Globalização e Inovação Localizada: Experiências de Sistemas Locais no Âmbito do Mercosul e Proposições de Políticas de C&T O CLUSTER DA INDÚSTRIA CERÂMICA DE REVESTIMENTO EM SANTA CATARINA: UM CASO DE SISTEMA LOCAL DE INOVAÇÃO Renato Ramos Campos José Antônio Nicolau Silvio Antônio Ferraz Cário Departamento de Economia da UFSC Colaboradoras: Liane Sbruzzi Samya Campana Deise Guadalupe de Lima Nota Técnica nº 29/99 Mangaratiba-RJ, dezembro de 1998 Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro - IE/UFRJ Patrocínio: Ministério da Ciência e Tecnologia Organização dos Estados Americanos Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico A presente Nota Técnica faz parte do Projeto de Pesquisa Globalização e Inovação Localizada: Experiências de Sistemas Locais no Âmbito do Mercosul e Proposições de Políticas de C&T. Esta e as demais notas técnicas do referido projeto serão publicadas como livro no final de 1998, assim como encontram-se disponibilizadas em via eletrônica na homepage do Grupo de Economia da Inovação do Instituto de Economia da UFRJ: www.race.nuca.ie.ufrj.br/gei/gil.shmtl. O objetivo central do projeto de pesquisa em referência é o de analisar as experiências de sistemas locais selecionados no âmbito do Mercosul, visando gerar proposições de políticas de C&T aos níveis nacional, supra e subnacional. Para tal delineia-se um conjunto de objetivos subordinados, os quais podem ser divididos em dois grupos principais. O primeiro grupo inclui os objetivos mais gerais relacionados à necessidade de desenvolver mais aprofundadamente o quadro conceitual empírico e teórico que norteia a discussão proposta. Neste caso, a análise incluirá o exame de experiências internacionais (fora do Mercosul), destacando-se quatro tópicos principais de pesquisa: (i) a dimensão local do aprendizado, da capacitação e da inovação; (ii) processo de globalização e sistemas nacionais, supra e subnacionais de inovação; (iii) papel de arranjos produtivos locais e sua capacidade; e (iv) novo papel e objetivos das políticas de desenvolvimento científico e tecnológico, tendo em vista as dimensões supranacional, nacional, regional, estadual e local. Já o segundo grupo de objetivos refere-se à necessidade concreta de (a) identificar e analisar as experiências específicas com arranjos locais de inovação em países do Mercosul; e (b) discutir soluções alternativas quanto à adoção de políticas de desenvolvimento - que considerem, não apenas as questões nacionais e supranacionais de aumento da competitividade e da capacitação industrial e tecnológica no cenário crescentemente globalizado, mas também se preocupem com os desafios e oportunidades relativos ao aprendizado nas dimensões sub, supra e nacionais nestes países. Participam do projeto diversas instituições de pesquisa do Brasil, da Argentina e do Uruguai. O projeto é financiado pela Organização dos Estados Americanos, pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Brasil José E. Cassiolato (IE/UFRJ-Brasil) - Coordenador Geral Judith Sutz (Universidad de la Republica - Uruguai) - Coordenadora Adjunta Gustavo Lugones (Universidad de Quilmes - Argentina) - Coordenador Adjunto Helena M.M. Lastres (PPCI/IBICT/CNPq/UFRJ - Brasil) - Coordenadora Adjunta Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 2 SUMÁRIO Capítulos e Seções Páginas INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 03 1. AS CARACTERÍSTICAS DA INDÚSTRIA DE CERÂMICA DE REVESTIMENTO .........................................................................................................05 1.1. Formação e desenvolvimento .....................................................................................05 1.2. Estrutura de mercado e padrão de concorrência .....................................................05 1.3. Regime tecnológico ......................................................................................................10 1.4. As características da indústria e a formação de cluster............................................12 2. O CLUSTER DE CERÂMICA DE REVESTIMENTO NA REGIÃO SUL DO ESTADO DE SANTA CATARINA .......................................................................14 2.1. A formação do cluster cerâmico .................................................................................14 2.2. A estrutura atual do cluster cerâmico - segmento produtivo ................................. 18 2.2.1. Principais atores, recursos e rede de transações .........................................................18 2.2.2. Estrutura de financiamento e planos de investimento ................................................24 2.3. Estrutura atual do cluster - infra-estrutura educacional, tecnológica, e econômica...................................................................................................................27 3. A DINÂMICA DOS PROCESSOS DE APRENDIZAGEM .....................................31 3.1 O nível tecnológico das empresas e as possibilidades dos processos de aprendizagem ..............................................................................................................31 3.2 Formas de desenvolvimento ou de incorporação de novas tecnologias .................35 3.3 Natureza e frequência dos fluxos tecnológicos .........................................................43 3.3.1 Relações entre empresas cerâmicas e fornecedores de insumos ................................ 43 3.3.2 Relações com o CTC.............................................................................................. .45 3.3.3 A qualificação da Mão-de-obra ................................................................................46 4. AVALIAÇÃO E PROPOSTA DE POLÍTICAS...........................................................48 4.1 A dimensão local e a capacidade para inovação tecnológica: elementos para uma avaliação..........................................................................................................................48 4.1.2 A importância do “local” enquanto sustentação da capacitação tecnológica................49 4.1.3 A absorção de inovação de fontes externas e as possibilidades de desenvolvimento da capacidade para inovar..............................................................................................51 4.2 Os pontos fracos do cluster.............................................................................................51 4.3 Os impactos da abertura comercial nos anos 90 e da criação do Mercosul..............52 4.4 Proposta de políticas ......................................................................................................55 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...............................................................................57 Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 3 O CLUSTER DA INDÚSTRIA CERÂMICA DE REVESTIMENTO EM SANTA CATARINA: UM CASO DE SISTEMA LOCAL DE INOVAÇÃO INTRODUÇÃO Santa Catarina constitui-se num importante Estado produtor de cerâmica de revestimento do Brasil: responde por cerca de 30% da produção brasileira, a quarta maior do mundo, e por cerca de 70% das exportações, estando instaladas no Estado as maiores e mais modernas cerâmicas do país. A indústria de cerâmica de revestimento catarinense concentra-se na região sul do Estado, no eixo formado pelos vizinhos Municípios de Içara-Criciúma-Cocal do SulUrussanga, mais os Municípios de Tubarão e Imbituba. Essa região, era tradicionalmente dominada pela indústria extrativa de carvão mineral, mas, desde os anos 1970, sua estrutura industrial evoluiu para a extração e industrialização de outros minerais não metálicos, também abundantes no local (argilas), para uso na construção civil. Surgiu, então, um moderno parque produtivo de cerâmica de revestimento (pisos e azulejos) de médias e grandes empresas, ao lado de um grande contingente de micro e pequenas empresas de cerâmica vermelha (telhas e tijolos), de tecnologia ainda quase artesanal. A presente pesquisa ocupa-se exclusivamente da cerâmica de revestimento, sendo, entretanto, apontadas as conexões entre as duas indústrias nas análises efetuadas e constantes do presente relató rio. A indústria de cerâmica de revestimento do sul de Santa Catarina vem apresentando um movimento de intensificação da especialização e complementaridade locais, a partir da maior desverticalização das grandes empresas e da instalação no local de fornecedores de insumos, ao lado da criação de um importante centro de tecnologia e de cursos técnicos na área cerâmica. Essa estrutura industrial sugeriu seu estudo como um arranjo produtivo localizado, no âmbito da pesquisa "Globalização e inovação localizada: experiências de sistemas locais no âmbito do Mercosul e perspectivas de políticas de C&T". Nesse contexto, o objetivo do presente estudo é analisar a experiência de arranjo local de capacitação tecnológica, na indústria cerâmica de revestimento de Santa Catarina, com o intuito de contribuir com proposições para a formulação de políticas de ciência e tecnologia. Ainda que registrada a concentração industrial em duas principais empresas, considera-se apropriada, neste documento, a denominação de cluster para a indústria cerâmica de revestimento do sul de Santa Catarina, na acepção ao termo encontrada em KHALID e SCHMITZ (1994), especialmente pelas características de concentração geográfica e setorial, de desintegração vertical da produção, proporcionando condições de especialização e complementaridade, e de existência de instituições de coordenação de nível local. Ao lado da dimensão local, enfatizada no conceito de cluster, buscou-se compreender a dinâmica setorial principalmente através dos conceitos de regime tecnológico e padrão de concorrência. Neste sentido, o cluster tem sua trajetória condicionada por características da tecnologia quanto à oportunidade, apropriabilidade e cumulatividade, bem como por características do produto e do mercado consumidor, expressas na noção de padrão de concorrência. Nesse corte setorial, a pesquisa apoiou-se nos resultados do ECIB (Souza et al., 1993) para a indústria ao nível mundial, complementados com informações mais recentes de publicações especializadas. A pesquisa de campo desenvolveu-se nos meses de outubro e novembro de 1998, cabendo os seguintes comentários sobre sua abrangência. Em primeiro lugar, a pesquisa cobriu atores diretamente relacionados com a produção de cerâmica de revestimento, aí compreendidas as próprias empresas cerâmicas, os fornecedores de insumos e de máquinas e equipamentos, as escolas técnicas, o centro de tecnologia e as instituições de coordenação, num total de 24 atores entrevistados. Foram consideradas como pertencentes à indústria de cerâmica de revestimento as empresas que utilizam o processo de prensagem, de massa atomizada, para a conformação do Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 4 corpo cerâmico, excluindo-se as empresas fabricantes de lajotas glazuradas, que utilizam o processo de conformação por extrusão (consideradas como pertencentes à cerâmica vermelha). Em segundo lugar, dado o número relativamente pequeno de atores de maior expressão, a pesquisa buscou cobrir todo o universo dos atores principais, a partir de informações prévias colhidas em entrevistas com as instituições de representação (sindicatos empresariais) e com centro de tecnologia. Dificuldades operacionais, normais em pesquisa de campo (dificuldades de agenda, recusa de atendimento, etc.), levaram a que somente um conjunto reduzido dos atores mais importantes não foi coberto pela pesquisa. Em terceiro lugar, a pesquisa foi feita diretamente pelos autores do presente relatório e consistiu no preenchimento de questionários específicos para cada tipo de instituição. O presente relatório de pesquisa está estruturado em quatro capítulos, com os conteúdos seguintes. O capítulo primeiro ocupa-se da dimensão setorial, sendo apresentadas e discutidas as características da indústria de cerâmica de revestimento no que se refere a regime tecnológico, padrão de concorrência e distribuição mundial e nacional da produção. Especial destaque é dado à organização e tendências da indústria nos países líderes no setor, Itália e Espanha. O capítulo segundo faz a caracterização do arranjo local de cerâmica de revestimento existente no sul de Santa Catarina, apresentando sua formação e trajetória evolutiva e sua estrutura atual, com a identificação dos atores, seus recursos e produção e dos principais fluxos comerciais internos e externos ao cluster. O capítulo terceiro busca identificar, a partir de um grande conjunto de informações colhidas nos questionários, o nível tecnológico existente, as formas de capacitação e a capacidade para inovar no cluster, bem como os principais fluxos tecnológicos internos e externos, estes últimos vindos particularmente dos países líderes na indústria. Finalmente, o capítulo quarto busca, inicialmente, compreender de forma conclusiva a economia do cluster cerâmico, em especial distinguindo os aspectos locais e setoriais examinados nos capítulos anteriores, e busca adicionalmente avaliar os impactos da abertura comercial do Brasil nos anos 90 da formação do Mercosul sobre o arranjo. E a partir dessas conclusões sobre a experiência da indústria de cerâmica de revestimento em Santa Catarina, o capítulo apresenta proposições de política industrial, a serem consideradas e confrontadas com elementos colhidos de outras experiências de arranjos localizados, dentro da abrangência maior desta pesquisa. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 5 1. AS CARACTERÍSTICAS DA INDÚSTRIA DE CERÂMICA DE REVESTIMENTO 1.1. Formação e desenvolvimento A utilização de materiais cerâmicos para revestimentos tem origem bastante antiga século 6 a. c. e, ao longo dos séculos posteriores sua produção e emprego sofrem alterações. De caráter artesanal e de preço elevado, o que permitia acesso somente a consumidores de renda elevada, passa a partir do pós-guerra, a ter produção industrial, tornando-se acessível a uma faixa maior de consumidores e para uso em diferentes ambientes. No Brasil, a indústria de cerâmica para revestimento surge a partir de antigas fábricas de tijolos, blocos e telhas cerâmicas, que já no início do século XX começaram a produzir ladrilhos hidráulicos e, mais tarde, azulejos, pastilhas cerâmicas e de vidro. A cerâmica de revestimento constitui-se um segmento da indústria de transformação, inserida no ramo de minerais não-metálicos, tendo como atividade a produção de uma variedade de produtos destinados ao revestimento de pisos e paredes. Representa, ao lado da cerâmica vermelha, louças, cal e vidro, uma cadeia produtiva que compõe o complexo industrial de materiais de construção. No Brasil, o segmento de cerâmica de revestimento é composto por cerca de 160 empresas, das quais 120 dedicam-se à produção de pisos e azulejos, e o restante à cerâmica nãoesmaltada e às louças sanitárias. As empresas são em sua quase totalidade de propriedade de capital nacional e de pequeno, médio e grande portes. Apesar de existirem empresas com registro da década 50, o surto de surgimento de novas empresas passa a ocorrer a partir dos anos 60, com a definição de uma política habitacional no país. O estímulo à construção civil ampliou a demanda por produtos cerâmicos de revestimento, resultando, nos anos 70, no surgimento de inúmeras novas empresas. Este movimento prossegue nos anos 80, com novas empresas surgindo e passando a ocupar posições de liderança, em função da constituição ocorrer a partir de tecnologia moderna. Em paralelo, esta década registra movimentos de concentração de empresas movidas por processos de aquisição de fábricas pelos maiores grupos econômicos. 1. 2 Estrutura de mercado e padrão de concorrência O Brasil situa-se entre os maiores produtores mundiais de cerâmica de revestimento, sendo superado apenas pela produção da China, Itália e Espanha. A produção brasileira mostrase crescente nos anos 90, cuja cifra de 339,8 milhões de m2 em 1997 representa um acréscimo próximo de 80% em relação ao volume produzido de 1989. A intensidade de crescimento do volume produzido tem levado a aproximar-se do volume de produção da Espanha e Itália, tradicionais países produtores de cerâmica de revestimento mundial, conforme a tabela 1. O crescimento anual da produção brasileira de cerâmica de revestimento constitui um indicativo das mudanças que estão ocorrendo em sua estrutura industrial. Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica de Revestimento - Anfacer (1996), entidade que congrega empresas produtoras de aproximadamente 70% do volume produzido nacional, as empresas procuram fortemente implementar nos anos 90, processos de fabricação mais eficazes, com investimentos em novas tecnologias produtivas, programas de qualidade e formação de trabalhadores especializados visando aumentar a produção, obter certificados de qualidade produtiva e ampliar a competitividade da indústria no exterior. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 6 TABELA 1 PRINCIPAIS P RODUTORES MUNDIAIS DA INDÚSTRIA DE CERÂMICA DE REVESTIMENTO , 1990-1996. milhões/m2 Países 1989 China Itália Espanha Brasil Turquia Total Fonte: Anfacer 1990 1991 213,2 172,8 423,0 228,0 186,9 213,2 172,8 837,9 1992 1993 440,0 261,0 215,7 459,0 281,0 262,9 916,7 1.002,9 1994 1995 1996 510,0 320,0 283,5 80,0 1.193,5 500,0 568,0 400,0 295,0 90,0 1.853,0 900,0 600,0 420,0 336,0 100,0 2.356,0 Este processo de reestruturação industrial que toma conta do segmento cerâmico, pode ser compreendido pelo comportamento do volume produzido no período em análise, dividido em dois sub-períodos, compreendendo 1989/1992 e 1993/1997. O primeiro mostra um decréscimo do volume produzido em relação ao último ano da década de 80. Tal ocorrência decorre da política de estabilização em curso conduzir a economia a um período de recessão e da orientação na diretriz política promover a abertura de mercado e processos de desregulamentação. Por sua vez, o segundo período, evidencia a demonstração de uma trajetória ascendente do volume produzido, em seu primeiro ano superando o nível de produção anterior, motivado pela estabilização monetária que contribuíra para a recuperação das vendas domésticas, considerada pelo consumo aparente, bem como, a consolidação do mercado externo como destino da parte da produção, analisada pelo item de exportação da tabela 2. O movimento de maior crescimento do volume produzido, ocorre a partir de 1993, acompanhado pela intensificação dos investimentos em capacidade instalada, cujo nível de 385,0 milhões de m2 alcançado em 1997, situa-se em cerca de 1/3 a mais do volume registrado no início da década. Neste processo, constata-se a cada ano maior aproximação do nível de produção com a capacidade instalada, ao ponto de em 1997 esta relação chegar próxima de sua utilização plena, 99,5%, sinalizando, por sua vez, a necessidade de intensificar os investimentos em face do crescimento do mercado. TABELA 2 PRODUÇÃO, EXPORTAÇÃO, CONSUMO APARENTE E CAPACIDADE INSTALADA DA INDÚSTRIA DE CERÂMICA DE REVESTIMENTO - BRASIL 1989-1997. milhões/m2 Anos Produção 1989 213,2 1990 172,8 1991 166,0 1992 202,7 1993 242,9 1994 283,5 1995 295,0 1996 336,4 1997 383,3 Fonte: Anfacer Exportação 20,3 12,7 13,9 21,1 25,6 29,7 29,4 27,9 29,6 Consumo Aparente 192,9 160,1 152,1 181,6 217,3 253,8 265,6 308,5 353,7 Capacidade Instalada 290,0 300,0 312,0 312,0 320,0 353,0 362,0 385,0 385,0 Exportação/ Produção (%) 9,5 7,3 8,4 10,4 10,5 10,4 9,9 8,3 7,7 Consumo aparente/Produção (%) 90,4 92,6 91,6 89,5 89,4 89,5 90,0 91,8 92,2 Produção/capac.instalada (%) 73,5 58,0 53,2 65,0 75,9 80,3 81,4 87,3 99,5 A produção brasileira de revestimento está distribuída em 5 regiões, todavia, está concentrada em apenas 2 regiões - Sul e Sudeste, através de 4 pólos que reúnem as empresas responsáveis pela maior parcela da produção: a) região de Ciciúma no Estado de Santa Catarina, Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 7 abrangendo também as localidades de Tubarão, Urussanga e Imbituba; b) a região da grande São Paulo, abrangendo Diadema, São Caetano do Sul, Suzano, com extensão até Jundiaí; c) a região de Mogi-Guaçu, no Estado de São Paulo; e d) a região de Cordeirópolis e Santa Gertrudes, também no Estado de São Paulo. Além destes existem outros importantes produtores localizados em Curitiba (PR) e Tijucas (SC). Em 1996, as regiões Sul e Sudeste foram responsáveis por 91,1% da produção nacional, elevando-se, em 1997 para 92,0%, conforme a tabela 3. Deste percentual, cerca de 75% da produção foram originadas dos Estados de São Paulo e Santa Catarina. A concentração da produção nestas regiões deve-se à proximidade do mercado consumidor, onde o consumo aparente registra percentual da ordem de 77% do volume produzido, do que a disponibilidade de matérias-primas, uma vez que esta encontra-se presente na maioria das regiões do país. Em consonância com este fator determinante da localização industrial, ocorre nestas regiões uma especialização produtiva com a ocorrência de economia de aglomeração industrial, motivada pela concentração das relações econômicas entre produtores, fornecedores e distribuidores. Das 10 novas empresas do setor que iniciaram atividades em 1996, apenas uma não está localizada em Santa Catarina e São Paulo (Anuário, 1996: 13). TABELA 3 CAPACIDADE INSTALADA E CONSUMO APARENTE DA INDÚSTRIA CERÂMICA DE REVESTIMENTO POR REGIÕES - BRASIL 1996 E 1997. Regiões Sul Sudeste Nordeste Norte Centro-Oeste Total Fonte: Anfacer Capacidade instalada (%) 1996 1997 34,0 33,0 57,1 59,0 5,8 5,0 0,9 1,0 2,2 2,0 100,0 100,0 Consumo aparente (%) 1996 1997 20,0 18,0 57,0 59,0 13,0 11,0 3,0 4,0 7,0 8,0 100,0 100,0 A indústria brasileira de revestimento apresenta como característica elevada concentração da produção, sob a responsabilidade de poucos grupos industriais. O peso das grandes empresas pode ser constatado através de cerca de 40% da capacidade instalada e 55% do faturamento serem, em 1992, provenientes de apenas 4 grupos industriais, que detêm aproximadamente mais de 20 unidades industriais. Entre os líderes, existem grupos que mantêm unidades produtivas em vários Estados como estratégia de se aproximarem do mercado consumidor e se tornarem mais competitivos em relação aos concorrentes situados em regiões mais distantes. Em contraste com a concentração geográfica do consumo interno, o destino das exportações brasileiras de revestimento cerâmico encontra-se melhor distribuído por continente. Exportando cerca de 30,0 milhões de m2, próximo de 8% do volume produzido, o país tem como principais mercados a América do Norte, Mercosul, América Latina, excluindo este último mercado e a Europa. Esta quantidade é considerada pequena, em comparação aos seus principais concorrentes internacionais, Itália e Espanha, que em média exportam 60% e 45% da produção, respectivamente. Por sua vez, o quadro de distribuição da produção conforme a tabela 4, evidencia o crescimento das vendas externas destinadas ao Mercosul, de 16,6% em 1996 para 26,8% em 1997, demonstrando a estratégia recente da indústria em privilegiar este mercado em detrimento de outros, situados não somente dentro da América Latina como a Ásia, Oceania e África. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 8 Por sua vez, as empresas diferem quanto à parcela da produção que destinam às exportações. Existem empresas, sem se constituírem líderes em produção, que apresentam maior intensidade de exportação, alcançando de 30 a 35% do faturamento com vendas para outros países. Todavia, a exemplo da concentração da produção, as exportações mostram-se fortemente concentradas em poucas empresas, que segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica de Revestimento - Anfacer, 4 empresas respondem por 75% do faturamento obtido com vendas para o exterior (Markwald e Guimaraes, 1995:43). DESTINO DAS EXPORTAÇÕES Mercados América Latina - Sem Mercosul América do Norte Ásia Oceania Europa África Mercosul Total Fonte: Anfacer TABELA 4 DA INDÚSTRIA DE CERÂMICA DE E 1997. REVESTIMENTO - BRASIL 1996 1996 (%) 1997 (%) 27,7 29,9 1,0 5,8 13,2 5,8 16,6 100,0 20,2 30,9 0,5 5,2 12,2 4,2 26,8 100,0 Constata-se, por seu turno, que apesar da produção de cerâmica mostrar-se crescente, tem ocorrido mudança em seu perfil - crescimento da produção de pisos em detrimento da produção de azulejos. Informações contidas na tabela 5 mostram a próxima duplicação da produção e venda de pisos cerâmicos para o mercado interno, em contraste com a redução da produção e venda de azulejos São vários fatores responsáveis por esta ocorrência: fechamento de diversas fábricas de azulejos em razão da retração de mercado interno nos primeiros anos desta década; surgimento de novo mercado para consumo de pisos a partir do desenvolvimento tecnológico em design utilizável em salas, escritórios, liwings, fachadas de edifícios, revestimento de restaurantes e shopping e outros; diversificação de produção nas fábricas tradicionais que passaram a produzir intensamente pisos; e implantação de novas plantas industriais com produção flexível de pisos voltada para o mercado externo. TABELA 5 PRODUÇÃO, VENDAS INTERNAS E EXPORTAÇÃO DE AZULEJOS E PISOS DA INDÚSTRIA CERÂMICA DE REVESTIMENTO - BRASIL 1989-1997. Anos Produção 1989 99,6 1990 71,4 1991 62,4 1992 69,9 1993 74,5 1994 71,1 1995 64,9 1996 62,6 1997 65,3 Fonte: Anfacer Azulejos (em milhões de m2) Vendas Exporta- Exportação/ Internas ção produção (%) 84,3 16,7 16,7 69,3 9,9 13,8 62,7 10,7 17,1 55,3 14,6 20,8 57,8 15,4 20,6 56,7 18,1 25,4 48,7 16,8 25,8 47,3 14,4 23,0 49,9 14,3 21,8 Produção 113,6 101,4 103,6 132,8 168,4 212,4 230,1 273,8 318,0 Pisos (em milhões de m2) Vendas ExporInternas tação 105,1 3,6 88,6 2,8 87,2 3,2 123,8 6,5 156,3 10,2 203,2 11,6 212,9 12,6 261,8 13,5 289,9 15,3 Exportação/ produção(%) 3,1 2,7 3,0 4,8 6,0 5,4 5,5 4,9 4,8 Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 9 A diferença entre a produção de azulejos e pisos mostra-se, também, no comportamento das vendas externas. Em que pese, a redução do volume produzido de azulejos, o mercado externo tem-se consolidado como destino de sua produção, chegando a absorver cerca de 25% do volume produzido nos últimos anos. Por outro lado, o coeficiente de exportação do segmento de pisos cerâmicos estabiliza-se ao redor de 5% da produção, demonstrando que apesar da indústria estar de forma crescente dedicando maior parcela de produção para este segmento, o mercado externo não se tem constituído seu principal espaço para vendas. O padrão de concorrência da indústria de cerâmica de revestimento, segundo Estudo da Competitividade da Indústria Brasileira – ECIB, é resultante da heterogeneidade de custos, dos diferenciais de qualidade e diferenciação de produto, permitindo ocorrência de uma situação combinada entre a liderança de custo e a liderança pela diferenciação de produto (Souza et all, 1993:42). No tocante aos diferenciação de custos existentes no segmento cerâmico de revestimento, observam-se duas ocorrências nas empresas: a primeira resultante de esforços de modernização do processo de produção e da introdução de novas formas organizacionais e, a segunda, decorrente da prática de sonegação fiscal, descumprimento de legislação trabalhista, desconsideração às questões ambientais e produção em não-conformidade com as normas técnicas vigentes. Os produtos, por sua vez, apresentam diferentes níveis de qualidade que resultam em diferenças de preços em disputa no mercado. Esta característica ocorre entre as empresas consideradas grandes e líderes do mercado, e as de outros tamanhos, pequenas e médias, uma vez que entre as primeiras, o nível tecnológico e o padrão organizacional são semelhantes e não possibilitam diferenças de preços significativas entre si. Frisa-se, também, como parte do padrão de concorrência setorial, a existência de produtos substitutos à disposição no mercado. A cerâmica para revestimento concorre com inúmeros produtos no âmbito do pisos como as pedras naturais, revestimentos têxteis, madeiras, laminados de madeira, laminados de melamínicos, concretos pré-fabricados ou moldados e argamassas. Assim como, no âmbito das paredes, depara-se com pinturas, argamassa, revestimentos têxteis, revestimento de madeira, revestimento de pedras naturais e concreto aparente. É característico do padrão de concorrência do setor os produtos cerâmicos apresentarem significativa diferenciação. Empresas adotam a estratégia de desenvolvimento de linhas de produtos diferenciadas visando atender diferentes níveis do mercado consumidor. Colocam ênfase às características de qualidade de produto em seus aspectos físicos e estéticos, através do desenvolvimento tecnológico do produto. Para tanto, desenvolvem capacidade interna de pesquisa e mantêm relações com fornecedores visando alterar a composição e o design dos produtos. As empresas líderes apresentam marcas consolidadas no mercado consumidor, cujos atributos de qualidade e preço servem de padrão de referência para o mercado em geral. Estas adotam estratégia de maior consolidação de suas marcas através de ações voltadas à comercialização mais ágil e moderna de seus produtos, aperfeiçoando as relações com distribuidores, instalando show-rooms nos principais centros consumidores e desenvolvendo projetos de lojas monomarcas por meio de franquias. Em consonância com esta estratégia, empresas colocam pessoal técnico especializado para dar sugestões a clientes, visando influenciar suas decisões no mercado. Este corpo técnico elabora projetos específicos, fornece explicacões sobre a especificação dos produtos e orienta instalação dos produtos cerâmicos em pisos ou paredes. Além desta orientação, empresas Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 10 procuram criar condições para recebimento de sugestões de clientes quanto a qualidade, tamanho, desenho, assentamento, etc. O setor não está isento de concorrência predatória e de ocorrência de períodos de guerra de preços entre produtores. Como é relevante a participação no volume produzido de empresas que adotam procedimentos baseados em não-conformidade técnica e no não cumprimento da legislação vigente, em períodos de queda do poder aquisitivo, recessão na indústria de construção civil e de elevação de estoques, tais procedimentos se manifestam e tornam o fator preço predominante na concorrência entre as empresa (Ibid., p. 43). Segundo o ECIB, as empresas líderes mundiais utilizam-se de fatores estruturais que permitem obter vantagens competitivas colocadas em: concentração geográfica; desverticalização produtiva; fortes relações inter e intra-setoriais; especialização produtiva; fortalecimento da organização setorial; centrais de preparação de massa para atendimento de várias empresas; investimentos em P&D de forma cooperativa; e aperfeiçoamento de unificação de novas técnicas (Ibid., p..35). No âmbito do fatores empresariais colocados pelo padrão internacional da indústria cerâmica, podem ser citados, para efeito comparativo: a descentralização das decisões, profissionalização e abertura de capital; empregos de técnicas e modelos de gestão avançada; gestão participativa e sistema de participação nos lucros; sistema de qualidade total e certificação de empresas segundo padrões internacionais; flexibilidade da produção; formação e treinamento de recursos humanos; uso de tecnologias avançadas; e capacidade de inovar em processo e de produtos (Ibid.). Os principais fatores sistêmicos colocados em nível internacional, que contribuem para obtenção de vantagens competitivas das empresas são: utilização de fonte energética mais adequada, eficiência no sistema de transporte, desenvolvimento tecnológico - incentivo governamental e criação de centros de P&D, sistema educacional, legislação ambiental e exigências de certificações técnica e de produtos (Ibid.). 1.3. Regime tecnológico A tecnologia na indústria cerâmica tem apresentado uma relativa continuidade no seu desenvolvimento, indicando a estabilidade do atual padrão tecnológico. A tecnologia tem seguido uma rota que procura resolver trade-offs entre atributos do produto, como a absorção de umidade, resistência a ataques químicos e físicos, e sua capacidade decorativa (beleza do desenho) e funcionalidade no uso de seus custos de produção. Nesta trajetória, a solução dada pelo processo de monoqueima, após as fases de prensagem da massa e de sua esmaltação, agregou recentemente a possibilidade de eliminar a fase de esmaltação, como o desenvolvimento de uma massa que melhora os atributos do produto, reduzindo a sua capacidade de absorção de umidade, ampliando sua capacidade de resistência e mantendo as condições de decoração (grêsporcelanato). Com um dinamismo tecnológico característico dos setores “dominados por fornecedores”, as inovações que marcam sua trajetória originam-se nos setores produtores de equipamentos e de insumos básicos, afetando os processos produtivos e também as características e qualidades de seus produtos. Tais inovações de natureza incremental, são introduzidas na indústria pelas modificações nos equipamentos para mistura da massa e do esmalte, para prensagem da massa, para esmaltação, para queima do produto e sua seleção. Outra fonte importante tem sido a incorporação de novos insumos ou de novas formulações na preparação da massa e principalmente do esmalte, proporcionando inovações nos produtos. As inovações em produtos relacionam-se às possibilidades de modificações nos atributos dos produtos, proporcionando-lhes diferentes condições de resistência, com usos diferenciados (pisos Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 11 anti-derrapantes para ambientes externos, ou com qualidades de brilho para afetar as condições de iluminações em interiores) e com características de decoração proporcionada pelos desenhos dos produtos. A maturidade do desenvolvimento tecnológico aponta para reduzidas condições de oportunidades tecnológicas reforçadas pelas possibilidades de aplicação dos conhecimentos tecnológicos a um leque de produtos básicos reduzidos e também pela fonte do desenvolvimento tecnológico localizar-se parcialmente “fora” da indú stria, nos setores produtores de equipamentos e insumos, cujo estágio de desenvolvimento maduro de tecnologia, tem possibilitado somente o aparecimento de inovações incrementais, resultante de aperfeiçoamento de produtos já existente, conforme a tabela 6. TABELA 6 INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS INCREMENTAIS P ARA A INDÚSTRIA DE CERÂMICA DE REVESTIMENTO 1983-1994. Ano 1983 1985 1986 1986 1987 1992 1992 1994 Fonte: Lemos e Vivona (1997). Produto e Processo Local Formação a partir do granulado Moagem contínua a úmido Esmaltação quente – Enduro Forno I.T.P. Secador a rolo Serigrafia em pó Estampo Isostático Impressão Rotocolor Holanda Itália Itália Itália Itália Itália/ Alemanha Itália Itália Também ocorrem nas empresas cerâmicas baixas condições de apropriabilidade dos resultados econômicos na introdução de inovações refletem-se na facilidade de difusão. Nestas condições, a forma mais característica de apropriabilidade é a introdução contínua de inovações incrementais, que estimulam a diferenciação do produto e encurtam o seu ciclo de vida. A base de conhecimento para o desenvolvimento tecnológico é amplamente difundida na indústria e, em condições de estabilidade no paradigma tecnológico, a continuidade das atividades inovativas no nível da firma relaciona-se aos processos de aprendizagem que permitem absorver as inovações com níveis relativamente baixos de cumulatividade tecnológica. O conhecimento que sustenta o desenvolvimento tecnológico, se expressa na combinação de disciplinas como a química, a mineralogia e a engenharia de materiais com aplicação a um produto específico e sem as características dinâmicas próprias da cerâmica fina, que é outro campo de aplicação destes conhecimentos. Nestas condições, o conhecimento é amplamente codificado e de fácil transmissão, cuja tacitividade reduz-se às possibilidades de adaptação incrementais na absorção de inovações de fontes externas. A possibilidade de identificar e restringir sua aplicação a produtos que não envolvem interações de sistemas tecnológicos complexos, indica também a menor complexidade do conhecimento e, em decorrência, a necessidade de domínio de competências específicas e menos complexas para introdução das inovações. Considerando-se as características da oportunidade tecnológica, as condições de apropriabilidade e de cumulatividade, bem como natureza dos conhecimentos tecnológicos da indústria, a estrutura industrial tende a ser menos concentrada e com uma certa estabilidade, sinalizando para uma distribuição mais equilibrada das capacidades inovativas entre as empresas. Essas características da dinâmica tecnológica da indústria cerâmica têm implicações para as formas de capacitação tecnológica nas empresas. Nestes casos, são menos relevantes os Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 12 processos de capacitação através de altos investimentos em pesquisa e desenvolvimento e adquirem importância a capacitação através de formas de aprendizagem relacionadas ao learning by doing, learning by using e learning by interacting. 1.4. As características da indústria e a formação de cluster A indústria brasileira de revestimento cerâmico posiciona-se entre os maiores produtores mundiais, cujo nível de produção da ordem de 355 milhões de m2 distribuídos em 82% em pisos e 18% em azulejos, em 1997, constitui resultado de uma evolução crescente de investimentos na capacidade produtiva ocorrida ao longo da década de 90, sobretudo nas regiões sul e sudeste nas quais se concentram 92% da capacidade instalada. Desta produção, cerca de 92,3 % destinam-se ao mercado interno, e o restante, 7,7%, equivalente a 30 milhões de m2 são exportados, cujos dois principais mercados são América do Norte (30,9%) e o Mercosul (20,2%). Esta indústria, encontra-se com o nível tecnólogico em correspondência com o nível existente no padrão de produção internacional. Tal fato decorre do ambiente tecnológico indicar estabilidade no paradigma tecnológico, com as inovações provenientes do setor “dominado por fornecedores de tecnologia” se processarem em níveis de processos e produtos de forma incremental. Esta condição, por seu turno, aponta para reduzidas condições de oportunidade tecnológica, baixas condições de apropriabilidade dos resultados econômicos e cumulatividade do conhecimento tecnológico amplamente difundida. Com isso, a indústria não dedica fortes inversões em capacitação tecnológica, se prestando a desenvolver formas de aprendizagem tecnológica. Seu padrão de concorrência caracteriza-se pela heterogeneidade de custos e pela diferenciação de produtos. Existem empresas que reduzem custos em função da modernização de processos produtivos e mudanças organizacionais, assim como existem aquelas que se utilizam de procedimentos de não cumprimentos técnicos e legais. Por sua vez, é forte a vocação por diferenciação de produtos, cujos esforços resultam em distintos níveis de qualidade e de preços praticados entre as empresas de diferentes tamanhos. A ênfase à diferenciação de produtos se traduz em estratégias voltadas a desenvolvimento tecnológico de produto e em ações direcionadas em consolidação de marcas no mercado. Os fatores de competitividade característicos da indústria cerâmica em nível internacional apontam, no âmbito estrutural, como principais, itens a concentração geográfica, desverticalização produtiva, fortes relações inter e intra-setoriais e especialização produtiva. No tocante ao contexto empresarial, os principais fatores são: descentralização das decisões, flexibilidade produtiva, emprego de técnicas e modelos de gestão avançada, uso de tecnologia de fronteira e capacidade de inovar em processo e produtos. Enquanto, os elementos relevantes da competitividade sistêmica que contribuem para obtenção de condições competitivas são: uso adequado de fonte energética, sistema educacional avançado e incentivo governamental ao desenvolvimento tecnológico e a criação de centros de P&D reunindo a cadeia produtiva. A estrutura de produção cerâmica acha-se situada entre os países líderes, Itália e Espanha, sob forte concentração geográfica. Em regiões produtivas, constata-se a formação de um sistema produtivo local com ocorrência de economias de aglomeração, em que a divisão do trabalho e a especialização produtiva redundam em maior eficácia produtiva e em introdução de novas tecnologias. Neste ambiente, relações se manifestam entre os agentes fornecendo condições para que as empresas localizadas possam adquirir ganhos competitivos provenientes de relacionamento cooperativo (Courlet, 1993:13). Um conjunto de elementos locais produz ganhos de competitividade para as empresas no interior da região produtiva, que seria difícil para uma empresa obtê-lo de forma isolada. Gerase uma eficiência coletiva decorrente de vantagens competitivas obtidas com as externalidades Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 13 locais e de ações conjuntas promovidas pelas empresas presentes na localidade do distrito industrial (Schmitz, 1992: 65). Alguns destes ganhos podem ser verificados pela geração de economias de escala interna e externa manifestada através da redução dos custos de diferentes formas; promoção de fácil circulação de informações por meio de contatos diários; criação de capacidade de inovação a partir da geração de sinergias produtivas; constituição de serviços técnicos especializados, serviços financeiros e de estrutura de formação de trabalhadores com habilidades específicas, entre outros. Estas vantagens competitivas obtidas através da constituição de cluster de empresas, decorrem de características da estrutura produtiva e de condições locais que se expressam, não de forma semelhante em todas as atividades que apresentam modelo comunitário, mas preservam grande parte de seus elementos constitutivos, tais como: concentração geográfica e setorial em torno da cadeia produtiva principal; predominância de pequenas e médias empresas e ausência de uma firma lider que imponha barreiras à entrada no setor; presença de encadeamentos econômicos para frente e para trás; constituição de especialização produtiva em nível local, em decorrência de uma indústria importante que liga em um conjunto vários setores relacionados ao produto típico local; desintegração vertical em nível de empresa e alto nível de divisão de trabalho entre as mesmas; condições produtivas que estimulam a acumulação do conhecimento científico e a introdução de novas tecnologias; existência de um sistema eficiente de transmissão de informação ao nível local; existência de competição-cooperativa entre as empresas; aumento das relações diretas entre os agentes econômicos - fornecedores e usuários com produtores; suporte ativo de instituições pública-privada aos agentes econômicos dentro do território; presença de trabalhadores qualificados e especializados; e uma identidade sóciocultural que facilita a cooperação local (Schmitz, 1993 e Schmitz e Musyck, 1993) Nestes termos, suscita verificar a existência das características que conformam um cluster na indústria de cerâmica de revestimento, em um pólo regional específico localizado no Sul do Estado de Santa Catarina. A concentração de empresas cerâmicas de revestimento, fornecedores de insumos e de máquinas e equipamentos e a presença de outras instituições pública e privada de apoio a esta atividade produtiva, induzem ao estudo com o objetivo de se verificar o nível de economia de aglomeração e o grau de eficiência coletiva que contribuem para o desenvolvimento de um sistema localizado de inovações, como será discutido nos capítulos a seguir. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 14 2. O CLUSTER DE CERÂMICA DE REVESTIMENTO NA REGIÃO SUL DO ESTADO DE SANTA CATARINA 2.1. A formação do cluster cerâmico O cluster cerâmico localiza-se no Estado de Santa Catarina, no Sul do Brasil. Em seu contorno mais amplo, o cluster abrange toda a região Sul do Estado Catarinense, reunindo uma população de pouco mais de 750 mil habitantes, num raio de aproximadamente 100 km em torno de Criciúma - a cidade-pólo de 160 mil habitantes. Este contorno maior inclui Tubarão - uma cidade de porte médio, a cidade portuária de Imbituba e a cidade de Araranguá, ao sul de Criciúma. A maior parte do cluster, entretanto, está contida num anel de menos de 20 km em torno de Criciúma, sendo constituído pelo município-sede e por municípios menores, entre eles Içara, Urussanga, Morro da Fumaça e Cocal do Sul. A formação industrial da região Sul de Santa Catarina ocorreu na direção do aproveitamento de seus recursos minerais, por longo tempo com a atividade de extração de carvão mineral e, nas últimas décadas, com a extração de argila, caulim e quartzo, e sua industrialização para cerâmica. Até 1970, a estrutura industrial era fortemente concentrada na extração de carvão mineral, sendo conhecida como "região carbonífera catarinense". A exploração do carvão vem de longa data, desde fins do século XIX, quando foi construída uma via férrea ligando a região carbonífera com o porto de Imbituba, acerca de 100 km de distância. Em 1970, os dados do IBGE (tabela 7) mostram que a indústria extrativa mineral respondia por 61% da força de trabalho e por 70% do valor da transformação industrial de Criciúma. Entretanto, os dados do censo de 1980 já apontam para uma forte crise na extração de carvão e para um movimento na direção de maior diversificação industrial da região, com deslocamento de recursos para a industrialização de minerais não metálicos (argilas) e, em menor grau, para outras indústrias, como têxtil/vestuário e química, esta última indústria com forte ligação com o setor cerâmico. Nessa nova configuração produtiva, a cerâmica de revestimento aparece como o setor mais importante da economia regional. Esse movimento de diversificação regional continuou nos anos 80, de tal forma que, em 1985, o gênero de indústria extração de minerais não figura mais entre os quatro principais gêneros de indústria de Criciúma. No gênero de minerais não metálicos, além da cerâmica de revestimento, a região sul de Santa Catarina destaca-se também como pólo de cerâmica vermelha para construção, contendo um grande número de pequenos estabelecimentos, de nível tecnológico, entretanto, muito inferior ao alcançado pela cerâmica de revestimento. TABELA 7 PARTICIPAÇÃO DOS PRINCIPAIS GÊNEROS INDUSTRIAIS NO TOTAL DE PESSOAL OCUPADO E DO VALOR DA TRANSFORMAÇÃO INDUSTRIAL DO MUNICÍPIO DE CRICIÚMA, 1970/80/85 Gêneros de Indústria Extração de minerais Transf.minerais não metal. Têxtil/vestuário Alimentos Química Outros gêrneros Total da indústria Fonte: IBGE, Censos Econômicos. Pessoal ocupado (%) 1970 1980 61 29 15 22 6 14 6 7 n.d. n.d. 12 28 100 100 1985 n.d. 18 21 5 n.d. 56 100 Valor da Transf.Industrial(%) 1970 1980 1985 70 32 n.d. 10 33 25 4 5 10 5 3 8 1 10 9 10 17 48 100 100 100 Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 15 O cluster de cerâmica de revestimento na região sul de Santa Catarina surgiu nos anos 70, difundiu-se nos anos 80 e passa por reestruturação produtiva na presente década (ver quadro 1). Anteriormente à década de 1970, existiram algumas unidades pioneiras de cerâmica de revestimento, produzindo de forma quase artesanal, como a cerâmica Imbituba, uma das mais antigas do Brasil, fundada em 1918, e a cerâmica Cesaca, de Criciúma, hoje desativada. Antes de 1970, ocorreu também a fundação da cerâmica Eliane, hoje o maior grupo cerâmico do país, e a cerâmica Urussanga - Ceusa. Mas, é nos anos 70 que o cluster começa a caracterizar-se, com a construção da primeira unidade produtiva do grupo Cecrisa (1971) e seu crescimento ao longo da década e a expansão do grupo Eliane. Estes dois grupos passaram a dominar a produção de cerâmica de revestimento do Sul de Santa Catarina e a expandir-se para outras regiões do Brasil. No final da década de 70, dá-se início ao sentido de complementaridade produtiva hoje observado no cluster, com o surgimento de novos atores: trata-se da criação, pelo grupo Eliane, do Colégio Maximiliano Gaidzinski, com curso técnico em cerâmica, ao nível de 2o grau, a criação da empresa Industrial Conventos-ICON, pelo grupo Cecrisa, para produção, adaptação e consertos de máquinas e equipamentos para cerâmica, e a vinda da multinacional norte-americana, Ferro Enamel, para a região, para produzir fritas e distribuir corantes e aditivos químicos, necessários à produção do esmalte cerâmico. Os anos 80 caracterizam-se pela expansão das cerâmicas, com o surgimento de três empresas de médio porte - Itagrês em Tubarão, Vectra em Içara, e De Lucca em Criciúma - e com a expansão dos grupos Cecrisa (construção das cerâmicas Eldorado e Portinari) e Eliane. Nessa década, surge ainda uma nova fábrica de insumos para esmalte - a Manchester Química, em Criciúma. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 16 QUADRO 1: CRONOLOGIA DE FORMAÇÃO DO CLUSTER CERÂMICO - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Períodos Principais eventosa Antes de 1970 - Anos 70 - Anos 80 Anos 90 - Criação da Cerâmica Imbituba (1918) Criação da Cerâmica Santa Catarina-CESACA Construção da unidade pioneira que deu origem à cerâmica Eliane (1960) Criação da Cerâmica Urussanga-CEUSA Criação do curso técnico de 1o grau da SATC-Sociedade de Assistência aos Trabalhadores do Carvão Construção da unidade pioneira do grupo Cecrisa, em Criciúma (1971) Criação do curso técnico de 2o grau da SATC (1971) Construção da fábrica de azulejos Incocesa, em Tubarão, adquirida pelo grupo Cecrisa em 1974 Grupo Eliane constrói novas unidades de produção. Criação da Industrial Conventos-ICON, para produção máquinas e equipamentos cerâmicos, pelo grupo Cecrisa. Criação do Colégio Maximiliano Gaidzinski, com curso técnico de 2o grau em cerâmica, pelo grupo Eliane (1979) A multinacional norte-americana Ferro Enamel constrói unidade de produção de fritas para esmalte em Criciúma (1979) Criação da cerâmica Itagrês em Tubarão (1982) Criação da cerâmica Vectra em Içara (1983) Criação da fábrica de aditivos para esmalte da Manchester Química em Criciúma (1983) Cecrisa constrói as cerâmicas Eldorado (1986) e Portinari (1988) em Criciúma Criação da cerâmica De Lucca em Criciúma (1989) A empresa espanhola Esmalglass abre posto de distribuição de fritas em Criciúma (1990) Início de funcionamento do Centro de Tecnologia em Cerâmica-CTC em Criciúma (1995) A empresa italiana SRS do Brasil instala unidade de pro dução de telas serigráficas em Criciúma (1993) A empresa CCT do Brasil abre unidade de distribuição de insumos para esmaltes no cluster A empresa espanhola Fritas SL abre posto de distribuição de fritas em Criciúma (1994) Unidade de produção de grês porcelanato da Eliane inicia produção (1996) Esmalglass inicia a produção de fritas e aditivos em Criciúma (1996) A Universidade do Sul de Santa Catarina-UNESC abre curso superior de Tecnólogo em Cerâmica (1995) A empresa espanhola Torrecid inaugura fábrica de fritas e aditivos para esmalte em Içara A empresa italiana Colorobia mantém posto de distribuição de fritas e aditivos para esmalte em Criciúma A empresa Cominas, do grupo Cecrisa, inicia fornecimento de minerais a cerâmicas fora do grupo Manchester Química está construindo nova fábrica de insumos no cluster A empresa Fritas SL planeja produzir fritas no cluster em 1999. Cerâmica Gabriela, de pequeno porte, prevê início de produção para 1999. Sindiceram-Sindicato das empresas cerâmicas faz convênio para transporte em contêineres por ferrovia de revestimentos cerâmicos até o porto de Imbituba (1999) Previsão para fornecimento de gás natural para cerâmicas (ano 2000) a Este quadro não esgota a totalidade dos eventos, apenas destaca eventos importantes, colhid os na pesquisa de campo. Fonte: pesquisa de campo. Os anos 90 são marcados por intensa reestruturação produtiva no cluster cerâmico, com movimentos de forte modernização dos equipamentos, redução do quadro de pessoal e de terceirização de atividades, esta última especialmente na área de esmaltação. Estes movimentos implicaram, primeiro, no grande volume de importações de máquinas e equipamentos da Itália Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 17 pelas cerâmicas do cluster, com baixa dinamização das poucas empresas locais de máquinas e equipamentos, e, segundo, na abertura, na região, de filiais de firmas estrangeiras (espanholas e italianas) produtoras de insumos químicos para cerâmica. A estratégia de focalização na atividade cerâmica, adotada pelas empresas da região, notadamente pelos dois grupos, implicou na oportunidade de abertura de novas empresas e instituições, dando ao cluster maior complexidade. Assim, além da área de esmaltes, a terceirização está alcançando as áreas de extração e transporte de minerais, de produção de telas serigráficas, de design, e a área laboratorial, em que é digna de nota a criação do Centro de Tecnologia em Cerâmica-CTC, pelo SENAI em conjunto com o Laboratório de Materiais da UFSC e com o Sindicato de Empresas Cerâmicas. A formação do cluster cerâmico na região sul de Santa Catarina, constituiu-se, inicialmente, com o capital local, no caso das empresas cerâmicas, e nos anos recentes com o aporte de capitais estrangeiros, no caso das empresas de insumos para esmaltes. As origens do capital local fogem ao alcance deste estudo, cabendo apenas alguns apontamentos colhidos na pesquisa de campo. Há uma clara vinculação com a economia do carvão na formação do grupo Cecrisa, cujo proprietário possuía anteriormente uma mineradora de carvão. Há exemplos importantes de acumulações iniciais de capital na cerâmica vermelha (é o caso da empresa Vectra e de empresas menores que transitaram da cerâmica vermelha para a cerâmica de revestimento - como as empresas Moliza e Pisoforte) e da produção de refratários (caso da Itagrês). Observa-se também a criação de diversas empresas do cluster, a partir de desmembramentos de outras cerâmicas preexistentes e de experiências profissionais acumuladas. É o caso do grupo Eliane, que teve seu início com a aquisição da antiga cerâmica Cocal, da De Lucca, cujos proprietários detinham participação de capitais na antiga cerâmica Cesaca, da Cominas e da Icon, oriundas do grupo Cecrisa, e da Pisoforte, a partir de experiência profissional na empresa Eliane. A acumulação de capital com a atividade cerâmica permitiu aos grupos Eliane e Cecrisa a expansão para fora do cluster, com a construção e aquisição de unidades em outros Estados do país. O cluster de cerâmica de revestimento da região sul de Santa Catarina é constituído por um conjunto de empresas e entidades que podem ser divididas em seis grupos principais: as empresas cerâmicas, as empresas fornecedores de insumos, as empresas fornecedoras de máquinas e equipamentos, as instituições de ensino técnico, as instituições de tecnologia e as instituições de coordenação. A pesquisa de campo identificou, num levantamento inicial, um total de 41 atores de maior importância localizados na área e diretamente envolvidos no cluster, dos quais 15 são cerâmicas, 14 são fornecedores de insumos, 5 são fornecedores de máquinas e equipamentos, 4 são instituições de ensino, 1 instituição de tecnologia e 2 instituições de coordenação geral. A tabela 8 mostra, por grupo, o número total de atores e o número de atores da amostra em que se baseou o presente estudo. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 18 TABELA 8 NÚMERO DE ATORES DO CLUSTER CERÂMICO E DA AMOSTRA - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Atores I - Cerâmicas 1. Pequeno porteb 2. Médio porte c 3. Grande ported Subtotal II - Fornecedores de Insumos 1. Pontos de distribuição 2. Unidades de produção Subtotal III - Máquinas e equipamentos 1. Pontos de distribuição 2. Unidades de produção Subtotal IV - Instituições de ensino técnico Número total de atoresa Capital nacional Capital externo Total 6 7 0 0 0 0 6 7 2 15 0 4 4 6 4 10 6 8 14 1 4 5 0 0 0 1 4 5 4 0 4 2 15 Nº de atores da amostra 0 5 2 7 3 4 7 1 2 3 4 V - Instituições de tecnologia 1 0 1 1 VI - Instituições de coordenação 2 0 2 2 a b Estimativas com base em pesquisa de campo; Empresas até 99 empregados; c Empresas entre 100 e 499 empregados; d Empresas com mais de 500 empregados . Fonte: Pesquisa de campo. Como se observa pelos dados da tabela 8, a pesquisa de campo cobriu mais de 50% do universo do arranjo, abrangendo um total de 24 atores entrevistados. A análise da estrutura atual do cluster é feita nas seções seguintes do presente capítulo, caracterizando-se os atores do segmento produtivo, na seção 2.2.2, e os atores responsáveis pela infra-estrutura educacional, tecnológica, econômica e financeira, na seção 2.3. 2.2. A estrutura atual do cluster cerâmico - segmento produtivo 2.2.1. Principais atores, recursos e rede de transações O segmento produtivo do cluster é constituído por três conjuntos de empresas: as cerâmicas, os fornecedores de insumos e os fornecedores de máquinas e equipamentos. Cada um destes conjuntos é caracterizado a seguir. Na seção 2.2, são examinadas as condições atuais de financiamento e as perspectivas de investimento do segmento produtivo. a) Cerâmicas As cerâmicas de revestimento constituem-se nos atores centrais do cluster. Uma visão geral da produção das cerâmicas encontra-se na tabela 9: uma produção de 6.726,5 mil m2/mês, um faturamento bruto mensal de quase R$40 milhões e o emprego direto de quase 5000 pessoas. Na composição da produção em 1998, já predominam os pisos cerâmicos (54%), sendo o restante representado por azulejos (46%), o que é um resultado importante da reestruturação industrial nos anos 90, uma vez que o cluster desenvolveu-se e caracterizava-se até recentemente pelo predomínio e liderança nacional na produção de azulejos. A região vem destinando cerca de Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 19 22% das vendas ao mercado externo nos últimos três anos, sendo que os países do Mercosul absorvem 8% das vendas totais. TABELA 9 EVOLUÇÃO DA PRODUÇÃO DE CERÂMICA DE REVESTIMENTO NA ÁREA DO CLUSTER A, 1996 A 1998 INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC Ano 1996 1997 1998b a Volume de produção (mil m²/mês) Piso Azulejo Total n.d n.d. 5.783,3 n.d. n.d. 6.225,8 3.634,7 3.091,8 6.726,5 Faturamento bruto - R$ mil No de empregados 34.026,0 38.962,9 39.364,3 Destino das vendas país 78 79 77 4.683 4.667 4.979 exterior 22 21 23 total 100 100 100 Empresas consultadas: 11 b Até o mês de agosto. Fonte SINDICERAM – Sindicato das empresas cerâmicas do sul de Santa Catarina. O número de empresas é bastante reduzido (cerca de 11 empresas), das quais 4 empresas são de pequeno porte (menos de 100 empregados), 5 são empresas de médio porte (entre 100 e 500 empregados) e 2 são empresas de grande porte (mais de 500 empregados). As empresas de grande porte possuem mais de uma planta produtiva, enquanto que as empresas de médio porte possuem apenas uma planta cada uma. A pesquisa abrangeu todas as empresas de médio e grande portes, as quais possuem um total de 13 unidades de produção no cluster (ver tabela 10). Existe, assim, uma forte concentração da produção nas duas empresas de grande porte, que são responsáveis por cerca de 60% da produção local. Estas duas empresas são também as maiores cerâmicas do país. TABELA 10 COMPARAÇÃO ENTRE PLANTAS PRODUTIVAS SEGUNDO GRUPOS DE TAMANHO DAS EMPRESAS CERÂMICAS ENTREVISTA DAS - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1997 No de plantas Tamanho N de industriais de empresas No cluster Fora do empresas cluster Médio porte 5 5 0 Grande porte 2 8 7 a inclui dados fora do cluster . Fonte: Pesquisa de campo. o Capacidade instalada (mil m2 /mês) por Total planta Faturamento por planta (R$milhões) No de Faturamento por empregados empregado/mês por planta (R$mil) 2.440 488 30 311 96 4.480 560 32a 336a 95 A quase totalidade da produção em empresas de médio e grande portes (acima de 100 empregados) contrasta com a indústria italiana, na qual cerca de 78% das empresas possuíam menos de 100 empregados ocupados em atividades produtivas (Souza et al., 1993, p. 22). Na região de Criciúma, existem muitas empresas de pequeno porte, mas produzem cerâmica vermelha. Aparentemente, a forte verticalização, ocorrida no período de formação do cluster (anos 70) em torno das duas empresas de grande porte, limitou o acesso no setor de pequenos capitais locais, acumulados em atividades próximas, especialmente na cerâmica vermelha. Essa dependência do cluster em relação às empresas de grande porte pode ser observada na presente Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 20 década, quando uma delas passou por dificuldades financeiras levando a fechamento de unidades e à redução líquida da capacidade produtiva local. Ao longo dos anos 90, a produção no cluster apresentou comportamento diferenciado: na primeira metade da década, o setor experimentou período de crise, com acentuada queda no faturamento, perdas de capacidade instalada e demissão de empregados; a partir de 1996, a produção começa a recuperar os níveis anteriores, com melhorias nos vários indicadores. Este quadro evolutivo geral pode ser visualizado segundo os indicadores de capacidade produtiva, número de empregados e faturamento. A tabela 11 apresenta a evolução da capacidade produtiva das cerâmicas desde 1993, registrando-se crescimento da capacidade das médias empresas, ao lado de fortes oscilações nas grandes empresas, levando a uma perda líquida de capacidade produtiva do cluster por conta da reestruturação das grandes empresas. A reestruturação deu-se especialmente no grupo Cecrisa, que vinha de grande expansão nos anos 80, mediante construção e aquisição de unidades. Os ajustes no grupo implicaram na desativação de linhas de produção e no fechamento de unidades antigas, refletindo-se na queda da capacidade produtiva. Dessa forma, no período em análise, o setor passa por fortes modificações nas plantas de produção, com aberturas de novas linhas de produção e desativação de outras, ampliação e construção de unidades, bem como com aquisições de empresas (fora do cluster). TABELA 11 EVOLUÇÃO DA CAPACIDADE INSTALADA DAS CERÂMICAS ENTREVISTADAS, 1993 A 1998 INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Ano 1993 1994 1995 1996 1997 Capacidade instalada - mil m2/mês Empresas médias Empresas grandes a 2 mil m /mês var.% mil m2/mês var.% 1.858 7.906 2.258 21,5 6.956 -12,0 2.258 0 6.547 - 5,9 2.398 6,2 6.359 - 2,9 2.440 1,8 6.529 2,7 1998 2.440 0 7.029 a inclui unidades de fora do cluster. Fonte: Pesquisa de campo. 7,7 Total de empresas a mil m2/mês var.% 9.764 9.214 -5,6 8.805 -4,4 8.757 -0,5 8.969 2,4 9.469 5,6 Principais modificações produtivas nas plantas Nova linha, reestruturação de linha Nova unidade, novo equipamento Novos equipamentos Ampliação de unidades, reestrut.de linha, novos equipamentos Aquisição de unidades, novos equipamentos Estas modificações na capacidade instalada refletem-se no volume de empregos da indústria cerâmica local. Os dados da tabela 12 mostram que as grandes empresas foram responsáveis pelo maior ajuste, com forte demissão de pessoal (notadamente em 1995, quando as demissões atingiram mais de 1/3 dos empregados). Esta redução do quadro de pessoal pode ser associada também ao processo de desverticalização observado principalmente nas grandes empresas. Finalmente, a evolução do faturamento das empresas cerâmicas presentes no cluster encontra-se na tabela 13, observando-se boa recuperação nos anos de 1996 e 1997. Estes resultados foram observados tanto para as empresas de médio quanto para as de grande porte. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 21 TABELA 12 EVOLUÇÃO DO NÚMERO DE EMPREGADOS DA S EMPRESAS CERÂMICAS ENTREVISTADAS, SEGUNDO O TAMANHO DE EMPRESA , 1993 A 1998 - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC Número de empregados Empresas médias Empresas grandes a Número var.% Número var.% 1993 n.d. 7.246 1994 1.186 7.540 4,1 1995 1.215 2,4 4.698 -37,7 1996 1.199 -1,3 4.531 -3,6 1997 1.199 0 5.178 14,3 1998 1.244 3,8 5.047 -2,5 a inclui unidades produtivas de fora do cluster Fonte: Pesquisa de campo. Ano Totala Número var.% n.d. 8.726 5.913 -32,2 5.730 -3,1 6.377 11,3 6.291 -1,3 TABELA 13 FATURAMENTO DAS EMPRESAS CERÂMICAS ENTREVISTADAS - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Faturamento anuala Faturamento anual Ano R$ mil R$ mil de 1994b var.% 1994 455.443 455.443 1995 461.152 454.894 -0,1 1996 522.107 509.807 12,1 1997 596.781 554.193 8,7 a b inclui unidades produtivas de fora do cluster ; corrigido pelo índice de preços da indústria de transformação. Fonte: Pesquisa de campo - amostra de 7 empresas Uma comparação entre as empresas cerâmicas de médio e grande portes (tabela 10) revela uma relativa homogeneidade de tamanho de planta industrial no cluster: a capacidade instalada por planta situa-se em torno de 500 mil m2/mês, emprego de pouco mais de 300 trabalhadores por unidade produtiva e faturamento médio de cerca de R$95 mil/empregado/mês, independentemente do tamanho das empresas. Estes resultados, em parte, devem-se à uniformidade tecnológica na indústria, associada ao caráter exógeno da mudança técnica, que dáse predominantemente nas áreas de equipamentos e de insumos e difunde-se com rapidez e universalidade, e, em parte, deve-se à coexistência de plantas antigas ao lado de plantas modernas ou reestruturadas também nas empresas de grande porte. Dessa forma, não há diferença entre empresas de grande e médio portes quanto ao tamanho de planta produtiva. Da mesma forma, não há diferenças significativas entre grandes e médias empresas quanto ao grau de terceirização de atividades. Nos termos da tabela 14, empresas grandes e médias terceirizam totalmente a produção de fritas, corantes e esmaltes, pois a existência, na região, de unidades de produção e de distribuição desses insumos permite o abastecimento rápido desses materiais conforme as necessidades das empresas. Por outro lado, existe terceirização parcial da extração de minérios, com tendências à ampliação no que se refere a minérios básicos (commodities),como as argilas e rochas, ficando cada empresa com minérios considerados estratégicos para diferenciação de sua produção. A pesquisa detectou apenas uma única empresa importante especializada em mineração, mas foram colhidos depoimentos sobre a importância, não só da extração, mas também da moagem terceirizada dos minérios para a melhoria dos produtos, especialmente das empresas de menor porte. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 22 TABELA 14 TERCEIRIZAÇÃO DE ATIVIDADES SELECIONADAS NAS EMPRESAS CERÂMICAS, SEGUNDO O TAMANHO DE EMPRESA - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Atividades Extração de minérios Produção de fritas,esmaltes,corantes Produção de telas serigráficas Serviços de transportes Serviços de manutenção Serviços de limpeza Serviços de Segurança Fonte: Pesquisa de campo. Grau de Terceirização Médias empresas Parcial Total Total Total Parcial Parcial Não terceiriza Grandes empresas Parcial Total Parcial Total Parcial Total Total Uma terceira atividade com terceirização difundida é a produção de telas para serigrafia, tendo terceirização total nas médias empresas e apenas parcial nas grandes empresas. Para esta atividade, existe no cluster filial de empresa italiana especializada. As demais etapas do processo produtivo são todas internalizadas, à exceção da "terceira queima" de peças especiais, como listelos e peças decorativas, para as quais já existem experiências de terceirização. Quanto aos serviços, existe terceirização total dos transportes e terceirização parcial dos serviços de manutenção nas empresas médias e grandes. A manutenção de máquinas fica, em maioria, a cargo de pequenas metalúrgicas, em geral pertencentes a ex-empregados. Nas áreas de limpeza e segurança existe prática diferenciada, com terceirização total nas grandes empresas e apenas parcial ou inexistente nas médias. A terceirização avança também para as áreas administrativas, como por exempo na área de suprimentos e almoxarifado, na qual está se difundindo a prática de redução dos estoques de pequenas peças de reposição, valendo-se dos estoques de empresas comerciais existentes no cluster e de, pequeno estoque mantido em consignação pelas empresas comerciais junto às cerâmicas para uso em casos emergenciais. b) Fornecedores de insumos As empresas fornecedoras de insumos constituem-se no segundo subconjunto de atores produtivos do cluster cerâmico e podem ser agrupadas segundo os dois tipos de matérias-primas utilizadas na produção de cerâmica de revestimento: a) os minerais não metálicos (argilas, rochas), que formam o corpo cerâmico, e (b) os componentes do esmalte (fritas, corantes, aditivos químicos), que revestem a superfície superior das peças cerâmicas. Estes dois grupos de empresas fornecedoras são considerados a seguir. Em primeiro lugar, o segmento de extração de minerais ainda não progrediu para uma maior especialização, coexistindo no arranjo a extração própria de jazidas requeridas junto ao Departamento Nacional de Produção Mineral, a compra de mineradoras independentes e a compra de mineradoras clandestinas. Assim, a terceirização dessa atividade avança lentamente, com as principais empresas mantendo, ainda, suas mineradoras, mas já adquirindo parte das matérias-primas de fornecedores. Existe, no cluster, apenas uma mineradora especializada, pertencente a uma das empresas cerâmicas de grande porte, mas que busca atuação independente visando atender todo o conjunto de cerâmicas da região e também de outros Estados. Por outro lado, já é observada a atuação, na região, de fornecedores sediados em outros Estados (especialmente São Paulo). Entre as vantagens da especialização no fornecimento de minerais, mencionadas na pesquisa de campo, citam-se a redução dos estoques junto às cerâmicas (para menos de quatro dias), a maior possibilidade de investimento em pesquisa e os ganhos de escala na exploração de Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 23 jazidas. Além da extração, o fornecimento de massa pronta pelas mineradoras é passo adicional que poderia proporcionar economias ao cluster, como maior qualidade ao corpo cerâmico, menor índice de refugo e menor custo de produção. Há, entretanto, resistências por parte das cerâmicas, por razões estratégicas, por já disporem dos equipamentos e pela inexistência de um conjunto maior e mais qualificado de fornecedores. Em segundo lugar, e diferentemente do segmento de insumos minerais, existe no cluster um conjunto de empresas especializadas no fornecimento de insumos para esmaltação. Trata-se, na maioria, de filiais de empresas estrangeiras, com predominância da origem espanhola (ver quadro 2). A maior parte dessas empresas instalarou-se na região na presente década, primeiramente com postos de distribuição e, num segundo momento, com instalação de unidades produtivas. A construção de unidades de produção no cluster dá-se num contexto competitivo na qual as empresas oferecem não apenas insumos, mas "soluções" completas para as cerâmicas, incluindo, além dos insumos, design, testes e toda a assistência técnica, de tal sorte que as equipes de venda são formadas por técnicos especializados na área de esmaltação. O fornecimento de insumos conta, ainda, com um número expressivo de pequenas empresas locais. Os dados da tabela 15, que cobrem uma amostra de cinco empresas, mostram que as filiais estrangeiras fornecedoras de insumos têm fortes relações comerciais locais com clientes, mas os linkages para trás são fracos, uma vez que a maior parte de suas matérias-primas provém do mercado nacional ou é importada do país de origem. A exceção à regra é a empresa B, instalada na região há quase 20 anos. Por outro lado, já é expressiva (ainda que minoritária) a parte de sua produção destinada ao mercado nacional. A instalação no local de filiais de importantes produtores mundiais de "colorifícios" confere ao cluster rapidez e atualização tecnológica e de design frente aos padrões internacionais. QUADRO 2: CARACTERÍSTICAS DAS EMPRESAS FORNECEDORAS DE INSUMOS PARA ESMALTAÇÃO INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Ano de Origem Empresas instalação do capital A 1993 Espanha B 1979 EUA C 1983 Brasil D 1994 Espanha E 1990 Espanha F 1993 Itália Fonte: Pesquisa de campo. Produto principal Corantes Fritas Espec.químicas Esmaltes Esmaltes Telas serigráficas Característica da Número de Faturamento/98 unidade empregados R$mil Distribuição 9 2.100 Produção 84 n.d. Produção n.d. n.d. Distribuição 17 4.000 Produção 98 45.000 Produção 26 2.400 TABELA 15 FLUXO DE MATÉRIAS-PRIMAS E DE PRODUTOS DE EMPRESAS ESTRANGEIRAS FORNECEDORAS DE INSUMOS PARA ESMALTAÇÃO INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Compras de matérias -primas (%) Empresas local nacional Mercosul outros países A 100 B 48 20 20 12 C 100 D 70 30 E 100 Fonte: Pesquisa de campo. Vendas de produtos (%) local nacional Mercosul total 100 100 100 100 100 100 40 70 60 100 60 30 40 outros países total 100 100 100 100 100 Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 24 c) Fornecedores de máquinas e equipamentos O terceiro conjunto de atores é constituído pelos fornecedores de máquinas e equipamentos. Trata-se de um conjunto bastante frágil, com atuação apenas marginal e complementar aos fluxos principais de importação, especialmente da Itália. Foram investigadas três empresas de capital local, com características mostradas no quadro 3. As duas empresas principais produtoras de máquinas e equipamentos para cerâmica existentes no cluster originaram-se das empresas cerâmicas de grande porte, a partir de experiência profissional e de desmembramento. Sua atuação na atual reestruturação do parque produtivo cerâmico tem sido pequena, sendo alegadas duas principais dificuldades: a falta de escala e os custos de financiamento dos clientes, condições amplamente favoráveis à indústria italiana. Com isso, a indústria de máquinas e equipamentos local tem como principal fornecimento à indústria cerâmica local a produção e reparos de estampos (matrizes para prensagem dos produtos cerâmicos). QUADRO 3: CARACTERÍSTICAS DAS EMPRESAS FORNECEDORAS DE MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Origem Característica Empresas do capital da unidade A Local Produção B Local Produção C Local Distribuição Fonte: Pesquisa de campo Número de Faturamento/98 empregados R$ mil 192 14.000 84 3.700 15 3.000 Principal produto vendido no mercado local Estampos Estampos Peças de reposição Nesse contexto, a indústria de máquinas e equipamentos local acaba tendo relações comerciais mais fortes com empresas de outras regiões do país, especialmente com empresas de São Paulo (ver tabela 16), tanto na compra de matérias-primas, como na venda de produtos. Esta afirmação é corroborada pela constatação de que todas as três empresas entrevistadas possuem filiais no Estado de São Paulo, fornecendo equipamentos às cerâmicas daquele Estado. TABELA 16 FLUXO DE MATÉRIAS-PRIMAS E PRODUTOS DA S EMPRESAS FORNECEDORAS DE MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Compras de matérias-primas (%) Empresas local nacional exterior A 5 90 5 B 100 C 20 40 40 Fonte: Pesquisa de campo. total 100 100 100 Vendas de produtos (%) local nacional exterior 33 66 1 50 50 70 30 total 100 100 100 2.2.2. Estrutura de financiamento e planos de investimento As fontes de financiamento das empresas do cluster são, pela ordem, os recursos próprios e os recursos de bancos oficiais (tabela 17), sendo as fontes externas e de bancos privados consideradas de pouca importância. De maneira geral, entretanto, a pesquisa registrou muitas críticas às atuais fontes de financiamento disponíveis no cluster, sendo um dos fatores citados pela perda de competitividade pelas empresas produtoras de máquinas e equipamentos. Até mesmo no caso das empresas cerâmicas, que citaram os bancos oficiais como muito importantes, Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 25 os mais recentes empréstimos ao setor cerâmico por parte do banco de desenvolvimento estadual datam da primeira metade da presente década. Os recursos externos foram considerados pouco importantes inclusive pela maior parte das empresas fornecedoras de insumos, em maioria filiais de empresas estrangeiras. Essas empresas também financiam majoritariamente seus projetos com recursos próprios, e não mediante empréstimos. TABELA 17 P RINCIPAIS FONTES DE FINANCIAMENTO DAS EM PRESAS - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Fontes de financiamento Empresas cerâmicas 1. Recursos próprios Muito importante 2. Bancos oficiais Muito importante 3. Bancos privados Muito importante 4. Recursos externos Importante Fonte: Pesquisa de campo. Fornecedores de Produtores de insumos máquinas e equip. ranking geral Muito importante Muito importante Muito importante Pouco importante Importante Importante Pouco importante Pouco importante Pouco importante Pouco importante Sem importância Pouco importante Quanto aos projetos de investimentos das empresas, os dados da tabela 18 mostram que o ranking de prioridades é o seguinte: a) Um conjunto de investimentos (posições 1o e 2o no ranking) em formação de recursos humanos e compra de novos equipamentos com vistas à modernização das fábricas existentes. b) Um segundo conjunto de projetos de investimentos (posições 3o e 4o no ranking consiste na introdução de melhorias de produto e na adaptação das fábricas para diversificar a produção. Este conjunto foi apontado por todas as empresas cerâmicas pesquisadas, o que está de acordo com o padrão de concorrência no mercado de cerâmica de revestimento, conforme capítulo primeiro deste relatório. c) Alguns tipos de investimentos foram relativamente menos citados nas entrevistas pelo conjunto total de empresas, mas foram destacados em segmentos específicos de empresas. É o caso de investimentos em compra de tecnologia e controle ambiental, citados respectivamente por 85,7 e 71,4% das empresas cerâmicas. A implantação de novas fábricas foi citada por 42,9% das empresas cerâmicas e dos fornecedores de insumos, o que revela expectativas favoráveis ao crescimento do cluster. TABELA 18 P ERSPECTIVAS DE INVESTIMENTO DAS EMPRESAS - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Percentual de empresas com respostas afirmativa (%) Tipos de investimento 1. Expansão por aquisição 2. Implantação de novas fábricas 3. Modernização de fábricas existentes 4. Reposição de equipamentos 5. Adaptação de fábricas 6. Adequação ao mercado externo 7. Melhorias na qualidade do produto 8. Compra de tecnologia no exterior 9. Formação de recursos humanos 10. Controle ambiental Ranking geral Empresas cerâmicas 42,9 42,9 85,7 85,7 100,0 42,9 100,0 85,7 100,0 71,4 Fornecedores de insumos 28,6 42,9 100,0 85,7 42,9 28,6 71,4 0 71,4 42,9 Produtores de máquinas e equip. 0 0 50,0 100,0 50,0 50,0 50,0 50,0 100,0 0 10o 9o 2o 2o 4o 8o 3o 6o 1o 7o Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 11. Organização e administração 12. Diversificação da produção 13. Pesquisa e Desenvolvimento Fonte: Pesquisa de campo. 26 100,0 100,0 n.d. 28,6 71,4 85,7 50,0 50,0 50,0 5o 3o n.d. A caracterização de atores e de fontes de financiamento feita acima, permite traçar o perfil do cluster cerâmico nos termos que seguem. a) O cluster possui em seu interior um amplo conjunto de atores produtivos: empresas cerâmicas - que são os atores centrais, empresas de insumos para esmaltação e empresas mineradoras, empresas produtoras e distribuidoras de máquinas e equipamentos, empresas de manutenção. Estes atores estabelecem entre si um número considerável de transações internas ao cluster. b) O cluster mantém importantes ligações externas, na venda de produtos, com os mercados nacional (78%) e internacional(22%). Pouco menos de 1/3 das exportações destinam-se a países do Mercosul, o qual, ainda que importante, é considerado apenas mais um mercado, uma vez que as exportações destinam-se a um número diversificado de países e a praças no mercado nacional. c) O cluster é dependente de importações da máquinas e equipamentos da Itália, enquanto que se acentuou nos anos 90 o movimento de instalação, no cluster, de unidades de produção de insumos para esmaltação por parte de firmas estrangeiras, em especial de origem espanhola. d) A presença, no interior do cluster, do segmento de empresas fornecedoras de insumos para esmaltação conferiu maior condições de competitividade às empresas de pequeno e médio portes, dado o padrão de concorrência vigente centrado na diferenciação de produtos (diferentes tipos de esmaltes e design). e) Em termos evolutivos, o cluster cerâmico constituiu-se nos anos 70 sob a liderança de duas grandes empresas cerâmicas, levando a uma estrutura industrial concentrada (as duas empress participam com 60% da produção ) e, ainda hoje, bastante verticalizada. f) Desde a crise do início dos anos 90, que afetou todo o setor cerâmico nacional, acentuou-se o processo de desverticalização, já naturalmente em marcha, tendo por resultado maior complementaridade e ampliação da rede de transações internas ao cluster. g) Observa-se um número relativamente reduzido de pequenas (menos de 100 empregados) empresas cerâmicas, se comparado a outros arranjos similares nos principais países produtores. Por outro lado, existe na área abrangida pelo cluster grande número de pequenas empresas de cerâmica vermelha (telhas/tijolos), que, aparentemente, seriam candidatos potenciais ao ingresso na cadeia de cerâmica de revestimento. Algumas observações colhidas nas entrevistas permitem formular a hipótese de que tal acesso tem sido dificultado pela ainda excessiva verticalização da cadeia produtiva. h) Registrou-se a ausência, total e em número desejável, de empresas independentes especializadas em áreas importantes para o cluster, sendo as principais: máquinas e equipamentos, mineração, moagem e preparação da massa, comercialização e design. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 27 2.3. Estrutura atual do cluster - infra-estrutura educacional, tecnológica e econômica O cluster possui um importante conjunto de atores nas áreas educacional, de tecnologia e de coordenação, que são responsáveis pelo oferecimento de serviços em nível coletivo do sistema local, dentro do qual interagem os agentes produtivos. Trata-se de três tipos de instituições: instituições de ensino técnico, instituição de tecnologia e instituições de coordenação, a seguir consideradas. a) Instituições de ensino técnico O quarto conjunto de atores é constituído por instituições de ensino técnico. A pesquisa de campo identificou quatro instituições de ensino técnico com forte vinculação com o setor cerâmico local: o Colégio Maximiliano Gaidzinski (CMG), o Colégio da Sociedade de Assistência aos Trabalhadores do Carvão (SATC), o Centro Interescolar de 2o Grau (CIS) e a Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC). O Colégio CMG foi criado, em 1979 pelo grupo Eliane, e oferece o curso de Técnico em Cerâmica em nível de 2o grau. O Colégio é mantido pela empresa Eliane e oferece anualmente 40 vagas, de preferência para trabalhadores e filhos de trabalhadores da própria empresa Eliane, mas também para trabalhadores de outras empresas ou não vinculados a quaisquer empresas. Oferece também cursos de especialização de curta duração em atividades cerâmicas, como moagem, esmaltação, prensa, etc. Por ser de tempo integral, os alunos utilizam os laboratórios e visitam a linha de produção da empresa Eliane, sendo encarregados de oferecer soluções para problemas de produção detectados, caracterizando-se, assim, por ensino fortemente profissionalizante. Os números fornecidos pelo Colégio (tabela 19) impressionam pela eficácia alcançada pela instituição, para a empresa Eliane e para o cluster: o Colégio conseguiu identificar em seus relatórios que 2/3 dos seus 200 alunos formados desde 1982, quando formouse a primeira turma de alunos, exerce atividade profissional em empresas do cluster cerâmico. TABELA 19 NÚMERO DE PROFISSIONA IS FORMADOS DESDE 1982 NO CMG, SEGUNDO O SETOR ATUAL DE ATUAÇÃO NA ÁREA DE CLUSTER - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Setor de atuação Grupo Eliane Empresas de insumos p/cerâmica Outras cerâmicas de revestimento Outros Total Fonte: Colégio Maximiliano Gaidzinski-CMG Número de ex-alunos 74 31 28 67 200 participação % 37 16 14 33 100 O Colégio da SATC, que é a maior e mais tradicional instituição de ensino técnico da região, oferece desde 1963 curso técnico de 1o grau (5a à 8a séries) e, desde 1970, curso técnico de 2o grau. Os cursos técnicos de 2o grau são os seguintes: eletrônica, mecânica, eletrotécnica, desenho visual, confecção de vestuário e eletromecânica. O número de alunos matriculados em 1997 foi superior a 2000 alunos, quase 50% dos quais no ensino técnico de 2o grau. Originalmente mantido pelas empresas carboníferas, o Colégio passou por sérias dificuldades financeiras com a crise do setor. Hoje, procura diversificar suas fontes de receita, sendo mantido pelas empresas carboníferas e auxílios (44%), por mensalidades (33%), por atividades do Laboratório de Análises e Ensaios de Carvão (18%) e por convênios com SENAI e com o Governo do Estado (8%)(dados de 1997). Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 28 A relação entre os cursos técnicos da SATC e o cluster cerâmico consiste na formação de recursos humanos para as atividades de manutenção, serigrafia e desenho. A tabela 20 mostra essa relação nos três últimos anos: tomando o conjunto de cursos oferecidos, entre 10 a 20% dos alunos formados tem vinculações com a indústria cerâmica. Os planos do Colégio são os de constituir-se num centro tecnológico, oferecendo no futuro cursos superiores de menor duração, conferindo diplomas de tecnólogo em diferentes especialidades. O Colégio CIS é uma escola técnica do Governo do Estado criada em 1979. Oferece cursos técnicos de administração, comercialização/mercadologia, edificações, processamento de dados, serviços bancários e de química. De particular interesse para o cluster cerâmico, o curso técnico em química oferece 90 vagas/ano e forma recursos humanos para a indústria química local, principalmente para o segmento fornecedor de insumos para as cerâmicas. A quarta instituição de ensino técnico, que tende a desempenhar papel importante na formação de recursos humanos, é a UNESC. Essa Universidade está oferecendo dois cursos técnicos relacionados à área cerâmica: o curso de Tecnologia em Cerâmica e o curso de Engenharia de Materiais. O curso de Tecnologia em Cerâmica foi criado em 1995 e oferece 40 vagas anuais, em grande parte ocupadas por empregados das empresas cerâmicas e de insumos, conforme apurado na pesquisa de campo. À semelhança do curso de 2o grau oferecido pelo CMG, o curso da UNESC funciona em estreita ligação com o setor produtivo e tende, por isso, a assumir função importante na formação de recursos humanos para o cluster cerâmico. Por sua vez, o curso de Engenharia de Materiais, criado recentemente, oferece especializações nas áreas de cerâmica, de plásticos e de metalurgia, atendendo demandas específicas por parte da indústria local. TABELA 20 NÚMERO DE ALUNOS FORMADOS DA SATC E EMPREGADOS NAS EMPRESAS CERÂMICAS, 1996 A 1998 - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC Cursos técnicos Especificação Ano de 1996 -No total de alunos(A) -No alunos empregados (B) -B/A (%) Ano de 1997 -No total de alunos(A) -No alunos empregados (B) -B/A (%) Ano de 1998 -No total de alunos (A) -No alunos empregados (B) -B/A(%) Fonte: Pesquisa de campo. Mecânica Eletromecânica Desenho industrial Eletrônica Eletrotécnica 38 5 13,2% 23 7 30,4% 20 7 10,0% - - 81 14 20,0% 44 5 11,4% 31 2 6,5% 36 6 16,7% - 37 2 5,4% 148 15 10,1% 40 6 15,0% 28 5 17,9% 43 4 9,3% 40 4 10,0% 35 7 20,0% Total 186 26 14,0% Estas instituições de ensino técnico possuem, assim, uma característica comum, importante para a evolução do cluster: o forte comprometimento do ensino com a indústria local. Esta característica revela a ação das instituições locais de coordenação dos atores, em especial os sindicatos patronais e de trabalhadores. O comprometimento do ensino com as necessidades da indústria é obtido a partir das próprias condições de financiamento dos cursos, mantidos em boa parte com recursos das próprias empresas. É o caso do CMG, mantido pela empresa Eliane e por mensalidades, da SATC, mantido pelas mineradoras, por mensalidades e venda de serviços Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 29 laboratoriais, e dos cursos da UNESC, mantidos por mensalidades. As mensalidades são cobertas total ou parcialmente pelas empresas, no caso de alunos-empregados. b) Instituições de tecnologia O cluster possui uma importante instituição de tecnologia - o Centro de Tecnologia em Cerâmica-CTC, que começou a funcionar recentemente, em 1995. Foi criado por três entidades: o SENAI, a UFSC e o Sindicato da Indústria Cerâmica - SINDICERAM. O CTC enquadra-se dentro da política do SENAI de elevar o padrão de seus centros de treinamento para centros de tecnologia, avançando do treinamento para o oferecimento de serviços técnicos e desenvolvimento tecnológico. Do ponto de vista da UFSC, o CTC é um posto avançado do seu Laboratório de Materiais, vinculado ao Departamento de Engenharia Mecânica, e constitui-se em campo de estudos e pesquisas para alunos de pós-graduação. Por sua vez, o SINDICERAM é responsável pela coordenação das empresas e pela integração entre a nova instituição e o conjunto de empresas cerâmicas. Atualmente, o CTC tem seu quadro básico de pessoal mantido pelo SENAI, é tecnicamente coordenado por professor da UFSC e avança rapidamente na oferta de serviços laboratoriais às cerâmicas. Novos recursos têm sido aportados, oriundos de órgãos de fomento do Governo Federal e de receitas provenientes da prestação de serviços. Suas principais áreas de atuação são a certificação de produtos e ensaios laboratoriais, sendo já registrados casos de desenvolvimentos de produtos em conjunto com empresas. Atualmente, o principal projeto do CTC é a construção da unidade-piloto, que dará condições de realizar ensaios completos para todo o processo produtivo cerâmico. c) Atores institucionais de coordenação e a infra-estrutura As duas principais instituições de coordenação do cluster são o Sindicato das Empresas Cerâmicas-SINDICERAM e a Associação Comercial de Criciúma-ACIC. Estas instituições têm se destacado na coordenação empresarial em alguns projetos de infraestrutura importantes para o cluster cerâmico: a criação do CTC, a extensão para a região sul do Brasil do gasoduto BrasilBolívia, a viabilização do uso da ferrovia no trecho Criciúma-porto de Imbituba para exportação de produtos e a realização de feiras de produtos cerâmicos e de equipamentos e insumos para cerâmica. A implantação do gasoduto deverá mudar a base energética da queima dos produtos cerâmicos, do GLP para o gás natural, com esperados reflexos na redução de custos. Além disso, a extensão do gasoduto, de São Paulo até o sul do Brasil, revelou-se estratégica para que as cerâmicas de Santa Catarina possam manter as condições de competitividade frente aos pólos cerâmicos localizados naquele Estado. Uma terceira obra de infra-estrutura de importância para a competitividade do cluster, no mercado nacional e no Mercosul, é a duplicação, em curso, da rodovia BR 101. Esta rodovia, uma vez concluída sua duplicação, facilitará a ligação rodoviária com a região sudeste do Brasil, principal mercado consumidor, e com o Estado do Rio Grande do Sul e países do Mercosul. Por outro lado, atualmente o SINDICERAM e a ACIC têm se empenhado na viabilização da ferrovia Tereza Cristina, que liga a região carbonífera ao porto de Imbituba, para transporte de revestimentos cerâmicos em conteiners. A ampliação do uso do porto por maior número de navios, em rotas internacionais e de cabotagem, é fator importante para amenizar as dificuldades logísticas do cluster de acesso aos grandes mercados nacionais das regiões sudeste e nordeste, ao Mercosul e aos maiores mercados mundiais. Por fim, o SINDICERAM participa da promoção de feiras regulares de cerâmica, em conjunto com o Colégio Maximiliano Gaidzinski, e de feiras de tecnologia (equipamentos e insumos) em cerâmica. Em resumo, quanto às condições de infra-estrutura, conclui-se que: Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 30 a) É fator de destaque a existência no interior do cluster de cursos técnicos, em nível de 2o grau, fortemente articulados com as atividades produtivas, realizando a difusão dos conhecimentos básicos em cerâmica e conferindo externalidades positivas às empresas que se instalam no local. Esta estrutura de formação de recursos humanos está evoluindo, recentemente, para cursos superiores nas áreas específicas de cerâmica, química e de materiais. b) O cluster possui um importante centro de tecnologia em cerâmica, que poderá se constituir num instrumento para elevar a capacidade tecnológica local e reduzir a dependência dos pó los mundiais. c) Quanto à infra-estrutura econômica, há três principais projetos em curso que poderão melhorar as condições de competitividade do cluster: a implantação de rede de abastecimento de gás natural, que deverá ter reflexos importantes na queda do custo de produção, a vialização do porto de Imbituba para escoamento da produção, em termos de intensificação do uso do porto por maior número de navios e de contratação do transporte ferroviário no trecho Criciúma-Imbituba, e a duplicação da rodovia BR-101. Estas obras de infra-estrutura tornam-se estratégicas na medida em que os produtos cerâmicos têm baixa relação valor/peso e em que o cluster encontrase relativamente distante dos grandes centros consumidores, nacionais e internacionais. d) Por fim, a pesquisa revelou fraca atuação das instituições públicas locais (municipais e estaduais) nas atividades do cluster, até mesmo na área formação de recursos humanos. As atividades de coordenação e os projetos de infra-estrutura são assumidos pelas associações de classe, empresarial e de trabalhadores. É provável que atores potenciais, como as empresas da cerâmica vermelha e outros capitais de pequeno e médio porte da região, poderiam beneficiar-se mais do cluster a partir da ação das instituições públicas locais, não diretamente ligadas aos interesses constituídos. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 31 3. A DINÂMICA DOS PROCESSOS DE APRENDIZAGEM 3.1 O nível tecnológico das empresas e as possibilidades dos processos de aprendizagem Considerando-se as características particulares do desenvolvimento tecnológico e do regime tecnológico apontados no capítulo 1 deste relatório, é possível selecionar um conjunto de indicadores para analisar as possibilidades das empresas para o desenvolvimento dos seus processos de aprendizagem. Foram levantados os seguintes indicadores: a) a intensidade das alterações nos processos produtivos; b) a adoção de novas técnicas organizacionais; c) a intensidade da absorção de novas matérias-primas e insumos; d) a importância das principais alterações nos produtos; e) a existência de programas de gestão de qualidade e certificação de produtos; f) níveis de qualificação da mão-de-obra; Em setores industriais, cuja capacitação tecnológica deriva de processos internos que possibilitem a absorção de inovações geradas “fora” da ni dústria, as possibilidades dos processos de aprendizagem implicam na existência de uma estrutura produtiva que demonstre a capacidade de manter atualizado tecnologicamente os processos produtivos, (indicadores a e b) , de acompanhar as modificações nos insumos e nas matérias-primas que proporcionem as condições para as alterações nos produto e para os controles de sua qualidade (indicadores c, d, e) . Estes indicadores junto com as características da qualificação da mão-de-obra podem demonstrar o nível da capacitação tecnológica das empresas para absorver as inovações. A absorção de inovações incrementais no processo pelas empresas pesquisadas apontou a importância da introdução de novas técnicas organizacionais e da introdução de novos equipamentos na planta original, como as alterações que ocorreram com mais intensidade e o redesenho das plantas ou a construção de novas plantas para novos processos produtivos como formas de alterações mais moderadas (tabela 21). A intensidade da introdução de novos equipamentos pode também ser observada pelos investimentos da indústria nesta década, conforme observado nas entrevistas e já comentado no capítulo 2 deste relatório. TABELA 21 ALTERAÇÕES NO PROCESSO PRODUTIVO DE 1990 A 1998 - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC Tipo de alteração Introdução de novo equipamento na planta original Redesenho da planta original Construção da nova planta c om novo processo Novas técnicas organizacionais no processo produtivo Fonte: Pesquisa de Campo. % de empresas que realizaram alterações Intensa Moderada Não realizaram 57,1 42,9 0 42,9 14,2 42,9 28,6 14,2 57,1 100,0 0 0 Total 100,0 100,0 100,0 100,0 As novas técnicas organizacionais adotadas no período, referiram-se com destaque ao conjunto de técnicas de custos reduzidos e que buscaram regularizar processos de controle interno (padrões internos de procedimentos e sistema formal de qualificações de fornecedores) e estimular a participação dos trabalhadores na correção dos processos (identificação de problemas e grupo de melhoria). Um segundo conjunto importante de novas técnicas introduzidas, refere-se às que proporcionam flexibilidade aos processos produtivos como a implantação de células de produção e da polivalência de funções (tabela 22). Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 32 Estas respostas sugerem por um lado, o dinamismo do conjunto das empresas quanto à atualização de seus processos produtivos, dado que o percentual de respostas no que se refere às modificações comentadas, atingiu ou a totalidade das empresas ou no mínimo 85% delas. Por outro lado, considerando-se que na indústria cerâmica a capacitação tecnológica relaciona-se ao desenvolvimento de processos de aprendizagem do tipo learning by doing e learning by using , que se expressam na atualização dos equipamentos e das técnicas organizacionais, tais percentuais indicam a existência de condições tecnológicas para as práticas de aprendizagem. Deve-se considerar ainda que , conforme observado nas entrevistas, as maiores empresas possuem mais de uma linha de produção, o que possibilita a coexistência de equipamentos com diferentes idades tecnológicas. TABELA 22 ADOÇÃO DE NOVAS TÉCNICAS ORGANIZACIONAIS - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Técnicas Células de produção Polivalência de funções Just-in-time interno Just-in-time externo MRP – Materials Requirements Planning Kanban CAD CAM CIM – Computer Integrated Manufacturing Identificação de problemas - brainstorming, Pareto, etc. Caixa de sugestões Padrões internos de procedimentos Sistema formal de Qualificação de fornecedores Grupo de melhoria Administração participativa Sistema de participação nos lucros Fonte: Pesquisa de campo. % de empresas que adotaram 85,7 85, 7 57,1 71,4 42,9 42,9 57,1 28,6 42,9 100,0 71,4 100,0 100,0 100,0 71,4 28,6 A introdução de novos insumos, segundo a intensidade e os motivos declarados pelas empresas pesquisadas, apresentou nos anos 90 maior intensidade nas modificações do esmalte do que nas alterações da massa. Estas alterações estiveram relacionadas, não à resolução de problemas técnicos de produção, mas principalmente, no caso das modificações na massa, à melhoria dos produtos existentes e no caso das modificações nos esmaltes, à introdução de novos produtos e novos processos e em menor medida às melhorias nos produtos existentes (tabela 23). Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 33 TABELA 23 INTRODUÇÃO DE NOVAS MATÉRIAS-PRIMAS E INSUMOS NA DÉCADA DE 90 - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Intensidade e motivos a) Intensidade Intens a Moderada Não ocorreu Total b) Motivos Melhorar produto já existente Introdução de novo produto e adoção de novo processo Problema técnico da produção Outros Total Fonte: Pesquisa de campo. % de empresas que introduziram, por tipo de insumo Massa Esmalte 28,6 57,1 14,3 100,0 85,7 14,3 100,0 37,5 33,3 25,0 12,5 25,0 100,0 44,5 11,1 11,1 100,0 Conforme a tabela 24, a importância atribuída pelas empresas pesquisadas às alterações nos produtos, indica a predominância das modificações relacionadas principalmente ao desenho, à qualidade do esmalte e à criação de novos produtos. As alterações nas características técnicas relacionadas à resistência destacam-se num segundo grupo juntamente com as alterações no tamanho. Essas informações combinam-se com a intensidade na introdução de alterações no esmalte apresentada na tabela 23, indicando também a existência de capacitação tecnológica para absorção de inovações nas formulações dos produtos, sugerindo, conforme comenta-se adiante, a ocorrência de processos de aprendizagem por interação com os fornecedores de insumos para indústria. TABELA 24 P RINCIPAIS ALTERAÇÕES NOS PRODUTOS NA DÉCADA DE 90, SEGUNDO A IMPORTÂNCIA ATRIBUÍDA PELAS EMPRESAS CERÂM ICAS - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Tipos de alterações Alteração no desenho Alteração na característica técnica relacionada à resistência Alteração na característica técnica relacionada à absorção de umidade Alteração na característica técnica relacionada à qualidade do esmalte Alteração no tamanho Novo uso para o produto Novo produto Fonte: Pesquis a de Campo. Sem importância 0 0 Grau de importância (%) Pouco Importante Muito importante importante 0 20,0 80,0 0 40,0 60,0 Total 100,0 100,0 20,0 20,0 40,0 20,0 100,0 0 0 20,0 80,0 100,0 0 40,0 0 20,0 20,0 0 20,0 20,0 20,0 60,0 20,0 80,0 100,0 100,0 100,0 Todas as empresas possuem algum tipo de programa de gestão e controle da qualidade e submetem-se a processos de certificação de seus produtos de forma a enquadrarem-se nas normas nacionais e internacionais de produtos, conforme a tabela 25. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 34 TABELA 25 EMPRESAS QUE POSSUEM PROGRAMAS DE GESTÃO DA QUALIDADE - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Tipos % de empresas que possuem Programa de qualidade total 85,7 Controle estatístico de processo 100,0 Círculo de controle de Qualidade 71,4 Certificação do produto pelo CCB 100,0 Utilização de normas nacionais e internacionais de processos e produtos 100,0 Fonte: Pesquisa de Campo. No que se refere à qualificação da mão-de-obra, aproximadamente 36,2% possuem o segundo grau completo dos quais aproximadamente 6% possuem qualificação de segundo grau específica para o setor cerâmico e 10% possuem curso superior (Tabela 26). Esta qualificação, na avaliação de 71% das empresas, aponta uma adequabilidade parcial da qualificação da mão-de-obra e a intenção de intensificar o esforço de qualificação, principalmente através do treinamento dentro da empresa ou em instituições localizadas na região (tabela 27). TABELA 26 QUALIFICAÇÃO DA MÃO DE OBRA - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Grau de formação 1º grau incompleto 1º grau completo 2º grau completo Nível técnico cerâmico Nível superior Total Fonte: Pesquisa de Campo. % de empregados 13,2 34,5 36,2 6,0 10,1 100,0 TABELA 27 QUALIFICAÇÃO DA MÃO DE OBRA: AUTO -AVALIAÇÃO DO PERFIL , ESFORÇO DE TREINAMENTO E LOCAL - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Características a) Perfil Adequado Parcialmente adequado Total b) Esforço Manter a adequação da qualificação atual Intensificar a qualificação nos setores Total c) Local de treinamento Treinamento na empresa Treinamento em instituições locais Treinamento no exterior Treinamento em outras instituições estaduais e nacionais Fonte: Pesquisa de Campo. % de empresas 28,6 71,4 100,0 28,6 71,4 100,0 85,7 71,4 42,9 28,6 Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 35 Considerando-se estes indicadores, uma apreciação sobre o nível tecnológico das empresas cerâmicas, enquanto base para exercer os processos de aprendizagem para capacitação tecnológica na absorção das inovações, sugerem em resumo que: 1) houve atualização tecnológica das plantas industriais no decorrer da década de 90; 2) houve absorção de novos insumos para alterações no produto com ênfase nas modificações do desenho e nas características do esmalte, bem como o desenvolvimento de novos produtos; 3) há uma homogeneidade dos esforços de atualização entre as empresas pesquisadas, mesmo considerando-se a posição de liderança das grandes empresas em termos de absorção das inovações, e; 4) há uma importante capacidade interna ao cluster de qualificação da mão-de-obra. 3.2. Formas de desenvolvimento ou de incorporação de novas tecnologias A forma de incorporar novas tecnologias considerada como muito importante pela maioria das empresas é a aquisição de máquinas e equipamentos no mercado internacional (85,7% das empresas pesquisadas). A segunda forma em importância, considerada por 42,9% das empresas como muito importante e a mesma proporção considerou como importante, é a cooperação com os fornecedores de insumo (tabela 28). Essas formas foram as que se destacaram em grau de importância na avaliação das empresas e confirmam o padrão de aprendizagem esperado, dadas as características da tecnologia conforme já comentado, com a ressalva de que, ao lado dos processos de aprendizagem tipo learning by doing e learning by using , a capacitação tecnológica em unidades de produção das empresas e de atividades de P&D, também foram consideradas muito importantes por 42,8% das empresas. TABELA 28 FORMAS DE DESENVOLVIMENTO OU INCORPORAÇÃO DE NOVAS TECNOLOGIAS - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Formas Aquisição de máquinas compradas no mercado nacional Aquisição de máquinas compradas no mercado internacional Em cooperação com fornecedores de equipamentos Nas unidades de produção da empresa Em laboratórios de P&D da empresa Em cooperação com outras empresas concorrentes Em cooperação com outras organizações (de ensino e pesquisa, entidades de apoio setoriais, etc.) Via licenciamento Em cooperação com fornecedores de insumos Fonte: Pesquisa de Campo. Sem importância 42,8 Grau de importância Pouco Importante importante 28,6 14,3 Muito importante 14,3 Total 100,0 0 0 14,3 85,7 100,0 28,6 14,3 14,3 100,0 0 0 28,6 28,6 0 0 42,9 14,3 14,3 0 71,4 28,5 42,8 42,8 0 28,6 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 66,6 0 16,7 14,2 16,7 42,9 0 42,9 100,0 100,0 Isto indica que pode estar ocorrendo um esforço de capacitação tecnológica cujos efeitos podem ir além da absorção das inovações geradas fora do setor, pois, no caso dos laboratório de P&D, pode-se estar criando uma estrutura interna às empresas capaz de criar Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 36 capacidade para o desenvolvimento interno de inovações. Essa indicação é reforçada pelo fato de 28,6% considerarem muito importante e 71,4% considerarem importante a cooperação com organizações de ensino, pesquisa e entidades de apoio setorial. Este tipo de cooperação também pode ter reflexos internos a empresas, no que se refere à capacidade para inovação. As informações das tabelas 29 e 30 auxiliam na avaliação destas possibilidades. TABELA 29 GASTOS EM P&D - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. % de P&D em relação ao faturamento 0 1 2 3 Total % de empresas 33,3 50,0 16,7 100,0 Fonte: Pesquisa de Campo. Todas as empresas informaram gastos com P&D, sendo que aproximadamente 83% gastam até 2% em relação ao seu faturamento. Esta é uma média considerada alta para os padrões brasileiros. (Tabela 29). Esses percentuais, conforme declarados pelas empresas, foram maiores que os gastos realizados pelas empresas em 1990 (Tabela 30), e também em relação às perspectivas futuras, aproximadamente 70% das empresas pretendem ampliar seus gastos em P&D. TABELA 30 VARIAÇÃO EM RELAÇÃO A 1990 E PERSPECTIVAS FUTURAS - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Gastos em P&D % de empresas a) Houve aumento em relação a 90 ? Sim 100,0 Não 0 Total 100,0 b) Perspectivas para gastos em P&D Permanecer nos níveis atuais 28,6 Ampliar moderadamente 42,8 Ampliar significativamente 28,6 Total 100,0 Fonte: Pesquisa de Campo. GASTOS EM P&D – Como não foi possível obter informações detalhadas destes gastos, pode-se supor que sejam para manutenção dos laboratórios de controle e testes e/ou manutenção de equipes para desenvolvimento de produtos. Considerada uma área estratégia das empresas, não se teve acesso a esses dados, mas foi possível observar nas entrevistas dois aspectos relacionados: (i) a desativação em algumas empresas dos laboratórios de controle e a realização destes serviços pelo Centro de Tecnologia da Cerâmica instalado na região; e (ii) a existência de equipes de design em todas as empresas pesquisadas. Isto pode indicar o direcionamento dos gastos em P&D para o desenvolvimento de produtos com ênfase na diferenciação pelo design. Os reflexos de uma estratégia deste tipo pode proporcionar o desenvolvimento de capacidade para inovações em produtos. Deve-se considerar ainda que é relativamente alta a qualificação do pessoal técnico Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 37 que desenvolve atividades nos laboratórios e no design como pode-se observar na tabela 31, 37% são de nível superior dos quais 12 % pós-graduados. TABELA 31 QUALIFICAÇÃO DO PESSOAL TÉCNICO DOS LABORATÓRIOS - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Qualificação Técnicos nível médio Nível superior Pós-graduados Total Fonte: Pesquisa de Campo. % do pessoal 63,0 24,7 12,3 100,0 Considerando-se as características da tecnologia no setor, as principais fontes de informação para a inovação correspondem também às formas dos processos de aprendizagem. As consideradas muito importante foram na ordem: “feiras e eventos”, “universidades e centros de pesquisa”, “departamento de P&D das empresas”, e “fornecedores de equipamentos”. As consideradas importantes com algum destaque foram as “publicações especializadas” e “clientes”. Quanto à localização das fontes mencionadas, uma situa-se no cluster , universidades e centros de pesquisa, a situada no território nacional corresponde aos consumidores (clientes) e as internacionais correspondem aos produtores de equipamentos e às feiras e eventos internacionais (tabela 32). TABELA 32 FONTES DE INFORMAÇÃO PARA INOVAÇÃO: GRAU DE IMPORTÂNCIA E CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Sem importância 0 FONTE Fornecedores de equipamentos Feiras e exibições 0 Workshop de 28,6 produtores Clientes 14,3 Publicações 0 especializadas Visitas a outras 28,6 empresas da região Consultores 28,6 especializados Bibliotecas ou 14,3 serviços de informação Departamento de 14,3 P&D da empresa Universidades e 0 centros de pesquisa Fonte: Pesquisa de Campo. Grau de importância (% empresas) Pouco Importante Muito importante importante 14,2 42,9 42,9 Total LOCALIZAÇÃO INDÚSTRIA Localização da fonte de informação Local Nacional Internacional Total 100 20,0 20,0 60,0 100 0 28,6 14,3 28,6 85,7 14,2 100 100 11,1 0 33,3 33,3 55,6 66,7 100 100 14,3 14,3 42,8 85,7 28,6 0 100 100 16,7 12,5 66,6 50,0 16,7 37,5 100 100 42,8 28,6 0 100 Não se aplica Não se aplica Não se aplica 100 42,8 14,3 14,3 100 0 100,0 0 100 57,1 28,6 0 100 66,7 33,3 0 100 14,3 14,3 57,1 100 100 28,6 57,1 100 Não se aplica 33,3 Não se aplica 14,3 Não se aplica 50,0 16,7 100 Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 38 Esses processos de aprendizagem nas empresas cerâmicas interagem com as formas de capacitação tecnológica desenvolvida pelos demais agentes que integram o cluster. No que se refere às empresas fornecedoras de insumos, 50% das empresas pesquisadas consideraram muito importante e 17% importantes os investimentos em P&D como forma de desenvolvimento ou incorporação de tecnologia. Também 60% das empresas mencionaram como importantes as atividades de capacitação nas unidades de produção das empresas. A aquisição de máquinas nos mercados internacionais e as relações com os seus fornecedores foram também formas de incorporação de tecnologia mencionadas pela maioria das empresas como importante ou muito importante (tabela 33). TABELA 33 FORMAS DE DESENVOLVIMENTO OU INCORPORAÇÃO DE NOVAS TECNOLOGIA S - EMPRESAS DE INSUMOS PARA A INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Formas de desenvolvimento Aquisição de máquinas compradas no mercado nacional Aquisição de máquinas compradas no mercado internacional Em cooperação com fornecedores de equipamentos Nas unidades de produção da empresa Em laboratórios de P&D da empresa Em cooperação com outras empresas concorrentes Em cooperação com outras organizações (de ensino e pesquisa, entidades de apoio setoriais, etc.) Via licenciamento Em cooperação com fornecedores de insumos Fonte: Pesquisa de campo Sem importância 33,3 Grau de importância (% empresas) Pouco Importante Muito importante importante 50,0 0 16,7 Total 100,0 0 33,3 33,3 33,4 100,0 33,3 33,3 0 33,4 100,0 20,0 33,3 83,3 20,0 0 0 60,0 16,7 0 0 50,0 16,7 100,0 100,0 100,0 66,7 0 0 33,3 100,0 100,0 50,0 0 0 0 0 0 50,0 100,0 100,0 Esse esforço interno de capacitação das empresas fornecedoras de insumos pode ser qualificado pela observação de suas relações com a empresa matriz, considerando-se que das 6 empresas pesquisadas no segmento de fornecedores de esmaltes, 5 são filiais de empresas estrangeiras (ver capítulo 2). Essas relações envolvem, principalmente, a ida de técnicos da empresa para treinamento na matriz e a presença de técnicos da matriz para treinamento e assistência técnica. As realizações de ensaios nos laboratórios da matriz é outra forma de relação considerada importante, conforme tabela 34. A característica deste agente do cluster cria um fluxo de informações tecnológicas com origem externa ao cluster estabelecido pelas relações com as matrizes das empresas fornecedoras de insumo. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 39 TABELA 34 TIPOS DE COOPERAÇÃO DAS EMPRESAS DE INSUMOS COM A MATRIZ - EMPRESAS DE INSUMOS PARA A INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998 Grau de importância (% empresas) Tipos de cooperação Sem importância Pouco importante Importante Muito importante Não se aplica Total Presença de funcionários da matriz na empresa para treinamento e assistência técnica Ida de técnicos da empresa para treinamento na matriz Realização de ensaios nos laboratórios da matriz Treinamento/consultas via rede Fonte: Pesquisa de Campo. 0 0 28,6 42,8 28,6 100,0 0 0 0 71,4 28,6 100,0 0 0 0 14,2 42,8 28,6 28,6 28,6 28,6 28,6 100,0 100,0 Deve-se considerar também a importância da contribuição deste agente para a capacitação tecnológica no cluster, pois observa-se na tabela 35, que do pessoal técnico ocupado nas empresas 47% têm formação em nível superior, dos quais 2% com pós-graduação. TABELA 35 QUALIFICAÇÃO DO PESSOAL TÉCNICO - EMPRESAS DE INSUMOS PARA A INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Qualificação Técnicos nível médio Nível superior Pós-graduados Total Fonte: Pesquisa de Campo. % do pessoal 52,5 44,9 2,6 100,0 Quanto aos agentes produtores de equipamentos localizados no cluster, as formas de incorporação de novas tecnologias se dão pela cooperação com organizações de ensino e pesquisa e por licenciamento. Essas formas foram consideradas muito importante e importante por metade das empresas. Todas as empresas consideraram importante a aquisição de máquinas no mercado internacional e, também, o desenvolvimento de tecnologia nas unidades de produção das empresas e nos laboratórios de P&D (tabela 36). Deve-se considerar entretanto que as informações obtidas nas entrevistas indicaram também, a grande dificuldade destas empresas para a incorporação de novas tecnologias e para realizar investimentos em P&D. Apesar do esforço que realizaram para introdução de novos equipamentos e novas técnicas organizacionais nos anos 90, enfrentam dificuldades nas condições de concorrência com seus competidores internacionais, entre outros aspectos, devido ao custo do financiamento interno para a venda de equipamentos maiores. Sua inserção no cluster realiza-se, principalmente, pela venda de equipamentos como estampos e peças de reposição. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 40 TABELA 36 FORMAS DE DESENVOLVIMENTO OU INCORPORAÇÃO DE NOVAS TECNOLOGIAS - EMPRESAS DE MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS PARA A INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Grau de importância (% empresas) Formas de desenvolvimento Sem importância Pouco importante Importante Muito importante Total Aquisição de máquinas compradas no mercado nacional Aquisição de máquinas compradas no mercado internacional Em cooperação com fornecedores de equipamentos Nas unidades de produção da empresa Em laboratórios de P&D da empresa Em cooperação com outras empresas concorrentes Em cooperação com outras organizações (de ensino e pesquisa, entidades de apoio setoriais, etc.) Via licenciamento Em cooperação com fornecedores de insumos Fonte: Pesquisa de Campo. 50,0 0 0 0 50,0 100,0 0 0 100,0 100,0 50,0 0 0 100,0 0 0 0 0 0 0 0 100,0 100,0 0 50,0 50,0 0 0 0 50,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 0 50,0 0 0 50,0 0 50,0 50,0 100,0 100,0 No que se refere ao CTC, este dispõe de laboratórios com instrumental científico para absorção e desenvolvimento de tecnologia de interesse dos atores que participam do arranjo de cooperação tecnológica. A infra-estrutura laboratorial é composta de laboratórios de produto cerâmico acabado, análise térmica, análise química, colorimetria, reologia, processos cerâmicos e preparação de amostra. A infra-estrutura de recursos humanos presentes nestes laboratórios indica, conforme a tabela 37, 19 técnicos, 17 graduados e 3 pós-graduados em nível de mestrado. Este conjunto representa algo em torno de 70% dos recursos humanos existentes. TABELA 37 INFRA-ESTRUTURA DE RECURSOS HUMANOS DO CENTRO TECNOLÓGICO EM CERÂMICA -1998. Pessoal ocupado, segundo grau de formação Setores Técnico Graduação Mestrado Doutorado Estagiário Bolsista Apoio Administrativo 5 2 1 Softpolis 1 Direção 1 1 Qualidade 2 Educação Tecnológica 4 Lab. Análise Química 2 4 3 Lab. Análise Térmica 1 1 1 Lab. Prod. Cer Acab. 4 1 1 Lab. Prep. Amostra 2 Lab. Processo Cerâmico 3 1 2 3 Lab. De Colorimetria Lab. Reologia 2 1 1 1 Total 19 17 3 2 3 7 Fonte: Laboratório de Materiais - LABMAT-UFSC Total 8 1 2 2 4 9 3 6 2 9 0 5 51 O trabalho realizado pelo CTC possibilita ao setor industrial demandar serviços tecnológicos postos em termos de: caracterização física, química e mineralógica de matériasprimas e produtos; ensaios de certificação de qualidade de produtos acabados; melhoria e otimização de processos de fabricação, formulação de composições cerâmicas, massas , esmaltes e análises de defeitos de fabricação. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 41 Por sua vez, a estrutura laboratorial é credenciada pelo Instituto Nacional de Metrologia - INMETRO, reconhecida pelo Centro Cerâmico do Brasil - CCB - entidade nacional que autoriza a emissão de certificado de qualidade de produtos segundo normas internacionais - e credenciada pela Rede Mundial de Laboratórios Cerâmicos - CERLAB, possibilitando credibilidade aos produtos para adentrarem em diferentes mercados. A configuração do arranjo permite a integração da universidade com a estrutura produtiva cerâmic a. A UFSC participa do CTC executando várias tarefas, contribuindo para a prestação de serviços técnicos. Mantém através do Departamento de Engenharia Mecânica apoio aos trabalhos de pesquisa, através do Laboratório de Materiais - LABMAT; a formação de recursos humanos, através dos cursos de pós-graduação em Engenharia Mecânica e em Ciências e Engenharia de Materiais; e a prestação de serviços complementares não atendidos pelo CTC à indústria cerâmica. No CTC, a UFSC mantém no quadro de pessoal um professor doutor que, na função de diretor, acompanha a execução de projetos, a assistência técnica às empresas e desenvolvimento do serviço laboratorial. Assim como, utiliza o espaço laboratorial para alunos dos programas de pós-graduação realizarem estudos e experiências destinadas às teses de mestrado e doutorado. O CTC desenvolve ações com outros institutos de pesquisa, visando aumentar sua capacitação em desenvolvimento tecnológico para a indústria cerâmica. Tem promovido intercâmbio com institutos de pesquisa, em nível externo, na Itália, Espanha, Portugal e Argentina, e internamente, junto ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo - IPT, e com Departamentos de Cursos de Engenharia de Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS. A aproximação com outros atores institucionais que realizam desenvolvimento tecnológico na área de cerâmica permite a atualização de informações tecnológicas, treinamento de técnicos, prestação de serviços, trocas de experiências diversas, etc. Por outro lado, em face do centro ser uma referência na prestação de serviços tecnológicos, sua área geográfica de atuação estende-se para diversas regiões do país. Conforme a tabela 38, cerca de oito Estados brasileiros demandam trabalhos postos em termos de caracterização e seleção de matérias-primas, formulação de composições cerâmicas, desenvolvimento de novos produtos, aproveitamento de resíduos industriais, design, etc. Destes, Santa Catarina é demandante de 68,7% dos atendimentos, dos quais, grande parte refere-se a empresas cerâmicas e aos fornecedores de insumos diretamente ligados ao cluster. Esta demanda não se restringe somente à indústria cerâmica, mas também a fornecedores e outros setores, como construção civil, mineradoras, etc., que mantêm vinculações produtivas com a atividade cerâmica. TABELA 38 NÚMERO ATENDIMENTOS DO CENTRO TECNOLÓGICO EM CERÂMICA – 1998. Estado Indústria Cerâmica Santa Catarina 40 Paraná 3 R. G. Sul 2 São Paulo 15 Espírito Santo 1 Goiás 1 Minas Gerais 1 Bahia 1 Total 64 Percentual por usuário (%) 40,8 a Construtoras, mineradoras e outros. Fonte: CTC. Fornecedores Escola Outros a 24 3 3 3 33 21,0 5 2 1 - 39 2 6 2 1 1 1 52 5,1 8 33,1 Total Número 108 8 10 21 2 1 5 2 157 - % 68,7 5,1 6,4 13,4 1,3 0,6 3,2 1,3 100,0 100,0 Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 42 Atualmente um dos principais objetivos do CTC é implantar uma unidade piloto capaz de desenvolver melhoramento de processos de produção cerâmica. Pretende-se, através da implantação desta planta, realizar todas as etapas do processo produtivo em escala de laboratório, desde a moagem, atomização, prensagem, esmaltação e até a queima. O projeto elaborado em parceria com o Departamento de Engenharia Mecânica da UFSC foi recentemente aprovado pelo Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico - PADCT. Em funcionamento, a planta piloto tende a contribuir para a agilidade e redução de perdas do processo produtivo, pois evitará que as empresas tenham de paralisar suas linhas de produção para fazer ensaios finais, na medida em que estarão à disposição todos os testes necessários à produção. Paralelamente, o CTC vem montando uma estrutura de organização das informações tecnológicas para auxiliar o processo de busca de inovação realizado pelas empresas. Está implantando um sistema de obtenção permanente de informações tecnológicas, através da organização de documentos e armazenamento de dados, voltados a auxiliar no processo de desenvolvimento da capacidade inovativa das empresas. Uma vez implantado, informações atualizadas estarão disponíveis na Rede Catarinense de Ciência e Tecnologia - RCT/SC - e na Rede Nacional de Pesquisa - RNP. À medida em que o CTC vem desenvolvendo as funções citadas no âmbito do arranjo, o aprendizado institucional adquirido tem criado condições para avançar na execução de novas prestações de serviços tecnológicos. Existe a consciência da necessidade de atuar com maior intensidade na solução de problemas técnicos em nível do processo produtivo das empresas, uma vez que a realização de serviços laboratoriais atende as necessidades cotidianas das empresas. Espera-se com isso, estar executando função semelhante ao que os centros de pesquisas internacionais, o Instituto de Pesquisa para Tecnologia de Faenza e o Instituto de Tecnologia Cerâmica de Castellon realizam na Itália e Espanha. Em resumo, quanto às formas de desenvolvimento ou incorporação de novas tecnologias e as fontes de informação para a inovação, observou-se que: 1) a importação de máquinas e equipamentos , as relações com os fornecedores de insumos, e os laboratórios de P&D são as formas mais importantes de aprendizagem para o conjunto de agentes do cluster ; 2) as feiras e eventos internacionais, os mercados consumidores nacionais , as universidades e o centro de pesquisa são de forma mais geral as principais fontes de informação para o desenvolvimento tecnológico; 3) o cluster internalizou uma tecnológico, que foi o CTC; fonte importante de estímulo ao seu desenvolvimento 4) com o desenvolvimento da especialização e complementaridade dentro do cluster, através do desenvolvimento do segmento de fornecedores, criaram-se as condições para que a relação mais importante dos processos de aprendizagem característicos do setor cerâmico pudesse ocorrer num ambiente no qual se verificou que o nível tecnológico dos agentes é compatível com o padrão internacional da indústria; 5) que as relações dos agentes com os produtores de máquinas e equipamentos situados no cluster são menos intensas que as demais; 6) que ocorre um esforço interno de desenvolvimento tecnológico expresso nas atividades de P&D realizado pelas empresas cerâmicas , pelos fornecedores dos componentes do esmalte e pelos fornecedores de equipamentos; Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 43 7) que estão presentes instituições de ensino para a qualificação da mão-de-obra e instituições associativas que proporcionam condições de coordenação, principalmente na melhoria da infra-estrutura econômica, conforme foi analisado no capítulo 2 deste relatório. 3.3 Natureza e frequência dos fluxos tecnológicos Considerando-se as formas dos processos de aprendizagem e as principais fontes de informação para a inovação das empresas cerâmicas do cluster, bem como a existência de agentes de apoio tecnológico, como o CTC, são importantes os seguintes fluxos tecnológicos, apresentados segundo suas origens: a) Os fluxos de origem externa ao cluster: 1) as informações proporcionadas por participações em feiras e eventos nacionais e principalmente internacionais, nas quais procuram conhecer as tendências do desing, as alterações nos produtos e nos processos. Este fluxo alimenta o processo de learnig by doing afetando principalmente a capacidade para o desenvolvimento do produto, combinando-se com as formas de capacitação tecnológica através dos investimentos em P&D. Podem-se incluir aqui também as informações obtidas em revistas internacionais especializadas; 2) as compras de máquinas e equipamentos no exterior, estimulando os processos de learning by using; e 3) as relações com consumidores no mercado nacional estimulando a capacidade de desenvolvimento dos produtos. 4) as relações das empresas fornecedores de insumos com suas matrizes. b) Os fluxos que se realizam dentro do cluster: 1) as relações com o centro de pesquisa e também com a universidade federal do estado, considerada aqui pela sua proximidade à região; e 2) as relações com os fornecedores de insumos instalados no cluster, caracterizando os processos de learning by interacting. Estes fluxos criam possibilidades para a absorção de tecnologia, frente às características do regime tecnológico e do padrão de concorrência da indústria. O que se procura investigar é em que medida este ambiente apresenta possibilidade de estimular mecanismos de aprendizagem, que possam criar condições para a inovação, combinando-se com a absorção por fontes externas. Para tanto, a análise concentra-se nos fluxos internos de tecnologia que se realizam pelas relações entre fornecedores e produtores e pelas relações dos agentes com o centro de tecnologia. Serão também observadas as externalidades proporcionadas pelas instituições de qualificação da mão-de-obra. 3.3.1 Relações entre empresas cerâmicas e fornecedores de insumos Como foi observado anteriormente as relações entre as empresas cerâmicas e os fornecedores de insumos foram consideradas pelas empresas cerâmicas como a segunda mais importante forma de incorporação de tecnologia. Para as empresas fornecedoras, conforme tabela 39, o apoio ao cliente no desenvolvimento do produto e a venda de produtos desenvolvidos especificamente para os clientes, são as mais importantes formas de relações comerciais dessas empresas. Esta estratégia de vendas superou a venda de produtos padronizados e tornou-se uma forma frequente de desenvolvimento de produtos na indústria cerâmica. Esta prática , padrão na indústria internacional, já foi amplamente internalizada no cluster. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 44 TABELA 39 RELAÇÕES COMERCIAIS DAS EMPRESAS DE INSUM OS COM CLIENTES LOCAIS - EMPRESAS DE INSUMOS PARA A INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Grau de importância (%) Relações comerciais Sem importância Pouco Importante Importante Muito Importante Total Venda de produtos padronizados Venda de produtos desenvolvidos para empresas locais Existência de processos produtivos dedicados a empresas locais Apoio a clientes no desenvolvimento de seus produtos Aliança para desenvolvimento de tecnologias Fonte: Pesquisa de Campo. 16,7 0 16,7 0 16,7 14,3 49,9 85,7 100,0 100,0 0 50,0 33,3 16,7 100,0 0 0 0 100,0 100,0 33,3 0 33,3 33,4 100,0 As formas de cooperação que se estabelecem a partir destas relações comerciais são diversas e muito frequentes. Na tabela 40, computou-se a maior frequência (entre as categorias “inexistente”, “rara”, “anual”, e “mensal/semanal/diária”) declarada pelas empresas cerâmicas e pelos fornecedores. Como pode-se observar , com exceção da cooperação para capacitação de recursos humanos, que não é uma forma de cooperação característica desse tipo de relação, um mínimo de 70% dos agentes declararam manter contatos mensais, semanais, ou diários, e todos os agentes mantêm contatos com esta frequência quer por serem menos formais, como a troca de idéias e informações, quer pela maneira mais formalizada, como a realização de ensaios para desenvolvimento e melhoria de produtos. Esta frequência e estas formas de cooperação evidenciam a potencialidade dessas relações para a capacitação tecnológica dos envolvidos. TABELA 40 ENTRE EMPRESAS CERÂMICAS E FORNECEDORES DE INSUMOS INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. RELAÇÕES DE COOPERAÇÃO Formas de cooperação Troca de idéias e informações Ensaios p/desenv. e melhoria de produtos Design de produtos Assist.técnica p/ melhoria do processo produtivo Capacitação de recursos humanos Fonte: Pesquisa de Campo. % de empresas cerâmicas que realizam contatos mensais/semanais/diários 100,0 85,7 % de empresas de insumos que realizam contatos mensais semanais/diários 85,7 100,0 71,4 85,7 71,4 85,7 42,8 28,6 Alguns exemplos de introdução de melhoramentos técnicos pelos fornecedores observados nas entrevistas são sumariados na tabela 41. Estão inclusos na tabela os fornecedores de componentes do esmalte, de telas cerâmicas e mineradoras. Deve-se observar entretanto que as relações de cooperação são mais fortes com os fornecedores de componentes dos esmaltes, dada a importância do insumo para a obtenção do produto final , uma vez que a especificação do esmalte depende de formulação apropriada para o tipo da massa cerâmica em uso pelo cliente e da “solução” a ser obtida em termos das características do produto final. O mesmo ainda não acontece com as mineradoras que fornecem a matéria-prima para a massa cerâmica. As Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 45 empresas cerâmicas adquirem as argilas e rochas e outros componentes da massa de fontes com grande diferenciação em termos tecnológicos. Mas já há no cluster mineradoras que oferecem o produto com as análises de laboratório já realizadas procurando atender as especificidades dos clientes e criando relações que podem ampliar as capacitações tecnológicas. A possibilidade de vender a massa já formulada e misturada é uma tendência internacional que no cluster ainda está começando. TABELA 41 EXEMPLOS DE MELHORAMENTOS NOS INSUMOS FORNECIDOS PELAS EMPRES AS PRODUTORAS E IMPACTOS SOBRE OS PRODUTOS CERÂMICOS - EMPRESAS DE INSUMOS PARA A INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Empresas Características dos melhoramentos A - Modificação em corantes para porcelanato B - Melhorias nos defloculantes C - Melhorias nas características do esmalte D - Melhoria na tecnologia da monoporosa E - Melhorias na mobilidade da tela F - Anortosito Fonte: Pesquisa de Campo. Impactos sobre os produtos cerâmicos - Melhora a resistência ao calor e preserva a cor - Auxilia na densidade e na diferenciação do produto - Afeta as características do brilho - Melhor efeito estético e economia na 1ª queima - Reduz interrupções na linha - Melhorou a estabilidade da massa na queima 3.3.2 Relações com o CTC Considerações das empresas cerâmicas, a respeito de atividades cooperativas realizadas com o CTC, apontam que os serviços laboratoriais voltados à caracterização e seleção de matérias-primas, análises e ensaios de matérias-primas, análise e ensaios de produtos acabados e certificação de qualidade dos produtos são os mais demandados. Por outro lado, o desenvolvimento de novos produtos e a assessoria e transferência de tecnologia como atividades cooperativas são raras e nulas, conforme a tabela 42. Este quadro evidencia que a natureza da atividade tecnológica do CTC, no atual momento, prende-se à execução de serviços laboratoriais, sem forte envolvimento em inovações de processo e produto. Em consonância, os dados permitem observar a existência de parceria para o desenvolvimento conjunto de projetos, mesmo sem ser apreciável, indicando a realização de novas tarefas tecnológicas. Informações obtidas nas entrevistas referendam este quadro com o envolvimento conjunto com empresas em projetos de aperfeiçoamento tecnológico, bem como de desenvolvimento tecnológico de produtos. No tocante às empresas de insumos - esmaltes, fritas, corantes e outras especialidades química - o arranjo aponta para o baixo nível de cooperação com o CTC. As demandas por serviços laboratoriais são preponderantemente raras e nulas. Esta evidência decorre destas empresas possuírem infra-estrutura tecnológica, com laboratórios e corpo técnico executando tarefas disponíveis no CTC, bem como por serem, em sua maioria, empresas multinacionais, o desenvolvimento tecnológico realiza-se em suas matrizes. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 46 TABELA 42 RELAÇÕES DE COOPERAÇÃO DAS EMPRESAS CERÂMICAS E DE INSUMOS COM O CTC - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Atividades cooperativas % de empresas fornecedoras de % de empresas cerâmicas insumos FREQUÊNCIA FREQUÊNCIA Nula Rara Anual Mensala Total Nula Rara Anual Mensala Total Caracterização e seleção 71,4 14,3 de matérias-primas Formulação de 100, 0 composições cerâmicas 0 Desenvolvimento de novos 100, 0 produtos 0 Aproveitamento de 100, 0 resíduos industriais 0 Assessoria e transferência 71,4 14,3 de tecnologias Análises e ensaios de 57,1 14,3 matérias-primas Análises e ensaios de 85,7 0 produtos acabados Parcerias para desenv. 71,4 0 Conjunto de projetos Certificação de qualidade 85,7 0 de produtos cerâmicos a – freqüência mensal/ semanal/ diária Fonte: Pesquisa de Campo. 0 14,3 100 14,3 14,3 14,3 57,1 100 0 0 100 42,8 28,6 14,3 14,3 100 0 0 100 57,1 28,6 14,3 0 100 0 0 100 14,3 0 71,4 14,3 100 0 14,3 100 28,6 42,8 14,3 14,3 100 0 28,6 100 0 0 0 100,0 100 14,3 0 100 0 0 0 100,0 100 14,3 14,3 100 0 42,9 14,29 42,9 100 0 14,3 100 0 0 0 100,0 100 3.3.4. A qualificação da Mão-de-obra O sistema de ensino no âmbito do cluster é a fonte mais importante para a mão-de-obra qualificada de todos os agentes (tabela 43). Este sistema mantém intensas relações com as empresas, e expressa claramente o esforço conjunto das empresas neste sentido. Da mesma forma que as articulações realizadas para a implantação do CTC, o sistema de ensino é também uma clara demonstração das possibilidades de cooperação que ocorrem dentro do cluster. A criação de externalidades pelas associações representativas já é uma prática que apresentou resultados promissores para os agentes, e complementam as ações cooperativas através das relações entre fornecedores de insumos e as empresas cerâmicas. As atividades mais recentes de implantação de um curso superior de engenharia cerâmica, confirmam a potencialidade desta cooperação, que pode, entre outras possibilidades, dirigir-se para a formação de pessoal especializado em design. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 47 TABELA 43 ORIGEM DO PESSOAL TÉCNICO - INDÚSTRIA CERÂMICA DA REGIÃO SUL DE SC – 1998. Local da qualificação % do pessoal técnico das empresas fornecedores de insumos Escolas técnicas do local 59,6 Escolas técnicas de SC 0 Escolas técnicas nacionais 0 Universidades do local 34,6 Universidades de SC 0 Universidades nacionais 5,8 Total 100,0 * Sem considerar 4 empresas fornecedores de insumos e 3 empresas cerâmicas. Fonte: Pesquisa de Campo. % do pessoal técnico das empresas cerâmicas 28,1 19,9 4,4 1,8 32,8 13,0 100,0 A análise das principais relações que estimulam o desenvolvimento ou incorporação de novas tecnologias no cluster, através da natureza das relações de sua frequência , mostrou: 1) A importância da internalização no cluster das empresas fornecedoras de componentes do esmalte. A estratégia das empresas fornecedoras de localizarem-se junto aos clientes e as relações com os clientes para desenvolvimento de produtos, estimularam a desverticalização nas grandes empresas cerâmicas, e criaram para as menores uma fonte de informação para o desenvolvimento tecnológico. 2) Esta experiência é ainda pouca desenvolvida com as empresas mineradoras, apesar de já haver sinais das possibilidades de seu desenvolvimento. Este segmento do cluster parece estar passando por uma transição em direção a novas formas de comercialização, introduzindo a análise de matérias-primas e outras formas de relações com os clientes. 3) No âmbito das relações internas ao cluster, talvez sua maior deficiência seja a dificuldade de capacitação tecnológica no segmento produtor de máquinas e equipamentos, que não se refere unicamente às estratégias de capacitação destes agentes, mas também às economias de escala necessárias a uma indústria deste tipo e às condições macroeconômicas internas que reduzem a competitividade deste segmento. 4) O CTC gradativamente firma-se como um importante agente de desenvolvimento tecnológico do cluster. Suas intensas relações, principalmente com as empresas cerâmicas, criam as bases para que possa ampliar sua ação de cooperação tecnológica além das atividades de certificação e análises laboratoriais. Sua presença também possivelmente tenha estimulado a terceirização dos serviços de análise. 5) Os gastos com P&D, na maioria das empresas, indicam o desenvolvimento de esforços no nível das empresas que pode criar estruturas específicas para a capacitação inovadora. Este esforço dirige-se com mais intensidade ao desenvolvimento de produtos, através da criação de competência em design. 6) A atividade de ensino é a principal fonte de qualificação da mão-de-obra no âmbito do cluster e resulta de uma eficiente ação cooperativa dos agentes. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 48 4. AVALIAÇÃO E PROPOSTA DE POLÍTICAS 4.1 A dimensão local e a capacidade para inovação tecnológica: elementos para uma avaliação Partindo da definição apresentada por (SCHMITZ & KHALID, 1994) O cluster da indústria cerâmica do Sul de SC, apresenta os principais elementos que caracterizam este tipo de arranjo, quais sejam: (a) concentração geográfica e setorial de empresas, (b) desintegração vertical da produção, proporcionando condições de especialização e complementaridade entre as empresas, (c) presença de organizações que representam os interesses locais. No entanto, o cluster se diferencia em relação à definição, no que se refere ao (d) fraco suporte do governo local, e, também, ao fato de não haver (e) predominância de pequenas empresas, que no entanto também existem no cluster cerâmico. Estabeleceu-se na região uma ampla rede de empresas produtoras, fornecedores de insumos e serviços articuladas a instituições de apoio tecnológico e de representação de interesses locais. Nestas condições , é útil para a análise o conceito de sistema de inovação setorial, que, conforme BRESCHI & MALERBA (1997), refere-se a um grupo de firmas ativas na produção e desenvolvimento de um produto específico de um setor e na geração e uso de tecnologias deste setor. Os autores consideram também que “um sistema de firmas está relacionado de duas formas diferentes: através de processos de interação e cooperação no desenvolvimento de uma tecnologia e através de processos de competição e seleção na inovação e nas atividades de mercado.”(pg.131) Considerando-se então a existência de um cluster cerâmico, é relevante compreender sua trajetória e as especificidades que daí decorreram sob o ponto de vista: (a) de sua conformação, como apontam SCHMITZ & KHALID (1994), e (b) da sua capacitação tecnológica e competitividade, como realçam BRESCHI & MALERBA (1997). A conformação do cluster, sua dinâmica de capacitação tecnológica e a situação dos fatores competitivos, resultaram de uma trajetória que se inicia com a implantação dos grandes grupos econômicos com sede na região, e se amplia com os processos de desverticalização desses grupos (que afetam não apenas atividades produtivas, cujo melhor exemplo é a mineração, mas também o sistema de formação de mão-de-obra , cuja importante escola técnica antes era exclusiva de um dos grandes grupos), com a implantação de fornecedores estrangeiros e com a articulação dos empresários organizados em uma associação. As economias de aglomeração daí resultantes estimularam as médias empresas, que também realizaram importantes investimentos nos anos 90. Este movimento articulou-se com o movimento de abertura comercial, ao impor exigências de reestruturação produtiva e também ampliar as condições de importação de equipamentos. São características desta trajetória , em consonância com o padrão de concorrência da indústria, dadas as reduzidas barreiras à entrada, e a ampla difusão da tecnologia, a coexistência de médias e grandes empresas sem uma relação de dependência entre elas. Também nestas condições, a cooperação entre as empresas cerâmicas é bastante restrita nos campos de desenvolvimento tecnológico, mas ao mesmo tempo cria condições de cooperação para desenvolver uma infra-estrutura econômica e tecnológica que proporciona economias de aglomeração. Exemplos disso são: a implantação do centro de tecnologia, os esforços para a implantação do sistema de gás natural, e do acesso ao porto próximo à região. Nesta trajetória acelerou-se a dinâmica dos processos de aprendizagem, na medida em que foram internalizados no cluster os agentes que têm importante papel na transferência de tecnologia, os agentes que operam as condições de certificação e os serviços tecnológicos. Mais do que isso, é importante considerar que frente à criação de uma especialização mínima e de uma infra-estrutura básica, os agentes adotaram estratégias de diferenciação dos seus produtos, ampliando seus esforços internos de capacitação e generalizando no cluster algumas condições Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 49 do padrão internacional de competitividade. Criaram-se amplas condições de absorção de tecnologia externa, capacidade para seu uso e uma certa competência própria que pode evoluir para a capacitação de inovação dos agentes. Portanto, as economias de aglomeração estão afetando positivamente a capacitação tecnológica dos agentes que optaram por estratégias de diferenciação, aumentando o valor agregado de seus produtos, em sintonia com as características do padrão internacional. Quanto à conformação, destaca-se a presença dos seguintes agentes concentrados geograficamente: empresa cerâmicas, empresas de insumos para esmaltação, empresas mineradoras, empresas de serigrafia, empresas produtoras e distribuidoras de máquinas e equipamentos, empresas de manutenção, escolas técnicas especializadas, um centro de tecnologia, e instituições de representação. Deve-se mencionar, como especificidades do arranjo: (a) a concentração econômica pela presença de dois grandes grupos econômicos do setor; e (b) a dependência quanto aos equipamentos, que são em sua maioria importados. Quanto à dinâmica dos processos de capacitação tecnológica, este é condicionado pela natureza estável da tecnologia, pela origens das inovações em setores externos à indústria, e pelas baixas condições de apropriabilidade na introdução de inovações. Nestas condições, o cluster apresenta (a) fortes relações entre produtores e fornecedores, (b) relativa homogeneidade entre as capacitações tecnológicas dos agentes, (c) a disponibilidade de serviços tecnológicos prestados pelo centro de tecnologia , (d) esforço interno às empresas para capacitação tecnológica, (e) a rápida absorção de inovações lideradas pelas grandes empresas. Quanto às características dos processos competitivos, observadas pelos fatores de competitividade definidos pelo padrão internacional, o cluster apresenta (a) um movimento gradativo de desverticalização que amplia as condições de especialização e complementaridade, (b) o fortalecimento da organização setorial, (c) o aperfeiçoamento dos agentes na gestão empresarial , (d) a adoção de sistemas de qualidade e certificação segundo padrões internacionais, (e) o aumento na flexibilidade da produção, e (f) um forte sistema de treinamento de recursos humanos. Frente a esta trajetória e características, e tendo em vista os objetivos da pesquisa, procura-se refletir sobre o significado da dimensão local para a dinâmica dos processos de aprendizagem (item 4.1.2) e sobre as possibilidades de desenvolvimento da capacidade para a inovação tecnológica no âmbito do cluster ( item 4.1.3) 4.1.1. A importância do “local” enquanto sustentação da capacitação tecnológica Consideradas as especificidades do cluster, a proximidade geográfica dos agentes não se deve às características da tecnologia, como no caso de tecnologias que estão sofrendo grandes alterações, e nas quais tende também a ser maior a dimensão tácita do conhecimento. Mas sim, uma vez iniciado o movimento de aglomeração, as economias que daí decorrem, combinadas com as estratégias das empresas para se adequarem ao padrão de concorrência, amplificam gradativamente o movimento, criando condições de se articularem os interesses locais, os quais, ao promoverem melhorias na infra-estrutura ampliam ainda mais as economias de aglomeração. Convivem desta forma os grandes, que exercem um papel de liderança no estímulo à absorção de inovações, na medida em que são os mais capazes financeiramente de realizar os gastos e investimentos inovadores, e os médios e pequenos que frente às decisões dos líderes procuram segui-los nos novos esforços de investimento. Conformou-se assim um sistema de inovação setorial típico de setores de tecnologia madura e com a dinâmica de inovações ditada por fontes externas ao setor. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 50 No cluster cerâmico, ocorre a absorção de inovações em processo , através principalmente da aquisição de máquinas importadas e de novos insumos, e inovações em produtos relacionadas principalmente ao esforço de imitação no desing . Nestas condições, tratase de verificar se os fatores relacionados à proximidade geográfica são importantes para sustentar uma dinâmica interna de capacitação que possa estimular a inovação. Esses fatores são: a) A estratégia dos agentes que pode ou não privilegiar os esforços para a inovação. Neste aspecto a questão é: qual a influência da proximidade dos agentes para estimular a adoção de estratégias que exigem capacitação tecnológica. Aqui o papel central é dos grandes grupos que lideram a absorção das inovações. As estratégias por diferenciação de produtos pelos grandes grupos estimularam todo o cluster, e atraíram os fornecedores internacionais, e criaram uma fonte próxima de informação para a inovação. Nestas condições, criaram-se possibilidades para as empresas menores também adotarem estratégias de diferenciação. Neste caso, a proximidade foi um fator importante. Uma vez mantidas as estratégias, os estímulos passam a ser mútuos e se reforçam. Também os fornecedores estarão estimulados para “oferecer” inovações. Da mesma forma, as estratégias de desverticalização dos grandes grupos estimularam a especialização e a complementaridade, ampliando a oferta interna ao cluster de informação para a inovação. Em resumo, a proximidade geográfica permite que as estratégias das firmas, principalmente as grandes, provoque reflexos locais importantes. b) A estabilidade das relações entre fornecedores e produtores pode estar relacionada à proximidade, dadas as características de flexibilidade, de redução dos custos dos estoques, entre outros aspectos. Como esta relação é também um importante estímulo para as atividades inovadoras, a maior capacitação tecnológica por learning by interacting pode ser uma decorrência da proximidade. c) A oferta interna ao cluster de mão-de-obra qualificada, tende a ampliar-se e já direcionou-se para a oferta de profissionais graduados. Estes cursos tendem a atrair mão- de-obra que pode qualificar-se na região e atender a demanda crescente das empresas. Acrescente-se a esta oferta o movimento entre as empresas de pessoal qualificado em muitos casos dando origem a novas empresas e serviços. Criou-se assim um ambiente local de formação que pode articular-se às atividades de pesquisa estimuladas pela proximidade com as empresas. Da mesma forma sua combinação com a oferta interna de serviços tecnológicos. Tende portanto a criaremse estímulos para a pesquisa os quais derivam da proximidade e podem criar uma rede de relações entre empresas, universidade, centro tecnológico e escolas técnicas. Esses aspectos, pela proximidade, podem estimular uma ampla rede interna de contínua ampliação da capacidade inovativa no âmbito do cluster. Na medida em que se mantém a capacidade de absorção de tecnologias externas, combinadas com estratégias empresariais que exigem a manutenção ou ampliação desta capacidade, e ainda com uma infra-estrutura de serviços tecnológicos e de qualificação de mão de obra, o fortalecimento da capacidade de inovação pode ocorrer. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 4.1.2. A absorção de inovação de fontes externas e capacidade para inovar 51 as possibilidades de desenvolvimento da Outro aspecto importante da análise é procurar identificar as possibilidade da capacidade de absorção de inovações estimular a capacidade inovativa . Essa reflexão pode ser feita sob o ponto de vista da natureza das redes que se criam em uma região, com base em HUGGINS (1997) que distingue três tipos de redes: as de informação, as de conhecimento e as de inovação. A diferença entre elas é a crescente ampliação da qualidade das interações e de sua complexidade. “Regiões globais exitosas são aquelas cujas networks incorporam uma oferta adequada de boas fontes de conhecimentos, com a habilidade e a disposição das firmas locais para fazerem uso das fontes externas de conhecimento com um claro foco na inovação”(p. 103). E, menciona que as redes de inovação “originam-se da combinação criativa de know-how através de redes de conhecimento e habilidades específicas”(p. 104). O autor relaciona estas redes com os tipos de transferência de tecnologia que podem ser: (a) transferência de informação: que compreende a transferência de dados, de documentação e de software, etc.., (b) transferência de conhecimento : que exige a compreensão da origem e do impacto potencial da tecnologia ou do processo, habilidade no know-how e a habilidade para adaptar e difundir a inovação, (c) transferência de hardware: interpretada de forma ampla como a transferência de equipamentos, peças, materiais e sistemas completos de informação. Dentro deste enfoque, pode-se sugerir que o tipo de rede encontrada no cluster aproxima-se bastante de uma rede de conhecimento, com a ressalva de que as principais fontes de informação lhes são externas. Por outro lado, observando-se os fluxos tecnológicos do cluster, conforme mencionado no capítulo 3, pode-se perceber que engloba a transferência de informação, de conhecimento e de hardware. Isto indica um claro potencial em direção à criação de capacidade inovadora. Este enfoque analítico reforça as observações feitas anteriormente, de que o potencial desenvolvimento da capacidade de inovação no cluster está relacionado à possibilidade de criarem-se internamente as relações que sustentem a absorção das mudanças tecnológicas que ocorrem externamente até o ponto de internalizar as fontes de inovação. 4.2 Os pontos fracos do cluster A possibilidade de criarem-se internamente condições para a capacidade de inovação, exige ainda a superação de deficiências como: a) Debilidade no setor produtor de máquinas e equipamentos As empresas fornecedoras de máquinas e equipamentos no cluster encontram-se limitadas para desenvolverem capacidade inovativa em decorrência da falta de recursos humanos capacitados, de baixo nível de gastos em P&D, pouca integração tecnológica com os produtores líderes mundiais e facilidades de aquisição de produtos importados com maior sofisticação tecnológica colocados em termos de condições de financiamento e política cambial favoráveis. b) Poucas relações cooperativas com o setor minerador O setor minerador não tem acompanhado a reestruturação produtiva e organizacional que se processa nas empresas cerâmicas. O nível tecnológico das máquinas e equipamentos existente nas etapas do processo produtivo de mineração, encontra-se desatualizado em relação ao padrão Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 52 internacional. Soma-se a este fato, a forma com que está estruturado este segmento, com as empresas cerâmicas se responsabilizando por parte ainda significativa desta atividade e existirem poucas empresas mineradoras independentes. Em contraste, nos países produtores líderes - Itália e Espanha - existem centrais de preparação de matérias-primas para atendimento a várias empresas cerâmicas. Tais fatos têm limitado a criação de capacidade inovativa, contribuíndo para inexistência de avanços tecnológicos no tratamento da massa - moagem e preparação - e se apresentado como deficiência produtiva para o crescimento dos pequenos e médios produtores cerâmicos no cluster b) Insuficiente desenvolvimento em design O cluster cerâmico depara-se com o limitado desenvolvimento artístico, em decorrência dos baixos investimentos em design, da inexistência de formação de nível superior para design cerâmico e da falta de incentivo à maior atuação de designer junto às empresas. Estas deficiências contribuem para diminuir a capacidade de diversificação e sofisticação dos padrões estéticos em direção a produtos cerâmicos com maior teor artístico e de mais elevado valor agregado. e) Falta de maior vinculação com clientes A vinculação das empresas com clientes, mostra-se diferenciada no arranjo estudado. Em face desta ocorrência, há distintas condições de se criar capacidade de inovação a partir de processos de learning by using. As grandes empresas procuram maior aproximação com os consumidores através de show-roons, lojas monomarcas e equipes de assistência técnica, e se beneficiam de sugestões para solução de problemas técnicos, bem como de pareceres sobre melhoramento dos produtos. Porém, o mesmo não se verifica em relação às pequenas e médias empresas. Nestas, existem baixas utilizações de pesquisas de mercado para a orientação de desenvolvimento de produtos, não possuem estruturas de banco de dados para melhorar o atendimento ao consumidor e não há a preocupação em desenvolver tecnologia de assentamento e assistência técnica para aplicação. f) Pouca abrangência das atividades tecnológicas do CTC As atividades do CTC estão concentradas em prestação de serviços laboratoriais e certificação de qualidade dos produtos, conforme análise no capítulo 3. Mesmo diante argumento de sua criação ser recente, têm sido tímidos e localizados os avanços na áreas desenvolvimento de tecnologia de produtos e processos e na solução de problemas técnicos nível das empresas. na do de no 4.3 Os impactos da abertura comercial nos anos 90 e da criação do Mercosul As empresas que compõem o cluster cerâmico procuraram adequar-se às novas condições concorrênciais postas pela diretriz da política econômica nos anos 90. A abertura comercial conduziu as empresas a adotarem estratégias de reestururação produtiva visando obter vantagens competitivas no mercado. Diante da redução das barreiras à importação de produtos, as empresas cerâmicas procuraram, de forma prioritária, adotar estratégias destinadas às melhorias nos equipamentos e processos produtivos e capacitação interna de seus recursos humanos. Este procedimento foi seguido pelas empresas fornecedoras de insumos e de máquinas e equipamentos que fazem parte do cluster, conforme a tabela 44. A identidade de estratégias entre empresas de segmentos produtivos diferentes, mas vinculados entre si na cadeia produtiva, sinaliza em direção da existência de objetivos comuns voltados a obter eficiência coletiva neste sistema produtivo localizado. Tal fato tem contribuído para elevar o grau de especialização produtiva local, na medida em que, no conjunto, agentes Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 53 realizam esforços destinados a aumentar a capacidade competitiva do cluster, em ambiente de maior abertura da economia. TABELA 44 ADEQUAÇÃO DAS EMPRESAS CERÂMICAS E DE FORNECEDORES DE INSUMOS E DE MAQUINAS E EQUIPAMENTOS AO PROCESSO DE ABERTURA COMERCIAL NOS ANOS 90 - INDÚSTRIA CERÂMICA DO SUL DE SC – 1998 ESTRATÉGIAS Promoveu importantes melhorias nos equipamentos e processos produtivos Promoveu apenas mudança organizacional Introduziu inovação de produto Introduziu inovação de processo Fez arranjos cooperativos com empresas e instituições de pesquisa Capacitou internamente os recursos humanos Empenhou-se no aprendizado tecnológico Buscou outras formas de financiamento Marketing Fonte: Pesquisa de campo ORDENAMENTO SEGUNDO A ORDEM DE IMPORTÂNCIA EMPRESAS INSUMOS MÁQUINAS E GERAL CERÂMICAS EQUIPAMENTOS 1º 2º 1º 1º 4º 3º 6º 2º 3º 4º - 4º 3º 4º 4º 3º 7º 6º 2º 1º - 2º 5º 7º 4º - 2º - 5º 7º Por sua vez, o cluster cerâmico não tem sido impactado pelos novos fluxos de financiamento. O processo de liberalização financeira que facilitou o acesso às fontes externas, não tem despertado interesse pelas empresas do arranjo, que preferem, ao contrário, demandar recursos para capital de giro e investimento de fontes de financiamento doméstico. Tal evidência, se manifestou nos resultados da pesquisa, no qual a fonte de financiamento público e financiamento próprio foram consideradas importantes e muito importantes pelas empresas pesquisadas, conforme análise no capítulo 2. Neste quadro, destacam-se as fontes públicas de financiamento para investimento, sobretudo os recursos provenientes do Banco de Desenvolvimento d o Estado de Santa Catarina SA. A influência dos investimentos diretos do exterior no arranjo tem-se mostrado de forma distinta. No contexto das empresas cerâmicas pertencentes ao cluster constata-se o predomínio do capital nacional em suas composições acionárias, não se verificando a ocorrência de investimentos diretos do exterior, em forma de associação de capitais. Da mesma forma, empresas pesquisadas afirmaram que não estão presentes em suas estratégias fazer associações com empresas multinacionais. Tal fato, repete-se em termos de inexistência de projetos voltados à instalação de empresas de capital estrangeiro na região. Por outro lado, os investimentos diretos do exterior têm ocorrido no segmento fornecedor de insumos. Empresas, sobretudo filiais de matrizes espanholas, atuantes no segmento de esmaltes, corantes e fritas têm-se instalado no cluster. Estes investimentos passaram a ocorrer a partir do processo de liberalização da economia e da desverticalização produtiva das empresas cerâmicas. A facilidade de importação de insumos para a elaboração dos produtos citados e a transferência para terceiros de atividades executadas pelas empresas cerâmicas, contribuíram para a ocorrência de inversões externas neste segmento da cadeia produtiva. A presença de empresas produtoras de insumos junto às cerâmicas tem possibilitado a ocorrência de processos de learning by interacting, proporcionando, sobretudo, melhoramento do fluxo de informações Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ para o desenvolvimento tecnológico complementaridade produtiva . 54 e no desenvolvimento da especialização e Entretanto, não se verifica investimentos diretos do exterior no segmento de máquinas e equipamentos para a indústria cerâmica. As principais empresas são nacionais cuja função no cluster, prende-se a fornecer máquinas e equipamentos complementares à estrutura produtiva principal, procedente em sua maioria da Itália. Em função do estágio maduro do paradigma tecnológico e da facilidade de acesso às importações por conta de uma política cambial favorável, não se verifica movimento de vinda de investimento direto externo no cluster. Constata-se, sim, dados estes fatores, inversões de algumas empresas nacionais localizadas no arranjo de aumentarem seu índice de importação para revenda às empresas cerâmicas. TABELA 45 ESTRATÉGIAS ADOTADAS MAIS CITADAS PELAS EMPRESAS CERÂMICAS FRENTE À FORMAÇÃO DO MERCOSUL – INDÚSTRIA CERÂMICA DO SUL DE SC – 1998 ESTRATÉGIAS Levou a empresa a ampliar sua estrutura de vendas para os países do Mercosul Levou a empresa a realizar investimentos nos países do Mercosul Conduziu a um maior acirramento concorrencial com empresas dos países do Mercosul Levou a empresa a maior integração com empresas locais na busca de maior especialização produtiva Outros. Aumentou vendas para o Mercosul Levou a formação de alianças cooperativas com empresas dos países do Mercosul, voltadas para melhorias na produção Levou a empresa a realizar esforços junto a governos em favor de tratamento mais eqüitativo às empresas locais a: amostra de 7 empresas Fonte: Pesquisa de campo PERCENTUAL DAS EMPRESASa QUE CITARAM A ESTRATÉGIA 85 % 43 % 29 % 14 % 14 % 0% 0% A formação do Mercosul vem influenciando as estratégias das empresas cerâmicas, apesar das exportações se situarem próximas de 10% do valor produzido no cluster. Entre as empresas pesquisadas, existe forte opção estratégica de ampliar a estrutura de venda nos países que compõem o mercado regional, conforme a tabela 45. Tal ocorrência, no nível de 85% das empresas pesquisadas, reflete a trajetória de crescimento das vendas nacionais nos dois últimos anos para este mercado regional, de 16,6% em 1996 para 26,8% em 1997 do total exportado. As ações das empresas, neste momento, prendem-se ao âmbito comercial, através da instalação de escritórios de representação próprios ou delegando a terceiros a representação de vendas. Esta estratégia, por seu turno, ocorre de forma individual entre as empresas cerâmicas, sem se verificar qualquer movimento que aponte a existência de ações integradas entre empresas concorrentes locais voltadas a ter maior inserção neste mercado. Esta falta de integração, estende-se às empresas dos países que compõem o Mercosul. São vários os obstáculos citados que impedem tal procedimento. No âmbito da estrutura empresarial, existe ausência de interesses comuns entre produtores e dificuldade de acesso às informações de negócios, enquanto no contexto da política econômica são citados a desarmonia entre as políticas macroeconômicas e entraves fiscais entre os países, que impedem maior integração entre as empresas localizadas no arranjo e a dos demais países. Corrobora, ainda, com estas observações, o fato dos países que compõem o Mercosul serem inexpressivos em Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 55 produção de cerâmica de revestimento, sendo importante neste momento, para as empresas situadas no cluster manterem apenas relações comerciais com este mercado. TABELA 46 POLÍTICAS DO GOVERNO QUE P ODERIAM AUMENTAR A EFICIÊNCIA E INOVAÇÕES – ORDENADO PELAS EMPRESAS - INDÚSTRIA CERÂMICA DO SUL DE SC – 1998 ORDENAMENTO SEGUNDO A ORDEM DE IMPORTÂNCIA TIPOS DE POLÍTICAS SUGERIDAS Estabelecimento de mais e melhores treinamentos técnico Melhorias em educação bás ica Programas de apoio e consultoria técnica Linhas de crédito Incentivos fiscais Maior estabilidade macroeconômica Fonte: Pesquisa de campo EMPRESAS CERÂMICAS 6º INSUMOS GERAL 2º MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS 3º 3º 5º 1º 4º 2º 3º 4º 1º 5º 2º 6º 1º 4º 5º 2º 6º 1º 3º 5º 4º As políticas públicas recentes em favor da promoção das inovações no arranjo encontram-se em implantação. A primeira, refere-se ao projeto de instalação de uma planta piloto no CTC através de recursos do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico - PADCT. Este projeto, aprovado em novembro de 1997 no valor de R$ 1,1 milhão, pretende desenvolver melhoramento de processos de produção a partir da realização de todas as etapas do processo produtivo cerâmico, em nível laboratorial. Atualmente, o projeto encontra-se em implantação, com as fases de construção da estrutura física e de processos de licitação para compra de equipamentos em andamento. A segunda, refere-se ao Programa Novos Pólos de Exportação - PNPE-, lançado há 1 ano, nos quais o setor cerâmico acha-se contemplado junto com outros 8 segmentos produtivos. Este programa destina-se a elevar a capacidade tecnológica dos setores produtivos com vistas a aumentar a qualidade dos produtos de exportação. Atualmente a ANFACER tem procurado informar as empresas da sua existência e não se tem conhecimento de empresas que estão se beneficiando de seus incentivos fiscais e creditícios. A realização destas políticas insere-se no quadro de políticas sugeridas pelas empresas localizadas no cluster visando aumentar a eficiência produtiva e gerar inovações, conforme a tabela 46. Os tipos de políticas relacionadas com a concessão de linhas de crédito, promoção de incentivos fiscais e melhoramento em educação básica, são citados como fundamentais para que o arranjo possa vir a criar maior capacidade de absorção e geração de inovações. 4.4 Proposta de políticas O cluster consolidou-se num período de intensas transformações da economia brasileira. No decorrer da década de 90, as políticas de estabilização monetária, a política de abertura comercial e a política de integração regional entre os países do Cone Sul, foram elementos que configuraram as dimensões sistêmicas e interagiram com as estratégias da empresas cerâmicas. A dimensão setorial do cluster, ou seja o fato da aglomeração local se dar no âmbito de um setor industrial específico, faz com que as políticas macroeconômicas ou políticas de natureza horizontal provoquem um impacto relativamente homogêneo sobre o cluster. Os impactos das políticas mencionadas não se deram sobre um arranjo acabado. Ao contrário, tais políticas interferiram na configuração do arranjo, pois ocorreram simultaneamente a sua formação. Ainda Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 56 hoje, a natureza horizontal de políticas que objetivam promover as exportações e também as que estimulam a criação de Entidades Tecnológicas Setoriais do Ministério de Ciência e Tecnologia proporcionam opções que continuam a ser utilizadas pelas empresas ou pelas organizações de representação dos empresários como a ANFACER ou o CCB, que participou do edital para a formação da Entidade Tecnológica Setorial. Com o objetivo de propor políticas para o desenvolvimento do arranjo, a preocupação deste trabalho foi orientada para a definição de políticas de alcance limitado ao arranjo, e não abrangem aquelas que possam afetar o setor cerâmico em seu conjunto. O principal objetivo estratégico das políticas é ampliar as relações de cooperação no arranjo de forma a consolidar as condições de capacitação tecnológica e ampliá-las para a capacidade de inovação. Com este objetivo estratégico e considerando-se as deficiências no cluster já apontadas , procura-se apresentar os eixos básicos em torno dos quais se poderiam definir programas específicos: 1.A consolidação do CTC como o principal agente de um núcleo científico-tecnológico no cluster. Os objetivos desta linha de ação devem ser : (1) criar em torno do CTC um núcleo científico e tecnológico , (2) articular as relações entre as instituições científicas e o setor de P&D dos agentes produtivos, e (3) ampliar as relações do núcleo científico e tecnológico com o sistema de qualificação da mão de obra. 2. Estímular no cluster a especialização e complementariedade: Com os objetivos de : (1) estimular os processos de desverticalização, (2) estimular a ampliação de competências específicas, e ( 3) criar espaços econômicos que possam ser ocupados por pequenas e médias empresas. 3. O desenvolvimento de programas específicos para a superação de pontos fracos já identificados: O objetivo desta linha de ação é propor, em articulação com os agentes do cluster, um conjunto de programas voltados para ações que: (1) estimulem as relações cooperativas com o segmento minerador , (2) induzam a adoção de estratégias de venda que possibilitem o desenvolvimento de fluxos de informação tecnológica com os consumidores, e (3) fortaleçam os investimentos em P&D voltados para a ampliação das competências em desing Esta proposta de eixos básicos para a formulação de políticas no cluster é de caracter preliminar , cujo detalhamento implica, entre outros aspectos, na identificação de atores responsáveis por sua formulação e implantação e que pode constituir-se num plano estratégico de capacitação tecnológica para o cluster. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 57 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANFACER (1996). Panorama da Indústria Brasileira. 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