Considerações acerca da transferência em Lacan
Introdução
Este trabalho é o resultado um projeto de iniciação científica iniciado em agosto
de 2013, no Serviço de Psicologia Aplicada do Instituto de Psicologia da Universidade
Federal de Alagoas. O projeto teve como referencial teórico os trabalhos do psicanalista
francês Jacques Lacan. Utilizamos uma metodologia de leitura próxima, atenta e
desconstrutiva, inspirada em textos do filósofo franco-argelino Jacques Derrida,
buscando resgatar e explicitar o modo como Lacan trata a transferência, em seus eixos
imaginário e simbólico. Entendemos que Lacan não considera a existência da
contratransferência proposta por outros autores pós-freudianos.
Metodologia
Essa pesquisa foi desenvolvida com uma metodologia de leitura próxima, atenta
e desconstrutiva, apoiada nos trabalhos de Figueiredo (2000) e Derrida (1997), que
desenvolveram e explicitaram uma racionalidade em que a tríade ler, interpretar e
traduzir forma uma unidade coerente. A fonte e o objeto de pesquisa foram os textos A
direção do tratamento e os princípios de seu poder (1958/1998), publicado nos
“Escritos” de Jacques Lacan, e A transferência: uma viagem rumo ao continente negro
(2006), de Denise Maurano, além de outros achados oriundos de comentadores de
Lacan, como O discurso do método psicanalítico (1997) e La transferencia negativa
(2000), de Jacques-Allain Miller.
Resultados e Discussão
A reorganização do sintoma é que constitui o primeiro momento da experiência
analítica (MILLER, 1987), que é estabelecida a partir da suposição de uma relação de
confiança entre o analisando e o analista (MILLER, 2000). Essa relação de suposta
confiança, que se fundamenta no momento em que o analisando supõe ao analista um
Saber, é que estabelece a relação analítica, sendo chamada, assim, de transferência.
A primeira aparição da ideia de transferência está no livro Estudos sobre histeria
(1893-1895), de Freud e Breuer. Tal termo nomeia a relação afetiva estabelecida entre
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analista e analisando (médico e paciente) que ocorre de maneira automática e
inconsciente, na qual o analisando personifica no analista a pessoa ou o relacionamento
em torno da qual gira sua organização subjetiva (MAURANO, 2006).
Lacan, ao tomar o inconsciente estruturado como linguagem, considera que a
transferência só existe a partir do discurso analítico, já que é o analista que faz a
transferência existir pela ideia com a qual ele opera, através de sua fala. A partir da
leitura de Lacan é possível depreender que a transferência existe como conceito
operacional que apenas existe no dispositivo analítico.
No texto A direção do tratamento e os princípios de seu poder (1958), Lacan
afirma que o termo transferência continua sendo empregado em seu sentido mais
comum, aderido à sua abordagem mais discutível e mais vulgar que é fazer da
transferência a soma de sentimentos positivos ou negativos que o paciente volta a seu
analista (LACAN, 1998, p.608). Ao longo desse texto, ele traz a todo instante que, na
transferência, o analista interpreta o sintoma do paciente tirando proveito de uma
posição que não é dele, sendo beneficiando por um erro de pessoa, uma vez que o
analisante atribui a ele um sentimento que não lhe pertence. Com isso, Lacan suscita
questionamentos acerca da verdadeira natureza da transferência e sobre a ética que
permeia tal relação a dois que constitui a psicanálise.
À transferência é conferida a condição para o estabelecimento do tratamento
psicanalítico, pois é através desse mecanismo que o paciente faz ao analista um
investimento sustentado por um suposto Saber. Dessa forma, Maurano (2006) escreve
que
“Para poder trabalhar, é fundamental que o analista saiba em que
lugar está sendo colocado pelo analisando. Que uso este está
fazendo dele, em sua organização subjetiva. É da posição que
lhe é dada pela transferência que o analista pode analisar,
interpretar, enfim, intervir sobre a própria transferência.”
(MAURANO, 2006, p.24)
Na relação analítica o analista é colocado na posição de quem sabe algo, não
necessariamente sobre o sujeito em análise, mas sobre seu sintoma. Segundo Maurano
(2006, p.26-27), Lacan chama a esse sujeito que sabe de Outro, que funciona como
referência para a organização subjetiva, tecida pelo acesso a linguagem. É essa
suposição de um Saber no Outro que Lacan toma como ponto de partida da
transferência. Dessa maneira, o analista está autorizado, aos olhos do analisando, a
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trazer à tona o Saber que sustenta seu sintoma, viabilizando o acesso a esse Saber,
conduzindo a cura.
Mesmo autorizado pela suposição de Saber, o analista precisa estar habilitado a
conduzir a transferência de modo que ela atue como facilitadora, vencendo as
resistências impostas por ela mesma. É, portanto, o desejo do analista que confere a ele
essa habilidade. Segundo Maurano (2006), o desejo do analista se constitui como
exceção quando a psicanálise opera segundo um desejo que se distingue do desejo
alienado no Outro.
O fenômeno da contratransferência aparece pela primeira vez em um texto
produzido por Freud em 1910 intitulado As perspectivas futuras da técnica
psicanalítica. Segundo Maurano (2006, p.35), Freud afirmou que tal ideia trata acerca
do conjunto das reações afetivas, conscientes ou inconscientes, que o analista tem em
relação a seus pacientes. A contratransferência refere-se, portanto, aos sentimentos e
associações produzidas no analista pelo analisando e atua como uma formação especial
para o analista proteger a si e ao paciente contra sua implicação emocional e sua reação
à atuação do analisando.
A contratransferência aparece como a vontade do analista de escapar à lógica
intransigente e implacável da transferência. Caso o desejo do analista não esteja em
consonância com o seu trabalho, ou seja, caso ele não esteja numa posição subjetiva que
proporcione a escuta flutuante ideal para a condução da cura, o próprio analista
estabelecerá resistências através de uma transferência mal colocada por parte dele o que
o impossibilitará de perceber e interpretar a transferência e as resistências do
analisando. Isso ocorre porque o analista passa a se colocar como sujeito do processo
analítico ao invés de instrumento do mesmo (MAURANO, 2006, p.35).
Denise Maurano (2006), apoiada no que disse Lacan (1958/1998) sobre não
haver outra resistência na análise senão a do próprio analista, afirma que a resistência do
psicanalista é a que melhor configura um obstáculo à análise, posto que as resistências
do analisando funcionam como uma engrenagem que move o procedimento analítico
uma vez que, quando atuam no fechamento do inconsciente, “clamam para que o
analista intervenha em prol de sua abertura e com isso o processo avance”
(MAURANO, 2006, p.35).
Lacan discute, em seu texto A direção do tratamento e os princípios de seu
poder (1958/1998), sua colocação sobre a resistência do analista pensando suas
possíveis causas e trazendo que o analista resiste por efeito de suas paixões “de seu
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receio, que não é erro, mas da ignorância, de sua predileção, que não é satisfazer, porém
não decepcionar; de sua necessidade, que não é de governar, mas de ficar por cima”
(LACAN, 1958/1998, p.601). Assim, Lacan considera a existência de consequências da
relação dual entre analista e analisante, as quais o primeiro não quer superar, pois é na
transferência que o analista encontra segurança.
Conclusão
A utilização de textos como fonte e objeto de pesquisa e a estratégia
metodológica de leitura-escritura desconstrutiva permitiu aprimorar tanto a técnica de
leitura e o modo de ler quanto a escrita científica. Para além disso, foi possível
desenvolver um conhecimento teórico-clínico sobre a Psicanálise, permitindo aos
integrantes da pesquisa falar de uma outra posição, tomando a teoria em posição de
verdade e lendo o que se produz a partir disso, sem necessariamente querer
compreender.
O analista deve criar as condições para a formação de um vínculo muito
específico entre analista e analisando, um laço social no qual se desenvolve a relação
transferencial, ou seja, é necessária a implicação do analista na relação e, a partir de sua
posição, permitir que o paciente fale livremente. Sendo assim, a transferência mostra-se
o pilar da experiência analítica, ela torna-se um aspecto relevante e central para
introduzir esse estudo, pois é através da transferência que é realizado o diagnóstico e a
partir deste, a direção do tratamento.
O conjunto das reações afetivas produzidas no analista pelo analisando,
conceituado primeiramente por Freud como contratransferência, adquirem uma outra
posição na teoria lacaniana. A partir dela, o foco não está mais na lida, aceitação ou
denegação dessas reações, mas sim se estas devem influenciar a direção do tratamento.
Assim, a partir das leituras realizadas, é possível inferir que a contratransferência não
substitui o saber clínico, uma vez que ao observar suas próprias reações na relação
analítica o analista coloca-se em posição de agente e não no de condutor da cura.
Referências Bibliográficas
LACAN, J. A direção do tratamento e os princípios de seu poder (1958). In:______
Escritos (1901-1981). (Vera Ribeiro, Trad.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p.
591-652.
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MAURANO, D. A transferência: uma viagem rumo ao continente negro. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006. 78 p.
MILLER, J-A. A psicanálise e a psiquiatria. Falo, Revista Brasileira do Campo
Freudiano. v. 1, p.113-124, 1987.
MILLER, J.-A. Discurso do método psicanalítico. In:______. Lacan elucidado:
palestras no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997, p. 221-281.
MILLER, J.-A. La transferencia negativa. Buenos Aires: Tres haches, 2000. 96 p.
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