ISSN 1676-045X Vol. 11 – Nº 11 Jan/Dez 2012 REVISTA EXPECTATIVA - PUBLICAÇÃO DO CURSO DE SECRETARIADO EXECUTIVO - UNIOESTE/CAMPUS DE TOLEDO Editora-chefe Fabiana Regina Veloso Bíscoli Equipe de Avaliadores Dra. Andréia Schurt Rauber (UCPEL - RS) Dra. Carla Maria Schmidt (UNIOESTE - PR) Dra. Claudia Silva Estima (IFRS – RS) Dr. Erivaldo Pereira do Nascimento (UFPB - PB) Ms. Fabiana Regina Veloso Bíscoli (UNIOESTE - PR) Ms. Fernanda Landolfi Maia (UFPR - PR) Ms. Ivanete Daga Cielo (UNIOESTE – PR) Dra. Izabel Cristina Souza Gimenez (UNIOESTE - PR) Ms. Mara Christina Vilas Boas (IFPR – PR) Ms. Marlete Beatriz Maçaneiro (UNICENTRO - PR) Dra. Miréia Maria Joau de Carvalho (FSTA - BA) Dr. Moacir Jorge Rauber (Pelotas - RS) Ms. Nathalia Carvalho Moreira (UFV - MG) Dra. Rúbia Nara Rinaldi (UNIOESTE - PR) Ms. Sérgio Luiz Hillesheim (USP - SP) Dra. Silvana Anita Walter (FURB - SC) Dra. Zita Maria Alves Romero (ISCAP - Portugal) Editor de Layout Fernanda Cristina Sanches ENDEREÇO PARA CORRES PONDÊNCIA ENDEREÇO PARA PERMUTA Revista Expectativa Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE Rua da Faculdade, 645 – Jardim La Salle 85.903-000 / Toledo – Paraná . E-mail: [email protected] Biblioteca Universitária Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE Rua da Faculdade, 645 – Jardim La Salle 85.903-000 / Toledo – Paraná E-mail: [email protected] REVISTA EXPECTATIVA Publicação do Curso de Secretariado Executivo/Unioeste e do GPSEB – Grupo de Pesquisa em Secretariado Executivo Bilíngue Campus de Toledo Volume 11 – Nº 11 Toledo 2012 ©2012, dos autores Capa Fernanda Cristina Sanches Diagramação Fernanda Cristina Sanches Josmary Karoline Demko Alves Revisão Técnica Carla Maria Schmidt Fabiana Regina Veloso Bíscoli Revisão de Língua Estrangeira Maura Bernardon Ficha Catalográfica Marilene de Fátima Donadel – CBR 9/924 Expectativa / Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Campus de Toledo. Curso de Secretariado Executivo. v. I n. 1 (2001) – E96 Cascavel: EDUNIOESTE, 2001. Anual ISSN 1676-045X 1. Secretariado Executivo – Periódicos I. Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Campus de Toledo. Curso de Secretariado Executivo. CDD 20. ed. 651.05 Impressão e Acabamento Gráfica Universitária Rua Universitária, 1619 e-mail: [email protected] Fone (45) 3220-3085 Fax (45) 3324-4590 Cep. 85819-110 – Cascavel/PR Caixa Postal 701 SUMÁRIO EDITORIAL.........................................................................................................pg 7 ARTIGOS ÁREA SECRETARIAL COMPETÊNCIAS DECLARADAS PARA ATUAÇÃO DO PROFISSIONAL DE SECRETARIADO EXECUTIVO SOB A PERSPECTIVA DOS ACADÊMICOS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAPÁ-UNIFAP......................................................pg. 8 - 30 Alexandre Gomes Galindo Eduardo César Pereira Souza Iamile da Costa Carvalho AS FORMAÇÕES IMAGINÁRIAS NA CONSTITUIÇÃO DE IDENTIDADES DO SECRETÁRIO EXECUTIVO..........................................................................................pg. 31 - 40 Verônica Braga Birello Raquel Tiemi Mareco ATUAÇÃO DO BACHAREL EM SECRETARIADO EXECUTIVO EM CARGOS COM ATRIBUIÇÕES PRIVATIVAS A SUA CATEGORIA PROFISSIONAL: ESTUDO EM UMA EMPRESA DE GRANDE PORTE DO OESTE DO PARANÁ.......................pg. 41 - 58 Viviane Gaspar Borges Lawder Ednilse Maria Willers A VIRTUALIDADE NO MUNDO DO TRABALHO: UM ESTUDO SOBRE A ATUAÇÃO DO SECRETÁRIO EXECUTIVO VIRTUAL..............................................................pg. 59 - 82 Conceição de Maria Pinheiro Barros Liliane Silva Vasconcelos Joelma Soares da Silva Daniela Graciela Silva Brito Milício Custódio da Silva Filho ÁREA GESTÃO NAS ORGANIZAÇÕES INTELIGÊNCIA ORGANIZACIONAL COMO FERRAMENTA DE GESTÃO: UM REFERENCIAL INTEGRADO.................................................................................pg. 83 - 102 Rodrigo Müller Newton Correa de Castilho Junior A COMUNICAÇÃO INTERNA COMO RECURSO DE FORTALECIMENTO DA CULTURA ORGANIZACIONAL: UM ESTUDO DE CASO...................................pg. 103 - 122 Anna Puebla Vitkoski Fagotti Fabiana Regina Veloso Bíscoli A RELAÇÃO ENTRE COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL INTERNA E MOTIVAÇÃO: UM ESTUDO DE CASO EM UMA INSTITUIÇÃO DE ENSINO SUPERIOR................................................................................................................. pg. 123 - 144 Joelma Soares da Silva Francisco Roberto Pinto Jakcilene Dias Rocha Conceição de Maria Pinheiro Barros ÁREA LÍNGUAS/COMUNICAÇÃO A IMPORTÂNCIA DA POLIDEZ NA REDAÇÃO COMERCIAL.........................pg. 145 - 159 Huanda Helen Terrazas Loza Luzia Schalkoski Dias ISSN 1676-045x Volume XI – nº 11 - 2012 p. 07 EDITORIAL Fabiana Regina Veloso Bíscoli1 Esta edição da Revista Expectativa apresenta artigos que demonstram a inquietude dos autores acerca da identidade do profissional secretário executivo. Esta inquietude se reflete nas pesquisas que a cada ano vem se desenvolvendo entre pesquisadores da área. Isso demonstra a seriedade das discussões recentemente levantadas sobre a profissão, seja no âmbito acadêmico, no âmbito dos eventos ou de entidades de classe, os quais tem cumprido seu papel com magnitude. Eventos das entidades representativas e das universidades, representadas pelos coordenadores de curso e também pelos centros acadêmicos, tem oportunizado apresentação de trabalhos científicos sobre a inserção profissional nos vários setores de trabalho, assim como tem estimulado reflexões sobre qual o perfil condizente com a realidade profissional. Desta forma os debates voltam ao círculo acadêmico, às instancias de formação profissional, retomando uma reflexão acadêmica sobre quem somos, quem as entidades e as empresas pensam que somos, configurando assim uma imagem acerca deste profissional. A leitura dos artigos neste volume, levará o leitor a refletir: afinal quem é o secretário executivo, quais as possibilidades de atuação e como podemos pensar a profissão a partir da sua instância de formação. Os artigos estão dispostos de forma a apresentar inicialmente a reflexão sobre a identidade profissional, passando pelos questionamentos sobre a realidade do espaço que o secretário executivo ocupa ou deveria ocupar nas empresas e no mercado de trabalho. Em seguida a seção destinada à gestão das organizações contribui com propostas ferramentais à gestão empresarial, espaço por onde transita o Secretário Executivo e ainda na seção de comunicação um trabalho que enriquece a reflexão sobre o ferramental específico da sua área de atuação. Mais uma vez agradecemos aos avaliadores e autores envolvidos nesse volume do periódico e desejamos ao nosso público uma estimulante leitura. Professora efetiva da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Membro do Grupo de Pesquisa em Secretariado Executivo Bilíngue – GPSEB. Mestre em Administração pela Universidade Estadual de Londrina. Bacharel em Secretariado Executivo pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná. 1 ISSN 1676-045x Volume XI – nº 11 - 2012 p. 08-29 COMPETÊNCIAS DECLARA DAS PARA ATUAÇÃO DO PROFISSIONAL DE SEC RETARIADO EXECUTIVO SOB A PERSPECTIVA DOS ACAD ÊMICOS DA UNIVERSIDA DE FEDERAL DO AMAPÁ - UNIFAP Alexandre Gomes Galindo1 Eduardo César Pereira Souza2 Iamile da Costa Carvalho3 Resumo: O estudo visou identificar competências necessárias ao Secretário Executivo sob o ponto de vista dos acadêmicos da Universidade Federal do Amapá e analisar os respectivos atributos em relação às Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Graduação na área e ao Plano Pedagógico do Curso. Utilizou-se o Teste de Evocação de Palavras, solicitando aos sujeitos da pesquisa que mencionassem palavras relacionadas com competências (conhecimentos, habilidades e atitudes) para atuação do profissional no mercado. Os atributos nucleares identificados foram: língua portuguesa e estrangeira; informática e novas tecnologias; arquivologia; administração; economia; “atualidades”; liderança; saber trabalhar em equipe; solidariedade/parceria e agilidade; pró-atividade; flexibilidade; ética; criatividade; auto-desenvolvimento e responsabilidade. Usando pressuposto que atributos declarados sinalizam vetores de investimento em formação/desenvolvimento profissional, os resultados sinalizam necessidade de estudos para: a)identificar/superar lacunas na formação dos secretários executivos; b)estabelecer estratégias que tornem mais explícitas quais competências a serem desenvolvidas no curso e c)identificar competências entendidas como necessárias pelos profissionais que já estão no mercado e empresas demandantes. Palavras-Chave: Competências. Atuação Profissional. Secretariado Executivo. 1 2 3 E-mail: [email protected] E-mail: [email protected] E-mail: [email protected] Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 9 DECLARED COMPETENCES FOR ACTION OF EXECUT IVE SECRETARY PROFESSION AL ACCORDING TO ACADEMIC’S PERSPECTI VE OF FEDERAL UNI VER SITY OF AMAPÁ- UNIFAP Alexandre Gomes Galindo1 Eduardo César Pereira Souza2 Iamile da Costa Carvalho3 Abstract: The study aimed to identify necessary competences to the Executive Secretary according to the point of view of Federal University of Amapá’s academics and to analyze their respective attributes in relation to National Curriculum Guidelines for Graduation Courses in the area and Pedagogical Plan of Course. It was used the Evocation of Words Test, asking to the subjects of research to name words related with competences (knowledge, skills and attitudes) for action of the professional on job market. The nuclear attributes that have been identified were: mother language and foreign language; Informatics and new technologies; archives; administration, economics; “news”; leadership, teamwork, solidarity/partnership and agility, pro-activity, flexibility, ethics, creativity, self-development and responsibility. Using the assumption that declared attributes indicate vectors of investment in training/professional development, the results indicate a need of studies to: a) identify/overcome gaps in the training of executive secretaries; b) establish strategies to make more explicit what competences have to be developed in the course; and c) identify competences perceived as necessary by the professionals that are already on the market and demanding companies. Key-words: Competences. Professional Action. Executive Secretariat. 1 2 3 E-mail: [email protected] E-mail: [email protected] E-mail: [email protected] Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 10 1 INTRODUÇÃO Desde o meado do século XX, a sociedade global vem passando por significativas transformações provocadas pelo desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação, juntamente com as constantes mudanças nos paradigmas que fundamentam as estruturas e relações vinculadas aos processos produtivos. Estas mudanças têm impactado o mundo do trabalho, provocando o desaparecimento de funções e profissões consideradas importantes no passado e o surgimento de novas carreiras, entendidas como essenciais para o desenvolvimento de setores que atualmente se apresentam como economicamente e socialmente promissores. Neste cenário, a preparação e formação continuada do profissional tornaram-se elementos fundamentais, tanto para aumento da probabilidade individual de empregabilidade, quanto para o sucesso das organizações, na medida em que a educação permanente é entendida como estratégica básica de aquisição de competências. Vale destacar que tanto as Instituições de Ensino, quanto os próprios indivíduos e organizações tornam-se agentes ativos nesse processo de desenvolvimento e manifestação das competências profissionais necessárias para atender às diversas demandas que surgem dentro e fora das empresas. No âmbito do ensino, a percepção, por parte das Instituições, docentes e discentes, sobre as competências individuais necessárias para o melhor desempenho profissional é um fator imprescindível no ajuste dos instrumentos didáticos e intervenções pedagógicas durante o processo de formação. Percepções muito afastadas da realidade provocam formações equivocadas de egressos cujos perfis profissionais geralmente não contemplam vários elementos considerados como fundamentais ao exercício adequado das suas funções dentro de uma empresa. Por mais que as organizações e empresas, dos diversos setores e ramos de negócios existentes, sejam agentes capazes de expressar os atributos necessários para o atendimento de suas demandas específicas, no caso do secretariado executivo as Diretrizes Curriculares Nacionais, a Lei que regulamenta as atribuições da profissão e os Planos Pedagógicos de Curso são os elementos de referência mais utilizados para o planejamento e implementação dos processos formativos por parte das instituições de ensino. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 11 Usando como pressuposto que a percepção do aluno sobre os atributos necessários a sua efetiva atuação no mercado influencia e direciona parte significativa de seus esforços de aprendizagem, o presente estudo teve o objetivo de identificar as competências necessárias ao Secretário Executivo, sob o ponto de vista dos discentes da Universidade Federal do Amapá-UNIFAP, e analisar os respectivos atributos em relação às Diretrizes Curriculares Nacionais-DCN para os Cursos de Graduação na área e ao Plano Pedagógico do Curso-PPC. Os esforços de pesquisa se caracterizaram como sendo exploratórios, utilizando como instrumento o Teste de Evocação de Palavras, o qual solicitou aos sujeitos da pesquisa que mencionassem palavras/expressões relacionadas com competências (conhecimentos, habilidades e atitudes) necessárias para a atuação do profissional no mercado, através de questionário aplicado aos participantes do I Encontro de Egressos, Acadêmicos e Profissionais de Secretariado do Amapá em 2011. O tratamento quantitativo e qualitativo de dados envolveu análise de conteúdo; tabulação das frequências de evocações por ordem de ocorrência e triangulação entre atributos evocados e as competências estabelecidas nas Diretrizes Curriculares Nacionais e Projeto Pedagógico do Curso. Estudos sobre esta temática se tornam relevantes na medida em que apresentam elementos capazes de subsidiar ajustes mútuos envolvendo alunos na condução de seus processos de formação, instituições de ensino na estruturação/implementação de seus projetos de curso e mercado no desenvolvimento e aprimoramento de competências expressas em sua dinâmica. Dando continuidade a esta parte introdutória, o presente artigo realiza uma exposição teórica sobre a relação do secretário executivo com o mercado de trabalho contemporâneo e logo após, são descritos os aspectos metodológicos e realizada a análise/discussão dos dados e evidências obtidas. Nas últimas seções do trabalho, são apresentadas as considerações finais e referências utilizadas na pesquisa. 2 O PROFISSIONAL DE MERCADO DE TRABALHO SECRETARIADO EXECUTIVO NO É inevitável conceber que nos dias de hoje as organizações que obtém sucesso em seus propósitos consideram o homem como elemento fundamental na construção dos processos vitoriosos. Entretanto, a dinâmica da sociedade contemporânea se caracteriza pela elevada Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 12 intensidade das relações existentes e da velocidade com que as decisões são tomadas em função do desenvolvimento acelerado das tecnologias de comunicação e informação. As características que delineiam a época atual, denominada de Era da Informação, ou do Conhecimento, debatida por autores desde meado do século XX (TOFFLER, 2001; CASTELLS, 1999a, 1999b, 1999c & FRIEDMAN, 2005), apontam reincidentemente para uma sociedade global em constante transformação e desenvolvimento tecnológico nas diversas áreas de conhecimento, tornando, conseqüentemente, cada vez mais inadequado a utilização de modelos baseados em uma concepção industrial/mecânicista de mundo. No âmbito do mercado de trabalho, as mudanças nas últimas décadas têm provocado um contínuo desaparecimento de funções e profissões consideradas importantes no passado e o surgimento de novas carreiras, entendidas como essenciais para o desenvolvimento de setores que atualmente se apresentam como economicamente e socialmente promissores, gerando novas oportunidades e desafios. Para Réginer e Arroio (2001, p.2), além do processo de globalização e disseminação das inovações, as transformações no papel dos Estados, a disseminação do individualismo e a crescente participação feminina no mercado são fatores que contribuem para essa nova realidade do trabalho, tendo como impactos “o aumento do nível de desemprego, o crescimento da informalização nas relações trabalhistas, o deslocamento setorial do emprego e a transformação nos requisitos funcionais, com a exigência de novas habilidades e competências”. Quando se fala de competência individual como qualidade, vale destacar que ela deve ser entendida não como uma relação estática de atributos, pois na prática ela se manifesta na efetividade contextualizada da interação entre a pessoa, sua formação e sua experiência profissional, gerando valores econômico e social, conforme destacam Fleury e Fleury (2001). Segundo os autores, a competência se caracteriza como “um saber agir responsável e reconhecido, que implica mobilizar, integrar, transferir conhecimentos, recursos e habilidades, que agreguem valor econômico à organização e valor social ao indivíduo” (FLEURY & FLEURY, 2001, p. 188), conforme representado na figura 1. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 13 Figura 1: Competências como fonte de valor para o indivíduo e para organização Fonte: Fleury e Fleury (2001) Sobre este ponto de vista, percebe-se que os aspectos essenciais envolvidos com os atributos geradores de valor estão diretamente relacionados com as ações implementadas em determinado contexto, podendo ser estudados sobre as perspectivas do indivíduo, do grupo e/ou da organização, entendidos como elementos de uma Gestão de Desempenho Baseada nas Competências, conforme sugere Brandão e Guimarães (2001). No Brasil, várias pesquisas têm sido realizadas desenvolvendo olhares diferenciados sobre as diversas perspectivas que compõe a competência como construto. Em uma análise da produção científica brasileira sobre este tema, Brandão (2007) identificou que a maioria dos artigos revisados buscava identificar e descrever elementos constitutivos das competências profissionais (conhecimentos, habilidades e atitudes) relevantes em contextos, organizações ou papeis ocupacionais específicos. Mesmo sendo possível perceber uma tendência de crescimento do interesse de pesquisadores sobre o tema, o referido autor identificou lacunas ainda não exploradas e sugere várias temáticas que poderiam ser objetos de pesquisa, dentre as quais, a realização de investigações sobre competências relevantes às categorias profissionais ainda pouco estudadas e em função de mudanças na natureza das ocupações. A profissão de secretário executivo surge como objeto relevante de estudo desde o meado do século XX, visto que por profundas transformações advindas da nítida incorporação deste profissional na gestão de processos organizacionais, deixando de ser visto apenas como executor de rotinas ou elemento de apoio executivo (DURANTE et al., 2007). Conforme afirma Sabino e Rocha (2004), o referido profissional tem a possibilidade de assumir, no mercado de trabalho, funções de assessor, gestor, empreendedor e consultor sendo considerado como agente capaz de desempenhar uma ampla variedade de papeis dentro da organização. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 14 Ao se analisar as atribuições do secretário executivo especificadas na Lei que regulamenta a profissão (BRASIL, 1985) verifica-se a nítida aproximação deste profissional com os processos de assessoramento das esferas deliberativas da gestão, ao ampliar as atividades originalmente regulamentadas (BRASIL, 1978), que restringia as suas atribuições apenas aos âmbitos mais operacionais vinculados aos serviços de escritório. Neiva e D´elia (2009) descrevem as características desta mudança de perfil destacando que a incorporação da autonomia decisória nas atividades vinculadas às várias esferas de gestão atingidas pelo exercício profissional do secretário representa um dos principais fatores de ampliação do horizonte de suas atribuições dentro da organização (QUADRO 1). Quadro 1- Perfil do Profissional Secretário ANTERIORMENTE ATUALMENTE Coordenação do sistema de informação com o uso de Digitação. rotinas automatizadas (editores de texto, agendas, telefone e banco de dados). Coordenação do fluxo de papeis no departamento e Envio e recebimento de triagem, bem como decisões sobre assuntos de correspondência. rotina. Provisão, para o Coordenação de compras, cotação de preços com departamento, de material fornecedores alternativos e administração de custos necessário à realização da do departamento. rotina administrativa. Sistemas integrados (rede) fazem esse trabalho. O Organização de reuniões. secretário programa os equipamentos, organiza a infra-estrutura e participa de muitas delas. Atendimento global ao cliente, exigindo maior Atendimento ao telefone. conhecimento da empresa e de seus clientes. Organização do sistema de dados e informações em Manutenção de arquivos. arquivos manuais e eletrônicos. Fonte: Neiva e D´elia (2009) Segundo Tagliari e Durante (2009), existe uma estreita ligação entre as competências consideradas necessárias para o exercício das atividades gerenciais e àquelas que são indicadas como características para o exercício das atividades secretariais, evidenciando que o profissional de secretariado também é um gestor que atua em várias esferas e níveis organizacionais. Ao comparar estudos que apontaram competências específicas ao exercício das atividades de gestão e de secretariado executivo isoladamente, os autores identificaram 15 atributos comuns que vinculam esse profissional como gestor dentro das organizações, conforme se pode observar no quadro 2. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 15 Quadro 2- Atributos que vinculam o exercício das atividades de secretariado executivo e com as atividades de gestão. 1- Visão Estratégica 8- Motivação 2- Planejamento 9- Processo Decisório (Tomada de Decisão) 3- Organização 10- Negociação 4- Controle 11- Pró-atividade (dinamismo/iniciativa) 5- Liderança 12- Criatividade 6- Trabalho em Equipe 13- Flexibilidade (Adaptação a Mudanças) 7- Comunicação 14- Competência Interpessoal (gerenciamento de informações) (autocontrole/gerenciamento de conflitos) Fonte: Tagliari e Durante (2009) O processo de transformação de paradigma foi também percebido por Moura (2008) através das tendências de mudança na atuação, no cargo e nas competências individuais manifestadas pelos profissionais de secretariado executivo pesquisados, na medida em que os respectivos profissionais exercem atividades com maior domínio em conhecimento e instrumentalidades no desenvolvimento e apoio às atividades-fim da organização. Inclusive, Wada (2007) aponta o profissional de secretariado como potencial agente intermediador em processos de empowerment nas organizações, devendo possuir comunicação eficiente e eficaz, flexibilidade e visão sistêmica capazes de iniciar as mudanças organizacionais desejadas. Para Bortolotto e Willers (2005), o secretário executivo possui características que lhe conduzem a um perfil identificado como eclético, polivalente e multifuncional, composto por um conjunto de atributos envolvendo flexibilidade; criatividade; liderança; dinamismo; iniciativa; eficiência; discrição; cooperativismo; ética; comprometimento; tomada de decisão e paciência, entendida como resiliência nos estudos de Martins et al. (2011) e Ragazzi (2011). A potencialidade de atuar em diversos setores organizacionais e ramos da economia é apontada por Santos e Moretto (2011) como um dos fatores de crescimento da quantidade de profissionais de secretariado executivo com empregos formais no Brasil registrados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, conforme dados apresentados na tabela 1. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 16 Tabela 1: Evolução do número de profissionais secretários executivos empregados formalmente no país, por macrorregião nos anos de 2003 até 2010 Centro Ano Norte Nordeste Sudeste Sul Total Oeste 2003 4.256 16.959 45.900 14.746 10.156 92.026 2004 5.464 17.949 46.970 15.392 11.471 97.246 2005 6.533 21.184 51.504 17.449 12.803 109.473 2006 6.701 21.699 53.348 17.749 13.644 113.141 2007 8.769 23.050 56.558 18.613 13.952 120.972 2008 8.843 23.974 56.486 19.616 15.343 124.262 2009 10.846 25.225 60.822 21.662 17.159 135.714 2010 12.237 30.801 63.633 22.926 18.283 147.880 Fonte: Santos e Moretto (2011) Os autores também ressaltam que os níveis de emprego formal encontrados, ao analisar o profissional de secretariado executivo, acompanham o mesmo padrão de comportamento do PIB, sinalizando que a economia também pode ser considerada como um dos fatores influenciadores nesta tendência de crescimento. Para Nascimento et al. (2005), o nível de qualificação profissional, as habilidades profissionais e a capacidade de trabalhar em equipe são elementos essenciais que ampliam a probabilidade do profissional ser absorvido pelo mercado, alertando para o fato de que é responsabilidade de cada um o esforço para desenvolvimento de suas competências individuais. Esta responsabilidade também é entendida como elemento básico por Nunes e Souza (2010) ao alertarem para o fato de que, por mais que a formação acadêmica proporcione o conhecimento de assuntos direcionados e importantes para ingressar no mercado de trabalho, não garante, por si só, a obtenção de competências efetivas. O desenvolvimento contínuo de conhecimentos, habilidades e atitudes capazes de agregar valores para a organização torna-se crítico para a penetração do profissional em um mercado cada vez mais exigente e dinâmico. Sabino e Andrade Júnior (2011) identificaram que, na opinião de gestores, o grau de empregabilidade depende fundamentalmente dos conhecimentos técnicos específicos do campo de atuação do secretário executivo, da capacidade do profissional em se relacionar com as pessoas, da destreza em redigir e do domínio de idiomas. Vale destacar que o estágio durante a formação foi apontado neste estudo como importante meio de preparação para um desempenho satisfatório no início da carreira do profissional no mercado. Também foram considerados como importantes, nos estudos de Mellati et al. (2008), a necessidade de conhecimentos sólidos na área; bem como a realização de estágio e a participação em projetos/atividades temporárias durante a formação. Entretanto, os respectivos autores Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 17 identificaram que a demonstração de raciocínio lógico; de boa aparência pessoal e da disponibilidade de início imediato foram os atributos comportamentais que mais se destacam durante o processo de seleção, seguidos de equilíbrio emocional; habilidade de relacionamento interpessoal; senso de equipe; discrição; visão de negócios; pró-atividade e estabilidade financeira e familiar. Neste mesmo estudo, verificou-se também que as competências profissionais mais valorizadas pelas organizações durante os seus processos de geração de valor foram à comunicação; iniciativa; organização; ética; relacionamento interpessoal; trabalho em equipe; flexibilidade; foco em resultado; tomada de decisão; visão global; capacidade de trabalhar sob pressão; capacidade de negociação/persuasão e solução de conflitos. No que se refere à conquista de cargos de chefia, Cardoso e Dias (2011) afirmam que toda a base de conhecimentos teóricos obtida nas diversas disciplinas do currículo, bem como as experiências, o desempenho e as habilidades adquiridas no decorrer da vida profissional são imprescindíveis. As autoras também destacam que a preocupação com um constante aperfeiçoamento pessoal; o perfil de liderança; a objetividade; a organização; a visão de mercado e pró-atividade são atributos fundamentais ao profissional que assume funções com níveis maiores de responsabilidade. Entretanto, cada tipo de organização possui peculiaridades em função da natureza de suas atividades exigindo, em alguns casos, atributos específicos para a incorporação de profissionais em setores especializados ou em níveis elevados da estrutura organizacional. Este fato foi observado por Grando et al. (2007) ao perceberem que gestores de algumas instituições financeiras consideraram como prioritário ao secretário executivo ter conhecimentos principalmente em finanças e sequencialmente nas áreas de gestão, direito, economia e por fim técnicas secretariais. Frente a estes resultados, os autores constataram haver a necessidade do aumento dos níveis de preparação dos profissionais sobre as diversas áreas potenciais de atuação, bem como da divulgação constante dos cursos de formação e das características que definem o profissional de secretariado executivo, visto que muitas empresas ainda possuem uma imagem limitada do seu campo de atuação. Tendo em vista que a formação acadêmica, juntamente com capacidade de gerar resultados efetivos, são condições basilares para a penetração do profissional no mercado de trabalho e sucesso profissional dentro de uma organização, torna-se necessário que os agentes que integram as Instituições de Ensino, os profissionais que atuam no mercado, bem como as organizações e empresas direcionem esforços regulares no estudo das competências individuais que devem ser manifestadas em seus processos de geração de valor. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 18 Esta aproximação entre instituições de ensino, profissionais e mercado é entendida como de fundamental importância por Bortolotto e Willers (2005), Moura (2008), Sabino e Andrade Júnior (2011) e Mellati et al. (2011), na medida em que a percepção sobre os atributos necessários à efetiva atuação do secretário executivo no mercado influencia e direciona parte significativa dos esforços de aprendizagem e desenvolvimento de todos os agentes envolvidos. 3 AS FORMAÇÕES IMAGINÁ RIAS IDENTIDADES DISCURSIVAS NA CONSTITUIÇÃO DE A presente pesquisa teve o objetivo de identificar as competências necessárias para a atuação do profissional de secretariado executivo no mercado de trabalho, conforme o ponto de vista de acadêmicos da Universidade Federal do Amapá-UNIFAP, e analisar os atributos apontados como necessários para atuação do profissional no mercado, tendo como base as Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Graduação na área (BRASIL, 2005) e o Plano Pedagógico do Curso de Secretariado Executivo da UNIFAP. O estudo se caracteriza como sendo exploratório, envolvendo a integração de elementos característicos dos paradigmas funcionalista e interpretativista dos estudos organizacionais, utilizando abordagens quantitativas e qualitativas para tabulação e análise de dados/evidências. Os sujeitos da pesquisa integraram uma amostra não probabilística de 36 discentes que participaram do I Encontro de Egressos, Acadêmicos e Profissionais de Secretariado do Amapá, em junho de 2011, na Universidade Federal do Amapá, representando o equivalente a 29% dos presentes no evento. Para identificação das competências, utilizou-se a técnica denominada Teste de Evocação de Palavras (VERGARA, 2005), que consiste da coleta de dados em que o pesquisador solicita aos sujeitos da pesquisa que mencionem, oralmente ou por escrito, um determinado número de palavras relacionadas a uma expressão indutora. No caso desta pesquisa, foram aplicados questionários com expressões indutoras relacionadas à necessidade de conhecimentos, habilidades e atitudes para que o secretário executivo desempenhe adequadamente suas funções nas empresas conforme, apresentadas no quadro 3. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 19 Quadro 3- Expressões indutoras do teste de evocação de palavras aplicado na pesquisa. Cite, nos quadros a seguir, até 10 Palavras-Chaves relacionadas com os principais conhecimentos, habilidades e COMANDO GERAL atitudes necessárias para a atuação do profissional de Secretariado no Mercado. QUADRO DE As informações que o profissional deve possuir para atender CONHECIMENTOS às exigências do mercado. QUADRO DE As aptidões e capacidades propriamente ditas para o HABILIDADES desempenho das atividades profissionais. QUADRO DE As características relacionadas com a predisposição do ATITUDES profissional para agir, isto é, sua postura e maneira de agir. Fonte: Própria pesquisa Após a coleta, os dados foram agrupados por categoria em duas etapas distintas. A primeira etapa consistiu em realizar ajuste intrarespondente através de transferências de evocações, quando o atributo citado, por sua natureza, não se enquadrava na categoria em que a resposta foi preenchida. Na segunda etapa procedeu-se o agrupamento geral, e por categoria, de todos os atributos em frequência de evocação por ordem de ocorrência. Logo após foram realizados, para cada categoria estudada (conhecimentos, habilidades e atitudes), os cálculos do Total das Frequências de Evocação por Ordem de Ocorrência (SOMA) e da Ordem Média de Evocação (OME) visando estratificar os atributos em Nucleares; Próximos ao Núcleo pela Frequência, ou Ordem de Citação, e Periféricos. Com o propósito de analisar as características representativas da percepção dos alunos, relacionadas com a atuação do profissional no mercado, realizou-se triangulação de dados, através da comparação dos diversos estratos identificados como conhecimentos, habilidades e atitudes entre si, e em relação às competências apontadas como fundamentais nas Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Secretariado Executivo e Projeto Pedagógico do Curso da UNIFAP. 4 RESULTADOS E DISCU SSÃO Após a estratificação dos atributos elencados, verificou-se que Língua Estrangeira, juntamente com Informática, Arquivologia, Língua Portuguesa, Economia, Técnicas Secretariais, Tecnologias, Administração e Atualidades, foram considerados como conhecimentos nucleares para a Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 20 atuação do profissional de secretariado executivo no mercado, conforme apresentado no quadro 4. Quadro 4- Diagrama de evocação sobre os conhecimentos considerados necessários para atuação do profissional de secretariado no mercado. ATRIBUTOS NUCLEARES SOMA OME Língua Estrangeira (Idiomas) Informática Arquivologia Língua Portuguesa Economia Técnicas secretariais Recursos TecnológicosTecnologias Administração Conhecimentos Gerais(atualidades) ATRIBUTOS PRÓXIMOS AO NÚCLEO PELA ORDEM DE CITAÇÃO 25 21 8 11 8 9 3.08 3.10 3.25 3.64 3.88 4.22 9 22 4.33 4.59 Conhecimento da área que atua Conhecimento do Código de Ética Gestão Secretarial Técnicas de Assessoria Executiva Empreendedorismo 19 4.79 SOMA OME 5 5 2 5 3 2.20 3.40 3.50 3.60 4.33 ATRIBUTOS PRÓXIMOS AO NÚCLEO PELA FREQUÊNCIA DE CITAÇÃO SOMA OME Técnicas de Redação Oficial 9 6.11 Cerimonial 8 6.25 ATRIBUTOS PERIFÉRICOS SOMA OME Elaboração e Gerencia de Projetos Política Gestão de Pessoas Organização de eventos Matemática Financeira Estatística Protocolo Direito (legislação) Etiqueta Sociologia Técnicas de Consultoria Didática para Treinamentos 5 4 4 3 3 4 3 7 4 2 2 1 5.00 5.25 5.25 5.33 5.67 5.75 6.00 6.14 7.25 8.00 8.00 8.00 Legenda: SOMA = Total das frequências de evocação por ordem de ocorrência. OME = Ordem Média de Evocação Nota: Frequência Média de Evocação (7,41); Média das Ordens Médias de Evocação (4,95) Fonte: Própria pesquisa Quando se analisa esses atributos nucleares sob a perspectiva dos campos de conhecimento estabelecidos pelas Diretrizes Curriculares Nacionais, observa-se que alguns conteúdos básicos (informática e economia) se destacaram. Entretanto, na medida em que os atributos que se enquadraram próximo ao núcleo são incorporados na análise, verifica-se que os conhecimentos específicos indicados pelas Diretrizes Curriculares foram considerados como predominantes para atuação do profissional no mercado. Os resultados se alinham com evidências encontradas nos trabalho de Sabino e Andrade Júnior (2011) e Mellati et al. (2008), ao verificarem que a necessidade do profissional possuir uma plataforma sólida e atualizada de conhecimentos específicos na sua área de atuação é considerada como elemento primordial para a inserção do secretário executivo no mercado. As Instituições de Ensino devem estar Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 21 constantemente promovendo esforços voltados avaliação do perfil de seu egresso, atualizando seus programas, de tal forma, que instrumentalizem o discente com conhecimentos que possibilitem uma sólida e consistente inserção na sociedade como profissional na esfera privada e pública. No que se refere às aptidões e capacidades necessárias ao desempenho das atividades profissionais, houve o destaque da liderança, seguida da capacidade de saber trabalhar em equipe, solidariedade e agilidade como habilidades nucleares para o bom desempenho profissional (QUADRO 5). Quadro 5- Diagrama de evocação sobre as habilidades consideradas necessárias para atuação do profissional de secretariado no mercado ATRIBUTOS NUCLEARES SOMA OME Liderança Saber Trabalhar em Equipe Solidariedade/Parceria Agilidade ATRIBUTOS PRÓXIMOS AO NÚCLEO PELA ORDEM DE CITAÇÃO 40 12 10 11 4.23 4.42 4.50 4.64 SOMA OME 1.00 3.00 3.14 3.33 3.78 4.00 4.11 Capacidade de Delegação Administração de Diversidades Capacidade de Decisão Persuasão Organizado Foco Integração/Polivalência 1 2 7 3 9 6 9 ATRIBUTOS PRÓXIMOS AO NÚCLEO PELA FREQUÊNCIA DE CITAÇÃO Ser Comunicativo Relacionamento Interpessoal Realizador Administração do Tempo SOMA OME 24 29 15 23 4.67 4.79 5.33 5.65 ATRIBUTOS PERIFÉRICOS SOMA OME Inovação (Capacidade de Inovar) Capacidade de Planejamento Controle da Agenda Executiva Lidar com novas Tecnologias Visão Estratégica Saber Administrar Conflitos Aparência Pessoal Gerenciamento de Informações Negociação Saber resolver Problemas Autogerenciamento 4 7 9 1 9 5 8 2 4 2 1 4.75 4.86 5.00 5.00 5.11 5.20 5.25 6.00 6.50 7.00 7.00 Legenda: SOMA = Total das frequências de evocação por ordem de ocorrência. OME = Ordem Média de Evocação Nota: Frequência Média de Evocação (9,73); Média das Ordens Médias de Evocação (4,70) Fonte: Própria pesquisa Os resultados indicam que a capacidade de estar à frente da condução de grupos de pessoas com objetivo de atingir metas organizacionais através de uma abordagem caracterizada pelo entendimento interpessoal, integração entre colaboradores e eficácia se destaca como qualidade essencial. Este quadro remete à compreensão de que o profissional de secretariado executivo é visto como um agente ativo no processo de gestão, tendo uma relação estreita com as pessoas que integram a organização. Essas habilidades estão diretamente relacionadas com algumas atribuições estabelecidas pela regulamentação do exercício da profissão de secretário (BRASIL, 1985), em especial no que se refere ao planejamento, organização e direção dos serviços de secretaria; assistência e assessoramento direto a executivos e coleta de informações para a consecução de objetivos e metas da empresa. Vale destacar, que saber lidar Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 22 com o fator humano foi identificado por Nascimento et al. (2005), Sabino e Andrade Júnior (2011) e Mellati et al. (2008) como elemento crítico nos processos de admissão e crescimento do profissional de secretariado executivo no mercado de trabalho, devendo haver uma preocupação constante das instituições de ensino em proporcionarem o aprimoramento das habilidades vinculadas com o desenvolvimento saudável e produtivo das relações inter-pessoais. Sob a perspectiva da predisposição, postura e maneira de agir, os resultados indicaram a pró-atividade, flexibilidade, ética, criatividade, busca de autodesenvolvimento e responsabilidade como atitudes nucleares necessárias para o profissional de secretariado executivo, conforme quadro 6. Quadro 6- Diagrama de evocação sobre as atitudes consideradas necessárias para atuação do profissional de secretariado no mercado ATRIBUTOS NUCLEARES SOMA OME Pró-atividade Flexibilidade (ser Flexível) Ética (ser Ético) Criatividade Autodesenvolvimento Responsabilidade ATRIBUTOS PRÓXIMOS AO NÚCLEO PELA ORDEM DE CITAÇÃO 42 20 24 14 12 11 3.24 3.45 3.50 3.50 3.75 4.09 SOMA OME Gostar do que faz Motivação Ter Bom Senso Boa Aparência Empatia Respeito/Cordialidade 1 8 3 2 1 10 1.00 3.50 4.00 4.00 4.00 4.10 ATRIBUTOS PRÓXIMOS AO NÚCLEO PELA FREQUÊNCIA DE CITAÇÃO SOMA OME Autocontrole Resiliência Comprometimento 11 11 26 4.55 5.82 5.00 ATRIBUTOS PERIFÉRICOS SOMA OME Discrição Saber Ouvir Atitude Empreendedora Integridade Humildade Disposição para Aprender Ser Confiante Estar apto as mudanças Intuição (Intuitivo) 10 4 7 8 4 5 10 6 1 4.60 4.75 4.86 5.13 5.50 5.60 5.70 5.83 6.00 Nota: Frequência Média de Evocação (10,46) Média das Ordens Médias de Evocação (4,39) Abreviações utilizadas: SOMA = Total das frequências de evocação por ordem de ocorrência. OME = Ordem Média de Evocação Fonte: Própria pesquisa As atitudes nucleares identificadas coincidem com parte das características que compõe o perfil esperado do secretário executivo apontadas por Willers (2005) e Mellat et al. (2008). Vale destacar que as atitudes de pró-atividade, flexibilidade e criatividade são apontadas por Tagliari e Durante (2009) como atributos que vinculam profundamente este profissional à esfera do exercício das atividades gerenciais.Compete às Instituições de Ensino investir com mais intensidade no desenvolvimento Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 23 de competências representativas da esfera atitudinal, com o propósito de preparar o futuro profissional de secretariado para atuar de maneira objetiva no ambiente gerencial, acompanhando as constantes transformações e gerando resultados efetivos. Sob o ponto de vista geral, os resultados indicam o perfil percebido do secretário executivo como sendo de um profissional que necessita ser ativo, polivalente e com profundo conhecimento nas áreas de técnicas secretariais, gestão e idiomas, conforme também sinalizam os trabalhos de Neiva e D´élia (2009) e Bortolotto e Willers (2005). As competências que foram identificadas no presente estudo estão relacionadas no quadro 7. Quadro 7-Conjunto de competências percebidas como necessárias para a atuação do profissional de secretariado executivo no mercado ATRIBUTOS HABILIDADES ATITUDES LIDERANÇA SABER TRABALHAR EM EQUIPE SOLIDARIEDADE/PARCERIA AGILIDADE PRÓ-ATIVIDADE FLEXIBILIDADE (SER FLEXÍVEL) ÉTICA (SER ÉTICO) CRIATIVIDADE AUTODESENVOLVIMENTO RESPONSABILIDADE INTERMEDIÁRIOS TÉCNICAS DE REDAÇÃO OFICIAL CERIMONIAL CONHECIMENTO DA ÁREA QUE ATUA CONHECIMENTO DO CÓDIGO DE ÉTICA GESTÃO SECRETARIAL TÉCNICAS DE ASSESSORIA EXECUTIVA EMPREENDEDORISMO SER COMUNICATIVO RELACIONAMENTO INTERPESSOAL REALIZADOR ADMINISTRAÇÃO DO TEMPO CAPACIDADE DE DELEGAÇÃO ADMINISTRAÇÃO DE DIVERSIDADES CAPACIDADE DE DECISÃO PERSUASÃO ORGANIZADO FOCO INTEGRAÇÃO/POLIVALÊNCIA AUTOCONTROLE COMPROMETIMENTO RESILIÊNCIA GOSTAR DO QUE FAZ MOTIVAÇÃO TER BOM SENSO BOA APARÊNCIA EMPATIA RESPEITO/CORDIALIDADE PERIFÉRICOS ELABORAÇÃO E GERENCIA DE PROJETOS POLÍTICA GESTÃO DE PESSOAS ORGANIZAÇÃO DE EVENTOS MATEMÁTICA FINANCEIRA ESTATÍSTICA PROTOCOLO DIREITO (LEGISLAÇÃO) ETIQUETA SOCIOLOGIA TÉCNICAS DE CONSULTORIA DIDÁTICA PARA TREINAMENTOS CAPACIDADE DE INOVAR CAPACIDADE DE PLANEJAMENTO CONTROLE DA AGENDA EXECUTIVA LIDAR COM NOVAS TECNOLOGIAS VISÃO ESTRATÉGICA SABER ADMINISTRAR CONFLITOS APARÊNCIA PESSOAL GERENCIAMENTO DE INFORMAÇÕES NEGOCIAÇÃO SABER RESOLVER PROBLEMAS AUTOGERENCIAMENTO DISCRIÇÃO SABER OUVIR ATITUDE EMPREENDEDORA INTEGRIDADE HUMILDADE DISPOSIÇÃO PARA APRENDER SER CONFIANTE ESTAR APTO AS MUDANÇAS INTUIÇÃO (INTUITIVO) NUCLEARES CONHECIMENTOS LÍNGUA ESTRANGEIRA (IDIOMAS) INFORMÁTICA ARQUIVOLOGIA LÍNGUA PORTUGUESA ECONOMIA TÉCNICAS SECRETARIAIS RECURSOS TECNOLÓGICOS-TECNOLOGIAS ADMINISTRAÇÃO CONHECIMENTOS GERAIS-(ATUALIDADES) Fonte: Própria pesquisa Vale destacar que as DCN indicam características que devem ser desenvolvidas nos cursos de graduação e o curso de secretariado executivo da UNIFAP incorpora integralmente as respectivas Diretrizes em seu Plano Pedagógico. Desta forma, quando as competências nucleares e intermediárias, acima apresentadas, são comparadas com os atributos apontados pelas Diretrizes Nacionais e Plano Pedagógico do Curso (QUADRO 8), percebe-se que, por mais que os atributos declarados contemplem maior parte das competências estabelecidas nas Diretrizes e Plano, as seguintes competências não foram amplamente percebidas como Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 24 fundamentais: a)Abertura às mudanças e capacidade de articulação, de acordo com as especificidades e exigências estabelecidas pelas organizações; b)Habilidade de lidar com modelos inovadores de gestão; c)Gerenciamento de informações, assegurando uniformidade e referencial para diferentes usuários e d)Capacidade de maximização e otimização dos recursos tecnológicos. Quadro 8-Comparação entre as competências percebidas e as indicadas pelas DCN e o Plano Pedagógico do Curso de Secretariado Executivo da UNIFAP Fonte: Própria pesquisa Este fato aponta para a necessidade da Universidade tornar sempre explícita quais competências devem ser desenvolvidas na formação dos secretários executivos, para que, tanto os discentes, quanto os docentes direcionem adequadamente seus esforços nas diversas oportunidades de consolidar o aprimoramento destas qualidades durante os processos de ensino-aprendizagem. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 25 5 CONSIDERAÇÕES FINA IS O presente estudo teve o objetivo de identificar competências necessárias ao Secretário Executivo sob o ponto de vista dos acadêmicos da Universidade Federal do Amapá e analisar os respectivos atributos em relação às Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Graduação na área e ao Plano Pedagógico do Curso. Os resultados apontaram para a importância do desenvolvimento dos conteúdos específicos na formação profissional, com destaque em idiomas (nacional e estrangeiro), em gestão e em técnicas secretariais. A liderança, o trabalho em equipe, a parceria e a agilidade foram identificados como habilidades fundamentais para o exercício do profissional de secretariado no mercado e a pró-atividade, a flexibilidade e a ética se destacaram como atitudes imprescindíveis, tanto para a admissão, quanto para o crescimento deste profissional nas organizações. Entretanto, por mais que os atributos apontados pelos discentes contemplem a maioria das competências indicadas pelas Diretrizes Curriculares e Plano Pedagógico do Curso, verificou-se que as capacidades de lidar com as mudanças, com as inovações, com a otimização de recursos tecnológicos e com o gerenciamento de informações não foram indicadas com destaque pelos alunos. Estas lacunas de percepção em relação às competências do secretário executivo remetem às seguintes questões: São realmente lacunas de percepção do discente, ou não são competências que devam ser categorizadas em destaque? A universidade está, ou não, desenvolvendo e deixando explícitas estas competências durante seus processos de formação? O mercado e a sociedade estão, ou não, considerando e apresentando claramente estas qualidades como competências essenciais? Visto que as competências individuais manifestadas representam uma configuração contextual determinada pela diversidade das demandas organizacionais, há necessidade de um diálogo permanente sobre o perfil do secretário executivo entre Instituições de Ensino Superior, profissionais atuantes no mercado, empresas e organizações públicas e privadas, visando identificar, desenvolver e aperfeiçoar conteúdos, habilidades e atitudes necessárias às diversas circunstâncias, esferas, áreas e setores de atuação. Usando o pressuposto de que atributos declarados sinalizam vetores de investimento em formação e desenvolvimento profissional, os resultados também sinalizam a necessidade de estudos voltados para: a) identificar e superar lacunas na formação dos secretários executivos da UNIFAP usando como referência as Diretrizes Curriculares Nacionais e Plano Pedagógico; b) estabelecer estratégias educacionais que tornem mais explícito quais competências a serem desenvolvidas no curso e c) Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 26 identificar competências entendidas como necessárias à atuação pelos profissionais que já estão no mercado de trabalho e pelas empresas demandantes. Compreendendo a importância da geração de conhecimentos mais aprofundados sobre este tema, sugere-se também a realização de novas pesquisas que apontem competências relevantes ao profissional de secretariado executivo para o futuro; identifiquem estímulos e barreiras ao desenvolvimento/expressão de competências nas diversas esferas de atuação e verifiquem como a expressão das competências no trabalho do secretário executivo pode gerar valores efetivos e/ou introduzir mudanças nos diversos níveis organizacionais. REFERÊNCIAS BORTOLOTTO, Márcia Fernanda Pasa; WILLERS, Ednilse Maria. Profissional de secretariado executivo: explanação das principais características que compõem o perfil. Revista Expectativa, Paraná, v.4, n.4, p.45-56, 2005. BRANDÃO, Hugo Pena. Competências no trabalho: uma análise da produção científica brasileira. Revista Estudos da Psicologia, Natal, v.12, n.12, p.149-158, maio/ago. 2007. BRANDÃO, Hugo Pena; GUIMARÃES, Tomás de Aquino. 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Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de graduação em Secretariado Executivo e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 27 jun. 2005. Seção 1, p.79. CARDOSO, Ana Cláudia; DIAS, Simone. Secretário gestor: a força administrativa. In: SEMINÁRIO MULTIPROFISSIONAL INTEGRADO DE SECRETARIADO DA REGIÃO NORDESTE, 11. 2011, Recife-PE. Anais... Recife-PE: Sindicato das Secretárias do Estado de PernambucoSINSEPE, 2011. p. 375-381. 1 CD-ROM. CASTELLS, Manuel.A sociedade em rede.São Paulo:Paz e Terra, 1999a. CASTELLS, Manuel.O poder da identidade.São Paulo:Paz e Terra, 1999b. CASTELLS, Manuel. Fim do milênio. São Paulo: Paz e Terra, 1999c. DURANTE, Daniela Giareta; FERRO, Andrisa; TRAMONTINA; Caroline; VIEIRA, Gislaine. O profissional de secretariado executivo e a visão de processos. Revista Expectativa, Paraná, v.6, n.6, p.63-79, 2007. FLEURY, Maria Tereza Leme; FLEURY, Afonso. 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Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 ISSN 1676-045x Volume XI – nº 11 - 2012 p. 31-40 AS FORMAÇÕES IMAGINÁ RIAS NA CONSTITUIÇÃO DE IDENTIDADES DO SECRE TÁRIO EXECUTIVO Verônica Braga Birello1 Raquel Tiemi Mareco2 Resumo: O reconhecimento e a regulamentação da profissão e do curso de secretariado executivo contribuem para a construção de identidades desse profissional e, especificamente neste trabalho, do futuro profissional que, ao falar sobre a profissão que escolheu pode materializar formações imaginárias, colocando em relação o “eu”, o “outro” e o objeto do discurso, instaurando, assim, identidades e diferenças. Dessa forma, este trabalho tem por objetivo observar identidades do secretário executivo trilíngue materializadas no discurso do futuro profissional, visto que este tem ainda um olhar de um profissional em preparação, mas ao mesmo tempo já construiu um imaginário sobre o que significa ser um profissional do secretariado executivo trilíngue. Para tanto, entrevistamos sete estudantes do último período do curso de secretariado executivo trilíngue da Universidade Estadual de Maringá. As entrevistas foram gravadas em arquivo de áudio, transcritas e analisadas. Por meio das análises, percebemos que o movimento de inclusão e exclusão presente nos discursos é uma característica que é natural da identificação e do jogo de imagens. O futuro secretário executivo muitas vezes se distancia da sua identidade como profissional, permanecendo ainda na identidade de estudante, excluindo, por meio do uso de terceira pessoa, ao falar do profissional. Entretanto, nas relações de força, em alguns momentos ele se impõe e procura mostrar-se como pertencente a essa classe de profissionais, e ainda tenta prever os sentidos de seu discurso, o que coloca em enfoque o mecanismo de antecipação apresentado. Palavras-Chave: Análise do discurso. Identidade discursiva. Jogo de imagens. 1 2 E-mail: [email protected] E-mail: [email protected] Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 32 THE IMAGINARY FORMAT IONS IN CONSTITUTION OF IDETITIES OF THE EXE CUTIVE SECRETARY Verônica Braga Birello1 Raquel Tiemi Mareco2 Abstract: The recognition and regulation of the profession and of the under graduation course contribute to the construction of executive secretary professional identities, specifically in this work, the future professional who, when talking about their chosen profession, can materialize imaginary formations, putting in relation the "I", the "other" and the object of discourse, which establishes identities and differences. Thus, this study aims to observe the trilingual Executive Secretary identities embodied in the future professional discourse, since it still has a professional in preparation point of view, but, at the same time, has built an image about what is a professional of trilingual Executive Secretary. To this end, seven students were interviewed at the last year of under graduation course of Trilingual Executive Secretary from the State University of Maringá. The interviews were recorded on audio file, transcribed and analyzed. Through analysis, we realized that the movement of inclusion and exclusion in these discourses is a natural feature of identity and image games. The future executive secretary often moves away from his/her identity as a professional, yet remaining in the student identity, other than through the use of third person when speaking of the professional. However, the balance of power in some places and times they try to show themselves as belonging to this class of professionals, and even try to predict the directions of his speech, which puts the focus on the presented mechanism of anticipation. Key-words: Discourse analysis. Discursive identity. Image games. 1 2 E-mail: [email protected] E-mail: [email protected] Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 33 1 INTRODUÇÃO A profissão de secretariado surgiu na antiguidade e passou por diversas transformações no decorrer dos anos, porém, ganhou maior destaque e valorização somente nas últimas décadas, principalmente com a regulamentação da profissão em 30 de setembro de 1985, através da Lei Nº 7.377 e com a obrigatoriedade do curso de bacharelado em secretariado para o reconhecimento profissional do secretário executivo (Lei Nº 9.261). Esse curso de graduação forma um profissional multifacetado que pode se especializar e, por conseguinte, pode trabalhar em diversas áreas. Durante o curso, os profissionais geralmente estudam arquivística e aprendem a classificar documentos, a desenvolver tabelas de temporalidade, etc. Também estudam várias disciplinas relacionadas à administração, e técnicas administrativas, contabilidade, além de filosofia e psicologia das relações. Matérias essenciais como gestão, assessoria e empreendedorismo, passando ainda por matérias específicas como técnicas de secretariado, organização e gestão de eventos. Além das disciplinas teóricas, o curso tem em sua grade o estágio obrigatório, que proporciona ao estudante seu primeiro contato com um contexto real de sua futura profissão, podendo colocar em prática as teorias aprendidas em sala de aula, pois, conforme explica Nonato (2009 p. 29), “a teoria não atrapalha a prática, ao contrário, a valoriza, otimizando a intervenção do profissional secretário em seu ambiente laboral de modo fundamentado.” O reconhecimento e a regulamentação da profissão e do curso de secretariado executivo contribuem para a construção de identidades desse profissional e, especificamente neste trabalho, do futuro profissional que, ao falar sobre a profissão que escolheu pode materializar formações imaginárias, colocando em relação o “eu” e o “outro”, instaurando, assim, identidades e diferenças. Com base em Pêcheux (1990), Orlandi (2005) e Indursky (1997), podemos dizer que as formações imaginárias são as imagens que os interlocutores fazem de si mesmos, do outro e do objeto do discurso e, também, as imagens que o locutor acha que seu interlocutor tem dele e as imagens que ele acha que seu interlocutor tem objeto do discurso. Todo esse conjunto de imagens (as formações imaginárias) são postas em relação e materializadas, de forma inconsciente, nos discursos. O foco teórico central nesse conceito se justifica pelo fato de estarmos analisando discursos de futuros secretários executivos que, por estarem no último período do curso de graduação, já tiveram acesso a quase toda a teoria sobre esse curso e sobre esse profissional e, a maioria deles já estagiou ou estagia em sua área de atuação. Portanto, esses sujeitos têm o olhar da posição de estudante em formação e, ao mesmo tempo, de Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 34 futuros profissionais. Esse “jogo de imagens” (PÊCHEUX, 1990) é a formação imaginária se materializando nos discursos. Considerando que a identidade discursiva se constitui pelo discurso de si e também pelo discurso do outro, portanto, se constitui num “jogo de imagens”, articulamos, neste trabalho, o conceito de identidade discursiva com o de formações imaginárias. Diante do exposto, este trabalho tem por objetivo observar identidades do secretário executivo trilíngue materializadas no discurso do futuro profissional, visto que este tem ainda um olhar de um profissional em preparação, mas ao mesmo tempo já construiu um imaginário sobre o que significa ser um profissional do secretariado executivo trilíngue. Para tanto, buscamos responder a seguinte pergunta de pesquisa: - Após seu conhecimento teórico e prático durante a graduação, qual a imagem que o futuro profissional tem da profissão que escolheu? Para tentar responder a esse questionamento, nos embasamos teórico-metodologicamente na análise do discurso de linha francesa, mais especificamente, no conceito pecheutiano de formações imaginárias em articulação com os estudos culturais (Hall, 2000; Souza, 2000; entre outros). Organizamos este artigo em três partes. Na primeira, apresentamos nossa metodologia de trabalho; na segunda, abordamos alguns conceitos de identidade, demonstrando como ela pode ser constituída no/pelo discurso e, ainda nesta parte, discutimos também o conceito de formações imaginárias, articulando-o com o conceito de identidade discursiva. Toda a fundamentação teórica está exemplificada por meio de excertos de nosso corpus, realizando, dessa forma, o movimento de vai-e-vem entre teoria e análise, proposto pela análise do discurso. Por fim, retomamos a pergunta de pesquisa, buscando respondê-la com base em nossas análises. 2 PROCEDIMENTOS METODO LÓGICOS Nossa metodologia de trabalho foi dividida em quatro etapas: a) planejamento e organização das entrevistas; b) coleta de dados (entrevistas); c) transcrição e seleção de sequências discursivas; d) análise e discussões. Para este estudo de caso foi realizada uma pesquisa de campo, com entrevistas semiestruturadas gravadas em arquivo de áudio. A opção pela gravação em arquivo de áudio e não por um questionário escrito justificase por nossa preferência, neste estudo, por um discurso mais espontâneo, sem cortes ou edições. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 35 A referida entrevista foi realizada entre os dias 26 e 30 de setembro de 2011 com sete participantes, estudantes do último período do curso de graduação em secretariado executivo trilíngue da Universidade Estadual de Maringá. Esses sete participantes foram voluntários e representam 20% do total de alunos da turma (35 alunos). Após essa etapa de coletas, as entrevistas foram transcritas e analisadas, segundo as bases teórico-metodológicas da análise do discurso em articulação com os estudos culturais. 3 AS FORMAÇÕES IMAGINÁ RIAS IDENTIDADES DISCURSIVAS NA CONSTITUIÇÃO DE A construção identitária é estudada por várias áreas do conhecimento, cada uma a partir de uma dada posição, por isso, não há uma definição única e precisa, mas várias definições sob diferentes perspectivas, como afirma Gregolin: (2008, p. 82) “O conceito de identidade é complexo, multifacetado e, por isso, pode ser pensado a partir de vários ângulos e tem sido objeto de reflexões em vários campos de estudos [...]” Em relação a essa incompletude do conceito de identidade, Coracini (2003) complementa que ela permanece sempre em processo de formação e transformação. A identificação ocorre porque encontra uma resposta no interior do sujeito, portanto: é preciso entendê-la não como resultado de uma plenitude ou da completude ilusória de um sujeito indiviso, mas de uma “falta”: falta de inteireza que procuramos preencher sem jamais conseguir, a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros: sei quem sou em relação com o outro que eu não posso ser (p.243). Na mesma linha de pensamento, Hall (2000, p. 112) afirma que as identidades “são as posições que o sujeito é obrigado a assumir”, sabendo que elas são representações construídas “ao longo de uma ‘falta’, ao longo de uma divisão, a partir do lugar do Outro e que, assim, elas não podem, nunca, ser ajustadas – idênticas – ao processo de sujeito que são nelas investidos”. Fino e Souza (2003, p. 233) defendem que “a identidade é, antes de mais, uma questão do foro pessoal, que só ganha significado no confronto que o sujeito tem consigo próprio e com o "outro", no seio de uma estrutura social onde os poderes se encontram desigualmente distribuídos”. Essa afirmação pode ser percebida no excerto abaixo: Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 36 (1) Na minha opinião, que não sou secretária executiva (risos) então além de receber ordens de muita gente, também supostamente tenta passar, tipo, tarefas e coisas pra muita gente fazer . O curso de secretariado te prepara pra muita coisa, pra você fazer milhares de tarefas ao mesmo tempo[...]. (Entrevistado 6, em resposta à questão 1) Assim, pode-se perceber que esse sujeito se constrói a partir de um deslocamento entre o outro e si, considerando como “outro” em algumas situações e se incluindo na comunidade para formar a imagem que tem sobre o profissional que se tornará. Nas palavras de Fino e Souza (2003, p. 234), “o sujeito constrói a sua identidade pessoal a partir não só da relação consigo próprio, no conflito entre imagens de si, como a partir da relação que ele estabelece com o outro, no reconhecimento desse outro e da diferença entre ambos”. Sendo assim podemos perceber também esse movimento de identificação na fala de outros futuros profissionais: (2) Um secretário executivo faz várias coisas, ele desempenha várias tarefas [...] Pelo que a gente já estudou, principalmente é assistente pessoal do seu superior, daí a gente controla agenda, agenda viagens, a gente faz pagamentos [...]. (Entrevistado 2, em resposta à questão 1) (3) Um secretário executivo faz de tudo um pouco. Pra mim vai desde um simples arquivamento até o assessoramento do executivo, ele, ai não sei, até receber as pessoas, os clientes, tanto internos como externos, ele participa de reuniões, redige documentos, ligações nacionais, internacionais. (Entrevistado 4, em resposta à questão 1) Para obter a resposta dos excertos de 1 a 3 foi enunciada a questão 1 de nosso questionário: O que faz um secretário executivo? Podemos perceber que o excerto (2), materializa um estudante se projetando em um profissional idealizado, mas não se incluindo como profissional do secretariado executivo, já que fala das funções desse profissional em terceira pessoa do singular. Entretanto, em certos momentos, esse mesmo entrevistado se identifica como profissional por meio da conjugação verbal e no léxico empregado “a gente”. Esse jogo de imagens de si e do outro, Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 37 constitui o que Pêcheux (1990) chama de formações imaginárias, que abordaremos mais adiante neste trabalho. Se pensarmos no secretariado como profissão que tem seu surgimento na antiguidade e que foi passando por diversas transformações no decorrer dos anos, podemos concordar com Nonato (2009) ao identificar traços profundamente marcados da profissão de secretariado na antiga atividade realizada pelos escribas, que assessoravam pessoas importantes além de possuírem o conhecimento da escrita o que os distinguia do restante da população. O autor apresenta o principal aspecto da profissão de escriba: “[...] assessorar na perspectiva de um profissional de confiança, cujo sigilo das informações era crucial para o sucesso do trabalho de seus líderes” (NONATO, 2009, p. 81). Aspecto este que continua a ser fundamental para o atual secretário executivo. Em relação ao jogo de imagens criadas na relação entre o “eu” e o “outro”, Orlandi (2005), embasada nos estudos de Michel Pêcheux, explica que as formações imaginárias são constituídas pelas relações de força, pelas relações de sentidos e pelos mecanismos de antecipação. Ao proceder com as entrevistas recebemos a seguinte resposta: (4) Hoje um dos diretores lá disse assim: “Ah, capaz até que você vire minha chefe um dia”, mas ele falou brincando, e eu não sei porque eu não posso , não entendi. (Entrevistado 3, em resposta a questão 2) As relações de força são relações hierarquizadas que constituem “o lugar a partir do qual fala o sujeito é constitutivo do que ele diz” (ORLANDI, 2005, p. 39). Se o sujeito fala a partir do lugar de um estudante de secretariado executivo trilíngue, por exemplo, suas palavras significam de modo diferente de que se ele falasse do lugar de um professor de seu curso de graduação, ou ainda do lugar de seu chefe. No caso dessa resposta, o entrevistado não tem a mesma imagem de si, de sua profissão, do que é capaz de fazer, que seu chefe tem. Vemos assim as diferentes formações imaginárias e suas relações de força, que também podem ser percebidas pelo depoimento a seguir: (5) Nossa, eu imaginava um secretário, assim, todo mundo ia respeitar ele, que ia ser a coisa mais elegante do mundo, sempre viajando por ai, e sei lá, conversando com uma galera desconhecida e traduzindo um monte de coisa legal . Mas, a visão de hoje é que você é mais mandado do que você manda, mais recebe ordem, ninguém respeita direito o que você fala porque todo mundo pensa que você é só uma Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 38 secretaria que tá ali pra servir café ,e mesmo que saibam que o secretário não faz isso eles fazem questão de achar que você vai servir café. (Entrevistado 6, em resposta a questão 2). No trecho acima, além das relações de força, entre o que o entrevistado acha que faz um secretário executivo e o que as pessoas acham que faz esse profissional, vemos materializadas no discurso do entrevistado, as relações de sentido, que são as relações de um dizer com outros dizeres realizados, imaginados ou possíveis; são o interdiscurso, a memória discursiva, os pré-construídos, os já-ditos e que podemos observar na fala a cima. Quando o entrevistado 6 descreve, no início do trecho (5), como ele imaginava ser a profissão de secretário executivo, vemos materializado em seu discurso, os já-ditos, os pré-construídos sobre essa profissão; uma visão idealizada das funções desse profissional que se desmorona ao se deparar com a realidade da profissão. Outros já-ditos e pré-construídos são materializados no final do trecho, quando o entrevistado fala sobre as pessoas acharem que o secretário executivo está lá para servir café. Em relação ao mecanismo de antecipação, ele representa a capacidade de um sujeito de se colocar no lugar de seu interlocutor e antecipar-se a ele quanto aos sentidos produzidos por sua fala. Segundo Orlandi (2005), “esse mecanismo regula a argumentação, de tal forma que o sujeito dirá de um modo ou de outro, segundo o efeito que pensa produzir em seu ouvinte”. (6) Assim... não me arrependo de ter feito, gosto muito do curso, mas não era o que eu queria fazer. (Entrevistado 2, em resposta a questão 3) (7) Sinceramente, você quer, ne? Eu escolhi porque eu ia prestar letras inglês, mas o vestibular não abriu pra essa turma aquele ano. (Entrevistado 5, em resposta a questão 3) Podemos observar que os entrevistados 2 e 5 tentam prever o que o entrevistador pensará quando ouvir seu enunciado. No caso da primeira resposta, temos o “não me arrependo de ter feito”, o que mostra uma preocupação de afirmar que apesar dos pesares já enunciados ela não se arrepende de ter feito o curso, uma conclusão que poderia ser tirada de seu discurso. Por meio do mecanismo de antecipação o entrevistado tenta controlar os sentidos que seu discurso produzirá, o que também acontece Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 39 com o outro entrevistado ao perguntar “Sinceramente, você quer, ne?” indicando, cataforicamente, a verdade de sua fala futura e questionando sobre a possibilidade de uma resposta duvidosa. Frente à afirmação do entrevistador, o entrevistado opta por contar sua história deste modo e não de outro, gerando efeitos conforme a imagem que ele pensa que o entrevistador tem, ou pode ter dele. Separamos as relações de força, as relações de sentido e os mecanismos de antecipação e exemplificamos por meio de excertos de nosso corpus por uma questão didática, porém, vale ressaltar que esses três aspectos da formação imaginária não acontecem separadamente; num mesmo excerto, podemos reconhecer os três, ou pelo menos, dois desses aspectos. Conforme as explicações de Orlandi (2005, p. 39-40), as relações entre as imagens de si, do outro e do objeto do discurso (formações imaginárias) são construídas, de forma inconsciente, através das formulações apresentadas no quadro abaixo: Quadro 1: Formações Imaginárias (embasado em Orlandi, 2005, p. 39-40) Imagem da posição sujeito locutor Quem sou eu para lhe falar assim? Quem é ele para me falar assim ou Imagem da posição sujeito interlocutor para que eu lhe fale assim? Do que estou lhe falando? Do que ele Imagem do objeto do discurso me fala? Quem ele pensa que eu sou para que Imagem que o locutor faz da imagem eu lhe fale assim ou para que ele me que seu interlocutor faz dele fale assim? Imagem que o interlocutor faz da Quem ele pensa que é para me falar imagem que ele faz do objeto do sobre isso? discurso Fonte: adaptado de Orlandi, 2005, p. 39-40 Segundo Silva (2000, p. 81-89), a identidade é uma relação social que se constitui linguística e discursivamente, está sujeita a vetores de força, a relações de poder. Sendo assim, ela não é simplesmente definida, ela é imposta, dada. Portanto, a identidade é um significado cultural e socialmente atribuído e está estreitamente relacionada a sistemas de representação. Esses sistemas de representação, esses vetores de força e essas relações de poder, a nosso ver, podem ser diretamente associadas às formações imaginárias, constituindo, assim identidades para o sujeito do discurso (o futuro profissional) e para o sujeito no discurso (o secretário executivo trilíngue). Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 40 5 CONSIDERAÇÕES FINA IS Segundo as teorias aqui exemplificadas por meio dos excertos, tentamos demonstrar que a identidade e a diferença não existem simplesmente, elas são frutos de relações sociais, ou seja, são construídas socialmente e são disputadas entre os grupos sociais detentores de poder. O movimento de inclusão e exclusão presente nos discursos analisados é uma característica que é natural da identificação e do jogo de imagens. O futuro profissional secretário executivo muitas vezes se distancia da sua identidade como profissional, permanecendo na identidade do estudante. Entretanto, nas relações de força, em alguns momentos ele se impõe e procura mostrar-se como pertencente a essa classe de profissionais, e ainda tenta prever os sentidos de seu discurso, o que coloca em enfoque o mecanismo de antecipação apresentado. REFERÊNCIAS CORACINI, Maria José (org.). Identidade e discurso. Campinas: Editora da Unicamp; Chapecó: Argos Editora Universitária. 2003. ORLANDI, Eni de Lourdes Puccinelli. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 2 ed. Campinas: Pontes, 2005. HALL, Stuart. Quem precisa de identidade? In: SILVA, Tomas Tadeu da (Org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. p. 103-133. NONATO, R.J. Epistemologia e teoria do conhecimento em secretariado executivo: a Fundação das Ciências da Assessoria. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2009. WOODWARD, K. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, Tomas Tadeu da (Org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. SILVA, T. T. A produção social da identidade e da diferença In: SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 ISSN 1676-045x Volume XI – nº 11 - 2012 p. 41 –57 ATUAÇÃO DO BACHAREL EM SECRETARIADO EXECUTIVO EM CARGOS COM ATRIBUIÇÕES PRIV ATIVAS A SUA CATEGORIA PROF ISSIONAL: ESTUDO EM UMA EMPRESA DE GRANDE PO RTE DO OESTE DO PARA NÁ Viviane Gaspar Borges Lawder1 Ednilse Maria Willers2 Resumo: A atuação do secretário executivo, desde a década de 1990, vem se desenvolvendo com a incorporação de atividades mais complexas, que exigem maiores responsabilidades e competências distintas. As alterações ocorridas nas organizações, com o objetivo de se adequarem a um mercado altamente competitivo, levaram à demanda por um novo perfil profissional de colaboradores. Com a pesquisa bibliográfica apresentada neste artigo, evidenciou-se que o bacharel em secretariado executivo contempla o perfil necessário para atuar nas organizações atuais. Neste sentido, o objetivo deste estudo é investigar qual a formação acadêmica dos profissionais que exercem os cargos de secretário executivo em uma empresa de grande porte do Oeste do Paraná, Brasil. O resultado da pesquisa apontou que este profissional não ocupa os cargos que possuem atribuições inerentes a sua categoria profissional. Estes cargos são ocupados por profissionais de outras áreas, o que evidencia que a referida empresa, no momento de contratar um secretário executivo, não leva em consideração a formação exigida pela Lei Federal que regulamenta esta profissão. Palavras-Chave: Secretário executivo. Perfil profissional. Competências. 1 E-mail: [email protected] 2 E-mail: [email protected] Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 42 THE EXECUTIVE SECRET ARY ACT IN JOBS WITH PRIVATE ATTRIBUTIONS OF HIS PROFESSIONAL CATEGORY: STUDY IN A LARGE COMPANY IN THE WEST OF PARANÁ Viviane Gaspar Borges Lawder1 Ednilse Maria Willers2 Abstract: Since the 1990s, the role of the executive secretary has been developing with the incorporation of more complex activities, which demand bigger responsibilities and special skills. The shifts that occurred in organizations, aiming at fitting the requirements of a highly competitive market, led to a demand for employees with a different professional profile. With the bibliographic research presented in this article, it became clear that the executive secretary is able to meet this profile and perform in current organizations. Therefore, the objective of this study is to investigate the academic qualifications of professionals working as executive secretaries in a large company in the West of Paraná, Brazil. The result showed that this professional does not occupy the positions that demand the inner skills attributed to this profession. These positions are occupied by professionals of different backgrounds, which reveals that the company, when hiring an executive secretary, does not take into account the academic qualifications as established by the Federal Law that regulates this profession. Key-words: Executive secretary. Professional profile. Skills. 1 E-mail: [email protected] 2 E-mail: [email protected] Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 43 1 INTRODUÇÃO O contexto de competição mundial entre as organizações, desencadeado a partir da década de 1990, bem como as transformações tecnológicas, econômicas e sociais, acumuladas nas últimas décadas, trazem às organizações a necessidade constante de alinharem as suas estratégias corporativas como forma de se manter no mercado. Neste contexto, os profissionais do secretariado executivo se firmam como parceiros na busca dos objetivos organizacionais, pois detêm habilidades que contribuem no processo de tomada de decisões, viabilizando atingir os propósitos da organização. Cielo, Schmidt e Kühn (2010) destacam que o secretário executivo mudou sua imagem nas organizações ao atuar como assessor executivo, mostrando-se apto a promover e participar da melhoria do processo de gestão e do desenvolvimento das organizações. Neste sentido, o objetivo deste artigo é levantar a formação acadêmica dos profissionais que exercem a função de secretários executivos numa empresa de grande porte no Oeste do Paraná. Esta empresa apresenta grande potencial para o levantamento dessas informações, uma vez que possui uma complexa estrutura hierárquica e está entre as dez maiores empresas empregadoras do país. Este tema vem ao encontro à inquietação da autora diante da percepção de que um número expressivo de profissionais, formados em secretariado executivo, não ocupam atualmente os cargos de secretários executivos ofertados pela empresa, o que motivou investigar a razão desta constatação. Também levantou-se quem são os profissionais que ocupam estes cargos e ainda identificar por que os profissionais formados não os ocupam. Estas questões são relevantes diante do fato de se ter na região Oeste do Paraná dois cursos de graduação, em nível superior, de secretariado executivo. Um deles, criado em 1987, possui, até o ano de 2009, 580 egressos, sendo que 82% desses profissionais permaneceram na região Oeste do Paraná após concluir a graduação (Cielo; Schmidt; Kühn, 2010, p.14). Diante deste número expressivo de secretários executivos na região, torna-se importante verificar a empregabilidade deste profissional nos cargos com atribuições privativas a sua categoria profissional. Este estudo possibilita também, verificar se a formação acadêmica destes profissionais atende às exigências do mercado de trabalho regional. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 44 2 REVISÃO TEÓRICA Esse artigo tem por objetivo verificar se o título de bacharel em secretariado executivo é levado em consideração no ato da contratação de profissionais para os cargos de secretário executivo de uma indústria de grande porte da região Oeste do Paraná. Buscou-se identificar se havia na empresa cargos destinados especificamente ao secretário executivo e se estas vagas estão, efetivamente, sendo ocupadas por profissionais com esta formação acadêmica. Por tratar-se de uma empresa de grande porte, sendo uma das maiores empregadoras do país, e possuir uma complexa estrutura hierárquica, cargos com atribuições privativas do secretário executivo são uma realidade da empresa. Os egressos dos cursos de graduação em Secretariado Executivo estão inseridos nas organizações, atuando em vários setores e exercendo diversos cargos, (CIELO; SCHMIDT; KÜHN, 2010, p.19). Porém, buscou-se verificar, neste estudo, a atuação deste profissional nos cargos que possuem atribuições inerentes ao secretário executivo, conforme prevê a Lei Federal que regulamenta a profissão (Lei n.º 7.377 de 30/09/85 alterada pela Lei n.º 9.261 de 10/01/96). Frente a isso, é importante analisar a trajetória e a evolução do campo de atuação do secretário executivo diante da preparação formal do indivíduo, bem como as demandas do mercado de trabalho por estes profissionais. 2.1 O SECRETÁRIO EXECUTIVO E A EVOLUÇÃO DO PERFIL PROFISSIONAL As profundas alterações ocorridas no mundo dos negócios, o atual contexto de competição mundial, desencadeado a partir da década de 1990, bem como as transformações tecnológicas, econômicas e sociais trazem às organizações a necessidade constante de alinharem as suas estratégias corporativas como forma de se manterem no mercado. Para enfrentar esta complexa situação, as organizações sofreram inúmeras modificações no decorrer do tempo: reviram suas estruturas administrativas, redefiniram suas estratégias de atuação, redirecionaram seus produtos e serviços às necessidades do mercado, tudo para se adequar à constante evolução global (MELLATI; NUNES; DA SILVA, 2008, p.161). Este cenário se repercute no quadro de colaboradores das empresas. Não há mais demanda por profissionais que se limitem a ser suficientes, a assegurar o atendimento, a tomar notas, a digitar e a arquivar. Ao contrário, buscam-se profissionais multifuncionais, pró-ativos, versáteis, capazes de evoluir e de desempenhar várias atividades, que tenham visão focada no todo da organização e que busquem melhoria Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 45 contínua para estar à altura dos desafios de um mercado global. O mercado de trabalho hoje é dinâmico, extremamente competitivo e seletivo, fazendo com que o crescimento e os resultados de uma organização sejam obtidos através das competências pessoais, e não só de habilidades técnicas (MELLATI; NUNES; DA SILVA, 2008, p.162). O secretário executivo, atento às novas demandas do mercado de trabalho, buscou o desenvolvimento da sua profissão. O profissional que antes exercia apenas atividades técnicas, como atender ao telefone e marcar reuniões, passa a agregar novos conhecimentos e habilidades e assume atribuições de cogestor. Para Lasta e Durante (2008), a área secretarial acompanhou o desenvolvimento do mercado, que atualmente está conhecendo um novo profissional, o secretário cogestor, que é capaz de tomar decisões, de exercer a liderança com clientes internos e externos, de planejar as ações a serem realizadas, de controlar e organizar seu ambiente de trabalho. Ainda segundo estes autores, este profissional não trabalha apenas para um executivo, mas para a empresa como um todo. As organizações estão constantemente mudando e os secretários executivos acompanham essas mudanças e passam a realizar funções que antes não lhes eram atribuídas, tais como a tomada de decisão no circuito de suas ações, o gerenciamento de conflitos internos à organização, a condução de equipes, o planejamento, a organização e o controle das diversas atividades e facetas empresariais. Também devem possuir habilidades como domínio de línguas estrangeiras, conhecimentos em sistemas de informação, oratória e cultura geral, buscando estar informado sobre o contexto empresarial em que atua. Precisa deter competências comportamentais, que consistem no desenvolvimento de uma visão do negócio, no sentido de contribuir para o alcance de resultados positivos, e na capacidade de interagir com pessoas de todas as equipes da empresa. Para tanto, necessita desenvolver habilidades de iniciativa, criatividade, flexibilidade, relacionamento interpessoal, liderança e negociação. Neste contexto, o secretário executivo está apto a ocupar seu cargo e a desenvolver as funções inerentes a ele, atuando enquanto “elo” entre clientes internos e externos, parceiros, fornecedores; gerência de informações; administração de processos de trabalho; preparo e organização de rotinas de trabalho (GARCIA; D’ELIA, 2005, p.19). No Brasil, as conquistas da categoria profissional do secretário executivo contribuíram para o desenvolvimento da profissão. A Lei Federal n.º 7.377 de 30/09/85, alterada pela Lei Federal n.º 9.261 de 10/01/96, que regulamenta a profissão, foi relevante para garantir os direitos desses profissionais e definir suas atribuições profissionais. De acordo com o artigo 4.º da referida Lei, são atribuições do Secretário Executivo: Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 46 I - planejamento, organização e direção de serviços de secretaria; II - assistência e assessoramento direto a executivos; III - coleta de informações para a consecução de objetivos e metas de empresas; IV - redação de textos profissionais especializados, inclusive em idioma estrangeiro; V - interpretação e sintetização de textos e documentos; VI – (VETADO); VII - versão e tradução em idioma estrangeiro, para atender às necessidades de comunicação da empresa; VIII - registro e distribuição de expedientes e outras tarefas correlatas; IX - orientação da avaliação e seleção da correspondência para fins de encaminhamento à chefia; X - conhecimentos protocolares. Outra conquista garantida por esta Lei é a da realização de concursos públicos, nos quais, para se ocupar as vagas de secretário executivo, os profissionais precisam cumprir os requisitos legais de formação e obter o registro profissional junto ao Ministério do Trabalho e Emprego. Como exemplo, cita-se o processo seletivo da empresa Itaipu Binacional, que no Edital n.º 1003 (21/09/2011, p. 4) traz a formação requerida e outros requisitos para ocupar o cargo de secretário executivo: “Diploma, devidamente registrado, da conclusão do curso superior em Secretariado Executivo, reconhecido pelo Ministério da Educação e Cultura – MEC. E Registro na Delegacia Regional do Trabalho. E fluência em Inglês e Espanhol”. Os profissionais da área também possuem Código de Ética Profissional, Sindicatos próprios da categoria e uma Federação Nacional, a FENASSEC, os quais contribuíram e contribuem para a defesa e o desenvolvimento da profissão no país. Porém, a categoria luta pela conquista do seu conselho profissional, órgão que se destina ao controle e fiscalização de profissões regulamentadas. Os secretários executivos acreditam que um conselho profissional (além de outras ações importantes) poderia colaborar para coibir a contratação de profissionais sem formação em secretariado executivo para ocupar cargos que possuem atribuições privativas do secretário executivo. Como exemplo desta ocorrência, mostra-se um documento interno utilizado pela empresa em estudo. Trata-se da divulgação (via e-mail corporativo) de um recrutamento interno de 25 de janeiro de 2012 (o documento na íntegra encontra-se no ANEXO A): Recrutamento Interno Assistente Executivo Área/Unidade Planejamento In Natura Vaga para: Curitiba PR Formação Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 47 Superior em Administração, Economia, C. Contábeis ou áreas afins. Atividades: Gestão de indicadores da área; desdobramento e gestão de metas; Suporte aos gerentes (movimentação de pessoal; contratação, férias...); Organização das reuniões; Organizar agenda, viagens nacionais e internacionais; Gestão de gasto fixo e orçamento. Requisitos: Pacote office avançado; SAP Estar no mínimo um ano na empresa. Não ter sido transferido ou promovido nos últimos 6 meses; Estar exercendo cargo no nível de Assistente ou Técnico II. Pode-se notar que as “atividades” descritas no documento são atribuições de um secretário executivo, conforme prevê a Lei que regulamenta a profissão. Não obstante, no campo “formação”, verifica-se inobservância à legislação, pois a formação exigida deveria ser exclusivamente a de secretariado executivo. Isto demonstra como as empresas privadas realizam seus recrutamentos sem buscar embasamento na legislação e desrespeitando os direitos dos profissionais. Com relação à educação formal do profissional, as Instituições de Ensino estão atentas às novas exigências do mercado. Cada vez mais os cursos de secretariado do país buscam formar profissionais aptos para o mercado de trabalho, desenvolvendo as habilidades e as competências necessárias para a atuação profissional. Os cursos são estruturados com base nas concepções e nas políticas procedentes das Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de Secretariado Executivo (MEC, Res. 3, 2005, p.80). Esta resolução, em seu artigo 4.º, apresenta o seguinte texto: Art. 4.º O curso de graduação em Secretariado Executivo deve possibilitar a formação profissional que revele, pelo menos, as seguintes competências e habilidades: I - capacidade de articulação de acordo com os níveis de competências fixadas pelas organizações; II - visão generalista da organização e das peculiares relações hierárquicas e inter-setoriais; III - exercício de funções gerenciais, com sólido domínio sobre planejamento, organização, controle e direção; IV - utilização do raciocínio lógico, critico e analítico, operando com valores e estabelecendo relações formais e causais entre fenômenos e situações organizacionais; V - habilidade de lidar com modelos inovadores de gestão; VI - domínio dos recursos de expressão e de comunicação compatíveis com o exercício profissional, inclusive nos processos de negociação e nas comunicações interpessoais ou inter-grupais; VII - receptividade e liderança para o trabalho em equipe, na busca da sinergia; VIII - adoção de meios alternativos relacionados com a melhoria da qualidade e da produtividade dos serviços, identificando necessidades e equacionando soluções; Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 48 IX - gerenciamento de informações, assegurando uniformidade e referencial para diferentes usuários; X - gestão e assessoria administrativa com base em objetivos e metas departamentais e empresariais; XI - capacidade de maximização e otimização dos recursos tecnológicos; XII - eficaz utilização de técnicas secretariais, com renovadas tecnologias, imprimindo segurança, credibilidade e fidelidade no fluxo de informações; e XIII - iniciativa, criatividade, determinação, vontade de aprender, abertura às mudanças, consciência das implicações e responsabilidades éticas do seu exercício profissional. Conforme disposto nas diretrizes acima, os profissionais de secretariado executivo são preparados para desenvolver habilidades de lidar com modelos inovadores de gestão; assessoria administrativa com base em objetivos e metas departamentais e empresariais; receptividade e liderança para o trabalho em equipe; capacidade de maximização e otimização de recursos tecnológicos. Visa-se à formação de um profissional assessor executivo, capaz de promover e participar da melhoria do processo de gestão e desenvolvimento das organizações. Os cursos que formam tais profissionais são orientados por essas diretrizes e buscam prepará-los para se adequarem às mudanças nas organizações, agregando novos conhecimentos e habilidades e desenvolvendo novas competências (CIELO; SCHMIDT; KÜHN, 2010, p.12). Um exemplo da aplicação dessas diretrizes curriculares pode ser observado na proposta do Projeto Político-Pedagógico do curso de Secretariado Executivo da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Campus de Toledo, o qual traça um perfil de egresso apto a atuar como: gestor, vinculando a prática do exercício de atribuições e responsabilidades das funções de secretário executivo, planejando, organizando e implantando programas de desenvolvimento nas organizações; empreendedor, promovendo idéias e práticas inovadoras tendo competência para implantar resoluções alternativas, bem como capacidade crítica, reflexiva e criativa, utilizando-se de novos conhecimentos para promover e antecipar as transformações organizacionais; assessor, articulando os processos de comunicação e relacionamentos internos e externos das organizações (PPP, 2001 apud CIELO; SCHMIDT; KÜHN, 2010, p.13). Assim, pode-se dizer que o profissional secretário trabalha para a organização e não somente para o executivo, participando dos processos de cogestão e desenvolvimento das organizações. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 49 2.2 COMPETÊNCIAS DO SECRETÁRIO EXECUTIVO As alterações ocorridas nas organizações para se adequarem ao mercado nas últimas décadas levaram à demanda por um novo perfil profissional de colaboradores, como se viu anteriormente. Entre as expectativas das organizações com relação a este perfil destaca-se a busca pela competência. Como tal, torna-se relevante conhecer o conceito de competência. Para Zarifian (1999 apud FLEURY; FLEURY, 2001, p.186), há três mutações principais no mundo do trabalho, que justificam a emergência do modelo de competência para a gestão das organizações: a) noção de incidente: aquilo que ocorre de forma imprevista, não programada, vindo a perturbar o desenrolar normal do sistema de produção, ultrapassando a capacidade rotineira de assegurar sua auto-regulação. Isto implica que a competência não pode estar contida nas pré-definições da tarefa; a pessoa precisa estar sempre mobilizando recursos para resolver as novas situações de trabalho; b) comunicação: comunicar implica compreender o outro e a si mesmo; significa entrar em acordo sobre objetivos organizacionais e partilhar normas comuns para a sua gestão; c) serviço: a noção de serviço, de atender a um cliente externo ou interno da organização, precisa ser central e estar presente em todas as atividades; para tanto, a comunicação é fundamental. Para o autor, este atual cenário em que as empresas estão inseridas instiga a busca pela competência, pois ela possibilita lidar com as instabilidades e cenários inovadores, visto que a competência não se limita a um estoque de conhecimentos teóricos e empíricos detido pelo indivíduo, nem se encontra encapsulada na tarefa. A competência é antes a inteligência prática para situações que se apóiam sobre os conhecimentos adquiridos e os transformam com mais força, à medida em que aumenta a complexidade das situações. Le Boterf (1995 apud FLEURY; FLEURY, 2001, p.187) defende que a competência do indivíduo não se reduz a um conhecimento ou habilidade específica. A competência situa-se numa encruzilhada com três eixos, formados pela pessoa (sua biografia, socialização), pela sua formação educacional e pela sua experiência profissional. A competência é um saber agir responsável que implica saber como mobilizar, integrar e transferir os conhecimentos, recursos e habilidades, num contexto profissional determinado. Para Fleury e Fleury (2001), o trabalho não é mais o conjunto de tarefas associadas ao cargo, mas se torna o prolongamento direto da competência que o indivíduo mobiliza em face de uma situação profissional Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 50 cada vez mais mutável e complexa. Esta complexidade de situações torna o imprevisto cada vez mais cotidiano e rotineiro. A noção de competência aparece assim associada a ações como: saber agir, mobilizar recursos, integrar saberes múltiplos e complexos, saber aprender, saber engajar-se, assumir responsabilidades, ter visão estratégica. Ou seja, competência é agir com responsabilidade, é saber mobilizar o repertório recursos e habilidades para atingir os objetivos organizacionais. Para a atuação do secretário executivo no mercado de trabalho atual, a competência deve ser desenvolvida ou aperfeiçoada, a fim de possibilitar o desenvolvimento dos profissionais nas empresas, ou seja, proporcionar uma formação que permita a aquisição de conhecimentos, articulados com uma visão real e prática das organizações. Para diminuir a distância entre a realidade vivida pelas empresas e os conhecimentos adquiridos em sala de aula, é necessário que as instituições de ensino superior relacionem a teoria à prática, e busquem despertar características empreendedoras nos acadêmicos, desenvolvendo suas habilidades e capacidade de investigação, fatores que irão contribuir para o desenvolvimento da competência do egresso. Para Lima e Cantarotti (2010), os itens presentes nas diretrizes curriculares do curso de Secretariado Executivo confirmam a aproximação entre este meio acadêmico e o empresarial. Esta proposta busca desenvolver conhecimentos e habilidades que podem levar a construção da competência, conforme segue: a) trabalho em equipe: permite a interatividade, estimula a criatividade, o crescimento coletivo e a união, visando o alcance de metas e objetivos; b) comunicação: utilizar a comunicação de forma clara e correta, saber ouvir a outra parte e abster-se de qualquer proximidade emocional. c) criatividade: para tornar-se criativo é preciso estar em contato com uma variedade de conhecimentos e informações que permitam associar idéias e criar novos conceitos. O indivíduo criativo possui capacidade de apresentar várias soluções para problemas e habilidades de associar ideias ainda não relacionadas; d) liderança: habilidade de motivar e influenciar os liderados, deverá saber conduzir pessoas e transformá-las em uma equipe que trará resultados. e) planejamento: a fim de alcançar objetivos predefinidos. É importante planejar para avaliar as possibilidades e identificar possíveis falhas. f) empreendedorismo: a disposição de assumir riscos e responsabilidades e a motivação em torno de perseguir um objetivo. Profissionais com esse perfil atuam como agentes de mudanças, Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 51 reparam processos, criam novas oportunidades de negócios e aceleram as inovações dentro das empresas. Complementando o rol de competências do secretário executivo, Tagliari e Durante (2009) apresentam ainda as seguintes: organização; controle; gerenciamento de informações; motivação; tomada de decisão; negociação; pró-atividade; dinamismo; iniciativa; flexibilidade; adaptação a mudanças; autocontrole e gerenciamento de conflitos. Isto posto, pode-se dizer que o secretário executivo, ao longo de sua formação acadêmica e profissional, recebe as ferramentas necessárias para construir e desenvolver a competência tornando-se apto para atuar no mercado, oferecendo os requisitos buscados pelas organizações. 3 MÉTODOS E TÉCNICAS DE PESQUISA Este artigo levantou a formação acadêmica e o processo de contratação dos profissionais que atuam nos cargos de secretários executivos de uma empresa de grande porte da região Oeste do Paraná. A partir da exposição do quadro teórico acerca da formação acadêmica e do perfil dos egressos dos cursos de bacharelado em Secretariado Executivo, apresentou-se a evolução do perfil e da competência profissional, buscando identificar se este profissional está apto para assumir o cargo de secretário executivo frente às demandas do mercado de trabalho. Posteriormente, no mês de julho de 2012, investigou-se sobre os profissionais que atuam como secretários executivos na empresa em estudo. Para isso, primeiramente, efetuou-se um levantamento junto à gerência geral da empresa para identificar as estruturas hierárquicas existentes. Com isto, verificou-se a existência de uma diretoria regional, cinco gerências regionais e sete gerências locais. Após este levantamento, buscou-se identificar junto a cada gerente e ao diretor quem eram as pessoas que lhes prestavam assistência e/ou assessoria direta. Foram, então, apontados quatorze funcionários que atuam nos cargos de secretários executivos, que constituíram os sujeitos do estudo. Isto posto, desenvolveu-se uma pesquisa descritivo-exploratória, que procura observar, descrever, registrar, analisar e correlacionar fatos (CERVO; BERVIAN, 1996). Para tanto, elaborou-se um questionário e em contato com estes profissionais solicitou-se autorização para envio do mesmo, que foi encaminhado via correio eletrônico (e-mail) no período de 3 a 13 de julho de 2012. Treze, destes quatorze, profissionais responderam o questionário, ou seja, 92,8% do público-alvo. Posteriormente, investigou-se a área de recursos humanos, realizando uma entrevista junto aos cinco recrutadores da empresa, que Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 52 têm a função de selecionar e contratar profissionais para atuar na companhia. A entrevista foi aplicada no período de 6 a 20 de julho de 2012 e o procedimento técnico utilizado para a coleta dos dados foi a entrevista semiestruturada, pelo fato de permitir a obtenção de informações com elevado nível de profundidade e oferecer maior garantia nas respostas (GIL, 2002). Com esta técnica, o pesquisador tem a oportunidade de sondar profundamente relatos vividos, precisos e abrangentes, a fim de perceber novos indícios e identificar outras dimensões de um problema (VERGARA, 2000). 4 APRESENTAÇÃO E ANÁLI SE DOS DADOS Este estudo objetivou verificar a formação acadêmica dos profissionais que exercem a função de secretários executivos numa empresa de grande porte do Oeste do Paraná. Procurou-se verificar também se estes profissionais e a própria empresa conhecem ou não a profissão de secretário executivo. Primeiramente, buscou-se identificar se na empresa em estudo existem, efetivamente, profissionais que exerçam funções com atribuições privativas da categoria profissional do secretário executivo. Para tanto, levantou-se quais as estruturas hierárquicas alocadas na indústria em estudo: identificou-se uma diretoria e treze gerências. Investigou-se, junto a estes executivos, se em suas áreas havia profissionais que exercessem funções de secretários executivos, ou seja, que possuam atribuições como as previstas na Lei Federal que regulamenta a profissão. Assim, verificou-se que o diretor e cada um dos gerentes possuem um funcionário que exerce essas atribuições, perfazendo assim um total de quatorze profissionais, dos quais, treze responderam a pesquisa aplicada. Verificou-se, no entanto, que estes profissionais, com atribuições de secretários executivos, são registrados em suas Carteiras de Trabalho e Previdência Social em cargos com outras designações, tais como analista, assistente administrativo, auxiliar administrativo ou técnico administrativo. Esta ausência de uma nomenclatura de cargo única, que represente uma categoria profissional, identificando profissionais que exercem as mesmas atribuições dentro de uma mesma organização, aponta para uma falta de clareza, por parte da empresa, a respeito desta atividade profissional. Além de evidenciar inobservância à Lei Federal que regulamenta a profissão de secretário executivo, a qual determina que a nomenclatura correta desta atividade profissional deva ser Secretário Executivo. A pesquisa demonstrou esta mesma obscuridade a respeito da categoria profissional do secretário executivo, também por parte dos Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 53 funcionários que exercem esta atividade dentro da empresa. Quando questionados se consideravam que os cargos em que estão registrados estavam de acordo com as atribuições da função que efetivamente exerciam, apenas 38% consideraram a nomenclatura de seu cargo inadequada e ponderaram que deveriam estar registrados como assistentes, assessores ou secretários executivos. Porém, 62% desses colaboradores consideraram que seus cargos de registro estão de acordo com as atividades que exercem, ou seja, desconhecem que as atribuições que possuem são inerentes a uma categoria profissional específica. Contudo, o dado mais inquietante levantado pela pesquisa para a categoria profissional do secretário executivo diz respeito à formação acadêmica dos colaboradores que exercem a atividade na empresa. Apenas um, dos treze indivíduos que responderam a pesquisa, são graduados em secretariado executivo; os demais possuem as seguintes graduações: dois em administração, um em tecnologia em gestão financeira, um em tecnologia de alimentos, um em ciências econômicas, um em biologia, um em tecnologia em processos gerenciais e um em filosofia. Existem ainda dois indivíduos com ensino superior incompleto, cursando graduações na área administrativa e não na área secretarial. Com relação à especialização lato sensu, a área secretarial também é pouco representada. Verificou-se que cinco destes colaboradores possuem ou estão cursando pós-graduação e apenas um se especializou na área secretarial. Isto demonstra inobservância à Lei Federal que regulamenta a profissão de secretário executivo, uma vez que esta exige a graduação em secretariado para exercício da profissão. Constatou-se que esta formação não é considerada pela empresa como pré-requisito para assumir os cargos de secretário executivo. Isto pôde ser confirmado com a entrevista realizada junto aos cinco recrutadores da área de recursos humanos da empresa. Mesmo 80% deles tendo conhecimento da existência do curso de graduação em secretariado executivo, quando questionados sobre qual a formação exigida no momento da contratação deste profissional, citaram cursos de graduação como letras, economia e administração e 60% apontaram também a formação em secretariado executivo, porém sem exclusividade, não sendo esta graduação pré-requisito. Além da graduação em secretariado executivo não ser pré-requisito para contratação de um secretário executivo, para 40% dos recrutadores entrevistados ela também não é considerada um diferencial no momento da seleção de candidatos à vaga. Alegaram ainda 20% dos recrutadores que somente contratariam um profissional com esta formação se fosse para uma função com atividades técnicas de secretaria, como atendimento telefônico, arquivo e recepção. Contudo, caso se tratasse de uma atividade mais complexa, como o assessoramento gerencial, os entrevistados afirmaram que optariam por um profissional com formação na área de Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 54 exatas ou outra formação que proporcione desenvolvimento do raciocínio lógico e analítico, uma vez que estes recrutadores consideram que a formação em secretariado executivo, mesmo em nível superior, forma profissionais para atuar apenas com atividades técnicas. Esta visão indica desconhecimento do perfil profissional que os cursos de graduação em secretariado buscam desenvolver. Porém, para 60% dos recrutadores entrevistados a formação em secretariado executivo é considerada um diferencial no momento da contratação de um secretário executivo. Mesmo desconhecendo as atribuições deste profissional, estes recrutadores asseguram que os contrariam se tomassem conhecimento destas atribuições. Portanto, notase uma pré-disposição, por parte da maioria dos recrutadores, em aprofundar os conhecimentos a respeito da profissão de secretário executivo e assim valorizar esta formação no momento do recrutamento e da seleção. A pesquisa demonstrou que 100% dos profissionais que atuam como secretários executivos na empresa em estudo foram recrutados internamente, ou seja, exerciam outras atividades na empresa antes de serem selecionados para a função de secretários executivos. Em 46% dos casos, o recrutamento ocorreu dentro da mesma área de atuação do funcionário, alterando apenas o cargo e não o local de trabalho. Isto assinala uma preferência dos gestores por terem como seus secretários executivos pessoas com habilidades profissionais já conhecidas, acabando por colocar em segundo plano a formação acadêmica do indivíduo. No momento de realizar o recrutamento interno para cargos com atribuições do secretário executivo, a empresa deveria exigir dos candidatos à vaga a formação em secretariado. 5 CONSIDERAÇÕES FINA IS A profissão do secretário executivo evoluiu e as funções desempenhadas por estes profissionais sofreram grandes mudanças. Atualmente, devido à modernização das organizações empresariais, a busca por profissionais qualificados e capacitados para atender o mercado globalizado tem sido intensa e o profissional secretário executivo está apto para atuar neste novo contexto empresarial. As Instituições de Ensino Superior têm ido ao encontro dessas, atualizando seus currículos e procurando aproximar o meio acadêmico do empresarial. O estudo aponta para um cenário em que o secretariado executivo não é percebido pela empresa estudada, como uma atividade profissional Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 55 específica, regulamentada e que possui atribuições privativas. Constatou-se inobservância à Lei Federal que regulamenta a profissão de secretário executivo, pois a empresa investigada possui apenas um profissional graduado em secretariado executivo exercendo o cargo de secretário executivo. A área de recursos humanos da empresa também não exige a devida formação no momento da contratação destes profissionais. Este contexto apresenta um desconhecimento a respeito da profissão do secretário executivo. Os profissionais que exercem estes cargos dentro desta organização, em sua maioria, não identificam suas atribuições como sendo pertencentes a uma categoria profissional específica. Os executivos da indústria pesquisada, no momento de recrutar um secretário executivo, buscam estes profissionais dentro de suas áreas de atuação, priorizando a seleção de funcionários já conhecidos, deslocando a formação acadêmica do indivíduo para segundo plano. A situação levantada por este estudo deve alertar os profissionais secretários executivos, as organizações que representam esta categoria profissional (Sindicatos, Federação) e as Instituições de Ensino, uma vez que, conforme se procurou mostrar, existe uma discrepância evidente em relação ao que determina a Lei que regulamenta os profissionais secretários executivos e a efetiva atuação destes profissionais em cargos com atribuições inerentes a eles. Algumas ações poderiam promover a divulgação da profissão. As coordenações dos cursos de Secretariado Executivo poderiam promover encontros com a classe empresarial, mais especificamente o setor de recursos humanos (recrutamento e seleção), com objetivo de apresentar o curso e as habilidades que o egresso adquire com a graduação. Como exemplos de ações positivas no sentido de promover essa divulgação podese citar a confecção de folders com informações sobre o profissional secretário executivo, que também divulguem endereços eletrônicos onde possam ser encontradas mais informações a respeito da profissão. Pode-se, ainda, publicar matérias em jornais divulgando o curso. Diante deste cenário, torna-se de suma importância a união da categoria profissional para efetiva aplicação da Lei Federal que regulamenta a profissão e para fortalecer a luta pela conquista do Conselho de Classe, a fim de combater a atuação de outros profissionais em cargos com atribuições privativas ao secretário executivo. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 56 REFERÊNCIAS CERVO, A. L.; BERVIAN, P. Metodologia Científica. 4.ª ed. São Paulo: Makron Books, 1996. CIELO, I. D.; SCHMIDT, C. M.; KÜHN, K. S. K. A empregabilidade do profissional de secretariado executivo: uma análise empírica na Unioeste – Campus de Toledo. Revista Expectativa. Toledo: Edunioeste, vol. IX, n.º 1, p. 9-24, 2010. FLEURY M. T. L.; FLEURY A. Construindo o Conceito de Competência. Revista de Administração Contemporânea. Curitiba, vol. 5, ed. especial, p.183-196, 2001. GARCIA, E.; D’ELIA, M. E. S. Secretária Executiva. São Paulo: IOB Thomson, 2005. GIL, Antonio Carlos. Técnicas de pesquisa em economia e elaboração de monografias. 4.ª ed. São Paulo: Atlas, 2002. ITAIPU BINACIONAL. Edital n.º 1003. Foz do Iguaçu, 21 de setembro de 2011. Disponível em: http://www2.itaipu.gov.br/trainees/ processo1003funpar/pdf/edital_1003_itaipu.pdf. Acesso em: 01 jul. 2012. LASTA, Adriane; DURANTE, Daniela G. A Gestão Secretarial no Cenário Organizacional Contemporâneo. Secretariado Executivo em Revista. Passo Fundo, n.º 4, p. 49-65, 2008. LEI n.˚ 7.377, de 30 de setembro de 1985; LEI n.˚ 9261, de 10 de janeiro de 1996. 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Gestão secretarial: semelhanças entre competências gerenciais e secretariais. Secretariado Executivo em Revista. Passo Fundo, n.º 5, p. 28-43, 2009. VERGARA, Sylvia Constant. Projetos e relatórios de pesquisa em Administração. 3.ª ed. São Paulo: Atlas, 2000. ANEXOS ANEXO A – Documento utilizado pela empresa em estudo para divulgação de recrutamento interno. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 ISSN 1676-045x Volume XI – nº 11 - 2012 p. 59 –81 A VIRTUALIDADE NO MUND O DO TRABALHO: UM ESTUDO SOBRE A ATUAÇ ÃO DO SECRETÁRIO EXECUTIVO VIRTUAL Conceição de Maria Pinheiro Barros1 Liliane Silva Vasconcelos2 Joelma Soares da Silva3 Daniela Graciela Silva Brito4 Milício Custódio da Silva Filho5 Resumo: O movimento geral de virtualização afeta os diversos meios sociais, porém ele não veio como forma de substituição da realidade, mas sim para facilitar e dar outra visão às atividades. O virtual está presente em diversos segmentos: comunidades, democracia, empresas virtuais, no trabalho e na assessoria virtual. Este trabalho tem como objetivo investigar a virtualização na atuação de assessores executivos, focalizando a realidade atual e as perspectivas na visão dos profissionais atuantes. Para o alcance dos objetivos foram realizadas uma pesquisa bibliográfica e uma pesquisa de campo. Trata-se de uma pesquisa exploratória e descritiva, com conotação qualitativa. A pesquisa foi direcionada aos profissionais com formação superior em Secretariado Executivo, atuantes como assessores virtuais no Brasil. A análise dos dados revelou que o trabalho virtual em Secretariado Executivo corresponde a uma nova forma de organização do trabalho, relacionando-se com a flexibilidade das estruturas, anteriormente, tradicionais e centralizadas, estando, portanto, articulado à desagregação do emprego clássico, emergindo como uma nova oportunidade de atuação secretarial. Palavras-Chave: Virtualidade. Assessoria Executiva Virtual. Secretariado Executivo. 1 E-mail: [email protected] 2 E-mail: [email protected] 3 E-mail: [email protected] 4 E-mail: [email protected] 5 E-mail: [email protected] Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 60 THE VIRTUALITY IN THE WOR K WORLD: A STUDY ABOUT THE VIRTUAL EX ECUTIVE SECRETARY’S PERFORMANCE Conceição de Maria Pinheiro Barros1 Liliane Silva Vasconcelos2 Joelma Soares da Silva3 Daniela Graciela Silva Brito4 Milício Custódio da Silva Filho5 Abstract: The general movement towards virtualization affects the various social media, however it did not come as a replacement of reality, but it came to facilitate and give other visions to activities. The virtual is present in several areas such as community, democracy, corporate virtual work and virtual assistance. This study aims to investigate the role of advisors in virtual executive secretaries, focusing on the current situation and prospects in the view of working professionals. To achieve the goals we performed a literature review and a field search. This has an exploratory and descriptive, qualitative connotation. The research was directed to professionals with higher education in the Executive Secretaryship acting as virtual assistants in Brazil. Data analysis revealed that the virtual work in the Executive Secretaryship represents a new form of work organization, relating to the structures’ flexibility that was traditional previously centralized, being, therefore, articulated to the breakdown of classic employment, emerging as a new opportunity of secretarial performance. Key-words: Virtuality. Virtual Assistance. Executive Secretaryship. 1 E-mail: [email protected] 2 E-mail: [email protected] 3 E-mail: [email protected] 4 E-mail: [email protected] 5 E-mail: [email protected] Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 61 1 INTRODUÇÃO O desenvolvimento tecnológico tem sido o impulsionador de profundas mudanças organizacionais e profissionais. Dessa maneira, possibilitou a inserção das atividades virtuais nas diversas esferas sociais, incluindo-se nesse contexto a assessoria virtual. O movimento geral de virtualização afeta os diversos meios sociais, porém ele não veio como forma de substituição da realidade, mas sim para facilitar e dar outra visão às atividades. O virtual está presente em diversos segmentos: comunidades, democracia, empresas virtuais, no trabalho e na assessoria virtual. Nesta perspectiva, emerge o seguinte questionamento: como ocorre a assessoria virtual do secretário executivo? Este trabalho tem como objetivo geral investigar a virtualização na atuação secretarial, focalizando a realidade atual e as perspectivas na visão dos profissionais atuantes de forma virtual. Considera-se que a realização desta pesquisa auxiliará no desenvolvimento científico da profissão de Secretariado Executivo e servirá como base para as próximas pesquisas na área. Foi realizada uma pesquisa bibliográfica a fim de aprofundar os conhecimentos sobre o tema em questão, tendo como principais fundamentações os autores Pierre Lévy (virtualidade), Álvaro Mello (teletrabalho) e Nonato Júnior (assessoria executiva). Em seguida, desenvolveu-se um estudo sobre os serviços virtuais de Secretariado a partir da aplicação de um questionário direcionado aos profissionais que atuam ou que já atuaram como Assessores Virtuais no Brasil. 2 A ASSESSORIA EXECUTI VA VIRTUAL A palavra virtual vem do Latim Medieval, Virtualis ou Virtuale que manteve seu radical no Latim Virtus que significa virtude, força, potência, esta por sua vez vem sendo empregada com frequência para significar a pura e simples ausência de existência. Virtual é, em primeiro lugar, um modo de ser particular; é um modo diferente de estabelecer relações que foi confundido, na linguagem comum, com o falso, o ilusório, o imaginário ou a fantasia. Virtual é entendido então como uma entidade com potencial sem ter, necessariamente, forma material ou tangível (Lévy, 1996). Lévy (1996) desmistifica uma falsa oposição entre o real e o virtual e afirma que a oposição correta estaria entre o virtual e o atual, que são duas maneiras de ser diferentes. Virtual deve ser considerado como algo que existe em potência, ou seja, é um “complexo problemático, o nó de Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 62 tendências ou de forças que acompanham uma situação, um acontecimento, um objeto, ou uma entidade qualquer e que chama um processo de resolução, a atualização” (LÉVY, 1996, p. 16). As tecnologias permitem que se formem equipes virtuais com muita facilidade, confiabilidade e baixos custos. O acesso à tecnologia da informação, atualmente, encontra-se cada vez mais ao alcance de todos, não só nas grandes organizações, mas também em empresas menores e até mesmo em casa. O teletrabalho é definido como aquele que se faz ou se presta para um empregador. É um dos desenvolvimentos mais importantes deste século e pode ser realizado em casa, na rua, no carro, nos aviões ou em qualquer outro lugar onde a pessoa possa se conectar utilizando as telecomunicações. Segundo Quintal (2002, p.2): Teletrabalho é a oportunidade de trabalhar a distância, através de equipamentos telemáticos que podem ser realizados a partir de casa ou em centros que disponibilize material, utilizando as novas tecnologias da informação como a Internet, o E-mail ou a videoconferência. Deve-se informar que o teletrabalho é uma forma de trabalho baseada no 6º artigo da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) brasileira, definida em 1943 e alterada pela Lei nº 12.551 de 15 de dezembro de 2011, a qual versa que “não se distingue entre o trabalho feito no estabelecimento do empregador e o executado no domicílio do empregado, desde que esteja caracterizada a relação de emprego” (BRASIL, 2011, p.1) e no artigo 83º da mesma CLT que afirma “que é devido o salário mínimo ao trabalhador em domicílio, considerado este como o executado na habitação do empregado ou em oficina de família, por conta de empregador que o remunere” (BRASIL, 1943, p. 34). Os artigos 6º e 83º da CLT são bases para estabelecer os acordos para que funcionários possam praticar o trabalho a distância. Entretanto, o Brasil ainda não tem uma Lei específica que reserve todos os direitos e deveres do teletrabalhador, apenas o Projeto de Lei - PL 4505/08, aprovado em 19 de maio de 2010, que regulamenta o trabalho a distância. Para o referido projeto, teletrabalho é definido como “toda forma de trabalho que envolve um empregador ou um cliente e um empregado ou trabalhador autônomo e é realizado regularmente a distância [SIC], em mais de 40% do tempo, por meio de tecnologias de informática e de telecomunicações” (BRASIL, 2008, p.1). De acordo com o projeto de lei supramencionado, os teletrabalhadores não terão direito às horas extras por se tratar de jornada aberta, e a remuneração deverá ajustar-se às horas normais de trabalho. São deveres do empregado teletrabalhador, a habitualidade e pessoalidade na execução de suas funções; a informação periódica de acordo com as diretrizes empregatícias previamente estabelecidas, seja de Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 63 forma on line ou offline; a manutenção adequada dos equipamentos e materiais que lhe forem disponibilizados pelo empregador, bem como conservação e asseio do seu ambiente de trabalho, observadas as normas de segurança, higiene e saúde no trabalho; a prestação de contas quanto aos gastos ordinários e extraordinários decorrentes das funções inerentes à devida execução do trabalho (BRASIL, 2008). Os trabalhadores virtuais também podem associar-se à Associação Nacional dos Centros de Negócios e Escritórios Virtuais (ANCNEV). Tratase de uma associação oficial no Brasil que reúne os escritórios virtuais, cujo segmento tem por objetivo oferecer às empresas e aos profissionais liberais, uma solução completa e integrada para aumentar a capacidade produtiva, a agilidade e a lucratividade de seus negócios (ANCNEV, 2012). Vale salientar que o teletrabalho não é uma profissão, trata-se de uma forma de trabalho comum a várias profissões, por exemplo, secretário, psicólogo, advogado, economista. A assessoria é uma das ações intelectuais mais antigas da história da humanidade, “certamente data do início das produções do conhecimento humano, pois para organizar, selecionar, assistir e encaminhar fontes de saber é necessário estar assessorado por outras pessoas” (NONATO JÚNIOR, 2009, p. 80). O ato de assessorar era visto antigamente, como a junção de atividades puramente técnicas, como atender telefones, anotar recados, fazer protocolos, organizar arquivos. Porém pesquisas feitas apresentam que a assessoria não pode mais ser vista apenas dessa forma, mas também, e principalmente, como ciência em desenvolvimento. Nonato Júnior (2009) pesquisou a respeito da assessoria e, ao final, distribuiu o esta atividade m quatro eixos básicos que norteiam o trabalho dos assessores baseado em seus focos de atenção, sendo eles: Assessoramento, assessoria operacional (técnica e tática); Assessorexe, assessoria executiva; Assessorística, assessoria intelectual;Assessorab, assessoria aberta. Apresenta-se que a pesquisa em questão, dará enfoque à Assessorexe onde verificará a assessoria executiva de forma virtual. Nesse eixo o estudo do conhecimento em Secretariado está ligado intimamente com os processos gerenciais e a assessoria executiva nas empresas, o conhecimento tem seu foco sobre o fluxo internacional gerenciado nas atividades de assessoria executiva. Diante da necessidade da adaptação dos profissionais à modernização do mundo globalizado, do qual surgiram as atividades virtuais, percebe-se a crescente inserção da assessoria nessa forma de atuação. Profissionais das diversas áreas começaram a utilizar a internet como um meio produtivo, cada um conforme a sua necessidade. O profissional de Secretariado para se adequar a esse perfil inovador começou a exercer atividades como a assessoria virtual, prática que vem sendo adotada por muitas empresas e obtendo êxito. O assessoramento virtual é o uso da tecnologia inovando um serviço de prática do Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 64 secretariado, é um empreendimento distinto facilitando as rotinas administrativas. O Assessoramento virtual não extermina o modo tradicional, mas inova a maneira de assessorar, pois o secretário se torna autônomo ou empresário arcando com seus próprios impostos e encargos na gestão de seus serviços. Isso faz com que o seu cotidiano seja dinâmico, relevante para os profissionais da classe estarem no meio tecnológico, apesar de que o profissional de assessoria presencial assume cada vez mais um perfil gerencial ascendendo na organização e nas tomadas de decisões. Os secretários virtuais possuem as mesmas competências e qualidades do secretário convencional com mais praticidade e economia. Pode-se fazer um comparativo entre o secretário in company e o virtual e a partir disso, traçar as diferenças e semelhanças entre ambos. A assessoria presencial possui os seguintes princípios, conforme o Código de Ética do Secretário Executivo, Brasil (1989): dignidade, o secretário deve abster-se de qualquer comportamento que pressuponha infração ou descrédito e desempenhar o exercício da sua profissão com honra e dignidade; integridade, deve agir com lealdade, honradez e boa fé; sigilo profissional, deve observar rigorosamente o princípio de confidencialidade nos fatos e notícias que conhecer por razões ligadas ao exercício da sua profissão, guardando absoluto sigilo sobre as informações que lhes serão confiadas. O profissional de assessoria a distância também precisa possuir os princípios acima, visto que as atividades a realizar são basicamente as mesmas, modificando assim a forma de atuação. Analisa-se que a principal diferença entre a assessoria presencial e a virtual está quanto à matéria, ou seja, o contato direto entre executivo e secretário. A assessoria virtual beneficia-se quanto à praticidade, pois as atividades são feitas diretamente via internet, sem a necessidade de um assessor presencial, com isso o executivo ganha tempo para executar outras atividades.As atividades exercidas por ambas são praticamente as mesmas, porém, por assessorarem geralmente muitas empresas ao mesmo tempo os secretários virtuais não têm contato direto com o executivo e nem conhecem a dinâmica da empresa a qual estão servindo. Por ser uma profissão de assessoria, ela se adéqua ao meio em que está inserida, ou seja, o assessor pode trabalhar com profissionais de diversas áreas e é importante que ele conheça e se especialize. 3 ASSESSORIA VIRTUAL SECRETÁRIO EXECUTIVO COMO FORMA DE ATUAÇÃO DO Na chamada “era da globalização” o secretário passa a ter várias atribuições no cenário competitivo das organizações, podendo atuar em diversas áreas, como profissional da organização de eventos, como Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 65 tradutor simultâneo, como representante pessoal do seu executivo e em outras funções administrativas. O profissional de secretariado é peça fundamental para as empresas, esta é a base para o desenvolvimento das atividades, e é através dela que os setores se interligam. Santos e Caimi (2009, p.25) afirmam que: As organizações demandam profissionais que desempenhem um papel fundamental de assessoria no contexto organizacional, tendo a responsabilidade de participar de gerenciamento de informações, documentos e pessoas, contribuir para a melhoria das relações interpessoais, manifestando dinamismo e flexibilidade, capacidade de empreendimento e automotivação. O secretário executivo é um profissional que, academicamente, está sendo preparado para assessorar e articular a área administrativa das empresas. Administração, planejamento e organização são conceitos que esse profissional deverá dominar em toda a sua extensão, além de estar preparado para ser inovador, criativo, empreendedor, comunicador e articulador. Vem sendo o elo entre a empresa e seus clientes internos e externos e administra os relacionamentos e conflitos existentes na empresa. Natalense (1998) apresenta as diferentes formas de atuação do secretário, sendo elas: time de dois, o secretário é exclusivo do executivo, porém, além de assessorá-lo, o secretário torna-se o elo entre ele e a área que gerencia; times de secretárias: ocorre quando não há a exclusividade entre o executivo e o secretário, mas sim a atuação como um time, ou seja, uma equipe de secretários assessorando uma equipe de executivos; secretários de pequenas e médias empresas, empresas de tal porte possuem apenas um secretário, que assume muitas outras responsabilidades além da assessoria aos executivos, como diversos tipos de controle nas áreas de produção, vendas, compras, faz cotações e gerencia toda a área administrativa; secretário autônomo, secretário que se desliga da empresa, atuando como autônomo, ou microempresário, terceirizando assim os seus serviços. Essa seria uma ótima opção para empresas que não podem aumentar os custos com serviços de mão-deobra, para profissionais liberais, consultores e autônomos. Nessa forma de atuação, o secretário seria contratado apenas por um determinado período, atuando em empresas ou em escritório pessoal, os secretários virtuais estão inclusos no último caso; secretário particular, essa forma de atuação é indicada para executivos que necessitam de assessoramento para a sua vida pessoal, nesse caso o secretário será contratado pelo executivo e atuará em escritório também particular. Afirma-se que o século XX, em conseqüência dos avanços tecnológicos, foi determinante para a evolução da profissão de Secretariado Executivo. Nonato Júnior (2009) apresenta que o desenvolvimento da Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 66 tecnologia provocou uma notável mudança no ambiente organizacional, assim como também no seguimento secretarial, gerando assim um processo de modificação na produção das empresas e nos instrumentos que englobam um escritório. Com a evolução da profissão, ampliaram-se ainda mais as formas e categorias de atuação secretarial, destacando-se o conceito de secretário virtual. Conforme Ribeiro (2002, p. 45): O Secretário virtual trabalha para várias empresas, utilizando o que há de mais moderno em tecnologia. Alguns secretários montam o seu próprio escritório em casa (escritório virtual) ou se juntam às empresas que alugam caixas postais, prestam serviços de atendimento telefônico, fax e para executivos que querem reduzir custos com escritório, pois passam a maior parte do dia nas empresas de seus clientes. Diante do exposto, entende-se que o Secretário Virtual é um profissional que atua de forma não presencial, desenvolvendo atividades de assessoria específica da área, podendo estar ou não vinculado a uma ou mais empresas bem como a diversos executivos. Para realização dessa nova forma de atuação secretarial, Mello (2010) afirma que é necessário ter equipamentos específicos para o ambiente virtual e saber com antecedência quais materiais serão utilizados. O telefone é instrumento fundamental para a realização do trabalho virtual, visto que as atividades são feitas de forma a distância. O profissional de Secretariado pode utilizar outras ferramentas tecnológicas a fim de possibilitar assessoria virtual de qualidade. No contexto dos escritórios, sejam eles virtuais ou não, os procedimentos utilizados pelo secretário configuram a sua capacitação na profissão. De acordo com a Lei Nº 9.261/96, as atribuições inerentes ao cargo de secretário, conforme artigo 4º são: I - Planejamento, organização e direção de serviços de secretaria; II Assistência e assessoramento direto a executivos; II - Coleta de informações para a consecução de objetivos e metas de empresas; IV - Redação de textos profissionais especializados, inclusive em idioma estrangeiro; V Interpretação e sintetização de textos e documentos; VI - Taquigrafia de ditados, discursos, conferências, palestras de explanações, inclusive em idioma estrangeiro; VII - Versão e tradução em idioma estrangeiro, para atender às necessidades de comunicação da empresa; VIII - Registro e distribuição de expediente e outras tarefas correlatas; IX - Orientação da avaliação e seleção da correspondência para fins de encaminhamento à chefia; X - Conhecimentos protocolares(BRASIL, 1996, p. 2). Das atribuições mencionadas, destacam-se “planejamento, organização e direção de serviços de secretaria” (BRASIL, 1996, 1). Para a execução dessas atividades, o profissional poderá utilizar recursos dos programas de agenda virtual, que gerenciam tarefas de cotidiano; e banco Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 67 de dados, que reúnem todos os contatos de forma simples e de rápido acesso (Gouveia, 2009). A evolução da tecnologia foi consideravelmente um dos fatores determinantes de mudança no cenário da gestão empresarial, conforme apresentado anteriormente, essas mudanças deram início ao teletrabalho, consequentemente a virtualidade na atividade secretarial. 4 METODOLOGIA DA PESQU ISA A metodologia utilizada para o desenvolvimento da pesquisa do trabalho em questão, se deu por meio de pesquisa bibliográfica, visto que “trata-se de levantamento de toda bibliografia já publicada em forma de livros, revistas, publicações avulsas e imprensa escrita” (MARCONI & LAKATOS, 2010, p.43). A finalidade da pesquisa bibliográfica é fazer com que o pesquisador entre em contato direto com o que foi escrito sobre determinado assunto, com o objetivo de “permitir ao cientista o reforço paralelo na análise de suas pesquisas ou manipulação de suas informações” (TRUJILLO, 1974, citado por MARCONI & LAKATOS, 2010, p.44). Quanto à forma de abordagem, a pesquisa ainda traz características da pesquisa qualitativa. Esse tipo de abordagem tem “como objetivo interpretar e dar significados aos fenômenos analisados” (REIS, 2008, p. 57). Propondo, assim, a qualificação de um determinado grupo analisado, com o objetivo de verificar quais os desafios e oportunidades na nova modalidade da profissão de Secretariado Executivo; o assessoramento a distância. Este trabalho fundamentou-se em pesquisa de campo, visto que, de acordo com Ciribelli (2003), está baseado nas observações de fatos, o modo como eles realmente ocorrem e a coleta de dados obtidos de diferentes formas, como: entrevista e/ou questionário. O referido trabalho se caracteriza como pesquisa exploratória, pois busca “levantar informações sobre um determinado objeto, delimitando um campo de trabalho e mapeando as condições de manifestações desse objeto” (SEVERINO, 2007, p.123). Para atender o alcance dos objetivos propostos, foi utilizado como instrumento de coleta de informação o questionário. A aplicação dos questionários visou averiguar os pontos positivos e os desafios enfrentados pelos profissionais de Secretariado que prestam assessoria virtual e conhecer quais são as perspectivas para a assessoria a distância, na visão dos secretários virtuais. Para Severino (2007, p. 125), o questionário pode ser definido como “o conjunto de questões, sistematicamente articuladas, que se destinam a levantar informações escritas por parte dos sujeitos pesquisados, com vistas a conhecer a opinião dos mesmos sobre os assuntos em estudo”. O questionário utilizado para a pesquisa foi elaborado pela autora do trabalho e organizado em duas partes. A primeira parte Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 68 corresponde a 04 (quatro) perguntas de múltipla escolha referentes ao perfil do entrevistado, obtendo informações quanto à sua idade, sexo e formação. A segunda parte foi constituída de 07 (sete) questões, sendo elas objetivas e subjetivas, com a finalidade de avaliar a virtualidade na profissão de Secretariado Executivo. O universo desta pesquisa constituiu-se de profissionais com formação superior em Secretariado Executivo e que atuam como assessores virtuais no Brasil. Tendo em vista que, quase sempre, não é possível abordar tudo o que se deseja, deve-se, então, limitar a pesquisa a uma amostra, que é defina por Appolinário (2012, p. 125) como o “subconjunto de sujeitos extraídos de uma população por meio de alguma técnica de amostragem”. A amostra deve ser um subconjunto finito de uma população. Os profissionais participantes da pesquisa foram localizados por meio de pesquisas feitas em sites de busca na internet e sites de relacionamento. Foram identificados 11 (onze) assistentes executivos virtuais atuantes no Brasil obtendo-se retorno com respostas de 05 (cinco), compondo uma amostra equivalente a 45% da população identificada. Com o intuito de manter em sigilo a identidade dos participantes da pesquisa, os profissionais que contribuíram para a realização deste trabalho estão identificados como “Secretário Virtual” seguido de um número natural que representa a ordem dos questionários. A distribuição dos questionários foi feita por meio de correio eletrônico. Os requisitos utilizados para a seleção dos entrevistados foram: a) possuir bacharelado em Secretariado Executivo ou graduação tecnológica em Secretariado Executivo; b) atuar como assessor virtual no Brasil. Esta fase da pesquisa foi realizada no período de 18 de março a 08 de maio de 2012. 5 APRESENTAÇÃO E ANÁ LISE DOS RESULTADOS Este capítulo apresenta os resultados alcançados e a análise dos dados à luz da teoria sobre o tema proposto. Inicialmente, foi abordado o perfil dos participantes e, em seguida, focalizou-se a assessoria virtual na atuação do secretário executivo. 5.1 PERFIL No primeiro momento, a parte inicial do questionário, questões de nº 1 a nº 6 buscam identificar o perfil do profissional de secretariado. Na questão nº 1, relativa ao perfil dos profissionais de Secretariado Executivo, revela-se que 04 dos entrevistados estão na faixa etária entre 31 e 40 anos Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 69 e 01 profissional contatado possui idade acima de 40 anos. Percebe-se que não houve referência aos profissionais entre 21 e 30 anos, portanto, conclui-se que a maioria dos entrevistados são profissionais com maior experiência. Observa-se que a questão nº 2 apresenta que todos os integrantes da amostra pertencem ao sexo feminino, leva-se em consideração que o ingresso do sexo masculino na profissão de secretariado está ocorrendo de forma lenta, porém gradual. Informa-se ainda que foram localizados profissionais do sexo masculino que atuam com assessoria a distância, porém, estes não retornaram a pesquisa, sendo assim, há uma totalidade de presença feminina nos entrevistados em questão. Na questão nº 3 do questionário, verificou-se que todos os entrevistados têm formação superior em Secretariado Executivo. Informa-se, ainda, que nenhum dos entrevistados possui vínculo ou formação pós-graduada. Conforme análise dos questionários, verificou-se que 03 pesquisados atuam no mercado de trabalho como assessores virtuais entre 01 e 03 anos. Apenas 01 entrevistado informou que atua de forma virtual a menos de um ano. O último profissional contatado está na modalidade a distância a mais de 05 anos. 5.2 A VIRTUALIDADE NA PROFISSÃO DE SECRETARIADO EXECUTIVO Esta etapa da pesquisa é composta da análise da segunda parte do questionário, questões de nº 5 a nº 11, que focalizou a assessoria executiva virtual na atuação do profissional de Secretariado Executivo, na visão dos profissionais. 5.2.1 ATUAÇÃO COMO ASSESSOR EXECUTIVO PRESENCIAL Observa-se que referente à questão nº 5, todos os entrevistados informaram já ter atuado como secretários presenciais antes da atuação a distância, porém 01 profissional não atua mais como secretário presencial e os 04 restantes ainda conciliam as duas modalidades. Pode-se perceber que a atuação como assessor presencial serve de experiência para a inserção na modalidade a distância. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 70 5.2.2 MUDANÇA DE MODALIDADE Na questão nº 6, foi questionado aos profissionais os motivos pelos quais estes resolveram mudar da modalidade de assessor presencial para a virtual. Ainda analisando a questão anterior, o profissional que atualmente só realiza atividades da assessoria executiva virtual, informou motivos diversos para a mudança, tais como: aposentadoria e a necessidade de ainda permanecer no mercado de trabalho e a limitação de atuar apenas para uma empresa, pois o mesmo percebeu que outras empresas, outros profissionais e até mesmo os colaboradores da empresa onde trabalhava, necessitavam de assessoria para buscar soluções para diversas dificuldades. Desta forma, o entrevistado percebeu que a atuação a distância poderia ser a solução para as situações acima mencionadas, visto que, através da criação de sites e/ou blogs eles poderiam prestar seus serviços de forma independente, ou seja, sem vínculo empregatício com empresas. Sob esse aspecto vale salientar a percepção de Almeida (2005, p. 86) ao considerar que: a prática do trabalho em domicílio “[...] constitui fator gerador de tal mudança de mentalidade, haja vista o crescente contingente que elege e, com naturalidade, vem desempenhando tarefas inerentes ao trabalho em domicílio”. Verifica-se, ainda, que 04 dos entrevistados conciliam as atividades das duas atuações. Os profissionais que atuam desta maneira afirmam ter adquirido o interesse pela virtualidade da profissão por meio de informações adquiridas em pesquisas em internet e/ou viagens internacionais, visto que a assessoria a distância já tem grande desenvolvimento e aceitação em outros países, o que no Brasil ainda está em processo de reconhecimento. A Secretária Virtual 4 informou que é necessário dedicar um tempo específico para o trabalho a distância, para que uma atuação não prejudique o andamento da outra. Conforme reposta abaixo, a mesma secretária apresenta como realiza a distribuição das suas atividades. ‘Ainda atuo como Secretária Executiva em uma renomada Multinacional da Indústria de Petróleo e Gás. Em paralelo sou Assistente Virtual. Dedico 30% do meu tempo na minha consultoria, prestando serviços, treinando futuros Assistentes Virtuais, atualizando-me sobre o assunto e tentando divulgar a idéia no país (SECRETÁRIA VIRTUAL 4).’ Percebe-se que a atuação virtual, não necessariamente, substitui a presencial, mas é necessário conciliar as duas para que as atividades sejam realizadas de forma profissional e em tempo hábil. Caso o profissional opte apenas pelo assessoramento a distância, ainda assim, é necessário especificar o tempo que será disponibilizado para a realização das Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 71 atividades, para que a atuação virtual não se confunda com o tempo destinado à vida pessoal. 5.2.3 DIFERENÇA ENTRE AS MODALIDADES Indagados se existiam diferenças entre as assessorias executivas, presencial e virtual, 02 dos entrevistados informaram que não existem diferenças entre as modalidades, porém 03 entrevistados afirmaram que sim, existem diferenças. Solicitou-se que fossem informadas quais diferenças existiriam entre as modalidades. Os profissionais que responderam “sim” exemplificaram que as diferenças estão quanto aos cuidados com a comunicação, pois no caso da assessoria virtual o cuidado deverá ser elevado, visto que uma informação mal passada virtualmente poderá ser entendida de forma equivocada, podendo acarretar assim possíveis problemas. Uma das maiores diferenças mencionadas está relacionada à forma de trabalho não presencial, pois, de acordo com os entrevistados, o assistente virtual pode atuar da mesma forma que trabalha em uma empresa, sendo que remotamente.Percebe-se que as assessorias executivas, presencial e virtual, estão interligadas, e que o avanço das tecnologias trouxe para a área secretarial uma nova opção de prestação de serviços. Com relação às mudanças e atuais formas de atuação, Durante e Fávero (2009) apresentam que a carreira secretarial sofreu inúmeras transformações desde sua regulamentação, em 1985, obrigando os profissionais a exercer uma nova forma de atuação em seu ambiente de trabalho. Pode-se analisar que o assessoramento virtual não extermina o modo presencial, mas inova a maneira de assessorar, pois o profissional se torna autônomo ou empresário, arcando com suas despesas na gestão de seus serviços. 5.2.4 PONTOS POSITIVOS E DESAFIOS DA ASSESSORIA VIRTUAL Na questão nº 8 do questionário, foi solicitado aos participantes que informassem quais seriam os desafios enfrentados pelos profissionais assessores virtuais e quais seriam os pontos positivos da profissão. Foram mencionadas inúmeras situações, porém, em relação aos pontos positivos, todos os entrevistados alegaram que a grande vantagem da profissão seria a atuação em home office, ou seja, a atuação em escritório situado na própria residência, visto que desta forma, o tempo destinado ao Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 72 deslocamento para a empresa seria utilizado para concluir atividades de assessoria. Outras vantagens foram mencionadas, assim como, a não necessidade de se reportar a um superior a todo o momento para tomada de decisões; a distribuição das horas de trabalho de acordo com a necessidade e disponibilidade do profissional assessor virtual; a não interrupção no ambiente de trabalho pelos clientes, pois os contatos seriam feitos de forma virtual, e os mesmos só entrariam em contato, caso necessitassem realmente dos serviços. Os participantes da pesquisa mencionaram que por conta das inúmeras vantagens da modalidade, e principalmente da autonomia no ambiente de trabalho, a assessoria virtual proporciona uma melhor qualidade de vida. Em relação aos desafios encontrados na profissão, a Secretária Virtual 2 informou que, a nível de Brasil, a resistência das pessoas com relação ao profissional assessor virtual ainda é muito grande, pois trata-se de uma atividade nova, e as pessoas/clientes ainda agem com muita desconfiança. Ela alegou, ainda, que o fato de o cliente não ter contato direto com o profissional ou ter o profissional apenas virtualmente, ainda gera certa insegurança, o que na visão da assessora entrevistada, é normal, visto que a atividade ainda está em desenvolvimento no Brasil. Foi apresentado pela Secretária Virtual 3 que a gestão do escritório virtual poderia se tornar um desafio, pois a manutenção do faturamento para pagamento de despesas fixas, variáveis e pró-labore deverá ser gerenciada pelo assessor virtual. Também se torna um desafio para a profissão a manutenção e fidelidade dos clientes ideais, exemplificados pela ela como: ’Aqueles que geram grande prazer em trabalhar, que valorizam os serviços prestados, que não discutem valores de honorários e que aumentam a vontade e o desejo para atuação como assessor virtual (SECRETÁRIA VIRTUAL 3). ’ A Secretária Virtual 1 informou que o brasileiro ainda não está preparado para trabalhar com a assessoria virtual e que um dos maiores desafios seria conseguir quebrar a barreira da cultura de que o profissional de Secretariado Executivo deve prestar seus serviços apenas em ambiente corporativo, e não virtualmente. A mesma entrevistada ainda menciona que na Índia, este serviço já é tão aceito e difundido, ao ponto de que países de primeiro mundo já utilizam os serviços de assistentes virtuais indianos. Após análise das respostas dos entrevistados para a questão nº 8, verificase que os dados corroboram com Quintal (2002) ao mencionar as mesmas vantagens referentes à atuação a distância: autonomia na organização do seu trabalho, diminuição do absentismo, alcance de objetivos pessoais, redução do tempo, diminuição do estresse. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 73 Percebe-se que com inúmeras vantagens, o teletrabalho, se torna a grande tendência para o futuro. O mercado baseia-se em diferenciais para conquistar e satisfazer os clientes de acordo com as suas necessidades. Diversas empresas já estão virtualizando seus ambientes de trabalho. A utilização dessa virtualidade serviu para simplificar a comunicação da empresa, porém com o crescimento da competição global, toda empresa ou profissional autônomo precisa implantar diferentes formas de inovação em sua gestão para estar em conformidade com as mudanças e exigências do mercado. Pode-se afirmar que a implantação dessas novas formas de gerência se torna o grande desafio para a atividade virtual (Durante & Fávero, 2009). 5.2.5 FERRAMENTAS TECNOLÓGICAS A questão nº 9 solicitou que fossem informadas quais ferramentas tecnológicas podem ser utilizadas para a realização das atividades de assessoria virtual. A resposta dos participantes foi unânime: é necessário ter sempre ao alcance telefones, sejam eles celulares ou fixos, aparelhos que permitam o acesso à internet de forma rápida, como tablets, smart phones ou notebooks, assim como impressoras multifuncionais e programa de softwares. Mello (2012, citado por MORAES, 2012), confirma a afirmação dos entrevistados em relação às ferramentas tecnológicas, que em entrevista ao jornal “O Fluminense” informou que os profissionais atuantes de forma a distância, utilizam equipamentos, tais como: smartphones, tablets e outros, sem a necessidade de ser realizada em um local e horários fixos. Além das ferramentas supramencionadas, pode-se afirmar que com a modernização a utilização das redes sociais também pode ajudar na divulgação dos serviços de assessoria virtual e, assim, aumentar o número de clientes, visto que há um acesso muito grande por toda população. Além disso, pode contribuir para a eficácia do desempenho do secretário virtual, retomando a percepção de Gouveia (2009), ao considerar que a tecnologia possibilita o rápido acesso às informações e feedback instantâneo. 5.2.6 PRINCIPAIS TIPOS DE SERVIÇOS A questão nº 10 questiona sobre os tipos de serviços que os assistentes prestam em seus devidos escritórios virtuais. Na maioria das solicitações são procurados serviços do tipo administrativos/secretariais. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 74 Abaixo apresentam-se três quadros, que informam os variados tipos de serviços fornecidos pelos assessores a distância. Os quadros estão divididos em serviços administrativos, serviços financeiros/compras e serviços de recursos humanos, baseados nas atividades dos assessores virtuais, visto que a tipologia desses serviços é praticamente a mesma para todos os entrevistados. Quadro 1 - Lista de serviços administrativos oferecidos pelos assessores virtuais SERVIÇOS ADMINISTRATIVOS Terceirização da prestação de serviços de Secretariado Executivo; Terceirização de tarefas administrativas; Substituição de profissionais da área secretarial por períodos de ausência (férias, viagens, licença médica, licença maternidade, etc.); Assistência e organização pessoal sob medida; Processamento de textos, correspondências, formulários, planos de aula e outros; Gestão documental, compreendendo o diagnóstico, triagem dos documentos, informatização e arquivamento; Cotação e reserva de passagens, hospedagens e restaurantes; Organização de compromissos e agendamento; Verificação de e-mails; Organização de arquivos pessoais, tanto na empresa quanto na residência do Executivo; Organização de workshops, treinamentos, tanto na empresa quanto em locais para este fim; Digitação de relatórios, manuais, atas, enfim, todo e qualquer texto, dentro das normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), assim como padrões de identidade visual da empresa; Preparação de palestras, desde apresentações em power point, preparação do ambiente, listas de presenças, avaliações, relatórios de aproveitamento, etc.; Assistência na organização de eventos; Fonte: Dados elaborados pelo autor a partir do material consultado. Quadro 2 - Lista de serviços financeiros/compras oferecidos pelos assessores virtuais SERVIÇOS FINANCEIROS/COMPRAS Compras presenciais e on-line, cotações e orçamentos diversos; Preparação de documentos para licitações; Controle de contas a pagar e receber; Pagamento de contas; Fonte: Dados elaborados pelo autor a partir do material consultado. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 75 Quadro 3 - Lista de serviços de Recursos Humanos oferecidos pelos assessores virtuais SERVIÇOS DE RECURSOS HUMANOS Criação de manual de instruções e procedimentos para equipe interna. Auxílio na busca e contratação de profissionais e serviços diversos (Arquitetos, Decoradores, Coordenadores, estagiários e outros); Colocação de anúncios em jornais, internet e universidades; Coordenação, preparação e descrição de entrevistas; Recepção e confirmação de referências; Contratação de empresas de Recursos Humanos (RH); Fonte: Dados elaborados pelo autor a partir do material consultado. Percebe-se que os quadros apresentam serviços variados, porém existem serviços comuns a todos os assessores, como as atividades do tipo administrativas, como organização de compromissos e agendamento; verificação de e-mails; assistência e organização pessoal sob medida e assistência na organização de eventos. Além dos serviços mencionados nas tabelas, há alguns secretários virtuais que atuam de forma diferenciada, como é o caso da Secretária Virtual 1, que afirma que está participando do desenvolvimento de um projeto para uma empresa, mencionada nesta pesquisa como Informática Ltda., uma das melhores empresas de Tecnologia de Informação (TI) do Estado do Rio Grande do Sul. O projeto consiste em duas etapas: a) 1ª. Etapa: Preparar a empresa e a Alta Direção para receber um secretário, desenhando processos, perfil, forma de atuação, abrangência do cargo, culminando no recrutamento e seleção do candidato e posterior treinamento; b) 2ª. Etapa: Cadastrar a empresa nas 100 maiores empresas do Brasil no segmento financeiro, inicialmente, prospectando contatos, entendendo processos internos, consultando portais de compras. A Secretária Virtual 1 afirmou que para a conclusão do referido projeto é preciso realizar parte das atividades presencialmente: ‘Por vezes, trabalho diretamente do meu home office e, pelo menos duas vezes por semana, trabalho nas dependências da empresa, participando de reuniões com a Diretoria da empresa e as áreas comerciais; pré-venda e marketing.’ Com o crescimento da atuação a distância, a diversificação nos serviços prestados se tornou algo essencial para a prática da profissão. Como apresentado acima, a Secretária Virtual 1 se destaca entre as demais entrevistadas por oferecer suporte na elaboração de projetos, recrutamento e seleção de candidatos para o cargo de secretário. Verificase, ainda, que existem serviços oferecidos pelos assessores executivos virtuais contatados que vão além das atribuições determinadas para os Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 76 secretários executivos, na Lei Nº. 9.261/96, como: pagamento de contas ou auxilio na busca e contratação de profissionais e serviços diversos. 5.2.7 PERSPECTIVAS SOBRE A ASSESSORIA VIRTUAL Questionados sobre quais seriam as perspectivas futuras para a assessoria virtual, os entrevistados responderam que acreditam que a ideia do trabalho secretarial prestado de modo virtual representa uma quebra de paradigma, na medida em que determinados processos secretariais deixam de ser realizados no ambiente corporativo e ganhem o home office dos profissionais da área. Os entrevistados afirmaram que já é visível uma mudança positiva no mercado, pois já existe um número considerável de empresas e profissionais liberais que trabalham em sistema de home office espalhados pelo Brasil, os mesmos completaram o posicionamento, afirmando que a profissão só se consolidará definitivamente no Brasil, após a análise e aceitação total dos benefícios que a assessoria virtual traz para os clientes, como a redução dos custos com impostos trabalhistas. Acerca da perspectiva para a profissão, a Secretária Virtual 3, diz que: ‘Por ser uma nova tendência no mercado de trabalho, tenho grandes expectativas, inclusive, tendo em vista que minha empresa é a única que presta serviços de Secretária Remota e Assistente Virtual em Curitiba-PR e toda região. A perspectiva é atrair mais clientes ideais e contratar mais uma pessoa para trabalhar comigo. A ideia é nos próximos anos ter minha empresa reconhecida em todo estado do Paraná.’ Analisa-se que com a Revolução Tecnológica, os meios de produção foram descaracterizados a partir da inclusão, especialmente, dos computadores, que nos últimos anos, alteraram o próprio local de trabalho levando-o para a residência do empregado. Essa nova forma de trabalho, batizada como teletrabalho, tornou-se uma tendência mundial. Sobre essa tendência, Almeida (2005) considera que essa modalidade de atuação +e possibilitada pela tecnologia, propiciando uma nova mentalidade e os profissionais intercalam o trabalho em casa com aquele realizado nas dependências da organização, beneficiando-se do trabalho em sua residência, sem se sujeitarem às suas desvantagens. Percebe-se que o avanço tecnológico trouxe grande mobilidade à atuação virtual, que em consequência vem crescendo cada vez mais e sendo adotado por muitas empresas. Mesmo com o crescimento da tecnologia, as atividades a distância ainda sofrem certo preconceito, haja vista que o Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 77 brasileiro ainda está aprendendo a conviver com os profissionais teletrabalhadores. Verifica-se que a grande perspectiva da profissão de assessor virtual faz referência à divulgação, ao desenvolvimento e à aceitação da virtualização na atuação secretarial. 6 CONSIDERAÇÕES FINA IS A realização desta pesquisa possibilitou o delineamento de algumas reflexões sobre a assessoria executiva virtual e a profissão de Secretariado Executivo, relacionadas aos pontos positivos e aos desafios enfrentados pelos profissionais que prestam serviços de assessoria virtual e às perspectivas para a assessoria a distância na visão dos secretários virtuais. A pesquisa bibliográfica foi de fundamental importância, visto que possibilitou a base teórica do estudo, apresentando os conceitos referentes à assessoria virtual, bem como o seu desenvolvimento no Brasil. A pesquisa de campo, por sua vez, foi de grande importância, pois, por meio dela, foi possível averiguar a opinião dos assessores virtuais entrevistados a respeito da profissão. Quanto aos pontos positivos, a investigação denotou que a atuação como assessor a distância, na visão dos profissionais virtuais pesquisados, proporciona maior qualidade de vida aos assessores que atuam em home office, já que o tempo de deslocamento à empresa seria substituído por atividades de âmbito profissional ou por dedicação de mais tempo à família. A redução do stress ocasionado pelo trânsito, também pode ser mencionada como vantagem das atividades em home office. Em meio a inúmeras vantagens, os assessores virtuais se deparam com um grande desafio: a não divulgação da modalidade no Brasil. Constatou-se que a atuação do assessor virtual já tem grande reconhecimento fora do país, como é o caso dos assessores indianos que tem seus serviços solicitados por clientes de diferentes lugares. Para que o Brasil também tenha seus assessores virtuais reconhecidos, faz-se necessária uma política de divulgação da profissão, visto que os clientes, por falta de conhecimento, ainda agem com muita desconfiança na solicitação dos serviços, já que a realização é feita de forma virtual. Quanto às perspectivas para a assessoria a distância, na visão dos secretários virtuais investigados, pode-se perceber que os secretários virtuais acreditam que, com a quebra de paradigma proposto pelo trabalho a distância, outras empresas e assessores também optem pela modalidade virtual e assim será possível a divulgação e em conseqüência o desenvolvimento e aceitação da virtualização na atuação secretarial por parte dos clientes brasileiros. Verificou-se que a perspectiva dos Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 78 profissionais entrevistados com maior experiência é tornar-se reconhecido no Brasil como secretário a distância e assim consolidar-se na profissão. Verificou-se que a assessoria virtual como forma de atuação do secretário executivo ocorre de forma paulatina, ainda timidamente, devido à existência de alguns obstáculos a serem transpostos e pela necessidade de maior divulgação da modalidade, fazendo com que o desenvolvimento da profissão secretarial como assessor virtual no Brasil seja prejudicado. Salienta-se que a assessoria virtual, que é uma tendência norteamericana, começa a ganhar lentamente a simpatia dos brasileiros com a promessa de redução de custos da corporação e aumento da produtividade dos funcionários. Verificou-se que em casa, o trabalhador pode produzir mais do que no ambiente corporativo, caso saiba administrar o tempo para as atividades. O trabalho realizado de casa requer cuidados e preparação profissional e psicológica. Caso o assessor não saiba administrar o tempo para as atividades ou então seja dependente de relações interpessoais no ambiente de trabalho, terá grandes problemas, pois a diminuição dessas relações pode levar o assessor à depressão, por isso, a assessoria virtual, assim como qualquer trabalho a distância, não é recomendada para quem tem tendência à depressão. Portanto, reflete-se que o trabalho virtual em Secretariado Executivo corresponde a uma nova forma de organização do trabalho, relacionando-se com a flexibilidade das estruturas anteriormente, tradicionais e centralizadas, estando, portanto, articulado à desagregação do emprego clássico, emergindo como uma nova oportunidade de atuação secretarial. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Lucilde D’Ajuda Lyra de. 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Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 ISSN 1676-045x Volume XI – nº 11 - 2012 p. 83 – 102 INTELIGÊNCIA ORGANIZ ACIONAL COMO FERRAMENTA DE GESTÃO : UM REFERENCIAL TEÓRICO INTEGRADO Rodrigo Müller1 Newton Correa de Castilho Junior2 Resumo: O presente artigo apresenta conceitualmente a Inteligência Organizacional (IO) desde o surgimento, na década de 1960, até os dias atuais. Aborda a IO sob uma visão temporal, enfocando principais transformações ocorridas com relação aos seus estudos e aplicações por meio de uma revisão teórico-exploratória, dando origem a um quadro temporal sobre a evolução em seus estudos, destacando autores e principais conceitos encontrados na literatura utilizada. Por meio de uma análise de conteúdo dos materiais consultados, percebe-se que a IO passou de uma visão técnica e voltada para o ambiente externo para uma visão integrada da organização, incluindo aspectos internos às empresas capazes de auxiliar no desenvolvimento organizacional e na sua adaptação às novas realidades ambientais. Após transformações em seus conceitos, a IO passou a englobar atividades tradicionalmente desenvolvidas em outras disciplinas, bem como conceitos de outras abordagens de gestão organizacional, já consagradas nos ambientes acadêmico e empresarial, apresentando-se, assim, como uma disciplina holística e integradora, que não pretende substituir nenhuma outra, mas sim complementá-las, auxiliando esta tarefa com uma abordagem sistêmica da organização. A atenção constante dos ambientes empresariais figura entre as atividades fundamentais para o desenvolvimento da IO, juntamente com atividades provenientes da Gestão da Informação, Gestão do Conhecimento, Aprendizagem Organizacional, dentre outras. Inteligência Organizacional. Organizacional. Adaptação Estratégica. Palavras-chave: Desenvolvimento 1 E-mail: [email protected] 2 E-mail: [email protected] Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 84 ORGANIZATIONAL IN TEL LIGENCE AS A TOOL OF MANAGEMENT: A THEORE TICAL INTEGRATED VIE W Rodrigo Müller1 Newton Correa de Castilho Junior2 This article p resents conceptually the Organizational Intelligence (OI) since its emergence, in the 1960, to the present days. Discusses OI under a temporal view, focusing on the main changes with respect to their studies and applications through a theoretical and exploratory research, presenting a timeline frame of the progress in their studies, highlighting authors and main concepts used in the literature. Through a content analysis of materials consulted, it is noticed that the OI has gone from a technical view and facing the external environment to an integrated view of the organization, including internal aspects to make companies able to assist in organizational development and its adaptation to new environmental realities. After transformations in its concepts, the OI has to encompass activities traditionally developed in other disciplines, as well as concepts from other organizational management approaches, already consolidated in the academic and business environments, presenting itself as well as a holistic and integrative discipline, that not intended to replace any other, but rather complement them, helping this task with a systemic approach to organizations. The constant attention of enterprise environments is one of the fundamental activities for the development of OI, along with activities from Information Management, Knowledge Management, Organizational Learning, among others. Abstract: Key-words: Organizational Intelligence. Organizational Development. Strategic Adaptation 1 E-mail: [email protected] 2 E-mail: [email protected] Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 85 1 INTRODUÇÃO A Inteligência Organizacional (IO) surgiu em um momento em que a escassez de recursos (físicos e humanos), o crescimento acelerado dos mercados, o aumento do número de informações no ambiente externo, dentre outros fatores, obrigavam as organizações a adotar novas práticas e atitudes frente aos concorrentes, cada vez maiores em número e em capacidades. O excesso de informações vindas dos ambientes externos, aliado à necessidade de novas abordagens administrativas (WILENSKY, 1967), culminaram no surgimento de disciplinas administrativo-organizacionais que buscassem suprir as necessidades informacionais, as dificuldades de aprendizado e inovação, além de uma gestão mais eficiente dos recursos que as empresas dispunham. Neste contexto, Harold Wilensky, em seu livro “Organizational Intelligence: knowledge and policy in government and industry” – publicado em 1967 - apresentou a Inteligência Organizacional - IO, buscando contribuir para os estudos e aplicações práticas de atividades que contribuíssem para uma melhor utilização dos recursos informacionais, dos dados vindos do ambiente externo e de sua combinação com dados do ambiente interno das empresas. Além disso, o autor defendia a visualização das organizações como um todo, formadas por pessoas, setores e máquinas, todos inter-relacionados e interdependentes. Com o passar dos tempos, a IO foi recebendo complementos de outras disciplinas, englobando atividades pertinentes à Gestão da Informação - GI, por meio de atividades coordenadas de identificação de necessidades informacionais, coleta, tratamento e processamento, distribuição e utilização das informações (POMBERT, 2002; CRUZ e DOMINGUES, 2007); recebendo complementos da Gestão do Conhecimento - GC, com atividades correlacionadas ao processo de conversão dos conhecimentos individuais, propostas por Nonaka e Takeuchi (1997); complementada ainda pelos apontamentos da Aprendizagem Organizacional - AO, propostos por Senge (1993), utilizando-se, dentre outros, de conceitos apresentados por Argyris e Schön (1978) sobre o aprendizado de laço único e laço duplo; dentre outras atividades. Neste contexto, este trabalho aborda a IO sob uma visão temporal, evidenciando as transformações conceituais, bem como as adaptações realizadas em seus estudos para continuar a auxiliar as organizações na integração entre seus setores, pessoas e tecnologias, contribuindo para a busca e alcance de seus objetivos organizacionais e também de vantagens competitivas sustentáveis. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 86 Para tanto, iniciando-se com um pesquisa bibliográfica e exploratória, este trabalho apresenta os principais conceitos sobre a IO encontrados na literatura pesquisada, além de traçar uma linha temporal com as alterações em seus estudos, com o objetivo de apresentar as principais especificidades do tema. Por fim, é apresentado um panorama de uma análise de conteúdo realizada na bibliografia consultada, bem como são apresentadas as contribuições da Inteligência Organizacional para os estudos organizacionais, além de suas contribuições para as ações estratégicas que podem ser aprimoradas com auxílio das atividades características dessa disciplina. Desta forma, nos próximos tópicos apresentam-se os procedimentos metodológicos adotados, o referencial teórico para construção deste estudo, e, por fim, as discussões referentes ao tema. 2 PROCEDIMENTOS METODO LÓGICOS O trabalho desenvolveu-se sob a forma de um ensaio teórico. Para tanto, o estudo iniciou-se com uma pesquisa bibliográfica, buscando reunir materiais recentes referentes ao tema, bem como trabalhos historicamente importantes sobre a IO. Posteriormente, foi realizada uma pesquisa teórico-exploratória, buscando apresentar a IO e suas características a partir de seu surgimento até o cenário atual, por meio de literatura nacional e internacional. Segundo Sampieri, Collado e Lucio (2006), a pesquisa exploratória é realizada geralmente quando se tem por objetivo examinar um tema ou problema ainda pouco estudado, que apresente muitas dúvidas, ou mesmo que ainda não tenha sido pesquisado. Com base no material encontrado, e utilizando-se de técnicas de análise do conteúdo, que tomou como base os subprocessos da IO apresentados por Matsuda (Figura 1) para unidades de análise, foi possível, a partir destes dados, construir um quadro da evolução nos estudos da IO apontando as características abordadas por cada autor consultado, resultando assim no demonstrativo dos trabalhos principais dos autores consultados sobre o tema, bem como as respectivas abordagens dedicadas aos estudos da IO. Por meio da análise de conteúdo, foi possível identificar pontos congruentes nas diferentes abordagens acerca da IO, apontando tanto expressões comumente utilizadas, como outras disciplinas e atividades entendidas pelos autores como capazes de contribuir para a formação da Inteligência Organizacional. Por fim, foi possível traçar uma comparação entre as abordagens dos autores, relacionando-as em um quadro explicativo. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 87 3 REFERENCIAL TEÓRICO Este tópico apresenta as principais contribuições teóricas relacionadas à Inteligência Organizacional e à evolução em seus estudos e conceitos. Parte-se de uma abordagem mecanicista e competitiva (WILESNKY, 1967) para uma abordagem mais abrangente e integradora (MORESI e LOPES, 2011), passando por alterações e novas contribuições advindas de outras disciplinas, evidenciadas no texto a seguir. 3.1 INTELIGÊNCIA ORGANIZACIONAL O termo Inteligência Organizacional (IO) surgiu em meados da década de 1960, oferecendo uma nova abordagem com relação a utilização das informações empresariais, que antes eram deixadas de lado, preocupando-se a empresa basicamente com o que ocorria dentro de seu domínio e de suas capacidades produtivas. A informação passou a ser visualizada como geradora de valor, de oportunidades e de vantagem estratégica, além de passar a ser utilizada para acompanhar os movimentos das empresas concorrentes. Segundo Wilensky (1967), precursor nos estudos sobre o tema, a utilização da IO nas organizações se deu em função da necessidade de um aproveitamento mais efetivo das informações possuídas. Ainda segundo o autor, se poderia – à época do surgimento do tema e de seus estudos visualizar a IO em termos de coleta, processamento e interpretação de informações do ambiente externo, e comunicação das informações obtidas para dentro das empresas, posteriormente utilizadas para a tomada de decisões. Para o autor, a IO é alcançada pelas empresas por meio de atividades e processos inter-relacionados e pela utilização efetiva dos recursos organizacionais. Segundo March e Olsen (1979) apud Choo (1998), a IO é construída sobre dois pilares: cálculo racional e aprendizado pela experiência. O cálculo racional é obtido por meio da avaliação das consequências esperadas com a tomada de determinadas decisões/ações. Já o aprendizado pela experiência é a escolha de ações com base em regras estabelecidas por experiências passadas, ou seja, utilizar o passado como direcionador para as ações futuras. Para os autores, o aprendizado e o comportamento adaptativo da empresa a seus ambientes são fatores fundamentais para as organizações inteligentes. Para Matsuda (1992; 1993), a IO surgiu das similaridades com a inteligência humana, de forma que assim como cada indivíduo possui capacidades e inteligência única, as organizações – compostas por Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 88 indivíduos – vistas como um todo, possuem também características singulares, inerentes à inteligência e alcançadas por meio da coletividade. O autor ainda aponta que a IO pode ser vista como um “complexo integrativo, agregativo e coordenativo entre inteligência humana e inteligência tecnológica” [tradução livre] (MATSUDA, 1993, p. 664), de forma que a inteligência tecnológica pode ser vista como tecnologias de informação dentro das empresas. Para o autor, a IO é integrativa por trabalhar na integração entre pessoas e setores dentro das empresas; agregativa por introduzir em processos, produtos e serviços os conhecimentos e habilidades dos colaboradores; e coordenativa por buscar oferecer um direcionamento para que as demais atividades possam ocorrer. Para Choo (1995), a IO pode ser vista como um ciclo de atividades de sensoriamento do ambiente, desenvolvimento de percepção e geração de significado, alcançados por meio da interpretação, que deve ser realizada com base na memória organizacional sobre as experiências passadas. Após este processo, é possível que a organização utilize as interpretações desenvolvidas para escolher as melhores ações a serem aplicadas para situações específicas. Para o autor, com base neste processo, é possível perceber o que está acontecendo com a empresa em comparação com o ambiente, de forma que as mudanças necessárias podem ser realizadas buscando atender novas exigências ambientais, bem como se adaptar à nova situação. McMaster (1996) apud Moresi (2001) aponta que a inteligência organizacional pode ser compreendida como uma capacidade da empresa de se adaptar, aprender, inovar, além de conseguir aumentar seus conhecimentos, de forma que possa selecionar, com base nesse processo, alternativas que melhor respondam as condições ambientais. Para o autor, são vários os fatores que compõe a IO, como aspectos corporativos, organizacionais e pessoais. Já Albrecht (2003) apresenta a visão de que a IO é um produto resultante de um conjunto de atividades inter-relacionadas que buscam integrar a empresa por meio de seus objetivos estratégicos e demais atividades. Para o autor, a IO pode ser compreendida como “a capacidade que uma organização possui de mobilizar todo o seu poder cerebral e concentrar tal poder na conquista de sua missão” (ALBRECHT, 2003, p. 28). Ainda segundo o autor, a IO é algo que pode ser conquistado após um minucioso trabalho de conscientização e envolvimento dos membros da empresa com o objetivo de promover a IO na organização. Cruz e Dominguez (2007) definem a IO como uma capacidade desenvolvida pelo aprendizado organizacional sistêmico, que permite à empresa perceber adequadamente os ambientes interno e externo por meio do processamento das informações obtidas nestes ambientes, além de gerar novos conhecimentos que contribuam para a tomada de decisões e Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 89 resolução de problemas em ambientes em constante mudança. As autoras enfatizam a questão de a IO amparar-se nos dois ambientes das empresas, buscando uma visão integrada. Xuezhong, Qian e Zhaohan (2008) apresentam a IO como a capacidade da organização de perceber mudanças no ambiente, coletar informações, aumentar o nível de aprendizado, criar novos conhecimentos e agir efetivamente com base nos conhecimentos criados para poder se adaptar ao ambiente e alcançar da melhor forma os objetivos organizacionais. Os autores ainda apontam que, para alcançar a IO, as empresas devem ter pessoas inteligentes em suas equipes e elaborar processos inteligentes. Por membros inteligentes os autores apontam que estes devem possuir conhecimentos técnicos sobre suas funções, tácitos e capacidade de rápido aprendizado. Já nos processos inteligentes, os autores propõe a adoção de práticas de previsão para buscar se preparar para as mudanças súbitas no ambiente bem como para resolver problemas com agilidade e efetividade, além de processos mais enxutos e que cumpram seus objetivos de forma mais efetiva, minimizando custos e maximizando a utilização do tempo. Complementando estes pensamentos, Moresi e Lopes (2011) apontam que o desenvolvimento da IO pode auxiliar as empresas na obtenção de vantagens competitivas não esgotáveis (ou autossustentáveis), uma vez que auxilia na interpretação do ambiente complexo das organizações atuais e proporciona uma maior reflexão acerca da empresa. Tema emergente tanto na literatura como nas aplicações práticas em empresas, a IO vem sendo construída aos poucos, passando por modificações em suas definições e agregando novos conceitos e ferramentas a medida em que passa a receber mais atenção das comunidades acadêmica e empresarial. 3.1.1 ABORDAGENS DA INTELIGÊNCIA ORGANIZACIONAL Segundo Matsuda (1992, 1993), a IO pode ser vista sob duas perspectivas: produto e processo. Sendo um produto, a IO proporciona resultados práticos à empresa, tanto na tomada de decisões ou nas definições de estratégias de longo prazo, por meio de relatórios e outros documentos resultantes das atividades realizadas, bem como diretrizes para processos e ações futuras. Já como processo, é um conjunto de atividades inter-relacionadas que envolvem toda a organização com uma finalidade comum, constituindo um processo integrativo, agregativo e coordenativo que envolve inteligência humana e de máquina, por toda a empresa. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 90 Como um processo, Matsuda (1992) aponta 5 componentes, ou subprocessos, da IO: a) comunicação; b) memória; c) aprendizagem; d) cognição; e e) raciocínio. Para o autor, a IO, vista como um produto, pode ser o resultado da aplicação da abordagem de processo. Complementando esse pensamento, Kirn (1995), que também se utiliza dos cinco componentes apresentados acima para definir as atividades da IO, aponta que a mesma integra processos de informação humana e computacional, juntamente com a capacidade de solucionar problemas. 3.1.1.1 Os Subprocessos da IO de acordo com Matsuda (1992) Em seus estudos, Matsuda (1988, 1992, 1993) identificou e apresentou cinco subprocessos da IO, que, segundo o autor, se desenvolvidos pelas organizações de forma conjunta podem contribuir para o alcance de vantagens competitivas e da própria IO. Matsuda apresentou os subprocessos conforme apresentado na Figura 1, a seguir. Para o autor, a Cognição compreende os processos de percepção/leitura das imagens dos ambientes interno e externo. Em muitos casos essa leitura é feita com base em experiências ou memórias passadas. Pode ser utilizada para mudar estilos de administração passados com base nas oportunidades para o futuro. É uma forma de a organização deixar de se apoiar apenas em suas atividades anteriores, buscando inovar e utilizar as suas potencialidades para novos fins. Já o subprocesso de Comunicação Organizacional contempla as inteligências individuais e a IO. É por meio dos processos de comunicação que a empresa pode conseguir fazer com que todos os seus funcionários tenham acesso aos mesmos dados e informações, contribuindo assim para a disseminação e criação de novos conhecimentos. As atividades comunicacionais podem ser formais e/ou informais e vistas sob várias perspectivas. É necessário que se observem, além das características humanas, as características físicas e tecnológicas que compõe a empresa em questão, para que esta tenha o suporte que precisa para poder desempenhar com eficiência e eficácia este processo. Figura 1 – Os 5 Subprocessos da IO, segundo Matsuda (1992) Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 91 Fonte: Adaptado de Matsuda (1992). O subprocesso de Memória Organizacional é responsável pela seleção, retenção e recuperação das experiências da empresa, para que estas possam ser utilizadas no futuro. Estes processos compreendem as memórias individuais, por meio do registro de experiências dos colaboradores; de tecnologias, por meio da construção de bases de dados e de conhecimentos; memória institucional, por meio da manutenção de documentos e arquivos importantes, relatórios sobre atividades, manuais de procedimento, padronização de tarefas formalizada, métodos e técnicas específicas, dentre outros; e memória cultural, compreendida pela própria cultura da organização, tradições, crenças compartilhadas, linguagens próprias, rituais, e outros recursos utilizados pelos membros. O subprocesso de Aprendizado considera os aprendizados individuais, que ocorrem por meio das experiências dos indivíduos, e o aprendizado coletivo, por meio dos trabalhos em equipe e experimentação conjunta de procedimentos organizacionais. Neste processo estão envolvidos os contatos dos indivíduos com os dois ambientes, interno e externo, de forma que são utilizadas as características de indivíduos e ambientes, aliadas à ferramentas organizacionais, para a obtenção de um aprendizado coletivo que proporcione benefícios à empresa. Por fim, apresenta-se o subprocesso Raciocínio. Pela tradução literal da expressão utilizada por Matsuda (1993) – inference -, poderia ser utilizada também a expressão Inferência, ou as expressões ‘dedução’ e/ou ‘conclusão’, porém, na literatura nacional encontrada, todos os registros utilizam o termo Raciocínio (Moresi, 2001; Lopes, 2009). Este processo é responsável pela utilização das informações disponíveis juntamente com os recursos que a empresa dispõe para a tomada de decisões. Em sua maioria decisões estratégicas, o processo deve ser executado com profissionais adequados, especialistas em suas áreas, buscando compreender o ambiente e utilizar as melhores opções de que a empresa dispõe. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 92 3.2 ORGANIZAÇÕES INTELIGENTES A partir da década de 1960, as organizações passaram a dar mais atenção às questões referentes aos recursos organizacionais e de informação de que dispunham, em função da escassez de recursos físicos e também de novos estudos acadêmico-científicos relacionados à utilização dos recursos intangíveis como fator de competitividade. Dentre estes estudos surgiram os trabalhos de Edith Penrose (1959) indicando a importância da observação e valorização dos recursos organizacionais, de forma que a empresa pudesse ser vista como um conjunto de recursos, que se utilizados de maneira correta poderiam conferir uma melhoria na competitividade das empresas, levando-as à uma posição de vantagem competitiva sustentável. De acordo com Sveiby (1998), foi a partir da década de 1980 que as organizações passaram a perceber que por recursos não são compreendidos apenas os elementos expressos nos balanços contábeis, mas também os ativos intangíveis das empresas, como o conhecimento adquirido, know-how, o capital humano, dentre outros. Foi nessa época que surgiram os trabalhos de Wernerfelt (1984) e Barney (1991), dando novos pontos de vista sobre a utilização de recursos internos à empresa como fonte de vantagem competitiva e consolidando os estudos no que passou a ser conhecido como ‘Visão Baseada em Recursos’ (VBR). Assim, organizações interessadas em adquirir vantagens competitivas para se manterem atuantes em ambientes cada vez mais competitivos passaram a buscar novas formas para compreender seus ativos e recursos intangíveis e utilizá-los de maneira mais inteligente, absorvendo melhor suas potencialidades. Na literatura estudada, autores como Choo (2003), Pinchot e Pinchot (1994), Garvin (1990), Senge (2005), apontam algumas características que podem tornar as empresas inteligentes. Essas características giram em torno da Gestão da Informação, Gestão do Conhecimento e do Aprendizado Organizacional, reconhecendo o papel dos indivíduos e de suas capacidades/habilidades no crescimento das organizações. Drucker (1994) também apontou a questão da transição da sociedade de um sistema industrial para uma sociedade pós-capitalista, onde o conhecimento e seus portadores seriam cada vez mais valorizados. Neste contexto, saber como subsidiar e gerenciar as atividades dos colaboradores se torna tanto um desafio como uma oportunidade para que as organizações desenvolvam seus processos de forma inteligente. Choo (1995) apresenta a organização inteligente como aquela capaz de gerir adequadamente as informações dos ambientes interno e externo, Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 93 buscando criar novos conhecimentos que poderão ser utilizados nos processos de tomada de decisão, além de contribuir para a adaptação da empresa ao ambiente. Este processo, segundo o autor deve envolver pessoas, setores, tecnologias, entre outros elementos, para poder extrair significados dos dados e informações obtidos nos ambientes e buscar as alternativas mais adequadas para a solução dos problemas organizacionais. Para o autor: A sobrevivência da organização depende de sua capacidade de processar informação sobre o ambiente, e transformar esta informação em conhecimentos que tornem a empresa capaz de se adaptar efetivamente ao ambiente externo. Além disso, sugere-se, desta maneira, que a adaptabilidade por meio do aprendizado é a marca registrada da organização inteligente [tradução livre] (CHOO, 1998, p. 02). Cruz e Domingues (2007) apontam que a informação, os indivíduos e seus conhecimentos são fundamentais para o alcance da IO e para que a organização possa se tornar inteligente. Para as autoras, as informações disponíveis nos ambientes interno e externo necessitam de tratamento para que possam contribuir para a criação de conhecimentos, que, por sua vez, podem ser incorporados pela organização. Desta forma, saber fazer o uso adequado das informações é tarefa fundamental para as empresas que buscam alcançar a IO. Turban et al (2010) apontam que as organizações atuais devem se tornar adaptativas, ágeis e ‘em tempo real’ para poder acompanhar as mudanças do mercado e também para poder atender às novas expectativas de seus clientes. Para os autores, não há como atingir um patamar de empresa adaptativa sem o auxílio das tecnologias de informação e comunicação. Dentre essas ferramentas, encontram-se os sistemas de informação, cada vez mais popularizados e necessários para as empresas que estão preocupadas com sua permanência e adaptabilidade ao ambiente no qual estão inseridas. 4 ANÁLISES E DISCUSS ÕES Partindo do exposto, é possível perceber que as abordagens da inteligência organizacional iniciaram com uma visão mais técnica e voltada para o gerenciamento das informações advindas do ambiente externo. Wilensky (1967) apresentou a IO como um auxílio para as empresas que precisavam estar em constante vigília com relação aos concorrentes e aos fatores externos que poderiam afetar o desempenho organizacional. Essa vigília acontecia buscando equiparar-se aos concorrentes ou superá-los, de Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 94 forma que a utilização adequada das informações disponíveis era fundamental. Com o passar dos anos, a visão foi sendo alterada e complementada por outros autores, que passaram a visualizar também questões internas, como o aprendizado (MARCH e OLSEN, 1979), ou mesmo a integração de inteligência humana e tecnologias de informação (MATSUDA, 1992). Posteriormente passou a englobar também a gestão das informações no ambiente interno (HAECKEL e NOLAN, 1993; CHOO, 1995; MCMASTER, 1996; CRUZ e DOMINGUEZ, 2007), considerando tanto os fatores ambientais como as capacidades internas que podem promover subsídios à adaptação estratégica, utilizando-se, também, das abordagens proporcionadas pelos estudos relacionados à Visão Baseada em Recursos, iniciados por Edith Penrose, no final da década de 1960 e complementados por estudiosos como Wernerfelt (1984) e Barney (1996), dentre outros. Neste contexto, percebe-se que atualmente a IO atua tanto no ambiente externo como no interno da empresa. O ambiente externo pode ser acompanhado com auxílio de atividades de coleta de dados e informações sobre o setor, os concorrentes, clientes, fornecedores e outros stakeholders, além dos ambientes que afetam a empresa, como: políticolegal, tecnológico, demográfico, cultural, entre outros. Já o ambiente interno pode ser trabalhado por meio de atividades que consigam captar informações e conhecimentos, armazená-los e comunicá-los aos membros, além de utilizar essas informações e conhecimentos para os processos de tomada de decisão. Partindo do exposto, é possível perceber que a IO, para ser alcançada, exige uma nova postura das organizações e de seus dirigentes para que possa ser desenvolvida. A adoção de novas formas de trabalho, de uma cultura de compartilhamento de informações e de conhecimentos, o fomento à inovação – seja ela em produtos/serviços, processos administrativos, estrutura, ou outras vertentes -, dentre outros fatores, são fundamentais para as organizações que pretendem alcançar a IO. Para tanto, é necessário compreender que a IO pode alterar padrões existentes dentro das organizações, alterando fatores e aspectos culturais enraigados entre os colaboradores. Srour (1998) aponta que a cultura organizacional permeia todas as atividades da organização e envolve todos os membros da empresa, criando um conjunto de representações mentais sincronizadas e coerentes. Para o autor a identidade de uma organização é expressa por meio de sua cultura. Schein (1995) aponta que a cultura organizacional pode ser compreendida como: (...) um padrão de suposições básicas – inventadas, descobertas ou desenvolvidas para lidar com os problemas de adaptação externa e integração interna – que funcionam com eficácia suficiente para serem consideradas Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 95 válidas e, em seguida, ensinadas aos novos membros como a maneira correta de perceber, pensar e sentir esses problemas (SCHEIN, 1995, p. 10). Por se tratar de algo intrínseco às empresas, a cultura assume diversas formas e aspectos de acordo com a realidade de cada ambiente organizacional, e ainda levando em consideração o perfil de seus membros, além de objetivos e propósitos da empresa. Neste contexto, compreende-se o fato de a cultura ser um fator a ser observado pelas organizações que pretendem desenvolver as atividades de IO em suas agendas. Neste sentido, compreende-se que a adoção de práticas de IO nas empresas pode ser uma empreitada que demande tempo até que os membros aceitem as novas posturas necessárias para o seu desenvolvimento. 4.1 EVOLUÇÃO TEÓRICA NOS ESTUDOS SOBRE A ‘IO’ Com base nas observações realizadas sobre os estudos da IO apresentados por vários autores na bibliografia estudada, foi possível construir um quadro temporal, apresentando os principais conceitos e autores que discutem o tema, conforme segue. O Quadro 1, a seguir, evidenciou a transformação pela qual os estudos da IO passaram, de forma que nos estudos mais recentes, a IO vem sendo apresentada como uma disciplina integradora, que engloba aspectos internos à empresa, externos, as capacidades dos indivíduos, tecnologias, sistemas, cultura, entre outros aspectos da vida organizacional. Quadro 1 – Abordagem Temporal da Evolução Teórica nos estudos sobre a Inteligência Organizacional: Vários Autores Autor 1967 Wilensky 1979 – March e Olsen 1988 – Matsuda 1993 – Haeckel e Nolan 1994 – Abordagem Abordou a IO sob uma visão voltada para o gerenciamento e utilização das informações sobre o ambiente externo, buscando aumentar a efetividade das tomadas de decisão estratégica voltadas para a concorrência. A IO é apresentada com um foco mais abrangente, considerando a gestão das informações disponíveis para a tomada de decisão e também visando o aprendizado organizacional por meio da experiência passada, buscando observar tanto o ambiente externo como o ambiente interno da empresa. Visualiza a IO como uma atividade integrada da organização, englobando inteligência humana e tecnologia, buscando por meio dessa interação desenvolver atividades, programas e processos capazes de dar suporte às atividades e objetivos organizacionais. A IO proporciona uma visão sistêmica da organização e de seus ambientes, buscando, por meio da monitoração desses ambientes, extrair significados para resolver, e mesmo antever, problemas e desafios organizacionais. Os autores deram ênfase na utilização de tecnologias e sistemas de informação para a concretização desses objetivos. IO conceituada sob uma visão mais humanística da empresa, que busca o Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 96 Pinchot e Pinchot aproveitamento das habilidades de todos os colaboradores para serem utilizadas na resolução de problemas, no aprendizado e na inovação em todas as suas nuances (produtos, processos, serviços, marketing, organizacional), integrando pessoas e setores e proporcionando condições para seu desenvolvimento. Enfoque no monitoramento dos ambientes interno e externo, buscando criar significados para os eventos ambientais críticos e buscando a tomada de decisões mais adequada por meio da utilização das informações 1995 – Choo possuídas. Considerando uma utilização mais efetiva dos recursos informacionais, segundo o autor, é possível utilizar as potencialidades dos indivíduos para criar vantagens competitivas. Abordagem da IO sob uma ótica voltada para a adaptação estratégica da empresa ao ambiente externo com base na capacidade interna de 1996 – percepção das mudanças ambientais, de aprendizado organizacional e de McMaster inovação. Em seu trabalho, o autor apresentou a IO como a capacidade da organização de se adaptar, inovar, criar novos conhecimentos e tomar decisões com base nesses conhecimentos. Proposição da IO como disciplina integradora da estratégia e dos objetivos 2003 – organizacionais com as capacidades dos indivíduos, buscando integrá-los à Albrecht empresa e conseguindo com que trabalhem conjuntamente para o atingimento dos objetivos e a criação da IO. Apresentação da IO sob o prisma do aprendizado organizacional 2007 – Cruz sistêmico, que por meio da utilização adequada das informações coletadas e nos ambientes interno e externo pode ajudar a empresa a criar novos Dominguez conhecimentos, resolver problemas e tomar decisões mais acertadas em ambientes complexos. Defendem a aplicação da IO enfocando a monitoração dos ambientes da 2008 – empresa, buscando usar as informações disponíveis para aumentar o Xuezhong, aprendizado, criar novos conhecimentos e se adaptar às mudanças Qian e ambientais com mais agilidade, por meio de indivíduos e processos Zhaohan inteligentes. Visualização da IO como uma atividade integradora dentro da 2011 – organização, capaz de unir setores e pessoas e englobando aspectos Moresi e corporativos, pessoais e organizacionais, com forte presença do Lopes aprendizado organizacional como seu impulsionador. Fonte: Elaborado pelos autores com base em Wilensky (1967), March e Olsen (1979) apud Choo (1995), Matsuda (1992), Haeckel e Nolan (1993), Pinchot e Pinchot (1994), Choo (1995), McMaster (1996) apud Moresi (2001), Albrecht (2003), Cruz e Dominguez (2007), Xuezhong, Qian e Zhaohan (2008), Moresi e Lopes (2011). Neste aspecto, também passaram a ser considerados de fundamental importância - para o desenvolvimento organizacional e para a obtenção de vantagens competitivas - a valorização dos recursos organizacionais intangíveis, como os conhecimentos e habilidades dos colaboradores, a cultura organizacional desenvolvida, bem como outros fatores internos. A partir do exposto, é possível perceber a utilização de outras atividades pertencentes a disciplinas distintas e já consagradas nos estudos organizacionais. Vê-se a IO como uma disciplina holística, que engloba aspectos pessoais, organizacionais e ambientais, buscando criar um Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 97 ambiente de aprendizado constante e de compartilhamento e gestão de informações e conhecimentos. Segundo Drucker (1994) e Sveiby (1998), os recursos intangíveis dentro das organizações passarão a ter valor significativo para a empresa e para seus parceiros, o que já se pode ser evidenciado em abordagens de gestão atuais, como é o caso da IO. Compreende-se também que a IO pode ser vista como uma disciplina, pois a alteração em estruturas, cultura e outros fatores pode fazer com que seja necessário tempo até todos os envolvidos no processo entenderem as novas proposições, e, principalmente, aceitarem participar nesta atividade (LEFTER, PREJAMEREAN e VASILACHE, 2008). As autoras ainda apontam que para uma organização se tornar inteligente, é necessário um investimento de tempo, recursos e principalmente do envolvimento de todos os colaboradores neste processo. Algumas das atividades envolvidas no processo de formação da IO podem ser visualizadas na Figura 2, a seguir, que congrega os resultados encontrados na análise de conteúdo dos materiais bibliográficos consultados, evidenciando a complementaridade de saberes necessária para a criação e desenvolvimento da IO dentro das empresas. Foram identificados na literatura expressões comuns e mesmo a utilização de outras disciplinas. É possível perceber que o consenso utilizado entre os autores abordados é de que a Informação é um elemento de fundamental importância para as organizações atuais. Sua utilização e compartilhamento são capazes de contribuir para a criação de novos conhecimentos dentro da empresa, além de contribuírem para uma tomada de decisão mais acertiva (CHOO, 1995). Figura 2 – Componentes da IO identificados na literatura pesquisada. Fonte: Elaborado pelos autores com base em dados da pesquisa. Com base nestes apontamentos, fica evidente a congruência dos pensamentos e estudos sobre a Inteligência Organizacional, apresentada Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 98 por vários autores, que embora tenham – em alguns casos – visões diferentes dos campos de atuação da IO (foco em ambiente interno ou externo), buscam proporcionar às empresas maior domínio e conhecimento acerca de si mesmas. Pode-se constatar que todas as abordagens acima mencionadas buscam criar um ambiente de vigília constante, tentando identificar e fazer melhor proveito dos recursos da organização, contribuindo, desta forma, para a melhoria de produtos e ou serviços, processos e mesmo estruturas organizacionais. A participação dos colaboradores da empresa também é fator chave nestes processos, pois é por meio das capacidades individuais das pessoas envolvidas com a empresa que se pode conseguir uma posição coletiva, capaz de fomentar a criação de uma ‘inteligência’ distribuída por toda a organização (ALBRECHT, 2003; LEFTER, PREJAMEREAN e VASILACHE, 2008). 5 CONSIDERAÇÕES FINA IS A Inteligência Organizacional apresenta-se atualmente como uma disciplina capaz de auxiliar as organizações na integração de seus processos, colaboradores e tecnologias, contribuindo para a compreensão da empresa como um sistema aberto e que necessita de constante observação de seus ambientes. Autores como Wilensky (1967) e Choo (1995) apresentam o ambiente externo à empresa como fonte de informação, de recursos e de incertezas. Estes autores apontam a necessidade de monitoramento desse ambiente, buscando identificar mensagens e sinais, além de usar tais dados e informações combinados com dados e informações do ambiente interno, buscando se adaptar às novas realidades ambientais. Neste contexto, percebe-se que a IO passou de uma visão técnica e voltada para o ambiente externo para uma visão mais abrangente da organização, contemplando também os aspectos internos, além de buscar aliar pessoas, setores e recursos da empresa em prol dos objetivos organizacionais. Com isso, pode-se perceber que a contribuição oferecida pelos estudos sobre a IO recai sobre as formas de gestão atuais, oferecendo caminhos para a adoção de práticas integradoras dentro das empresas. Partindo dos conceitos proporcionados pelos estudos de sistemas, tendo a organização como um sistema aberto, é possível compreender a conexão existente entre todos os setores e pessoas, além de perceber a interdependência entre eles (BIO, 1985). Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 99 Com base neste cenário, pode-se perceber que os estudos acerca da IO passaram a englobar atividades pertencentes à outras disciplinas (Figura 2) já consagradas nos ambientes acadêmico e empresarial, como as atividades de gestão do conhecimento, gestão da informação e aprendizado organizacional (CHOO, 1995; CRUZ e DOMINGUES, 2007; MORESI e LOPES, 2011). Pode-se perceber também que a união de tais atividades pode auxiliar na obtenção e alcance da IO, além da conquista de vantagens competitivas sustentáveis, ou ‘não esgotáveis’, como apresentado por Moresi e Lopes (2011). Neste contexto, compreender outras teorias administrativas, além de buscar acompanhar as transformações e sinais enviados pelos ambientes interno e externo, são critérios fundamentais para iniciar um programa de Inteligência Organizacional dentro de qualquer empresa. Conhecer seus ambientes, suas capacidades físicas e de pessoal e, sobretudo, compreender que o desenvolvimento da IO necessita de adoção de novas atitudes organizacionais, são outros fatores que devem ser observados por organizações que pretendem iniciar neste caminho. Em tempos de competitividade e complexidade ambiental, a utilização de conceitos de Inteligência Organizacional pode contribuir para a adoção de uma visão holística das organizações, evitando a gestão departamentalizada e desintegrada, que pode acarretar em débitos informacionais para setores que poderiam ter melhor desempenho ao possuir uma visão completa da empresa. Acredita-se, com isso, que a IO é uma disciplina que percorre várias outras áreas de estudos organizacionais, utilizando-se de seus conceitos e atividades, e buscando oferecer uma abordagem sistêmica e holística das organizações. Como este trabalho não objetivou apresentar metodologias de adoção de práticas/atividades de Inteligência Organizacional, sugere-se que novos trabalhos sejam desenvolvidos enfocando os aspectos práticos da adoção de um programa de IO nas empresas. Sugere-se também que sejam enfocados aspectos como os resultados práticos da IO, ou em outros termos, sua abordagem de produto (MATSUDA, 1992, 1993), apresentando os resultados que podem ser alcançados com a adoção dos subprocessos da IO propostos por Matsuda (1992) e/ou outros autores. No entanto, por se tratar de uma disciplina que ainda carece de estudos e aplicações empíricas, acredita-se que a adoção de programas de IO demandem tempo, pois estarão diretamente relacionados ao comportamento das pessoas envolvidas neste processo. Neste sentido, a criação de políticas voltadas ao compartilhamento de informações e conhecimentos dentro das empresas, além do fomento à uma cultura da informação, devem ser observadas pelas empresas e gestores que pretendem ingressar neste caminho. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 100 Por fim, pode-se perceber que os estudos mais recentes sobre a Inteligência Organizacional buscam apresentar a empresa como um sistema aberto, além da necessidade de observação de seus ambientes interno e externo, atentando-se para transformações ocorridas e buscando, por meio do aprendizado, da adaptação estratégica e de outras atividades, atender as novas exigências ambientais. É importante ressaltar a busca pelo equilíbrio entre as capacidades internas da empresa e as imagens do ambiente externo, de forma que a IO pode contribuir na integração da organização, além de fortalecer – e mesmo criar – novos recursos estratégicos, conferindo vantagens competitivas à empresa. REFERÊNCIAS ALBRECHT, Karl. O Poder das Mentes em Ação: desenvolvimento e gestão da inteligência organizacional. Rio de Janeiro: Campus, 2003. ARGYRIS, Chris. SCHÖN, Donald. Organizational Learning: a theory of action perspective. Reading Mass: Addison Wesley, 1978. BARNEY, Jay B. Firm resources and sustained competitive advantage. Journal of Management. Vol 17. P. 99-120. Mar: 1991. CHOO, Chun Wei. Information Management for the Intelligent Organization: the art of scanning the enviroment. ASIS (Monography Series), 1995. CRUZ, Yunier Rodriguez. DOMINGUEZ, Esther Galán. La Inteligência Organizacional: necesario enfoque de gestión de informacióny del conocimiento. Ci. Inf. Vol 36, n. 3. 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Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 ISSN 1676-045x Volume XI – nº 11 - 2012 p. 103 –122 A COMUNICAÇÃO INT ERNA COMO RE CURS O DE FORTALECIMENTO DA CU LTURA ORGANIZACIONAL : UM ESTUDO DE CASO Anna Puebla Vitkoski Fagotti1 Fabiana Regina Veloso Bíscoli2 Resumo: Com a eficiência da Comunicação Interna (CI) é possível que gestores consigam influenciar positivamente no comprometimento dos colaboradores com a instituição, internalizando as práticas desejadas, que passam a fazer parte das rotinas de trabalho. Ao planejar a CI os gestores devem inserir os valores culturais da organização, enviando aos colaboradores, de variadas formas, mensagens sobre o que a instituição espera deles. Com estas prerrogativas o presente trabalho objetivou identificar, na CI da Unioeste/Campus de Toledo, alguns vetores para transmissão dos valores culturais. Assim, esta pesquisa caracterizou-se como um estudo de caso, de natureza exploratória, utilizou-se da aplicação de questionários a todos os funcionários e ocupantes de cargos de chefia da Unioeste. Observou-se que há algumas falhas no processo de CI, as quais comprometem as ações e o alcance dos objetivos institucionais, e levam à falta de envolvimento e comprometimento dos atores envolvidos. Também verificou-se que os respondentes acreditam que a CI é um canal apropriado para a disseminação de informações institucionais, podendo ser utilizado para planejar a inserção de valores culturais. Palavras-Chave: Comunicação interna; instituição de ensino superior; cultura organizacional. 1 E-mail: [email protected] 2 E-mai: [email protected] 104 THE INTERNAL COMMUNI CATION AS RES OURCE F OR STRENGTHENING ORGANI ZATIONAL: A CASE EST UDY Anna Puebla Vitkoski Fagotti1 Fabiana Regina Veloso Bíscoli2 Abstract: With the efficiency of internal communication (IC) it is possible that managers can positively influence in the commitment of employees to the institution, internalizing the desired practices, which become part of work routines. When planning IC, managers should insert the cultural values of the organization, sending to employees, in many ways, messages about what the institution expects of them. With these prerogatives the present study aimed to identify, in the Unioeste / Campus Toledo IC, some vectors for transmission of cultural values. This research was characterized as a case study, of exploratory nature, and made use of questionnaires to all staff and occupants of Unioeste leadership positions. It was observed that there are some flaws in the process of IC which compromise the actions and achievement of institutional objectives, and lead to lack of involvement and commitment of those involved. Also it was found that the respondents believe that IC is an appropriate channel for the dissemination of institutional information, that can be used to plan the inclusion of cultural values. Key-words: Internal communication. College. Organizational culture. 1 E-mail: [email protected] 2 E-mai: [email protected] Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 105 1 INTRODUÇÃO No contexto atual das organizações a cultura e a comunicação têm se mostrado como peças cada vez mais importantes no que se refere ao aumento do comprometimento dos funcionários dentro das instituições. Assim, uma atenção especial tem sido dispensada ao desenvolvimento da cultura organizacional, especialmente a partir das ferramentas da comunicação. A cultura organizacional representa uma percepção comum dos funcionários de uma organização (ROBBINS, 2002), e pode ainda ser tomada como um diferencial para a empresa na medida em que seu público interno passa a se envolver com os objetivos organizacionais, compreendendo o negócio, as ações e os processos organizacionais. Nessa perspectiva, a comunicação, tema deste artigo, é um dos mais importantes vetores de socialização da cultura organizacional, porque representa o contato com todos os tipos de pessoas e grupos que a compõem. No entanto, para ser eficaz nesta função, a comunicação precisa ser corretamente planejada, a fim de que seus objetivos se tornem claros aos gestores e posteriormente aos demais membros da organização. Da mesma forma é preciso que sejam utilizados, de forma assertiva, o maior número de veículos/canais de comunicação a fim de alcançar o maior número de pessoas possível. Dessa forma, o objetivo do presente artigo foi avaliar a comunicação interna da UNIOESTE, Campus de Toledo, a partir de questionários aplicados aos funcionários efetivos (técnico administrativos e docentes com cargos de chefia) da instituição, para identificar vetores para a disseminação dos valores que compõem a cultura organizacional. Investigou-se portanto, os aspectos da comunicação interna da UNIOESTE. Esta IES possui atualmente um quadro funcional de 315 colaboradores (entre técnicos efetivos e temporários, estagiários, docentes efetivos e colaboradores), e que, apesar deste grande número, não dispõe de uma política de comunicação interna, que é feita de acordo com a demanda e as necessidades do momento. Destaca-se que a CI é o principal elemento para transmitir a cultura organizacional e a ausência de seu planejamento pode influenciar negativamente nas práticas do cotidiano organizacional, pois, não proporciona uma visão compartilhada das prioridades da instituição. Tal fator pode levar os colaboradores a apresentarem baixos níveis de envolvimento e comprometimento com a instituição. Por isso, justifica-se a relevância da avaliação da CI, para descobrir se existem problemas e onde estão localizados, para que então se possa pensar em ações para melhorias nesta área. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 106 2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS O trabalho realizado foi um estudo de caso e teve como objetivo identificar, como a comunicação organizacional é vista pelo público interno da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE / Campus de Toledo, restringindo este público ao corpo técnico-administrativo efetivo e aos docentes que ocupam cargos de chefia. O trabalho baseou-se na pesquisa bibliográfica e na pesquisa exploratória, que na concepção de Severino (2007, p. 123), “busca apenas levantar informações sobre um determinado objeto, delimitando assim um campo de trabalho, mapeando as condições de manifestação desse objetivo”. A coleta de dados foi realizada por meio do questionário. Para a aplicação do questionário foram considerados estes dois grupos (corpo técnico-administrativo efetivo e os docentes que ocupam cargos de chefia), por isso foram elaborados dois tipos de questionários, um para as chefias e outro para colaboradores, sendo que a análise dos dados será feita pela abordagem quantitativa. Esta diferenciação deu-se para que seja possível observar também se há divergências nas avaliações feitas pelas chefias e pelos subordinados. Antes da aplicação dos questionários realizou-se o pré-teste com dois funcionários do grupo que ocupam cargos de chefia; e três do grupo de colaboradores, para descobrir se existiam falhas na sua formulação, pois, de acordo com Lakatos e Marconi (1999), “depois de redigido, o formulário precisa ser testado antes de sua utilização definitiva, aplicando-se alguns exemplares em uma pequena população escolhida”. Não havendo a identificação de falhas em sua elaboração, os questionários foram entregues pela pesquisadora (s) durante o mês de abril de 2011, durante o expediente de trabalho dos entrevistados, que buscou a totalidade de funcionários efetivos. O primeiro grupo, constituído pelas chefias era formado por 39 funcionários, destes, dos quais 33 (85%) o devolveram respondido; e o segundo grupo, constituído somente por técnicos-administrativos, era formado por 55 funcionários, que devolveram 49 (89%) dos questionários entregues. A COMUNICAÇÃO ENSINO SUPERIOR A 3 INTERN A NAS INSTITUIÇÕES DE Frente às transformações tecnológicas, a aceleração da economia mundial, e a velocidade com que as informações se propagam, fatores trazidos pela globalização, surge à necessidade de adaptação de todas as Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 107 organizações a uma nova realidade, dessa maneira, as empresas buscam constantemente se atualizar e inovar, para com isso conseguirem se manter no mercado (MACHADO, 2002). Nesse sentido, de acordo com Silva (2008), as organizações, em sua maioria, buscam estratégias que garantam sua posição dentro deste dinâmico mercado e que, ao mesmo tempo, as diferencie das demais, fazendo com que sejam notadas da forma mais positiva possível. Ainda, segundo Silva (2008, p. 02), “a comunicação interna apresenta-se hoje como uma estratégia essencial a ser trabalhada nas organizações, visando informar e integrar os diversos públicos com os quais elas se relacionam, direta ou indiretamente”. Este fenômeno de novas exigências globais e de necessidade de adaptação contínua às mudanças, também afetam as Instituições de Ensino Superior – IES, que se colocam no mercado cada vez em maior quantidade, e que têm também a tarefa de ofertar conhecimento e ensino de qualidade, que estejam de acordo com estas novas exigências do mercado e sejam suficientes para contribuir no preparo dos profissionais que atuarão nesta realidade, criando as condições necessárias para seu bom desenvolvimento. Além disso, para Ramos (2004, p. 19), Nas últimas duas décadas, o papel do setor público vem sendo questionado pela sociedade, com reflexos sobre a legitimação do reconhecimento da natureza pública de uma instituição de ensino e pesquisa. O atual contexto mostra que tanto as instituições de pesquisa quanto as universidades passam por cortes orçamentários, quadro de pessoal e salários reduzidos, e sistema administrativo com inúmeras disfunções burocráticas. Portanto, a necessidade de melhorar a qualidade dos serviços prestados é um fenômeno sentido de perto pelas universidades, que segundo a mesma autora, “vem sendo despertado inclusive, com a implementação do Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior instituído pelo Ministério da Educação e Cultura – MEC” (RAMOS, 2004, p. 19). Assim, apesar de não haver uma competitividade suficiente para prejudicar as instituições públicas, elas não devem perder o foco de seu papel social, ou seja, “o compromisso em formar profissionais competentes e comprometidos com a sociedade que os sustenta” (RAMOS, 2004, p. 20). De acordo com Faria (2011), as IES, nesta preocupação com seu processo de adaptação, devem avaliar os serviços oferecidos ao seu público, com o intuito de fazer com que aqueles sejam equivalentes às necessidades deste. Portanto, é preciso primar pela qualidade dos serviços dentro das IES, já que, cada vez mais, a qualidade é fator determinante na avaliação dos públicos. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 108 A respeito disso, Ramos (2004, p. 23) afirma que, “considerando as mudanças que ocorrem constantemente e velozmente em todas as organizações, faz-se necessária uma especial atenção ao posicionamento e comunicação com o público-alvo”. Dessa forma, é preciso que haja especial cuidado com a comunicação direcionada ao público interno, já que, de acordo com a mesma autora, depende deste fator a imagem que seus colaboradores terão da organização. Para tanto, é preciso que as organizações adotem instrumentos capazes de intermediar de maneira eficaz as relações da organização com seu público interno, uma vez que depende deste o bom funcionamento de qualquer empresa. Neste sentido, é importante que a comunicação interna seja trabalhada de forma eficiente, de maneira que consiga envolver seus funcionários, fazendo com que estes se comprometam com a qualidade dos serviços que prestam, pois de acordo com Daft (2010), as informações trocadas entre as pessoas são capazes de motivar e influenciar seu comportamento. Assim, uma boa comunicação interna pode beneficiar o processo organizacional como um todo, pois flui pelo ambiente interno motivando os funcionários a realizarem suas tarefas, isso porque, de acordo com Tavares (2009, p. 50), “(...) a empresa consegue repassar informações relacionadas ao seu negócio e ter retorno do público interno sobre elas; o público interno consegue passar e repassar informações para a empresa sobre suas contribuições”. Quando este fluxo contínuo de informações ocorre, as práticas organizacionais têm grandes chances de melhora. Portanto, pode-se afirmar que a comunicação interna é fator determinante no processo de melhoria da qualidade dos serviços prestados nas organizações e IES. Dessa forma, para Silva (2008), as universidades e faculdades já não podem atuar de forma passiva nas questões educacionais, em especial no que se refere ao mercado em que atuam, é preciso que sejam pró-ativas em suas relações estratégicas, e identifiquem e satisfaçam as expectativas e as necessidades de seu público, tanto interno quanto externo. 3.1 A CULTURA ORGANIZACIONAL E A COMUNICAÇÃO Atualmente, a cultura e a comunicação têm se mostrado como importantes no cenário empresarial global no que tange o aumento do comprometimento dos funcionários dentro das instituições. A cultura organizacional pode ser entendida, de acordo com Robbins (2002, p. 498), como “um sistema de valores, compartilhado com os Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 109 membros, de uma organização e que a difere de uma para outra”. Assim, ela representa a percepção comum que os membros da empresa têm sobre as suas características culturais. Dessa forma, a cultura passa a desempenhar várias funções dentro das empresas, tais como, criar uma identidade, um senso de comportamento para a empresa, além de contribuir para o comprometimento de seus colaboradores com os objetivos organizacionais, traçando a direção em que a empresa deve seguir. Com isso, a cultura organizacional consegue agir no controle e na orientação das atitudes dos funcionários, facilitando o direcionamento das ações dentro da dinâmica organizacional (ROBBINS, 2002). Schein (2009) entende a cultura organizacional como um conjunto de pressupostos de um grupo, que o desenvolveu a partir de uma construção ao longo da sua história ao tentar solucionar seus problemas de integração interna e adaptação externa, que tenham funcionado bem o suficiente para serem transmitidos aos membros novos como sendo válidos na sua forma de perceber, sentir e pensar a realidade que os cerca. Assim, a filosofia do seu fundador pode ser considerada um dos elementos chaves na construção da cultura organizacional, pois, é a partir das suas realizações anteriores à criação da empresa e do grau de sucesso que alcançou que direcionam suas escolhas e formatam os relacionamentos entre os membros da organização. Aquele que funda a organização pensa e define o seu projeto organizacional, escolhe seus contratados de acordo com suas expectativas, e os doutrina conforme seu modo de ser. Agindo dessa maneira, encoraja os colaboradores a se identificarem com ele e incorporem seus valores e convicções, e isto passa a estabelecer qual o padrão de comportamento será aceito naquele ambiente. Portanto, quanto mais forte cultura organizacional for, mais clara será para os colaboradores, e da mesma forma as práticas que nela serão permitidas (ROBBINS, 2002). Ainda segundo esse autor, existem sete elementos que, dependendo do nível de importância/estímulo que recebem dentro da instituição, identificam a cultura organizacional: a inovação e assunção de riscos; a atenção aos detalhes; a orientação para os resultados; a orientação para as pessoas; a orientação para a equipe; a agressividade e competitividade; e a estabilidade. Com isso, o grau de estímulo que a empresa der em cada um dos pontos aos seus funcionários, determinará a sua cultura vigente, que, será “a base dos sentimentos de compreensão compartilhada que os membros têm a respeito da organização, de como as coisas são feitas e a forma com que devem se comportar” (ROBBINS, 2002, p. 499). Dentro desta perspectiva, a comunicação é destacada como um canal para disseminação da cultura, pois, segundo Johann (2004, p. 76), Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 110 (...) a comunicação é um dos mais importantes vetores de propagação/sedimentação da cultura porque abarca toda sorte de mensagens trocadas entre pessoas e grupos, independentemente da linguagem ou código escolhido, do tipo de canal usado, de o conteúdo ter origem formal ou informal ou de obedecer a um sentido ascendente ou descendente na estrutura hierárquica da empresa. Para Tavares (2009, p. 44), a comunicação organizacional é, “a comunicação existente entre a “organização” e os seus públicos de interesse: cliente interno ou funcionários da organização, fornecedores, distribuidores, clientes, prospects, mídia e sociedade em geral”. Neste artigo, a ênfase se dará na comunicação com o público interno, também chamada de comunicação interna. Entre os vários tipos de comunicação organizacional, esse autor destaca a comunicação institucional, definindo-a como um conjunto de ações institucionais com o objetivo de informar os público de interesse a respeito de seus objetivos, práticas, políticas e ações, visando melhorar a imagem que este público tem dela. Mas, interessa a este estudo a comunicação interna que se dá entre departamentos, entre pessoas do mesmo departamento, entre chefias, entre funcionários e chefias, por ser considerada o alicerce de todo processo administrativo. A função da comunicação interna, ainda de acordo com Tavares (2009), é gerar informações que sejam transparentes e acessíveis aos funcionários, de maneira que as aproxime dos processos organizacionais e possibilite uma participação mais ativa, para que assim, se sintam mais atuantes dentro da instituição e mais motivados para exercer suas atividades. De uma maneira geral, também Ramos (2004) afirma que, as organizações já vêm se preocupando com a comunicação interna, e buscam alternativas para melhorá-la, como a adoção de instrumentos certos, com capacidade de intermediar de maneira eficaz as relações da organização com seu público interno, uma vez que este tem forte influência para o bom funcionamento de qualquer empresa. Portanto, sendo a comunicação interna o início da gestão administrativa, ela deverá ser eficiente não apenas na emissão e no recebimento de mensagens, mas também no trabalho de integração dos departamentos. Assim, a comunicação deve ser gerenciada para que cumpra com suas finalidades e possa gerar a compreensão e assimilação dos objetivos e valores organizacionais entre os funcionários. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 111 4 APRESENTAÇÃO E ANÁ LISE DOS DADOS A proposta da pesquisa teve início com o questionário destinado às chefias, o qual visou identificar a percepção das chefias quanto à comunicação interna. O primeiro foco da pesquisa está representado na tabela 01. Tabela 01 – Avaliação das chefias quanto à clareza, objetividade, qualidade e velocidade da CI na instituição com os funcionários (público interno). Variável Qual o grau de clareza e objetividade da comunicação na instituição com os funcionários (público interno)? Você já foi prejudicado no desempenho de suas atividades por falta ou falha na comunicação interna? Com relação ao tempo para obter uma informação dentro da instituição, como você classifica? Categoria Frequência % 1 Péssimo 2 Ruim 3 Regular 4 Bom 5 Ótimo 2 10 10 9 2 6,1% 30,3% 30,3% 27,3% 6,1% Total 33 100% 1 Nunca 2 Às vezes 3 Nem sempre 4 Frequentemente 5 Sempre 8 10 7 6 2 24,2% 30,3% 21,2% 18,2% 6,1% Total 33 100% 1 Péssima 2 Ruim 3 Regular 4 Bom 5 Ótimo 1 7 17 7 1 3,0% 21,2% 51,5% 21,2% 3,0% Total 33 100% Fonte: Dados da Pesquisa Observa-se que 36,1% dos respondentes consideram o grau de objetividade da comunicação interna ruim ou péssimo, 54,5 % já foram prejudicados por falta ou falha na comunicação interna e 24,2% classificam o tempo de transferência da informação como ruim ou péssimo. Por outro lado foram poucas as respostas positivas para estes aspectos, sendo que a maioria das repostas concentrou-se na opção regular, ás vezes e nem sempre (30,3% e 52,5%; 30,3%; 21,2% respectivamente), o que leva a considerar que a qualidade da comunicação pode ser melhorada para que atenda melhor às rotinas institucionais. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 112 Na tabela 02, apresentam-se os dados relacionados à influência da CI na motivação e informação dentro do ambiente de trabalho, na percepção das chefias. Tabela 02 – Influência da CI na motivação e informação dentro do trabalho. Variável Categoria Para você a política de comunicação interna tem contribuído para o aumento do comprometimento dos funcionários com o trabalho? Você se sente motivado para realizar suas atividades no trabalho? Quando alguém de fora da Unioeste lhe pergunta sobre assuntos dos outros setores, você sabe como responder? Qual seu nível de envolvimento com os eventos ou campanhas promovidos pela Unioeste? Frequência % 1 Nunca 2 Às vezes 3 Nem sempre 4 Frequentemente 5 Sempre 4 7 13 7 2 12,1% 21,2% 39,4% 21,2% 6,1% Total 33 100% 1 Nunca 2 Às vezes 3 Nem sempre 4 Frequentemente 5 Sempre 1 1 12 9 10 3,0% 3,0% 36,4% 27,3% 30,3% Total 33 100% 1 Nunca 2 Às vezes 3 Nem sempre 4 Frequentemente 5 Sempre 1 5 16 9 2 3,0% 15,2% 48,5% 27,3% 6,1% Total 1 Nunca me envolvo 2 Às vezes me envolvo 3 Nem sempre me envolvo 4 Frequentemente me envolvo 5 Sempre me envolvo Total 33 1 100% 3,0% 5 15,2% 9 27,3% 15 45,5% 3 9,1% 33 100% Fonte: Dados da Pesquisa Novamente constatou-se com resultados da pesquisa, que a maioria das respostas incidiram na alternativa mediana podendo levar a duas opções de interpretação: a) pode ser que ao responder “nem sempre”, o entrevistado possa ter a intenção de dizer que muitas vezes percebe todas as alternativas, embora não o faça com tanta frequência, o que leva a interpretar que há certa eficiência no processo de CI; b) ou por outro lado, pode-se retirar da resposta “nem sempre” a intenção de que “somente Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 113 algumas vezes” o entrevistado percebe as alternativas. De qualquer forma, pode-se dizer que as políticas de comunicação interna podem ser projetadas com maior ênfase para conseguir maior envolvimento dos funcionários com o trabalho, posto que 33,3% dos respondentes das chefias afirmaram nunca ou somente às vezes percebem esta atuação. Vale lembrar que a CI é o vetor de maior relevância para disseminar os valores institucionais a fim de que possam fortalecer a cultura organizacional. Um aspecto identificado como positivo foi sobre a motivação para realizar as atividades de trabalho, para o qual somente 6% atribuíram as respostas negativas (nunca e às vezes). No entanto um planejamento da comunicação interna poderá ser direcionado para reforçar a motivação entre as chefias, especialmente porque a motivação deve ser estimulada constantemente, além do que, o comportamento dos líderes, segundo (Schein, 2009) deve ser o reflexo dos liderados, assim, se os líderes sentemse motivados ás vezes ou frequentemente, ou sempre, há uma tendência de que seus liderados também se comportem dessa forma. Este fator se torna mais relevante ainda quando se considera que a cultura organizacional deve ser estimulada pelos líderes, uma vez que são os líderes os disseminadores dos valores, mitos, crenças e costumes que dão orientação e direção às ações dos atores organizacionais. Outro fator que merece atenção dos gestores diz respeito aos questionamentos externos à organização. Neste aspecto houve somente 33,4% que responderam que sempre e frequentemente conseguem atender a este público. Este dado pode sugerir que as informações de uma instituição grande e complexa como a universidade mudam com muita frequência, o que ocasiona dúvidas quando são colocadas à prova, como por exemplo, em questionamentos externos. No entanto, é possível afirmar que mesmo em um contexto complexo a instituição deve manter-se voltada ao público externo, atualizando suas informações e, especialmente, socializando-as por meio de uma comunicação interna eficiente. Neste caso, ainda se permite mencionar que os cargos de chefia representam a instituição frente aos liderados e também frente ao público externo, com isso, sugere-se que estes devam ser os principais focos do planejamento da comunicação interna. Sobre o nível de envolvimento com os eventos as respostas também foram positivas, uma vez que 45,5% dos respondentes frequentemente se envolvem e 9,1% sempre se envolvem. Este dado também é fundamental para a análise sobre os vetores da comunicação que influenciam na cultura organizacional, pois, se trata de um veículo transmissor de valores e modelos de crenças e mitos organizacionais. Os eventos fazem parte do que Johan (2004) define como ações de endomarketing, que correspondem à manifestação cultural mais facilmente perceptível ao olhar dos funcionários, e por esta razão devem ser muito utilizados na organização Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 114 que pretende socializar valores e envolver seus colaboradores com as políticas da empresa e a cultura organizacional A seguir partiu-se para outro questionamento, que teve por finalidade identificar em que medida as chefias percebiam os objetivos da CI. Estas questões pautam-se na literatura estudada, a partir da qual é possível afirmar que para ser eficaz a CI deve passar por um planejamento formal a fim de que sejam estabelecidos objetivos específicos. No entanto, nem sempre a organização planeja a sua CI, e nem sempre esses objetivos são explicitados ao público interno. Pressupõe-se desta forma, que a partir deste planejamento a organização na figura dos seus líderes perceba a comunicação de acordo com os objetivos planejados. Dentre os objetivos que podem ser alcançados com a CI destacaram-se na forma de perguntas aos entrevistados: a) melhorar o desempenho nas atividades realizadas pelos funcionários; b) otimizar as comunicações entre setores e entre atividades; c) orientar o funcionário sobre os objetivos e políticas da organização; d) envolver o público interno com os objetivos da instituição; e) divulgar as atividades da instituição para o público interno; f) transmitir informações sobre mudanças e novas rotinas de trabalho; g) monitorar e controlar as atividades desenvolvidas na instituição. De forma geral, observou-se um padrão de resposta em todas as alternativas, prevalecendo a opção nem sempre respectivamente para as 8 opções com os percentuais de 45,5%; 42,4%; 42,4%; 42,4%; 33,3%; 27,3%; 42,4%; 27,3%. Estas respostas podem ser interpretadas como positivas quando se pensa que o contrário de nem sempre pode ser algumas vezes, para que estes objetivos sejam percebidos pelos respondentes. No entanto podem servir de alerta para os gestores porque objetivos precisam ser esclarecidos e melhor conduzidos para que sejam vistos pelos líderes como eficazes. Com relação ao objetivo de identificar as necessidades dos funcionários, o percentual maior foi para as opções às vezes ou nunca, que somadas, deram 51% das respostas, e apenas para o objetivo de transmitir mudanças nas rotinas de trabalho os percentuais tiveram uma representatividade positiva, com 30,3% para frequentemente e 12,1% para sempre. Com isso pode-se dizer que a maior visibilidade se dá nos objetivos básicos de informar procedimentos burocráticos. Quanto ao questionário aplicado apenas aos técnicosadministrativos (que não possuem cargos de chefia), este é composto apenas pelo primeiro grupo de questões do questionário anterior e segue a Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 115 mesma lógica. O objetivo deste segundo questionário foi identificar como os funcionários vêem a comunicação interna do Campus de Toledo, como interagem com ela, e levantar quais os principais pontos críticos existentes dentro desta relação. Um aspecto que merece ser mencionado é a avaliação dos funcionários quanto ao grau de clareza e objetividade da comunicação interna e o tempo necessário para obter informações dentro da instituição, conforme tabela 03. Tabela 03 – Avaliação do grau de clareza e objetividade da CI e classificação do tempo para obter uma informação dentro da instituição. Variável Qual o grau de clareza e objetividade da comunicação da instituição com os funcionários (público interno)? Com relação ao tempo para obter uma informação dentro da instituição, como você classifica? Categoria Frequência % 1 Péssimo 2 Ruim 3 Regular 4 Bom 5 Ótimo 9 12 8 19 1 18,4% 24,5% 16,3% 38,8% 2,0% Total 49 100% 1 Péssimo 2 Ruim 3 Regular 4 Bom 5 Ótimo 11 10 17 11 0 22,4% 20,4% 34,7% 22,4% 0,0% Total 49 100% Fonte: Dados da Pesquisa Na tabela 03, observou-se que 40,8% dos entrevistados indicaram a clareza da CI como boa ou ótima (38,8% e 2% respectivamente) e 22,4% apontaram o tempo de sua chegada também como bom. No entanto, ao somar as porcentagens que optaram por ruim e péssimo obtém-se uma maioria de insatisfeitos, que totalizam 42,9% para o grau de clareza. E, para o tempo de chegada da informação, 42,8% responderam ser péssimo ou ruim (22,4% e 20,4%, respectivamente) e 34,7% o definiram como regular. Estes dados apontam para a existência de problemas nos fatores avaliados, de maneira que eles podem interferir na compreensão dos objetivos da instituição por parte de seus colaboradores e, até mesmo, atrapalhar no desenvolvimento de suas atividades. Outra função da comunicação interna é, de acordo com Robbins (2002), contribuir para o aumento do comprometimento dos colaboradores com a organização, o gráfico 01 apresenta a avaliação dos técnicos-administrativos com relação a quanto a CI tem contribuído para o crescimento deste fator. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 116 Gráfico 01 – Avaliação quanto à contribuição da CI para o aumento do comprometimento dos funcionários com o trabalho. Fonte: Dados da Pesquisa Como se pode observar apenas uma pequena parcela dos entrevistados respondeu que esta influência ocorre frequentemente (10,2%) ou sempre (2%), somando 12,2%. Este ponto demonstra que este objetivo da comunicação interna tem um baixo nível de assertividade, pois 49% afirmaram que nem sempre isto acontece (30,6% para às vezes e 18,4% para nunca), e 38,8% responderam que nem sempre contribui. Com isso, nota-se que a forma com que a CI se desenvolve na universidade não faz com que ela cumpra, de maneira satisfatória, com este objetivo, não estimulando tanto quanto deveria o comprometimento dos funcionários com a instituição. Outro dado preocupante apontado pelo questionário é o de que existe também um baixo nível de envolvimento dos colaboradores nos eventos da instituição, conforme ilustra o gráfico 02. Gráfico 02 – Avaliação quanto ao nível de envolvimento com os eventos ou campanhas promovidos pela Unioeste. Fonte: Dados da Pesquisa Segundo a pesquisa, 40,8% dos respondentes demonstram se envolver pouco com estas atividades, sendo 14,3% para nunca e 26,5% para às vezes. A maioria dos colaboradores afirmaram nem sempre se Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 117 envolverem, com 32,7%, enquanto uma minoria de 26,5% afirma se envolver com frequência ou sempre (22,4% e 4,1% respectivamente). Tendo em vista o disposto na avaliação do primeiro questionário, os eventos são uma forma de comunicação interna que impactam com maior naturalidade e maior eficiência no comportamento dos funcionários. Portanto, pode-se dizer que os baixos percentuais evidenciam a existência de falhas neste mecanismo de comunicação interna da instituição. Mediante estes dados, percebe-se que a CI possui um espaço para a melhora e poderia desempenhar um papel mais efetivo dentro deste fator, elevando seu grau de influência no que se refere ao comprometimento dos funcionários, podendo, com isso, aumentar também a participação deles nos eventos institucionais. No que tange ao grau de conhecimento sobre assuntos dos outros setores dentro da Unioeste, observou-se nos resultados que 81,1% dos funcionários sentem dificuldade em responder quando questionados sobre assuntos fora de seu setor, e muitas vezes não conseguem fazê-lo, sendo 40,8% das respostas foram para a opção nem sempre, 32,7% para às vezes e 8,2% para nunca. Apenas 14,3% são capazes de fazê-lo com frequência e 4,1% sempre. Mais uma vez é preciso esclarecer que uma instituição complexa como a universidade possui um volume grande de informações e está sujeita a mudanças constantes nas suas rotinas, o que leva à insegurança em responder a questionamentos externos. No entanto, também pode-se apontar por meio destes indicativos, que a divulgação das informações relacionadas a diferentes setores não tem atingido a todos os membros da organização. Do esmo modo os dados reafirmam a carência de incentivo ao comprometimento com as causas da instituição, aspectos que poderiam ser amenizados com uma CI mais planejada e atuante. Outro aspecto que interessou à pesquisa foi levantar a frequência da comunicação interna (horizontal e vertical) e também a qualidade com que ocorre. Esta questão foi destinada aos colaboradores para ser confrontada com a visão das chefias, pois, por vezes o gestor ou as chefias podem supor estarem utilizando recursos e canais apropriados para sua comunicação interna, mas, os colaboradores podem não estar percebendo (não está soando bem)da mesma forma. Na tabela 04 apresentam-se alguns dados relacionados ao modo como os funcionários técnico-administrativos avaliam a qualidade da CI da Unioeste - Campus Toledo. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 118 Tabela 04 – Avaliação dos funcionários da Unioeste/Campus Toledo quanto à qualidade da comunicação interna. Variável Como é a sua comunicação com a chefia imediata? Qual a frequência com que se comunica com a chefia imediata? Como é sua comunicação com os colegas de trabalho? Qual a frequência com que se comunica com os colegas de trabalho? Você já foi prejudicado no desempenho de suas funções por falta ou falha na comunicação interna? Você se sente motivado para realizar suas atividades no trabalho? Categoria Frequência % 1 Péssimo 2 Ruim 3 Regular 4 Bom 5 Ótimo 3 0 7 16 23 6,1% 0,0% 14,3% 32,7% 46,9% Total 1 Nunca 2 Às vezes 3 Nem sempre 4 Frequentemente 5 Sempre Total 49 100% 0 4 3 19 23 0,0% 8,2% 6,1% 38,8% 46,9% 49 100% 1 Péssimo 2 Ruim 3 Regular 4 Bom 5 Ótimo 0 0 5 24 20 0,0% 0,0% 10,2% 49,0% 40,8% Total 1 Nunca 2 Às vezes 3 Nem sempre 4 Frequentemente 5 Sempre Total 1 Nunca 2 Às vezes 3 Nem sempre 4 Frequentemente 5 Sempre Total 1 Nunca 2 Às vezes 3 Nem sempre 4 Frequentemente 5 Sempre Total 49 100% 0 1 6 25 17 0,0% 2,0% 12,2% 51,0% 34,7% 49 100% 4 22 17 5 1 8,2% 44,9% 34,7% 10,2% 2,0% 49 100% 3 3 16 13 14 6,1% 6,1% 32,7% 26,5% 28,6% 49 100% Fonte: Dados da Pesquisa Percebe-se que a comunicação interna entre chefias e subordinados foi considerada boa para 32,7%, ou ótima, 46,9%, tendo as porcentagens mais altas para estas duas categorias. A frequência dos diálogos também é Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 119 bem avaliada, alcançando os maiores índices, 85,7% (bom - 46,9% e ótimo 38,8%). Da mesma forma as respostas foram positivas para a comunicação horizontal, ou seja, entre os colegas de trabalho com os índices de 49% para bom e 40,8% para ótimo, sendo a frequência de comunicação com os colegas 51% para a opção frequentemente e 34,7% para sempre. Isto demonstra que há uma boa comunicação entre os funcionários do mesmo setor com frequência adequada e qualidade apropriada. Um destaque coloca-se à comunicação com as chefias, que foi bem avaliada pelos respondentes. Robbins (1995) afirma que esta é uma das maiores dificuldades de gestão encontradas nas grandes organizações, pois normalmente há receio dos funcionários em comunicarem-se com seus chefes, o que não acontece na Unioeste. Observa-se ainda que a maioria dos colaboradores se sente motivada para realizar suas atividades, assim como as chefias, somando 55% (28,6% para frequentemente e 26,5% para sempre). Ainda que estas porcentagens sejam positivas, elas podem ser melhoradas, trabalhando com as ferramentas de CI no intuito de envolver mais o funcionário e dar amparo, com informações adequadas e em tempo hábil, haja vista que as falhas são apontadas pela maioria dos respondentes na outra variável apresentada na tabela 4. O objetivo desta variável foi descobrir se os técnicosadministrativos já se sentiram prejudicados no desempenho de suas funções por falta ou falha na comunicação. Segundo os dados, cerca de 91,8% já se sentiram lesados em algum momento por este problema, sendo que somente 8,2% relatam nunca terem sido prejudicados por falha ou falta de comunicação interna, fator de maior relevância para a pesquisa. Observa-se, entretanto, que embora as respostas apontem para a existência de uma comunicação frequente e bem avaliada pelos respondentes, as falhas se tornam perceptíveis a ponto de prejudicarem em algum momento as rotinas de trabalho. Outro dado que demonstra a inconstância de comportamento diante das rotinas de trabalho, o último item avaliado na tabela 04, a motivação para o trabalho. Neste aspecto obteve-se o índice de 6,1% para a opção de que nunca se sentem motivados e 6,1% para quem às vezes se sente motivado e, somente 28,6% dos respondentes tiveram a convicção de sempre sentirem-se motivados ao trabalho, o que certamente deve ser previsto pelo planejamento da CI, que também pode ser utilizada pelos gestores para estimular o envolvimento ao trabalho e ainda para sanar os problemas identificados que podem ser os causadores da falta de motivação. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 120 5 CONSIDERAÇÕES FINA IS Na atualidade a necessidade de uma comunicação interna planejada e eficaz dentro das organizações é grande, tendo em vista que é por meio dela que a cultura organizacional se dissemina e é internalizada, e o aumento do comprometimento dos colaboradores pode ser obtido. Ao avaliar os aspectos da comunicação organizacional da UNIOESTE, Campus de Toledo, pode-se perceber que o grande número de colaboradores e a falta de um planejamento da comunicação interna acarretaram em algumas deficiências dentro da dinâmica institucional. Entre os problemas destacados pelos dois grupos de entrevistados apresentam-se: a) demora, falta de clareza e objetividade na transmissão das informações; b) baixa influência no aumento do comprometimento dos funcionários com a organização; c) dificuldade em dar informações quando questionados pelo público externo a respeito de assuntos de outros setores da instituição; d) prejuízos no desempenho das funções por falta ou falha na comunicação; e) baixo conhecimento sobre os objetivos da Unioeste; f) no que se refere ao alcance dos objetivos dos recursos utilizados pela Unioeste na gestão da CI, a maioria das chefias de setor afirmou não serem atingidos. Por fim, embora contraditório, os colaboradores apresentaram uma elevada compreensão da influência que a comunicação pode exercer sobre o envolvimento e motivação para as ações e objetivos institucionais. No entanto, também responderam em outras questões que seu envolvimento é moderado e não se sentem sempre motivados a participar de eventos internos, momentos que a instituição poderia utilizar para internalização de valores da sua cultura organizacional. Pode-se observar que há algumas falhas no processo de Comunicação Interna, as quais estão comprometendo as ações e o alcance dos objetivos institucionais, o que leva também à falta de envolvimento e comprometimento dos atores envolvidos. Estes apontamentos demonstram que a velocidade da comunicação e a qualidade das informações devem ser reavaliadas pelos gestores. Segundo Johann (2004) com atenção à eficiência da CI é possível influenciar positivamente no comprometimento dos colaboradores com a instituição, de maneira que as práticas desejadas sejam internalizadas e passem a fazer parte do dia a dia das rotinas de trabalho. O autor sugere Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 121 ainda que por meio do planejamento da CI os gestores devem inserir os valores culturais para que os colaboradores recebam de variadas formas as mensagens sobre o que a instituição espera deles. Destaca-se que a CI é o principal elemento para transmitir valores e crenças, consolidando a cultura organizacional. Assim, a partir da clara definição dos valores institucionais é preciso, além de definir diretrizes e estratégias para a organização, que os funcionários sejam motivados e conduzidos pelas práticas de gestão a compreender e assumir esses valores. Isto justifica a relevância da avaliação constante da CI. E de acordo com a literatura estudada a organização deve estabelecer um plano de ações de CI, de forma que sejam utilizadas as ferramentas adequadas disponíveis para este processo, e que tenha como foco a solução dos problemas levantados no presente trabalho e, ao mesmo tempo, que contemple os valores da instituição, considerando sua visão, missão e seus objetivos, para que assim possam ser disseminados os valores que compõem a cultura organizacional. É valido salientar que no decorrer deste estudo foram encontradas algumas limitações, como a delicadeza do assunto quando se busca apontar dificuldades; a grande quantidade de funcionários e seus diferentes turnos de trabalho que neste trabalho podem ter influenciado na falta de algumas respostas ao questionário. Igualmente estes mesmos fatores fizeram pensar em outras possibilidades de obstáculos à comunicação interna que não foram exploradas neste trabalho. Estas dificuldades sentidas apontam para a necessidade de trabalhos futuros, que poderiam abordar estudos mais específicos de cada canal de comunicação interna, avaliando sua eficiência e necessidade dentro da instituição, bem como a realização do planejamento geral da comunicação interna, contemplando os valores institucionais em ações práticas que visem o beneficiamento desta ferramenta organizacional. REFERÊNCIAS DAFT, R. L. Administração. São Paulo: Cengage Learning, 2010. FARIA, S. E. Aplicação do Composto de Marketing nas Instituições de Ensino Superior. VI Semead – Seminários de administração, Anais eletrônicos. São Paulo, USP, 2003. Disponível em:< www.ead.fea.usp.br>. Acesso em: 05 set. 2011. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 122 JOHANN, S. L. Gestão da cultura corporativa: como as organizações de alto desempenho gerenciam sua cultura organizacional. São Paulo: Saraiva, 2004. LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Técnicas de pesquisa: planejamento e execução de pesquisas, amostragens e técnicas de pesquisas, elaboração, análise e interpretação de dados. 4. ed. São Paulo: Atlas, 1999. MACHADO NETO, M. M. Marketing Cultural: das práticas à teoria. São Paulo: Ciência Moderna, 2002. MÜLLER, R. Ações de Marketing para o Curso de Secretariado Executivo da UNIOESTE – Campus de Toledo. Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Campus de Toledo: 2010. RAMOS, P. P. Os Instrumentos de Comunicação Interna como Ferramenta Estratégica na Relação Coordenação X Aluno: Um estudo de caso sobre o curso de administração do CEFET-BA. Salvador: 2004. Disponível em: <http://www.cefetba.br/ensino/superior/downloads/2004/Priscilla_Mon ografia.pdf>. Acesso em 12 set. 2011. ROBBINS, S. Comportamento organizacional. 9. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2002. SCHEIN, Edgar. Cultura organizacional e liderança. São Paulo: Atlas, 2009. SEVERINO, A. J. Metodologia do Trabalho Científico. 23 ed. São Paulo: Cortez, 2007 SILVA, P. 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Realizou-se, inicialmente, pesquisa bibliográfica seguida de pesquisa de campo em uma instituição de ensino superior privada de grande porte, localizada na cidade de Fortaleza, que possui sistema formal de comunicação interna e evidencia-se como instituição em expansão no segmento abordado. A pesquisa de campo foi realizada concomitantemente com o gestor de recursos humanos e com uma amostra representativa dos colaboradores, a fim de verificar e confrontar a visão de ambas as partes acerca das práticas de comunicação interna formal, desenvolvidas na IES, e como estas influenciavam aspectos do comportamento dos colaboradores, especialmente no que concerne à motivação. O instrumento de coleta de dados utilizado nas duas etapas foi um questionário estruturado. As análises descritivas apontaram apesar de se perceber que existe relação positiva entre a comunicação interna formal e a motivação do colaborador, a comunicação não pode ser considerada como único fator que contribui para tal sentimento. Palavras-chave: Comunicação. Estratégia. Motivação. 1 E-mail: [email protected] 2 E-mail: [email protected] 3 E-mail: [email protected] 4 E-mail: [email protected] Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 124 A RELATION BETWEEN I NTERNAL COMMUNICATIO N ORGANIZATIONAL AN D M OTIVATION: A CASE ST UDY IN NA INSTITUTION OF HIGHER EDUCATION Joelma Soares da Silva1 Francisco Roberto Pinto2 Jakcilene Dias Rocha3 Conceição de Maria Pinheiro Barros4 Abstract: This study aimed to examine the relationship between formal internal communication and motivation of employees in an Institution of Higher Education. It was held, initially, a literature review at an institution of a big size private education, located in Fortaleza, which has a formal system of internal communication and reveals itself as an institution to expand the segment addressed. The field research was conducted concurrently with the human resources manager and a representative sample of employees to verify and to compare the vision of both parties concerning the practices of formal internal communication, developed at the IES, and how these aspects influenced the behavior of employees, especially in regard to motivation. The instrument used to collect data in the two stages was a structured questionnaire. The descriptive analysis indicated that it a relationship exists between the formal internal communication and motivation of the employee; however, it cannot be regarded as the only factor that contributes to this feeling. Keywords: Communication. Strategy. Motivation. 1 E-mail: [email protected] 2 E-mail: [email protected] 3 E-mail: [email protected] 4 E-mail: [email protected] Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 125 1 INTRODUÇÃO O dinamismo dos mercados acelerou o progresso, a competitividade e o desempenho das organizações, provocando novas posturas administrativas em busca da qualidade. Nos modelos contemporâneos de gestão, observa-se uma tendência mundial de valorização do ser humano. Assim, diversos instrumentos têm sido utilizados no intuito de promover a humanização do ambiente de trabalho e, consequentemente, a motivação dos colaboradores, destacando-se nesse contexto a comunicação estratégica, segundo explicita Cardozo (2006). Valendo esse arranjo para os mais variados tipos de organizações, incluem-se aqui as instituições de ensino superior (IES), que são hoje grandes geradoras de empregos. O processo de expansão das IES privadas iniciado na década de 1990 ainda encontra-se em evidente evolução em todo o território nacional. Este segmento e os efeitos de sua atuação sobre a sociedade devem ser considerados, pois de acordo com Kunsch (1992), além de serem organizações formais, as IES destacam-se, sobretudo aquelas credenciadas como universidades, por suas finalidades, tipo de atividade e objetivos determinados pela tríade ensino, pesquisa e extensão. Nesse sentido, Bittar e Oliveira et. al. (2004) enfatizam a necessidade das IES se adaptarem às mudanças ocorridas no cenário educacional no Brasil, alavancadas a partir da década de 1990, quando o governo brasileiro passou a implementar políticas econômicas e educacionais que propiciaram a modernização do sistema. Em consequência disso, Pereira e Forte (2008) destacam que as Instituições de Ensino Superior (IES) de Fortaleza passaram por grandes mudanças em seu cenário competitivo, principalmente após a assinatura da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996. Dourado, Catani e Oliveira (2004) diversificaram e diferenciaram as IES e os cursos ofertados com base em três princípios fundamentais: flexibilidade, competitividade e avaliação. Tal cenário acena para, entre outras coisas, a necessidade de estrutura física e administrava que facilitem o processo de ensino-aprendizagem, especialização da gestão, capacitação e motivação de pessoal. Para que ocorra um processo de gestão estratégica das IES, é fundamental que esteja pautada em uma comunicação interna estruturada objetivando atingir suas metas, pois na concepção de Cardozo (2006, p.1128) “uma estratégia de comunicação é algo intrínseco à estratégia global da organização”. Portanto, a comunicação interna precisa ser vista pelas organizações como aspecto fundamental para consecução de suas metas. Ainda para Altenfelder (1999, p. 59) “a comunicação é uma área estratégica dos governos, das empresas, das instituições, das entidades de Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 126 classe.” Percebe-se, portanto, que a comunicação corporativa é temática recorrente, porém é lícito ressaltar que seus resultados estão diretamente relacionados ao contexto organizacional analisado. Especificamente tratando da educação superior, na concepção de Vaidergorn (2001), esta se distingue da educação básica por ser estratégica, dentro da concepção de modernidade globalizada. Um dos fundamentos da inserção no mundo competitivo atual é o domínio e a produção do conhecimento, que passam a ser um bem – identificando-se aí um dos papéis a que se destinam as universidades. Muitos estudos se propuseram a pesquisar a gestão nas IES (MEYER JÚNIOR; MANGOLIM, 2006, LOEBEL; ZAMBALDI; TOLEDO, 2009, SAMPAIO; LANIADO, 2008, FERREIRA, 2004). No entanto, percebe-se uma necessidade de enfocar o aspecto da comunicação interna formal no contexto da gestão dessas instituições, pois na concepção de Tavares e Limongi-França (2009) a comunicação interna é fundamental, pois favorece a troca de informações e ajuda para que a organização conheça os interesses dos que trabalham nela. Deste modo, este trabalho busca responder ao seguinte questionamento: qual a relação entre a comunicação interna formal e a motivação dos colaboradores em Instituição de Ensino Superior? De acordo com Moraes (1995 apud BOLZAN 2006), o êxito da universidade baseia-se em cinco pilares fundamentais: motivação do estudante, capacitação das pessoas, apoio funcional, ambiência e infraestrutura adequada, tendo como resultante dessa combinação a qualidade. Baseando-se no entendimento do autor, no qual este tipo de organização deve realizar constantes mudanças na comunicação interna, e entendendo que a finalidade primordial das IES é a difusão do conhecimento, esta pesquisa tem por objetivo investigar qual a relação entre a comunicação interna formal e a motivação dos colaboradores em Instituição de Ensino Superior. Para a consecução do objetivo proposto, fez-se uma abordagem acerca das principais teorias que versam sobre a motivação seguida de um enfoque da importância comunicação organizacional interna estruturada como parte integrante das ações da gestão nesse tipo de instituição. Para o aprofundamento da análise, são apresentados dados da pesquisa de campo realizada concomitantemente com o gestor de recursos humanos e com uma amostra representativa dos colaboradores, a fim de verificar e confrontar a visão de ambas as partes acerca das práticas de comunicação interna formal, desenvolvidas na IES, e como estas influenciam aspectos do comportamento dos colaboradores especialmente no que concerne à motivação. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 127 2 REVISÃO DE LITERATUR A 2.1 ASPECTOS RELEVANTES DA MOTIVAÇÃO A palavra motivação é oriunda do latim movare, que significa mover (HOUAISS, 2001). Percebe-se, assim, um caráter mais dinâmico a esse processo essencial. No âmbito organizacional pode ser compreendida como uma força propulsora interna que faz com que os colaboradores desenvolvam bem suas atividades. Santos (2007) afirma que motivação é um fator intrínseco e que depende de cada um ir buscá-la, deixando para as organizações o papel de proporcionar meios para satisfazer às necessidades de seus empregados. Especialistas definem a motivação como predisposição interior para a ação e relacionam a satisfação das necessidades ao comportamento motivacional. Neste sentido, Mata e Coltre (2007, p.3) afirmam: O que leva as pessoas a se moverem em direção a alguma coisa não é a coisa em si, mas a sua necessidade em relação a coisa. Assim, a motivação nasce somente das necessidades humanas, que são intrínsecas e únicas a cada uma das pessoas. A motivação é uma inclinação para a ação que tem origem em uma necessidade. E, o motivo é definido quando essa necessidade atua no intelecto levando a pessoa a agir ou se mover, em busca da satisfação desta necessidade. Os múltiplos interesses desenvolvidos pelos indivíduos corroboram com a crença de que as pessoas não fazem as mesmas escolhas pelas mesmas razões, o que ressalta a existência de compreensões diversas de certos fenômenos que apresentam situações à primeira vista contraditórias no que se refere à motivação humana. Tal realidade é constatada pela diversidade de indivíduos, cada um portando sua bagagem inata (carga genética e experiências intrauterinas) e suas vivências pessoais que se acumulam nas diversas fases de suas vidas (infância, adolescência, maturidade e velhice). Esse acúmulo de experiências é responsável pela construção paulatina do grau de motivação de cada ser humano. Segundo Tresca e De Rose Jr. (2000), a motivação é o processo que leva as pessoas a uma ação ou à inércia em diversas situações, sendo ainda o exame das razões pelas quais se escolhe fazer algo, executar algumas tarefas com maior empenho do que outras, ou persistir numa atividade por longo período de tempo. Ribeiro (2004) sintetiza as principais teorias que norteiam os motivos pelos quais as pessoas agem, conforme descritas a seguir: a) Teorias Cognitivas: são as teorias que pressupõem o homem como ser racional, com valores, capaz de controlar Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 128 sua vontade e consequentemente responsável por suas ações; b) Hedonismo e motivação – nessa teoria acredita-se que as pessoas buscam o prazer e consequentemente afastam-se do sofrimento; c) Behavioristas: os behavioristas acreditam que existe uma relação entre o comportamento de uma pessoa em determinado momento e os acontecimentos ocorridos no passado. A abordagem é histórica e o que motiva o comportamento são consequências de recompensas ou punições recebidas no passado. d) Teorias do Instinto: defendidas por psicólogos como Freud, McDougal e William James, onde acreditam que os motivos que são herdados determinam o comportamento humano. e) Teoria do Impulso: propõe a personalidade como um reduto de forças básicas ou energia própria que orienta o comportamento numa ou noutra direção. f) Teorias das Necessidades de Maslow : as necessidades constituem a causa de motivação das pessoas e essas necessidades podem ser amor, segurança, autoestima, realização, estética e fisiológica. g) Teoria dos Fatores Higiênicos e Motivacionais de Herzberg: dividida em dois grupos de fatores: satisfação no trabalho (fatores higiênicos) que depende das condições de trabalho tais como o reconhecimento, realização, responsabilidade e outros. No segundo grupo encontra-se a motivação no trabalho, fatores relacionados com a tarefa, o que influencia a produtividade das pessoas. De um modo geral, as teorias motivacionais ressaltam que um indivíduo pode ter, como determinantes de suas ações, razões internas ou externas. As razões internas tornam a motivação mais consistente e duradoura, pois desenvolvem a autonomia e a personalidade. Todos possuem os denominados motivos intrínsecos para aprender, motivos que não estão subordinados a recompensas exteriores. A recompensa, nesse caso, está na resolução de um desafio mental, em superar as próprias limitações ou descobrir algo que se considere útil. As recompensas extrínsecas podem iniciar e manter algumas atividades, porém não são suficientes para explicar a maior parte da motivação humana, principalmente a relacionada à aprendizagem (TRESCA; DE ROSE JR, 2000). Para Almeida (2007), o fenômeno motivacional pode ser entendido, genericamente, como sendo uma fonte de energia intensa que direciona ou canaliza o comportamento do indivíduo na busca de determinados Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 129 objetivos. Esse estado interno está diretamente relacionado com as necessidades individuais, que variam de pessoa para pessoa. 2.2 A COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL INTERNA NAS IES A comunicação é uma necessidade inerente ao ser humano. McKenna (2002) afirma que a palavra comunicação é derivada do termo latim communicare, que significa compartilhar ou tornar comum, e que a comunicação relaciona-se diretamente à ideia de se fazer compreender. Embora não exista uma definição única sobre comunicação organizacional, o termo enfatiza, segundo Kunsch (1997), a maioria das atividades de comunicações, compreendendo ainda clima, cultura organizacional e o vínculo com o público interno e externo. Cardozo (2006, p.1127) propõe que “é necessário que se entenda a comunicação como processo estratégico [...] que visa à provocação de comportamentos inovadores, criativos e dinâmicos do ponto de vista estratégico”. Na concepção de Kunsch (1997, p.128), a comunicação interna é “[...] uma ferramenta estratégica para compatibilizar os interesses dos colaboradores e da empresa mediante estímulo ao diálogo, à troca de informações e experiências e à participação de todos os níveis.” Neste sentido, é fundamental compreender que a comunicação interna formal é aquela que oriunda de fontes institucionalizadas pela própria organização destacando-se, dentre outros, e-mails, intranet, reuniões, informativos, correspondências (Pimenta, 2002, apud SILVA, 2007). Silva (2007, p.21) dispõe acerca da sua finalidade: A comunicação interna formal tem a finalidade de comunicar, articular todas as informações entre todos os funcionários, estabelecendo um elo entre as unidades administrativas existentes, além de ter uma característica de natureza estratégica na organização a fim de que as informações possam fluir com maior celeridade e de forma clara e eficaz. Brum (1998) elenca os seguintes canais como parte integrante da comunicação interna formal: manual e vídeo de integração à empresa, manuais técnicos e educativos, revistas e histórias em quadrinhos, jornal interno, encarte da área de RH no jornal interno, página ou encarte da associação de funcionários no jornal interno, jornal de parede, cartazes, cartazes informativos, painéis, comemoração de datas festivas incluindo o aniversário dos funcionários, caixa postal, ombudsman interno, cartas e cartões, encontros formais, reuniões, vídeos informativos e motivacionais, palestras, tele e vídeo conferências, clube de leitura, mensagens virtuais, rádio interna, vídeojornal, correio eletrônico, intranet, clipping eletrônico. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 130 Dentre os canais supracitados, as reuniões merecem um destaque especial na visão de Forsyth (2001, p.7), que afirma “[...] as reuniões são uma parte importante das comunicações organizacionais, das consultas, dos debates e do processo decisório”. É certo que estratégias de comunicação interna formal, para obter resultados eficazes, necessitam do envolvimento de todos os níveis da instituição. Mintzberg, Ahlstrand e Lampel (2000, p.196) são enfáticos ao afirmarem que “a formação de estratégia é um processo de interação social, baseado nas crenças e nas interpretações comuns aos membros de uma organização”. Pensar na comunicação e na informação como elementos das estratégias de gestão, no contexto contemporâneo, de acordo com Cardozo (2006, p. 1126), [...] é um desafio que precisa ultrapassar as fórmulas superadas para alcançarem formas de colocar o ser humano em pauta, valorizando a capacidade criadora do indivíduo, criando e desenvolvendo uma cultura organizacional, na qual todos se sintam envolvidos e, de alguma forma, participantes. A estratégia de comunicação consiste no plano da empresa para transmitir as notícias para seus públicos. Corrado (1994) afirma, ainda, que o objetivo da comunicação é funcionar como auxiliar interno, motivando os empregados a uma ação produtiva e ajudando a posicionar a empresa junto aos públicos externos. Fleury e Fischer (1996) afirmam que os modelos mais modernos de gestão pressupõem tentativas de melhorar os sistemas de comunicação nas duas mãos: levando mais informações aos empregados e recebendo suas opiniões, sugestões e reivindicações. Curvello (2002) corrobora com este pensamento ao afirmar que a comunicação auxilia no desenvolvimento e manutenção dos objetivos organizacionais. Neste sentido, Corrado (1994, p. 34) especifica a dimensão das estratégias de comunicação: A estratégia de comunicação consiste no plano da empresa para transmitir as notícias para seus públicos. A estratégia define quem são esses públicos, por que é importante comunicar-se com eles, quando e onde a comunicação deve acontecer, quem é responsável pelas comunicações o que deve ser dito e qual o vínculo com as metas comerciais. Porém a parte mais importante da estratégia de comunicação é o ambiente de comunicações que a administração superior cria. Para ser eficiente, a administração superior precisa liderar o planejamento das comunicações. No âmbito acadêmico Brito et al. (2008, p. 365) enfatizam que as organizações de ensino “devem basear-se em princípios que valorizem o diálogo e o conhecimento reflexivo da realidade dos indivíduos.” Esta Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 131 postura viabiliza a motivação – alvo perseguido pela maioria dos gestores. Nesse sentido, Brum (1998, p.71) faz a seguinte observação: Sem informação coerente, clara, verdadeira, lógica, centrada e bem trabalhada, não existem funcionários motivados, por maiores que sejam os benefícios e incentivos [...] A informação é o produto da comunicação interna e a maior estratégia de aproximação funcionário-empresa. Verifica-se, portanto, que em uma IES os colaboradores terão necessidades individuais e coletivas, cabendo à instituição identificar estas variáveis e promovê-las no intuito de estimular o comportamento motivacional, aspecto relevante para o clima e desempenho organizacional. A comunicação interna formal emerge como instrumento viabilizador deste processo. 3 METODOLOGIA Esta pesquisa se classifica, primeiramente, como exploratória, tendo como fonte inicial a consulta bibliográfica. O presente estudo também pode ser caracterizado como pesquisa de campo, pois descreve as características de determinado fenômeno ou população específica ou ainda estabelece relações entre as variáveis, envolvendo coleta de dados padronizados. Este trabalho ainda pode ser sub-classificado como um estudo de caso, pois foi realizado uma análise em determinado local ou unidade em particular para evidenciar suas características e averiguar sua situação (YIN, 2005). A coleta e análise dos dados foram realizadas de forma quantitativa. 3.1 OBJETO DE ESTUDO A pesquisa de campo foi realizada em uma IES privada de grande porte caracterizada como Faculdade Integrada. O Decreto nº 5.773/2006 identifica as faculdades integradas como instituições com propostas curriculares em mais de uma área do conhecimento, organizadas para atuar com regimento comum e comando unificado. Com mantenedora no Rio de Janeiro e sede na cidade de Fortaleza, há nove anos, possui 624 colaboradores diretos e mais de 5.000 alunos regularmente matriculados, distribuídos em dois campi na cidade de Fortaleza. A instituição em análise oferta quatorze cursos de graduação, doze de graduação tecnológica e trinta e três cursos de especialização. O critério de escolha baseou-se no fato da instituição possuir sistema formal de comunicação interna, bem como por ser uma instituição em expansão no segmento abordado. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 132 3.2 COLETA DE DADOS Para a coleta de dados da pesquisa de campo, foi aplicado um questionário estruturado direcionado ao gestor de RH e à amostra representativa de 12% dos colaboradores ativos escolhidos de forma aleatória nos dois campi na cidade de Fortaleza, excluindo-se estagiários, terceirizados e afastados por motivos diversos. O questionário composto de 23 (vinte e três) perguntas objetivas buscou investigar a relação entre a comunicação organizacional interna formal desenvolvida pela IES e seus efeitos sobre os colaboradores, com enfoque no aspecto motivação. Buscou-se, através do confronto das respostas fornecidas pelo gestor RH e pelos colaboradores, atingir o objetivo deste trabalho. Tendo em vista que os dados receberam tratamento exclusivamente descritivo, a tabulação foi realizada usando-se o software Excel for Windows®. 4 APRESENTAÇÃO E ANÁ LISE DOS DADOS A análise descritiva dos dados obtidos permitiu expor as seguintes considerações: Primeiramente, foi perguntado ao gestor de RH se a instituição possuía um profissional responsável pela comunicação organizacional interna e a resposta foi afirmativa. Foi indagado ao colaborador se ele conhecia este profissional e seu respectivo nome. As respostas apresentadas obtidas foram: Tabela 1 - Conhecimento que os colaboradores têm do responsável pela comunicação interna Conhece o responsável pela comunicação interna Quantidade Percentual Sim 44 57,9 Não Não soube responder 24 8 31,6 10,52 Total 76 100,00 Fonte: pesquisa de campo Os dados demonstram que pouco mais da metade dos colaboradores afirmam conhecer o responsável pela comunicação interna, o que indica primeiramente que a comunicação existe e que há um responsável conforme afirmado pelo gestor de RH. Porém, ao serem indagados acerca do nome do responsável, houve divergência do nome indicado pelo gestor de RH sendo apontada uma variedade de nomes, inclusive por aqueles que afirmavam conhecê-lo. Esta confusão pode indicar que a comunicação está sofrendo ruídos ou que não há clareza na informação passada aos Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 133 colaboradores. Na pergunta seguinte foi pedido ao colaborador que identificasse os aspectos que ele conhecia acerca da instituição: Tabela 2- Distribuição da frequência quanto ao conhecimento sobre a instituição Item % Missão Visão 76,32% 71,06% Valores Objetivos 58,63% 68,42% Fonte: pesquisa de campo A tabela acima evidencia que a maioria conhece a missão, visão, valores e objetivos institucionais. Foi perguntado informalmente e à parte ao gestor de RH com que frequência a instituição realiza treinamentos que reforçam os conhecimentos abordados acima e a resposta obtida foi de que esses aspectos estratégicos, visão e missão, valores e objetivos, são reforçados anualmente. A pergunta seguinte aborda o conhecimento acerca do planejamento estratégico da IES: Tabela 03 - Conhecimento da existência do planejamento estratégico da instituição Conhecimento do Planejamento Estratégico Quantidade Percentual Conheço Não conheço 52 24 68,43 31,57 Total 76 100,00 Fonte: pesquisa de campo Segundo o gestor de RH, a instituição possui planejamento estratégico e este é comunicado aos colaboradores com uma frequência variável. Verifica-se que a maioria dos colaboradores tem conhecimento sobre o planejamento estratégico da IES, porém o percentual dos que desconhecem é considerável. Tais dados podem colaborar para que a IES possa rever a periodicidade e a regularidade com que tais informações são repassadas aos colaboradores já que o conhecimento claro do planejamento da IES pode contribuir para o colaborador sentir-se partícipe da plena efetivação do planejamento. Com base na proposta de Brum (1998) listou canais de comunicação para que fosse escolhidos os mais utilizados para o desenvolvimento da comunicação interna formal na IES. No quadro abaixo, são listados os canais apontados pelo gestor de RH e os canais citados pelos colaboradores. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 134 Quadro 01 – Canais oficiais de comunicação interna formal IES Colaboradores Telefone Telefone Jornal interno Jornal interno Palestras e treinamentos Palestras e treinamentos Jornal de parede Jornal de parede Cartazes Cartazes Painéis e murais Painéis e murais Reuniões Reuniões Correio eletrônico Correio eletrônico Intranet Intranet Quadro de avisos Quadro de avisos Mensagens virtuais Mala-direta Encontros formais Cartas e cartões Rádio interna Manuais técnicos e educativos Vídeos informativos e motivacionais Vídeo conferências Manuais e vídeos de integração à empresa Fonte: pesquisa de campo Verifica-se que todos os canais citados pela IES foram corroborados pelos funcionários, com acréscimo de outros. Há, portanto, uma dissonância nas respostas. Logo se verifica uma necessidade de investigação, por parte da IES, se há alguma forma não oficial ou intrassetorial se desenvolvendo em seu interior, sem conhecimento do gestor responsável. Tal divergência é passível de verificação , pois segundo Brum (1998) a informação é um meio de aproximação empresacolaborador e portanto, canais não oficiais podem comprometer tanto a quantidade como a veracidade e a qualidade das informações que chegam aos colaboradores. O gestor de RH considerou boa a qualidade da informação que repassa aos seus colaboradores o que, segundo a tabela 04 abaixo, é confirmada por estes. Isto evidencia que o colaborador tem percepção a respeito da qualidade das informações que recebe da IES e desenvolveu opinião a respeito do tema. Tal fato corrobora com o pensamento de Brum (1998) de que a informação deve ser coerente, clara, verdadeira, lógica, centrada e bem trabalhada de forma a atender as expectativas do cliente interno. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 135 Tabela 04 - Qualidade das informações internas na visão do colaborador Qualidade Quantidade Percentual Ruim 10 13,2 Boa Total 66 76 86,8 100,00 Fonte: pesquisa de campo Investigou-se, também, quais aspectos comportamentais negativos as partes percebiam existir no ambiente da instituição. A esta pergunta, o gestor de RH identificou apenas a “rádio-corredor” como aspecto comportamental negativo existente em seu ambiente organizacional. Destaca-se aqui a desmotivação como aspecto preponderante apontado pelos colaboradores, superando a “rádio-corredor” de acordo com tabela a seguir. Assim, verifica-se que os demais aspectos apontados pelos colaboradores não estão sendo considerados pelo departamento de RH da instituição. Constata-se então que há uma falha do RH no conhecimento mais aprofundado do ambiente organizacional. Tabela 05 - Aspectos comportamentais negativos do ambiente organizacional Item % Desmotivação 68,42% Improdutividade Rádio-corredor 23,68% 52,63% Fofoca 44,74% Fonte: pesquisa de campo O cerne de relevância da informação acima está no fato de uma parcela significativa dos colaboradores se auto-intitular desmotivada e isto não está sendo percebido pelos gestores de RH. Embora, em questões anteriores, o nível das informações tenha sido considerado bom, este dado por si só não pode ser considerado suficiente para impedir tal sentimento. Destaca-se também a “rádio-corredor”. O aparecimento de tal aspecto pode ser compreendido se relacionado ao fato de existirem canais de comunicação que possivelmente não estão oficializados conforme apontados no quadro 01. Quanto aos canais que a IES utiliza para estimular a motivação dos colaboradores, o departamento de RH afirma que utiliza apenas reuniões e treinamentos, resposta essa corroborada pelos empregados que apontaram estes dois canais acrescidos de palestras educativas. A restrição da quantidade e variedade de canais pode ter impacto sobre o aspecto desmotivação apresentado na questão anterior. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 136 Além disso, buscou-se conhecer também o grau de interação que a IES promove entre novatos e veteranos, sendo apontados como significativos os dados representados a seguir: Tabela 06- Integração que a IES promove entre os colaboradores novatos e veteranos Integração Quantidade Percentual Só com novatos Só com veteranos 10 4 13,16 5,26 Com novatos e veteranos 10 13,16 Não há programa de integração Não soube responder 50 2 65,79 2,63 Total 76 100,00 Fonte: pesquisa de campo Observa-se que o maior percentual evidencia que a IES não mantém programa de integração. Segundo o gestor de RH, esta modalidade só ocorre com os novatos. A diversidade de respostas permite inferir a falta de clareza interna sobre este aspecto. Segundo o gestor de RH não há programa formal de integração com as famílias dos colaboradores. Conforme é demonstrado na tabela 07 a seguir, quase a totalidade dos colaboradores tem consciência da ausência dessa modalidade de integração. Tabela 07 - A IES promove integração com a família dos colaboradores Promove integração com a família Quantidade Sim 2 Percentual 2,63 Não Não soube responder 72 2 94,74 2,63 Total 76 100,00 Fonte: pesquisa de campo Ao serem questionados, os colaboradores e o gestor de RH, sobre a programação das reuniões, ambos os lados investigados afirmaram que há calendário programado de reuniões. Fato importante, já que as reuniões constituem poderoso canal de comunicação formal e, quando programadas previamente, com objetivos claros, podem trazer frutos positivos às organizações. Tabela 08 - Calendário programado de reuniões Programação antecipada de reuniões Quantidade Percentual Sim 50 65,78 Não 24 31,58 Não soube responder Total 2 76 2,63 100,00 Fonte: pesquisa de campo Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 137 Segundo o departamento de RH da instituição, a maior frequência das reuniões tem por objetivo informar. Verifica-se que a maioria dos colaboradores concorda com a afirmação. Ainda, segundo o gestor responsável, este canal não é utilizado para parabenizar o colaborador, ou seja, como um mecanismo de fonte de estímulo ao colaborador, o que é confirmado pelo baixo percentual de respostas, evidenciado na tabela 09 a seguir: Tabela 09 - Objetivo das reuniões Item % Informar Repreender 76,32% 13,16% Parabenizar Negociar 10,53% 10,53% Outros 2,63% Fonte: pesquisa de campo As perguntas seguintes versaram sobre a periodicidade da realização de reuniões gerais que envolvem a presença simultânea de todos os colaboradores e sobre as reuniões setoriais. No que concerne às reuniões gerais, o departamento de RH informou que esta ocorre uma vez ao ano, porém houve uma diversidade nas respostas dos colaboradores, variando entre anual, semestral, mensal, entre outros, evidenciando assim, falta de clareza aos colaboradores neste quesito. Ainda sobre as reuniões setoriais os maiores índices concentram-se na periodicidade quinzenal ou mensal. Segundo a resposta fornecida pelo gestor do RH, os setores têm autonomia para decidirem sobre periodicidade, formato e resultados de suas reuniões e que o departamento de RH apenas controla o repasse de informações dentro dos setores, mas não especificou de que forma. É importante destacar que a reunião como canal importante de comunicação formal precisa apresentar planejamento e verificação de resultados para que possa servir de instrumento assertivo no que concerne à difusão da informação. A tabela 10 aborda a quantidade e qualidade das reuniões. Tabela 10 - Quantidade e qualidade das reuniões Quantidade e qualidade Quantidade Percentual Boa 56 73,69 Ruim Não soube responder 16 4 21,05 5,26 Total 76 100,00 Fonte: pesquisa de campo Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 138 Vê-se que um percentual significativo dos colaboradores considera boa a quantidade e a qualidade das reuniões que ocorrem no interior da instituição. Este aspecto envolve formato, tempo de duração, periodicidade, informação, objetivo, entre outros. O departamento de RH também avalia as reuniões como boas. Nota-se que existe uma satisfação tanto para a instituição como para os colaboradores. É lícito ressaltar a fragilidade desta resposta haja vista que, de acordo com as questões anteriores, as reuniões setoriais são independentes, abstendo-se o RH de uma avaliação direta dos resultados, ficando esta a cargo do responsável direto pelo setor. Quando questionados sobre a existência de treinamentos, o profissional de RH afirma que existe programa/treinamento de incentivo ao desenvolvimento da comunicação e do relacionamento interpessoal; entretanto, a maioria dos colaboradores desconhece tais programas. Há uma dissonância entre as afirmações da instituição e dos colaboradores, conforme pode ser percebido a seguir: Tabela 11 - Existência de programa/treinamento de incentivo ao desenvolvimento da comunicação e o relacionamento interpessoal Existência de programa de incentivo ao desenvolvimento da comunicação e do relacionamento interpessoal Sim Quantidade Percentual 24 31,58 Não Não soube responder 50 02 65,79 2,63 Total 76 100,00 Fonte: pesquisa de campo Os dados acima revelam que, segundo a maioria dos colaboradores, não há um programa de incentivo ao desenvolvimento da comunicação e do relacionamento interpessoal. Considerando que a comunicação e o relacionamento interpessoal é uma necessidade inerente ao ser humano Mckenna (2002) e que a comunicação organizacional pode contribuir para um ambiente mais humanizado CARDOZO (2006), percebe-se que há a necessidade de se repensar o enfoque dado a este aspecto, sobretudo por se tratar de uma instituição que lida com a difusão do conhecimento. Por fim, foi indagado somente aos colaboradores se a comunicação organizacional interna da instituição despertava motivação neles. As respostas são explicitadas na tabela 12: Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 139 Tabela 12- Motivação pela comunicação Motivação Quantidade Percentual Sim 44 57,89 Não Não soube responder 30 2 39,47 2,63 Total 76 100,00 Fonte: pesquisa de campo Verifica-se, com as análises anteriores, que embora o colaborador, em sua maioria, considere boa a qualidade da informação que recebe e avalie como boa ou razoável a qualidade da comunicação interna, o percentual daqueles que se julgam motivados pela comunicação ainda é próximo dos que afirmam que a motivação não os estimula.Tal fato pode ser compreendido se analisado em conjunto com as respostas anteriores. Para Mata e Coltre (2007) a motivação está relacionada à satisfação das necessidades humanas. Neste quesito específico, a comunicação atende às necessidades da maioria, porém ainda não é satisfatória para alguns. Diante das constatações já confrontadas com o conteúdo da literatura consultada permitem tirar inferências apresentadas a seguir. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Em busca pela consecução do objetivo proposto, percebeu-se que a revisão da literatura aponta a existência de relação entre comunicação e motivação considerando-se a necessidade de comunicação do ser humano. Apontou ainda que a comunicação organizacional pode servir de mecanismo propulsor da motivação à medida que promove um ambiente humanizado. Os resultados obtidos na pesquisa de campo apontaram que a maioria dos respondentes conhece o responsável pela comunicação interna, significando também a admissão de que ela existe. Aspectos positivos relacionados à comunicação foram apontados por um percentual significativo dos colaboradores, como o conhecimento acerca do planejamento estratégico, missão, visão de futuro, valores e os objetivos organizacionais. A amostra demonstrou também que conhece os vários canais formais de comunicação interna da instituição e aprova a qualidade das informações. Algumas respostas apresentaram dissonâncias em relação ao afirmado pelo gestor de RH, o que pode implicar em falhas de comunicação. Sobre as questões motivacionais, surpreendeu a constatação de que a grande maioria dos respondentes afirma simultaneamente que a qualidade das informações é boa e se sente estimulada pela comunicação em geral, Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 140 porém percebem a desmotivação como aspecto comportamental predominante no ambiente em detrimento a outros. Isso leva à conclusão de que, para o público pesquisado, a qualidade percebida da comunicação, embora seja necessária, não é suficiente para elevar o nível de motivação. A percepção dos respondentes quanto à comunicação entre a IES e os colaboradores, em termos gerais, é positiva, porém, passível de atenção. Entende-se que a pergunta de pesquisa foi respondida e o objetivo geral atingido, porque, apesar de se perceber que existe relação positiva entre a comunicação interna formal e a motivação do colaborador, aquela não pode ser considerada como único fator que contribui para tal sentimento, não chegando a ser nem mesmo o fator mais importante. Conclui-se que existe relação positiva direta entre a comunicação interna formal desenvolvida pela IES e a motivação de seus colaboradores, já que a comunicação organizacional interna formal pode conduzir o colaborador à motivação, porém não é fator único e suficiente para desencadear tal sentimento. REFERÊNCIAS ALMEIDA, V. P. Motivação no trabalho: teoria ou necessidade? 2007. Disponível em <http://www.rh.com.br/artigos.htm>. Acesso em: 12 abr. 2010. ALTENFELDER, Ruy. Comunicação, uma área estratégica. 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Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 ISSN 1676-045x Volume XI – nº 11 - 2012 p. 145 –159 A IMPORTÂNCI A DA POLIDEZ NA REDA ÇÃO COMERCIAL Huanda Helen Terrazas Loza1 Luzia Schalkoski Dias2 Resumo: Dado que a comunicação escrita faz parte do cotidiano do mundo empresarial, neste artigo nós nos propomos a aprofundar a compreensão do fenômeno da polidez e analisar sua aplicação à atividade de redação comercial desempenhada pelo profissional de Secretariado. Assim, pretende-se identificar as principais características apontadas pelos manuais para uma redação comercial eficaz; comparar a visão de diferentes autores sobre a importância da polidez nos escritos comerciais em português e espanhol; e verificar se o conceito de polidez da Teoria de Brown e Levinson (1987) pode ser aplicado às redações comerciais. A pesquisa descritivo-exploratória parte do exame de três cartas, duas de reclamação e uma de solicitação. A partir da análise dessas cartas, buscouse evidenciar como o uso da polidez linguística pode contribuir para a maior eficácia nas negociações, principalmente quando estas envolvem situações de conflito de interesses. Tomando-se como referência a Teoria de Brown e Levinson (1987) sobre a polidez linguística, que leva em consideração certas necessidades das imagens sociais do locutorinterlocutor ou escritor-leitor, buscou-se relacionar alguns procedimentos linguísticos que podem ser usados na redação comercial às necessidades de imagem dos envolvidos. Finalmente, salienta-se que esta perspectiva traz uma importante contribuição à atividade de redação comercial, pois evidencia que a expressão da polidez verbal vai além das simples fórmulas de polidez/cortesia ou das formas de tratamento que indicam deferência. Palavras-chave: Redação comercial. Polidez. Secretariado 1 E-mail: [email protected] 2 E-mail: [email protected] Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 146 THE IMPORTANCE OF PO LITENESS IN COMMERCI AL WRITING Huanda Helen Terrazas Loza1 Luzia Schalkoski Dias2 Abstract: Since written communication is part of the everyday business world, this article aims to deepen the understanding of the phenomenon of politeness and analyze its implementation in the business writing activity performed by the Office Manager. We intend to identify the main features pointed out by job description manuals for the effective business writing, to compare the viewpoint of different authors about the importance of politeness in business writing in Portuguese and Spanish and verify if the concept of politeness theory by Brown and Levinson (1987) can be applied to commercial writing. The exploratory/descriptive research starts by examining three letters, two of them complaining letters and the other a request. From the analysis of these letters, we endeavored to show how the use of polite language can contribute to greater efficiency in the negotiations, especially when they involve conflicts of interest. Taking as reference the Theory of Brown and Levinson (1987) about the linguistic politeness, which takes into account the needs of certain social images of the speaker-addressee or reader-writer, we also sought to relate some linguistic procedures that can be used in commercial writings to how the involved parts want to be seen. Finally, we emphasized that this approach brings an important contribution to the activity of business writing, highlighting that expressing politeness goes beyond mere verbal formulas of politeness or forms of treatment that indicate deference. Keywords: Commercial writing. Politeness. Office Managing. 1 E-mail: [email protected] 2 E-mail: [email protected] Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 147 1 INTRODUÇÃO A polidez, de modo geral, refere-se a um conjunto de comportamentos, ações e gestos, assim como pode ser expressa por meio da língua falada e escrita. Por exemplo, segurar a porta para alguém entrar ou sair, ceder o assento para pessoas idosas, gestantes ou deficientes físicos em um ônibus, ou o uso corriqueiro das expressões “por favor”, “obrigado” e “com licença”, refletem certa polidez no nosso dia a dia. Porém, o presente trabalho se limitará ao estudo da polidez no âmbito linguístico, especificamente na área de comunicação empresarial escrita e no que diz respeito à atuação dos profissionais de Secretariado. Sabe-se que os escritos comerciais apresentam características próprias e, geralmente, os manuais de redação comercial recomendam uma série de requisitos ou cuidados para uma redação mais eficaz. Tendo em vista tais cuidados, o presente artigo parte das seguintes questões: Em que medida o aspecto da polidez é contemplado nos manuais de redação comercial consultados em português e espanhol? Qual a importância de o profissional de Secretariado saber usar as estratégias de polidez ao redigir cartas comerciais? A partir das questões anteriores, este estudo se propõe a aprofundar a compreensão do fenômeno da polidez e analisar sua aplicação à atividade de redação comercial desempenhada pelo profissional de Secretariado. Para tanto, pretende-se: a) identificar as principais características apontadas por alguns manuais para uma redação comercial eficaz; b) comparar a visão de diferentes autores sobre a importância da polidez nos escritos comerciais em português e espanhol; e c) verificar se o conceito de polidez da teoria de Brown e Levinson (1987) pode ser aplicado às redações comerciais. Vê-se a necessidade de aprofundamento teórico sobre o termo “polidez”, uma vez que, no senso comum, este é frequentemente relacionado apenas aos bons modos e à etiqueta social. Tradicionalmente, a polidez também tem estado associada aos pronomes de tratamento corteses. Porém, estudos mais recentes têm demonstrado que a polidez pode se manifestar por meio de uma série de construções linguísticas. Para exemplificar, em uma carta comercial pode-se utilizar: "Tenho a honra de encaminhar" e não, simplesmente, "Encaminho", “Tenemos el placer de enviarle” (em espanhol), em vez de “Le enviamos”, "Tomo a liberdade de sugerir", em vez de simplesmente “Sugiro” ou, em espanhol, “Nos tomamos la libertad de sugerirle” e não, simplesmente, "Sugerimos". Sendo assim, observa-se que a polidez se manifesta também no cuidado de evitar frases agressivas ou ásperas. Até uma carta de cobrança pode ter seu tom amenizado, fazendo-se menção, por exemplo, a um possível esquecimento. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 148 Por fim, este estudo parte da ideia de que a polidez contribui para a eficácia da comunicação empresarial, uma vez que melhora a comunicação como um todo. O uso da polidez resulta em relações empresariais mais produtivas, já que uma melhora na comunicação, tanto oral quanto escrita, pode gerar um círculo virtuoso que favoreça as relações interpessoais, mude a maneira de se expressar, com o uso de formas linguísticas adequadas de acordo com a situação e o assunto tratado. Assim como é capaz de melhorar as relações entre as pessoas dentro de uma realidade empresarial, também é válido afirmar que a polidez é relevante no âmbito da eficácia da relação entre várias empresas. Isto é, ela é um recurso efetivo tanto dentro da empresa quanto nas relações interempresariais. Assim, considera-se que a polidez é um recurso indispensável para a atuação do profissional de Secretariado, principalmente ao redigir documentos comerciais. A metodologia do estudo é de caráter descritivo e exploratório (SANTOS; MOLINA; DIAS, 2008), uma vez que se pretende identificar as principais características para uma redação comercial eficiente e verificar o tratamento do aspecto da polidez por alguns manuais de redação comercial em português e espanhol. Para o levantamento dos dados do português, utilizou-se como fonte principal de pesquisa os seguintes manuais: Barros (1983); Gold (2010); Grion (2002); Manual de Comunicação Escrita Oficial do Estado do Paraná (2005); Manual de Redação Oficial – Secretaria de Administração do Piauí (2006) e Medeiros (2004). Para os dados do espanhol, os manuais consultados foram: Álvarez (1995) e Gómez de Enterría (1990). A data de publicação foi o critério utilizado para a seleção dessas fontes. Com exceção de Barros (1983), todos os manuais selecionados para o português foram publicados após 2000. Quanto aos dois manuais em espanhol, apesar de não serem tão recentes, eles ainda são bastante utilizados, sendo referência obrigatória no meio acadêmicoprofissional. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 149 Em um primeiro momento, buscou-se identificar as características apresentadas por esses autores como essenciais para uma redação bem sucedida. Em um segundo momento, analisou-se em que medida o aspecto da polidez era contemplado como uma característica a ser levada em conta ao se redigir uma carta empresarial. Posto que um dos objetivos desta pesquisa é promover uma maior familiaridade com o fenômeno da polidez linguística e sua possível utilização na redação empresarial, o estudo também tem como base um levantamento bibliográfico sobre essa temática. Desse modo, objetivando um aprofundamento dos conhecimentos relativos à polidez linguística, também se recorre à literatura da área da pragmática linguística, com os aportes trazidos pela Teoria da Polidez de Brown e Levinson (1987). 2 CARACTERÍSTICAS DA REDAÇÃO COMERCIAL EFIC AZZ O sucesso empresarial depende muito de uma comunicação eficaz da organização, tanto interna quanto externamente. Por tanto, entende-se que uma correspondência eficaz é aquela que gera uma resposta objetiva e correta que satisfará as necessidades tanto do emissor como do destinatário. Nesse sentido, qualidades como concisão, objetividade, clareza, coerência, linguagem adequada e correção gramatical são consideradas essenciais na produção do moderno texto empresarial. Gold (2010, p. 9) conceitua tais características da seguinte forma: a) ser conciso consiste em expressar o máximo de informações sem repetições e excesso de ideias; b) a objetividade refere-se ao cuidado em expor ao destinatário as ideias principais, dispensando informações supérfluas; c) a clareza textual decorre da capacidade de organização mental e do uso adequado do material idiomático; d) a coerência diz respeito à conexão entre as ideias do texto, conferindo-lhes uma lógica; e) para que a linguagem seja adequada, é preciso levar em conta quem será o destinatário da mensagem e o assunto a ser tratado; f) por fim, a correção gramatical contribui para a transmissão de uma imagem positiva tanto da pessoa que escreve como da empresa. A redação empresarial é parte fundamental da função do profissional de Secretariado, o qual, além de dominar as normas gramaticais da língua, deve saber redigir com concisão, objetividade, clareza, coerência e adequação, que são características de suma importância para o mundo dos negócios em geral. Assim como Gold, Gómez de Enterría (1990, p. 10-12) também considera a clareza como um fator importante nos escritos comerciais, porém esta autora diferencia-se de Gold ao mencionar outras Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 150 características que seriam necessárias para uma redação comercial mais eficaz, tais como: precisão, agilidade, persuasão e prudência. Vejamos como a autora caracteriza esses elementos: a) clareza – os textos comerciais devem ser claros, evitando-se a ambiguidade; b) precisão – a carta comercial deve ser objetiva e direta; c) agilidade – serve para que o texto possa ser lido com rapidez, apresentando a informação completa; d) persuasão – a comunicação do texto tem que ser de interesse do leitor, e impressionar o destinatário de forma favorável; e) prudência – refere-se ao fato de que, ao se escrever um documento comercial, sempre se deve ter o cuidado de utilizar os elementos adequados, como a cortesia, inclusive nos casos de cartas de reclamações, que poderão ser escritas de uma maneira enérgica, ou seja, mostrando firmeza na argumentação, porém sem deixar de ser polidas. Consideramos que uma reclamação implica a suposição de um direito por parte de quem reclama, seja na função social de instituição, de cidadão, de autoridade ou de consumidor de algum produto. Esse suposto direito parece autorizar o remetente/locutor a utilizar-se de um discurso mais impositivo, mas sem perder de vista a necessidade de polidez. 3 A POLIDEZ OU CORTESI A NA COMUNICAÇÃO EMP RESARIAL É interessante apresentar outro aspecto teórico sobre a prudência e cortesia ou polidez nos escritos comerciais. Conforme Gómez de Enterría (1990, p. 12), “el lenguaje empleado en la redacción comercial debe mantenerse siempre dentro de los cauces de la prudencia y de la cortesía. Incluso en el caso de las reclamaciones, éstas se realizarán de una manera enérgica, pero cortés”. Tendo em mente essas considerações da autora, e o exemplo de carta de reclamação apresentado a seguir, buscou-se identificar as expressões linguísticas que evidenciariam polidez em espanhol. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 151 Carta 1 GARICOECHEA Hnos. Santa Marta, 29 27002 IRUN Sr. Fernando Lorenzo Valderribas, 16 48001 MADRID 4 de septiembre de 1989 Señor: Acabamos de recibir por la AGENCIA FELGUERA una mercancía compuesta por cuatro cajas con 35.000 (treinta y cinco mil) cápsulas de plomo estañado y pintadas a tres colores; nuestra sorpresa ha sido enorme, ya que el pedido que nosotros habíamos hecho a su agente, Sr. Dias, consistía en 10.000 (diez mil) cápsulas de plomo estañado, pintadas a un solo color. En vista de que el género recibido no coincide en absoluto con el pedido realizado por nosotros, sentimos comunicarle que con fecha de hoy hemos devuelto la mercancía. Lamentamos este percance que sin duda será involuntario, y le rogamos que a la mayor brevedad posible nos hagan llegar nuestro pedido de forma correcta. Esperamos sus noticias y le saludamos atentamente. GARICOECHEA Hnos. Adaptado de Gómez de Enterría (1990, p.52) Como é possível observar na carta 1, o emissor foi claro, conciso e objetivo, utilizando a cordialidade como parte fundamental da comunicação empresarial. É o que se verifica, por exemplo, nos parágrafos segundo e terceiro, com o uso de expressões como: “sentimos comunicarle”, “lamentamos este percance”, “que sin duda será involuntário” e “le rogamos”. Também na despedida utilizou-se uma fórmula de cordialidade “le saludamos atentamente”, sem deixar de considerar o tratamento respeitoso conferido pelo pronome “le” e a forma de tratamento “Señor”. Entre outros fatores vistos como importantes para a redação comercial, como expressividade, harmonia, originalidade, unidade, motivação e persuasão, Medeiros (2004, p. 109) também menciona a “cortesia”, considerando-a como uma expressão delicada, polida e civilizada. No entanto, o autor não especifica como a cortesia se manifesta nas expressões linguísticas propriamente ditas. A fim de exemplificar o uso de expressões linguísticas de polidez também em português, vejamos a seguinte carta, que tem como objetivo principal responder a solicitação de um cliente: Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 152 Carta 2 São Paulo, 20 de maio de 1999. Senhor Adalberto: marca x. Temos em nosso poder sua carta de 8 de maio em que nos solicita 200 chuveiros da Desejosos de atender ao seu pedido, estamos providenciando a embalagem da mercadoria que nos pede. Aproveitamos também para enviar-lhe nosso catálogo de eletrodomésticos e outros produtos e oferecer-lhe desconto especial por qualquer compra acima de 10 mil reais. Pedimos a gentileza de confirmar o recebimento da mercadoria pedida. Antecipadamente agradecemos. Atenciosamente, Manoel de Oliveira, Diretor Comercial Adaptado de Medeiros (2004, p.109). Observa-se que, assim como na carta de reclamação, a carta anterior apresenta várias fórmulas e expressões de polidez, como: “Desejosos de atender ao seu pedido”, “Pedimos a gentileza”, “Antecipadamente agradecemos” e “Atenciosamente”, na despedida. Desse modo, vê-se que, de fato, o uso adequado das expressões de polidez dentro da redação comercial é uma ferramenta de trabalho importante para uma comunicação de cordialidade, eficaz e positiva. Como expõe Álvarez (1995, p. 29-30), (...) la cortesía se refleja en la particular utilización del lenguaje, pero tiene su explicación fuera del propio texto. Actúa la cortesía como un mecanismo regulador de la comunicación y se fundamenta en la idea de que siempre el yo/autor intentará influir sobre el tú/destinatario (aunque éste sea conocedor de esta influencia). Se trata por tanto de estrategias comunicativas que repercuten directamente, como se ha afirmado, en la materialización linguística del escrito. Ainda segundo a autora (p.30), essas estratégias comunicativas são explicitadas no léxico escolhido (adjetivos como “estimado”, “apreciable”), no uso de fórmulas convencionais e nas construções sintáticas, que empregam infinitivos como “rogar”, “suplicar” e “solicitar”, com o objetivo de atenuar alguma ordem. Todos esses recursos ajudam a criar uma atmosfera de cordialidade, que é muito importante para manter boas relações comerciais. Nesse sentido, a cortesia desempenha o difícil papel de mediadora entre as normas sociais e as estruturas sintático-semânticas do Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 153 texto. A polidez, no âmbito da comunicação empresarial, deve ser manifestada através da forma e do conteúdo daquilo que está sendo comunicado. O uso de amenizadores ou atenuantes consiste em substituir uma formulação desagradável por outra mais amena. Para exemplificar, ao invés de dizer “Envie-o imediatamente”, o emitente pode formular a ordem de modo indireto: “Poderia enviá-lo o mais rápido possível?” Esta pergunta torna-se menos ameaçadora do que a imposição feita anteriormente. Outro exemplo de atenuação seria apresentar uma incompreensão no texto que equivale a uma crítica. Assim, a afirmação: “Você não foi claro”, pode ser substituída por: “Lamentavelmente não entendi o que você quis dizer”. Esses são recursos e expressões que denotam cordialidade e respeito na comunicação. Dessa forma, pode-se observar que, A polidez consiste no emprego de expressões respeitosas e tratamento apropriado àqueles com os quais nos relacionamos no trato administrativo. As expressões vulgares provocam mal-estar, assim como os tratamentos irreverentes, a intimidade, a gíria, a banalidade, a ironia e as leviandades. Abrange, ainda, a discrição, qualidade indispensável a todos quantos lidam com assuntos oficiais, muitas vezes sigilosos e de publicidade inconveniente. A polidez vem mais da totalidade do texto que de um começo repetitivo ou de um fecho estereotipado, redundante ou contraditório, aglomerado de amabilidades ilógicas e, muitas vezes, insinceras. (MEDEIROS,1996, citado por MANUAL DE COMUNICAÇÃO ESCRITA OFICIAL DO ESTADO DE PARANÁ, 2005, p.4). A partir do exposto, vê-se que a polidez ou cortesia funciona como uma ponte entre as normas sociais de respeito, educação, boas maneiras, tratamento apropriado, por um lado, e a configuração linguístico-textual, por outro. Assim, é necessário controlar o conteúdo do texto e cuidar para não utilizar termos banais, irônicos ou irreverentes. Do mesmo modo que a correspondência é contato humano, e como tal deve incluir o princípio da convivência pacífica da vida social na esfera empresarial, também deve tender a uma convivência de consideração e respeito pelo próximo para gerar um ambiente favorável. (MANUAL DE REDAÇÃO OFICIAL - SECRETARIA DE ADMINISTRAÇÃO DO PIAUÍ, 2006, p. 14-15). Por outro lado, ainda segundo este último manual, é mais eficaz uma comunicação direta e objetiva, usando uma linguagem de fácil compreensão, do que um texto com palavras rebuscadas e com difícil entendimento. Assim, o excesso de polidez e de gentileza pode, inclusive, ser mal visto na utilização de fórmulas como: “Excelentíssimo, Vossa Senhoria”, “Meu muito estimado senhor”, “Digníssimo senhor”, denotando até um pouco de falsidade por parte do emissor na comunicação empresarial. O mesmo pode-se dizer quanto à utilização de fórmulas extremamente refinadas de polidez usuais no século passado, posto que podem ser muito inconvenientes em alguns casos. Considerando os Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 154 diferentes “tons” que se pode adotar em uma correspondência, Barros (1983, p.18) recomenda que mesmo que o assunto encerre reclamação e severidade, cabe ao redator manter seu texto em um bom nível de civilidade. Podem-se dizer coisas severas em uma linha de absoluta cortesia e superioridade. Nesse sentido, Blikstein (1985, p. 22, citado por MEDEIROS, 2004, p.108), ao tratar das várias falhas ocorridas em bilhete que um gerente deixou para sua secretária, comenta o seguinte: Com vinagre não se apanham moscas! Este provérbio popular contém uma bela lição para quem quer escrever bem: não é com maus modos, com secura ou aspereza que vamos atrair a simpatia dos outros. Mas o gerente não parece preocupado em atrair a simpatia de ninguém; o seu recado é meio azedo e cheira a vinagre, tanto assim é que a secretária reclama: Da próxima vez, se o senhor quiser me deixar bem contente, o senhor poderia colocar um por favor ou um muito obrigado, sabe, alguma palavrinha assim, só pra me agradar. A gente faz o serviço com mais boa vontade. Apesar da importância do uso da polidez na comunicação empresarial escrita, constata-se que esse aspecto ainda é pouco explorado pelos autores de manuais de escrita comercial ou de manuais voltados para a prática de secretariado. Muitas vezes encontram-se apenas menções superficiais sobre o tema, como em Guimarães (2001, p. 52-55), que, no “Livro Azul da Secretária Moderna”, se limita a apresentar uma relação de fórmulas de cortesia a destinatários ilustres, assim como algumas fórmulas para fechos de cartas, para citar um exemplo: “do mais profundo respeito com que me subscrevo de Vossa Excelência (...)”. Vale lembrar, ainda, o seguinte comentário de Garcia e Silva (2005, p. 169), no livro “Secretária Executiva”, ao se referirem ao aspecto da cortesia: “se você examinar as cartas que chegarem amanhã à sua mesa verá que a maioria delas viola os mais rudimentares princípios de bom senso ou cortesia”. Observa-se que estes últimos autores acabam equiparando “bom senso” e “cortesia”, porém não oferecem nenhuma explicação adicional sobre o tema. Esses dois manuais são uma pequena amostra de como o tratamento da polidez tem sido limitado e, até mesmo, equivocado em alguns casos. 4 A TEORIA DA POLIDEZ DE BROWN E LEVINSON E SUA APLICAÇÃO À REDAÇÃO COMERCIAL Dias (2010, p. 34-38), ao referir-se à Teoria de Brown e Levinson (1987) sobre a polidez, explica que os autores supõem a universalidade desse fenômeno. Isso porque, segundo a Teoria, o ser humano é dotado de “face”, que é uma espécie de imagem pública que possui certas necessidades (como ser respeitado pelos demais, não ter seu espaço Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 155 invadido, por um lado, ou ser apreciado, receber mostras de cordialidade e solidariedade, por outro) e que tende a ser considerada nas trocas comunicativas. Assim, ao interagir, as pessoas estariam constantemente preocupadas com a preservação da autoimagem pública, bem como com a imagem de seus interlocutores, o que inclui a adoção de estratégias linguísticas de não imposição como forma de preservar o espaço e a vontade alheia. Por outro lado, o ser humano procura quase sempre a aceitação ou aprovação da sociedade. Nesse sentido, é a preocupação em preservar os diferentes aspectos dessa imagem que vai motivar a escolha das estratégias linguísticas a serem utilizadas em cada situação, de acordo com fatores como a distância social existente entre locutor-interlocutor, o status relativo entre eles e o tipo de conteúdo que se pretende expressar. Como explica Escandel Vidal (2006, p. 153), para Brown e Levinson (1987), a polidez está relacionada a “la idea de que todos los individuos tienen su imagen pública, que todos quieren mantenerla a salvo, y que el buen funcionamiento de las relaciones sociales exige mantener a salvo la de los demás”. Brown e Levinson (1987) distinguem dois tipos de abordagens: polidez positiva ou solidariedade e polidez negativa ou deferência. Com polidez positiva, estamos tratando da face positiva de uma pessoa, o desejo de ser aceito pela organização/grupo. Um exemplo seria quando um gerente diz para sua secretária: “Você vai circular a agenda, caríssima?”, em vez de simplesmente ordenar: “Circule a agenda!”. O gerente transforma a ordem em uma solicitação, usando uma pergunta e a forma de tratamento “caríssima” e, ao mesmo tempo, expressa certa solidariedade (aproximação), o que contribuiria para uma sensação de maior confiança entre eles (polidez positiva). Já a polidez negativa é aquela orientada para a preservação do espaço do outro, ou seja, seu desejo de manter seu território, sua autodeterminação, e de não receber imposições. Ao contrário do que se poderia supor, a polidez negativa não significa falta de polidez. Assim, uma manifestação típica de polidez negativa está em demonstrar deferência e distanciamento. Para exemplificar, em uma situação em que a polidez negativa fosse considerada a mais adequada, o gerente poderia dirigir-se a sua secretária da seguinte forma: “Sra. Araujo, se importaria em circular a agenda?”. Em vez de ordenar (“Circule a agenda!”), o gerente novamente transforma a ordem em um pedido. Ao usar a forma indireta “se importaria” e o tratamento formal/respeitoso, “Sra. Araujo”, o gerente está reconhecendo a distância e expressando que, apesar de estar em uma posição hierárquica superior, tem consideração pela imagem negativa da funcionária. Por outro lado, com o uso da polidez negativa, ao indicar um afastamento, o gerente mantém preservado seu espaço e autoridade, mostrando uma certa distância e deferência. Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 156 Tendo em vista essas considerações, analisemos o tipo de polidez que se projeta em dois fragmentos extraídos das cartas 1 e 2, apresentadas anteriormente: a) b) En vista de que el género recibido no coincide en absoluto con el pedido realizado por nosotros, sentimos comunicarles que con fecha de hoy hemos devuelto la mercancía. Pedimos a gentileza de confirmar o recebimento da mercadoria pedida. Segundo a perspectiva teórica de Brown e Levinson, em (a), por tratar-se de uma carta de reclamação, o remetente expressa polidez positiva (“sentimos comunicarle...”), ao demonstrar preocupação com as necessidades da imagem positiva do destinatário. Já em (b), que é uma carta de resposta de solicitação, projeta-se polidez negativa ao se evidenciar o desejo de não imposição sobre o outro (“pedimos a gentileza...”). Nas cartas 1 e 2 observou-se a combinação de estratégias de polidez voltadas tanto para a imagem negativa como para imagem positiva dos destinatários, o que não ocorre na carta 3, na qual uma empresa escreve ao fornecedor reclamando o aumento dos preços de um determinado produto. Carta 3 São Paulo,... MC Comércio Ltda. At.: Departamento de Vendas Recebemos a nova lista de preços e, após verificação de alguns itens, constatamos que seus preços estão muito elevados se comparados aos de outros fornecedores. Por esse motivo, solicitamos que sejam revistos os preços dos produtos dos códigos 2344, 2347 e 2349, porque estão 20% acima da cotação que realizamos. Aguardamos posicionamento dessa empresa para darmos sequência à negociação. Atenciosamente, Assinatura Adaptado de Grion (2002, p.39) No primeiro parágrafo, acusa-se recibo de uma lista de preços, sem qualquer marca de polidez. Na sequência, analisa-se essa lista e, por último, Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 157 faz-se uma reclamação de preços altos. No segundo parágrafo, solicita-se uma revisão de preços de três produtos e ainda quantifica-se a diferença de preço com os concorrentes, o que não só denotaria uma total falta de polidez, mas também de ética, já que no departamento de compras de qualquer empresa esses dados expostos por escrito são sigilosos. Como se observa, a carta anterior apresenta uma postura de imposição e de ameaça ao fornecedor. Vê-se que nem sempre as pessoas/empresas estariam dispostas a observar as necessidades da imagem do destinatário, colocando as necessidades da própria imagem em primeiro plano. No entanto, as culturas geralmente possuem códigos de conduta que prescrevem como as pessoas devem se comunicar durante uma conversa ou enviando uma correspondência. Por exemplo, acredita-se que a utilização de polidez numa carta de reclamação, com o uso das estratégias linguísticas adequadas, pode amenizar a situação, melhorando a comunicação e aumentando as chances de se obter resultados positivos. A partir do exposto, pode-se inferir que o equilíbrio no uso da polidez linguística é um importante aliado para a persuasão, habilidade que, sem dúvida, é bastante importante para a atuação do profissional de Secretariado, sobretudo no que se refere à redação de documentos comerciais. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS No que se refere ao profissional de Secretariado Executivo, considera-se que o uso adequado das fórmulas de polidez constitui uma ferramenta fundamental para o relacionamento interpessoal, interempresarial e até internacional. Isso porque poderão contribuir para uma maior eficácia na elaboração de escritos comerciais, sobretudo cartas. Como se buscou demonstrar ao longo deste artigo, além do uso adequado daquelas fórmulas de polidez já cristalizadas na língua e das formas de tratamento respeitosas, há uma série de construções linguísticas que podem expressar diferentes graus de polidez, proporcionando uma comunicação mais eficaz e positiva dentro do âmbito empresarial. Além disso, considera-se que a polidez é uma ferramenta muito importante quando se trata de enviar uma carta de reclamação a outra empresa, funcionando como amenizadora da situação, ao mesmo tempo em que é persuasiva, procurando sempre um acordo entre as partes. No entanto, consultando-se manuais/livros em língua espanhola, assim como em língua portuguesa, percebeu-se que alguns possuem conceitos definidos sobre a “polidez”/”cortesia”, enquanto outros simplesmente mencionam a palavra cortesia, porém sem um conceito Revista Expectativa – Unioeste ISSN: 1676-045X (V.I.) – 1982-3029 (V.E.) Vol. XI nº 11 Jan-Dez/2012 158 explícito sobre esse assunto, como é o caso do “Livro Azul da Secretária Moderna” e “Secretária Executiva”, que são uma referência de consulta para o profissional de Secretariado. No que se refere à Teoria de Brown e Levinson (1987), a partir dos exemplos mencionados acima, percebeu-se que as escolhas linguísticas podem refletir a consideração (ou não) com as necessidades das imagens positiva e negativa do destinatário e, por vezes, do próprio remetente. Avalia-se que esta perspectiva traz uma importante contribuição à atividade de redação comercial, pois evidencia que a expressão da polidez verbal vai além das simples fórmulas de polidez/cortesia ou formas de tratamento que indicam deferência. REFERÊNCIAS ÁLVAREZ, Miriam: Tipos de escrito III: Epistolar, administrativo y jurídico. Madrid: Arco Libros, 1995. BARROS, Enéas Martins de. Cartas comerciais e redação oficial. São Paulo: Atlas, 1983. BLIKSTEIN, Izidoro. Técnicas de comunicação escrita. São Paulo: Ática, 1985. BROWN, Penelope.; LEVINSON, Stephen. Politeness: some universals in language usage. Cambridge University. 1987. DIAS, L. S. 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