MEMÓRIA, IDENTIDADE E TERRITORIALIDADE EM BARRA DO PACUÍ NORTE DE MINAS. SILVA, Simone Aparecida Leite [email protected] Opará - Tradição, Identidades, Territorialidades e Mudanças entre Populações Rurais e Ribeirinhas no Sertão Roseano. Populações Tradicionais e Processos Sociais Neste artigo, desenvolvo uma reflexão acerca da relação entre memória, identidade e territorialidade na comunidade rural negra Barra do Pacuí, norte de Minas Gerais, verificando e apontando onde e como os conteúdos de etnicidade da comunidade se expõem, constituindo-se como marcadores diacríticos de sua identidade. A história dessa comunidade está vinculada à chegada de cinco famílias, na década de 1930, vindas do município de Pirapora, onde trabalhavam como meeiros em uma fazenda, obtendo através disso os recursos para a compra conjunta de quarenta e oito alqueires de terra, entre os rios Pacuí e São Francisco, no município de Ibiaí. A fertilidade da terra e a abundância de recursos naturais disponíveis estimularam-os a levar para lá seus parentes que trabalhavam como empregados em fazendas nas cidades ribeirinhas de Januária e São Romão. Segundo eles: “para que trabalhar no que é dos outros se podiam trabalhar no que é da gente?”. Dessa forma, a comunidade foi crescendo e organizando sua moradia e o seu sistema de trabalho de acordo com a sazonalidade determinada pelo ciclo de seca, enchente, cheia e vazante do rio São Francisco. Na seca, eles moravam na beira do rio e, nas águas [período chuvoso], eles se estabeleciam na parte mais alta, a uns oitocentos metros do rio. Anos mais tarde, em função das enchentes constantes, os moradores se mudaram permanentemente das margens para o lugar onde hoje se localiza a Barra do Pacuí. Através da pesquisa etnográfica foi possível compor uma narração referente à “formação e manutenção do lugar”, como disse Seu João Bento sobre a história de Barra do Pacuí. Para os seus membros mais velhos, a historicidade do lugar se divide em dois momentos: o tempo dos véios e o tempo de hoje. As noções de tempo e espaço assumem formas distintas nas várias sociedades das quais emanam, portanto são cultural e historicamente relativos. Coletividades diversas têm matrizes temporais e espaciais diferentes. Os pontos de referência para a contagem do tempo são 2 selecionados entre eventos socialmente significativos, assim como os marcadores sócioespaciais estão de acordo com os modos de vida dominantes em dada comunidade. Cada sociedade caracteriza-se por uma configuração particular de espaços e tempos sociais. Nas sociedades tradicionais, existem temporalidades específicas, mas também formas singulares de relação com o espaço, as quais se desenvolvem promovendo uma fusão dos acontecimentos marcantes que conformam a memória coletiva, aqui compreendida como sendo o mecanismo da estruturação do processo histórico de certa comunidade ou grupo social através daquilo que está presente na lembrança dos membros da comunidade ou do grupo. No caso da Barra do Pacuí, há um imbricamento dos tempos e espaços narrados, pois alguns acontecimentos pertencentes ao tempo dos véios foram vivenciados pelos atuais moradores quando eram crianças e presenciaram de alguma forma os eventos. Além desses imbricamentos, a memória coletiva está fortemente ancorada nos ciclos e na historicidade do rio São Francisco, fazendo com que o comportamento do rio funcione como um marcador temporal, no qual as lembranças são acionadas de acordo com a época das secas, enchentes, cheias e vazantes. Apesar das categorias nativas de tempo se fundamentarem em tempo dos véios e tempo de hoje, na interpretação das narrativas dos mais velhos, descendentes dos fundadores, a historicidade dessa coletividade compreende quatro momentos distintos: o primeiro, o tempo anterior a nós, aquele da memória vaga, onde o sentimento de comunidade se estende a outros lugares. O segundo, o tempo fundamental ou tempo dos nossos [ancestrais fundadores], um tempo antigo, mas próximo. O terceiro, a história factual, o tempo do nós, da história viva, da atualidade ou presente. O quarto, tempo dos outros, diz respeito à sedimentação da consciência do nós no futuro. O primeiro se configura no sentimento outrora carregado por seus pais, que traziam consigo uma história mítica, ocorrida em outra época e em outros locais. Memórias essas sintetizadas em regras morais e valores, passados por seus ancestrais através da oralidade. Para o segundo, a formação se configura nos tempos de nossos pais, são as lembranças dos moradores mais antigos do lugar, que fazem referência a um passado não tão distante, sempre acionado em frases como: “meu pai que me contou”, “lembro que isso aconteceu; porque meu pai me falava”, e assim por diante. Esse tempo, quando confrontado com o tempo do nós, relacionado aos direitos territoriais, expressa-se em falas como: “eles [nossos pais] não sabia de nada”; “eles [nossos pais] não tinham conhecimento da lei”, e na reflexão sobre a sua 3 condição atual face a esses direitos, expressões como: “isso acontece porque somos fracos” e “a lei é feita pra quem tem dinheiro”. Atualmente a comunidade Barra do Pacuí tem aproximadamente cinquenta e cinco famílias “vivendo” em um território de menos que vinte e quatro alqueires. A fim de compreender a situação social na qual a comunidade em foco se encontra, é necessário fazer uma imersão na historiografia do lugar, através da memória, buscando apreender os fatos significativos relacionados à formação dessa coletividade e à constituição de seu modo particular de vida. Tempo dos Véios1 Os guardiões da memória da comunidade negra Barra do Pacuí contam a história de sua origem vinculada à chegada de cinco famílias ao local, por volta do ano de 1934. Os fundadores - Francisco José Soares (conhecido como Chico Bigodão), Benedito Nunes Siqueira, Anacleto Pereira de Matos, Manoel de Alcântara e Benedito de Paula Elisbão – compraram quarenta e oito alqueires de terra naquela localidade, por intermédio de um fazendeiro, Senhor Carolino, que negociou a compra da área com a proprietária, Dona Serja. Anteriormente, os cinco eram meeiros do Senhor Carolino, fazendeiro do município de Pirapora, ou seja, eles trabalhavam em terra alheia, possuindo o direito à moradia e trabalho, e pagavam pelo uso da terra com a metade de tudo que produziam - arroz, milho, feijão, frutas, galinhas, porcos, tudo era dividido ao meio com o dono da terra. A relação entre os meeiros e o fazendeiro, segundo os relatos dos descendestes dessas famílias, era de confiança e amizade, porém, quando os filhos do Senhor Carolino cresceram e assumiram a administração da fazenda, esse trato foi rompido e estabeleceu-se uma relação pouco amistosa e de exploração por parte dos donos. Essa situação fez com eles resolvessem sair daquela fazenda, com a ajuda do próprio fazendeiro Carolino, intermediador da compra das terras no município de Ibiaí. A memória anterior a esse tempo é vaga, eles relatam apenas que seus ancestrais eram de São Romão e Januária e viviam nas andanças rio [São Francisco] acima, “caçando melhora”, até que chegaram, em momentos diferentes, a essa fazenda em Pirapora, onde se conheceram, tornaram-se amigos, constituíram família e se estabeleceram por um tempo. Essa história permanente de vivências, desde os seus ancestrais, na beira do Rio São Francisco, faz com que, atualmente, os nativos da Barra do Pacuí se identifiquem como barranqueiros. 1 Expressão nativa, ao referirem-se aos antepassados 4 A chegada dos fundadores ao lugar onde o rio Pacuí encontra o rio São Francisco, com o erguimento de pequenas cabanas e a implantação de roças ao longo da beira do rio constituise em um ato simbólico de instauração de um novo mundus (WOORTMANN, 1995), instituído através do trabalho baseado na organização social familiar estruturada por relações de reciprocidade. O mundus social vai persistir enquanto os seus descendentes permanecerem vivendo nesse lugar instituído em tempos pretéritos. Por um tempo, a sazonalidade entre a beira do rio e as terras mais altas caracterizava o lugar de moradia e as roças. Depois, devido à necessidade de locomoção constante por causa das enchentes, as famílias mudaram-se em definitivo para o local onde hoje é a comunidade, recuado uns 800 metros da margem. No início, quando algum padre ia até a comunidade, o rio era a única via de acesso, e as celebrações, que não eram constantes, aconteciam nos terreiros das casas, que também serviam de local para rezar o terço, a folia de Bom Jesus, a festa de casamento, o pagamento de promessas, ou qualquer tipo de comemoração. Depois da mudança para o lugar atual, e trinta anos após a chegada dos fundadores, foi erguida uma pequena igreja devotada a Nossa Senhora Aparecida onde toda a população reúne-se para festejá-la no mês de outubro de cada ano. A principal característica que marca o modo de vida nesse tempo é o fato de que a terra era comum - não havia cercamento e todos sabiam os limites de cada um. A divisão dos direitos de cada um dos fundadores se deu de acordo com a quantidade de dinheiro disponibilizado na compra coletiva da terra: Francisco José Soares tinha 10 alqueires, Benedito Nunes Siqueira tinha 10 alqueires, Anacleto Pereira de Matos tinha 10 alqueires, Manoel de Alcântara tinha 10 alqueires e Benedito de Paula Elisbão tinha 08 alqueires. Assim, cinco famílias negras se tornaram donas de 48 alqueires de terras da Fazenda Barra do Pacuí, instituindo uma forma de utilização comum do território que compreendia: a área adquirida na terra firme, a ilha é utilizada como complementação da área de cultivo2, a lagoa marginal e os rios Pacuí e São Francisco, de alta piscosidade. As famílias plantavam e pescavam objetivando o consumo próprio, mas o rio São Francisco exercia um papel de rota comercial dinâmica para venda ou escambo de produtos, mostrando que as populações camponesas não se mantinham isoladas das dinâmicas econômicas da sociedade moderna. O Rio São Francisco aparece nas lembranças desse povo como sendo, dentre tantas outras coisas, o elo ou a possibilidade de comércio da comunidade com os municípios da redondeza, principalmente Pirapora. 2 Luz de Oliveira (2005) e Araújo (2009) analisando o processo de expropriação territorial e perda dos direitos de acesso à terra firme entre as comunidades vazanteiras do São Francisco, nos municípios de Januária, Matias Cardoso e Manga, mostram como as ilhas passaram a ser refúgios para essas populações em busca de terra livre. 5 As famílias não trabalhavam sozinhas, uma vez que havia a troca de dia, assim a produção de cada família tinha a participação de todos. A terra sempre foi o elemento central para que os moradores produzissem e reproduzissem a vida familiar e coletiva. A moeda de troca, nas relações de trabalho, era o próprio trabalho. Desta forma, um ajudava o outro no trabalho do roçado, mantendo, assim, um grau considerável de solidariedade. E essa se estendia para todo o âmbito da vida social fundamentada nas relações de parentesco. Parentesco: “aqui todo mundo é uma grande família” A comunidade Barra do Pacuí, ao longo do seu processo de formação, utilizou-se do casamento entre as famílias fundadoras como estratégia de organização, permanência e manutenção do território. Essa estratégia se manteve na primeira geração de descendentes dos fundadores, já na segunda geração começam as práticas de exogamia. Porém, o casamento com “os de fora” não se apresenta como um mecanismo de ampliação territorial, visto que homens e mulheres “de fora” que se casam com os “de dentro” passam a residir na comunidade. Podem ser descritos dois tipos preferenciais de casamento: casamento com “os de dentro”, ou endogâmico, e casamento com “os de fora”, ou exogâmico. Na perspectiva de Woortman (1995), no casamento endogâmico a terra não é vista apenas como fator de produção, mas como patrimônio, isto é, contém em si um valor moral. Desta forma, os homens, ao se casarem com mulheres “de fora”, não transferem seu status às mesmas por um longo período, até que estas, de alguma forma, realizem algo significativo para a comunidade, como ser madrinha de um descendente direto das famílias locais ou quando é percebido que ela e seus descendentes respeitam “o sistema do lugar”. Assim, podem assumir uma responsabilidade dentro da comunidade, onde a família fica sendo guardiã3 da bandeira da festa, nesse caso a de Nossa Senhora Aparecida. Apesar de ficar com a família, à mulher cabe a responsabilidade dos cuidados, como limpeza, enfeites, etc. No entanto, a parte administrativa e ecumênica do evento fica sob a responsabilidade dos “de dentro” 4. No caso das mulheres “de dentro” se casarem com homens “de fora”, esses, por sua vez, ficam responsáveis pela manutenção e produção de seu pedaço de terra. O espaço para o plantio, seja na ilha ou na terra firme, não se constitui apenas como lugar de trabalho, mas 3 A pessoa ou família é responsável por guardar em sua casa durante todo o ano a bandeira do santo em questão e também pelo hasteamento da mesma no dia da festa. 4 Baseado na perspectiva de Barth (2000) ao analisar as relações entre os estabelecidos e os outsiders. 6 como o lugar onde as interações sociais acontecem. O homem “de fora” traz para si o status de sua esposa e logo assume papel de responsabilidade dentro da comunidade. Percebe-se existirem na comunidade diferenças de status relacionadas ao gênero dos “de fora”: a aceitação do homem no local se dá com maior facilidade, porque as mulheres “de dentro” - suas esposas - lhes proporcionam isso, quando lhes transferem seu poder de atuação, ao passo que os maridos “das de fora” não transferem seu status para sua esposa. O compadrio também cumpre um papel de grande importância dentro da comunidade, tem a função de inserir o “de fora” dentro das teias de relações da Barra. Assim, os filhos dos “de fora” são entregues às famílias de descendentes dos fundadores do lugar para serem apadrinhados. Foram constatados cinco tipos de compadrio: através de batizado na Igreja Católica; da Crisma; do batizado de fogueira, da Festa de Santo Antônio; de formatura da 8ª série, que é uma forma mais recente e não muito considerada; e o compadrio por consideração ou afinidade, no qual os pais são compadres e se cumprimentam como tal e, automaticamente, os filhos ou irmãos do afilhado começam a chamá-lo, também, de compadre. Esse tratamento começa durante a infância e perpassa a idade adulta, continuando por toda a vida a se tratarem como compadres. Nesse ínterim, as relações de parentesco na comunidade Barra do Pacuí se estruturam de acordo com suas tradições e por uma identidade social invariante e inequívoca. Os efeitos desses posicionamentos dependem de uma função, delegada de acordo com um relacionamento estabelecido. Embora teoricamente seja possível existir vários grupos com diferentes ou possíveis funções, não se pode apelar a quem quer que seja, ou em qualquer ocasião, nem oferecer seus serviços a qualquer pessoa, independente da finalidade. Então, as pessoas tendem a manter uma rede de relações preferenciais, incluindo as práticas sociais do parentesco e compadrio. Utilizando estratégicas diversas, a comunidade projeta em seus membros sentimentos capazes de formar um substrato definidor da sua própria existência, através do processo de internalização dos valores e objetivos da mesma. Tempo de hoje Hoje a comunidade Barra do Pacuí tem aproximadamente cinquenta e cinco famílias “vivendo” em um território de menos que vinte e quatro alqueires. A distância entre a situação 7 atual e aquela que marca a fundação dessa coletividade pode ser compreendida pelo crescimento populacional associado a um processo de expropriação do território ancestral. Esse processo tem início cinco anos depois da chegada das famílias, ainda no final da década de 1930, quando fazendeiros da região, em especial o senhor Aristides Batista, proprietário da fazenda Várzea dos Bois, que fazia divisa com a então Fazenda Barra do Pacuí, tirando proveito da relação de amizade, pediu permissão aos novos donos da terra para “arredar a cerca um pouquinho mais”, alegando que os moradores não tinham criação de gado e, quando precisassem da terra, ele a devolveria. A devolução nunca aconteceu. Através desse ato, o fazendeiro agregou grande parte das terras pertencentes àqueles grupos familiares à sua fazenda. Baseado na confiança por parte dos agricultores, que marca as relações de solidariedade vertical entre eles e os fazendeiros, Chico Bigodão em pleno acordo com demais proprietários, repassou o dinheiro e o documento de compra da terra para ser registrado no cartório de Coração de Jesus a esse mesmo fazendeiro, Aristides Batista. Ademais, ao longo do tempo, tudo relacionado aos impostos da terra eram repassados para o fazendeiro resolver na cidade. Na década de 1990, a comunidade passaria por outra perda de seu território, protagonizada pelo fazendeiro Manim Maia, neto do senhor Aristides Batista, que simplesmente “arredou” novamente a cerca, incorporando grande parte da terra da comunidade, incluindo uma rua cheia de casas, a lagoa e as áreas de roça de Seu João Bento. Os fatos então se repetem, não mais pela confiança, e sim pela coerção. Pois desde meados da década de 1940, começa a se desestruturar o que Costa (1997) classifica como “relação de solidariedade vertical”, passando a prevalecer as “relações de solidariedade horizontal”, ou seja, entre aqueles que ocupavam o mesmo lugar social. Desta vez, Seu João Bento, o morador mais velho da Barra e descendente dos fundadores da comunidade, recorreu à justiça, mas foi em vão. Conta seu João Bento que, se não fosse por ele, uma das poucas ruas da comunidade hoje, também, estaria dentro da fazenda do Manim Maia5. Conforme determinação da Justiça e intervenção do prefeito, o fazendeiro refez os limites da cerca apenas liberando as casas e não o restante da terra. É o retrato da parcialidade e descaso do Estado e da Justiça em relação às comunidades tradicionais no Brasil. Ao relatar esses acontecimentos do passado até o momento atual – do tempo dos véios ao tempo de hoje – são feitas afirmações como: “eles [os véios] não sabia de nada”; “eles não 5 Seu João Bento se refere à rua onde está localizada a fabriqueta de farinha; a última casa desta rua em direção ao rio São Francisco ficou dentro da fazenda do Manim Maia. 8 tinham conhecimento da lei”, que logo dão lugar a frases como: “isso acontece porque somos fracos”, “a lei é feita pra quem tem dinheiro”. Se no tempo dos veio o fazendeiro utilizou-se da boa vizinhança para obter a autorização do avanço da cerca para dentro do território deles, pois tudo era regido pela confiança, no tempo de hoje eles não querem nenhum tipo de relacionamento com os fazendeiros para não correrem o risco de acontecer tudo novamente, pois apesar deles hoje terem conhecimento dos seus direitos, a justiça é “injusta com eles, pobres trabalhadores rurais”. Festas de santo e do povo No dia 12 de outubro, é comemorada a festa da padroeira da comunidade Barra do Pacuí, a festa de maior expressão religiosa e comoção popular. Caso esse dia seja no meio da semana, a festa é comemorada no próximo fim de semana. Na semana da festa, a comunidade para com seus serviços normais, por exemplo, o trabalho na lavoura, a pesca, etc, e tornam-se mais intensas as idas à cidade de Ibiaí, a reforma das casas, limpeza de ruas e praça. Acontece simultaneamente, porque, tão importante quanto a comemoração da festa, é a chegada dos parentes que moram fora. É tempo de oração e de reencontros; a comunidade como um todo se organiza para a festividade. No ritual da festa, a comida simboliza a dádiva, já que, através da distribuição da mesma, é estabelecidoum sistema de reciprocidade próprio entre os moradores. Na comunidade Barra do Pacuí, a comensalidade se dá de maneira peculiar, há uma socialização da comida, preparada e servida nas próprias casas individualmente - cada família cozinha sua própria comida, mas isso não significa que só os moradores vão desfrutar daquele alimento, a comida é preparada individualmente, mas ofertada a toda a coletividade, isto é, qualquer pessoa que chegar às residências lhe será oferecida a comida. A comunidade consegue variar a alimentação, principalmente as carnes. O que normalmente é uma dificuldade na comunidade, nesta época está presente na dieta deles, de maneira farta e variada - carne bovina, suína, peixes e cabrito. E já que são poucos aqueles que têm renda fixa, somente os aposentados e os funcionários públicos da escola, lembrando também, os beneficiários do Programa Bolsa Família6 , que é para muitas daquelas famílias a única renda, têm condições de variar o cardápio. 6 O Programa Bolsa Família (PBF) é um programa de transferência direta de renda com condicionalidades, que beneficia famílias em situação de pobreza, de acordo com a Lei 10.836, de 09 de janeiro de 2004 e o Decreto nº 5.209, de 17 de setembro de 2004. 9 Mas esse tipo de comensalidade, da Festa de Nossa Senhora Aparecida, não foi percebido em outras festividades. Na dança de São Gonçalo7, tanto a comensalidade quanto a preparação dos alimentos se fazem no âmbito do coletivo. A dança de São Gonçalo, realizada por um grupo familiar, principalmente como pagamento de promessas, é uma festa interna da comunidade. Não existe, no caso dessa festa em questão, uma preocupação em angariar lucros. No mês de junho, entre as festas comemoradas, a de homenagem a São Antônio tem maior tradicionalidade. A festa tem um papel importante na vida daquela comunidade, representa um marcador temporal de curta distância. Caso alguma coisa seja questionado a eles, os mesmos se perguntam se aconteceu antes ou depois da festa. Outro papel importante da festa é o reencontro com os familiares que estão morando fora da comunidade, em Pirapora, Serra do Salitre, Belo Horizonte e São Paulo, dentre outras. E também muito importante é a devoção à santa padroeira do lugar, tempo de pagamento de promessas e renovação das mesmas. A identidade da Barra tem ligação direta com a religião católica, uma vez que, mesmo com a construção de uma igreja evangélica, a comunidade não participa das celebrações desta. São trazidos junto com o pastor fiéis de outras localidades para a realização dos cultos, que, segundo informações, são raros acontecer. No dia 06 de agosto, acontece a folia dedicada ao Bom Jesus. Hoje ainda é possível essa comemoração porque vêm foliões de fora para o festejo, já que dos foliões que ali viviam restam pouquíssimos. A comemoração é feita como pagamento de promessa, por graça recebida. Já a festa dos pais, comemorada no mês de agosto, tem tomado proporções grandiosas, tendo como idealizador e organizador o senhor Euclides. Nasceu a partir de uma organização familiar. Com o passar dos anos, tornou-se uma comemoração para toda a comunidade. Já a festa das mães, nasceu em contraposição à festa do dia dos pais, para que este dia, também, passasse a ser celebrado. Segundo compreende Durkheim (2003), a festa é a própria coletividade agindo como sociedade, ou seja, é um fenômeno social que contém uma representação e uma reprodução da sociedade. Na noção dürkheimiana, as representações coletivas incluem formas intelectuais e 7 A origem da Dança de São Gonçalo remonta a Portugal. Era antigamente realizada no interior das igrejas de São Gonçalo, festejado a 10 de janeiro, data de sua morte em 1259. Realizada em Portugal desde o Século XIII, chegou ao Brasil em princípios do Século XVIII, com os fiéis do santo de Amarante. Essa manifestação pode ser encontrada em quase todo o Brasil, com variações coreográficas bastante diversificadas, tomando diferentes formas de execução. Neste sentido, vide CASCUDO, Luís da Câmara - Dicionário do Folclore brasileiro. Rio de Janeiro: MEC. 10 qualquer tipo de idéia, emoção ou crença de uma coletividade. Numa representação coletiva, esse teórico afirma existir uma estrutura das idéias coletivas, uma estrutura repleta de elementos significantes, farta de uma gama de sentidos e significados. As festas constituem um tipo de ação social coletiva que está prevista no calendário anual de uma determinada sociedade, é também um espaço social e um tempo social extraordinários, onde idéias e valores se tornam perceptíveis através do poder da efervescência coletiva que promovem. Nessas comemorações, a comunidade representa para si mesma e para os outros, ou seja, esses momentos de interações são essenciais dentro da coletividade para reafirmar os laços de amizades e solidariedades ali existentes e para se afirmarem contrastivamente frente a outras coletividades. Processos de territorialização e construção identitária. Na comunidade Barra do Pacuí, o processo de territorialização pode ser compreendido a partir da conceituação de Santos (2001) e Oliveira (1999). Para Santos (2001) a territorialidade reflete o vivido territorial, em toda sua abrangência e em suas múltiplas dimensões – cultural, política, econômica e social. Ela desenvolve-se a partir da existência comum dos agentes, exercendo-se sobre um mesmo espaço geográfico, engendrando uma solidariedade orgânica do conjunto, a despeito da diversidade de interesses dos agentes. A territorialidade, atributo humano, é primariamente condicionada por normas sociais e valores culturais, que variam de sociedade para sociedade, de um período para outro. Oliveira (1999) caracteriza a territorialidade como um processo de reorganização social em um determinado espaço social com implicações nas diversas dimensões da vida, desde a criação de uma nova unidade sociocultural e/ou uma identidade étnica diferenciada, passando pelo processo de constituição de mecanismo político especializado, por uma redefinição de controle sobre os recursos ambientais e, por fim, à reelaboração da cultura em relação ao passado. O processo de reorganização social é percebido na história da comunidade Barra do Pacuí, que vem passando por vivências de desterritorialização e de reterritorialização, desde o tempo dos véios, que compreende o tempo anterior a nós, onde o sentimento de comunidade se estende a outros lugares, e o tempo dos nossos [ancestrais fundadores], até o tempo de hoje, ou o tempo do nós. Em cada um desses tempos uma nova unidade sociocultural foi criada mediante o estabelecimento de uma identidade étnica diferenciadora, afirmada através da organização de seus sistemas produtivos, de seu sistema de parentesco, de suas festas e expressões religiosas. A redefinição do controle social sobre os recursos ambientais, na condição de donos, faz-se por meio da 11 instituição de um “sistema de direitos combinados” que articula formas de apropriação familiar e comunal dos recursos disponíveis nos diversos ambientes que integram o seu território, marcada pela simbiose nas relações dos barranqueiros com o rio, a partir do qual eles constroem o seu "modo de vida". A reelaboração da cultura e da relação com o passado é visibilizada nas formas variadas em que a dádiva se manifesta no sistema de posse e trabalho, na comensalidade e nas festas. Na atualidade, a comunidade se encontra frente a um novo processo de territorialização, diante das possibilidades abertas pela Constituição Federal de 1988 e do surgimento na cena nacional dos povos e comunidades tradicionais como novos sujeitos de direito. A gama de possibilidades abertas remete a uma conexão entre afirmação identitária e direitos culturais e territoriais. Além da construção identitária ancorada nas representações coletivas construídas contrastivamente na relação com as comunidades locais com as quais mantêm interações sociais, os processos de territorialização e a historicidade do grupo possibilitam a comunidade acionar mecanismos de identificação estrategicamente posicionados no contexto social mais amplo da região e do país, no qual diversos movimentos sociais lutam por reconhecimento étnico e territorial, como, por exemplo, a reivindicação de seus direitos constitucionais 8 como quilombolas, vazanteiros ou extrativistas. Nas falas da comunidade sobre a questão dos direitos territoriais, essas as categorias quilombola e extrativista aparecem com representações distintas, uma negativa e outra positiva. Segundo O’Dwyer (2002), quilombo ou remanescentes de quilombos são termos usados a fim de conferir direitos territoriais, possibilitando várias aproximações entre os povos e reinventando novas figuras do social. As narrativas de resistência da comunidade negra Barra do Pacuí na manutenção do seu território e na reprodução de um modo particular de vida instituído pelos seus ancestrais fundadores evidenciam características suficientes o bastante para requerer junto ao Estado seu reconhecimento como comunidade quilombola. Além do direito constitucional de reconhecimento étnico e da regularização fundiária, as comunidades quilombolas possuem direitos a uma diversidade de benefícios sociais, através de políticas públicas implementadas pelo governo federal. Os moradores da comunidade Barra do Pacuí de uma forma geral têm dificuldades em se identificarem como negros. Para eles, ser negro não significa nada positivo. Ser negro, assim como a nossa sociedade nos ensinou, mesmo de forma mascarada, está relacionado a um 8 Vide artigo 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) da Constituição Brasileira de 1988. 12 referencial de significados reveladores apenas traços negativos. Os moradores, muitas vezes, identificam-se em relação à cor da pele como sendo mais claros, morenos, pardos, entre outras denominações. Indelevelmente, a cor marca o seu lugar social e a comunidade tem consciência disso. Eles têm noção do que é ser quilombola, mas na luta pelo acesso a terra optaram pela via da reivindicação da demarcação de uma reserva extrativista, junto ao IBAMA. Apesar de não ter tido possibilidade, dado os limites dessa pesquisa, de compreender com maior profundidade o processo social que dá base a essa opção, considero que a atuação dos mediadorespesquisadores, técnicos ou representantes de organizações (populares, governamentais, não governamentais, religiosas, etc.)- no diálogo com a comunidade tem sido fundamental na decisão sobre os caminhos a trilhar em busca do reconhecimento de seus diretos étnicos e territoriais, como mostram outros casos de luta das comunidades tradicionais no país e na região norte de Minas. REFERÊNCIAS ARAÚJO, Elisa Cotta de. Nas margens do São Francisco: sociodinâmicas ambientais, expropriação territorial e afirmação étnica do Quilombo da Lapinha e dos Vazanteiros do Pau de Légua. Montes Claros, 2009. BARTH, Fredrik. Os grupos étnicos e suas fronteiras, p. 25-67. In: LASK, Tomke (org.). O Guru, o iniciador e outras variações antropológicas. – Fredrik BARTH. Tradução de John CUNHA Comerford. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2000. COSTA, João Batista de Almeida. Cultura Sertaneja: a conjugação de lógicas diferenciadas. In: SANTOS, Gilmar Ribeiro dos. (Org). Trabalho, Cultura e Sociedade no Norte / Noroeste de Minas. Considerações a partir das Ciências Sócias. Montes Claros: Best, 1997. DURKHEIM, Émile. As Formas Elementares da Vida Religiosa. São Paulo: ed. Martins Fontes, 2003. O’DUWYER, Eliane Cantarino (org.). Quilombos: Identidade étnica e territorialidade. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2002. OLIVEIRA, João Pacheco de.“Uma etnologia dos índios misturados’: situação colonial, territorialização e fluxos culturais”. Em: Oliveira, J. P. de. (org.) A Viagem da Volta. Etnicidade, Política e Reelaboração Cultural no Nordeste indígena. RJ: Contra Capa, 1999. SANTOS, M. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal, Record, Rio de Janeiro, 2001. WOORTMANN, Ellen F. Herdeiros, Parentes e Compadres: Colonos do sul e sitiantes do Nordeste. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora da UnB, 1995.