O SABER LOCAL E O USO DA ETNOBOTÂNICA NA COMUNIDADE SANTA CATARINA, REGIÃO DO BAIXO MADEIRA PORTO VELHO. Roberto Ataíde Batalha de Araujo2 Isaias Ferreira da Silva2 Renato Pereira Maia2 Nelice Milena Batistelli Serbino3 Marlene Guimarães Santos4 RESUMO As plantas medicinais vêm sendo utilizadas e pesquisadas ao longo dos anos com os mais diversos fins. Na maioria das pesquisas realizadas sobre o assunto, o conhecimento explorado tem sido limitado aos aspectos botânicos e farmacológicos, desconhecendo-se os saberes tradicionalmente encontrados nos agentes populares que manuseiam este material. Este trabalho tem como objetivo resgatar este conhecimento em relação à medicina popular contextualizando-o no atual estágio sócio-econômico-cultural brasileiro procurando verificar o nível de informação detido pela população ribeirinha da comunidade de Santa Catarina (baixo madeira) em relação às ervas medicinais, tenta evidenciar também, o desgaste da medicina popular em função da massificação cultural a partir da manipulação de produtos farmacêuticos, da doutrinação de que a saúde é algo comprável e a perseguição histórica que tem sofrido a medicina popular pela medicina oficial. A metodologia usada consta da aplicação de questionários, entrevistas e confecção de exsicatas para identificação botânica das plantas utilizadas pela comunidade como fontes de cura. Entre as ervas utilizadas pela comunidade ribeirinha de Santa Catarina, encontram-se trina e quatro espécies, como a Erva cidreira, Alfavaca, Crajirú, Mangarataia, Hortelã, Boldo, Japana Roxa e etc. O uso de plantas faz-se em vários níveis, podendo ser preparadas para fins de produção industrial e até mesmo o uso em questão, que trata de um conhecimento empíricos tradicionais desenvolvidos pelas parteiras e outras pessoas afastadas da área científica. PALAVRAS-CHAVE: etnobotânica, plantas, farmacêuticas, populações ________________________________ 1 Artigo Cientifico apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso. 2 Roberto Ataíde Batalha de Araujo; Isaias Ferreira da Silva; Renato Pereira Maia. Acadêmicos do curso de Ciências Biológicas da UNIRON. 6º período, 2009. [email protected]; [email protected]; [email protected] 3 Nelice Milena Batistelli Serbino. Coordenadora do departamento de Biologia - da UNIRON – Faculdade Interamericana de Porto Velho. [email protected] 4 Professora Mestra e Orientadora Marlene Guimarães Santos da Disciplina de TCC do curso de Ciências Biológicas da UNIRON – Faculdade Interamericana de Porto Velho. [email protected] 1 THE LOCAL KNOWLEDGE AND USE OF THE COMMUNITY ETHNOBOTANY SANTA CATARINA, REGION OF LOW WOOD PORTO VELHO. ABSTRACT Medicinal plants are used and researched over the years with very different purposes. Most of the research on the subject, explored the knowledge has been limited to the botanical and pharmacological aspects, by ignoring the knowledge traditionally found in popular agents who handle this material. This paper aims to recover this knowledge in relation to folk medicine contextualizing it in current socio-economic-cultural Brazilian trying to verify the level of information held by a rivulet community of Santa Catarina (low wood) for medicinal herbs, also tries to show the wear of folk medicine as a function of mass culture as the handling of pharmaceutical products, the indoctrination that health is purchasable and the historical persecution that has been popular for medicine official medicine. The methodology consists of questionnaires, interviews and preparation of herbarium specimens for botanical identification of plants used by the community as sources of healing. Among the herbs used by the riverside community of Santa Catarina, are threefold and four species, such as lemon grass, basil, crajiru, mangarataia, Peppermint, Boldo, Japana Purple and so on. The useof plants is done at various levels and can he be prepared for industrial production and even the use in question, which is na empirical knowledge developed by traditional midwives and other people away from science. KEYWORDS: ethnobotany, plants, pharmaceutical, populations ________________________________ 1 Artigo Cientifico apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso. 2 Roberto Ataíde Batalha de Araujo; Isaias Ferreira da Silva; Renato Pereira Maia . Acadêmicos do curso de Ciências Biológicas da UNIRON. 6º período, 2009. [email protected]; [email protected]; [email protected] 3 Nelice Milena Batistelli Serbino. Coordenadora do departamento de Biologia - da UNIRON – Faculdade Interamericana de Porto Velho. [email protected] 4 Professora Mestra e Orientadora Marlene Guimarães Santos da Disciplina de TCC do curso de Ciências Biológicas da UNIRON – Faculdade Interamericana de Porto Velho. [email protected] 2 INTRODUÇÃO Etnobotânica é a ciência ligada à Botânica e à antropologia, que estuda as interações entre pessoas e plantas em sistemas dinâmicos. Também consiste no estudo das aplicações e dos usos tradicionais dos vegetais pelo homem. É uma ciência multidisciplinar que envolve botânicos, antropólogos, farmacólogos, médicos e engenheiros. (Alcorn 1995) A biodiversidade do Brasil, o conhecimento etnobotânico e farmacológico da população brasileira são vantagens importantes no processo de desenvolvimento de programas e projetos de pesquisa de plantas medicinais, que devem ser fortalecidos com maior apoio à pesquisa e conhecimento para viabilizar uma indústria forte e adequada de produtos naturais, que não esteja em detrimento dos recursos utilizados e potenciais, como agente de desenvolvimento econômico e social, que alcance um equilíbrio com o ambiente. (Silva et al., 2001). Segundo Albuquerque (1997), a etnobotânica é basicamente entendida como a disciplina científica que se ocupa da inter-relação entre plantas e populações humanas e vem ganhando prestígio cada vez mais pelas suas implicações ideológicas, biológicas, ecológicas e filosóficas. A prática etnobotânica, relativamente complexa, marcada por diferentes enfoques parte exatamente do encontro entre eixos disciplinares. Isso quer dizer que a pesquisa etnobotânica, centrada na dualidade seres humanos / plantas, recai justamente no ponto onde esses dois elementos convergem (Albuquerque, 1997). Além disso, a abordagem ao estudo de plantas medicinais a partir de seu emprego por sociedades autóctones, de tradição oral, pode, pois, dar muitas informações úteis para a elaboração de estudos farmacológicos, fotoquímicos e agronômicos sobre estas plantas, com uma grande economia de tempo e dinheiro. Ela permite planejar a pesquisa a partir de um conhecimento empírico já existente, e muitas 3 vezes consagrado pelo uso contínuo, que deverá então ser testado em bases científica (Amorozo, 1996). A CULTURA RIBEIRINHA NO BAIXO MADEIRA Assim como outras culturas tradicionais, a cultura ribeirinha mantém sua expressão mais ligada a conservação dos valores decorrentes de sua história, mergulhada num ambiente onde predomina a transmissão oralizada. Ela reflete de forma predominante à relação do homem com a natureza e se expressa imersa numa atmosfera em que o imaginário privilegia o sentido estético dessa realidade cultural (Loureiro, 1995 apud Lancarovichit & Silva, 2004). A cultura de populações ribeirinhas é repleta de traços originais, produto da acumulação de experiências sócias e da criatividade dos seus habitantes. O homem da Amazônia, o caboclo, não se encontra totalmente integrado a sociedade de consumo, suprindo parte de suas necessidades pela abundância dos rios e da floresta, como o uso das plantas medicinais para a cura de suas doenças. Os ribeirinhos são possuidores de seu próprio folclore, e suas próprias manifestações culturais, com tradições e crenças, visões de mundo representadas por uma época ou região. A cultura de um povo é fonte inesgotável de inspiração, é a preservação da memória coletiva de um grupo, que não cai no esquecimento graças ao manifesto da oralidade de suas gerações, onde o homem acaba promovendo a conversão da realidade em signos, através de situações do dia-dia e da pura amizade com a natureza. (Lancarovichit & Silva, 2004). BAIXO MADEIRA SANTA CATARINA Localizada a 158 km da capital Porto Velho, sendo a única forma de acesso, a via fluvial. A comunidade possui aproximadamente 178 habitantes e uma comunidade pequena que ainda preserva hábitos e costumes tradicionais. Santa Catarina possui uma vista panorâmica no período das chuvas, formando um quadro paisagístico de beleza singular e característico da Amazônia. A pesquisa de etnobotânica explora uso de plantas medicinais na prática de seus saberes. E é esse grupo que buscamos compreender e analisar o seu modo de vida, sua atuação na prática da medicina tradicional. A pesquisa teve como objetivo contribuir 4 para o aprofundamento do conhecimento da etnobotânica transmitidos pelas pessoas que vivem a anos na região ribeirinha do município de Porto Velho. METODOLOGIA O trabalho consistiu um levantamento de informação com moradores da comunidade de Santa Catarina que utilizam plantas medicinais como alternativa a fim de subsidiar os trabalhos de campo na aplicação de questionários própria comunidade que basearam-se na e entrevista, onde foi possível assim realizar uma documentação fotográfica e uso terapêutico. TIPO DE ESTUDO Os procedimentos metodológicos para levantamento de dados etnobotânicos, e sócio-econômicos adotados foram determinados pelo caráter da pesquisa ser descritiva, possibilitando assim estudar as características desses núcleos populacionais e os fenômenos ora ocorrentes, e suas interelações, usando as técnicas da observação participante, entrevistas informais e entrevistas estruturada participante com formulários previamente elaborados que além de dar informações a respeito das plantas medicinais utilizadas pela comunidade e seus usos, ressalta a origem, trabalho, saúde, educação, renda, alimentação, composição familiar, transporte, moradia, etc, da população, que vai permitir o aprofundamento no conhecimento do processo econômico e de organização social, criando uma situação de diálogo . RESULTADOS E DISCUSSÃO Foram entrevistadas 30 pessoas moradoras da comunidade, que com base nos seus conhecimentos e cultura descreveram um total de 34 espécies de plantas medicinais utilizadas no dia a dia ribeirinho. 5 Tabela 1. Lista das plantas medicinais descritas nas entrevistas realizadas na comunidade ribeirinha do baixo madeira. Plantas utilizadas no tratamento de doenças respiratórias. Termo popular Espécie/Família Uso Terapêutico Modo de preparo Chá Parte Usada Folha Alfavaca Lamiaceae Gripe e calmante Mangarataia Zingiberaceae Gripe Chá Raiz Hortelã Lamiaceae Chá Folha Eucalipto Canela Mirtaceae Lauraceae Chá Chá Folha Folha e Casca Laranja Rutaceae Chá Casca Alho Liliaceae Gripe, dor de barriga e cólica do bebe. Gripe Gripe, febre, Estomacal, Hipertensão, Excesso de menstruação e vômito, dor Gripe, Diurético e Prisão de ventre Gripes,tosse, hipertensão, arteriosclerose infusão, ungüento, cataplasma, decocção Bulbo 6 Tabela 2. Plantas utilizadas para o tratamento contra dores inflamações e infecções. Termo popular Espécie/ Família Algodão Malvaceae Crajirú Bignoniaceae Boldo Uso Terapêutico Usada Modo de preparo Parte Cólica e inflamação. Inflamação. Chá Folha Chá Folha Monimiaceae Dor no estômago, Resaca Chá Folha Anador Acanthaceae Dores variadas. Chá Folha Copaíba Espécie: Copaifera langsdorfii Des. Aplicação do óleo Óleo e casca Mastruz Chenopodiaceae Infecção da pele, urticária feridas, cicatrizante. Antiflamatório. Cicatrizante e inflamações Carapanaúba Gastrite crônica e úlcera Chá Casca Urucum Especie: Aspidosperma crapanauba Bixaceae Chá Sementes e folhas Trevo roxo Abacateiro Fabaceae Lauráceas. Chá Chá Folha Folhas e frutos polpa e semente. Penicilina amarantáceas Utilizado para afecções do coração Dor de ouvido. Hepatite, Infecção renal, Infecções da Bexiga, Cefaléia, Diurético, combate o reumatismo, o colesterol, a diarréia. infecções Capimcheiroso Gramineae Dor para estômago Chá Folha Chá, Sumo Lambedor Planta Completa 7 Tabela 3. Plantas utilizadas para tratamentos diversos. Termo popular Espécie/Família Uso Terapêutico Melhoral Acanthaceae. Catarro brônquial, corte ferido, fígado, insônia, vias respiratórias. Açai Arecaceae Anemia Chá Raiz Capim santo Poaceae Calmante e diurético Chá Folha Babosa Liliaceae Contra vermes e Queda de cabelo e Erisipela Folha Saracura-muirá Rhamnaceae Japana Roxa Espécie: Eupatorium ayapana Depurativa do sangue e Ferida Diarréia, gengivite, anemia cataplasma, geléia, supositório, emplastro, maceração Chá Chá Folha Piquão Espécie: Bidens pilosas L. Asteraceae Verbenaceae Chicória Erva cidreira Vassouriha Malvaceae elixir-paregórico Piperaceae. Hepatite e icterícia Apressa o parto. Afrouxar a bexiga, insônia. Febres, cólicas, diarréias, hemorróidas, problemas respiratórios, combate ao colesterol, hipertensão, irritações na pele e alergias. Cólicas menstruais e intestinais, dor de estômago, diarréia; reumatismo e efeitos alérgicos de picadas de insetos. Modo de preparo Chá Chá e banho Parte Usada Folhas e ramos. Raiz Folha e raiz Chá Chá Folha Folha Chá Toda a planta Chá folhas 8 Tabela 4. Caracterização da amostra estudada, classificadas segundo gênero, faixaetária. 21 – 31 5F FAIXA ETÁRIA 31 – 41 41 - 51 51 – 61 - 71 71 - 81 61 3F 5F 6F 5F 3F Total 30 pessoas entrevistadas GÊNERO M F 3 27 Os indivíduos entrevistados na comunidade Santa Catarina apresentam uma distribuição segundo o sexo e a idade (tabela 4) em varia na faixa de 21 anos a 81 anos, e os do sexo masculino, de 31 anos a 51 anos. Segundo os dados observa-se que os indivíduos do sexo masculino que trabalham com o uso das plantas medicinais são mais jovens. Percebe-se quanto ao sexo que as mulheres na comunidade em estudo são mais dedicadas que os homens mostra uma diferença significativa em relação aos homens. Estudos realizados por Lancarovichit e cols ( 2004). Dentre os ribeirinhos, o papel social da mulher chama a atenção por ser o símbolo da oralidade e do conhecimento local sobre a tradição do “cuidar” da saúde do grupo. A mulher ribeirinha casa-se por volta dos 14 anos de idade, sendo o casamento considerado fundamental, não só por razões sociais, ou afetivas, mas por uma necessidade biológica, pela cobrança do seu papel de fertilidade e maternidade, tornando-se o instrumento principal para a reprodução da comunidade, onde, na maioria das vezes é o “saber” das parteiras e benzedeiras que realizam o nascimento das crianças das comunidades, são consideradas como “terapeutas tradicionais” que transmitem o segredo do nascimento e dos cuidados na prevenção de doenças ao longo de suas vidas. A necessidade humana em recorrer às plantas para curar seus males ainda perpetua, e atualmente o uso delas mostra-se acentuado por apresentarem um baixo custo e porque se tornaram tradicionais na sociedade, principalmente pelas mulheres. 9 DISCUSSÃO Segundo (Lancarovichit,2004) Dentre os ribeirinhos, o papel social da mulher chama a atenção por ser o símbolo da oralidade e do conhecimento local sobre a tradição do “cuidar” da saúde do grupo. A mulher ribeirinha casa-se por volta dos 14 anos de idade, sendo o casamento considerado fundamental, não só por razões sociais, ou afetivas, mas por uma necessidade biológica, pela cobrança do seu papel de fertilidade e maternidade, tornando-se o instrumento principal para a reprodução da comunidade, onde, na maioria das vezes é o “saber” das parteiras e benzedeiras que realizam o nascimento das crianças das comunidades, são consideradas como “terapeutas tradicionais” que transmitem o segredo do nascimento e dos cuidados na prevenção de doenças ao longo de suas vidas. A necessidade humana em recorrer às plantas para curar seus males ainda perpetua, e atualmente o uso delas mostra-se acentuado por apresentarem um baixo custo e porque se tornaram tradicionais na sociedade, principalmente pelas mulheres. REFERENCIAS BIBLGRÁFICAS 1.Albuquerque, U. P. & Lucena, R. F. P. Métodos e Técnicas na Pesquisa Etnobotânica. Recife-PE: Ed. LivroRápido/NUPEEA. p.47 - 118 2. Alcorn, J. 1995. The scope and aims of ethnobotany in a developing world. In: Ethnobotany: evolution of a discipline, ed. R. E. Schultes e S. von Reis, 23-39. Portland: Dioscorides Press. 3. Albuquerque, U. P. Etnobotânica: uma aproximação teórica e epistemológica. Revista Brasileira de Farmácia. 78(3): 60-64, 1997. 4.Amorozo, M. C. M. A abordagem etnobotânica na pesquisa de plantas medicinais. In: DI STASI, L. C. (Org.). Plantas medicinais: arte e ciência – um guia de estudo interdisciplinar. Botucatu: UNESP, 1996.p. 47-68. 10 5. Lancarovichit, R. & Silva, J,C. o saber local e o uso de etnofármacos no distrito de nazaré, região do baixo madeira. Departamento de geografia UNIR, 2004. 6. Silva, S. R., Buitrón, L. H. De Oliveira & M. V. Martins. Plantas medicinais do: aspectos gerais sobre legislação e comércio. TRAFFIC América do Sul-IBAMA. Brasil Quito, Equador. 44 p., 2001. . 11