Pescadores e Pescadoras Artesanais do Cânion do São Francisco
Nova cartografia social
dos povos e comunidades
tradicionais do Brasil
SÉRIE PESCADORES E PESCADORAS ARTESANAIS DO RIO SÃO FRANCISCO
3
Pescadores e pescadoras
artesanais do Cânion
do São Francisco
Alagoas
Bahia
Sergipe
Participantes da Oficina de Mapas
Afonso Oliveira (Povoado Lagoinha), Apolônio Sales
de Souza Silva (Povoado Talhado), Cícero Cordeiro
dos Santos (Delmiro Golveia), Cícero Tribucio da
Silva (Riacho do Talhado – Olho Dágua do Casado),
Evaristo Cordeiro da Silva (Povoado Salgado),
Fabio Borges Carcino (São José), Geraldo Moreira
(Povoado Salgado), Hélio Pereira dos Santos
(Olho D’Água do Casado), João Monteiro da Silva
(Paulo Afonso), João Valério Fidelo (Povoado São
Sebastião), Joel de Oliveira (Olho D’Águinha), Jorge
Luiz Barbosa de Souza (Delmiro Golveia – Alagoinha),
José Carlos dos Santos (Piranhas), José Filho Bié
(Paulo Afonso), José Joaquim Oliveira (Povoado
Lagoinha), Laércio Silva Lima (Povoado Cruz – Xingó /
Piranhas), Manoel Messias Gomes (Povoado Salgado),
Manoel Souza dos Santos (Olho D’Água do Casado),
Maria Cineide (Riacho do Talhado – Olho D’Água do
Casado), Maria Clementino da Silva (Delmiro Golveia
– Povoado Salgado), Maria do Socorro da Silva (Paulo
Afonso), Miguel Bernardo Gomes (Povoado Salgado),
Moacir Alves dos Santos (Povoado Olho D’Águinha),
Orlando Lima dos Santos (Povoado Cruz Sebastião
Marcos), Delmiro Golveia (Povoado Lagoinha)
Pescadores do
Cânion em conversas
com a equipe do
Globo Ecologia –
4 a 9 setembro 2008
Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil
Pescadores e pescadoras artesanais do Cânion do Rio São Francisco
SÉRIE Pescadores e Pescadoras Artesanais do Rio São Francisco
Coordenação do PNCSPCT-B
Alfredo Wagner Berno de Almeida
(NCSA-CESTU/UEA, PPGAS/UFAM,CNPq)
Rosa Elizabeth Acevedo Marin (UNAMAZ)
Contatos
Equipe de pesquisa
Alzení Tomáz (CPP)
Juracy Marques (NECTAS/UNEB)
Ticiano Oliveira (NECTAS)
CPP – Conselho Pastoral dos Pescadores
Avenida Beira Rio 913 Jardim Bahia
48604-000 Paulo Afonso BA
telefone/fax 75. 3281 0848
[email protected]
Elaboração do mapa
Álvaro Ribas (NECTAS)
Ticiano Rodrigues (NECTAS)
Luís Augusto Pereira Lima (NCSA/UEA)
Fotografias
Alzení Tomáz
João Zinclar
Juracy Marques
Ticiano Rodrigues
Projeto gráfico e editoração
Ernandes Fernandes Design Casa 8
Colônia dos Pescadores – Z-26
57480-971 Delmiro Gouveia AL
telefone 82. 3641 2213
NECTAS/UNEB
Rua do Gangorra 503 Chesf
Universidade Estadual da Bahia
48600-000 Paulo Afonso BA
telefone/fax 75. 3281 7364
N935 Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil:
pescadores e pescadoras artesanais do Cânion do Rio São Francisco /
coordenadores, Alfredo Wagner Berno de Almeida, Rosa Elizabeth Acevedo
Marin, autores, Tomaz, Alzenir. Ticiano R. A. Oliveira, Juracy Marques. –
Delmiro Gouveia, Alagoas : Casa 8 Desing / UEA Edições, 2009
12 p.; il.: 25 cm. (Série Pescadores e Pescadoras Artesanais do Rio São Francisco ; 3 )
ISBN 978-85-7401-451-7
1. Comunidade de Pescadores e Pescadoras – Brejo Grande, I. Almeida, Alfredo
Wagner Berno de. II. Tomaz, Alzení. III. Série.
CDU 301.185.2(814.22)
Catalogação na fonte elaborada pela bibliotecária Rosenira Izabel de Oliveira CRB 11/529
2
Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil
Identidade
Somos pescadores artesanais do Cânion São
Francisco. Aqui é a região do Baixo. Todo mundo
sabe que a gente pesca o peixe onde ele está. O
peixe num fica parado, esperando que seja pescado, a gente vai buscar ele onde estiver. Governo não sabe e não conhece pescador. Laércio
Pescamos na PA IV e no Cânion e também abaixo Pescaria no Cânion
de Xingó. Não adianta achar que existe um ponto de pesca. Os pontos é aonde a gente faz a cabana e guarda os apetrechos. O lugar onde
pescamos é toda a região do Cânion. A gente vai buscar o peixe onde ele estiver. João Monteiro
O pescador não está podendo só viver da pesca, ele tem que buscar outros meios, a gente precisa da terra pra trabalhar. Nossa pescaria é de manhã e de tarde. A gente coloca a rede e pela
tarde vai buscar. A maioria do povo vive das águas desse rio.
Nossa pescaria é de manhã e de tarde. A gente coloca a rede e de tarde e pela madrugada
vai buscar. A maioria do povo vive das águas desse rio. Laércio
A pesca no Cânion do Baixo São Francisco
O Cânion do São Francisco é um lugar de águas
profundas, de paredes longas e altas. Aqui agora só se pesca tilápia, tucunaré. Nas paredes do
Cânion corremos o rico de rolar uma pedra e
esmagar a gente. Viver no Cânion é um perigo.
Afonso Oliveira
Os mais velhos chamavam de “sumidouro”, porque o rio seguia e sumia nas vistas. É tudo talhado
de pedra que serve de guia pras águas. Mas, aqui
nós somos pescadores do Baixo São Francisco.
A gente antes vivia nas maloca de pedra,
muita gente morava nas caverna de pedra. Era
quando o Rio era Baixo, tinha tanto peixe e nós
vivia feliz. Hoje num tem não, só tem umas malocas de pedra, mesmo. Aí nós faz uma maloquinha de palha ou madeira, as vezes de pedra é aí
que guarda os apetrechos.
Nosso lugar pode virar Monumento pra turista ver e como vai ficar nós que vivemos da
pescaria? A gente num vai mais poder pegar
peixe aí. Esse povo do governo vem pra enrolar
a gente, disseram uma vez que o pescador não Pescador es do Cânion
ia sofrer em nada, mas, agora sabemos que se
virar monumento não vamos ter o direito de pescar o peixe. E aí eles vão fazer o que com os
pescadores? Vão pagar uma indenização? Se esse negócio for feito só vai beneficiar o turista.
Orlando Lima
Impediram a gente de pescar lá porque é lugar do Exercito fazer treinamento, impedem a gente
de pescar por causa dos criatórios de tilápia. Impediram a gente de viver da pesca por causa
Pescadores e pescadoras artesanais do Cânion do Rio São Francisco
3
das barragens porque desapareceu o peixe, não respeitam pescador porque tem gente que faz a pesca
predatória e a gente paga por esses. Temos dificuldades de chegar no Rio porque os fazendeiros não
deixam que a gente passe por dentro de suas roças.
Até sem terra, quando chega derruba nossa cabana.
Será que não temos nenhum direito? Antônio Gomes
Acontece que tem lugar pra piscicultura, tem lugar
pra fazendeiro, tem lugar pra turista, mas, não tem
lugar pra pescador viver! Cícero
Cânion do Baixo São Francisco
Tipos de peixe e pescaria
Antigamente, quando o Rio era seco tinha muitos tipos de pescaria. A gente inventou o gazoim, uma espécie de armadilha pra pegar a tubarana. Essa invenção só o pescador artesanal sabe inventar. Tavinho
Na porta dos córregos o cabra pesca até cinquenta metros de fundura com linha e só pesca mais
na beira do rio, aí nas paredes. Da beira das paredes
do cânion o pescador bota rede até cinquenta metros de distância com rede de até cinquenta metros.
Mais a maioria tem rede menor.
O surubim só reproduzia no estresse, a tubarana
só por época. Eu ainda me lembro. O pirá e o robalo
subia uma vez por ano. Quando o rio era baixo pegava mais peixe. Agora quando o rio encheu não tem
mais como o peixe reproduzir. Afonso
Curvina também não tem mais e o pitu às vezes se
pega só depois da barragem de Xingó. No lugar desse monte de espécies que tinha no rio, agora só tem
mais duas espécies o tucunaré e a tilápia que são espécies que não é como o surubim ou a tubarana.
O robalo, camurim, tubarana e curvina eram tudo
peixe do mar que se adaptava o rio. A curvina sem
dente aqui era chamada de pescada, já desapareceu.
Quase todo pescador aqui usa mais o molinete, a
rede e barco de remo ou de motor a gás ou a óleo.
Maloca ou rancho dos pescadores
Gazoim – tipo de apetrecho para pegar tubarana quando o
Rio era baixo no Cânion
Pesca de Anzol
4
Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil
A diversidade no Cânion
“O Cânion é uma parede de macambira”
Nas beiradas dessas pedras se encontra muita coisa
bonita. Aqui tem arvores pra remédio que muita gente
usa. Tem ameixa, quixabeira que serve pra fazer remédio pra pancada. Também tem pau d’arco mais aqui a
gente chama de Ipê e tem quina-quina. A quina-quina
amarga mais do que pereiro que também tem. Existe
ainda o pau piranha, madeira nativa dessa região.
Tem muito massunim que algumas pessoas comem e tem ouriço que com o tempo agarra
nas redes e rasga.
Aqui tem o gavião grande da serra. Ele é maior que o urubu, todo ano ele dar filhote. Tem
muito macaco prego nesse cânion.
Quando o rio era baixo muita família de pescar vivia nas cavernas desse rio. Oi minha casa
mesmo era aqui, o rio já cobriu. Quando o rio subiu eu pensava que as pedras ia cair.
Tem muita gruta aqui. Antigamente aqui tinha a Cachoeira do Lamerão, agora só tem a Toca
do Sal, o pescador faz toca lá. Tem uma abelha italiana, que aqui a gente que chama de velha
oropa, com mais de metro na pedra, tem tamanduá que cai da pedra querendo pegar. Nesse
trecho tem muito papagaio e periquito. Tem a caverna do Pinga-Pinga, lugar de morada dos
pescadores, é aí que a gente se arranja. Os turistas também vêm pra cá. As paredes desse cânion
são rochas de macambira. Afonso
Malocas – Cavernas onde pescadores
fazem rancho
Toca do Sal
Gruta dos Turistas
Ameaça ao território pesqueiro
Se o pescador faz um rancho não tem direito, porque o fazendeiro não deixa, as pisciculturas também está sendo um empecilho. A gente precisa levar pra água os apetrechos, precisa levar a caixa
de isopor, o óleo do barco, a rede, o anzol e pra isso tem que ter o barraco pra guardar as coisas dentro, aí vem o fazendeiro e diz que a gente não pode fazer a cabana. E aí? Como o cara vai viver?
Só fazendeiro tem direito? E nós? Muitos deles mandam roubar nossos apetrechos. Tem
fazendeiro que não deixa nem a gente passar pelo caminho pra ir pra o rio. Ele bota uma porteira e a gente fica a mercê dele. Pescador é jogado, desprezado. E se a gente não resgatar todo
mundo pra se organizar a situação vai ficar difícil, pois, querem tirar da gente agora o direito de
pescar pra fazer um Monumento Natural, só pra turista e nós somos o quê?
Pescadores e pescadoras artesanais do Cânion do Rio São Francisco
5
38°6'0"W
res
AL
2
a
20
38°0'0"W
37°54'0"W
10
BR 1
ulo
Pa
Pescadores e Pescadoras Artesanais do Cânion São Francisco
Alagoas - Bahia - Sergipe
Af ons
R
o
3
42
9°25'0"S
R
Æ
!
Ý
!Y
o
"
AL
o
"
Delmiro Gouveia - AL
Æ
!
BA
! !Y
!
o
"
BR 1
10
0
21
Paulo Afonso - BA
9°30'0"S
!
q
Æ
!
!
!Y
Ô
"
õ
"
¡
"
!
Ö
"
!Y
æ
R i
o
Alagoas
o
"
®
c
Æ
!
n c
i
o F r a
S ã
o
"
o
Ö
"
Legenda
Identidade / Sobrevivência
Riacho Gritador
Riacho do Castanho
Riacho do Talhado
Riacho do Forno
Riacho Jardim Cordeiro
Poço da Cachoeira
Riacho do Curibuba
Povoado do Lamerão
Povoado Bananeiras
Estação de Captação de Água Casal
Ö
"
Ö
"
Ö
"
Ö
"
Ö
"
Ô
"
"
Ý
Ô
Riacho do Portão
38°6'0"W
æ
2
!
2
1
X
"
õ
"
Córrego do Montenegro
Córrego do Ulucú
Córrego Cacamunhê
Corrego do Vicente
Corrego Boa Vista
Rio da Baixa do Picos
Rio da Cruz / Com. Quilombola
Antigo Cemitério
Monte Escuro
Ilha Bela
Toca do Sal
Rancho da Muricaca
3
SE
38°0'0"W
!
!
!
!
!
!
y
Cavaquinho
Baixa do Bila (P)
Combo
Malhada Grande
Canavieira
Assentamento Nova Esperança
Dificuldades / Conflitos / Ameaças
!Y
!Y
!Y
!Y
!Y
Piscultura do Lamerão
!
Piranhas - AL
Æ
!
Santa Brigida - BA
38°12'0"W
2
1
25
AL 2
Ö
"
Canindé do São Francisco - SE
9°35'0"S
SE 230
Brasil
9°35'0"S
R i o
Æ
!
!
y
o
s
Æ
!
Æ
!
c
i
!Y
"
®
s
Sergipe
c
!Y
$
!
8
!
X
"
n
F r a
AL 220
R
2
!
ã
Bahia
Olho D'Água do Casado - AL
Ö
"
8
!
S
22
0
o
S e c
Ö
"
21
0
9°30'0"S
"
Ô
BA
Í
"
R i a c h o
"
n
Æ
!
Æ
!
Æ
!
Æ
!
Æ
!
Æ
!
Æ
!
Æ
!
8
!
8
!
!
q
µ
Água Branca - AL
de
BR
37°48'0"W
9°25'0"S
rep
38°12'0"W
!Y
¡
"
o
"
"
n
"
n
03
37°54'0"W
Piscultura do Talhado
Pisicultura da empresa Netuno
Convenções cartográficas:
ALAGOAS
Monumento Natural - Mona
Possível implantação de Piscultura
BAHIA
Barragem PA IV
Barragem de Xingó
SERGIPE
Hidrografia
Turismo
Piscultura Malhada Grande
$
!
Imagem do São Francisco
Piscultura do Xingozinho
Piscultura Baixa da Velha
"
®
"
®
Gruta do Pinga Pinga
Piscultura Lagoa da Pedra
Í
"
Gruta do Talhado (T)
Pedra do Caboclo
37°48'0"W
Sedes municipais
Limites municipais
R
Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia - PNCSA
Fonte:
Mapa Situacional - Setembro 2009
Base DNIT 2009, MMA 2008,
Imagem Satélite CBERS_2B CCD2XS_20081205,
Informações dos Pescadores do Cânion do Rio
São Francisco.
Sistema Coordenadas Geográficas
Datum Geodésico Horizontal - SAD 69
Rodovias
R
"
n
Escala : 1:160.000
0
1.600
3.200
4.800
Cartografia:
Luís Augusto Pereira Lima - NCSA/UEA
Álvaro Eduardo Mascarenhas Ribas - NECTAS
Ticiano Oliveira - NECTAS
6.400
M
8.000
Hoje, temos problemas com os sem terra que chegaram e foram derrubando nosso rancho. Cadê que a gente não faz como eles pra ter o direito da gente. Eles são organizados e
nós não. Tem que ter união se não a gente não vai puder pescar mais nessas águas, não tem
ninguém pra olhar por nós.
Essas águas é nossa vida. A gente bota uma cabana num córrego daquele, aí vem os criadores de peixe e instala as gaiolas e o cabra não pode mais descer pelo o córrego, tem que
mudar de caminho. Me diga se assim dá certo? É como se pescador num tivesse direito nenhum. Me diga o que a gente tem que fazer, porque
nós num somo gavião pra avoar das pedra e chegar
nas águas pra pegar o peixe. Nós temo é que descer
nos caminho. Cícero
Era nas cachoeiras aqui na altura de Xingozinho da
Bahia e Xingó de Alagoas que iam fazer a barragem.
Aí parece que não se interessaram e levaram Xingó
lá pra Piranhas. Acontece que lá não conseguiram
mudar o nome da barragem e ficou como Xingó.
Se tivesse sido aqui num tinha mexido cum tanta
gente. Afonso
A falta do pescado
Barragem de Xingó – Corta o Cânion
Quando essas águas era baixa a gente pegava de
tudo. Tinha correnteza e era água perigosa.
Nós tamo deixando de ser pescador pra virar
guarda de peixe.
Aqui a gente só está pescando curvina, tilápia
e tucunaré. Antes das barragens, a gente tinha era
tubarana, o pirá, o camarão, o pitu. Acontece que
a Chesf fez isso com a gente e não se responsabilizou. Não tivemos nenhuma indenização. O peixe
desapareceu.
Nasci e me criei nesse rio e tô vendo esse rio
numa situação delicada. O rio lá pra baixo está pela
cintura. O pescante é aquele que não tem piedade Pescadores artesanais
do rio, não tem credencial pra pescar. Nesse baixo
são Francisco se tem 2 mil pecadores tem 15 mil
pescante, que pratica a pesca predatória, eles não pesca o peixe, faz depredação.
Para esses pescantes não tem fiscalização. Na época do defeso o pescador pega somente
seus 5 kg pra comer com a família, o pescante pega toneladas pra o mercado e o órgão fiscalizador pega o pequeno com seus 5 kg, mas, não pega o pescante com a tonelada. Esse povo todo
ribeirinho precisa do rio pra sobreviver.
O Rio se encontra morto e aterrado por causa das barragens, por isso, vem se acabando o
pescado, o peixe não tem mais como fazer a reprodução.
No córrego do Pinga-Pinga, corre água direto na pedra, ela mina e é água boa e pura que
desce todo tempo. Desde dos quinze anos que pesco do Canindé até o Salgado. Conheço tudo
aqui. Hoje peguei uns mocó pra levar pra casa, pescaria não foi boa não. Esses mocó vai dá pra
passar a semana. Rosivaldo
8
Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil
Os perigos para o pescador
Todo pescador tem esse problema de não poder
fazer o rancho na beira do rio. Tem fazendeiro
que ameaça com arma e não permite que a gente chegue na beira da água. Pescador é chamado
de ladrão. O próprio fazendeiro manda roubar os
apetrechos pra depois botar culpa na gente mesmo. O dono da terra não quer nem saber se somos pai de família.
Tem um monte de pescante que não tem nada
haver com pescador artesanal, que chega e faz a
pesca predatória e o Ibama não está nem aí. Esses
pescantes atrapalham a vida de nós pescadores,
eles botam fama ruim em pescador. Se houvesse
fiscalização esse povo não atrapalhava a vida da
gente e do rio. Se um denuncia o fazendeiro e o
pescante é arriscado até perder a vida.
É muito perigoso pescar aqui. A gente bota
rede nos córregos, se dormir vem uma enxurrada
e leva tudo. Eu já perdi barco lá.
As paredes do cânion são mais de sessenta
metros de altura e mais cento e cinquenta metro
de fundura.
Pisciculturas particulares no Cânion
A pesca predatória
Esse pessoal do Meio Ambiente não fiscaliza nada. Eles têm obrigação pra fazer e não faz. Por
isso, que as coisas estão ruins. Tem pesca predatória e eles não estão nem aí. Se tivesse fiscalização retirava esses pescantes e sobrava peixe para os pescadores artesanais que tem dessa arte
o seu sustento.
Agora, tem pescador artesanal que tem de pescar de arpão pra sobreviver, não são todos,
mas, esses são obrigados. Hoje depois das barragens, o peixe acabou e muitos pescadores usam
o arpão pra poder fazer a feira e isso não ta certo. Mas, são obrigados, só que esses o Ibama
pune, mas, não pune os que usam da pesca predatória pra fazer riqueza.
Acontece que o pescar artesanal faz a pesca de arpão pra não deixar a família morrer de
fome. É pra comprar comida pra seus filhos. Acontece que tem pescador que não faz esse pesca
e vai se virando. Se não tivesse pesca predatória os pescadores artesanais tinha como viver.
É bom que se entenda que a pesca predatória é feita por pescantes e que uma minoria de
pescador artesanal pesca de arpão pra sobreviver. No período do defeso a gente tem o seguro
desemprego. Neste período o rio está com água barrenta, a água amarela e não tem pescaria
de arpão por parte de pescador artesanal nenhum, ele pega somente seus 5 kg pra comer em
casa com a família. Quinca
O pescador tem que fazer outras atividades pra sobreviver porque a pescaria não dá mais.
Quando o rio está com água limpa muitos de nós são obrigados a fazer a pesca de arpão pra ter
o que comer. Joel
Antigamente o pescador pegava uma panela de barro, colocava um piau dentro, botava farinha e
tinha comida pra os filhos, hoje veja só a vida de pescador. Hoje em dia mesmo o pessoal que pesca
com respeito não pode denunciar, porque corre o risco do cara tá dormindo em seu barraco e chegar
Pescadores e pescadoras artesanais do Cânion do Rio São Francisco
9
um cara e agredi-lo e, aí quem vai se responsabilizar por ele? Por isso, cabe aos órgãos competentes
fazer a fiscalização, mas, eles não fazem. Acontece também que se o pescador denunciar sozinho ele
pode correr risco, mas, se ele denuncia em grupo sem se identificar a coisa é diferente. Sebastião
Quem tem que tomar providencia são os órgãos competentes, mas, eles são incompetentes. O
Ibama não fiscaliza aqui no Cânion, agora na represa de Xingó ele tá sempre lá. Eles alegam que
não tem recurso nem pessoal. Acontece que alguns ganham diárias e quando eles chegam aqui
quer pegar dinheiro da gente pra colocar combustível na lancha deles. Eles já ganham pra isso,
e somos nós é que temos obrigação de pagar a eles?
Até a SEAP é um órgão que prejudica pescador. Fez as carteiras do pessoal e chega depois
tudo errado. São irresponsáveis e incompetentes. Tem carteira que era pra chegar em Delmiro
Gouveia e chegou foi em Petrolina. Tem pescador velho como eu e muitos aqui que tem carteira
antiga e eles querem colocar como iniciante. Dá pra aceitar isso? A SEAP e o Ibama são órgãos
que não cumprem seu papel devido. Não organiza documentação direito e corremos o risco de
perder ainda mais o pouco que nos resta.
A piscicultura
Até os criatórios traz problema pra os pescadores. Quando botam os criatórios já começa impedindo os pescadores artesanais
de passar. Quando colocam as gaiolas nas
entradas dos córregos já se acham dono e
impedem a gente de passar.
Eles não pagam nada pra botar gaiola,
tem pegar licença com os órgãos pra puder
funcionar e nenhum desses tem licença pra
funcionar.
A Netuno quando chegou aqui foi logo
botando corda de canto a canto no rio.
Veja os que eles fizeram, quem tem motor
a diesel não passa, só passa quem tem moPisciculturas da Netuno – impedindo passagem
tor no barco que levanta. Quando o vento
de pescadores artesanais
dar estica a corda, quem tem barco grande
num passa é capaz de perder a hélice. A Netuno paga oitocentos reais pro engenheiro de
pesca aqui em Xingozinho, e paga treze reais a diária pro pião. Damião
A gente é ameaçado, num pode nem passar por perto pra num assustar o peixe. Eu tô pescando
aqui longe pra num ter confusão.
A Netuno colocou tanque rede oito vezes mais do que o permitido, embora estejam de
forme irregular, nessas águas. A Netuno desenvolveu técnica e construiu plataforma para oito
gaiolas, eles pegam gente pra trabalhar pra eles e forma pequenas pisciculturas, aí a ração é
comprada a ela e depois a gente tem que vende o peixe pra ela. Nivaldo
A Codevasf também financia tanque rede e a prefeitura também. Eles dão os alevinos e a ração. Conseguimos os alevinos pelo Instituto Xingó. Tamos produzindo mil e novecentos quilos por mês. E tamo vendendo no mercado local. Outros vendem só pra Netuno, isso quem
trabalha cum eles. Eu aqui trabalho pra associação somos vinte e uma famílias. Quando a
água ta fria tem muita morte de peixe, dá uma doença aí a gente bota uma terramicina e sal
pra matar as bactérias. Tem uns piscicultor que desiste, num agüenta, já saíram uns quatro.
Mais tamo insistindo pra ver se dar certo. Milton
10
Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil
Oficina de construção da Cartografia – 12 a 13 julho 2008
Setenta por cento dos custos vão tudo pra ração, a pessoa fica refém da empresa que vende a ração.
O peixe de gaiola é a mesma coisa de galinha de granja.
Organização
Precisa que crie uma lei pra esse povo vir para a Colônia. Se a gente resgate esse povo que tá
desorganizado facilita porque o pescador organizado, paga por esses outros.
O pescador paga seus direitos e tem uns que não paga seus direitos, por isso, temos que
resgatar esses pra eles se organizarem.
Fé e mitos
Nas cachoeiras que tinham aqui meu pai se purificava,
rezava e depois ia pescar.
Tem uns vulto nessas pedras, de longe se ver Padre Cícero, mas de perto ele se encanta.
Os pescadores fizeram a imagem de São Francisco na Pedra, tem missa todo ano no dia quatro de
outubro e tudo quanto é de pescador vem. É como
se fosse a força. Afonso
Caia 50 kg de corrente em cima da tampa da geladeira. Ai meu fio, ninguém ficava... Eles iam pescar na
poita, coisa de 40 metro de fundura. Quando aparecia a Muricaca a chumbada não descia nem 2 metro.
Seu Afonso
O gavião grita. As pedras responde. A macambira não
vai agüentar de tanto sofrimento. O pescador agüenta, vai embora né!
Num dar pra pescar de peito aberto. Tem lugar
que num pode, faz mal pra saúde. Ou a gente se benze antes de entrar nas águas ou ela vira traiçoeira.
Minha tristeza acaba quando eu fico aqui sozinho,
o eco fala no meu ouvido bem baixinho e o vento sopra, sopra tanto e diz pra eu ficar quieto, meu peito
fica apertadinho. Se eu for contar as histórias que os
peixe conta... Num pode é tudo segredo! Rosivaldo
São Francisco no Cânion
Rancho da Muricaca – local assombrado
para os pescadores do Cânion
Pescadores e pescadoras artesanais do Cânion do Rio São Francisco
11
Projeto nova cartografia social
dos povos e comunidades
tradicionais do Brasil
SÉRIE PESCADORES E PESCADORAS ARTESANAIS
DO RIO SÃO FRANCISCO
1 Pescadores e pescadoras artesanais de Saramém
Remanescentes do Cabeço – Foz do São Francisco,
Sergipe
2 Pescadores e pescadoras artesanais do Açude
Público Cocorobó – Mostrando sua cara e seus
problemas – Canudos, Bahia
3 Pescadores e pescadoras artesanais do Cânion
do São Francisco – Alagoas, Bahia, Sergipe
REALIZAÇÃO
Pescadores e Pescadoras Artesanais
do Cânion São Francisco
APOIO
Colônia Z-26 – Delmiro Gouveia
4 Pescadores e pescadoras artesanais de Resina
Foz do São Francisco – Sergipe
Download

Alagoas Bahia Sergipe - Nova Cartografia Social da Amazônia