O CONCEITO DE SOCIEDADE NO DOCUMENTO DA PROPOSTA CURRICULAR DE SANTA CATARINA: UMA ANÁLISE IMANENTE Elisandra de Souza Peres – UNESC* Jóyce Nurnberg – UNESC* Vidalcir Ortigara- UNESC*† Este artigo apresenta as análises dos eixos norteadores do conjunto de documentos de Santa Catarina, especificamente no seu conceito de sociedade, utilizando-nos das categorias do modelo Transformacional da Conexão Pessoa/Sociedade, proposto por Roy Bhaskar. Os documentos da Proposta Curricular explicitam em seus eixos norteadores a necessidade de compreensão, pelos educadores da rede estadual de ensino, do conceito de sociedade na perspectiva teórica do materialismo-histórico e dialético. Tal entendimento seria imprescindível para conhecermos a sociedade em que vivemos e, conseqüentemente, postularmos a possibilidade da superação das desigualdades sociais pela transformação social. Nossa análise evidencia que os mesmos não promovem compreensão objetiva aos educadores dos processos e estruturas que engendram a marginalização e as contradições na sociedade. A perspectiva de sociedade apresentada nos Documentos assemelha-se aos modelos de teorias sociais vigentes criticadas por Bhaskar em seu texto “Societies”. Em contraposição a estes, Bhaskar propõe o modelo e Transformacional da Conexão Pessoa/Sociedade. O conceito de sociedade apresenta-se na Proposta Curricular como um amálgama de perspectivas das três concepções: (a) modelo do individualismo metodológico; (b) modelo do voluntarismo; (c) modelo concepção dialética “identificação ilícita”. Lançam como desafio aos educadores compreender e dar respostas ao “dinamismo social”. Na perspectiva do Realismo Crítico, para compreendermos a sociedade é necessário concentrarmo-nos primeiramente na questão ontológica das sociedades. Esse pressuposto constitui o eixo orientador de nosso estudo, base para pensarmos na totalidade de um documento que se propõe norteador de uma prática pedagógica efetiva no sentido da emancipação humana. Palavras-chave: EDUCAÇÃO-SOCIEDADE. PROPOSTA CURRICULAR. SOCIEDADEMODELO TRANSFORMACIONAL. * Participantes do Grupo de Pesquisa Pedagogia e Produção do Conhecimento – Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Extremo Sul Catarinense. † Vice Lider do Grupo de Estudo e Pesquisa em Ontologia Crítica. As causas sociais devem e podem ser enfrentadas na estrutura educacional socialista em um nível adequado: como causas historicamente originadas e determinações estruturais claramente identificáveis, bem como desafiáveis. István Mészáros Entre as preocupações que envolvem os profissionais da área da educação, podemos constatar a emergência em encontrar proposições que dêem conta ou, ao menos, amenize a problemática dos conflitos ensino-aprendizagem, evasão escolar-desinteresse na aprendizagem, desigualdade sócio-econômica, dentre outras questões que permeiam o ambiente escolar. Mesmo cientes que esta interpretação não seja realizada pela totalidade dos profissionais da educaçãoa, é notável a presença de uma multiplicidade de obras com critica aos determinantes sociais que condicionam as propostas curriculares, as políticas e as dimensões teórico-filosóficas das pedagogias na área da educação. Tais obras, de acordo com a concepção teórica que as subsidiam, sustentam suas proposições em torno de conceitoschave como educação, homem, sociedade, entre outros, ora fundamentadas em tendências conservadoras, ora em tendências revolucionárias. Sua preocupação, de forma geral, está em como objetivar o aparato teórico que sustentam estes conceitos na prática pedagógica educacional. É nessa questão que focamos nosso debate, ou seja, a intencionalidade de tais proposições teóricas na operacionalização de uma educação revolucionária e emancipatória. Tais obras, porém, não explicitam ou, até mesmo, não apresentam em seu conteúdo as propriedades fundamentais que caracterizam seus conceitos-chave, mesmo quando indicam que esta explicitação seja necessária para delimitar o horizonte das possibilidades e dos limites de sua efetivação, apropriação e aplicação pelos profissionais da educação. Este aspecto é que nos mobiliza ao estudo sobre a presença nos discursos contemporâneos, especificamente nas proposições pedagógicas, de uma aposta na transformação social por via da educação. Percebemos a explicitação de uma crença no despertar de consciências individuais como meio de promover ações que superem os conflitos presentes na sociedade. Assim, caberia à escola e, por conseguinte, aos educadores a responsabilidade de transformar a sociedade mediante mudanças das consciências individuais dos alunos, pois aquela é fruto dessas ações. A interpretação de compreender que a sociedade consiste simplesmente das pessoas e de suas ações é denominada por Bhaskar (1998, p. 2) de atomismo social, ou por sua manifestação epistemológica que busca fornecer uma estrutura para uma explicação dos fenômenos sociais mediante o individualismo metodológico. Nesse sentido, utilizando-nos das categorias do modelo Transformacional da Conexão Pessoa/Sociedade, proposto por Roy Bhaskar, pretendemos apontar as concepções sobre sociedade presente nos discursos da educação, mais especificamente nos documentos da Proposta Curricular de Santa Catarina (PCSC), possibilitando vislumbrar os limites das proposições da esfera da educação no complexo social. Nosso objetivo em relação à Proposta Curricular é incitado pelo fato de ela estabelecer, há quase vinte anos, as diretrizes curriculares para a educação da rede estadual de ensino3. Interessa-nos refletir sobre como a PCSC se apresenta na relação entre seus pressupostos teórico-filosóficos e a explicitação do conceito de sociedade. A Proposta Curricular de Santa Catarina surge no contexto de redemocratização política no Brasil (final de década de 1980) num movimento de discussão educacional, mesmo de forma reprimida e clandestina, já existente no fim da ditadura militar (1964-1985) em âmbito nacional. Esse momento de discussão coincide, na história da educação brasileira, com os embates teóricos, no contexto de reivindicações entre os educadores, por propostas educacionais alternativas, devido às resistências contra a pedagogia vigente. As denúncias desencadeadas pela crítica aos mecanismos reprodutivistas da educação colocaram em movimento os debates teóricos acerca da formulação de novas proposições teóricas e metodológicas que promovessem a superação da pedagogia tecnicista, tendo em vista uma possibilidade de instituir um novo modelo educativo que promovesse uma nova ordem social. Para tanto, era necessário repensar a educação, refletir sobre seu papel formador do ser humano e a possibilidade de atuação na transformação da sociedade, envolvendo aí o debate em torno da organização da escola e as teorias e métodos que constituiriam os projetos pedagógicos das instituições. Nesse debate ganha espaço as teorias críticas, que compreendem a educação como partícipe da realidade social e, como tal, de ação para a possibilidade de sua transformação, dando destaque para a concepção histórico-cultural da psicologia soviética ou escola de Vigotski4 e a pedagogia Histórico-Crítica5, ambas fundamentadas no materialismo-histórico e dialético. As discussões em torno da Proposta Curricular de Santa Catarina iniciam-se neste contexto de debates sobre a educação. Tal destaque justifica-se uma vez que a Proposta Curricular de Santa Catarina afirma estar sustentada nesta perspectiva teórico-metodológica. Conforme o documento, a 3 Sua duração nos faz crer que seja uma das poucas políticas de estado em educação efetivadas em Santa Catarina. O que comumente se observa em termos de governo são as mudanças das orientações, mesmo nas proposições pedagógicas, quando na mudança de governo, de uma matriz política para a outra. 4 O termo escola de Vigotski é utilizada por Newton Duarte (2001), composta principalmente pelos autores: L. S. Vigotski, A. N. Leontiev, A. R. Luria, P. Ya. Galperin, A. V. Zaporózhets, V. Davidov. 5 A pedagogia Histórico-Crítica situa-se no quadro das tendências críticas da educação brasileira. Essa pedagogia, que se firma a partir de 1979, tem por objetivo “compreender a questão educacional com base no desenvolvimento histórico objetivo” (SAVIANI, 2005, p. 88). corrente do pensamento histórico-cultural na educação brasileira, nessa época, “entrou pelos textos de Antonio Gramsci (1891-1937) e outros autores pertencentes à mesma vertente teórica, dos quais alguns pensadores brasileiros do meio educacional se tornaram divulgadores e intérpretes”. O Documento ainda ressalta que o pensar da educação numa ótica histórico-cultural, no Brasil, nas últimas décadas, está fortemente marcado pela compreensão da ligação da educação com a política e da conseqüente importância da educação das camadas populares como um dos caminhos para a criação de uma nova hegemonia, ligada aos seus interesses. Esse pensamento, num espaço muito curto de tempo, passou da clandestinidade a uma legitimidade institucional (SANTA CATARINA, 1998, p. 12). A formulação do documento iniciou-se pelos estudos do pensamento históricocultural, compreendendo-o como uma ligação entre a educação e a política, constituindo-se um caminho para a educação das classes populares na criação de uma nova hegemonia que contemplasse seus interesses. Entre os anos de 1988 e 1991, o debate para a formulação da Proposta Curricular de Santa Catarina buscou estabelecer seu marco teórico a partir da perspectiva históricocultural. O documento explicita que as contribuições dessa concepção foram possíveis devido ao acesso a cargos governamentais de grupos de educadores que compactuavam com este pensamento. A Proposta Curricular surge como um dos objetivos do Plano de Ação da Secretaria de Estado e Educação (SEE), desenvolvido no período de 1988/1991 com a finalidade de propor as diretrizes básicas e fundamentais para aumentar a permanência e a melhoria da qualidade do ensino do Estado. Entre as quatro linhas mestras do Plano6, conforme indica o texto preliminar, o documento da Proposta Curricular se ateve ao segundo item apresentado. Aponta a reorganização curricular como um dos “grandes desafios” para a educação do Estado de Santa Catarina. O objetivo central do documento era superar os déficit de evasão escolar mediante a melhoria na qualidade de ensino. Tal objetivo justificaria a redefinição do papel da escola e de sua função social. As raízes do fenômeno da evasão escolar estavam associadas à má qualidade do ensino ministrado nas Unidades Escolares (UE) e os fracassos do processo ensinoaprendizagem estavam avaliados como resultados da ausência de um plano de trabalho que 6 1) Superação das dificuldades de acesso à escola para garantir a escolarização básica para todos; 2) Garantir a permanência do aluno na escola através da melhoria qualitativa do ensino, reduzindo a evasão escolar, socializando o conhecimento e instrumentalizando o cidadão para a inserção no trabalho; 3) Descentralizar para assegurar a agilidade e eficiência administrativa; 4) Capacitar recursos humanos e promover a pesquisa e extensão necessárias às atuais exigências do processo de desenvolvimento (SANTA CATARINA, 1990, p. 04). refletisse a realidade de cada UE. Segundo o Documento, tornava-se necessário orientar as escolas à formulação de projetos pedagógicos em consonância com as grandes diretrizes do plano de ação. Mas, para o plano de ação ser efetivo, o documento preliminar ressalta que “ter um plano de trabalho não significa juntar as partes, mas sim, ter claro, primeiramente, a função social da Escola e, a partir deste discernimento, ter objetivado conceitos que devam nortear toda a proposta, enquanto formulação teórica e concretização da prática”. [Grifo nosso] (SANTA CATARINA, 1990, p. 4). Nas conclusões apresentadas no histórico do documento7 de 1991 da Proposta Curricular de Santa Catarina, seus formuladores destacam que a educação catarinense realmente necessita “é de educadores com conhecimento apropriado de uma Escola que possa ter um Plano Político-Pedagógico e, assim, produzir condições para que os alunos se apropriem de um nível de conhecimento, possibilitando-os produzir uma nova ordem de cidadania” (idem, p. 10). Uma vez que a Proposta Curricular de Santa Catarina afirma ser “uma resposta constante aos reclamos da sociedade catarinense: melhoria da qualidade do ensino” (SANTA CATARINA, 1989, p. 01), um instrumento de superação da dicotomia entre interesses majoritários e minoritários pela democratização do ensino e um conjunto de orientações curriculares para contribuir com a escola pública do Estado de Santa Catarina, interessou-nos investigar seu conteúdo à luz de seus pressupostos teórico-filosóficos, enfocando especificamente o conceito de sociedade8. A escolha deste enfoque também se justifica pela ressalva dada pela própria Proposta, quando afirma que na medida em que as Unidades Escolares produzirem um Plano de Trabalho onde estejam claras as concepções de mundo, sociedade, homem e escola enquanto totalidade, o trabalho educacional e o ato educativo que ocorre em sala de aula, terá um novo curso, uma nova trajetória fundamentadas em condições filosóficas e metodológicas que darão substância à concretização das necessidades objetivas do processo educacional (SANTA CATARINA, 1991, p. 10). Nosso trabalho centra-se no conceito de sociedade presente nos fundamentos filosóficos e históricos, indicado pela Proposta como orientador do processo educativo para melhoria da realidade social, uma vez que sua explicitação, conforme aponta o documento, é 7 A Proposta Curricular possui três documentos publicados (1991; 1998; 2005). Na versão de 2005, a Proposta Curricular afirma ser um único documento publicado em três versões. Consideramos que houve uma inversão de termos aqui. Na verdade, a Proposta Curricular constitui uma única versão em três documentos, que em cada um deles busca explorar e aprofundar questões que não estavam presentes nas edições anteriores. 8 O Documento da Proposta Curricular de Santa Catarina apresenta no seu conjunto de obras outros conceitos como indispensáveis, tais como: educação, homem e aprendizagem. Tal estudo já foi realizado por PERES (2008). Devido a abrangência desse artigo, centraremos nossas análises no conceito de sociedade apresentado pelo Documento. necessária para a compreensão pelos educadores, condição de incorporação efetiva nos “Planos de Trabalhos” das Unidades Escolares. Conforme afirma Bhaskar (1998, p. 01), a explicitação do conceito de sociedade manifesta que compreensão possímos de suas propriedades. O Documento da Proposta indica que o conceito de sociedade adotado é o da perspectiva do materialismo-histórico e dialético, o que nos faz questionar se os indicativos presentes no Documento norteador da Proposta Curricular contemplam a possibilidade de apropriação pelos educadores de tal conceito e os desafios e proposições educacionais nele contido. A Proposta Curricular apresenta o conceito de sociedade em articulação com os conceitos de homem e educação, uma vez que entende que esses últimos são responsáveis pela sua transformação. É destacada a ação contraditória dos homens que, em suas funções socais, produzem tanto a excludência quanto a tentativa de sua superação. Sendo o homem, enquanto homem, produto de um processo constante de contradições e transformações sobre as próprias contradições, a educação como inerente da sociedade, a qual o homem é produtor e produto dela, também passa pelo mesmo processo de contradições e transformações. Para a compreensão da totalidade deste dinamismo social, torna-se fundamental buscar a clareza objetiva de como isto se dá. Historicamente, tem-se concretizado a ação de homens que exercem suas funções sociais de forma a tornar excludente parte majoritária das populações. Por outro lado, observa-se também, ações do homem na tentativa de superar esta excludência. É aqui que se coloca o nosso grande desafio; o de nos colocar na caminhada que produzirá a não-excludência ou no segmento que promoverá a conservação deste quadro de marginalização. (SANTA CATARINA, 1991, p. 10) [grifos nossos]. Diante de tal explanação, a PCSC estabelece como proposição educativa, a compreensão de como se efetivam tais processos sociais, visando superar a dicotomia entre a reprodução da marginalização social e a superação da excludência da classe majoritária. Aponta que o homem possue em si todas as condições de superação dessa dicotomia, ou seja, possibilidades efetivas para a transformação social. Tais possibilidades residem na democratização de todos os níveis de educação, melhorando a qualidade do ensino e dos conhecimentos e habilidades a serem apropriados pelos alunos, necessários para a sua participação e atuação no processo de transformação na sociedade. É enfatizado que todo o trabalho pedagógico deverá estar voltado para os segmentos majoritários. Nesse aspecto a Proposta Curricular indica que “perpassará este projeto: que escola queremos? que homem socialmente situado? e que sociedade se quer produzir? Entendemos que, sem estas definições e clareza conceitual, qualquer proposta curricular não surtirá a menor importância nas UE” (Idem). Em relação aos questionamentos e afirmações quanto a estrutura social presente na Proposta Curricular, concordamos com a necessidade da clareza objetiva dos processos, estruturas e determinações que envolvem o dinamismo social apontado pelo Documento. No entanto, é necessário compreender as determinações ou as raízes que produzem tais conflitos, para a sua compreensão por parte dos educadores e a sua possível incorporação nos planos de trabalho e em sua prática pedagógica. Quando falamos da sua natureza ou das suas raízes, questionamos quais processos e estruturas engendram a marginalização, as contradições e a excludência na sociedade. De acordo com Bhaskar (1993, p. 2), os “fenômenos sociais (como a maioria dos fenômenos naturais) são os produtos de uma pluralidade de estruturas”. Nesse sentido, é necessário explicitar o conceito investigado como possibilidade de entendermos os mecanismos e estruturas expressa como fatores que desencadeiam o fenômeno da contradição. Na seção eixos norteadores do Documento de 1998, a Proposta Curricular explicita uma concepção de homem como social e histórico e indica que somente um esforço dialético seria capaz de dar conta de tal complexidade do ser que se faz na história9. Assim, cabe à educação decidir que homem formar e qual modelo de sociedade quer constituir. A partir desses pressupostos, escolhem-se os conteúdos e os métodos de ensino. A superação da excludência social, nessa perspectiva, é obtida pela socialização do conhecimento. O acesso ao conhecimento dominante pelas camadas populares, mediante a socialização da riqueza intelectual, é visto como caminho para a socialização da riqueza material. A aprendizagem se dá na interação do sujeito com o social. “(...) a criança (sujeito) e o conhecimento (objeto), se relacionam através da interação social” (SANTA CATARINA, 1998, p. 15). Pressupõe-se que a apropriação desse conhecimento soluciona as contradições, estabelecendo igualdade entre as classes sociais. Ressalta que em relação à instituição escolar, ao assumir essa matriz teórica e metodológica e defender uma concepção curricular não neutra, a escola assume uma posição político-pedagógica, bem determinada, definindo sua função social, qual seja a de garantir a todos o acesso aos conhecimentos historicamente legitimados como importantes, para que os seres humanos possam conviver em sociedade e usufruir suficientemente das riquezas materiais e espirituais socialmente produzidas. Assim, o desafio maior que se apresenta hoje para a escola é como materializar a ação educativa proposta teoricamente, de modo que cada estudante 9 Para justificar este posicionamento a Proposta Curricular apresenta como “ilustrativo” da concepção de ser humano uma citação de Marx: “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem: não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com as quais se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como pesadelo o cérebro dos vivos” (MARX, apud SANTA CATARINA, 1998, p. 11). possa apropriar-se dos conceitos científicos e significativos que lhe possibilitem lidar bem com sua realidade sócio-histórica e acessar as riquezas materiais e espirituais socialmente produzidas. (SANTA CATARINA, 2005, p. 11). [grifos nossos] Destacamos que apesar da Proposta Curricular explicitar a necessidade de aprofundamento e de compreensão pelos educadores dos seus pressupostos teóricofilosóficos, a mesma apresenta de forma reduzida a abordagem e fundamentação de seu marco teórico nos eixos norteadores do conjunto de seus diferentes documentos. Conforme a PCSC, os educadores devem ter clareza objetiva da totalidade dos conceitos de sociedade, de educação, de homem e de aprendizagem, como condição indispensável para a educação engajar-se no caminho da superação da excludência das classes majoritárias e a transformação social. Aponta essa clareza enquanto possibilidades objetivas em relação às proposições do desenvolvimento da formação humana integral – superação da dicotomia entre os interesses da classe minoritária e majoritária – e a transformação da sociedade. Concordamos com a necessidade de compreensão da totalidade do dinamismo social, mediante a clareza objetiva de como ocorrem tais contradições. No entanto, a explicitação que a Proposta Curricular apresenta em relação às determinações e/ou as raízes desses conflitos limita-se ao processo de apropriação desigual do conhecimento pelas classes sociais. Dessa forma, a educação cumpre seu papel na medida em que permite a interação e a “construção individual dos conhecimentos” e sua apropriação de forma igualitária pelos alunos, em que se valorizam os conhecimentos frutos da realidade e da vivência cotidiana dos mesmos. Quando falamos de determinações e das raízes de tal dinamismo, devemos nos questionar quais processos e estruturas engendram a marginalização, as contradições e a excludência na sociedade. Na Proposta Curricular as perspectivas e fronteiras apresentadas na abordagem dos conceitos sociedade, educação, homem e aprendizagem não permitem estabelecer papéis tão seguros à ação educativa, no sentido das proposições definidas pelo documento. Uma educação que tenha como objetivo caminhar no sentido da não excludência, como inidcado no marco teórico-filosófico do Documento, primeiramente deverá oportunizar condições de compreensão de que a produção do conhecimento é uma particularidade envolvida nos mecanismos e eventos da totalidade social. Isso implica dois aspectos: primeiro, a produção do conhecimento e a sua apropriação pelas novas gerações, embora central no complexo da educação, é um dos seus componentes. Em segundo lugar, a própria educação é um complexo no “complexo de complexos” que é a totalidade social (LUKÁCS, 1981, p. 177). A análise desses conceitos permitir-nos-á apontar seus limites e possibilidades. Seus limites em relação aos objetivos que norteiam o documento, isto é, a busca de efetivação da educação para a melhoria da realidade social e, por conseguinte, expressar as possibilidades objetivas do complexo da educação no atual modelo de sociabilidade. O complexo que constitui a totalidade social, segundo Bhaskar (1998, p. 10), é um “conjunto de estruturas, práticas e convenções que os indivíduos reproduzem ou transformam, mas que não existiria a menos que eles assim o fizessem”. Toda atividade humana pressupõe a preexistência de formas sociais, sendo uma condição necessária e indispensável para o desenvolvimento de qualquer ato humano intencional. Conforme afirma o autor, “a sociedade não é o produto da atividade dos seres humanos (...). A sociedade está para os indivíduos, então, como algo que eles nunca fazem, mas que existe apenas em virtude de sua atividade” (BHASKAR, 1998, 8). Nesta perspectiva, se a sociedade pré-existe aos indivíduos, a práxis humana, ou seja, os atos de objetivação poderão mantê-la (reproduzi-la) ou modificá-la (transformá-la). Bhaskar (1998, p. 3) afirma que geralmente os fatos sociais – e a totalidade – são compreendidos como resultantes das ações individuais, o que identifica como sendo a teoria social do “individualismo metodológico”. Isto é, “a doutrina de que fatos sobre sociedades, e de fenômenos sociais em geral, devem ser explicados exclusivamente em termos de fatos sobre os indivíduos”. O autor destaca que a maioria dos individualistas considera o social como sendo sinônimo de grupo, e que o comportamento social poderia ser explicado como o comportamento de grupos de indivíduos ou de indivíduos em grupo. Nesse aspecto, a PCSC reproduz o individualismo social ao apresentar que o homem é produtor da sociedade e, mais ainda, ao pressupor que por meio da apropriação dos conteúdos tidos como significativos e importantes a cada momento histórico, seria suficiente para os indivíduos terem as condições de transformar a realidade social. Ao mesmo tempo, reforça o social como produto do comportamento de indivíduos em grupo ao apontar que a educação deve estar voltada às massas majoritárias, pois ao terem acesso a uma educação de qualidade estariam garantidas as condições objetivas de democracia, gestão democrática e transformação social. Isso também está presente quando a PCSC afirma que o homem é produtor e produto da sociedade, ou seja, que a sociedade forma os indivíduos e os indivíduos formam a sociedade e, a partir desta “dialética ilícita”, em que é impossível identificar a existência das estruturas que preexistem e governam as mudanças sociais, lançam como desafio aos educadores compreender e dar respostas ao “dinamismo social”. Nesse sentido, o problema da concepção do individualismo metodológico reside em dar uma explicação não-social ao comportamento individual. Para Bhaskar, todos os predicados “que designam propriedades especiais das pessoas pressupõem um contexto social para seu emprego. Um homem da tribo implica uma tribo, sacar um cheque um sistema bancário”. Desta maneira, a má qualidade da educação, a marginalização social, etc., sempre envolvem predicados irredutivelmente sociais. No intuito de estabelecer um modelo de conexão sociedade/pessoa que supere os limites apresentados pelas teorias sociais estabelecidas pelo individualismo, voluntarismo e a dialética ilícita, Bhaskar formula o modelo Transformacional da Conexão Pessoa/Sociedade. Segundo o autor, existe um hiato ontológico entre sociedade e pessoas, assim como a conexão de transformação entre eles é ignorada pelos outros modelos. O modelo transformacional da conexão pessoa/sociedade formulado por Bhaskar (1998, p. 10), pode ser assim sintetizado: “as pessoas não criam a sociedade. Pois a sociedade sempre preexiste às pessoas e é uma condição necessária para a sua atividade”. A sociedade, caracterizada como um conjunto de estruturas, práticas e convenções, reproduzidas ou transformadas pelos indivíduos, portanto, é que fornece as condições indispensáveis para a ação humana intencional. Para apresentarmos a especificidade da práxis humana e da sociedade, podemos identificá-las pelo seu caráter dual, da seguinte forma: (a) “a sociedade é tanto a condição (causa material) sempre presente como o resultado continuamente reproduzido da ação humana” – dualidade da estrutura –; (b) “a práxis é tanto trabalho, produção consciente, como reprodução (normalmente inconsciente) das condições de produção, ou seja, a sociedade” – dualidade da práxis (BHASKAR, 1998, p. 9). Mediante a dualidade da estrutura e da práxis, podemos esclarecer outro ponto indicado por Bhaskar em relação à distinção entre, de um lado, a gênese das ações humanas, que residem nas razões, planos e intenções das pessoas e, por outro lado, as estruturas que governam a reprodução e a transformação das atividades sociais. Podemos exemplificar essa questão ao analisar a atividade pedagógica dos educadores. Os motivos que levam os educadores de uma escola particular a executarem suas atividades pedagógicas não reside na reprodução da propriedade privada e sua determinações alienadoras, mas suprir suas necessidades vitais, ou seja, produção dos meios de sobrevivência. Dessa forma, a práxis social acaba por reproduzir as formas de produção da sociedade capitalista mesmo que as pessoas não estejam conscientes disso. Por isso, a práxis, reproduz e até transforma as estruturas sociais, mesmo que não esteja consciente desta ação. Este fato só pode ser compreendido na dualidade da práxis e da estrutura. No entanto, não estamos cerceando a possibilidade de que ocorra transformação na atual forma de sociabilidade, no sentido de sua superação. O objetivo desta reflexão foca as possibilidades de compreendermos como se estrutura a sociedade em que vivemos e como se realiza a sua conexão com os indivíduos na sua atividade de produção. Então, cabe questionar como se realiza a conexão pessoa/sociedade no modelo transformacional formulado por Bhaskar. Acreditamos que com essa compreensão poderemos responder a questão levantada pela Proposta Curricular, qual seja, da clareza objetiva de como se dá o dinamismo social (o homem ser produtor e produto da sociedade, juntamente das condições de reprodução, transformação das contradições sociais). No entanto, se a sociedade preexiste aos indivíduos, se as estruturas sociais são continuamente reproduzidas e (e ocasionalmente transformadas) e, se estas existem somente em virtude da atividade humana, onde reside o ponto de contato desta conexão pessoa e estruturas sociais? Para responder tal questionamento, o autor apresenta a seguinte reflexão: para vincular a ação à estrutura é necessário um sistema de mediação posição-prática, que somente podem ocorrer relacionalmente. Ou seja, “posições são (lugares, funções, regras, tarefas, deveres, direitos, etc.) ocupadas (preenchidas, assumidas, exercidas, etc.) pelos indivíduos e de práticas (atividades, etc.) nas quais, em virtude de sua ocupação destas posições (e viceversa), os indivíduos se engajam” (BHASKAR, 1998, p 14). O autor ainda enfatiza que tais relações “incluem relacionamentos entre pessoas e natureza e produtos sociais (tais como máquinas e firmas), assim como relações interpessoais. E que tais relações incluem, mas nem todas consistem em, ‘interações’”. Conforme Bhaskar (1998, p. 12) os seres humanos em sua atividade social devem realizar uma dupla função: devem não somente produzir produtos sociais, mas produzir as condições de sua produção, ou seja, reproduzir (ou, em maior ou menor medida, transformar) as estruturas que governam suas atividades substantivas de produção. Como as próprias estruturas sociais são produtos sociais, elas próprias também são possíveis objetos de transformação e, por isso, podem ser apenas relativamente duradouras. (...) Portanto, a sociedade pode ser concebida como um conjunto articulado de tais estruturas generativas relativamente independentes e duradouras; isto é, como uma totalidade complexa sujeita à mudança tanto em seus componentes quanto em suas interrelações. No entanto, como existem apenas em virtude das atividades que governam, as estruturas sociais não existem independentemente das concepções que os agentes possuem do que fazem em sua atividade, ou seja, de alguma teoria destas atividades. Como as próprias teorias são produtos sociais, elas mesmas são possíveis objetos de transformação e, dessa maneira, também podem ser relativamente duradouras (e autônomas). Considerando que as estruturas sociais são produtos sociais e, como tal, são relativamente independentes e duradouras, pois são reproduzidas e/ou transformadas pelas atividades que as governam, tornam-se possíveis objetos de transformação. Tais mudanças não necessitam ser conscientemente pretendidas, mas como a sociedade só existe em função das atividades humanas, as mudanças na consciência podem ser socialmente explicadas10, como explicitado por Leontiev (1978). No modelo Transformacional de conexão pessoa/sociedade, a sociedade não pode mais ser concebida como um constructo coercitivo que torna os sujeitos refém de suas determinações, expressas pelo modelo da reificação ou, por outro lado, a sociedade como um produto das decisões humanas, como no voluntarismo. Tampouco numa relação entre os dois pólos, como na dialética ilícita. “A sociedade, portanto, fornece as condições necessárias para a ação humana intencional e a ação humana intencional é uma condição necessária para a sociedade. A sociedade está presente apenas na ação humana, mas a ação humana sempre expressa e utiliza uma ou outra forma social”. (BHASKAR, 1998, p. 10). Assim, se os fenômenos sociais são resultantes de uma pluralidade de estruturas e estas preexistem às pessoas, mas são reproduzidas e/ou transformadas nas atividades humanas da vida cotidiana, é necessário um aprofundamento teórico que forneça um conjunto de perspectivas sobre como ocorrem tais conexões na sociedade, sua natureza e dinâmica, que permita um esclarecimento necessário para orientar atitudes mais conscientes e efetivas frentes aos desafios propostos. Cabe destacar que, de acordo com o modelo Transformacional, o mundo social, sendo ele próprio um produto social, possui as possibilidades da, e está sujeito a, transformação. Essa explanação é coerente também à educação e à aprendizagem, tendo em vista que não se pode mostrar que existe e não podem ser identificados independentemente dos seus efeitos. Esses são um complexo, uma totalidade que, no decorrer do processo histórico, estão em contínuo processo de transformação na prática social. Tendo em vista o desafio lançado pelo Documento da Proposta, isto é, que para caminhar no sentido da não excludência, os educadores deverão ter a clareza objetiva dos conceitos sociedade, educação, homem e aprendizagem, evidenciamos que uma educação cujo objetivo aponta caminhar no sentido da não excludência, numa perspectiva ontológica, deverá oportunizar condições de compreensão da gênese e dos mecanismos desses processos. 10 Para uma melhor explicitação do processo da explicação social das mudanças na consciência, ver obras Leontiev: Actividad, conciencia e personalidad, 1978a e O Desenvolvimento do Psiquismo, 1978b. A clareza objetiva desse dinamismo social requer este estudo teórico-ontológico como gênese dos conceitos de sociedade, de homem, de educação e de aprendizagem. Partindo desse estudo, podemos submetê-los a uma análise de como se manifestam suas formas históricoconcretas para perceber como foram estruturados e refletir sobre suas determinações no atual momento histórico. A definição desses conceitos consiste na sua articulação entre o universal e o particular, ou seja, o significado genérico que assumem e sua respectiva ação concreta. Em relação ao universal, de caráter abstrato os conceitos constituem concepções que, fundamentadas filosoficamente, orientam a ação educativa. Por outro lado, no contexto particular, devido às manifestações da realidade social estarem organizadas sob a lógica da sociedade capitalista (universal), tais concepções podem não expressar, teórica e praticamente, seu caráter concreto (particular). A expressão particular dessas concepções em determinado momento histórico não traduz a totalidade de seu significado, pois consiste na representação de seu fenômeno. Dessa forma, elaborar as definições desses conceitos e ter clareza da sua totalidade exige tanto o seu conhecimento genérico, quanto sua expressão concreta. Abordar e discutir o conceito de sociedade partindo unicamente do exposto no conteúdo da Proposta Curricular, restringe a compreensão desse a uma abordagem abstrata, porque não estão em referência ao real, isto é, não é estabelecida a articulação entre o universal e o particular. A forma como ele é apresentados na Proposta descola-se tanto das determinações da estrutura social, portanto, das questões universais, assim como não se articulam com as condições histórico-concretas de sua efetivação – as ações dos educadores – no caso mais especifico na realidade objetiva das escolas catarinenses. A possibilidade dos educadores terem clareza objetiva da totalidade desse conceito, no intuito da efetivação da Proposta Curricular, ocorre se considerá-lo tanto na sua forma genérica de universalidade quanto em expressões de momentos complexos e contraditórios da socialização11. Tonet (2005, p. 51), ao realizar a discussão da relação entre a totalidade e a particularidade na perspectiva de uma teoria revolucionária à educação – materialismohistórico e dialético –, apresenta a necessidade de se retomar a natureza dos fundamentos postos por Marx. Afirma que, para Marx “a compreensão de qualquer momento da realidade social tem como pressuposto a sua articulação com a totalidade, cujo eixo dinâmico é a autoconstrução humana”. Dessa forma, o conhecimento da origem, da natureza e das 11 Bhaskar (1998, p. 10) entende a socialização como “os processos pelos quais são adquiridos e mantidos os estoques de habilidades, competências e hábitos apropriados a determinados contextos sociais, e necessários para a reprodução e/ou transformação da sociedade”. determinações do processo de formação do homem e, concomitantemente, das formas atuais de sociabilidade é possível pela autoconstrução humana – o processo onto-metodológico. Não devemos esquecer que ela ocorre num percurso que articula dois momentos: o histórico e o teórico-ontológico. É com base nesse pressuposto que julgamos necessário ir às raízes orientados pelo fio condutor ontológico da autoconstrução humana para conhecermos a totalidade, a essência nas manifestações fenomênicas do conceito sociedade suas determinações em cada momento histórico. Deixamos claro que seria insuficiente deduzir da essência do conceito de sociedade o seu papel no atual período histórico ou sua determinação na atual forma de sociabilidade. Produzir um conhecimento revolucionário, que evidencia seu objeto na integralidade, conduz tanto a uma discussão filosófica – compreendendo a natureza essencial dos conceitos – quanto a uma discussão histórica – realizando uma análise concreta da abrangência de cada conceito nos diferentes momentos históricos. Partindo desse fundamento, tal dinâmica permitirá compreender a processualidade, os desdobramentos e as implicações dos conceitos, tanto nos atos singulares quanto na totalidade social. Dado os limites desse artigo, aqui abordamos apenas algumas questões relativas ao aspecto filosófico. A análise do aspecto histórico ainda precisa ser realizada. Conforme aponta Bhaskar (1998), o limite das ciências sociais ao não ocnsiderarem a natureza ontológica da sociedade acaba por comprometer o debate e as pesquisa na área, pois a incompreensão da natureza de tais objetos de pesquisa, entre eles a educação, cerceia as possibilidades de compreensão dos elementos generativos que produzem seus fenômenos. Estes, por serem perceptíveis na imediaticidade, são interpretados como determinantes dos processos sociais, obstacularizando a formulação de proposições mais efetivas aos prementes problemas em que a área da educação é chamada a participar. Os resultados mais acentuados são as inúmeras produções nesta área que explicitam concepções de sociedade idealistas, orientando um dever-ser ideal utópico (MÉSZÁROS, 2007). Assim, a possibilidade de transformar a sociedade requer a compreensão efetiva de seus mecanismos generativos, estruturas e condicionantes sociais. Meszáros (2007, p. 297) ressalta que não se pode vencer uma força social poderosa por meio de ações fragmentadas de indivíduos isolados, e jamais se pode formular o preceito da educação socialista nos termos de alguns ideais utópicos estabelecidos diante dos indivíduos aos quais eles devem supostamente se conformar, em uma esperança bastante ingênua de contrariar e superar os problemas de sua vida social – como indivíduos mais ou menos isolados, porém, “moralmente conscientes” – por meio da força de um tem de ser moral abstrato ilusoriamente estipulado. A abordagem que a Proposta Curricular realiza em relação ao conceito de sociedade não vai além de um significado abstrato, uma vez que as ações humanas são consideradas como independentes das determinações advindas do modelo político-econômico da atual forma de sociabilidade, não sofrem influências do movimento desta totalidade, e atuam independente desta. Tal indicativo justifica-se pelo fato do conteúdo norteador do Documento não explicitar: (a) as implicações do atual modelo de sociabilidade na direção, no sentido e nas intenções, condições concretas das atividades humanas; (b) a problematização das estruturas sociais que promovem a excludência e a marginalização social e, (c) a necessidade de supressão do modelo de sociabilidade do capital como condição para que a classe majoritária desenvolva e acesse a formação integral, a igualdade social e a emancipação humana (PERES, 2008, p. 81-84). Tais indicativos nos conduzem a compreensão de que os limites presentes na concepção de sociedade no Documento da Proposta Curricular não possibilitam um avanço por parte dos educadores no sentido da superação da excludencia e da marginalização social, tão pouco o conhecimento de sua estrutura. Isso se constitui em um limite no sentido de produzir uma educação para a emancipação humana e uma abertura para uma educação revolucionária. 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