UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
“JÚLIO DE MESQUITA FILHO”
INSTITUTO DE BIOCIÊNCIAS - RIO CLARO
ECOLOGIA
RAFAELA APARECIDA DA SILVA
LEVANTAMENTO SÓCIO-AMBIENTAL DO
ACAMPAMENTO ELISABETE TEIXEIRA,
LIMEIRA/SP: SUBSÍDIO AO INCENTIVO DE
PRÁTICAS AGROECOLÓGICAS
Rio Claro
2008
RAFAELA APARECIDA DA SILVA
LEVANTAMENTO SÓCIO-AMBIENTAL DO ACAMPAMENTO
ELISABETE TEIXEIRA, LIMEIRA/SP: SUBSÍDIOS AO INCENTIVO
DE PRÁTICAS AGROECOLÓGICAS
Orientador: BERNADETE AP. C. C. OLIVEIRA
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado
ao Instituto de Biociências da Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” Câmpus de Rio Claro, para obtenção do grau
de Ecólogo.
Rio Claro
2008
630
S586L
Silva, Rafaela Aparecida da
Levantamento sócio-ambiental do acampamento
Elisabete Teixeira, Limeira – SP / Rafaela Aparecida da
Silva. – Rio Claro: [s.n.], 2008
104 f. : il., figs., tabs.
Trabalho de conclusão (Ecologia) – Universidade
Estadual Paulista, Instituto de Biociências de Rio Claro
Orientador: Bernadete Aparecida C.C. Oliveira
1. Agricultura. 2. Agroecologia. 3. Assentamento e
acampamento rural. 4. Conhecimento local. 5. Preservação
da natureza. I. Título.
Ficha Catalográfica elaborada pela STATI - Biblioteca da UNESP
Campus de Rio Claro/SP
AGRADECIMENTOS
Em primeiro lugar, gostaria de agradecer à professora Bernadete Castro pela sua
orientação neste trabalho. Mais do que isso, agradecê-la pela amizade, conselhos, incentivos,
oportunidades e cafés durante todo este tempo em que trabalhamos juntas. Ela sempre foi
paciente e sempre esteve disposta a me ajudar. Bernadete, muito obrigado de coração! E que o
trabalho não pare por aqui...
Sou eternamente grata também à professora Dalva Bonotto, que foi minha primeira
orientadora na universidade. Dalva, você foi essencial à minha formação como ecóloga.
Porém, nada disso estaria acontecendo se não fosse pelos meus pais. Foram eles que
sempre me apoiaram e incentivaram durante toda a graduação, tornando este sonho possível.
Agradeço também a minha irmã, que é a IRMÃ e a Aninha, que é a SOBRINHA.
Agradeço à turma de 2004. Meu, vocês foram incríveis, e vou levá-los pela vida. Por isso
que eu digo: “vamo lá, vamo lá, vamo lá galera vamo lá. Força, coragem e fé!!!!” e logicamente:
“1, 2, 3, quaaaaaaaatro, 4, 4, 4, 4...2004!”
Meus queridos amigos, obrigado por existirem: But (Príncipe!), Julia (Julião), Claudia,
Jana, Mari (Japa), Pacífico, Yuri, Sayuri, Lika, Pavão, Savana, Monique, Maria Alice, Juliana,
Natália (Ingrates), Soraya, Chewbaquinha, Hélio Hermínio, EEEEEElson, Nativo, Marina, Pablo,
Déa, Pituxa, Zeca, Capote, Ivo, Meire, Dedê, e todos os outros que eu não coloquei o nome. Com
vocês, a UNESP é muito mais legal!
E como poderia ficar sem falar do Fórum:
Jane, a amiga mais louca que já tive nesta vida e acho que em outras também, te adoro
menina!
Manu, a carioca que já está falando o rioclarense melhor do que eu, você sabe que mesmo
a gente não pensando igual em quase nada, eu adoro você!
Thaís, a minha irmã gêmea (segundo alguns loucos), você é muito especial, gosto de você
para mais de metro, até porque você é uma das únicas que acredita nos meus dotes como goleira.
Carla, a mais centrada das 7, no entanto, tão louca quanto, mas com o agravante de
transmitir muita segurança. E é amiga, e não é pouco não, é muito!
Carol RA, filha minha, sem palavras para falar de você, amiga de danças esquisitas, a
minha co-orientadora não oficial, e amiga para toda a hora, e o melhor: besta como eu, no melhor
sentido da palavra.
Limps, (Letícia), eu sempre pude contar com você. Até quando estava na Alemanha!
Você sabe, eu adoro a sua pessoa, porque além de minha amiga do coração, é a mamis que você
escolheu para mim. E já está sabendo, filho a gente nunca abandona. Meninas vocês são para
sempre!!!!!!!!!!!
Faço também um agradecimento a uma pessoa que foi muito importante para a conclusão
deste trabalho, dando força nos momentos em que eu achava que nada iria dar certo, que me
mandava parar de enrolar e me concentrar e também pelas correções, que não foram poucas:
Helena, muito obrigada! Você tem me dado muita força. Ah, você sabe...Valeu mesmo!
Pessoas que me ajudaram nas entrevistas, agradeço muito a vocês. Não só pela ajuda,
mas, principalmente, por serem meus amigos: Caramelo, Frei, Biz, Issa, Say, Natasha, Xena,
Tertúlio, Beraba... Gente, sem vocês eu nunca teria feito esse TCC em um ano, talvez em dez,
vinte, mas em um jamais!!!!
Além destas pessoas, tiveram outras três que, na verdade, nem sei como expressar a
importância que tiveram nesse trabalho: Marina (Japa), mas que para mim é a Rédea, Thaisão,
minha seguidora (até parece!) e Baiano. Vocês foram muito importantes e tiveram participação
essencial, especial, inenarrável!!!! Em todo o processo, gente, eu estou falando da graduação
toda. Para vocês o meu muito obrigado e aquele abraço!
Agradeço também a Bete, do Deplan, que sempre está disposta a ajudar a todos os
desesperados.
E por fim, agradeço a todos os acampados do Acampamento Elisabete Teixeira, sem o
apoio e a colaboração de vocês esse projeto seria inviável. Espero, realmente, que nosso trabalho
não se limite a esse TCC! Vocês foram os personagens principais disso tudo.
SUMÁRIO
Página
RESUMO....................................................................................................................................6
1. INTRODUÇÃO..................................................................................................................... 7
1.1. Agricultura convencional ou moderna............................................................................7
1.2. Agroecologia ................................................................................................................11
1.3. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) .......................................13
1.4. O Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) .....................................................15
1.5. Experiências do MST com a agroecologia ..................................................................17
2. OBJETIVOS........................................................................................................................ 18
3. MATERIAIS E MÉTODOS................................................................................................ 19
3.1. Área de Estudo............................................................................................................ 19
3.2. Acampamento Elisabete Teixeira................................................................................ 20
3.3. Levantamento Sócio-Ambiental.................................................................................. 23
3.4. Público alvo................................................................................................................. 25
4. RESULTADOS OBTIDOS................................................................................................. 26
4.1. Caracterização dos sujeitos da pesquisa e dos moradores do Elisabete Teixeira........ 26
4.2. O sustento atual........................................................................................................... 34
4.3. Problemas.................................................................................................................... 35
4.4. Vantagens e/ou facilidades.......................................................................................... 38
4.5. Culturas e criações....................................................................................................... 39
4.6. O sustento e a propriedade no futuro.......................................................................... 43
4.7. Agroecologia e agricultura.......................................................................................... 46
4.8. Natureza e meio ambiente........................................................................................... 47
4.9. “Lixão”: o aterro sanitário de Limeira......................................................................... 56
4.10. Solos...........................................................................................................................57
4.11. Pragas e Doenças....................................................................................................... 62
4.12. Agrotóxicos ...............................................................................................................63
4.13. Algumas práticas agroecológicas ..............................................................................63
4.14. Sonho ........................................................................................................................67
5. OFICINAS REALIZADAS NO ACAMPAMENTO ELISABETE TEIXEIRA ................68
5.1. A mulher na zona rural ...............................................................................................72
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ...............................................................................................74
7. REFERÊNCIAS ...................................................................................................................76
8. ANEXOS............................................................................................................................ 81
8.1 Anexo A - Roteiro das entrevistas........................................................................... 82
8.2. Anexo B - Cartilha da Oficina 1: Agricultura e Meio Ambiente............................ 94
8.3. Anexo C - Cartilha da Oficina 3: Solos .................................................................100
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RESUMO
Esta pesquisa teve como objetivo o levantamento sócio-ambiental dos moradores do
Acampamento Elisabete Teixeira, localizado no município de Limeira (SP), identificando a
trajetória de vida, as relações com a terra e com o meio ambiente, as pretensões futuras, entre
outros aspectos. Através dos dados obtidos foi possível elaborar oficinas que subsidiaram o
incentivo às práticas da agroecologia, valorizando o conhecimento local e a preservação
ambiental. Também foram elaboradas cartilhas com a intenção de difundir, entre os
acampados, os conhecimentos e os temas abordados nas oficinas. As metodologias utilizadas
foram a pesquisa-ação participativa e entrevistas semi-estruturadas. Os resultados deste
trabalho mostram que os acampados têm sua origem relacionada ao campo e que antes da
vinda para o acampamento residiam em municípios vizinhos à cidade de Limeira. No
Elisabete Teixeira as atividades prioritárias estão relacionadas à produção e à criação agrícola,
com o intuito da soberania alimentar da família. Com relação aos desejos futuros, o maior
deles é a conquista da terra, para a produção e a reprodução familiar. Esta pesquisa também
apontou um fato importante durante as oficinas, a participação efetiva das mulheres no
acampamento. Nas oficinas também houve um reconhecimento por parte destas mulheres com
relação aos seus conhecimentos e práticas na agricultura e no meio ambiente. Esta pesquisa
apontou a importância de se investigar os saberes e práticas camponesas, atrelando-os aos
conhecimentos científicos advindos dos estudos e pesquisas acadêmicas, e abriu
possibilidades para a construção de novas propostas de trabalhos entre acampados e
pesquisadores no sentido da consolidação da reforma agrária.
Palavras-chave: agroecologia, assentamento e acampamento rural, conhecimento local,
preservação da natureza.
7
1. INTRODUÇÃO
1.1. Agricultura convencional ou moderna
A partir do século XIX a lógica existente em cultivar respeitando as leis da natureza
foi deixada de lado em virtude da disseminação dos conhecimentos da química agrícola.
Começou-se a pensar, portanto, que a agricultura moderna seria necessária e que a prática de
algumas ações conservacionistas poderia contornar o impacto negativo que ela causaria na
natureza (ASSIS, 2005).
Esse autor afirma que houve um evidente aumento na produção de alimentos e na
disponibilidade desses por habitante entre os anos de 1950 e 1984. Porém, a partir daí
observou-se um declínio na produtividade agrícola mundial, com o agravante da ocorrência de
problemas ambientais.
No Brasil, esta agricultura moderna ou convencional acarretou o surgimento e/ou o
agravamento de diversos problemas, principalmente de ordem social e ambiental. À medida
que tais questões ganharam importância, foram percebidas em toda sua extensão.
As estratégias da agricultura convencional, segundo Altieri (2001), são limitantes em
sua capacidade de promover um desenvolvimento sustentável. Por isso, não são capazes de
atingir os mais pobres e nem de resolver problemas de fome, desnutrição e as questões
ambientais.
O modelo agrícola convencional visa o lucro e a produção máxima, não se importando
com suas conseqüências a médio e longo prazo e desconsiderando a dinâmica ecológica dos
agroecossistemas. Para atingir seus objetivos, utiliza práticas que contribuem com a perda da
biodiversidade, tornando o ambiente mais susceptível ao ataque de pragas. Acarretando um
uso mais intenso de fertilizantes e outras formas de energia externa. Constitui-se assim um
“ciclo vicioso”, já que os agricultores tentam remediar os problemas causados, sem perceber
que cada vez mais ficam dependentes destes produtos (FERNADES, RIBEIRO e AGUIARMENEZES, 2005; FORNARI, 2002).
Dentre as práticas convencionais, merecem destaque:
8
Cultivo intensivo do solo
Prática que permite uma melhor drenagem do solo, com crescimento rápido das raízes
que facilitam a aeração e a semeadura, além de controlar as ervas adventícias.
Quando o cultivo intensivo é combinado com rotações de curta duração, as regiões
aradas ou cultivadas diversas vezes no ano podem ficar longos períodos sem cobertura.
Ocorre então um comprometimento da fertilidade do solo, devido à perda de matéria orgânica.
O uso constante de máquinas pesadas acelera a compactação do solo, aumentando a erosão
(GLIESSMAN, 2005).
Monocultura
Permite ao agricultor plantar a mesma cultura em escalas muito extensas, obtendo
economia na compra de sementes, fertilizantes e equipamentos, além de favorecer o uso de
máquinas para preparar o solo. O agricultor gasta menos com mão-de-obra, permitindo um
maior investimento em tecnologias que potencializem a produção. Por existir apenas uma
cultura, a área torna-se mais suscetível aos ataques de pragas e doenças específicas, o que
incentiva o uso de agrotóxicos (GLIESSMAN, 2005).
Fertilizantes Sintéticos:
A aplicação destes produtos supre as necessidades nutricionais das plantas em curto
prazo, já que seus componentes minerais são lixiviados com certa facilidade. Desta forma, os
agricultores desconsideram a fertilidade do solo e os processos que o mantém (GLIESSMAN,
2005). Quando a plantação é irrigada, o problema torna-se mais grave, pois os componentes
minerais destes fertilizantes podem atingir os corpos d’água (causando a eutrofização) e
chegar ao lençol freático.
Irrigação:
Quando a quantidade de água disponível é insuficiente para o desenvolvimento
máximo da planta, a irrigação é recomendada. A utilização de um sistema de irrigação
permite uma produção regular durante o ano, evitando problemas com a sazonalidade das
chuvas. Com isso, além da maior garantia de safra, a produtividade da planta aproxima-se de
seu máximo potencial e ainda há a melhoria na qualidade dos produtos colhidos (ROQUE,
2007).
9
Ainda segundo esse autor, os diversos projetos de irrigação não apresentam
planejamento apropriado e, depois de implantados, são conduzidos sem a devida preocupação
com o manejo e com as operações adequadas, acarretando numa baixa eficiência, que
compromete a expectativa de aumento da produtividade.
Assim, se realizada de forma errada, a irrigação, como já explicitado anteriormente,
contribui com a lixiviação de fertilizantes da lavoura para os corpos d’água, além de aumentar
a taxa de erosão do solo.
Também é prejudicial ao se utilizar água subterrânea, já que quando retirada em
quantidade maior do que reposta pela chuva, o nível do lençol freático diminui.
Conforme Gliessman (2005), a agricultura é uma das maiores consumidoras de água
do mundo. Tal fato deve-se ao desperdício, já que grande parte da água utilizada não é
absorvida pelas plantas. Em locais com irrigação intensa, há mudanças na hidrografia e no
microclima, prejudicando a vida animal.
Uso de agrotóxicos para o controle de pragas e de ervas adventícias:
Os agrotóxicos podem baixar a população de pragas que atacam uma lavoura, matando
também os predadores naturais dessas. No entanto, as pragas que sobrevivem podem
recuperar-se e chegar a uma população maior e mais resistente à anterior, obrigando o
agricultor a fazer uso mais intenso do produto em questão.
Segundo Gliessman (2005), quando aplicados na plantação, os agrotóxicos são lavados
e lixiviados para a água superficial e subterrânea. Entram na cadeia alimentar afetando os
animais em todos os níveis tróficos, podendo persistir por décadas.
O uso do agrotóxico mantém o desequilíbrio - seja ele causado pelo metabolismo das
plantas, pela constituição físico-química e biológica do solo ou pelas cadeias tróficas - que
originou o ataque destes organismos. Portanto, mantendo a causa, os efeitos prejudiciais
voltarão, exigindo aumento na freqüência e na dose aplicada (FERNANDES, RIBEIRO e
AGUIAR-MENEZES, 2005).
Manipulação de genomas de plantas:
A manipulação de genomas de plantas gerou sementes híbridas mais produtivas do que
suas variedades semelhantes não híbridas. As variedades híbridas são mais exigentes para seu
sucesso reprodutivo, necessitando de intensa aplicação de fertilizantes inorgânicos. Em
contrapartida, são menos resistentes e exigem maior quantidade de agrotóxicos para protegê-
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las de pragas, além de não produzirem sementes com o mesmo genoma que as plantas que lhe
deram origem, fazendo com que os agricultores dependam de produtos comerciais
(GLIESSMAN, 2005).
Impacto na biodiversidade
Pode-se constatar que a biodiversidade não foi e não é levada em conta em nenhum
aspecto no processo produtivo convencional, sendo ignorados também seus aspectos positivos
na agricultura.
Altieri (2002) afirma que deve-se manter e aumentar a biodiversidade nos
agroecossistemas, pois ela desempenha importantes funções ecológicas, como: reciclagem de
nutrientes; controle microclimático; controle de processos hidrológicos e da população de
organismos indesejáveis.
De acordo com esse autor, a biodiversidade é importante nos limites entre as áreas
cultivadas, pois possibilita hábitat favorável e alimento à fauna e aos insetos benéficos, além
de modificar a velocidade do vento e o microclima local.
Impacto nas relações sociais
A desigualdade social também se intensifica neste modelo de produção agrícola, pois
os benefícios não são distribuídos igualmente. Os agricultores de subsistência são deslocados
pelos grandes produtores de exportação para terras marginais, resultando em desmatamento,
erosão e danos sociais e ecológicos severos.
De acordo com Gliessman (2005), este sistema de agricultura também é responsável
pelo aumento das relações de dependência aos países desenvolvidos. A mão-de-obra humana
é trocada por máquinas, levando a população rural para as cidades. Desta forma, a população
que antes era capaz de produzir o próprio alimento e ainda vender algum excedente para a
população urbana, torna-se dependente de outras fontes de alimentação. E, para suprir as
necessidades da crescente população urbana, aumentam as importações de produtos,
principalmente de países desenvolvidos.
A solução seria o emprego de uma agricultura sustentável que utilizasse práticas
agrícolas baseadas nos processos ecológicos (nas áreas produtivas e ao seu redor), gerando
lucro e produtividade suficientes para suprir as necessidades dos agricultores (GLIESSMAN,
2005).
11
1.2. Agroecologia
Segundo Gliessman (2005), uma agricultura sustentável é aquela que tem menores
efeitos negativos no ambiente; preserva e recompõe a fertilidade do solo (prevenindo-o da
erosão e mantendo suas características ecológicas); conserva a biodiversidade e dependa dos
recursos internos dos agroecossistemas. Dessa forma, é garantida a igualdade de acesso às
práticas, conhecimentos e tecnologias agrícolas adequadas, que possibilitam o controle local
dos recursos agrícolas.
Ainda segundo esse autor, estes aspectos podem ser encontrados na
agroecologia que é a aplicação de conceitos e princípios ecológicos no desenho e
manejo de agroecossistemas sustentáveis.
A agroecologia proporciona o
conhecimento e metodologia, necessários para desenvolver uma agricultura que é
ambientalmente consistente, altamente produtiva e economicamente viável (...), ela
valoriza o conhecimento local e empírico dos agricultores, a socialização desse
conhecimento e sua aplicação ao objetivo comum da sustentabilidade (pág. 54).
Para Altieri (2002), os modelos de agricultura sustentável devem combinar elementos
da agricultura tradicional com o conhecimento científico moderno. É necessário, também, o
reconhecimento dos governos de que o conhecimento da população rural é o principal
recurso. Esta agricultura deve contribuir com o desenvolvimento rural e com a igualdade
social, sendo seu objetivo principal a estabilidade de produção em longo prazo.
Conforme Altieri (2001), a agroecologia incentiva os pesquisadores a conhecer as
técnicas dos agricultores e a desenvolver agroecossistemas com a mínima dependência de
insumos externos. Ela trabalha com as interações entre os componentes biológicos para
aumentar a fertilidade do solo e sua produtividade, além da proteção das culturas.
No entanto, “as complicações sociais e os preconceitos políticos mais do que os de
ordem técnica, são as principais barreiras na transição para sistemas agrícolas de baixo
consumo de energia e uso intensivo da mão-de-obra” (ALTIERI, 2002).
Um dos obstáculos que pode ser encontrado para a prática agroecológica é que as
grandes empresas agrícolas não têm interesse em tecnologias que preservem o meio ambiente
e não lhes retornem o lucro estimado após os altos investimentos nas atuais tecnologias.
Outros fatores, apontados por Altieri (2002), que agravam este quadro são que as
técnicas sustentáveis devem ser específicas para cada local. Durante a fase de transição, a
produção e a qualidade do produto podem variar e gerar irregularidades na colheita, inibindo
12
os investimentos, comprometendo os lucros dos produtores e suas relações com os
atacadistas.
Importância da população rural
Altieri (2001) afirma que o conhecimento de grupos locais com relação ao meio
ambiente pode ser bastante detalhado, resultando na criação de estratégias produtivas de uso
da terra e, dentro de alguns limites ecológicos e técnicos, na auto-suficiência alimentar das
comunidades locais.
Agroecologia e saber local são propostas de vários movimentos sociais no campo,
como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), o Movimento dos Pequenos
Agricultores (MPA) e a Via Campesina.
Numa agroecologia participativa, os objetivos econômicos, sociais e ambientais
devem ser definidos pela comunidade rural local e implementados às tecnologias de baixo uso
de insumos externos, para que haja o crescimento econômico, a igualdade social e a
preservação ambiental (ALTIERI, 2001).
Uma característica dos plantios realizados por agricultores tradicionais é a grande
diversidade de culturas, o uso de sistemas agroflorestais (SAF’s) e a prática de rotação de
culturas. Esses produtores utilizam seus conhecimentos e os recursos disponíveis para obter
uma colheita farta e diversificada e para não correr o risco de perder todo o plantio devido ao
ataque de pragas. É uma atividade que exige tecnologia e gasto mínimo, além de garantir uma
boa qualidade do solo. Para manter esta diversidade, também realizam trocas de sementes
com outros produtores.
De forma geral, Altieri (2001) aponta quatro aspectos dos sistemas tradicionais
relevantes para a agroecologia: os conhecimentos sobre o meio ambiente local; o nome
tradicional de determinada espécie (pode apontar sua importância ou função naquela
comunidade); a natureza experimental do conhecimento tradicional (que não é resultado
apenas de observações) e o conhecimento de práticas agrícolas.
Policultivo na agroecologia
O policultivo contribui com a saúde do solo. A tendência de algumas culturas em
gastar todo o nutriente por ele oferecido é compensada pelo cultivo intercalado com outras
espécies, o que o enriquece com matéria orgânica e garante uma produção regular e variada.
Esta diversidade também pode reduzir a disseminação de pragas e modificar as
13
condições ambientais, como temperatura e luminosidade. Dessa forma, torna-as menos
favoráveis à proliferação de doenças. O rendimento por hectare é mais alto em policultivos do
que em monocultivos, mesmo se a produção individual de cada um dos componentes for
reduzida.
O consórcio entre leguminosas e outras espécies contribui para a preservação da
fertilidade do solo, já que o nitrogênio contido nas leguminosas incrementa o existente no
solo. O consórcio de diferentes espécies cria habitats para os inimigos naturais de pragas e
patógenos. Há também a manutenção das relações ecológicas entre os seres vivos da lavoura,
em virtude da diversidade de funções ecológicas (ALTIERI, 2001; FERNANDES, RIBEIRO
e AGUIAR-MENEZES, 2005).
Segundo Altieri (2001), o policultivo minimiza a sobreposição de nichos entre as
espécies associadas, diminuindo a competição por recursos.
1.3. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
A agricultura convencional favorece principalmente os grandes latifundiários, que
monopolizam a produção e concentram a terra. No caso da estrutura fundiária brasileira,
herdada do regime de capitanias/sesmarias e pouco alterada durante esses anos, a
concentração de terras nas mãos de poucos foi intensificada (OLIVEIRA, 1994).
Esse fato deu origem aos movimentos sociais que buscam a reforma agrária, que de
acordo com Bittencourt (1998), visa “além da distribuição da terra, necessariamente o acesso
a políticas de infra-estrutura básicas e agrícolas, que permitam a implantação de um sistema
produtivo viável, e o acesso a benefícios sociais, que promovam a justiça social e a
cidadania”.
Na luta pela reforma agrária surgiu o MST, que atualmente age em diversos estados
brasileiros. Para atingir seu objetivo, enfrenta problemas relacionados ao interesse de grandes
proprietários e a sua imagem perante a sociedade (questão existente devido ao favorecimento
ocasional dado aos latifundiários pelos meios de comunicação).
O MST é a principal forma de organização social na luta pela terra e pela reforma
agrária no país (FERNANDES, 1996).
Segundo esse autor, a propriedade da terra é uma relação social que envolve trocas,
conflitos e movimentos. Caracterizada por processos desiguais e conflitantes, já que em
14
contrapartida à dominação, expropriação e exploração realizada pelos latifundiários, há
subordinação, resistência e libertação por parte dos trabalhadores rurais.
A luta pela reforma agrária não visa apenas à distribuição de terras. Envolve a
construção de organizações sociais, que possibilitam a conquista da terra, a propriedade
coletiva dos meios de produção e o desenvolvimento de novas experiências (FERNANDES,
1996).
O surgimento dos movimentos sociais no Brasil
Durante os governos militares pós-64, houve o incentivo do desenvolvimento
capitalista no campo. As condições necessárias para uma política agrária que favorecesse
grandes empresas através de incentivos financeiros foram criadas.
Segundo Fernandes (1996), a política agrária da ditadura possuía um projeto de
reforma agrária que se transformou no Estatuto da Terra. O Estado manteve a questão agrária
sob o controle do poder central, e o Estatuto impediu o acesso à terra aos camponeses, sendo
ele estratégico para o controle das lutas sociais.
Em 1970, o governo militar criou o Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (INCRA), fortalecendo grandes grupos econômicos. Iniciaram, também, as
campanhas do Projeto Rondon, no qual a sociedade foi fortemente influenciada pelos meios
de comunicação em massa, que escondiam em suas propagandas a verdadeira intenção do
governo de não interferir no processo de aquisição de terras por estrangeiros e ainda
incentivá-la através da política dos projetos agropecuários (FERNANDES, 1996).
Os governos ditatoriais reprimiram as lutas pela terra. Assim, o governo militar
realizou sua política agrária promovendo a modernização técnica no campo, sem alterar a
estrutura fundiária.
De acordo com Fernandes (1996), no início dos anos 70, os trabalhadores
encontravam-se nas Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s) para se organizar na luta contra
as injustiças e por seus direitos. Mesmo tendo apoiado o golpe de 64, a Igreja mudou de
posição, e o envolvimento de alguns sacerdotes com a realidade dos trabalhadores (assim
como o surgimento das CEB’s como lugar de reflexão), modificou as relações políticas em
diversas localidades. As CEB’s tornaram-se um espaço de socialização política, onde as
famílias reuniam-se para se conhecerem e pensar sobre o seu papel na sociedade.
O crescimento da luta e da organização dos trabalhadores rurais era notado em todo o
país. As várias ocupações de terra realizadas resultaram na fundação do MST, em 1984, na
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cidade de Cascavel, no Paraná. Como objetivos principais: o combate a todas as formas de
discriminação social e a busca pela participação igualitária da mulher.
De acordo com Fernandes (1996, p. 121),
a presença da família, durante toda a luta, possibilitava a criação de novas e ricas
experiências, especialmente pelo grau de união e de integração da luta, por meio da
criação de comissões na organização do acampamento, além da participação das
mulheres como lideranças, fortalecendo o movimento.
Os movimentos sociais no Estado de São Paulo
Entre 1970 e 1980, a política econômica provocou mudanças no campo paulista.
Houve um aumento na taxa de êxodo rural, diminuição do trabalho familiar e crescimento do
trabalho assalariado. O aumento do número de posseiros, nos anos 80, relacionou-se ao
avanço da luta pela terra e ao crescimento do número de ocupações.
Nesse período, as conquistas aconteceram em terras públicas, já que o governo
instalou assentamentos rurais em terras do Estado. A maior parte das conquistas resultou da
organização dos movimentos sociais, que ocuparam diversas áreas, obrigando os governantes
a regularizar suas situações. Em São Paulo pode-se observar uma grande diversidade nas
políticas fundiárias, que originaram os assentamentos rurais devido a uma conflituosa origem
política (BERGAMASCO e NORDER, 1999).
A gênese do MST em São Paulo está registrada na luta dos posseiros da Fazenda
Primavera contra a expropriação e a exploração. São características básicas das lutas que
contribuíram para a formação do MST no estado: a superação das relações de dependência e a
conquista de um espaço próprio.
1.4. O Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS)
O PDS é uma modalidade de projeto de assentamento de interesse sócio-econômicoambiental destinado às populações que desenvolvem ou estejam dispostas a desenvolver
atividades de baixo impacto ambiental, baseando-se na aptidão da área (INSTITUTO
NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA, 2008).
Nesta modalidade, o assentamento, segundo Goldfarb (2007), é constituído por
pessoas que viveram muitos anos em grandes centros urbanos (ou nas cidades vizinhas), não
possuindo um passado recente ligado a terra. Além de ser implantado em áreas próximas aos
grandes centros urbanos, utiliza a agroecologia e a cooperação como diretrizes na produção.
16
No PDS, a propriedade permanece sempre com a União, não sendo permitida a sua
divisão em títulos individuais. Os beneficiários garantem o direito de acesso a terra através da
Concessão de Direito Real de Uso, a qual é sempre firmada de forma coletiva (INSTITUTO
NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA, 2008; GOLDFARB, 2007).
Há também um termo de compromisso ambiental característico para cada PDS. De
acordo com seu Plano de Utilização (PU), são estabelecidas as obrigações do assentado
relativas ao meio ambiente.
De acordo com Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (2008), esta
modalidade é planejada através de um processo participativo entre INCRA, assentados e
outros parceiros. Os assentados discutem e planejam suas necessidades e prioridades com o
apoio e consentimento dos parceiros. Assim, o assentamento não é apenas uma unidade
produtiva, mas também um espaço onde é possível unificar as práticas agrícolas ao
desenvolvimento social e econômico das famílias, visando também à preservação da natureza.
Ainda segundo este autor, o PU é o documento definidor dos rumos do
desenvolvimento do PDS, e aborda e define diferentes aspectos, como os prazos e o processo
de transição agroecológica na produção do assentamento. Nesse documento serão igualmente
estabelecidas as áreas de uso, coletivas e individuais, a serem aprovadas pela comunidade e
parceiros.
Com relação à legislação, há um contrato de concessão real de uso que será renovado a
cada 5 anos, para garantir o cumprimento das atividades previstas no PU; e um termo de
compromisso ambiental, assinado pelo coletivo das famílias, responsabilizando-o pelo
gerenciamento da área total do PDS (INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E
REFORMA AGRÁRIA, 2008).
Os lotes dos assentamentos do PDS geralmente são menores do que os dos
assentamentos convencionais. De acordo com Goldfarb (2007), isso ocorre devido a dois
fatores: O primeiro estipula o recebimento das parcelas de uso individual e coletivo pelas
famílias; e o segundo, que as áreas serão reduzidas, devido à proximidade dos grandes centros
urbanos. Entretanto, esse fato favorece o trabalho com hortifrutigranjeiros, o que permite uma
maior agregação de valor aos produtos, compensando a menor área explorada.
17
1.5. Experiências do MST com a agroecologia
O MST participa ativamente de encontros que abordam a reforma agrária, a
agroecologia e a soberania alimentar dos povos. Para alcançar essa última, acredita-se ser
necessário realizar a reforma agrária, ter acesso a produtos saudáveis (livres de produtos
químicos), sendo fundamental a implementação da agroecologia. (STEFANO, 2007).
Além disso, estimula a participação dos assentados nos Encontros Nacionais de
Agroecologia e das crianças em eventos que a promovam (MST, 2006).
Através desse envolvimento, os assentados notaram a importância das trocas de
experiências e o sucesso daqueles que optaram pela produção orgânica (sem agrotóxicos).
Além das plenárias, oficinas temáticas e seminários, os participantes organizam a
Feira de Saberes e Sabores, onde podem expor a produção realizada por meio de técnicas
agrícolas sem o uso de agrotóxicos e organismos geneticamente modificados (MST, 2007).
Além dos incentivos do próprio movimento, os agricultores contam com a ajuda de
instituições para a realização das práticas agroecológicas. A Embrapa, por exemplo, realiza
treinamentos, capacitações e técnicas a fim de desenvolver plantas especiais para a agricultura
familiar em assentamentos (EMBRAPA, 2005; EMBRAPA, 2006) e através do Projeto
Embrapa Arroz e Feijão (FEIJÕES, 2002); O Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) auxilia
com o Projeto Café com Floresta (O PROJETO, 2007).
18
2. OBJETIVOS
Este trabalho tem como objetivos:
•
Levantamento sócio-ambiental dos acampados, identificando a trajetória de vida,
relações com a terra, com o meio ambiente, pretensões futuras, entre outros
aspectos;
•
Elaboração de oficinas, através da análise dos dados, que subsidiem o incentivo às
práticas da agroecologia, valorizando o conhecimento local e a preservação
ambiental;
•
Elaboração de cartilha, com a intenção de difundir, entre os acampados, os
conhecimentos e os temas abordados nas oficinas.
19
3. MATERIAIS E MÉTODOS
3.1. Área de Estudo
No estado de São Paulo há muitos assentamentos e acampamentos liderados pelo
MST. Entre eles está o acampamento Elisabete Teixeira, no município de Limeira, onde o
presente trabalho foi realizado. A área de 602,8676 ha, ocupada desde 21 de abril de 2007,
está localizada no imóvel rural próprio da União, denominado Horto Florestal Tatu.
O acampamento encontra-se no centro-leste do Estado de São Paulo, a 154 km da
capital paulista, entre as coordenadas geográficas 22º27’S e 22º44’S e 47º12’W e 47º30’W. O
município de Limeira faz limites com as cidades de Americana, Piracicaba, Santa Bárbara
D’Oeste, Iracemápolis, Cordeirópolis, Cosmópolis, Araras e Arthur Nogueira (ROSSINI,
2001).
Limeira pertence à região nordeste na Regionalização das Dinâmicas Agropecuárias
do Estado de São Paulo, envolvendo as mesorregiões de Campinas e Piracicaba. É altamente
industrializada, com elevada densidade demográfica, caracterizando uma população com
renda elevada e alto grau de escolaridade. A localização permite o acesso fácil aos mercados
consumidores da região metropolitana de Campinas e de São Paulo, assim como as principais
vias de exportação, seja aérea ou marítima. Isso permite a prática de atividade de alto valor no
mercado, como a produção de orgânicos (INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E
REFORMA AGRÁRIA, 2008).
Ainda segundo esse autor, apesar de ser uma grande região produtora de cana-deaçúcar e laranja, é crescente a diversificação de culturas, principalmente com a fruticultura
(tangerina, limão, uva, manga), olericultura e floricultura.
Destaca-se o cultivo de produtos orgânicos, hortaliças, caqui, uva, jabuticaba, frutas da
mata atlântica (sapoti), leite e produtos processados, como o iogurte orgânico. A produção
orgânica é favorecida pelo clima seco (favorece o cultivo de frutas orgânicas) e pela
proximidade com a capital, o que não encarece o transporte.
20
3.2. Acampamento Elisabete Teixeira
Atualmente, o acampamento conta com aproximadamente 80 famílias e é organizado
em setores (saúde, educação e alimentação), criados de acordo com a necessidade dos
acampados. A coordenação dos setores fica a cargo de um homem e de uma mulher, para que
esta também participe das decisões do acampamento.
A área é cercada por cana-de-açúcar, existindo alguns fragmentos de mata. Há
aproximadamente quatro nascentes no acampamento. A água das nascentes e do córrego é
usada em atividades domésticas e de consumo humano, porém é desconhecida a qualidade da
mesma.
A infra-estrutura das casas é precária (Figura 1). São construídas com lonas,
geralmente da cor preta, e madeira. O uso da lona dificulta a permanência nas casas,
chamadas por eles de “barracos”, pois esquenta demais durante o dia (devido ao sol intenso),
tornando-se muito fria no decorrer da noite. Os barracos de madeira proporcionam um pouco
mais de conforto e geralmente pertencem a acampados que, na cidade, trabalhavam na
construção civil.
Foto: Rafaela Silva, 2008
Figura 1 - Vista da condição dos barracos
O acampamento é dividido em núcleos. Atualmente existem 5 núcleos, compostos no
máximo por 20 casas cada. Entretanto, nem todos possuem o número máximo permitido, pois
no decorrer do processo muitas famílias desistiram e deixaram o Elisabete. Todas as casas são
identificadas pela letra “N” seguida de um número, representando o núcleo ao qual ela
21
pertence; e pela letra “B”, seguida por outro número, que identifica o número do barraco
(Figura 2).
Foto: Bernadete Castro, 2008
Figura 2 – Identificação dos barracos
No Elisabete Teixeira há um barracão, onde são realizadas todas as atividades
relacionadas à vida social dos acampados, como assembléias, reuniões e cursos. Foi
construído em um mutirão, conforme pode ser visto na figura 3.
Foto: Rafaela Silva, 2008
Figura 3 - Mutirão realizado para a construção do barracão
O despejo e a conquista da terra
Os acampados do Elisabete Teixeira ocuparam a área até o dia 29 de novembro de
2007, quando foram expulsos de forma violenta pela Polícia Militar, que cumpria uma ordem
de reintegração de posse da área requerida pelo prefeito municipal de Limeira. A posse da
22
área foi solicitada com base em um "Instrumento Prévio Regulamentador de Intenção de
Venda e Compra", de 22 de março de 2005, entre a Prefeitura Municipal de Limeira e a Rede
Ferroviária Federal S. A. (RFFSA), proprietária do imóvel.
Conforme depoimentos de acampados, durante a ação de despejo algumas pessoas
foram feridas. Muitas famílias perderam todos os móveis, roupas e documentos, soterrados
pelas máquinas da prefeitura, igualmente responsáveis pela destruição dos barracos.
As famílias abrigaram-se em um barracão da Igreja Católica, em Limeira. No dia 11
de dezembro, após estudos sobre o caso e confirmação da não concretização do acordo entre a
Prefeitura de Limeira e a RFFSA, as famílias puderam voltar ao Horto Tatu, já que a área era
realmente da União (GLASS, 2007). No entanto, os acampados viviam com o medo de novo
despejo e com a incerteza da conquista da terra.
No dia 21 de agosto de 2008, foi aprovada a proposta de destinação da área do Horto
Tatu para o assentamento de agricultores, prevendo a criação de 150 propriedades familiares
(PORTARIA, 2008).
Vegetação
Segundo o relatório elaborado pelo INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO
E REFORMA AGRÁRIA (2008), a vegetação da região do acampamento é uma associação
de cerrado com floresta estacional semidecidual e floresta estacional semidecidual.
De acordo com Attanasio, Gandolfi e Rodrigues (2007), as florestas estacionais
semideciduais possuem uma característica marcante: a queda de parte das folhas, resultado de
uma adaptação fisiológica à deficiência hídrica e à queda de temperatura em determinadas
épocas do ano. As árvores são altas (20 a 25 metros) e caracterizadas por madeiras de lei,
como o cedro (Cedrela sp.), cabreúva (Myrocarpus frondosus) e jequitibá (Cariniana sp).
O cerrado, por sua vez, é considerado um complexo de vegetações com fisionomias e
composição florística variáveis, solos com alto teor de elementos tóxicos (alumínio) e menor
disponibilidade de água. As fisionomias vegetais variam de cerradão, caracterizado por
árvores de 10 a 16 metros, como anjico (Anadenanthera falcata), ipê (Tabebuia spp.) e o
jatobá-do-campo (Hymenaea stigonocarpa); até campo limpo, dominado por ervas
graminóides nativas cespitosas e subarbustos, cuja altura pode chegar a pouco mais de 1,5
metro (ATTANASIO, GANDOLFI e RODRIGUES, 2007; RESOLUÇÃO, 1995).
Também há a ocorrência da vegetação de campo úmido, que pode ser natural ou
resultante de interferência humana, em virtude do desmatamento da floresta paludosa. Essa
23
vegetação ocorre em áreas baixas (próximas aos cursos d’água), onde há encharcamento
permanente ou temporário, com o aparecimento somente de arbustos e herbáceas, como
taboas (Typha dominguensis) e capins (ATTANASIO, GANDOLFI e RODRIGUES, 2007).
Recursos Hídricos
O acampamento está inserido na Bacia Hidrográfica do Piracicaba/ Capivari/ Jundiaí
(UGRHI 05), na sub-bacia do Alto Piracicaba. Na porção leste, a propriedade é cortada pelo
Ribeirão Tatu, com nascente no município de Cordeirópolis (INSTITUTO NACIONAL DE
COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA, 2008).
Devido à intensa ocupação, o ribeirão encontra-se bastante poluído, pois é o destino de
rejeitos líquidos domésticos e industriais (ROSSINI, 2001).
3.3. Levantamento Sócio-Ambiental
Foi elaborada uma pesquisa com relação à trajetória de vida dos agricultores. Através
dela pôde-se captar o processo de memória e reflexão crítica do pesquisado sobre suas
vivências ocorridas em condições e conjunturas sociais específicas; valores e expectativas;
ideais de vida; e frustrações e sofrimentos em virtude dos fatos vivenciados pelo assentado
(VIERTLER, 2006). Também foram questionados a respeito de pretensões futuras (em
relação ao que plantar e ao destino da produção) e aspectos que identificassem alguns
conhecimentos e a relação dos acampados com o meio ambiente.
Para o levantamento destas informações de suma importância para a pesquisa foram
realizadas entrevistas semi-estruturadas, já que estas representam um dos instrumentos
básicos para a coleta de dados, dentro da pesquisa que será desenvolvida. Segundo Lüdke e
André (1986, p. 33-34),
(...) A entrevista semi-estruturada se desenrola a partir de um esquema básico,
porém não aplicado rigidamente, permitindo que o entrevistador faça as necessárias
adaptações. (...) Na entrevista a relação que se cria é de interação.(...) O entrevistado
discorre sobre o tema proposto com base nas informações que ele detém e que no
fundo é a verdadeira razão da entrevista. (...) A grande vantagem da entrevista sobre
outras técnicas é que ela permite a captação imediata da informação desejada,
praticamente com qualquer tipo de informante e sobre os mais variados tópicos. (...)
A entrevista semi-estruturada permite correções, esclarecimentos e adaptações que a
tornam sobremaneira eficaz na obtenção das informações desejadas.
24
O roteiro das entrevistas (Anexo A) foi elaborado com base nos trabalhos de Costa
(2004) e Sasaki (2005). Foram realizadas entrevistas piloto, que identificaram a necessidade
de alterações na elaboração das perguntas.
Para a realização desta pesquisa foi necessária uma significativa aproximação entre
pesquisadora e acampados, pois o trabalho foi elaborado de modo participativo e cooperativo
entre as partes. Adotou-se a pesquisa-ação participativa, que, segundo Thiollent (2000)
é um tipo de pesquisa social que é concebida e realizada em estreita associação com
uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e
os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de
modo cooperativo ou participativo
De acordo com Oliveira e Oliveira (1988), o objetivo da pesquisa-ação é a aquisição
de conhecimento e de consciência crítica do processo de transformação pelo grupo que está
vivendo este processo, para que esse assuma seu papel de protagonista e ator social.
Pretendeu-se formar novos conhecimentos através de um conjunto entre os dois lados
(comunidade local e pesquisadora).
Ainda segundo tais autores, o pesquisador deve adotar uma dupla postura: de
observador crítico e de participante ativo. Seu objetivo é colocar as ferramentas científicas de
que se dispõe a serviço do movimento social com o qual se está comprometido. Porém, devese estar atento, pois há uma tensão permanente entre o risco de identificação excessiva. Ele
pode acabar anulando-o como pesquisador, integrando-se ao grupo e saindo do foco do
trabalho; e a necessidade de manter certa distância que possibilite uma reflexão crítica sobre a
experiência que estará vivenciando. Porém, não se pode recuar muito. Caso isso aconteça,
pode-se perder toda a aproximação conquistada, tornando-se apenas um observador não
participante.
De acordo com Fals Borda (1988, p. 43) pesquisa participante é a
pesquisa da ação voltada para as necessidades do indivíduo que responde
especialmente as necessidade de populações que compreendem as classes mais
carentes nas estruturas sociais, levando em conta sua aspirações e potencialidades de
conhecer e agir. É a metodologia que procura incentivar o desenvolvimento
autônomo a partir de bases e uma relativa independência do exterior.
Todos estes procedimentos iniciais foram a base de trabalho para a elaboração de
oficinas que abordaram temas como a importância de se trabalhar a agricultura de forma
conjunta com a natureza, o PDS, solos e outras atividades agroecológicas, assim como
discussões a respeito das vantagens destas práticas agrícolas.
25
Também se utilizou um caderno de anotações para registro de observações pertinentes,
que não apareceram nas entrevistas.
As entrevistas não foram realizadas apenas pela pesquisadora. Houve ajuda e
colaboração de outros estudantes do curso de Ecologia e Geografia da Universidade Estadual
Paulista Júlio de Mesquita Filho, campus de Rio Claro. Essas pessoas seguiram o roteiro com
as questões a serem feitas e foram orientadas pela pesquisadora sobre a forma de se conduzir
as entrevistas.
3.4. Público alvo
Na realização das entrevistas, a pessoa a ser entrevistada não precisava ser,
necessariamente, aquela considerada responsável pelo barraco ou futura titular do lote. O
entrevistado tinha apenas que ser um membro da família e, naquela ocasião, residir no
acampamento Elisabete Teixeira.
Porém, cabe ressaltar que, devido ao período de incertezas quanto à conquista da terra
e algumas ameaças de novos despejos, algumas famílias-alvo dessa pesquisa deixaram o
acampamento. O destino geralmente era outros acampamentos (que significariam maiores
certezas) ou mesmo o abandono do Movimento. Outras famílias também se viram obrigadas a
deixar o acampamento em virtude de problemas referentes às normas internas do
acampamento, não sendo, portanto, relevantes para este trabalho.
26
4. RESULTADOS OBTIDOS
4.1. Caracterização dos sujeitos da pesquisa e dos moradores do Elisabete Teixeira
Foram realizadas 77 entrevistas, sendo que 41 (53,25%) foram com pessoas do sexo
masculino e 36 (46.75%) do sexo feminino. A faixa etária média dos respondentes é de 45
anos. Entre os homens a média foi de 47 anos e entre as mulheres, 43.
Verificou-se quais são os estados e as regiões brasileiras de origem destas pessoas.
Observa-se na tabela 1 que a maior parte dos participantes (38,96%) nasceu no estado de São
Paulo, seguido pelos nascidos em Minas Gerais (20,78%) e Paraná (15,58%). Porém, ao se
analisar as regiões brasileiras (Tabela 2), constata-se que a região sudeste é a origem de
61,07% e a Nordeste de 18,18%. Nesse caso, a região Sul é representada por 16,88%.
Tabela 1- Estado brasileiro de origem dos entrevistados
Nº de
Porcentagem
Estado
Entrevistados
(%)
30
38,96
SP
16
20,78
MG
12
15,58
PR
5
6,49
AL
4
5,19
BA
3
3,90
PE
1
1,30
DF
1
1,30
PI
1
1,30
RJ
1
1,30
SC
1
1,30
SE
2
2,60
Sem resposta
77
100
Total
27
Tabela 2 - Regiões brasileiras de origem dos entrevistados
Região
Sudeste
Nordeste
Sul
Centro Oeste
Sem resposta
Total
Nº de
Entrevistados Porcentagem
47
61,04
14
18,18
13
16,88
1
1,30
2
2,60
77
100
A maior parte dos integrantes do Acampamento Elisabete Teixeira é oriunda de
cidades da região, como Campinas, Limeira, Cosmópolis, Sumaré e Americana. Fato
visualizado na tabela 3.
Tabela 3 - Último município no qual o entrevistado morou antes do acampamento
Município
Campinas
Limeira
Cosmópolis
Sumaré
Americana
Araras
Ribeirão
Preto
Outros
Total
Nº de
Porcentagem
Entrevistados
(%)
21
17
10
7
6
3
27,27
22,08
12,99
9,09
7,79
3,9
2
11
77
2,6
14,29
100
Quando questionados a respeito de como ficaram sabendo do acampamento, alguns
respondentes disseram que freqüentavam as reuniões do escritório regional do MST em
Campinas. Outros afirmaram que vieram para o Elisabete devido a um convite feito por
amigos que também participam da mobilização de ocupação. Os atos e as reuniões que deram
origem à ocupação do Elisabete Teixeira ocorreram, principalmente, nas cidades da região.
Por isso a ocorrência de tantos acampados residentes em tais municípios.
Antes da vinda para o acampamento, as profissões mais exercidas pelos entrevistados,
nestes municípios, eram a de pedreiro e/ou ajudante de pedreiro (19,48%), sendo que dentre
estes uma é mulher, e a de doméstica (14,23%), exercida exclusivamente por mulheres.
Outras profissões citadas foram: dona de casa, metalúrgico, encanador, ajudante de cozinha,
28
lavrador, vendedor, etc. Um acampado afirmou que era assistente administrativo de uma
grande rede de supermercados. Mas, após ter conhecido o movimento e seus ideais, e em
virtude da participação da mãe no MST, ficou desmotivado em continuar a vida que tinha e
decidiu ser militante.
Pode-se inferir através desses dados que, a partir do momento em que esses
acampados forem assentados (detentores de um pedaço de terra), o assentamento, conforme
Bergamasco (1997), será considerado o principal fator de mudança das relações sociais destas
pessoas. Elas terão o controle sobre o tempo de trabalho e a forma de uso da terra.
Anteriormente, por serem empregados, tal controle não era uma atribuição nas suas relações
sociais.
A maior parte dos respondentes (36,36%) possui mais de 30 anos da vida trabalhados
na zona rural. Das 77 pessoas entrevistadas, somente 25 pessoas têm até 10 anos de trabalho
na roça. Em contrapartida, observa-se que também é alto o número de entrevistados em que o
primeiro contato com a zona rural coincide com sua permanência no acampamento Elisabete
Teixeira. Isto é, 11 entrevistados têm até 1 ano de experiência rural (Tabela 4).
Tabela 4 - Tempo de trabalho dos entrevistados na zona rural
Tempo
Rural
Até 1 ano
2-5 anos
6-10 anos
11-15 anos
16-20 anos
21-25 anos
26-30 anos
Mais 30
anos
Total
Nº
entrevistados
11
9
5
7
7
6
4
Porcentagem
(%)
14,28
11,69
6,49
9,1
9,1
7,79
5,19
28
77
36,36
100
Mesmo com este elevado índice de trabalhadores rurais, nota-se que os moradores do
Elisabete Teixeira residiam fora da zona rural antes de ir para o acampamento. Apenas 10 das
77 famílias entrevistadas moravam efetivamente na zona rural (Tabela 5).
Com relação a isso, muitos depoimentos foram sobre a dificuldade que tais famílias de
origem rural tiveram no passado em permanecer na roça, seja em virtude de arrendamentos
29
que trouxeram prejuízos financeiros, seja pela falta de emprego em fazendas ou por motivos
de saúde.
Tabela 5 - Local de residência anterior ao acampamento
Zona Nº entrevistados
10
Rural
67
Urbana
77
Total
Porcentagem
(%)
12,99
87,01
100
Foram inúmeras as causas motivadoras da ida para a cidade em busca de melhores
condições de vida. No entanto, em muitos casos, tal mudança não foi bem sucedida devido à
falta de estudo por parte dos acampados e à conseqüente dificuldade em conseguir um
emprego. Situação que fez com que a condição de vida piorasse. Além disso, a convivência
com a insatisfação por estar em um lugar que não era o de preferência foi citada, já que tais
pessoas preferem o campo em virtude da origem rural e das maiores possibilidades de
reprodução da vida doméstica e do seu sustento.
Dessa forma, os acampados foram motivados a retornar ao campo, tanto para morar
como para trabalhar. Eles viram esta oportunidade no MST, o que fez com que aderissem à
luta e ao movimento. Depoimentos parecidos também foram encontrados por Leite et al
(2004) em assentamentos do sul da Bahia, sertão do Ceará, entorno do Distrito Federal,
sudeste do Pará, oeste de Santa Catarina e na zona canavieira do nordeste. Borsatto et al
(2007) também encontraram, no Paraná, depoimentos semelhantes, ou seja, independente da
região, este é um perfil característico de grande parte dos acampados e assentados do Brasil.
Outro fato a ser observado no acampamento Elisabete Teixeira é que 70 sujeitos da
pesquisa (90,91%) estão na área desde o início da luta em Limeira (Tabela 6) e destes, 57
(74,03%) participam de sua primeira ocupação, pois o tempo de luta no MST coincide com o
tempo de estadia no Elisabete (Tabela 7). Dentre os participantes, somente 14 já participaram
de outras ocupações. Do total, 63 estão nesta luta pela primeira vez. Porém, nem todos estão
desde o início no acampamento em Limeira.
30
Tabela 6 - Tempo de acampamento dos entrevistados no Elisabete Teixeira
Tempo de Elisabete
Nº entrevistados Porcentagem (%)
70
90,91
Desde o início
2
2,60
10 meses
1
1,30
3 meses
1
1,30
5 meses
1
1,30
8 meses
1
1,30
9 meses
1
1,30
Quando saiu do Che Guevara
77
100,00
Total geral
Tabela 7 - Tempo de participação dos entrevistados no MST
Tempo MST
Nº entrevistados Porcentagem (%)
57
74,03
Início do Elisabete
1
1,30
10 anos
1
1,30
8 anos
3
3,90
6 anos
1
1,30
5 anos
2
2,60
4 anos
3
3,90
3 anos
3
3,90
2 anos
2
2,60
10 meses
1
1,30
9 meses
1
1,30
8 meses
1
1,30
5 meses
1
1,30
3 meses
77
100,00
Total geral
Praticamente todos os entrevistados participam dos trabalhos considerados coletivos
no acampamento. Os moradores participam de mutirões, atos do MST ou de outras
instituições que colaboram com o Movimento. Podem trabalhar na horta coletiva, na portaria
(controlando quem entra e sai do acampamento, para a própria segurança) e também na
coordenação dos núcleos de moradia ou de setores (produção, comunicação e/ou saúde).
As práticas coletivas no interior dos assentamentos, mais do que um ideal nos
discursos, podem também ser uma arma nas lutas internas, condenando ou excluindo da
comunidade aqueles que por oposição ou indiferença recusam-se a se engajar nas atividades
coletivas (LEITE et al, 2004).
Através dos questionários com estas 77 famílias, foram identificados 166 moradores
no acampamento. Em sua maioria, pessoas do sexo masculino (92). Mas com pouca diferença
para o número de mulheres (74). A idade média, quando considerado o total de moradores, é
31
de 35 anos. Dentre os 166 moradores, 117 são adultos (maiores de 18 anos), sendo 65 homens
e 52 mulheres.
Com relação à educação, praticamente todas as pessoas em idade escolar estão
estudando em colégios de Limeira, já que há um ônibus que busca as crianças e adolescentes
na portaria do acampamento. Entre os adultos, a escolaridade identificada encontra-se na
tabela 8, a seguir:
Tabela 8 - Escolaridade dos adultos do acampamento Elisabete Teixeira
Escolaridade
Analfabeto
Analfabeto funcional
Ensino fundamental
Incompleto
Ensino fundamental
completo
Ensino Médio incompleto
Ensino médio completo
Técnico
Superior incompleto
Superior completo
Total
Nº
Porcentagem
adultos
(%)
3
2,56
11
9,40
80
68,38
10
1
7
8,55
0,85
5,98
2
1
2
117
1,71
0,85
1,71
100,00
Pela tabela nota-se que a maior parte dos adultos do Elisabete Teixeira (68,38%) não
possui o ensino fundamental completo, além da existência de 11 adultos classificados como
analfabetos funcionais (só assinam o nome) e 3 analfabetos. O baixo nível de escolarização é
um caso grave entre a população rural em geral e tem sido uma preocupação para os
movimentos de trabalhadores, que estão sempre reivindicando escolas e cursos de
alfabetização para os adultos no interior dos assentamentos (LEITE et al, 2004; MELO e
SABBATO, 2006). Essa questão também é abordada por Bergamasco (1997) e Oliveira et al
(2008).
Quando questionados a respeito de trabalhos externos ao acampamento, seja como
fator principal para a sobrevivência e/ou complementação de renda, a maioria afirmou não
possuir nem contar com alguém na família com algum tipo de trabalho. Porém, isso é
questionável. Em conversas informais, algumas pessoas afirmaram que uma parte
significativa dos acampados trabalha sim externamente ao acampamento. Não se sabe se a
omissão de tal situação deve-se a certa insegurança existente, devido à falta de intimidade
32
entre acampado e pesquisadora, até então desconhecida. Com relação a isso, Leite et al
(2004), também encontraram uma omissão dos dados de trabalho fora do lote em suas
pesquisas em assentamentos. Segundo esses autores, os assentados recearam revelar trabalhos
externos, devido ao fato de que esse procedimento não é bem visto tanto pelo INCRA, agentes
de representação e mediação, como para os sindicatos, o MST e a Igreja.
Por outro lado, os que admitiram trabalhar fora, fazendo os chamados “bicos”,
disseram que os fazem justamente para melhorar ou para possuir uma renda, mesmo que
pequena. Renda destinada à compra de comida, roupa e outros artigos necessários à sua
sobrevivência. Os “bicos” mais freqüentes são os de pedreiro, lavrador, doméstica e outros
serviços relacionados à construção civil. Vale lembrar que os trabalhos fora do acampamento
são predominantemente de caráter eventual ou temporário. Nestes casos, o trabalho no
acampamento não mantém a família ao longo do mês.
Quanto à participação dos acampados em movimentos sociais ou de associativismo,
foi identificada a participação de alguns, principalmente como militantes do MST e em igrejas
evangélicas e católicas. Nesta questão, os acampados referiram-se às participações nos cultos
das mesmas. Poucos possuem algum vínculo com sindicatos e/ou partidos políticos. Com
relação a isto, todas estas organizações envolvidas com o Elisabete Teixeira são importantes e
contribuem, sob diferentes perspectivas, para a integração desse grupo, ao mesmo tempo em
que dão aos acampados sua identidade social (LEITE et al, 2004).
Entre os 77 respondentes da pesquisa, pode-se verificar que 18 moram sozinhos nos
barracos. No entanto, a maioria está sozinha para assegurar um lugar para quando for
aprovado o assentamento rural, a fim de ter acesso garantido à terra. Nesses casos, os
familiares do acampado(a) trabalham nas cidades e, por diversas vezes, enviam mantimentos
e outros artigos necessários à permanência da pessoa no acampamento. Dessa forma, os
acampados não necessitam sair para trabalhar e podem dedicar-se mais às atividades do MST.
Muitos afirmaram que, ao ter acesso a terra (ou seja, assim que for estabelecido o
assentamento e emitido os devidos documentos do lote), os familiares, principalmente
maridos e esposas, deixarão a cidade para viver e trabalhar na terra conquistada, já que muitos
vivem em casas de aluguel.
De acordo com Leite et al (2004), a chegada desses familiares indica que os
assentamentos representam uma forma de abrigo para as famílias que possuem dificuldades
de acesso a terra e emprego. Os assentamentos acabam atuando, também, como um elo entre
33
as famílias, aproximando membros antes dispersos. Assim, contribui não só na esfera
econômica, mas também na social destes grupos de trabalhadores.
Dos 77 entrevistados, 48(62,34%) acreditam que antes do Elisabete, suas vidas
estavam em condições piores. Nesses casos, a vinda para o acampamento foi algo positivo. Na
medida em que 16 (20,78%) disseram que antes a vida era melhor e para 13 (16,88%) tudo
continua exatamente igual (tabela 9).
Tabela 9 - Condição de vida anterior a chegada no acampamento
Vida
Antes
Pior
Melhor
Igual
Total
N. entrevistados
48
16
13
77
Porcentagem
(%)
62,34
20,78
16,88
100
Com relação aos acampados que afirmaram que a vida piorou no Elisabete, alegou-se
como motivos principais a falta de água; energia elétrica; dinheiro e renda fixa; a precariedade
dos barracos; a demora no processo de assentamento. Porém, por saberem da existente
possibilidade de conquista da terra, não desistem da luta. Este sentimento mantém a esperança
e a luta dessas pessoas. Na ocasião destas entrevistas, ainda não havia a decisão de que o local
seria destinado ao PDS. Desta forma, alguns acampados alegaram que a situação ficou mais
difícil após o despejo e que a recuperação de tal acontecimento seria improvável, devido à
perda de bens em geral.
Para as pessoas que alegaram que a vida atualmente é melhor, os principais motivos
alegados foram: possibilidade de plantar; liberdade para trabalhar; tranqüilidade
proporcionada pelo lugar; inexistência das dificuldades e despesas da vida na cidade, como a
falta de emprego. Grande parte destas pessoas se apóia na possibilidade de ganhar a terra.
A maior parte destes acampados trabalha e vive da agricultura por gostarem da roça,
da liberdade que o trabalho na lavoura proporciona, pela possibilidade de mobilidade de
horários de trabalho, diferentemente das cidades. Mas, o principal motivo para estar na
agricultura é o fato da maioria deles ter raízes no campo. Eles cresceram na zona rural e
sempre trabalharam para outros fazendeiros. Agora é a vez deles de terem a terra e não ser
mais explorados por terceiros.
Segundo uma acampada, a grande dificuldade da vida na cidade é a falta de
oportunidade, principalmente, devido à falta de estudos. Já na roça, segundo ela, só não “dá
34
certo” quem não tiver força de vontade para trabalhar, porque eles produzem e podem garantir
o sustento da família.
No entanto, um acampado disse que está no acampamento por conselhos de amigos
que afirmaram que sua vida melhoraria. Pelo contrario, sua condição de vida piorou desde que
chegou ao acampamento. Na cidade, tinha emprego e salário fixo, motivos que podem
justificar sua insatisfação.
4.2. O sustento atual
Com relação ao sustento atual, muitas famílias dependem da cesta básica oferecida
pelo INCRA. Porém, reclamam que elas não são corretamente enviadas e que depender delas
pode ser um risco. Isso implica na busca por outras formas de obtenção de renda para a
compra do alimento para a família.
Como dito anteriormente, as pessoas que moram sozinhas recebem ajuda de familiares
que estão na cidade. Em outros casos, por exemplo, quando o casal mora no acampamento e
os filhos na cidade, eles ajudam os pais.
Quando questionados a respeito do sustento da família, muitos que anteriormente
afirmaram não trabalhar fora ou fazer “bicos”, revelaram a eventual realização de trabalhos
externos ao acampamento. Confirmaram que, ao não realizar esse tipo de trabalho, a situação
financeira e a permanência no acampamento será comprometida, já que as dificuldades do dia
a dia são intensas e o apoio é mínimo.
Mesmo contando com 49 crianças e adolescentes em idade escolar (fato que possibilita
o recebimento de beneficio do Governo Federal pelos pais), através do Programa do Bolsa
Família, apenas um entrevistado afirmou recebê-lo. Outras famílias alegaram não saber dessa
possibilidade. Observa-se neste caso que a relativa falta de informação acaba prejudicando-as
com relação ao não recebimento deste benefício. Não cabe, nesse momento, discutir a
eficiência e a validade deste Programa. Mas sua existência garante tal direito a essas pessoas.
Por isso, deveria existir uma melhor orientação, tanto pelos líderes do MST como pelas
entidades que os apóiam a buscar esta ajuda, mesmo não sendo representativa e suficiente.
Outros benefícios que afirmaram receber são as aposentadorias e algumas pensões ou
indenizações do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Para complementar o sustento, 70 das 77 famílias entrevistadas (90,91%) já consegue
extrair alguma produção da pequena área que podem manejar. Dentre elas, 42 destinam a
35
produção somente para o consumo da própria família. O restante consegue doar algum
excedente para outras pessoas, troca com outros produtores ou produz sementes com o intuito
de não depender dos insumos externos ao acampamento. São poucos os acampados que já
conseguem vender algum excedente. Tal venda é realizada no município de Limeira, porém é
inexpressiva.
Muitos dependem de doações de alimento, roupa ou artigos de higiene pessoal feitas
pelos próprios acampados ou por pessoas e entidades próximas. O aspecto da doação para os
outros acampados foi um fator interessante, pois as famílias que produzem o suficiente para si
ainda doam para as famílias que não extraem o suficiente da terra e para os acampados
diretamente envolvidos na luta pela conquista da terra (os chamados “militantes do MST”,
que passam a maior parte do tempo envolvidos com causas do Movimento e não conseguem
dar a devida atenção ao trabalho na terra). Sem tais doações, certamente a luta ficaria inviável
devido à dificuldade de sustento.
Mesmo enfrentando tantas dificuldades e com o futuro ainda incerto quando
questionados da permanência no acampamento, 75 famílias admitiram permanecer na área. As
duas restantes disseram não saber se agüentarão ficar, embora tenham esta intenção.
Uma nova proposta para incrementar a renda das famílias está surgindo através da
doação simultânea, que já favoreceu algumas famílias do acampamento. Nesse programa, os
acampados juntam toda a produção excedente e vendem para o Governo do Estado, com a
finalidade de abastecer creches e escolas.
4.3. Problemas
Com relação aos problemas enfrentados no dia a dia, na entrevista os acampados
precisavam citar todos os problemas que, na opinião deles, existem e de alguma forma
possam ser solucionados.
No total foram obtidas 128 queixas. A mais freqüente, com 12 apontamentos, foi com
relação à falta de infra-estrutura dos barracos, os quais sofrem diretamente com as intempéries
do tempo (citadas 9 vezes).
A segunda maior queixa citada foi a falta de alimentação (11), seguida pela falta de
água (9), necessidades básicas para a sobrevivência do ser humano. Segundo os próprios
acampados, por diversas vezes há carência de comida ou bebida e acabam dependendo de
ajuda e doações. Em relação ao INCRA, criticaram a falta de assistência técnica. Questão que
36
possivelmente será resolvida, já que esta instituição está muito presente nesse período de
transição do acampamento para PDS.
Outra queixa realizada foi a falta de espaço para plantios. Segundo eles, devido ao fato
da terra ainda não ter sido concedida, do loteamento não ter sido feito e ao despejo, viram-se
obrigados a se aproximar um do outro, a fim de facilitar a comunicação caso algo novo
acontecesse. Com isso, o espaço concedido a cada família reduziu-se. Conseqüentemente, não
podem produzir tudo o que estão dispostos e nem trabalhar o quanto queriam.
Apesar disso, é possível observar que muitos agricultores aproveitam o máximo
possível do seu espaço e conseguem colher a pequena produção agrícola. Todavia, todos
deixaram muito claro na entrevista que, caso não houvesse ocorrido o despejo, eles estariam
em melhores condições e não passariam pelas necessidades atuais.
A falta de assistência à saúde, de saneamento básico e de energia elétrica também foi
lembrada, assim como a falta de transporte e as condições ruins da estrada que dá acesso ao
acampamento. Ela é uma das responsáveis pela falta de água. Ao chover, o caminhão-pipa da
prefeitura não trafega. Com isso, eles permanecem sem água até o restabelecimento das
condições normais do tempo e da estrada.
As péssimas condições das estradas em acampamentos e assentamentos não são
exclusivas do Elisabete Teixeira. Leite et al (2004) também encontraram nos assentamentos
estudados estradas em condições precárias, gerando problemas de acesso às unidades de
saúde, de educação e dificultando a comercialização da produção. Segundo eles, apesar das
dificuldades existentes, muitos municípios sofreram algumas mudanças devido à presença e a
pressão dos assentados, que reivindicaram maior freqüência dos transportes coletivos,
transporte escolar e ambulâncias, o que beneficiou toda a comunidade neste percurso.
O uso da bebida por alguns acampados foi motivo de queixa. Por não serem capazes
de cumprir com suas respectivas funções no acampamento (como a de zelar pela segurança do
terreno), acabaram por obrigar os outros acampados a abandonar o próprio trabalho para
realizar tais funções. Além disso, as perturbações causadas por pessoas alcoolizadas também
revelou-se um problema.
O regimento interno do acampamento foi por diversos motivos criticados. Por
exemplo, devido à falha de comunicação existente e pela forma de distribuição das cestas
básicas.
Um acampado, ao se explicar, disse a seguinte frase "a planta demora de 3 a 4 meses
para dar e neste tempo vive do que? De brisa?". Este acampado está muito descontente com
37
sua atual situação, e não sabe se vai conseguir permanecer no acampamento. Por outro lado, 9
entrevistados disseram não visualizar problemas no acampamento.
A indiferença do poder Público e da sociedade foi lembrada. Para eles, a falta de apoio
dos órgãos públicos atrapalha demais o processo de assentamento, inclusive o processo de
despejo sofrido foi realizado pela Prefeitura Municipal de Limeira.
Deve-se atentar ao fato de que a implantação de um assentamento na região
provavelmente dinamizará a economia, seja através da compra de materiais na cidade para a
construção de moradias e infra-estrutura, ou pela movimentação de feiras e do comércio, pela
venda de produtos.
Com relação às feiras, segundo Leite et al (2004), mais que na esfera econômica, elas
têm um grande impacto na social, pois expressam autonomia aos agricultores. São espaços de
sociabilidade entre os assentados e a população da cidade. As feiras aumentam a quantidade e
a qualidade dos produtos oferecidos, possibilitam um decréscimo nos preços e favorecem o
comércio do entorno, já que tanto assentados quanto clientes comprarão em tal local.
Portanto, toda a cidade é beneficiada com a presença dos assentados, que muitas vezes
contratam mão-de-obra externa ao assentamento para trabalhar no seu lote.
Impactos negativos do despejo
Durante o período de incertezas quanto ao futuro, é evidente o medo de um novo
despejo. Ele inclusive aparece entre as respostas referentes aos problemas atualmente
enfrentados no acampamento. Para alguns acampados, é possível manter-se sem dinheiro ou
água, entretanto, a ocorrência de um novo despejo acarretaria na perda da confiança e da
vontade de lutar. Além das perdas materiais, o ocorrido abalou emocionalmente os acampados
em geral. Há depoimentos que afirmam que até os dias atuais as crianças reagem a certos
estímulos sonoros, como barulhos de helicópteros ou algo que remonta àquele dia, causando
um clima de pânico entre elas.
Neste sentido, alguma atividade voltada para o bem estar dessas crianças poderia ser
elaborada. Alunos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) vão regularmente aos
domingos ao acampamento, para desenvolver atividades com as crianças. Porém, outras
atividades também podem ser elaboradas, inclusive com as temáticas da agricultura e do meio
ambiente.
Um fato interessante ocorrido durante o período de aplicação dos questionários foi a
divulgação na imprensa de noticias que confirmavam nova ação de despejo por parte do
38
prefeito do município de Limeira. Fato que mobilizou os acampados, que realizaram diversos
atos e reuniões internas no acampamento, com a finalidade de esclarecer o que era verdade e
mentira.
Durante tal período foram realizadas entrevistas com os acampados. Notou-se um
aumento significativo em relação ao medo da possibilidade de despejo. Esse fato inesperado
pode ter alterado os dados da pesquisa, que antes não continha nenhuma entrevista no qual o
foi citado o despejo ou o medo do entrevistado como um problema. Possivelmente, se isso
não estivesse passado naquela ocasião, a resposta seria diferente.
4.4. Vantagens e/ou facilidades
Foram 103 apontamentos indicando as vantagens e/ou facilidades consideradas pelos
acampados, que os motivam a permanecer no Elisabete.
A maioria das citações refere-se à possibilidade de ter a própria roça, plantação e
criação de seus animais. Outro aspecto de destaque foi a vantagem em estar ali para lutar pela
terra. Caso ela seja conquistada, todo o esforço terá valido a pena.
A tranqüilidade que o lugar proporciona foi muito citada, mesmo com o medo do
despejo.
Estes agricultores também destacam a importância das amizades e do companheirismo
existente entre os moradores do Elisabete, alegando que este fator é fundamental para o
Movimento e o dia a dia no acampamento. A ajuda mútua e a possibilidade de contar com um
amigo são fatores que os animam a continuar enfrentando as dificuldades.
No entanto, 5 pessoas disseram que no acampamento não há qualquer tipo de
vantagem ou facilidade. Uma acampada mencionou que imagina que, ao ir ao acampamento,
sua vida melhoraria, situação que não se revelou verdadeira. Segundo ela, sua vida era melhor
na cidade, mesmo morando em um bairro pobre.
Além das pessoas que vêem no acampamento uma oportunidade de ganhar a própria
terra, para trabalhar e viver nela. Há casos nos quais os entrevistados acreditam que a
vantagem em estar no Elisabete reside no fato de as despesas serem menores, já que não há
gastos com aluguel e água, por exemplo. Verificou-se tal opinião com 3 entrevistados.
Isso remete a um dos problemas citados pelos acampados, ao afirmar que certas
pessoas não têm vínculo com a terra, não sabem trabalhar nela e dependem do trabalho alheio
39
em alguns casos. Elas não demonstram interesse em aprender, só permanecem na área para
conseguir a terra, considerada teoricamente de forma fácil, sem pagar e sem despesas.
Esse tema não surgiu apenas na entrevista. Os acampados conversavam mais
abertamente sobre isso quando não estavam sendo entrevistados. Para um acampado, antes da
ocupação, o MST deveria fazer uma espécie de seleção das pessoas dispostas a acampar e
ganhar a terra, pois muitos não sabem trabalhar na terra praticam atos que, por diversas vezes,
denigrem a imagem dos sem-terra.
4.5. Culturas e criações
Através das entrevistas foi possível levantar os principais cultivos atuais. Com relação
às culturas consideradas anuais, a mais cultivada é a da mandioca (62 dos 77 entrevistados),
seguida pelo milho (45), quiabo (44) e abóbora (36). Muitos acampados também plantam
feijão, principalmente das variedades corda (38), guandu (32) e carioca (29). No total foram
31 culturas diferentes. Os cultivos são realizados ao lado dos barracos (Figura 5).
Foto: Bernadete Castro (2008)
Figura 4: Plantio de mandioca
40
Foto: Rafaela Silva (2008)
Figura 5 – Plantação ao lado dos barracos
Entre as culturas ditas permanentes, a diversidade encontrada foi menor. Foram 23
cultivos citados, sendo a banana a mais citada (26), seguido pelo mamão (22), manga (12) e
maracujá (10). No entanto, não é difícil justificar o porquê desta menor diversidade nos
cultivos perenes. Uma explicação plausível é o caráter provisório do local atualmente ocupado
por cada família. Quando ocorrer a distribuição dos lotes tal configuração será alterada. Tudo
depende de como a terra será demarcada. Mesmo porque, o espaço ocupado atualmente é
muito pequeno. Por isso, não existe no momento interesse em gastar dinheiro e trabalho em
algo incerto. O risco de prejuízo é evitado, especialmente após a perda gerada pelo despejo.
Com relação às hortaliças, a mais cultivada é a cebolinha (38), seguida pela alface
(29), couve (19) e coentro (18). Foram citadas 26 culturas.
Com relação às criações animais, apenas 30 dos 77 entrevistados possui aves (Figura
6), suínos e/ou eqüinos. Os animais são, em sua maioria, galinhas e galos para reprodução e
consumo próprio e, em alguns casos, para uma eventual venda. Poucos possuem porcos,
cavalos e éguas, usados para o transporte ou para algum trabalho na roça.
Ainda relacionado a este assunto, mais uma vez o despejo foi citado como agente
causador de uma situação difícil entre os acampados. Segundo estes, devido ao despejo,
muitos acampados perderam muitos animais e até hoje não se recuperaram, inclusive pelo
receio em criar e perder tudo novamente.
41
Foto: Bernadete Castro (2008)
Figura 6: Vista de um dos galinheiros
Os equipamentos utilizados na agricultura são ferramentas manuais, como enxada,
foice, facão, rastelo e plantadeira manual, caracterizando uma agricultura praticada sem o uso
de máquinas de qualquer natureza. Fato explicado pela falta de dinheiro (fator limitante) e em
virtude da condição de acampados (não têm direito às linhas de crédito).
Ainda com o intuito de saber o que há atualmente no lote, questionou-se a presença de
plantas que não são as de cultivos, que exercem alguma função considerada positiva por eles.
A resposta mais encontrada refere-se às plantas medicinais, como a arnica, a erva
cidreira, o poejo, a arruda, o boldo, etc. Elas são cultivadas por muitos acampados. Há uma
grande variedade de plantas medicinais no acampamento. Tal quantidade pode ser justificada,
conforme Mello (2000), pelo alto custo dos medicamentos industrializados, já que o poder
aquisitivo dos acampados é baixo e o uso destas plantas como remédio torna-se uma
alternativa e pelo difícil acesso destas pessoas à assistência médica (mesmo o acampamento
estando próximo à cidade de Limeira, poucos têm carros e os ônibus possuem horários
limitados). Assim, as plantas medicinais são utilizadas por esta população que acredita em
seus efeitos e faz uso rotineiro para as enfermidades e doenças (MELLO, 2000). Outras
plantas lembradas por eles foram as árvores (dão sombra) e as flores, pelo perfume e beleza
que proporcionam.
Um fato interessante que surgiu foi que alguns acampados afirmaram possuir o
girassol, o fumo e o gergelim com o intuito de proteger a plantação do ataque de pragas. Essa
prática é muito importante na agroecologia, lembrando que algumas plantas realmente podem
ser utilizadas como repelentes ou como alimento para as pragas que, desta forma, deixam a
42
cultura de interesse crescer sem nenhum problema. O gergelim vem sendo usado por diversos
agricultores como uma alternativa ao ataque de formigas. De acordo com Fornari (2002), ao
plantar o gergelim em volta e entre as culturas, um fungo tóxico irá ser produzido dentro do
formigueiro. Segundo este autor, o fumo também pode ser utilizado contra ácaros, pulgões e
outras pragas. O girassol, ao ser plantado no milharal, servirá como isca para lagartas não
atacarem o milho.
Algumas das plantas ditas medicinais também podem atuar como repelentes ou
inseticidas, como é o caso da arruda (repele besouro e inseticida contra pulgões), do alecrim
(detém borboleta branca do repolho, besouro do feijão e mosca da cenoura) e da camomila
(eficiente contra várias doenças) (FORNARI, 2002).
Por outro lado, há as plantas denominadas “daninhas”. Essas atrapalham o
desenvolvimento da cultura principal, implicando muitas vezes no controle com algum
agrotóxico (quando o produtor é convencional). Na agroecologia, essas plantas podem ser
manejadas e até mesmo utilizadas como adubo na lavoura. De acordo com os acampados, as
principais plantas “perturbadoras” das culturas são: a braquiária, o picão, capim colonião,
caruru, guanxuma e sapé. A braquiária e o capim colonião são utilizados pelos acampados
como pasto, ou então, para adubação ao ser feita a capina. As outras são retiradas pela raiz,
pois, segundo eles, atrapalham demais o crescimento das culturas.
De acordo com Fornari (2002), estas plantas consideradas “daninhas” podem indicar
algumas características e condições do solo, como o excesso, a deficiência ou o desequilíbrio
de nutrientes. A guanxuma, citada pelos acampados, é uma planta que ocorre em
conseqüência da excessiva mecanização ou pisoteio do gado, invadindo terrenos com subsolo
muito denso ou áreas onde a erosão lavou o solo superficial. Já o sapé indica solos muito
ácidos, adensados, sugerindo também a deficiência de magnésio. Essa planta desaparece após
a calagem.
Tais características corroboram a análise do solo realizada pelo Instituto Agronômico
de Campinas (IAC), que será descrita mais adiante.
Um fator positivo constatado foi que nenhum agricultor admitiu utilizar agrotóxicos
para eliminação destas plantas. Como o uso de agrotóxicos implica em gastos financeiros
(fator limitante no acampamento), é bem provável que tal sentença seja verdadeira.
43
Insumos e vendas externas
A respeito dos insumos externos ao acampamento - comprados pelos acampados para
utilização na produção – verificou-se que os acampados compram sementes dos mais diversos
alimentos, em pequena quantidade. Tais sementes destinam-se ao plantio e à colheita no
pequeno espaço concedido a eles temporariamente. Observou-se que a maior parte dos
acampados produz sementes, seja para evitar a compra futuramente ou para realizar trocas.
Enfim, constatou-se a preocupação de não depender de insumos externos para a produção no
seu lote. Além de sementes, alguns compram animais para criação, ração e esterco para
adubação.
A questão dos insumos utilizados tem, segundo Leite et al (2004), grande influência
nos custos de produção (podem aumentar caso ocorra gasto excessivo com estes recursos), na
saúde dos trabalhadores (que será seriamente afetada caso sejam utilizados insumos nocivos,
como os agrotóxicos) e no meio ambiente (caso tais insumos impliquem em algum impacto
negativo).
Já com relação às saídas (alguma venda ou mão-de-obra que gere renda à família) da
unidade de produção, constatou-se que somente 4 famílias (dos 77 entrevistados) conseguiu
vender alguma produção até os dias atuais. As vendas foram de feijão, mandioca, alface e
almeirão, realizadas nas ruas de Limeira e ainda são muito pequenas. Entretanto, de qualquer
forma, é uma renda extra.
4.6. O sustento e a propriedade no futuro
Com relação ao sustento e às pretensões futuras, 73 entrevistados revelaram o desejo
de morar, trabalhar e tirar o sustento da família na terra conquistada. Dentre os 4 entrevistados
com visão diferente, metade afirmou que, mesmo com a terra, manteriam atividades na terra e
trabalhariam fora.
Uma acampada afirmou que seu marido sempre trabalhará na cidade e ela na terra.
Outro afirmou não saber como pretende viver. Mesmo assim, estas pessoas desejam trabalhar
na terra de alguma forma, ainda que não pretendam depender exclusivamente dela.
Quando questionados a respeito do futuro da produção que será realizada, todos
afirmaram ter o desejo de consumir e vender a produção. Alguns ainda citaram a importância
de ter uma cooperativa de venda e de realizar trocas e doações para quem necessitar.
44
A cooperativa lembrada por muitos acampados seria utilizada como ferramenta para
efetivação das possíveis vendas dos produtos por eles produzidos. Como, ao se juntar toda a
produção do acampamento, a quantidade oferecida será maior, as negociações com alguma
rede de supermercados ou similar será facilitada (geralmente negociam mediante contratos
que possam atender a sua demanda). Para o funcionamento dessa cooperativa, é necessária
certa organização por parte dos acampados, a fim de evitar erros quanto a venda e posterior
repasse de dinheiro aos agricultores.
Com relação às culturas e/ou criações futuras, as mais citadas foram: a mandioca (30),
o feijão (27), milho (22), a horta (21) e as aves (20). No total, 41 itens foram citados, entre
animais e vegetais.
Muitos acampados não discriminaram as culturas que poderiam ser plantadas,
afirmando que “plantariam de tudo”. Tal cultivo refere-se principalmente aos produtos de
subsistência. Dentre os 5 mais citados, a mandioca, o feijão e o milho são produtos básicos
para o consumo e bons para o comércio. A horta foi citada em virtude de seu retorno rápido e
facilidade de venda, e as aves para a venda e consumo da carne e dos ovos. Outros animais,
como porco e vaca, também foram citados. A vaca, principalmente para o consumo do leite.
As frutas também foram lembradas por praticamente todos os acampados. Nenhuma se
destacou, apesar de a banana ser a mais citada. A diversificação no cultivo de frutas é visada.
O aspecto da diversidade foi muito marcante, já que ninguém pretende realizar uma
monocultura. Eles visam à maior diversidade possível e alegam que há fatores limitantes para
essa prática, como: espaço destinado para cada produtor, condições do solo, finanças e as
adaptações das diferentes culturas.
Nota-se que essa preocupação está muito vinculada a alguns princípios da
agroecologia. Existe o objetivo de se ter apenas um cultivo; tirar o sustento da própria terra e,
em muitos casos, atrelar o cultivo de vegetais à criação de animais, podendo tirar daí o esterco
necessário para adubar a terra e o alimento para os animais. Ou seja, realizar um manejo
integrado do agroecossistema.
Também se questionou se, no futuro, estas pessoas teriam interesse em agregar valor à
sua produção, através do beneficiamento dos produtos, para obtenção de uma maior renda.
Porém, não foram muitos os interessados. Percebeu-se, inclusive, que alguns respondentes
afirmaram que sim apenas para não demonstrar desinteresse. Porém, por esse fato ter sido
uma impressão da pesquisadora, não se sabe dizer o porquê.
45
Na maioria dos casos o interesse está na venda in natura do produto. Como eles
mesmos disseram, processar o produto exigiria um esforço de tempo e mão-de-obra,
requisitos incertos no momento. Entre os que demonstraram interesse, o processamento da
mandioca, a priori, foi o mais citado, seguido pelo o de alguma fruta para doce ou polpa.
Modo de produção
Com relação ao modo de produção, 57 entrevistados preferem o individual, 8 o
coletivo e 7 as duas formas, sendo o coletivo somente a horta. Os outros não sabem ou
disseram que a solução está por conta do MST (acatarão o que for resolvido).
Para quem prefere o modo de produção coletivo, a justificativa reside no fato de
acreditar que essa forma é melhor por aproximar as pessoas (trabalharão em conjunto) e
melhorar as vendas. Nesse grupo estão aqueles com menor tempo de experiência na terra e os
que acreditam que as vantagens de se estar no acampamento são os conhecimentos
adquiridos, suas dimensões e a consciência política, ou seja, os acampados motivados por esta
mudança no sistema de produção.
Os que preferem o individual alegaram que assim eles trabalhariam para si, teriam
liberdade para escolher o que plantar e para colher o alimento necessário, sem a obrigação de
consultar os líderes. O principal motivo alegado para a produção individual é o fato de que,
para os acampados, há pessoas que não trabalham. Conseqüentemente, alguns trabalhariam
para outros. Isso já ocorre, segundo eles. Um entrevistado afirmou que alguns estão no
acampamento “por estar”, foram “jogados ali" sem ter relação ou aptidão com o trabalho na
lavoura (o que atrapalharia demais o trabalho coletivo). Muitos comentam que alguma horta
poderia ser coletiva e revelaram o desejo de poder escolher com quem trabalhar. Essa deve ser
uma escolha dos agricultores, não imposta.
No acampamento Elisabete Teixeira é bem visível que há relações de vizinhança
muito fortes. Esse fato começa a ser observado na divisão e formação de grupos (ou núcleos)
de afinidades, que irão compor o PDS. Caso haja algum tipo de coletivismo, esse é um fator
que irá decidir os grupos de produtores.
Os acampamentos e assentamentos possibilitam a construção de redes de
sociabilidade, como as de vizinhança, reconstituindo relações típicas das comunidades locais
rurais do Brasil. A organização social dos assentados pode ser primeiramente constituída a
partir de relações de vizinhança, que podem ou não derivar de outras relações, como as de
parentesco (LEITE et al, 2004).
46
A questão do modo de produção foi um assunto selecionado para as oficinas, com a
intenção de esclarecer as possíveis dúvidas dos acampados em relação a isto.
4.7. Agroecologia e agricultura
Com relação à agroecologia, algumas questões foram elaboradas para saber o
conhecimento dos acampados sobre isso. Suas dúvidas e respostas nortearam alguns temas
que foram abordados nas oficinas.
A agroecologia era um assunto novo para 16 respondentes, que nunca tinham ouvido
este termo e, portanto, não sabiam seu significado. Os outros 61 sujeitos de pesquisa
comentaram que já conheciam. Entre estes, 35 não sabiam o que era, e o restante palpitou. No
entanto, as respostas foram muito simplórias e abordaram a agroecologia, na maior parte das
vezes, como uma forma de agricultura que não usa agrotóxicos; ou que respeita a natureza,
por não utilizar a prática da queimada e nem matar os animais. Evidencia-se assim que os
acampados desconhecem a definição do termo agroecologia. Eles apenas citaram algumas
práticas agroecológicas para exemplificar o que seria.
Entre os respondentes, 62 deles nunca participaram de nenhum curso, palestra ou
qualquer outro tipo de formação para trabalhar com agroecologia ou até com a agricultura.
Ainda no sentido de identificar alguma formação ou informação sobre estes temas,
constatou-se que 44 nunca leram ou assistiram nada a respeito. Houve casos em que ficou
clara a intenção de dizer que já tinham participado ou assistido algo sem, no entanto, saber
discriminar do que realmente participou ou assistiu.
Sobre o interesse em fazer algum curso em qualquer área, 46 entrevistados citaram a
agricultura ou agroecologia como tema. Isso demonstra a importância da produção da terra
para esta população (mesmo porque a sobrevivência deles depende disso). Foram citados
outros cursos profissionalizantes, como de costureira, pedreiro, jardinagem e informática.
Algumas pessoas disseram não ter mais idade ou tempo para aprender.
Com a finalidade de saber quais assuntos poderiam ser abordados nas oficinas
agroecológicas, foi perguntado quais eram as dúvidas em relação à agricultura ou qual assunto
eles achavam que deveria ser trabalhado com os outros acampados. Igualmente, eles não
precisaram se prender a apenas uma resposta, o objetivo era conseguir a maior quantidade de
informações sobre as carências do dia-a-dia no campo, sejam elas técnicas ou não. A resposta
47
mais freqüente foi a ausência de dúvidas quanto ao trabalho no campo (22 respondentes), seja
por fazer muito tempo que trabalham no meio rural ou por acreditar que já tem todo o
conhecimento necessário.
Entre os temas de dúvidas, o que merece destaque (com 20 citações) refere-se às
técnicas agrícolas - época de plantio, espaçamentos, podas, melhor espécie para ser plantada
nas condições (climáticas e do solo) do acampamento. O controle de pragas sem o uso de
agrotóxicos e o conceito e práticas da agroecologia também foram citados.
4.8. Natureza e meio ambiente
Também se abordou questões referentes ao meio ambiente, a fim de identificar a
relação destes com a preservação da natureza, se há algum interesse em preservar ou
recuperar as matas existentes no acampamento ou se é de conhecimento o significado de
alguns termos legais sobre conservação da natureza. Enfim, identificar o máximo de
informações referentes aos interesses, conhecimentos e possibilidades de ações que permitam
a manutenção da fauna e flora local, já que esses são fatores primordiais nas práticas
agroecológicas.
Dentre os 77 sujeitos de pesquisa, 9 disseram não haver nenhuma mata nas
dependências do Elisabete; 2 não souberam dizer se havia ou não; um só citou a existência do
eucalipto na área (sem o considerar mata, já que para ele o eucalipto é uma planta “ruim”).
Muitos acampados, ao se referir ao eucalipto, citavam a planta com certo desprezo. Isso
porque, segundo eles, além de estragar o solo (deixando-o ácido), é uma árvore exótica.
Porém, é bom ressaltar que a presença de algumas árvores de eucalipto na propriedade pode
ser interessante, principalmente no momento em que o agricultor necessita de alguma
madeira. Ele não precisará então manejar outra árvore de maior interesse ambiental ou
econômico.
Entre os que disseram não existir mata, alguns admitiram a existência de algumas
árvores na beira do rio e da mina. Mas, segundo estas pessoas, a quantidade é tão pequena que
não pode ser considerada.
Dos 66 pesquisados restantes, a área de mata existente na beira da mina e do córrego
foi citada por 55 pessoas. Outros locais, como a mata existente em um morro localizado ao
lado do córrego e os eucaliptos, foram citados como mata.
48
Aos respondentes que admitiram existir mata, perguntou-se o motivo pelo qual ela
permanece, com o intuito de saber se existe o interesse em mantê-la ou retirá-la. Novamente
considerou-se mais de uma resposta por acampado. Foram apresentadas algumas alternativas
de respostas. Porém, não havia necessidade de seguir aquelas opções. Assim, as respostas
mais freqüentes foram: a mata permanece por ser uma área de proteção da natureza (31
citações); a mata protege o solo e a água (29 citações); por não poder ser desmatada (16
citações). Outros motivos apareceram em menor intensidade, como: é usada como barreira de
ventos; protege os animais; pela falta de tempo da Prefeitura do município de Limeira para
retirá-la. Vale lembrar que alguns citaram que a permanência da mata é um ideal dos
moradores, que a intenção é deixar a mata e reflorestar. Nesse caso surge a questão da ética
ambiental, que será elucidada mais adiante.
A maior parte destes agricultores tem o hábito de ir aos locais indicados como mata,
para passear, pegar água, tomar banho e até verificar se ninguém está retirando as árvores.
Com relação às matas próximas do acampamento, poucos admitiram utilizar a madeira
seca ou do eucalipto para a construção dos barracos ou para cabo de enxada. A maioria utiliza
esta região para pegar água ou passear.
Foram questionados se substituiriam a mata por uma lavoura ou pasto. A resposta foi
positiva em 5 casos. Alegaram que, se o lote ficar numa área de mata, precisariam desmatar
para poder plantar. Mais uma vez, a maioria deu respostas que comprovam certa preocupação
com o meio ambiente. Por exemplo, a água seria contaminada devido à retirada das árvores.
Com relação a conservar a natureza, o simples fato de não destruir, retirar árvores ou
usar a queimada já é considerado uma forma de conservação. Muitos afirmaram conservar
fiscalizando e informando as lideranças do acampamento em caso de agressão à mata. O lixo
também foi um aspecto bem lembrado pelos acampados, principalmente quando se referia à
participação das famílias na conservação. Para eles, a família contribuía com a conservação da
natureza separando o lixo reciclável, limpando a mata ou simplesmente não jogando o lixo na
mata ou rio. Muitos acampados admitiram realizar plantios de árvores no acampamento.
Para analisar a resposta deles em relação às práticas de conservação, questionou-se a
noção deles de “proteção da natureza”. Praticamente todas as respostas envolviam termos
como “não cortar árvores”, “não matar os animais”, “não jogar lixo”, “não usar agrotóxico”,
“não colocar fogo”. Observa-se que todas as respostas implicam em negativas, e nunca em
possibilidades do que poderia ser realizado a favor da natureza.
49
No entanto, não se deve esquecer das dificuldades enfrentadas por estas pessoas no
dia-a-dia. Tais adversidades poderiam implicar em um possível desinteresse por parte dos
acampados por outros assuntos, que não aqueles que, de alguma forma, poderiam lhes trazer
algum tipo de conforto ou recurso para continuar na luta. É observado justamente o contrário
no Elisabete. A intenção e ação quanto aos reflorestamentos é muito forte (Figura 7), assim
como a não utilização de agrotóxicos e outras práticas que possivelmente não rendam recurso
financeiro algum, mas que lhes proporcionam melhor qualidade de vida e contribuem com a
biodiversidade local. Desta forma, eles poderão trabalhar em conjunto com a natureza para
melhorar as condições de plantio, sendo menos prejudicados pelas adversidades do tempo
(vento, por exemplo).
Foto: Rafaela Silva, 2008
Figura 7 – Plantio de árvores realizado pelos acampados
Quando questionados a respeito de problemas do acampamento em relação à
conservação da natureza e de possíveis soluções, a problemática do lixo foi citada. Afirmaram
que muitas pessoas o descartam em lugares indevidos. Em relação a isso, é necessário mais
diálogo e companheirismo, devido à falta de tolerância a críticas por alguns. Para alguns, é
preciso realizar um reflorestamento no acampamento, principalmente pela falta de árvores e
para atrair pássaros; a grande ocorrência de queimadas na região também foi citada.
No entanto, 37 acampados disseram não haver nenhum tipo de problema com relação
à conservação da natureza no acampamento.
50
Adequação ambiental
Outro aspecto importante quanto aos recursos naturais refere-se à questão da
adequação da propriedade rural à legislação ambiental. Para verificar o conhecimento dos
acampados em relação às leis, questionou-se a existência de áreas protegidas (áreas de
Proteção Permanente - APP -, de reserva legal e unidades de conservação).
A maior parte afirmou que a mata em volta da mina e do córrego é protegida por lei.
Porém, nem todos demonstraram certeza ao responder isso. Eles respondiam e questionavam
se realmente era. Outros afirmaram que toda a mata do acampamento é protegida, mas pelas
leis dos acampados (quem não preserva a mata pode até ser expulso do acampamento, devido
ao ideal de recuperar a mata e por, ao desmatar, a imagem deles poderia ser prejudicada com a
sociedade em geral).
Realmente, não há outras áreas na região do acampamento protegidas por lei além das
matas ciliares (localizadas em APP’s, protegidas por lei para garantir o cumprimento de sua
função ecológica de manutenção da biodiversidade). A Lei Federal 4.771/65 (Código
Florestal) define as diretrizes para a preservação e enquadramento de diferentes áreas como
APP’s.
A maior parte dos respondentes (61 entre 77) não soube dizer o que é uma mata ciliar.
Para continuar os questionamentos era, então, preciso explicar sua definição e as metragens
mínimas especificadas na legislação ambiental. Assim, eles respondiam a respeito do
cumprimento da lei nas dependências do acampamento. Entre os acampados participantes da
pesquisa, 32 disseram que a largura mínima de APP é obedecida, 2 disseram que está correta
em alguns locais e 6 não souberam responder.
Segundo 37 acampados, a largura mínima de APP ainda não está sendo obedecida nas
terras do acampamento, pois o tempo de permanência área ainda não permitiu a realização da
recuperação florestal. Entretanto, a idéia é reconstituir a mata ciliar. Afirmaram também que
desde a chegada na área os acampados realizam plantio de mudas.
A mesma questão foi feita em relação à área de reserva legal. Agora, 65 respondentes
não sabiam defini-la. Dentre os 12 que afirmaram saber, 1 acampado apresentou seu
desconhecimento (acredita-se que ele mencionou saber apenas para não demonstrar
desconhecimento). Novamente o termo era explicado e eles questionados quanto ao
cumprimento da lei no acampamento. A maior parte dos acampados (43) disse não haver 20%
de área com mata; 23 disseram o contrario e alegaram que há muita mata no terreno; 11 não
souberam responder.
51
Como demonstraram ter pouco conhecimento a respeito da legislação vigente e para
esclarecer algumas obrigações, a questão da adequação ambiental na propriedade foi incluída
como tema a ser tratado nas oficinas.
Fauna
Foram citados 41 animais diferentes vistos no acampamento. Com 32 citações, o mais
visto é o tatu, seguido pela capivara (27 citações), veado (25) e cobra (21). Outros animais
que apareceram na lista foram as jaguatiricas, onças, diversas espécies de aves, cachorro do
mato, coelhos e lebres. Por esse relato, nota-se que a região abriga uma quantidade
considerável de animais, mesmo com a proximidade da cidade, as extensas áreas de plantios
de cana-de-açúcar e pela pouca mata existente.
Isto demonstra a importância de um trabalho de reflorestamento da mata ciliar e da
implantação da área de reserva legal no acampamento. Além de aumentar a área verde,
atrairia pássaros e outros animais e ela poderia ser utilizada como um corredor de circulação,
além de ser uma área em potencial para a proteção e reprodução dos mesmos.
Ao se pensar no reflorestamento da mata ciliar (por livre iniciativa dos acampados)
para exercer papel de corredor ecológico para o fluxo de animais e proteger os cursos d’água,
evidencia-se que, conforme Brito (2006), estes atores sociais estão conscientes da importância
da conservação da biodiversidade e do papel deles mesmos neste processo. Trata-se de um
valor ético ambiental desta população, enquanto saber camponês herdado, ou mesmo
repassado pelo MST (nos cursos técnicos em agroecologia). Essa ética ambiental se dá através
do amadurecimento e voluntarismo, e não por força de leis ou imposição das autoridades
ambientais.
Além disso, deve-se pensar em um projeto que tenha como objetivo levantar a fauna
dessa região, para comprovar a existência de tais animais (já que, de acordo com as citações, o
local apresenta uma diversidade relativamente alta).
Citaram também alguns insetos vistos com freqüência e qual é sua função, na opinião
dos acampados. Dentre os 34 animais citados, os insetos mais vistos são o escorpião (35
citações), a formiga (24), cobra (23), grilo e mosca com 16 citações cada um. Ratos e anuros
também foram citados.
Pôde-se observar uma discrepância na classificação popular e acadêmica do que seria
inseto. De acordo com Ruppert, Fox e Barnes (2005), insetos e escorpiões pertencem ao filo
52
(Arthropoda), porém a táxons diferentes. O escorpião é um aracnídeo, pertencente ao táxon
Chelicerata e os insetos, ao táxon Mandibulata. Com relação às cobras, a diferença é ainda
maior, já que insetos são animais invertebrados e as cobras, vertebrados.
O curioso nesta resposta foi o critério utilizado pelos acampados para classificar um
animal como inseto. Para eles, são insetos por transmitir doenças, por estragar a plantação ou
por causar algum tipo de medo (cobra e escorpião) ou aversão (ratos e anuros).
Uma acampada afirmou que a borboleta (6 citações) é um inseto. Porém,
instantaneamente, retirou sua resposta, pois, segundo ela, não é um inseto por “ser muito
bonita para ser inseto”. Fica claro, então, o que um inseto significa para esta acampada. Um
animal feio, com imagem ruim. As abelhas (5 citações) e as borboletas foram citadas por
poucos acampados e tem sua função ligada à polinização.
O sentimento de que os insetos representam algo ruim fica evidente quando eles falam
sobre a relação existente entre insetos e flores e são questionados a respeito de quais
observam nas flores. As abelhas e as borboletas são citadas por quase todos os acampados.
Segundo eles, estes animais alimentam-se das flores e, em conseqüência, as polinizam.
Insetos como a joaninha e a mamangava também foram citados nesta questão.
Com relação à função das flores numa planta, 18 acampados disseram que a flor serve
para dar o fruto - “se não vem a flor, o fruto também não vem”. Por a flor conter as partes
reprodutivas da planta e ser através dela que ocorre a polinização e a fecundação (origina as
sementes e os frutos) (RAVEN, EVERT e EICHHORN, 2001), o raciocínio deles está
correto.
A beleza (12 citações) foi outro aspecto importante na resposta dos acampados. Para
eles, as flores são úteis para embelezar os lugares. Resposta totalmente antropocêntrica, já que
para elas a flor existe para agradar o ser humano. Para 7 acampados, a flores servem para
produzir remédio ou perfumar o ambiente (visão antropocêntrica). Outros 10 acampados
disseram que a função da flor é “produzir mel para as abelhas”. Alguns acampados (13) não
souberam responder esta questão (Tabela 10).
53
Tabela 10 – Função das flores nas plantas
Função
N. de citações
18
Gerar o fruto
13
Não sabe
12
Embelezamento
10
Produzir mel
Produzir
9
alimento
8
Polinização
7
Produzir remédio
Perfumar o
7
ambiente
5
Produzir semente
3
Atrair insetos
2
Germinar
Faz parte
2
natureza
4
Outros
Flora
Como já apontado anteriormente, o reflorestamento é uma questão bem importante no
acampamento. Segundo as lideranças, sua realização é uma meta a ser cumprida. Para
verificar se existe mesmo tal objetivo, perguntou-se a necessidade de fazê-lo, onde e com qual
tipo de vegetação.
Constatou-se que realmente grande parte dos acampados tem a intenção de reflorestar
a área do acampamento, seja por vontade própria (caracterizando um princípio de ética
ambiental e respeito pela natureza e por todos os seres vivos) ou pela vontade de terceiros,
como a imposição por parte das lideranças e outros acampados.
Afirmaram que a beira do córrego e a região da mina são os principais locais nos quais
o reflorestamento deveria ser realizado. Áreas como as divisas do acampamento e o atual
lixão também foram citadas. Para eles, o reflorestamento deveria ser feito com árvores nativas
e frutíferas, sendo necessário realizar uma pesquisa para saber as espécies arbóreas
adequadas. Deve-se, entretanto, sempre ter em mente que, ao se reflorestar uma APP, deve-se
consultar a legislação ambiental pertinente (por ser uma área muito restrita, que permite
alguns usos aos agricultores para incentivar tal recuperação).
No caso das áreas de divisa do acampamento, o reflorestamento poderia significar a
implantação de cercas vivas. Conforme Lambert (1992), a fuga de animais de criação seria
54
impedida, o local tornar-se-ia um abrigo de animais silvestres (muitos arbustos e árvores) e
atuaria como barreira contra o vento. Além disso, plantas menores produtoras de flores,
samambaias e musgos cresceriam protegidas.
A mata perto do rio e das nascentes (sempre referida por eles como mina) é muito
visitada pelos acampados, seja para passeios ou para coleta de água. Questionou-se como se
referiam a ela no dia-a-dia, para se conhecer o grau de intimidade. Grande parte dos
acampados refere-se como mata ou matinha. O termo capoeira surgiu, por não ser “aquela
mata”; porque “foi derrubada e saiu de novo”; “é rala. A mata (de grande porte) é escura”.
Com relação à origem desta mata (se era nativa ou plantada), 8 acampados acreditam
que apenas os eucaliptos foram plantados, introduzidos na região. O restante da vegetação é
nativo. Outros 6 disseram que toda a vegetação foi introduzida na região, que não é composta
por espécies nativas. No entanto, 53 disseram não acreditar que a mata é nativa. Os outros
acampados não sabiam ou não quiseram falar nada a respeito.
Quando o termo “mata nativa” não era compreendido, a pergunta era refeita de forma
a possibilitar seu entendimento.
Após esta investigação, o tema “vegetação nativa da região” foi abordado em uma das
oficinas realizadas. A questão da legislação sobre a recuperação da APP será abordada em
oficinas futuras.
Água
Com o intuito de saber a respeito das fontes e dos usos da água no acampamento,
perguntou-se sobre existência de algum rio ou fonte de água dentro do acampamento, e pediuse uma descrição de como ela é utilizada.
De acordo com os acampados, a Prefeitura Municipal de Limeira envia um caminhão
pipa com água no acampamento. Não falta água, exceto quando chove (conforme já
mencionado).
Disseram também que a qualidade da água é boa, mas alguns ainda preferem coletá-la
numa mina existente no acampamento (confiam mais na qualidade da água de tal mina do que
na água trazida pelo caminhão).
As fontes de água no acampamento são o rio e a mina. Entretanto, eles não podem
utilizá-lo por estar contaminado (segundo os acampados). Vale ressaltar que as análises
laboratoriais para testar a qualidade desta água ainda não foram realizadas. Aguarda-se um
55
acordo com o INCRA, para que técnicos possam ir ao acampamento e coletar as amostras
necessárias.
Nas plantações, a irrigação é feita basicamente através da água da chuva. Poucos
destinam a água da mina ou do caminhão para tal uso, eles priorizam a água destas duas
fontes para consumo próprio.
Um agricultor afirmou fazer, na época seca, plantios de espécies que não requerem
muita água. Isso é muito importante por mostrar o conhecimento local e o trabalho conjunto à
natureza, ao se respeitar o regime de chuvas e o clima local, criando alternativas de
sobrevivência num período de escassez de algum recurso necessário (neste caso a água).
Clima: a opinião dos acampados
A questão do conforto térmico foi abordada e por ela se analisou se a população liga
este conforto (ou falta dele), à presença ou ausência de uma mata mais conservada.
De acordo com a opinião dos acampados, o clima no acampamento é agradável e
fresco. Isso se deve à presença da mata, por refrescar o ambiente e manter a umidade no
acampamento.
Para eles o clima é desagradável durante o dia, pois o sol esquenta muito o barraco de
lona preta (Figura 8), tornando muito difícil a permanência em seu interior. Durante a noite, o
barraco torna-se muito frio, causando desconforto na hora de dormir.
Foto: Bernadete Castro (2008)
Figura 8 – Barraco construído com lona preta
56
Os acampados também falaram da incidência de ventos fortes e que a presença da
mata barra-o um pouco. Porém, seria importante a existência de mais árvores, para maior
contenção do vento.
A grande maioria dos acampados, afirmaram que a mata exerce sim, uma influência
sobre o clima no acampamento, no entanto, muitos não souberam dizer de que forma isto
acontece, tornando-se difícil afirmar se eles realmente acreditam nesta influência ou se apenas
disseram isso para tentar dar uma resposta que eles considerariam certa. Já para os que deram
uma justificativa, esta se baseia no fato da mata refrescar o ar e reter a umidade.
De acordo com os acampados que disseram que a mata não exerce nenhum tipo de
influência sobre o clima, o motivo dado foi que a mata existente para manter o clima ou
mudá-lo deveria ser bem maior que a existente, mas a grande maioria não soube dar um
motivo claro para isso.
4.9. “Lixão”: o aterro sanitário de Limeira
A opinião dos acampados sobre o “lixão” é unânime. Ninguém gosta de sua
proximidade com o acampamento. Para eles, ele não está localizado em uma área correta. Está
muito próximo do rio, o que acaba por contaminá-lo. Com relação a isso, o mapa de uso da
terra elaborado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (2007) constata que
a área do lixão sobrepõe a APP, o que confirma uma possível irregularidade.
Outras reclamações recaem sobre a presença do “lixão” nas proximidades do Elisabete
Teixeira. Segundo os agricultores, “o cheiro é desagradável e incomoda”, “o lixão é um crime
ambiental, um desperdício de terra”. Porém, alguns afirmam que ele “é necessário, mas está
em local inadequado, muito próximo à cidade. Deveria ser em um local mais distante,
tomando cuidado para não poluir os rios”.
Através destes depoimentos, os acampados demonstraram preocupação com esta
questão, inclusive no que se refere à distribuição de terras enquanto assentados. Preocupação
existente também pelo fato de que, futuramente, pessoas com lotes próximos ao lixão terão
problemas com o cheiro ruim e com a terra possivelmente comprometida por uma suposta
contaminação.
Dentre tantas reclamações, ninguém sugeriu uma solução para este problema. Todos
se limitaram a falar das dificuldades causadas pelo lixão. Só citaram a possibilidade das
pessoas reciclarem parte do lixo mandado para lá.
57
Na realidade, o “lixão” (assim chamado pelos acampados) é um aterro sanitário. Seus
respectivos Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA)
foram aprovados pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo em 1992
(GUIZARD et al, 2006).
O aterro sanitário de Limeira localiza-se na Rodovia Tatuibi, s/nº, Horto Florestal. É
limitado pelo ribeirão Tatu a leste, ao sul pela rodovia municipal de Limeira-Tatuibi e a oeste
pela área de cultivo municipal. Está a cerca de 9 km do centro da cidade de Limeira e tem
como receptor dos efluentes tratados o ribeirão Tatu.
Em seu trabalho, Guizard et al (2006), afirmam que o aterro está em boas condições e
que o trabalho é realizado corretamente, principalmente ao se comparar com outras áreas de
disposição de resíduos nos municípios do Estado de São Paulo. Ainda complementam
atestando que os cuidados quanto à contaminação da água e do solo são eficazes.
4.10. Solos
Ao se pensar em agricultura, um elemento muito importante é o solo. Na agricultura
convencional, ele é considerado apenas a base para o cultivo. Devido a esta concepção, ocorre
um manejo errado de seus componentes químicos, físicos e biológicos por parte dos
produtores rurais. O solo fica exposto à ação do sol, da chuva e do vento por longos períodos,
sendo tratado intensamente com adubos químicos. Se a cultura de interesse não for adaptada à
região ou for muito atacada por pragas e doenças, o uso de agrotóxicos e outros produtos
químicos aumentam (FORNARI, 2002).
Esse autor afirma que o interessante é observar e trabalhar o solo em sua
complexidade, sabendo que ele está integrado a diversos organismos e microrganismos
(animais e vegetais) que garantem e promovem sua fertilidade e sanidade das plantas
cultivadas.
Ao se pensar localmente, é necessário conhecer as culturas mais adaptadas ao solo; ao
clima da região; se há matéria orgânica e nutrientes para os cultivos; se é necessário adicionar
tais elementos (através de adubações orgânicas, caldas e compostos) para não ocorrer o
desgaste excessivo e recompor a fertilidade do solo. Nesse sentido, tornou-se importante
conhecer o quanto estes agricultores conhecem do solo do acampamento e quais são as
práticas adotadas para seu manejo.
58
Quando questionados se o solo era mais arenoso ou argiloso, 9 respondentes disseram
ser argiloso; 25 arenoso; 16 arenoso e argiloso (variando de acordo com o local); 2
responderam ser mais arenoso nos locais próximo ao rio; 27 não souberam dar nenhuma
resposta, dizendo não entender muito do assunto.
A maioria dos acampados considera o solo fértil. Alguns admitiram que ele precisa ser
melhor trabalhado e tratado. De acordo com alguns acampados, em solos arenosos o cultivo é
mais difícil. Neste sentido, alguns disseram que o trabalho na terra torna-se mais complicado
à medida que a roça fica mais próxima do rio.
Com relação à aptidão agrícola da terra, disseram que as culturas melhor adaptadas são
as que “dão embaixo da terra”, como as raízes e os tubérculos. Segundo os acampados, “o que
dá para cima da terra” não é muito bom (milho, por exemplo). Esse é um fato preocupante, já
que existe a intenção de criar animais. A atividade se tornará inviável, pois eles precisarão
comprar o milho ao invés de produzi-lo, para alimentá-los.
Assim, 33 acampados disseram que o melhor cultivo é o da mandioca; 28 o do feijão;
19 do amendoim; e 11 da batata doce. Porém, 20 produtores acreditam que tudo o que for
plantado se desenvolverá bem, argumentando que o segredo reside no “plantar na época
certa”. Quando citadas individualmente, três culturas entre as quatro citadas anteriormente,
“dão embaixo da terra”.
Com relação aos principais manejos para melhorar a fertilidade do solo, a adubação
feita através do uso do mato (braquiária e capim colonião), capinado e deixado no solo para
secar, é realizada por 36 acampados. Outra prática muito utilizada por 28 acampados é o uso
do esterco de gado e de galinha. Também utilizam, em menor quantidade, a compostagem; a
cama de frango; adubos orgânicos; biofertilizantes; adubação verde; restos de hortaliças;
cascas de frutas e outros alimentos jogados no solo.
O uso do esterco do gado e da galinha é muito importante na adubação. Vale ressaltar
que o estrume de herbívoros em geral (vaca, cabra, cavalo) é rico em fibras e fornece mais
energia para o solo, beneficiando-o de forma mais duradoura. O de galinha é rico em
nitrogênio e tem pouca influência no solo por ser rapidamente degradado. Portanto, não é
recomendado o uso exclusivo do estrume de galinha por ele não estimular o biodinamismo do
solo e nem a produção de ácidos húmicos (responsáveis pela estruturação física). Pode ocorrer
esgotamento do solo (FRANCISCO NETO, 1995).
No acampamento há feijão andu ou guandu (Figura 9) plantado em muitos lotes.
Embora esta planta seja uma alternativa ao adubo verde, somente um acampado admitiu fazer
59
o seu plantio com esta finalidade. Tornou-se importante abordar este tema nas oficinas, para
que esta prática seja disseminada no acampamento.
Outra prática importante citada por somente um acampado é o preparo de
biofertilizantes. Ela deveria ser incentivada, já que o custo de sua produção é baixo e por a
maioria dos ingredientes ser encontrada na propriedade rural. O uso de biofertilizantes é uma
vantagem em relação ao de produtos químicos, pois esses últimos, além de mais caros,
prejudicam o meio ambiente (em contrapartida aos princípios agroecológicos e do PDS).
Foto: Rafaela Silva, 2008
Figura 9 – Cultivo de feijão andu (guandu)
A necessidade de uso de adubo químico ainda é sentida por dois acampados. Porém, a
falta de dinheiro e a proibição por parte das lideranças do acampamento dificultam tal prática.
Com relação aos problemas percebidos no solo, 35 pessoas responderam que a acidez
é o principal. A escassez de nutrientes e de matéria orgânica foi lembrada por 16 acampados.
Outros problemas listados foram a compactação e a presença de raízes de braquiária, que
prejudicam o desenvolvimento das culturas. No entanto, 20 acampados disseram não haver
nenhum tipo de problema no solo.
Com relação à acidez, os acampados deram três possíveis soluções para o problema: a
adubação orgânica (também citada como solução para a escassez de nutrientes), utilização do
calcário e a adubação verde. Atividades como o revolvimento da terra, a aração e o uso do
trator foram alternativas citadas para solucionar problemas de compactação. A importância da
análise do solo, com o intuito de saber os reais problemas e a melhor forma para solucionálos, também foi lembrada pelos acampados.
60
Foi realizada no Instituto Agronômico de Campinas (IAC) a análise do solo de duas
áreas do acampamento. Uma das áreas refere-se ao terreno de um acampado distante de
cursos d’água (amostra I); a outra amostra corresponde à área da horta comunitária mantida
pelos acampados, próxima ao córrego (amostra II). Os resultados encontram-se na tabela 11.
Tabela 11 – Resultado das análises de duas amostras de solo do acampamento
Variável
Amostra I
29
Mat. Org. (g/dm³)
4,2
pH (CaCl2)
5
Fósforo (mg/dm³)
1,3
Potássio (mmol/dm³)
15
Cálcio (mmol/dm³)
3
Magnésio (mmol/dm³)
0,33
Boro (mg/dm³)
0,9
Cobre (mg/dm³)
71
Ferro (mg/dm³)
6,2
Manganês (mg/dm³)
0,2
Zinco (mg/dm³)
19,3
Soma Base
64
Ac. Potencial
83,7
Cap. Troca Cat. (CTC)
23
Sat. Bases (%)
Fonte: IAC (2008)
Amostra II
15
4,1
3
0,8
7
2
0,23
0,5
50
3,4
0,1
9,8
31
40,6
24
A interpretação dos dados foi feita de acordo com os padrões estabelecidos pelo
próprio IAC.
Nas duas áreas o pH está muito baixo (4,2 e 4,1; respectivamente), indicando acidez
muito alta. A análise corrobora a afirmação dos acampados, dizendo que o solo é muito ácido.
O valor de cálcio encontrado é o mínimo desejável para as culturas. Portanto, o
encontrado na amostra I (15 mmol/dm³) é considerado alto, enquanto o da II (7 mmol/dm³),
médio. Por estes dados tem-se que o valor mínimo exigido na amostra I é maior, o que
repercute na necessidade de maior uso de cálcio para a calagem nesta área. Realmente, o IAC
recomendou maiores valores de calcário na amostra I do que na II para as culturas de milho,
mandioca, batata e batata doce para mesa.
Nas amostras também foram encontrados valores muito baixos de fósforo e para a
saturação de bases. Segundo Fornari (2002), o baixo valor na quantidade de fósforo indica
uma dificuldade das plantas em formar o sistema radicular, florescer e formar frutos e
61
sementes. Na cultura do milho, há o aparecimento de grãos secos e espigas curtas com a ponta
torta.
As quantidades de potássio, magnésio e zinco são consideradas baixas nas duas
amostras. A falta destes três nutrientes gera plantas com folhas manchadas e deformadas.
A falta de potássio ocasiona o surgimento de um caule fino nas plantas, espigas mais
curtas e grãos descoloridos; a deficiência de magnésio acarreta na ausência de clorofila
(folhas amareladas ou avermelhadas) e no aparecimento de estrias esbranquiçadas nas folhas;
sem o zinco há um retardamento no crescimento e na produção de clorofila. Tais deficiências
podem explicar porque o milho não se desenvolve bem no acampamento. O broto terminal
fica quase branco, com folhas amareladas e faixas brancas e roxas (FORNARI, 2002).
A reclamação dos acampados recai justamente sobre o tamanho das plantas e das
espigas e sobre o aspecto dos grãos. Ainda segundo Taiz e Zeiger (2004), a falta de potássio
causa a suscetibilidade das raízes do milho aos fungos da podridão e os efeitos caulinares
provocam o tombamento da planta no solo.
Já o valor de ferro é considerado alto nas duas áreas, o que provoca manchas nas
folhas (FORNARI, 2002). A quantidade de boro nas duas amostras é considerada média. O
teor de cobre e manganês é considerado alto na amostra I e médio na II. De acordo com esse
autor, o manganês fica melhor disponível para as raízes quando o pH é 6,5.
Segundo Primavesi (1987) há um equilíbrio entre os íons nutritivos da fase mineral, a
capacidade de troca catiônica (CTC) e a solução do solo (água). A CTC depende dos teores e
tipos de argila e da quantidade de matéria orgânica no solo. No solo tropical, a argila
caulinítica possui características que reduzem a CTC. O reabastecimento da solução do solo
com nutrientes depende diretamente do seu valor (elevado em solo temperado). Nos trópicos,
a CTC é baixa em solo argiloso e menor ainda em solo arenoso.
Ainda segundo essa autora, o abandono e o pousio do solo não aumentam o acúmulo
de nutrientes disponíveis na solução do solo, porque este acúmulo não pode ser maior que a
CTC devido a uma questão de equilíbrio. O problema nos solos não é a concentração de
nutrientes, e sim o espaço que pode ser explorado pela raiz da planta (diminui devido aos
adensamentos ocorridos em virtude do manejo inadequado das culturas). O pousio recupera a
bioestrutura do solo, possibilita um maior enraizamento e aumenta o complexo de troca por
substâncias orgânicas humificadas, intensificando o reabastecimento.
A matéria orgânica não tem seu nível abaixo de um mínimo que lhe é próprio. Porém,
ao se cultivar em certas condições de umidade, perde-se rapidamente tal matéria orgânica
62
acima desse nível mínimo e conseqüentemente sua bioestrutura e condições de produzir, além
de baixar a CTC. A restituição de matéria orgânica torna-se um fator vital para a agricultura.
Quanto maior o valor da CTC, maior a capacidade do solo de reter e liberar nutrientes.
Portanto, maior será sua fertilidade do solo e a nutrição das plantas. Esta capacidade é melhor
observada na amostra I que, além da CTC, apresenta maiores quantidades de matéria orgânica
quando comparada à amostra II.
Considerando os quatro cultivos analisados, o IAC recomendou a calagem nas duas
áreas. Na amostra I, a quantidade de calcário a ser aplicada é sempre maior do que na II. A
calagem deve garantir os teores suficientes de magnésio no solo.
A análise granulométrica das amostras também foi realizada pelo IAC. Através dos
resultados (Tabela 12), observa-se que a amostra I possui maior quantidade de argila e menor
quantidade de areia quando comparada à amostra II. Estes resultados, mais uma vez,
corroboram com os depoimentos dos acampados quando se referem às áreas com mais argila
e areia. O resultado da quantidade de argila em I também ajuda a explicar o maior valor da
CTC, conforme já descrito.
Tabela 12 - Resultado da análise granulométrica das amostras de solo do acampamento.
Argila
Areia Total ,
Classificação
(g/kg)
Silte (g/kg)
g/kg
textural
< 0,002 mm 0,053 - 0,002 mm 2,00 - 0,053 mm
I
275
169
556
Franco-argiloarenosa
II
125
85
790
Franco-arenosa
Fonte: IAC (2008)
Amostra
nº
4.11. Pragas e Doenças
Com relação ao ataque de pragas, a maior parte dos acampados disse ter problemas,
principalmente com as formigas.
Para tentar repelir ou eliminá-las, cada acampado tem sua própria receita caseira. A
maior parte delas tem como ingredientes: o fumo, a pimenta e o gergelim.
Grilos, vaquinhas, pulgões e lagartas são outros exemplos de animais considerados
pragas. Atacam as lavouras no acampamento e são combatidos com alguma calda ou, no caso
das lagartas, através do processo de catação manual.
63
Dois acampados disseram que jogam nos formigueiros “bolinhas” compradas. Porém,
não disseram o que seriam tais “bolinhas”.
Seria interessante trabalhar com estes agricultores todas as possibilidades de caldas e
compostos preparados com elementos encontrados na propriedade rural, para combater tais
pragas. O uso de plantas repelentes e outras mais atrativas do que as culturas principais
também pode ser incentivado.
Com relação às doenças, poucos agricultores admitiram ter problemas. Ao ser
verificada a doença na folha, eles retiram as ruins e utilizam as caldas para regar a planta.
Geralmente há fumo na composição.
4.12. Agrotóxicos
Quando questionados a respeito do uso de agrotóxicos, todos disseram não utilizar.
Porém, esta resposta não traz certezas, já que algum acampado pode ter tomado o cuidado de
não revelar o uso de uma substância proibida no acampamento pelas lideranças.
Com relação à periculosidade do uso dos agrotóxicos, apenas um dos entrevistados
não soube dizer nada a respeito. Os outros 76 acampados disseram ser perigoso. Na opinião
deles, as pessoas que consomem alimentos com esse tipo de produto podem ter algum tipo de
problema de saúde (67 citações). Para 54 deles, os mais prejudicados são aqueles que aplicam
o produto. A preocupação com os animais surgiu em 38 depoimentos, enquanto 17 citaram a
água e 12 o solo. Eles poderiam citar mais de um item.
Para eles, por se tratar de um veneno, as pessoas que ingerem alimentos tratados com
agrotóxicos ou aplicam o produto se contaminam. Um acampado afirmou ter consciência do
perigo, mas terá que utilizar contra os insetos.
4.13. Algumas práticas agroecológicas
Adubação verde
A adubação verde tem como finalidade fixar nitrogênio (pela raiz e pela massa verde
produzida); combater as plantas invasoras; eliminar nematóides; e fornecer nutrientes
disponíveis. As leguminosas também podem contribuir para o controle da erosão
(PRIMAVESI, 1987; ALTIERI, 1989).
64
Porém, Primavesi (1987) ressalta que em solos ácidos, como o do acampamento
Elisabete Teixeira, a adubação verde não melhorará o rendimento da cultura de forma
considerável. Pelo contrário, por acidificar o solo exige o uso da calagem.
Dentre os acampados, 55 nunca tinham ouvido falar no termo “adubação verde”. Mas,
após conhecerem, demonstraram interesse no cultivo. Evidencia-se então que muitos não a
praticam por desconhecimento. Inclusive os que possuem guandu no lote e cultivam esta
planta para o consumo da família. O empecilho para o início da adubação verde está na
obtenção das sementes das outras espécies, além do guandu.
A escolha da planta adequada para a adubação verde deverá ser feita de acordo com as
principais espécies cultivadas. Assim como determinada espécie de adubo verde pode atuar
como planta “companheira” da espécie de cultivo, beneficiando-a, pode atuar para outra
espécie como alelopática (prejudicando o desenvolvimento da lavoura).
Pode-se definir que a adubação verde, quando criteriosamente empregada, pode
baratear o custo da produção agrícola. Quando usada empiricamente ou revolvida com o solo,
pode prejudicar o solo e o agricultor (PRIMAVESI, 1987).
Compostagem
A compostagem é o processo de transformação de resíduos vegetais e animais em
materiais orgânicos benéficos para a agricultura. É uma técnica relativamente simples, que
pode ser aplicada em diferentes situações do desenvolvimento agrícola. Ela envolve
transformações extremamente complexas de natureza bioquímica, promovidas pelos
organismos do solo. A matéria orgânica in natura é a fonte de energia, nutrientes minerais e
carbono necessários para esses organismos (FRANCISCO NETO, 1995; PEIXOTO, 2005).
A compostagem é realizada por acampados que desconheciam tal denominação. A
maioria simplesmente junta algumas cascas de frutas e restos de alimentos, adicionando
algum mato e deixando “descansar” por alguns dias antes de utilizar na lavoura. Outros jogam
as cascas diretamente na roça. Em ambos, a metodologia típica descrita por diversos autores como Francisco Neto (1995) e Peixoto (2005) - não é seguida. Porém, tais práticas não devem
ser ignoradas, já que eles reutilizam a matéria orgânica que possivelmente seria jogada no lixo
e adicionam nutrientes ao solo.
Peixoto (2005) explica que a diferença entre utilizar os resíduos crus ou o produto da
compostagem no solo é com relação à quantidade e à época em que os nutrientes
65
mineralizados estarão disponíveis para a cultura e a intensidade com que influenciam os
microrganismos do solo.
A adubação verde e a compostagem são duas práticas agrícolas que serão temas de
futuras oficinas no Elisabete Teixeira.
Rotação e consórcio de culturas
Conforme já dito anteriormente, as famílias moradoras do acampamento Elisabete
Teixeira estão ocupando terrenos provisórios e pequenos. Será desta forma até o momento da
distribuição dos lotes, quando já for assentamento.
Em virtude do despejo ocorrido em novembro de 2007 e da volta posterior, iniciou-se
o cultivo em janeiro de 2008. Com isso, algumas culturas ainda não foram colhidas e outras
nem puderam ser plantadas devido à época do ano e às características das mesmas.
Portanto, quando se fala em rotação de culturas, muitos argumentam que ainda não
pensaram a respeito do que vão plantar após a colheita. A maior parte planta de forma
consorciada (Figura 10) para o melhor aproveitamento do espaço concedido.
Dentre os acampados que disseram fazer essa prática, 8 demonstraram ter preocupação
com a preservação do solo, não plantando a mesma cultura de forma sucessiva. Tal prática
não desgasta o solo e evita o ataque de pragas e doenças que possam atacar a nova safra, caso
a anterior esteja infestada. Os outros agricultores, que também praticam a rotação, só a fazem
porque a época do ano não possibilita o mesmo plantio ou por acreditar que outra cultura
desenvolve-se melhor no solo. No entanto, a maior parte dos acampados ainda não faz a
rotação de culturas.
Antes de realizar a rotação, o agricultor deve ficar atento às espécies que serão
cultivadas. Elas devem ser imunes às pestes que poderiam afetar as culturas anteriores
(FRANCISCO NETO, 1995).
Com relação ao cultivo consorciado, além do melhor aproveitamento do espaço, são
favorecidos pela diversidade de cultivos. Diversidade que garante uma alimentação mais
variada e uma lavoura menos suscetível ao ataque de doença ou praga (já que determinadas
plantas podem repelir esses organismos ou até mesmo atrair os predadores naturais deles).
Quanto mais diversa a propriedade, mais vantagens terão o agricultor e a natureza.
66
Foto: Rafaela Silva (2008)
Figura 10 – Cultivo consorciado
O consórcio entre culturas é realizado através do uso de plantas “companheiras” que,
quando associadas, favorecem-se mutuamente. Essa técnica surgiu baseada no conhecimento
empírico dos agricultores (FRANCISCO NETO, 1995; FORNARI, 2002). Dessa forma,
plantas que requerem muita luz podem ser consorciadas com outras que necessitam de mais
sombra; ou então, plantas com sistemas radiculares profundos e superficiais podem ser
consorciadas, já que utilizam diferentes profundidades do solo e podem se ajudar na obtenção
dos nutrientes necessários (FORNARI, 2002).
A queda na população de pragas pode ser explicada por dois fatores. O primeiro
refere-se ao rompimento na continuidade e na abundância de seu alimento, que ocorre porque
em sistemas diversificados as espécies vegetais são compostas por plantas hospedeiras e nãohospedeiras. Com isso, esses animais terão maior dificuldade em localizar as plantas
preferidas, que estarão dispersas e “mascaradas” devido às plantas não-hospedeiras
associadas. O outro fator é a preservação dos inimigos naturais que possuem melhores
condições de sobrevivência e reprodução nestes sistemas. Isso acontece devido à maior
quantidade de microhábitats adequados, de locais de refugio, de fontes de pólen e de néctar
(AGUIAR-MENEZES e MENEZES, 2005).
Esses são apenas alguns exemplos de como o consórcio entre culturas pode ser
vantajoso, tanto para as próprias plantas, quanto para os agricultores que poderão aproveitar
melhor o pequeno espaço para a produção.
67
4.14. Sonho
Nesta pesquisa houve a preocupação e o interesse de trabalhar em função do sonho de
vida dos acampados. Não era o objetivo abordar temas e elaborar propostas com base apenas
nas idéias da pesquisadora ou em teorias científicas, mas sim construir em conjunto com os
acampados e com base na vontade deles. A intenção era realizar um trabalho que poderá ser
aproveitado no futuro, quando o então “Assentamento Elisabete Teixeira” existir.
A última questão feita aos acampados foi “Qual é o seu sonho?”. Neste momento
ficava muito claro que a resposta poderia ter como base qualquer desejo deles, já que a meta
era simplesmente identificar qual é o grande sonho de vida dessas pessoas, independente do
MST.
Das 77 entrevistas realizadas, 69 remetiam à mesma idéia central: “um pedaço de terra
para poder plantar, colher e tirar o sustento meu e da minha família”. O restante não deixou tal
idéia clara. Entretanto, com exceção de uma (respondeu não ter sonhos), notou-se o desejo de
ter uma vida melhor do que a de hoje, independente se com ou sem a terra.
Através das respostas, pôde-se notar que a razão pela qual essas famílias estão no
acampamento é realmente a possibilidade de conquistar um pedaço de terra para poder
trabalhar e sustentar a família. Neste caso, elimina-se qualquer dúvida referente às suas
intenções, distorcida para muitas pessoas, seja pela mídia ou pelo preconceito por parte da
população quando o tema é o MST.
68
5. OFICINAS REALIZADAS NO ACAMPAMENTO “ELISABETE TEIXEIRA”
As oficinas constituíram a segunda parte deste trabalho de conclusão de curso. Elas
tinham como objetivo incentivar as práticas agroecológicas no acampamento e concluir a
investigação de como os acampados conduzem o trabalho na lavoura e no dia-a-dia,
relacionando-as às práticas que contribuem para com a conservação da natureza.
No decorrer da pesquisa, os acampados foram informados a respeito das oficinas. A
intenção era formar um grupo fixo, para que eles pudessem avaliá-las e também repassar os
conhecimentos obtidos para o restante do acampamento.
O convite para participação nas mesmas estendia-se para todos os moradores. Porém,
somente as mulheres participaram. Uma possível explicação é a necessidade de alguns
homens de trabalham fora. O interesse das mulheres também pode ser justificado pelo fato de
sua responsabilidade pela reprodução familiar. A produção de alimentos é uma questão
central para as mulheres dentro da família.
As oficinas foram realizadas no acampamento Elisabete Teixeira. Inicialmente, quatro
foram programadas, sendo a última uma avaliação das outras três. A seguir será descrito um
pouco sobre cada oficina realizada:
Oficina 1: Agricultura e Meio Ambiente
Data: 10 de setembro de 2008
A primeira oficina teve como finalidade abordar a temática da agricultura e do meio
ambiente. O objetivo era relacionar e explicar a importância e a manutenção do meio
ambiente nos espaços rurais, além de introduzir os conceitos e princípios da agroecologia.
Estiveram presentes 22 mulheres acampadas, a pesquisadora e uma ecóloga que
participou como colaboradora durante todo o processo, por também pretender desenvolver um
projeto no acampamento.
Como um dos objetivos deste TCC, elaborou-se uma cartilha com o conteúdo da
oficina (Anexo B).
69
Nessa oficina também havia o interesse de uma aproximação entre todos os
participantes, por isso ela foi conduzida como uma conversa informal. Com o passar do
tempo, as acampadas ficaram mais a vontade e falaram e participaram mais da oficina (Figura
11).
Foto: Marina Leme (2008)
Figura 11 – Explanação durante a oficina 1 (Agricultura e Meio Ambiente)
Oficina 2: Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS)
Data: 17 de setembro de 2008
Nesta oficina estiveram presentes 24 mulheres, pesquisadora, a ecóloga colaboradora,
a professora orientadora deste TCC, uma aluna do mestrado em agroecologia da UFSCAR e
alguns membros do MST da Regional de Campinas.
Neste dia foi explicado o que é um PDS, quais as obrigações dos moradores, os
benefícios, enfim, todas as funções e objetivos deste modelo de assentamento.
A presença das mulheres da regional de Campinas foi importante para esclarecer
algumas questões. A participação das mulheres acampadas também foi mais intensa, já que
foi abordado um tema diretamente relacionado à vida delas.
Nesta oficina não foi elaborada nenhuma cartilha. O material utilizado faz parte de um
trabalho realizado pelo INCRA, que estudou a viabilidade da área do Horto Tatu como um
assentamento.
70
Oficina 3: Solos
Data: 24 de setembro de 2008
Estavam presentes 23 mulheres, a pesquisadora, a ecóloga colaboradora, um aluno do
curso de Geografia da UNESP/ Rio Claro (também desenvolveu seu TCC no acampamento) e
a aluna da UFSCAR.
As mulheres estavam mais a vontade para falar. Foi realizada uma caminhada (Figura
12) para a coleta das diferentes amostras de solo.
Foto: David Santos (2008)
Figura 12 – Saída de campo para coletas das amostras de solo
Foram feitas 4 coletas de solo:
1) Em um ponto de passagem, onde era visível a compactação do solo;
2) Em um local em que o solo estava coberto com palha;
3) No local considerado ser um brejo, com umidade elevada;
4) Em um terreno manejado com adubação verde (feijão guandu), totalmente
desprotegido no momento.
No primeiro ponto, uma das acampadas falou que onde o terreno é mais arenoso, ela
planta “o que dá debaixo da terra”, como batata doce e mandioca, deixando os restos de
cultura sobre o solo, para adubá-lo.
Outra acampada falou da cor do solo. Ela disse plantar onde a terra está mais escura e
fofa. Outra acampada afirmou que se deve pensar num conjunto de fatores, além da cor.
Na volta para o barracão, as 4 amostras foram comparadas e a diferença entre elas era
evidente (Figura 13). O solo coberto por palha era visivelmente o melhor para o cultivo (tinha
71
cheiro agradável, organismos vivos, não formava torrões, tinha boa umidade e a cor era mais
escura do que a dos outros solos). O solo mais compactado formava torrões com faces retas,
havia algumas raízes e não apresentava cheiro. No campo ele estava bem próximo do solo que
estava em melhores condições, porém, estava totalmente desprotegido da ação do sol, vento e
chuva.
Foto: David Santos (2008)
Figura 13 – Análise das diferentes amostras de solo coletadas no campo
No solo mais úmido percebia-se pela textura a presença de argila. Foi apresentado
como o excesso de umidade poderia compactá-lo com o uso de máquinas. Também foram
citadas as culturas que não suportam tanta umidade e apresentam dificuldade no crescimento.
O solo manejado com guandu apresentava boas características, porém estava desprotegido
(sob ação do sol e do vento) e completamente seco. Para melhorá-lo, seria preciso adicionar
matéria orgânica (pela falta de umidade os torrões estavam muito duros e difíceis de ser
quebrados).
Uma acampada falou da importância de não revolver o solo tão profundamente, para
conservar a camada mais fértil.
Falaram da dificuldade em produzir o milho. Uma acampada afirmou não o colher
devido à semeadura ter sido realizada na época errada. Segundo ela, plantando na época certa
e cuidando do solo corretamente, tanto o milho como outras culturas terão um bom
desenvolvimento.
A cartilha dessa oficina foi elaborada após a oficina, com base nos solos encontrados
em campo (Anexo C).
72
Oficina 4: Avaliação das primeiras oficinas e trabalhos futuros
Data: 1 de outubro de 2008
Estavam presentes cerca de 20 mulheres, a professora orientadora, a pesquisadora, a
ecóloga colaboradora e a aluna da UFSCAR.
Primeiramente, foram esclarecidas algumas dúvidas das acampadas com relação às
outras oficinas.
Duas acampadas falaram da experiência vivenciada em uma visita ao assentamento de
Itapeva. Elas descreveram o trabalho realizado nesse local, falaram sobre o beneficiamento de
alguns produtos, como o leite (produção de iogurte e de queijo) e o girassol (produção de
óleo). Também explicaram como é organizado o trabalho coletivo e defenderam a
implantação desse modo de produção no Elisabete Teixeira.
A questão do trabalho coletivo gerou muitos questionamentos entre as mulheres,
dividindo opiniões. Muitas defenderam a idéia de produzir individualmente e vender
coletivamente, através de uma associação (inclusive montar uma barraca em alguma feira da
cidade de Limeira).
Foi proposto que os próximos passos serão: novas oficinas, visitas a outros
assentamentos (para que elas conheçam o modo de produção, as lavouras e os manejos
realizados), além de outras práticas que poderão adotar em seus lotes. A intenção é o repasse
de seus conhecimentos para outros assentados, caracterizando assim uma troca de saberes
entre os agricultores.
Todas disseram ter gostado das primeiras oficinas (também foi uma oportunidade de
se conhecerem melhor) e que pretendem conduzir o seu lote de forma agroecológica por
querer seus alimentos saudáveis, tanto para a família quanto para o consumidor.
5.1. A mulher na zona rural
A questão do gênero ganhou muita importância nesse trabalho, a partir da realização
das oficinas, pois a presença da mulher era unânime. Desta forma, tornou-se importante
contextualizar brevemente o papel da mulher na área rural e nos assentamentos.
De acordo com Schwarz e Schwarz (1990), a revolução verde acentuou a desigualdade
entre os sexos, porque quando se passou a praticar a agricultura tecnológica, as mulheres
deixaram de integrar a força de trabalho. O papel da mulher era mais valorizado na economia
73
tradicional de subsistência. Elas são responsáveis por tarefas manuais, como transplantar,
retirar ervas daninhas e beneficiar cereais e seu salário chega a ser até 60% menor do que o
dos homens. No entanto, elas trabalham tanto quanto eles na lavoura e ainda são responsáveis
pelas tarefas essenciais à família. O trabalho doméstico das mulheres não é considerado
trabalho, sua contribuição à produção é encarada como secundária e complementar a do
homem.
No mundo rural, a percepção que as mulheres têm de seu trabalho é definida
socialmente como um jeito de ser mulher. O trabalho doméstico não se expressa em relações
monetárias, sendo esquecido e desvalorizado pela sociedade. Isso acontece devido à cultura
patriarcal, que define a inferioridade do papel feminino na sociedade. Há uma invisibilidade
do trabalho feminino, observada pelo número de mulheres que trabalham sem remuneração.
Assim, separar a análise do trabalho rural assalariado das atividades de auto-consumo e das
trabalhadoras sem remuneração (com baixa jornada de trabalho) encobre a “labuta” feminina
no campo brasileiro (MELO e SABBATO, 2006).
Ainda segundo esses autores, o trabalho da mulher é visto como uma extensão do seu
papel de mãe, esposa, dona de casa e provedora das necessidades da família. Tal papel
superpõe-se a seu trabalho na atividade agropecuária, encobrindo a verdadeira natureza da sua
ocupação e reduzindo a sua jornada de trabalho. Isso caracteriza bem a visão, no mundo rural,
do papel exercido pelo homem como provedor e da mulher como reprodutora.
De acordo com Butto (2006), para além do acesso a terra, participar da produção nos
assentamentos está na maioria das vezes limitada pelas responsabilidades desiguais entre
homens e mulheres no trabalho reprodutivo das famílias. Com menor tempo e sem acesso às
decisões de gestão da produção, as mulheres assentadas, assim como as agricultoras
familiares, atuam nos quintais garantindo o auto-consumo das famílias. Por não ter acesso à
renda monetária, permanecem invisíveis na economia dos assentamentos.
Na tentativa de solucionar a questão de gênero, foi implantada, pela portaria nº
981/2003 do INCRA, a titularidade conjunta e obrigatória da terra (reivindicação histórica dos
movimentos sociais). Apesar de prevista na constituição federal desde 1988, não havia o
instrumento legal que a tornasse obrigatória (BUTTO, 2006).
A autora ainda afirma que esta garantia permite à mulher apoderar-se da renda e de
todos os benefícios econômicos e sociais. Cria-se condições dignas e justas para sua
permanência no campo, diminuindo a pobreza, a desigualdade e restabelecendo os seus
direitos de cidadã. Essa foi uma grande conquista para as mulheres e para toda a sociedade.
74
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho permitiu fazer uma caracterização dos trabalhadores rurais moradores do
acampamento Elisabete Teixeira e de suas intenções, vontades e sonhos com relação ao
futuro.
No geral, os acampados residiam em municípios vizinhos à cidade de Limeira antes da
chegada ao acampamento, embora sua origem esteja diretamente relacionada ao campo. Estas
pessoas têm como característica (como em outros assentamentos do Brasil) o fato de, no
passado, terem tentado melhorar sua condição de vida e renda nas áreas urbanas e a falta de
estudo. Pelas circunstâncias passadas em suas vidas, viram-se obrigadas a retornar ao campo,
passando a recorrer, desta forma, ao engajamento nos movimentos sociais (sobretudo o MST).
Assim como foi observado por Borsatto et al (2007) no Paraná, no acampamento
Elisabete Teixeira fica evidente que a prioridade da produção e da criação agrícola é voltada à
soberania alimentar da família. Fato que justifica também a grande diversidade de cultivos e a
escolha das espécies a serem plantadas e/ou criadas. O pequeno espaço para cultivo deixa para
segundo plano uma possível venda da produção, embora não descarte sua integração no
mercado local e regional.
No Elisabete, quando a situação atual dos acampados é comparada com a vivida
anteriormente, há por parte deles uma percepção de melhora. Mesmo em casos em que as
condições de vida podem parecer precárias, quando se compara com a situação vivida
anteriormente, o acampamento significa uma melhora significativa na vida desta população.
Ela considera o futuro promissor, principalmente porque eles mantêm a esperança de
conquista da terra, fato que hoje é real. Há uma nítida expressão por parte deles da
recuperação da dignidade dentro da sociedade.
A criação do assentamento permitirá que esta população, tradicionalmente excluída,
possua uma fonte de trabalho, de recursos necessários à reprodução familiar e sustento no
próprio lote. Desta forma, estas famílias não precisarão recorrer a outras fontes de renda e não
dependerão de doações de terceiros.
Com relação às atividades agropecuárias futuras, a principal característica observada é
a diversidade. Se estes futuros assentados inserirem-se na economia local, esta será marcada
pela oferta variada de produtos. Tal questão influenciará na qualidade de vida de assentados e
75
consumidores e nos aspectos ambientais, que serão favorecidos devido à diversidade de
espécies e funções ecológicas exercidas por elas.
As práticas agrícolas adotadas pelos acampados são noções que a população traz de
suas experiências de vida anterior ou através de referenciais de gerações anteriores. Estes
valores atribuídos à preservação da natureza (como condição à sobrevivência deste grupo)
fazem parte de um conjunto de saberes e práticas do campesinato.
Outras características do campesinato também estão intrínsecas nas atividades destes
acampados. Um exemplo envolve a ética ambiental demonstrada por eles com relação aos
reflorestamentos voluntários. A preocupação em aproveitar os espaços do lote com uma
agricultura diversificada e consorciada também evidencia tal característica.
Outro fator destacado foi o conhecimento carregado por estas pessoas. Conhecimento
facilmente evidenciado em diversos momentos da pesquisa, como em relação aos
conhecimentos sobre o solo e de como manejá-lo corretamente. O conhecimento tradicional
permite o acúmulo de uma série de informações relacionadas ao respeito pela natureza.
Esses conhecimentos também foram importantes durante as oficinas, tanto para os
alunos da universidade quanto para as acampadas. As mulheres reconheceram que muitos
assuntos, conhecimentos e práticas abordados já eram de seu conhecimento, mas foram
esquecidos pela falta de uso. As oficinas foram muito positivas neste aspecto.
Outro aspecto notado é relatado na fala de uma acampada com relação às oficinas: “a
gente soube de um valor que a gente tem e não sabia”. Ela se referia ao interesse dos
universitários que estão trabalhando com eles, em investigar os seus conhecimentos. Ela
desconhecia a importância e o valor dos seus saberes sobre a agricultura e o meio ambiente.
As oficinas e entrevistas realizadas junto a esta população apontaram a importância de
se investigar os saberes e práticas camponesas, porque são eles que estão no trabalho da terra
no dia a dia, conhecem a dinâmica e as necessidades locais. Ao mesmo tempo, é importante
que estes conhecimentos tradicionais sejam atrelados aos científicos advindos dos estudos e
pesquisas acadêmicas, alcançando um objetivo comum entre pesquisadores e agricultores.
A busca pela soberania alimentar, reprodução da família, preservação do meio
ambiente e troca de experiências entre estes atores sociais possibilitou a construção de novas
propostas de trabalhos entre acampados e pesquisadores no sentido da consolidação da
reforma agrária.
76
7. REFERÊNCIAS
AGUIAR-MENEZES, E. L.; MENEZES, E. B. Bases ecológicas das interações entre insetos
e plantas no manejo ecológico de pragas agrícolas. In: AQUINO, A. M.; ASSIS, R. L.
(Orgs.). Agroecologia: princípios e técnicas para uma agricultura orgânica sustentável.
Brasília: Embrapa Informação Tecnológica, 2005. p. 323-339.
ALTIERI, M. Agroecologia: as bases científicas da agricultura alternativa. Tradução de P.
Vaz. Rio de Janeiro: PTA/FASE, 1989. 240p.
ALTIERI, M. Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável. 3. ed. Porto
Alegre: UFRGS, 2001. Síntese Universitária, 54. 110p.
ALTIERI, M. Agroecologia: bases científicas para uma agricultura sustentável. Guaíba:
Agropecuária, 2002. 592p.
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81
8. ANEXOS
82
8.1 Anexo A
Roteiro das entrevistas
83
Entrevista nº _______
Data da entrevista: ___/___/2008
1. PERFIL DO AGRICULTOR
1.1. Nome: __________________________________________________________________
1.2. Idade: ________ 1.3. Município onde nasceu:___________________________________
1.4. Qual o último município que morou antes do acampamento?_______________________
Zona Urbana
Zona Rural
1.5. Qual profissão exercia? ____________________________________________________
1.6. Há quanto tempo trabalha no meio rural? ______________________________________
1.7. Há quanto tempo está envolvido com o MST? __________________________________
1.8. Quando chegou ao acampamento “Elisabete Teixeira”?(data ou meses)_______________
1.9. Como era sua vida antes de morar no acampamento (melhor, mesma coisa, pior)?
Detalhar.
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
1.10. Descrição da trajetória de vida (até chegar ao acampamento, como entrou no MST, etc):
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
1.11 Quais as razões de estar na agricultura?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
1.12. Quem MORA no acampamento (composição da família)?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
84
1.13. Quem de sua família (que mora no acampamento) trabalha e onde?
Membro da
família
Homem
Mulher
Filho (a)
Filho (a)
Filho (a)
Filho (a)
TOTAL
Sexo Idade Função (coletivo do Profissão fora do acampamento (onde
(M/F)
acampamento)
trabalha – fixo ou temporário)
M
F
1.14. Qual o grau de escolaridade dos membros da família?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
1.15. Os membros da família pretendem permanecer no acampamento futuramente?
(principalmente filhos).
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
1.16. Atualmente, como se dá a subsistência da família (com a produção, trabalho na cidade,
doações)? Detalhar.
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
1.17. Futuramente, pretendem viver de que forma (voltar para cidade, morar no acampamento
e trabalhar na cidade, depender da produção, trabalhar no acampamento e na cidade, outro)?
Comente.
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
1.18. Você participa de algum tipo de associativismo (grupo informal, associação, sindicato,
partido político, igreja, etc)? Alguém da família participa (quem)? Apontar o grau de
participação (nulo, médio ou intenso). Citar.
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
85
1.19. Quais são os maiores problemas enfrentados no acampamento?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
1.20. E quais as vantagens, facilidades?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
1.21. Você possui alguma orientação técnica? (de quem, detalhes)
___________________________________________________________________________
1.22. Recebem algum tipo de crédito? (sim, não, formal, informal, condições)
___________________________________________________________________________
1.23. Vocês recebem algum de recurso (bolsa família, etc) do Governo?
___________________________________________________________________________
2. O ESTABELECIMENTO
2.1. Identificação da casa: ______________________________________________________
2.2. O entrevistado será o titular do lote? Caso não seja, indicar o grau de parentesco de quem
será: _______________________________________________________________________
2.3. Quais são as principais atividades que sua família realiza no terreno e no acampamento?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
2.4. Qual o destino atual de sua produção?
Consumo
Venda
Trocas (especificar)
Outro: _________________________________________________________________
86
2.5. Discriminação do uso do solo:
Discriminação
das culturas
Feijão
Anual
Observações
e quais são as Discriminação
Variedade
mais
das culturas
importantes
corda
Mandioca
carioca
Amendoim
preto
Abóbora
andu
Quiabo
Milho
Arroz
Café
Eucalipto
Manga
Goiaba
Perene
Maracujá
Banana
Observações e
quais são as
Variedade
mais
importantes
Mamão
Laranja
Limão
Alface
Couve
Coentro
Horta Alho
Almeirão
Salsinha
Cebolinha
Outros
Usos
2.6. Discriminação do Rebanho:
Discriminação Quantidade
Suínos
Aves
Outros
Total
Raça
Finalidade
Observação
2.7. Quais as máquinas e/ou equipamentos você utiliza na produção?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
87
2.8. Futuramente, o que pretende produzir (animais, frutas, verduras, etc)? Qual será sua
principal atividade ou cultura? Destino da produção? Discriminar.
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
2.9. Quando for assentamento, você vai querer que o modo de produção seja coletivo ou
individual, com cada assentado plantando em seu próprio lote? Argumente.
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3. RECURSOS NATURAIS
3.1. Há alguma mata/floresta no acampamento? Onde ela está localizada? Caso a resposta seja
não, ir para a questão 3.8.
___________________________________________________________________________
3.2. Por qual motivo ela ainda permanece no acampamento? (Não tem outros usos, barreira
contra vento, área de proteção da natureza, protege solo e água, não poder desmatar)
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.3. Geralmente você vai até o local desta mata? Fazer o quê?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.4. Você já aproveitou ou aproveita esta mata para alguma atividade? (Fazer cabo de enxada,
lenha, madeira para construção, passear/lazer, caçar).
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.5. Caso nunca tenha aproveitado, gostaria de utilizá-la para quê? Por que não a utiliza?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.6. Gostaria de substituir esta mata por alguma outra coisa (pasto, lavoura, etc)? Por quê?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.7. Você ajuda a conservar a mata? Como?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
88
3.8. Há no acampamento alguma área protegida por lei para proteção da natureza? Onde está
localizada?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.9. Como é o clima no acampamento? Você acha que a mata tem alguma influência sobre
ele? De que forma?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.10. Você sabe o que é mata ciliar? ( ) Sim ( ) Não
3.11. E área de reserva legal? ( ) Sim
( ) Não
3.12.Você acha que eles estão de acordo com a legislação?
___________________________________________________________________________
3.13. Em relação à vegetação, como você a classifica? Você acha que é nativa ou não?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.14. Acha que deveria ser feita a recuperação florestal em algum local? Com qual vegetação?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.15. Há algum rio ou outra fonte de água dentro do acampamento? (tipo, disponibilidade,
qualidade do recurso, restrições hídricas, uso).
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.16. O que você acha da presença do “lixão” mantido pela Prefeitura? Você acha que está em
local correto? Por quê?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.17. Você costuma ver animais que não são de criação aqui no acampamento? Quais?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
89
3.18. Quais insetos existem no acampamento? Qual a importância deles para o acampamento?
(Não têm, transmitir doenças, polinizar, fazem parte da natureza, não sabe, estraga a
plantação)
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.19. Há captura de animais vivos no acampamento? Se existir, qual o motivo?
___________________________________________________________________________
3.20. O que você entende por proteção da natureza?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.21. Já ouviu falar em agroecologia? O que é ou acha que seria?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.22. Gostaria de fazer algum curso ou participar de alguma palestra? Sobre qual tema? (não
precisa ser relacionado à conservação ou agroecologia, depois citar as nossas oficinas para ver
qual interessa).
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.23. Você já fez algum curso ou palestra sobre proteção da natureza ou agroecologia? Quem
organizou? Alguém da família já fez?
___________________________________________________________________________
3.24. Já teve dúvidas sobre assuntos relacionados à conservação da natureza e à agroecologia?
Quais? Questão para orientar o tema das oficinas, perguntar sobre o que querias saber.
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.25. Já leu ou viu materiais informativos sobre proteção da natureza e agroecologia? O quê?
___________________________________________________________________________
3.26. Quais problemas com relação à conservação da natureza você observa no
acampamento?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
90
3.27. O que acha que poderia ser feito para melhorar isso?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.28. Você acha que sua família contribui com a conservação da natureza? De que forma?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.29. Há no seu terreno alguma planta que não é de cultivo, mas que tem alguma função
positiva? Qual (is)?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.30. As plantas espontâneas (mata, ervas daninhas) têm alguma utilidade? Você as
elimina?Como?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.31. Você sabe para que servem as flores numa planta?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.32. Acha que há alguma relação entre as flores e os insetos?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
3.33. Você já viu insetos em flores? Quais? Observou o que eles faziam?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
4. MANEJO DO SOLO
4.1. Qual é o tipo de solo que você observa no acampamento (arenoso, argiloso, etc)? Ele é
bom para que tipo de plantio? É fértil? Você observa algum tipo de problema no solo?(acidez,
pouca matéria orgânica, nutrientes, etc).
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
4.2. O que você faz para melhorar a fertilidade? E o que acha que deveria ser feito?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
91
4.3. O que acha que poderia ser feito para resolver os outros problemas com o solo?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
4.4. É feito algum tipo de correção do solo (calagem)? Como?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
4.5. Você usa veneno/agrotóxico na sua cultura ou criação? Qual?
___________________________________________________________________________
4.6. Você acha que o uso de veneno/agrotóxico é perigoso? ( ) Sim ( ) Não
4.7. Para quem?(Pessoas que aplicam, para quem come o alimento, animais, água) Como ou
por quê?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
4.8. O que utiliza para fazer a adubação em seu terreno?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
4.9. Já ouviu falar em adubação verde? Faz uso dela? Caso negativo, gostaria de fazer?
___________________________________________________________________________
4.10. Você possui composteira? Caso negativo, tem interesse em fazer uma?
___________________________________________________________________________
4.11. Como é realizado o manejo de pragas?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
4.12. E o manejo de doenças?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
4.13. E o de invasoras?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
4.14. Faz rotação de culturas? Como é feito? (Caso negativo, por que não faz?)
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
92
4.15. Discriminação das Entradas no Sistema
Discriminação
Vegetal
FinalidadeÉpoca QuantidadeObservações
Animal
FERT/CORRETIVOS
AGROTÓXICOS
Uso vegetal
Uso animal
SAL, VAC, MED.
4.16. Discriminação das Saídas do Sistema
Discriminação tipo/forma Época Quantidade
Orig. vegetal
Orig. animal
Trabalho
Outros
Observações
93
4.17. É feito algum tipo de processamento dos alimentos para a comercialização? Caso
negativo, seria interessante? Qual produto?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
4.18. Outras considerações/observações:
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
5. Qual é o seu sonho?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
Entrevistador: _______________________________________________________________
Acha que o acampado foi um bom entrevistado?
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
94
8.2. Anexo B
Cartilha oficina 1: Agricultura e Meio Ambiente
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