FONTES PARA A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: A IMPRENSA
SERGIPANA E UMA LACUNA A SER PREENCHIDA
Geane Corrêa dos Santos
Universidade Federal de Sergipe
[email protected]
Palavras-chave: historiografia. Imprensa. “Gazeta Socialista”.
INTRODUÇÃO
Discutir a importância dos periódicos para a História da Educação no Brasil
demanda grandes espaços, em função disto, este texto se curva sobre um periódico e
tenta exemplificar como este tipo de publicação serve às estruturas de ensino, aos
discursos, à ordem e à historiografia.
A imprensa escrita tem acumulado um volume documental excelente para a
pesquisa historiográfica. Esta é uma exploração recente na área e, sobretudo na
historiografia educacional. A imprensa escrita oferece fontes relevantes a partir das
quais é possível apreender práticas culturais e dentro destas, práticas do cotidiano
escolares pouco ou nada exploradas pela historiografia tradicional. “Investigar o
passado implica o estudo da imprensa. Ela compartilha da cotidianidade em que se dá a
história.” (ARAÚJO, 2002:96). Quando as fontes escolhidas para análise são jornais é
necessário fazer algumas observações sobre o propósito da notícia e também ter a
clareza de que
O cidadão tem direito à informação e á discussão pública e idéias.
Porém, tais informações e concepções não são mercadorias isentas de
ideologia política e econômica, mesmo que a atividade jornalística
seja pública. Certamente sendo pública estará afeita a dividendos
políticos, em sendo particular, estará necessariamente afeita a
dividendos econômicos, mas também políticos. (ARAÚJO, 2002:96)
A legitimação deste tipo de fonte para a historiografia ocorreu por ocasião do
surgimento da Revista dos Annales que provocou uma revolução na historiografia,
contribuindo significativamente para a expansão do uso das fontes.
[...] a mais importante contribuição do grupo dos Annales, incluindose as três gerações, foi expandir o campo da história por diversas
áreas. O grupo ampliou o território da história, abrangendo áreas
inesperadas do comportamento humano e a grupos sociais
negligenciados pelos historiadores tradicionais. (BURKE, 1997:126)
Esta ampliação teve seu reflexo no campo da história da educação. Este jovem
campo de pesquisa já começa a se lançar sobre os impressos em busca de informações
sobre a atividade educativa no Brasil.
Afeito a dividendos públicos e também políticos, o objeto desta análise
representa a idéia de um grupo ou pessoa que estabelece a sua força e influencia a
sociedade. Esta análise não pretende se limitar a um agrupamento de fatos do passado
para suprir as urgências atuais. Ele surge seguindo a interpretação de Le Goff “[...]
como uma seqüência de novas leituras do passado, plena de perdas e ressurreições,
falhas de memória e revisões.” (LE GOFF, 2003:28) Alicerçado sobre a Nova história
Cultural, este texto dialoga com Roger Chartier (2002), (2003), Pierre Bourdieu (2005),
Peter Burke (1997), e Jacques Le Goff (2003), como principais aportes teóricos. A partir
dos estudos que discutem a utilização dos impressos como fontes para a historiografia
educacional, este texto analisa a contribuição da imprensa sergipana para esta área do
conhecimento.
Se oposição Se por oposição às opiniões particulares, sempre
instáveis, incertas, locais a “opinião pública” apresenta estabilidade,
certeza e universalidade, é fundamentalmente à imprensa que ela deve
essas características. Permitindo a comunicação sem a presença,
constituindo um tribunal invisível e imaterial, cujos julgamentos,
fundamentados na razão, se impõem a todos (CHARTIER, 2003:24)
Criado no ano de 1948, pelo Partido Socialista Brasileiro, a ”Gazeta Socialista”1
começou a circular mostrando preocupação com assuntos relacionados à educação em
Sergipe. Durante o primeiro ano, as suas publicações evidenciavam o ensino
profissionalizante.
Ao iniciar as atividades em janeiro de 1949, o jornal inaugura as suas
publicações sobre educação divulgando a existência do curso promovido pelo Instituto
Brasil – Suíça, que segundo o jornal trata-se de uma filial do FERNTECHNIKUM
WEILEN-MAN – Suíça.
Aprenda, por correspondência, uma das seguintes rendosas profissões:
- Curso de Preparação Industrial – Curso de Preparação Técnica Curso de Aperfeiçoamento para Torneiro Mecânico – Curso de
Aperfeiçoamento para Frezador Mecânico – Curso de
Aperfeiçoamento para Ajustador mecânico – Curso de
Aperfeiçoamento para Operador Mecânico (Retificadora, furadora,e
plainadora) – Curso de Mestria de oficina Mecânica – Curso de
Especialista em Motores de Automóveis – Curso de especialista de
desenho de Máquinas – Curso de Técnico em Construção de
Máquinas – Curso de Técnico-chefe de Produção.(DANTAS,
1949:04)
Ao final, a nota indica onde maiores informações podem ser obtidas. Esta
publicação que aparece pela primeira vez no dia primeiro de janeiro de 1949 volta a
aparecer em várias publicações do jornal durante este ano.
Devido à freqüência com que este comunicado aparece no jornal, é possível
compreender que além dos estabelecimentos de formação técnica em Sergipe, os de fora
do país também estiveram presentes na “Gazeta”. Este convite para a participação e
organização de cursos com vistas a elevação social, corresponde ao “[...] sistema de
produção e circulação de bens simbólicos.”(BOURDIEU, 2005:105) de um grupo ou de
uma sociedade.
Depois de três meses seguidos sem nenhum registro sobre o tema. A formação
técnica foi o tema que deu reinicio aos textos perseguidos por esta pesquisa.
O professor Humberto da Silva Moura avisa aos seus alunos que o
reinício das aulas do Curso de Desenho Técnico por ele lecionado na
sede do Partido Socialista Brasileiro será no dia 1 de agosto do ano em
curso, data em que se encerrarão as férias regulamentares que estão
gosando.(DANTAS, 1949:04)
Ocorre então outro período de “silêncio” para logo em seguida o ensino técnico
profissionalizante voltar a ser destacado. Desta vez com a convocação dos estudantes
matriculados no curso de desenho apresentando a relação nominal dos alunos e
informando-os sobre o reinício do curso.
O professor Humberto da Silva Moura comunica aos alunos
relacionados, que já reiniciou o seu Curso de Desenho para Operários,
após o período de férias regulamentares: Arnaldo Lima Monteiro,
Jackson Andrade Santos, José Cedro, José Severino, José Fel de
Carvalho, Lúcio Palmiro Santos, José Orestes dos Santos, Nelson
Amâncio Oliveira Santos, José Silva Lopes, Fernando Bomfim,
Nilson Corumba, Genésio Pereira da Silva, Manuel Luduvice,
Agnaldo Pereira Santos, Milo Ferreira, José Almeida, José Marcerino
Silva, Raimundo Firpo Cruz, Guilherme Augusto Firpo Cruz, Manuel
Messias Alves, Alexandre dos santos, Elio Oliveira Santos, Oscar
Dias de Oliveira, Agnaldo Andrade, José Leal, Jesuíno Maciel da
Silva, Miguel Dionísio dos Santos, João Paulo Santos, Genésio Pereira
da Silva e demais alunos já matriculados que não constam na relação
acima. *(DANTAS, 1949:04)
Depois de um intervalo de seis edições sem nenhuma publicação, as
organizações estudantis tomaram lugar no noticiário da “Gazeta”. Muitos destes eventos
foram tratados com destaque pelo jornal como é o caso da ação policial contra a UNE União Nacional dos Estudantes - órgão que naquela conjuntura sofria sérias restrições
governamentais.
As relações sociais se fortalecem ou se constroem em cima de um discurso
erguido. A linguagem possui uma representação social, a linguagem jornalística uma
representação ainda maior. Exerce uma influência significativa sobre os grupos e
organizações sociais. Servem também como instrumento de luta. A palavra transformase assim em uma representação de “[...] um instrumento que produz uma imposição
interiorizada, necessária lá onde falta o possível recurso à força bruta” (CHARTIER,
2002:75). Os embates travados pelo jornal geram um tipo de violência, mas geram uma
imposição que não recorre ao embate físico e assim os diversos setores da sociedade
seguem lutando por suas reivindicações.
Em defesa dos jovens estudantes sergipanos, o jornal abriu as suas páginas para
os próprios estudantes se posicionassem. A preocupação do jornal em contribuir para a
solução dos problemas dos estudantes é evidente
Para facilitar a solução desses problemas imediatos e mais
importantes há a necessidade de uma forte organização de todos os
jovens, afim de que, dentro de uma unidade de pensamento e ação,
possam convergir todas as suas forças e todo o seu entusiasmo, com o
fim de concretizar as suas mais aspirações. (DANTAS, 1949:04)
Acompanhando de perto a movimentação estudantil na realização de congressos,
a imprensa socialista representada por este jornal, lançou o seu protesto contra a
repressão aos estudantes. Evidenciar os acontecimentos do universo estudantil. Move o
capital cultural e também político. As sociedades são susceptíveis às mudanças e a
depender da conjuntura, as mudanças alteram o cenário e a cultura vigente. O grupo
estudantil é um grupo que reflete a cultura escolar, uma cultura produtora de
mentalidades. O jornal, critica, impõe, e move o capital cultural.
A “Gazeta” se direcionou para o movimento estudantil e os manifestos
estudantis registrando e defendendo a realização de congressos estudantis. Assim,
propôs aos estudantes a criação uma unidade em torno da qual deveriam se organizar e
escolher seus representantes para junto às autoridades, resolver os seus problemas mais
imediatos.
No sentido de unidade e organização de nossa juventude, a classe
estudantil tem dado passos vigorosos, e os resultados tem sido
animadores, de vez que têm concretizado importantes vitórias na
solução de seus problemas. A mocidade estudantil sergipana, que tem
um passado de lutas patrióticas e democráticas, ressente-se ainda de
usa falta de unidade e organização o que tem ocasionado o
agravamento dos seus problemas, que vão se acumulando e
dificultando em um maior e melhor desenvolvimento de classe.
(DANTAS, 1949:04)
O jornal argumenta que este tipo de organização contribui para a eliminação de
atrasos no desenvolvimento local. Provavelmente, esta solicitação tenha sido em
decorrência da restrição feita pelo governo para a realização do Congresso Estudantil.
O fato, que não foi divulgado pelo jornal, ou caso tenha sido, não foi localizado o
número, teve repercussão na Assembléia Legislativa, através do deputado Orlando
Dantas.
O representante do Legislativo solicitou que a Assembléia Legislativa exigisse
explicações do Secretário de Segurança Pública a respeito da negativa. De acordo com o
jornal, este foi um ato “[...] reacionário na formação da mentalidade estudantil [...]”
(DANTAS, 1949:01). A cultura escolar é uma cultura produtora de mentalidades,
repleta de representações “[...] a representação transformada em máquina de fabricar
respeito e submissão, em um instrumento que produz uma imposição interiorizada,
necessária lá onde falta o possível recurso à força bruta.” (CHARTIER, 2002:100) O
pedido de explicações foi negado, porém a Assembléia apelou para que o Secretário de
Segurança Pública permitisse o acontecimento. As notícias sobre este congresso ainda
apareceu mais uma vez no jornal, ainda sob forma de protesto.
Outro congresso que também chamou atenção da “Gazeta” ou para o qual a
“Gazeta” chamou a atenção foi a realização do II Congresso dos Estudantes Secundários
de Sergipe. A partir desta realização, segundo o jornal foi criada uma organização em
torno da qual os estudantes se reuniriam para deliberar sobre os problemas do grupo.
O II Congresso estudantil recentemente realizado nesta Capital
aprovou uma vibrante “declaração de Princípio”. A “União Sergipana
dos Estudantes Secundários”, órgão de classe fundado naquele
cetame, fica em vista disto obrigada a pautar a sua ação dentro dos
preceitos contido no Documento que dado a sua importância vai aqui
transcrito. (DANTAS, 1949:01)
Na seqüência, o texto do documento é divulgado. Devido à quebra na seqüência
das fontes, não é possível afirmar se esta organização foi instaurada a partir da sugestão
feita através do jornal, no momento em que solicitou que os estudantes sergipanos se
organizassem em torno de uma unidade. Na luta, os campos devem estabelecer maneiras
de lutar.
Uma organização que consiga reunir um número expressivo de pessoas
motivadas por interesses comuns, é detentora de forças. Tais forças, simbólicas, são
extremamente úteis nas relações de troca.
A realização ou o impedimento delas representaram, para o jornal os
acontecimentos mais relevantes no cenário estudantil do ano de 1949. Entretanto, ainda
neste ano, o jornal começa a destacar a realização de comemorações escolares, que se
torna a essência de suas publicações na década seguinte.
Entretanto, não apenas os congressos foram acompanhados pelo jornal durante
este período. Festas e homenagens escolares começaram a surgir no final do ano.
O primeiro destaque foi a comemoração do centenário de Ruy Barbosa realizado
pelo Colégio Estadual. Esta comemoração foi considerada pelo jornal como um evento
em que o civismo e o patriotismo eram as representações mais importantes para a
sociedade. Neste registro o jornal destaca também os discursos que depuseram sobre a
vida e obra de Ruy Barbosa, chamando a atenção para o conhecimento que o depoente
tinha sobre o homenageado. Com esta atitude é possível visualizar o interesse do jornal
em demonstrar o capital cultural que o conferencista detinha, ressaltando a importância
da manutenção de valores cívicos e morais, indicando indiretamente a figura de Ruy
Barbosa como exemplo a ser seguido.
Traçando a vida de Ruy Barbosa, o Dr. Manuel Ribeiro demonstrou,
com fatos, ter conhecimento profundo da vida do grande herói da
tribuna e conhecedor do direito internacional. A campanha civilista –
acrescentou o conferencista- empreendida por Ruy, foi o movimento
político de maior envergadura jamais desencadeada por um homem
político do seu tempo, e que despertou uma agitação profunda em todo
o país. (DANTAS, 1949:02)
O próximo evento merecedor da atenção do jornal foi a homenagem feita ao
professor Arthur Santana, da Escola Industrial de Aracaju, que se aposentava naquele
momento. O texto faz grandes elogios ao trabalho prestado pelo professor. Além do
homenageado, outros nomes de professores presentes no local são tratados
destacadamente como os professores Humberto Moura, José de Andrade, Josino de
Carvalho, Valter Tobias Filho e Leyda Régis. As representações sociais, o poder
simbólico e o capital cultural se expressam quando os agentes do campo em ação,
quando interagem, entre si. As manifestações culturais são métodos por onde estas
expressões também podem escoar e estabelecer novas relações. É possível visualizar as
representações e conformações dos sujeitos em determinado espaço social.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A imprensa escrita é permeada de informações importantes para a reconstituição
de práticas culturais que contribuem para a historiografia educacional.
Utilizando uma linguagem representativa que incorpora necessidades e responde
ou constrói interesses, legitimam situações. A força da representação do discurso
jornalístico e seus códigos geradores de símbolos provocam na sociedade reações
previstas, causando sérias modificações sócio-culturais.
Ao se dedicar a publicação das tensões sociais que envolvia o grupo estudantil, a
“Gazeta” contribuiu também para o fortalecimento de campo. É uma luta política e
como todo campo os embates são necessários. Os registros sobre as manifestações
comemorativas dão conta também dos estabelecimentos no campo, das relações sociais
construídas e chegam a demonstrar que não apenas o centro da notícia é detentor de
capital político, social e cultural, mas também aqueles que se envolvem ou prestigiam
os eventos possuem representação no meio. Destacando os nomes destas pessoas ou os
seus empreendimentos, o grupo jornalístico, se apropriando de determinadas
representações contribuem para a manutenção de relações ou estabelecimentos de outras
situações de conformação.
O desempenho do jornal “Gazeta Socialista” durante o ano de 1949, diante do
universo educacional contribui hoje para o redirecionamento na escrita da história da
educação. É possível apreender uma realidade educacional e estudantil, ou fazer a
reconstituição dos julgamentos de valor e conduta a partir do foi dito por este jornal.
No cenário sergipano, a proposta do jornal Gazeta Socialista de contribuir com
eventos do mundo educacional deixou uma dívida significativa, pois durante a maior
parte do ano de 1949, muitos exemplares ficaram sem lançar um único registro sobre os
acontecimentos relativos a educação.
REFERÊNCIAS
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GAZETA SOCIALISTA. Aracaju, 19 de novembro de 1949, nº 77
GAZETA SOCIALISTA. Aracaju, 26 de novembro de 1949, nº 78
GAZETA SOCIALISTA. Aracaju, 03 de dezembro de 1949, nº79. p. 02
GAZETA SOCIALISTA. Aracaju, 17 de dezembro de 1949, nº 81. p.01-04
NOTAS
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Este jornal foi criado por iniciativa de Orlando Vieira Dantas que também o dirigia. Devido ao fato de
muitos artigos não possuírem autoria, o diretor do jornal foi colocado como responsável pela publicação.
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