Pescadores e Pescadoras Artesanais do Cânion do São Francisco Nova cartografia social dos povos e comunidades tradicionais do Brasil SÉRIE PESCADORES E PESCADORAS ARTESANAIS DO RIO SÃO FRANCISCO 3 Pescadores e pescadoras artesanais do Cânion do São Francisco Alagoas Bahia Sergipe Participantes da Oficina de Mapas Afonso Oliveira (Povoado Lagoinha), Apolônio Sales de Souza Silva (Povoado Talhado), Cícero Cordeiro dos Santos (Delmiro Golveia), Cícero Tribucio da Silva (Riacho do Talhado – Olho Dágua do Casado), Evaristo Cordeiro da Silva (Povoado Salgado), Fabio Borges Carcino (São José), Geraldo Moreira (Povoado Salgado), Hélio Pereira dos Santos (Olho D’Água do Casado), João Monteiro da Silva (Paulo Afonso), João Valério Fidelo (Povoado São Sebastião), Joel de Oliveira (Olho D’Águinha), Jorge Luiz Barbosa de Souza (Delmiro Golveia – Alagoinha), José Carlos dos Santos (Piranhas), José Filho Bié (Paulo Afonso), José Joaquim Oliveira (Povoado Lagoinha), Laércio Silva Lima (Povoado Cruz – Xingó / Piranhas), Manoel Messias Gomes (Povoado Salgado), Manoel Souza dos Santos (Olho D’Água do Casado), Maria Cineide (Riacho do Talhado – Olho D’Água do Casado), Maria Clementino da Silva (Delmiro Golveia – Povoado Salgado), Maria do Socorro da Silva (Paulo Afonso), Miguel Bernardo Gomes (Povoado Salgado), Moacir Alves dos Santos (Povoado Olho D’Águinha), Orlando Lima dos Santos (Povoado Cruz Sebastião Marcos), Delmiro Golveia (Povoado Lagoinha) Pescadores do Cânion em conversas com a equipe do Globo Ecologia – 4 a 9 setembro 2008 Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil Pescadores e pescadoras artesanais do Cânion do Rio São Francisco SÉRIE Pescadores e Pescadoras Artesanais do Rio São Francisco Coordenação do PNCSPCT-B Alfredo Wagner Berno de Almeida (NCSA-CESTU/UEA, PPGAS/UFAM,CNPq) Rosa Elizabeth Acevedo Marin (UNAMAZ) Contatos Equipe de pesquisa Alzení Tomáz (CPP) Juracy Marques (NECTAS/UNEB) Ticiano Oliveira (NECTAS) CPP – Conselho Pastoral dos Pescadores Avenida Beira Rio 913 Jardim Bahia 48604-000 Paulo Afonso BA telefone/fax 75. 3281 0848 [email protected] Elaboração do mapa Álvaro Ribas (NECTAS) Ticiano Rodrigues (NECTAS) Luís Augusto Pereira Lima (NCSA/UEA) Fotografias Alzení Tomáz João Zinclar Juracy Marques Ticiano Rodrigues Projeto gráfico e editoração Ernandes Fernandes Design Casa 8 Colônia dos Pescadores – Z-26 57480-971 Delmiro Gouveia AL telefone 82. 3641 2213 NECTAS/UNEB Rua do Gangorra 503 Chesf Universidade Estadual da Bahia 48600-000 Paulo Afonso BA telefone/fax 75. 3281 7364 N935 Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil: pescadores e pescadoras artesanais do Cânion do Rio São Francisco / coordenadores, Alfredo Wagner Berno de Almeida, Rosa Elizabeth Acevedo Marin, autores, Tomaz, Alzenir. Ticiano R. A. Oliveira, Juracy Marques. – Delmiro Gouveia, Alagoas : Casa 8 Desing / UEA Edições, 2009 12 p.; il.: 25 cm. (Série Pescadores e Pescadoras Artesanais do Rio São Francisco ; 3 ) ISBN 978-85-7401-451-7 1. Comunidade de Pescadores e Pescadoras – Brejo Grande, I. Almeida, Alfredo Wagner Berno de. II. Tomaz, Alzení. III. Série. CDU 301.185.2(814.22) Catalogação na fonte elaborada pela bibliotecária Rosenira Izabel de Oliveira CRB 11/529 2 Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil Identidade Somos pescadores artesanais do Cânion São Francisco. Aqui é a região do Baixo. Todo mundo sabe que a gente pesca o peixe onde ele está. O peixe num fica parado, esperando que seja pescado, a gente vai buscar ele onde estiver. Governo não sabe e não conhece pescador. Laércio Pescamos na PA IV e no Cânion e também abaixo Pescaria no Cânion de Xingó. Não adianta achar que existe um ponto de pesca. Os pontos é aonde a gente faz a cabana e guarda os apetrechos. O lugar onde pescamos é toda a região do Cânion. A gente vai buscar o peixe onde ele estiver. João Monteiro O pescador não está podendo só viver da pesca, ele tem que buscar outros meios, a gente precisa da terra pra trabalhar. Nossa pescaria é de manhã e de tarde. A gente coloca a rede e pela tarde vai buscar. A maioria do povo vive das águas desse rio. Nossa pescaria é de manhã e de tarde. A gente coloca a rede e de tarde e pela madrugada vai buscar. A maioria do povo vive das águas desse rio. Laércio A pesca no Cânion do Baixo São Francisco O Cânion do São Francisco é um lugar de águas profundas, de paredes longas e altas. Aqui agora só se pesca tilápia, tucunaré. Nas paredes do Cânion corremos o rico de rolar uma pedra e esmagar a gente. Viver no Cânion é um perigo. Afonso Oliveira Os mais velhos chamavam de “sumidouro”, porque o rio seguia e sumia nas vistas. É tudo talhado de pedra que serve de guia pras águas. Mas, aqui nós somos pescadores do Baixo São Francisco. A gente antes vivia nas maloca de pedra, muita gente morava nas caverna de pedra. Era quando o Rio era Baixo, tinha tanto peixe e nós vivia feliz. Hoje num tem não, só tem umas malocas de pedra, mesmo. Aí nós faz uma maloquinha de palha ou madeira, as vezes de pedra é aí que guarda os apetrechos. Nosso lugar pode virar Monumento pra turista ver e como vai ficar nós que vivemos da pescaria? A gente num vai mais poder pegar peixe aí. Esse povo do governo vem pra enrolar a gente, disseram uma vez que o pescador não Pescador es do Cânion ia sofrer em nada, mas, agora sabemos que se virar monumento não vamos ter o direito de pescar o peixe. E aí eles vão fazer o que com os pescadores? Vão pagar uma indenização? Se esse negócio for feito só vai beneficiar o turista. Orlando Lima Impediram a gente de pescar lá porque é lugar do Exercito fazer treinamento, impedem a gente de pescar por causa dos criatórios de tilápia. Impediram a gente de viver da pesca por causa Pescadores e pescadoras artesanais do Cânion do Rio São Francisco 3 das barragens porque desapareceu o peixe, não respeitam pescador porque tem gente que faz a pesca predatória e a gente paga por esses. Temos dificuldades de chegar no Rio porque os fazendeiros não deixam que a gente passe por dentro de suas roças. Até sem terra, quando chega derruba nossa cabana. Será que não temos nenhum direito? Antônio Gomes Acontece que tem lugar pra piscicultura, tem lugar pra fazendeiro, tem lugar pra turista, mas, não tem lugar pra pescador viver! Cícero Cânion do Baixo São Francisco Tipos de peixe e pescaria Antigamente, quando o Rio era seco tinha muitos tipos de pescaria. A gente inventou o gazoim, uma espécie de armadilha pra pegar a tubarana. Essa invenção só o pescador artesanal sabe inventar. Tavinho Na porta dos córregos o cabra pesca até cinquenta metros de fundura com linha e só pesca mais na beira do rio, aí nas paredes. Da beira das paredes do cânion o pescador bota rede até cinquenta metros de distância com rede de até cinquenta metros. Mais a maioria tem rede menor. O surubim só reproduzia no estresse, a tubarana só por época. Eu ainda me lembro. O pirá e o robalo subia uma vez por ano. Quando o rio era baixo pegava mais peixe. Agora quando o rio encheu não tem mais como o peixe reproduzir. Afonso Curvina também não tem mais e o pitu às vezes se pega só depois da barragem de Xingó. No lugar desse monte de espécies que tinha no rio, agora só tem mais duas espécies o tucunaré e a tilápia que são espécies que não é como o surubim ou a tubarana. O robalo, camurim, tubarana e curvina eram tudo peixe do mar que se adaptava o rio. A curvina sem dente aqui era chamada de pescada, já desapareceu. Quase todo pescador aqui usa mais o molinete, a rede e barco de remo ou de motor a gás ou a óleo. Maloca ou rancho dos pescadores Gazoim – tipo de apetrecho para pegar tubarana quando o Rio era baixo no Cânion Pesca de Anzol 4 Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil A diversidade no Cânion “O Cânion é uma parede de macambira” Nas beiradas dessas pedras se encontra muita coisa bonita. Aqui tem arvores pra remédio que muita gente usa. Tem ameixa, quixabeira que serve pra fazer remédio pra pancada. Também tem pau d’arco mais aqui a gente chama de Ipê e tem quina-quina. A quina-quina amarga mais do que pereiro que também tem. Existe ainda o pau piranha, madeira nativa dessa região. Tem muito massunim que algumas pessoas comem e tem ouriço que com o tempo agarra nas redes e rasga. Aqui tem o gavião grande da serra. Ele é maior que o urubu, todo ano ele dar filhote. Tem muito macaco prego nesse cânion. Quando o rio era baixo muita família de pescar vivia nas cavernas desse rio. Oi minha casa mesmo era aqui, o rio já cobriu. Quando o rio subiu eu pensava que as pedras ia cair. Tem muita gruta aqui. Antigamente aqui tinha a Cachoeira do Lamerão, agora só tem a Toca do Sal, o pescador faz toca lá. Tem uma abelha italiana, que aqui a gente que chama de velha oropa, com mais de metro na pedra, tem tamanduá que cai da pedra querendo pegar. Nesse trecho tem muito papagaio e periquito. Tem a caverna do Pinga-Pinga, lugar de morada dos pescadores, é aí que a gente se arranja. Os turistas também vêm pra cá. As paredes desse cânion são rochas de macambira. Afonso Malocas – Cavernas onde pescadores fazem rancho Toca do Sal Gruta dos Turistas Ameaça ao território pesqueiro Se o pescador faz um rancho não tem direito, porque o fazendeiro não deixa, as pisciculturas também está sendo um empecilho. A gente precisa levar pra água os apetrechos, precisa levar a caixa de isopor, o óleo do barco, a rede, o anzol e pra isso tem que ter o barraco pra guardar as coisas dentro, aí vem o fazendeiro e diz que a gente não pode fazer a cabana. E aí? Como o cara vai viver? Só fazendeiro tem direito? E nós? Muitos deles mandam roubar nossos apetrechos. Tem fazendeiro que não deixa nem a gente passar pelo caminho pra ir pra o rio. Ele bota uma porteira e a gente fica a mercê dele. Pescador é jogado, desprezado. E se a gente não resgatar todo mundo pra se organizar a situação vai ficar difícil, pois, querem tirar da gente agora o direito de pescar pra fazer um Monumento Natural, só pra turista e nós somos o quê? Pescadores e pescadoras artesanais do Cânion do Rio São Francisco 5 38°6'0"W res AL 2 a 20 38°0'0"W 37°54'0"W 10 BR 1 ulo Pa Pescadores e Pescadoras Artesanais do Cânion São Francisco Alagoas - Bahia - Sergipe Af ons R o 3 42 9°25'0"S R Æ ! Ý !Y o " AL o " Delmiro Gouveia - AL Æ ! BA ! !Y ! o " BR 1 10 0 21 Paulo Afonso - BA 9°30'0"S ! q Æ ! ! !Y Ô " õ " ¡ " ! Ö " !Y æ R i o Alagoas o " ® c Æ ! n c i o F r a S ã o " o Ö " Legenda Identidade / Sobrevivência Riacho Gritador Riacho do Castanho Riacho do Talhado Riacho do Forno Riacho Jardim Cordeiro Poço da Cachoeira Riacho do Curibuba Povoado do Lamerão Povoado Bananeiras Estação de Captação de Água Casal Ö " Ö " Ö " Ö " Ö " Ô " " Ý Ô Riacho do Portão 38°6'0"W æ 2 ! 2 1 X " õ " Córrego do Montenegro Córrego do Ulucú Córrego Cacamunhê Corrego do Vicente Corrego Boa Vista Rio da Baixa do Picos Rio da Cruz / Com. Quilombola Antigo Cemitério Monte Escuro Ilha Bela Toca do Sal Rancho da Muricaca 3 SE 38°0'0"W ! ! ! ! ! ! y Cavaquinho Baixa do Bila (P) Combo Malhada Grande Canavieira Assentamento Nova Esperança Dificuldades / Conflitos / Ameaças !Y !Y !Y !Y !Y Piscultura do Lamerão ! Piranhas - AL Æ ! Santa Brigida - BA 38°12'0"W 2 1 25 AL 2 Ö " Canindé do São Francisco - SE 9°35'0"S SE 230 Brasil 9°35'0"S R i o Æ ! ! y o s Æ ! Æ ! c i !Y " ® s Sergipe c !Y $ ! 8 ! X " n F r a AL 220 R 2 ! ã Bahia Olho D'Água do Casado - AL Ö " 8 ! S 22 0 o S e c Ö " 21 0 9°30'0"S " Ô BA Í " R i a c h o " n Æ ! Æ ! Æ ! Æ ! Æ ! Æ ! Æ ! Æ ! 8 ! 8 ! ! q µ Água Branca - AL de BR 37°48'0"W 9°25'0"S rep 38°12'0"W !Y ¡ " o " " n " n 03 37°54'0"W Piscultura do Talhado Pisicultura da empresa Netuno Convenções cartográficas: ALAGOAS Monumento Natural - Mona Possível implantação de Piscultura BAHIA Barragem PA IV Barragem de Xingó SERGIPE Hidrografia Turismo Piscultura Malhada Grande $ ! Imagem do São Francisco Piscultura do Xingozinho Piscultura Baixa da Velha " ® " ® Gruta do Pinga Pinga Piscultura Lagoa da Pedra Í " Gruta do Talhado (T) Pedra do Caboclo 37°48'0"W Sedes municipais Limites municipais R Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia - PNCSA Fonte: Mapa Situacional - Setembro 2009 Base DNIT 2009, MMA 2008, Imagem Satélite CBERS_2B CCD2XS_20081205, Informações dos Pescadores do Cânion do Rio São Francisco. Sistema Coordenadas Geográficas Datum Geodésico Horizontal - SAD 69 Rodovias R " n Escala : 1:160.000 0 1.600 3.200 4.800 Cartografia: Luís Augusto Pereira Lima - NCSA/UEA Álvaro Eduardo Mascarenhas Ribas - NECTAS Ticiano Oliveira - NECTAS 6.400 M 8.000 Hoje, temos problemas com os sem terra que chegaram e foram derrubando nosso rancho. Cadê que a gente não faz como eles pra ter o direito da gente. Eles são organizados e nós não. Tem que ter união se não a gente não vai puder pescar mais nessas águas, não tem ninguém pra olhar por nós. Essas águas é nossa vida. A gente bota uma cabana num córrego daquele, aí vem os criadores de peixe e instala as gaiolas e o cabra não pode mais descer pelo o córrego, tem que mudar de caminho. Me diga se assim dá certo? É como se pescador num tivesse direito nenhum. Me diga o que a gente tem que fazer, porque nós num somo gavião pra avoar das pedra e chegar nas águas pra pegar o peixe. Nós temo é que descer nos caminho. Cícero Era nas cachoeiras aqui na altura de Xingozinho da Bahia e Xingó de Alagoas que iam fazer a barragem. Aí parece que não se interessaram e levaram Xingó lá pra Piranhas. Acontece que lá não conseguiram mudar o nome da barragem e ficou como Xingó. Se tivesse sido aqui num tinha mexido cum tanta gente. Afonso A falta do pescado Barragem de Xingó – Corta o Cânion Quando essas águas era baixa a gente pegava de tudo. Tinha correnteza e era água perigosa. Nós tamo deixando de ser pescador pra virar guarda de peixe. Aqui a gente só está pescando curvina, tilápia e tucunaré. Antes das barragens, a gente tinha era tubarana, o pirá, o camarão, o pitu. Acontece que a Chesf fez isso com a gente e não se responsabilizou. Não tivemos nenhuma indenização. O peixe desapareceu. Nasci e me criei nesse rio e tô vendo esse rio numa situação delicada. O rio lá pra baixo está pela cintura. O pescante é aquele que não tem piedade Pescadores artesanais do rio, não tem credencial pra pescar. Nesse baixo são Francisco se tem 2 mil pecadores tem 15 mil pescante, que pratica a pesca predatória, eles não pesca o peixe, faz depredação. Para esses pescantes não tem fiscalização. Na época do defeso o pescador pega somente seus 5 kg pra comer com a família, o pescante pega toneladas pra o mercado e o órgão fiscalizador pega o pequeno com seus 5 kg, mas, não pega o pescante com a tonelada. Esse povo todo ribeirinho precisa do rio pra sobreviver. O Rio se encontra morto e aterrado por causa das barragens, por isso, vem se acabando o pescado, o peixe não tem mais como fazer a reprodução. No córrego do Pinga-Pinga, corre água direto na pedra, ela mina e é água boa e pura que desce todo tempo. Desde dos quinze anos que pesco do Canindé até o Salgado. Conheço tudo aqui. Hoje peguei uns mocó pra levar pra casa, pescaria não foi boa não. Esses mocó vai dá pra passar a semana. Rosivaldo 8 Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil Os perigos para o pescador Todo pescador tem esse problema de não poder fazer o rancho na beira do rio. Tem fazendeiro que ameaça com arma e não permite que a gente chegue na beira da água. Pescador é chamado de ladrão. O próprio fazendeiro manda roubar os apetrechos pra depois botar culpa na gente mesmo. O dono da terra não quer nem saber se somos pai de família. Tem um monte de pescante que não tem nada haver com pescador artesanal, que chega e faz a pesca predatória e o Ibama não está nem aí. Esses pescantes atrapalham a vida de nós pescadores, eles botam fama ruim em pescador. Se houvesse fiscalização esse povo não atrapalhava a vida da gente e do rio. Se um denuncia o fazendeiro e o pescante é arriscado até perder a vida. É muito perigoso pescar aqui. A gente bota rede nos córregos, se dormir vem uma enxurrada e leva tudo. Eu já perdi barco lá. As paredes do cânion são mais de sessenta metros de altura e mais cento e cinquenta metro de fundura. Pisciculturas particulares no Cânion A pesca predatória Esse pessoal do Meio Ambiente não fiscaliza nada. Eles têm obrigação pra fazer e não faz. Por isso, que as coisas estão ruins. Tem pesca predatória e eles não estão nem aí. Se tivesse fiscalização retirava esses pescantes e sobrava peixe para os pescadores artesanais que tem dessa arte o seu sustento. Agora, tem pescador artesanal que tem de pescar de arpão pra sobreviver, não são todos, mas, esses são obrigados. Hoje depois das barragens, o peixe acabou e muitos pescadores usam o arpão pra poder fazer a feira e isso não ta certo. Mas, são obrigados, só que esses o Ibama pune, mas, não pune os que usam da pesca predatória pra fazer riqueza. Acontece que o pescar artesanal faz a pesca de arpão pra não deixar a família morrer de fome. É pra comprar comida pra seus filhos. Acontece que tem pescador que não faz esse pesca e vai se virando. Se não tivesse pesca predatória os pescadores artesanais tinha como viver. É bom que se entenda que a pesca predatória é feita por pescantes e que uma minoria de pescador artesanal pesca de arpão pra sobreviver. No período do defeso a gente tem o seguro desemprego. Neste período o rio está com água barrenta, a água amarela e não tem pescaria de arpão por parte de pescador artesanal nenhum, ele pega somente seus 5 kg pra comer em casa com a família. Quinca O pescador tem que fazer outras atividades pra sobreviver porque a pescaria não dá mais. Quando o rio está com água limpa muitos de nós são obrigados a fazer a pesca de arpão pra ter o que comer. Joel Antigamente o pescador pegava uma panela de barro, colocava um piau dentro, botava farinha e tinha comida pra os filhos, hoje veja só a vida de pescador. Hoje em dia mesmo o pessoal que pesca com respeito não pode denunciar, porque corre o risco do cara tá dormindo em seu barraco e chegar Pescadores e pescadoras artesanais do Cânion do Rio São Francisco 9 um cara e agredi-lo e, aí quem vai se responsabilizar por ele? Por isso, cabe aos órgãos competentes fazer a fiscalização, mas, eles não fazem. Acontece também que se o pescador denunciar sozinho ele pode correr risco, mas, se ele denuncia em grupo sem se identificar a coisa é diferente. Sebastião Quem tem que tomar providencia são os órgãos competentes, mas, eles são incompetentes. O Ibama não fiscaliza aqui no Cânion, agora na represa de Xingó ele tá sempre lá. Eles alegam que não tem recurso nem pessoal. Acontece que alguns ganham diárias e quando eles chegam aqui quer pegar dinheiro da gente pra colocar combustível na lancha deles. Eles já ganham pra isso, e somos nós é que temos obrigação de pagar a eles? Até a SEAP é um órgão que prejudica pescador. Fez as carteiras do pessoal e chega depois tudo errado. São irresponsáveis e incompetentes. Tem carteira que era pra chegar em Delmiro Gouveia e chegou foi em Petrolina. Tem pescador velho como eu e muitos aqui que tem carteira antiga e eles querem colocar como iniciante. Dá pra aceitar isso? A SEAP e o Ibama são órgãos que não cumprem seu papel devido. Não organiza documentação direito e corremos o risco de perder ainda mais o pouco que nos resta. A piscicultura Até os criatórios traz problema pra os pescadores. Quando botam os criatórios já começa impedindo os pescadores artesanais de passar. Quando colocam as gaiolas nas entradas dos córregos já se acham dono e impedem a gente de passar. Eles não pagam nada pra botar gaiola, tem pegar licença com os órgãos pra puder funcionar e nenhum desses tem licença pra funcionar. A Netuno quando chegou aqui foi logo botando corda de canto a canto no rio. Veja os que eles fizeram, quem tem motor a diesel não passa, só passa quem tem moPisciculturas da Netuno – impedindo passagem tor no barco que levanta. Quando o vento de pescadores artesanais dar estica a corda, quem tem barco grande num passa é capaz de perder a hélice. A Netuno paga oitocentos reais pro engenheiro de pesca aqui em Xingozinho, e paga treze reais a diária pro pião. Damião A gente é ameaçado, num pode nem passar por perto pra num assustar o peixe. Eu tô pescando aqui longe pra num ter confusão. A Netuno colocou tanque rede oito vezes mais do que o permitido, embora estejam de forme irregular, nessas águas. A Netuno desenvolveu técnica e construiu plataforma para oito gaiolas, eles pegam gente pra trabalhar pra eles e forma pequenas pisciculturas, aí a ração é comprada a ela e depois a gente tem que vende o peixe pra ela. Nivaldo A Codevasf também financia tanque rede e a prefeitura também. Eles dão os alevinos e a ração. Conseguimos os alevinos pelo Instituto Xingó. Tamos produzindo mil e novecentos quilos por mês. E tamo vendendo no mercado local. Outros vendem só pra Netuno, isso quem trabalha cum eles. Eu aqui trabalho pra associação somos vinte e uma famílias. Quando a água ta fria tem muita morte de peixe, dá uma doença aí a gente bota uma terramicina e sal pra matar as bactérias. Tem uns piscicultor que desiste, num agüenta, já saíram uns quatro. Mais tamo insistindo pra ver se dar certo. Milton 10 Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil Oficina de construção da Cartografia – 12 a 13 julho 2008 Setenta por cento dos custos vão tudo pra ração, a pessoa fica refém da empresa que vende a ração. O peixe de gaiola é a mesma coisa de galinha de granja. Organização Precisa que crie uma lei pra esse povo vir para a Colônia. Se a gente resgate esse povo que tá desorganizado facilita porque o pescador organizado, paga por esses outros. O pescador paga seus direitos e tem uns que não paga seus direitos, por isso, temos que resgatar esses pra eles se organizarem. Fé e mitos Nas cachoeiras que tinham aqui meu pai se purificava, rezava e depois ia pescar. Tem uns vulto nessas pedras, de longe se ver Padre Cícero, mas de perto ele se encanta. Os pescadores fizeram a imagem de São Francisco na Pedra, tem missa todo ano no dia quatro de outubro e tudo quanto é de pescador vem. É como se fosse a força. Afonso Caia 50 kg de corrente em cima da tampa da geladeira. Ai meu fio, ninguém ficava... Eles iam pescar na poita, coisa de 40 metro de fundura. Quando aparecia a Muricaca a chumbada não descia nem 2 metro. Seu Afonso O gavião grita. As pedras responde. A macambira não vai agüentar de tanto sofrimento. O pescador agüenta, vai embora né! Num dar pra pescar de peito aberto. Tem lugar que num pode, faz mal pra saúde. Ou a gente se benze antes de entrar nas águas ou ela vira traiçoeira. Minha tristeza acaba quando eu fico aqui sozinho, o eco fala no meu ouvido bem baixinho e o vento sopra, sopra tanto e diz pra eu ficar quieto, meu peito fica apertadinho. Se eu for contar as histórias que os peixe conta... Num pode é tudo segredo! Rosivaldo São Francisco no Cânion Rancho da Muricaca – local assombrado para os pescadores do Cânion Pescadores e pescadoras artesanais do Cânion do Rio São Francisco 11 Projeto nova cartografia social dos povos e comunidades tradicionais do Brasil SÉRIE PESCADORES E PESCADORAS ARTESANAIS DO RIO SÃO FRANCISCO 1 Pescadores e pescadoras artesanais de Saramém Remanescentes do Cabeço – Foz do São Francisco, Sergipe 2 Pescadores e pescadoras artesanais do Açude Público Cocorobó – Mostrando sua cara e seus problemas – Canudos, Bahia 3 Pescadores e pescadoras artesanais do Cânion do São Francisco – Alagoas, Bahia, Sergipe REALIZAÇÃO Pescadores e Pescadoras Artesanais do Cânion São Francisco APOIO Colônia Z-26 – Delmiro Gouveia 4 Pescadores e pescadoras artesanais de Resina Foz do São Francisco – Sergipe