que os caixões são criados e diversas outras tradições como: usar determinada cor para representar o luto, as missas de corpo presente, os embalsamentos (forma de negar a morte)”. Atualmente, esse cenário mudou. O que se pode dizer numa época em que se ouve a todo instante nos noticiários sobre a banalização da vida, e a relação da morte na vida humana? A relação do tempo com a vida no mundo contemporâneo mudou o foco da atenção, pois a aceleração produtiva da existência leva o homem a se preocupar com outros valores. No outro sentido, pela morte do outro, reflete-se sobre a morte romântica que a partir do século XV ao século XIX a morte era observada com sentido místico do erótico/ macabro, em que se associavam a morte com o amor - Thanatos e Eros, para a tolerância da morte, do sofrimento, do suplício; visto assim, Ariès (2003, p. 65) discorre 53 sobre um trecho de sua obra “[...] quando Bernini representa a união mística de Santa Teresa com Deus, inconscientemente aproxima as imagens da agonia e as do transe amoroso”. Acrescente-se o fato de que a morte romântica no século XIX inspira lembranças e saudades dos entes queridos, em que se considerava o reencontro com os falecidos e crenças na vida após a morte (ARIÈS, 2003; OLIVEIRA, 2008). Com o decorrer dos séculos, a morte representou para os indivíduos uma inversão dos seus valores em relação aos fatos históricos. A imagem negativa da sociedade atual encobre todas as imagens organizadas numa época em que se traziam para o cotidiano, os acontecimentos tidos como naturais e humanizados. Assim sendo, foi durante os séculos XX e XXI que a morte passou a ser descrita como “morte invertida”, ocorrendo à mudança de atitude diante dela; pois os moribundos são retirados de casa e levados ao ambiente institucionalizado, e no momento de sua morte, é colocado o biombo para isolá-lo (OLIVEIRA, 2008). Por esse lado, a morte pode ser vista como fracasso e inimiga assim devem ser escondidos para o espaço institucional (AQUINO et al, 2010; OLIVEIRA, 2006). Sem dúvida, a ‘temida morte’ no ambiente hospitalar dá ao moribundo uma ideia hostilizada diante do processo da sua finitude, uma vez que sua autonomia e decisões passam a ser estipuladas e definidas pelos profissionais da saúde. Segundo Elias (2001, p. 17), “a visão de uma pessoa moribunda abala as fantasias defensivas que as pessoas constroem como uma muralha contra a idéia de sua própria morte”. A questão da finitude humana passou por transformações ao longo dos séculos, na qual se verifica um novo posicionamento na atualidade para a morte e o morrer. Entretanto, discorrer o tema da morte na sociedade contemporânea gera desconforto, e a certeza de que um dia esse momento chegará. Vivenciamos constantemente a banalização da morte nos dias atuais, através de noticiário na mídia, mas segundo Kovács (2009, p. 46): [...] a morte esteve e continua cada vez mais próxima das pessoas no que denominamos morte encarada relacionada à violência nas ruas e que é transmitida pelos meios de comunicação. A TV introduz, diariamente em milhões de lares, cenas de morte, de violência, de acidentes, de doenças, sem possibilidade de elaboração. Atualmente, como se vê na cultura ocidental, já é possível retardar a ação do tempo com tantas tecnologias para a longevidade e para a morte. Desta forma, a morte 54 ainda é um tema ignorado na sociedade que valoriza o mito da juventude, esse silêncio relativo em torno da morte e do morrer sugere à sociedade uma transformação das concepções, restituindo-se a dignidade da morte que só será reconhecida, quando ela for aceita com um acontecimento normal (ARAÚJO; VIEIRA, 2004). Pois, diante desse cenário contemporâneo da morte no ocidente, ainda é considerada como tabu e apresenta um silêncio na sociedade (KUBLER-ROSS, 2008; ELIAS, 2001; RAMPAZZO, 2004). Visto assim, a morte quando empurrada para o ambiente institucionalizado, remete aos sujeitos a desvalorização da vida pelo processo de mecanização dos cuidados, face à tecnologia da assistência. Portanto, o interesse passa do sujeito à doença, a questão da autonomia dos indivíduos é deixada de lado, voltando-se para o desempenho da medicina curativista e o prolongamento da vida (RAMPAZZO, 2004; OLIVEIRA, 2006). Corroborando com os autores, sobre o isolamento do moribundo no momento da morte, Loureiro (2008, p. 397) contribui dizendo que: aos mortos, que antes podiam ter recebido cuidados mais precários, mas que se despediam do mundo cercado pelos familiares e amigos, cabe agora a brutalidade de um isolamento crescente. Nesse contexto, com o processo de hospitalização, os sujeitos tendem à fragilidade do bem-estar que se configura com a perda da sua autonomia e independência, pelo isolamento dos seus familiares e do meio social. Com isso, os idosos tornam-se distantes de sua realidade habitual, o que compromete sua tomada de decisão. Assim, tornam-se mais sensíveis ao processo de reflexão quanto à sua finitude. A questão interdita da morte também se relaciona com o luto, em que há um recalcamento da sociedade com o sentimento da perda. Desta forma, os rituais do luto são mais secos e assépticos (SANTOS, 2009). A morte na sociedade atual configura-se em mecanização de seu significado, como também no luto; pois, com a aceleração dos dias de hoje, os rituais ligados à morte não têm importância, como podemos ver: os indivíduos em luto não se vestem mais de preto como antigamente; os túmulos atuais são comuns, pois foram substituídos por belas estátuas e mausoléu antigos, que eram inspirados na arte; os cemitérios estão sendo substituídos por cemitérios virtuais, em que os enlutados cultuam seus falecidos através da internet; e por último, o consórcio de caixões e espaços nos cemitérios, tudo isso fruto da comercialização desenfreada (BELLOMO et al, 2008). 55 Também, em conformidade com a importância da temática na pesquisa, realizou-se uma revisão integrativa para se obter evidências científicas atualizadas, que pudessem contribuir para o embasamento teórico, de acordo com as publicações disponíveis nas bases de dados da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Segundo Mendes; Silveira e Galvão (2008) a revisão integrativa consiste em uma análise ampla da literatura, fornecendo dados para discussões sobre métodos e resultados de pesquisa, como também reflexões sobre a realização de outros estudos. Realizou-se uma busca de artigos na (BVS), indexados na Literatura LatinoAmericana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs) e Scientific Electronic Library Online (SciELO), no período correspondente de maio à junho de 2011. Os critérios de inclusão foram: artigos na integra, disponíveis online, na língua portuguesa, publicados nos últimos 10 anos. E como critério de exclusão: artigos incompletos, produções repetidas, que não atenderam aos objetivos do estudo, período superior a 10 anos. Os descritores utilizados de acordo com a terminologia em saúde disponíveis nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) foram: “morte e morte/idoso”; “morte e tanatologia”; “morte e envelhecimento”. Por não haver terminologia na saúde com descritor “finitude” na BVS, optou-se para a escolha do descritor “morte”, tendo em vista que mais se aproximou dos objetivos da pesquisa. Também, não foi possível localizar artigos online em inglês, com o descritor “death” conforme os objetivos propostos; optando-se então, para a escolha da exclusão dos mesmos. A partir do levantamento na Base de dados da BVS foram identificados 129 artigos no total em todos os descritores, na qual pelos critérios de inclusão e exclusão, foram identificados e selecionados 13 artigos relevantes ao estudo. Assim sendo, para o total de 21 artigos com os descritores: “Morte e Morte/idoso” apenas 01 artigo foi selecionado; para os descritores: “Morte e Tanatologia” de um total de 33 artigos foram selecionadas 08 para o estudo; e quanto aos descritores: “Morte/Envelhecimento” encontrou-se um total de 75 artigos, no quais foram selecionados 03 em língua portuguesa e 01 em espanhol. O período compreendido para a análise dessas referências, pelo critério de inclusão estabelecido foi nos últimos 10 anos, quando a partir daí, evidenciaram-se artigos publicados no período entre o período de 2003 a 2010. Frente a estes resultados, analisaram-se as pesquisas científicas sob a ótica da morte na concepção do indivíduo idoso ou não. Visto que, diante do processo de 56 finitude, surgiram repercussões de demandas sociais, considerando as trajetórias de vida do sujeito. A partir do levantamento dos estudos, foram identificados temas em comuns, os quais foram agrupados por categorias de acordo com a relevância dos objetivos. Sendo então, que na primeira categoria: “Abordagem do envelhecimento e morte para o idoso”, apenas 06 artigos se enquadraram, com destaque para uma referência em espanhol que admite a mesma realidade brasileira. Desta forma, o significado da morte para o sujeito idoso envolve sentimentos variados, e se relaciona com o contexto histórico-cultural, de acordo com a trajetória de vida do sujeito, além das suas representações, como também a realidade vivenciada no mundo contemporâneo (LOREIRO, 2008; ARAÚJO; VIEIRA, 2004; COMBINATO; QUEIROZ, 2006; AGRA do Ó, 2008; ZINN; GUTIERREZ, 2008; HENAO, 2003). Por essas razões, assim como o nascimento, o crescimento, o desenvolvimento para fase adulta e ainda a progressão para a velhice constituem fatores irreversíveis (SCHRAMM, 2002), o que faz com que os indivíduos experimentem esse processo de forma única, através de suas possibilidades que envolvem a história de vida do sujeito e sua atitude diante do mundo. As pesquisas científicas revelam que cada vez mais os homens se reconhecem no mundo atual, o que o deixa mais distante na sua dimensão existencialista. Essa realidade torna suas representações acerca da finitude mais distante de seu conhecimento, como revela Agra do Ó (2008, p. 392): O homem comum cada vez sabe menos de si, e cada vez mais depende de ajuda especializada para viver e para morrer, como se sua autonomia houvesse sido, em nome da civilização, seqüestrada por padrões de racionalidade que são, no fundo, mecanismos de construção ou de manutenção de hierarquias e assimetrias sociais. Pois neste sentido, a morte é levada ao mundo dos especialistas em que é mascarada na esfera privada, longe dos domínios do moribundo (COMBINATO; QUEIROZ, 2006; LOREIRO, 2008; ELIAS, 2001). Com a hospitalização os indivíduos revelam uma fragilidade do seu bem-estar pelo rompimento dos laços sociais e familiares, e ainda pela perda da liberdade individual. Outro paradigma importante foi evidenciado na segunda categoria: “Reflexão sobre a finitude humana”, em que foram encontrados 05 artigos em comum que revelam uma semelhança no que se refere à recusa da morte como o sentido de sua 57 própria inexistência como também impõe aos sujeitos uma barreira na compreensão da finitude humana, que o leva a pensar na finitude do outro (LOREIRO, 2008; ARAÚJO; VIEIRA, 2004; COMBINATO; QUEIROZ, 2006; AQUINO et al, 2006; TRENITI et al, 2005). Assim, quando pensamos em nosso próprio processo de morte, nos colocamos sempre de fora, como um evento “que acontece- e vai acontecer- fora de nós” (BORGES, 2008, s/p). Igualmente, para Loreiro (2008) o indivíduo receia a sua finitude e sua morte, distanciando-a de sua percepção, e assim, omitindo esse fato como existente. Esse sentimento de medo é natural do ser humano, haja vista que a ansiedade se caracteriza pelo medo do desconhecido, e pensar sobre a morte traz à tona lembranças de perdas antigas, enlutamento, finitude e um futuro incerto; além disso, a frustração da busca do sentido se relaciona com o vazio existencial (AQUINO et al, 2010). Neste sentido, devemos avaliar que a finitude traz algumas reflexões no entendimento da morte de fato, com o processo de morrer que acontece ao longo da vida. Com isso, verifica-se que algumas reflexões sobre a morte e o morrer se caracteriza como sendo o primeiro, o período em que se conclui a vida humana; já o segundo, como algo que advém ao longo da vida e deve ser analisado existencialmente como algo próprio do indivíduo (ARAÚJO; VIEIRA, 2004; BOEMER, 1986). Os artigos pesquisados nesta análise mostram-nos essa evidência quando diz que embora não ocorra à morte concreta, essas experiências possibilitam a reorganização e a ressignificação da vida, sugerindo à sociedade uma transformação das concepções, restituindo-se a dignidade da morte que só será reconhecida como um acontecimento normal (COMBINATO; QUEIROZ, 2006; ARAÚJO; VIEIRA, 2004). Além disso, os idosos na sua trajetória de vida enfrentam situações de ganhos e perdas, em que há uma ponderação maior de perdas na velhice do que na infância, quando se destacam os ganhos (NERI, 2007); assim, os estudos analisados identificaram que o enfrentamento da morte para o idoso é considerado como um evento adverso (TRENTINI et al, 2005) o que leva às manifestações desfavoráveis no quadro de sua saúde. Tendo em vista os mecanismos adversos aos quais os idosos se expõem na hospitalização, avaliou-se que as pesquisas encontradas de acordo com o DeCS também 58 revelaram abordagens nas quais os profissionais da saúde lidam com a morte constantemente, e que estes não estão preparados para essa árdua tarefa. Assim revela a terceira categoria: “Análise da morte/morrer para os profissionais da saúde”, em que foram encontrados 07 artigos científicos que destacam essa realidade no despreparo dos profissionais em lidar com a morte e o morrer, pois também identificam questões sobre a finitude humana que promove uma análise existencial sobre o sentido da vida (KOVÁCS, 2008; COMBINATO; QUEIROZ, 2006; AQUINO et al, 2010; OLIVEIRA; QUINTANA; BERTOLINE, 2010; SALOMÉ; CAVALI; ESPÓSITO, 2009; SILVA; RIBEIRO; KRUSE, 2009; FERNANDES et al, 2006). Neste entendimento, o profissional da saúde que se insere no mundo contemporâneo traz para a sua formação profissional o significado da morte atribuído pela cultura (COMBINATO; QUEIROZ, 2006). Pode-se dizer que a morte na sociedade contemporânea assume uma postura mais confinada, por ocasião da sua “chegada ao hospital, quando se torna obrigatoriamente um acontecimento técnico” (OLIVEIRA; QUINTANA; BERTOLINE, 2010, p. 1078), pois o que era visto na sociedade medieval como um acontecimento natural e público, vivenciado pela família do moribundo, pelas crianças que se despediam dos seus entes queridos (ARIÈS, 2003). 59 CAPÍTULO II: PERCURSO METODOLÓGICO Caracterização da Pesquisa Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa que tende a investigar o fenômeno situado no tempo e no espaço, buscando subjetividade e profundidade do objeto pesquisado que, segundo Minayo (2007), investiga o problema na medida em que proporciona a pesquisa das relações humanas e seu universo de significados, sendo um contexto indispensável para análise do fenômeno. Quanto ao método optou-se pela História de Vida que se caracteriza pela compreensão do fato contido no depoimento, através do relato da história vivenciada pelo sujeito, utilizando trajetórias pessoais no âmbito das relações humanas. O Método História de Vida O Método de História de Vida constitui valioso instrumento na descoberta de um mundo subjetivo, de como as pessoas compreendem o seu passado, trazendo sua história pessoal para o seu contexto social, conferindo, assim, um significado a partir do momento presente (MINAYO, 2007). Também sobre o método na pesquisa qualitativa Silva et al (2007, p. 27) ressaltam que “[...] é a relação entre sujeito pesquisador e sujeito pesquisado, que embora perpassada por relações de poder, constitui momento de construção, diálogo de um universo de experiências humanas”. Segundo Bertaux (2010) o método de história de vida envolve as representações temporais da história de vida do sujeito pesquisado sobre acontecimentos, situações, projetos e ações. 60 Proporciona importantes significações, considerando uma interação com o indivíduo, através da investigação da biografia de relatos de vida, além de analisar a visão de mundo pelo sujeito. Sendo então a História de Vida o método escolhido para o estudo, revela-se que obteve aceitabilidade e respeitabilidade acadêmica no inicio do século XX, com trabalhos científicos produzidos por W. O. Thomas e F. Zananiecki, tendo inicio na Escola de Sociologia de Chicago, trazendo a história de vida de imigrantes poloneses na sociedade americana (SILVA et al, 2007; MEIHY; HOLANDA, 2007). Logo, os autores pioneiros em utilizar a história de vida buscaram compreender através dos relatos dos imigrantes poloneses, como se dá a adaptação a uma nova cultura. Já na sociedade brasileira, uma das primeiras experiências com a história oral ocorreu em São Paulo na década de 70, com a preservação da memória cultural brasileira no Museu da Imagem e Som – MIS/SP (MEIHY; HOLANDA, 2007). Desta mesma forma, a História de vida é um método de pesquisa centrado no ponto de vista do sujeito, e sobre o qual Glat et al (2004, p. 236) ressaltam que: Um dos métodos mais simples, porém eficazes, é ouvir o que os indivíduos que vivenciam (ou vivenciaram) a situação em questão têm a dizer sobre ela. Esse tipo de abordagem propicia uma aproximação maior com o sujeito ou grupo analisado, já que privilegia as apreciações das experiências de interesse interpretadas pelos próprios participantes. Segundo Reis (2010), o método de História de Vida possui dois significados distintos proposto por Denzin em 1970, em que diferencia Life History (história de vida) de Life Story (estória de vida): A primeira (life history) seria utilizada para aprofundar estudos sobre a vida de indivíduos ou grupos, como acontece nos estudos de caso. Neste caso, há a necessidade de comprovação da veracidade dos depoimentos. Já a segunda (life story) considera o relato de vida da pessoa, na maneira em que ela vivenciou, sem que o pesquisador necessite confirmar a autenticidade dos fatos, uma vez que o que importa é o ponto de vista do sujeito que narra o fato vivenciado (REIS, 2010, p. 74). Quanto à finalidade do método, abarca dados descritivos da pesquisa através da biografia de vida, trazendo a compreensão do que é dito no depoimento, preocupando-se com o indivíduo, de acordo com suas vivências. 61 Para Minayo (2007, p. 156), “[...] a história de vida (tópica ou mais completa) verbalizada pelos participantes, constitui uma tentativa de desvelado ambiente intangível dos acontecimentos que fazem parte de determinado grupo social”. Uma das preocupações da história de vida é permitir que seja dada a voz ao pesquisado, na qual não há limites impostos pelo pesquisador. O narrador relata suas vivências no contexto por ele experimentado, relacionando sua inserção com o meio social. Nele, segundo Santos e Santos (2003, p. 40) “[...] o pesquisador não tem controle da situação, ao contrário, todo estudo é direcionado pelo entrevistado, a partir de sua visão de mundo [...]”. Para Glat e Santos (1999), algumas considerações que diferenciam história de vida, com a autobiografia e entrevista biográfica explicam que, no primeiro, a narração é contada pelo próprio autor, no qual não se preserva sua identidade, e na segunda instância, o pesquisado fala sua história por si, sem haver a reflexão da vida enquanto esta é exposta. Bertaux (2010, p. 49) contribui afirmando que: Na autobiografia, forma escrita e autoreflexiva, o sujeito que lança solitário, um olhar retrospectivo sobre sua vida passada, a considera na totalidade e como uma totalidade. Já na narrativa de vida etnossociológica, forma oral mais espontânea, e, sobretudo, forma dialógica, o sujeito é convidado pelo pesquisador a considerar suas experiências passadas através de um filtro. Na história de vida, o entrevistado determina o que é importante relatar, como explicam Silva et al (2007) os quais consideram que esta traz a oportunidade de reexperimentar o que foi vivenciado, contribuindo para re-significação de sua vida, e construção de sua própria identidade social. Segundo Glat e Santos (1999) o sujeito reconsidera o sentido de sua vida enquanto narra sua história. Desta forma, o sujeito pesquisado quando relata a sua vida, avalia a trajetória vivida e através de recordações, revela ao pesquisador aquilo que considera importante revelar. A abordagem da história de vida como metodologia também traz contribuições, como afirmam SILVA et al (2007), pois permite proximidade entre pesquisador e pesquisado, em que há uma produção de significados para o pesquisador e sujeito como “saber em participação”, além de transmitir a história de vida da maneira própria do entrevistado, consolida uma ponte entre sujeito e social. 62 Quanto à utilização da história de vida na pesquisa, tornou-se pertinente esse método pela aproximação da pesquisadora com os sujeitos idosos internados. Assim, contribuiu para um diálogo aberto e dinâmico, admitindo uma oportunidade para ambos, quanto ao levantamento de questionamentos e reflexões acerca do relato de suas vidas, trazendo à luz a temática do envelhecimento e finitude na percepção dos sujeitos do estudo. Nesse contexto, vale ressaltar que a história de vida como metodologia empregada serve como um alicerce fundamental nesta investigação, uma vez que permite a exploração do universo subjetivo dos idosos pesquisados, através da qual foram vivenciados fatos marcantes durante a trajetória de vida, culminando, a partir destas, na construção de imagens e representações. Segundo Santos e Santos (2008, p. 715) “se quisermos saber a experiência e perspectiva de um indivíduo, não há melhor caminho do que obter estas informações através da própria voz da pessoa”. Além do mais, o método proporciona uma profunda reflexão no que se refere ao envelhecimento e finitude, uma vez que perpassa à percepção humana e que constitui um silêncio na sociedade. Cenário do Estudo A pesquisa teve como cenário as unidades de clínica médica masculina e feminina e cirúrgica masculina e feminina do Hospital Universitário Antônio Pedro (HUAP), da Universidade Federal Fluminense (UFF), situado no município de Niterói no Estado do Rio de Janeiro. Foram escolhidos esses setores, por abarcar um número considerável de idosos internados, com diversas especialidades patológicas. O Hospital Universitário Antônio Pedro foi criado na década de 50, como autarquia municipal, com finalidade de atender a clientela do Município de Niterói e a área de abrangência. Em 1957 o hospital teve suas portas fechadas por determinação da Prefeitura de Niterói, devido a cobranças indevidas por atendimento médico. Em 1961 reabriu em caráter emergencial, devido a um incêndio ocorrido em um circo, vitimando cerca de 400 pessoas. À época contou com uma rede de apoio de funcionários do Município e alunos da faculdade de medicina, que prestou atendimento às vítimas do acidente, em ação conjunta. Em 1964 o hospital, sem contar com a verba vinda do 63 Município passou sua administração ao Ministério da Educação, tornando-se o Hospital Universitário Antônio Pedro. Na atualidade, é um hospital ligado à rede do Sistema Único de Saúde (SUS), centrado no atendimento ambulatorial e com internação referenciada de outras unidades de saúde, destinado ao atendimento de média e alta complexidade. Visando à universalidade e integralidade do acesso aos serviços do SUS, definese média complexidade como: Ações e serviços que visam atender aos principais problemas e agravos de saúde da população, cuja complexidade da assistência na prática clínica demande a disponibilidade de profissionais especializados e a utilização de recursos tecnológicos, para o apoio diagnóstico e tratamento. (BRASIL, 2007, p. 17). Além disso, a alta complexidade se define como: Conjunto de procedimentos que, no contexto do SUS, envolve alta tecnologia e alto custo, objetivando propiciar à população acesso a serviços qualificados, integrando-os aos demais níveis de atenção à saúde (atenção básica e de média complexidade) (BRASIL, 2007, p. 18). O HUAP foi projetado para uma capacidade total de (263) leitos, sendo distribuídos a partir destes, 208 nas unidades pesquisadas - médica e cirúrgica feminina e masculina. No entanto, são disponibilizados 118 leitos na clínica cirúrgica em ambos os sexos, e 90 na clínica médica para ambos os sexos. O hospital oferece serviços de diversas especialidades clínicas, distribuídas nas enfermarias, que envolve clínica médica, neurologia, gastroenterologia, cardiologia, pneumologia, ginecologia, endocrinologia, nefrologia, dermatologia. Além disso, as unidades cirúrgica feminina e masculina contam com um sistema de apoio para internações pré e pós-cirúrgico. A clientela hospitalizada nas unidades de internação é proveniente da unidade de emergência que funciona através de um sistema de Referência e Contra-Referência. Este sistema de Referência disponibiliza internações aos usuários do SUS encaminhados das unidades básicas de saúde, para uma unidade de suporte hospitalar de média e alta complexidade, de acordo com o grau de complexidade de atendimento; já o sistema de Contra-Referência é o oposto, devolve o usuário à rede de menor complexidade, para a continuidade terapêutica após estabilização. 64 Sujeitos do Estudo Os sujeitos do estudo foram 15 indivíduos com idade superior a 60 anos de idade ou mais, em conformidade com o Estatuto do Idoso. (BRASIL, 2003). Assim, compreendeu dez mulheres e cinco homens, admitidos nas clínicas medica e cirúrgica do HUAP no período de março a agosto de 2012. Foram critérios de inclusão dos sujeitos: Idosos com idade igual ou acima de 60 anos; Funções psicológicas e cognitivas preservadas; Estabilidade do quadro de saúde; Aceitação prévia para participar do estudo, com a devida assinatura do Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE). E como critérios de exclusão: Indivíduos com idade inferior a 60 anos; Idosos com alterações mentais e/ou físicas que inviabilizassem a realização de entrevistas; Alta ou transferência hospitalar no período de coleta de informações. Aspectos Éticos da Pesquisa Por envolver de forma integral e direta os seres humanos, o referido estudo seguiu o preconizado na Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde, em conformidade com os princípios éticos na pesquisa. Portanto, um Protocolo de Pesquisa foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital Universitário Antonio Pedro da Universidade Federal Fluminense sob o número CAAE n° 0359.0.258.000-11 (ANEXO A). Os sujeitos pesquisados foram orientados de forma detalhada sobre os objetivos da pesquisa, método utilizado, benefícios previstos e possíveis riscos, seus direitos, contribuições e implicações bem como quanto à assinatura prévia do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (APENDICE A). Foi garantido aos sujeitos da pesquisa o anonimato, de forma que preservassem sua identidade, sendo os mesmos identificados com nomes fictícios. 65 A responsabilidade na execução e desenvolvimento dessa pesquisa voltou-se exclusivamente paa a pesquisadora responsável e sua colaboradora. Para tanto, não houve a necessidade de suspender a pesquisa, nem tampouco solicitar o serviço de psicologia do HUAP, em virtude de possíveis danos à saúde dos sujeitos entrevistados. A Coleta de Informações As informações foram coletadas no período de março a agosto de 2012, através de uma entrevista aberta proporcionando a autonomia aos sujeitos da pesquisa, para que descrevessem sobre o que lhes havia sido solicitado, assim como, concede ao pesquisador a interpretação subjetiva dos dados. Para Minayo (2007, p. 262), a entrevista aberta ou em profundidade é aquela “em que o informante é convidado a falar livremente sobre um tema e as perguntas do investigador, quando são feitas, buscam dar mais profundidade às reflexões”. A entrevista aberta foi intermediada através da questão: “Fale sobre sua trajetória de vida”; assim, explorou-se toda a vivência do indivíduo. Além disso, outras duas questões foram abordadas de acordo com o discurso dos sujeitos, permitindo o aprofundamento da coleta de dados: “Como é ter para o senhor (a) ____ anos” e “Conte-me como foram as experiências com as perdas dos entes queridos” (APÊNDICE B). Os indivíduos foram discorrendo sobre suas histórias de vida, na medida em que se identificava o que era necessário abordar. Bertaux (2010, p. 68) explana que, ao contar sua história pessoal o sujeito “fixa a sua atenção além, sobre o que essa experiência revela das relações sociais no seio das quais ela se inscreve”. Para Freitas (2006, p. 88), “todo entrevistador precisa saber como conduzir a sua entrevista, as questões mais importantes a serem perguntadas e até onde ir nessa entrevista”. Ainda, para a autora, “a aplicação de roteiros nas entrevistas não é feita de forma rígida, uma vez que muitas questões vão surgindo naturalmente no discurso do depoente no transcurso da entrevista e, essas, às vezes, nos suscitam outras”. (FREITAS, 2006, p. 88). Todas as entrevistas foram gravadas em aparelho digital MP4, com autorização dos pesquisados, para que pudessem ser um veículo facilitador no processo das 66 transcrições das entrevistas por meio dos áudios, no sentido de garantir a autenticidade das respostas. Segundo Santos e Santos (2008 p. 716), sobre a gravação das entrevistas: [...] é bastante prático para o método, sendo fundamental, pois além de preservar e registrar todos os detalhes da fala dos depoentes, a técnica permite que o entrevistador preste mais atenção ao depoimento cedido. Com relação às entrevistas, estas duraram de 30 a 75 minutos, perfazendo uma média de 46 minutos e 40 segundos entre todas as entrevistas. Durante as entrevistas, os sujeitos não manifestaram qualquer desconforto quanto à presença do gravador. Partindo do pressuposto de que o método propicia ao sujeito falar abertamente sobre sua vida, não foi definido um tempo limite. Os sujeitos iam discorrendo de acordo com o que lembravam e cessavam seus depoimentos, quando já não havia algo mais a ser dito. Para Glat e Duque (2003, p. 27) “a entrevista não é vista apenas como uma situação de coleta de dados, mas sim como um encontro, uma oportunidade de questionamento e reflexão, tanto para o informante como para o próprio pesquisador”. O número de sujeitos da pesquisa foi determinado a partir da identificação do ponto de saturação que orienta a pesquisa qualitativa (MINAYO, 2007; CANZONIERI, 2010). Também corroborando nesta análise, Bertaux (2010) afirma que ao identificar o ponto de saturação na pesquisa em história de vida, encerra-se quando não há mais nada de novo nas entrevistas que possam ser agregados ao objeto social. Por se tratar do Método de História de Vida, em que traz à tona todas as questões históricas vividas pelo sujeito a partir de suas lembranças e representações, o quantitativo de idosos pesquisados foi suficiente no sentido de responder aos objetivos propostos, em que os depoimentos dos sujeitos se apresentaram complexos e significativos. O “caminhar” da coleta de Informações Para aproximação dos sujeitos no cenário da pesquisa foi feito inicialmente um reconhecimento do ambiente da pesquisa através do estágio em docência o qual realizei acompanhando alunos da graduação de enfermagem nas clínicas médica e cirúrgica do 67 HUAP durante o segundo semestre de 2011. Nessa fase, pude avaliar quem eram os idosos internados nessas clínicas, quais eram as patologias mais prevalentes, como era a rotina desses idosos. Ao conhecer esses idosos, considerei importante acolhê-los de forma humanizada, tendo uma escuta ativa quantos às suas queixas mais comuns, dúvidas frequentes que perpassavam suas vivências, reconhecendo-os além disso, como sujeitos participativos no seu processo de hospitalização. Durante esses momentos, procurei refletir de que forma poderia realizar as entrevistas, tendo em vista a dinâmica do ambiente com as consultas médicas diárias, presença de residentes e alunos do curso de medicina, visitas de enfermagem, alunos da graduação, realização de exames, procedimentos, assistência dos auxiliares de enfermagem. Assim, nesta avaliação quanto ao espaço físico, realizei um planejamento quanto aos horários mais viáveis para a entrevista em que os indivíduos pudessem narrar sua vida com mais serenidade e privacidade. Para tanto, durante esse período, pude conhecer melhor os profissionais que ali trabalhavam como enfermeiros e técnicos de enfermagem das clínicas médica e cirúrgica masculina e feminina. Portanto, foi de extrema importância essa aproximação, que favoreceu a liberdade e acessibilidade aos idosos internados, criando-se assim, um vínculo de confiabilidade e respeito para o desenvolvimento do estudo. Após o consentimento da instituição cenário da pesquisa, foi realizado um “préteste” com um quantitativo de 02 sujeitos, seguindo as questões pré-definidas. No decorrer dessas duas primeiras entrevistas observei, ao realizar as transcrições, que houve algumas interrupções nas falas dos sujeitos, fruto de minha inexperiência na abordagem com o método, e ansiedade em responder aos objetivos da pesquisa. Pois o método de história de vida traz à tona as vivências do indivíduo, revela questões mais relevantes experimentadas pelos sujeitos, podendo às vezes ocorrer um afastamento da temática em questão. Assim, fez-se necessário estabelecer alguns critérios quanto ao ajustamento da entrevista, tendo em vista a qualidade dos dados coletados, de forma que não comprometesse a validação da pesquisa. O que me levou a compreender que seria necessária a reformulação da pergunta norteadora da entrevista para que resgatasse os sujeitos entrevistados de volta aos objetivos do estudo. Utilizou-se, ainda, outro parâmetro como medida construtiva que pudesse contribuir na subjetividade dos dados relatos, de modo a interrogá-los mais profundo e 68 minuciosamente sobre determinado assunto de importância para si, que tenha sido cessado durante uma narrativa. Buscando-se assim, recuperar os “silêncios” suspensos em uma fala, que proporciona um sentido de reflexão no instante em que rememora. Bertaux (2010) discorre sobre a ideia de que o pesquisador deve manter uma escuta atenciosa a tudo que é dito, mesmo que não seja àquilo que não imaginava, pois é através dessa atenção que o pesquisador chegará à transformação de perspectivas quanto à ruptura do senso comum. Sendo assim, permite ao pesquisador discutir sobre o que foi relatado, de forma a elucidar a natureza do fenômeno. Contribuindo neste pensamento, Santos et al (2007, p. 32) explicam que “o sujeito e pesquisador situam-se num mesmo nível e vão construindo juntos os processos”. Nesse contexto, Freitas (2006, p. 89) esclarece que “cada entrevista tem sua própria dinâmica, e cada entrevistado mostra-nos diferentes interesses na abordagem de determinadas questões”. Partindo deste princípio, concentrei esforços para uma aproximação eficaz antes das entrevistas propriamente dita, possibilitando um valor positivo para a pesquisa no sentido de empatia e confiabilidade gerada entre pesquisador e sujeito, proporcionando um ambiente de confiança e espaço necessário de troca com os mesmos. Sendo assim, as entrevistas ocorreram no período da tarde, logo após o contato prévio no horário da manhã ou durante a realização de outras entrevistas, de modo que permitisse o conhecimento desses idosos, e ainda a captação e consentimento para a pesquisa. O horário oportuno para a realização da entrevista se deu logo após o almoço, por se tratar de um período de menor circulação de pessoas nas unidades de internação. Era também o momento em que alguns pacientes vizinhos dos entrevistados, descansavam ou assistiam à televisão, proporcionando dessa forma, maior liberdade nos depoimentos. Nenhum depoimento se aproximou do horário da visita, compreendido de três às cinco horas da tarde, pois, esse horário poderia prejudicar a continuidade das entrevistas. No método da história de vida, essa aproximação se torna inevitável na pesquisa, pois esse vínculo que se estabelece não invalida ou torna-o menos científico que outros métodos, pois cabe ao pesquisador o cuidado de não inferir no fenômeno que se está estudando. (VELHO, 1978 apud PAULILO, 1999). Assim, ao me aproximar desses idosos, e ao explicar todo processo para a realização da entrevista, os sujeitos demonstravam receptividade e interesse em 69 participar do estudo. No momento da coleta de dados, a abordagem com os idosos pesquisados ocorreu de maneira descontraída, desenvolvendo-se a oportunidade de reflexão de memórias biográficas, e reorganização da vida. Além disso, permitiu o acesso da pesquisadora às informações vividas, sem discriminação ou juízo de valor, permitindo que os dados fossem coletados com base nos objetivos. Em algumas situações, ao chegar à enfermaria, os idosos me acompanhavam com o olhar, chamando a atenção para si, o que se mostrou interessante é que essa atração simultânea entre ambos possibilitou aproximação para um relato de vida bem amplo e extenso. Por se tratar de “entrevista”, os idosos pesquisados apresentavam inicialmente certa ansiedade para verbalização de suas ideias, mas com o transcorrer dos depoimentos, adotavam uma postura mais leve e espontânea, sentindo-se mais à vontade em expressar seus sentimentos. Já outros idosos eram mais reservados, admitindo-se uma postura mais defensiva. Esses tenderam a falar menos no inicio das entrevistas e, aos poucos, mostraram-se mais confortáveis perante sua narração. Ressalto que em todas as entrevistas, durante a reflexão dos sujeitos, demonstraram algum tipo de sentimento, seja de tristeza, relacionado a alguma situação de dificuldade vivida, ou felicidade pelas superações vencidas. Tendo em vista que a memória se apresentava ativa no decorrer do relato da história de vida, observei que no momento que era relembrado algum fato marcante da vida, o idoso proporcionava satisfação naquele momento, refletindo sentimentos de saudades. De acordo com Alberti (2005) as recordações e memória são variáveis de pessoa a pessoa, assim como a valorização dos acontecimentos no momento em que ocorrem, e no momento em que é recordado. Nas entrevistas, pude perceber com muita riqueza de detalhes que a maioria deles, se emocionava quando relembrava o passado vivido e, em algumas vezes, os silêncios eram destacados como um choro contido. Nesta representação, surgiram algumas interpretações que perpassam seu próprio entendimento, e se revelam como algo que transcende seu existir, e isso se torna consciente, na medida em que ocorre a reflexão. Na perspectiva interacionista, a percepção do comportamento humano consciente possibilita ao homem o planejamento das ações em relação consigo mesmo e aos outro, e assim, através da autorreinteiração, ressignifica o que foi vivido (CAZONIERI, 2010). 70 Também pude observar que os depoimentos em que foi evidenciado o choro, primeiramente pareciam algo constrangedor, mas, com o decorrer da entrevista, as emoções foram se tornando mais evidentes, a ponto de chegarem às lágrimas de forma incontrolável. Alguns idosos, no momento dos seus relatos, apresentaram lacunas em relação ao tempo vivido e ao presente. Assim, foi dedicado mais tempo para que eles pudessem realizar suas reflexões e assim, discutir sobre temas relevantes para si. Organização e Análise das Informações As entrevistas foram transcritas na íntegra, o que possibilitou preservar a originalidade nas falas. Nesta descrição, o tempo empreendido durante a transcrição dos depoimentos ocorreu de três a quarenta e dois minutos às doze horas e quatorze minutos. Após a transcrição das entrevistas estas foram identificadas com nomes fictícios para preservar a identidade dos sujeitos. Para a identificação dos sujeitos da pesquisa consideraram-se personalidades brasileiras idosas, de grande influência na sociedade, que contribuíram e contribuem na construção do país. Tais transcrições ocorreram no mesmo dia em que eram realizadas as entrevistas pela própria pesquisadora, o que facilitou a memória visual de cada depoente na entrevista, com sentimentos variados como momentos de pausa e silêncios nas narrativas, choro de pouca duração, bem como um instante reflexivo inerente ao que o próprio método proporciona. Torna-se importante destacar que é na transcrição dos depoimentos que o pesquisador avalia sua postura diante dos seus entrevistados. Como afirmam Santos e Santos (2008), a transcrição deve ser feita pelo próprio pesquisador e nesse processo construir sua auto-avaliação, o que permite que ajustamentos sejam realizados. Em seguida realizou-se a análise temática, que tende em analisar a ideia com base no que foi declarado. Nela busca-se identificar o “núcleo de sentido” que compõe uma narrativa, no qual sua “presença” ou “frequência” representa relevância ao objeto analítico (BARDIN, 2002; MINAYO, 2007). A análise temática, no processo de investigação do material coletado, configurase em estabelecer conceitos que surgirão na medida em que os depoimentos são 71 examinados. Para Santos e Santos (2008, p. 718), “a maioria dessas informações e significados não aparece na primeira leitura; sem dúvida, a experiência demonstra que vão surgindo umas atrás das outras no transcurso das leituras sucessivas”. Assim, realizou-se inicialmente a leitura do material como um todo, sendo identificados com canetas de diferentes cores os pontos que se destacavam nas falas. Santos e Santos (2003) revelam que a leitura flutuante busca ressaltar os pontos importantes nas entrevistas, em que são selecionados os “temas mais marcantes”. O contato prévio do material da entrevista, a pré-análise, tem por finalidade propor ao pesquisador um contato mais íntimo com suas entrevistas, deixando-se invadir por impressões e conhecimento dos seus relatos (MACEDO; CARRASCO, 2005). Após esse primeiro contato com as entrevistas, foram destacadas dos depoimentos, as falas comuns entre os idosos. Em seguida, esses dados foram agrupados em um quadro ilustrativo em papel A4, para facilitar a identificação dos temas, de acordo com os objetivos da pesquisa. Nesse sentido, a organização dos recortes dos depoimentos extraídos das entrevistas possibilitou a análise em profundidade desse material e a elaboração de pré-categorias. Para Santos e Santos (2008), esta etapa se classifica como “codificação dos dados” e se apresenta como fundamental para a investigação posterior dos dados e alcance dos objetivos propostos. Partindo dessa premissa, as seguintes categorias e sub-categorias emergiram, após análise dos dados pré-determinados da síntese dos depoimentos, como ilustrado na figura 01. Figura 01 – Esquema gráfico das Categorias e Subcategorias definido por Cores. Rio de Janeiro, Dezembro, 2012. O Jogo da Memória no significado do Envelhecer (Re) Vivendo Histórias Percebendo as “Perdas” no Carrossel da Vida Superando os Limites da Vida Refletindo Situações Limites da Vida durante a Hospitalização Compreendendo sua Própria Finitude diante da Hospitalização Analisando as novas Perspectivas diante da Vida 72 Fonte da pesquisa: CUNHA, B.S.S. Dados da pesquisa de acordo com as categorias e sub-categorias. Rio de Janeiro, 2012. Categoria Azul: representa as histórias lembradas pelos idosos em relação à temporalidade, e se revelam como resultado de diversos fatos vivenciados em continuidade, que corroboram para o desenvolvimento e aprendizado. Nessa análise, [...] a ligação sintética dos acontecimentos, sob a forma de sequências temporais que estruturam a percepção humana antes de qualquer experiência, seria independente do patrimônio de saber de uma dada sociedade e não passível de ser aprendida. (ELIAS, 1998, p. 34). Ainda considerando os aspectos da vida do indivíduo que é influenciado pelo tempo, “a vida é entendida como uma sucessão de momentos, que vividos progressivamente, levam a um fim a ser alcançado, numa linha evolutiva” (BARBIERI, 2006, p. 51). Categoria Verde: apresenta a reflexão da vida gerada durante a hospitalização, em que os idosos demonstraram relevância na organização e análise da vida, como uma nova oportunidade de recomeçar. Portanto, Peres (2009) identifica que os caminhos para as habilidades adaptativas do ser humano se desenvolvem por quatro princípios, que se destacam como habilidades adaptativas ao evento adverso, utilização dos recursos pessoais ao enfrentamento, mecanismo da autoproposição à situação desafiadora, seguir em frente com novo foco. Sob o ponto de vista de investigação do objeto do estudo “O envelhecimento e a finitude na trajetória de vida de idosos hospitalizados” trouxe evidências durante a análise das entrevistas, que proporcionou uma vasta discussão sobre uma temática subjetiva ao cuidado gerontológico, em que remete a uma reflexão de si, no que tange ao ressignificado à vida. Assim sendo, o retorno das questões norteadoras da pesquisa “Qual a perspectiva de envelhecimento e finitude na trajetória de vida do idoso hospitalizado?” e “Quais as implicações do envelhecimento e finitude para o cuidado de enfermagem ao idoso hospitalizado?” foram retomados, no sentido de tecer 73 questionamentos de acordo com os objetivos propostos, que foram respondidos no decorrer das discussões dos resultados. 74 CAPÍTULO III: APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Os resultados da pesquisa emergiram das histórias de vida de idosos internados nas clínicas médica e cirúrgica, masculina e feminina do HUAP, em que relatam suas perspectivas sobre envelhecimento e finitude, trazendo contribuições para cuidado de enfermagem. Perfil dos Idosos do Estudo A história de vida desses idosos hospitalizados revelou uma gama de conhecimento e sabedoria advindos da experiência de vida, e características individuais. Dessa forma, através de: Vários testemunhos sobre a experiência vivida, de uma mesma situação social, por exemplo, será possível superar suas singularidades para alcançar, por construção progressiva, uma representação sociológica dos componentes sociais (coletivos) da situação (BERTAUX, 2010, p. 48). Assim, o perfil dos idosos entrevistados apresentados no quadro 01, revela as características individuais que contribuiram para a produção dos dados. Quadro 01 – Caracterização dos idosos pesquisados. HUAP. Niterói, Março – agosto, 2012. Sujeitos/Sexo Idade Estado Civil N° Filhos Ocupação Religião Clínica Buarque (M) 60 Divorciado 01 Aposentado Não tem CCM Lee (F) 61 Solteira 03 Aux. serviços gerais Não tem CCF Gal (F) 65 Solteira 02 Aposentada Evangélica CMF Canô (F) 80 Viúva 13 Aposentada Católica CCF Gonzaga (M) 61 Divorciado 01 Motorista Católico CMM 75 Hebe (F) 71 Viúva 02 Aposentada Católica CCF Cora (F) 63 Divorciada 04 Aposentada Católica CMF Dercy (F) 72 Solteira 00 Aposentada Católica CMF Betânia (F) 60 Divorciada 03 Aposentada Evangélica CCF Niemeyer (M) 75 Casado 05 Aposentado Evangélico CCM Bibi (F) 87 Viúva 04 Católica CCF Montenegro (F) 69 Viúva 01 Aposentada Técnica de Enfermagem Evangélica CMF Lula (M) 64 Casado 3 Marmorista Católico CMM Gil (M) 65 Viúvo 2 Aposentado Evangélico CMM Menezes (F) 62 Divorciada 2 Doméstica Evangélica CCF Fonte: Pesquisa direta: Cunha, B.S. e S. Coleta de dados realizada em prontuários para a caracterização dos sujeitos da pesquisa, HUAP. Niterói, mar. – ago., 2012. Considerando os sujeitos da pesquisa, em relação à faixa etária verificou-se que as idades variavam entre 60 a 87 anos; este último dado se relacionou ao sexo feminino. Por isso, o envelhecimento produz impacto na saúde, em decorrenência do aumento das doenças crônicas. Em decorrência disso, Layola Filho et al (2004, p. 231) revela em seu estudo que: Em 2001 o SIH-SUS registrou 12.227.465 internações hospitalares no âmbito do Sistema Único de Saúde. Os idosos, que representavam 8,5% da população geral, responderam por 18,3% das hospitalizações. Também, o censo de 2010 revela que existe uma variação de 96,0 homens para cada 100 mulheres e como resultado ocorre um excedente de 3.941.819 mulheres ao número total de homens (IBGE, 2010b). Parahyba (2006) também contribui afirmando que a expectativa de vida das mulheres idosas tende a ser maior em relação a dos homens. Em virtude disso, o último dado referente à idade de uma idosa pesquisada, nos remete que a quantidade de internação por idosos em relação à habitantes/proporção aumentou acentuadamente com a idade avançada (CUNHA; SÁ; NASCIMENTO, 2013). Quanto ao estado civil, cinco idosos eram divorciados, cinco viúvos, dois casados e três solteiros. Dos sujeitos solteiros, apenas um relatou nunca ter se envolvido em um relacionamento formal, tampouco informal. Em estudo baseado em um levantamento da população idosa durante o período de 1980 a 2000, Camarano et al (2005) obtiveram significativas mudanças em relação a sexo/estado civil, em que se destacou para o gênero masculino em 1980: casados 76 (79,2%), desquitados (3,0%), viúvos (12,5) e homens solteiros (5,3%); no gênero feminino observou-se as casadas (39,7%), desquitadas (4,1%), viúvas (47,1%), e mulheres solteiras (9,2%). Em 2000 os índices foram para o gênero masculino: casados (77,3%), separados (6,2%), viúvos (12,4%), solteiros (4,0%); e nas mulheres foram de: casadas (40,8%), separadas (11,8%), viúvas (40,8%), solteiras (6,6%) (CAMARANO et al, 2005). Isso aponta que ao longo dos anos não mudou muito a proporção de mulheres vivendo sozinhas em relação aos homens, pois o censo de 2010 confirma esse dado trazendo o aumento estatístico das mulheres idosas que nunca adquiriram uma união conjugal, que foi de (7,4%) em relação aos homens de (4,6%) (IBGE, 2010c). Quanto ao número de filhos, somente um não os tinha, três tinham um filho, quatro tinham dois, três tinham três filhos, dois tinham quatro filhos, um tinha cinco filhos e um tinha treze filhos. Para fins de comparação, Camarano (2002) destacam que em estudo realizado em 1981 esse índice de redução da taxa de fecundidade já apresentava queda, pois retratou essa realidade ao destacar a redução da estrutura familiar. Em se tratando da ocupação atual dos entrevistados, dez idosos eram aposentados e cinco eram ativos. Dos pesquisados identificados como aposentados, todos exerciam uma profissão liberal que contribuía na renda. Neste sentido, “a perda da posição social após a aposentadoria leva o idoso a interromper suas responsabilidades relacionadas ao mundo do trabalho e da produção, gerando rótulo de inútil e improdutivo”. (HORTA; FERREIRA; ZHAO, 2010, p. 525). É por tais razões que após a aposentadoria, os idosos buscam manter uma atividade produtiva. Segundo Silva (2009, p. 82), “os recentes aumentos dos beneficios da previdência social no Brasil ainda não têm acompanhado o custo de vida e as necessidades básicas dos idosos”. Quanto à religião, seis idosos eram evangélicos, sete católicos e dois não tinham religião. Embora os idosos tenham relatado não possuir religião, disseram que havia a fé e a crença em Deus. As pesquisas do censo de 2010 revelaram que houve um crescimento da diversidade religiosa com aumento de 22,2% no número de evangélicos, 64,6% em relação aos católicos, 2,0% no número de espíritas, os demais (8,0%) declararam não possuir religião (IBGE, 2010a). Para tanto, a velhice se destaca na compreensão do ser, 77 revelando que “para aqueles que só vivem de seu corpo pode representar decadência, mas para aquele que viveu para o espírito pode representar a síntese e a revelação”. (NOVAES, 2000, p. 130). Historiograma dos Sujeitos da Pesquisa As entrevistas com os idosos possibilitaram conhecer um pouco das suas características individuais, o que permitiu chegar-se a uma descrição particular de cada entrevistado. Sr. Buarque: sexo masculino, 60 anos, nasceu em Minas Gerais e estudou até o quarto ano primário. Aos 16 anos se mudou para o Rio de Janeiro, onde iniciou sua vida com a família. Aposentou-se cedo após um acidente de trabalho ocorrido há 34 anos atrás, quando ficou paraplégico. De acordo com a história patológica pregressa, traumatismo raqui-medular, atrofia de membros inferiores, história de infarto agudo do miocárdio, hipertensão, diabetes, fístula retal, doença arterial crônica, hepatite C. Atualmente reside sozinho em Amendoeira, no município de São Gonçalo, em casa própria e adaptada, mas ainda trabalha como autônomo na produção de DVDs e CDs em sua residência. O idoso morou em Massachusets – Estados Unidos da América por 17 anos, possui uma filha e três netos que atualmente moram nos Estados Unidos. Relata ser desquitado, e não possuir religião. Internou-se na clínica médica masculina há 10 dias até o momento da entrevista, para tratamento de infecção em membro inferior esquerdo, por osteomilite de quadril em estágio avançado. No instante em que cheguei à enfermaria no fim de uma manhã, o idoso acompanhou-me com o olhar tentando chamar a atenção para si, e assim, ao abordá-lo, demonstrou contentamento e satisfação, pela minha atenção. Durante toda a conversa prévia à entrevista, mostrou-se interessado em colaborar com o estudo, contando resumidamente sua trajetória de vida, mesmo sem ter iniciado de fato seu depoimento para a pesquisa. Era um indivíduo dócil, que permitiu uma aproximação eficaz para a realização da entrevista. Ao retornar à tarde para a coleta de dados, Buarque encontrava-se sorridente por estar em minha presença, e bem disposto para iniciar sua narração. Assim, tudo que 78 falava considerava como parte importante de sua vivência, assim como as superações, em que se adaptou de forma prática às suas necessidades, com muito orgulho. Ao conhecer esse idoso, observei que apesar de todo o sofrimento que passou na vida era um homem feliz. Destaco que ao lembrar um fato ocorrido entre ele e sua filha, em que foi abandonado pela família, o idoso se emocionou e chorou durante um tempo. Este momento, então, foi respeitado e procurei ser solidária, pegando em sua mão, e ele pareceu sentir-se mais confortado retomando sua fala. Sra. Lee: sexo feminino, 61 anos, solteira, reside atualmente com a filha no bairro de Engenhoca em Niterói, é aposentada, mas ainda trabalha como auxiliar de serviços gerais; além disso, relata possuir três filhos vivos e não possuir religião. Quanto à história patológica pregressa, realizava tratamento para hipertensão na saúde básica de saúde. Internou-se na clínica cirúrgica feminina há 06 dias até o momento da entrevista, para dilatação da traquéia após estenose por Intubação Oro-Traquel (IOT). A idosa apresentava-se apreensiva pela cirurgia que iria realizar, pois relatou sobre sua experiência da internação anterior após Acidente Vascular Cerebral (AVC), no qual ficou internada em terapia intensiva, por 02 meses e 14 dias. No momento da entrevista, aparentemente estava tranquila, respondendo as questões de sua trajetória de vida de maneira objetiva, embora estivesse ansiosa e com receio diante da cirurgia, além do desconforto de estar em um ambiente hospitalar. Sr. Gil: sexo masculino, 65 anos, viúvo, nasceu no Espírito Santo, se mudou com a família para o Rio de Janeiro com três anos de idade, possui dois filhos, reside com dois afilhados em Itaipu – Niterói. Atualmente é aposentado, trabalhava em um frigorífico, é evangélico praticante, e relata ser diabético e hipertenso, faz tratamento dessas comorbidades em um posto de saúde próximo à sua residência, relata história pregressa de infarto agudo do miocárdio (IAM). Internou-se na clínica médica masculina há 04 dias até o momento da entrevista, para tratamento de cardiopatia isquêmica multivascular com lesão de tronco. 79 Ao abordar esse idoso para a entrevista numa manhã, demonstrou satisfação quanto à sua participação, prontificando-se em ajudar no que fosse solicitado. No curso da entrevista, observei que havia espontaneidade das suas ações desde o inicio, ajudando-me com o material da coleta. Era, ainda, uma pessoa que se comunicava e se articulava muito bem, era bastante expressivo em seus gestos e movimentos corporais, alegando estar feliz por estar ali comigo naquele momento, conversando com ele. Ao falar sobre sua vida, emocionou-se ao contar um momento triste, em que perdeu sua casa em um deslizamento no morro Novo México em 2010. Ao narrar o episódio trágico de sua vida, o idoso chorou ao lembrar, mas logo em seguida retornou ao estado emocional normal, prosseguindo com a entrevista. No decorrer da nossa conversa, em alguns momentos, eu me emocionei com seu depoimento que demonstrava muitos sentimentos ainda vivos em tudo que falava. Cada detalhe contado era ainda bem ativo em sua memória, trazendo para si a reflexão quanto à importância da vida. Sra. Hebe: sexo feminino, 71 anos, residente de Alcântara em São Gonçalo, mora com um dos dois filhos que possui, é católica não praticante, é viúva e aposentada. Faz tratamento no ambulatório do Antônio Pedro para hipertensão, diabetes, além disso, realiza tratamento para glaucoma, hiperceratose plantar, osteoartrose lombar, distrofia de Fuchs, nódulo de tireóide. Internou-se na enfermaria cirúrgica feminina após segmentectomia de mama esquerda e linfadenectomia esquerda em três níveis, realizado no dia anterior. Até o momento da entrevista havia 04 dias de internação hospitalar, e, mesmo em pós-operatório, apresentava-se tranquila e sem dor no momento da entrevista, o que facilitou minha abordagem com a idosa. Houve relato apenas de incômodo com o dreno infra-axilar esquerdo. A idosa revelou-se disposta na participação voluntária na entrevista, aceitando prontamente participar da pesquisa. De acordo com o seu quadro de saúde, revelou estar conformada quanto à situação atual, apresentando-se disposta a seguir o tratamento, com muita fé e otimismo. Sua preocupação naquele momento era em relação aos filhos, pois não aceitavam sua doença. Isso pôde ser visto quando contou que “quando eu fiquei doente, eu reagi bem... já eles (filhos) não!” (Hebe, 71 anos). 80 Durante a entrevista, observei que sua ansiedade e preocupação giravam em torno dos filhos, pois durante sua narração foi evidenciado todo zelo e carinho empreendido tanto aos filhos quanto à família. Sr. Gonzaga: sexo masculino, 61 anos, residente de Coelho Neto – RJ, atualmente mora sozinho em casa própria, mas no mesmo quintal da família, é divorciado, trabalha como motorista particular é católico não praticante, e possui uma filha. Quanto sua história patológica pregressa, é diabético tipo II, hipertenso, possui doença vascular periférica, realizou uma cirurgia em 2010 para debridamento de úlcera plantar. Foi transferido do hospital Azevedo Lima para o Antônio Pedro para realização de revascularização cardíaca após um infarto, e encontra-se na clínica médica masculina há 29 dias aguardando cirurgia. No cateterismo realizado no hospital, evidenciou 90% de obstrução do terço proximal sendo necessária a angioplastia de coronária. Ao me aproximar do idoso para falar da pesquisa e seus objetivos, observei que este se encontrava sozinho em um canto, sentado ouvindo música, aparentemente triste com olhar distante. Permaneci durante certo tempo conversando com ele sobre diversos assuntos, e o mesmo pôde desabafar todas as suas angústias produzidas pela internação e por estar sozinho, longe da família. Quando retornei à enfermaria para a entrevista, Gonzaga aceitou participar espontaneamente, mas pude analisar seu comportamento constrangido quando começou a falar sobre sua vida. O idoso ponderou algumas atitudes perante o que foi narrando, levando-me a uma reflexão de que enquanto pesquisadora e profissional da saúde poderiam cometer alguma censura ou repreensão pela vida que este levou, e que de alguma forma contribuiria para a perda da saúde. Ao compreender que estava ali apenas para ouvi-lo, sentiu-se mais à vontade e segurança para falar de sua vida, contando com mais riqueza de detalhes sua trajetória de vida. O idoso revelou ter consciência da gravidade da sua saúde durante a hospitalização e atribui esse acontecimento pela vida que levou, pois consumia muito cigarro, bebida, alimentação inadequada dita como “pesada”. 81 Ao narrar à perda da mãe, o idoso se emocionou e chorou por um momento rápido, revelando sentimentos de saudades. Retomou sua fala em seguida, e foi discorrendo livremente sobre sua história, sem que houvesse qualquer dano psicológico. Quanto aos aspectos da reflexão durante a hospitalização, considerou importante o encontro consigo mesmo no que tange à mudança de atitude para a qualidade de vida e suas necessidades. Após a entrevista o idoso agradeceu-me por estar ali o ouvindo, e dizia se sentir feliz por ter desabafado. Sua postura era totalmente diferente da anterior, quando eu cheguei, apresentava-se mais extrovertido, sorrindo e conversando com os outros companheiros de enfermaria. Sra. Gal: sexo feminino, 65 anos, solteira, reside sozinha em Marambaia – Itaboraí, atualmente é aposentada, mas trabalhou como doméstica, possui dois filhos e é evangélica praticante. Internou-se na clínica médica feminina 08 dias antes da data da entrevista para tratamento de bloqueio átrio ventricular total (BAVT), e implantação de marcapasso definitivo. A idosa revelou que ao realizar risco cirúrgico para intervenção cirúrgica de laringe (degeneração polipóide bilateral com edema em videolaringoscopia), foi evidenciado BAVT com freqüência cardíaca de 40 batimentos por minuto, sendo encaminhada para tratamento hospitalar para implante de marcapasso definitivo. Relata cansaço aos esforços sem tratamento, e precordialgia, cefaleia e parestesia de membros superiores sem procura médica. Refere ainda ser hipertensa há 40 anos, com tratamento em ambulatório. Ao me aproximar da idosa para a entrevista, a mesma me recebeu com satisfação e revelou gostar de conversar. Ainda relatou estar se sentindo muito sozinha, desconfortável com a hospitalização e com receio pela cirurgia que realizaria. No inicio da entrevista apresentou-se pouco a vontade para falar de sua vida, mas com o decorrer foi trazendo à tona sentimentos guardados em seu interior e falando abertamente sobre os fatos vividos. A idosa apresentou momentos de reflexão durante toda entrevista, pois tudo o que passou na vida, todos os sofrimentos e traumas vividos serviram como base positiva para a construção da sua identidade, dentro de suas possibilidades. É uma pessoa independente, feliz, se dedica atualmente à família composta por irmãs, filhos, netos. 82 Na hospitalização refletiu sobre o a situação-limite da vida e percebeu a gravidade de seu problema, com isso, tem a consciência das mudanças na sua vida após o adoecimento e suas limitações. Realizou também uma reflexão quanto aos aspectos religiosos, trazendo para sua consciência a importância do compromisso com Deus, acreditando na crença do poder Divino para sua cura. Sr. Niemeyer: sexo masculino, 75 anos, casado, mora com a esposa uma filha e duas netas em Fonseca – Niterói. Relata ser aposentado como motorista particular, possui cinco filhos vivos, é evangélico praticante, não pratica atividade de lazer. Internou-se na clínica cirúrgica masculina onze dias antes do momento da entrevista, encontra-se em pós-operatório de laparotomia exploratória por icterícia obstrutiva, colúria e acolia fecal, aplicação de stent biliar-hepático. Possui ainda história patológica de sindrome de Mirizzi em grau III, fístula fesico-hepática, colestase e dilatação cística evidenciada em colangipancreatografia retrógrada endoscópica, além de HAS com tratamento regular medicamentoso com enalapril, hidroclorotiazida (HCTZ), apresolina, atenolol, furosemida, nega DM e alergias. História de internações anteriores de cirurgia de catarata bi-nocular e cirúrgia de próstata há 15 anos. Em história social alega ser ex-tabagista há 50 anos (um maço por dia) por 15 anos, nega etilismo. Reside em casa própria de alvenaria com seis cômodos, água e rede de esgoto encanado, luz elétrica. Em história familiar: pai falecido com 35 anos por consumo excessivo de álcool, mãe falecida com 90 anos por Alzheimer (era HAS). Filhos saudáveis, uma irmã com Alzheimer. Ao abordar o idoso para a entrevista, este se mostrou receptivo e simpático quando me apresentei como pesquisadora, demonstrando muito interesse em participar na pesquisa, até mesmo antes de começar a entrevista durante uma conversa informal na parte da manhã. Pareceu-me satisfeito quanto à solicitação para a participação na pesquisa e disposto em ajudar no que fosse preciso, quando expliquei os processos da entrevista e os objetivos. Conforme foi relatando sua vida, enfatizou toda importância de suas lembranças para ele, e ainda, foi notório o seu semblante aliviado por relatar suas emoções. 83 Considerou também alguns pontos importantes da entrevista na sua história de vida em que obteve diversas perdas importantes, uma delas foi à perda da esposa. Foi neste momento que ele desistiu da vida e só adquiriu um novo sentido para ela quando encontrou em um novo casamento, a compensação para esta perda significativa. Também houve reflexão durante a entrevista em que destacou o sentido e importância da vida quando passou algumas experiências negativas em outras internações. Sra. Menezes: sexo feminino, 62 anos, desquitada, possui dois filhos com o qual reside e quatro netos no bairro do Fonseca – Niterói. Relata ser evangélica praticante, ainda trabalha como doméstica, não pratica atividade de lazer. Internou-se na clínica cirúrgica feminina há quatro dias até a entrevista para tratamento cirúrgico de disfagia esofágica. Realiza tratamento em clínica da família para HAS com (captopril e HCTZ). Refere nunca ter feito ingestão de bebida alcoólica e nunca ter consumido cigarros. A idosa relata internações anteriores somente para cirurgia de cesária de seus dois filhos. No momento em que abordei a idosa para a entrevista, percebi uma inteiração positiva que permitiu confiabilidade para relatar sua história de vida. Demonstrando receptividade, colaboração e interesse quanto à participação. Houve um apontamento realizado pela idosa antes mesmo do início da entrevista, quando esta destacou a importância de fazer parte da pesquisa para fins de ajudar a melhorar a saúde dos idosos, revelando assim sua vontade espontânea na participação da pesquisa. Observou também a necessidade de ser ouvida no ambiente hospitalar, e de ser atendida quanto às suas dúvidas, queixas, pois para ela o verdadeiro cuidado está no diálogo e carinho desenvolvido entre profissional e paciente. Ao ir ao encontro da idosa à tarde para a entrevista, esta se encontrava à minha espera fazendo palavra-cruzada. Dizia ainda que o referido passatempo era uma distração no ambiente hospitalar, e que fazia muito bem à sua memória. Ao relatar sua história de vida, valorizou aspectos importantes quanto à acessibilidade aos serviços de saúde, como a assistência hospitalar que se tem atualmente. Pois, ao discorrer sobre a perda de sua avó com o seu mesmo problema de saúde, revelou que antigamente não havia recurso algum. Afirmou ainda que 84 antigamente as pessoas morriam em casa, sem tratamento médico. Isto pôde ser visto quando revela: “antigamente as pessoas morriam em casa [...] não tinha como se fazer uma internação, era muito difícil” (Menezes, 62 anos). De acordo com o que foi observado durante a narração da história de vida, a pesquisada apresentava-se calma e tranquila nas respostas, não apresentando dificuldades em relembrar as questões da pesquisa. Suas expressões corporais facilitaram seu diálogo que trazia movimentos e gestos bem articulados. Sra. Canô: sexo feminino, 80 anos, viúva, apesar de possuir treze filhos (sete falecidos e seis vivos) residia sozinha dentro do quintal da família no bairro do Arsenal em Niterói. Relatou ser aposentada como merendeira, é católica não praticante, não exercia qualquer atividade de lazer. Internou-se na clínica cirúrgica há cinco dias até a data da entrevista para préoperatório de ressecção de carcinoma intraductal de mama esquerda (1,8 X 1,1 centímetro). Ainda afirmou possuir HAS e aneurisma abdominal há três anos com tratamento médico e DM sem tratamento clínico. Faz uso das seguintes medicações: captopril, HCTZ, cilostazol, vasogard, alendronato, carbonato de cálcio. Quanto à história de internações anteriores relata ter realizado cirurgia de catarata há 14 anos e ter sido internada em trabalho de parto. Quanto ao histórico social revela ser ex-tabagista desde a infância (não soube relatar desde que idade) sendo que parou há 23 meses, nega etilismo. Conversamos durante a parte da manhã sobre diversos assuntos, no sentido de conhecê-la melhor e captá-la para a entrevista. Neste período a idosa demonstrava ansiedade com a cirurgia, e assim me questionou quantos às suas dúvidas no pósoperatório. Fui respondendo de acordo com o que revelava em suas inquietações e assim mantendo um vínculo de confiança para o estudo. Durante a entrevista à tarde a idosa, aparentemente, apresentava-se mais tranquila, e disposta em participar no que fosse preciso para a pesquisa. Declarou durante a entrevista, diversas dificuldades superadas e refere ter encontrado ajuda para transpor suas dificuldades na fé e crença no poder Divino. Quanto a isso, relatou “agradeço muito a Jesus, agradeço muito a ele... porque sem Ele eu não teria vivido não” (Canô, 80 anos). Assim, destacava sempre em sua fala, todas as 85 dificuldades passadas e superações vividas, citando a importância da fé e religiosidade para a vida. Sobre a finitude, acentua as perdas familiares no sentido sequencial durante a vida desde o início da entrevista, em que reflete: “a minha vida era... eu desde nova... foram muitos sacrifícios, meus pais morreram cedo (pausa)” (Canô, 80 anos). Ainda se considerava uma pessoa ativa, independente, realizava bem as tarefas domésticas sem ajuda, revelou sentir-se bem, feliz, realizada. Não percebia a idade como impedimento para nada em sua vida, pois como cita: “eu tenho 80 anos mas ainda faço tudo sozinha [...] mas quando eu ficar mais velha, talvez não tenha essa força toda” (Canô, 80 anos). Analisa o fato dos problemas de saúde como empecilho para realização de certas realizações rotineiras, mas mantém sua fé e esperança para lutar e seguir em frente, mantendo a expectativa de vida positiva, assim pode ser explícito quando fala: “mas enquanto Jesus está comigo, vou melhorar e tocar minha vida pra frente, com Deus, com Nossa Senhora... eu sou muito feliz com isso” (Canô, 80 anos). Sra. Montenegro: sexo feminino, 69 anos, viúva, é evangélica praticante. Reside sozinha em apartamento próprio em Tomás Coelho, zona Norte do Rio de Janeiro, possui um filho e quatro netas, exerce a função de técnica de enfermagem no HUAP. Relata ser sua segunda internação para tratamento de fibrilação atrial aguda, em que se encontrava hospitalizada há quatro dias até a entrevista na clínica médica feminina. Em sua primeira internação foi por conta de uma hepatite A que contraiu há vinte e oito anos, e, que, segundo a própria idosa perdurou por dois anos, tornando-se crônica. Além disso, apresenta HAS há dez anos com tratamento médico, em que relata fazer uso de Ácido Acetil Salicílico (AAS), HCTZ, sinvastatina. Nega DM. Sobre sua vida social enfatiza que possui atividade de lazer, possui diversos amigos na igreja com os quais frequentemente viaja e realiza festas, nega tabagismo, ex-etilista (não sabe desde quando parou). Ao conhecer a idosa durante a realização de outra entrevista na Clínica Médica Feminina (CMF) do HUAP, observei seu modo alegre, descontraído e espontâneo de ser, o que me facilitou a aproximação à abordagem da mesma. No dia agendado para a realização da entrevista esta idosa revelou satisfação em “contar” sua vida para mim, pois sentia muito orgulho de toda sua trajetória de vida. 86 Mesmo afirmando que foram diversos obstáculos que enfrentara durante sua vida, em momento algum desanimou diante dessas dificuldades, pelo contrário, foram incentivadores para a busca de um objetivo. Assim dizia “Quando a pessoa quer, ela vence tudo [...]” (Montenegro, 69 anos). Durante toda a entrevista foi possível perceber o orgulho e a satisfação conquistada pela realização profissional, em que adquiriu sua independência financeira. Também mencionou que através de sua situação econômica atual, é possível ajudar alguns membros de sua família, como conta: “eu ajudo a minha família... todos eles, se alguma coisa precisar. Nunca precisei deles, pelo contrário, depois que melhorei de vida, eles precisaram de mim... hoje me conto como vencedora e feliz” (Montenegro, 69 anos). A idosa demonstrou na entrevista que apesar de ser convertida à igreja evangélica, sente que possui um débito com Deus. Essa reflexão realizada surge quando revela que antes de ter sua crença religiosa, vivia uma vida sem limites em que consumia muita bebida alcoólica regularmente com os amigos do trabalho. Pode-se perceber no discurso: “mas eu demorei muito, para parar de beber não foi assim... [...] aquele grupo ficava bebendo tudo por aí, saía de um bar e entrava em outro, não era mole não, a saideira acabava no terceiro ou quarto bar” (Montenegro, 69 anos). Montenegro evidencia um sentimento constrangedor neste período da vida, pois relatou que ao chegar em casa ‘bêbada’ numa noite, seu filho que encontrava-se preocupado, achando que havia acontecido algo, revelou sentir vergonha da mãe, mesmo admirando-a muito por tudo que tinha passado na vida. Contou-me então esse fato: “[...] depois nunca mais eu bebi, foi o que meu filho me falou: mãe... tenho vergonha de você!” (Montenegro, 69 anos). A idosa confessou-me que eu era a primeira pessoa, a saber, deste episódio de sua vida, não o tendo revelado a mais ninguém o motivo pelo qual abandonou o vício. Sra. Betânia: sexo feminino, 60 anos, desquitada, possui três filhos, reside com uma filha e uma neta em Japuíba – Cachoeira de Macacu. Atualmente é aposentada, evangélica praticante, não possui atividade de lazer. Internou-se na clínica cirúrgica feminina para cirurgia de gastrectomia subtotal (pós-operatório) por tumor gástrico. Seus dias de hospitalização na clínica cirúrgica até o momento da entrevista contavam nove dias. Outros dados de internações 87 anteriores obtidas no prontuário decorreram de um parto cesária e uma cirurgia de safenectomia bilateral há 15 anos. Seu histórico social revela ser ex-tabagista há 15 anos (+/-vinte cigarros por dia), fumou por 20 anos e consumo de bebida alcoólica com moderação. Relata não possuir doenças crônicas, nem fazer tratamento medicamentoso. Ao conhecer a idosa durante uma manhã no HUAP, conversamos sobre assuntos relacionados à sua recuperação e seu estado de saúde após a cirurgia. Após esse primeiro encontro quando fiz minhas considerações sobre os cuidados de enfermagem no ambiente hospitalar, a idosa se interessou em participar da pesquisa sugerindo que sua entrevista ocorresse naquele mesmo dia durante o período da tarde. Ao chegar à enfermaria para entrevistá-la fui bem acolhida por esta e por sua acompanhante que se encontravam no local naquele momento. À medida que a entrevista transcorria a idosa ia demonstrando cada vez mais tranquilidade e suavidade na fala, o que foram importantes para tornar ativas suas lembranças na memória. Ao solicitá-la para narrar sua trajetória de vida, a idosa começa a entrevista destrinchando as perdas que foram acontecendo sequenciamente durante sua trajetória. Relatou ter sofrido muito com tais perdas: Ahh... é muito difícil minha filha... (pensativa), perdi dois irmãos, perdi minha mãe... para mim foi muito triste... muito doloroso. Minha mãe eu a perdi agora, tem cinco anos... meu irmão foi agora... tem uma semana, dois irmãos que eu tive e perdi, né. Perdi também meu pai (pensativa), assim... essa foi minha trajetória de vida não é... (Betânia, 60 anos). Pude observar que a Betânia era muito religiosa. Em diversas ocasiões relatou que sua força para vida e superação provém da fé. Tal fato pode ser evidenciado em sua fala: “[...] da minha vida não tenho muito do que contar não. Tem mais tristeza do que alegria... mas, hoje, sou alegre porque tenho Jesus...” (Betânia, 60 anos). Sr. Lula: sexo masculino, 64 anos, casado, reside com a esposa e um filho em Tribobó – São Gonçalo. Possui três filhos e uma neta, é católico não praticante, não pratica qualquer atividade de lazer, declara ainda trabalhar como marmorista. É a segunda vez que se interna para tratamento de IAM com supraventricular, sendo a primeira vez para cirurgia de colecistectomia há 15 anos atrás. Relata estar 88 internado há sete dias até o momento da entrevista. Realizava tratamento no ambulatório para HAS, doença vascular periférica (DVP) e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Utiliza as medicações: losartan, AAS, vasogard. Em história social revela ser ex-tabagista (três maços por dia) parou há 15 anos, mas fumou durante 40 anos; ex-etilista parou há 30 anos. Reside em casa própria, com água encanada, rede de esgoto e luz elétrica. Lula é um idoso bem humorado, carismático, que adora conversar com os companheiros de enfermaria. Minha aproximação com ele ocorreu de forma agradável e confortável já que este se mostrou sorridente logo no início quando o convidei para participar da pesquisa. Assim, se interessou em colaborar quanto à sua história de vida, respondendo o que fosse preciso. Durante sua narração exibe afetividade extrema sobre sua família, incluindo sua neta de dois anos, o que mostra em seu discurso: “Minha netinha é a minha maior alegria... ela é tudo pra mim [...]” (Lula, 64 anos). Neste momento, o idoso chorou durante um tempo, e logo em seguida retomou sua fala, emocionado. Lula redimensionou os eventos de sua saúde com sua hospitalização, identificando suas fragilidades e conscientizando-se quanto à qualidade de vida para uma vida longeva. Relatou sobre a importância do autocuidado e ainda, de seu desejo de vê-la crescer: “Irei me cuidar mais, sabe [...] quero ver minha netinha crescer” (Lula, 64 anos). Os silêncios em sua fala no momento de reflexão apresentavam-se na maioria das vezes acompanhados de muita emoção, que foram importantes tanto para a entrevista, quanto para o sentido existencial de si. Sra Bibi: sexo feminino, 87 anos, viúva, aposentada como costureira, atualmente reside com uma filha no Largo da Batalha em Niterói. Possui três filhos (um falecido com linfoma, e dois vivos), é católica praticante, não pratica qualquer atividade de lazer. Dados de seu prontuário revelam ser sua quarta internação hospitalar por pólipos em margem anal com seis centímetros, ocupando 90% da luz retal. Por essas razões, encontrava-se na clínica cirúrgica feminina (CCF) aguardando intervenção 89 cirúrgica, já com dezenove dias hospitalizada até a data da entrevista. Sua primeira internação hospitalar se deu por fratura de fêmur (após atropelamento) há 20 anos. A segunda hospitalização foi há 30 anos, em decorrência de uma colicistectomia, e em sequência, a terceira foi para apendicectomia há 40 anos. A idosa revela ainda ser hipertensa e faz acompanhamento médico pela saúde da família através do qual lhe foram indicadas as medicações AAS, cilostazol, enalapril, sinvastatina, antak e HCTZ, das quais continua a fazer uso. . Na sua história social afirma que nunca fumou, faz alimentação variada (gosta de comida salgada), consome vinho de vez em quando. Reside em casa de alvenaria, com seis cômodos, possui luz, água e rede de esgoto encanado. Nega alergias. Ao abordar a idosa pela manhã após o banho, encontrava-se em seu leito em repouso, aguardando sua acompanhante. Assim sendo, ao falar da pesquisa, a idosa apresentou interesse em participar da pesquisa. No retorno do almoço para a entrevista, a idosa já havia almoçado com auxílio de sua acompanhante, nos deixando à vontade para que fosse realizada a coleta de dados. No inicio da entrevista, Bibi se mostrou apreensiva nas respostas. Sendo que não comprometeu suas lembranças. Realizou diversas reflexões longas de acordo com que ia falando sobre sua vida, para resgatar o que estava guardado em sua memória por longo tempo. Sorriu quando se lembrou do falecido esposo, demonstrando saudades da época, e quando falou da morte do filho apresentou um silêncio demorado, relatando que sentiu muito a sua perda; neste momento houve alteração da entonação em sua voz, mas que logo retornou ao seu normal, mantendo-se constante ao longo da entrevista. Exerceu uma forte narrativa comparando a vida que teve, com a vida que estava dendo no momento da entrevista. Assim como com relação às dificuldades enfrentadas nos tempos atuais, a dependência, a conformação dos fatos. Nos momentos reflexivos, valoriza a união e o amor da família, tanto de quando era criança, como na fase adulta com os filhos e marido. Ressalta a fé religiosa nos momentos de perdas dos familiares (marido e filho), e reconhece através da reflexão os seus valores. 90 Sra. Dercy: sexo feminino, 72 anos, solteira, aposentada (mas ainda trabalha como acompanhante), reside sozinha em Alcântara – São Gonçalo. É católica não praticante, relata não possuir filhos e nunca ter sido casada, não possui atividade de lazer. Internou-se na CMF há quinze dias até o momento da entrevista com diagnóstico médico presente no prontuário de câncer de pulmão. A idosa relata não saber do seu diagnóstico médico, embora desconfie. Dercy conta que já ficou hospitalizada para tratamento de DPOC, mas atualmente realiza consultas médicas periodicamente no ambulatório do HUAP para controle da doença. Há quinze dias procurou o serviço de emergência do HUAP com dispneia intensa e fadiga. Relata ser tabagista de longa data, mas parou de fumar quando passou a comprometer seu quadro de saúde por conta da DPOC. Não soube informar a quantidade de cigarros que consumia. Também revela não fazer uso de bebida alcoólica. Durante uma visita breve em sua enfermaria quando realizava outra entrevista, a idosa apresentava-se em repouso no leito, utilizando macronebulização contínua como suporte ventilatório e tratamento da dispneia. Assim, não foi possível a abordagem dessa idosa para a entrevista, pois Dercy demonstrava-se aparentemente cansada e abatida. Já, quando do retorno à enfermaria, a idosa já apresentava melhora de seu quadro instável de saúde, o que possibilitou a realização da entrevista. A pesquisada apresentava-se conformada quanto a sua condição de saúde, e disposta a colaborar para a realização da pesquisa. Respondeu as questões de forma calma e cuidadosa quantos aos detalhes das lembranças, sentiu-se feliz, sorrindo quando lembrou de sua infância e sua relação com os pais. Apesar das dificuldades vividas, era notória a satisfação em sua expressão facial quanto às lembranças de tudo que vivera até o momento. Também fez algumas considerações quando relatou a percepção da juventude atual, mostrando-se indignada quanto aos valores adquiridos na sociedade contemporânea. A respeito disso, fez as seguintes considerações: Eu acho que tudo para viver antigamente era melhor que agora, era melhor em tudo. A educação principalmente era diferente... hoje a televisão mostra tudo, o que não sabiam agora sabem. (Dercy, 72 anos). 91 Sra Cora: sexo feminino, 63 anos, divorciada, mas possui outro companheiro por união estável, aposentada como auxiliar de serviços gerais. Atualmente reside em Mutua em São Gonçalo, com o companheiro, é católica não praticante. Possui três filhos vivos, e um falecido com 33 anos por câncer cerebral. Não possui atividade de lazer. Internou-se na clínica médica feminina há 15 dias até o momento da entrevista para tratamento de Síndrome Coronariana Aguda (SCA). De acordo com a história pregressa da patologia, relata possuir HAS e DAC, e ainda possui dois stents coronários implantados em fevereiro de 2012. Além dessa cirurgia realizada em fevereiro, revela que já se internou outras vezes para a realização de colecistectomia há 30 anos, e realizou duas curetagens após abortamento espontâneo, com salpingectomia. Realiza tratamento medicamentoso com AAS, carvedilol, losartan, monocordil, lasix, aldactone, sinvastatina, omeprazol. Em seu histórico social revelou nunca ter consumido cigarros e bebida alcoólica. Reside em casa alugada, com saneamento, água encanada e luz elétrica. A idosa apresentou-se um pouco tímida no começo da entrevista, bastante reservada quanto aos aspectos vivenciados, e sem pretensão de falar sobre as coisas tristes que aconteceram em sua vida. Mas, conforme foi relatando sua história de vida sem interferência do pesquisador, a pesquisada foi discorrendo sobre fatos acontecidos que marcaram sua vida. Descreveu com detalhes a perda do filho, o que pareceu ter sido muito traumático para ela. A idosa relatou que foi através da perda desse filho que adoeceu. Pois perdeu a alegria de viver, se entregando à depressão. Por diversas vezes na entrevista cita esses acontecimentos , o que pode ser visto pelas suas palavras: Minha maior tristeza na vida foi essa aí... ter perdido esse filho [...] foi o caso de eu ficar doente. Eu vivia na depressão [...] não queria falar com ninguém... eu trancava o portão, colocava o cadeado do lado de fora, e me trancava no quarto escuro... colocava a televisão sem som e ficava. Eu só ouvia os vizinhos dizerem: ela não está aí não... e eu lá dentro (Cora, 63 anos). Após toda a narrativa exposta pela idosa, esta se mostrou mais tranquila e aliviada por expor essas “tristezas de sua vida”. Sendo assim, ela falou mais 92 abertamente sobre tudo o que lhe aconteceu, com vontade e liberdade de falar sobre algo que sempre a incomodou e que até então não tinha sido revelado. Revelou também que encontrou um estímulo para superação emocional através do nascimento do bisneto. Neste momento, pude observar um brilho em seu olhar quando falava de seu bisneto. Demonstrava um sentimento de bem-estar e alegria, como bem dizia: “A maior alegria é de ter um bisneto [...] então... Deus o levou (se referindo ao filho), mas me deu um bisneto, para eu me conformar (Cora, 63 anos). (Re)Vivendo História Os domínios da primeira categoria atravessaram a linha do tempo percorrido com o resgate das memórias vividas e identificaram o sujeito como protagonistas de sua história. A percepção da mudança do tempo se fez presente em quase todas as falas, compreendendo o significado do envelhecimento e finitude, através da situação-limite da vida. O Jogo da Memória no Significado do Envelhecer Ao que se refere a essa Sub-Categoria, os idosos, no contexto de sua trajetória de vida, rememoram aspectos vividos nos anos experimentados desde infância 5, como um filme passando diante dos seus olhos. Assim sendo, observou-se que todos os idosos pesquisados narraram sua história de vida desde a infância, em que viveram situações difíceis e dolorosas, dotadas de sacrifícios, com a perda da infância precocemente, atribuída pela sua entrada ao mercado de trabalho. Pode-se avaliar essa perspectiva nas falas a seguir, que tratam tal realidade. Eu tive uma infância um pouco apertada, filho de pobre sabe como é [...], com 13 anos comecei ao trabalho... dali para cá que comecei... eu tive uma infância um pouco complicada, com muitos sacrifícios (Gonzaga, 61 anos). Minha vida sempre foi esta aí... desde cedo trabalhando, na roça com minha mãe, e não tive infância não (pensativa), estudei até a quinta série, depois eu fui trabalhar na casa de família, porque a gente não tinha condições. Por que a gente era muitos filhos, muitos irmãos... aí minha mãe foi espalhando e colocando todo mundo para trabalhar (Lee, 61 anos). 5 De acordo com o Estatuto da Criança e Adolescente (Lei n°8.069 de 13 de Julho de 1990) considera criança com a idade de até 12 anos incompletos. 93 A necessidade da inserção no mercado de trabalho prematuramente propicia realizações aos indivíduos, marcadas por uma série de eventos que levam ao sujeito a oportunidade da autonomia e independência, como remuneração por fatores de produção. Para Costa (2007) os sujeitos são seres produtivos capazes de desenvolver habilidades para o trabalho no mundo capitalista, condicionando-se suas energias físicas de forma a garantir utilidade ao indivíduo. Além disso, como complementa Torelly (2010, p. 80) “o trabalho representa não somente uma fonte de renda, ele traz autonomia e independência, senso de eficiência e dignidade humana”. Nesta análise, é através da produtividade e egresso ao mercado de trabalho que os idosos conquistaram um espaço digno na sociedade. Pois os sacrifícios e as lutas que foram superadas através do trabalho, contribuíram para o bem-estar e desenvolvimento. Segundo Silva (2007, p. 20): [...] apesar de mudanças e flexibilização no mundo do trabalho, ainda vivemos uma economia baseada no capital que determina os limites entre as idades cronológicas pelas fases em que o indivíduo se encontra em relação ao mercado. Também se destacam as vivências traumáticas na infância ou adolescência 6, que alguns idosos revelaram como situações dolorosas vividas. Observam-se nas falas a seguir: Meu pai naquela época, batia na gente... ele era um carrasco, amarrava... na nossa casa tinha uma mesa de madeira, daquelas madeiras boas, bem grossas [...] então quando a gente fazia alguma coisa, eu constantemente era mais amarrada do que minha irmã, porque eu era mais levada (pensativa), ele amarrava, ele batia [...] ele batia mesmo, prendia, batia pra valer (Gal, 65 anos). Eu passei muitas dificuldades na vida, eu morava com minha avó, quando ela morreu eu fui atrás do meu pai. Quando cheguei lá ele me mandou voltar, disse que não podia ficar comigo (reflexão). Aí fui arranjar emprego, e na casa que eu fui trabalhar o patrão queria se “engraçar” comigo, queria abusar de mim [...] (Cora, 63 anos). 6 O Estatuto da Criança e Adolescente (Lei n° 8.069 de 13 de Julho de 1990) considera adolescente o indivíduo com a idade entre 12 a 18 anos de idade. 94 De acordo com as narrativas anteriores das idosas, estamos diante de diversos tipos de violência contra a criança e adolescente, podendo estas ser praticadas no ambiente domiciliar por pais, familiares e responsáveis. Visto assim, a violência doméstica é aplicada na sociedade pelo poder aos indivíduos em relação a outro vulnerável, em que as normas, os costumes, e os valores são distribuídos (SILVA, 2002). Considerando-se ainda essa questão: Propôs o conceito de “Síndrome do Pequeno Poder”, para explicar como se instala a relação de destrutividade entre pais/responsáveis e seus filhos através de relações interpessoais de natureza hierárquica, transgeracional, em que o adulto abusa de sua autoridade sobre crianças e adolescentes, com o respaldo da sociedade, tingindo democraticamente todas as classes sociais (SILVA, 2002, p. 23). No que tange a vivência de algum tipo de violência sofrido pelos idosos durante a sua história de vida, os mesmos encontraram mecanismos de defesa que suprissem suas dificuldades diante do impacto e estresse emocional. Pois, alguns autores consideram os mecanismos de defesa como reflexos psíquicos do ego, que os indivíduos adquirem contra as agressões externas, no sentido de preservar a estabilidade emocional (LUCHI, 1999; ALMEIDA, 1996). A violência pode ocorrer em qualquer fase da vida, o que pode trazer além dos danos físicos relacionados à integridade corpórea, danos psicológicos. Neste sentido, a violência física provoca dor local e lesão associada à capacidade física; já a violência psicológica, se relaciona à integridade moral, dor emocional, desespero, sentimento de culpa, frustrações, fracassos, medo, humilhações, ausência de autonomia e autoestima (VIEIRA; FIGUEIREDO, 2009). Outro fator importante que se evidenciou nesta categoria foi à percepção da mudança do tempo relacionado ao atual, que se fez presente nas falas com exceção de uma, que realiza apontamentos em relação ao tempo atual como sendo melhor de se viver. Assim, foi evidente a comparação das vivências anteriores, com a experiência atual, quando destacam: Bom, eu acho que tudo pra viver antigamente era melhor que agora, era melhor em tudo. A educação principalmente era diferente... hoje a televisão mostra tudo... as crianças o que não sabiam, agora sabem. “Antigamente as notícias eram no rádio, não tinha tantos acontecimentos (Dercy, 72 anos). 95 Meu pai nunca teve problemas com a gente, nunca usei drogas [...] antigamente não tinha isso como hoje, era mais tranquilo (Gal, 65 anos). A juventude... hoje os valores foram invertidos, hoje não tem uma educação [...] acho que na minha concepção os valores foram invertidos. [...] Você abre hoje um canal de televisão... só vê é isso aí... a educação está mudada [...] a própria mídia, coloca muita coisa errada, hoje você tem o tele curso educação que é 4, 5 horas da manhã e botam novela 6 da tarde, só sacanagem... então os valores se invertem [...] muitas coisas não tiveram freio... (Buarque, 61 anos). Os idosos refletem sobre sua infância como um evento melhor aproveitado, ao se comparar com a infância atual. Essa comparação temporal valoriza suas experiências adquiridas, o que torna a percepção de si próprio como sujeitos estimados na sociedade. Neste entendimento, Novaes (2000) afirma que com o envelhecimento, os sujeitos refletem sobre seu comportamento, e assumem diversas atitudes que valorizam o que se tem. Visto assim, “[...] não se trata de uma valorização do passado em si mesmo, como se afirmássemos que o passado foi melhor que o presente, mas se trata de uma defesa da compreensão da especificidade do tempo presente [...]” (FERREIRA, 2009, p. 48). Para tanto, na análise em que foi evidenciado durante a entrevista sobre a atualidade melhor vivida do que nos tempos antigos, se destacou a acessibilidade e os recursos disponíveis nos tempo de hoje em que a idosa revela: Minha mãe com muitos filhos pequenos, e meu pai que era servente de pedreiro, não tinha muita condição de dar futuro... uma coisa melhor pra gente; igual hoje, que se tem aí bolsa, tem essas coisas (Menezes, 62 anos). Quando a idosa faz uma comparação com os tempos vividos durante a infância, como sendo difícil, de acordo com sua fala, faz uma distinção importante do tempo atual que houve mudanças de acordo com os progressos econômicos, sociais, e políticos no país. Como revela Neri (2007, p. 21), a forma como os indivíduos se comportam na sociedade depende de alguns fatores aprendidos de auto-observação, julgamento e autorreação, que se pode destacar: Na auto-observação, a pessoa olha para a qualidade, a frequência, a quantidade e a originalidade dos seus comportamentos: para a sua socialização e moralidade, e também para a regularidade e a precisão de seus desempenhos; julgá-los depende da referência a critérios pessoais e sociais, da causa dos eventos e do valor de suas atividades; as auto-reações podem se traduzir em auto-avaliações positivas ou negativas, em auto-recompensa e autopunição. 96 Observa-se que os idosos, durante o percurso de vida, experimentam transformações que são decorrentes do viver, considerando sua história de vida individual, que se insere no contexto social; sendo assim, vale ressaltar então que a experiência adquirida no caminhar da vida, contribui para a maturidade, bem-estar, preservação da autonomia, independência, capacidade funcional, que leva ao envelhecimento bem sucedido (TORELLY, 2010; NERY, 2008; HADDAD, 2008). O envelhecimento humano, por ser considerado um processo continuum, em que o indivíduo passa ao longo dos tempos, traduz-se na meta do desenvolvimento humano, visto como uma ação permanente e gradativa (FIGUEIREDO; SANTOS; TAVARES, 2009; NEGREIRO, 2003). Alguns estudos revelam que durante o desenvolvimento humano há uma relação entre perdas e os ganhos, e que são percebidos pelos que envelhecem de acordo com a trajetória de vida. Cabe aos indivíduos se adaptarem ao ambiente de acordo com paradigmas que levam à compreensão dos eventos da vida (Life Span) e isso colabora para o desenvolvimento e envelhecimento satisfatório, no que tange ao bem-estar psicológico e qualidade de vida (KHOURY; GÜNTHER, 2006; FORTES; NERI, 2008; SANTANA; SANTOS, 2009; DELINSKI et al, 2001). Neste sentido, os idosos durante o seu ciclo da vida passam por fases decorrentes do desenvolvimento humano, que dependerá da sua percepção da vida para os devidos enfrentamentos. Então, “em cada período do curso da vida temos perdas e ganhos e devemos aprender a compensá-las através dos ganhos característicos deste período [...]” (DELINSKI et al, 2001, p. 91). Assim, os idosos pesquisados revelam consciência do envelhecimento como fator normal, sendo que alguns o destacam como um sentimento de conformação. A seguir, identificaram-se nas falas dos idosos: Eu quando comecei a esquecer, eu corri para o médico. Ele mandou eu fazer uns exames [...] e disse assim: Niemeyer, tenho duas notícias pra te dar, uma boa e uma ruim... a boa é que seu cérebro não tem nada, e a ruim é a idade, tem que saber conviver, não tem remédio. [...] Agora eu encaro normalmente, fazer o quê né? (NIEMEYER, 75 anos). Até que eu me sinto bem... para a idade que eu tenho (risos), [...] a gente depois de certa idade vai ficando mais esquecida... não lembra mais de muita coisa [...] a gente vai se conformando (Bibi, 87 anos). 97 Tendo em vista que esse sentimento de conformação que os sujeitos experimentam com o desenrolar da vida remete à questão de sua própria existência, e assim, sua finitude. Então, “a característica principal da vida adulta avançada seria a tendência à revisão do curso da vida, tendência essa que se acentuaria com o passar dos anos com uma conotação de avaliação [...]” (GOLDESTEIN, 2007, p. 92). Neste sentido, o envelhecimento é uma etapa natural, a qual todos os indivíduos experimentam no seu percurso da vida. Os sujeitos idosos experimentam modificações de ordem biológica, em que as mudanças no corpo são perceptíveis. Neste entendimento, Santana e Santos (2009) identificam que os aspectos biológicos do envelhecimento trazem consequências imunológicas, já que ocorre: a formação de anticorpos destrutivos ao organismo; sistema do desgaste, em que se compara o corpo a uma máquina que se desgasta com o uso; teoria dos radicais livres provoca alterações no sistema molecular pela produção de radicais livres, o que gera dano ao DNA e assim, deficiência fisiológica; sistema endócrino, que se caracteriza como disfunção do sistema na hipofisário, o que leva à desintegração entre as células e o sistema nervoso. Essas modificações fisiológicas ocorrem com as mudanças que são comuns a todo o indivíduo, que trazem alterações visíveis aos olhos humanos e se configura na sua apresentação diante do tempo. No que tange o paradigma psicológico do envelhecimento, trata-se de adapatações das estruturas mentais que o indivíduo necessita, para se organizar diante de situações inesperadas em relação à sua rotina e aos indivíduos da sociedade (SANTOS, 2003; SANTANA; SANTOS, 2009). Os indivíduos tendem a se adaptar de acordo com suas necessidades interiores, através da reorganização das estruturas psíquicas quanto à conscientização dos seus valores agregados a sua percepção da vida. Neste tempo, traz significações das suas sabedorias e ganhos acumulados através das experiências de vida. No que tange ao envelhecimento social, configura-se como um conjunto de comportamento do idoso em relação ao contexto social e família a partir de suas concepções, considerando a existência das possibilidades, pois: [...] os idosos tem sido protagonistas de uma outra velhice, afirmando-se como sujeitos de direitos e de desejo, na família e na sociedade, contribuindo, assim, para mudar a própria concepção social da velhice (KUZNIER, 2007, p. 7). 98 Esse reconhecimento das crenças e valores, de acordo com seu papel na sociedade, estabelece parâmetros na concepção dos idosos que são geracionais. Assim, através da participação ativa na sociedade, definida por Patrocínio (2010) como “identidade cultural”, os indivíduos tendem a integração de costumes, atitudes, fatores sociais, que proporcionam envolvimento e inteiração humana, produzindo a sensação de pertencimento. Neste sentido, o envelhecimento contribui para o reconhecimento de si como sujeitos únicos, em que permanecem inseridos em uma sociedade dotada de outros costumes e culturas. Assim, com as entrevistas, observou-se que os idosos percebem o seu envelhecer de maneiras distintas, em que se identificaram como fruto de sabedoria, bens conquistados, realização individual, amadurecimento, envelhecimento satisfatório e feliz, e por fim, valorização da independência, autonomia e capacidade funcional, além do trabalho. Todas essas identificações foram definidas por eles como “coisas boas” que aconteceram em sua trajetória de vida. Sendo assim, houve narrativas relacionadas aos ganhos adquiridos durante a vida, que foram valorizados pelos idosos como uma conquista individual da qual se destacam os fatores positivos durante seu desenvolvimento humano. A contribuição desses depoimentos é observada a seguir, quanto à importância dessas vivências positivas no seu limiar do envelhecimento, no sentido de observação, trazendo concepções de dever e realizações alcançadas: Hoje eu me sinto feliz, faço o que eu quero, entro na minha casa, como o que eu quero [...] eu saio, às vezes tem uma festinha, se estiver boa eu ficou até mais tarde, se não estiver eu venho embora, sou livre (Dercy, 72 anos). Eu me vejo bem... me sinto bem , me sinto feliz [...] por eu ter minhas coisas, por eu trabalhar, ter minha memória boa para fazer minhas coisas, graças à Deus me sinto feliz (Canô, 80 anos). Me vejo feliz, porque eu fiz muita coisa na minha vida que foi bom. [...] Eu viajei... fui pra Europa, morei cinco anos em Amsterdam, conheci pessoas, fiz muitas coisas na minha vida (Gal, 65 anos). Eu me sinto vitorioso por chegar até essa idade, e ter expectativa de viver até mais um pouco ainda, e mais consciente, com pé mais no chão... até então um tempo atrás, você não consegue enxergar certas coisas na vida... de algo com mais qualidade de vida (Gonzaga, 61 anos). Eu comecei a ver que quando a pessoa quer, ela vence tudo [...] eu sozinha eu lutei, hoje tenho meu imóvel próprio, só não tenho carro porque não tive coragem de dirigir [...] eu fiz uma obra na minha casa, botei porcelanato, também fiz uma cozinha planejada [...] então me sinto realizada e feliz (Montenegro, 69 anos). 99 Assim, para Ribeiro e Schutz (2007, p. 192): “Viver de forma livre, na comunidade pressupõe a existência de uma rede social ampla e uma vivência mais tranquila das transformações advindas com o processo de envelhecer”. Na concepção de Zinn e Gutierrez (2008) as interpretações quanto o envelhecimento variam de um indivíduo para o outro, podendo ser destacado em sua pesquisa, diante de seus resultados positivos, de acordo com a percepção das atitudes e valores, que são adquiridas através dos ganhos na trajetória de vida; satisfação e otimismo, em que se pôde observar uma vida feliz narrada pelos idosos pesquisados, com as dificuldades superadas; valorização da sabedoria, que se avaliou satisfação e orgulho das experiências acumuladas; além da valorização no trabalho, definindo-se como “combustível para a vida”. Nas falas anteriores, destacou-se a importância das percepções positivas no que tange ao envelhecimento normal como uma etapa a se cumprir, como estratégias para a qualidade de vida desses idosos. Tendo em vista que os idosos brasileiros participam de forma ativa na sociedade, assim como exercem sua cidadania e liberdade individual, os sujeitos da pesquisa revelam um sentido existencial para preservação da sua autonomia, independência e capacidade funcional. Gomes, Lessa e Sá (2007, p. 8) identificam a valorização dos idosos na sociedade no sentido da inclusão social, estes contribuem para a transformação dos valores além do seu modo de existir; tais ideias se confirmam quando “esse homem, tomado como um sujeito interno em relação aos objetos exteriores que o cercam, encontram dentro de “si mesmos” os elementos essenciais de sua identidade”. Também, no que tange à valorização dos idosos na sociedade, os pesquisados revelaram que a rede social torna-se importante na terceira idade. Observam-se as narrações: Hoje a gente passeia, a gente faz excursão, a gente vai à igreja, a gente faz festinha de carnaval, tem final de ano que a gente vai a um lugar, todo mundo junto [...] não falta nada pra me dar alegria, tenho amigos na igreja né? (Montenegro, 69 anos). Também sou evangélica... eu vou pra igreja, tenho muito amigos, irmão lá igreja, tem também meus vizinhos... às vezes vem umas nove pessoas aqui me visitar, né? Aí, sou feliz também por isso [...] na rua onde eu moro, eu moro há 34 anos e me dou bem com todos os vizinhos [...] (Menezes, 62 anos). 100 Eu gosto de sair... de passear [...] ver as novidades, conversar com gente diferente... que a gente encontra por aí e fica conversando com a gente... dá atenção a gente. Isso é tão bacana, eu acho isso muito importante, às vezes eu encontro gente dentro do ônibus, na rua, e pára pra conversar comigo... eu fico alegre... não há coisa melhor na vida (Canô, 80 anos). Bertoletti e Carretta (2008, p. 39) consideram que “o idoso precisa estar inserido em grupos sociais para perceber a sua capacidade de integração e inteiração com as pessoas, o seu comportamento dentro dessa convivência”. A Política Nacional da Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI) prevê parâmetros que possam contribuir de forma eficaz para um envelhecimento ativo e saudável, trazendo qualidade de vida para a população idosa. Neste sentido, preservar e oferecer subsídios aos idosos, que contribuam na sua independência, autonomia, capacidade funcional é fornecer bem-estar e qualidade de vida à população idosa. O referido programa propõe estratégias para avaliar a funcionalidade dos idosos, que traz em sua composição, a “avaliação funcional” que busca sistematicamente verificar em que nível as doenças e seus agravos impedem o desempenho das funções diárias, no contexto da autonomia e independência, e das atividades da vida diária (AVD); e, além disso, determina às realizações dessas atividades diárias dentro das possibilidades, garantindo a máxima qualidade de vida possível, apesar das progressivas limitações decorrentes da velhice avançada 7 (BRASIL, 2006b). Para Deps (2007, p. 10) alguns fatores influenciam para o bem-estar e qualidade de vida na velhice, o que se destacam: Longevidade; saúde biológica; saúde mental; satisfação; controle cognitivo; competência social; produtividade; atividade; eficácia cognitiva; status social; renda; continuidade de papéis familiares e ocupacionais, e continuidade de relações informais em grupos primários (principalmente rede de amigos). Em algumas entrevistas foi identificada nos idosos, a valorização do resgate das memórias passadas, assim como, houve a percepção dos sentimentos dessas lembranças de forma que alguns se emocionaram ao re-memorar sua vida. Destacam-se nos depoimentos: Ãh... meu filho... era um excelente filho... um filho MUITO agarrado comigo. Para levar para o colégio era uma luta [...] a “tia” tinha que pegar ele no colo e levar pra dentro [...] e eu tinha que me esconder (Cora, 63 anos). 9 A velhice avançada se refere à idade de 80 anos ou mais, de acordo com a PNSPI. 101 Minha vida foi muito boa [...] era simples, mas a gente comia muito angu, muito inhame, minha mãe levantava cedo, colocava a mesa de manhã, com qualhada, o leite era da cabra, banana d`água com canela e açúcar [...] também tinha agará, batata doce, tinha ervilha, abóbora vermelha... tudo que minha mãe fazia de manhã, os legumes para a gente comer, era muito bom (Dercy, 72 anos). Visto assim, Novaes (2000), em relação ao tempo passado com a memória dos idosos, descreve que o tipo de memória pura, sendo relembrado através de lembranças vividas traz à tona momentos únicos e singulares, em que o indivíduo incorpora práticas ao seu dia-a-dia; e, além disso, afirma que é “importante na construção da identidade do idoso, como também representa espaço de alegria e nostalgia mas, sobretudo, de afirmação pessoal e social” (NOVAES, 2000, p. 107). Também, para Alberti (2004, p. 33), “conceber o passado não é apenas selá-lo sob determinado significado, construir para ele uma interpretação; conceber o passado é também negociar e disputar significados e desencadear ações”. A análise da função da lembrança para o idoso segundo Bossi (1994), revela que a lembrança atual é fruto da nossa consciência do passado, em que as interpretações decorrem da percepção diferenciada no presente, considerando-se nossas ideias, nossos juízos de valor e realidade, pois, a análise das situações vivenciadas na infância altera-se com o tempo, contudo, não somos mais os mesmos. Ainda, em se tratando da percepção de envelhecer narrada pelos idosos de acordo com suas lembranças, houve relato quanto ao entendimento do seu processo de envelhecimento de forma negativa. Essas configurações negativas trazem aspectos vivenciados pelos sujeitos na sociedade moderna, em que se pôde avaliar a valorização da juventude. Assim foi identificado através da fala: Hoje em dia a vida está perdida [...] as garotas andam com uns shortinhos, que dá pra ver tudo [...] e se a gente chamar a atenção, falam pra gente: ahh sua “velha”... antigamente se isso acontecesse, a mãe brigava, rasgava a roupa e mandava trocar... a gente antigamente, tinha mais respeito quando os pais falavam, hoje em dia elas ignoram (Dercy, 72 anos). Essa narrativa reflete a identificação com a juventude atual em que há transferência da relação interpessoal, na qual, segundo a idosa ocorre uma desvalorização social envolvendo o envelhecimento. A percepção desta realidade varia de acordo com as vivências e experiências de vida desses idosos, que se situam no tempo e no espaço e que passam por transformações ao longo da vida; contudo, o idoso 102 “deve estar atento ao momento histórico em que se vive, bem como às mensagens das demais gerações” (NOVAES, 2000, p. 39). No que diz respeito ao envelhecimento sendo vivenciado de forma hostilizada pela sociedade, tornando-se um problema sociológico, Elias (2001, p. 82) contribui afirmando que a sensibilização social do envelhecimento está ausente, no sentido em que descreve “tudo o que sobra é o gozo espontâneo de nossa própria superioridade, e do poder dos jovens em relação ao velho”. Ainda nesta vertente sobre a desvalorização do velho na sociedade, Novaes destaca que (2000, p. 22) “traduz um sério viés cultural, responsável por uma visão ora ingênua, ora romântica, mas muito alienada e perversa”. Destaca-se ainda, que há certa ambiguidade no status de ancião o qual: Por um lado, implica extremo respeito, imensa distância, como ocorre frequentemente entre os pais e seus filhos. Por outro, comporta relações tenras e jocosas, de intimidade e proximidade, entre a geração dos avós e a dos netos. (RODRIGUES, 2006, p. 68-69). Pois assim, a juventude priva-se em compreender o envelhecimento, uma vez que ainda é um evento não experimentado. Segundo Elias (2001, p. 80), sobre essa afirmativa, “não é fácil imaginar que o nosso próprio corpo, tão cheio de frescor e muitas vezes de sensações agradáveis, pode ficar vagaroso, cansado e desajeitado”. O que se compreende neste sentido, é de que os jovens projetam o envelhecimento como perda da vitalidade do corpo, como ponto de partida para fragilidade e sua própria finitude. Deve-se levar em consideração que os canais de comunicação, a medicina estética e as indústrias da beleza influenciam neste contexto cultural para a busca incessante pela jovialidade, dos contornos corporais bem definidos, corroborando para o aumento do consumo. É por isso que a velhice assusta os jovens que são considerados na sociedade como modelo da vivacidade, pois além da influência do corpo, consumismo, e os momentos acelerado da vida, os sujeitos influenciados pela mídia, investem nas indústrias cosméticas, com o objetivo de manter-se afastado quanto aos sinais do envelhecimento (FÁVERO; SANTIN, 2008; FIGUEIREDO; SANTOS; TAVARES, 2009; DELALIBERA, 2005; PAULA, 2008). Neste entendimento, ressalta-se que o envelhecimento confere relevância ao indivíduo quando este se percebe através da sua imagem com o “outro”, o que produz a sua projeção e reflexão quanto ao tempo vivido. Portanto, essa relação de identificação 103 dos jovens pelos velhos está intrinsecamente distante de sua realidade, pois para Agra do Ó (2008, p. 393) “faltaria aos jovens algo importante para a construção de uma relação com seu outro, o sujeito velho”. Cabem aos idosos, que inseridos numa sociedade que valoriza os jovens e seu perfil ativo e produtivo, descobrir a representação deste envelhecer de acordo com sua história de vida, suas crenças e valores. De maneira que possa construir sua identidade diante de si, contribuindo para o envelhecimento saudável e qualidade de vida, sendo entendido como uma etapa comum a todos e natural. Por essas razões, como o nascimento, o crescimento, o desenvolvimento para a fase adulta e ainda a progressão para a velhice constituem fatores irreversíveis (SCHRAMM, 2002), os indivíduos experimentam esse processo de forma única, através de suas possibilidades que envolvem a história de vida do sujeito e sua atitude diante do mundo. De acordo com a concepção de Jung apud Goldstein (2007) sobre a teoria do desenvolvimento, estabelece-se a relação da juventude com seus próprios ideais, como a passagem da infância para a vida adulta, preocupação com instinto sexual, sentimentos de inferioridade e expansão dos horizontes; e na vida adulta, o indivíduo volta-se para si no sentido de encontrar plenitude na vida. Também, de acordo com o referido autor: [...] nas sociedades primitivas as pessoas mais velhas eram fontes de sabedoria, guardiães dos mistérios e das leis que expressavam o patrimônio cultural da tribo, e que, atualmente, não se tem um senso claro do propósito ou significado da vida na idade avançada. (GOLDESTEIN, 2007, p. 87). Além disso, Agra do Ó (2008) e Novaes (2000) explicam que depende de cada indivíduo a percepção do seu envelhecimento, podendo ser relevante sua trajetória de vida, além de sua personalidade e inserção social ao longo de seu desenvolvimento, e forma de interpretação do mundo. Goldestein (2007) analisa que a questão psicossocial do desenvolvimento proposta por Mead (1980) difere que na juventude, o sistema de personalidade configura-se de maneira centrífuga, ou seja, afasta-se de si a percepção do próprio envelhecimento, por ocasião da necessidade de aprender novos papéis e comportar-se diante de seu grupo; na meia-idade ocorre o equilíbrio da personalidade, em que o indivíduo se integra a mecanismos internos e externos de maneiras confortáveis; e, na idade avançada, há uma tendência centrípeta, em que se destacam os processos internos mais importantes para o sujeito. 104 Também, alguns outros pontos negativos do envelhecimento que foram percebidos nas narrativas como “coisas ruins” para esses idosos, diz respeito às frustrações, solidão, e a associação do fator idade com doença. Na fala que se dirige à frustração, identificaram-se: Poxa, me vejo... não vou dizer pra você que totalmente realizado, mas me vejo completo, por que aos 61 anos já fiz muitas coisas... já fui farrista, muita boemia, muita gastança... [...] hoje em dia tenho mais essa noção de que a saúde é primordial, a saúde é a base de tudo [...] mas eu não me sinto realizado, eu diria que pra eu me sentir realizado, se eu tivesse ainda minha mãe (silêncio interrompido com choro) (Gonzaga, 61 anos). Não dava para cinema... minha vida era jogar futebol... (reflexão), não aproveitei... eu tive uma chance de jogar no São Cristóvão, e não fui [...] eu tinha 16 pra 17 anos, era um time juvenil contra outro de experiência, cada um jogava cinco minutos [...] eu fui “um” dos que mandou voltar, não voltei (tristeza), por causa do dinheiro (Niemeyer, 75 anos). Durante essas reflexões impostas pelos idosos, os mesmos consideraram a não realização de uma etapa da vida com sentimento frustrado. Sendo assim, esse sentimento nos remete a uma ideia de que se tivessem aproveitado melhor a vida de alguma forma, talvez estivessem em uma situação melhor. Então, ter oportunidades na vida nos coloca diante de uma perspectiva favorável à realização de nossos sonhos, nos motiva quanto às nossas potencialidades, configurando assim, a construção efetiva de projetos de vida. Roselló (2009, p. 63) destaca “[...] a vulnerabilidade se relaciona diretamente com a capacidade que tem o ser humano de equivorcar-se, de fracassar em seus projetos pessoais e na organização de seu esquema axiológico”, devido a condição de finitude humana. Os idosos ao longo da vida passam por mudanças de ordem individual, social, familiar, o que torna um desafio passar por estas no sentido de superá-las, o amadurecimento e o aprendizado ocorrem à medida que a percepção proporciona sabedoria e entendimento no seu contexto de vida. Para Novaes (2000, p. 23), “mudanças, transformações, tristezas e alegrias, conquistas e fracassos aparecem em todo percurso de vital, em qualquer idade – o que é preciso é reconhecer e saber aproveitar as oportunidades que aparecem [...]”. No contexto dessas frustrações vivenciadas pelos idosos ao destacar o sentido da finitude, Yalom (2008) afirma que a angústia da própria morte pode estar relacionada ao 105 fracasso pela não realização dos seus ideais, o que traz angústia pela vida que passsou diante de si e não houve aproveitamento. Quando o indivíduo durante o percurso da vida renuncia a diversos tipos de investimentos em relação às suas necessidades de escolhas internas, implica numa reelaboração às novas possibilidades. E assim, os valores adquiridos de acordo com as suas opções tornam-se relevantes na medida em que a substituição se torna repleta de benefícios. O modelo de “bom envelhecimento” para Novaes (2000, p. 31): É visto como aquela aquele das “pessoas reorganizadoras”, que continuam a lutar contra o encolhimento de seu mundo, mantendo uma vida ativa e distraída, substituindo por novos projetos e novos relacionamentos aquilo que a idade lhes tenha tirado. Sabe-se então que, os desafios que surgem na vida, e ainda a compreensão desse objeto desafiador trazem aos idosos a organização de seus interesses, a partir da reflexão do que é importante ou não para si. De acordo com o ponto de vista dos idosos sobre que foi exposto na avaliação da solidão, destacaram-se algumas falas, que se configurou na solidão decorrente do afastamento de familiares pelo percurso normal da vida. Assim temos: Eu sinto muita tristeza sabe... porque as pessoas que eu tinha amadas, que era muita gente ao meu redor.... e foram se estabelecendo coisas, foram se afastando... então às vezes quando eu penso, tenho uma mágoa sabe? (Gal, 65 anos). Eu tive muita dificuldade de morar sozinha, quando ele (filho) se casou e levou minha neta... eu vi aquela casa vazia, porque eles moraram muito tempo comigo... nossa! Mas eu sofri muito, fiquei terrível. Eu passei a cobrar meu filho: filho, você não me ligou... filho você não veio aqui, quando você quiser me ver, eu vou estar morta! (Montenegro, 69 anos). Atualmente eu moro só, [...] aqui na internação quem está à frente no meu negócio, é meu irmão, entendeu? [...] eu não moro com ninguém, mas tenho casa... então eu não via a liberdade de ficar na frente dessa minha situação... não quis a autonomia, eu passei toda para meu irmão... mas eu não moro com Ninguém, mas tenho alguém (Gonzaga, 61 anos). O tema solidão ganha destaque para os idosos pesquisados quando relataram a influência que obtiveram em sua vida, por determinação de mudanças na sua constituição. Em virtude disso, percebe-se que “as famílias estão se tornando cada vez 106 menores, e a deficiência de relações pode resultar em um sentimento de solidão” (HORTA; FERREIRA; ZHAO, 2010, p. 525). Figueiredo, Santos e Tavares (2009) também consideram que a solidão surge quando os idosos se aposentam, quando algum membro da família segue o curso da própria vida e vai se afastando, o que culmina na indisponibilidade de tempo dos membros da família para esse idoso. Quando isso ocorre, há uma tandência ao individualismo e às privações da vida cotidiana, pois pode interferir numa desmotivação para o convívio social, e ainda realização pessoal. Alguns pesquisadores identificaram que a solidão pode trazer significações expressivas como a depressão, principalmente em se tratando das mulheres idosas, que possuem dificuldades para a formação de novos laços (TRENTINI et al, 2005). Em outra pesquisa, a solidão foi identificada em 30% das adultas e 34% das idosas, em que destacaram um sentimento agregado de tristeza diante da possibilidade do desamparo, e ainda ressalta que “para a amostra idosa, o medo da violência e da solidão talvez sejam fruto da própria marginalização que é imposta para esta população, pela própria vulnerabilidade acarretada pelo envelhecimento e pelo ‘estereótipo’ de velho” (DELISKI et al, 2001). Considero essa terceira narração, como um sentimento de solidão implícito na fala, quanto à consideração com seu familiar. O fato da necessidade de precisar que alguém tome à frente sua internação deixa claro o sentimento de conforto e segurança, que o idoso traz em relação à atenção que o irmão o fornece. A solidão para os idosos produz um efeito negativo ao bem-estar subjetivo, em que a ausência do apoio social, poder-se-á interferir qualidade de vida. Para Goldestein (2007, p. 64) “o desempenho de atividades e o suporte social podem contribuir para reforçar o sentimento de valor pessoal”. De alguma forma, quando se trata da família, esta se separa e se congrega para a formação de novos espaços, novos grupos sociais. Pois, há ressurgimento de novas unidades em que Bossi (1994, p. 32) afirma “a família não ressurge como fonte primordial da civilização – ela é agora a tecelagem onde se unem aos fios de relatos de solidão”. Assim sendo, a solidão e o abandono contribuem para as questões relacionadas às fragilidades emocionais dos idosos, pois estes percebem que sua família, seus amigos não fazem mais parte de convívio. Assim, o apoio da rede social ao idoso torna-se 107 relevante quanto às superações das dificuldades, a fim de conduzi-lo ao bem-estar psicológico e segurança emocional. Na avaliação do fator idade com relação à doença, estas estiveram presentes em todas as descrições dos depoentes, visto que os idosos relataram que não percebem o fenômeno idade como um problema; este só é analisado sob uma ótica negativa, quando associado às doenças e comorbidades. O que pode ser mostrado através das falas a seguir : Às vezes as pessoas falam para mim assim: se eu fosse você agora nesta idade, assim doente, sem poder fazer as coisas direito, internada, ia me lamentar... eu não me lamento não. Eu falo: Deus sabe de todas as coisas [...] (Menezes, 62 anos). Às vezes, a gente tem muitos motivos para ficar num canto, né? Quieta... [...] depois então que a gente adoece e fica com um pouquinho mais de idade... já viu (Betânia, 60 anos). Minha esposa teve um problema [...] no final ela não agüentou mais as cirurgias, pela idade dela também era um pouco “pesada”... ela tinha 74 anos... a idade dela deve ter contribuído um pouquinho né? [...] Você sabe, quando a gente pega um pouco mais de idade... olha a criança novinha, dá um corte, quebra uma perna... em uma semana, duas semanas está pulando por aí, não tem nada. Agora, passou de 40, 50, 60 anos, não vai nessa não porque... (Gil, 65 anos). Para mim a velhice é dolorosa porque eu estou doente... depois da velhice a gente não volta a ter a saúde que tinha antes de ficar velho [...] depois de uns cinco anos pra cá comecei a ter problema de saúde, e depender de tomar remédio, [...] eu poderia estar melhor, mas não estou... acho que envelhecimento contribuiu para o aparecimento de doenças [...]. Acho que se pelo menos eu tivesse com Saúde... estaria me sentindo como um “garotão”, “novinho em folha” (Lula, 64 anos). De acordo com os depoimentos dos sujeitos, torna-se evidente que tanto a percepção do envelhecimento quanto a associação com as doenças, traz um significado distinto de acordo com a concepção cumulativa com a experiência de vida, adversidades e fatores de vulnerabilidade, como também a trajetória de vida. Analisa-se na fala de Menezes que a convivência social trouxe situações embaraçosas, uma vez que a idosa ouviu de amigos sobre sua situação de saúde comparando-se à sua idade. Ela então, soube administrar a ideia desafiadora do seu bem-estar, neutralizando as situações adversas que pudessem prejudicar sua saúde, a qual já esta se encontrava fragilizada. 108 De acorodo com as narrativas dos demais depoentes, sente-se uma forte percepção do adoecimento em relação à idade, que se constitui em pensar na indejável finitude. Na interpretação de Scopinho (2010, p. 157): O ser humano tem uma característica distinta no caminho para esse fim: não aceita passivamente tal inevitável e inexorável realidade da existência, por isso procura soluções próprias para o seu conhecimento, a sua aceitação e até mesmo a sua preservação. A partir desse contexto, o envelhecimento é um rito de passagem que resulta de um processo natural ao organismo humano. Essa definição caracteriza o envelhecer como uma das fases da vida que o indivíduo passa, e na qual ocorrem alterações decorrentes de um processo sequencial e inevitável, em que os sujeitos se adaptam a essas mudanças biológicas, psicológicas e sociais. Soares, Farinatti e Monteiro (2010) descrevem o envelhecimento normal biológico como um conjunto de alterações estruturais e funcionais do organismo que produz diminuição da capacidade física, portanto, o idoso que passa por uma sequência de declínios de ordem individual, tende a se adaptar como o passar do tempo. Neste contexto, os danos cognitivos que se fazem presentes no idoso começam a produzir um declínio a partir dos 60 anos de idade e a aceleração gradativa ocorre após os 70 anos de idade, tendo como consequência a dificuldade de comunicação e compreensão de mensagens longas e complexas, dificuldade de raciocínio, declínio da aptidão visual e memorização (CANCELA, 2007). Neste entendimento, o conceito de saúde segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS, 1946), define-se como bem-estar físico, mental e social, e que não se resume somente à ausência de doença ou de enfermidade; e, além disso, refere que a saúde é um direito fundamental do ser humano, sem que haja qualquer discriminação de raça, religião, política, econômica ou social. Assim, a saúde produz impacto direto na qualidade de vida desses idosos, já que com o decorrer da idade, com a presença de alguns fatores negativos surgem algumas doenças provocadas pelo declínio biológico, além das dificuldades funcionais; então a construção social sobre a velhice, no que se refere às doenças e dependência, traz percepções aos indivíduos como características normais (BRASIL, 2006b). Por esse lado, os idosos experimentam seu envelhecimento de maneira única, de acordo com a sua visão no mundo contemporâneo nele inserido. Assim sendo: 109 Tal visão estereotipada, aliada a dificuldade de distinguir entre o envelhecimento normal e patológico, senescência e senilidade, leva à negação da velhice, ou à negligência de suas necessidades, vontades e desejos” (PASCHOAL, 2006, p. 334). Torna-se um desafio o reconhecimento dos fatores associados ao envelhecimento normal e patológico no idoso, tendo em vista que influencia para o envelhecimento ativo e capacidade funcional. Pois a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) estabelece parâmetros para o envelhecimento saudável no que se refere aos princípios de independência, participação, dignidade, assistência e auto-realização (BRASIL, 2005). Uma perspectiva sobre a longevidade que irá influenciar a saúde dos idosos se refere às doenças crônicas não transmissíveis e seus agravos, os quais são comuns na velhice. Como afirmam Ciosak et al (2011, p. 1766): Muitos idosos são acometidos por DCNTS, que requerem acompanhamento constante. Essas condições crônicas tendem a se manifestar de forma mais expressiva na idade mais avançada e frequentemente estão associadas a outros agravos (comorbidades). A maneira como as doenças crônicas é percebida pelos idosos terá representatividade na adesão do tratamento, além do cuidado de si. Para Silva (2009), as doenças crônicas produzem um impacto na qualidade de vida do idoso, pois as estratégias para a motivação à adesão contínua do tratamento, além do autocuidado, tendem a potencializar as incapacidades, de modo a reduzir os custos individuais e sociais. Corroborando tal análise, Roselló (2009, p. 69) compreende o adoecimento o qual: Afeta profundamente a interioridade do ser humano, ou seja, suas expectativas, seus valores, seus valores, suas recordações, suas emoções, seus sentimentos mais íntimos, sua capacidade de argumentar e suas elaborações de carater metafísico e transcedente. Alguns mecanismos do ponto de vista do envelhecimento satisfatório resultam do equilíbrio entre as limitações dos idosos e suas potencialidades, e ainda, relacionamse com a capacidade de inteiração no contexto histórico, cultural, econômico, natural, e tecnológico, o que o possibilita lidar de forma positiva, considerando as perdas inevitáveis do envelhecimento (NERY, 2007; SILVA, 2009). 110 Visto assim, o envelhecer com saúde para os idosos é atribuído às condições de vida satisfatórias que lhes proporciona meios para viver seu dia-a-dia trazendo bemestar, conforto e qualidade de vida ter relevância na história de vida do idoso, caracteriza-se também pela importância dos enfrentamentos das situações adversas bem como às perdas. A análise do envelhecimento em relação à finitude permite refletir sobre a questão do caminhar do curso natural da vida, que terá um fim algum dia. Sendo assim, valorizar os aspectos positivos vivenciados pelos idosos, atribuindo um significado de perdas e vivências de situações adversas, favorece a reflexão das suas atitudes e experiências adquiridas durante a trajetória de vida. Essa atitude conduz o indivíduo para um olhar sobre a sua vida, no sentido de trazer relevância para o significado de si. Torna-se fundamental o reconhecimento do lado positivo do envelhecimento, tendo em vista os ganhos que o indivíduo adquire durante a trajetória de vida. Diante do sofrimento e das perdas, o indivíduo deve considerar sua dimensão existencial dando um sentido à mesma. Sob essa perspectiva, sabe-se que no caminhar da vida ocorrem diversas transformações como alegrias, tristeza, conquistas e fracassos, o que difere os indivíduos quanto à percepção do envelhecimento. Deve-se então saber compreender esse jogo de perdas e ganhos, tendo em vista que o problema se acentua com a idade, pois “o que é preciso é reconhecer e saber aproveitar as oportunidades que aparecem, paralelamente, até ao enfrentamento da última cartada com a `morte´ - libertadora, conduzindo a uma nova dimensão” (NOVAES, 2000, p. 23). Por outro lado, nem sempre os indivíduos conseguem a plenitude e a satisfação, sob o ponto de vista do envelhecimento. Entretanto, “obviamente a beleza não é para todos, pois nem todos alcançam a harmonia” (MONTEIRO, 2008, p. 19). Em virtude disso, o adoecimento traz consequências ao indivíduo que dependendo da sua estrutura emocional ao enfrentamento, gera um quadro psicopatológico conhecido como “ganho secundário”. Que, segundo Calazans e Bastos (2008, p. 649) “o sujeito pode permanecer em seu sofrimento sem ao menos demandar um tratamento, pois essa demanda poderia colocar em questão o ganho secundário de seu sofrimento”. Neste sentido, para alguns indivíduos o ganho secundário se organiza para dar destaque à concepção de que poderão usufluir de benefícios. Pois as vantagens e compensações a esses ganhos os tornam vulneráveis à dependência, adoecimento, ou 111 seja, a um estado limitado, e prejuducial a si. Importante destacar que quando isso ocorre, desenvolvem-se a necessidade de conservação desta psicopatologia, que de alguma forma, os sujeitos não encontram mecanismos resolutivos para a cura, diante das condições adversas. Podemos então fazer uma analogia ao depoimento de Gonzaga, quando descreveu que quem estava à frente na sua internação era o irmão, o qual destacou: “Então, eu não via a liberdade de ficar na frente dessa minha situação... não quis a autonomia, eu passei toda para meu irmão” (Gonzaga, 61 anos). Esse fator tornou-se cômodo para ele, na medida em que obteve amparo necesesário, o suficiente para seus interesses. Também neste mesmo depoimento, o idoso admitui o sentimento de solidão “[...] eu não moro com ninguém, mas tenho casa... mas eu não moro com Ninguém, mas tenho alguém” (Gonzaga, 61 anos). Para Roselló (2008, p. 70) “a pessoa doente tem uma visão diferente do outro e um grau de penetração na intimidade do outro que só é possível a partir da experiência do adoecer”. Além disso, segundo Machado e Leite (2006, p. 25): Nas relações com o mundo, o homem é dominado por uma angústia que pode destruir todas as suas expectativas. Quando está diante de si mesmo, o homem pode ser dominado pelo desespero e caminhar por um processo de progressiva limitação de suas possibilidades, vendo ofuturo fechar-se diante de seus olhos. Assim sendo, todo homem vive por si mesmo em que o fenômono do envelhecimento “não muda a estrutura da personalidade, mas pode acentuar ou amenizar certos traços ou tendências como as depressivas, paranóicas ou histérica” (NOVAES, 2000, p. 25). Para a autora, durante o envelhecimento o indivíduo realiza elaborações individuais, de acordo com diferentes modos de subjetivação. E ainda nesta vertente, “podemos cair no abismo da melancolia da velhice, no sofrimento da repressão ao prazer, na solidão dos quartos dos fundos, na limitação da expressão da vida, na doença destrutiva do corpo, na ruína de uma morte indigna” (MONTEIRO, 2008, p. 13). Nessa representação que circunscreve o indivíduo através da imagem negativa do envelhecimento, destaca-se relevante na reflexão da finitude sob o ponto de vista existencial, que busca encontrar sentido na vida humana deste segmento populacional, levando em cosideração a história de vida de cada idoso. 112 A particularidade de cada idoso nos levou a pensar que os indivíduos estão sujeitos a mecanismos adversos durante a trajetória de vida, e que são vulneráveis nos seus aspectos fundamentais. Pestana (2011) corrobora afirmando que a vulnerabilidade dos idosos contribui com a estatística de admissão hospitalar, bem como a taxa de ocupação prolongada de leito e ainda, a readmissão hospitalar na rede do SUS. Diante de todas essas ocorrências no que tange à vulnerabilidade humana, e ainda sobre a dimensão do envelhecer para os idosos, torna-se viável a abordagem dessa clientela hospitalizada, no que se refere à problematização do estudo. Pois com isso, traz desafios aos profissionais da enfermagem nos quais se revela na sua essência a ação do Cuidar. Segundo Roselló (2008, p. 120) “no âmbito da saúde, a ação do cuidar se refere basicamente dos seres humanos e dentro dessa esfera conceitual desenvolvemos as distintas noções do cuidar”, que busca constituir com “valores, os quais, independentemente do enfoque, priorizam a paz, a liberdade, o respeito e o amor, entre outros aspectos” ( WALDOW, 2010, p. 14). Portanto, a enfermagem gerontológica contextualiza estratégias de ação voltadas ao cuidado ao idoso em todas suas dimensões, levando em consideração a história de vida do sujeito hospitalizado, e, o que se conhece sobre as perspectivas do envelhecimento e da finitude. Neste sentido, o envelhecimento delibera profundas mudanças de ordem individual, social, familiar, considerando significados distintos aos sujeitos que passam por essa etapa, o que é indipensável. Refletir sobre os cuidados de enfermagem para essa clientela implica reconhecêlos como sujeitos que trazem consigo experiências de vida que utilizam “comportamentos compatíveis com as demandas e exigências sociais, desenvolvendo capacidades cognitivas, emocionais, afetivas, criativas e de inteiração social” (NOVAES, 2000, p. 67). E que compartilham reflexões que devem ser compreendidos na arte de: Inter-relacionar a enfermagem com a ação do cuidar, o cuidado e a tecnologia, é entendê-la, não como uma prática reducionista na ação curativa e limitada, mas sim, fundamentada na percepção do ser humano, o idoso, como pessoa com seus valores, crenças e experiências (BRUM; TOCANTINS; SILVA, 2005, p. 1021). No entanto, o eixo fundamental da arte e da ciência do cuidado em enfermagem traz em seu bojo os princípios do “cuidar-educar-pesquisar”, e que compõem a 113 identidade dos enfermeiros (ESPÍRITO SANTO; PORTO, 2006), colaborando para a prática dos cuidados voltados aos seres humanos, que se identificam em sua essência intrínseca, aspectos éticos e transcendentais. Tais fenômenos do cuidado são abordados sob ótica existencial, de ordem expressiva da qualidade do ser humano, destacando-se a racionalidade, cognição, intuição, sensibilidade e espiritualidade; relacional, que só existe de fato na presença com o outro; contextual, que se define com distintas posturas diante das dimensões do cuidado em conformidade ao ambiente, dentro de cada contexto ( WALDOW, 2010). Por isso, o enfermeiro na articulação do cuidado humanizado ao idoso hospitalizado aborda conceitos dentro da enfermagem gerontológica que perpassa as ações objetivas e curativistas. Atitudes e gestos flexíveis, que atuam diretamente nas modalidades do cuidar, que subjetivamente, “desenvolve ao longo de uma cadeia de instantes, de encontros, de olhares, de complexidades não ditas” (ROSELLÓ, 2009, p. 141). E é através desta comunicação interpessoal, ora ligada no discurso, ora demarcada na empatia, por representações não verbais que “as enfermeiras precisam estar alertas para os movimentos faciais, corporais e gestuais, olhares, expressões, entonação de voz, cheiro, tato e toque, e para a comunicação aberta que exige saber ouvir, escutar” (ESPÍRITO SANTO; PORTO, 2006, p. 544). Haja vista a necessidade do saber cuidar em ciências do cuidado em saúde, a qual visa compreender o que está além das necessidades humanas. Torna-se então necessário perceber e avaliar as perspectivas do envelhecimento e da finitude para o cuidado gerontológico, no que tange à qualidade do cuidado prestado a esses idosos hospitalizados, levando em consideração suas individualidades e especificidades comuns na terceira idade. Em virtude do que é significativo na sua trajetória de vida, os idosos sofrem demandas em que “seus aspectos positivos representa, sem dúvida, uma visão míope e unilateral, válida também no caso de interpretação dramática e pessimista desta etapa da vida” (NOVAES, 2000, p. 87). Cabe então aos enfermeiros das unidades de internação hospitalar promover a saúde e o bem-estar aos idosos hospitalizados, diante de recursos físicos e psicológicos visando atividades que proporcionam a qualidade de vida dessa clientela, bem como princípios que garantam as transformações comportamentais, que estimulem a autonomia, independência, adaptação e reintegração ao meio social, além da descoberta 114 das necessidades e desejos que representam unidades motivadoras para percepção de uma outra velhice. Percebendo as “Perdas” no Carrossel da Vida Nesta subcategoria, os idosos pesquisados revelaram a compreensão e o significado da finitude através da situação-limite da vida, em que narraram fatos durante sua trajetória de vida em que se obteve maior predominância nas perdas, e assim, influenciou para a forma de enfrentamento e reflexão diante do processo de hospitalização. As perdas que ocorreram durante a trajetória de vida dos idosos pesquisados foram percebidas em todas as narrativas, quando indagados sobre suas histórias de vida. E, muitas delas foram expressas por eles desde o início de sua narrativa. Tendo em vista que ao longo da vida o indivíduo sofre as “pequenas perdas”, torna-se relevante analisar a finitude no sentido existencial de si, trazendo “o significado autêntico da presença humana no mundo” (MARTINS, 2007, p. 175). Desde então, pôde-se observar a predominância deste fato durante as entrevistas, fazendo-se uma comparação com alguns estudos, que apontam os idosos com uma narrativa marcante sobre as perdas, que são perceptíveis nesta fase da vida, ao se comparar com os ganhos (HORTA; FERREIRA; ZHAO, 2010; NERI, 2007). Em outro estudo, em que foram avaliados os medos mais comuns nas mulheres adultas e idosas na cidade de Curitiba, em que o índice relacionado às perdas aparece em segundo lugar na estatística com 13% entre ambas as faixas etárias, seguido do medo da morte que se destaca em primeiro lugar na pesquisa com 16%, pôde-se perceber que ao se comparar as faixas etárias, há uma hieraquização entre os tipos de medos encontrado na população estudada em que nas adultas, com (N= 78) destacaramse os medos em ordem decrescente morte, perdas, doenças, violência e solidão; e nas idosas (N= 38) destacou-se a sequência de violência, solidão, morte, perdas e invalidez (DELINSKI et al, 2001). Ao pensar sobre o medo como um sentimento universal a todos os seres humanos que envolvem os indivíduos no seu contexto histórico-social, e que sua manifestação ocorre de “forma diferente para homens e mulheres e de cultura para cultura ao longo do processo histórico” (MESTRE, 2000, s/p), como também é fruto da 115 história de vida do sujeito e suas experiências em relação ao mundo em que se vive, depreende-se que esses fatores não podem ser considerados como resultado do envelhecer propriamente dito (DELINSKI et al, 2001). Neste processo, toda a história de vida é um fator a considerar em se tratando das perdas durante o processo de desenvolvimento humano, pois a hospitalização potencializa a percepção diante da própria finitude. Os idosos na sua maioria observaram que por mais que as perdas tivessem um peso maior na trajetória de vida, refletiram quanto à importância desses acontecimentos como algo que faz parte do seu contexto histórico, e assim desenvolveram comportamentos e atitudes que foram decisivos ao aprendizado e compreensão dessas circunstâncias adversas. Desta forma, “o enfrentamento consiste em habilidades comportamentais e cognitivas utilizadas para controlar demandas internas e externas, quando avaliadas pelo sujeito como excedendo os recursos disponíveis” (TRENTINI et al, 2005, p. 39). Assim sendo, foram identificadas perdas significativas que são comuns no círculo da vida desses idosos, avaliadas como situações adversas, mas que contribuíram para transformações individuais, maturidade, e compreensão do fato ocorrido, além de mecanismos adaptativos de superação. Pois, para Nery (2007) envelhecer bem se relaciona com os mecanismos compensatórios e adaptativos, a depender da relação do indivíduo com seu meio, dentro do contexto das transformações. Visto assim, observa-se nas entrevistas a percepção das perdas que ocorreram ao longo da vida, como as perdas emocionais, individuais, sociais. É importante também ressaltar que todos os idosos analisaram o enfrentamento de morte com maior frequência na história de suas vidas, e o lidar com essa perda denotou um sentimento de reflexão quanto às fragilidades relacionadas com sua própria existência, pois, o ser humano “elabora suas perdas e rupturas de modo subjetivo, através de vivências personalizadas” (NOVAES, 2000, p. 39). O embasamento teórico proposto por Bowlby (2004) sobre a reação da perda diante da natureza do luto é disposto em oito temáticas que são: 1) Natureza psicológica de identificação com objeto perdido, que dependerá do tipo de afetividade envolvida; 2) Explicação do caráter doloroso do luto, em que a dor se desenvolve pelo anseio insaciável pela busca do objeto amado, e a dor como consequência do sentimento de culpa e medo de retaliação; 3) Relação entre ansiedade e luto, em que a primeira ocorre a ansiedade pela falsa ideia de recuperação com a figura amada, e a segunda ocorre 116 quando o enlutado percebe que essa ausência é permanente; 4) Motivações existentes no luto, que despertam a urgência em recuperar o ente querido e pode durar longo tempo, nesta fase ocorre o pranto e o apelo em buscar ajuda dos outros; 5) Papel da raiva e ódio no luto, que é desprendido a um alvo, ou seja, à pessoa perdida, a outras pessoas e a si próprio e não se limitam somente ao luto patológico, este com maior intensidade; 6) Identificação com o objeto perdido, através da ligação de laços emocionais com o objeto perdido; 7) Diferenças entre luto sadio e patológico, em que no primeiro se configuram os mecanismos de dor presentes no luto normal, e no segundo a exacerbação de processos defensivos constituídos por desequilíbrio humoral; 8) Desenvolvimento de processos de reação à perda de maneira favorável, que representa na reabilitação emocional e certo grau de desapego. No que tange ao luto patológico segundo a teoria psicanalítica de Freud, esse processo de identificação tende a despertar mecanismos internos desenvolvidos pelos impulsos da raiva, e que se refere como perda consciente do objeto retirado, não havendo clareza diante daquilo que foi perdido, somente o sentimento de vazio que se tornará influente ao próprio ‘eu’ do sujeito deixando-o indisponível ao mundo externo pela perda libidinal (EDLER, 2008). Na fala dos idosos relacionada à perda de entes queridos foram identificadas as concepções mais marcantes: Aos 25 anos eu fiquei viúvo... eu gostava muito dela né? [...] então todos os dias eu estava lá no cemitério [...] eu só dormia na casa da minha irmã [...] eu até enjoei de trabalhar. Quando eu via um mendigo, eu pensava: um dia vou ficar assim (triste)... roupa preta, era o luto né? E cabeludo, barbudo [...] aí num domingo, já tinha passado uns três, quatro meses [...] mais uma vez eu estava lá sentado no túmulo dela [...] então um moço com um chapelão bateu no meu ombro e disse: você gosta um bocado dessa pessoa que está aí heim? Te vejo aí todo dia... quem está enterrado aí? Eu disse: é minha esposa. Ele disse: vou fazer uma coisa que eu não faço com ninguém... você vai ver o estado dela, vou levantar a tampa e você vai ver o estado dela tá? Eu disse: Não... não quero não. Ele falou: então meu rapaz, vai pra casa toma um banho, faz a barba, procura uma igreja evangélica... (Niemeyer, 75 anos). Eu e meu filho, na época ele tinha quase cinco anos, vimos o pai ser atropelado na porta de casa e morreu [...] eu quando vi o corpo dele estendido na rua, segurei meu filho e sacudi [...] falei: seu pai, seu pai... [...] veio uma mulher na porta e disse: não é seu marido não, vai pra dentro de casa, eu até obedeci. Depois falei: não é ele sim, eu vi o chinelo dele lá, retornei pra rua e meu filho atrás de mim [...] a ambulância veio e levou ele pro Souza Aguiar... eu fui da minha casa, eu morava no Catumbi, até o Souza Aguiar andando [...] daí ele não saiu né? Faleceu! (Montenegro, 69 anos). A minha maior tristeza foi ter perdido esse filho, porque eu sofri muito, e foi o caso de eu ficar doente [...] fiquei muito deprimida... eu tive um “princípio” 117 de AVC [...] tive que fazer tratamento com o psiquiatra, porque eu não aceitava. Aí eu fui na sepultura do meu filho com a minha filha, e disse: essa sepultura está mexida [...] quando foi à noite, liguei pra minha nora e ela disse: a gente exumou o XX ontem [...] eu disse: pô tu nem pra me avisar né? Mesmo que eu não fosse, porque não ia ter coragem, mas pegasse e ligasse [...] isso foi na terça, na quarta eu comecei a sentir a dor no peito [...] aí vim pra cá (Cora, 63 anos). Meu irmão e eu éramos muito unidos, tinha muita amizade entre a gente... quando ele morreu, eu senti muito [...] depois que ele morreu tudo acabou pra mim... eu não fui mais o mesmo. Aliás, [...] acho que passei mal por causa disso, eu passei mal na segunda, e na sexta-feira passada nós fomos no cemitério para a exumação do corpo do meu irmão, porque completou três anos de falecido [...] então acho que foi isso... eu na hora da exumação eu fiquei muito emocionado, vendo aquilo tudo e me lembrando dele, de nós... [...] eu lembrei de tudo que nós vivemos [...] (Lula, 64 anos). O depoimento de Niemeyer sobre a perda da esposa revela que o mesmo viveu uma fase difícil com o luto; que perdurou por meses a fio. Neste período, ele vivia alimentando a dor da perda, da qual se destacou a sua impotência diante da própria vida. Pois a morte se configura em um findar de uma etapa da existência (FRANCO, 2007), em que a postura na ocasião do luto se torna mais visível pela “personalidade da pessoa enlutada, especialmente a maneira como se organizam seu comportamento de apego e os modos de reação que ela adota em situações estressantes” (BOWLBY, 2004, p. 196). Sob o ponto de vista psicanalítico, a melancolia se caracteriza como estado de dor extrema, que traz o desligamento do mundo externo, com isso, há perda de interesse de qualquer atividade cotidiana e um desacreditamento em si, no qual se prolongam os pensamentos no psiquismo que envolve somente o objeto perdido (EDLER, 2008). Talvez essa atitude de Niemeyer se deva ao desejo de manter a proximidade com a esposa falecida, relutando em voltar para seu mundo; pois, muitos dos enlutados que ficam se isolam dos vivos, preenchem seu luto com memórias ruminando fantasias e em algumas situações conversam com o falecido como se este ainda estivesse vivo (KUBLER-ROSS, 2008). O fator do luto sob a ótica de Bowlby (2004) discute as quatro fases que o sujeito vivencia, sendo elas: Fase de entorpecimento que geralmente dura de algumas horas a uma semana e pode ser interrompida por explosões de aflição e raiva extremamente intensas; fase de anseio e busca da figura perdida, que dura alguns meses e por vezes anos; fase de desorganização e desespero; fase de maior ou menos grau de reorganização. (BOWBY, 2004, p. 87-88) 118 A fala de Montenegro reflete o evento traumático vivênciado por ela e seu filho, ainda pequeno. Contudo, a morte causa dor e sofrimento aos sujeitos que experimentam essa realidade. Tendo em vista a característica marcante de sua fala, quando se refere à atitude de obedecer à sua vizinha mesmo sabendo que aquele corpo era do seu marido, se caracteriza na primeira fase do luto que é a fase do entorpecimento, como bem destaca Bowlby (2004, p. 92) “a maioria delas se sente chocada e, em proporções diferentes é incapaz de aceitar a notícia”. Haja vista que “a perda de objetos muito amados lança o sujeito na condição de sofrimento” (EDLER, 2008, p. 43); em virtude disso, “a morte de uma pessoa adulta significa, normalmente, dor e solidão para os que ficam” (RIBEIRO, 2008, p. 6). Quanto ao luto na criança, Bowlby (2004) dismistifica a ideia do pesar como tendo vida curta, principalmente quando a criança registra a ausência. Sobre as duas narrativas posteriores, Cora e Lula se situa próximos ao que se refere aos aspectos emocionais revividos pelas lembranças das perdas. Pois relataram grande sofrimento ao rememorar o estresse causado pelo luto no momento da exumação do corpo do filho, por Cora, e do irmão, por Lula. Além disso, revelaram a associação desse agente causador da instabilidade emocional para o adoecimento. Na concepção de Wondel apud Py (2004, p. 219) o “luto mal-elaborado pode torna-se fato-chave no adoecimento familiar, perpassando a dinâmica das relações, sucessiva e progressivamente, através das gerações”. Como afirma Edler (2008) a elaboração do luto não é algo fácil de lidar, pois se observa que: Se o sujeito, por uma razão ou outra, não consegue elaborar a perda, realizar o trabalho de luto, e desenvolve, a partir dela, um quadro melancólico, supõese que aquele objeto teria uma função de suporte, fornecendo um ancoramento, sem o qual ficaria à deriva. E ainda como descrevem Trentini et al (2005, p. 39): As situações adversas, quando não enfrentadas adequadamente, podem levar à ansiedade e à depressão que, na maioria das vezes, atuam como “trampolim” para o desencadeamento de doenças, incluídas aquelas do tipo crônico-degenerativas, que podem se constituir em fontes de estresse. O lidar então com os eventos adversos relacionado à perda, nos condiciona a refletir sobre o objeto perdido no sentido de contrução de uma imagem consciente através da inexistência desse objeto amado, que segundo Edler (2008, p. 42): 119 Um trabalho de luto bem-sucedido começa com a chamada `prova da realidade´, com a constatação de que houve a perda. É através dela que nos consciêntizamos de que o objeto amado já não existe e, consequentemente, toda a libido deverá ser retirada de suas ligações com esse objeto. Há diversas maneiras de enfrentar as perdas decorrentes do caminhar da vida, e lidar com a morte nos redimensiona pensar que tudo na vida tem limite de tempo. Neste entendimento, a morte é negligênciada na sociedade capitalista, pois pensar acerca desta denota uma proximidade com a nossa própria finitude. Consequentemente, encobre-se tudo que denota dificuldade quanto à aceitação de um fim que é inevitável. De todo modo, a concepção atual quanto à morte e ao luto, em que se é omitido pela aceleração consumista e conduzido pela produção mecanicista, por exemplo, concorre para a supressão do luto uma vez que traz a realidade quanto à fragilidade do indivíduo (KÓVACS, 2002), em virtude disso “a contemporainedade não admite limites a aceleração, pelo contrário, ela incentiva” (EDLER, 2008, p. 108). A sociedade de hoje ainda é responsável pelas dificuldades de enfrentamento do luto, pois os avanços industriais e tecnológicos levaram os indivíduos ao afastamento dos rituais funerários, e consequentemente ao distanciamento das pessoas em viver as perdas, que no contexto, são significativas (KÓVACS, 2003). Pode-se destacar que alguns aspectos influenciados por Bauman que analisa a “velocidade, o lixo, e a liquidez” contribui para que a sociedade líquido-moderna, por sua vez, se situe na condição de adaptação às condições de vida cada vez mais aceleradas diante das demandas externas (EDLER, 2008). E neste tempo de acelerado consumo, os principais produtos desta sociedade tornam-se inúteis, descartáveis, obsoletos; como que na presença do objeto novo, devêssemos substituí-los. Nessa perpectiva da sociedade consumista se confirma segundo Edler (2008, p. 109) “os sujeitos, convertidos em objeto, precisam aprender uma regra de ouro para sua sobrevivência: evitar a todo preço serem excluídos”. Essa contribuição traz consequencias para as subjetividades do indivíduo, uma vez que impera toda rapidez que os indivíduos adotam para se transformarem de acordo com o seu cotidiano, em virtude do derradeiro crescimento exponencial. A morte, dessa forma, é um evento adverso a nós mesmos, e reconhecer os significados, além de avaliar a representação da finitude humana ao sujeito, é proporcioná-lo reflexões dos seus valores diante da vida. 120 Cabe destacar que a aproximação do indivíduo com a morte o redimensiona ao processo de sua existência, voltando-se aos valores atribuídos quanto ao significado da vida. Tendo em vista que os idosos vivenciam diversos tipos de perdas na trajetória de vida, esses percebem que a finitude faz parte do processo natural, assim como o nascer. Pois, cada idoso, dentro da trajetória de vida, enfrentou situações de perdas de formas distintas na sua individualidade, mas que trouxeram experiências e comportamentos frente à finitude humana. Tendo em vista que a morte faz parte do processo natural da vida, este ainda é um sentimento negligenciado pelos sujeitos, uma vez que este fenômeno ainda não foi experimentado. Aos indivíduos cabe apenas a projeção desse anseio que é vivenciado nos outros. Além disso, observa-se um afastamento da morte aos olhos da sociedade, tema este visto como “tabu”, e ao falarmos sobre ‘ela’ denota estranhamento mórbido (KUBLER-ROSS, 2008; FONTINHA, 2010). Rodrigues (2006, p. 33) analisa que “em todas as culturas os indivíduos, para conseguirem construir intelectual e afetivamente suas (auto) identidades, têm necessidade de um mito do fim, de como um mito da origem [...]”. Também, considera-se que a reflexão das perdas de entes queridos, amigos, pessoas de referência na sociedade, redimensionou os aspectos atuais na vida do indivíduo diante do seu processo de hospitalização. Outro tipo de perda identificado nas falas foi à perda da estabilidade do papel familiar e laços afetivos matrimoniais, que, de acordo com as narrativas a seguir, se refere ao abandono e à solidão vivenciados pelos idosos, e também durante a trajetória de vida. Essa afirmativa se revela quando os idosos exprimem esse fato: Eu tenho um filho que caiu no mundo, não sei nem onde ele está... a minha família que mora no Irajá que de vez em quando sabe dele e me dá notícias dele. Mas ele não procura... não procura a família, não procura ninguém (Gal, 65 anos). [...] eu fiquei 17 dias no hospital em Cambridge, e ninguém veio me visitar, (tristeza), e eu ali sozinho numa “depre” muito grande, e derrepente eu liguei pra minha filha, e disse: filha, eu estou querendo bater um papo, já tem 16 dias que eu estou aqui no hospital e ninguém veio aqui me ver. Ela tinha 14 anos e estava revoltada com a situação... aí ela falou assim: ah papai, não posso te dar atenção agora não, porque eu estou falando com meu amigo. Eu falei: poxa minha filha, eu estou a 16 dias no hospital, e... eu estou precisando conversar, me dá uma atenção. Ela falou: se você não desligar, eu vou desligar o telefone na sua cara. Aí eu desliguei, e a lágrima veio... (chorou), desculpa (pausa na fala) (Buarque, 60 anos). 121 Outra coisa também que aconteceu na minha vida, foi quando eu casei... não deu certo, e nós se separamos [...] aí demorou um pouco eu arranjei outra pessoa, né? [...] depois de uns sete anos juntos, ele foi embora. Arrumou outra pessoa e foi embora [...] eu sofri muito mesmo, com essa separação.... sofri muito [...] a gente é obrigada a viver sozinha né? (Betânia, 60 anos). Minha ex-mulher falou que queria ir para os estados Unidos, e eu disse: ué, vai! [...] só que eu pensei: era tão difícil ficar sem ela... [...] a primeira coisa que ela fez foi me deixar. Nós tínhamos 17 anos de casados, ela gostou do “boss” dela, o chefe dela... e falou comigo assim: volta para o Brasil, porque eu estou apaixonada e quero viver a minha vida com o homem que eu amo (reflexivo), foi uma tijolada na minha cabeça (Buarque, 60 anos). Esse sentimento de solidão foi analisado pelos idosos sob a perspectiva de abandono pelos familiares e companheiros, que trouxeram um sentimento de tristeza pela perda do convívio com os entes queridos. Como afirma Yalom (2008) existem dois tipos de solidão, a social, que se configura no isolamento das pessoas próximas do indivíduo, e esta, por sua vez, é comum nos que estão morrendo, tendo em vista que ocorre o afastamento de amigos e familiares por temer a morte, e ainda por não saber lidar com a situação, como também os que estão morrendo às vezes são coniventes com esse isolamento, por não querer incomodar os que amam; e a solidão existencial, esta se relaciona com a perda biológica além da perda do próprio mundo. Sob essa ótica, o autor revela que o tipo de solidão que podem interferir na questão existencial do indivíduo, contribui para os aspectos da finitude humana. Neste sentido, é comum dizer que o morrer se configura no fenômeno mais solitário da vida humana, além de que a solidão por sua vez, aumenta a angústia da morte pelo fato da sociedade adicionar uma “cortina do silêncio e de isolamento em torno dos falecidos” (YALOM, p. 100). Ainda mais em se tratando da hospitalização, como mencionou Buarque, pois a institucionalização leva o indivíduo à angústia pelo isolamento social. Segundo Novaes (2000, p. 47): O tecido social representa um elemento primordial na conservação da sua saúde, tanto física quanto psíquica, uma vez que o isolamento social provoca o aparecimento da angústia, solidão, tão frequente nos idosos por terem sido cortados e afastados dos outros e definem bem sua situação por `estar só´ ou de `abandono`. Também emergiu na pesquisa, perda da estabilidade emocional por discriminação em apenas um idoso, que narrou situação durante a entrevista. Considero 122 relevante descrevê-la uma vez que esse idoso trouxe considerações significativas na sua fala, que representa a seguir: No estado de Massachusetts eu fazia tratamento onde eu chegasse [...] porque lá eu era “disable” né... deficiente, “handicap”, então eu tinha um “free care” [...] mas eu achava que havia uma certa discriminação por eu ser imigrante [...] só que quando eu cheguei aqui... pelo menos as pessoas que eu encontrei, eu tive uma discriminação maior (triste). Quer dizer, o cara diz pra eu ir embora pra casa porque eu ia morrer em três, quatro meses... (Buarque, 60 anos). No final eles ficaram me jogando de um médico, urologista me jogava para o ortopedista, o ortopedista para o cirurgião plástico, e foi assim... [...] já tem 10 anos que eu já tenho essa osteomielite [...] procurei um médico do quadril [...] ele falou: você é um doente imexível [...] porque a sua corrente sanguínea deve pegar uma infecção... você deve morrer em quatro meses [...] aí eu amarguei a “síndrome da morte” há muito tempo...sabe? [...] eu me anulei muito sabe [...] fiquei depressivo... todo dia de manhã eu acordava, eu falava: ô meu Deus, to vivo... [...] nisso já tem cinco anos... (Buarque, 60 anos). Ao comparar as duas narrativas do mesmo idoso, observa-se a incompreensão da morte no campo da inconsciência, que para Kubler-Ross (2008, p. 6) “é incocebível para o inconsciente imaginar um fim real para nossa vida na terra e, se a vida tiver um fim, este será sempre atribuído a uma intervenção maligna fora do nosso alcance”. As percepções quantos às impotências e frustrações pela discriminação sofrida por este idoso, trouxeram uma análise em relação às suas necessidades e seus interesses. Segundo Timm (2006, p. 12), “a incapacidade de alterar o meio físico e social deixa nas pessoas uma sensação de fracasso. Se atribuírem seu fracasso a deficiências pessoais, generalizadas e duradouras, será acometido de sensação de ineficácia”. O que possibilitou a valorização e o aproveitamento da vida, na sua plenitude. Para Novaes (2000, p. 24): [...] o desejo depara-se com a frustração, devido a sentimentos de falta, vazio e fracasso; ao lado deste tempo, há, porém espaço para uma interface temporal de um lado e atemporal do outro – interface essa, onde se inscreve o fantasma inconsciente, estando em jogo o recalcamento originário que enraíza a perda da identidade. De acordo com a fala do pesquisado, observa-se a capacidade da valorização de si como sujeito vivo, no momento em que destacou a importância de acordar cada dia, ou seja, viver mais um dia de cada vez. 123 Segundo Franco (2007, p. 109), “a morte deve representar a vida uma possibilidade de tomada de consciência do nosso processo existencial e não o marcador do fim da linha”. Para Loreiro (2008, p. 858), “desvendando seu imaginário pode-se compreender melhor: suas atitudes, os rituais, e as diferentes posições, as convivências, as fugas, os medos ou aceitações da vida e da morte”. Outras vertentes das perdas individuais que os idosos sofreram ao longo da vida se referiram às perdas físicas, no que se diz respeito ao membro do próprio corpo. Também houve a necessidade da elaboração do luto, mesmo que não tenha ocorrido a morte propriamente dita. E ainda, a perda de um bem material, que foi evidenciado com a perda de um imóvel. Nas falas observa-se: [...] então de um tempo pra cá, eu fiquei muito doente, e as coisas pioraram um pouco sabe [...] a cabeça do fêmur está solta... vou Ter que amputar a perna esquerda, e depois provavelmente vou ter que amputar a perna direita... por que já está desarticulada daqui do quadril. Eu quero fazer essas amputações porque antes de vir pra cá para o Brasil, eu fiz uma cirurgia e tiraram a minha bexiga, fizeram uma ostomia. Eu estava recém-operado, sofri um acidente de carro e o cinto me arrebentou todo aqui... fiz umas hérnias... vou ter que operar (Buarque, 60 anos). [...] em 2010 mais ou menos veio uma tragédia, foi uma época que teve um deslizamento no Novo México - eu morava no Novo México [...] eu perdi, minha casa (chorou)... (pausa rápida na fala). Uma hora da manhã [...] eu e minha esposa saímos correndo com a roupa do corpo, graças a Deus que eu com a minha vida e ela com a vida dela (Gil, 65 anos). No que se refere a perdas físicas relacionado à parte do corpo que será amputada, deve-se considerar a imagem sobre seu próprio corpo, que está relacionada à estética e ao luto relacionado à perda do membro. Pomatti (2008) discorre sobre a ideia de que não se deve considerar apenas o fator psicológico sobre a representação do membro amputado, mas o aspecto relacionado com a história de vida de vida do sujeito, no tocante à significação funcional dessa perda, além da percepção da autoimagem. Rodrigues (2010, p. 62) descreve que “o corpo é pouco mais que uma massa de modelagem à qual a sociedade imprime formas segundo suas próprias disposições: formas nas quais a sociedade projeta a fisionomia do seu próprio espírito”. No entendimento desse idoso quanto ao processo de amputação, o mesmo apresentou tranquilidade emocional, pois avaliou a necessidade do procedimento cirúrgico, pelo alívio dos sofrimentos físicos. Segundo Pomatti (2008, p. 130): 124 Entretanto havendo a compreensão de que a amputação lhe trará consideráveis benefícios, como diminuição da dor e funcionalidade, o paciente poderá também obter significativas gratificações por parte da equipe de saúde, como uma maior compreensão, tolerância e um suporte adequado para o enfrentamento dessa perda. Além do mais, no que se refere ao tipo de perda relacionado à habitação, em que se destacou a fala de um idoso entrevistado. Considero relevante destacá-lo, pois esse idoso atribuiu à tragédia ocorrida em sua vida, pela situação de saúde no momento da internação. Pois, sendo a residência um espaço destinado aos indivíduos cuja sua função é abrigar e oferecer proteção aos fenômenos naturais externos, a perda deste bem significou a instabilidade emocional no que se refere à sua propriedade de refúgio. Nesta contribuição, Ribeiro e Shutz (2007) e Fernandes e Fragoso (2005) destacam que o ambiente domiciliar fornece calor, segurança e autonomia ao idoso que contribui no desenvolvimento da vida. Outros aspectos relacionados à perda como da autonomia, independência, capacidade funcional podemos observar que os idosos revelaram como um problema que contribuiu para a instabilidade e vulnerabilidade. Assim as histórias revelam: Agora... eu morava sozinha... mas atualmente eu moro com minha filha... por que meus filhos não querem me deixar sozinha, aí eu moro com ela. Eu também acho que não tenho mais condições de morar sozinha, por causa dessa canseira que pode me dar derrepente... (Lee, 61 anos). [...] eu fiquei sozinho em casa, entrei numa “depression” meio perigosa... e eu não sabia onde eu pegava meus remédios, aquela coisa toda... [...] até que eu arranjei uma empregada mas, não fazia igual à ela [...] eu não sabia o que era ir no fogão fazer uma comida, nunca abri a geladeira, nunca abri um invólucro... assim, um envelope de um remédio, ela sempre vinha com ele na mão [...] (Buarque, 60 anos). [...] não saio mais de casa, porque tenho medo de cair... não tenho mais firmeza nas pernas. [...] Quando eu era mais nova, a minha vida era mais ativa... eu gostava de passear, sair sozinha... quando tinha alguma coisa para resolver, eu ia... saía sozinha pra fazer as coisas (pensativa). É tão ruim Depender das pessoas para fazer as coisas para a gente... mas o que a gente pode fazer... não tem outro jeito [...]. Hoje em dia não tenho mais condições de fazer as minhas comidas, arrumar minha casa, fazer minhas tarefas que eu gostava de fazer durante o dia. Agora tenho que depender de alguém que me ajude em casa, que faça as coisas pra mim e por mim... preciso de alguém que cuide de mim... (Bibi, 87 anos). 125 As manifestações decorrentes da perda da autonomia, capacidade funcional e independência provocam impacto na qualidade de vida dos idosos, uma vez que estão diretamente relacionadas à produtividade. A análise da dependência pode ser vista como “[...] a pessoa perde o controle da organização de seu modo de existir, pois depende dos demais para tudo” (NOVAES, 2000, p. 125). Assim, os idosos passam a depender dos seus familiares para a execução das suas tarefas rotineira, trazendo prejuízo à qualidade funcional e seus significados em sua existência. É fundamental nesta idade a manutenção da vitalidade desse idoso, que contribui para sua qualidade de vida dentro dos seus limites e posibilidades. Deve-se destacar que fortalecer suas conquistas e espaços construídos gera novos caminhos para a expansão das suas potencialidades. O fato de estimular o idoso dentro das suas possibilidades leva-o a se envolver nas suas próprias decisões, valorizando o que é de seu interesse. A contribuição gira em torno das suas condições, presente nos dias atuais, visando derrubar os tabus de improdutividade e dependência. Os idosos reconhecem a atividade laboral como fonte produtiva da autonomia, independência e reconhecimento do seu papel na sociedade; pois, na ausência desta como a ausência do trabalho, como afirmam Ribeiro e Schultz (2007, p.194), “ocorre uma desvalorização pessoal, por não realizarem atividades produtivas”. A perda da renda também foi identificada nos idosos. Pois todos os entrevistados narraram que com a aposentadoria, sua sustentabilidade tornou-se mais difícil, necessitando então, de outros meios autônomos de trabalho para aumentar sua renda. Nas entrevistas, pôde-se observar: Eu arranjei um condomínio pra trabalhar, já tem 12 anos que estou lá [...] eu até já sou aposentada por idade, mas ainda trabalho neste condomínio [...] mas não dá mais não (pensativa). Eu não tenho mais condições de trabalhar mais não, depois dessa minha doença aí... (Lee, 61 anos). Depois que eu me aposentei [...] aquele “salarinho” que recebe... não é grande coisa... a gente fazia um serviçinho normal né? Um camelozinho, uma coisa... fazia outra e fazia outra... para aumentar nossa renda [...] (Gil, 65 anos). 126 De acordo com o que foi relatado pelos idosos, Silva (2009, p. 83) contribui afirmando que: [...] a aposentadoria significa uma vertiginosa queda de renda. Isso contribui para a depreciação da posição socioeconômica do idoso, privando-o de oportunidades como aquisição de novos bens, conforto, serviços, medicamento e acesso a diferentes recursos e atividades. Por essa razão, os idosos que recebem da previdência social uma renda mínima, e consideram importante a necessidade de outra fonte de renda. Pois os idosos pesquisados além de possuir despesas individuais, alguns relataram ajudar os familiares, como se observa: Eu ajudo minha família... todos eles, se alguma coisa precisar. Nunca precisei deles, pelo contrário, depois que melhorei de vida, eles precisaram de mim... (Montenegro, 69 anos). Destacou-se, dentre os idosos pesquisados, a preocupação em relação ao processo de doença e suas impossibilidades ao trabalho, que alguns admitiram possuir uma renda extra à aposentadoria. Para Nery, Tavares e Cupertino (2004, p. 99): Examinar o evento da aposentadoria e suas possíveis implicações para a saúde emocional dos idosos remete-nos a desafiar essas visões e avaliar evidências competitivas, relativa à saúde emocional. Assim, a redução da atividade financeira como a produtividade, pode modificar as perspectivas dos idosos, de modo que colabore para o aparecimento das doenças. Outro importante fator destacado pelos idosos nesta categoria foi à perda da saúde, que está diretamente ligado ao impedimento do desempenho das funções normais, qualidade de vida e bem-estar (social, psicológico, individual). Isso pôde ser visto nos relatos dos pesquisados: Não tenho necessidade de nada. Só de saúde... que agora, tá difícil, tá difícil... tudo começou com um probleminha na garganta. Aí eu fui na fonoaldióloga, ela me passou uns exames [...] tinha que operar, aí fui no Cardiologista pra fazer o risco cirúrgico, e viu que vou ter que colocar o marcapasso. [...] se eu soubesse que ia acontecer isso... eu não viria na consulta (reflexão). Pelo que eu me conheço... eu não viria na consulta... eu ia deixar rolar... como eu 127 sempre deixei. [...] eu só ia fazer a cirurgia das cordas vocais, agora vou ter que fazer mais isso [...] hoje eu acordei os batimentos estavam 30 e... 39... a tendência é ficar cada vez mais fraco (Gal, 65 anos). Eu renovei a minha carteira agora [...] mas fui eliminado na pressão, estava 26 por 15... eu sabia que tinha, mas não ligava não. [...] aí fui nesse médico que descobriu [...] o próprio médico, ele é professor daqui, ele disse: esse é o fulano, o fulano, fulano... o senhor vai entregue a eles 40 minutos. Eles vão verificar tudo, daqui a 40 minutos eu volto e conversa comigo. [...] ah doutor (revelando a fala do aluno), quando eu apertei aqui ele sentiu, [...] é aqui em cima, pode ser pedra na vesícula, ela escapuliu... passou pelo fígado... aliás, está entre o fígado e a vesícula (Niemeyer, 75 anos). Só que agora, eu tenho que fazer uma coisa e sentar... me dá cansaço, aí eu vou e sento, fico sentada... [...] agora eu tenho que ficar na minha... as vizinhas até falam quando tiver alguma coisa pra fazer, pra chamar... mas ninguém limpa a casa como eu faço [...] eu gosto muito de tapete na sala, e a única coisa que eu não estou botando, porque tem varrer e eu faço muito esforço (Cora, 63 anos). Nas narrativas de Gal e Niemeyer identifica-se a descorberta da doença que contribuiu para a internação durante a realização de consultas de rotina. Já, na narrativa de Cora, percebe-se que o fator doença colabora no impediemento das tarefas cotidianas. Sendo assim, a saúde reflete nos indivíduos, assim como nos idosos, uma fonte precursora de vitalidade essencialmente para a vida, pois uma vez que não se tem saúde, não tem nada. Mas nesta análise, algumas falas apresentaram relevância na vida do idoso, em que se descobriu por acaso a doença, como comorbidades. Já para outros, tinham consciência da existência da doença crônica, mas não levavam em consideração os fatores de risco. Em relação às “doenças crônicas na vida de uma pessoa não corresponde a seu diagnóstico; pelo contrário, ele é explicado durante um exame de rotina, uma crise, uma situação aguda ou sintomática” (SILVA, 2009, p. 92). Ao analisar o envelhecimento associado com as doenças, os idosos revelam que esta é uma preocupação considerável à sua existência. Pois suas considerações estão pautadas na falta de oportunidades e perspectivas de vida. Também neste sentido, alguns idosos que “[...] vivem em situação de risco, com problemas financeiros, isolados, com doenças graves, que podem se agravar com as perdas da vida” (KÓVACS, 2008, p. 460). 128 Tendo em vista que envelhecimento é um caminhar para a própria finitude, alguns idosos qualificam a fase da vida com perdas e ganho. Contudo, analisar determinados fatores vivenciados por eles possibilitou uma nova consideração à vida repleta de significados, pois: Precisamos olhar a trajetória da vida e vislumbrar o percurso que faz, aceitando cada etapa como única e exclusiva; aprender a acolher as mudanças e ver que não somos os únicos nesse processo, mas que todos estão trilhando o mesmo caminho (GOULART; PORTELLA, 2008, p. 60). Além disso, “deve-se considerar que com o aumento da população idosa, implica em um aumento do custo da assistência além, de comprometer a qualidade de vida dos idosos e consequentemente dos familiares e cuidadores” (CUNHA; SÁ; NASCIMENTO, 2013). Em virtude disso, a reflexão do sistema saúde como prestadores de cuidados ao indivíduo demonstra certos desafios aos gestores que buscam estratégias para diminuir o índice de hospitalização. Desta forma, o envelhecer saudável é uma estratégia de política pública proposta pela PNSPI em que versa o envelhecer de forma ativa, livre de dependência funcional, e que exige a promoção da saúde em todas as idades (BRASIL, 2006). Neste sentido, deve-se considerar que a população idosa requer atendimento à saúde específica em determinados níveis de atenção, e que podem ser evitado maiores custos com a assistência, sobretudo proporcionar melhores condições de saúde a essas pessoas (GORDILHO et al, 2000). Tendo em vista que a saúde no Brasil é um direito universal e integral foi conquistado através da Lei Orgânica do SUS nº8080 de 1990, em que nas disposições gerais concerne “redução de riscos de doenças e de outros agravos no estabelecimento de condições que assegurem acesso universal e igualitário às ações e aos serviços para a sua promoção, proteção e recuperação” (BRASIL, 1990, p. 1). Portanto, os idosos devem contribuir para o autocuidado que garantam a qualidade de vida, ainda que sejam realizados os cuidados voltados ao controle das doenças crônicas, a supervisão quanto à adoção de medidas preventivas devem estar pautadas como meta desejava para o envelhecimento saudável, assim como a manutenção da capacidade funcional. 129 Superando os Limites da Vida Esta outra subcategoria discute as superações que os idosos conquistaram ao longo da trajetória de vida, em que houve a necessidade de mecanismos adaptativos, para a compensação do bem-estar psicológico, individual, espiritual diante das perdas. Considerando o advento das perdas como situações desfavoráveis ao indivíduo, cabe ressaltar que os idosos pesquisados buscaram estratégias de enfrentamento, como a utilização de recursos internos que desencadearam transformações diante de novas oportunidades de vida. Tendo em vista que as perdas são comuns com o passar do tempo, durante o desenvolvimento humano e constitui um valioso instrumento que os idosos utilizam para se adaptar frente às adversidades pois, como destacam Baltes e Baltes (1990), os indivíduos utilizam mecanismos práticos e flexíveis para se adaptarem aos eventos adversos da vida, em que ocorre um equilíbrio entre perdas/ganhos para o envelhecimento bem-sucedido. Para Novaes (2000, p. 24), “o idoso confronta-se com novos desafios, outras exigências, devendo renunciar a certa forma de continuidade, sobretudo biológica, e desenvolver atitudes psicológicas que o levem a superar dificuldades e conflitos [...]”. Todos os idosos relataram que diante dos eventos adversos que surgiram na sua trajetória de vida superaram de forma positiva, em que houve o crescimento e amadurecimento quanto aos enfrentamentos. Durante o desenvolvimento os mecanismos adaptativos que os indivíduos recorrem tende trazer novas perspectivas de vida, como se pôde evidenciar: Perdas como as de entes queridos, do status social e profissional, de um corpo jovem e bonito, da energia vital, da atração sexual, da flexibilidade reativa, do entusiasmo pela vida existem realmente, entretanto, cabe superálas por novas conquistas como a de um estado de serenidade ao enfrentar a vida, maior maturidade para compreender os outros, ampliação de sensibilidade em perceber o que é essencial, afetividade e humanismo no convívio social, dedicação à comunidade e descoberta de novas habilidades (NOVAES, 2000, p. 23). Frente a isso, os idosos buscaram conforto e apoio como mecanismos de defesa, e estratégias de enfrentamento às adversidades durante seu desenvolvimento, adquirindo novas metas de mudanças adaptativas, e que por sua vez, contribuiu para a qualidade de vida. 130 Os depoimentos, a seguir ilustram essa afirmativa no que se refere ao apoio encontrado na família para superação de algum dano individual e psicológico vivido durante a trajetória de vida e também na vida atual com o processo de hospitalização. Essa minha afilhada e filha [...] e o marido dela que também é meu afilhado, me levou pra casa deles, e eu estou lá até hoje graças à Deus, e agora ficam cuidando de mim. Quer dizer, me levam para o hospital, leva para o médico, vamos pra lá... vem pra cá (Gil, 65 anos). Meu pai amarrava... eu falava pra minha irmã: me desamarra, e na hora quase dele (pai) chegar você me amarra de novo. Ele falava pra minha irmã: quando quiser fazer xixi, você coloca o pinico, coloca água... eu falava: você vai ficar fazendo isso mana... [...] tadinha ela me desamarrava... ela ficava com pena... e quando dava perto da hora, eu sentava lá e ela me amarrava [...]. Hoje em dia a gente lembra disso... a gente se abraça (refletindo, emocionada) (Gal, 65 anos). Tenho uma família unida... todos moram perto de mim, meus filhos também... [...] meus irmão estão todo dia aqui, não tenho nem pai, nem mãe mais, mas tenho muitos irmãos. Eles estão aqui me acompanhando, meus filhos estão aqui me acompanhando... tenho três, e todos três vêm aqui... (Lee, 61 anos). Desde que eu entrei aqui, eu... o primeiro dia só foi chorar lá embaixo (na emergência), dái a minha filha veio... vieram aqui e me deram Aquela Força... para o meu tratamento (Gal, 65 anos). Neste entendimento, a união da família torna-se importante tanto para dar apoio ao idoso no momento da hospitalização, em que estes encontram solidão e fragilidades, por se tratar de um ambiente desconhecido e dotado de rotinas, então o idoso percebe que sua autonomia e independência estão prejudicadas. A família quando sólida proporciona ao idoso segurança e bem-estar quanto à superação de momentos das dificuldades da vida. Também possibilitou a análise da cumplicidade que ocorreu entre Gal e a irmã, durante uma fase de vida a qual correspondeu à infância da idosa, o que contribuiu no fortalecimento emocional e psicológico quanto ao enfrentamento do trauma vivido. Em todos os depoimentos, os idosos afirmaram possuir o apoio familiar necessário para o bem-estar psicológico, em que podemos classificar a rede de apoio ao idoso, como bem destaca Pinto (apud FERNANDES; FRAGOSO, 2005, p. 178): Sistemas maduros ou funcionais (família normal): a família dita “normal” é aquela em que seus membros são autônomos no que diz respeito às questões 131 pessoais, mas comprometidos em seus vínculos familiares de forma recíproca. Esse grupo está disposto a contribuir e a somar esforços e recursos na obtenção de soluções adequadas aos conflitos e necessidades de seus membros de modo flexível. Ainda quanto ao vínculo familiar ao idoso, pode-se dizer que “quando a pessoa está inserida na família, as relações e as trocas que ocorrem neste ambiente e em ações na comunidade são enriquecedoras, principalmente para os idosos” (RIBEIRO; SCHULTZ, 2007, p. 192). O papel da família para o idoso torna-se importante nas relações que estes desenvolvem ao longo da vida, como um alicerce de apoio individual, emocional, social. Os idosos pesquisados também revelaram que as separações matrimoniais trouxeram muito sofrimento durante o percurso da vida, já que através do amparo ao companheiro, ou seja, ao outro, receberiam o apoio necessário para enfrentar situações difíceis. Neste sentido, os sujeitos da pesquisa revelaram a necessidade de se obter novos parceiros para a formação de uma nova vida, que contribui para seu apoio e bem-estar. As falas de Montenegro e Niemeyer ilustram tais concepções: Depois de tanto tempo [...] eu também retomei minha vida... eu era muito namoradeira [...] depois, começou o namoro e depois juntamos, porque não queria mais casar [...] ele me ajudou muito... ajudou quando eu fiquei doente sem poder trabalhar [...] adoeci com hepatite, que durou dois anos pra curar, ficou crônica. [...] Aí tive que parar de trabalhar porque estava doente (Montenegro, 69 anos). Dou graças a Deus por aquele domingo... aquele com chapelão que eu não consegui ver o rosto, foi um enviado de Deus. Ele falou pra pessoa que precisava ouvir [...] eu sei que eu saí mais cedo do cemitério mais cedo, fui pra casa da minha irmã, tomei um banho, fiz a barba e fui a uma igreja lá em Cubango [...] aí tinha uma moça que abaixou e beijou uma criançinha... aí eu me encantei [...] hoje ela é minha esposa [...] eu perdi uma, mas ganhei outra (Niemeyer, 75 anos). A narrativa de Montenegro revela que a importância de adquirir novo parceiro, permitiu uma relação estável. Com isso, obteve o apoio financeiro necessário durante um adoecimento repentino que durou dois anos. Entretanto, a fala de Niemeyer reflete que o encontro casual com sua atual esposa se deu através de um senhor com um chapelão no cemitério, cujo idoso não conseguiu ver o rosto. Naquele momento, para Niemeyer, foi ‘um enviado de Deus’. Neste sentido, é importante notar que Niermeyer passou pelas fases do luto, como destacou Bowlby, em que por fim reencontrou um sentido à sua vida. 132 Segundo Bertoletti e Carretta (2008, p. 39): No decorrer da vida, na condição humana da longevidade, os objetos se perdem e se desgastam, sendo necessário trocá-los por outros capazes de sustentar projetos de vida, direcionado ao desenvolvimento pessoal, com o propósito de preencher qualquer vazio que surja. Assim, os sujeitos da pesquisa revelam que durante o percurso normal da vida, buscaram mecanismos compensatórios da perda conjugal, em que retomaram sua vida ao lado de outra pessoa. Ao elaborar sua vida com outro parceiro conjugal, os sujeitos tendem a se organizar no mundo, de acordo com seus objetivos e propostas de vida. Todos os idosos também destacaram a importância da superação das dificuldades no trabalho, em que relataram ser um componente essencial na vida. Assim, as falas descrevem: Foi muito difícil, eu com 25 anos... o cara falar para mim que eu não ia andar mais (pensativo). Aí eu fui para casa numa Revolta muito grande [...] eu fiquei deitado um ano, e minha mãe me ensinou a fazer crochê... e eu comecei a fazer crochê, eu fiz tudo que você pode imaginar, eu fiz... e meu irmão naquela época trabalhava com estamparia de roupa, moda praia [...] ele me deu umas coisas de crochê vindas de Paris, e eu comecei a olhar aquilo, e fiz... acho que para aumentar meu Ego, eu fiz melhor (Buarque, 60 anos). Eu quis dar para meus filhos tudo o que eu não tive [...] eu sempre fui um homem que trabalhou duro pra isso... né? Comecei cedo a trabalhar, e em trabalho pesado [...] não pretendo parar de trabalhar não... quero continuar trabalhando. Apesar da minha esposa querer que eu pare de trabalhar, depois disso que me aconteceu... (contrariado). [...] e agora a minha filha está indo contra... as duas não tiram isso da idéia [...] eu falei para elas que se eu parar de trabalhar, aí mesmo que vou morrer (risos), que vou morrer mais depressa (Lula, 64 anos). Na roça era mais difícil, meu pai também não ligava... porque quem tinha que estudar era o filho homem... a mulher não interessava [...] eu queria estudar enfermagem, queria ver um curso pra mim, eu fui lá na escola Anna Nery, queria o técnico de enfermagem... eles falara assim: precisa disso, disso, básico o 2º grau... “botei o sonho na mala” [...] pela profissão do meu marido, não precisava trabalhar fora, [...] depois que ele faleceu, eu fui lutando sozinha... sem profissão, com um filho pra criar. [...] dalí... meti a cara no supletivo, estudava e trabalhando... meu filho na escola, quando fez mais ou menos um tempo eu me formei. [...] eu fui na Cruz Vermelha ver o curso, cheguei lá eles falaram que tinha fazer uma prova [...] acertei 90% das questões. Fui logo fazer o curso, e me formei... logo depois começou aparecer concurso público, e no primeiro passei... comecei a trabalhar no Fundão [...] depois apareceu do Ministério da Saúde, abriu o concurso e fiz, passei bem, muito bem [...] depois eu queria trabalhar aqui, não gostava do 133 fundão, ganhava bem mas achava meio “militarismo” [...] aí abriu o concurso aqui, vim correndo pra ver, passei com ótima nota (Montenegro, 69 anos). O trabalho configura-se em proporcionar ao sujeito a independência e autonomia, promovendo bem-estar individual através da participação ativa no mercado de trabalho. Com o decorrer do tempo em que o indivíduo vai estabelecendo metas na sua vida, o trabalho o auxilia na construção da sua identidade na sociedade. A atividade laboral constitui-se um dos melhores caminhos que os sujeitos adquirem para a produtividade e integração social. Assim, alguns estudos revelam esse fato afirmando que atualmente o vínculo empregatício formal ou informal desenvolve o reconhecimento aos idosos como seres ativos, com capacidade produtiva, o que contribui para sua identidade na sociedade e qualidade de vida (PATROCÍNIO, 2010; TRENTINI et al, 2005; SILVA, 2007; KUZNIER, 2007). Os idosos se identificam com esses valores construídos na sua trajetória de vida, como um processo de dignidade, pois, ao avaliar as conquistas adquiridas pela força do trabalho, percebem que as superações dos seus esforços quanto às dificuldades enfrentadas não foram em vão. Outro aspecto avaliado durante as entrevistas foi o reconhecimento quanto aos cuidados com a própria saúde, qo ue foi observado pelos idosos durante a narrativa da perda da saúde. Evidenciou-se que todos os sujeitos pesquisados apresentam algum tipo de patologia crônica, sendo indispensável a reflexão quanto aos cuidados necessários para sua qualidade de vida. Neste sentido, pode-se observar nas falas dos idosos: Estou tendo alguns cuidados específicos... que são os seguintes: as dietas que eu faço, são as dietas... se está chovendo, não vou tirar a minha cabeça e colocar na chuva... porque eu sei que vou adoecer, uma feijoada aí? Não posso comer uma feijoada... eu mesmo procuro a minha saúde, não abusar... (Gil, 65 anos). Depois de cinco anos pra cá, que apareceu um problema atrás do outro... também tenho pressão alta, que me apareceu durante esse tempo... tomo remédio todos os dias [...] (Lula, 64 anos). Destaca-se nos depoimentos dos idosos que na fase do envelhecimento, algumas medidas de prevenção e cuidados deveriam ser adotadas. Como se vê na fala de Gil, 134 percebe-se a necessidade de condições favoráveis à saúde, além da aceitação da realidade e mecanismos defensivos quanto aos anseios do idoso. Também, na narrativa de Lula, identificou-se que o processo de adoecimento ocorreu em cascata, com vários eventos desfavoráveis à saúde em sequência. Na velhice, torna-se importante reconhecer suas peculiaridades no sentido amplo, envolvendo um fluxo de investimentos e procedimentos que pudesse direcionar um envelhecimento mais satisfatório possível. Desde então, a política Nacional do Idoso dispõe de medidas que incentivam a prática de atividades físicas, hábitos saudáveis como redução do consumo de álcool e tabaco, e alimentação saudável com o objetivo de manter a qualidade de vida dos idosos e reduzir as internações hospitalares (CUNHA; SÁ; NASCIMENTO, 2013). O cuidado de si é fundamental para a melhoria da qualidade de vida dos idosos, no que tange a representação do envelhecimento. O Manual do Envelhecimento ativo: uma política de saúde de 2005 dispõe de recursos essenciais para o envelhecimento positivo com qualidade de vida. Assim, essa política preconiza que “A adoção de estilos de vida saudáveis e a participação ativa no cuidado da própria saúde é importante em todos os estágios da vida” (BRASIL, 2005, p. 22). Ao buscar a relação dos cuidados com a própria saúde, o indivíduo elabora ações com a própria essência, pois, ao se ter saúde, o sujeito obtém energia e vitalidade para as realizações de sua atividade cotidianas. Esses cuidados vêm de encontro à prevenção e promoção da saúde, que são fundamentais para a qualidade de vida e bem-estar. O cuidar-se para o idoso se configura em significações fundamentais do envelhecimento satisfatório, em que suas atitudes diante de tudo que foi assumido durante a trajetória de vida fundamentam-se na reflexão do que é essencial para si, além de analisar sua dimensão física e sociocultural. De acordo com os relatos nas entrevistas, os idosos buscaram algum apoio na crença e na fé, e ainda amparo na religiosidade. Pode-se destacar dentro da sua história de vida que todas as superações tiveram base na crença espiritual, buscando algum sentido à sua existência, o que pode ser visto nas falas a seguir: Olha, neste tempo... eu não teria dado conta não... eu vivi muita coisa terrível nesta vida... foi cada coisa que eu passei. Hoje em dia eu agradeço muito a Jesus porque se não fosse ele eu não tinha vivido não (Canô, 80 anos). 135 Deus me fortaleceu de uma tal maneira, que nem parece que tenho uma doença dessas [...] antes de ter Jesus, eu não podia nem falar nesta doença, que eu ficava desesperada... quando ouvia falar de algum amigo que estava com essa doença, pra mim era uma “facada”. Agora, graças a Deus que Deus tirou né? Já estou curada graças a Deus... eu to curada em nome de Jesus (Betânia, 60 anos). Tenho fé em Deus... eu penso assim, que a pessoa vive na fé como eu, eu penso se até quando o Senhor quiser me dar vida... Deus (olhando para cima) adoro a vida que o senhor me deu, eu amo a vida que o senhor me deu, se o senhor quiser me deixar mais um tempo aqui, muito obrigado, quando o senhor quiser me levar pode me levar. É isso que eu falo com Deus...(Montenegro, 69 anos). Então eu não tenho religião... mas continuo crendo no criador e continuo com minha fé... entendeu? Ele (Deus) é tudo pra mim... só não tenho religião [...] eu acho que a religião as pessoas ficam presas, são escravos do sistema, esse sistema religioso que existe aí... eu prefiro ser livre para seguir a Deus. Mas eu procuro fazer as coisas certas, procuro ler a bíblia todo o dia... (Buarque, 60 anos). As falas de Canô e Betânia refletem uma forte influência religiosa, na qual se destacou o poder depositado na fé. Para fortalecer essa convicção, deve-se estabelecer consigo uma relação entre a compreensão religiosa e prática, pois a religião traz conforto quanto à significação existencial, e frequentemente, a análise dos seus valores e atributos. A crença e a fé manifestadas pelos idosos durante os depoimentos de Montenegro e Buarque nos indicam a reflexão interna dos princípios espirituais. Essa sintonia expressa na espiritualidade nos faz considerar que “o fato de cada um confiar e agir segundo o seu sentido de vida dá forças para continuar” (NOVAES, 2000, p. 127). Durante a entrevista de Montenegro que se destacou na narrativa anterior: “Deus adoro a vida que o senhor me deu [...] se o senhor quiser me deixar mais um tempo aqui, muito obrigado, quando o senhor quiser me levar pode me levar”, a idosa se levantou da cama, estendeu seus braços para o horizonte com as palmas das mãos voltadas para cima, e olhando em direção ao céu disse essa marcante frase. Torna-se então necessário compreender as definições entre espiritualidade e religiosidade que foram trazidas pelos entrevistados, tendo em vista que abarca características notáveis, em que “o primeiro designa atitudes voltadas a objetivos sagrados, busca de significado e transcedência, e o segundo refere-se primariamente a 136 aspectos institucionais como rituais, atividade paroquial e doutrina” (VIEIRA, 2010, p. 24-25). Essa dimensão de espiritualidade nas falas dos idosos traz um sentido existencial da vida em que segundo Novaes (2000, p. 130): A dimensão da espiritualidade integrada a da responsabilidade e da fé desloca os pólos de afirmação e de ambição do homem para novos caminhos, ampliando o seu horizonte temporal e revitalizando o banal da rotina e da mesmice do viver; lembrando por fim, que cabe a todo ser humano o privilégio de construir a sua vida e dar um sentido ao seu destino. Por este lado, os indivíduos buscam a razão do seu ser, como o reconhecimento na fé e na crença, atribuindo-lhes uma finalidade. Seja qual for o mecanismo de amparo religioso, os idosos se envolvem numa caminhada de encontro consigo mesmo, no sentido de buscar respostas. Os idosos, que por um lado enfrentam a vulnerabilidade no processo de hospitalização encontram na espiritualidade, meios de conforto frente à doença, e ao desconhecido. Pois, “a busca da espiritualidade com o avançar da idade é fonte importante de suporte emocional” (HORTA; FERREIRA; ZHAO, 2010). Para Santos (2009, p. 373): Desde que o homem se entende como ser pensante, ele vem usando a espiritualidade para entender o significado da vida e da morte, da sua presença no mundo, para melhorar a saúde e como ferramenta para lidar com (coping) as adversidades e a dor, seja ela física, moral e espiritual. Já Salgueiro e Goldim (2007, p.15) consideram que os indivíduos têm em comum a espiritualidade, mas não significa que esses sujeitos possuem convicção a uma religião, pois se confirma quando “a espiritualidade não implica necessariamente na fé em uma divindade específica”. Portanto, compreender o sentido da vida através da reflexão de seu próprio envelhecimento, considerando o ciclo natural em que os indivíduos passam por declínios fisiológicos, que influenciam na sua qualidade de vida, é pensar também na finitude. 137 Refletindo Situações Limites da Vida Durante a Hospitalização A fim de proporcionar reflexões quanto ao envelhecimento e à finitude, deve-se compreender o significado da existência humana na sua plenitude, pois como já foram mencionados anteriormente, os idosos convivem com crenças e estereótipos imersos de significados negativos que erroneamente, a cultura social impõe. Além disso, outro aspecto importante se desenvolve em virtude das condições adversas que ocorrem durante a vida, e tendem a se intensificar com o decorrer da velhice. Nesta perspectiva, o envelhecer e o estar velho na sociedade implica questões que devem ser repensadas na sociedade brasileira, tendo em vista que possui diversos paradigmas, pois “sobre a nostalgia de algo que é perdido e que aumenta, mesmo no curso na vida, intensificando-se com a chegada do fim” (FIGUEIREDO; SANTOS; TAVARES, 2009, p. 8). Em relação à finitude humana, os idosos hospitalizados referiram anseios diante da fragilidade e vulnerabilidade pelo rompimento de laços familiares e papeis na sociedade que contribui na perda autonomia e da independência. Segundo Forte-Burgo e Curpertino (2009, p. 86): A experiência de eventos relacionados à finitude pode gerar ou agravar estados de ansiedade ou depressão ou pode afetar relacionamentos familiares e sociais, por outro, pode representar boas oportunidades para aprendizado e crescimento pessoal. Visto assim, esta categoria discute fundamentalmente a questão da reflexão realizada pelos idosos durante as entrevistas, que contribuíram na análise de seus significados para si, seus valores construídos, assim como a concepção de uma nova postura diante da vida com o advento da hospitalização. Para tanto, Novaes (2000, p. 126) ressalta que: Reconhecer o valor e o sentido da vida na velhice exige mudanças de atitudes, uma primeira, refere-se à passagem de uma concepção biológica à cultural, tendo em vista transformar a energia, a libido física e biológica em energia cultural, ou seja, é como ter que morrer para se transformar numa pessoa diferente e única, abandonando as máscaras sociais e buscando satisfazer a necessidade da cultura individual independente da coletiva. 138 Logo, torna-se fundamental a importância desta abordagem com o intuito de trazer à tona aspectos relacionados à finitude humana, pois “a civilização ocidental adotou uma cultura de consumo global pautada no lucro imediato, no materialismo e na exploração dos recursos naturais de maneira não sustentável” (SANTOS, 2009, p. 01). Partindo desta premissa, ao refletir sobre sua vida os sujeitos rememoraram aspectos importantes que ficaram marcados através do tempo passado, e por sua vez, permitiu a análise de fatos ocorridos sob outra ótica. Também nesta percepção, trouxeram depoimentos com destaque à apropriação no reconhecimento de si ao mundo, o que possibilitou um redesenhar de novas possibilidades na vida, com um enfoque mais humanizado para sua existência. Como destaca Costa (2010, p. 158), sobre a hemogeneidade do existir e capacidade do homem diante do mundo, “[...] toma para si e a incorpora como doses homeopáticas e necessárias a sua permanência e manutenção ao mundo”. Com isso, a história de vida possibilitou esse contato mais intenso dos sujeitos com seu próprio mundo subjetivo, trazendo significações únicas dentro da trajetória de vida, que permitiu o redimensionamento dos valores individuais no contexto social. É através do “entendimento da dinâmica da vida como um ciclo, em que pese à crítica sobre as cargas ideológicas que carregam essas construções teóricas, permite-nos uma leitura do desenvolvimento humano integrado ao conjunto da sociedade” (PY; PACHECO; OLIVEIRA, 2009, p. 179). Compreendendo sua Própria Finitude diante da Hospitalização Nesta etapa, os idosos conduziram momentos reflexivos durante a entrevista, no que se refere à própria finitude no ambiente hospilar, de acordo com a aproximação da temática com a percepção dos sentidos existencialistas. Assim, com o embasamento dessas concepções enfatizou-se a percepção da finitude através das perdas, que foram muito frequentes na história de vida dos idosos, em que foram destacadas as vivências e as superações. O que se deve compreender neste fato, através dos depoimentos dos idosos hospitalizados, foi que em algumas falas, remeteu-se à ideia da finitude através da conscientização da sua própria inexistência. As narrativas a seguir mostram esse sentido: 139 [...] e agora, vou ser bisa... vó, pena que..., bem acho que não vou contar muita coisa. Mas, se puder chegar a vê-la... é uma menina, mas ainda não nasceu não, nasce em novembro [...] mas daqui pra frente não sei se vou viver muito, se vou viver pouco, mas vamos ver como fica né? (Hebe, 71 anos). [...] eu morei nos Estados Unidos por 17 anos [...] de um tempo pra cá fiquei muito doente [...] e no final eu não aguentei mais... e vim morrer na minha terra (pensativo). Porque a gente começa morrer desde que nasce né? E... eu, não tenho problema quanto a isso, quanto à partida (Buarque, 60 anos). O médico disse para eu tomar os três remédios da pressão, mas que antes da cirurgia não era pra tomar [...] às cinco da manhã eu fui tomar banho né? E... tô eu lá... mandei os três pra dentro. Encontrou com a anestesia fez um auê... abaixou demais. [...] um vizinho de cama disse que eu morri e voltei [...] eu dei trabalho, passei muito mal. [...] Encostei o dedo no céu... (pensativo), e encostei mesmo. ‘Depois eu estava num barquinho em alto mar... a onda batia violenta, e largava um pedaço do barco. Eu dizia: ai meu Deus... vai virar! E se virar vai ficar ruim... aí eu ouvi uma voz: Não Tema! Mesmo se virar... tem uma baleia aí em baixo que vai te engolir e te jogar na praia’, me salvaram! (Niemeyer, 75 anos). Eu vinha pra Niterói [...] eu estava dirigindo, [...] comecei a sentir a falta de ar e a pressão no peito, mas consegui chegar até o pedágio, foi onde eles me prestaram socorro. [...] chegou alguém de moto, era o médico [...] ele disse: deita aí, respira fundo. Pegou o meu pulso, ficou me orientando... espera aí que já vem o socorro. Eu vi isso... as pancadas no meu peito, respira...! Eu comecei a ficar apavorado, apavorado (reflexivo)... minha vontade era de correr com a dor pelo asfalto. [...] quando chegou a ambulância eu já estava... [...] até o momento da maca eu me lembro, quando me jogaram eu já não vi mais nada, desmaiei [...] quando eu acordei já estava na sala vermelha (Gonzaga, 61 anos). Quando estava indo para o hospital... senti muito medo, pensei que eu fosse morrer. Passou um monte de pensamento na minha cabeça, sabe... como um filme, eu pensava muito na minha neta que eu queria ver crescer... eu tenho muito amor por ela [...] quero ver minha neta crescida, com saúde... não posso morrer sem ver isso (Lula, 64 anos). Os sujeitos entrevistados narraram situações individuais vivenciadas em decorrência de eventos estressantes, o que foi percebido como um desafio para a capacidade de enfrentamento desses idosos. A síntese desses depoimentos revela que, para Hebe, a expectativa do nascimento da bisneta é uma realidade próxima de incerteza que repercute em sua vida. Diante dos apontamentos sobre sua finitude, a idosa contextualizou sentimentos de aceitação quanto ao processo inevitável. Para Kübbler-Ross (2008, p. 118) “é como se a dor tivesse esvanecido, a luta tivesse cessado e fosse chegado o momento do repouso derradeiro antes da longa viagem”. 140 Na perspectiva de Buarque, reflete-se que, durante toda sua trajetória de vida este passou por momentos de contemplação de sua finitude, ou seja, vivenciou diversos tipos de perdas. Essa conscientização demonstra o ser humano como “ser vulnerável é que é quebradiço, cuja integridade está constantemente ameaçada por elementos externos e internos” (ROSELLÓ, 2008, p. 58). Ao analisar o discurso de Niemeyer, o mesmo considera que passou por um momento de “quase morte” durante um procedimento cirúrgico. Essa experiência refletiu sobre o encontro com a morte, e a da assitência prestada pela equipe de saúde, que levantou uma questão subjetiva do cuidado que é transcendental, e que pressupõem elementos singulares da finitude humana. A morte então, “[...] é a única certeza absoluta no domínio da vida: evento derradeiro, cujo peso de acontecimento não pode ser negado, mesmo que se lhe negue o valor de aniquilamento” (RODRIGUES, 2006, p. 17). Nas falas de Gonzaga e Lula, destacam-se dois momentos vivenciados por eles que correspondem ao medo de morrer e ao instante em que começaram a passar mal. Pois, a morte representa uma ameaça à vida, e ao deparar-se com ela, os indivíduos desenvolvem incessantes mecanismos defensivos de luta. O que pode ser compreendido com o pensamento a seguir: a iminência da morte, que provoca nos indivíduos reações diferentes diante do processo de adoecer”, muitas das vezes “gera medo e temor nas pessoas, precisamente porque nos coloca em xeque frente à própria existência, porque aniquila nossas subjetividades, nossa existência única, singular (DREHER, 2008, p. 7). Em conformidade às falas anteriores, os idosos descreveram situações vivenciadas no momento em que houve a conscientização da finitude durante eventos adversos, seja por enfrentamento da doença, seja pela hospitalização, ou seja, por vivência de situações extremas da vida, houve algum tipo de dano no seu bem-estar que contribuiu na perspectiva deste enfrentamento na primeira pessoa. Nesta perspectiva, a percepção da finitude é descrita na segunda pessoa, nunca sendo única e exclusiva minha. Alguns autores discutem a ideia da morte do outro como sentimento negligenciado pela sociedade, aliado à nossa incapacidade de incompreensão, nos distanciam do nosso centro, pois “a morte do outro é uma lembrança de nossa própria morte” (ELIAS, 2001, p. 17), tendo em vista que a morte de 141 pessoas próximas nos leva ao entendimento da nossa totalidade existencial (ARRUDA, 2007; RODRIGUES, 2006; LOREIRO, 2008). Sobre a morte dos outros, cabe-nos imaginá-la de forma hostil, tendo em vista o fator desconhecido, ainda não vivenciado. Luper (2010, p. 64) define que a morte para nós é entendida como uma fase comum a qualquer ser vivo que pode ser um processo ou um resultado de um processo quando interrompe o ciclo vital dos seres humanos, assim, complementa “esse processo termina quando se perde completamente a capacidade de preservação por meio dos processos vitais (desfecho da morte), após ultrapassar um ponto em que seu desfecho é inevitável (preâmbulo da morte)”. Diante disso, alguns aspectos sobre a finitude que deve ser considerada num contexto da vida exercem um fator transitório, mesmo que de fato não ocorra à morte propriamente dita, como cita Pisetta (2007, p. 220): Quando um escritor, finalmente, termina seu livro, estamos diante da morte (ainda que parcial) de um processo de criação, de um processo de criação, quanto de nascimento, o da coisa-livro em sua autonomia de ser. Dito assim, essa afirmação do autor nos revela sua posição diante da finitude como um processo continuum, o que foi também revelada na fala de um dos sujeitos pesquisado. Mas essa abordagem da morte na sociedade é negligenciada não só pelo sentido de acabamento do estado físico e biológico como define Rodrigues (2006, p. 20): O vazio da morte é sentido primeiro como vazio interacional. Não atinge somente os próximos, mas a globalidade social em seu princípio mesmo, a imagem impressa sobre uma corporeidade cuja ação – dançar, andar, rir, chorar, falar... – não se faz mais que tornar expressa. A maneira como o indivíduo encara o processo de morte e finitude, e ainda a vulnerabilidade depende de fatores intrínsecos (SCHRAMM, 2002), pois, Borges (2011) afirma que os indivíduos produzem percepções que variam de acordo com a vida de cada um, em que a finitude objetivada no processo de morte biológica é devorada pelo tempo, e a infinitude subjetivada nas possibilidades de produzir eternidades depende de cada imaginário, pautado nos desejos e ilusões. 142 Neste sentido, a necessidade do ser humano busca sentido na compreensão da sua própria finitude, visto que é único e irreversível o que despertaria um senso de responsabilidades nos indivíduos (AQUINO et al, 2010). Tendo em vista que a expectativa de vida aumentou nos últimos anos, tanto no Brasil como no mundo, pode-se considerar que a transformação nas pirâmides etárias ocorreu de forma rápida. Desta forma, o envelhecimento populacional decorrente da redução da taxa de mortalidade em todas as faixas etárias indica mudança no perfil demográfico no país; concomitantemente a essa evidência, ainda temos à acessibilidade aos serviços de saúde preventivos e o avanço na área médica, que se revela com a redução da mortalidade por doenças infectocontagiosas (ALVES JÚNIOR, 2009; VERMELHO; MONTEIRO, 2003; CAMARANO et al, 2005; CASADO; VIANNA; THULER, 2009). Contudo, com o envelhecimento progressivo, nos deparamos com o aumento das doenças crônico-degenerativa nos idosos, como salienta Camarano et al (2005, p. 588): Visões negativas a respeito do aumento da expectativa de vida associam-na a uma extensão do tempo em que os idosos experimentariam distúrbios mentais e doenças crônicas, onerando os serviços de saúde e impondo uma sobrecarga às famílias. Visto assim, com o advento das doenças crônicas durante a trajetória de vida, os idosos vivenciam essa realidade de acordo com as suas representações, o que permite a compreensão quanto ao cuidado e autocuidado, tornando-se fundamentais como estratégias em longo prazo (SILVA, 2009). Contudo, considera-se importante salientar que com o processo do envelhecimento que já consta nas estatísticas, requerem-se medidas que favoreçam o fortalecimento de políticas públicas e programas a fim de proporcionar um envelhecimento saudável e ativo, assim como é destacado no Programa de Saúde “Envelhecimento ativo: uma política de saúde” (BRASIL, 2005) que traz discussões fundamentais que dizem respeito aos direitos, necessidades, preferências dos idosos, como também à perspectiva e experiência de vida de modo que seja considerada a percepção dos indivíduos que envelhecem. Vale ressaltar que os idosos pesquisados revelaram a influência das doenças crônicas em sua vida, destacando que reconhecem uma semelhança entre seu estado de saúde atual e as doenças que levaram à morte de seus familiares. 143 Essa análise pode ser identificada através das falas a seguir que mostram a percepção dos aspectos potenciais para perda da saúde como um mecanismo hereditário: Eu nunca desconfiei em ter uma doença dessas. Mas nunca pensava com essa idade em ter uma doença dessas [...]. Eu apanhei muito na vida, perdi meus pais cedo né? Então... a gente vai se conformando, eu já falei assim: ah meu Deus do céu, a minha irmã morreu de câncer de mama, a minha prima vinha para o Antônio Pedro fazer radioterapia, ela estava com câncer no pulmão, e eu a acompanhei até os últimos dias (Hebe, 71 anos). Mas além disso, acho que esse problema é hereditário... eu acredito nisso... quer dizer, eu abusava muito, comia muita coisa que não deveria comer, que eu gosto, gostava de comer [...] aos 50 e poucos anos que eu me despertei com a gravidade do problema... meus irmão já faleceram 3, de 9... tudo com problema de coração... diabetes, e papai era diabético e mamãe teve angina no coração, eles faleceram disso. [...] mas também com minha vida era fumar, comida, bebida... e meu pai fazia essas teres coisas também [...] tanto meu pai quanto minha mãe (Gonzaga, 61 anos). Eu me lembro que minha vó tinha o mesmo problema que tenho agora, e ela não comia nem nada [...] ela faleceu em casa sem recurso nenhum (Menezes, 62 anos). De forma que as doenças crônicas sejam consideradas como um agravo à saúde, em que os idosos tendem a experimentar essa sobrecarga na própria saúde no que diz respeito ao processo de envelhecimento. A consideração da velhice no que tange ao desenvolvimento das doenças crônicas poderá ser evitada de acordo com a prevenção, e conscientização quanto à qualidade de vida. Pois, segundo Trentini et al (2005, p. 39), “a doença crônica pode representar uma ameaça aos projetos de vida dessas pessoas, principalmente quando se trata de pessoas idosas”. Um estudo realizado por Casado, Vianna e Thuler (2009), dentre os fatores de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) classificados como modificáveis, a alimentação inadequada, sedentarismo, tabagismo e etilismo, diagnóstico médico de hipertensão arterial e diabetes mellitus são os fatores não modificáveis em que se destaca a idade com relação à DCNTs, hereditariedade, raça, sexo. A Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI) (BRASIL, 2006, p. 4) considera que a “saúde da população idosa não se restringe ao controle e à prevenção de 144 agravos de doenças crônicas não-transmissíveis”; entretanto, deve-se ressaltar que o bem-estar na velhice requer um sentido mais amplo no que se refere à autonomia e capacidade funcional adequada. Para Ramos (2003, p. 794): Qualquer pessoa que chegue aos oitenta anos capaz de gerir sua própria vida e determinar quando, onde e como se darão suas as atividades de lazer, convívio social e trabalho (produção em algum nível) certamente será considerada uma pessoa saudável. O que se pode notar em relação às DCNTs é que estas trazem modificações ao índice de mortalidade no Brasil, além do aumento da demanda da assistência à saúde por se tratar de tratamento de longa duração (MALTA et al, 2006). Considera-se, ainda, na abordagem das doenças crônicas, uma importante influência ao estudo com distribuição heterogêneo, pois como revelam Fortes-Burgos e Cupertino (2009), com a velhice os homens experimentam as doenças crônicas de forma diferenciada das mulheres, em que ocorre na primeira instância a vivência de situações mais agudas em relação à saúde sendo, dessa forma, mais estressantes. Deve-se considerar que a qualidade de vida do idoso depende de estratégias que garantam a preservação da capacidade funcional de modo que apresente condições satisfatórias para as atividades instrumentais da vida diária (AIVD), prevenção primária, secundária e terciária da saúde, independência e autonomia, reabilitação e recuperação das atividades funcionais que comprometem a saúde do indivíduo como também o controle e a prevenção de agravos das DCNTs (BRASIL, 2006). No que tange à concepção do envelhecimento para o idoso hospitalizado frente aos mecanismos adversos, a história de vida refletiu nos idosos pesquisados um olhar diante dos limites da vida, em que presenciaram a morte de pessoas que se encontravam internados ao seu lado. Essa foi uma constatação difícil e dolorida para os idosos. Então, percebem-se quando: Eu cheguei aqui em cima, ainda não tinha dormido, as coisas lá em baixo são muito confusas (emergência), eu fiquei internada lá... e fiquei desesperada, era um tumulto... com muita gente... aí uma senhora faleceu perto de mim (pensativa), aí eu falei: poxa vida... e isso foi coisa de cinco a dez minutos, aí eu virei pro lado, mas eu fiquei péssima... me desestabilizei... eu pensei que estava boa naquele meio, que estava boa (pensativa), [...] foi se passando os dias, eu vendo a situação como é que é...eu fiquei com medo de perder 145 minha neta, que ainda está estudando [...]. Eu não tinha sono.. eu não deixava o sono tomar conta, eu ficava sempre alerta (Gal, 65 anos). O depoimento de Gal nos remete a uma experiência difícil no período em que ficou internada na unidade de emergência, que abarca sentimentos de impotência e fragilidade humana. Segundo a idosa, durante o período de internação na emergência, esta permaneceu durante todo o tempo em estado de alerta, sem que conseguisse dormir. Essa tomada de decisão se deu no sentido de preservação humana, na falsa ilusão de que se permanecesse acordada, a morte não lhe chegaria. Assim, a morte é de todos, “tratase de uma situação democrática da natureza humana, onde classe social, importância adquirida, beleza e idade não contam” (LOREIRO, 2008, p. 854). Segundo Silva (2009, p. 30), “a unidade de emergência de um hospital é um local onde a angústia, o medo e as incertezas se potencializam”. Para Elias (2001, p. 17), “a visão de uma pessoa moribunda abala as fantasias defensivas que as pessoas constroem como uma muralha contra a ideia de sua própria morte”. Neste sentido, as experiências de eventos estressantes da finitude trazem reflexões ao bem-estar subjetivo dos idosos, levando em consideração os mecanismos adversos como a morte de pessoas próximas, trazendo consequências relacionadas à capacidade de enfrentamento dos idosos (FORTES-BURGOS; CUPERTINO, 2009). Diante do comprometimento do bem-estar subjetivo referindo-se ao quadro de depressão nos idosos, como afirmam Horta, Ferreira e Zhao (2010), este constitui um quadro desfavorável à saúde individual de difícil diagnóstico, com séria representação no que se refere aos papéis e regras familiares. Tendo em vista que com o processo de internação os idosos tendem a sentimentos mais próximos de sua finitude por desencadeamento de reflexo provocado pela reação emocional de angústia, solidão, dependência e desânimo (SILVA, 2010). Nessas condições, Pestana (2011) refere que alguns fatores relacionados ao processo de hospitalização à clientela idosa, podem trazer peculiaridades adversas representadas pela fragilidade, que favorecem ao declínio funcional e incapacidades. Analisando as Novas Perspectivas diante da Vida 146 Ao analisar a própria vida, que passou diante de seus olhos durante o momento reflexivo com as narrativas da história de vida, os idosos manifestaram grande influência para revalorização dos seus significados, enquanto sujeitos cidadãos dotados de direitos e deveres na sociedade. A avaliação quanto ao significado da existência proporciona aos indivíduos além de uma conscientização dos seus valores, a compreensão dos atributos que lhes confere às suas escolhas. Essa concepção leva-os a crer na sua habilidade e competência de exercer a ação nas suas decisões como ato conclusivo da própria reflexão. Neste entendimento, Dreher (2008, p. 27) enfatiza que a conscientização através do pensamento filosófico de Jaspers identifica que à luz da existência deve-se refletir sob o ponto de vista da clarificação, em que contempla: Direcionar a luz sobre a existência significa despendermos o tempo necessário para transformar nossas vidas em projetos de vida autênticos ao invés de seguirmos vivendo sem de fato termos consciência de nossas ações e pensamentos, no final, de nossa subjetividade, de nossa existência. Sendo assim, o pensamento de Jaspers analisa que o objeto a ser analisado seria uma aproximação e a compreensão do fato vivenciado a partir da conscientização. A reflexão da significação da vida dos idosos pesquisados obteve relevância desde o momento em houve uma inteiração com seu passado, sendo refletido durante o presente e direcionado ao futuro. Em decorrência disso, os idosos pesquisados realizaram um acerto na vida. Analisaram a perspectiva de uma nova postura que se reflete na sua existência. As narrativas, a seguir, revelam essa postura diante da reflexão da vida: Eu espero é sair daqui com saúde, com ‘melhoramento’ [...], bagunça mais... não posso fazer mais. Por que a nossa idade está chegando... a gente via cansando um pouco, tudo que a gente fazia antigamente não pode fazer agora. Agora daqui pra frente é... posso ir à igreja? Eu vou... posso cantar um hino? Posso... mas sempre adequadamente no nosso poder (Gil, 65 anos). Acho que tudo é a consciência sabe, foi assim que eu parei de fumar e de beber. Quando estava prejudicando minha saúde, eu parei [...] e agora é a mesma coisa, ele (se referindo ao médico) disse que não posso fazer não vou fazer. Vou ter esses cuidados porque eu quero viver mais, quero voltar cuidar dos meus passarinhos, que devem estar sentindo minha falta... quero fazer as coisas que gosto de fazer (Lula, 64 anos). 147 Durante 12 anos ela me tratou como um príncipe, eu não tinha um machucado na perna, e agora vou ter que amputar a perna... eu fiquei sozinho em casa, entrei numa ‘depression’ meio perigosa [...] então é muito ruim ficar sem ela, mas a vida continua. Agora estou refazendo meus pensamentos... estou refazendo minhas idéias [...] vou sentar na minha cadeira, eu vou ter uma cadeira apropriada para amputado [...] a primeira coisa que quero fazer quando chegar em casa é compra um fogão, colocar uma bancada... e fazer uma curso de culinária. Eu to a fim de fazer, pra mim mesmo... eu quero fazer aquilo que gosto de comer (Buarque, 60 anos). A partir dessas narrativas, pode-se depreender que o significado fundamental que foi realizado com a reflexão se refere ao entendimento da retomada da vida em relação às suas possibilidades. Assim, os idosos revelaram o interesse em novas descobertas de aprendizagem, novas perspectivas na vida com um foco que busca o prazer e a oportunidade de satisfação pessoal. Como reflete Novaes (2000), a postura adquirida durante a trajetória de vida remete aos valores adquiridos com o envelhecimento, e assim a maturidade; neste processo é fundamental a redescoberta de novas possibilidades de agir e produzir a fim de produzir novas áreas de interesse, entretanto, fazer o equilíbrio das conquistas e satisfações proporciona aos idosos estabelecer novas metas e planejamentos futuros. Neste contexto, os mecanismos que levam ao envelhecimento bem-sucedido com qualidade de vida os quais visam à integração “da manutenção da autonomia, sobre a possibilidade de o indivíduo seguir o curso de sua vida, mantendo a concepção de sua identidade e de sua capacidade de interagir no mundo [...]” (TORELLI, 2010, p. 79). Além destas, outras narrativas tiveram destaque durante as entrevistas com os idosos, que concedeu uma descoberta de outros aspectos considerados importantes durante a reflexão. Assim, ilustram os depoimentos: Primeiro eu tenho que pensar agora o que eu posso e o que eu não posso... porque eu acredito que seja mais uma oportunidade da vida... pra ter qualidade daqui pra frente [...] quando eu sair daqui quero sair com uma qualidade, com o comportamento totalmente diferente [...] quero mais uma qualidade daqui pra frente, viver mais um pouco... eu acho que se eu continuar, não vou muito longe não (Gonzaga, 61 anos). Eu cheguei ao hospital quase morto [...] os médicos me atenderam rápido... me deram até choque [...]. Mas agora com esse susto que eu tomei, vou cuidar mais da minha saúde, acho que tudo é questão de consciência [...] porque quero viver mais (Lula, 64 anos). 148 O problema maior que eu tive foi a perda do meu filho [...] Deus me levou ele mas me deu um bisneto, para eu me conformar. Então agora eu tenho colocar na minha cabeça que eu tenho pensar nele (neto) porque não adianta eu pensar mais nele (filho) porque não vai adiantar (Cora, 63 anos). E eu tenho fé que eu vou sair daqui boa, eu acredito nisso.... eu estava pensando que eu precisava fazer muita coisa com Deus que eu não estava conseguindo... eu estava precisando resgatar coisas comigo mesma... tem coisas que a gente espera, e espera... e agora nesta situação eu consegui prestar atenção nisto... nesta coisa entre eu mesma... com Deus [...] para eu ter uma vida correta daqui pra frente... quando eu sair do hospital vou firmar minha aliança com ‘Ele’ (Deus) (Gal, 65 anos). Agora para frente vou mudar minha vida... e é isso que é importante para mim [...] vou me dedicar mais à igreja... mais a Jesus [...] vou fazer mais visitas em hospitais... vou me dedicar mais.... no ser humano... mais no próximo, mais no cuidado. Eu quero fazer visitas a pessoas doentes, porque as pessoas são de casa pro trabalho, ou do trabalho pra casa, não tem tempo de ir à igreja, e às vezes fazer essas coisas (Betânia, 60 anos). Durante suas falas, os idosos perceberam a importância do encontro consigo que permitiu uma autoavaliação dos seus conceitos, o que lhes determinou algumas posturas diante da vida. Neste sentido, torna-se necessário que essa reflexão ocorra dentro das suas perspectivas e potencialidades, de modo que facilite a adapatação e engajamento à novas atitudes. O que foram avaliados pelos idosos durante o momento de reflexão ao narrar a história de vida, trouxeram atitudes como um leque de possibilidades importantes para a construção de novos comportamentos, os quais produzem efeitos nas suas ações. Assim, como pode ser visto por Novaes (2000, p. 21-22) determina como 9 ‘Rs’ as posturas diante das oportunidades, que compreende: Resgate dos valores e modos de viver que não puderam ser então assumidos; rupturas com situações e rotinas de vida que tiveram que ser suportadas, por forças das circunstâncias e faltas de alternativas; retomada de planos, programas de vida e atividades que precisam ser completados e desdobrados; ressurgimentos de dimensões pessoais como a mística, artistica, laborativa que ficaram abafadas por um cotidiano difícil e exigente; restauração de desejos e necessidades que não puderam ser satisfeitos, devido à frustração e obstáculos, tanto externo quanto internos, lembrando aqui que ‘o homem tem a idade de seus desejos’; retorno de emoções e sentimentos, intensificando sensibilidade e afetividade, estabelecendo vínculos e relações interpessoais; recaída constante em estados de depressão e de vazio, ligados à sensação de inutilidade, insegurança e fracasso; recordação permanente de lembranças passadas, como única maneira de manter-se vivo, sem tentar a ponte do significado entre o passado, presente e futuro; reconstrução da identidade 149 pessoal e social com base em novos interesses e motivações, descobrindo criativamente outras facetas do viver e modalidades de prazer. Neste entendimento, a compreensão dos princípios e valores existenciais traz à tona a retomada da sensibilidade em perceber o que foi adquirido com trajetória de vida, e assim, a essência do que é importante para si. Sabendo-se da importância que as escolhas pessoais tomam sentido para as transformações individuais, os idosos conquistam um espaço flexível entre as alegrias, as conquistas, os desejos e, o bemestar. Como podem ser analisadas, as transformações individuais que os idosos passam em conformidade aos novos objetivos de vida dependerão, segundo Novaes (2000, p. 126), “ [...] do balanço dos valores assumidos, dos contrários e dos verdadeiros”. Ainda para a autora, analisa que é fundamental para as pessoas a conscientização da sua velhice antecipada, para que os indivíduos se preparem psicologicamente. É notório pensar nesta afirmativa como: Faz muita diferença considerar a velhice como a última etapa antes da morte e que se anuncia através de muitos sinais ou como a memória viva e preciosa de uma experiência acumulada, um laço indispensável que liga o passado ao futuro e mantém as tradições culturais e sociais (NOVAES, 2000, p. 127). Em relação à posição da autora quanto a “velhice como última etapa antes da morte”, esta se refere ao processo de final da existência do funcionamento biológico do organismo, como bem a cultura brasileira destaca como ‘morte natural’ (RODRIGUES, 2006). Tendo em vista que a morte é um processo natural comum a todos os seres vivos sem distinção de idade, esta é uma “situação democrática da natureza humana, onde classe social, importância adquirida, beleza e idade não contam” (LOUREIRO, 2008, p. 854). No sentido de novas perspectivas diante da vida, inclui-se a fala de (Cora, 63 anos) para a qual “Deus me levou ele, mas me deu um bisneto para eu me conformar”, e da qual analisa-se a ideia de que houve um mecanismo compensatório frente às situações adversas da perda do filho. 150 De acordo com Neri (2007, p. 47), “outra providência relevante seria a educação continuada na vida adulta e na velhice, incluindo oportunidades para treinamento compensatório”. Tendo em vista que a morte revelou o mecanismo adverso mais presente no estudo e temível na sociedade, pressupõe-se que os idosos adquirem mecanismos de compensação frente às perdas com os ganhos, de maneira que dependerá além da percepção e autoavaliação de si, a autoeficácia; e isso, proporciona o envelhecimento bem-sucedido (BALTES; BALTES, 1990; NOVAES, 2000; NERI, 2007). Segundo Khoury e Günther (2006), os mecanismos adaptativos ao meio ambiente que os indivíduos desenvolvem, engloba o controle primário (CP) que pode se dividir em seletivo, em que os indivíduos desenvolvem por si só sem depender de ajuda externa, como o compensatório, em que os indivíduos necessitam de ajuda externa como auxílio, além da utilização da tecnologia; como o controle secundário (CS), que advém de estruturas compensatórias em si, que os indivíduos adquirem esforços para a adaptação ao ambiente na vigência de perda ou falha, ou onde as metas não foram alcançadas. Em vista disso, ao se analisar a reflexão que os idosos realizaram durante as entrevistas, foi perceptível a identificação na fé e o amparo na religiosidade. Para tanto, a dimensão da fé caracteriza-se como sendo “atitude religiosa do verdadeiro crente que se liga a Deus por um ato voluntário, a partir de uma testemunha de origem sobrenatural” (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2008, p. 104). Trentini et al (2005, p. 42) a definem como “[...] um modo de pensar construtivo. É um sentimento de confiança de que acontecerá o que se deseja”. Isso mostra que a crença na espiritualidade revela um sentido significativo, que perpassa ao conhecimento científico e adquire um sentido na sua existência. Para Novaes (2000, p. 130): A dimensão da espiritualidade integrada a da responsabilidade e a fé desloca os pólos de afirmação e de ambição do homem para novos caminhos, ampliando o seu horizonte temporal e revitalizando o banal da rotina e da mesmice do viver; lembrando, por fim, que cabe a todo o ser humano o privilégio de construir sua vida e dar um sentido ao seu destino. 151 Diante dos discursos propostos pelos sujeitos pesquisados de acordo com o sentido existencial na fé, torna-se relevante a diferenciação dos sentidos da espiritualidade e religiosidade como: A espiritualidade pode ser considerada uma energia do corpo físicoespiritual, que move o indivíduo na direção dos desejos, para o atendimento das necessidades, para viver, para amar, para morrer e etc. Já a religiosidade, trata-se de uma opção por uma doutrina em que a pessoa demonstre com atos e atitudes, a sua conduta espiritual (CORTEZ, 2009, p. 26-27). Neste sentido, observa-se que os idosos enfatizam a importância na crença espiritual na importância para o enfrentamento de situações adversas, assim como na fé para a recuperação da saúde. Resgata valores adquiridos na religiosidade como amparo psicológico na superação quantos aos enfrentamentos intrínsecos decorrentes da situação de hospitalização. É essa visão, quanto aos enfrentamentos, que os indivíduos tendem a diminuir a tensão emocional e o controle da situação, com a resolução do problema e controle do estresse emocional (LIBERATO; MACIEIRA, 2008, p. 418). Ainda se tratando desta perspectiva, o mecanismo de reavaliação da vida aparece, como Kubler-Ross identifica como estágio de barganha. Alguma espécie de acordo realizada pelo sujeito nesta fase implica numa “[...] tentativa de adiantamento; tem de incluir um prêmio oferecido ‘por bom comportamento’, estabelece também uma ‘meta’ auto-imposta” (KUBLER-ROSS, 2008, p. 89). Para Carssola (2009, p. 72): [...] o paciente aceita a realidade, mas tenta efetuar barganhas, “acordos”, que lhe possibilite manter uma visão não totalmente realista dos fatos, ou negocia para poder aproveitar melhor o tempo que lhe resta. É a fase de promessas efetuadas com Deus ou outros entes sobrenaturais, de mudanças de vida, de desejos de adiantamento da morte até que determinados fatos ocorram. Para tanto, saber reconhecer precisamente a vulnerabilidade humana em sentido amplo, incluindo as peculiaridades comuns no cuidado ao idoso hospitalizado, exige uma abordagem pluridiciplinar. 152 Haja vista que “cuidar de um ser humano é cuidar também de seu entorno natural” (ROSELLÓ, 2009, p. 97). Neste sentido, a base teórica do cuidado em saúde se conceitua em diversos traços, que traz “o cuidar” na essência dos indivíduos. Portanto, estabeler uma meta de cuidados focado no indivíduo vulnerável, enfermo, é aproximar-se de sua realidade à partir de um ideal, que enfatiza a dignidade humana (ROSELLÓ, 2009). Pode-se dizer então, que o aspecto que envolve o cuidar aos indivíduos, constitui um atributo intrínseco ao desenvolvimento do ser, em que este se relaciona com valores embutidos nos profissionais da saúde, já que o cuidado se caracteriza, para a enfermagem, como genuíno e peculiar (WALDOW, 2010). Assim sendo, a ação do cuidar de acordo com a relação enfermeiro-sujeito na perspectiva da enfermagem gerontológica, cujos princípios se fundamentam em ver, assistir de maneira integral e holística, e agir na atividade subjetiva do cuidado, configura-se em conhecer, vivenciar e compartilhar sentimentos (BRUM; TOCANTINS; SILVA, 2005; SILVA, 2009; WALDOW, 2010). Torna-se urgente então, que os profissionais da saúde desenvolvam um olhar sensível aos idosos hospitalizados na sua integralidade, valorizando suas individualidades e subjetividades como propostas de abordagens mais precisas na realidade do cuidar, em que valores, crenças, princípios espirituais entram em cena. Assim, a humanização da assistência de enfermagem empreende esforços que buscam o resgate da essência do cuidado como parte do ser, permeado na sensibilização dos profissionais quanto às ações do cuidar; pois, algumas vezes, o cuidado empregado na prática se moldura à normatização e rotinas da instituição que visam interesses capitalistas. Aliado a essa questão, nos confrontamos com o facinante mundo da tecnologia da assistência em saúde, que nos condiciona a uma mecanização do cuidado prestado aos indivíduos que possuem significados subjetivos. A questão é saber reconhecer as fragilidades quanto ao saber/fazer da enfermagem, com necessidades particulares que buscam conhecimento no seu processo de desenvolvimento, os quais, por sua vez, são essenciais para o cuidado interdisciplinar. 153 CONSIDERAÇÕES FINAIS Algumas reflexões sobre a finitude humana produzem significações decisivas em relação ao processo de envelhecimento. Pois, ao longo da vida, os idosos experimentam situações adversas que são significativas no seu contexto individual, social, familiar, na qual ocorrem projeções para sua própria inexistência. Por isso, a compreensão do envelhecimento e finitude trazem uma representação importante para análise dos anseios dos idosos, uma vez que estes se encontram hospitalizados. E ainda, tornam-se fragilizados pelo processo saúde/doença como também isolamento social, e de laços familiares. Dessa forma, trazer à tona essas perspectivas do envelhecimento e finitude dos idosos hospitalizados, permitiu a análise da história de vida em que possibilitou reflexão quanto o sentido da sua existência, tendo em vista que as representações das perdas são comuns aos idosos, e remetem-se no momento da hospitalização por decorrência da fragilidade e vulnerabilidade. E ainda, a percepção das transformações individuais configurou-se na importância quanto ao balanço das perdas e ganhos, que os idosos conseguiram concluir que mesmo nas situações difíceis, a vida vale muito à pena. Pois, na tentativa de re-escrever sua própria velhice, os idosos valorizam as oportunidades positivas diante das perdas que ocorrem no caminhar da vida, além dos múltiplos significados da velhice que a sociedade contextualiza. O envelhecimento é um processo constituído num fluir em direção ao tempo, em que se recria constantemente o comportamento diante do que foi valorizado na trajetória de vida. Contudo, neste interim, pode haver ruptura do reconhecimento dos valores adquiridos por fatores ambientais, culturais e sociais. 154 É importante conhecer o significado da velhice para os idosos, haja vista que os indivíduos ao longo do desenvolvimento humano passam por desafios, que podem ser analisados com grande satisfação, como também, com grande hostilidade. Analisar o sigificado da vida na velhice de forma positiva é refletir também quanto ao significado da finitude com serenidade, que permite o despertar quanto ao seu significado no mundo. Considero relevante mencionar que a percepção do envelhecimento e finitude humana trazem representações sociais, em que os idosos se inserem. Pois partimos do pressuposto que tais representações, produzem sentimentos negativos ou positivos de acordo com suas vivências e percepções de mundo. E ainda, observa-se que a sociedade atual sugere um modelo de segregação dos moribundos que atualmente está centrada no ambiente hospitalar. Torna-se viável a percepção dos sentimentos sobre o envelhecimento e finitude para o idoso hospitalizado, em que se destacam por suas variações de sentido, em conformidade com o que é experimentado ao longo da vida. Assim, a compreensão dos seus sentidos no contexto histórico servirá como atitudes posturais diante das suas vivências, no sentido de desmistificar as representações negativas impostas pela sociedade contemporânea, em que o idoso se insere. Destaca-se que ainda existem lacunas, no que se refere ao despreparo da sociedade moderna em conviver com a finitude e envelhecimento. Partindo da premissa de que a morte e o morrer fazem parte do fenômeno natural da vida, essa realidade nos coloca distante do imaginário da nossa própria finitude. Pois se configura como um sentimento natural do comportamento humano, e traduz-se numa resposta ao mecanismo de defesa presente no instinto natural de acordo com as culturas, crenças e valores individuais. Quanto à análise do envelhecer, observa-se que alguns idosos encaram essa realidade de maneira positiva, com consciência e tranquilidade para um envelhecimento saudável e satisfatório, contribuindo na qualidade de vida; como também, outros enfrentam de forma hostil e negativa. Quando a velhice é percebida desta forma, o idoso tende a associar a doença, incapacidade, dependência, privando-se de viver. Já em vista da compreensão da finitude, percebe-se que durante a hospitalização, os idosos tornam-se fragilizados tanto por ocasião dos medos e receios causados pela doença, quanto pela fragilidade psicológica, individual e social. Deste modo, a 155 percepção do envelhecimento e finitude dessa clientela hospitalizada nos permitem a minimização dos seus anseios, principalmente neste tempo contemporâneo, na qual se observa a banalização da vida humana. Nesta proposta de estudo, analisou-se a representação do envelhecimento e finitude, como as implicações para o cuidado de enfermagem na perspectiva gerontológica, uma vez que ainda é um campo pouco explorado com lacunas no conhecimento científico. Com a repercussão do envelhecimento na sociedade brasileira, torna-se notório o impacto nos setores públicos principalmente em se tratando da saúde, que produz uma demanda excessiva a tal tipo de serviço, pelo aumento do número das doenças crônicodegenerativas, além taxa de ocupação e duração dos leitos hospitalares. Com isso, os idosos pesquisados revelaram a importância da saúde pública no contexto de prestação de serviços médico-hospitalares, em que essa população idosa usuária torna-se cada vez mais dependente. No entanto, essa preocupação com o sistema saúde reflete não somente ansiedade nos idosos visto que estes se encontram vulneráveis aos mecanismos adversos diante do adoecimento, mas também surge a inquietação quanto ao atendimento prestado pela instituição hospitalar no que tange aos cuidados de saúde. O modelo curativista representado pelo hospital está pautado nas representações tecnicistas em que disponibiliza recursos cada vez mais sofisticados a fim de proporcionar resolutividade ao tratamento terapêutico. Nesse sentido, a equipe de enfermagem deve estar preparada para novas possibilidades de conhecimento, de modo a compreender o processo de envelhecimento e finitude para uma interação com este sujeito que vivencia experiências de perdas ao longo da vida, contribuindo, assim, para a qualidade de vida desses idosos. Pois os cuidados voltados à clientela idosa devem ser integrais e individuais, de forma que permita a participação do idoso na tomada de decisão, facilitando sua autonomia e independência. Ressaltando a necessidade quanto à reflexão do comportamento profissional da equipe de enfermagem gerontológica diante de aspectos da vulnerabilidade humana, no que se refere aos idosos hospitalizados, destaca-se o olhar humanizado que atenda as peculiaridades dessa clientela, de forma integral e interpessoal. 156 Pois os idosos hospitalizados são membros dotados de uma história de uma vida, que quando entendida gera uma zona de liberdade na qual seus sentimentos e desejos são valorizados. Deve-se então dar voz a esses sujeitos, saber interpretar suas emoções, seu imaginário, seja através da escuta sensível e dos cuidados subjetivos dessa clientela. Frente a isso, a equipe de enfermagem deve estar preparada para o cuidado integral ao indivíduo idoso compreendendo suas individualidades, valorizando sua história de vida. Isso traz novas oportunidades de aproximação quanto à subjetividade do ser humano no que se refere ao envelhecimento e finitude, permitindo a análise para ambos idoso/profissional, quanto à valorização do significado da vida. Os resultados desta pesquisa alcançam os objetivos propostos de maneira compreensiva e coerente, sob a ótica empírica e científica, que contribui na relevância para as necessidades do ensino, da pesquisa, e para o meio profissional da saúde que corrobore para a qualidade de vida da população idosa hospitalizada. As limitações do estudo versam sobre o fato de que a temática possui fragilidades quanto a sua compreensão, ainda mais em se tratando das representações que a sociedade impõe aos indivíduos, já que negam sua alteridade e o distanciam da essência de si. A necessidade de dar voz aos sujeitos hospitalizados concedeu uma reflexão quanto aos seus significados existenciais. O que representou uma abordagem terapêutica quanto ao cuidado humanizado e sensível, dotado de subjetividades. Pois, durante o relato das histórias de uma vida, os idosos, no entanto, demonstraram atitudes comportamentais diferenciadas antes e apos a entrevista. No entanto, eles se apresentavam tímidos, retraídos, com certo receio de narrar alguns fatos de suas vidas, no começo da entrevista. E assim que terminavam suas narrativas, sentiam-se mais descontraídos e falantes. Destaca-se uma entrevista em especial, um dos idosos entrevistado encontrava-se num canto da enfermaria sozinho, ouvindo música em seu rádio de pilhas, cabisbaixo e com um olhar triste. Ao término da entrevista se apresentava disposto, falante, conversando com os outros companheiros de enfermaria, e me agradecendo por estar ali naquele momento ouvindo-o. Neste sentido, a pode-se dizer que a história de vida é libertadora, e possibilita uma reflexão apurada dos seus verdadeiros valores, conceitos e expectativas. Logo, o estudo possibilita o surgimento de novas abordagens sobre as questões existenciais ao idoso hospitalizado quanto à metodologia empregada, de acordo com o 157 objeto de estudo. Pois a perspectiva do envelhecimento e finitude possuem significações que variam de indivíduo para outro, de acordo com o que é experimentado. Então, o despertar da consciência da temática pesquisada possibilita o resgate dos valores individuais, espirituais, culturais, com o objetivo de proporcionar uma vida plena, repleta de significados, pois, como revela Edgar Morin (1970, p. 272): “É impossível conhecer o homem sem lhe estudar a morte, porque, talvez mais do que na vida, é na morte que o homem se revela. É nas suas atitudes e crenças perante a morte que o homem exprime o que a vida tem de mais fundamental”. 158 REFERÊNCIAS AGRA do Ó, A. 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Pesquisador Responsável: Profª Drª Fátima Helena do Espírito Santo; Pesquisadora Colaboradora: Bárbara da Silva e Silva Cunha. Instituição a que pertence o Pesquisador Responsável: Universidade Federal Fluminense. Telefones para contato: (21) 2629-9477; (21) 9807-7109; (21)75702176. Nome do voluntário: _____________________________________________________ Idade:___________________anos. R.G.:______________________________________ Responsável legal (quando for o caso):_____________________R.G.:_____________ . O (A) Sr. (a) está sendo convidado(a) a participar do projeto de pesquisa “Envelhecimento e Finitude na perspectiva de Idosos Hospitalizados: Contribuições para o Cuidado de Enfermagem”, desenvolvido sob a responsabilidade do pesquisador Fátima Helena do Espírito Santo e sua orientanda e Bárbara da Silva e Silva Cunha. Esta pesquisa tem como objetivos: Descrever a trajetória de vida do idoso; Identificar a perspectiva de envelhecimento e finitude na trajetória de vida do idoso hospitalizado; Discutir as implicações dessas perspectivas para o cuidado de enfermagem ao idoso hospitalizado. Participando desta pesquisa, o (a) Senhor (a) estará contribuindo para a ampliação dos conhecimentos em relação a concepção da finitude e o envelhecimento para o idoso hospitalizado e as implicações do cuidado de enfermagem ao idoso hospitalizado. A pesquisa será realizada através de uma entrevista aberta com (01) uma pergunta central, e (02) duas perguntas periféricas. A presente pesquisa não oferece riscos ou danos físicos, econômicos ou sociais. Na vigência de qualquer ocorrência de risco, comprometo-me na interrupção da pesquisa, como também a busca do apoio ao serviço de psicologia da instituição. Caso o (a) Sr.(a) tenha qualquer dúvida relacionada a pesquisa, poderá entrar em contato com o pesquisador, por telefone ou pessoalmente. O pesquisador garante o acesso às informações atualizadas durante todo o estudo. Sua participação é voluntária, de maneira que está livre para retirar este consentimento e deixar de participar do estudo a qualquer momento, sem nenhum prejuízo. As informações relacionadas à sua identidade serão preservadas em caráter confidencial. Ao final do estudo, as informações poderão ser divulgadas em textos, periódicos ou eventos científicos da área de saúde. 176 Eu, _________________________________________, RG nº _______________ declaro ter sido informado e concordo em participar, como voluntário, do projeto de pesquisa acima descrito. Niterói, RJ, _____ de ____________ de _______. ______________________________ Nome e assinatura do voluntário ou seu responsável legal. _______________________________. Nome e assinatura do responsável por obter o consentimento. ______________________________ Testemunha _______________________________. Testemunha 177 APÊNDICE B ENVELHECIMENTO E FINITUDE NA PERSPECTIVA DE IDOSOS HOSPITALIZADOS: CONTRIBUIÇOES PARA O CUIDADO DE ENFERMAGEM QUESTÕES NORTEADORAS DA ENTREVISTA ABERTA Data: Início: Término: Sexo: Estado Civil: Nome: Idade: Endereço: Estado Civil: Número de Filhos: Mora com Quem: Profissão/Ocupação: Pratica atividades de lazer: ( ) Sim ( ) Não ________________________________ Religião: _________________________Pratica atividades religiosas: ( ) Sim ( ) Não Questões: Ao falar da história de vida (explicado aos idosos todo processo da pesquisa e seus objetivos). 1) Fale sobre sua trajetória de vida... • Como é ter para o senhor (a) ____ anos... • Conte-me como foram as experiências com as perdas dos entes queridos OBSERVAÇÕES: Impressões do Pesquisador: 178 ANEXO A CARTA DE APROVAÇÃO DO COMITE DE ÉTICA EM PESQUISA