A INFLUÊNCIA DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM DO ALUNO: ESTUDO DE CASO – PROJETO AQUARELA Daphne Lúcia da Veiga, Márcia Aparecida da Silva, Priscila Andrezza da Silva Orientador: Msc. Gilson dos Anjos Ribeiro Universidade do Vale do Paraíba – UNIVAP/ Faculdade de Educação e Artes – FEA/ Rua Tertuliano Delfim Jr., 181, Jardim Aquárius. CEP: 12246-001 São José dos Campos – SP. E-mails: [email protected]; [email protected]; [email protected]; [email protected] Resumo- A violência doméstica contra crianças e adolescentes pode atingir qualquer classe social. Partindo deste pressuposto o objetivo é analisar como tais situações podem influenciar no processo de aprendizagem dos educandos. A realização do estudo seguiu um método qualitativo por intermédio de entrevistas com a pedagoga responsável pelo Projeto Aquarela, visando traçar o perfil dos alunos e as estratégias de trabalho utilizadas a fim de minimizar as dificuldades enfrentadas. A aprendizagem de uma criança vítima de maus tratos fica comprometida por um conjunto de fatores como: baixa alto-estima, falta de concentração, apatia, agressividade entre outros indicativos significativos de abuso. Desta forma, quanto mais tempo à criança sofrer a violência, independente do grau de gravidade, maior será o comprometimento, principalmente na aprendizagem. Palavras-chave: Família, violência doméstica, aprendizagem, aluno Área do Conhecimento: Ciências Humanas/Educação Introdução A violência doméstica tema do estudo, apresenta uma relação com a violência estrutural, ou seja, uma violência entre classes sociais, inerente ao modo de produção das sociedades desiguais, “ocorrendo na própria vida familiar, onde costuma ser protegido pelo segredo e por vários mitos.” (Mello, 2008). Segundo Guerra (2005) existem quatro tipos de violência doméstica reconhecidos: violência física, violência sexual, violência psicológica e negligência. Para Shnit (apud Westphal, 2005) os progenitores da criança são o seu modelo de identificação e o seu primeiro abrigo em toda a questão que demande aconselhamento e orientação do adulto. Quando a base de confiança e apoio é, em vez disso, uma fonte de experiências negativas devido à violência e negligência, o dano físico e mental à criança tende a ser enorme. Desta forma Piaget (1978) afirma que “a inteligência pode desenvolver-se aquém ou além do seu potencial, dependendo do conjunto de influências e estimulações ambientais, que alterem os padrões de comportamento do indivíduo”. Partindo deste pressuposto consideramos que a violência doméstica sofrida por uma criança ou adolescente comprometerá o seu desenvolvimento cognitivo, social e motor, prejudicando a aprendizagem. No entanto, a violência doméstica pode atingir crianças e adolescentes de qualquer classe social, baseado nisso o “Projeto Aquarela”, fonte principal do estudo realizado, tem como objetivo romper o ciclo da violência doméstica, atendendo a crianças e adolescentes, bem como suas famílias. As vítimas assistidas pelo projeto são acompanhadas por uma pedagoga que utiliza um diário constando à frequência dos atendidos e as atividades propostas. O trabalho desenvolvido pelo projeto conta também com a parceria da escola durante todo o processo de investigação até o momento do desligamento do assistido. Partindo deste princípio, o objetivo da pesquisa é analisar como a violência doméstica sofrida por crianças e adolescentes pode influenciar no processo de aprendizagem. Nas escolas, a violência doméstica pode ser detectada a partir de algumas ocorrências escolares como: ausências frequentes, baixo rendimento, falta de atenção e de concentração e comportamentos como apatia, passividade, agressividade e choro podem ser indicadores significativos de abuso (Azevedo & Guerra, 1989; 1998). Com isto o Estatuto da Criança e do Adolescente (2000) atribuiu à escola e a outros estabelecimentos a função de zelar pela proteção da criança e do adolescente que sofreu maus tratos com o intuito de denunciar os agressores conforme afirma o Artigo 245 “Deixar o médico, professor ou responsável por estabelecimento de atenção à saúde e de ensino fundamental, préescola ou creche, de comunicar à autoridade competente os casos de que tenha conhecimento, envolvendo suspeita ou confirmação de maus tratos contra criança ou adolescente”. XIII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica e IX Encontro Latino Americano de Pós-Graduação – Universidade do Vale do Paraíba 1 Metodologia A realização do estudo partiu de referencial bibliográfico, baseada em autores que desenvolvem trabalhos relacionados à violência doméstica e de uma pesquisa de campo no “Projeto Aquarela”, cujo objetivo é romper o ciclo da violência doméstica, atendendo a crianças e adolescentes, bem como suas famílias independentes da classe social. A pesquisa seguiu o método qualitativo, por meio de entrevista com a pedagoga responsável, com o objetivo de traçar o perfil do educando e as estratégias de trabalho estabelecidas para auxiliar no processo de ensino-aprendizagem. Foi realizado um questionário com as seguintes perguntas: “Qual é o perfil do aluno que sofre violência doméstica?”; “Como a escola lida quando identifica alguma criança que sofre maus tratos?”; “Como é o aprendizado dessa criança e o que mais atrapalha o seu desenvolvimento escolar?”; ”De que forma o professor pode agir para minimizar as interferências na educação desta criança?” e “Como ocorre a interação da família, escola e aluno diante da violência doméstica?”. As respostas da pedagoga serão analisadas verificando como a violência está relacionada à aprendizagem. Resultados O Projeto Aquarela conta com duas unidades no município de São Jose dos Campos, a visita aconteceu à unidade situada na região sul da cidade, A pedagoga responsável pelo trabalho com as crianças apresentou à estrutura física do local e as instalações utilizadas para o atendimento das crianças e seus familiares, bem como a realização e o roteiro das atividades apropriadas para cada caso de violência sofrida. As atividades se iniciam por meio de uma avaliação diagnóstica visando separar as crianças e adolescentes de acordo com o tipo de violência doméstica sofrida (física, abuso sexual, psicológica ou negligência) e faixa etária. As vítimas assistidas pelo Projeto são acompanhadas pela pedagoga que utiliza um diário constando à frequência dos atendidos e as atividades propostas. O trabalho desenvolvido conta com a parceria da escola durante o processo de investigação até o momento do desligamento do assistido. A Unidade Escolar recebe um ofício solicitando um relatório da vida escolar da criança e/ou adolescente enfatizando os seguintes aspectos: a sua frequência, aprendizagem, compreensão, relacionamento, apresentação pessoal, presença da família, participação em acompanhamentos paralelos, comportamento no âmbito escolar e outras informações. Ao final do semestre os dados obtidos com as observações realizadas das atividades aplicadas, tanto em grupo como individual e do relatório de vida escolar, são analisados por uma equipe multidisciplinar. Pode-se detectar por intermédio de análises dos resultados obtidos perante aos objetivos propostos que o perfil do aluno vítima de violência doméstica não pode ser generalizado devido à especificidade de cada violência sofrida (violência física, psicológica, sexual e negligência), levando em conta também as diferenças entre as crianças e os adolescentes. A pedagoga ressalta que: “a importância da assistência de início quando são detectados os maus tratos e interrompido ainda na infância este ciclo de violência, e sendo essa família assistida pelo Projeto, provavelmente essa criança não terá problema de aprendizagem, já o contrário certamente a dificuldade será de grau elevado sendo necessária a ajuda de um psicopedagogo.” As formas de lidar com as situações no ambiente escolar variam de uma unidade escolar para outra e se os profissionais são capacitados para atender essas necessidades. Se identificado os sinais de violência, o próprio professor pode fazer a denúncia por meio da direção da escola. Outra forma ocorre quando é solicitado um relatório do aluno que faz parte de algum Projeto de assistência psicológica, como é o caso do Projeto Aquarela. O aprendizado da criança vítima de violência doméstica na grande maioria das vezes é prejudicado por um conjunto de fatores como: baixa auto-estima, falta de concentração, medo, insegurança, desorganização interna e espacial. A pedagoga afirma que: “quanto mais grave e sucessiva for à violência maior será o comprometimento, em especial na aprendizagem porque grande parte das dificuldades provém de questões emocionais” O professor precisa ficar atento aos indicativos de violência e próximo ao aluno, tentar entendê-lo e não criticá-lo, estimulando e incentivando, a fim envolver a família na vida escolar da criança e/ou adolescente em participações de reuniões ou qualquer evento da escola. Por fim a interação da família e da escola junto ao aluno depende do tipo da violência sofrida e do grau de envolvimento das pessoas Discussão Os dados coletados durante a pesquisa sugerem que há uma influência significativa no processo de aprendizagem da criança e/ou adolescente vítima de violência doméstica. Cada XIII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica e IX Encontro Latino Americano de Pós-Graduação – Universidade do Vale do Paraíba 2 tipo de violência sofrida pela criança é demonstrado por um comportamento diferenciado, cabendo a escola, a família e aos educadores intervir de forma correta. Segundo Guerra (2005), a violência doméstica contra crianças e adolescentes representam todo ato ou omissão praticados por pais, parentes ou responsáveis contra criança e/ou adolescentes que sendo capaz de causar dano físico, sexual ou psicológico a vítima – implica, de um lado, uma transgressão do poder/dever de proteção do adulto, e de outro, uma coisificação da infância, isto é, uma negação do direito que crianças e adolescentes têm de ser tratados como sujeitos e pessoas em condição peculiar de desenvolvimento. Assim, o Estatuto da Criança e do Adolescente assegura o cumprimento da lei em casos de violência que comprometa o pleno desenvolvimento dos menores como afirma o Artigo 5º (apud Mello, 2008) “Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.” Para Vygotsky (1984) “o meio cultural e as relações sociais do indivíduo definem o curso do desenvolvimento da pessoa humana”. Desta forma se a criança sofre em seu seio familiar diversas agressões, provavelmente as suas atitudes serão reproduzidas em outro momento e contexto. Por meio dos aspectos abordados durante a pesquisa propõem-se garantir, em suas diferentes abordagens e intervenções o espaço para a vivência do diálogo infantil, valorizando as fantasias e os jogos de imaginação que a criança cria ao brincar, pois são de grande significado, uma vez que ajudam a corrigir erros evolutivos que estariam impedindo ou perturbando seu desenvolvimento, além de propiciar o acesso ao ambiente cultural e a evolução da linguagem e do pensamento. (Mello, 2008). Para Santos (apud Westphal, 2005) é essencial detectar da forma mais precoce possível a existência de maus tratos na infância não só corporais, mas também psicológicas, corrigindo com um suporte legal e social adequado os fatores determinantes, em cada caso da gênese da violência. Convém lembrar que grande parte dos atos de violência contra crianças e adolescentes ocorre dentro da família. Por isso, esta violência fica oculta, sendo mantida na obscuridade por uma cortina de medo e constrangimento emocional. Crianças maltratadas têm uma alta probabilidade de se converter em pais que também maltratam. Ao não se romper essa cadeia, estaremos perpetuando e consolidando uma espiral de violência. Conclusão Por meio de nossas observações e análise de dados, podemos afirmar que houve consecução dos objetivos almejados nesta pesquisa, visto que a violência doméstica sofrida por uma criança ou adolescente comprometerá o seu desenvolvimento cognitivo, social e motor, prejudicando a aprendizagem. Podemos nos deparar com crianças e adolescentes que possam apresentar marcas físicas, traumas psicológicos, fortes reações emocionais, sinais de falta de cuidado e de afeto, do mais leve ao mais alto grau, que podem ser resultado da violência por ação ou por omissão, oriunda dos próprios familiares (pais, irmãos, avós, etc.), por pessoa conhecida ou desconhecida. A família, a escola e as demais instituições socializadoras devem fazer uma mobilização, uma vez que são agentes na efetivação dos direitos e garantias estabelecidos pelo referido Estatuto da Criança e do Adolescente, de denunciarem casos em que a transgressão do mesmo ocorre. Essa realidade de transgressão atinge uma parcela significativa de crianças, visto que seu cotidiano é permeado pelas mais variadas formas de violência, em especial pela violência doméstica. Referências AZEVEDO, Maria Amélia, GUERRA, Viviane N. de A. Crianças Vitimizadas: a síndrome do pequeno poder. São Paulo: Iglu. 1998. ______.E GUERRA, Viviane N. de A. Infância e Violência Fatal em Família. São Paulo: Iglu. 1998. ______.E GUERRA, Viviane N. de A. (Orgs). A Infância e violência doméstica: fronteiras do conhecimento. 5ª. Ed. Ver. E atualizada. São Paulo: Cortez, 2009. BRASIL. Estatuto da criança e do adolescente Obra coletiva de autoria da Editora Saraiva com a colaboração de A. L. T. Pinto, M.C. V.dos S. Windt e L. E. A. de Siqueira. 10ª. Ed., São Paulo: Saraiva. 2000. GUERRA, Viviane N. de A. Violência de pais contra filhos: a tragédia revisitada. 5ª. Ed. São Paulo: Cortez, 2005. MELLO, Anna Christina Cardoso de. Kit respeitar: enfrentamento à violência contra crianças e adolescentes: criar respeitando: guia para pais e responsáveis. São Paulo: Fundação Orsa: SEADS: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008. XIII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica e IX Encontro Latino Americano de Pós-Graduação – Universidade do Vale do Paraíba 3 PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984. WESTPHAL, Márcia Faria. Violência e criança. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2002. XIII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica e IX Encontro Latino Americano de Pós-Graduação – Universidade do Vale do Paraíba 4