Entrevista: Lindalva Nascimento Peixoto, catequista Makuxi. Maloca do Pium – RO, Fevereiro 1999 Ref.: 2-99-Lindalva VENEZUELA GUIANA Entrevista a Lindalva Nascimento Peixoto, Makuxi. “Ser mulher indígena é ser livre!” BRASIL Ir. Arizete Miranda Dinelly CSA e Pe. Fernando López SJ (*) “... já falei para meus filhos: se eu morrer, morro em paz porque estou lutando por uma causa justa. Para que vocês e seus filhos possam viver tranqüilos na nossa terra, na terra que foi, desde sempre, de nossos antepassados”. (Palavras de Lindalva na XXVIII Assembléia do CIR - Conselho Indígena de Roraima) Dados pessoais Lindalva Nascimento Peixoto (43 anos), filha de Ricardo e Laura, pertence ao povo indígena Makuxi. Mãe de 9 filhos, catequista e coordenadora do Movimento de Mulheres Indígenas do Estado de Roraima. Mora na comunidade Renascer da região do Surumú - Roraima. Está sendo, como outras lideranças da região, pressionada e até ameaçada de morte! Como é seu trabalho na comunidade e na organização do Movimento das Mulheres Indígenas? Trabalho em minha comunidade como catequista e também coordenando um grupo de mulheres indígenas da região do Surumú. Neste ano ‘99 estou assumindo a Secretaria Geral do Movimento das Mulheres Indígenas de Roraima. Nesses trabalhos comunitários fazemos reuniões com as mulheres para dialogar sobre os nossos problemas e as suas soluções. Queremos dizer aos homens e a toda a sociedade, que temos direitos iguais e que merecemos respeito. Que não podemos seguir sendo espancadas, discriminadas, pressionadas, usadas, humilhadas e inclusive mortas, muitas vezes até pelos nossos próprios maridos! O trabalho do Movimento de Mulheres aponta à conscientização, não só das mulheres indígenas, mas também dos homens e da comunidade toda. Na 1a Assembléia do Movimento de Mulheres Indígenas de Roraima (1996), assumimos outros compromissos muito importantes sobre os quais continuamos trabalhando: • Combater a bebida alcóolica, que faz estragos nas nossas famílias e comunidades e organizações; • Auto-sustentação, para melhorar nossa qualidade de vida; • Combater a interferência política partidária nas nossas comunidades e organizações, que acabam nos dividindo e enfraquecendo-nos como comunidades e organização indígena; • Ampliar os programas de capacitação em corte e costura, em artesanato indígena, etc.; • Preservar cantos, línguas, danças, tradições, ritos e mitos, etc., enfim, todos os ricos valores das nossas próprias culturas indígenas. Tudo isso estamos tentando levar para frente, todos juntos, trabalhando na base com as lideranças, com as famílias e comunidades, com nossas organizações indígenas. O que você sente com a demarcação da terra Raposa-Serra do Sol? Estou muito feliz! Trabalhamos e lutamos há muitos anos para conquistar a terra. Muitos sacrifícios e sofrimentos levou esta reconquista da nossa terra. E falo de reconquista, sim, porque esta terra desde sempre foi nossa! Ainda hoje continua a luta e o sofrimento..., que assumimos com coragem e força por ser uma lutasofrimento que gera libertação e vida, para nós, para nossos filhos/as e para os filhos/as de nossos filhos/as... Quais são agora os desafios em relação à terra? A preocupação e pergunta atual é: o que fazer dentro de nossa terra reconquistada e como vamos fazer? Vamos plantar roças, roças de que tipo? Vamos criar animais, animais de que espécie? etc. Queremos aproveitar ao máximo esta nossa terra. Para isto, temos que nos organizar nas bases, para buscarmos juntos novos caminhos de sustentação que permitam uma vida saudável e digna para nossos filhos/as, para o futuro. O que significa para você ser mulher indígena e ser cristã? Para mim é uma honra muito grande ser mulher indígena! Ser Makuxi! Ser mulher indígena é ser livre! Sendo livre eu sei para onde vou. Ser cristã significa mudança e conversão na vida material e espiritual. Isto é, viver de acordo com a vontade de Deus, que quer sempre o melhor para todos nós como povos indígenas. Que diria para os/as missionários/as que caminham com os povos indígenas? A primeira coisa é que não desanimem! Que continuem ao nosso lado, dando apoio a nossa caminhada, fortalecendo a parceria e assim vencer todas as barreiras e dificuldades que apareçam no caminho... Embora saibamos muito bem dos riscos e perigos dessa caminhada para a libertação. Se hoje estamos caminhando e nos organizando é porque os missionários/as também nos ajudaram a nos levantar e ir para frente... Nós, povos indígenas, agradecemos muito aos missionários/as essa solidariedade. Você acha importante que os/as missionários/as aprendam a língua? É muito importante que entendam alguma coisa de nossas línguas e culturas, porque assim é mais fácil compreender e conviver com os povos indígenas. Sei que é difícil se adaptar à nossa realidade e aprender as nossas línguas, mas com esforço tudo é possível... Tenham coragem e não desanimem! Assim, formaremos todos uma grande família. Hoje já tem padres, religiosos/as indígenas, o que pensa a respeito disso? Que diria a eles? Graças a Deus já temos alguns Padres e Irmãs indígenas. Precisamos conscientizar nossos jovens para esses caminhos... O conselho que daria aos padres e religiosos/as indígenas é que quando fizerem essa opção seja por vocação e não por outras intenções. Que tenham compromisso com o povo, com seu povo indígena e levem a sério os seus trabalhos. Que sejam firmes e fiéis na opção; que não seja um missionário/a “descartável”, isto é, que não rompam seu compromisso facilmente! Que mensagem daria para seus parentes indígenas do Brasil e da América Latina? Que se organizem e se unam para vencer todas as dificultadas que enfrentamos como povos indígenas. Organizando-nos nas famílias, nas comunidades, nas regiões, a nível local, nacional e também internacional, vamos para frente. Com uma forte união e articulação entre todos os povos indígenas, poderemos conquistar juntos um futuro melhor... (*) Membros da Equipe Missionária Itinerante. Rua Castelo Branco 101 - B. Vitória Régia 69033-230 Manaus - AM. Fone-fax: (092)625-3721. E-mail: [email protected]