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A Vivência Masculina de Aposentadoria
no Contexto Militar
V Mostra de
Pesquisa da PósGraduação
Paula Kegler1, Rafael Lisboa dos Santos2, Renata Freitas Ribas3,
Mônica Medeiros Kother Macedo4 (orientadora)
1
2
Mestranda em Psicologia Clínica, Bolsista CAPES, FAPSI-PUCRS, Auxiliar de pesquisa, FAPSI-PUCRS,
3
4
Bolsista BPA, FAPSI-PUCRS, Professora Dra.Orientadora, FAPSI-PUCRS
Resumo
Introdução
O processo de subjetivação humana configura-se como produto de articulações das
relações culturais com a história individual. As relações do homem com o trabalho podem ser
consideradas um modelo ilustrativo das interações recíprocas entre demandas internas e
externas. Compreendido como a forma mais clássica de engate do sujeito no circuito social, o
trabalho se situa no enlace da realidade psíquica com o contexto social, político e cultural.
A vida laboral constitui uma instância central na vida do homem, pois lhe permite
encontrar satisfações concretas e simbólicas dando-lhe possibilidades de reconhecimento
social. Assim, a aposentadoria pode ser compreendida como uma experiência de
encerramento dos investimentos psíquicos no que diz respeito ao papel profissional formal,
cujas repercussões não se restringem ao encerramento de uma atividade. Nos tempos atuais,
observa-se o destaque cultural e social dado a valores associados à juventude, produtividade e
sensações de completude e êxito. Assim sendo, o homem aposentado parece situar-se, muitas
vezes, na contramão de um projeto social que atribui uma identidade de valor ao sujeito
mediante a vigência da experiência como trabalhador.
A experiência de aposentar-se do serviço militar, segundo Barisch (2006), é um
processo diferenciado, uma vez que esta carreira contempla uma série de significados
peculiares. A profissão militar exige do sujeito um comprometimento total com a instituição
que condiciona sua vida pessoal e profissional. O autor afirma que, por este motivo, o
afastamento do serviço ativo e a conseqüente passagem para a nova vida na inatividade
podem ser fontes de conflitos.
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No ano de 2008, o Ministério da Saúde alertou para a necessidade de estender o olhar
às subjetividades masculinas ao lançar a sua Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do
Homem. Desta forma, percebe-se que a temática do trabalho e a decorrente vivência de
aposentadoria surgem como fatores a serem analisados quando o tema remete a aspectos
envolvidos na saúde masculina. Este estudo propõe uma compreensão da vivência da
aposentadoria masculina no contexto militar a partir de construtos psicanalíticos, pois como
demonstram Dockhorn e Macedo (2008), a Psicanálise segue atual ao oferecer o seu universo
teórico como uma ferramenta de compreensão da complexidade dos fenômenos humanos.
Metodologia
A coleta dos dados foi realizada em uma organização militar da Força Aérea
Brasileira. Inicialmente foram coletados dados sóciodemograficos dos militares aposentados
por tempo de serviço no ano de 2008 em um setor específico da instituição responsável pelo
arquivo e controle dos dados referentes ao pessoal que compõe a parcela de inativos e
reservistas. Por meio da consulta de documentos disponíveis no local, foi possível fazer o
levantamento de dados, posteriormente submetidos à análise estatística, referentes a 71
sujeitos. Considerando essa população, constituiu-se uma amostra por conveniência, sendo
realizadas 12 entrevistas semi-estruturadas a partir de eixos temáticos preestabelecidos, mas
com questões abertas, que foram gravadas em áudio. O processo de realização das entrevistas
foi realizado após a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e
encerrado no momento em que o conteúdo das informações tornou-se repetitivo, sendo
improvável a construção de novas compreensões a respeito do fenômeno, de acordo com o
critério de exaustão/saturação proposto por Bodgan e Biklen (1994).
Resultados e Discussão
A amostra compreendeu 71 sujeitos pertencentes à Guarnição de Porto Alegre,
integrante do V COMAR (V Comando Aéreo Regional) da Força Aérea Brasileira. Os
seguintes índices retratam a caracterização da amostra: o grupo foi composto por 22,5% de
oficiais que ocupam cargos de chefia e liderança, e 77,5% de graduados que ficam
encarregados de executar as determinações dos oficiais. A idade média total foi de 49,45 anos,
e o tempo de serviço médio efetuado foi de 31,75 anos, sendo que no grupo dos oficiais, esse
período se eleva à média de 33,94 anos e a idade média à 51,5 anos. A parcela da amostra que
optou por retornar ao exercício de suas funções após a aposentadoria, processo denominado
como Tarefa por Tempo Certo, foi de 5,63%, sendo que desse total, 75% são oficiais e 25%
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são graduados. Em relação ao estado civil, constam as seguintes informações: 78,26%
mantém casamento ou união estável; 17,39% são divorciados e 4,35% são solteiros.
Constata-se ser a porcentagem de graduados que entraram para a reserva no período
abrangido pela coleta expressivamente maior que o número de oficiais. A idade média de
ingresso na reserva pode ser considerada baixa para os padrões brasileiros. Destaca-se que a
amostra aponta uma média maior que o tempo mínimo de serviço que é de 30 anos. Observase também que a maioria da amostra constituiu família, mantendo-se em condição de casado
ou em união estável, sendo baixo o número de solteiros. Verifica-se que, do número de
sujeitos que voltou às suas tarefas por tempo determinado, a incidência é maior por parte dos
oficiais. Além disso, a média do tempo de serviço e a média de idade para aposentadoria foi
também maior para os oficiais. Cabe ressaltar que isso se deve ao fato de que o oficial ocupa
uma posição de chefia sendo, portanto, melhor remunerado, tendo mais instrução e
responsabilidades. Além disso, são sujeitos mais respeitados e reconhecidos na cadeia
hierárquica militar, exercendo funções de comando, o que torna o seu trabalho mais atrativo.
Situação atual do estudo
Este estudo vincula-se ao Grupo de Pesquisa Fundamentos e Intervenções em
Psicanálise do Programa de Pós-Graduação da FAPSI/PUCRS, coordenado pela Profa. Dra.
Mônica Medeiros Kother Macedo. Neste momento, a pesquisa em questão encontra-se na fase
de transcrição das entrevistas e análise qualitativa dos dados. O texto das transcrições das
entrevistas será analisado por meio da Análise de Conteúdo de Bardin (1991), que propõe
cinco etapas: preparação das informações, unitarização, categorização, descrição e
interpretação. Na última fase da análise, o material será discutido por meio das contribuições
teóricas da Psicanálise.
Referências
BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70. 1991.
BARISCH, E. J. A. (2006). Preparação para a reserva: necessidade estratégica para a Aeronáutica.
Dissertação não publicada. Rio de Janeiro: Universidade da Força Aérea, Mestrado em Ciências Aeroespaciais;
2006.
BODGAN, R. & BIKLEN, S. Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos
métodos. Porto: Porto Editora. 1994.
DOCKHORN, C.N.B.F. & MACEDO, M.M.K. A complexidade dos tempos atuais: reflexões psicanalíticas.
Revista Psicologia Argumento. Vol. 26, Nº 54 (2008), pp. 217-224.
MINISTÉRIO DA SAÚDE (2008). Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem. Brasília, DF.
Disponível em: http://dtr2001.saude.gov.br/sas/portarias/port2008/pt-09-cons.pdf. Acesso em: 23 abr. 2009.
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