Revista Ícone
Revista de Divulgação Científica em Língua Portuguesa, Linguística e Literatura
Volume 09 – Janeiro de 2012 – ISSN 1982-7717
CONSIDERAÇÕES SOBRE A CONSTITUIÇÃO DE SUJEITOS
(ADOLESCENTES) NA COMUNIDADE “MALHAÇÃO” DA REDE SOCIAL
“ORKUT”
Kethruyn Souza Covas1
Guilherme Figueira Borges2
Maria Piedade Feliciano Cardoso3
RESUMO: Este trabalho tem por objetivo apresentar considerações para se pensar a
constituição de sujeitos (adolescentes) no ambiente digital, mais especificamente na rede social
“Orkut”. Nas análises, buscamos desvelar as várias vozes que emergem do imaginário dos
sujeitos (adolescentes) de forma a evidenciar os efeitos de sentidos que são fundados. Para
tanto, ancorar-nos-emos nos estudos de Brait (1997), Brandão (1998), Bakhtin (2009), Foucault
(1995a, 1995b, 1998, 2010), Maingueneau (2002) e Pêcheux (2009), para lançar o olhar para os
enunciados, presentes na comunidade “Malhação” da rede social “Orkut”. Com as análises,
percebemos que os sujeitos analisados se constituem enquanto tal por refletirem e refratarem
vozes que se afirmam e se (de)negam nas relações históricas que são travadas no ambiente
virtual.
PALAVRAS-CHAVE: Sujeito; Imaginário; Análise do Discurso; Vozes Discursivas
Dizeres Iniciais
A Análise do Discurso (doravante AD) nasce na França, na década de 60, com
os estudos de Michel Pêcheux e ganha força, inclusive no Brasil, na década de 80,
quando é publicada a obra de Pêcheux (2009) intitulada, no Brasil, de “Semântica e
Discurso: uma crítica à afirmação do óbvio”. Pêcheux (2009) fundou a AD sobre a base
de um tripé assimétrico: Linguística, Materialismo Histórico e Psicanálise. Segundo
Mussalin (2006), os pesquisadores Jean Budois e Michel Pêcheux trabalharam sobre a
possibilidade de, a partir das teses marxistas, criar-se uma teoria que tivesse um impacto
1
Graduada em Letras pela Universidade Estadual de Goiás – UEG, unidade de Iporá. Membro do “Grupo
de Estudos Discursivos e de Nietzsche” – GEDIN/UEG. [email protected]
2
Professor do Curso de Letras da Universidade Estadual de Goiás – UEG, unidade de Iporá. Doutorando
em Linguística do Programa de Pós-graduação em Estudos Linguísticos da Universidade Federal de
Uberlândia. Coordenador do “Grupo de Estudos Discursivos e de Nietzsche” – GEDIN/UEG.
[email protected]
3
Professora do Curso de Letras da Universidade Estadual de Goiás – UEG, unidade de Iporá. Especialista
em
Planejamento
Educacional,
Supervisão
Educacional
e
Língua
Portuguesa.
[email protected]
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na luta de classes. A AD francesa nasce com o objetivo de ser um “cavalo de Tróia” que
pudesse minar o discurso da classe dominante pelos elementos que lhe são constituintes,
ou seja, se a classe dominante funda/legitima/mantém o seu poder sobre o capital pelo
discurso, é possível desmascarar os mecanismos a partir dos quais os discursos dessa
classe adquirem status de verdade na e pela história.
Este estudo, ao se inscrever na AD francesa, objetiva-se a analisar os dizeres de
sujeitos presentes em posts4 inseridos na comunidade “Malhação” que faz parte de uma
rede social na internet, a saber: “Orkut”. Nesse ínterim, buscamos tecer considerações
acerca das várias vozes que emergem do imaginário5 desses sujeitos. Para tanto, toma-se
como referencial teórico Brait (1997), Brandão (1998), Bakhtin (2009), Foucault
(1995a, 1995b, 1998, 2010), Maingueneau (2002) e Pêcheux (2009) que buscam pensar
a forma como os discursos podem ser abordados em práticas sócio-históricoideológicas.
A principal hipótese do trabalho é a de que os sujeitos discursivos se constituem,
ideologicamente, por meio das vozes que emergem em seu dizer nas redes sociais. Os
sujeitos, ora analisados nesta pesquisa, ao enunciarem no ambiente virtual, estabelecem
uma tomada de posição na história (Pêcheux, 2009) e, a partir dessa prática, uma
diversidade de vozes oriundas de outros lugares se manifestam em seus dizeres.
1. Um Esboço Teórico
Houve, na década de 70, um desejo em Pêcheux (2009) de (re)pensar Marx e a
sua teoria sobre as classes sociais, fazendo uso de teorias em prol do proletário. Nesse
desejo de minar as desigualdades sociais, esse pesquisador francês buscou trazer a tona
as contradições da ciência pela via da ideologia. É relevante dizer que, com isso, não se
tentou eliminar as contradições, mas sim revelá-las enquanto elemento constituinte.
4
A palavra post, etimologicamente, é uma forma substantiva anglófona, do verbo “postar”, refere-se a uma
entrada de texto efetuada em um site em que haja compatibilidade para postagens de textos.
5
Em ressonância a Borges (2010), tomamos imaginário como uma configuração estética de vozes que
constituem os sujeitos enquanto tal.
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Brandão (1998) revela, ao analisar os postulados de Pêcheux (2009), que no
“fundo ou no raso”, a ciência é uma construção ideológica que visa manter uma cisão
entre as classes. Essa interpretação se ancora nos seguintes dizeres de Pêcheux:
Ao esboçar uma teoria da ideologia, reconhece a necessidade de distinguir
uma ‘teoria da ideologia em geral’ e uma ‘teoria das ideologias particulares’
que exprimiram sempre posições de classe. O objeto dessa teoria das
ideologias seria o estudo da deformação imaginária que se estabelece nas
relações reais entre indivíduos pertencentes a uma determinada formação
social. (PÊCHEUX, apud BRANDÃO, 1998. p. 20)
Considerado o pioneiro da vertente francesa da AD, Pêcheux (2009) construiu
suas indagações levando em consideração o lado social, linguístico e inconsciente no/do
emprego da língua(gem), conforme elucida Brandão (1998). Com este ideal, procurouse pensar a política a partir dos fatos da linguagem, melhor dizendo, buscou-se estudar
os processos em que o discurso trabalha para a formação da sociedade (Maingueneau,
1997).
De acordo com Baronas (2007), Althusser se preocupou com a luta de classes,
de modo a revelar as redes que, pelo capital, prendem os sujeitos às classes sociais e
mostrar que essas amarras são arbitrárias e oriundas de construções históricas. Vale
mencionar que Althusser foi orientador de Pêcheux e fonte de interpelação (in)tensa no
pensamento de uma possível relação entre discurso e ideologia.
Foucault (1995a, 1995b, 1998), por sua vez, se voltava também, como enuncia
BRANDÃO (1998. p. 23), “para uma concepção do discurso como dispositivo
enunciativo e institucional”, a fim de pensar a relação entre saberes e poderes nas
práticas discursivas dos sujeitos. Pensando em tais questões, o presente trabalho possui
como ponto norteador também as ideias de Foucault (1995a, 1995b, 1998, 2010), que
pesquisa os aspectos ligados ao sujeito e à discursividade, bem como a relação
intrínseca daquele com o poder.
1.1 Sujeito Discursivo
Para Maingueneau (2002), a materialidade linguística fornece indícios para se
perceber os discursos que atravessam o dizer, discurso esses que não cessam de produzir
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sentidos no gesto analítico. Maingueneau (2002) ainda distingue o enunciado do texto
no interior da enunciação, relacionando suas particularidades e explicando cada valor e
local de aplicação.
Para fazerem referência às produções verbais, os linguistas não dispõem
somente do termo ‘discurso’: recorrem também a ‘enunciado’ e ‘texto’,
termos que recebem definições diversas. Atribuem-se, com efeito a
‘enunciação’ diferentes valores, segundo as exposições que se estabelecem.
(MAINGUENEAU, 2002, p. 56)
Deste modo, enunciado e texto possuem naturezas distintas, mas se imbricam no
acontecimento enunciativo em que se inserem os dizeres (re)produzidos por sujeitos. É
relevante ressaltar que é na tensão entre analista e corpus que emerge o direcionamento
de se trabalhar ao nível do enunciado ou ao nível do texto. Em ambos os níveis,
percebe-se que há complexidades diferentes e elementos distintos a serem
vislumbrados. Em todo o caso, um nível não é melhor nem pior que o outro, mas sim
diferente.
Um outro pesquisador, que considera a historicidade um fator relevante para a
constituição do sujeito, é Fernandes (2005), que, ancorado a uma perspectiva
foucaultiana, busca pensar a constituição do sujeito discursivo por meio de práticas
discursivas que evidenciam/legitimam exercícios de poder de sujeitos sobre sujeitos.
O sujeito também se torna um fator histórico e heterogêneo, na medida em que
ele pode ser considerado uma resultante de movimentação entre posições-sujeito nas
práticas sociais. Como afirma FERNANDES (2005, p. 44), “o sujeito não é homogêneo,
e, ao conceituá-lo, referimo-nos às noções de formação discursiva e formação
ideológica, e à inter-relação linguagem e história, perpassada pela memória”.
1.2 O Discurso
Antes de evidenciarmos a noção de discurso que adotamos, convém lançar o
olhar para a noção de Prática Discursiva que são gestos de mobilização do dizer que
instauram sentidos. Segundo FOUCAULT (1998), as Práticas Discursivas (PD) são “um
conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas ao tempo e ao espaço que
definiram em uma época dada, e para uma área social, econômica, geográfica ou
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linguística das condições de exercício da função enunciativa” (FOUCAULT, 1998, p.
153).
O discurso, numa perspectiva foucaultiana, possui uma ordem que diz respeito à
PD que o gera. Assim, no fio da história, há ordens discursivas e ordens do discurso.
Todavia, ao se realizar uma análise é necessário que se busque analisar a intimidade da
linguagem e das representações linguísticas fundadas pelos sujeitos, realizando uma
compreensão do discurso enquanto acontecimento que (des)estabiliza sentidos.
Conforme afirma Foucault (2010), as classes sociais estão em constante luta e cada uma
possui formas de empregar discursos. Neste contexto, ocorre a exclusão de sujeitos no e
pelo discurso, uma vez que não se pode dizer tudo em qualquer lugar.
Ao perceber que a ordem do discurso se configura em uma afirmação dada como
“verdade”, é provável que, para cada época, tenha-se uma verdade para se afirmar e que
se distinguirá das verdades instauras de outras época (no passado e no futuro). Como se
percebe, um discurso é fundado sob certas normas que, segundo Foucault (2010), são
estabelecidas por princípios discursivos. Os métodos de pesquisa, que Foucault (2010)
destaca na obra em A Ordem do Discurso, consistem nos princípios de inversão, de
descontinuidade, de especificidade e de exterioridade. Com tais princípios, pode-se
desvelar certos aspectos a respeito da forma de se proceder uma análise discursiva.
Foucault (1998) defende a ideia de que as pessoas não podem dizer sempre o
que querem, pelo contrário, o seu discurso é ancorado à Práticas Discursivas das
posições discursivas às quais o sujeito se inscreve para enunciar, assim, “não se pode
falar de qualquer coisa em qualquer época; não é fácil dizer alguma coisa nova”
(FOUCAULT, 1995b, p. 51). Isso revela que os sujeitos seguem padrões estabelecidos
pelas forças sociais e pela luta de classes que são estabelecidas no cotidiano. Torna-se
relevante, pois, analisar o discurso enquanto uma construção social. Portanto, o poder
do discurso, segundo estudos realizados a partir da teoria de Foucault (1998), refere-se à
forma como um discurso é formado, sendo sempre determinado por práticas ou funções
que o classificam “verdadeiros” ou “falsos” de acordo com a época em que estão
inseridos. Para que um discurso seja considerado “verdade”, é necessário que ele se
adeque à um embate ideológica que reflete a luta de classes, como afirma Bakhtin
(2009).
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Convém evocarmos ainda as considerações de Maingueneau (2002) acerca do
discurso, na medida em que esse autor estabelece, de certo modo, um diálogo com os
postulados pecheutianos (2009) e foucaultinos (1995a, 1995b, 1998, 2010). Segundo
Maingueneau (2002), há algumas características estruturais do discurso que são
importantes e que devem ser levadas em consideração:
‘o discurso é uma organização situada para além da frase’, neste ponto existe
a afirmação de que o discurso pode ocorrer em estruturas que não sejam
estruturalmente formadas por uma frase, desde que haja compreensão do
interlocutor;
‘o discurso é orientado’ para um determinado lugar, por um determinado
locutor que chega a determinados e escolhidos interlocutores, aqui o discurso
faz de modo com que cada um tenha sua função e finalidade estabelecida;
‘o discurso é uma forma de ação’ principalmente no que se refere ao outro,
pois sendo orientado ao outro e na maioria das vezes é construído sob uma
linguagem persuasiva em que o ouvinte modifica suas ações em relação ao
que se perceba no discurso. Um exemplo pode ser o discurso religioso
afirmando pecado um comportamento X, ao analisarem e compreenderem
esse discurso inúmeros cristãos e/ou seguidores desta determinada doutrina
religiosa irão cancelar e apagar o tal comportamento X de sua prática;
‘o discurso é interativo’, pois sendo uma forma de ação consequentemente se
transforma em uma interatividade, ocorrendo a troca entre o ‘eu e você’ nos
enunciados dialogais verbais assim, ao se falar em discurso interativo, está se
referindo aos dialogismos que se faz entre o enunciador e o enunciado.
‘o discurso é contextualizado’ de acordo com o que ocorre entre que o faz e
quem o recebe, pois não ocorre discurso se não houver relação com o que
ocorre de fato social com o interlocutor. (MAINGUENEAU, 2002, p. 51)
MAINGUENEAU (2002) complementa essas ideias afirmando que “além disso,
o discurso contribui para definir seu contexto, podendo modificá-lo no curso da
enunciação” (MAINGUENEAU, 2002, p.54-55). O discurso, nessa perspectiva, está
imbricado ao contexto, definindo-o ou por ele sendo definido. Esse autor tece também
algumas considerações sobre as regras de formação dos discursos:
‘o discurso é assumido por um sujeito’, todo discurso deve prover de um
sujeito (o que se refere a suas denominações será expostas no próximo
tópico). Somente um sujeito poderá realizar um discurso, pois deverá assumir
e se colocar como fontes discursivas;
‘o discurso é regido por normas’, como já exposto toda atividade verbal seja
escrita ou oral, é regida por certas normas, imposta pela classe dominante,
que estabelece como realizá-lo. Ocorre da mesma forma com o discurso,
principalmente na fala, pois cada ato implica normas particulares, como uma
pergunta óbvia, o interlocutor não a responde por saber que o enunciador
responderá sozinho.
‘o discurso é considerado no bojo do interdiscurso’, cada discurso possui um
significado e uma relevância e estas características só lhes são passadas e
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adquiridas quando se submetem a outros discursos. (MAINGUENEAU,
2002, p. 56)
Nessa perspectiva, o interdiscurso diz respeito à base em que o discurso é
implementado nos textos e é referendado por outros já ditos. Podemos citar como
exemplo, este trabalho que é transpassado por outros discursos que já analisaram a
constituição dos sujeitos em ambientes digitais. Deste modo, remarcamos que
[...] um discurso não se inscreve sobre uma página branca; quando ele se
constitui não pode ser senão por um regenciamento do que já está lá. A
maneira pela qual uma formação discursiva define sua relação com o outro
não é senão uma modalidade de sua relação consigo mesma.
(MAINGUENEAU, apud BRANDÃO, 1998, p.126)
Tendo essa visão de heterogeneidade do discurso, pode-se verificar que esse
possui uma ordem e nem tudo pode ser dito ou enunciado sem que sigam certas
determinações, uma vez que tal enunciado já fora dito antes por outros sujeitos, em
outros lugares e com outras configurações estéticas.
Outra questão relevante do discurso é o fato de nenhum conhecimento ser novo,
e sim um modo diferente de interpretação, pois o que é novo não é o discurso em si,
mas o acontecimento de seu retorno, nisto há o surgimento de outros modos de
interpretar na medida em que os dizeres podem assumir outra configuração estética num
acontecimento enunciativo outro. Nessa perspectiva, preferimos dizer que os sujeitos
não formulam “novos discursos” e sim “outros discursos”, ou seja, discursos
reformulados de dizeres já enunciados. Assim, afirmamos que as possíveis
(re)formulações estão relacionadas ao acontecimento do aqui e agora, porém nos
discursos se manifesta sentidos de outros já enunciados. Cada sujeito, ao enunciar,
produz enunciados que travam diálogos com outros discursos. Mesmo sendo outros
discursos, eles são/estão, de certa forma, ancorados em já-ditos (FOUCAULT, 2010).
Desse modo, pode-se dizer que a produção de discursos, na comunidade “Malhação” da
rede social “Orkut”, “se efetua sob determinadas condições de uma conjuntura, faz
circular formulações já enunciadas, fórmulas que se constituíram o ritual que presidia e
enunciação de um discurso anterior” (BRANDÃO, 1998, p.128).
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2. Imaginário de sujeitos (adolescentes) no ambiente virtual
Pela démarche teórica que empreendemos, já nos sentimos subsidiados a tecer
considerações sobre as vozes que emergem no dizer de sujeitos que pertencem a
comunidade “Malhação” do “Orkut”.
Em consideração às condições de produção desta série, consideramos relevante
dizer que ela é transmitida pela Rede Globo de Televisão nos finais de tarde de segunda
a sexta feiras. Sua gênese foi em 24 de abril de 1995, tendo por objetivo atrair a
audiência do público adolescente, caracterizando-se, pois, uma série teen6. De sua
estreia até os dias atuais, a série conta com dezenove temporadas que são divididas em
gerações de acordo com o ambiente em que são elaboradas. A primeira geração da série
possuía como seu ambiente principal uma academia de “Malhação”, o que tornou
inspiração para o nome da série.
Em setembro de 2011, lançou-se a oitava temporada em que a trama narrada
pela série foi movida da escola à faculdade. Essa oitava temporada foi denominada
“Malhação – Conectados” cuja frase de caracterização é “Está Tudo Conectado”.
Recorta-se, com essa frase, sentidos que no real como no virtual os sujeitos estão
interligados e podem conhecer/interferir uns a/na vida dos outros.
Iniciaremos com o dizer do sujeito (1) que afirma não concordar com a nova
proposta da série, mas que a assistirá para verificar de que forma o enredo será
desenvolvido o que demarca uma contradição (NÃO X, MAS Y) constitutiva dos
sujeitos analisados: NÃO gostar/concordar, MAS ver. Vejamos os seguintes dizeres:
Sujeito (1) – Puts, não boto fé [sic]; pelo que vi, tem muitas coisas que naturalmente não
combinam com Malhação. O fato é, assistir pra saber como vai ser. [...] Daí,
pra frente [sic], vai ficar com mais ‘cara’ de novela do horário nobre. Gostei
bastante dessa temporada, mas a próxima ta [sic] muito exagerada nesses
lances [sic] de sinceridade. Ainda terá porra de pagode [sic], e também não
fui com a cara [sic] desses personagens... Ainda tem o lance [sic] de favela,
fala sério NE?! [sic] Daqui a pouco vira novela das 8! [...] ISSO JÁ NÃO É
MAIS MALHAÇÃO! [grifos do autor]
6
Termo abreviado da palavra teenager, da língua inglesa, que significa “adolescente”.
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Esse sujeito inicia o seu dizer já delimitando o que não combina com a série
“Malhação”. E nessa delimitação, há uma (de)negação ao fato de “Malhação” não poder
ser considerada uma “novela de horário nobre”, esse enunciado evoca vozes que
contribuem para a instauração da contradição no dizer desse sujeito. Nesses dizeres,
percebemos uma tensão instaurada pela relação entre “Malhação” e “novela das 8”,
instaurada por uma contra-identificação. É relevante remarcar que há uma diferença
conceitual entre contra-identificação e desidentificação. A desidentificação implica em
uma tomada de posição que impulsiona o sujeito para a fundação de um outro lugar
(Pêcheux, 2009) como, por exemplo, o movimento da Semana da Arte Moderna no
Brasil que fundou um outro lugar para a literatura brasileira. Em nossa análises, vimos
que os sujeitos não instauram um outro lugar, pelo contrário, eles se inscrevem no lugar
evidenciado pela voz “novela das 8” e, desse lugar, eles enunciam contra a sua própria
constituição. Essa contradição gera, a nosso ver, um paradoxo que está no fato de eles
desejarem um lugar próprio, mas estarem inscritos no lugar da “novela de horário
nobre” e se contra-identificar com esse lugar discursivo.
Essa contradição constitutiva se evidencia no que Foucault (2010) considera
como superfície do discurso, na medida em que podemos perceber que o sujeito (1) em
seus dizeres elabora um protesto aos temas e às abordagens que a série fará em sua nova
temporada. Porém, há de se atentar para o não-dito que se faz presente nos dizeres desse
sujeito, evidenciando redes de poder que se sustentam e se disseminam no e pelo
discurso na sociedade. Segundo Foucault (2010),
[p]or mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições
que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o
poder. Nisto não há nada de espantoso, visto que o discurso [...] não é
simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo; é, também, aquilo
que é o objeto do desejo [...]. (FOUCAULT, 2010, p.10)
Foucault nos chama a atenção para o fato de que o discurso revela desejos dos
sujeitos que enunciam. Nessa perspectiva, todo sujeito é desejante no e do discurso.
Essa relação entre discurso e poder é relevante para analisarmos o que o Sujeito (1)
enuncia sobre, por exemplo, o gênero musical Pagode. Esse sujeito analisado estabelece
e revela relações de poder na medida em que procura delimitar o que pode e de ser
ouvido pelo grupo social adolescente. Há, nesse sentido, os gêneros musicais que são
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destinados ao público alvo de “Malhação” e os gêneros que lhe são negados.
Consideramos relevante dizer que o Pagode é negado na medida em que esse gênero
musical é relacionado, na maioria dos casos, à classe social proletária, aos sujeitos que
vivem em favelas. Por isso, vemos nos dizeres do sujeito (1) evidenciar-se uma divisão
de classes que lutam não só pelo discurso, mas sobretudo com discursos que buscam
manter a relações de poder na sociedade.
Nos dizeres do sujeito (1), a negação de uma série que busque evidenciar
problemas sociais da vida cotidiana adulta, e o desejo de uma série que reflita questões
do interesse próprio dos jovens. Percebe-se, no dizer do sujeito (1), que o desejo de que
“Malhação” apresente a vida cotidiana dos adolescentes torna-se tensiva no último
enunciado: “ISSO JÁ NÃO É MAIS MALHAÇÃO!”. Esses dizeres se destacam dos
anteriores pela sua configuração estética, o enunciar em caixa alta, nesse caso, ressalta
que o dizer se assemelha a um grito de indignação. Vemos emergir novamente efeitos
de contra-identificação, na medida em que há, nas afirmações do sujeito (1), o
atravessamento de não-dizeres carregados de ideologia. Como nos chama atenção
Orlandi (2000),
Na análise do discurso, há noções que encampam o não-dizer: a noção de
interdiscurso, a de ideologia, a de formação discursiva. Consideramos que há
sempre no dizer um não-dizer necessário. Quando se diz ‘x’, o não-dito ‘y’
permanece como uma relação de sentido que informa o dizer de ‘x’. Isto é,
uma formação discursiva pressupõe a outra. (ORLANDI, 2010, p. 82)
Consideramos relevante dizer que tomamos o não-dito como vozes que ecoam
nos dizeres a revelia do sujeitos. Como expomos, o enunciado Pagode evoca vozes que
ressaltam uma desigaldade social que o sujeito (1) busca manter na sociedade. É
importante dizer que o sujeito não se dá conta, ao enunciar, que esse não-dito
transpassará o seu dizer, por isso dizemos que o não-dito emerge a revelia do sujeito.
Quanto mais o sujeito tente controlá-lo, mais ele se torna movediço, há, pois, uma falha
na língua que lhe é constitutiva, no acontecimento enunciativo.
A série tratará, em “Malhação – Conectados”, de temas como, por exemplo, o
paranormal e o vampirismo, assuntos que são, geralmente, relacionados a filmes e séries
norte americanos, mas também podem ser relacionados a novelas brasileiras com, por
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exemplo, “Vamp”, da rede Globo, e “Multante”, da rede Record. A indignação
evidenciada pelo sujeito (1) pode ser percebida nos dizeres do sujeito (2):
Sujeito (2) – MALHAÇÃO 2008, 2009, 2010 FORAM HORRÍVEIS, DEUS ME LIVRE!
[...] Em 2011 melhorou um pouco, mas essas trilhas sonoras não têm nada a
ver colocar música sertaneja em seriado de jovens nãããã!, [sic] [...] vamos
ver essa “MALHAÇÃO CONECTADOS” ver se melhora e fazem uma
MALHAÇÃO mais parecida com os bons tempos como as de 2005, 2006,
2007 [Grifos do Autor]
Percebe-se no enunciado acima que a série é acompanhada pelo sujeito (2) desde
o ano de 2005, ano de estreia, até os dias atuais. Gostaríamos de chamar a atenção para
o fato de que, provavelmente, o indivíduo que proferiu esse dizer não se enquadre na
faixa etária de adolescente. Contudo, não nos atemos ao indivíduo, mas sim ao sujeito
que é construído discursivamente. Desse modo, apesar de esse sujeito não ter um corpo
biológico e idade de adolescente, o seu dizer nos interessa, na medida em que ele revela
inscrições em posições-sujeitos adolescentes, assemelhando-se aos outros sujeitos (1 e
3).
Segundo o sujeito (2), a partir do ano de 2008, a série não contemplou o
esperado por suas expectativas, desse ponto percebe-se que não-ditos se fazem
presentes, na medida em que, ancorado numa memória discursiva, emergem vozes de
anos anteriores e que compõe o imaginário (seus desejos e recalques) desse sujeito em
questão. Nesses dizeres, vemos se instaurar uma espécie de saudosismo a partir do qual
o sujeito deseja um retorno à trama narrada em 2005. O sujeito (2) não aceita o fato de
que os sujeitos se movimentaram na história e que os desejos e interesses construídos
para os adolescentes, na contemporaneidade, são outros.
Para Orlandi (2010), “[o] posto (o dito) traz consigo necessariamente esse
pressuposto (não-dito mas presente). Mas o motivo, por exemplo, fica subentendido”
(ORLANDI, 2000, p. 82). É preciso ter ciência, também, que o “subentendido depende
do contexto. Não pode ser asseverado como necessariamente ligado ao dito” (Op. Cit.,
p. 82). Desse modo, vemos que os efeitos de sentido do dizer desse sujeito se ancora no
contexto da série em 2011, em que se buscou acrescentar o gênero musical Sertanejo o
que, para o sujeito (2), também é algo a ser negado. Vemos que o Sertanejo, assim
como o Pagode, é um objeto de contra-identificação por parte dos sujeitos
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(adolescentes). Pode-se dizer, então, que há a instauração de uma outra exclusão dentro
do campo discursivo que dita o que pode e deve ser visto/ouvido pelos sujeitos
(adolescentes). Por isso, é relevante termos ciência das condições de produção do dizer
e do contexto histórico em que ele está inserido.
Vejamos, por fim, os dizeres do sujeito (3):
Sujeito (3) – Malhação realmente ta desandando [sic]. Daqui a pouco vai ser novela das 5.
A linguagem é muito obcena para o horário. Agora resolveram se inspirar no
lixão de Crepúsculo [sic]. Espero que não seja FAIL [sic] essa do Pedro e da
Catarina [Grifos do Autor]
Nos dizeres do sujeito, vemos marcadamente a regularidade de negação da série
enquanto uma “novela”. A essa negação, há o recorte de outros efeitos de sentido
relacionados, nesse caso, principalmente à questão da linguagem que, para o sujeito (3),
não é apropriada ao horário em que a série é transmitida. Os sentidos instaurados, nesse
dizer, se diferenciam dos que analisamos antes, na medida em que a comparação com a
“novela de horário nobre” não se dá pelo conteúdo e/ou escolha de um gênero musical
como, por exemplo, nos sujeitos (1) e (2), mas sim pela linguagem. Desse modo, a
linguagem que é empregada pelos sujeitos-personagem não é apropriada ao público
(adolescente) a que a série se destina, na medida em que há o emprego e disseminação
de palavras obscenas na sociedade. Consideramos relevante chamar a atenção para o
fato de que, também, nesses dizeres, pode-se perceber uma propagação de vozes que
refletem lutas de classes, na medida que podemos problematizar: o que e/ou quem
determina o que é obsceno? Qual é o exercício de poder ao qual esse controle da
linguagem favorece? Dentre as várias respostas possíveis, gostaríamos de destacar uma
que é o favorecimento à classe dominante que visa controlar os corpos e as mentes dos
sujeitos que assim a essa série. Essa análise se justifica na visão, como destaca Bakhtin
(2009), de que “a palavra revela-se, no momento de sua expressão, como o produto da
interação viva das forças sociais” (BAKHTIN, 2009, p.67).
Consideramos relevante chamar a atenção para o emprego da expressão “FAIL”
que se encontra esteticamente grafada em caixa alta. A expressão “Fail” é uma gíria
norte americana que, apesar de estar gramaticalmente errada, é comumente empregada
pelos adolescentes, por exemplo, com os seguintes sentidos: gafe, falha, erro, fracassar,
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algo que não deu certo, dentre outros. Sentidos esses que transpassam o dizer do sujeito
(3) e já refletem um vinculo desse sujeito, na e pela linguagem, a uma ideologia norte
americana.
Uma outra instância de retorno de vozes está em “Crepúsculo” que se ancora em
um conjunto de filmes norte-americanos cuja temática é a vida de “Vampiros” e da
paixão entre um Vampiro e uma humana. Essas vozes oriundas de outro lugar
coadunam com a produção de sentidos negativos. O sujeito (3) recorta sentidos
depreciativos para “Crepúsculo”, na medida em que se emprega “lixo” para a sua
caracterização. Não podemos deixar de dizer que há uma relação direta entre
“Malhação” e “Crespúsculo”, sendo essa relação a base da crítica empreendida. O
sujeito (3), assim como os sujeitos (1) e (2), oscilam entre a sua inscrição no lugar
discurso fundado por “Malhação” e a sua contra-identificação com alguns elementos
que lhe sã incorporados no fio da história.
Nessa oitava temporada cuja denominação é “Malhação – Conectados”,
elementos outros são incorporados á série o que a movimenta na história. Numa
perspectiva foucaultiana (1998), é relevante destacar que não há história sem
resistência. Os sujeitos analisados, nesse sentido, contribuem com a afirmação da série e
a sua disseminação/manutenção nas relações sócio-histórico-ideológicas.
Considerações Finais
Nesse estudo, expomos as noções de Sujeito e Discurso, assim como o seu
imbricamento no campo da Análise do Discurso. Noções essas que são relevantes para
se pensar a constituição do acontecimento enunciativo na história. Nesse ínterim,
buscamos estabelecer um diálogo entre as teorias de Bakhtin (2009), Foucault (1995a,
1995b, 1998, 2010), Pêcheux (1983), Brandão (1991, 1998), Maingueneau (1997, 2002)
e Orlandi (2000).
Analisamos os dizeres de sujeitos presentes na comunidade “Malhação”, do
“Orkut”. Em nossas análises, destacamos a diversidade de vozes que emergem no
imaginário dos sujeitos, revelando as inscrições discursivas a que pertencem. Ao
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analisarmos os discursos de sujeitos sobre a série “Malhação”, percebemos a
manifestação de vozes oriundas de outros lugares como do filme “Crepúsculo”, de
novelas de outros horários, de gêneros musicais como, por exemplo, “sertanejo” e
Pagode. Vozes essas que, no acontecimento enunciativo na comunidade “Malhação”,
contradizem-se e afirmam-se, mostrando que os sujeitos podem (de)negar,
ilusoriamente, a sua constituição identitária.
Gostaríamos de encaminhar esse estudo dizendo que, a partir dos dizeres
analisados, vimos se instaurar uma contradição. Pois, os sujeitos analisados afirmam
que não gostam das temáticas que estão sendo abordadas pela série, mas relatam com
detalhes os enredos e tramas que são transmitidos. Esse fato de “NÃO gostar, MAS
assistir” ressalta a tomada de posição por contra-identificação que os sujeitos
(adolescentes) estabelecem. Dizendo de outra forma, ao mesmo tempo em que os
sujeitos analisados negam a configuração da série “Malhação”, eles se inscrevem
contraditoriamente nessa instância discursiva, haja vista que, em seus dizeres, ecoam
saberes sobre a série.
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DICIONÁRIO
PIREBRAN
DA
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http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=internauta >. Acesso em 19 de nov.
2011.
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(adolescentes) na comunidade “malhação” da rede social