Globalização e Inovação Localizada:
Experiências de Sistemas Locais no Âmbito do Mercosul e
Proposições de Políticas de C&T
O CLUSTER DA INDÚSTRIA CERÂMICA DE
REVESTIMENTO EM SANTA CATARINA:
UM CASO DE SISTEMA LOCAL DE INOVAÇÃO
Renato Ramos Campos
José Antônio Nicolau
Silvio Antônio Ferraz Cário
Departamento de Economia da UFSC
Colaboradoras: Liane Sbruzzi
Samya Campana
Deise Guadalupe de Lima
Nota Técnica nº 29/99
Mangaratiba-RJ, dezembro de 1998
Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro - IE/UFRJ
Patrocínio: Ministério da Ciência e Tecnologia
Organização dos Estados Americanos
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
A presente Nota Técnica faz parte do Projeto de Pesquisa Globalização e Inovação
Localizada: Experiências de Sistemas Locais no Âmbito do Mercosul e Proposições de Políticas
de C&T. Esta e as demais notas técnicas do referido projeto serão publicadas como livro no final
de 1998, assim como encontram-se disponibilizadas em via eletrônica na homepage do Grupo de
Economia da Inovação do Instituto de Economia da UFRJ: www.race.nuca.ie.ufrj.br/gei/gil.shmtl.
O objetivo central do projeto de pesquisa em referência é o de analisar as experiências de
sistemas locais selecionados no âmbito do Mercosul, visando gerar proposições de políticas de
C&T aos níveis nacional, supra e subnacional. Para tal delineia-se um conjunto de objetivos
subordinados, os quais podem ser divididos em dois grupos principais. O primeiro grupo inclui os
objetivos mais gerais relacionados à necessidade de desenvolver mais aprofundadamente o quadro
conceitual empírico e teórico que norteia a discussão proposta. Neste caso, a análise incluirá o
exame de experiências internacionais (fora do Mercosul), destacando-se quatro tópicos principais
de pesquisa:
(i)
a dimensão local do aprendizado, da capacitação e da inovação;
(ii)
processo de globalização e sistemas nacionais, supra e subnacionais de inovação;
(iii)
papel de arranjos produtivos locais e sua capacidade; e
(iv)
novo papel e objetivos das políticas de desenvolvimento científico e tecnológico,
tendo em vista as dimensões supranacional, nacional, regional, estadual e local.
Já o segundo grupo de objetivos refere-se à necessidade concreta de (a) identificar e analisar as
experiências específicas com arranjos locais de inovação em países do Mercosul; e (b) discutir
soluções alternativas quanto à adoção de políticas de desenvolvimento - que considerem, não
apenas as questões nacionais e supranacionais de aumento da competitividade e da capacitação
industrial e tecnológica no cenário crescentemente globalizado, mas também se preocupem com os
desafios e oportunidades relativos ao aprendizado nas dimensões sub, supra e nacionais nestes
países.
Participam do projeto diversas instituições de pesquisa do Brasil, da Argentina e do Uruguai. O
projeto é financiado pela Organização dos Estados Americanos, pelo Ministério da Ciência e
Tecnologia e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Brasil
José E. Cassiolato (IE/UFRJ-Brasil) - Coordenador Geral
Judith Sutz (Universidad de la Republica - Uruguai) - Coordenadora Adjunta
Gustavo Lugones (Universidad de Quilmes - Argentina) - Coordenador Adjunto
Helena M.M. Lastres (PPCI/IBICT/CNPq/UFRJ - Brasil) - Coordenadora Adjunta
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
2
SUMÁRIO
Capítulos e Seções
Páginas
INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 03
1. AS CARACTERÍSTICAS DA INDÚSTRIA DE CERÂMICA DE
REVESTIMENTO .........................................................................................................05
1.1. Formação e desenvolvimento .....................................................................................05
1.2. Estrutura de mercado e padrão de concorrência .....................................................05
1.3. Regime tecnológico ......................................................................................................10
1.4. As características da indústria e a formação de cluster............................................12
2. O CLUSTER DE CERÂMICA DE REVESTIMENTO NA REGIÃO SUL
DO ESTADO DE SANTA CATARINA .......................................................................14
2.1. A formação do cluster cerâmico .................................................................................14
2.2. A estrutura atual do cluster cerâmico - segmento produtivo ................................. 18
2.2.1. Principais atores, recursos e rede de transações .........................................................18
2.2.2. Estrutura de financiamento e planos de investimento ................................................24
2.3. Estrutura atual do cluster - infra-estrutura educacional, tecnológica,
e econômica...................................................................................................................27
3. A DINÂMICA DOS PROCESSOS DE APRENDIZAGEM .....................................31
3.1 O nível tecnológico das empresas e as possibilidades dos processos de
aprendizagem ..............................................................................................................31
3.2 Formas de desenvolvimento ou de incorporação de novas tecnologias .................35
3.3 Natureza e frequência dos fluxos tecnológicos .........................................................43
3.3.1 Relações entre empresas cerâmicas e fornecedores de insumos ................................ 43
3.3.2 Relações com o CTC.............................................................................................. .45
3.3.3 A qualificação da Mão-de-obra ................................................................................46
4. AVALIAÇÃO E PROPOSTA DE POLÍTICAS...........................................................48
4.1 A dimensão local e a capacidade para inovação tecnológica: elementos para uma
avaliação..........................................................................................................................48
4.1.2 A importância do “local” enquanto sustentação da capacitação tecnológica................49
4.1.3 A absorção de inovação de fontes externas e as possibilidades de desenvolvimento
da capacidade para inovar..............................................................................................51
4.2 Os pontos fracos do cluster.............................................................................................51
4.3 Os impactos da abertura comercial nos anos 90 e da criação do Mercosul..............52
4.4 Proposta de políticas ......................................................................................................55
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...............................................................................57
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
3
O CLUSTER DA INDÚSTRIA CERÂMICA DE REVESTIMENTO EM SANTA
CATARINA: UM CASO DE SISTEMA LOCAL DE INOVAÇÃO
INTRODUÇÃO
Santa Catarina constitui-se num importante Estado produtor de cerâmica de revestimento
do Brasil: responde por cerca de 30% da produção brasileira, a quarta maior do mundo, e por
cerca de 70% das exportações, estando instaladas no Estado as maiores e mais modernas
cerâmicas do país. A indústria de cerâmica de revestimento catarinense concentra-se na região
sul do Estado, no eixo formado pelos vizinhos Municípios de Içara-Criciúma-Cocal do SulUrussanga, mais os Municípios de Tubarão e Imbituba. Essa região, era tradicionalmente
dominada pela indústria extrativa de carvão mineral, mas, desde os anos 1970, sua estrutura
industrial evoluiu para a extração e industrialização de outros minerais não metálicos, também
abundantes no local (argilas), para uso na construção civil. Surgiu, então, um moderno parque
produtivo de cerâmica de revestimento (pisos e azulejos) de médias e grandes empresas, ao lado
de um grande contingente de micro e pequenas empresas de cerâmica vermelha (telhas e tijolos),
de tecnologia ainda quase artesanal. A presente pesquisa ocupa-se exclusivamente da cerâmica
de revestimento, sendo, entretanto, apontadas as conexões entre as duas indústrias nas análises
efetuadas e constantes do presente relató rio.
A indústria de cerâmica de revestimento do sul de Santa Catarina vem apresentando um
movimento de intensificação da especialização e complementaridade locais, a partir da maior
desverticalização das grandes empresas e da instalação no local de fornecedores de insumos, ao
lado da criação de um importante centro de tecnologia e de cursos técnicos na área cerâmica.
Essa estrutura industrial sugeriu seu estudo como um arranjo produtivo localizado, no âmbito da
pesquisa "Globalização e inovação localizada: experiências de sistemas locais no âmbito do
Mercosul e perspectivas de políticas de C&T". Nesse contexto, o objetivo do presente estudo é
analisar a experiência de arranjo local de capacitação tecnológica, na indústria cerâmica de
revestimento de Santa Catarina, com o intuito de contribuir com proposições para a formulação
de políticas de ciência e tecnologia.
Ainda que registrada a concentração industrial em duas principais empresas, considera-se
apropriada, neste documento, a denominação de cluster para a indústria cerâmica de
revestimento do sul de Santa Catarina, na acepção ao termo encontrada em KHALID e
SCHMITZ (1994), especialmente pelas características de concentração geográfica e setorial, de
desintegração vertical da produção, proporcionando condições de especialização e
complementaridade, e de existência de instituições de coordenação de nível local. Ao lado da
dimensão local, enfatizada no conceito de cluster, buscou-se compreender a dinâmica setorial
principalmente através dos conceitos de regime tecnológico e padrão de concorrência. Neste
sentido, o cluster tem sua trajetória condicionada por características da tecnologia quanto à
oportunidade, apropriabilidade e cumulatividade, bem como por características do produto e do
mercado consumidor, expressas na noção de padrão de concorrência. Nesse corte setorial, a
pesquisa apoiou-se nos resultados do ECIB (Souza et al., 1993) para a indústria ao nível
mundial, complementados com informações mais recentes de publicações especializadas.
A pesquisa de campo desenvolveu-se nos meses de outubro e novembro de 1998,
cabendo os seguintes comentários sobre sua abrangência. Em primeiro lugar, a pesquisa cobriu
atores diretamente relacionados com a produção de cerâmica de revestimento, aí compreendidas
as próprias empresas cerâmicas, os fornecedores de insumos e de máquinas e equipamentos, as
escolas técnicas, o centro de tecnologia e as instituições de coordenação, num total de 24 atores
entrevistados. Foram consideradas como pertencentes à indústria de cerâmica de revestimento as
empresas que utilizam o processo de prensagem, de massa atomizada, para a conformação do
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
4
corpo cerâmico, excluindo-se as empresas fabricantes de lajotas glazuradas, que utilizam o
processo de conformação por extrusão (consideradas como pertencentes à cerâmica vermelha).
Em segundo lugar, dado o número relativamente pequeno de atores de maior expressão, a
pesquisa buscou cobrir todo o universo dos atores principais, a partir de informações prévias
colhidas em entrevistas com as instituições de representação (sindicatos empresariais) e com
centro de tecnologia. Dificuldades operacionais, normais em pesquisa de campo (dificuldades de
agenda, recusa de atendimento, etc.), levaram a que somente um conjunto reduzido dos atores
mais importantes não foi coberto pela pesquisa. Em terceiro lugar, a pesquisa foi feita
diretamente pelos autores do presente relatório e consistiu no preenchimento de questionários
específicos para cada tipo de instituição.
O presente relatório de pesquisa está estruturado em quatro capítulos, com os conteúdos
seguintes. O capítulo primeiro ocupa-se da dimensão setorial, sendo apresentadas e discutidas as
características da indústria de cerâmica de revestimento no que se refere a regime tecnológico,
padrão de concorrência e distribuição mundial e nacional da produção. Especial destaque é dado
à organização e tendências da indústria nos países líderes no setor, Itália e Espanha. O capítulo
segundo faz a caracterização do arranjo local de cerâmica de revestimento existente no sul de
Santa Catarina, apresentando sua formação e trajetória evolutiva e sua estrutura atual, com a
identificação dos atores, seus recursos e produção e dos principais fluxos comerciais internos e
externos ao cluster. O capítulo terceiro busca identificar, a partir de um grande conjunto de
informações colhidas nos questionários, o nível tecnológico existente, as formas de capacitação e
a capacidade para inovar no cluster, bem como os principais fluxos tecnológicos internos e
externos, estes últimos vindos particularmente dos países líderes na indústria. Finalmente, o
capítulo quarto busca, inicialmente, compreender de forma conclusiva a economia do cluster
cerâmico, em especial distinguindo os aspectos locais e setoriais examinados nos capítulos
anteriores, e busca adicionalmente avaliar os impactos da abertura comercial do Brasil nos anos
90 da formação do Mercosul sobre o arranjo. E a partir dessas conclusões sobre a experiência da
indústria de cerâmica de revestimento em Santa Catarina, o capítulo apresenta proposições de
política industrial, a serem consideradas e confrontadas com elementos colhidos de outras
experiências de arranjos localizados, dentro da abrangência maior desta pesquisa.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
5
1. AS CARACTERÍSTICAS DA INDÚSTRIA DE CERÂMICA DE REVESTIMENTO
1.1. Formação e desenvolvimento
A utilização de materiais cerâmicos para revestimentos tem origem bastante antiga século 6 a. c. e, ao longo dos séculos posteriores sua produção e emprego sofrem alterações. De
caráter artesanal e de preço elevado, o que permitia acesso somente a consumidores de renda
elevada, passa a partir do pós-guerra, a ter produção industrial, tornando-se acessível a uma
faixa maior de consumidores e para uso em diferentes ambientes. No Brasil, a indústria de
cerâmica para revestimento surge a partir de antigas fábricas de tijolos, blocos e telhas
cerâmicas, que já no início do século XX começaram a produzir ladrilhos hidráulicos e, mais
tarde, azulejos, pastilhas cerâmicas e de vidro.
A cerâmica de revestimento constitui-se um segmento da indústria de transformação,
inserida no ramo de minerais não-metálicos, tendo como atividade a produção de uma
variedade de produtos destinados ao revestimento de pisos e paredes. Representa, ao lado da
cerâmica vermelha, louças, cal e vidro, uma cadeia produtiva que compõe o complexo industrial
de materiais de construção.
No Brasil, o segmento de cerâmica de revestimento é composto por cerca de 160
empresas, das quais 120 dedicam-se à produção de pisos e azulejos, e o restante à cerâmica nãoesmaltada e às louças sanitárias. As empresas são em sua quase totalidade de propriedade de
capital nacional e de pequeno, médio e grande portes. Apesar de existirem empresas com
registro da década 50, o surto de surgimento de novas empresas passa a ocorrer a partir dos anos
60, com a definição de uma política habitacional no país. O estímulo à construção civil ampliou
a demanda por produtos cerâmicos de revestimento, resultando, nos anos 70, no surgimento de
inúmeras novas empresas. Este movimento prossegue nos anos 80, com novas empresas
surgindo e passando a ocupar posições de liderança, em função da constituição ocorrer a partir
de tecnologia moderna. Em paralelo, esta década registra movimentos de concentração de
empresas movidas por processos de aquisição de fábricas pelos maiores grupos econômicos.
1. 2 Estrutura de mercado e padrão de concorrência
O Brasil situa-se entre os maiores produtores mundiais de cerâmica de revestimento,
sendo superado apenas pela produção da China, Itália e Espanha. A produção brasileira mostrase crescente nos anos 90, cuja cifra de 339,8 milhões de m2 em 1997 representa um acréscimo
próximo de 80% em relação ao volume produzido de 1989. A intensidade de crescimento do
volume produzido tem levado a aproximar-se do volume de produção da Espanha e Itália,
tradicionais países produtores de cerâmica de revestimento mundial, conforme a tabela 1.
O crescimento anual da produção brasileira de cerâmica de revestimento constitui um
indicativo das mudanças que estão ocorrendo em sua estrutura industrial. Segundo a Associação
Nacional dos Fabricantes de Cerâmica de Revestimento - Anfacer (1996), entidade que congrega
empresas produtoras de aproximadamente 70% do volume produzido nacional, as empresas
procuram fortemente implementar nos anos 90, processos de fabricação mais eficazes, com
investimentos em novas tecnologias produtivas, programas de qualidade e formação de
trabalhadores especializados visando aumentar a produção, obter certificados de qualidade
produtiva e ampliar a competitividade da indústria no exterior.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
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TABELA 1
PRINCIPAIS P RODUTORES MUNDIAIS DA INDÚSTRIA DE CERÂMICA DE REVESTIMENTO , 1990-1996.
milhões/m2
Países
1989
China
Itália
Espanha
Brasil
Turquia
Total
Fonte: Anfacer
1990
1991
213,2
172,8
423,0
228,0
186,9
213,2
172,8
837,9
1992
1993
440,0
261,0
215,7
459,0
281,0
262,9
916,7
1.002,9
1994
1995
1996
510,0
320,0
283,5
80,0
1.193,5
500,0
568,0
400,0
295,0
90,0
1.853,0
900,0
600,0
420,0
336,0
100,0
2.356,0
Este processo de reestruturação industrial que toma conta do segmento cerâmico, pode
ser compreendido pelo comportamento do volume produzido no período em análise, dividido em
dois sub-períodos, compreendendo 1989/1992 e 1993/1997. O primeiro mostra um decréscimo
do volume produzido em relação ao último ano da década de 80. Tal ocorrência decorre da
política de estabilização em curso conduzir a economia a um período de recessão e da orientação
na diretriz política promover a abertura de mercado e processos de desregulamentação. Por sua
vez, o segundo período, evidencia a demonstração de uma trajetória ascendente do volume
produzido, em seu primeiro ano superando o nível de produção anterior, motivado
pela
estabilização monetária que contribuíra para a recuperação das vendas domésticas, considerada
pelo consumo aparente, bem como, a consolidação do mercado externo como destino da parte da
produção, analisada pelo item de exportação da tabela 2.
O movimento de maior crescimento do volume produzido, ocorre a partir de 1993,
acompanhado pela intensificação dos investimentos em capacidade instalada, cujo nível de
385,0 milhões de m2 alcançado em 1997, situa-se em cerca de 1/3 a mais do volume registrado
no início da década. Neste processo, constata-se a cada ano maior aproximação do nível de
produção com a capacidade instalada, ao ponto de em 1997 esta relação chegar próxima de sua
utilização plena, 99,5%, sinalizando, por sua vez, a necessidade de intensificar os investimentos
em face do crescimento do mercado.
TABELA 2
PRODUÇÃO, EXPORTAÇÃO, CONSUMO APARENTE E CAPACIDADE INSTALADA DA INDÚSTRIA DE
CERÂMICA DE REVESTIMENTO - BRASIL 1989-1997.
milhões/m2
Anos
Produção
1989
213,2
1990
172,8
1991
166,0
1992
202,7
1993
242,9
1994
283,5
1995
295,0
1996
336,4
1997
383,3
Fonte: Anfacer
Exportação
20,3
12,7
13,9
21,1
25,6
29,7
29,4
27,9
29,6
Consumo
Aparente
192,9
160,1
152,1
181,6
217,3
253,8
265,6
308,5
353,7
Capacidade
Instalada
290,0
300,0
312,0
312,0
320,0
353,0
362,0
385,0
385,0
Exportação/
Produção
(%)
9,5
7,3
8,4
10,4
10,5
10,4
9,9
8,3
7,7
Consumo aparente/Produção
(%)
90,4
92,6
91,6
89,5
89,4
89,5
90,0
91,8
92,2
Produção/capac.instalada
(%)
73,5
58,0
53,2
65,0
75,9
80,3
81,4
87,3
99,5
A produção brasileira de revestimento está distribuída em 5 regiões, todavia, está
concentrada em apenas 2 regiões - Sul e Sudeste, através de 4 pólos que reúnem as empresas
responsáveis pela maior parcela da produção: a) região de Ciciúma no Estado de Santa Catarina,
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
7
abrangendo também as localidades de Tubarão, Urussanga e Imbituba; b) a região da grande São
Paulo, abrangendo Diadema, São Caetano do Sul, Suzano, com extensão até Jundiaí; c) a região
de Mogi-Guaçu, no Estado de São Paulo; e d) a região de Cordeirópolis e Santa Gertrudes,
também no Estado de São Paulo. Além destes existem
outros importantes
produtores
localizados em Curitiba (PR) e Tijucas (SC). Em 1996, as regiões Sul e Sudeste foram
responsáveis por 91,1% da produção nacional, elevando-se, em 1997 para 92,0%, conforme a
tabela 3. Deste percentual, cerca de 75% da produção foram originadas dos Estados de São Paulo
e Santa Catarina.
A concentração da produção nestas regiões deve-se à proximidade do mercado
consumidor, onde o consumo aparente registra percentual da ordem de 77% do volume
produzido, do que a disponibilidade de matérias-primas, uma vez que esta encontra-se presente
na maioria das regiões do país. Em consonância com este fator determinante da localização
industrial, ocorre nestas regiões uma especialização produtiva com a ocorrência de economia de
aglomeração industrial, motivada pela concentração das relações econômicas entre produtores,
fornecedores e distribuidores. Das 10 novas empresas do setor que iniciaram atividades em 1996,
apenas uma não está localizada em Santa Catarina e São Paulo (Anuário, 1996: 13).
TABELA 3
CAPACIDADE INSTALADA E CONSUMO APARENTE DA INDÚSTRIA CERÂMICA DE REVESTIMENTO
POR REGIÕES - BRASIL 1996 E 1997.
Regiões
Sul
Sudeste
Nordeste
Norte
Centro-Oeste
Total
Fonte: Anfacer
Capacidade instalada (%)
1996
1997
34,0
33,0
57,1
59,0
5,8
5,0
0,9
1,0
2,2
2,0
100,0
100,0
Consumo aparente (%)
1996
1997
20,0
18,0
57,0
59,0
13,0
11,0
3,0
4,0
7,0
8,0
100,0
100,0
A indústria brasileira de revestimento apresenta como característica elevada concentração
da produção, sob a responsabilidade de poucos grupos industriais. O peso das grandes empresas
pode ser constatado através de cerca de 40% da capacidade instalada e 55% do faturamento
serem, em 1992, provenientes de apenas 4 grupos industriais, que detêm aproximadamente mais
de 20 unidades industriais. Entre os líderes, existem grupos que mantêm unidades produtivas em
vários Estados como estratégia de se aproximarem do mercado consumidor e se tornarem mais
competitivos em relação aos concorrentes situados em regiões mais distantes.
Em contraste com a concentração geográfica do consumo interno, o destino das
exportações brasileiras de revestimento cerâmico encontra-se melhor distribuído por continente.
Exportando cerca de 30,0 milhões de m2, próximo de 8% do volume produzido, o país tem
como principais mercados a América do Norte, Mercosul, América Latina, excluindo este último
mercado e a Europa. Esta quantidade é considerada pequena, em comparação aos seus principais
concorrentes internacionais, Itália e Espanha, que em média exportam 60% e 45% da produção,
respectivamente. Por sua vez, o quadro de distribuição da produção conforme a tabela 4,
evidencia o crescimento das vendas externas destinadas ao Mercosul, de 16,6% em 1996 para
26,8% em 1997, demonstrando a estratégia recente da indústria em privilegiar este mercado em
detrimento de outros, situados não somente dentro da América Latina como a Ásia, Oceania e
África.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
8
Por sua vez, as empresas diferem quanto à parcela da produção que destinam às
exportações. Existem empresas, sem se constituírem líderes em produção, que apresentam maior
intensidade de exportação, alcançando de 30 a 35% do faturamento com vendas para outros
países. Todavia, a exemplo da concentração da produção, as exportações mostram-se fortemente
concentradas em poucas empresas, que segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de
Cerâmica de Revestimento - Anfacer, 4 empresas respondem por 75% do faturamento obtido
com vendas para o exterior (Markwald e Guimaraes, 1995:43).
DESTINO
DAS
EXPORTAÇÕES
Mercados
América Latina - Sem Mercosul
América do Norte
Ásia
Oceania
Europa
África
Mercosul
Total
Fonte: Anfacer
TABELA 4
DA INDÚSTRIA DE CERÂMICA DE
E 1997.
REVESTIMENTO - BRASIL 1996
1996 (%)
1997 (%)
27,7
29,9
1,0
5,8
13,2
5,8
16,6
100,0
20,2
30,9
0,5
5,2
12,2
4,2
26,8
100,0
Constata-se, por seu turno, que apesar da produção de cerâmica mostrar-se crescente, tem
ocorrido mudança em seu perfil - crescimento da produção de pisos em detrimento da produção
de azulejos. Informações contidas na tabela 5 mostram a próxima duplicação da produção e
venda de pisos cerâmicos para o mercado interno, em contraste com a redução da produção e
venda de azulejos São vários fatores responsáveis por esta ocorrência: fechamento de diversas
fábricas de azulejos em razão da retração de mercado interno nos primeiros anos desta década;
surgimento de novo mercado para consumo de pisos a partir do desenvolvimento tecnológico em
design utilizável em salas, escritórios, liwings, fachadas de edifícios, revestimento de
restaurantes e shopping e outros; diversificação de produção nas fábricas tradicionais que
passaram a produzir intensamente pisos; e implantação de novas plantas industriais com
produção flexível de pisos voltada para o mercado externo.
TABELA 5
PRODUÇÃO, VENDAS INTERNAS E EXPORTAÇÃO DE AZULEJOS E PISOS DA INDÚSTRIA CERÂMICA
DE REVESTIMENTO - BRASIL 1989-1997.
Anos
Produção
1989
99,6
1990
71,4
1991
62,4
1992
69,9
1993
74,5
1994
71,1
1995
64,9
1996
62,6
1997
65,3
Fonte: Anfacer
Azulejos
(em milhões de m2)
Vendas
Exporta- Exportação/
Internas
ção
produção (%)
84,3
16,7
16,7
69,3
9,9
13,8
62,7
10,7
17,1
55,3
14,6
20,8
57,8
15,4
20,6
56,7
18,1
25,4
48,7
16,8
25,8
47,3
14,4
23,0
49,9
14,3
21,8
Produção
113,6
101,4
103,6
132,8
168,4
212,4
230,1
273,8
318,0
Pisos
(em milhões de m2)
Vendas
ExporInternas
tação
105,1
3,6
88,6
2,8
87,2
3,2
123,8
6,5
156,3
10,2
203,2
11,6
212,9
12,6
261,8
13,5
289,9
15,3
Exportação/
produção(%)
3,1
2,7
3,0
4,8
6,0
5,4
5,5
4,9
4,8
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
9
A diferença entre a produção de azulejos e pisos mostra-se, também, no comportamento
das vendas externas. Em que pese, a redução do volume produzido de azulejos, o mercado
externo tem-se consolidado como destino de sua produção, chegando a absorver cerca de 25%
do volume produzido nos últimos anos. Por outro lado, o coeficiente de exportação do segmento
de pisos cerâmicos estabiliza-se ao redor de 5% da produção, demonstrando que apesar da
indústria estar de forma crescente dedicando maior parcela de produção para este segmento, o
mercado externo não se tem constituído seu principal espaço para vendas.
O padrão de concorrência da indústria de cerâmica de revestimento, segundo Estudo da
Competitividade da Indústria Brasileira – ECIB, é resultante da heterogeneidade de custos, dos
diferenciais de qualidade e diferenciação de produto, permitindo ocorrência de uma situação
combinada entre a liderança de custo e a liderança pela diferenciação de produto (Souza et all,
1993:42).
No tocante aos diferenciação de custos existentes no segmento cerâmico de revestimento,
observam-se duas ocorrências nas empresas: a primeira resultante de esforços de modernização
do processo de produção e da introdução de novas formas organizacionais e, a segunda,
decorrente da prática de sonegação fiscal, descumprimento de legislação trabalhista,
desconsideração às
questões ambientais e produção em não-conformidade com as normas
técnicas vigentes.
Os produtos, por sua vez, apresentam diferentes níveis de qualidade
que resultam em
diferenças de preços em disputa no mercado. Esta característica ocorre entre as empresas
consideradas grandes e líderes do mercado, e as de outros tamanhos, pequenas e médias, uma
vez que entre as primeiras, o nível tecnológico e o padrão organizacional são semelhantes e não
possibilitam diferenças de preços significativas entre si.
Frisa-se, também, como parte do padrão de concorrência setorial, a existência de produtos
substitutos à disposição no mercado. A cerâmica para revestimento concorre com inúmeros
produtos no âmbito do pisos como as pedras naturais,
revestimentos têxteis, madeiras,
laminados de madeira, laminados de melamínicos,
concretos pré-fabricados ou moldados e
argamassas. Assim como,
no âmbito das paredes, depara-se com pinturas, argamassa,
revestimentos têxteis, revestimento de madeira, revestimento de pedras naturais e concreto
aparente.
É característico do padrão de concorrência do setor os produtos cerâmicos apresentarem
significativa diferenciação. Empresas adotam a estratégia de desenvolvimento de linhas de
produtos diferenciadas visando atender diferentes níveis do mercado consumidor. Colocam
ênfase às características de qualidade de produto em seus aspectos físicos e estéticos, através do
desenvolvimento tecnológico do produto. Para tanto, desenvolvem capacidade interna de
pesquisa e mantêm relações com fornecedores visando alterar a composição e o design dos
produtos.
As empresas líderes apresentam marcas consolidadas no mercado consumidor, cujos
atributos de qualidade e preço servem de padrão de referência para o mercado em geral. Estas
adotam estratégia de maior consolidação de suas marcas através de ações voltadas à
comercialização mais ágil e moderna de seus produtos, aperfeiçoando as relações com
distribuidores, instalando show-rooms
nos principais centros consumidores e desenvolvendo
projetos de lojas monomarcas por meio de franquias.
Em consonância com esta estratégia, empresas colocam pessoal técnico especializado
para dar sugestões a clientes, visando influenciar suas decisões no mercado. Este corpo técnico
elabora projetos específicos, fornece explicacões sobre a especificação dos produtos e orienta
instalação dos produtos cerâmicos em pisos ou paredes. Além desta orientação, empresas
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
10
procuram criar condições para recebimento de sugestões de clientes quanto a qualidade,
tamanho, desenho, assentamento, etc.
O setor não está isento de concorrência predatória e de ocorrência de períodos de guerra
de preços entre produtores. Como é relevante a participação no volume produzido de empresas
que adotam procedimentos baseados em não-conformidade técnica e no não cumprimento da
legislação vigente, em períodos de queda do poder aquisitivo, recessão na indústria de
construção civil e de elevação de estoques, tais procedimentos se manifestam e tornam o fator
preço predominante na concorrência entre as empresa (Ibid., p. 43).
Segundo o ECIB, as empresas líderes mundiais utilizam-se de fatores estruturais que
permitem
obter
vantagens
competitivas
colocadas
em:
concentração
geográfica;
desverticalização produtiva; fortes relações inter e intra-setoriais;
especialização produtiva;
fortalecimento da organização setorial; centrais de preparação de massa para atendimento de
várias empresas; investimentos em P&D de forma cooperativa; e aperfeiçoamento de unificação
de novas técnicas (Ibid., p..35).
No âmbito do fatores empresariais colocados pelo padrão internacional da indústria
cerâmica, podem ser citados, para efeito comparativo: a descentralização das decisões,
profissionalização e abertura de capital; empregos de técnicas e modelos de gestão avançada;
gestão participativa e sistema de participação nos lucros; sistema de qualidade total e certificação
de empresas segundo padrões internacionais; flexibilidade da produção; formação e treinamento
de recursos humanos; uso de tecnologias avançadas; e capacidade de inovar em processo e de
produtos (Ibid.).
Os principais fatores sistêmicos colocados em nível internacional, que contribuem para
obtenção de vantagens competitivas das empresas são: utilização de fonte energética mais
adequada, eficiência no sistema de transporte, desenvolvimento tecnológico - incentivo
governamental e criação de centros de P&D, sistema educacional, legislação ambiental e
exigências de certificações técnica e de produtos (Ibid.).
1.3. Regime tecnológico
A tecnologia na indústria cerâmica tem apresentado uma relativa continuidade no seu
desenvolvimento, indicando a estabilidade do atual padrão tecnológico. A tecnologia tem
seguido uma rota que procura resolver trade-offs entre atributos do produto, como a absorção de
umidade, resistência a ataques químicos e físicos, e sua capacidade decorativa (beleza do
desenho) e funcionalidade no uso de seus custos de produção. Nesta trajetória, a solução dada
pelo processo de monoqueima, após as fases de prensagem da massa e de sua esmaltação,
agregou recentemente a possibilidade de eliminar a fase de esmaltação, como o desenvolvimento
de uma massa que melhora os atributos do produto, reduzindo a sua capacidade de absorção de
umidade, ampliando sua capacidade de resistência e mantendo as condições de decoração
(grêsporcelanato).
Com um dinamismo tecnológico característico dos setores “dominados por
fornecedores”, as inovações que marcam sua trajetória originam-se nos setores produtores de
equipamentos e de insumos básicos, afetando os processos produtivos e também as
características e qualidades de seus produtos. Tais inovações de natureza incremental, são
introduzidas na indústria pelas modificações nos equipamentos para mistura da massa e do
esmalte, para prensagem da massa, para esmaltação, para queima do produto e sua seleção. Outra
fonte importante tem sido a incorporação de novos insumos ou de novas formulações na
preparação da massa e principalmente do esmalte, proporcionando inovações nos produtos. As
inovações em produtos relacionam-se às possibilidades de modificações nos atributos dos
produtos, proporcionando-lhes diferentes condições de resistência, com usos diferenciados (pisos
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
11
anti-derrapantes para ambientes externos, ou com qualidades de brilho para afetar as condições
de iluminações em interiores) e com características de decoração proporcionada pelos desenhos
dos produtos.
A maturidade do desenvolvimento tecnológico aponta para reduzidas condições de
oportunidades tecnológicas reforçadas pelas possibilidades de aplicação dos conhecimentos
tecnológicos a um leque de produtos básicos reduzidos e também pela fonte do desenvolvimento
tecnológico localizar-se parcialmente “fora” da indú stria, nos setores produtores de
equipamentos e insumos, cujo estágio de desenvolvimento maduro de tecnologia, tem
possibilitado somente o aparecimento de inovações incrementais, resultante de aperfeiçoamento
de produtos já existente, conforme a tabela 6.
TABELA 6
INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS INCREMENTAIS P ARA A INDÚSTRIA DE CERÂMICA DE REVESTIMENTO
1983-1994.
Ano
1983
1985
1986
1986
1987
1992
1992
1994
Fonte: Lemos e Vivona (1997).
Produto e Processo
Local
Formação a partir do granulado
Moagem contínua a úmido
Esmaltação quente – Enduro
Forno I.T.P.
Secador a rolo
Serigrafia em pó
Estampo Isostático
Impressão Rotocolor
Holanda
Itália
Itália
Itália
Itália
Itália/ Alemanha
Itália
Itália
Também ocorrem nas empresas cerâmicas baixas condições de apropriabilidade dos
resultados econômicos na introdução de inovações refletem-se na facilidade de difusão. Nestas
condições, a forma mais característica de apropriabilidade é a introdução contínua de inovações
incrementais, que estimulam a diferenciação do produto e encurtam o seu ciclo de vida. A base
de conhecimento para o desenvolvimento tecnológico é amplamente difundida na indústria e, em
condições de estabilidade no paradigma tecnológico, a continuidade das atividades inovativas no
nível da firma relaciona-se aos processos de aprendizagem que permitem absorver as inovações
com níveis relativamente baixos de cumulatividade tecnológica.
O conhecimento que sustenta o desenvolvimento tecnológico, se expressa na combinação
de disciplinas como a química, a mineralogia e a engenharia de materiais com aplicação a um
produto específico e sem as características dinâmicas próprias da cerâmica fina, que é outro
campo de aplicação destes conhecimentos. Nestas condições, o conhecimento é amplamente
codificado e de fácil transmissão, cuja tacitividade reduz-se às possibilidades de adaptação
incrementais na absorção de inovações de fontes externas. A possibilidade de identificar e
restringir sua aplicação a produtos que não envolvem interações de sistemas tecnológicos
complexos, indica também a menor complexidade do conhecimento e, em decorrência, a
necessidade de domínio de competências específicas e menos complexas para introdução das
inovações.
Considerando-se as características da
oportunidade tecnológica, as condições de
apropriabilidade e de cumulatividade, bem como natureza dos conhecimentos tecnológicos da
indústria, a estrutura industrial tende a ser menos concentrada e com uma certa estabilidade,
sinalizando para uma distribuição mais equilibrada das capacidades inovativas entre as empresas.
Essas características da dinâmica tecnológica da indústria cerâmica têm implicações para as
formas de capacitação tecnológica nas empresas. Nestes casos, são menos relevantes os
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
12
processos de capacitação através de altos investimentos em pesquisa e desenvolvimento e
adquirem importância a capacitação através de formas de aprendizagem relacionadas ao learning
by doing, learning by using e learning by interacting.
1.4. As características da indústria e a formação de cluster
A indústria brasileira de revestimento cerâmico posiciona-se entre os maiores produtores
mundiais, cujo nível de produção da ordem de 355 milhões de m2 distribuídos em 82% em pisos
e 18% em azulejos, em 1997, constitui resultado de uma evolução crescente de investimentos na
capacidade produtiva ocorrida ao longo da década de 90, sobretudo nas regiões sul e sudeste nas
quais se concentram 92% da capacidade instalada. Desta produção, cerca de 92,3 % destinam-se
ao mercado interno, e o restante, 7,7%, equivalente a 30 milhões de m2 são exportados, cujos
dois principais mercados são América do Norte (30,9%) e o Mercosul (20,2%).
Esta indústria, encontra-se com o nível tecnólogico em correspondência com o nível
existente no padrão de produção internacional. Tal fato decorre do ambiente tecnológico indicar
estabilidade no paradigma tecnológico, com as inovações provenientes do setor “dominado por
fornecedores de tecnologia” se processarem em níveis de processos e produtos de forma
incremental. Esta condição, por seu turno, aponta para reduzidas condições de oportunidade
tecnológica, baixas condições de apropriabilidade dos resultados econômicos e cumulatividade
do conhecimento tecnológico amplamente difundida. Com isso, a indústria não dedica fortes
inversões em capacitação tecnológica, se prestando a desenvolver formas de aprendizagem
tecnológica.
Seu padrão de concorrência caracteriza-se pela heterogeneidade de custos e pela
diferenciação de produtos. Existem empresas que reduzem custos em função da modernização de
processos produtivos e mudanças organizacionais, assim como existem aquelas que se utilizam
de procedimentos de não cumprimentos técnicos e legais. Por sua vez, é forte a vocação por
diferenciação de produtos, cujos esforços resultam em distintos níveis de qualidade e de preços
praticados entre as empresas de diferentes tamanhos. A ênfase à diferenciação de produtos se
traduz em estratégias voltadas a desenvolvimento tecnológico de produto e em ações
direcionadas em consolidação de marcas no mercado.
Os fatores de competitividade característicos da indústria cerâmica em nível internacional
apontam, no âmbito estrutural, como principais, itens a concentração geográfica,
desverticalização produtiva, fortes relações inter e intra-setoriais e especialização produtiva. No
tocante ao contexto empresarial, os principais fatores são: descentralização das decisões,
flexibilidade produtiva, emprego de técnicas e modelos de gestão avançada, uso de tecnologia
de fronteira e capacidade de inovar em processo e produtos. Enquanto, os elementos relevantes
da competitividade sistêmica que contribuem para obtenção de condições competitivas são: uso
adequado de fonte energética, sistema educacional avançado e incentivo governamental ao
desenvolvimento tecnológico e a criação de centros de P&D reunindo a cadeia produtiva.
A estrutura de produção cerâmica acha-se situada entre os países líderes, Itália e Espanha,
sob forte concentração geográfica. Em regiões produtivas, constata-se a formação de um sistema
produtivo local com ocorrência de economias de aglomeração, em que a divisão do trabalho e a
especialização produtiva redundam em maior eficácia produtiva e em introdução de novas
tecnologias. Neste ambiente, relações se manifestam entre os agentes fornecendo condições
para que as empresas localizadas possam adquirir ganhos competitivos provenientes de
relacionamento cooperativo (Courlet, 1993:13).
Um conjunto de elementos locais produz ganhos de competitividade para as empresas no
interior da região produtiva, que seria difícil para uma empresa obtê-lo de forma isolada. Gerase uma eficiência coletiva decorrente de vantagens competitivas obtidas com as externalidades
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
13
locais e de ações conjuntas promovidas pelas empresas presentes na localidade do distrito
industrial (Schmitz, 1992: 65). Alguns destes ganhos podem ser verificados pela geração de
economias de escala interna e externa manifestada através da redução dos custos de diferentes
formas; promoção de fácil circulação de informações por meio de contatos diários; criação de
capacidade de inovação a partir da geração de sinergias produtivas; constituição de serviços
técnicos especializados, serviços financeiros e de estrutura de formação de trabalhadores com
habilidades específicas, entre outros.
Estas vantagens competitivas obtidas através da constituição de cluster de empresas,
decorrem de características da estrutura produtiva e de condições locais que se expressam, não
de forma semelhante em todas as atividades que apresentam modelo comunitário,
mas
preservam grande parte de seus elementos constitutivos, tais como: concentração geográfica e
setorial em torno da cadeia produtiva principal; predominância de pequenas e médias empresas
e ausência de uma firma lider que imponha barreiras à entrada no setor; presença de
encadeamentos econômicos para frente e para trás; constituição de especialização produtiva em
nível local, em decorrência de uma indústria importante que liga em um conjunto vários setores
relacionados ao produto típico local; desintegração vertical em nível de empresa e alto nível de
divisão de trabalho entre as mesmas; condições produtivas que estimulam a acumulação do
conhecimento científico e a introdução de novas tecnologias; existência de um sistema eficiente
de transmissão de informação ao nível local; existência de competição-cooperativa entre as
empresas; aumento das relações diretas entre os agentes econômicos - fornecedores e usuários
com produtores; suporte ativo de instituições pública-privada aos agentes econômicos dentro do
território; presença de trabalhadores qualificados e especializados; e uma identidade sóciocultural que facilita a cooperação local (Schmitz, 1993 e Schmitz e Musyck, 1993)
Nestes termos, suscita verificar a existência das características que conformam um
cluster na indústria de cerâmica de revestimento, em um pólo regional específico localizado no
Sul do Estado de Santa Catarina. A concentração de empresas cerâmicas de revestimento,
fornecedores de insumos e de máquinas e equipamentos e a presença de outras instituições
pública e privada de apoio a esta atividade produtiva, induzem ao estudo com o objetivo de se
verificar o nível de economia de aglomeração e o grau de eficiência coletiva que contribuem para
o desenvolvimento de um sistema localizado de inovações, como será discutido nos capítulos a
seguir.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
14
2. O CLUSTER DE CERÂMICA DE REVESTIMENTO NA REGIÃO SUL DO ESTADO
DE SANTA CATARINA
2.1. A formação do cluster cerâmico
O cluster cerâmico localiza-se no Estado de Santa Catarina, no Sul do Brasil. Em seu
contorno mais amplo, o cluster abrange toda a região Sul do Estado Catarinense, reunindo uma
população de pouco mais de 750 mil habitantes, num raio de aproximadamente 100 km em torno
de Criciúma - a cidade-pólo de 160 mil habitantes. Este contorno maior inclui Tubarão - uma
cidade de porte médio, a cidade portuária de Imbituba e a cidade de Araranguá, ao sul de
Criciúma. A maior parte do cluster, entretanto, está contida num anel de menos de 20 km em
torno de Criciúma, sendo constituído pelo município-sede e por municípios menores, entre eles
Içara, Urussanga, Morro da Fumaça e Cocal do Sul.
A formação industrial da região Sul de Santa Catarina ocorreu na direção do
aproveitamento de seus recursos minerais, por longo tempo com a atividade de extração de
carvão mineral e, nas últimas décadas, com a extração de argila, caulim e quartzo, e sua
industrialização para cerâmica. Até 1970, a estrutura industrial era fortemente concentrada na
extração de carvão mineral, sendo conhecida como "região carbonífera catarinense". A
exploração do carvão vem de longa data, desde fins do século XIX, quando foi construída uma
via férrea ligando a região carbonífera com o porto de Imbituba, acerca de 100 km de distância.
Em 1970, os dados do IBGE (tabela 7) mostram que a indústria extrativa mineral
respondia por 61% da força de trabalho e por 70% do valor da transformação industrial de
Criciúma. Entretanto, os dados do censo de 1980 já apontam para uma forte crise na extração de
carvão e para um movimento na direção de maior diversificação industrial da região, com
deslocamento de recursos para a industrialização de minerais não metálicos (argilas) e, em
menor grau, para outras indústrias, como têxtil/vestuário e química, esta última indústria com
forte ligação com o setor cerâmico. Nessa nova configuração produtiva, a cerâmica de
revestimento aparece como o setor mais importante da economia regional.
Esse movimento de diversificação regional continuou nos anos 80, de tal forma que, em
1985, o gênero de indústria extração de minerais não figura mais entre os quatro principais
gêneros de indústria de Criciúma. No gênero de minerais não metálicos, além da cerâmica de
revestimento, a região sul de Santa Catarina destaca-se também como pólo de cerâmica vermelha
para construção, contendo um grande número de pequenos estabelecimentos, de nível
tecnológico, entretanto, muito inferior ao alcançado pela cerâmica de revestimento.
TABELA 7
PARTICIPAÇÃO DOS PRINCIPAIS GÊNEROS INDUSTRIAIS NO TOTAL DE PESSOAL OCUPADO E DO
VALOR DA TRANSFORMAÇÃO INDUSTRIAL DO MUNICÍPIO DE CRICIÚMA, 1970/80/85
Gêneros de Indústria
Extração de minerais
Transf.minerais não metal.
Têxtil/vestuário
Alimentos
Química
Outros gêrneros
Total da indústria
Fonte: IBGE, Censos Econômicos.
Pessoal ocupado (%)
1970
1980
61
29
15
22
6
14
6
7
n.d.
n.d.
12
28
100
100
1985
n.d.
18
21
5
n.d.
56
100
Valor da Transf.Industrial(%)
1970
1980
1985
70
32
n.d.
10
33
25
4
5
10
5
3
8
1
10
9
10
17
48
100
100
100
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
15
O cluster de cerâmica de revestimento na região sul de Santa Catarina surgiu nos anos
70, difundiu-se nos anos 80 e passa por reestruturação produtiva na presente década (ver quadro
1). Anteriormente à década de 1970, existiram algumas unidades pioneiras de cerâmica de
revestimento, produzindo de forma quase artesanal, como a cerâmica Imbituba, uma das mais
antigas do Brasil, fundada em 1918, e a cerâmica Cesaca, de Criciúma, hoje desativada. Antes de
1970, ocorreu também a fundação da cerâmica Eliane, hoje o maior grupo cerâmico do país, e a
cerâmica Urussanga - Ceusa.
Mas, é nos anos 70 que o cluster começa a caracterizar-se, com a construção da primeira
unidade produtiva do grupo Cecrisa (1971) e seu crescimento ao longo da década e a expansão
do grupo Eliane. Estes dois grupos passaram a dominar a produção de cerâmica de revestimento
do Sul de Santa Catarina e a expandir-se para outras regiões do Brasil. No final da década de 70,
dá-se início ao sentido de complementaridade produtiva hoje observado no cluster, com o
surgimento de novos atores: trata-se da criação, pelo grupo Eliane, do Colégio Maximiliano
Gaidzinski, com curso técnico em cerâmica, ao nível de 2o grau, a criação da empresa Industrial
Conventos-ICON, pelo grupo Cecrisa, para produção, adaptação e consertos de máquinas e
equipamentos para cerâmica, e a vinda da multinacional norte-americana, Ferro Enamel, para a
região, para produzir fritas e distribuir corantes e aditivos químicos, necessários à produção do
esmalte cerâmico.
Os anos 80 caracterizam-se pela expansão das cerâmicas, com o surgimento de três
empresas de médio porte - Itagrês em Tubarão, Vectra em Içara, e De Lucca em Criciúma - e
com a expansão dos grupos Cecrisa (construção das cerâmicas Eldorado e Portinari) e Eliane.
Nessa década, surge ainda uma nova fábrica de insumos para esmalte - a Manchester Química,
em Criciúma.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
16
QUADRO 1: CRONOLOGIA DE FORMAÇÃO DO CLUSTER CERÂMICO - INDÚSTRIA CERÂMICA DA
REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Períodos
Principais eventosa
Antes de 1970
-
Anos 70
-
Anos 80
Anos 90
-
Criação da Cerâmica Imbituba (1918)
Criação da Cerâmica Santa Catarina-CESACA
Construção da unidade pioneira que deu origem à cerâmica Eliane (1960)
Criação da Cerâmica Urussanga-CEUSA
Criação do curso técnico de 1o grau da SATC-Sociedade de Assistência aos Trabalhadores
do Carvão
Construção da unidade pioneira do grupo Cecrisa, em Criciúma (1971)
Criação do curso técnico de 2o grau da SATC (1971)
Construção da fábrica de azulejos Incocesa, em Tubarão, adquirida pelo grupo Cecrisa em
1974
Grupo Eliane constrói novas unidades de produção.
Criação da Industrial Conventos-ICON, para produção máquinas e equipamentos
cerâmicos, pelo grupo Cecrisa.
Criação do Colégio Maximiliano Gaidzinski, com curso técnico de 2o grau em cerâmica,
pelo grupo Eliane (1979)
A multinacional norte-americana Ferro Enamel constrói unidade de produção de fritas para
esmalte em Criciúma (1979)
Criação da cerâmica Itagrês em Tubarão (1982)
Criação da cerâmica Vectra em Içara (1983)
Criação da fábrica de aditivos para esmalte da Manchester Química em Criciúma (1983)
Cecrisa constrói as cerâmicas Eldorado (1986) e Portinari (1988) em Criciúma
Criação da cerâmica De Lucca em Criciúma (1989)
A empresa espanhola Esmalglass abre posto de distribuição de fritas em Criciúma (1990)
Início de funcionamento do Centro de Tecnologia em Cerâmica-CTC em Criciúma (1995)
A empresa italiana SRS do Brasil instala unidade de pro dução de telas serigráficas em
Criciúma (1993)
A empresa CCT do Brasil abre unidade de distribuição de insumos para esmaltes no
cluster
A empresa espanhola Fritas SL abre posto de distribuição de fritas em Criciúma (1994)
Unidade de produção de grês porcelanato da Eliane inicia produção (1996)
Esmalglass inicia a produção de fritas e aditivos em Criciúma (1996)
A Universidade do Sul de Santa Catarina-UNESC abre curso superior de Tecnólogo em
Cerâmica (1995)
A empresa espanhola Torrecid inaugura fábrica de fritas e aditivos para esmalte em Içara
A empresa italiana Colorobia mantém posto de distribuição de fritas e aditivos para
esmalte em Criciúma
A empresa Cominas, do grupo Cecrisa, inicia fornecimento de minerais a cerâmicas fora
do grupo
Manchester Química está construindo nova fábrica de insumos no cluster
A empresa Fritas SL planeja produzir fritas no cluster em 1999.
Cerâmica Gabriela, de pequeno porte, prevê início de produção para 1999.
Sindiceram-Sindicato das empresas cerâmicas faz convênio para transporte em contêineres
por ferrovia de revestimentos cerâmicos até o porto de Imbituba (1999)
Previsão para fornecimento de gás natural para cerâmicas (ano 2000)
a
Este quadro não esgota a totalidade dos eventos, apenas destaca eventos importantes, colhid os na pesquisa de
campo.
Fonte: pesquisa de campo.
Os anos 90 são marcados por intensa reestruturação produtiva no cluster cerâmico, com
movimentos de forte modernização dos equipamentos, redução do quadro de pessoal e de
terceirização de atividades, esta última especialmente na área de esmaltação. Estes movimentos
implicaram, primeiro, no grande volume de importações de máquinas e equipamentos da Itália
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
17
pelas cerâmicas do cluster, com baixa dinamização das poucas empresas locais de máquinas e
equipamentos, e, segundo, na abertura, na região, de filiais de firmas estrangeiras (espanholas e
italianas) produtoras de insumos químicos para cerâmica. A estratégia de focalização na
atividade cerâmica, adotada pelas empresas da região, notadamente pelos dois grupos, implicou
na oportunidade de abertura de novas empresas e instituições, dando ao cluster maior
complexidade. Assim, além da área de esmaltes, a terceirização está alcançando as áreas de
extração e transporte de minerais, de produção de telas serigráficas, de design, e a área
laboratorial, em que é digna de nota a criação do Centro de Tecnologia em Cerâmica-CTC, pelo
SENAI em conjunto com o Laboratório de Materiais da UFSC e com o Sindicato de Empresas
Cerâmicas.
A formação do cluster cerâmico na região sul de Santa Catarina, constituiu-se,
inicialmente, com o capital local, no caso das empresas cerâmicas, e nos anos recentes com o
aporte de capitais estrangeiros, no caso das empresas de insumos para esmaltes. As origens do
capital local fogem ao alcance deste estudo, cabendo apenas alguns apontamentos colhidos na
pesquisa de campo. Há uma clara vinculação com a economia do carvão na formação do grupo
Cecrisa, cujo proprietário possuía anteriormente uma mineradora de carvão. Há exemplos
importantes de acumulações iniciais de capital na cerâmica vermelha (é o caso da empresa
Vectra e de empresas menores que transitaram da cerâmica vermelha para a cerâmica de
revestimento - como as empresas Moliza e Pisoforte) e da produção de refratários (caso da
Itagrês). Observa-se também a criação de diversas empresas do cluster, a partir de
desmembramentos de outras cerâmicas preexistentes e de experiências profissionais acumuladas.
É o caso do grupo Eliane, que teve seu início com a aquisição da antiga cerâmica Cocal, da De
Lucca, cujos proprietários detinham participação de capitais na antiga cerâmica Cesaca, da
Cominas e da Icon, oriundas do grupo Cecrisa, e da Pisoforte, a partir de experiência profissional
na empresa Eliane. A acumulação de capital com a atividade cerâmica permitiu aos grupos
Eliane e Cecrisa a expansão para fora do cluster, com a construção e aquisição de unidades em
outros Estados do país.
O cluster de cerâmica de revestimento da região sul de Santa Catarina é constituído por
um conjunto de empresas e entidades que podem ser divididas em seis grupos principais: as
empresas cerâmicas, as empresas fornecedores de insumos, as empresas fornecedoras de
máquinas e equipamentos, as instituições de ensino técnico, as instituições de tecnologia e as
instituições de coordenação. A pesquisa de campo identificou, num levantamento inicial, um
total de 41 atores de maior importância localizados na área e diretamente envolvidos no cluster,
dos quais 15 são cerâmicas, 14 são fornecedores de insumos, 5 são fornecedores de máquinas e
equipamentos, 4 são instituições de ensino, 1 instituição de tecnologia e 2 instituições de
coordenação geral. A tabela 8 mostra, por grupo, o número total de atores e o número de atores
da amostra em que se baseou o presente estudo.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
18
TABELA 8
NÚMERO DE ATORES DO CLUSTER CERÂMICO E DA AMOSTRA - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO
SUL DE SC – 1998.
Atores
I - Cerâmicas
1. Pequeno porteb
2. Médio porte c
3. Grande ported
Subtotal
II - Fornecedores de Insumos
1. Pontos de distribuição
2. Unidades de produção
Subtotal
III - Máquinas e equipamentos
1. Pontos de distribuição
2. Unidades de produção
Subtotal
IV - Instituições de ensino
técnico
Número total de atoresa
Capital nacional
Capital externo Total
6
7
0
0
0
0
6
7
2
15
0
4
4
6
4
10
6
8
14
1
4
5
0
0
0
1
4
5
4
0
4
2
15
Nº de atores da
amostra
0
5
2
7
3
4
7
1
2
3
4
V - Instituições de tecnologia
1
0
1
1
VI - Instituições de
coordenação
2
0
2
2
a
b
Estimativas com base em pesquisa de campo; Empresas até 99 empregados; c Empresas entre 100 e 499
empregados; d Empresas com mais de 500 empregados .
Fonte: Pesquisa de campo.
Como se observa pelos dados da tabela 8, a pesquisa de campo cobriu mais de 50% do
universo do arranjo, abrangendo um total de 24 atores entrevistados. A análise da estrutura atual
do cluster é feita nas seções seguintes do presente capítulo, caracterizando-se os atores do
segmento produtivo, na seção 2.2.2, e os atores responsáveis pela infra-estrutura educacional,
tecnológica, econômica e financeira, na seção 2.3.
2.2. A estrutura atual do cluster cerâmico - segmento produtivo
2.2.1. Principais atores, recursos e rede de transações
O segmento produtivo do cluster é constituído por três conjuntos de empresas: as
cerâmicas, os fornecedores de insumos e os fornecedores de máquinas e equipamentos. Cada um
destes conjuntos é caracterizado a seguir. Na seção 2.2, são examinadas as condições atuais de
financiamento e as perspectivas de investimento do segmento produtivo.
a) Cerâmicas
As cerâmicas de revestimento constituem-se nos atores centrais do cluster. Uma visão
geral da produção das cerâmicas encontra-se na tabela 9: uma produção de 6.726,5 mil m2/mês,
um faturamento bruto mensal de quase R$40 milhões e o emprego direto de quase 5000 pessoas.
Na composição da produção em 1998, já predominam os pisos cerâmicos (54%), sendo o
restante representado por azulejos (46%), o que é um resultado importante da reestruturação
industrial nos anos 90, uma vez que o cluster desenvolveu-se e caracterizava-se até recentemente
pelo predomínio e liderança nacional na produção de azulejos. A região vem destinando cerca de
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
19
22% das vendas ao mercado externo nos últimos três anos, sendo que os países do Mercosul
absorvem 8% das vendas totais.
TABELA 9
EVOLUÇÃO DA PRODUÇÃO DE CERÂMICA DE REVESTIMENTO NA ÁREA DO CLUSTER A, 1996 A 1998 INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC
Ano
1996
1997
1998b
a
Volume de produção
(mil m²/mês)
Piso
Azulejo
Total
n.d
n.d.
5.783,3
n.d.
n.d.
6.225,8
3.634,7
3.091,8
6.726,5
Faturamento
bruto - R$ mil
No de
empregados
34.026,0
38.962,9
39.364,3
Destino das vendas
país
78
79
77
4.683
4.667
4.979
exterior
22
21
23
total
100
100
100
Empresas consultadas: 11
b
Até o mês de agosto.
Fonte SINDICERAM – Sindicato das empresas cerâmicas do sul de Santa Catarina.
O número de empresas é bastante reduzido (cerca de 11 empresas), das quais 4 empresas
são de pequeno porte (menos de 100 empregados), 5 são empresas de médio porte (entre 100 e
500 empregados) e 2 são empresas de grande porte (mais de 500 empregados). As empresas de
grande porte possuem mais de uma planta produtiva, enquanto que as empresas de médio porte
possuem apenas uma planta cada uma. A pesquisa abrangeu todas as empresas de médio e
grande portes, as quais possuem um total de 13 unidades de produção no cluster (ver tabela 10).
Existe, assim, uma forte concentração da produção nas duas empresas de grande porte, que são
responsáveis por cerca de 60% da produção local. Estas duas empresas são também as maiores
cerâmicas do país.
TABELA 10
COMPARAÇÃO ENTRE PLANTAS PRODUTIVAS SEGUNDO GRUPOS DE TAMANHO DAS EMPRESAS
CERÂMICAS ENTREVISTA DAS - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1997
No de plantas
Tamanho N
de industriais
de
empresas
No cluster Fora do
empresas
cluster
Médio
porte
5
5
0
Grande
porte
2
8
7
a
inclui dados fora do cluster .
Fonte: Pesquisa de campo.
o
Capacidade instalada (mil m2 /mês)
por
Total
planta
Faturamento
por planta
(R$milhões)
No de
Faturamento por
empregados empregado/mês
por planta
(R$mil)
2.440
488
30
311
96
4.480
560
32a
336a
95
A quase totalidade da produção em empresas de médio e grande portes (acima de 100
empregados) contrasta com a indústria italiana, na qual cerca de 78% das empresas possuíam
menos de 100 empregados ocupados em atividades produtivas (Souza et al., 1993, p. 22). Na
região de Criciúma, existem muitas empresas de pequeno porte, mas produzem cerâmica
vermelha. Aparentemente, a forte verticalização, ocorrida no período de formação do cluster
(anos 70) em torno das duas empresas de grande porte, limitou o acesso no setor de pequenos
capitais locais, acumulados em atividades próximas, especialmente na cerâmica vermelha. Essa
dependência do cluster em relação às empresas de grande porte pode ser observada na presente
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
20
década, quando uma delas passou por dificuldades financeiras levando a fechamento de unidades
e à redução líquida da capacidade produtiva local.
Ao longo dos anos 90, a produção no cluster apresentou comportamento diferenciado: na
primeira metade da década, o setor experimentou período de crise, com acentuada queda no
faturamento, perdas de capacidade instalada e demissão de empregados; a partir de 1996, a
produção começa a recuperar os níveis anteriores, com melhorias nos vários indicadores. Este
quadro evolutivo geral pode ser visualizado segundo os indicadores de capacidade produtiva,
número de empregados e faturamento.
A tabela 11 apresenta a evolução da capacidade produtiva das cerâmicas desde 1993,
registrando-se crescimento da capacidade das médias empresas, ao lado de fortes oscilações nas
grandes empresas, levando a uma perda líquida de capacidade produtiva do cluster por conta da
reestruturação das grandes empresas. A reestruturação deu-se especialmente no grupo Cecrisa,
que vinha de grande expansão nos anos 80, mediante construção e aquisição de unidades. Os
ajustes no grupo implicaram na desativação de linhas de produção e no fechamento de unidades
antigas, refletindo-se na queda da capacidade produtiva. Dessa forma, no período em análise, o
setor passa por fortes modificações nas plantas de produção, com aberturas de novas linhas de
produção e desativação de outras, ampliação e construção de unidades, bem como com
aquisições de empresas (fora do cluster).
TABELA 11
EVOLUÇÃO DA CAPACIDADE INSTALADA DAS CERÂMICAS ENTREVISTADAS, 1993 A 1998 INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Ano
1993
1994
1995
1996
1997
Capacidade instalada - mil m2/mês
Empresas médias
Empresas grandes a
2
mil m /mês var.%
mil m2/mês var.%
1.858
7.906
2.258
21,5
6.956
-12,0
2.258
0
6.547
- 5,9
2.398
6,2
6.359
- 2,9
2.440
1,8
6.529
2,7
1998
2.440
0
7.029
a
inclui unidades de fora do cluster.
Fonte: Pesquisa de campo.
7,7
Total de empresas a
mil m2/mês var.%
9.764
9.214
-5,6
8.805
-4,4
8.757
-0,5
8.969
2,4
9.469
5,6
Principais modificações
produtivas
nas
plantas
Nova linha, reestruturação de linha
Nova unidade, novo equipamento
Novos equipamentos
Ampliação de unidades, reestrut.de linha, novos
equipamentos
Aquisição de unidades, novos equipamentos
Estas modificações na capacidade instalada refletem-se no volume de empregos da
indústria cerâmica local. Os dados da tabela 12 mostram que as grandes empresas foram
responsáveis pelo maior ajuste, com forte demissão de pessoal (notadamente em 1995, quando as
demissões atingiram mais de 1/3 dos empregados). Esta redução do quadro de pessoal pode ser
associada também ao processo de desverticalização observado principalmente nas grandes
empresas.
Finalmente, a evolução do faturamento das empresas cerâmicas presentes no cluster
encontra-se na tabela 13, observando-se boa recuperação nos anos de 1996 e 1997. Estes
resultados foram observados tanto para as empresas de médio quanto para as de grande porte.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
21
TABELA 12
EVOLUÇÃO DO NÚMERO DE EMPREGADOS DA S EMPRESAS CERÂMICAS ENTREVISTADAS, SEGUNDO O
TAMANHO DE EMPRESA , 1993 A 1998 - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC
Número de empregados
Empresas médias
Empresas grandes a
Número var.%
Número var.%
1993
n.d.
7.246
1994
1.186
7.540
4,1
1995
1.215
2,4
4.698
-37,7
1996
1.199
-1,3
4.531
-3,6
1997
1.199
0
5.178
14,3
1998
1.244
3,8
5.047
-2,5
a
inclui unidades produtivas de fora do cluster
Fonte: Pesquisa de campo.
Ano
Totala
Número var.%
n.d.
8.726
5.913
-32,2
5.730
-3,1
6.377
11,3
6.291
-1,3
TABELA 13
FATURAMENTO DAS EMPRESAS CERÂMICAS ENTREVISTADAS - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO
SUL DE SC – 1998.
Faturamento anuala
Faturamento anual
Ano
R$ mil
R$ mil de 1994b var.%
1994
455.443
455.443
1995
461.152
454.894
-0,1
1996
522.107
509.807
12,1
1997
596.781
554.193
8,7
a
b
inclui unidades produtivas de fora do cluster ; corrigido pelo índice de preços da indústria de transformação.
Fonte: Pesquisa de campo - amostra de 7 empresas
Uma comparação entre as empresas cerâmicas de médio e grande portes (tabela 10)
revela uma relativa homogeneidade de tamanho de planta industrial no cluster: a capacidade
instalada por planta situa-se em torno de 500 mil m2/mês, emprego de pouco mais de 300
trabalhadores por unidade produtiva e faturamento médio de cerca de R$95 mil/empregado/mês,
independentemente do tamanho das empresas. Estes resultados, em parte, devem-se à
uniformidade tecnológica na indústria, associada ao caráter exógeno da mudança técnica, que dáse predominantemente nas áreas de equipamentos e de insumos e difunde-se com rapidez e
universalidade, e, em parte, deve-se à coexistência de plantas antigas ao lado de plantas
modernas ou reestruturadas também nas empresas de grande porte. Dessa forma, não há
diferença entre empresas de grande e médio portes quanto ao tamanho de planta produtiva.
Da mesma forma, não há diferenças significativas entre grandes e médias empresas
quanto ao grau de terceirização de atividades. Nos termos da tabela 14, empresas grandes e
médias terceirizam totalmente a produção de fritas, corantes e esmaltes, pois a existência, na
região, de unidades de produção e de distribuição desses insumos permite o abastecimento
rápido desses materiais conforme as necessidades das empresas.
Por outro lado, existe terceirização parcial da extração de minérios, com tendências à
ampliação no que se refere a minérios básicos (commodities),como as argilas e rochas, ficando
cada empresa com minérios considerados estratégicos para diferenciação de sua produção. A
pesquisa detectou apenas uma única empresa importante especializada em mineração, mas foram
colhidos depoimentos sobre a importância, não só da extração, mas também da moagem
terceirizada dos minérios para a melhoria dos produtos, especialmente das empresas de menor
porte.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
22
TABELA 14
TERCEIRIZAÇÃO DE ATIVIDADES SELECIONADAS NAS EMPRESAS CERÂMICAS, SEGUNDO O
TAMANHO DE EMPRESA - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Atividades
Extração de minérios
Produção de fritas,esmaltes,corantes
Produção de telas serigráficas
Serviços de transportes
Serviços de manutenção
Serviços de limpeza
Serviços de Segurança
Fonte: Pesquisa de campo.
Grau de Terceirização
Médias empresas
Parcial
Total
Total
Total
Parcial
Parcial
Não terceiriza
Grandes empresas
Parcial
Total
Parcial
Total
Parcial
Total
Total
Uma terceira atividade com terceirização difundida é a produção de telas para serigrafia,
tendo terceirização total nas médias empresas e apenas parcial nas grandes empresas. Para esta
atividade, existe no cluster filial de empresa italiana especializada. As demais etapas do processo
produtivo são todas internalizadas, à exceção da "terceira queima" de peças especiais, como
listelos e peças decorativas, para as quais já existem experiências de terceirização.
Quanto aos serviços, existe terceirização total dos transportes e terceirização parcial dos
serviços de manutenção nas empresas médias e grandes. A manutenção de máquinas fica, em
maioria, a cargo de pequenas metalúrgicas, em geral pertencentes a ex-empregados. Nas áreas de
limpeza e segurança existe prática diferenciada, com terceirização total nas grandes empresas e
apenas parcial ou inexistente nas médias. A terceirização avança também para as áreas
administrativas, como por exempo na área de suprimentos e almoxarifado, na qual está se
difundindo a prática de redução dos estoques de pequenas peças de reposição, valendo-se dos
estoques de empresas comerciais existentes no cluster e de, pequeno estoque mantido em
consignação pelas empresas comerciais junto às cerâmicas para uso em casos emergenciais.
b) Fornecedores de insumos
As empresas fornecedoras de insumos constituem-se no segundo subconjunto de atores
produtivos do cluster cerâmico e podem ser agrupadas segundo os dois tipos de matérias-primas
utilizadas na produção de cerâmica de revestimento: a) os minerais não metálicos (argilas,
rochas), que formam o corpo cerâmico, e (b) os componentes do esmalte (fritas, corantes,
aditivos químicos), que revestem a superfície superior das peças cerâmicas. Estes dois grupos de
empresas fornecedoras são considerados a seguir.
Em primeiro lugar, o segmento de extração de minerais ainda não progrediu para uma
maior especialização, coexistindo no arranjo a extração própria de jazidas requeridas junto ao
Departamento Nacional de Produção Mineral, a compra de mineradoras independentes e a
compra de mineradoras clandestinas. Assim, a terceirização dessa atividade avança lentamente,
com as principais empresas mantendo, ainda, suas mineradoras, mas já adquirindo parte das
matérias-primas de fornecedores. Existe, no cluster, apenas uma mineradora especializada,
pertencente a uma das empresas cerâmicas de grande porte, mas que busca atuação independente
visando atender todo o conjunto de cerâmicas da região e também de outros Estados. Por outro
lado, já é observada a atuação, na região, de fornecedores sediados em outros Estados
(especialmente São Paulo).
Entre as vantagens da especialização no fornecimento de minerais, mencionadas na
pesquisa de campo, citam-se a redução dos estoques junto às cerâmicas (para menos de quatro
dias), a maior possibilidade de investimento em pesquisa e os ganhos de escala na exploração de
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
23
jazidas. Além da extração, o fornecimento de massa pronta pelas mineradoras é passo adicional
que poderia proporcionar economias ao cluster, como maior qualidade ao corpo cerâmico, menor
índice de refugo e menor custo de produção. Há, entretanto, resistências por parte das cerâmicas,
por razões estratégicas, por já disporem dos equipamentos e pela inexistência de um conjunto
maior e mais qualificado de fornecedores.
Em segundo lugar, e diferentemente do segmento de insumos minerais, existe no cluster
um conjunto de empresas especializadas no fornecimento de insumos para esmaltação. Trata-se,
na maioria, de filiais de empresas estrangeiras, com predominância da origem espanhola (ver
quadro 2). A maior parte dessas empresas instalarou-se na região na presente década,
primeiramente com postos de distribuição e, num segundo momento, com instalação de unidades
produtivas. A construção de unidades de produção no cluster dá-se num contexto competitivo na
qual as empresas oferecem não apenas insumos, mas "soluções" completas para as cerâmicas,
incluindo, além dos insumos, design, testes e toda a assistência técnica, de tal sorte que as
equipes de venda são formadas por técnicos especializados na área de esmaltação. O
fornecimento de insumos conta, ainda, com um número expressivo de pequenas empresas locais.
Os dados da tabela 15, que cobrem uma amostra de cinco empresas, mostram que as
filiais estrangeiras fornecedoras de insumos têm fortes relações comerciais locais com clientes,
mas os linkages para trás são fracos, uma vez que a maior parte de suas matérias-primas provém
do mercado nacional ou é importada do país de origem. A exceção à regra é a empresa B,
instalada na região há quase 20 anos. Por outro lado, já é expressiva (ainda que minoritária) a
parte de sua produção destinada ao mercado nacional. A instalação no local de filiais de
importantes produtores mundiais de "colorifícios" confere ao cluster rapidez e atualização
tecnológica e de design frente aos padrões internacionais.
QUADRO 2: CARACTERÍSTICAS DAS EMPRESAS FORNECEDORAS DE INSUMOS PARA ESMALTAÇÃO INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Ano
de Origem
Empresas
instalação
do capital
A
1993
Espanha
B
1979
EUA
C
1983
Brasil
D
1994
Espanha
E
1990
Espanha
F
1993
Itália
Fonte: Pesquisa de campo.
Produto principal
Corantes
Fritas
Espec.químicas
Esmaltes
Esmaltes
Telas serigráficas
Característica da Número
de Faturamento/98
unidade
empregados
R$mil
Distribuição
9
2.100
Produção
84
n.d.
Produção
n.d.
n.d.
Distribuição
17
4.000
Produção
98
45.000
Produção
26
2.400
TABELA 15
FLUXO DE MATÉRIAS-PRIMAS E DE PRODUTOS DE EMPRESAS ESTRANGEIRAS FORNECEDORAS DE
INSUMOS PARA ESMALTAÇÃO INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Compras de matérias -primas (%)
Empresas local nacional Mercosul outros
países
A
100
B
48
20
20
12
C
100
D
70
30
E
100
Fonte: Pesquisa de campo.
Vendas de produtos (%)
local
nacional Mercosul
total
100
100
100
100
100
100
40
70
60
100
60
30
40
outros
países
total
100
100
100
100
100
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
24
c) Fornecedores de máquinas e equipamentos
O terceiro conjunto de atores é constituído pelos fornecedores de máquinas e
equipamentos. Trata-se de um conjunto bastante frágil, com atuação apenas marginal e
complementar aos fluxos principais de importação, especialmente da Itália.
Foram investigadas
três empresas de capital local, com características mostradas no quadro 3. As duas empresas
principais produtoras de máquinas e equipamentos para cerâmica existentes no cluster
originaram-se das empresas cerâmicas de grande porte, a partir de experiência profissional e de
desmembramento. Sua atuação na atual reestruturação do parque produtivo cerâmico tem sido
pequena, sendo alegadas duas principais dificuldades: a falta de escala e os custos de
financiamento dos clientes, condições amplamente favoráveis à indústria italiana. Com isso, a
indústria de máquinas e equipamentos local tem como principal fornecimento à indústria
cerâmica local a produção e reparos de estampos (matrizes para prensagem dos produtos
cerâmicos).
QUADRO 3: CARACTERÍSTICAS DAS EMPRESAS FORNECEDORAS DE MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Origem
Característica
Empresas
do capital da unidade
A
Local
Produção
B
Local
Produção
C
Local
Distribuição
Fonte: Pesquisa de campo
Número
de Faturamento/98
empregados
R$ mil
192
14.000
84
3.700
15
3.000
Principal produto vendido no mercado
local
Estampos
Estampos
Peças de reposição
Nesse contexto, a indústria de máquinas e equipamentos local acaba tendo relações
comerciais mais fortes com empresas de outras regiões do país, especialmente com empresas de
São Paulo (ver tabela 16), tanto na compra de matérias-primas, como na venda de produtos. Esta
afirmação é corroborada pela constatação de que todas as três empresas entrevistadas possuem
filiais no Estado de São Paulo, fornecendo equipamentos às cerâmicas daquele Estado.
TABELA 16
FLUXO DE MATÉRIAS-PRIMAS E PRODUTOS DA S EMPRESAS FORNECEDORAS DE MÁQUINAS E
EQUIPAMENTOS - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Compras de matérias-primas (%)
Empresas
local
nacional
exterior
A
5
90
5
B
100
C
20
40
40
Fonte: Pesquisa de campo.
total
100
100
100
Vendas de produtos (%)
local
nacional
exterior
33
66
1
50
50
70
30
total
100
100
100
2.2.2. Estrutura de financiamento e planos de investimento
As fontes de financiamento das empresas do cluster são, pela ordem, os recursos próprios
e os recursos de bancos oficiais (tabela 17), sendo as fontes externas e de bancos privados
consideradas de pouca importância. De maneira geral, entretanto, a pesquisa registrou muitas
críticas às atuais fontes de financiamento disponíveis no cluster, sendo um dos fatores citados
pela perda de competitividade pelas empresas produtoras de máquinas e equipamentos. Até
mesmo no caso das empresas cerâmicas, que citaram os bancos oficiais como muito importantes,
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
25
os mais recentes empréstimos ao setor cerâmico por parte do banco de desenvolvimento estadual
datam da primeira metade da presente década. Os recursos externos foram considerados pouco
importantes inclusive pela maior parte das empresas fornecedoras de insumos, em maioria filiais
de empresas estrangeiras. Essas empresas também financiam majoritariamente seus projetos com
recursos próprios, e não mediante empréstimos.
TABELA 17
P RINCIPAIS FONTES DE FINANCIAMENTO DAS EM PRESAS - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE
SC – 1998.
Fontes
de
financiamento
Empresas cerâmicas
1. Recursos próprios Muito importante
2. Bancos oficiais
Muito importante
3. Bancos privados
Muito importante
4. Recursos externos Importante
Fonte: Pesquisa de campo.
Fornecedores
de Produtores
de
insumos
máquinas e equip.
ranking geral
Muito importante
Muito importante
Muito importante
Pouco importante
Importante
Importante
Pouco importante
Pouco importante
Pouco importante
Pouco importante
Sem importância
Pouco importante
Quanto aos projetos de investimentos das empresas, os dados da tabela 18 mostram que
o ranking de prioridades é o seguinte:
a) Um conjunto de investimentos (posições 1o e 2o no ranking) em formação de recursos
humanos e compra de novos equipamentos com vistas à modernização das fábricas existentes.
b) Um segundo conjunto de projetos de investimentos (posições 3o e 4o no ranking
consiste na introdução de melhorias de produto e na adaptação das fábricas para diversificar a
produção. Este conjunto foi apontado por todas as empresas cerâmicas pesquisadas, o que está de
acordo com o padrão de concorrência no mercado de cerâmica de revestimento, conforme
capítulo primeiro deste relatório.
c) Alguns tipos de investimentos foram relativamente menos citados nas entrevistas pelo
conjunto total de empresas, mas foram destacados em segmentos específicos de empresas. É o
caso de investimentos em compra de tecnologia e controle ambiental, citados respectivamente
por 85,7 e 71,4% das empresas cerâmicas. A implantação de novas fábricas foi citada por 42,9%
das empresas cerâmicas e dos fornecedores de insumos, o que revela expectativas favoráveis ao
crescimento do cluster.
TABELA 18
P ERSPECTIVAS DE INVESTIMENTO DAS EMPRESAS - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC –
1998.
Percentual de empresas com respostas afirmativa (%)
Tipos de investimento
1. Expansão por aquisição
2. Implantação de novas fábricas
3. Modernização de fábricas existentes
4. Reposição de equipamentos
5. Adaptação de fábricas
6. Adequação ao mercado externo
7. Melhorias na qualidade do produto
8. Compra de tecnologia no exterior
9. Formação de recursos humanos
10. Controle ambiental
Ranking geral
Empresas
cerâmicas
42,9
42,9
85,7
85,7
100,0
42,9
100,0
85,7
100,0
71,4
Fornecedores
de insumos
28,6
42,9
100,0
85,7
42,9
28,6
71,4
0
71,4
42,9
Produtores
de
máquinas e equip.
0
0
50,0
100,0
50,0
50,0
50,0
50,0
100,0
0
10o
9o
2o
2o
4o
8o
3o
6o
1o
7o
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
11. Organização e administração
12. Diversificação da produção
13. Pesquisa e Desenvolvimento
Fonte: Pesquisa de campo.
26
100,0
100,0
n.d.
28,6
71,4
85,7
50,0
50,0
50,0
5o
3o
n.d.
A caracterização de atores e de fontes de financiamento feita acima, permite traçar o
perfil do cluster cerâmico nos termos que seguem.
a) O cluster possui em seu interior um amplo conjunto de atores produtivos: empresas
cerâmicas - que são os atores centrais, empresas de insumos para esmaltação e
empresas mineradoras, empresas produtoras e distribuidoras de máquinas e
equipamentos, empresas de manutenção. Estes atores estabelecem entre si um número
considerável de transações internas ao cluster.
b) O cluster mantém importantes ligações externas, na venda de produtos, com os
mercados nacional (78%) e internacional(22%). Pouco menos de 1/3 das exportações
destinam-se a países do Mercosul, o qual, ainda que importante, é considerado apenas
mais um mercado, uma vez que as exportações destinam-se a um número
diversificado de países e a praças no mercado nacional.
c) O cluster é dependente de importações da máquinas e equipamentos da Itália,
enquanto que se acentuou nos anos 90 o movimento de instalação, no cluster, de
unidades de produção de insumos para esmaltação por parte de firmas estrangeiras,
em especial de origem espanhola.
d) A presença, no interior do cluster, do segmento de empresas fornecedoras de insumos
para esmaltação conferiu maior condições de competitividade às empresas de
pequeno e médio portes, dado o padrão de concorrência vigente centrado na
diferenciação de produtos (diferentes tipos de esmaltes e design).
e) Em termos evolutivos, o cluster cerâmico constituiu-se nos anos 70 sob a liderança de
duas grandes empresas cerâmicas, levando a uma estrutura industrial concentrada (as
duas empress participam com 60% da produção ) e, ainda hoje, bastante verticalizada.
f) Desde a crise do início dos anos 90, que afetou todo o setor cerâmico nacional,
acentuou-se o processo de desverticalização, já naturalmente em marcha, tendo por
resultado maior complementaridade e ampliação da rede de transações internas ao
cluster.
g) Observa-se um número relativamente reduzido de pequenas (menos de 100
empregados) empresas cerâmicas, se comparado a outros arranjos similares nos
principais países produtores. Por outro lado, existe na área abrangida pelo cluster
grande número de pequenas empresas de cerâmica vermelha (telhas/tijolos), que,
aparentemente, seriam candidatos potenciais ao ingresso na cadeia de cerâmica de
revestimento. Algumas observações colhidas nas entrevistas permitem formular a
hipótese de que tal acesso tem sido dificultado pela ainda excessiva verticalização da
cadeia produtiva.
h) Registrou-se a ausência, total e em número desejável, de empresas independentes
especializadas em áreas importantes para o cluster, sendo as principais: máquinas e
equipamentos, mineração, moagem e preparação da massa, comercialização e design.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
27
2.3. Estrutura atual do cluster - infra-estrutura educacional, tecnológica e econômica
O cluster possui um importante conjunto de atores nas áreas educacional, de tecnologia e
de coordenação, que são responsáveis pelo oferecimento de serviços em nível coletivo do
sistema local, dentro do qual interagem os agentes produtivos. Trata-se de três tipos de
instituições: instituições de ensino técnico, instituição de tecnologia e instituições de
coordenação, a seguir consideradas.
a) Instituições de ensino técnico
O quarto conjunto de atores é constituído por instituições de ensino técnico. A pesquisa
de campo identificou quatro instituições de ensino técnico com forte vinculação com o setor
cerâmico local: o Colégio Maximiliano Gaidzinski (CMG), o Colégio da Sociedade de
Assistência aos Trabalhadores do Carvão (SATC), o Centro Interescolar de 2o Grau (CIS) e a
Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC).
O Colégio CMG foi criado, em 1979 pelo grupo Eliane, e oferece o curso de Técnico em
Cerâmica em nível de 2o grau. O Colégio é mantido pela empresa Eliane e oferece anualmente
40 vagas, de preferência para trabalhadores e filhos de trabalhadores da própria empresa Eliane,
mas também para trabalhadores de outras empresas ou não vinculados a quaisquer empresas.
Oferece também cursos de especialização de curta duração em atividades cerâmicas, como
moagem, esmaltação, prensa, etc. Por ser de tempo integral, os alunos utilizam os laboratórios e
visitam a linha de produção da empresa Eliane, sendo encarregados de oferecer soluções para
problemas de produção detectados, caracterizando-se, assim, por ensino fortemente
profissionalizante. Os números fornecidos pelo Colégio (tabela 19) impressionam pela eficácia
alcançada pela instituição, para a empresa Eliane e para o cluster: o Colégio conseguiu
identificar em seus relatórios que 2/3 dos seus 200 alunos formados desde 1982, quando formouse a primeira turma de alunos, exerce atividade profissional em empresas do cluster cerâmico.
TABELA 19
NÚMERO DE PROFISSIONA IS FORMADOS DESDE 1982 NO CMG, SEGUNDO O SETOR ATUAL DE
ATUAÇÃO NA ÁREA DE CLUSTER - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Setor de atuação
Grupo Eliane
Empresas de insumos p/cerâmica
Outras cerâmicas de revestimento
Outros
Total
Fonte: Colégio Maximiliano Gaidzinski-CMG
Número de ex-alunos
74
31
28
67
200
participação %
37
16
14
33
100
O Colégio da SATC, que é a maior e mais tradicional instituição de ensino técnico da
região, oferece desde 1963 curso técnico de 1o grau (5a à 8a séries) e, desde 1970, curso técnico
de 2o grau. Os cursos técnicos de 2o grau são os seguintes: eletrônica, mecânica, eletrotécnica,
desenho visual, confecção de vestuário e eletromecânica. O número de alunos matriculados em
1997 foi superior a 2000 alunos, quase 50% dos quais no ensino técnico de 2o grau.
Originalmente mantido pelas empresas carboníferas, o Colégio passou por sérias dificuldades
financeiras com a crise do setor. Hoje, procura diversificar suas fontes de receita, sendo mantido
pelas empresas carboníferas e auxílios (44%), por mensalidades (33%), por atividades do
Laboratório de Análises e Ensaios de Carvão (18%) e por convênios com SENAI e com o
Governo do Estado (8%)(dados de 1997).
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
28
A relação entre os cursos técnicos da SATC e o cluster cerâmico consiste na formação de
recursos humanos para as atividades de manutenção, serigrafia e desenho. A tabela 20 mostra
essa relação nos três últimos anos: tomando o conjunto de cursos oferecidos, entre 10 a 20% dos
alunos formados tem vinculações com a indústria cerâmica. Os planos do Colégio são os de
constituir-se num centro tecnológico, oferecendo no futuro cursos superiores de menor duração,
conferindo diplomas de tecnólogo em diferentes especialidades.
O Colégio CIS é uma escola técnica do Governo do Estado criada em 1979. Oferece
cursos técnicos de administração, comercialização/mercadologia, edificações, processamento de
dados, serviços bancários e de química. De particular interesse para o cluster cerâmico, o curso
técnico em química oferece 90 vagas/ano e forma recursos humanos para a indústria química
local, principalmente para o segmento fornecedor de insumos para as cerâmicas.
A quarta instituição de ensino técnico, que tende a desempenhar papel importante na
formação de recursos humanos, é a UNESC. Essa Universidade está oferecendo dois cursos
técnicos relacionados à área cerâmica: o curso de Tecnologia em Cerâmica e o curso de
Engenharia de Materiais. O curso de Tecnologia em Cerâmica foi criado em 1995 e oferece 40
vagas anuais, em grande parte ocupadas por empregados das empresas cerâmicas e de insumos,
conforme apurado na pesquisa de campo. À semelhança do curso de 2o grau oferecido pelo
CMG, o curso da UNESC funciona em estreita ligação com o setor produtivo e tende, por isso, a
assumir função importante na formação de recursos humanos para o cluster cerâmico. Por sua
vez, o curso de Engenharia de Materiais, criado recentemente, oferece especializações nas áreas
de cerâmica, de plásticos e de metalurgia, atendendo demandas específicas por parte da indústria
local.
TABELA 20
NÚMERO DE ALUNOS FORMADOS DA SATC E EMPREGADOS NAS EMPRESAS CERÂMICAS, 1996 A
1998 - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC
Cursos técnicos
Especificação
Ano de 1996
-No total de alunos(A)
-No alunos empregados (B)
-B/A (%)
Ano de 1997
-No total de alunos(A)
-No alunos empregados (B)
-B/A (%)
Ano de 1998
-No total de alunos (A)
-No alunos empregados (B)
-B/A(%)
Fonte: Pesquisa de campo.
Mecânica
Eletromecânica
Desenho
industrial
Eletrônica
Eletrotécnica
38
5
13,2%
23
7
30,4%
20
7
10,0%
-
-
81
14
20,0%
44
5
11,4%
31
2
6,5%
36
6
16,7%
-
37
2
5,4%
148
15
10,1%
40
6
15,0%
28
5
17,9%
43
4
9,3%
40
4
10,0%
35
7
20,0%
Total
186
26
14,0%
Estas instituições de ensino técnico possuem, assim, uma característica comum,
importante para a evolução do cluster: o forte comprometimento do ensino com a indústria local.
Esta característica revela a ação das instituições locais de coordenação dos atores, em especial os
sindicatos patronais e de trabalhadores. O comprometimento do ensino com as necessidades da
indústria é obtido a partir das próprias condições de financiamento dos cursos, mantidos em boa
parte com recursos das próprias empresas. É o caso do CMG, mantido pela empresa Eliane e por
mensalidades, da SATC, mantido pelas mineradoras, por mensalidades e venda de serviços
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
29
laboratoriais, e dos cursos da UNESC, mantidos por mensalidades. As mensalidades são cobertas
total ou parcialmente pelas empresas, no caso de alunos-empregados.
b) Instituições de tecnologia
O cluster possui uma importante instituição de tecnologia - o Centro de Tecnologia em
Cerâmica-CTC, que começou a funcionar recentemente, em 1995. Foi criado por três entidades:
o SENAI, a UFSC e o Sindicato da Indústria Cerâmica - SINDICERAM. O CTC enquadra-se
dentro da política do SENAI de elevar o padrão de seus centros de treinamento para centros de
tecnologia, avançando do treinamento para o oferecimento de serviços técnicos e
desenvolvimento tecnológico. Do ponto de vista da UFSC, o CTC é um posto avançado do seu
Laboratório de Materiais, vinculado ao Departamento de Engenharia Mecânica, e constitui-se em
campo de estudos e pesquisas para alunos de pós-graduação. Por sua vez, o SINDICERAM é
responsável pela coordenação das empresas e pela integração entre a nova instituição e o
conjunto de empresas cerâmicas. Atualmente, o CTC tem seu quadro básico de pessoal mantido
pelo SENAI, é tecnicamente coordenado por professor da UFSC e avança rapidamente na oferta
de serviços laboratoriais às cerâmicas. Novos recursos têm sido aportados, oriundos de órgãos de
fomento do Governo Federal e de receitas provenientes da prestação de serviços. Suas principais
áreas de atuação são a certificação de produtos e ensaios laboratoriais, sendo já registrados casos
de desenvolvimentos de produtos em conjunto com empresas. Atualmente, o principal projeto do
CTC é a construção da unidade-piloto, que dará condições de realizar ensaios completos para
todo o processo produtivo cerâmico.
c) Atores institucionais de coordenação e a infra-estrutura
As duas principais instituições de coordenação do cluster são o Sindicato das Empresas
Cerâmicas-SINDICERAM e a Associação Comercial de Criciúma-ACIC. Estas instituições têm
se destacado na coordenação empresarial em alguns projetos de infraestrutura importantes para o
cluster cerâmico: a criação do CTC, a extensão para a região sul do Brasil do gasoduto BrasilBolívia, a viabilização do uso da ferrovia no trecho Criciúma-porto de Imbituba para exportação
de produtos e a realização de feiras de produtos cerâmicos e de equipamentos e insumos para
cerâmica. A implantação do gasoduto deverá mudar a base energética da queima dos produtos
cerâmicos, do GLP para o gás natural, com esperados reflexos na redução de custos. Além disso,
a extensão do gasoduto, de São Paulo até o sul do Brasil, revelou-se estratégica para que as
cerâmicas de Santa Catarina possam manter as condições de competitividade frente aos pólos
cerâmicos localizados naquele Estado. Uma terceira obra de infra-estrutura de importância para a
competitividade do cluster, no mercado nacional e no Mercosul, é a duplicação, em curso, da
rodovia BR 101. Esta rodovia, uma vez concluída sua duplicação, facilitará a ligação rodoviária
com a região sudeste do Brasil, principal mercado consumidor, e com o Estado do Rio Grande
do Sul e países do Mercosul.
Por outro lado, atualmente o SINDICERAM e a ACIC têm se empenhado na viabilização
da ferrovia Tereza Cristina, que liga a região carbonífera ao porto de Imbituba, para transporte de
revestimentos cerâmicos em conteiners. A ampliação do uso do porto por maior número de
navios, em rotas internacionais e de cabotagem, é fator importante para amenizar as dificuldades
logísticas do cluster de acesso aos grandes mercados nacionais das regiões sudeste e nordeste,
ao Mercosul e aos maiores mercados mundiais. Por fim, o SINDICERAM participa da promoção
de feiras regulares de cerâmica, em conjunto com o Colégio Maximiliano Gaidzinski, e de feiras
de tecnologia (equipamentos e insumos) em cerâmica.
Em resumo, quanto às condições de infra-estrutura, conclui-se que:
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
30
a) É fator de destaque a existência no interior do cluster de cursos técnicos, em nível de
2o grau, fortemente articulados com as atividades produtivas, realizando a difusão dos
conhecimentos básicos em cerâmica e conferindo externalidades positivas às
empresas que se instalam no local. Esta estrutura de formação de recursos humanos
está evoluindo, recentemente, para cursos superiores nas áreas específicas de
cerâmica, química e de materiais.
b) O cluster possui um importante centro de tecnologia em cerâmica, que poderá se
constituir num instrumento para elevar a capacidade tecnológica local e reduzir a
dependência dos pó los mundiais.
c) Quanto à infra-estrutura econômica, há três principais projetos em curso que poderão
melhorar as condições de competitividade do cluster: a implantação de rede de
abastecimento de gás natural, que deverá ter reflexos importantes na queda do custo
de produção, a vialização do porto de Imbituba para escoamento da produção, em
termos de intensificação do uso do porto por maior número de navios e de
contratação do transporte ferroviário no trecho Criciúma-Imbituba, e a duplicação da
rodovia BR-101. Estas obras de infra-estrutura tornam-se estratégicas na medida em
que os produtos cerâmicos têm baixa relação valor/peso e em que o cluster encontrase relativamente distante dos grandes centros consumidores, nacionais e
internacionais.
d) Por fim, a pesquisa revelou fraca atuação das instituições públicas locais (municipais
e estaduais) nas atividades do cluster, até mesmo na área formação de recursos
humanos. As atividades de coordenação e os projetos de infra-estrutura são assumidos
pelas associações de classe, empresarial e de trabalhadores. É provável que atores
potenciais, como as empresas da cerâmica vermelha e outros capitais de pequeno e
médio porte da região, poderiam beneficiar-se mais do cluster a partir da ação das
instituições públicas locais, não diretamente ligadas aos interesses constituídos.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
31
3. A DINÂMICA DOS PROCESSOS DE APRENDIZAGEM
3.1 O nível tecnológico das empresas e as possibilidades dos processos de aprendizagem
Considerando-se as características particulares do desenvolvimento tecnológico e do
regime tecnológico apontados no capítulo 1 deste relatório, é possível selecionar um conjunto de
indicadores para analisar as possibilidades das empresas para o desenvolvimento dos seus
processos de aprendizagem. Foram levantados os seguintes indicadores:
a) a intensidade das alterações nos processos produtivos;
b) a adoção de novas técnicas organizacionais;
c) a intensidade da absorção de novas matérias-primas e insumos;
d) a importância das principais alterações nos produtos;
e) a existência de programas de gestão de qualidade e certificação de produtos;
f) níveis de qualificação da mão-de-obra;
Em setores industriais, cuja capacitação tecnológica deriva de processos internos que
possibilitem a absorção de inovações geradas “fora” da ni dústria, as possibilidades dos processos
de aprendizagem implicam
na existência de uma estrutura produtiva que demonstre a
capacidade de manter atualizado tecnologicamente os processos produtivos, (indicadores a e b) ,
de acompanhar as modificações nos insumos e nas matérias-primas que proporcionem as
condições para as alterações nos produto e para os controles de sua qualidade (indicadores c, d,
e) . Estes indicadores junto com as características da qualificação da mão-de-obra podem
demonstrar o nível da capacitação tecnológica das empresas para absorver as inovações.
A absorção de inovações incrementais no processo pelas empresas pesquisadas apontou a
importância da introdução de novas técnicas organizacionais e da introdução de novos
equipamentos na planta original, como as alterações que ocorreram com mais intensidade e o
redesenho das plantas ou a construção de novas plantas para novos processos produtivos como
formas de alterações mais moderadas (tabela 21). A intensidade da introdução de novos
equipamentos pode também ser observada pelos investimentos da indústria nesta década,
conforme observado nas entrevistas e já comentado no capítulo 2 deste relatório.
TABELA 21
ALTERAÇÕES NO PROCESSO PRODUTIVO DE 1990 A 1998 - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL
DE SC
Tipo de alteração
Introdução de novo equipamento na planta original
Redesenho da planta original
Construção da nova planta c om novo processo
Novas técnicas organizacionais no processo produtivo
Fonte: Pesquisa de Campo.
% de empresas que realizaram alterações
Intensa
Moderada
Não realizaram
57,1
42,9
0
42,9
14,2
42,9
28,6
14,2
57,1
100,0
0
0
Total
100,0
100,0
100,0
100,0
As novas técnicas organizacionais adotadas no período, referiram-se com destaque ao
conjunto de técnicas de custos reduzidos e que buscaram regularizar processos de controle
interno (padrões internos de procedimentos e sistema formal de qualificações de fornecedores) e
estimular a participação dos trabalhadores na correção dos processos (identificação de problemas
e grupo de melhoria). Um segundo conjunto importante de novas técnicas introduzidas, refere-se
às que proporcionam flexibilidade aos processos produtivos como a implantação de células de
produção e da polivalência de funções (tabela 22).
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
32
Estas respostas sugerem por um lado, o dinamismo do conjunto das empresas quanto à
atualização de seus processos produtivos, dado que o percentual de respostas no que se refere às
modificações comentadas, atingiu ou a totalidade das empresas ou no mínimo 85% delas. Por
outro lado, considerando-se que na indústria cerâmica a capacitação tecnológica relaciona-se ao
desenvolvimento de processos de aprendizagem do tipo learning by doing e learning by using ,
que se expressam na atualização dos equipamentos e das técnicas organizacionais, tais
percentuais indicam a existência de condições tecnológicas para as práticas de aprendizagem.
Deve-se considerar ainda que , conforme observado nas entrevistas, as maiores empresas
possuem mais de uma linha de produção, o que possibilita a coexistência de equipamentos com
diferentes idades tecnológicas.
TABELA 22
ADOÇÃO DE NOVAS TÉCNICAS ORGANIZACIONAIS - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC –
1998.
Técnicas
Células de produção
Polivalência de funções
Just-in-time interno
Just-in-time externo
MRP – Materials Requirements Planning
Kanban
CAD
CAM
CIM – Computer Integrated Manufacturing
Identificação de problemas - brainstorming, Pareto, etc.
Caixa de sugestões
Padrões internos de procedimentos
Sistema formal de Qualificação de fornecedores
Grupo de melhoria
Administração participativa
Sistema de participação nos lucros
Fonte: Pesquisa de campo.
% de empresas que adotaram
85,7
85, 7
57,1
71,4
42,9
42,9
57,1
28,6
42,9
100,0
71,4
100,0
100,0
100,0
71,4
28,6
A introdução de novos insumos, segundo a intensidade e os motivos declarados pelas
empresas pesquisadas, apresentou nos anos 90 maior intensidade nas modificações do esmalte
do que nas alterações da massa. Estas alterações estiveram relacionadas, não à resolução de
problemas técnicos de produção, mas principalmente, no caso das modificações na massa, à
melhoria dos produtos existentes e no caso das modificações nos esmaltes, à introdução de novos
produtos e novos processos e em menor medida às melhorias nos produtos existentes (tabela 23).
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
33
TABELA 23
INTRODUÇÃO DE NOVAS MATÉRIAS-PRIMAS E INSUMOS NA DÉCADA DE 90 - INDÚSTRIA CERÂMICA
DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Intensidade e motivos
a) Intensidade
Intens a
Moderada
Não ocorreu
Total
b) Motivos
Melhorar produto já existente
Introdução de novo produto e adoção de
novo processo
Problema técnico da produção
Outros
Total
Fonte: Pesquisa de campo.
% de empresas que introduziram, por tipo de insumo
Massa
Esmalte
28,6
57,1
14,3
100,0
85,7
14,3
100,0
37,5
33,3
25,0
12,5
25,0
100,0
44,5
11,1
11,1
100,0
Conforme a tabela 24, a importância atribuída pelas empresas pesquisadas às alterações
nos produtos, indica a predominância das modificações relacionadas principalmente ao desenho,
à qualidade do esmalte e à criação de novos produtos. As alterações nas características técnicas
relacionadas à resistência destacam-se num segundo grupo juntamente com as alterações no
tamanho. Essas informações combinam-se com a intensidade na introdução de alterações no
esmalte apresentada na tabela 23, indicando também a existência de capacitação tecnológica para
absorção de inovações nas formulações dos produtos, sugerindo, conforme comenta-se adiante, a
ocorrência de processos de aprendizagem por interação com os fornecedores de insumos para
indústria.
TABELA 24
P RINCIPAIS ALTERAÇÕES NOS PRODUTOS NA DÉCADA DE 90, SEGUNDO A IMPORTÂNCIA ATRIBUÍDA
PELAS EMPRESAS CERÂM ICAS - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Tipos de alterações
Alteração no desenho
Alteração na característica técnica relacionada
à resistência
Alteração na característica técnica relacionada
à absorção de umidade
Alteração na característica técnica relacionada
à qualidade do esmalte
Alteração no tamanho
Novo uso para o produto
Novo produto
Fonte: Pesquis a de Campo.
Sem
importância
0
0
Grau de importância (%)
Pouco
Importante
Muito
importante
importante
0
20,0
80,0
0
40,0
60,0
Total
100,0
100,0
20,0
20,0
40,0
20,0
100,0
0
0
20,0
80,0
100,0
0
40,0
0
20,0
20,0
0
20,0
20,0
20,0
60,0
20,0
80,0
100,0
100,0
100,0
Todas as empresas possuem algum tipo de programa de gestão e controle da qualidade e
submetem-se a processos de certificação de seus produtos de forma a enquadrarem-se nas
normas nacionais e internacionais de produtos, conforme a tabela 25.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
34
TABELA 25
EMPRESAS QUE POSSUEM PROGRAMAS DE GESTÃO DA QUALIDADE - INDÚSTRIA CERÂMICA DA
REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Tipos
% de empresas que possuem
Programa de qualidade total
85,7
Controle estatístico de processo
100,0
Círculo de controle de Qualidade
71,4
Certificação do produto pelo CCB
100,0
Utilização de normas nacionais e internacionais de processos e produtos
100,0
Fonte: Pesquisa de Campo.
No que se refere à qualificação da mão-de-obra, aproximadamente 36,2% possuem o
segundo grau completo dos quais aproximadamente 6% possuem qualificação de segundo grau
específica para o setor cerâmico e 10% possuem curso superior (Tabela 26). Esta qualificação,
na avaliação de 71% das empresas, aponta uma adequabilidade parcial da qualificação da
mão-de-obra e a intenção de intensificar o esforço de qualificação, principalmente através do
treinamento dentro da empresa ou em instituições localizadas na região (tabela 27).
TABELA 26
QUALIFICAÇÃO DA MÃO DE OBRA - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Grau de formação
1º grau incompleto
1º grau completo
2º grau completo
Nível técnico cerâmico
Nível superior
Total
Fonte: Pesquisa de Campo.
% de empregados
13,2
34,5
36,2
6,0
10,1
100,0
TABELA 27
QUALIFICAÇÃO DA MÃO DE OBRA: AUTO -AVALIAÇÃO DO PERFIL , ESFORÇO DE TREINAMENTO E
LOCAL - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Características
a) Perfil
Adequado
Parcialmente adequado
Total
b) Esforço
Manter a adequação da qualificação atual
Intensificar a qualificação nos setores
Total
c) Local de treinamento
Treinamento na empresa
Treinamento em instituições locais
Treinamento no exterior
Treinamento em outras instituições estaduais e nacionais
Fonte: Pesquisa de Campo.
% de empresas
28,6
71,4
100,0
28,6
71,4
100,0
85,7
71,4
42,9
28,6
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
35
Considerando-se estes indicadores, uma apreciação sobre o nível tecnológico das
empresas cerâmicas, enquanto base para exercer os processos de aprendizagem para capacitação
tecnológica na absorção das inovações, sugerem em resumo que:
1) houve atualização tecnológica das plantas industriais no decorrer da década de 90;
2) houve absorção de novos insumos para alterações no produto com ênfase nas
modificações do desenho e nas características do esmalte, bem como o
desenvolvimento de novos produtos;
3) há uma homogeneidade dos esforços de atualização entre as empresas pesquisadas,
mesmo considerando-se a posição de liderança das grandes empresas em termos de
absorção das inovações, e;
4) há uma importante capacidade interna ao cluster de qualificação da mão-de-obra.
3.2. Formas de desenvolvimento ou de incorporação de novas tecnologias
A forma de incorporar novas tecnologias considerada como muito importante pela
maioria das empresas é a aquisição de máquinas e equipamentos no mercado internacional
(85,7% das empresas pesquisadas). A segunda forma em importância, considerada por 42,9%
das empresas como muito importante e a mesma proporção considerou como importante, é a
cooperação com os fornecedores de insumo (tabela 28). Essas formas foram as que se
destacaram em grau de importância na avaliação das empresas e confirmam o padrão de
aprendizagem esperado, dadas as características da tecnologia conforme já comentado, com a
ressalva de que, ao lado dos processos de aprendizagem tipo learning by doing e learning by
using , a capacitação tecnológica em unidades de produção das empresas e de atividades de
P&D, também foram consideradas muito importantes por 42,8% das empresas.
TABELA 28
FORMAS DE DESENVOLVIMENTO OU INCORPORAÇÃO DE NOVAS TECNOLOGIAS - INDÚSTRIA
CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Formas
Aquisição de máquinas compradas no mercado
nacional
Aquisição de máquinas compradas no mercado
internacional
Em cooperação com fornecedores de equipamentos
Nas unidades de produção da empresa
Em laboratórios de P&D da empresa
Em cooperação com outras empresas concorrentes
Em cooperação com outras organizações (de ensino e
pesquisa, entidades de apoio setoriais, etc.)
Via licenciamento
Em cooperação com fornecedores de insumos
Fonte: Pesquisa de Campo.
Sem
importância
42,8
Grau de importância
Pouco
Importante
importante
28,6
14,3
Muito
importante
14,3
Total
100,0
0
0
14,3
85,7
100,0
28,6
14,3
14,3
100,0
0
0
28,6
28,6
0
0
42,9
14,3
14,3
0
71,4
28,5
42,8
42,8
0
28,6
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
66,6
0
16,7
14,2
16,7
42,9
0
42,9
100,0
100,0
Isto indica que pode estar ocorrendo um esforço de capacitação tecnológica cujos
efeitos podem ir além da absorção das inovações geradas fora do setor, pois, no caso dos
laboratório de P&D, pode-se estar criando uma estrutura interna às empresas capaz de criar
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
36
capacidade para o desenvolvimento interno de inovações. Essa indicação é reforçada pelo fato de
28,6% considerarem muito importante e 71,4% considerarem importante a cooperação com
organizações de ensino, pesquisa e entidades de apoio setorial. Este tipo de cooperação também
pode ter reflexos internos a empresas, no que se refere à capacidade para inovação. As
informações das tabelas 29 e 30 auxiliam na avaliação destas possibilidades.
TABELA 29
GASTOS EM P&D - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
% de P&D em relação ao faturamento
0
1
2
3
Total
% de empresas
33,3
50,0
16,7
100,0
Fonte: Pesquisa de Campo.
Todas as empresas informaram gastos com P&D, sendo que aproximadamente 83%
gastam até 2% em relação ao seu faturamento. Esta é uma média considerada alta para os
padrões brasileiros. (Tabela 29). Esses percentuais, conforme declarados pelas empresas, foram
maiores que os gastos realizados pelas empresas em 1990 (Tabela 30), e também em relação às
perspectivas futuras,
aproximadamente 70% das empresas pretendem ampliar seus gastos em
P&D.
TABELA 30
VARIAÇÃO EM RELAÇÃO A 1990 E PERSPECTIVAS FUTURAS - INDÚSTRIA
CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Gastos em P&D
% de empresas
a) Houve aumento em relação a 90 ?
Sim
100,0
Não
0
Total
100,0
b) Perspectivas para gastos em P&D
Permanecer nos níveis atuais
28,6
Ampliar moderadamente
42,8
Ampliar significativamente
28,6
Total
100,0
Fonte: Pesquisa de Campo.
GASTOS EM P&D –
Como não foi possível obter informações detalhadas destes gastos, pode-se supor que
sejam para manutenção dos laboratórios de controle e testes e/ou manutenção de equipes para
desenvolvimento de produtos. Considerada uma área estratégia das empresas, não se teve acesso
a esses dados, mas foi possível observar nas entrevistas dois aspectos relacionados: (i) a
desativação em algumas empresas dos laboratórios de controle e a realização destes serviços pelo
Centro de Tecnologia da Cerâmica instalado na região; e (ii) a existência de equipes de design
em todas as empresas pesquisadas. Isto pode indicar o direcionamento dos gastos em P&D para
o desenvolvimento de produtos com ênfase na diferenciação pelo design. Os reflexos de uma
estratégia deste tipo pode proporcionar o desenvolvimento de capacidade para inovações em
produtos. Deve-se considerar ainda que é relativamente alta a qualificação do pessoal técnico
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
37
que desenvolve atividades nos laboratórios e no design como pode-se observar na tabela 31,
37% são de nível superior dos quais 12 % pós-graduados.
TABELA 31
QUALIFICAÇÃO DO PESSOAL TÉCNICO DOS LABORATÓRIOS - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL
DE SC – 1998.
Qualificação
Técnicos nível médio
Nível superior
Pós-graduados
Total
Fonte: Pesquisa de Campo.
% do pessoal
63,0
24,7
12,3
100,0
Considerando-se as características da tecnologia no setor, as principais fontes de
informação para a inovação correspondem também às formas dos processos de aprendizagem.
As consideradas muito importante foram na ordem: “feiras e eventos”, “universidades e centros
de pesquisa”, “departamento de P&D das empresas”, e “fornecedores de equipamentos”. As
consideradas importantes com algum destaque
foram as “publicações especializadas” e
“clientes”.
Quanto à localização das fontes mencionadas, uma situa-se no cluster
,
universidades e centros de pesquisa, a situada no território nacional corresponde aos
consumidores (clientes) e as internacionais correspondem aos produtores de equipamentos e às
feiras e eventos internacionais (tabela 32).
TABELA 32
FONTES DE INFORMAÇÃO PARA INOVAÇÃO: GRAU DE IMPORTÂNCIA E
CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Sem
importância
0
FONTE
Fornecedores de
equipamentos
Feiras e exibições
0
Workshop de
28,6
produtores
Clientes
14,3
Publicações
0
especializadas
Visitas a outras
28,6
empresas da
região
Consultores
28,6
especializados
Bibliotecas ou
14,3
serviços de
informação
Departamento de
14,3
P&D da empresa
Universidades e
0
centros de
pesquisa
Fonte: Pesquisa de Campo.
Grau de importância (% empresas)
Pouco
Importante
Muito
importante
importante
14,2
42,9
42,9
Total
LOCALIZAÇÃO INDÚSTRIA
Localização da fonte de informação
Local Nacional Internacional Total
100
20,0
20,0
60,0
100
0
28,6
14,3
28,6
85,7
14,2
100
100
11,1
0
33,3
33,3
55,6
66,7
100
100
14,3
14,3
42,8
85,7
28,6
0
100
100
16,7
12,5
66,6
50,0
16,7
37,5
100
100
42,8
28,6
0
100
Não se
aplica
Não se
aplica
Não se aplica
100
42,8
14,3
14,3
100
0
100,0
0
100
57,1
28,6
0
100
66,7
33,3
0
100
14,3
14,3
57,1
100
100
28,6
57,1
100
Não se
aplica
33,3
Não se aplica
14,3
Não se
aplica
50,0
16,7
100
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
38
Esses processos de aprendizagem nas empresas cerâmicas interagem com as formas de
capacitação tecnológica desenvolvida pelos demais agentes que integram o cluster. No que se
refere às empresas fornecedoras de insumos, 50% das empresas pesquisadas consideraram muito
importante e 17% importantes os investimentos em P&D como forma de desenvolvimento ou
incorporação de tecnologia. Também 60% das empresas mencionaram como importantes as
atividades de capacitação nas unidades de produção das empresas. A aquisição de máquinas nos
mercados internacionais e as relações com os seus fornecedores foram também formas de
incorporação de tecnologia mencionadas pela maioria das empresas como importante ou muito
importante (tabela 33).
TABELA 33
FORMAS DE DESENVOLVIMENTO OU INCORPORAÇÃO DE NOVAS TECNOLOGIA S - EMPRESAS DE
INSUMOS PARA A INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Formas de desenvolvimento
Aquisição de máquinas compradas no
mercado nacional
Aquisição de máquinas compradas no
mercado internacional
Em cooperação com fornecedores de
equipamentos
Nas unidades de produção da empresa
Em laboratórios de P&D da empresa
Em cooperação com outras empresas
concorrentes
Em cooperação com outras organizações (de
ensino e pesquisa, entidades de apoio setoriais,
etc.)
Via licenciamento
Em cooperação com fornecedores de insumos
Fonte: Pesquisa de campo
Sem
importância
33,3
Grau de importância (% empresas)
Pouco
Importante
Muito
importante
importante
50,0
0
16,7
Total
100,0
0
33,3
33,3
33,4
100,0
33,3
33,3
0
33,4
100,0
20,0
33,3
83,3
20,0
0
0
60,0
16,7
0
0
50,0
16,7
100,0
100,0
100,0
66,7
0
0
33,3
100,0
100,0
50,0
0
0
0
0
0
50,0
100,0
100,0
Esse esforço interno de capacitação das empresas fornecedoras de insumos pode ser
qualificado pela observação de suas relações com a empresa matriz, considerando-se que das 6
empresas pesquisadas no segmento de fornecedores de esmaltes, 5 são filiais de empresas
estrangeiras (ver capítulo 2). Essas relações envolvem, principalmente, a ida de técnicos da
empresa para treinamento na matriz e a presença de técnicos da matriz para treinamento e
assistência técnica. As realizações de ensaios nos laboratórios da matriz é outra forma de relação
considerada importante, conforme tabela 34. A característica deste agente do cluster cria um
fluxo de informações tecnológicas com origem externa ao cluster estabelecido pelas relações
com as matrizes das empresas fornecedoras de insumo.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
39
TABELA 34
TIPOS DE COOPERAÇÃO DAS EMPRESAS DE INSUMOS COM A MATRIZ - EMPRESAS DE INSUMOS PARA
A INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998
Grau de importância (% empresas)
Tipos de cooperação
Sem
importância
Pouco
importante
Importante
Muito
importante
Não se
aplica
Total
Presença de funcionários da matriz na empresa
para treinamento e assistência técnica
Ida de técnicos da empresa para treinamento na
matriz
Realização de ensaios nos laboratórios da matriz
Treinamento/consultas via rede
Fonte: Pesquisa de Campo.
0
0
28,6
42,8
28,6
100,0
0
0
0
71,4
28,6
100,0
0
0
0
14,2
42,8
28,6
28,6
28,6
28,6
28,6
100,0
100,0
Deve-se considerar também a importância da contribuição deste agente para a
capacitação tecnológica no cluster, pois observa-se na tabela 35, que do pessoal técnico ocupado
nas empresas 47% têm formação em nível superior, dos quais 2% com pós-graduação.
TABELA 35
QUALIFICAÇÃO DO PESSOAL TÉCNICO - EMPRESAS DE INSUMOS PARA A INDÚSTRIA CERÂMICA DA
REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Qualificação
Técnicos nível médio
Nível superior
Pós-graduados
Total
Fonte: Pesquisa de Campo.
% do pessoal
52,5
44,9
2,6
100,0
Quanto aos agentes produtores de equipamentos localizados no cluster, as formas de
incorporação de novas tecnologias se dão pela cooperação com organizações de ensino e
pesquisa e por licenciamento. Essas formas foram consideradas muito importante e importante
por metade das empresas. Todas as empresas consideraram importante a aquisição de máquinas
no mercado internacional e, também,
o desenvolvimento de tecnologia nas unidades de
produção das empresas e nos laboratórios de P&D (tabela 36).
Deve-se considerar entretanto que as informações obtidas nas entrevistas indicaram
também, a grande dificuldade destas empresas para a incorporação de novas tecnologias e para
realizar investimentos em P&D. Apesar do esforço que realizaram para introdução de novos
equipamentos e novas técnicas organizacionais nos anos 90, enfrentam dificuldades nas
condições de concorrência com seus competidores internacionais, entre outros aspectos, devido
ao custo do financiamento interno para a venda de equipamentos maiores. Sua inserção no
cluster realiza-se, principalmente, pela venda de equipamentos como estampos e peças de
reposição.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
40
TABELA 36
FORMAS DE DESENVOLVIMENTO OU INCORPORAÇÃO DE NOVAS TECNOLOGIAS - EMPRESAS DE
MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS PARA A INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Grau de importância (% empresas)
Formas de desenvolvimento
Sem
importância
Pouco
importante
Importante
Muito
importante
Total
Aquisição de máquinas compradas no mercado nacional
Aquisição de máquinas compradas no mercado
internacional
Em cooperação com fornecedores de equipamentos
Nas unidades de produção da empresa
Em laboratórios de P&D da empresa
Em cooperação com outras empresas concorrentes
Em cooperação com outras organizações (de ensino e
pesquisa, entidades de apoio setoriais, etc.)
Via licenciamento
Em cooperação com fornecedores de insumos
Fonte: Pesquisa de Campo.
50,0
0
0
0
50,0
100,0
0
0
100,0
100,0
50,0
0
0
100,0
0
0
0
0
0
0
0
100,0
100,0
0
50,0
50,0
0
0
0
50,0
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
0
50,0
0
0
50,0
0
50,0
50,0
100,0
100,0
No que se refere ao CTC, este dispõe de laboratórios com instrumental científico para
absorção e desenvolvimento de tecnologia de interesse dos atores que participam do arranjo de
cooperação tecnológica. A infra-estrutura laboratorial é composta de laboratórios de produto
cerâmico acabado, análise térmica, análise química,
colorimetria,
reologia,
processos
cerâmicos e preparação de amostra. A infra-estrutura de recursos humanos presentes nestes
laboratórios indica, conforme a tabela 37, 19 técnicos, 17 graduados e 3 pós-graduados em nível
de mestrado. Este conjunto representa algo em torno de 70% dos recursos humanos existentes.
TABELA 37
INFRA-ESTRUTURA DE RECURSOS HUMANOS DO CENTRO TECNOLÓGICO EM CERÂMICA -1998.
Pessoal ocupado, segundo grau de formação
Setores
Técnico Graduação Mestrado Doutorado
Estagiário
Bolsista
Apoio Administrativo
5
2
1
Softpolis
1
Direção
1
1
Qualidade
2
Educação Tecnológica
4
Lab. Análise Química
2
4
3
Lab. Análise Térmica
1
1
1
Lab. Prod. Cer Acab.
4
1
1
Lab. Prep. Amostra
2
Lab. Processo Cerâmico
3
1
2
3
Lab. De Colorimetria
Lab. Reologia
2
1
1
1
Total
19
17
3
2
3
7
Fonte: Laboratório de Materiais - LABMAT-UFSC
Total
8
1
2
2
4
9
3
6
2
9
0
5
51
O trabalho realizado pelo CTC possibilita ao setor industrial demandar
serviços
tecnológicos postos em termos de: caracterização física, química e mineralógica de matériasprimas e produtos; ensaios de certificação de qualidade de produtos acabados; melhoria e
otimização de processos de fabricação, formulação de composições cerâmicas, massas , esmaltes
e análises de defeitos de fabricação.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
41
Por sua vez, a estrutura laboratorial é credenciada pelo Instituto Nacional de Metrologia
- INMETRO, reconhecida pelo Centro Cerâmico do Brasil - CCB - entidade nacional que
autoriza a emissão de certificado de qualidade de produtos segundo normas internacionais - e
credenciada pela Rede Mundial de Laboratórios Cerâmicos - CERLAB, possibilitando
credibilidade aos produtos para adentrarem em diferentes mercados.
A configuração do arranjo permite a integração da universidade com a estrutura
produtiva cerâmic a. A UFSC participa do CTC executando várias tarefas, contribuindo para a
prestação de serviços técnicos. Mantém através do Departamento de Engenharia Mecânica apoio
aos trabalhos de pesquisa, através do Laboratório de Materiais - LABMAT; a formação de
recursos humanos, através dos cursos de pós-graduação em Engenharia Mecânica e em Ciências
e Engenharia de Materiais; e a prestação de serviços complementares não atendidos pelo CTC à
indústria cerâmica. No CTC, a UFSC mantém no quadro de pessoal um professor doutor que, na
função de diretor, acompanha a
execução de projetos, a assistência técnica às empresas e
desenvolvimento do serviço laboratorial. Assim como, utiliza o espaço laboratorial para alunos
dos programas de pós-graduação realizarem estudos e experiências destinadas às teses de
mestrado e doutorado.
O CTC desenvolve ações com outros institutos de pesquisa, visando aumentar sua
capacitação em desenvolvimento tecnológico para a indústria cerâmica. Tem promovido
intercâmbio com institutos de pesquisa, em nível externo, na Itália, Espanha, Portugal e
Argentina, e internamente, junto ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo - IPT, e
com Departamentos de Cursos de Engenharia de Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS. A aproximação
com outros atores institucionais que realizam desenvolvimento
tecnológico na área de cerâmica permite a atualização de informações tecnológicas, treinamento
de técnicos, prestação de serviços, trocas de experiências diversas, etc.
Por outro lado, em face do centro ser uma referência na prestação de serviços
tecnológicos, sua área geográfica de atuação estende-se para diversas regiões do país. Conforme
a tabela 38, cerca de oito Estados brasileiros demandam trabalhos postos em termos de
caracterização e seleção de matérias-primas, formulação de composições cerâmicas,
desenvolvimento de novos produtos, aproveitamento de resíduos industriais, design, etc. Destes,
Santa Catarina é demandante de 68,7% dos atendimentos, dos quais, grande parte refere-se a
empresas cerâmicas e aos fornecedores de insumos diretamente ligados ao cluster. Esta demanda
não se restringe somente à indústria cerâmica, mas também a fornecedores e outros setores,
como construção civil, mineradoras, etc., que mantêm vinculações produtivas com a atividade
cerâmica.
TABELA 38
NÚMERO ATENDIMENTOS DO CENTRO TECNOLÓGICO EM CERÂMICA – 1998.
Estado
Indústria
Cerâmica
Santa Catarina
40
Paraná
3
R. G. Sul
2
São Paulo
15
Espírito Santo
1
Goiás
1
Minas Gerais
1
Bahia
1
Total
64
Percentual por usuário (%)
40,8
a
Construtoras, mineradoras e outros.
Fonte: CTC.
Fornecedores
Escola
Outros a
24
3
3
3
33
21,0
5
2
1
-
39
2
6
2
1
1
1
52
5,1
8
33,1
Total
Número
108
8
10
21
2
1
5
2
157
-
%
68,7
5,1
6,4
13,4
1,3
0,6
3,2
1,3
100,0
100,0
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
42
Atualmente um dos principais objetivos do CTC é implantar uma unidade piloto capaz de
desenvolver melhoramento de processos de produção cerâmica. Pretende-se, através da
implantação desta planta,
realizar todas as etapas do processo produtivo em escala de
laboratório, desde a moagem, atomização, prensagem, esmaltação e até a queima. O projeto
elaborado em parceria com o Departamento de Engenharia Mecânica da UFSC foi recentemente
aprovado pelo Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico - PADCT. Em
funcionamento, a planta piloto tende a contribuir para a agilidade e redução de perdas do
processo produtivo, pois evitará que as empresas tenham de paralisar suas linhas de produção
para fazer ensaios finais, na medida em que estarão à disposição todos os testes necessários à
produção.
Paralelamente, o CTC vem montando uma estrutura de organização das informações
tecnológicas para auxiliar o processo de busca de inovação realizado pelas empresas. Está
implantando um sistema de obtenção permanente de informações tecnológicas, através da
organização de documentos e armazenamento de dados, voltados a auxiliar no processo de
desenvolvimento da capacidade inovativa das empresas. Uma vez implantado, informações
atualizadas estarão disponíveis na Rede Catarinense de Ciência e Tecnologia - RCT/SC - e na
Rede Nacional de Pesquisa - RNP.
À medida em que o CTC vem desenvolvendo as funções citadas no âmbito do arranjo, o
aprendizado institucional adquirido tem criado condições para avançar na execução de novas
prestações de serviços tecnológicos. Existe a consciência da necessidade de atuar com maior
intensidade na solução de problemas técnicos em nível do processo produtivo das empresas, uma
vez que a realização de serviços laboratoriais atende as necessidades cotidianas das empresas.
Espera-se com isso, estar executando função semelhante ao que os centros de pesquisas
internacionais, o Instituto de Pesquisa para Tecnologia de Faenza e o Instituto de Tecnologia
Cerâmica de Castellon realizam na Itália e Espanha.
Em resumo, quanto às formas de desenvolvimento ou incorporação de novas tecnologias
e as fontes de informação para a inovação, observou-se que:
1) a importação de máquinas e equipamentos , as relações com os fornecedores de
insumos, e os laboratórios de P&D são as formas mais importantes de aprendizagem
para o conjunto de agentes do cluster ;
2) as feiras e eventos internacionais, os mercados consumidores nacionais , as
universidades e o centro de pesquisa são de forma mais geral as principais fontes de
informação para o desenvolvimento tecnológico;
3) o cluster internalizou uma
tecnológico, que foi o CTC;
fonte importante de estímulo ao seu desenvolvimento
4) com o desenvolvimento da especialização e complementaridade dentro do cluster,
através do desenvolvimento do segmento de fornecedores, criaram-se as condições
para que a relação mais importante dos processos de aprendizagem característicos do
setor cerâmico pudesse ocorrer num ambiente no qual se verificou que o nível
tecnológico dos agentes é compatível com o padrão internacional da indústria;
5) que as relações dos agentes com os produtores de máquinas e equipamentos situados
no cluster são menos intensas que as demais;
6) que ocorre um esforço interno de desenvolvimento tecnológico expresso nas
atividades de P&D realizado pelas empresas cerâmicas , pelos fornecedores dos
componentes do esmalte e pelos fornecedores de equipamentos;
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
43
7) que estão presentes instituições de ensino para a qualificação da mão-de-obra e
instituições associativas que proporcionam
condições de coordenação,
principalmente na melhoria da infra-estrutura econômica, conforme foi analisado no
capítulo 2 deste relatório.
3.3 Natureza e frequência dos fluxos tecnológicos
Considerando-se as formas dos processos de aprendizagem e as principais fontes de
informação para a inovação das empresas cerâmicas do cluster, bem como a existência de
agentes de apoio tecnológico, como o CTC, são importantes os seguintes fluxos tecnológicos,
apresentados segundo suas origens:
a) Os fluxos de origem externa ao cluster: 1) as informações proporcionadas por
participações em feiras e eventos nacionais e principalmente internacionais, nas quais procuram
conhecer as tendências do desing, as alterações nos produtos e nos processos. Este fluxo
alimenta o processo de learnig by doing afetando principalmente a capacidade para o
desenvolvimento do produto, combinando-se com as formas de capacitação tecnológica através
dos investimentos em P&D. Podem-se incluir aqui também as informações obtidas em revistas
internacionais especializadas; 2)
as
compras de máquinas e equipamentos no exterior,
estimulando os processos de learning by using; e 3) as relações com consumidores no mercado
nacional estimulando a capacidade de desenvolvimento dos produtos. 4) as relações das
empresas fornecedores de insumos com suas matrizes.
b) Os fluxos que se realizam dentro do cluster: 1) as relações com o centro de pesquisa e
também com a universidade federal do estado, considerada aqui pela sua proximidade à região;
e 2) as relações com os fornecedores de insumos instalados no cluster, caracterizando os
processos de learning by interacting. Estes fluxos criam possibilidades para a absorção de
tecnologia, frente às características do regime tecnológico e do padrão de concorrência da
indústria. O que se procura investigar é em que medida este ambiente apresenta possibilidade de
estimular mecanismos de aprendizagem,
que possam criar condições para a inovação,
combinando-se com a absorção por fontes externas. Para tanto, a análise concentra-se nos fluxos
internos de tecnologia que se realizam pelas relações entre fornecedores e produtores e pelas
relações dos agentes com o centro de tecnologia. Serão também observadas as externalidades
proporcionadas pelas instituições de qualificação da mão-de-obra.
3.3.1 Relações entre empresas cerâmicas e fornecedores de insumos
Como foi observado anteriormente as relações entre as empresas cerâmicas e os
fornecedores de insumos foram consideradas pelas empresas cerâmicas como a segunda mais
importante forma de incorporação de tecnologia. Para as empresas fornecedoras, conforme tabela
39, o apoio ao cliente no desenvolvimento do produto e a venda de produtos desenvolvidos
especificamente para os clientes, são as mais importantes formas de relações comerciais dessas
empresas. Esta estratégia de vendas superou a venda de produtos padronizados e tornou-se uma
forma frequente de desenvolvimento de produtos na indústria cerâmica. Esta prática , padrão na
indústria internacional, já foi amplamente internalizada no cluster.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
44
TABELA 39
RELAÇÕES COMERCIAIS DAS EMPRESAS DE INSUM OS COM CLIENTES LOCAIS - EMPRESAS DE
INSUMOS PARA A INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Grau de importância (%)
Relações comerciais
Sem
importância
Pouco
Importante
Importante
Muito
Importante
Total
Venda de produtos padronizados
Venda de produtos desenvolvidos para
empresas locais
Existência de processos produtivos dedicados
a empresas locais
Apoio a clientes no desenvolvimento de seus
produtos
Aliança para desenvolvimento de tecnologias
Fonte: Pesquisa de Campo.
16,7
0
16,7
0
16,7
14,3
49,9
85,7
100,0
100,0
0
50,0
33,3
16,7
100,0
0
0
0
100,0
100,0
33,3
0
33,3
33,4
100,0
As formas de cooperação que se estabelecem a partir destas relações comerciais são
diversas e muito frequentes. Na tabela 40, computou-se a maior frequência (entre as categorias
“inexistente”, “rara”, “anual”, e “mensal/semanal/diária”) declarada pelas empresas cerâmicas e
pelos fornecedores. Como pode-se observar , com exceção da cooperação para capacitação de
recursos humanos, que não é uma forma de cooperação característica desse tipo de relação, um
mínimo de 70% dos agentes declararam manter contatos mensais, semanais, ou diários, e todos
os agentes mantêm contatos com esta frequência quer por serem menos formais, como a troca de
idéias e informações, quer pela maneira mais formalizada, como a realização de ensaios para
desenvolvimento e melhoria de produtos. Esta frequência e estas formas de cooperação
evidenciam a potencialidade dessas relações para a capacitação tecnológica dos envolvidos.
TABELA 40
ENTRE EMPRESAS CERÂMICAS E FORNECEDORES DE INSUMOS INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
RELAÇÕES DE COOPERAÇÃO
Formas de cooperação
Troca de idéias e informações
Ensaios p/desenv. e melhoria de
produtos
Design de produtos
Assist.técnica p/ melhoria do processo
produtivo
Capacitação de recursos humanos
Fonte: Pesquisa de Campo.
% de empresas cerâmicas que realizam
contatos mensais/semanais/diários
100,0
85,7
% de empresas de insumos que
realizam contatos mensais
semanais/diários
85,7
100,0
71,4
85,7
71,4
85,7
42,8
28,6
Alguns exemplos de introdução de melhoramentos técnicos pelos fornecedores
observados nas entrevistas são sumariados na tabela 41. Estão inclusos na tabela os fornecedores
de componentes do esmalte, de telas cerâmicas e mineradoras. Deve-se observar entretanto que
as relações de cooperação são mais fortes com os fornecedores de componentes dos esmaltes,
dada a importância do insumo para a obtenção do produto final , uma vez que a especificação do
esmalte depende de formulação apropriada para o tipo da massa cerâmica em uso pelo cliente e
da “solução” a ser obtida em termos das características do produto final. O mesmo ainda não
acontece com as mineradoras que fornecem a matéria-prima para a massa cerâmica. As
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
45
empresas cerâmicas adquirem as argilas e rochas e outros componentes da massa de fontes com
grande diferenciação em termos tecnológicos. Mas já há no cluster mineradoras que oferecem o
produto com as análises de laboratório já realizadas procurando atender as especificidades dos
clientes e criando relações que podem ampliar as capacitações tecnológicas. A possibilidade de
vender a massa já formulada e misturada é uma tendência internacional que no cluster ainda está
começando.
TABELA 41
EXEMPLOS DE MELHORAMENTOS NOS INSUMOS FORNECIDOS PELAS EMPRES AS PRODUTORAS E
IMPACTOS SOBRE OS PRODUTOS CERÂMICOS - EMPRESAS DE INSUMOS PARA A INDÚSTRIA
CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Empresas
Características dos melhoramentos
A
- Modificação em corantes para porcelanato
B
- Melhorias nos defloculantes
C
- Melhorias nas características do esmalte
D
- Melhoria na tecnologia da monoporosa
E
- Melhorias na mobilidade da tela
F
- Anortosito
Fonte: Pesquisa de Campo.
Impactos sobre os produtos cerâmicos
- Melhora a resistência ao calor e preserva a cor
- Auxilia na densidade e na diferenciação do produto
- Afeta as características do brilho
- Melhor efeito estético e economia na 1ª queima
- Reduz interrupções na linha
- Melhorou a estabilidade da massa na queima
3.3.2 Relações com o CTC
Considerações das empresas cerâmicas, a respeito de atividades cooperativas
realizadas com o CTC, apontam que os serviços laboratoriais voltados à caracterização e seleção
de matérias-primas,
análises e ensaios de matérias-primas, análise e ensaios de produtos
acabados e certificação de qualidade dos produtos são os mais demandados. Por outro lado, o
desenvolvimento de novos produtos e a assessoria e transferência de tecnologia como atividades
cooperativas são raras e nulas, conforme a tabela 42. Este quadro evidencia que a natureza da
atividade tecnológica do CTC, no atual momento, prende-se à execução de serviços laboratoriais,
sem forte envolvimento em inovações de processo e produto. Em consonância, os dados
permitem observar a existência de parceria para o desenvolvimento conjunto de projetos, mesmo
sem ser apreciável, indicando a realização de novas tarefas tecnológicas. Informações obtidas
nas entrevistas referendam este quadro com o envolvimento conjunto com empresas em projetos
de aperfeiçoamento tecnológico, bem como de desenvolvimento tecnológico de produtos.
No tocante às empresas de insumos - esmaltes, fritas, corantes e outras especialidades
química - o arranjo aponta para o baixo nível de cooperação com o CTC. As demandas por
serviços laboratoriais são preponderantemente raras e nulas. Esta evidência decorre destas
empresas possuírem infra-estrutura tecnológica, com laboratórios e corpo técnico executando
tarefas disponíveis no CTC, bem como por serem, em sua maioria, empresas multinacionais, o
desenvolvimento tecnológico realiza-se em suas matrizes.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
46
TABELA 42
RELAÇÕES DE COOPERAÇÃO DAS EMPRESAS CERÂMICAS E DE INSUMOS COM O CTC - INDÚSTRIA
CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Atividades cooperativas
% de empresas fornecedoras de
% de empresas cerâmicas
insumos
FREQUÊNCIA
FREQUÊNCIA
Nula Rara Anual Mensala Total Nula
Rara Anual Mensala Total
Caracterização e seleção
71,4 14,3
de matérias-primas
Formulação de
100,
0
composições cerâmicas
0
Desenvolvimento de novos 100,
0
produtos
0
Aproveitamento de
100,
0
resíduos industriais
0
Assessoria e transferência
71,4 14,3
de tecnologias
Análises e ensaios de
57,1 14,3
matérias-primas
Análises e ensaios de
85,7
0
produtos acabados
Parcerias para desenv.
71,4
0
Conjunto de projetos
Certificação de qualidade
85,7
0
de produtos cerâmicos
a – freqüência mensal/ semanal/ diária
Fonte: Pesquisa de Campo.
0
14,3
100
14,3
14,3
14,3
57,1
100
0
0
100
42,8
28,6
14,3
14,3
100
0
0
100
57,1
28,6
14,3
0
100
0
0
100
14,3
0
71,4
14,3
100
0
14,3
100
28,6
42,8
14,3
14,3
100
0
28,6
100
0
0
0
100,0
100
14,3
0
100
0
0
0
100,0
100
14,3
14,3
100
0
42,9
14,29
42,9
100
0
14,3
100
0
0
0
100,0
100
3.3.4. A qualificação da Mão-de-obra
O sistema de ensino no âmbito do cluster é a fonte mais importante para a mão-de-obra
qualificada de todos os agentes (tabela 43). Este sistema mantém intensas relações com as
empresas, e expressa claramente o esforço conjunto das empresas neste sentido. Da mesma
forma que as articulações realizadas para a implantação do CTC, o sistema de ensino é também
uma clara demonstração das possibilidades de cooperação que ocorrem dentro do cluster. A
criação de externalidades pelas associações representativas já é uma prática que apresentou
resultados promissores para os agentes, e complementam as ações cooperativas através das
relações entre fornecedores de insumos e as empresas cerâmicas. As atividades mais recentes de
implantação de um curso superior de engenharia cerâmica, confirmam a potencialidade desta
cooperação, que pode, entre outras possibilidades, dirigir-se para a formação de pessoal
especializado em design.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
47
TABELA 43
ORIGEM DO PESSOAL TÉCNICO - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998.
Local da qualificação
% do pessoal técnico das empresas
fornecedores de insumos
Escolas técnicas do local
59,6
Escolas técnicas de SC
0
Escolas técnicas nacionais
0
Universidades do local
34,6
Universidades de SC
0
Universidades nacionais
5,8
Total
100,0
* Sem considerar 4 empresas fornecedores de insumos e 3 empresas cerâmicas.
Fonte: Pesquisa de Campo.
% do pessoal técnico das empresas
cerâmicas
28,1
19,9
4,4
1,8
32,8
13,0
100,0
A análise das principais relações que estimulam o desenvolvimento ou incorporação de
novas tecnologias no cluster, através da natureza das relações de sua frequência , mostrou:
1) A
importância da internalização no cluster das empresas fornecedoras de
componentes do esmalte. A estratégia das empresas fornecedoras de localizarem-se
junto aos clientes e as relações com os clientes para desenvolvimento de produtos,
estimularam a desverticalização nas grandes empresas cerâmicas, e criaram para as
menores uma fonte de informação para o desenvolvimento tecnológico.
2) Esta experiência é ainda pouca desenvolvida com as empresas mineradoras, apesar de
já haver sinais das possibilidades de seu desenvolvimento. Este segmento do cluster
parece estar passando por uma transição
em direção a novas formas de
comercialização, introduzindo a análise de matérias-primas e outras formas de
relações com os clientes.
3) No âmbito das relações internas ao cluster, talvez sua maior deficiência seja a
dificuldade de capacitação tecnológica no segmento produtor de máquinas e
equipamentos, que não se refere unicamente às estratégias de capacitação destes
agentes, mas também às economias de escala necessárias a uma indústria deste tipo e
às condições macroeconômicas internas que reduzem a competitividade deste
segmento.
4) O CTC gradativamente firma-se como um importante agente de desenvolvimento
tecnológico do cluster. Suas intensas relações, principalmente com as empresas
cerâmicas, criam as bases para que possa ampliar sua ação de cooperação tecnológica
além das atividades de certificação e análises laboratoriais. Sua presença também
possivelmente tenha estimulado a terceirização dos serviços de análise.
5) Os gastos com P&D, na maioria das empresas, indicam o desenvolvimento de
esforços no nível das empresas que pode criar estruturas específicas para a
capacitação inovadora. Este esforço dirige-se com mais intensidade ao
desenvolvimento de produtos, através da criação de competência em design.
6) A atividade de ensino é a principal fonte de qualificação da mão-de-obra no âmbito
do cluster e resulta de uma eficiente ação cooperativa dos agentes.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
48
4. AVALIAÇÃO E PROPOSTA DE POLÍTICAS
4.1 A dimensão local e a capacidade para inovação tecnológica: elementos para uma avaliação
Partindo da definição apresentada por (SCHMITZ & KHALID, 1994) O cluster da
indústria cerâmica do Sul de SC, apresenta os principais elementos que caracterizam este tipo de
arranjo, quais sejam: (a) concentração geográfica e setorial de empresas, (b) desintegração
vertical da produção, proporcionando condições de especialização e complementaridade entre as
empresas, (c) presença de organizações que representam os interesses locais. No entanto, o
cluster se diferencia em relação à definição, no que se refere ao (d) fraco suporte do governo
local, e, também, ao fato de não haver (e) predominância de pequenas empresas, que no
entanto também existem no cluster cerâmico.
Estabeleceu-se na região uma ampla rede de empresas produtoras, fornecedores de
insumos e serviços articuladas a instituições de apoio tecnológico e de representação de
interesses locais. Nestas condições , é útil para a análise o conceito de sistema de inovação
setorial, que, conforme BRESCHI & MALERBA (1997), refere-se a um grupo de firmas ativas
na produção e desenvolvimento de um produto específico de um setor e na geração e uso de
tecnologias deste setor. Os autores consideram também que “um sistema de firmas está
relacionado de duas formas diferentes: através de processos de interação e cooperação no
desenvolvimento de uma tecnologia e através de processos de competição e seleção na inovação
e nas atividades de mercado.”(pg.131)
Considerando-se então a existência de um cluster cerâmico, é relevante compreender sua
trajetória e as especificidades que daí decorreram sob o ponto de vista: (a) de sua conformação,
como apontam SCHMITZ & KHALID (1994),
e (b) da sua capacitação tecnológica e
competitividade, como realçam BRESCHI & MALERBA (1997).
A conformação do cluster, sua dinâmica de capacitação tecnológica e a situação dos
fatores competitivos, resultaram de uma trajetória que se inicia com a implantação dos grandes
grupos econômicos com sede na região, e se amplia com os processos de desverticalização
desses grupos (que afetam não apenas atividades produtivas, cujo melhor exemplo é a
mineração, mas também o sistema de formação de mão-de-obra , cuja importante escola técnica
antes era exclusiva de um dos grandes grupos), com a implantação de fornecedores estrangeiros
e com a articulação dos empresários organizados em uma associação. As economias de
aglomeração daí resultantes estimularam as médias empresas,
que também realizaram
importantes investimentos nos anos 90. Este movimento articulou-se com o movimento de
abertura comercial, ao impor exigências de reestruturação produtiva e também ampliar as
condições de importação de equipamentos. São características desta trajetória , em consonância
com o padrão de concorrência da indústria, dadas as reduzidas barreiras à entrada, e a ampla
difusão da tecnologia, a coexistência de médias e grandes empresas sem uma relação de
dependência entre elas. Também nestas condições, a cooperação entre as empresas cerâmicas é
bastante restrita nos campos de desenvolvimento tecnológico, mas ao mesmo tempo cria
condições de cooperação para desenvolver uma infra-estrutura econômica e tecnológica que
proporciona economias de aglomeração. Exemplos disso são: a implantação do centro de
tecnologia, os esforços para a implantação do sistema de gás natural, e do acesso ao porto
próximo à região.
Nesta trajetória acelerou-se a dinâmica dos processos de aprendizagem, na medida em
que foram internalizados no cluster os agentes que têm importante papel na transferência de
tecnologia, os agentes que operam as condições de certificação e os serviços tecnológicos. Mais
do que isso, é importante considerar que frente à criação de uma especialização mínima e de uma
infra-estrutura básica, os agentes adotaram estratégias de diferenciação dos seus produtos,
ampliando seus esforços internos de capacitação e generalizando no cluster algumas condições
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
49
do padrão internacional de competitividade. Criaram-se amplas condições de absorção de
tecnologia externa, capacidade para seu uso e uma certa competência própria que pode evoluir
para a capacitação de inovação dos agentes. Portanto, as economias de aglomeração estão
afetando positivamente a capacitação tecnológica dos agentes que optaram por estratégias de
diferenciação, aumentando o valor agregado de seus produtos, em sintonia com
as
características do padrão internacional.
Quanto à conformação, destaca-se a
presença dos seguintes agentes concentrados
geograficamente: empresa cerâmicas, empresas de insumos para esmaltação, empresas
mineradoras, empresas de serigrafia, empresas produtoras e distribuidoras de máquinas e
equipamentos, empresas de manutenção, escolas técnicas especializadas,
um centro de
tecnologia, e instituições de representação. Deve-se mencionar,
como especificidades do
arranjo: (a) a concentração econômica pela presença de dois grandes grupos econômicos do
setor; e (b) a dependência quanto aos equipamentos, que são em sua maioria importados.
Quanto à dinâmica dos processos de capacitação tecnológica, este é condicionado pela
natureza estável da tecnologia, pela origens das inovações em setores externos à indústria, e
pelas baixas condições de apropriabilidade na introdução de inovações. Nestas condições, o
cluster apresenta (a) fortes relações entre produtores e fornecedores, (b) relativa homogeneidade
entre as capacitações tecnológicas dos agentes, (c) a disponibilidade de serviços tecnológicos
prestados pelo centro de tecnologia , (d) esforço interno às empresas para capacitação
tecnológica, (e) a rápida absorção de inovações lideradas pelas grandes empresas.
Quanto às características dos processos competitivos, observadas pelos fatores de
competitividade definidos pelo padrão internacional, o cluster apresenta (a) um movimento
gradativo de desverticalização que amplia as condições de especialização e complementaridade,
(b) o fortalecimento da organização setorial, (c) o aperfeiçoamento dos agentes na gestão
empresarial ,
(d) a adoção de sistemas de qualidade e certificação segundo padrões
internacionais, (e) o aumento na flexibilidade da produção, e (f) um forte sistema de treinamento
de recursos humanos.
Frente a esta trajetória e características, e tendo em vista os objetivos da pesquisa,
procura-se refletir sobre o significado da dimensão local para a dinâmica dos processos de
aprendizagem (item 4.1.2) e sobre as possibilidades de desenvolvimento da capacidade para a
inovação tecnológica no âmbito do cluster ( item 4.1.3)
4.1.1. A importância do “local” enquanto sustentação da capacitação tecnológica
Consideradas as especificidades do cluster, a proximidade geográfica dos agentes não
se deve às características da tecnologia, como no caso de tecnologias que estão sofrendo grandes
alterações, e nas quais tende também a ser maior a dimensão tácita do conhecimento. Mas sim,
uma vez iniciado o movimento de aglomeração, as economias que daí decorrem, combinadas
com as estratégias das empresas para se adequarem ao padrão de concorrência, amplificam
gradativamente o movimento, criando condições de se articularem os interesses locais, os quais,
ao promoverem melhorias na infra-estrutura ampliam ainda mais as economias de aglomeração.
Convivem desta forma os grandes, que exercem um papel de liderança no estímulo à absorção de
inovações, na medida em que são os mais capazes financeiramente de realizar os gastos e
investimentos inovadores, e os médios e pequenos que frente às decisões dos líderes procuram
segui-los nos novos esforços de investimento. Conformou-se assim um sistema de inovação
setorial típico de setores de tecnologia madura e com a dinâmica de inovações ditada por fontes
externas ao setor.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
50
No cluster cerâmico, ocorre a absorção de inovações em processo , através
principalmente da aquisição de máquinas importadas e de novos insumos, e inovações em
produtos relacionadas principalmente ao esforço de imitação no desing . Nestas condições, tratase de verificar se os fatores relacionados à proximidade geográfica são importantes para
sustentar uma dinâmica interna de capacitação que possa estimular a inovação. Esses fatores
são:
a) A estratégia dos agentes que pode ou não privilegiar os esforços para a inovação.
Neste aspecto a questão é: qual a influência da proximidade dos agentes para
estimular a adoção de estratégias que exigem capacitação tecnológica. Aqui o papel
central é dos grandes grupos que lideram a absorção das inovações. As estratégias
por diferenciação de produtos pelos grandes grupos estimularam todo o cluster, e
atraíram os fornecedores internacionais, e criaram uma fonte próxima de informação
para a inovação. Nestas condições, criaram-se possibilidades para as empresas
menores também adotarem estratégias de diferenciação. Neste caso, a proximidade
foi um fator importante. Uma vez mantidas as estratégias, os estímulos passam a ser
mútuos e se reforçam. Também os fornecedores estarão estimulados para “oferecer”
inovações. Da mesma forma, as estratégias de desverticalização dos grandes grupos
estimularam a especialização e a complementaridade, ampliando a oferta interna ao
cluster de informação para a inovação. Em resumo, a proximidade geográfica
permite que as estratégias das firmas, principalmente as grandes, provoque reflexos
locais importantes.
b) A estabilidade das relações entre fornecedores e produtores pode estar relacionada à
proximidade, dadas as características de flexibilidade, de redução dos custos dos
estoques, entre outros aspectos. Como esta relação é também um importante estímulo
para as atividades inovadoras, a maior capacitação tecnológica por learning by
interacting pode ser uma decorrência da proximidade.
c) A oferta interna ao cluster de mão-de-obra qualificada, tende a ampliar-se e já
direcionou-se para a oferta de profissionais graduados. Estes cursos tendem a atrair
mão- de-obra que pode qualificar-se na região e atender a demanda crescente das
empresas. Acrescente-se a esta oferta o movimento entre as empresas de pessoal
qualificado em muitos casos dando origem a novas empresas e serviços. Criou-se
assim
um ambiente local de formação que pode articular-se às atividades de
pesquisa estimuladas pela proximidade com as empresas. Da mesma forma sua
combinação com a oferta interna de serviços tecnológicos. Tende portanto a criaremse estímulos para a pesquisa os quais derivam da proximidade e podem criar uma
rede de relações entre empresas, universidade, centro tecnológico e escolas técnicas.
Esses aspectos, pela proximidade, podem estimular uma ampla rede interna de contínua
ampliação da capacidade inovativa no âmbito do cluster. Na medida em que se mantém a
capacidade de absorção de tecnologias externas, combinadas com estratégias empresariais que
exigem a manutenção ou ampliação desta capacidade, e ainda com uma infra-estrutura de
serviços tecnológicos e de qualificação de mão de obra, o fortalecimento da capacidade de
inovação pode ocorrer.
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
4.1.2. A absorção de inovação de fontes externas e
capacidade para inovar
51
as possibilidades de desenvolvimento da
Outro aspecto importante da análise é procurar identificar as possibilidade da
capacidade de absorção de inovações estimular a capacidade inovativa . Essa reflexão pode ser
feita sob o ponto de vista da natureza das redes que se criam em uma região, com base em
HUGGINS (1997) que distingue três tipos de redes: as de informação, as de conhecimento e as
de inovação. A diferença entre elas é a crescente ampliação da qualidade das interações e de sua
complexidade. “Regiões globais exitosas são aquelas cujas networks incorporam uma oferta
adequada de boas fontes de conhecimentos, com a habilidade e a disposição das firmas locais
para fazerem uso das fontes externas de conhecimento com um claro foco na inovação”(p. 103).
E, menciona que as redes de inovação “originam-se da combinação criativa de know-how
através de redes de conhecimento e habilidades específicas”(p. 104). O autor relaciona estas
redes com os tipos de transferência de tecnologia que podem ser: (a) transferência de
informação: que compreende a transferência de dados, de documentação e de software, etc.., (b)
transferência de conhecimento : que exige a compreensão da origem e do impacto potencial da
tecnologia ou do processo, habilidade no know-how e a habilidade para adaptar e difundir a
inovação, (c) transferência de hardware: interpretada de forma ampla como a transferência de
equipamentos, peças, materiais e sistemas completos de informação.
Dentro deste enfoque, pode-se sugerir que o tipo de rede encontrada no cluster
aproxima-se bastante de uma rede de conhecimento, com a ressalva de que as principais fontes
de informação lhes são externas. Por outro lado, observando-se os fluxos tecnológicos do cluster,
conforme mencionado no capítulo 3, pode-se perceber que engloba a transferência de
informação, de conhecimento e de hardware. Isto indica um claro potencial em direção à criação
de capacidade inovadora. Este enfoque analítico reforça as observações feitas anteriormente, de
que o potencial desenvolvimento da capacidade de inovação no cluster está relacionado à
possibilidade de criarem-se internamente as relações que sustentem a absorção das mudanças
tecnológicas que ocorrem externamente até o ponto de internalizar as fontes de inovação.
4.2 Os pontos fracos do cluster
A possibilidade de criarem-se internamente condições para a capacidade de inovação,
exige ainda a superação de deficiências como:
a) Debilidade no setor produtor de máquinas e equipamentos
As empresas fornecedoras de máquinas e equipamentos no cluster
encontram-se
limitadas para
desenvolverem capacidade inovativa em decorrência da falta de recursos
humanos capacitados, de baixo nível de gastos em P&D, pouca integração tecnológica com os
produtores líderes mundiais e facilidades de aquisição de produtos importados com maior
sofisticação tecnológica colocados em termos de condições de financiamento e política cambial
favoráveis.
b) Poucas relações cooperativas com o setor minerador
O setor minerador não tem acompanhado a reestruturação produtiva e organizacional que
se processa nas empresas cerâmicas. O nível tecnológico das máquinas e equipamentos existente
nas etapas do processo produtivo de mineração, encontra-se desatualizado em relação ao padrão
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
52
internacional. Soma-se a este fato, a forma com que está estruturado este segmento, com as
empresas cerâmicas se responsabilizando por parte ainda significativa desta atividade e existirem
poucas empresas mineradoras independentes. Em contraste, nos países produtores líderes - Itália
e Espanha - existem centrais de preparação de matérias-primas para atendimento a várias
empresas cerâmicas. Tais fatos têm limitado a criação de capacidade inovativa, contribuíndo
para inexistência de avanços tecnológicos no tratamento da massa - moagem e preparação - e se
apresentado como deficiência produtiva para o crescimento dos pequenos e médios produtores
cerâmicos no cluster
b) Insuficiente desenvolvimento em design
O cluster cerâmico depara-se com o limitado desenvolvimento artístico, em decorrência
dos baixos investimentos em design, da inexistência de formação de nível superior para design
cerâmico e da falta de incentivo à maior atuação de designer junto às empresas. Estas
deficiências contribuem para diminuir a capacidade de diversificação e sofisticação dos
padrões estéticos em direção a produtos cerâmicos com maior teor artístico e de mais elevado
valor agregado.
e) Falta de maior vinculação com clientes
A vinculação das empresas com clientes, mostra-se diferenciada no arranjo estudado. Em
face desta ocorrência, há distintas condições de se criar capacidade de inovação a partir de
processos de learning by using. As grandes empresas procuram maior aproximação com os
consumidores através de show-roons, lojas monomarcas e equipes de assistência técnica, e se
beneficiam de sugestões para solução de problemas técnicos, bem como de pareceres sobre
melhoramento dos produtos. Porém, o mesmo não se verifica em relação às pequenas e médias
empresas. Nestas, existem baixas utilizações de pesquisas de mercado para a orientação de
desenvolvimento de produtos, não possuem estruturas de banco de dados para melhorar o
atendimento ao consumidor e não há a preocupação em desenvolver tecnologia de assentamento
e assistência técnica para aplicação.
f) Pouca abrangência das atividades tecnológicas do CTC
As atividades do CTC estão concentradas em prestação de serviços laboratoriais e
certificação de qualidade dos produtos, conforme análise no capítulo 3. Mesmo diante
argumento de sua criação ser recente, têm sido tímidos e localizados os avanços na áreas
desenvolvimento de tecnologia de produtos e processos e na solução de problemas técnicos
nível das empresas.
na
do
de
no
4.3 Os impactos da abertura comercial nos anos 90 e da criação do Mercosul
As empresas que compõem o cluster cerâmico procuraram adequar-se às novas condições
concorrênciais postas pela diretriz da política econômica nos anos 90. A abertura comercial
conduziu as empresas a adotarem estratégias de reestururação produtiva visando obter vantagens
competitivas no mercado. Diante da redução das barreiras à importação de produtos, as empresas
cerâmicas procuraram, de forma prioritária, adotar estratégias destinadas às melhorias nos
equipamentos e processos produtivos e capacitação interna de seus recursos humanos. Este
procedimento foi seguido pelas empresas fornecedoras de insumos e de máquinas e
equipamentos que fazem parte do cluster, conforme a tabela 44.
A identidade de estratégias entre empresas de segmentos produtivos diferentes, mas
vinculados entre si na cadeia produtiva, sinaliza em direção da existência de objetivos comuns
voltados a obter eficiência coletiva neste sistema produtivo localizado. Tal fato tem contribuído
para elevar o grau de especialização produtiva local, na medida em que, no conjunto, agentes
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
53
realizam esforços destinados a aumentar a capacidade competitiva do cluster, em ambiente de
maior abertura da economia.
TABELA 44
ADEQUAÇÃO DAS EMPRESAS CERÂMICAS E DE FORNECEDORES DE INSUMOS E DE MAQUINAS E
EQUIPAMENTOS AO PROCESSO DE ABERTURA COMERCIAL NOS ANOS 90 - INDÚSTRIA CERÂMICA
DO SUL DE SC – 1998
ESTRATÉGIAS
Promoveu importantes melhorias nos
equipamentos e processos produtivos
Promoveu apenas mudança organizacional
Introduziu inovação de produto
Introduziu inovação de processo
Fez arranjos cooperativos com empresas e
instituições de pesquisa
Capacitou
internamente
os
recursos
humanos
Empenhou-se no aprendizado tecnológico
Buscou outras formas de financiamento
Marketing
Fonte: Pesquisa de campo
ORDENAMENTO SEGUNDO A ORDEM DE IMPORTÂNCIA
EMPRESAS
INSUMOS
MÁQUINAS E
GERAL
CERÂMICAS
EQUIPAMENTOS
1º
2º
1º
1º
4º
3º
6º
2º
3º
4º
-
4º
3º
4º
4º
3º
7º
6º
2º
1º
-
2º
5º
7º
4º
-
2º
-
5º
7º
Por sua vez, o cluster cerâmico não tem sido impactado pelos novos fluxos de
financiamento. O processo de liberalização financeira que facilitou o acesso às fontes externas,
não tem despertado interesse pelas empresas do arranjo, que preferem, ao contrário, demandar
recursos para capital de giro e investimento de fontes de financiamento doméstico. Tal evidência,
se manifestou nos resultados da pesquisa, no qual
a fonte de financiamento público e
financiamento próprio foram
consideradas importantes e muito importantes pelas empresas
pesquisadas, conforme análise no capítulo 2. Neste quadro, destacam-se as fontes públicas de
financiamento para investimento, sobretudo os recursos provenientes do Banco de
Desenvolvimento d o Estado de Santa Catarina SA.
A influência dos investimentos diretos do exterior no arranjo tem-se mostrado de forma
distinta. No contexto das empresas cerâmicas pertencentes ao cluster constata-se o predomínio
do capital nacional em suas composições acionárias, não se verificando a ocorrência de
investimentos diretos do exterior, em forma de associação de capitais. Da mesma forma,
empresas pesquisadas afirmaram que não estão presentes em suas estratégias fazer associações
com empresas multinacionais. Tal fato, repete-se em termos de inexistência de projetos voltados
à instalação de empresas de capital estrangeiro na região.
Por outro lado, os investimentos diretos do exterior têm ocorrido no segmento fornecedor
de
insumos. Empresas, sobretudo filiais de matrizes espanholas, atuantes no segmento de
esmaltes, corantes e fritas têm-se instalado no cluster. Estes investimentos passaram a ocorrer a
partir do processo de liberalização da economia e da desverticalização produtiva das empresas
cerâmicas. A facilidade de importação de insumos para a elaboração dos produtos citados e a
transferência para terceiros de atividades executadas pelas empresas cerâmicas, contribuíram
para a ocorrência de inversões externas neste segmento da cadeia produtiva. A presença de
empresas produtoras de insumos junto às cerâmicas tem possibilitado a ocorrência de processos
de learning by interacting, proporcionando, sobretudo, melhoramento do fluxo de informações
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
para o desenvolvimento tecnológico
complementaridade produtiva .
54
e
no
desenvolvimento
da
especialização
e
Entretanto, não se verifica investimentos diretos do exterior no segmento de máquinas e
equipamentos para a indústria cerâmica. As principais empresas são nacionais cuja função no
cluster, prende-se a fornecer máquinas e equipamentos complementares à estrutura produtiva
principal, procedente em sua maioria da Itália. Em função do estágio maduro do paradigma
tecnológico e da facilidade de acesso às importações por conta de uma política cambial
favorável, não se verifica movimento de vinda de investimento direto externo no cluster.
Constata-se, sim, dados estes fatores, inversões de algumas empresas nacionais localizadas no
arranjo de aumentarem seu índice de importação para revenda às empresas cerâmicas.
TABELA 45
ESTRATÉGIAS ADOTADAS MAIS CITADAS PELAS EMPRESAS CERÂMICAS FRENTE À FORMAÇÃO DO
MERCOSUL – INDÚSTRIA CERÂMICA DO SUL DE SC – 1998
ESTRATÉGIAS
Levou a empresa a ampliar sua estrutura de vendas para os países do
Mercosul
Levou a empresa a realizar investimentos nos países do Mercosul
Conduziu a um maior acirramento concorrencial com empresas dos
países do Mercosul
Levou a empresa a maior integração com empresas locais na busca de
maior especialização produtiva
Outros. Aumentou vendas para o Mercosul
Levou a formação de alianças cooperativas com empresas dos países
do Mercosul, voltadas para melhorias na produção
Levou a empresa a realizar esforços junto a governos em favor de
tratamento mais eqüitativo às empresas locais
a: amostra de 7 empresas
Fonte: Pesquisa de campo
PERCENTUAL DAS EMPRESASa QUE
CITARAM A ESTRATÉGIA
85 %
43 %
29 %
14 %
14 %
0%
0%
A formação do Mercosul vem influenciando as estratégias das empresas cerâmicas,
apesar das exportações se situarem próximas de 10% do valor produzido no cluster. Entre as
empresas pesquisadas, existe forte opção estratégica de ampliar a estrutura de venda nos países
que compõem o mercado regional, conforme a tabela 45. Tal ocorrência, no nível de 85% das
empresas pesquisadas, reflete a trajetória de crescimento das vendas nacionais nos dois últimos
anos para este mercado regional, de 16,6% em 1996 para 26,8% em 1997 do total exportado.
As ações das empresas, neste momento, prendem-se ao âmbito comercial, através da instalação
de escritórios de representação próprios ou delegando a terceiros a representação de vendas.
Esta estratégia, por seu turno, ocorre de forma individual entre as empresas cerâmicas, sem se
verificar qualquer movimento que aponte a existência de ações integradas entre empresas
concorrentes locais voltadas a ter maior inserção neste mercado.
Esta falta de integração, estende-se às empresas dos países que compõem o Mercosul.
São vários os obstáculos citados que impedem tal procedimento. No âmbito da estrutura
empresarial, existe ausência de interesses comuns entre produtores e dificuldade de acesso às
informações de negócios, enquanto no contexto da política econômica são citados a desarmonia
entre as políticas macroeconômicas e entraves fiscais entre os países, que impedem maior
integração entre as empresas localizadas no arranjo e a dos demais países. Corrobora, ainda,
com estas observações, o fato dos países que compõem o Mercosul serem inexpressivos em
Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ
55
produção de cerâmica de revestimento, sendo importante neste momento, para as empresas
situadas no cluster manterem apenas relações comerciais com este mercado.
TABELA 46
POLÍTICAS DO GOVERNO QUE P ODERIAM AUMENTAR A EFICIÊNCIA E INOVAÇÕES – ORDENADO
PELAS EMPRESAS - INDÚSTRIA CERÂMICA DO SUL DE SC – 1998
ORDENAMENTO SEGUNDO A ORDEM DE IMPORTÂNCIA
TIPOS DE POLÍTICAS SUGERIDAS
Estabelecimento de mais e melhores
treinamentos técnico
Melhorias em educação bás ica
Programas de apoio e consultoria técnica
Linhas de crédito
Incentivos fiscais
Maior estabilidade macroeconômica
Fonte: Pesquisa de campo
EMPRESAS
CERÂMICAS
6º
INSUMOS
GERAL
2º
MÁQUINAS E
EQUIPAMENTOS
3º
3º
5º
1º
4º
2º
3º
4º
1º
5º
2º
6º
1º
4º
5º
2º
6º
1º
3º
5º
4º
As políticas públicas recentes em favor da promoção das inovações no arranjo
encontram-se em implantação. A primeira, refere-se ao projeto de instalação de uma planta
piloto no CTC através de recursos do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e
Tecnológico - PADCT. Este projeto, aprovado em novembro de 1997 no valor de R$ 1,1 milhão,
pretende desenvolver melhoramento de processos de produção a partir da realização de todas as
etapas do processo produtivo cerâmico, em nível laboratorial. Atualmente, o projeto encontra-se
em implantação, com as fases de construção da estrutura física e de processos de licitação para
compra de equipamentos em andamento. A segunda, refere-se ao Programa Novos Pólos de
Exportação - PNPE-, lançado há 1 ano, nos quais o setor cerâmico acha-se contemplado junto
com outros 8 segmentos produtivos. Este programa destina-se a elevar a capacidade tecnológica
dos setores produtivos com vistas a aumentar a qualidade dos produtos de exportação.
Atualmente a ANFACER tem procurado informar as empresas da sua existência e não se tem
conhecimento de empresas que estão se beneficiando de seus incentivos fiscais e creditícios. A
realização destas políticas insere-se no quadro de políticas sugeridas pelas empresas localizadas
no cluster visando aumentar a eficiência produtiva e gerar inovações, conforme a tabela 46. Os
tipos de políticas relacionadas com a concessão de linhas de crédito, promoção de incentivos
fiscais e melhoramento em educação básica, são citados como fundamentais para que o arranjo
possa vir a criar maior capacidade de absorção e geração de inovações.
4.4 Proposta de políticas
O cluster consolidou-se num período de intensas transformações da economia brasileira.
No decorrer da década de 90, as políticas de estabilização monetária, a política de abertura
comercial e a política de integração regional entre os países do Cone Sul, foram elementos que
configuraram as dimensões sistêmicas e interagiram com as estratégias da empresas cerâmicas.
A dimensão setorial do cluster, ou seja o fato da aglomeração local se dar no âmbito de um
setor industrial específico, faz com que as políticas macroeconômicas ou políticas de natureza
horizontal provoquem um impacto relativamente homogêneo sobre o cluster. Os impactos das
políticas mencionadas não se deram sobre um arranjo acabado. Ao contrário, tais políticas
interferiram na configuração do arranjo, pois ocorreram simultaneamente a sua formação. Ainda
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hoje, a natureza horizontal de políticas que objetivam promover as exportações e também as
que estimulam a criação de Entidades Tecnológicas Setoriais do Ministério de Ciência e
Tecnologia
proporcionam opções que continuam a ser utilizadas pelas empresas ou pelas
organizações de representação dos empresários como a ANFACER ou o CCB, que participou
do edital para a formação da Entidade Tecnológica Setorial.
Com o objetivo de propor políticas para o desenvolvimento do arranjo, a preocupação
deste trabalho foi orientada para a definição de políticas de alcance limitado ao arranjo, e não
abrangem aquelas que possam afetar o setor cerâmico em seu conjunto. O principal objetivo
estratégico das políticas é ampliar as relações de cooperação no arranjo de forma a consolidar as
condições de capacitação tecnológica e ampliá-las para a capacidade de inovação.
Com este objetivo estratégico e considerando-se as deficiências no cluster já apontadas ,
procura-se apresentar os eixos básicos em torno dos quais se poderiam definir programas
específicos:
1.A consolidação do CTC como o principal agente de um núcleo científico-tecnológico
no cluster.
Os objetivos desta linha de ação devem ser : (1) criar em torno do CTC um núcleo
científico e tecnológico , (2) articular as relações entre as instituições científicas e o setor de
P&D dos agentes produtivos, e (3) ampliar as relações do núcleo científico e tecnológico com
o sistema de qualificação da mão de obra.
2. Estímular no cluster a especialização e complementariedade:
Com os objetivos de : (1) estimular os processos de desverticalização, (2) estimular a
ampliação de competências específicas, e ( 3) criar espaços econômicos que possam ser
ocupados por pequenas e médias empresas.
3. O desenvolvimento de programas específicos para a superação de pontos fracos já
identificados:
O objetivo desta linha de ação é propor, em articulação com os agentes do cluster, um
conjunto de programas voltados para ações que: (1) estimulem as relações cooperativas com o
segmento minerador , (2) induzam a adoção de estratégias de venda que possibilitem o
desenvolvimento de fluxos de informação tecnológica com os consumidores, e (3) fortaleçam os
investimentos em P&D voltados para a ampliação das competências em desing
Esta proposta de eixos básicos para a formulação de políticas no cluster é de caracter
preliminar , cujo detalhamento implica, entre outros aspectos, na identificação de atores
responsáveis por sua formulação e implantação e que pode constituir-se num plano
estratégico de capacitação tecnológica para o cluster.
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o cluster da indústria cerâmica de revestimento