CENTRO UNIVERSITÁRIO DE CARATINGA Programa de Pós-Graduação Meio Ambiente e Sustentabilidade Mestrado Profissional DESAFIOS À CONSTRUÇÃO DE UM PROCESSO DE AUTO-GESTÃO DA ASSOCIAÇÃO DOS CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS NOVA VIDA DE TEÓFILO OTONI - MG SIMONE GOMES DA SILVA CARATINGA Minas Gerais – Brasil Outubro de 2007 Livros Grátis http://www.livrosgratis.com.br Milhares de livros grátis para download. CENTRO UNIVERSITÁRIO DE CARATINGA Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Sustentabilidade Mestrado Profissional DESAFIOS À CONSTRUÇÃO DE UM PROCESSO DE AUTO-GESTÃO DA ASSOCIAÇÃO DOS CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS NOVA VIDA DE TEÓFILO OTONI - MG SIMONE GOMES DA SILVA Dissertação apresentada ao Centro Universitário de Caratinga, como parte das exigências do Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Sustentabilidade, para obtenção do título de Magister Scientiae. CARATINGA Minas Gerais – Brasil Outubro de 2007 SIMONE GOMES DA SILVA DESAFIOS À CONSTRUÇÃO DE UM PROCESSO DE AUTOGESTÃO DA ASSOCIAÇÃO DOS CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS NOVA VIDA DE TEÓFILO OTONI - MG Dissertação apresentada ao Centro Universitário de Caratinga, como parte das exigências do Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Sustentabilidade, para obtenção do título de Magister Scientiae. APROVADA: 25 de outubro de 2007. _____________________________ __________________________________ Meubles Borges Junior José Ambrósio Ferreira Neto _______________________________ _________________________________ Pierina German Castelli (Orientadora) Marcos Alves de Magalhães (Co-orientador) ii Aos meus pais, Vicente Fernandes Gomes e Maria Helena da Silva Gomes iii AGRADECIMENTOS Ao terminar esta importante etapa da minha vida, gostaria de primeiramente agradecer a Deus, que sempre iluminou e determinou os caminhos da minha existência. Não seria possível concluir o sonho de ser “mestre”, sem os ensinamentos dos meus pais, além da torcida do meu irmão Gilmar. Só o fato de estar distante de casa já é um grande desafio, onde a paciência e compreensão deles foram imprescindíveis. Lembrar de todos os amigos que direta e indiretamente contribuíram nesta labuta pela busca do conhecimento é uma tarefa árdua, pois foram muitos que torceram e desejaram esta conquista. Agradeço a todos os professores (amigos), funcionários e alunos das Faculdades Doctum e FIC e demais amigos. Em especial ao Chiquinho que sozinho já representava toda uma torcida organizada... Saiba que você foi muito importante neste processo! E aos amigos professores Vanderlei, Sávio e Angelina que deram aquela “espiadinha” no meu trabalho, dando as suas contribuições. Nesta trajetória acadêmica deixo o meu muito obrigado àqueles que me deram a oportunidade de me inserir nesta desafiadora área de trabalho (educação) e que confiaram no meu potencial: Çãozinha, Sônia Gomes, Liliane Guerra e Marcíria. Tudo que tem um final, obviamente teve um início que para acontecer, primeiramente passou por um processo de grandes incentivos de pessoas amigas que já acreditavam iv nos resultados positivos. Estas pessoas eu jamais poderia deixar de destacar aqui: Elenice, a pedra angular desta trajetória, você não foi simplesmente amiga, agiu o tempo todo como uma irmã que se alegrava e também sofria comigo em cada etapa deste processo; aos demais amigos que também representaram verdadeiramente a minha família, Gilseia e familiares e o Sr. Sérgio, valeeeeu!!! A todos os professores e funcionários do Mestrado em Meio Ambiente e Sustentabilidade da UNEC – Caratinga. Em especial agradeço a orientadora DSc Pierina German, por ter aceito o desafio de participar da construção deste trabalho, ao amigo professor DSc Marcos Magalhães, pelas sábias palavras em momentos desafiadores, ao professor DSc Meubles Borges e ao Coordenador do Mestrado, DSc Jorge Luiz de Góes pela competência e profissionalismo. Aos amigos do mestrado (alunos), Rose, Romerito, Maria Tereza, Jane e Kátia. Ao Prof. DSc José Ambrósio pela disponibilidade para participar de minha Banca de Defesa e pelas pertinentes considerações apresentadas sobre o trabalho. E em relação à ASCANOVI, não há espaço nem palavras para agradecer a todos, pela participação direta na realização desta pesquisa, apoiadores, estagiários, professores e é claro... todos os catadores. Foram muitas as experiências adquiridas neste período que convivi com os catadores associados da ASCANOVI e que carregarei sempre comigo. Aprendi que realmente vale a pena resistir contra todas as formas de dominação que nos são impostas nas relações entre capital e trabalho... resistir sempre, desistir jamais!!! Enfim, hoje me sinto mais feliz e aliviada por ter enfrentado tais desafios... Ser estudante em Caratinga, trabalhar em Teófilo Otoni e fazer ponte com a família em Betim não foi fácil... Mas, graças a Deus valeu a pena... Venci! Obrigada Deus por mais esta conquista! v BIOGRAFIA SIMONE GOMES DA SILVA é Assistente Social, formada pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais em 2002. Iniciou a carreira profissional em 2003 como Assistente Social e Gestora da Secretaria Municipal de Assistência Social no município de Imbé de Minas – MG, onde atuou até dezembro de 2004. Concluiu o curso de especialização em “Organização do Trabalho e Serviços no Âmbito das Políticas Públicas Municipais” pelas Faculdades Integradas de CaratingaFIC em 2004. Atua desde 2005 nas Faculdades Doctum de Teófilo Otoni/MG e Caratinga/MG, no curso de Serviço Social, como professora das disciplinas de Política Social e Cultura e Movimentos Sociais; coordenadora de Estágio em Serviço Social; e coordenadora do projeto de extensão Núcleo de Apoio e Pesquisa – NAPE, que assessora a Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis Nova Vida – ASCANOVI. No ano de 2006 concluiu o curso de “Criminologia” pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. vi SUMÁRIO LISTA DE SIGLAS........................................................................................... x LISTA DE FIGURAS........................................................................................ xii RESUMO........................................................................................................... xiv ABSTRACT....................................................................................................... xv INTRODUÇÃO................................................................................................. 1 CAPÍTULO 1 - AS TRANSFORMAÇÕES OCORRIDAS NO MUNDO DO TRABALHO E SEUS IMPACTOS NA SOCIEDADE BRASILEIRA......................................................................... 4 1.1. Trabalho para quem?.................................................................................. 4 1.2. As idéias neoliberais no Brasil: economia e exclusão social ..................... 8 1.2.1. As novas facetas da exclusão social a partir de uma velha questão social....................................................................................................... 12 1.3. Políticas públicas de inclusão social no início do século XXI: oportunidades ou manutenção do status quo? ......................................... 16 vii CAPÍTULO 2 - DO LIXO AO NICHO: A RECICLAGEM E SUA FUNCIONALIDADE AO CAPITAL EM TEMPOS DE RACIONALIZAÇÃO DO USO DOS RECURSOS NATURAIS....................................................................... 22 2.1. Lixo ou um novo conceito de matéria prima? As conveniências do mercado capitalista contemporâneo sob a égide do “desenvolvimento sustentável” .............................................................................................. 22 2.2. Repassando responsabilidades via “terceiro setor”– as novas relações de trabalho a partir da estratégia neoliberal ..................................................... 35 2.2.1. A economia solidária no atual contexto de reestruturação capitalista.................................................................................................. 39 2.2.1.1 Cooperativismo / Associativismo ................................................ 44 2.3. Os catadores de materiais recicláveis e sua inserção subalterna na divisão social e técnica do trabalho .................................................. 48 CAPÍTULO 3 - ANÁLISE DAS POSSIBILIDADES DE AUTO-GESTÃO DE UMA ASSOCIAÇÃO DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - UMA REFLEXÃO A PARTIR DA EXPERIÊNCIA DA ASCANOVI ................... 56 3.1 Resgate Histórico da ASCANOVI ............................................................. 56 3.2 Estrutura funcional da ASCANOVI............................................................ 58 3.3 Controle da produção................................................................................... 60 3.4 Infra-estrutura da ASCANOVI e organização laboral................................. 63 3.5 Grupo de Apoio................................ .......................................................... 66 3.6 Rede Solidária Central Leste....................................................................... 75 3.7 Análise dos desafios à construção de um processo de auto-gestão organizacional .......................................................................................... 77 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................ 93 viii REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................. 97 ANEXOS ANEXO 1: Questionário semi-estruturado aplicado aos associados da ASCANOVI ANEXO 2: Roteiro para entrevista do representante da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Teófilo Otoni ANEXO 3: Roteiro para entrevista de membros do grupo de apoio da ASCANOVI ANEXO 4: Estatuto da ASCANOVI ANEXO 5: Termo de Consentimento da ASCANOVI ANEXO 6: Termo de Consentimento Livre e esclarecido do membro ASCANOVI para conceder entrevista ix LISTA DE SIGLAS APJ Aprender e Produzir Juntos ASCANOVI Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis Nova Vida de Teófilo Otoni/MG ASMARE Associação dos Catadores de Papelão e Material Reaproveitável CBO Classificação Brasileira de Ocupações CDDH Centro de Defesa dos Direitos Humanos CMMAD Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento CNUMAD Conferência das Nações COPASA Companhia de Saneamento de Minas Gerais DNIT Departamento Nacional de Transporte e Infra-Estrutura FHC Fernando Henrique Cardoso FMI Fundo Monetário Internacional GIFE Grupo de Institutos, Fundações e Empresas IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível no site IEF Instituto Estadual de Florestas IMA Instituto Mineiro de Agropecuária IPEA Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada MNCR Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis NAPE Núcleo de Apoio, Pesquisa e Extensão x OIT Organização Internacional do Trabalho ONG Organização Não Governamental ONU Organização das Nações Unidas PNDU Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PNSB Pesquisa Nacional de Saneamento Básico xi LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 Composição do lixo domiciliar formado por uma massa heterogênea resíduos .................................................................. 23 FIGURA 2 Resíduos orgânicos que compõe o lixo orgânico ....................... 23 FIGURA 3 Esquema do circuito de reciclagem ............................................ 51 FIGURA 4 Organograma da ASCANOVI ................................................... 58 FIGURA 5 Catadora responsável pela balança pesando material. A direita percebe-se a presença de criança nas dependências da ASCANOVI ............................................................................... 64 FIGURA 6 Associados da ASCANOVI em curso de alfabetização ............. 68 FIGURA 7 Reunião do Grupo de Apoio da ASCANOVI ............................ 69 FIGURA 8 Alunos do Curso de Enfermagem (a) apresentando alguns temas de saúde para os associados da ASCANOVI no próprio local do trabalho (b) – ano de 2005 ............................................ 69 Diretoria, conselho fiscal da ASCANOVI e equipe de ciências contábeis durante o estudo sobre associativismo e Estatuto da ASCANOVI, em 2006 ............................................................... 70 Seminário realizado em Teófilo Otoni no dia do Meio Ambiente – 2006, vendo-se no primeiro plano o pronunciamento de um associado manifestando-se em nome da ASCANOVI durante o evento (a) e participação de membros da associação (b) ………………................................................ 71 FIGURA 9 FIGURA 10 xii FIGURA 11 Distribuição quantitativa dos associados quanto ao nível de escolaridade ................................................................................ xiii 81 RESUMO SILVA, Simone Gomes. Centro Universitário de Caratinga (UNEC). Outubro de 2007. Os desafios à construção de um processo de auto-gestão da Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis Nova Vida de Teófilo Otoni - MG. Orientadora: DSc. Pierina German Castelli, Co-orientador: DSc. Marcos Alves de Magalhães. A crise ambiental contemporânea, resultante do modelo de desenvolvimento capitalista, colocou a reciclagem do lixo como uma necessidade urgente e paliativa ao processo de entropia a que a humanidade está se conduzindo. Entretanto, muitos dos encarregados desta reciclagem são indivíduos excluídos do mercado trabalhista capitalista, não ficando outra opção que se reunirem em organizações de auto-gestão na tentativa de garantir sua sobrevivência. Porém, a estas organizações trabalhistas de auto-gestão urbanas o próprio sistema capitalista lhes coloca diversos desafios para sua consolidação. Neste trabalho, a partir do estudo de caso da Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis Nova Vida – ASCANOVI do município de Teófilo Otoni, Estado de Minas Gerais, buscou-se identificar quais são estes desafios existentes. Verificou-se que na ASCANOVI, o catador vivencia diferentes condições de precarização do trabalho, bem como a mesma lógica de exploração do trabalho existente no modelo capitalista. Deste modo, qualquer tentativa de construção de um novo modelo de produção econômico baseado nos princípios da auto-gestão – participação, democracia e autonomia – fica altamente comprometido ou inviável. Palavras-Chave: capitalismo, exclusão social, catadores, auto-gestão, ASCANOVI. xiv ABSTRACT SILVA, Simone Gomes. Centro Universitário de Caratinga (UNEC). October, 2007. Challenges for the construction of self-managed process the Nova Vida Association of Recyclable Materials Collectors – ASCANOVI. Adviser: Dra. Pierina German Castelli, Commitee member: Dr. Marcos Alves de Magalhães. The contemporary environmental crisis, as a result of the capitalist development system, puts garbage recycling as an urgent need and palliative entropy process to which humanity in heading. However, most of the people responsible for this recycling are excluded from the capitalist work market. The have no other option but to form selfmanaged organizations in order to struggle for their survival. However, the capitalist system puts several challenges for the consolidation of self-managed urban work associations. The objective of the present work was to identify, through a case study with the Nova Vida Association of Recyclable Materials Collectors – ASCANOVI, from the city of Teófilo Otoni, the main existing challenges. It was verified that within the ASCANOVI, the garbage collectors experience several precarious work conditions, and face the same exploration logics existent in the capitalist model. This way, any initiative of construction of a new economic production model based in the principles of self-management – participation, democracy and autonomy– remains difficult or impossible. key-words: capitalism, social ASCANOVI exclusio, xv garbage collectors, self-management, 1. INTRODUÇÃO A partir de um estudo de caso realizado na Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis Nova Vida – ASCANOVI, localizada no município de Teófilo Otoni, Estado de Minas Gerais, buscou-se neste trabalho analisar os principais desafios existentes nesta organização associativista, tendo como parâmetro o seu caráter de autogestão, baseado nos princípios de participação, democracia e autonomia. Procurou-se verificar o significado da associação para o catador, recuperando algumas situações específicas, e os desafios identificados na formação de uma cultura autogestionária entre os catadores associados, tendo em vista que o trabalho nessas instituições, mais que uma “alternativa” solidária, representa um quadro de desemprego estrutural. Ao mesmo tempo, indagamos em que medida é possível construir uma alternativa de produção e gestão do trabalho predominante no capitalismo. Para que haja um melhor entendimento dos principais entraves e limitações do processo de formação e funcionamento autogestionário das associações de cooperação, faz-se necessário entender o significado do modelo de produção econômico predominante na atualidade e sua funcionalidade, já que falar em auto-gestão, implica segundo Singer (2003), na existência de um outro modelo que venha se contrapor ao atual, capitalista. Esta discussão se torna fundamental para analisarmos a existência da autonomia dos catadores da ASCANOVI na cadeia produtiva. Nossa hipótese central e que servirá de eixo central para o desenvolvimento desta dissertação é que há uma impossibilidade de garantir um projeto econômico de auto-gestão fazendo parte de um sistema econômico capitalista, pois as cooperativas e 1 associações de auto-gestão acabam sendo “usadas” para garantir o processo de acumulação deste, provocando diferentes reflexos no âmbito interno da associação que inviabiliza a auto-gestão. Para o desenvolvimento deste trabalho optou-se por realizar um estudo de caso com a ASCANOVI do município Teófilo Otoni – MG. Para o desenvolvimento deste estudo de caso se realizaram entrevistas por meio da aplicação de questionários semiestruturados aos 23 (vinte e três) catadores associados (Anexo 1); ao representante da Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Teófilo Otoni (Anexo 2) e a 3 (três) representantes do grupo de apoio da ASCANOVI que estão participando nesta desde sua formação. Para a realização deste trabalho, também procedeu-se à observação, participação em reuniões, contatos informais, pesquisa de literatura, relatórios e documentos. Cabe destacar que também conto com uma experiência empírica nesta associação de catadores de lixo, enquanto coordenadora do projeto do Núcleo de Apoio, Pesquisa e Extensão – NAPE, desenvolvido na ASCANOVI desde o ano de 2005 (Vide Capítulo III). O trabalho se estrutura em três capítulos. O primeiro capítulo procede-se a realizar um resgate histórico crítico sobre o mundo do trabalho, objetivando dar visibilidade às transformações do mundo do trabalho, e como estas rebateram na classe trabalhadora. Este capítulo leva-nos a compreender o perfil do trabalhador exigido hoje no mercado de trabalho formal e o perfil daqueles que estão fora deste processo. No segundo capítulo são analisados os desafios colocados para o desenvolvimento sustentável determinados pelo sistema econômico dominante, destacando a importância da consideração da inclusão social e sustentabilidade ambiental para sua implementação, assim como a necessidade que a tomada de decisões seja baseada sobre uma ética sincrônica para com a geração presente e diacrônica para com as gerações futuras. Posteriormente, se analisa quais são os elementos da autogestão dentro da perspectiva da economia solidária, assim como a estruturação e princípios das associações e cooperativas de auto-gestão. Finalizamos com uma análise dos catadores de materiais recicláveis como trabalhadores autônomos, que buscam nas associações e/ou cooperativas de auto-gestão uma oportunidade de exercer uma atividade laborativa. 2 No terceiro capítulo a partir do estudo de caso na ASCANOVI se analisaram os desafios à construção de um processo de auto-gestão organizacional no contexto político-econômico contemporâneo. Para tal destacaram-se seu contexto histórico e particularidades, sem perder de vista os fatores externos nos campos sociais, políticos e econômicos que determinarão o seu funcionamento em caráter de auto-gestão. 3 CAPITULO 1: TRANSFORMAÇÕES OCORRIDAS NO MUNDO DO TRABALHO NO FINAL DO SÉCULO XX E SEUS IMPACTOS NA SOCIEDADE BRASILEIRA “O primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer: ‘isto é meu’, e encontrou pessoas bastante simples para acreditar, foi o verdadeiro criador da sociedade civil (burguesa). Quantos crimes, guerras, mortes, quantas misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas (...), tivesse gritado: ‘guardai-vos de escutar este impostor...” (ROUSSEAU, 1983, p.259). 1.1. Trabalho para quem? O cenário mundial no século XX é marcado por uma reorganização capitalista, onde ocorre a formação de uma nova cultura econômica nas diferentes sociedades, sendo introduzido novos problemas e desafios para o mundo do trabalho. Nesta nova fase do capital os homens são levados a se separarem e se distanciarem até se completar a divisão social do trabalho com a separação do trabalho material e intelectual (CHAUÍ, 2001). A cisão entre trabalho intelectual e operacional é introduzida a partir do surgimento de novos modelos de produção, Taylorismo1 e Fordismo2, que segundo 1 O taylorismo ou administração científica do trabalho foi desenvolvido pelo engenheiro estadunidense Frederick Winslow Taylor (1856-1915) como uma nova cultura do trabalho na passagem do século XIX para o século XX. Sua teoria seguiu um caminho de baixo para cima, e das partes para o todo, dando ênfase na tarefa. Segundo Taylor a administração tinha que ser tratada como ciência, com a finalidade de ter uma maior rendimento do serviço do operariado da época, o qual era desqualificado e tratado com desleixo pela empresa. Na época não havia interesse em qualificar o trabalhador, pois se contava com um enorme e supostamente inesgotável “exército industrial de reserva”. O estudo de “tempos e movimento” mostrou que um exército industrial desqualificado significava baixa produtividade e lucros decrescentes, forçando às empresas a contratarem mais operários. Taylor pretendeu definir princípios científicos para a administração de empresas, sendo os quatro princípios fundamentais da administração científica: 1) 4 Antunes (1999), fragmenta e parcela a ação operária, dividindo os trabalhadores entre os pensantes (intelectuais) e os executares de tarefas repetitivas. De acordo com Behring e Boschetti (2006), o final dos anos de 1960 e início dos anos de 1970 são marcados pela crise do capital, rompendo com os modelos de produção Fordista e Taylorista, bem como com o pleno emprego fordista-Keynesiano3 introduzido na primeira metade do século XX, como estratégia de superação da primeira crise do capital de 1929. Ainda segundo as autoras: O que ocorreu na verdade, foi uma crise clássica de superprodução, se observadas as tendências de longo prazo fundadas na lei do valor. O já presente agravamento do problema do desemprego (não nas proporções atuais) pela introdução de técnicas capital-intensivas e poupadoras de mão de obra, a alta dos preços de matérias-primas importantes, a queda do volume do comércio mundial, e um poder de barganha de pleno emprego no capitalismo central (BEHRING e BOSCHETTI, 2006, p. 116). Princípio de planejamento, que consiste em substituir o critério individual do operário, a improvisação e o empirismo por métodos planejados e testados; 2) Princípio de preparação dos trabalhadores, que consiste em selecionar cientificamente os trabalhadores de acordo com suas aptidões, prepará-los e treiná-los para produzirem mais e melhor, de acordo com o método planejado, e em preparar as máquinas e equipamentos em um arranjo físico e disposição racional, o que pressupõe o estudo das tarefas ou dos tempos e movimentos e da Lei da fadiga; 3) Princípio do controle, que consiste em controlar o trabalho para se certificar de que o mesmo está sendo executado de acordo com o método estabelecido segundo o plano de produção; 4) Princípio da execução, que consiste em distribuir distintamente as atribuições e responsabilidades para que a execução do trabalho seja o mais disciplinado possível. Nas palavras de Harvey (1992) o método de administração científica de Taylor permitiu ao capital enfrentar a relação de dependência da habilidade manual da força de trabalho, mediante a dissociação dos processos produtivos das especialidades dos trabalhadores; separação do trabalho de concepção e de execução; utilização do conhecimento para controlar cada fase da produção e seu modo de execução. 2 O modelo Fordista pode ser entendido por uma série de características: “meticulosa separação entre projeto e execução, iniciativa e atendimento de comandos, liberdade e obediência, invenção e determinação, com o estreito entrelaçamento dos opostos dentro de cada uma das posições binárias e a suave transmissão de comando do primeiro elemento de cada par ao segundo” (Bauman, 2001, p. 68 apud Fraga, 2005, p. 36); baixa mobilidade dos trabalhadores; homogeneização da mão-de-obra; “mão-de-obra numerosa e predominantemente masculina” (Beynon, 1995: 6 apud Fraga, 2005, p. 37); produção em massa, consumo em massa; rotinas de trabalho; controle do tempo, adaptação ao ritmo da máquina; e homogeneidade dos produtos. O Fordismo, método de racionalização da produção em massa, integrou-se ao Taylorismo, tendo seu inicio na indústria automobilística Ford Motor Company, trasladando-se posteriormente a todos os setores industriais e inclusive o de serviços. O conjunto de práticas produtivas, cunhado de fordismo, é característico da modernidade sólida ou do capitalismo pesado, nas palavras de Bauman, sendo importante para a organização da produção até meados da década de 1970. “Entre os principais ícones dessa modernidade estavam a fábrica fordista, que reduzia as atividades humanas a movimentos simples, rotineiros e predeterminados, destinados a serem obedientes e mecanicamente seguidos, sem envolver as faculdades mentais e excluindo toda espontaneidade e iniciativas mental (Bauman, 2001, p. 33/34 apud Fraga, 2005). 3 Esse padrão de desenvolvimento, fordista/Keynesiano - que se caracterizava pelo investimento, tanto na esfera da produção, como da reprodução, tendo como uma de suas características centrais, a elaboração de Políticas Sociais, principalmente de pleno emprego - possibilitou o avanço de certas conquistas no campo do bem-estar, especialmente nos países desenvolvidos, por meio do conhecido Estado de Bem Estar Social (BEHRING, 2002). 5 Neste período as formas utilizadas pelo modelo econômico vigente de administrar tal crise ocorreram a partir do fortalecimento das idéias liberais. A partir dos anos de 1970 com o enfraquecimento do Estado de Bem estar, tal ideologia consegue novamente se fortalecer a partir da década de 1980 com o impulso do neoliberalismo. As idéias neoliberais se afirmam como uma reação ao Estado de Bem-estar, sob o argumento de que a crise devia-se fundamentalmente à regulação econômica e social do Estado, defendida pelo pensamento Keynesiano, a partir da pós-depressão de 1929 (ANTUNES,1999). Assim, a solução encontrada para a crise da década de 1970 veio com a proposta neoliberal fundada na reestruturação produtiva. Para Behring e Boschetti (ibid), a saída seria desenvolver medidas estratégicas de legitimação da ordem e da lógica capitalista para enfrentamento da crise de superprodução e superacumulação, centradas na órbita da sociedade civil e do mercado, em prol do Estado “minimizado”4. Assistimos então, a transição dos referidos modelos de produção, Taylorista e Fordista, pelas formas produtivas flexibilizadas e desregulamentadas denominada Toyotismo. Segundo Antunes (1999), este novo modelo é caracterizado por novas formas de produção, pela revolução microeletrônica, pelo surgimento de novos tipos de automação, robótica e mecanização, pela flexibilização dos processos de trabalho, pela criação de novos setores produtivos, pelo desenvolvimento do setor terciário (setor de serviços), pelos novos mercados e padrões de consumo e, sobretudo, pelas taxas intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional. Nessa revolução administrativa, o homem deve exercer na automação, funções mais abstratas e intelectuais, fazendo com que o mercado requisite constantemente um profissional mais qualificado e polivalente, que, segundo Iamamoto (2001, p.32), “é 4 Segundo Bobbio (1998, apud Behring e Boschetti, 2006, p.60), o Estado Mínimo é aquele que assume apenas três funções numa sociedade: a defesa contra os inimigos externos; a proteção de todo indivíduo de ofensas dirigidas por outros indivíduos; e o provimento de obras pública, que não possam ser executadas pela iniciativa privada. No Estado Mínimo deve ocorrer a menor interferência possível na liberdade individual e nas atividades econômicas da iniciativa privada. Os neoliberais pregam que a crise econômica e financeira em vários países e entre eles o Brasil, foi decorrente do intervencionismo estatal. E que este intervencionismo é antieconômico e antiprodutivo e que a crise fiscal no Estado aconteceu porque este estimula o capital a investir e os trabalhadores a trabalhar. Os neoliberais defendem que o único meio de sair dessa crise seria reduzir a intervenção do Estado, privatizar as instituições públicas, desregulamentar as atividades econômicas, reduzir os gastos públicos com o social. Enfim, o Estado só deve intervir para aliviar a pobreza e produzir serviços que não sejam rentáveis para o setor privado, já que a política neoliberal tem como objetivo o acúmulo dos lucros das empresas privadas (Iamamoto, 2001). 6 aquele chamado a exercer várias funções, no mesmo tempo de trabalho e com o mesmo salário, como conseqüência do enxugamento do quadro de pessoal das empresas”. De acordo com Antunes (1999), esse novo padrão de acumulação, toyotismo, após sua consolidação, traz como conseqüência o desemprego estrutural, a terceirização, o subemprego, o trabalho precário e a desregulamentação dos direitos trabalhistas conquistados a várias décadas. As lutas operárias que no início do processo de reestruturação produtiva entravam em cena com toda força contestando esta nova forma de organização do trabalho, como também a nova postura do Estado frente tais mudanças ocorridas, chegam ao fim da década de 1980 apresentando, portanto, enormes desafios para o movimento sindical que se depara com a diminuição das taxas de sindicalização e do número de greves. Tais mudanças afetarão profundamente a classe trabalhadora que se encontra cada vez mais alienada5. No final da década de 1980 e início da década de 1990, sob imposição do Fundo Monetário Internacional – FMI e do Banco Mundial, os países da América Latina, incluindo o Brasil, passam a seguir as propostas neoliberais que entre outras coisas prevê o corte dos gastos sociais e privatização do patrimônio público, o que traz pesadas conseqüências, sobretudo, para a classe trabalhadora à medida que estes cortes ocorrem mediante o sucateamento das políticas públicas. Já nos países de capitalismo avançado, como a Inglaterra, eram aplicadas desde o final de década de 1970 (BEHRING, 2002). Segundo as idéias neoliberais, o intervencionismo estatal no terreno do bemestar é um dos principais responsáveis pela crise fiscal do Estado6 sendo necessário, portanto, para a superação desta crise, por conta de uma opção política, a adoção de medidas que reduzem os gastos sociais e a reconstituição do mercado como principal instancia de regulação das relações sociais. Sendo desta forma, imprescindível a supressão da intervenção do Estado na economia como forma de estimular a competição e o individualismo, otimizando os resultados no mercado (Id). Ainda percorrendo as idéias da autora, veremos que a fórmula neoliberal utilizadas pelos países da Europa e dos Estados Unidos para sair da crise se resumia 5 Segundo Aranha (1998, p.12) o sentido etimológico da palavra alienação vem do latim alienare, alienus, que significa “que pertence a um outro”, ou seja, alienar é tornar alheio, transferir para outrem o que é seu. 6 É importante destacar que não é o Estado que entra em crise, mas a estrutura social e econômica do capital baseado no padrão fordista de acumulação capitalista que começa a se exaurir na década de 1970, conforme já apresentado, exigindo por uma opção política, que o Estado seja reformulado para atender às necessidades do novo modelo de produção que se ergue, chamado de acumulação flexível (BEHRING, 2002). 7 basicamente a um Estado forte para romper o poder dos sindicatos e controlar a moeda e um Estado parco para os gastos socais e regulamentações econômicas; a busca da estabilidade monetária como meta suprema, e uma forte disciplina orçamentária, uma reforma fiscal, diminuindo os impostos sobre os rendimentos mais altos. O desmonte dos direitos sociais, implicando a quebra da vinculação entre política social e esses direitos, que compunha o pacto político do período anterior. 1.2 As idéias neoliberais no Brasil: economia e exclusão social Na década de 1980, no Brasil, momento em que as idéias neoliberais ganham força nos diferentes países do capitalismo avançado, a força organizativa dos movimentos sociais consegue garantir alguma resistência ao avanço de tais idéias. A referida década, que marca a abertura democrática em nosso país, foi delineada por uma intensa movimentação popular que culminou na Constituição Federal de 1988 que garante no plano legal, um amplo sistema de seguridade social resultante do protagonismo e da luta dos grupos sociais organizado. A Seguridade Social compreende um conjunto integrado de ações de iniciativas dos poderes públicos e da sociedade, destinados a assegurar os direitos relativos à saúde, previdência e assistência social, reformulando a concepção da proteção social como um seguro social (CONSTITUIÇÃO FEDERAL de 1988, art.194, cap. II, Tit.VIII). Para Mota (1995, p.48): A seguridade Social é um dos avanços para as classes que vivem do trabalho no processo constituinte da década de 80 com o significado de proteção social, embora desde a sua inscrição na Constituição de 1988 venha sendo demolida antes de consolidar-se. Os movimentos sociais não conseguiram impedir que o ideário neoliberal se tornasse vitorioso no país a partir da década de 1990, quando os ex-presidentes Fernando Collor de Melo (1989) e principalmente Fernando Henrique Cardoso – FHC nos seus dois governos (1994 a 2002), abrem as portas do Brasil para a introdução do projeto neoliberal, apesar de toda resistência dos partidos de oposição, das ONG’s e da Igreja Católica. Observa-se que para o projeto político neoliberal, a política social deve ser intrínseca às funções do mercado, demandando que o Estado coloque limites 8 democráticos à lógica do capital sem restringir a sua voracidade. A política social deve ser totalmente subordinada à orientação macroeconômica estabelecida pelo grande capital. Dessa forma, ela se torna uma função da participação contributiva de seus usuários e não uma política universal. Assim, quem contribui mais, prestações qualificadas e, quem contribui menos, prestações desqualificadas, conclusão: para o pobre, uma política social pobre (Netto, 1999, p.86-87), perdendo então essa política o seu caráter universal. Conforme destaca Soares (2000), a orientação das políticas sociais estatais é alterada de forma significativa prevalecendo desta forma o trinômio7: privatização, focalização e descentralização destrutiva. A privatização das empresas públicas empregada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso nos seus dois mandatos, foi um dos pontos mais discutidos e criticados pela oposição ao seu governo. Tendo por base o trinômio supracitado frente o tripé da Seguridade Social formado pelas políticas de Saúde (universal), Assistência Social (para todos que dela necessitar) e Previdência Social (para quem contribui), Netto (1999, p.88), refere-se à privatização destacando a política de assistência social. Esta foi transferida para a sociedade civil, a qual ficou com a responsabilidade da construção de redes de proteção social onde o Estado poderia ajustar parcerias8. Assim, a política de assistência social tomou um caráter de não política, ficando sem o estatuto de direito social e sendo conduzida a refilantropização. No primeiro ano do governo de FHC foi constituído o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas- GIFE, que reunia grandes grupos capitalistas como: Banco Itaú, Unibanco, IBM, Iochpe, Maxion, etc. que desenvolvem atividades comunitário-assistenciais através daquilo que chamam de cidadania empresarial. O que resta de público-estatal, o governo de FHC reduz o Estado ao que chamamos de pronto-socorro social, a questão social é caracterizada pela focalização das ações e seu caráter intermitente, sendo sua intervenção basicamente emergencial (Id). 7 Segundo Soares (2000), a descentralização assumida pelos governos a partir da década de 1990, trata-se apenas de uma mera transferência da responsabilidade sobre os serviços completamente deteriorados e sem financiamento para os níveis locais de governos. Quanto a privatização total ou parcial dos serviços públicos, vem acompanhada pelo processo de descentralização destrutiva, já que os serviços são precários, paga pelo particular quem pode. E a focalização acompanha tanto a descentralização quanto a privatização pois, somente aqueles comprovadamente pobres, via “testes de pobreza” têm acesso aos serviços públicos. 8 Esta estratégia neoliberal será debatida no tópico 2.2 do Capítulo II deste trabalho. 9 Quanto as políticas de saúde e previdência social, estas são marcadas pela mercantilização, que segundo Netto: (...) trata-se de, reservando ao Estado um papel residual (...), entregar ao mercado – vale dizer: ao grande capital – a organização e a gestão dos seguros sociais e dos serviços de saúde. (...) especialmente nos anos noventa a seguridade social privada, conectada às grandes empresas, foi a que mais cresceu, particularmente no que tange aos benefícios previdenciários e aos serviços de saúde (NETTO, ibid, p.88). É importante destacar que o neoliberalismo assume características singulares no Brasil, pois prevê a redução em uma estrutura de proteção social (baseada na noção de direitos) que basicamente nunca chegou a se desenvolver de fato. Pelo contrário, a tendência predominante no trato da questão social foi fortemente marcada pelo assistencialismo e pela privatização, a partir de uma lógica onde o clientelismo, o paternalismo, o autoritarismo e a exclusão sempre foram traços marcantes no trato aos segmentos sociais subalternizados se constituindo em instrumento de reprodução de uma ordem conservadora através de relações tuteladas transformando direitos em privilégios. A herança cultural conservadora e autoritária que fazem parte da constituição da sociedade brasileira, marcadamente assistencialista fundamentada na cultura do favoritismo somada às perspectivas neoliberais de esvaziamento da concepção de direitos, provoca uma total precarização do sistema de proteção social brasileiro e o desmonte das Políticas Sociais na década de 1990, em contraposição a todas as conquistas sociais processadas na década anterior que basicamente não havia se desenvolvido. Desta forma, os serviços no âmbito das políticas sociais que até então seriam de responsabilidade do governo, de acordo com a carta constitucional, seguem uma lógica de repasse de responsabilidades para a sociedade civil. Concomitante a isto, as relações de trabalho vão sendo redefinidas de acordo com a necessidade de acumulação do capital através do chamado terceiro setor, conforme veremos no próximo capítulo. Dentro desse contexto percebe-se que para aumentar a acumulação de riquezas acentuam-se os elementos destrutivos que presidem a lógica do capital. Tais elementos se manifestam, de acordo com Antunes (1999), de forma grave através da destruição e/ou precarização, sem limites no decorrer da era moderna, dos serviços estatais, bem como da força humana que trabalha e a degradação crescente, na relação “metabólica 10 entre homem e natureza”9, conduzida pela lógica societal voltada prioritariamente para a produção de mercadorias que destroem o meio ambiente. Para o autor: Trata-se, portanto, de uma aguda destrutividade, que no fundo é a expressão mais profunda da crise estrutural que assola a (des)socialização contemporânea: destrói-se força humana que trabalha; destroçam-se os direitos sociais; brutalizam-se enormes contingentes de homens e mulheres que vivem do trabalho; torna-se predatória a relação produção/natureza, criando-se uma monumental sociedade do descartável, que joga fora tudo que serviu como embalagem para as mercadorias e o seu sistema, mantendose, entretanto, o circuito reprodutivo do capital (ANTUNES, 1999, p.19). Percebe-se também, que no processo de desenvolvimento do capitalismo, foi negada de forma natural, a um exército de homens a oportunidade de exercer atividades de trabalho, causando assim um aprofundamento da injustiça e exclusão social, muito criticado por pensadores materialistas, destacando-se Marx e Engels (1977). Este cenário foi se agravando na medida em que as expressões da chamada questão social10, foram se alastrando pelo país. 9 Categoria marxista. De acordo com Foster (2005), no Capital a concepção materialista de natureza de Marx alcançou plena integração com sua concepção materialista de historia. Na economia política desenvolvida por Marx, tal como apresentada no Capital o conceito “metabolismo” (Stoffwechsel) foi empregado para definir o processo de trabalho como “um processo entre o homem e a natureza, um processo pelo qual o homem, através de suas próprias ações, medeia, regula e controla o metabolismo entre ele mesmo e a natureza”. (...) A palavra alemã “Stollwechsel”implica diretamente, nos seus elementos, uma noção de “troca de material”subjacente à noção dos processos estruturados de crescimento e decadência biológicos englobados pelo termo “metabolismo”, No processo de trabalho Marx tornou o conceito de metabolismo central a todo o seu sistema de análise, enraizando nele a sua compreensão do processo de trabalho. Assim, na sua definição do processo de trabalho em geral (contraposta às suas manifestações historicamente especificas) Marx utilizou o conceito de metabolismo para descrever a relação do homem com a natureza através do trabalho: “o trabalho é, antes de qualquer coisa, um processo entre o homem e a natureza, um processo pelo qual o homem, através de suas próprias ações, medeia, regula e controla o metabolismo entre ele e a natureza”. Ele põe em movimento as forças naturais que pertencem a seu próprio corpo, aos braços, pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar os materiais da natureza de uma forma adaptada às suas próprias necessidades. Através deste movimento, ele atua sobre a natureza externa e a modifica, a assim simultaneamente altera sua própria natureza... Ele [o processo de trabalho] é a condição universal da interação metabólica [Stoowechssel] entre o homem e a natureza, a perpétua condição da existência humana imposta pela natureza (MARX, 1976, v. 1, p. 283290 apud FOSTER, 2005, p. 219). 10 A questão social pode ser compreendida como uma categoria que se expressa de forma particular na sociedade capitalista, no processo de intensificação das contradições em capital e trabalho, em torno das grandes transformações econômicas sociais políticas, ocorridas na Europa do século XIX e desencadeadas pelo processo de Industrialização. Essa questão assentou-se basicamente na tomada de consciência, por parte de crescentes parcelas da sociedade, de um conjunto de novos problemas vinculadas às modernas condições de trabalho urbano e pauperismo com um fenômeno socialmente produzido (Castel, 1999). 11 1.2.1 As novas facetas da exclusão social a partir de uma velha questão social Vários autores dentre eles Iamamoto (2001), Pereira (1999), Castel (1999), analisaram os efeitos das políticas neoliberais sobre diferentes sociedades no decorrer do final dos anos 90 e início do século XXI. As críticas desses autores estão diretamente relacionadas as transformações do mundo do trabalho que, em vários casos, como no Brasil, representam a exclusão social de uma parte significativa da sociedade. Esses autores são fortemente influenciados pelo pensamento marxista, mas que são fundamentais para se pensar tais transformações. A questão social surge como uma questão significativa para se discutir o desenvolvimento econômico dos países do Terceiro Mundo, como o Brasil. De acordo com Iamamoto (2001), a questão social está integrada à estrutura do sistema capitalista, sendo indissociável da sua forma de organização. A questão social é o conjunto de expressões das desigualdades sociais engendradas na sociedade capitalista, no século XIX, a partir da compra da força de trabalho do “trabalhador livre”. Trabalho livre que se generaliza em circunstancias históricas nas quais, a separação entre homens e meios de produção se dá em grande medida, marcando profundamente seus desdobramentos. Com o surgimento da classe operária, no referido século, que depende da venda de sua força de trabalho como meio de atender suas necessidades vitais, emerge o conflito entre capital e trabalho, resultando, portanto, numa questao social, que expressa desigualdades econômicas, políticas e culturais das classes sociais, conforme expõe Cerqueira Filho: Por ‘questão social’, no sentido universal do termo, queremos significar o conjunto de problemas políticos, sociais e econômicos que o surgimento da classe operária impôs no curso da constituição da sociedade capitalista. Assim, a questão está fundamentalmente vinculada ao conflito entre capital e o trabalho (CERQUEIRA FILHO, 1982, p. 21 apud NETTO, 1996, p. 47). Nas palavras de Iamamoto e Carvalho (1996, p. 77): A questão social não é senão as expressões do processo de formação e desenvolvimento da classe operária e de seu ingresso no cenário político da sociedade, exigindo seu reconhecimento como classe por parte do 12 empresariado e do Estado. É a manifestação, no cotidiano da vida social, da contradição entre o proletariado e a burguesia. Como demonstra Pereira (2001), o termo “questão” acrescido do adjetivo “social” ganha outro significado. Indica a existência de conflitos entre portadores de interesses opostos ou antagônicos, ou seja, contradição entre capital e trabalho. Neste processo de co-relação de forças, os dominados conseguem impor-se como forças políticas estratégicas, problematizando suas demandas sociais e alcançando ganhos relativos. De acordo com Pereira (1999), a partir de 1970 através do processo de reestruturação produtiva impulsionado pela ideologia neoliberal foram desencadeadas novas formas de expressão da questão social, que para Demo (2003) não se trata de uma “nova questão social”, conforme muitos autores tentam defender, mas de uma “exacerbação sem precedentes”. Quanto ao adjetivo ‘nova’, faço coro com aqueles que discordam dessa qualificação, pelo fato de ela basicamente referir-se às manifestações contemporâneas de problemas que são engendrados pelas contradições fundamentais (capital x trabalho) e de propugnar métodos de gestão social cuja principal novidade é a de serem diferentes dos adotados pelo Welfare State Keynesiano. O que não se pode negar, é o fato de que o quadro do ponto de vista conjuntural mudou, é novo (PEREIRA, 2001, p.54). A conjuntura que se apresenta neste momento de intensificação das expressões da questão social, consiste na decadência dos anos dourados (período de crescimento econômico), devido à distribuição de forma desigual dos benefícios e impactos sobre o meio ambiente, tanto entre as nações como no âmbito interno delas. Nesse período, os efeitos sociais da recessão vão acumulando-se com intensidade (Id). De acordo com Pereira (ibid, p. 49): A formas de expressão da questão social apesar de se apresentarem variadas, assumem amplitude global, produzindo efeitos comuns, como: desemprego estrutural, aumento da pobreza e da exclusão social, trabalho sem estabilidade e proteção social, sem vínculos empregatícios e desmonte de direitos sociais edificados há mais de um século. De acordo com Castel (1999, p. 496), o cenário de precarização, bem como de negação de postos de trabalho, traz uma nova configuração destes “trabalhadores sem 13 trabalho”, que passam a ocupar na sociedade um lugar de “supranumerários, de inúteis para o mundo” vivenciando portanto, uma exclusão social11. Estamos assistindo no decorrer dos anos um modelo de desenvolvimento econômico – social, em que alguns são incluídos, outros pouco incluídos e, os demais, para o funcionamento desse modelo, deverão ser excluídos econômica e socialmente. Segundo Demo (2003, p.286), no capitalismo nunca couberam todos os trabalhadores, sem falar em sua inclusão marginalizada. Hoje, esta dinâmica está agravada em níveis dramáticos, sobretudo em sociedades, como a brasileira, onde a oferta informal de trabalho supera a formal. Para Wanderley (1999), no Brasil a exclusão não é apenas econômica e política, trata-se também de uma questão cultural e ética: Este processo deve ser entendido como exclusão, isto é, uma impossibilidade de poder partilhar o que leva à vivência da privação, da recusa, do abandono e da expulsão inclusive, com violência, de um conjunto significativo da população, por isso, uma exclusão social e não pessoal. Não se trata de um processo individual, embora atinja pessoas, mas de uma lógica que está presente nas várias formas de relações econômicas, sociais, culturais e políticas da sociedade brasileira. Esta situação de privação coletiva é que se está entendendo por exclusão social. Ela inclui pobreza, discriminação, subalternidade, não eqüidade, não acessibilidade, não representação pública (SPOSATTI, p. 53 apud WANDERLEY, ibid, p.20). Segundo Gonçalves (2005, p.99), “no Brasil, os diversos termos estruturantes do tema das iniqüidades sociais - desigualdade, pobreza e exclusão social têm sido confundidos e/ou utilizados como sinônimos pelo senso comum”. Tais termos não se apresentam enquanto sinônimos, mas como expõe Wanderley (ibid), são faces da mesma moeda, pois a alta concentração de renda e desigualdade social que assola o país, convive com efeitos perversos do fenômeno do desemprego estrutural. Assim, torna-se perceptível que o fator distributivo é decisivo no que tange à redução da pobreza de um país, mesmo sem qualquer crescimento econômico. Castel (1999) nos permite refletir sobre as novas facetas da exclusão presentes em nossa sociedade no final da década de 1990 - ainda que o foco das suas discussões 11 O conceito de exclusão social tem se prestado a uma amplitude de definições tanto na literatura quanto no discurso de diferentes atores sociais. Apesar desta variação conceitual e não querendo polemizar o tema, será utilizado neste trabalho o pressuposto de Castel (1999) de que embora a exclusão social expresse um conjunto de carecimentos materiais, culturais e morais, seus elementos constitutivos só são remetidos a análise tendo em vista o cerne dos processos de produção e da repartição das riquezas sociais. 14 seja o cenário francês, muitos elementos são condizentes com a realidade brasileira – quando sugere uma diferenciação entre marginalização e a situação contemporânea, que intitula desfiliação social. Esta desfiliação social é expressada pelo autor, como a situação de indivíduos que flutuam na estrutura social e que povoam seus interstícios sem encontrar um lugar designado. A desfiliação não seria uma ruptura, como a exclusão, mas uma desqualificação ou invalidação social de indivíduos (Castel, ibid). Para o autor ao invés da exclusão, o processo que estaríamos vivenciando seria de invalidação social. (...) pelo enfraquecimento das formas de política social, ou pelo seu encolhimento, pelo crescimento do desemprego e da precarização, pela impossibilidade de acesso livre aos postos assalariados de trabalho, sua personificação se faz não pelo vagabundo, mas pelo desemprego e pelos desempregados, os novos ‘desfiliados’ sem lugar (...) (CASTEL, ibid, p.523). Continuando com o autor, os problemas advindos das transformações do mundo do trabalho, frente à revolução tecnológica e das novas filosofias políticas e econômicas, é inevitável que a sociedade assalariada acabe sendo devastada. A atual conjuntura econômica é marcada pela desestabilização dos “estáveis”, instalação de alternativas precárias de trabalho, como os chamados “bicos”, pelos salários reduzidos e pela descoberta de uma nova categoria de pessoas sub-remuneradas. Logo, se o mercado não passar por restrições, voltaremos ao início do capitalismo, sem garantia alguma de segurança trabalhista. Portanto por falta de forças com efetivo poder de pressão para fazer incorporar na agenda pública problemas sociais vigentes, com vista ao seu decisivo enfrentamento, entendo que temos pela frente não propriamente uma ‘questão social’ explícita, mas uma incomoda e complicada ‘questão social’ latente, cuja explicitação acaba por tornar-se o principal desafio das forças sociais progressistas (PEREIRA, 2001, p.52). Tal situação pode ser ilustrada com uma das principais expressões da questão social na atualidade, que é o desemprego estrutural, cuja instauração está centrada numa nova civilização onde o desemprego não é mais acidental ou expressão de uma crise conjuntural, mas expressão de um regime que não vê mais a incorporação de toda sociedade no mercado de trabalho. Como conseqüência, há um esvaziamento da sociedade salarial, bem como perda de poder de pressão dos sindicatos, desmoronamento dos direitos sociais e aumento da pobreza. O perfil histórico de 15 proteção social (pleno emprego, políticas sociais universais, extensão dos direitos sociais), foi trocado por outro caracterizado pela crescente ocupação com desemprego e insegurança social (PEREIRA, ibid, p.53). Todavia, tais fatores como desigualdade social, desemprego, baixa renda e baixa escolaridade, farão com que enormes contingentes de excluídos busquem suas próprias oportunidades de trabalho e sobrevivência, principalmente quando são incentivados pelo Estado a “criar seu próprio negócio”. Nesse sentido, políticas públicas de inclusão social surgem como uma esperança para aqueles que são excluídos pelo chamado “desemprego estrutural”, mesmo que essas iniciativas ainda respondam ou façam parte de uma lógica de inclusão pelas “margens”. Esse é o caso dos catadores de materiais recicláveis da sociedade brasileira, que apesar de serem trabalhadores fundamentais na preservação do meio ambiente, através da reciclagem, como também na cadeia produtiva do país, continuam vivendo em situações precárias de trabalho. 1.3. Políticas públicas de inclusão social no início do século XXI: oportunidades ou manutenção do status quo? Tendo analisado as novas facetas da exclusão social brasileira no final do século XX, a partir do esvaziamento da sociedade salarial, daremos destaque neste momento a política de geração e transferência de renda construída no século XXI no Brasil a partir do governo Lula, com o intuito de verificar de forma breve um rompimento ou continuidade da política de FHC, no que se refere ao processo de inclusão social. O Governo Lula, sobretudo no período de 2003/2007 (equivalente ao primeiro mandato), investiu no combate à fome e à pobreza, ampliando os recursos dos programas de transferência de renda, em que se destacam os Programas Fome Zero e Bolsa-família. O Programa Fome Zero foi instituído logo no início do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a partir da Proposta de Política de Segurança Alimentar elaborada pelo Instituto de Cidadania, em 2001, sob a coordenação de José Graziano da Silva, que contou com a participação de organizações não governamentais, institutos de pesquisa e movimentos sociais. O programa parte da concepção de que o direito à alimentação é um direito humano básico e deve ser assegurado pelo Estado. O projeto norteia-se pelo conceito de segurança alimentar, definido como “a garantia do direito 16 de todos ao acesso a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente e de modo permanente...” (INSTITUTO DE CIDADANIA, 2001, p.14 apud SILVA et al., 2007, p. 120). A proposta do Programa Fome Zero aponta a necessidade de se articular às políticas emergenciais três outros tipos de políticas: políticas estruturais – de geração de emprego e renda, de redução da desigualdade e de Previdência Universal; políticas específicas – aquelas destinadas a promover a segurança alimentar e a combater a fome e a desnutrição da população carente; e políticas locais já existentes em âmbito estadual municipal e parceria com a sociedade civil (SILVA et al., ibid, p. 123-124). O Programa Bolsa-Família resultou da articulação de programas já existentes no governo de Fernando Henrique Cardoso, a partir de um diagnóstico elaborado pela equipe de transição do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, eleito em 2002. Sob a designação de Bolsa-Família, foram inicialmente unificados quatro programas federais de Transferência de Renda: Bolsa-Escola, Bolsa Alimentação, Vale-Gás e Cartão-Alimentação. O Programa foi instituído por meio da Medida Provisória nº 132, de 20 de outubro de 2003 (SILVA et al., ibid, p. 135-136). Outro instrumento importante nesta ótica de enfrentamento das desigualdades sociais é o BPC – Benefício de Prestação Continuada, que sofreu algumas alterações legais, visando assistir aos idosos e portadores de necessidades especiais de baixa renda. A partir de 2003, os idosos tiveram a idade limite para recebimento do benefício reduzida de 67 para 65 anos, e posteriormente, os idosos casados também foram beneficiados, podendo receber dois salários mínimos por grupo familiar, fator que era proibido na legislação anterior. De acordo com as recentes pesquisas divulgadas pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, a desigualdade de renda vem diminuindo entre os brasileiros. Neste sentido, merece destaque inicialmente o estudo realizado sobre a redução da desigualdade entre 2001 e 2004. Medido pelo coeficiente de Gini, que é a medida de desigualdade de renda mais comumente utilizada, o grau de concentração de renda no país caiu 4% entre 2001 e 2004, passando de 0,593 para 0,569. Embora à primeira vista essa taxa possa parecer modesta, em se tratando de uma medida de desigualdade representa uma queda substancial: entre os 75 países para os quais há informações relativas à evolução da desigualdade de renda ao longo da década de 1990, menos de ¼ apresentou taxas de redução da desigualdade superiores à brasileira (IPEA, 2007). 17 No país, os níveis de desigualdade começaram a cair desde 1995, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, no entanto, a queda mais acentuada vem ocorrendo desde 2001. Outro estudo do IPEA (2007) analisa os dados sistematizados a partir da PNAD – Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, para o período de 2001 a 2005. De acordo com este último estudo, em 2005 o índice de Gini do rendimento domiciliar per capita (RDPC) caiu de 0,594 para 0,566 em 2005. Para os pesquisadores o valor absoluto de intensidade da redução é semelhante ao do crescimento de 8 pontos percentuais do índice de Gini do rendimento da PEA no Brasil, na década de 1960, que mereceu grande destaque na literatura sobre distribuição de renda no debate político (HOFFMANN, 2007). Outros indicadores confirmam a tendência de queda na desigualdade de renda no país, demonstrando que há uma desconcentração da riqueza apropriada, em que a percentagem apropriada pelos mais ricos caiu enquanto aumentou a parte da renda apropriada pelos mais pobres. A percentagem da renda apropriada pelos 10% mais ricos cai de 47,2% em 2001 para 45,0% em 2005, ao mesmo tempo em que a percentagem da renda total recebida pelos 5% mais ricos cai de 33,8% para 32,0%. Em 2001 a percentagem da renda total apropriada pelo 1% mais rico (13,8%) ainda era maior do que a percentagem da renda apropriada pelos 50% mais pobres (12,7%). A situação inverte-se em 2005, ficando 12,9% para o centésimo mais rico e 14,2% para a metade mais pobre (HOFFMANN, ibid). Um outro índice que também apontou a melhora na distribuição de renda no país nos anos de 2003 e 2004 é o Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, medido pelo Programa as Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD. O IDH é a síntese de três indicadores: PIB (Produto Interno Bruto) per capita depois de corrigido pelo poder de compra da moeda de cada país, para isto é medido em dólar PCC (paridade de poder de compra, a fim de eliminar as diferenças de custo de vida entre os países); longevidade aferida através do indicador de expectativa de vida ao nascer e; educação aferida através do índice de analfabetismo e a taxa de matrícula em todos os níveis de ensino, isto é níveis de ensino primário, secundário e terciário. As três dimensões têm a mesma importância no IDH, que varia de zero a um (www.pnud.org.br/idh). 18 Os últimos dados disponibilizados pelo PNUD (2006) indicam que o IDH brasileiro cresceu: passou de 0,788 em 2003 para 0,792 em 2004. O resultado mantém o país na 69ª posição no mundo, entre as 83 nações de médio desenvolvimento humano (IDH entre 0,500 e 0,799), fora, portanto, do grupo de 63 nações de alto desenvolvimento humano. Estes dados deixam em evidência que ainda é necessário encontrarem-se caminhos que conduzam a uma maior distribuição de riquezas com a finalidade de combater a pobreza. Segundo Sachs (2004), nas condições brasileiras, o ataque à pobreza deve comportar necessariamente três frentes: (a) as indispensáveis políticas compensatórias para atender os mais necessitados, as quais, por mais importantes que sejam, não resolvem as causas da pobreza e, ademais, demandam despesas extras; (b) a ampliação e universalização das redes de serviços sociais de base e o fortalecimento das instituições democráticas necessárias ao exercício da cidadania; e (c) a geração de números suficientes de novas oportunidades de trabalho decente12 – empregos e auto-empregos – e a transformação em trabalho decente das ocupações precárias e das ocupações informais, ou seja, a construção da ponte sobre o social e o econômico. Nesta evolução ocorrida, pode se considerar que os programas de transferência de renda, embora não sejam o único fator, tiveram seguramente um impacto na redução dos índices de desigualdade de renda no Brasil no período descrito, bem como na melhora do IDH. De acordo com os pesquisadores do IPEA, a partir das informações disponíveis na PNAD é possível distinguir três tipos de transferências públicas: (a) as pensões e aposentadorias públicas; (b) o Beneficio de Prestação Continuada (BPC); e (c) os benefícios do Bolsa Família e outros programas similares, tais como o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) e o Bolsa Escola. Em conjunto, as 12 O Diretor Geral da Organização Internacional de Trabalho – OIT, Juan Somavia, propõe na XVI Reunião Regional Americana no ano de 2006 um conceito de trabalho decente enquanto “um trabalho produtivo com remuneração justa, segurança no local de trabalho e proteção social para o trabalhador e sua família, melhores perspectivas para o desenvolvimento pessoal e social, liberdade para que manifestem suas preocupações, organizem–se e participem na tomada de decisões que afetam suas vidas, assim como a igualdade de oportunidades e de tratamento para mulheres e homens” (OIT, 2006). . . 19 transferências governamentais contribuíram com cerca de 1/3 da redução na concentração de renda, o que aponta para uma elevada importância desse fator (IPEA, ibid, 2007). Tendo em vista um investimento alto por parte do governo federal em políticas sociais através dos programas de transferência de renda, faz-se necessário identificar a existência de uma integração destes programas aos de geração de renda, bem como ao aspecto ambiental. Considerando os apontamentos de Sachs (2004), pode afirmar-se que os programas de transferência de renda não constituem por si só medidas que garantam uma emancipação do indivíduo e consequentemente um desenvolvimento sustentável com inclusão social. Ainda segundo o autor é necessário pensar-se em um conjunto de políticas públicas que apontem a um crescimento econômico com criação de um número suficiente de oportunidades de trabalho decente. Segundo Silva (2006), estudos creditam a redução da desigualdade social à estabilidade da moeda, à recente diminuição do desemprego e aos Programas de Transferência de Renda, pela sua expansão e maior focalização na população pobre. Todavia, tem sido capaz apenas de melhorar a situação de vida dessas famílias, sem, contudo, retirá-las do nível de pobreza em que se encontram. Conforme esta autora: Esses programas ‘de transferência de renda’, quando não são articulados a uma política macroeconômica de crescimento sustentável e de redistribuição de renda, podem significar melhorias imediatas de famílias que vivem em extrema pobreza, mas não superam a pobreza, melhorando a situação vivenciada pelas famílias pobres, sem ultrapassar a denominada linha de pobreza. A mesma pesquisa demonstro que só os Programas de Transferência de Renda que transferem um salário mínimo para indivíduos, o Benefício de Prestação Continuada e o Seguro Social Rural apresentaram impacto significativo na redução da desigualdade e da pobreza no Brasil (SILVA, 2006, p. 14). Apesar do governo Lula estar investindo altos recursos em Políticas Sociais ainda se percebe uma concentração da renda e da riqueza socialmente produzida, dificultando assim uma redução mais significativa nos índices de desigualdade social. Ainda que o governo de Fernando Henrique Cardoso tenha apresentado investimentos em políticas sociais nos últimos anos de seu governo, vimos através dos dados apresentados que foi no governo de Lula que houve uma melhora na distribuição de renda no país. Uma das medidas que possibilitou este avanço foi o programa Fome Zero que prevê uma série de ações para que os brasileiros em situação de vulnerabilidade social consigam gerar sua própria renda, através de programas que 20 privilegiam a criação de cooperativas e associações, bem como o fortalecimento da agricultura familiar. Para isto é dado um direcionamento de financiamento à produção e qualificação dos trabalhadores (www.fomezero.gov.br). 21 CAPÍTULO 2 - DO LIXO AO NICHO: A RECICLAGEM E SUA FUNCIONALIDADE AO CAPITAL EM TEMPOS DE RACIONALIZAÇÃO DO USO DOS RECURSOS NATURAIS O Bicho Vi ontem um bicho na imundície do pátio Catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem. BANDEIRA (1986) 2.1. Lixo ou um novo conceito de matéria prima? As conveniências do mercado capitalista contemporâneo sob a égide do “desenvolvimento sustentável” O ser humano estabeleceu que todo o material resultante de suas mais diversas atividades não lhe sendo mais útil é considerado lixo. No entanto, este paradigma se apresenta hoje, como um tanto ultrapassado, pois segundo Pereira Neto (1996), atualmente propõe-se que o lixo seja definido como uma massa heterogênea de resíduos sólidos, resultante das atividades humanas, os quais podem ser reciclados e parcialmente utilizados, gerando, entre outros benefícios, proteção à saúde pública e, economia de energia e de recursos naturais (Figura 1). 22 LIXO DOMICILIAR Osso Papel Pedra Papelão Terra Plásticos Trapos Vidros Couro Metais Materiais potencialmente Cerâmica recicláveis Outros Rejeitos FIGURA 1: Composição do lixo domiciliar formado por uma massa heterogênea resíduos Fonte: Pereira Neto (1996) Grande parcela dos resíduos produzidos pelo homem é de natureza orgânica, resultante de atividades industriais, comerciais, agrícolas, domiciliares, entre outras. Em geral, esses resíduos orgânicos se apresentam na forma de sobras de alimento, frutas e legumes, folhas, gramas e sobras de cultivo (PEREIRA NETO, 1996) (Figura 2). LIXO ORGÂNICO (Matéria Orgânica) Resíduos Orgânicos Agroindustriais Sobras de Frutas Resíduos Orgânicos industriais Sobras de Legumes Restos de Alimentos Lodos Orgânicos Podas, Gramas, Palhas, sobras de cultivo, serragem, etc. FIGURA 2: Resíduos orgânicos que compõe o lixo orgânico Fonte: Pereira Neto (1996) 23 “Historicamente, desde que os seres humanos começaram a se agrupar, sempre existiu a produção de resíduos. Com o avanço dos processos de industrialização, urbanização e crescimento demográfico houve um aumento crescente da produção de resíduos, que passou a ter uma composição cada vez mais diversificada e perigosa” (GONÇALVES, 2005, p. 87). O volume de lixo gerado tem crescido rapidamente, sobretudo nos países em desenvolvimento, tornando-se um grande problema se não existir uma visão abrangente e comprometida com a proteção ambiental, tanto pelo controle da poluição quanto pela economia de energia e de recursos naturais. Do ponto de vista ecológico e da degradação ambiental, sabe-se que o lixo representa poluição e conseqüentemente degradação ambiental. Ainda, significa grande desperdício de recursos naturais e energéticos. Afinal, com a cultuação do consumismo desenfreado, somos compelidos cada vez mais a consumir mais supérfluos, que através de suas embalagens “descartáveis” rapidamente viram lixo, que aumenta em quantidade e variedade, contendo materiais cada vez mais estranhos ao ambiente natural. O resultado disso, segundo Vieira (1998), é um planeta com menos recursos naturais e um povo doente, fadado ao próprio extermínio, face à visão predadora do homem que ainda, irracionalmente, reluta em aceitar a sua inter-relação com o meio ambiente. O modelo de desenvolvimento econômico dominante entende a natureza como se todos os recursos fossem inesgotáveis, e a explora sem equilíbrio ecológico, conseqüentemente, se desequilibrando junto. Um paradoxo, pois em nenhum outro momento da história do mundo houve tantos recursos tecnológicos envolvidos na produção e no dia a dia dos homens. Em quase todas as atividades do mundo moderno há maquinas que, supostamente, facilitam as atividades humanas. Entretanto, também nunca houve tantas desigualdades sociais, injustiças, misérias, fome e mais recentemente a constatação da irreversível depredação do ambiente natural do planeta, causado em sua maioria pela ação antropocêntrica. Dentre muitas destas depredações se destaca as de nível global, que se não são as mais graves, são as de maior repercussão: o aquecimento da terra, a perda da biodiversidade nas florestas, o aumento do buraco na camada de ozônio, o lixo nuclear, a poluição dos mares e a escassez da água (Id). Silva (2003) assinala que os recursos naturais, nos primórdios da formação da ciência econômica, exerceram um papel de grande relevância nas análises dos economistas. Entretanto, o que se percebe é que esta preocupação não estava interligada 24 efetivamente à questão ambiental em si, mas aos prejuízos que poderiam causar ao setor econômico, no que tange a sua lucratividade. Esta afirmativa pode ser evidenciada nas palavras de Silva (ibid) quando apresenta a tal preocupação da ciência econômica em diferentes momentos: (...) nas teses fisiocráticas, da segunda metade do século XVIII, sobre origem agrária do excedente, no alerta da escola clássica quanto ao possível comprometimento da expansão capitalista como decorrência da escassez de recursos naturais, percebido pelo desequilíbrio entre o crescimento populacional e a oferta de alimentos, segundo Thomas Malthus, e pela redução da produtividade do trabalho agrícola – por escassez de terras férteis – e consequentemente queda do lucro, de David Ricardo, no início do século XIX (ORTIZ et al, 2001 apud SILVA, 2003, p. 33). A partir da segunda metade do século XIX, fatores históricos – o progresso técnico e o alargamento das fronteiras geográficas – e a própria evolução do pensamento econômico, através das análises neoclássicas, se somaram para a diluição da importância dos recursos ambientais da análise econômica. A argumentação adotada foi que “a abundancia dos recursos naturais é tamanha que estes são economicamente gratuitos, não se convertendo, portanto, em bens econômicos e tampouco em fatores de produção” (OLIVEIRA, 1997 apud SILVA, Ibid). Na perspectiva de Ramonet (1998), a Revolução Industrial é a fase que melhor representa a falta de limites do homem frente ao uso e exploração dos recursos naturais. Para o autor, mais que uma profunda revolução técnica, representou o coroamento do processo civilizatório ocidental que buscou incessantemente o aumento da produtividade baseado na intensificação da exploração dos recursos naturais e conseqüentemente na sua destruição. Conforme afirmam MacNell et al. (1992, p.15), “(...) os progressos do passando foram acompanhados pelo enorme recrudescimento na escala de impacto ambiental sobre a terra. Desde 1900, a população mais que triplicou. Sua economia cresceu 20 vezes. O consumo de combustíveis fósseis aumentou 30 vezes e a produção industrial 50 vezes. A maior parte desse crescimento, cerca de quatro quintos dele, aconteceu a partir de 1950.” Embora a devastação do meio natural tenha se processado em alta escala durante muitas décadas, só após a primeira crise do petróleo em 1973, são explicitados os questionamentos sobre os problemas ambientais causados pelo setor econômico. Segundo Leff (2001), a luta contra a devastação da natureza se intensifica e ganha mais 25 força quando defensores do meio ambiente e cientistas começaram a questionar a construção social do mundo moderno ancorado em um saber que é conduzido por estratégias de poder que refletem em uma grave crise ambiental. Tais estratégias segundo o autor se dão a partir de um discurso que defende o progresso partindo de um crescimento econômico sem limites que, por sua vez, resulta numa “capitalização da natureza” e “homogeneização cultural”. O modelo econômico atual põe em questão a noção moderna de desenvolvimento sustentável estabelecido pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento que se apresenta como aquele que “satisfaz as necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer suas próprias necessidades” (CMMAD, 1988). As discussões sobre os impactos do modelo de desenvolvimento de produção sobre o meio ambiente têm suas origens na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo em 1972. Vale destacar que estas discussões tiveram como pano de fundo, a idéia de crescimento zero. A publicação de The Limits of Growth do Clube de Roma, e que marcou as discussões dessa Conferência, introduziu “a idéia de finitude do modo de produção de mercadorias (que funciona baseado numa falsa infinitude), concluindo que caso não houvesse mudanças só chegaríamos a uma catástrofe” (NOBRE, 2002). Nessa Conferência não se chegou a nenhum ponto de consenso por discrepâncias de fundo entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento, bem como entre ambientalistas e desenvolvimentistas. Em 1983, foi criada a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD) – por determinação da ONU – com a função de avaliar os impactos produzidos pelas sociedades de consumo em todo o mundo. Em 1987, a CMMAD publica “Nosso Futuro Comum” ou Relatório Brundtland, onde é publicado pela primeira vez o conceito de “Desenvolvimento Sustentável”. A idéia força deste relatório reside primeiramente em ter pretendido mostrar que finitude no interior do modo de produção capitalista não significa necessariamente catástrofe. Segundo Lélé ( 1991, p.613 apud Nobre, ibid, p. 30): “O impacto maior do movimento do DS é a rejeição de que conservação ambiental seja necessariamente um constrangimento ao desenvolvimento ou que o desenvolvimento signifique necessariamente poluição ambiental – não se trata certamente de um ganho desprezível”. 26 Diversos autores assinalam que o Relatório Brundtland foi sobre tudo um documento político mais que, um tratado científico dos problemas do mundo. Nas palavras de Brundtland “o objetivo do relatório era aumentar o nível de conscientização dos governos, agências de auxílio e outras que se ocupam com o desenvolvimento, quanto à necessidade de integrar considerações ambientais no planejamento e nas tomadas de decisão econômicas em todos os níveis”. Pode concluir-se que, embora o Relatório seja bastante imperfeito como relatório ambiental, foi uma importante contribuição para a politização dos problemas ambientais e sua inter-relação com problemas de desigualdade, pobreza e políticas de comércio internacionais (BROOKFIELD, 1988 apud NOBRE, ibid). Outrossim, corresponde ressaltar que, em contraste com as discussões da Conferência de Estocolmo de 1972, e das teses de “The Limits of Growth” onde o crescimento era o próprio problema, “o Relatório Brundtland advoga o crescimento. De fato, ele vê o crescimento como uma necessidade urgente se se trata de reduzir a pobreza e minimizar os impactos ambientais” (BURTON, 1987 apud NOBRE, ibid). Entretanto, na governança internacional a legitimação do conceito de Desenvolvimento Sustentável só se dá na década de 1990, quando realizada a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD) – também conhecida como, Cúpula da Terra ou ECO 92 – deixando em evidência os laços inextricáveis que existem entre as questões ambientais e o desenvolvimento. Desde a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) em 194513 o conceito de desenvolvimento caracterizou-se por passar por uma complexificação, bem como, pela compreensão de que se trata de um conceito pluridimensional. Segundo Sachs (2007), hoje estamos muito longe do ponto de partida, quando se acreditava que o crescimento econômico resolvia tudo. Hoje, na seqüência dos trabalhos de Amartya Sen, pode se dizer entre as mil definições de desenvolvimento, que o desenvolvimento é a efetivação universal do conjunto dos direitos humanos, desde os direitos políticos e cívicos, passando pelos direitos econômicos, sociais e culturais, e terminando nos direitos coletivos, entre os quais está, por exemplo, o direito a um meio ambiente saudável (Id). 13 A ONU e suas Agências tiveram um papel fundamental no período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial na evolução do conceito de desenvolvimento. 27 Sachs (ibid) assinala que com base nesses adjetivos acrescentados ao conceito de desenvolvimento deve dar-se ênfase na priorização de alguns aspectos, assim defende que, quando se fala de desenvolvimento, deve se pensar em que este deve ser socialmente includente, ambientalmente sustentável e economicamente sustentado. Para tornar isto possível devemos partir de dois postulados éticos de solidariedade, um sincrônico com nossa geração, permitindo seu progresso, porém, respeitando as condicionalidades ecológicas e ambientais, a partir do conceito de solidariedade diacrônica com as gerações futuras. Mas, para que as coisas aconteçam, têm que ser economicamente viáveis, isto é, o econômico não tem que ser um objetivo em si, mas o instrumental com o qual avançar a caminho do desenvolvimento includente e sustentável. O autor destaca a questão de desenvolvimento includente, em função de que o problema social mais importante de nossa época é o desemprego aberto, o subemprego e a exclusão social que atingem grande parte da população em idade de trabalho. De acordo com Sachs (ibid, p.24) quando se fala de “inclusão social, cabe dizer que há uma diferença essencial entre ações assistenciais, necessárias tendo em vista a imensidão do problema, mas que não modificam estruturalmente a situação, e as ações que consistem em promover a inclusão social pelo “trabalho decente”. O adjetivo “decente”14 implica o lado qualitativo, ou seja, remuneração, condições trabalhistas e relações de trabalho condizentes com a dignidade humana. Isto é, que significa que não é suficiente promover o emprego ou o auto-emprego, é necessário ainda que ele inclua os preceitos de decência”. Tanto Sachs (2004) como Guimarães (2001; 2006) apontam que os pilares fundamentais do desenvolvimento sustentável são: o social, o ambiental, territorial, econômico e político. De acordo com Guimarães (2006, p.30), o que está em jogo é a superação dos paradigmas da modernidade, que está definindo a orientação dos processos de desenvolvimento, e a sua substituição por um paradigma de desenvolvimento humano sustentável que coloque os seres humanos no centro do processo de desenvolvimento, que considere o crescimento econômico como um meio e não como um fim em si mesmo, que proteja as oportunidades de vida para as gerações atuais e futuras e, em última instância, que respeite a integridade dos sistemas de suporte à vida no planeta. 14 Atualmente utilizado pela Organização Internacional do Trabalho - OIT. 28 Trata-se em síntese, de um paradigma que responde a um novo padrão civilizatório, a uma forma distinta de definir a articulação entre seres humanos e natureza. Um paradigma que responde também a um novo padrão de relacionamento entre os próprios seres humanos. Refletindo a partir das idéias de Sachs (2004; 2007) e Guimarães (2001; 2006), pode-se concluir que o modelo econômico vigente é incapaz de garantir um bem-estar a toda humanidade e às gerações futuras sem comprometer a estabilidade dos ecossistemas, se não repensar suas ações. A história nos tem demonstrado que o crescimento econômico não implica necessariamente desenvolvimento, portanto, o desenvolvimento não deve ser entendido apenas a partir do econômico, senão que deve buscar-se também eqüidade e justiça social, através do equilíbrio entre o ambiental e a tecnologia, que como bem assinala Leff (2001) é diferente da sustentabilidade apresentada pelo discurso neoliberal: “A retórica do desenvolvimento sustentável converteu o sentido crítico do conceito de ambiente numa proclamação de políticas neoliberais que nos levariam aos objetivos do equilíbrio ecológico e da justiça social por uma via mais eficaz: o crescimento econômico orientado pelo livre mercado. Este discurso promete alcançar seu propósito sem uma fundamentação sobre a capacidade do mercado de dar o justo valor à natureza e à cultura; de internalizar as externalidades ambientais e dissolver as desigualdades sociais; de reverter as leis da entropia e atualizar as preferências das futuras gerações” (LEFF, 2001, p.24). É notório que o crescimento não conduz automaticamente à eqüidade nem a justiça social, pois não leva em consideração nenhum outro aspecto da qualidade de vida a não ser o acúmulo de riquezas proporcionado apenas a alguns indivíduos. O sistema capitalista, com seu objetivo de otimização dos “lucros” extrai o máximo da natureza agindo de forma perversa e predatória através de uma política injusta e alienante. Processo, que de acordo com Leff (2001, p.16), converteu a escassez, numa escassez global que já não se resolve mediante o progresso técnico, isto é, pela substituição de recursos escassos por outros mais abundantes. Segundo Silva (2003, p.34), os recursos físicos são resultantes de ciclos naturais do planeta Terra que duram milhões e milhões de anos. A capacidade de recomposição de um recurso no horizonte do tempo humano tem sido o principal critério para a 29 classificação dos recursos naturais15 que podem ser renováveis, ou reprodutíveis, e nãorenováveis, ou exauríveis, esgotáveis ou não-reprodutíveis. De acordo com WBGU (1996 apud van Bellen 2006, p.20), os principais motivos de degradação ambiental estão expressivamente ligados ao processo de exploração e acumulação não possibilitando a renovação dos recursos renováveis e esgotando aqueles não renováveis. Os principais elementos de degradação ambiental são: - Cultivo excessivo das terras marginais; - Exploração excessiva dos ecossistemas naturais; -Degradação ambiental decorrente do abandono de práticas de agricultura tradicional; - Utilização não sustentável, pelos sistemas agroindustriais, do solo e dos corpos de água; - Degradação ambiental decorrente da depleção de recursos não-renováveis; - Degradação da natureza para fins recreacionais; - Destruição ambiental em função do uso de armas e decorrente dos conflitos militares; - Dano ambiental da paisagem natural a partir da introdução de projetos de grande escala; - Degradação ambiental decorrente da introdução de métodos de agricultura inadequados e/ou inapropriados; - Indiferença aos padrões ambientais em função do rápido crescimento econômico; - Contaminação local de propriedades onde se localizam plantas industriais; - Degradação ambiental decorrente da disposição controlada e descontrolada e resíduos. Tendo em vista as leis de preservação ambiental que vão surgindo, apesar delas favorecerem em certa medida a rede capitalista, as empresas terão que se adequar às normatizações quanto à exploração e uso do meio natural. Porém, como no livre 15 Os solos, o ar, as águas, as florestas, a fauna e a flora são considerados recursos naturais renováveis, pois seus ciclos de recomposição são compatíveis com o horizonte de vida do homem. Os minérios em geral e os combustíveis fósseis (petróleo e gás natural) são tidos como não-renováveis, uma vez que são necessárias eras geológicas para sua formação (SILVA, 2003). 30 mercado globalizado tudo passa a ter valor econômico, até mesmo as políticas de preservação ambiental passam a ser vistas como um novo e lucrativo negócio que as empresas “poderão” e “deverão” explorar para garantir a manutenção de sua lucratividade. Como já assinalado, o fato da definição de DS dada pelo Relatório Brundtland ser extremamente vaga, deu espaço a numerosas definições e interpretações, o qual se prestou em certo modo para a banalização do termo. É justamente esta banalização do termo “desenvolvimento sustentável” que dá margem para que o próprio mercado mediante suas conveniências apresente definições que irão beneficiar simplesmente o fator econômico, desconsiderando, portanto, os aspectos sociais e ambientais. Neder (2006) assinala que na verdade, para grande parte das empresas os bens e serviços ambientais não passam de mercadorias. Quanto ao cumprimento de leis ambientais específicas, deparamo-nos com o uso de seu poder político e jurídico para neutralizar a regulamentação dos governos, recorrendo, em particular, aos argumentos de proteção do emprego e da empresa nacional. Por questão de sobrevivência, quando existe uma pressão maior dos órgãos de controle e/ou do movimento ambientalista tais empresas assumem uma falsa responsabilidade social para mudar a imagem da organização. Continuando com o autor, para grande parte das indústrias o sentido de preservação ambiental no decorrer da década de 1980 se resumiu à resposta às multas e sanções, portanto, podendo se dizer que não havia consciência ambiental. O autor ainda assinala que o surgimento deste marco legislativo não se reverteu em mudanças na estratégia de exploração do meio ambiente. Somente no final da referida década tendo em vista o processo de globalização que gera uma acirrada competitividade entre as grandes empresas e a racionalização de recursos naturais é que as empresas buscam se garantir no mercado utilizando-se de marketing através da difusão das chamadas tecnologias limpas e do conceito de excelência ambiental que avalia a organização não somente pelo seu desempenho produtivo e econômico, mas por seus valores éticos e pela performance ambiental16 (Id). 16 “Tomando como ponto de partida princípios definidos pela Política Ambiental, foi estruturado, o Sistema de Gestão Ambiental (SGA) da empresa que compreende as responsabilidades, práticas, procedimentos e recursos para implementar e manter a Política Ambiental da empresa e seus objetivos. O SGA constitui um primeiro passo obrigatório para a certificação da empresa nas normas da série ISO que possibilitarão incorporar a Gestão Ambiental na gestão pela Qualidade Total” (VALLE, 1996). 31 A preocupação principal da política econômica contemporânea é manter viável o atual sistema econômico, através da constituição de novas estratégias que garantam o seu processo de acumulação. Por isso, entende-se aqui que não é possível adequar as estratégias de livre mercado a uma exploração dos recursos naturais ambientalmente sustentável, bem como também garantir a justiça social. Vale ressaltar que não se pretende ao realizar tal crítica desenvolver uma análise unilateral e empobrecida colocando as políticas voltadas para a questão ambiental apenas como uma estratégia do Estado para favorecer o mercado, deve ser vista também, como um resultado de pressão e luta dos movimentos sociais. Pois, dentre o surgimento de vários movimentos sociais com diferentes demandas, surge também o movimento ambiental que segundo Leff (2001), incorpora novas reivindicações às demandas tradicionais pelos direitos humanos e pela justiça social, assim como para satisfazer de forma efetiva as necessidades básicas e as aspirações de desenvolvimento material e cultural da sociedade, contribuindo para gerar uma cultura política mais plural e para dar sentido aos processos de governabilidade democrática. Presencia-se, portanto, uma correlação de forças, onde, de um lado, um discurso instituído defende que o mercado será capaz de se auto-regular em prol, tanto da diminuição da injustiça social, da pobreza e da miséria, como da racionalização no uso dos recursos naturais e, do outro lado, uma linha contra hegemônica vai nos mostrar que tanto os problemas sociais, como os ambientais emergiram, em grande parte, do paradigma dominante do sistema produtivo do capitalismo, este regido pelo livre mercado (LEFF, ibid). Neste cenário, a tensão entre meio ambiente e modernidade tem gerado uma questão socioambiental, apresentando, portanto, novos paradigmas de desenvolvimento. Estes consistem no paradigma da racionalidade ambiental em contraposição ao paradigma da racionalidade do capitalismo expansionista (Id). Segundo Leff (2002) a sociedade capitalista gerou um crescente processo de racionalização formal e instrumental que moldou todos os âmbitos da organização burocrática, os métodos científicos, os padrões tecnológicos, os diversos órgãos do corpo social e os aparelhos jurídicos e ideológicos do Estado. Entretanto, a questão ambiental contemporânea coloca a necessidade de introduzir reformas no Estado, de incorporar normas ao comportamento econômico, de legitimar novos valores éticos e procedimentos legais e de produzir técnicas para controlar os efeitos poluidores e dissolver as externalidades sociais e ecológicas geradas pela racionalidade do capital; a 32 problemática ambiental questiona os benefícios e as possibilidades de manter uma racionalidade social fundada no cálculo econômico, na formalização, controle e uniformização dos comportamentos sociais, e na eficiência de seus meios tecnológicos, que induziram um processo global de degradação socioambiental, socavando as bases da sustentabilidade do processo econômico e minando os princípios de eqüidade social e dignidade humana. Num sentido propositivo, a questão ambiental abre assim novas perspectivas para o desenvolvimento, descobrindo novos potenciais ecológicos, tecnológicos e sociais, e propondo a transformação dos sistemas de produção, de valores e de conhecimento da sociedade, para construir uma racionalidade produtiva alternativa. A partir da perspectiva dos fins de um manejo integrado e sustentável dos recursos naturais, as contradições entre a lógica do capital e os processos ecológicos não se apresentam como simples oposição de duas lógicas abstratas contrapostas; razão pela qual sua solução não consiste em subsumir o comportamento econômico na lógica dos sistemas vivos ou em internalizar esta lógica como um sistema de normas e condições ecológicas, na dinâmica do capital (PASSET, 1979 apud LEFF, 2002). As contradições entre racionalidade ambiental e racionalidade capitalista é uma confrontação de interesses opostos arraigados em estruturas institucionais, paradigmas de conhecimento e processos de legitimação que enfrentam diferentes agentes, classes e grupos sociais (LEFF, 2002). Assim, de acordo como o autor, racionalidade ambiental não é a expressão de uma lógica, mas o efeito de um conjunto de práticas sociais e culturais diversas e heterogêneas, que dão sentido e organizam os processos sociais por intermédio de certas regras, meios e fins socialmente construídos, que ultrapassam as leis derivadas da estrutura de um modo de produção. Em outras palavras, a racionalidade ambiental não é uma lógica (do mercado, da natureza) ou de uma lei (do valor, do equilíbrio ecológico); é a resultante de um conjunto de normas, interesses, valores, significações e ações que não se dão fora das leis da natureza e da sociedade, mas que não as imitam simplesmente; trata-se de uma racionalidade conformada por processos sociais que ultrapassam suas atuais estruturas (LEFF, ibid, p. 125-126). Por sua parte Stahel (2003) analisa a dinâmica de funcionamento do capitalismo a partir da noção da entropia, oriunda da termodinâmica, pois segundo o autor este conceito lança uma nova luz sobre a questão política, que emerge como central a toda busca de desenvolvimentos sustentáveis, uma vez que uma sociedade sustentável 33 depende antes de tudo de uma reconstrução política total da sociedade contemporânea. Para o autor, o problema da sustentabilidade se insere na problemática geral da entropia material e energética crescente de um lado, frente à capacidade dos organismos vivos em manterem o seu nível de entropia baixo, do outro. Isto significa que o que gera a insustentabilidade é o alto consumo de matéria prima (energia) e conseqüentemente um grande descarte de lixo, caso este não seja reutilizado. O processo de reciclagem constitui-se, portanto, numa alternativa de garantir uma entropia positiva na medida em que esta for reduzida (baixa entropia). Esta medida garante uma redução da exploração do meio ambiente na busca desenfreada por recursos naturais. Assim, as discussões sobre a reciclagem17, passam a ser debatidas com maior intensidade a partir da primeira crise do petróleo, quando ampliam-se os debates sobre a racionalização do uso dos recursos naturais. A reciclagem é um processo que contribui a delongar o processo de entropia do sistema Terra e conseqüentemente da depleção do meio ambiente, razão pela qual sua adoção tornou-se uma necessidade urgente. No entanto, na lógica do desenvolvimento capitalista, a reciclagem tem se tornado um nicho de mercado na qual se inserem grupos de baixa qualificação profissional e diversificada problemática social (desempregados, dependentes químicos, moradores de rua) na procura de re-inserir-se no mercado de trabalho, na busca de satisfazer suas necessidades básica de subsistência. Mas, em uma sociedade capitalista de acordo com a teoria marxista, as relações de trabalho se dão sempre no âmbito dos interesses e da exploração, onde os mais fortes dominam os mais fracos, ou seja, entre os que detêm e os que não detém os meios de produção. Infelizmente, não se pode dizer aqui que tais incentivos ocorreram através de uma valorização daqueles “velhos trabalhadores” da reciclagem, os chamados catadores de papel, estigmatizados como mendigos, vagabundos, vira-latas e, tantas outras condenações. De fato surgem diferentes discursos competentes melhorando a imagem destes trabalhadores, os colocando na condição de agente primordial do meio ambiente e da cadeia produtiva, portanto, mantendo tais indivíduos na marginalidade frente a sua submissão ao processo de exploração e precarização do trabalho, como será discutido no próximo capítulo. 17 De acordo com Magalhães et al. (2004), a reciclagem significa retornar e incorporar novamente no ciclo de produção o(s) produto(s) de origem industrial, artesanal e agrícola que foi (foram) usado(s) e descartado(s). 34 A oportunidade de uma inserção social, através da reciclagem, na verdade, se apresenta mais como uma das estratégias do mercado capitalista para sua autoreprodução, tendo por trás o discurso ambientalista (Mota, 2002). A exploração deste trabalho se processa no âmbito do chamado terceiro setor que se configura através de uma política estratégica denominada economia solidária. 2.2. Repassando responsabilidades via “terceiro setor”: as novas relações de trabalho a partir da estratégia neoliberal Tendo neste trabalho, como campo exploratório de estudo uma associação de catadores de materiais recicláveis (vide Cap. III), onde prevalece o objetivo de compreender sua forma de organização, de produção e funcionamento, com o intuito de desvendar as possibilidades de uma auto-gestão, torna-se necessária a discussão sobre o chamado Terceiro Setor por ser este o lócus de configurações dos modos de produções econômicas “alternativos” ao modelo hegemônico. O Terceiro Setor entendido enquanto um conjunto de iniciativas privadas, de caráter público, sem fins econômicos como associações, fundações, Organizações NãoGovernamentais (ONG’s)18, organizações ligadas à filantropia empresarial, projetos de caridade, etc, assumidamente solidárias e destinadas ao interesse público, é uma expressão que vem sendo usada de forma ampla, nas últimas décadas, para se diferenciar do primeiro setor que seria o Estado, considerado espaço da vida pública, com finalidade pública; e do segundo setor, o mercado, como o espaço privado com fins privados (FERNANDES, 1994). Conforme retrata Salamon e Anheier (1992 apud Fernandes, 1994), o Terceiro Setor é composto por organizações com características específicas como: formais e institucionalizadas, privadas e independentes do governo, não distribuem lucros, se auto-gerenciam e, por último, possuem um grau significativo de participação voluntária. Este setor, com as referidas características, segundo Landim (1999), trata-se de um termo importado, originário dos Estados Unidos, local onde o voluntariado e o 18 As Organizações Não-Governamentais no cenário brasileiro aparecem na década de 90 buscando parceria e financiamento do Estado, e não como canal de oposição a ele, como ocorreu no período da ditadura militar. Estas instituições eram importantes fomentadoras de movimentos sociais (MONTANO, 2005). 35 associativismo são próprios da cultura política e cívica, embasada no individualismo liberal, no qual a sociedade se sobrepõe ao Estado. Apesar de haver um consenso sobre o conceito de Terceiro Setor apresentado por Fernandes (1994) supracitado, será utilizada neste trabalho a mesma fundamentação teórica, ainda que polêmica, construída por Montano19 (2005), por tratar-se de uma crítica que apresenta o Terceiro Setor como um fenômeno real escamoteado, ou seja, por desvendar algumas problemáticas que o próprio termo apresenta e que não é debatido em nossa sociedade conforme será feito a seguir. Para Montano (ibid), o Terceiro Setor apresenta algumas debilidades que o torna um termo vago e impreciso que explica tudo e não explica nada, pois contém muitas contradições em si. Segundo o autor tais debilidades se resumem em: contradição sobre a origem do termo, pois apesar de muitos autores defenderem o seu surgimento nos anos de 1960 e 1970 com o apogeu dos chamados “novos movimentos sociais” e das ONG’s, o seu formato conceitual nos leva a entender que a sua existência já estava vinculada às instituições filantrópicas de caridade, dos séculos XV a XIX (Ex. Santas Casas da Misericórdia); dissenso entre autores sobre as entidades que compõem o Terceiro Setor; confusão teórica que se resume em um conceito que confunde mais do que esclarece; e por fim não têm a autonomia que pretendem – nem prática, nem ideológica e muito menos financeira – dos governos (Id). Continuando com o autor, esta falta de autonomia dos governos faz com que nas diferentes organizações ditas não-governamentais e de auto-gestão ainda prevaleça um espaço de dependência governamental no que tange a sua própria garantia de sobrevivência (MONTANO, 2005, p.58). Mediante as análises de Montano (1999), pode-se inferir que o Terceiro Setor como ideologia, transforma a sociedade civil em um meio para o projeto neoliberal desenvolver sua estratégia de reestruturação do capital, desencadeando os impactos causados pelo próprio neoliberalismo e propiciando maior aceitação da população afetada, através da propagação da auto-ajuda, através das organizações sociais. Por isto, o chamado Terceiro Setor está diretamente ligado ao contexto da reestruturação capitalista, que oculta por trás desta denominação ideológica a sua funcionalidade para com o projeto neoliberal, no enfrentamento das refrações da questão social. 19 Montano (2005) em seu livro “Terceiro Setor e Questão Social: Crítica ao Padrão Emergente de Intervenção Social”, mantém uma postura crítica e cética a respeito do Terceiro Setor no Brasil. 36 Dando continuidade as discussões do autor, a difusão do Terceiro Setor nos aponta uma contradição entre interesse privado e interesse público, onde o privado sobressai ao público, uma vez que a lógica vigente é a do mercado, que está sendo imposta ideologicamente à sociedade civil, a qual vem se organizando em estratégias de combate à fome, ao analfabetismo, à violência, à desnutrição, pois se trata de solidariedade ao vizinho. As ONG’s, que são parte constitutiva do terceiro setor, destacaram-se, segundo Fernandes (1994), com uma forma nova, institucionalizada e de reconhecimento mundial. Na atualidade têm como um dos principais espaços de trabalho a execução de projetos junto às camadas mais pobres dos países em desenvolvimento. Este espaço que começa a ser demarcado, no Brasil, a partir da década de 1970 como um fortalecedor dos movimentos sociais, ganha um novo perfil a partir da década de 1990. Tais organizações assumem o papel de parceiras do Estado para tratarem da questão social, permanecendo a ideologia dos mais ricos “ajudando” os mais pobres e não a cultura do direito a ter direito. As ONG’s antes de se apresentarem como parceiras do Estado, começaram a se esboçar no Brasil, no bojo da resistência à ditadura militar, quando o regime autoritário bloqueava a participação dos cidadãos na esfera pública, gestando-se como um novo campo de liberdade e reivindicações. Conforme Gohn (1998, p.14), No Brasil, nos anos 70-80, as ONG’s cidadãs estiveram por detrás da maioria dos movimentos sociais populares urbanos que delinearam um cenário de participação na sociedade civil, trazendo para a cena pública novos personagens, contribuindo decisivamente para a queda do regime militar e para a transição democrática no país. Os movimentos sociais formaram redes de relacionamento onde a iniciativa local era evidente, gerando linguagens e estilos comuns. Neste cenário, as associações se multiplicam, formando nas bases os elementos primários de uma institucionalidade democrática. Estas se tornam parceiras de movimentos e iniciativas não governamentais. Nas análises de Pontes et al. (1996), as associações valorizavam a noção de autonomia, introduzindo um padrão inovador no enfrentamento dos problemas comuns. Apresentaram o suporte civil para o aprendizado de uma pequena cultura de ação nãogovernamental, a qual se engendrava pelas bases sem se importar com o autoritarismo. 37 Até a década de 1990, as ONG’s tinham um papel fundamental de apoio aos movimentos sociais, seus objetivos estavam articulados. De acordo com Pontes et al. (ibid), os recursos vindos do exterior para a manutenção destas organizações que posteriormente injetava nos movimentos sociais eram exorbitantes. Porém, após a queda do muro de Berlim os países asiáticos passavam a ser o alvo das ONG’s, pois estes países estavam estruturando o sistema capitalista, e deixam de investir o mesmo montante no Brasil, como também em outros países em desenvolvimento (MONTANO, 1999). O contexto brasileiro da década de 1990, demarcado pela política neoliberal que estrategicamente desmobilizou os movimentos sociais (incluindo os sindicatos) ou cooptou os mesmos, levou as ONG’s a entrar em crise de legitimidade e romper com os movimentos sociais. Este rompimento provocou na sociedade civil algumas confusões quanto ao entendimento sobre a diferenciação entre movimento social e ONG, culminando, portanto, numa inversão de conceitos, ou seja, os movimentos sociais são ONG’s e vice e versa (MONTANO, 1999). Nesta mesma década ocorre uma proliferação de organizações ditas nãogovernamentais, que apresentam uma configuração diferente daquelas ONG’s das décadas anteriores, pois agora como parceiras do Estado estas organizações passam a receber incentivos governamentais, através de crédito fácil, isenção fiscal, recursos financeiros para atuarem nos espaços onde o Estado paulatinamente se retrai (Id). Conforme expõe Montano (2005, p.224), A função das “parcerias” entre o Estado e as ONG’s não é a de “compensar”, mas a de encobrir e a de gerar a aceitação da população a um processo que tem clara participação na estratégia atual de reestruturação do capital. É uma função ideológica. Assim, tendo em vista a expressiva participação da sociedade civil no processo de redemocratização do país, percebe-se que após várias conquistas registradas na Constituição Federal de 1988, no momento em que deveria se iniciar a mudança na cultura política do país, houve um retrocesso. Através de um forte discurso sobre solidariedade, a sociedade civil, ou seja, o terceiro setor é chamado a se organizar e trabalhar pela questão social. 38 Todavia, grande parte das conquistas adquiridas pela classe de trabalhadores através dos movimentos sociais foi se diluindo e dando lugar às novas relações de trabalho, marcadas pela informalidade que concomitantemente gera desproteção social. A ênfase dada à cultura empreendedora e individualista tornou-se cada vez mais difundida. Nos anos de 1990, as declarações oficiais do governo federal brasileiro descartavam abertamente o sindicalismo, tachavam a negociação coletiva de ultrapassada e inadequada à indústria contemporânea e, davam seu crivo às novas estratégias de acumulação do capital através da flexibilização do trabalho e informalidade, tendo esta última como uma de suas representatividades, de forma mascarada, a chamada economia solidária. 2.2.1. A economia solidária no atual contexto de reestruturação capitalista Conforme Singer et al. (2000), a economia solidária surge como uma alternativa ao modo de produção capitalista, frente a sua nova fase de desenvolvimento caracterizada pelo desemprego estrutural e pela precarização do trabalho, sob hegemonia da globalização financeira. De acordo com Singer et al. (2000, p.13), A economia solidária surge como modo de produção e distribuição alternativo ao capitalismo, criado e recriado periodicamente pelos que se encontram (ou temem ficar) marginalizados do mercado de trabalho. A economia solidária casa o princípio da unidade entre posse e uso dos meios de produção e distribuição (da produção simples de mercadorias) com o princípio da socialização destes meios (do capitalismo) (...). A unidade típica da economia solidária é a cooperativa de produção, cujos princípios organizativos são: posse coletiva dos meios de produção pelas pessoas que as utilizam para produzir; gestão democrática da empresa ou por participação direta; repartição da receita líquida entre os cooperados por critérios aprovados após discussões e negociações entre todos; destinação do excedente anual também por critérios acertados entre todos os cooperadores. Para Singer (2003), a economia solidária é considerada uma possível alternativa à sociedade vigente, ao desemprego e a flexibilização das relações de trabalho que busca inserir pessoas excluídas do mercado de trabalho formal. A economia solidária emergiu com a crise social na chamada década perdida de 1980 e de 1990, em que o Brasil se desindustrializou, em decorrência do qual muitos postos de trabalho foram perdidos, acarretando desemprego em massa e acentuada exclusão social. Segundo Singer et al. (2000), é a partir desta época que a economia solidária reviveu no Brasil, constituindo-se em uma ação que possibilitou a geração de novas oportunidades de inserção social pelo trabalho, propiciando: democratização da gestão 39 do trabalho; conhecimento sobre os segredos da produção; valorização das relações de cooperação; distribuição de renda; e fortalecimento do desenvolvimento local sustentável. Para Gonçalves (2003), Veiga e Fonseca (2001), a organização da economia solidária baseia-se na cooperação autogestionária, tendo os seguintes princípios e valores apresentados no Quadro 1: QUADRO 1: Princípios e valores norteadores da organização da economia solidária PRINCÍPIOS - Adesão Livre e Voluntária - Gestão Democrática e Participativa - Participação Econômica dos Sócios - Autonomia e Independência - Educação, Capacitação e Informação. - Intercooperação - Compromisso com a Comunidade VALORES - Ajuda mútua - Responsabilidade - Democracia - Igualdade - Equidade/Solidariedade. - Honestidade / Transparência - Responsabilidade Social Fonte: Elaboração própria com base em Veiga e Fonseca (2001) e Gonçalves (2003). De acordo com Singer (2003), a base da economia solidária centra-se na organização coletiva dos trabalhadores e é composta por cooperativas, associações, empresas autogestionárias e grupos de famílias, sendo que esta é mediada por princípios de cooperação, democracia e auto-gestão. Continuando com o autor, a referida auto-gestão, na perspectiva de uma economia solidária, deve contemplar todos os princípios e valores supracitados, incluindo inclusive a cooperação e a democracia. Nas análises de Lima (1998), a autogestão é quando um organismo é administrado pelos seus participantes em regime de democracia direta. Em auto-gestão, não há a figura do patrão, senão que todos os empregados participam das decisões administrativas em igualdade de condições. Em geral, os trabalhadores são os proprietários da empresa de auto-gestão. Ainda segundo o mesmo autor, a auto-gestão não pode ser confundida com controle operário, que mantém a hierarquia e o controle externo da organização. Os conceitos de auto-gestão costumam variar de acordo com a posição política ou social de determinado grupo, por exemplo: o conceito anarquista de auto-gestão se caracteriza por eliminar a hierarquia e 40 os mecanismos capitalistas de organização envolvidos; já os conceitos de auto-gestão empresarial mantêm os mecanismos tradicionais de organização capitalistas. Singer (ibid, p.20) reforça tal análise quanto afirma que, A auto-gestão de empresa solidária é – ou deveria ser – totalmente diferente da gestão capitalista, em primeiro lugar porque os conflitos entre interesses seccionais devem ser muito menores e em segundo, porque todos tomam parte. Numa empresa solidária todas as informações relevantes estão disponíveis aos interessados. A contabilidade e os demais sistemas de controle são desenhados para que a transparência impere, de modo que a participação de todos nas decisões possa acontecer. Conforme visto, a construção da auto-gestão e da economia solidária pressupõe, no mínimo, coerência entre os princípios e práticas solidárias. Para Singer (1998), a cooperação e a confiança devem prevalecer sobre a competição, porque concorrência, individualismo e dependência não apenas inibem, mas, simplesmente, destroem a possibilidade e a perspectiva da criação de uma sociedade livre e fraterna, onde o ser humano seja o centro de nossas preocupações. De acordo com Singer et al. (2000), na perspectiva de economia solidária autogestionária, os sujeitos considerados meros trabalhadores tornam-se além de executores, também planejadores. Passam a atuar na gestão dos empreendimentos, pagamento, divulgação da sua empresa, controle de qualidade, vendas, assumem o gerenciamento de todas as etapas do processo produtivo. Para o autor, a economia solidária é uma criação em processo contínuo de trabalhadores em luta contra o capitalismo industrial. Segundo Singer (1998, p.37), esse processo representa (...) a idéia que os próprios trabalhadores podem lutar e reagir contra o desemprego, contra a exclusão social, e eles próprios, organizados, são capazes de tomar o seu destino em suas mãos, criar suas próprias empresas e resolver, portanto, a questão, ao invés de esperar soluções vindas do alto, do governo ou da classe dominante, e assim por diante. Assim, a economia solidária constitui-se em um projeto de organização socioeconômico formado por princípios opostos ao laissez-faire: em lugar da concorrência, a cooperação, em lugar do individualismo, a solidariedade. Para Singer (ibid), este “novo modelo de economia” é a mais importante alternativa ao desemprego causado pelo capitalismo, no atual momento histórico, por oferecer uma solução prática e factível à exclusão social, diferentemente do capitalismo em sua nova fase liberal exacerbada. Para que os envolvidos incorporem a idéia é preciso envolver sujeitos que 41 compartilhem este processo e romper com a forma capitalista de pensar e viver a sociedade. De acordo com Montano (2005), seria possível, na formação de um outro setor econômico, numa sociedade comandada pelo capital, atingir uma solução nãocapitalista? Nesta lógica, como criar para este novo setor de economia solidária um mercado protegido da competição externa? Para o referido autor, isto só seria possível ocorrer mediante mecanismos extra-econômicos a partir da intervenção do Estado, como de alguma maneira foi feito no keynesianismo, (...) primeiramente, isto exigiria não apenas a iniciativa de uma suposta “sociedade civil” solidária, mas ainda de uma forte intervenção estatal, promovida pelas lutas de classes e garantida por leis. Em segundo lugar, a hegemonia do capital permitirá a criação de um tal mercado protegido para este “setor” apenas num segmento para ele desinteressante (de reduzido lucro), constituindo este processo muito mais uma estratégia de sobrevivência do que o desenvolvimento de uma experiência não-capitalista (MONTANO, 2005, p.170). Em nível federal, a medida da atenção que o tema passou a merecer pode ser dada pela recente criação de uma Secretaria Nacional de Economia Solidária SENAES, no âmbito do Ministério do Trabalho, a partir do ano de 2004. Esta iniciativa do atual governo federal tem como princípio, conforme esta Secretaria, estimular a difusão de cooperativas autogestionárias. Diante disso, há várias questões postas na cena do Brasil contemporâneo, sendo a principal mediada pelo seguinte questionamento: seria esta uma forma viável e eficaz de incorporar trabalhadores excluídos do circuito econômico atualmente? Vale ressaltar que não se pretende neste trabalho questionar os princípios da economia solidária, aliás, esta seria realmente a infra-estrutura que idealizamos. Os questionamentos aqui apresentados sobre este modelo de produção econômica nos levam a refletir sobre as possibilidades de realmente este projeto se apresentar enquanto uma alternativa ao modo de produção capitalista, como idealiza Singer et al (2000). Seriamos ingênuos ao acreditarmos que qualquer projeto que não abale a estrutura capitalista, principalmente quando este seja funcional ao mesmo, possa garantir a concretização de uma sociedade equânime. Segundo Laville (2002 apud Pinto, 2006), a conjuntura econômica na segunda metade do século XX possibilita um retorno das associações, tendo estas como referências a solidariedade. Entretanto, 42 “(...) a essas iniciativas faltará legitimidade, se não forem reatadas a um questionamento político sobre a economia capaz de substituir à representação dominante da sociedade de mercado, aquela de uma economia plural com mercado. Elas não ganham sentido se não em relação a uma economia plural, isto é, uma economia que não se reduz à sociedade de capitais e ao mercado, na qual várias lógicas econômicas podem se desenvolver” (LAVILLE, 2002 apud PINTO, 2006, p.45). Para Mota (2002, p.17), o capital buscando assegurar a valorização do valor, necessita revolucionar constantemente a divisão social e técnica do trabalho, o que justifica, na história do capitalismo, a existência de diferentes formas de produção de mercadorias que vão “desde a cooperação simples, passando pela manufatura e a grande indústria até as atuais formas de organização dos processos de trabalho, da produção e dos mercados”. Para que o capital mais uma vez não reduza as práticas da economia solidária simplesmente a permuta, troca, barganha e lucro fazem-se necessário segundo Polanyi (1980 apud Pinto, 2006, p.46), alguns fatores de organização da produção e distribuição da riqueza: “Além do de mercado, que permite o encontro entre oferta e demanda de bens e serviços com fins de troca através da fixação de preço, estariam presentes os princípios de redistribuição, reciprocidade e domesticidade. A redistribuição diz respeito ao princípio conforme o qual a produção é remetida a uma autoridade central que tem a responsabilidade de reparti-la. A reciprocidade que corresponde à relação estabelecida entre grupos ou pessoas a partir de doações ou préstimos mútuos, cujo sentido está na vontade de manifestar um liame social entre as partes envolvidas. Já a domesticidade consiste em produzir para o seu próprio uso, provendo as necessidades dos membros do grupo” (LAVILLE (1997) e POLANYI (1980) apud PINTO, 2006, p.46). Tais princípios predominaram nas sociedades ocidentais até o século XVIII, sendo no século seguinte com o início do processo de industrialização, que um único princípio se torna dominante, o do mercado. Neste momento, “ao invés da economia estar embutida nas relações sociais, são as relações sociais que estão embutidas no sistema econômico” (POLANYI, 1980, p.72, apud PINTO, p.46). O retorno das práticas econômicas solidárias que vem se contrapor a economia de mercado tem como formas mais representativas o associativismo e o cooperativismo, que têm como proposta a auto-gestão e participação plena. 43 2.2.1.1. Cooperativismo / Associativismo Segundo Singer (1998), as cooperativas e associações de produção, constituem unidades típicas da economia solidária, cujos princípios organizativos são: posse coletiva dos meios de produção pelas pessoas que as utilizam para produzir; gestão democrática da instituição e repartição da receita liquida entre os cooperadores ou associados por critérios aprovados após discussões e negociações entre todos. Sabe-se que existem vários questionamentos sobre as possíveis diferenças entre associativismo e cooperativismo, no entanto, Albuquerque (2003) afirma que as finalidades destas instituições - principalmente no que diz respeito ao seu funcionamento de modo autogestionário - são basicamente as mesmas, assinalando que dentre as poucas diferenças existentes se destaca a legislação sobre a sua formação, sendo os critérios para a formação de uma cooperativa mais rigorosos em relação a uma associação. Apesar desta discussão sobre as diferenças no que tange à formação de cooperativas e associações ser instigante, será feito uma reflexão sobre o funcionamento autogestionário destas instituições, já que são pontos em comum, para não perder de vista o objeto em questão. De acordo com Albuquerque (ibid), os pressupostos associativistas e cooperativistas, se caracterizam por um conjunto de práticas sociais datadas e localizadas historicamente, que propõem autonomia qualificando a cooperação entre as pessoas, porque baseia essas práticas sociais na reciprocidade, na confiança, na pluralidade e no respeito mútuo. O significado do termo cooperar, conforme nos mostra Lima (1998, p. 07), (...) deriva da palavra latina “cooperari”, formada por “cum” (com) e “operari” (trabalhar). A cooperação constitui-se em um processo de interação social, onde os objetivos são comuns, as ações são compartilhadas e os benefícios são distribuídos para todos. Este termo surge em contraponto à terminologia competição que significa um processo de interação social, onde os objetivos são mutuamente exclusivos, as ações são isoladas ou em oposição umas às outras, e os benefícios são concentrados somente para alguns. De acordo com Fernandes (1994), foi na ditadura que a expressão trabalho comunitário de cooperação ganhou maior peso, não apenas no Brasil, mas em diferentes países da América Latina, pois os mecanismos de comunicação civil foram estrangulados, e as oposições e os sindicatos foram reprimidos violentamente. Em suma, 44 reduziu-se a participação cívica no Estado e nas empresas, portanto a única saída foram as comunidades, já que agir sobre a sociedade como um todo já não era possível, restava trabalhar pela base da sociedade. Assim, o trabalho comunitário escapou aos controles e pôde se expandir nesse período de repressão. A acumulação flexível a partir do processo de reestruturação produtiva20 vem justificar neste momento a onda de empreendimentos cooperativos. Para Lima (2003), apesar das cooperativas de crédito, habitacional e agrícola já ter um histórico na sociedade brasileira, anterior à década de 1980, somente a partir desta década é que as cooperativas de trabalho e de produção começarão a organizar-se e a ganhar visibilidade. Ainda conforme Lima (2003, p. 20), embora as cooperativas apareçam historicamente no movimento operário como possibilidade autogestionária e de democracia no trabalho, sua implementação efetiva sempre foi problemática e dependente de injunções políticas e econômicas, razão pela qual sua proliferação sempre foi e é em momentos de crise econômica visando a atenuar situações de desemprego. Para Coraggio (2000 apud Pinto, 2006), a economia solidária – tratada pelo autor como economia popular – se constitui enquanto uma condição organizadora da vida social, principalmente nos períodos de agravamento da precarização e exclusão. Entretanto há uma discordância do autor sobre a possibilidade da economia popular substituir a economia capitalista. Na verdade trata-se um subsistema da economia que depende tanto da economia empresarial quanto da economia pública. O autor destaca a economia popular como um campo privilegiado para as políticas redistributivas. Para tanto se faz necessária a reorientação de ações públicas que supõe “esforços no sentido de mudanças culturais e simbólicas que requalifiquem o sentido do bem viver, hoje centrado no consumismo e em laços de cunho caritativo”. E para que a economia popular não se torne funcional à precarização e exclusão existe uma necessidade de uma atuação integrada entre os dirigentes sociais e políticos (ONG’s, associações, igrejas, sindicatos, universidades, movimentos sociais), em favor da economia solidária (CORAGGIO, 1997 apud PINTO, 2006, p. 51). 20 Apresentada no item 1.1 45 De acordo com Lima (ibid, p.1) a polêmica sobre a possibilidade efetiva das cooperativas se constituírem um avanço na direção da maior democratização do trabalho, pela auto-gestão e posse coletiva dos meios de produção, superando assim a subordinação ao capital continua. Continuando com o autor, as associações e cooperativas como alternativa de ocupação, manutenção de empregos ou de geração de renda se multiplicam frente a um quadro de desemprego estrutural ocorrido no período de transição do modo de produção fordista para o de acumulação flexível. A partir deste período o autor nos chama a atenção para os diferentes tipos de cooperativas de trabalho e produção que vão surgindo, incluindo as chamadas falsas cooperativas. A primeira apresentada por Lima (ibid), a partir de uma adaptação de Cornforth (1983), consiste nas cooperativas chamadas “Endowed Co-operatives”. Estas são propostas advindas dos proprietários de empresas, que mantém a hierarquia empresarial, comprometendo desta forma o processo democrático no trabalho. Os funcionários apenas participam do controle acionário enquanto os proprietários mantêm o controle. Em seguida são apresentadas as cooperativas “defensivas”, organizadas pelos próprios operários de empresas e fábricas que decretam fechamento ou falência. Devido a defasagem estrutural e comercial apresentada por estas empresas ou fábricas, a sua constituição como cooperativas já surge com diversos problemas. Este fator impossibilita a formação de uma cultura autogestionária mais ágil, pois grande parte dos operários e staff administrativo abandona a cooperativa. Um outro tipo de cooperativa que apresenta certa particularidade por estar voltada mais a necessidades subjetivas do que a lucros é conhecido como “alternativa”. Estas são resultantes dos chamados movimentos contraculturais dos anos 1960 e 1970, sendo representadas por pequenos negócios mais comuns nos paises de capitalismo avançado (editoras, livrarias, produtos naturais e similares) com dificuldades de sobrevivência. Dentre as cooperativas citadas por Lima (ibid), encontram-se também as falsas cooperativas que têm como objetivo de terceirizar as atividades de empresas que culminará na redução de custos das mesmas, estas são as cooperativas “pragmáticas”. Neste tipo de cooperativa não existe um respeito aos princípios cooperativistas como a democracia no trabalho ou autonomia do trabalhador. Nesta categoria de cooperativa observa-se a formulação de um conjunto de medidas por parte da classe empresarial, dentro dos preceitos neoliberais, visando 46 implementar um amplo processo de reestruturação do capital, com vistas à recuperação do seu ciclo reprodutivo. Em conseqüência destas novas estratégias de reestruturação produtiva, uma série de direitos e mecanismos de proteção social está sendo esvaziada no bojo do que se denomina atualmente de flexibilização dos direitos trabalhistas. Para Bihr (1998), a tão debatida flexibilização produtiva e das relações de trabalho está ocasionando uma maior fragmentação do proletariado, com conseqüente enfraquecimento do seu poder político. Ainda, segundo o autor, esses proletariados na atual conjuntura se subdividem em diferentes categorias sendo elas: proletários estáveis e com garantias, os proletários excluídos do trabalho e a massa flutuante de trabalhadores instáveis, ou seja, os trabalhadores flexíveis. Estes últimos, para Bihr (ibid), são aqueles que trabalham em regime de subcontratação (terceirização), neste caso incluímos aqui os trabalhadores das cooperativas de “Endowed Co-operatives” e cooperativas pragmáticas. Podemos dizer que tanto as “Endowed Co-operatives”, quanto as cooperativas “pragmáticas” estão levando a sociedade a desacreditar nas possibilidades de construção de um trabalho autogestionário a partir de cooperativas e associações, tornando-se alvo de críticas. Acaba por existir uma desconfiança de que o funcionamento de todas as cooperativas ou associações se constitui apenas em uma estratégia por parte do setor empresarial e do setor público para adequar-se a uma gestão organizacional mais enxuta, livre de altos custos com mão de obra, e principalmente dos encargos sociais. Destacamos neste momento a última categoria de cooperativas apresentada por Lima (2003) como aquelas que surgem visando criar empregos no cenário de desemprego estrutural. Trata-se das cooperativas de “geração de renda”, geralmente criadas através de políticas públicas de governos, sindicatos, Igreja Católica e outras instituições, como é o caso da ASCANOVI, que será analisada no final deste trabalho. Tais cooperativas nos remetem à discussão de Coraggio (1997 apud Pinto, 2006), que aponta este como campo privilegiado para as políticas redistributivas. Segundo Pinto (2006, p.52), para que haja um fortalecimento da chamada economia popular representada por cooperativas e associações, geralmente ocupada por trabalhadores excluídos do mercado de trabalho formal, será necessário que a referida economia popular não se constitua em espaços fechados a partir das comunidades locais. Esta economia deverá também “gerar renda monetária para se articular através do mercado com o restante da economia, bem como para se sustentar e ampliar sobre suas próprias bases”. 47 Desta forma faz-se necessário de acordo com Coraggio (2000, apud Pinto, 2006), que uma nova regulação pública, que considere o “fundo de trabalho” da economia popular como base de um “desenvolvimento humano”, possibilite a superação dos componentes reativos e potencialização ativa da capacidade dos trabalhadores. Para o autor: A hipótese que queremos discutir é que, a partir deste mundo magnático da economia dos setores populares, é possível que surjam estruturas mais eficazes e eficientes para a reprodução da vida; que isso pode se dar com muito mais rapidez e segurança se for exercida uma ação coletiva suficientemente forte e orientada por um paradigma de desenvolvimento humano (CORAGGIO, 2000, p.111 apud PINTO, 2006, p.51). Para tanto, cabe ao Estado o encaminhamento de mais recursos, além daqueles já garantidos na manutenção das políticas sociais existentes, bem com uma reorientação no sentido de mudanças culturais e simbólicas que requalifiquem o sentido do bem viver, hoje centrado no consumismo e em laços de cunho caritativo (Id). 2.3. Os catadores de materiais recicláveis e sua inserção subalterna na divisão social e técnica do trabalho A doutrina neoliberal implantada a partir dos anos 80 que intensificou a exploração do trabalho por meio da reestruturação produtiva, levou à precarização dos direitos sociais e à flexibilização do contrato de trabalho, incrementando conseqüentemente o mercado da informalidade. Neste contexto a figura do catador de lixo ganha maior visibilidade e recebe incentivos da sociedade civil para se organizar de forma autônoma através de cooperativas e associações. A interação destes agentes se insere no espaço específico do terceiro setor, que segundo Montano (2005) se constitui em um meio para o projeto neoliberal desenvolver sua estratégia de reestruturação do capital, destoando os impactos causados pelo próprio neoliberalismo e propiciando maior aceitação da população afetada, através da propagação da auto-ajuda, através das organizações sociais. Por isto, este chamado Terceiro Setor está diretamente ligado ao contexto da reestruturação capitalista, conforme referido anteriormente. 48 A referida estratégia, mais uma vez torna-se notória quando se analisam as condições na qual estão submetidos os catadores. Apesar de serem apresentados, na contemporaneidade, enquanto trabalhadores fundamentais na cadeia produtiva do país (Gonçalves, 2005), ainda se deparam com uma realidade de extrema exclusão, pois conforme observa Mota (2002, p.19), os catadores “estão interligados ao circuito mercantil e produtivo, mas apartados das condições sociais que lhes assegurem os meios de proteção legais e institucionais relacionados ao seu estatuto de trabalhador”. A figura do catador de lixo não é uma atividade recente como muitos imaginam. Segundo Zica (2002), o catador de papel, papelão e alumínio compõem o cenário das cidades brasileiras há mais de 50 anos. No entanto, é na última década que houve um maior reconhecimento e investimento de alguns governantes locais e, principalmente de entidades não governamentais, na sistematização deste processo de trabalho. Caberia aqui se perguntar: Será que os catadores inseridos em associações ou cooperativas, incentivados por ONGs, por exemplo, realmente têm noção da sua condição de trabalhador detentor de direitos sociais? De que forma a sociedade civil e alguns governos locais, tentando associar a questão do desemprego à preservação ambiental está estimulando a formação de tais entidades? Sabe-se que existe um grande contingente de catadores nos lixões convivendo com o mau cheiro dos gases que exalam do lixo acumulado e disputando comida com os urubus. E que a saída destas pessoas deste ambiente acontece muitas vezes de forma forçada, pela prefeitura de cada localidade, pois, existe uma legislação por parte do governo federal que proíbe o acesso de pessoas próximas aos lixões, podendo a prefeitura receber multa, caso não cumpra com a mesma. Apesar da proibição da permanência nos lixões, muitos catadores insistem e retornam, mesmo sendo incentivados por grupos de apoio a participar de associações ou cooperativas. Seria a convivência com normas e regras existentes dentro de uma entidade, um fator dificultador para estes catadores? Afinal, estamos falando de pessoas que supostamente sequer foram inseridas no sistema convencional de convivência social, tendo lhes sido negado as condições mínimas de sobrevivência. Qual seria o significado de associação para estes trabalhadores? Segundo Escorel (1999, p.18), a condição de exclusão é definida como “a daquele que está sem lugar no mundo, totalmente desvinculado ou com vínculos tão frágeis e efêmeros que não constituem uma unidade social de pertencimento”. 49 Para a autora, grande parte da sociedade tem suas “vidas ao léu” que na verdade são: “(...) trajetórias de pequenas e grandes desvinculações, de laços afetivos frágeis e irregular suporte material, que se revelam nos dois significados que ao léu detêm: aquele que está a descoberto, sem teto, a céu aberto, e aquele que é sem eira nem beira, que anda ao sabor das circunstâncias e não controla o desenrolar dos acontecimentos. (...) pessoas desvinculadas no sentido material e afetivo e marginalizados no sentido simbólico” (ESCOREL, ibid, 18). O trabalho de catação de materiais recicláveis geralmente congrega péssimas condições de trabalho, preconceito e desprezo por parte da população e desarticulação política e social, quando não recebem nenhum tipo de apoio. Entretanto, “a rigor o catador não pode ser considerado um excluído (enquanto estado permanente), pois ele é um elo incluído em uma cadeia produtiva, ainda que de forma marginalizada” (GONÇALVES, 2005, p.103). Segundo Mota (2002, p.20), “ao viabilizar direta ou indiretamente o processo de transformações do lixo em mercadoria, as empresas públicas se apropriam não da mercadoria reciclável, mas do trabalho do catador de lixo que se torna partícipe do processo de coleta de lixo urbano”. Ainda segundo a autora, apesar do catador se apresentar como integrante fundamental da cadeia produtiva de reciclagem, a sua categoria passa a ser reconhecida como uma profissão inserida na divisão sócio-técnica do trabalho. Segundo Gonçalves (2005), este reconhecimento ocorre a partir do ano 2002, sob o código 5192, na Classificação Brasileira de Ocupações – CBO. De acordo com o referido código é considerado catador de materiais recicláveis: Catador de ferro-velho, Catador de papel e papelão, Catador de sucata, Catador de vasilhame, Enfardador de sucata (cooperativa), Separador de sucata (cooperativa) e Triador de sucata (cooperativa). Quanto à descrição da ocupação estes trabalhadores recolhem, selecionam e vendem materiais recicláveis como papel, papelão, plástico, vidro, materiais ferrosos e não ferrosos e outros materiais re-aproveitáveis. Em relação às condições gerais de exercício da atividade de catação, ainda conforme código 5.192: O trabalho é exercido por profissionais que se organizam de forma autônoma ou em associações e cooperativas. Trabalham para venda de materiais a empresas ou cooperativas de reciclagem. O trabalho é exercido a 50 céu aberto, em horários variados. O trabalhador é exposto a variações climáticas, a riscos de acidente na manipulação do material, a acidentes de trânsito e, muitas vezes, à violência urbana. Nas cooperativas surgem especializações do trabalho que tendem a aumentar o número de postos, como os de separador, triador e enfardador de sucatas (www.movimentodoscatadores.org.br, consultado em julho de 2007). Percebe-se que apesar do reconhecimento da profissão, as condições gerais do catador preconizadas pela CBO, caracterizam um quadro de precarização do trabalho. O catador, mesmo estando exposto a diferentes riscos no trabalho continua se deparando com a ausência de direitos trabalhistas porque o seu reconhecimento é caracterizado como autônomo, uma vez que o associativismo prevê um trabalho sem vínculos empregatícios, assim, sem proteção social. Segundo Juncá (2004, p.76), Vidro, papel, plástico, alumínio e outros tantos materiais constituem a matéria-prima de um trabalho que não se desenvolve sob o olhar direto do capitalista, mas com certeza com ele para ele converge, na cadeia produtiva que se forma em torno do lixo; cadeia esta, onde no topo está a valorizada indústria da reciclagem e no extremo oposto, ou seja, na base, encontram-se os catadores, profissionais desvalorizados porque são os que fazem o trabalho considerado como “sujo”. Esta reflexão de Juncá (ibid) pode ser melhor visualizada através do esquema do circuito de reciclagem que segue abaixo (Figura 3): Produto Consumo Descarte Lixo Usinas Lixo Aterros Catadores de materiais recicláveis Comércio Indústria Atravessadores FIGURA 3: esquema do circuito de reciclagem Fonte: Adaptado de Bursztyn, 2000, apud, Gonçalves, 2005. Apesar de algumas cooperativas de recicláveis, hoje, estarem conseguindo romper com estes chamados atravessadores e vendendo os materiais recicláveis diretamente para as indústrias, a dependência por parte da maioria permanece, conforme 51 foi destacado em encontro da Rede Solidária Central Leste21 após realização de diagnóstico das associações de catadores no Estado de Minas. Como destaca Azeredo (1999, p. 120), embora a categoria de catadores seja fundamental na cadeia produtiva de reciclagem, “os catadores não alcançam a dinâmica do sistema produtivo na sua totalidade”, mesmo que tenham ligação direta com as indústrias. A condição na qual é colocado o catador continua sendo antagônica, pois contribui com seu “trabalho invisível” (Tavares, 2004), fornecendo matéria-prima para a indústria de reciclagem, porém, experimenta as mesmas contradições existentes entre capital e trabalho de maneira informal. É notório que no contexto atual, não se pode contar com aquele Estado de proteção social, pois a problemática da precarização do trabalho agora é transferida para os ditos trabalhadores autônomos, ou seja, depende das formas como cada um busca se organizar para garantir sua sobrevivência. Esta transferência de responsabilidades pode ser percebida quando o Ministério do Trabalho classifica o catador como um trabalhador autônomo, sem amparo social em caso de doenças ou acidentes de trabalho. É neste contexto de precarização do trabalho que são reservadas as dificuldades de autogestão da associação. Os catadores deverão buscar estratégias de organização interna para a superação de tais condições de precarização. É importante frisar que não se pretende aqui manter uma visão unilateral quando se analisa a conversão da categoria catador de ocupação para profissão, somente enquanto uma estratégia de governo atrelada às estratégias de acumulação do capital. No entanto, deve se reconhecer também a luta iniciada pelo Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis – MNCR22, a partir da década de 1999, e consolidada em junho de 2001. 21 A apresentação da referida Rede encontra-se no capítulo III deste trabalho. O referido diagnóstico foi apresentado no primeiro semestre de 2007 em encontro realizado no município de Governador ValadaresMG, a fim de construir outras Redes em diferentes regiões como estratégia de ruptura com os atravessadores. 22 No ano de 1999 ocorreu em Brasília o I Encontro Nacional de Catadores de papel que reuniu mais de 1700 catadores (www.movimentodoscatadores.org.br) 52 O MNCR surgiu com a intenção de fortalecer a iniciativa de criação de cooperativas, com caráter de auto-gestão. A declaração de princípios e objetivos do MNCR é apresentada a seguir: ARTIGO 1° - O Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis - MNCR, trabalha pela 'auto-gestão e organização'1 dos catadores através da constituição de Bases Orgânicas, em que a 'participação' de todos os(AS) catadores(AS) que querem ajudar a construir a luta de seus direitos, seja um direito internamente garantido, mas também um dever do catador com o Base Orgânica, com um critério de democracia direta2 em que todos tem voz e voto nas decisões, conforme critérios constituídos nas bases de acordo; ARTIGO 2 ° - O MNCR tem na 'ação direta popular'3 bem como em outras formas de organização um princípio e método de trabalho, que rompe com a apatia, a indiferença e a acomodação de muitos companheiros(as), que parta desde a construção inicial dos galpões e sua manutenção, não esperando que caia tudo pronto do céu, e até as mobilizações nas grandes lutas contra a privatização do saneamento básico e do lixo, contribuindo para a preservação da natureza, mas também lutando pelo devido reconhecimento e valorização da profissão dos catadores ; ARTIGO 3 ° - O MNCR busca garantir a 'independência de classe'4 em relação aos partidos políticos, governos e empresários, mas também lutando pela gestão integrada dos resíduos sólidos com participação ativa dos catadores organizados, desde a execução da coleta seletiva com catadores de rua, até a triagem e o beneficiamento final dos materiais, buscando tecnologias viáveis que garanta o controle da cadeia produtiva, firmando com os poderes públicos contratos que nos garantam o repasse financeiro pelo serviço prestado a sociedade, e cobrando das empresas privadas, produtora industrial dos resíduos o devido pagamento pela nossa contribuição na reciclagem. ARTIGO 4 ° - No MNCR, ao contrário do individualismo e da competição, buscamos o 'apoio mútuo'5 entre os companheiros(as) catadores(as) , e praticando no dia a dia das lutas a 'Solidariedade de Classe'6 com os outros movimentos sociais, sindicatos e entidades brasileiras e de outros países. E desta forma ir conquistando "o direito à cidade", local para trabalho e moradia digna para todos, educação, saúde, alimentação, transporte e lazer, o fim dos lixões e sua transformação em aterros sanitários, más com a transferência dos catadores para galpões com estruturas dignas, com coleta seletiva que garanta a sustentação de "todas as famílias", com creches e escolas para as crianças. Significado dos nossos princípios: 1 "Auto-gestão" é a prática econômica em que os trabalhadores são os donos das ferramentas e equipamentos de produção. Auto-gestão é o modo de organizar o trabalho sem patrões, tendo a decisão, o planejamento e a execução sob controle dos próprios trabalhadores. 2 "Democracia direta" é a forma de decisão tomada pela participação coletiva e responsável da base. Uma decisão pode ser feita por consenso ou por maioria de votos, mas sempre deve respeitar antes de tudo a exposição das idéias e o debate. 3" Ação direta" é um princípio e método que carrega o sentido do protagonismo do povo auto-organizado, ou seja é o povo que deve fazer diretamente as transformações, com o exercício de suas próprias forças, união, organização e ação, sem viver esperando para que os outros façam por nós, que caia do céu como um milagre ou um presente, sem que nos esforcemos para isso; A ação direta pode ser da pessoa para o grupo, do grupo para a base, da base para o movimento, e do movimento para a sociedade; 4 "A independência de Classe" é o principio histórico que orienta a luta do povo na busca pela nossa verdadeira emancipação das estruturas que nos dominam; Significa que a união do povo, nossa luta e organização, não pode ser dividida por diferenças partidárias, nem se deixar manipular ou corromper pelas ofertas que vem das classes dominantes, governos e dos ricos; 53 Não significa ignorar as diferenças, sabemos que elas existem e são saldáveis porém estas, não podem ficar acima do movimento a ponto de dividido-lo. O acordo com este princípio é o que pode contribuir para que não sofreremos manipulações futuras; 5 O "Apoio Mútuo" ou Ajuda Mútua é o principio que orienta nossa atitude para a prática que contribui para a construção da solidariedade e da cooperação, é contrario aos princípios da competição, do egoísmo, do individualismo e da ganância; 6 A "Solidariedade de Classe" é o principio histórico da união de todos os pobres. Sabemos que a sociedade que vivemos está dividida em classes: pobres e ricos, Opressores e oprimidos, os que mandam e os que obedecem. Nosso povo faz parte das classes Oprimidas, somos um setor dentro delas, porem existem vários outros setores de classes oprimidas pelo sistema capitalista, como: os sem terra, os sem teto, os índios, os negros e quilombolas, os trabalhadores assalariados, etc.... É importante compreendermos isso, pois em nossa luta sozinhos, não venceremos, a verdadeira vitória só pode ocorrer com uma profunda transformação da sociedade, ou seja, onde não existam mais ricos ou pobres, opressores e oprimidos, mas sim liberdade e igualdade. Para construirmos essa nova sociedade temos que construir na luta a "solidariedade com todos os setores das classes Oprimidas". É interessante o caráter politizado demonstrado pelos catadores na apresentação de propostas de organização enquanto movimento social. Entretanto, quando analisamos a atuação destes trabalhadores no âmbito local23 percebe-se um grande descaso do poder público, bem como uma subordinação do catador ao processo de exploração na divisão social e técnica do trabalho. Neste sentido, um dos principais descasos do poder local apontado na pauta da luta dos catadores está em torno da pouca atenção dada a efetivação da coleta seletiva. Em 1998 foi criado o Fórum Nacional Lixo e Cidadania por instituições públicas e privadas com atuação direta e indireta na questão de resíduos sólidos, as quais passaram a integrar seus esforços com o intuito de erradicar a catação de lixo por crianças e adolescentes, e mudar a situação dramática do destino final do lixo no Brasil. O levantamento de dados foi realizado em um contexto extremamente favorável, pois foram considerados, entre outros, dois aspectos fundamentais: a existência de uma Pesquisa Nacional de Saneamento Básico - PNSB de 1989 e 2000, com cobertura em todo o território nacional e, a existência de uma articulação nacional de instituições e entidades que trabalham a questão relativa à gestão dos resíduos sólidos de forma integrada. De acordo com PNSB (2000), o número de municípios com programas de coleta seletiva é muito pequeno, 8,2% dos municípios têm programa de coleta seletiva, e menor ainda, é o índice dos programas que incorporam os catadores como parceiros. A gestão participativa que garanta o controle social dos sistemas igualmente é muito 23 Análise apresentada no próximo capítulo tendo como campo exploratório a Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis Nova Vida de Teófilo Otoni/MG. 54 incipiente. Outrossim, a situação da maioria dos trabalhadores da área é bastante precária, havendo um maior investimento na valorização e qualificação apenas nas grandes cidades, principalmente nas capitais. Contudo, apesar de não haver, ainda, um maior reconhecimento social do trabalho desempenhado pelos catadores de materiais recicláveis, sabe-se que tal atividade representa hoje uma necessidade no projeto global de desenvolvimento sustentável das diferentes sociedades, pois além de contribuir para a conservação de recursos naturais, reduz os impactos ambientais do lixo e garante uma redução da condição de vulnerabilidade social, quando há uma participação efetiva do poder público. 55 CAPÍTULO 3 - ANÁLISE DAS POSSIBILIDADES DE AUTO-GESTÃO DE UMA ASSOCIAÇÃO DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS UMA REFLEXÃO A PARTIR DA EXPERIÊNCIA DA ASSOCIAÇÃO DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS NOVA VIDA - ASCANOVI 3.1 Breve Histórico da ASCANOVI No final da década de 1990, os catadores de materiais recicláveis do município de Teófilo Otoni, estado de Minas Gerais, segregavam esses materiais nos lixões ou nas ruas e vendiam para os donos dos depósitos que, ainda hoje, intermediam a venda dos materiais recicláveis para as indústrias recicladoras. Esses catadores foram estimulados a se organizar recebendo o apoio de alguns segmentos da sociedade civil para criar uma associação que atendesse aos seus interesses. Esse processo de organização ocorreu no início de 1999, quando o Ministério Público encaminhou para a Prefeitura de Teófilo Otoni um Termo de Ajustamento de Conduta - TAC, obrigando ao poder público municipal, gestor dos serviços de limpeza pública, a retirar os catadores que viviam da cata de orgânicos e inorgânicos nos lixões. O não cumprimento desta exigência implicaria no pagamento de multas, que resultaria em despesas para o cofre público municipal. Nesse momento é perceptível que o real interesse do governo em apoiar a retirada dos catadores do lixão não se tratava de sensibilidade efetiva com a questão social, mas uma preocupação com o pagamento de multa gerando despesas para a administração. Tal posicionamento irá justificar, conforme será apresentada adiante, a 56 ausência do poder público no processo de organização dos catadores, ficando, portanto, a cargo de representantes da sociedade civil. O início da organização dos catadores deu-se em 2002, quando um grupo de pessoas da sociedade civil organizada (a exemplo da instituição Aprender a Produzir Juntos - APJ, cooperativa de trabalho que foi pioneira em projetos de economia solidária no município; Igreja Católica) e representantes de instituições governamentais (Instituto Estadual de Florestas – IEF), entre outras, junto aos catadores, se reuniram e construíram o Estatuto da Associação (Anexo 4), que recebeu o nome de Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis Nova Vida - ASCANOVI. Os catadores mesmo antes de criar o Estatuto, desde o ano de 2000, já utilizavam o galpão cedido pelo Departamento Nacional de Transporte e Infra-Estrutura – DNIT, para a seleção de materiais coletados nas ruas. A localização do referido galpão que ainda está sobre a posse da ASCANOVI é um aspecto positivo para os catadores, pois se situa na região central da cidade. Vale ressaltar que no momento que a ASCANOVI completava dois anos de funcionamento, no inicio de 2002, prazo mínimo exigido pelo governo federal para a legalização de instituições sem fins lucrativos, o referido estatuto não chegou a ser registrado de imediato em cartório. Em decorrência da mudança da administração Pública no ano de 2001, houve uma desarticulação entre os apoiadores e catadores. Esta desarticulação segundo um apoiador ocorreu devido a ausência do poder público local para garantir o fortalecimento da organização através de iniciativas básicas como: manutenção do espaço físico (pagamento de luz e água), e outros recursos necessários para o funcionamento da associação. Somente no final do segundo semestre do mesmo ano, ainda sem o apoio da Administração Pública, novos apoiadores e algumas instituições governamentais como: Companhia de Saneamento de Minas Gerais - COPASA, Instituto Estadual de Florestas - IEF, Instituto Mineiro de Agropecuária - IMA, escolas, Câmara de Vereadores, bem como entidades não governamentais: Centro de Defesa de Direitos Humanos - CDDH, Associação Aprender e Produzir Juntos - APJ, grupos católicos, destacando também a presença de colaboradores da Associação dos Catadores de Papelão e Material Reaproveitável de Belo Horizonte/MG - ASMARE/BH contribuíram para reacender novamente a discussão entre os catadores da ASCANOVI. 57 Em novembro do mesmo ano, culminou com a legalização da ASCANOVI, passando a existir de fato e de direito como entidade civil sem fins lucrativos e de Assistência Social, fundada em 23 de novembro de 2002. 3.2 Estrutura funcional da ASCANOVI De acordo com o Estatuto e Regimento interno da ASCANOVI, esta organização é administrada por: Assembléia Geral; Diretoria e Conselho Fiscal, conforme organograma apresentado na Figura 4. ASCANOVI Diretoria Comissão de Saúde Assembléia Geral Comissão de Infraestrutura Comissão Imprensa Divulgação Conselho Fiscal Comissão de Meio Ambiente Comissão de Educação/ Cultura./Lazer Comissão de Apoio FIGURA 4: Organograma da ASCANOVI A diretoria da ASCANOVI, com mandato de três anos cujos membros são eleitos por voto direto de seus associados, conforme seu Estatuto se compõe por um Presidente, um Vice-Presidente, Primeiro e Segundo Secretários, Primeiro e Segundo Tesoureiros e se reunirá uma vez por mês. De acordo com o artigo 18 deste estatuto compete à diretoria: 58 I- elaborar e executar o programa anual de atividades; II- elaborar e apresentar à Assembléia Geral, o relatório anual; III- estabelecer o valor da mensalidade para os sócios contribuintes; IV- contratar e demitir funcionários; V- entrosar-se com instituições públicas e privadas para mútua colaboração em atividades de interesse comum; VI- convocar a Assembléia Geral. A referida Assembléia Geral que também compõe o organograma da ASCANOVI é órgão soberano da organização, e é constituída por associados em pleno gozo de seus direitos estatutários. Compete a esta Assembléia Geral (Art. 13): I - eleger a Diretoria e o Conselho Fiscal; II - decidir sobre reformas do estatuto; III - decidir sobre a extinção da entidade nos termos do Art. 33; IV - decidir sobre a conveniência de alienar, transigir, hipotecar ou permutar bens patrimoniais; V - aprovar o Regimento Interno; VI - destituir os administradores; VII - apreciar recursos contra decisão da diretoria; VIII - conceder o título de associados benemérito e honorário por proposta da diretoria; IX - aprovar as contas. De acordo com os artigos 26 e 27 do mesmo Estatuto, o Conselho Fiscal é constituído por três membros e seus respectivos suplentes, ambos eleitos pela Assembléia Geral e tem como competências: I- examinar os livros de escrituração da entidade; II- examinar o balancete semestral apresentado pelo Tesoureiro, opinando respeito; III- apresentar relatórios de receitas e despesas sempre que forem solicitados; IV- opinar sobre aquisição e alienação de bens. 59 A fim de cumprir as finalidades da ASCANOVI, o seu regimento interno prevê a formação de comissões específicas, conforme apresentado no organograma, cuja finalidade é realizar atividades que visem promover a integração social e o crescimento econômico dos catadores-associados24 e a defesa do meio ambiente. Entretanto, essas comissões, ainda, não foram formadas pela dificuldade de organização entre esses associados. Para os catadores-associados o fato de gerir seu próprio negócio não é algo com que estão familiarizados, pois se trata de um grupo de pessoas que permaneceram à margem não apenas da posse dos meios de produção, mas da própria inserção social. Percebendo tais dificuldades o grupo de apoio inicialmente se organizou para acompanhar estes trabalhadores no processo de cumprimento estatutário, orientando-os para que alcançassem uma maior autonomia no processo de auto-gestão da ASCANOVI. Atualmente entre o apoio sistemático que este grupo de catadores-associados vem recebendo, cita-se os projetos de extensão desenvolvidos por professores e alunos dos cursos de Serviço Social através do Núcleo de Apoio, Pesquisa e Extensão – NAPE e Ciências Contábeis das Faculdades Doctum de Teófilo Otoni. Equipe que elaborou um relatório que permitiu visualizar o sistema de controle interno e de movimentação de recursos na ASCANOVI, e que detalhamos a seguir. 3.3 Controle da produção O estoque de materiais recicláveis é o resultado da coleta desses materiais que os catadores-associados fazem nas ruas da cidade e nas empresas parceiras (doadoras). Cada associado ao chegar na ASCANOVI faz a classificação dos materiais, por tipo e em seguida a pesagem. A associação dispõe de uma pessoa responsável25 (catador) que fica de plantão à espera dos associados para fazer a pesagem dos materiais coletados. Cada associado recebe um comprovante do material pesado (Tabela 1) para controle da 24 Os catadores associados da ASCANOVI que participaram desta pesquisa serão referenciados neste trabalho como catadores-associados. 25 O catador responsável pela balança foi eleito em Assembléia Geral organizada pelos associados da ASCANOVI. Os catadores interessados em ocupar este cargo apresentaram seus nomes e em seguida é realizada a eleição. Para a permanência do eleito no cargo de balanceiro foram estabelecidos critérios na mesma assembléia como: cumprir corretamente com os horários de trabalho estabelecido, conduzir sua função com honestidade e tratar todos os catadores com igualdade no momento da pesagem do material, caso não cumprirem com estas condições são substituídos. 60 quantidade (kg) dos materiais entregues, com os respectivos preços unitários e o total da produção diária a receber na quinzena. Vale ressaltar que a ASCANOVI não possui capital de giro, depende primeiramente das vendas dos materiais recolhidos pelos catadores, o que dá lugar, portanto, a um constante atraso nos pagamentos quinzenais dos catadores. TABELA 1 - Modelo do comprovante de entrega dos materiais recicláveis recebido pelo associado ASCANOVI Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis Nova Vida Tipos de materiais Quantidade (Kg) _____/_____/_____ Data da Pesagem Preço Unitário (R$) Total (R$) Papelão Papel Branco Papel Misto Plástico Filme Plástico Colorido PEAD Pet Ferro Latas Alumínio Valor ______________ ___________________________ Ass. Do Catador Ass. Do Responsável Pesagem Cada associado tem uma planilha de controle individual da produção quinzenal dos materiais recicláveis entregues no galpão da ASCANOVI. Esta planilha é preenchida em duas vias pelo responsável pela pesagem (balanceiro), uma via é entregue ao catador e a outra via é entregue pelo balanceiro à tesouraria. O tesoureiro da organização faz os lançamentos diários. Estas informações permitem acompanhar a produção de cada associado e coletivamente, totalizando a produção da ASCANOVI. Na planilha individual de cada associado (Tabela 2) consta o nome do catador, todos os tipos de materiais segregados, período da coleta (1º quinzena ou 2º quinzena), quantidade coletada (kg), preço individual de cada material, o total em R$ e valor a 61 receber na quinzena. Para cada quinzena há um bloco para os registros dos materiais coletados por cada catador. O bloco abaixo refere-se a primeira quinzena do mês: TABELA 2 – Planilha de controle individual da produção quinzenal dos materiais recicláveis entregues a ASCANOVI. ASCANOVI - Associação dos Catadores de Material Reciclável Nova Vida Coleta da Quinzena Data Papelão Mês: Nome Coletor: Papel Papel Saco Branco Misto Filme PEAD PET Ferro Plástico Latas Colorido Alumínio 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 Sub Total / Kg R$ Kg Total (R$) Total da 1ª Quinzena R$ _________ Nº Recibo ___________ O pagamento é efetuado por meio de recibo, emitido em três vias e numerados seqüencialmente. A primeira via destina-se à contabilidade para ser lançada na planilha de produção do catador, a segunda via fica com o associado e a terceira via é fixa no bloco de recibos. O recibo é timbrado com os dados da entidade e preenchido com os dados do associado recebedor. Com o controle de cada associado, pode-se acompanhar a produção da associação. A planilha, denominada “Mapa de movimentação de produto” (Tabela 3) permite saber: estoque inicial, entrada diária dos materiais que são coletados pelos catadores-associados, doações recebidas e compra de materiais recicláveis realizadas na própria associação pelo tesoureiro da organização. Estes materiais recicláveis comprados são levados para a ASCANOVI por alguns trabalhadores de comércio e 62 moradores do município que se rejeitam a doar tais materiais, pois têm estes recursos como uma complementação de renda. Estes são os tipos de entradas, informando a quantidade de materiais disponíveis para comercializar, ou formando estoque. O total das entradas menos o total da saída representa o saldo final de cada material reciclável. Esta planilha apresenta também o preço unitário e total de venda (R$) de cada produto. TABELA 3 – Mapa de Movimentação do produto comercializado ESTOQUE INICIAL ENTRADA (Kg) Data Mês: Produto: _____________________ Coleta Compra Doação SAÍDA ( Kg) Total Venda Vendas (R$) Saldo Preço (Kg) Total 1 Até 31 Total Total Com os dados gerados no mapa de movimentação quinzenal de cada material reciclável, o setor contábil determina a movimentação mensal da quantidade comercializada (kg) e remuneração de cada associado. Por meio de balancetes, diário e demonstrações contábeis, são gerados relatórios mensais, apresentando a situação patrimonial e financeira da ASCANOVI, compreendendo seus bens, direitos e obrigações, evidenciando o resultado econômico e acumulativo do período. As planilhas utilizadas para armazenamento dos dados da ASCANOVI constituem-se em importantes ferramentas implantadas e utilizadas para auxiliar no gerenciamento da entidade. O objetivo é subsidiar seus gestores e apoiadores, a direcionar os planos de ações necessárias, em busca da estruturação da organização seja ela física ou humana. 3.4 Infra-Estrutura Física da ASCANOVI e Organização Laboral Em relação à estrutura física da ASCANOVI vale ressaltar que o galpão utilizado pelos catadores-associados apresenta algumas deficiências que necessitam de reformas para viabilizar o armazenamento, triagem e comercialização dos materiais 63 recicláveis segregados. Dentre as reformas necessárias para uma melhor organização da ASCANOVI, faz-se necessário ainda a construção de espaços físicos específicos, tais como: cozinha, banheiros e sala de reunião. Na ótica da segurança do trabalho, foi diagnosticada a necessidade de maior sensibilização junto aos catadores-associados no que tange à utilização correta e cotidiana dos equipamentos de proteção individual e coletiva (EPI e EPC). Sabe-se que por questões de cunho sócio-cultural, é natural a rejeição por parte dos catadoresassociados em usar equipamentos básicos de proteção como luvas, máscaras e botas. Ressalta-se que parte dos equipamentos necessários foram adquiridos nos primeiros anos de formação da Associação, entretanto, por falta de uso ficaram obsoletos e/ou foram extraviados nas dependências. Isto é reflexo do despreparo e baixo índice de capacitação dos catadores, bem como de problemas organizacionais endógenos à associação. Como fator gerador de insegurança no âmbito da Associação, defronta-se também com a problemática causada pela permanência de crianças cotidianamente no Galpão da ASCANOVI, sujeitas a acidentes e contaminação de doenças provocadas pelo lixo recolhido (Figura 5). Tal situação vem sendo banalizada, uma vez que os pais ou responsáveis se justificam alegando não ter com quem deixar os filhos e que o poder público não oferece creches suficientes para atendimento da demanda da cidade. FIGURA 5: Catadora responsável pela balança pesando material. A direita percebe-se a presença de criança nas dependências da ASCANOVI. 64 No que tange a organização laboral, o catador-associado enfrenta uma rotina de trabalho um tanto que exaustiva, exigindo do mesmo uma boa resistência física, por se tratar principalmente de uma atividade braçal. Cada catador-associado é responsável por todo o seu processo de trabalho desenvolvido, desde catar, selecionar, puxar carrinho e encaminhar o material reciclável para pesagem. Na ASCANOVI foi definido em Assembléia Geral que os catadores-associados receberiam por produção, desta forma cada um seria responsável também, pela forma de estruturar a sua rotina de trabalho. O que se discute nas reuniões sobre esta flexibilidade é que o catador-associado cumpra com os horários definidos pelas empresas doadoras de materiais recicláveis, na retirada dos mesmos e que não acumule material no galpão da associação, por mais de uma semana. Para evitar tais situações foi definido também, em Assembléia Geral, que caso o catador não cumpra com o acordo de retirada dos materiais das empresas nos dias e horários estabelecidos pelas mesmas, o ponto seria repassado para outro catador. Em relação ao acúmulo de material no galpão, caso isto ocorra, o material será doado para a própria ASCANOVI, e o dinheiro irá para o seu caixa. A diferenciação da renda de cada catador-associado está atrelada ao número de empresas que ele consegue fechar parceria. Entretanto, devido a ainda existência de preconceitos em relação à figura do catador, algumas empresas se negam até mesmo a recebê-lo para conversar sobre a parceria. Desta forma, a fim de trabalhar a percepção da sociedade (que estigmatiza o catador como marginal, vagabundo, medindo, etc.), em relação ao catador, bem como incentivar e sensibilizar a população a doar tais materiais, algumas medidas foram adotadas. Os catadores juntamente com o grupo de apoio vêm desenvolvendo campanhas em rádio, rede de televisão local, jornais e visitas aos comércios, seminários, com o objetivo de apresentar a ASCANOVI para a sociedade e firmar parcerias. Tais medidas têm se demonstrado positivas, segundo os relatos dos catadores-associados, principalmente em relação ao trato dado a estes trabalhadores quando transitam pelas ruas da cidade. 65 3.5 Grupo de Apoio Considerando a situação de exclusão na qual estão submetidos os catadoresassociados, e reconhecendo-os como sujeitos de direitos, desde o ano de 2004 o grupo de apoio da ASCANOVI vem buscando novas estratégias para o fortalecimento dos catadores-associados, bem como, a reflexão do papel social que exercem, num cenário de precarização das políticas públicas de proteção social. Tais estratégias serão destacadas nesta pesquisa por se tratar de um trabalho que acompanha de forma sistemática as atividades desenvolvidas pelos catadoresassociados, bem como a tentativa de organização do próprio grupo de apoiadores que estava desarticulado, onde as ações de cada apoiador acorriam de forma isolada e até mesmo assistencialista e paternalista. A região de Teófilo Otoni tem historicamente um perfil assistencialista no que tange às propostas de mobilização social, onde representantes da sociedade civil, majoritariamente aposentados, tentam minimizar suas carências afetivas dedicando parte do tempo ocioso aos trabalhos sociais. Vale ressaltar que no interior do grupo de apoio, este fato se reflete, pois podem se distinguir apoiadores com dois olhares de ações diferentes. Estão aqueles que acreditam no desenvolvimento de atividades com os catadores associados que conduzem à emancipação e promoção humana; e aqueles que acreditam no desenvolvimento de atividades paternalistas com os associados. Obviamente esta diferença de enfoques entre os apoiadores gera conflitos internos no grupo de apoio, o que conseqüentemente se reflete no trabalho desenvolvido na ASCANOVI. O desenvolvimento de atividades paternalistas apresenta o problema de reforçar a permanência da condição de “vítimas” que se colocam os catadores-associados (ainda que sejam vitimizados por um processo de exclusão social), fator que induz em alguns a tentativa natural de resistir às possibilidades protagônicas ora ofertada no processo de auto-gestão idealizado e ainda tido como um sonho distante. No biênio 2005/2006 realizou-se a sistematização das ações do grupo de apoio da ASCANOVI com o objetivo de contribuir no processo organizacional desta associação. Entre as ações desenvolvidas pelo grupo de apoio destacam-se aquelas sugeridas pelos próprios catadores: curso de alfabetização, fortalecimento do grupo de apoio, oficina de saúde, estudo do Estatuto e Regimento Interno da ASCANOVI, 66 encontros para discussões e reflexões sobre trabalho coletivo, visitas domiciliares e realização de seminários. Curso de Alfabetização: A partir das demandas apresentadas pelos catadoresassociados, foram realizadas atividades de alfabetização e sócio-educativas, toda segunda e terça-feira no período da manhã pelos integrantes do grupo de apoio que representavam uma instituição de ensino superior do município de Teófilo Otoni. Salienta-se que os dias e horários foram estabelecidos pelos próprios catadoresassociados. Inicialmente estas atividades foram desenvolvidas a partir da formação de dois grupos: o grupo dos catadores-associados que não teve oportunidade de se alfabetizar optando por acompanhar todo o processo de alfabetização e o grupo de associados que já se encontravam em um estágio de alfabetização mais “avançado” (Figura 6). Cada participante, de acordo com o seu próprio interesse, decidia em qual grupo iria participar. Esta iniciativa favoreceu a inclusão da associação no projeto “Todas as Letras” do Governo Federal. No primeiro semestre de 2006, os catadoresassociados contavam com um educador capacitado e material escolar gratuito. Este projeto, conforme previsto pelo Ministério da Educação, teve a duração apenas de 01 ano, não havendo continuidade. O curto período de funcionamento do projeto “Todas as Letras” demonstra a precarização das políticas publicas sociais que muitas vezes apresentam-se de forma focalizada e insatisfatória. No ano de 2007 o grupo de apoio encaminhou à Secretaria Municipal de Educação de Teófilo Otoni uma solicitação de continuidade dos cursos de alfabetização. Apesar de a referida Secretaria demonstrar interesse em firmar tal parceria ainda não havia definido a possibilidade de contratação de um educador social. Destaca-se aqui a importância da continuidade deste curso, pois este momento além de oportuno para discutir temas que fazem parte do cotidiano dos catadores possibilita que os mesmos tenham mais interesse de participar de todo o processo de organização da ASCANOVI inclusive nas questões administrativas que tem se tornado um espaço apenas daqueles associados que têm um grau de escolaridade mais avançado (ver tópico 3.7). 67 Projeto Extensão NAPE T.O FIGURA 6: Associados da ASCANOVI em curso de alfabetização no ano de 2005. - Fortalecimento do grupo de apoio: Durante o primeiro semestre de 2005, as Faculdades Doctum de Teófilo Otoni através do Núcleo de Apoio, Pesquisa e Extensão – NAPE, sediou alguns encontros do grupo de apoio da ASCANOVI (Figura 7). Os encontros objetivavam a organização e o planejamento das ações desenvolvidas pelos diversos apoiadores. A partir desta iniciativa foi possível estruturar um cronograma de atividades com uma maior articulação entre o grupo, evitando assim ações isoladas. Neste cronograma de atividades constava a disponibilidade de participação de cada apoiador nas demandas apresentadas pelos catadores em assembléia, bem como pelo diagnóstico realizado pela equipe do NAPE com os associados. Posteriormente às reuniões do Grupo de Apoio, era convocada uma reunião com todos os associados da ASCANOVI com a finalidade de apresentar o planejamento de atividades a ser executados – em função das demandas realizadas por eles – bem como dos técnicos responsáveis pelo acompanhamento destes. Destaca-se aqui que a decisão final sobre a execução de tais atividades sempre era dos catadores associados, garantindo assim sua autonomia. 68 FIGURA 7: Reunião do grupo de apoio da ASCANOVI em 2005 - Oficina de Saúde: A partir da parceria firmada com a Associação dos Amigos da Saúde - AMAS, representada por alunos do Curso de Enfermagem das Faculdades Doctum foi possível apresentar para os catadores-associados, alguns temas sobre saúde, como também desenvolver ações diretas, tais como: prevenção de acidentes, higienização e vacinação (Figura 8). Projeto Extensão NAPE T.O Projeto Extensão NAPE T.O (a) (b) FIGURA 8: Alunos do Curso de Enfermagem (a) apresentando alguns temas de saúde para os associados (b) realizando atividades práticas no galpão da ASCANOVI – ano de 2005. 69 - Estudo do Estatuto e Regimento Interno da ASCANOVI: Durante o curso de alfabetização com a participação dos catadores-associados foram trabalhados o estatuto e regimento interno da ASCANOVI, bem como a temática do associativismo. Este estudo foi realizado também em um outro momento com a participação do Curso de Ciências Contábeis das Faculdades Doctum, no primeiro semestre de 2006 no curso de formação da diretoria da ASCANOVI e Conselho Fiscal. Foi conferida a este grupo a responsabilidade de continuar formando os novos membros da associação (Figura 9). Esse estudo foi realizado ao longo de cinco encontros. Realizaram-se também dois encontros com os novos membros da ASCANOVI (ex-catadores do lixão) com a finalidade de apresentar direitos e deveres dos catadores-associados da ASCANOVI, bem como o regimento interno da mesma. NAPE FIGURA 9: Diretoria, conselho fiscal da ASCANOVI e equipe de ciências contábeis durante o estudo sobre associativismo e Estatuto da ASCANOVI, em 2006. 70 - Seminário sobre Meio Ambiente: Realiza-se anualmente envolvendo os alunos das diferentes Faculdades de Teófilo Otoni e envolvendo os catadores de materiais recicláveis (figura 10). (a) (b) FIGURA 10: Seminário realizado em Teófilo Otoni no dia do Meio Ambiente – 2006, vendo-se no primeiro plano o pronunciamento de um associado manifestando-se em nome da ASCANOVI durante o evento (a) e participação de membros da associação (b). Além das atividades desenvolvidas pelo grupo de apoio na ASCANOVI, conforme já descritas nos anos de 2005 e 2006, outras atividades foram priorizadas como: - Encontros para Discussões/Reflexões: Em virtude dos membros da ASCANOVI estarem desarticulados e enfrentando dificuldades para se entrosarem no ambiente de trabalho, foram realizados ao longo de 2005 e 2006 encontros, dinâmicas em grupo e reflexões, com o objetivo de aproximá-los e criar um espaço de diálogo e interação. Nos primeiros encontros alguns catadores se negavam a participar para evitar um contato mais próximo com outros associados nos momentos das dinâmicas. Entendendo que tais mudanças fazem parte de um processo que demanda tempo, a interação entre os catadores ainda continua sendo trabalhada, levando também em consideração a alta rotatividade existente dentro ASCANOVI. 71 - Visitas aos Domicílios dos Catadores-associados: Em 2005 e 2006 foram realizadas visitas aos domicílios dos catadores-associados a fim de identificar o perfil de cada associado e notificar os principais problemas vivenciados por estes no âmbito familiar. Depois de identificadas as problemáticas a ser resolvidas eram encaminhadas para os diferentes serviços públicos prestados no município como: prefeitura, Sistema Único de Saúde – SUS, defensoria pública, Instituto Nacional do Seguro Social – INSS, Conselho Tutelar e outros. Os encaminhamentos mais comuns eram: retirada gratuita de documentos pessoais, divórcio, construção de banheiro, cadastro em programas de transferência de renda, ligadura de trompas, solicitação de remédios, violência doméstica, dentre outros. Infelizmente nem todos os encaminhamentos foram atendidos, principalmente aqueles que dependiam da prefeitura local. Outras atividades promovidas pelo grupo de apoio junto aos catadoresassociados são: - Reuniões semanais com a finalidade de trabalhar a organização dos serviços internos no galpão. - Promoção de atividades grupais direcionadas para a abordagem de temas que fazem parte do cotidiano dos participantes; - Trabalhos de sensibilização dos participantes da ASCANOVI para que identifiquem seu papel na organização e a importância de sua participação como associado; - Encontros mensais com o grupo de apoio objetivando o seu fortalecimento; - Elaboração de projetos para a captação de recursos, porém cabe salientar que não foram disponibilizados recursos pelos órgãos do poder publico estadual e federal, conforme solicitado. - Parceria com o curso de Ciências Contábeis das Faculdades Doctum, com o intuito da ASCANOVI garantir maior transparência na movimentação financeira da organização, a parceria ainda permanece. - Articulação com o governo municipal e os respectivos representantes das Secretarias de meio ambiente, educação e assistência social para a efetiva participação do poder público no processo de organização dos catadoresassociados e implantação da coleta seletiva; 72 No período 2005/2007 muitas foram as ações desenvolvidas com a participação dos catadores-associados, entretanto, os resultados obtidos foram incipientes e de difícil mensuração. Constata-se que antes do planejamento das atividades realizadas pelo grupo de apoio, a dependência dos catadores-associados em relação a este grupo permanecia desde a fundação da associação, devido ao paternalismo que tirava a iniciativa dos associados. Ressalta-se que um dos objetivos durante os encontros dos apoiadores consistia na avaliação do papel deste grupo na associação para não interferir em questões que poderiam comprometer qualquer iniciativa de autonomia dos seus associados. Foi partindo deste princípio que o grupo de apoio elaborou o plano de ação, que diz respeito às atividades destacadas anteriormente referentes ao biênio 2005/2006. Porém, a continuidade do plano de ação vem sendo dificultada devido à dispersão do grupo de apoio, fruto dos conflitos internos entre seus atores. Aqueles que defendem ações paternalistas e/ou assistencialistas tiveram dificuldades para trabalhar com outras propostas, desencadeando o desenvolvimento de atividades isoladas só por parte de alguns. Isto vem gerando confusão entre os catadores-associados, especialmente no que diz respeito aos papéis do grupo de apoio e deles mesmos. Destaca-se que permanecem as tentativas de organização e fortalecimento do grupo de apoio. Uma outra questão que inviabiliza a continuidade das atividades propostas pelo grupo de apoio (aqueles ainda organizados) corresponde à falta de perspectiva dos catadores-associados de melhorias das condições de vida para o suprimento de suas necessidades básicas. Estas necessidades, como comer, beber, vestir e morar, são identificadas como respostas primárias como adquiridas através do resultado da produção na ASCANOVI. Conforme apresentado abaixo (Tabela1) esta renda tem se mostrado insuficiente. 73 TABELA 4 - Distribuição percentual dos membros da ASCANOVI quanto à renda (média) mensal recebida Renda média (mensal) Nº de Catadores-Associados % < 1 salário mínimo 15 65,2 1 salário mínimo 5 21,7 > 1 salário mínimo 3 13,1 A renda obtida por 65% dos catadores-associados é inferior a um salário mínimo, quantia considerada como insatisfatória para garantir até mesmo os recursos primários para sua sobrevivência e de seus familiares que dependem dessa renda. A baixa renda dos catadores-associados gera um nível de insatisfação em relação ao trabalho executado, razão pela qual se verifica um alto índice de rotatividade na ASCANOVI, resultado das constantes evasões. Muitos destes trabalhadores optam pelos chamados “biscates” fora da associação (apesar da esperança de conseguir um trabalho de carteira assinada), ou até mesmo pela catação no lixão do município de Teófilo Otoni (mesmo este sendo um local proibido para esta atividade), que segundo os catadores-associados têm um retorno financeiro maior do que na ASCANOVI, devido ao grande volume de material reciclável que chega ao local reservado para o destino final do lixo gerado no município de Teófilo Otoni. Vale ressaltar que apesar da insatisfação do catador-associado estar relacionada a renda obtida, contudo reconhece que houve melhorias no que tange ao reconhecimento por parte da sociedade local do seu trabalho desenvolvido26, referindose inclusive à oportunidade de exercer uma atividade laborativa, já que antes da ASCANOVI viviam ao léu. Com base na realidade vivenciada pelos catadores-associados, o grupo de apoio busca estratégias que favoreçam o aumento da produção da ASCANOVI e da qualidade dos materiais recicláveis segregados, de modo a alcançar melhores preços no mercado de recicláveis, visando a um aumento da renda dos catadores-associados e conseqüentemente a sua permanência na associação. Estas estratégias passaram a 26 Ver no Tópico 3.7 deste trabalho tal reflexão no Excerto 2, p. 80. 74 compor os objetivos do grupo de apoio a partir do segundo semestre do ano de 2006, momento em que a ASCANOVI passa a fazer parte da “Rede Solidária Central Leste”. 3.6 Rede Solidária Central Leste Durante o “Encontro Estadual de Catadores, Técnicos, Educadores Sociais e Agentes Sociais”, realizado em maio de 2004 em Belo Horizonte - MG teve origem a organização da Rede Solidária Central Leste. A formação desta Rede tem como objetivo contribuir no processo de inclusão social dos catadores de materiais recicláveis a partir de uma maior valorização dos materiais coletados que serão vendidos diretamente para as indústrias Conforme visto, as associações de catadores, no contexto atual de pouca participação dos governos das diferentes esferas, principalmente a municipal, no processo de organização destas instituições, enfrentam dificuldades para garantir a sustentabilidade no seu funcionamento, ocasionando assim uma situação de precarização das condições de trabalho que culmina na permanência do estado de miserabilidade dos catadores e suas famílias. Esta pouca participação dos governos aqui referida trata-se de uma colaboração em subsídios estruturais da organização como: incentivos para a compra de maquinário próprio; transporte para entrega de materiais diretamente para as indústrias; cursos contínuos de alfabetização para os catadores; disponibilização de um funcionário administrativo para capacitar e auxiliar os catadores nas questões administrativas e principalmente implantar coleta seletiva nos municípios. Caso não ocorram outras estratégias próprias de fortalecimento institucional a última alternativa que resta aos catadores é se renderem à exploração dos chamados atravessadores que emprestam maquinários para os catadores e os obriga vender os materiais recicláveis para os próprios atravessadores a preços abaixo do mercado; e atuam como intermediários no mercado de recicláveis, funcionando como elo entre os catadores e direta ou indiretamente com a indústria de reciclagem. Frente ao exposto, a “Rede Solidária Central Leste”, foi organizada por técnicos (apoiadores representantes da sociedade civil, ONG’s e governo) e catadores de materiais recicláveis de 11 associações do estado de Minas Gerais, localizadas nos Vales do Aço, do Rio Doce e do Mucuri, como estratégia que visa uma melhoria das condições de trabalho e vida destes trabalhadores. Com o crescimento e fortalecimento 75 do Movimento Nacional dos Catadores a partir de 2004, os idealizadores desta Rede perceberam que havia mais possibilidades de garantir a participação do Estado no processo de organização das associações mediante uma maior pressão por parte dos catadores. Assim se formou a Rede composta pelas seguintes associações: Associação dos Trabalhadores de Limpeza e Materiais Recicláveis de João Monlevade – MG ATLIMARJOM; Associação dos Catadores de Rio Piracicaba – ASCARIPI; Associação dos Catadores de Bela Vista de Minas Gerais – ASCABEV; Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Timóteo – MG – ASCATI; Associação dos Catadores de Recicláveis de Ipatinga – MG – ASCARI; Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Belo Oriente – ASCABEO; Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis Natureza Viva – ASCANAVI (Governador Valadares); Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis Nova Vida – ASCANOVI (Teófilo Otoni); Associação de Catadores Trabalhadores de Materiais Recicláveis de Carlos Chagas – ASCATA; Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis Nova Vida NOVA VIDA (Coronel Fabriciano) e Associação de Reciclagem de Nanuque – RECLIN. A Rede, a partir de um diagnóstico realizado em cada uma das associações se propôs elaborar um projeto visando a estabelecer parcerias com o governo federal a fim de captar recursos para a organização e infra-estrutura destas organizações. Este projeto foi aprovado pela Fundação Petrobrás, mediante uma parceria estabelecida com o Ministério do Desenvolvimento e Combate a Fome – MDS, liberando um milhão de reais para o estabelecimento de uma logística de coleta, transporte e destinação final dos materiais recicláveis recolhidos pelas supracitadas associações de catadores. Desde o início da formação da Rede a cidade de Governador Valadares sedia as reuniões mensais, com os representantes (catadores e técnicos) de cada associação vinculada a esta. Nestes encontros são discutidas as metas a serem cumpridas por cada associação, com base nos critérios estabelecidos pela Fundação Petrobrás. Para ser contemplado com os recursos da Fundação Petrobrás, cada associação integrante da Rede deverá cumprir as exigências, quanto à estrutura e organização das associações, a ser estabelecidas pelas Equipes de trabalho da Rede Solidária Central Leste (Quadro 2). 76 QUADRO 2: Equipes de trabalho da Rede Solidária Central Leste EQUIPE DE PROCESSO EQUIPE SOCIAL EQUIPE DE PLANEJAMENTO E ADMINISTRAÇÃO Equipe para definição do Equipe para projeto de Equipe para planejar a gestão da procedimento de trabalho no desenvolvimento dos catadores Rede. processo de controles Equipe para trabalhar Qualidade do produto. Equipe para projeto de Equipe para desenvolvimento dos desenvolvimento da família do produtos e compradores. a catador Equipe para trabalhar coordenações (diretoria) Equipe para trabalhar a logística as (o controle dos dados de produção, coleta, transporte e destino final). Equipe para relações institucionais e comunicação. Dentre as equipes supracitadas o Projeto NAPE ficou responsável pelos trabalhos sociais a serem desenvolvidos com os catadores da rede (equipe para o projeto de desenvolvimento dos catadores). A consolidação da Rede Solidária é de extrema importância, pois beneficiará diretamente 251 catadores, 754 dependentes e, indiretamente, 950 mil pessoas, moradores das regiões de atuação das associações a partir da redução da degradação ambiental. Enfim, esta estratégia implica na prevenção do retorno dos catadores para o lixão ou para o grupo de atravessadores (galpões privados de compra de materiais recicláveis), que significa, conforme expões Castel (1999) à desfiliação e à perda de identidade destes “não cidadãos”. 3.7 Análise dos principais entraves enfrentados pela ASCANOVI, que limitam as possibilidades de construção de uma auto-gestão organizacional O cotidiano da ASCANOVI é marcado pela perspectiva de desenvolver uma associação que seja auto-sustentável, baseado no modelo da auto-gestão. No entanto, esse processo perpassa por grandes entraves e contradições, o que vem dificultando o cumprimento dos princípios norteadores da auto-gestão organizacional da associação, em que os eixos devem ser a participação, democracia e autonomia. 77 Conforme assinalado, a ASCANOVI desde a sua fundação conta com a participação ativa do grupo de apoio em seu processo de organização. Desde o início o grupo de apoio desenvolveu atividades voltadas para o resgate da autonomia dos catadores-associados no processo de construção de uma auto-gestão, priorizando os seguintes objetivos: - Recuperar e manter trabalho e renda através da participação e controle coletivo dos trabalhadores(as) sobre as atividades produtivas; - Democratizar as tarefas que envolvem conhecimento, dando oportunidade para que o "saber fazer" chegue ao conjunto dos trabalhadores; - Superar os entraves ao acesso às informações e conhecimento; - Promover regularmente atividades de desenvolvimento do trabalho em equipe e de relacionamento e inteligência coletiva entre os (as) trabalhadores(as). Para isto, faz-se necessário um acompanhamento sistemático destes trabalhadores que empiricamente têm histórias de vida singulares, marcadas por um processo de exclusão social, que envolve trajetórias de vulnerabilidades, fragilidade e precariedade nas dimensões do trabalho, sócio-familiar, da cidadania, das representações culturais e da vida humana. Estas são questões que exigem um trabalho com grande sensibilidade e compreensão pelas dificuldades dessas pessoas que representam, no contexto atual, um elo fundamental na cadeia de reciclagem de lixo no país. De acordo com Singer (1998), a presença de um grupo de apoio é aceitável e importante para o fortalecimento dos projetos de auto-gestão, desde que essas ações não interfiram na autonomia dos associados. Para este autor os trabalhadores devem ter a capacidade e o poder de decisão sobre tudo o que acontece na associação: metas de produção, política de investimentos, modernização, política de pessoal, etc (Id). A partir da pesquisa realizada foi possível identificar uma desmotivação dos catadores-associados27 de participar da gestão da ASCANOVI e garantir uma autonomia. Os motivos dessa desmotivação podem ser listados da seguinte forma: 27 Os vinte três catadores-associados foram entrevistados no período de maio a junho de 2007, suas identidades foram preservadas e suas falas transcritas na integra. Daqui por diante serão apresentados os trechos mais representativos como excertos de 1 a 9. 78 ausência de renda fixa e com proteção trabalhista; baixa escolaridade o que para o catador-associado não viabiliza outras modalidades de fonte de renda que não seja a coleta de lixo; inserção precária na ASCANOVI que na grande parte das vezes é acompanhada de um processo de autoritarismo de catador-associado para com o outro, manifestando-se pela via da exploração nas atividades da coleta; incentivo do governo local na coleta seletiva do lixo; resistência no que tange ao cumprimento de deveres; essas são apenas algumas das dificuldades que alicerçam os entraves para auto-gestão. Como a maior parte das cooperativas e associações de catadores, a ASCANOVI é formada por pessoas sem qualificação, o que se reflete em que muitas vezes não compreendam os princípios de associativismo e auto-gestão, e acabem buscando neste espaço um trabalho como qualquer outro, se esquecendo que nestas organizações eles são patrões de si mesmos. É válido destacar que o perfil da grande maioria dos catadores-associados é marcado pela trajetória do alcoolismo, da moradia de rua e da ausência de laços familiares, o que interfere no cotidiano da sua organização. A pesquisa identificou que para 83% dos catadores-associados, a ASCANOVI se apresenta como uma das últimas alternativas encontradas para manter ainda que de forma precária a sua sobrevivência, o que mostra que o segmento dos catadores de lixo não dispõe da qualificação necessária que lhe oportunize garantir melhores condições de vida e de trabalho. Excerto 1 “Eu tinha vontade de trabalhar de carteira assinada, mas infelizmente a catação foi a única oportunidade que encontrei. Sei fazer muita coisa... é... pedreiro, jardineiro, cozinheiro... tem muita coisa que sei fazer, mas tá muito difícil consegui alguma coisa assim né? Então tive que ficá na catação até vê se a gente consegue uma coisa melhor né?”. A participação na associação é vista como uma falta de opção de empregos em sua região. Apesar de afirmarem que sua situação melhorou, pois antes trabalhavam em condições ainda mais precárias no lixão, ou não estavam exercendo nenhuma atividade trabalhista, percebem sua permanência na cooperativa como temporária, até "arrumarem alguma coisa melhor", de preferência numa empresa de carteira assinada. Nesse universo, cabe considerar que apesar das dificuldades enfrentadas - no que tange a rotatividade e a evasão freqüente da ASCANOVI - e até mesmo das reclamações e da falta de motivação dos catadores-associados, ainda assim, eles 79 apontam que sua inserção nela vem contribuindo de forma lenta e gradual para um certo respeito e reconhecimento da sociedade local, em relação as atividades desenvolvidas por eles no município. Excerto 2 “Fui pra ASCANOVI porque o presidente que tava lá me chamou pra gente trabalhar pra nós mesmo, sem ganhar desaforo. Nas ruas a gente é muito humilhado... é melhor ficar na ASCANOVI mesmo porque lá a gente passa raiva também por conta da fofocaiada mas pelo menos os outro respeita mais a gente na rua. Tem gente na rua que pergunta da ASCANOVI, como que funciona, e até as loja confia na gente quando a gente tem que entrar lá pra pegar material. A gente vai de uniforme direitinho e crachá também”. Apesar deste reconhecimento os que desejam permanecer exercendo a atividade da catação é reduzido, preferindo a maior parte procurar outro trabalho, isto justifica também, a freqüente rotatividade e evasão na organização. Entretanto este outro trabalho (jardineiro, ajudante de pedreiro, e outros), encontrado por alguns associados que se desligam da organização continua na margem da informalidade, porque lhes falta uma maior qualificação para assumirem o mercado formal de trabalho. Aqueles que possuem uma melhor escolaridade em relação aos outros, quando conseguem alguma oportunidade no mercado formal de trabalho (lojas, serviços gerais, construtora e outros), também acabam abandonando a ASCANOVI. Os catadores-associados que permanecem na ASCANOVI, são justamente aqueles que têm maiores dificuldades de entender a auto-gestão, e geralmente, desconhecem questões relacionadas ao estatuto, normas, a importância da sua participação nesse processo, daí decorre a sua desmobilização e desorganização. Desse modo, viver da coleta e da venda do lixo, acaba se constituindo num instrumento de um grupo de pessoas excluídas socialmente, marcados pela ausência de um emprego com proteção social e estabilidade. Processar uma maior viabilidade em um modelo baseado na auto-gestão requer que seus membros sejam autônomos, participativos e que saibam gerir seu próprio negócio tomando decisões, bem como, a sabedoria de aprender a conviver em grupo e a desenvolver a mesma atividade aonde existe vários sujeitos que compõem esse mesmo espaço e, portanto, desempenha as mesmas funções e atribuições. 80 Tomar isso por premissa é construir um catador-associado pró-ativo, com visão de futuro; com poder interventivo na organização, com funções relevantes que são elementares para a auto-gestão oraganizacional. Logo, se observa que essa realidade é muito distante do cotidiano que compõe a estrutura da ASCANOVI, pois seria necessário que os catadores-associados fossem portadores desses tipos de habilidades no seu perfil, o que não se apresenta nesta organização. Problemáticas como o não reconhecimento por parte do catador-associado de que a associação é um negócio seu, a desqualificação educacional, como outros problemas serão destacados a seguir como entraves para a construção do referido perfil. O quadro abaixo apresenta o perfil escolar dos catadores-associados. O que retrata a baixa escolaridade da maior parte desses sujeitos e o que interfere na organização da ASCANOVI, no que diz respeito a participação e organização dessa instituição. 13 4 3 2 1 1º a 4º Série Imcompleto 1º a 4º Série Completo 5º a 8º Série Imcompleto Ensino Médio Incompleto Analfabeto FIGURA 11: Distribuição quantitativa dos associados da ASCANOVI quanto ao nível de escolaridade em 2007 Dentre os entrevistados 68% declaram não participar de todas as decisões da ASCANOVI, destes 68% catadores-associados, 93% são analfabetos ou não concluíram o ensino básico, refletindo-se nas dificuldades que se tem de participar. Embora o catador-associado conheça os materiais comprados pelas empresas recicladoras, ainda assim, este não dispõe de conhecimentos no que diz respeito ao 81 funcionamento de uma associação que envolve questões administrativas, organizacionais e contábeis, dificultando desta forma todo o processo autogestionário. Desta forma, a condução ainda que precária da gestão da ASCANOVI, acaba ficando com aqueles que apresentam maiores conhecimentos sobre o assunto, o que também é insuficiente para promover a auto-gestão. Nesse processo, vícios vinculados a relação típica de empresa com cargo de chefia, acabam sendo incorporados pela maioria que possui melhores esclarecimentos sobre o assunto. Excerto 3 “Uma associação é como uma firma, sem a ajuda de outras pessoa que entende de trabalho que nós não entende não é ... não tem como funcionar, então é... nós não tem que preocupar com a administração... e também tem os pessoal da diretoria, dos apoiador... é... igual a Doctum que cuida dessa parte lá. Nós cuida de catar papel e um outro colega toma conta de tudo é... dos outro trabalho. Pra falar a verdade a gente num precisava nem de ficar em reunião, se tem uma pessoa que cuida de tudo pra nois então a gente tem que confiá nela, é igual empresa num é?” Os trabalhos realizados pelo grupo de apoio citados pelo catador, na verdade trata-se de um acompanhamento e treinamento dos catadores que compõem os cargos de Presidente, tesoureiro e secretário. Conforme Estatuto a Diretoria tem atribuições a cumprir, portanto, o grupo de apoio durante a sistematização de ações internas na ASCANOVI, destinou um tempo para acompanhar a nova diretoria em sua fase inicial. Devido as diferentes limitações de cada um destes associados para compreender o processo administrativo da ASCANOVI, acaba existindo um desinteresse por parte dos mesmos em permanecer em tais cargos. Os catadores-associados continuam agindo como empregados e nem sempre percebem a diferença de uma associação de auto-gestão e de uma empresa privada com sua dinâmica institucional (com o patrão e chefia). Isso aponta para uma problemática que precisa ser enfrentada pela ASCANOVI, no que diz respeito ao seu processo de organização hierárquica, o que passa pela definição de estabelecimento de normas e regras necessárias ao seu funcionamento. Quando esta hierarquia restringe a participação aos poucos catadores-associados em função do qual são reproduzidas situações anteriores à associação (separação do pessoal da administração e da produção), indo contra os princípios democráticos de uma associação de auto-gestão. 82 Uma outra questão que merece ser destacada é que a baixa escolaridade não pode ser uma condição para a não participação dos catadores-associados nos processos decisórios e organizacionais da instituição. A educação deve ser percebida numa dimensão mais universalizante, como resultado da prática social, através das interações do homem com o mundo. Brandão (1997, p.32) afirma que “existe a educação sem haver escola e existe a aprendizagem sem haver o ensino especializado e formal, como um tipo de prática social separada das outras”. Ainda segundo Brandão (ibid), o ensino-aprendizagem é um processo global que abarca a totalidade da vida, situado, portanto, nas instituições, nos movimentos sociais e nas relações informais. É também aí que se revela ou se oculta o jogo de interesses antagônicos presentes nas relações de produção e na sociedade como um todo. Dessa forma, associada ao processo de ensino-aprendizagem está a questão da dimensão política do ato pedagógico28, que para Abreu (1996) aparece como instrumento de mobilização, organização e unidade dos projetos da classe trabalhadora, na luta para a transformação da estrutura social. O referido processo apresenta-se como sendo todas as relações e ações que os indivíduos estabelecem entre si e com a natureza. É, pois, construção coletiva, troca grupal que ocorre nos sindicatos, nas associações, nos locais de trabalho, nas relações familiares, no resgate dos valores da “cultura negada” e nos movimentos dos trabalhadores de forma geral. Caracteriza-se, fundamentalmente, pela tomada de consciência, por parte dos trabalhadores, na medida em que se percebem como sujeitos engajados na construção de propostas viáveis historicamente e na elaboração do conhecimento (Id). Tendo em vista que a participação e a democratização do trabalho, não se constituem em prioridades para os catadores-associados, constata-se que não há engajamento ao projeto ideológico-político da ASCANOVI, representado por seu Estatuto, e nem mesmo vê-se a existência de um projeto coletivo no sentido essencial do termo. Assim, o coletivo torna-se instrumento para atingir objetivos de natureza 28 O processo político pedagógico pode ser entendido nesta análise como aquele que, de um lado, faz emergir nos indivíduos concretos a consciência da materialidade do seu existir e das relações estabelecidas com esta materialidade, e, de outro lado, como aquele processo que, através de concepções ideologizadas, tenta encobrir, ocultar ou mesmo deturpar a realidade (ABREU, 1996). 83 individual marcados por estratégias de sobrevivência ou de proveito que não podem se dissociar de outros processos de ordem pessoal. O fato de se insistir até aqui na discussão sobre a importância da participação, se dá por entender que esta acaba desvendando outras problemáticas diferentes que justificam a invibialidade da concretização de outros princípios que conduzem à autogestão efetiva. No capítulo II vimos que o modelo de auto-gestão deve ser entendido como aquele capaz de promover a igualdade de poder decisório que reitera a associação de iguais e fundamenta-se na propriedade coletiva, que é garantida através do estabelecimento prévio em assembléia geral. A estrutura de uma associação autogestionária organizada em torno do princípio democrático de participação em todas as esferas de decisão remete a um empreendimento coletivo de trabalhadores e, como tal, deve produzir e ser conduzida pelo conjunto de todos os associados. Este princípio garante que haja a priori uma tomada de consciência do próprio significado existencial do catador-associado, ou seja, quais são os seus verdadeiros anseios, desejos e sonhos. Conforme estudos e análises dos depoimentos coletados junto aos catadoresassociados percebe-se que grande parte destes não se sentindo proprietário de um negócio próprio têm certa dificuldade em participar efetivamente das questões que envolvem os interesses coletivos da ASCANOVI. Tais trabalhadores vão às reuniões e assembléias com o intuito de reivindicar somente seus interesses individuais, deixando os demais assuntos coletivos para segundo plano, a cargo do presidente, tesoureiro ou algum representante do grupo de apoiadores.. Excerto 4 “Eu já falei...não participo de nada naquela associação, só cumpro com o meu trabalho, não quero nem saber de mais nada... o meu papel? É... catá material nas rua né?” Dentre os entrevistados que apresentam uma baixa participação na gestão da ASCANOVI, foi possível identificar também aqueles que participam das assembléias, mas abstêm-se de votar, catadores-associados que só querem trabalhar, sem se envolver em qualquer decisão. Excerto 5 84 “Eu não sei pra que esse povo arruma tanta reunião, nós tamo ali é pra trabalhá, tem muito catador ali que fica recramando disso também é... assim... és tem que arrumá é material pra nós, isso já tava bom, e também trabalho e trabalho pra que reunião né? Quando eu trabalhava lá fora pros outro, em outro serviço a gente não tinha esse negocio, patrão só falava o que que a gente tinha pra fazer, e só isso”. O comentário deste catador-associado evidencia claramente a incompreensão da proposta da ASCANOVI, tendo inclusive dificuldades de visualizar as diferenças e compreender as responsabilidades cabíveis como membros de uma associação de autogestão. Durante a participação do NAPE em algumas assembléias era comum presenciar a saída de catadores-associados para o trabalho no meio da reunião, assim como uma grande dispersão e distanciamento do grupo. Em decorrência, pode dizer-se que não ocorre um grau mínimo de comprometimento que é exigido do trabalhador em uma estrutura coletiva como a associação. É perceptível a condição de alienação29 dos associados da ASCANOVI evidenciado pelas dificuldades que apresentam os associados na superação da subalternidade; da posição de meros executores; da simples obediência; resistindo a passagem à posição de gestores, responsáveis tanto pelo planejamento quanto pela execução das atividades; no enfrentamento de diferenças de idéias para a busca da construção de consensos; e decidir coletivamente, sem hierarquias, sem patrão. Porém, desconstruir a antiga posição de trabalhador e construir a de partícipe de uma gestão colegiada, não são tarefas fáceis, exige tempo, acesso à qualificação, exercício da comunicação, da escuta, da troca, da confiança, do respeito e da solidariedade. Segundo Gramsci (1978) é na coletividade cotidiana que está a aprendizagem mais significativa dos trabalhadores, pois é nestes espaços que, aprendem e ensinam a organização e a consciência de classe. A grande verdade é que as maiores lideranças sindicais, por exemplo, não aprenderam a ser combativas nos bancos escolares, mas nos movimentos organizados dos quais foram participando. Esta concepção é concebida por Gramsci (1978, p.37) quando afirma que, (...) a relação pedagógica não pode ser limitada às relações especificamente “escolásticas” através das quais as novas gerações entram em contato com as antigas e absorvem as suas experiências e os seus valores historicamente necessários, “amadurecendo” e desenvolvendo uma personalidade própria, histórica e culturalmente superior. 29 Ver nota 5 na página 6 deste trabalho. 85 O referido autor enfatiza ainda que toda relação de hegemonia é necessariamente uma relação pedagógica, que se verifica não apenas no interior de uma nação, senão também em todo campo internacional e mundial, bem como no conjunto de civilizações nacionais e continentais. Para Gramsci (ibid), propor a hegemonia da classe trabalhadora não é algo que passe por um simples discurso fragmentado ou “senso comum”, pois é uma luta contra outra força organizada: econômica, profissional, política e cultural. Esta força organizada segundo o autor consiste na superação dos discursos ideológicos construídos pelos burgueses nas bases da superestrutura (campos ideológicos) de uma sociedade, formando-se uma nova cultura política que favoreça uma mudança em diferentes setores da sociedade. Para que os diferentes grupos de trabalhadores se constituam em uma classe hegemônica, na condição de classe para si, é necessário que em sua consciência manifeste a compreensão das estruturas e das contradições sóciopolíticos e econômicas de uma sociedade concreta (GRAMSCI, ibid). Contudo, esta se torna uma tarefa difícil, pois para o autor são inúmeros os trabalhadores que não percebem o conflito de classes existentes nas relações de produção, portanto: (...) não têm uma clara consciência teórica desta ação, que não obstante é um conhecimento do mundo na medida em que o transforma. Pode ocorrer, inclusive, que a sua consciência teórica esteja historicamente em contradição com seu agir. É quase possível que ele tem duas consciências teóricas (ou uma consciência contraditória): uma implícita na sua ação, e que realmente o une a todos os seus colaboradores na transformação prática da sociedade; e outra, superficialmente explícita ou verbal, que ele herdou do passado e acolheu sem crítica. Todavia esta concepção “verbal” não é inconseqüente: ela liga a um grupo social determinado, influi sobre a conduta moral, sobre a direção da vontade, de uma maneira mais ou menos intensa, que pode, inclusive, atingir um ponto no qual a contraditoriedade da consciência não permita nenhuma escolha e produza um estado total de passividade moral e política (GRAMSCI, 1978, p.20-21). A dialética evidencia-nos a relação entre os indivíduos e o coletivo e o processo que o grupo impõe sobre a intimidade dos indivíduos. Exige, assim, que se supere a concepção dicotômica sobre o mundo, substituindo-a por uma visão da totalidade histórica. No contexto brasileiro de reestruturação produtiva encontram-se marginalizados um sem número de desempregados que buscam a sobrevivência das mais variadas 86 formas, como um lúpen-proletariado30 moderno que expressa enormes dificuldades de se associar às novas possibilidades de projetos coletivos de trabalho, permanecendo na condição de excluídos. No cenário da ASCANOVI a questão da conscientização deve ser levada para o terreno da luta concreta dos catadores-associados, pois nenhuma ação dos associados tem por protagonista um associado isolado. O protagonista da ação é um grupo, um coletivo, mesmo se a estrutura da sociedade em que vivemos tende a encobrir essa realidade e transformá-la em uma soma de individualidades distintas e sem relações. Na ASCANOVI esse individualismo torna-se perceptível nas falas dos próprios catadoresassociados: Excerto 6 “(...) os catador tinha que ser mais organizado e unido. Eles olha só pro seu umbigo e não escuta quando a gente fala que precisa melhorar alguma coisa, acha que a gente tá querendo mandar neles... assim fica muito difícil, sem falar nas fofoca que eles cria lá dentro”. Dando continuidade à análise sobre o cumprimento da ASCAVOVI dos eixos da auto-gestão, aponta-se aqui como um outro entrave, a falta de autonomia da associação, no que se refere a posse de equipamentos básicos de triagem do material reciclável segregado. A ASCANOVI mantém contrato informal (tácito) de venda dos materiais recicláveis com um atravessador local, que por sua vez disponibiliza maquinários31 (prensa e balança). A dependência desses maquinários faz com que os catadores submetam-se às determinações deste atravessador, no que tange ao tipo de material coletado e preço pago, situação que lhes tira autonomia. A ASCANOVI não tendo condições de escolher os compradores dos seus produtos para ter autonomia, limita suas negociações dos materiais segregados apenas na empresa atravessadora com quem mantém vínculo comercial. Segundo Juncá (2004, p. 78): 30 Numa abordagem bastante ácida Marx relaciona diferentes categorias de “fortuna duvidosa e de origem duvidosa, lado a lado com arruinados e aventureiros... havia vagabundos, soldados desligados do exercito, presidiários libertos, forçados foragidos das galés... trapeiros, amoladores de faca, soldadores, mendigos – em suma, toda essa massa indefinida e desintegrada...” estes setores marginalizados da classe trabalhadora e com baixa qualificação profissional eram os lúpen-proletariados (MARX, 2002, p. 79). 31 Segundo os coordenadores do Projeto Rede Solidária Central Leste, os maquinários serão comprados para as 11 associações a partir do próximo ano. No momento, as diferentes equipes técnicas estarão passando por uma capacitação. 87 (...) ao disporem dos meios de produção necessários à realização do comércio do lixo, bem como de um capital de giro para agilizarem as transações comerciais cotidianas com os catadores, os sucateiros retêm parte dos lucros desta cadeia produtiva e mantêm o controle de uma relação onde a liberdade é só aparente. Por mais que os catadores-associados acreditem que a sua remuneração corresponde ao volume de material coletado, na verdade o atravessador comprador dispõe do fruto do seu trabalho, por um baixo valor, quando agrega valores ínfimos àqueles materiais que despertam grandes interesses no mercado. Nas reuniões da Rede Solidária são apresentados os preços inferiores pagos pelos atravessadores às associações quando comparados ao de mercado. O lucro do atravessador poderia ser destinado aos associados proporcionando o aumento de sua renda. Vale ressaltar que com a inserção da ASCANOVI na Rede Solidária, a figura do atravessador em breve será descartada do processo de compra e venda de materiais recicláveis, pois a equipe da referida Rede está articulando a venda destes materiais diretamente com as indústrias, bem como a compra de equipamentos próprios para as associações filiadas. Conforme já apresentado neste trabalho, o projeto de captação de recursos encaminhado pela Rede a Petrobrás foi aprovado com a previsão de um recurso de Um Milhão de reais, que tem por objetivo equipar as associações e comprar o caminhão que encaminhará os materiais das associações para as indústrias que oferecerem o melhor preço. Destaca-se que por decisão em Assembléia, o ganho do catador-associado é por produção. Desta forma, a renda do catador-associado está submetida à quantidade de materiais recicláveis que cada um consegue segregar e acumular diariamente. Esta situação se agrava quando se analisa a trajetória do catador-associado em busca do seu “vale sobrevivência” que para a maior parte da população é caracterizado como lixo. O referido agravamento ocorre quando se depara com as limitações que são postas aos catadores-associados e estes têm que disputar com outros catadores, não associados, de forma violenta (agressões físicas) o que conseguem encontrar pelas ruas. Tal problemática segundo depoimentos dos próprios catadores-associados está condicionada por dois fatores principais que são: negligência do governo local na implementação da coleta seletiva e monopolização por parte de um catador-associado de alguns pontos comerciais que mais geram materiais recicláveis. 88 Dentre os entrevistados, 83% declaram que a ação mais importante que o governo municipal deveria estar promovendo em benefício da ASCANOVI, seria a coleta seletiva. Excerto 7 “Falta organizar a coleta seletiva, porque se tivesse a coleta seletiva podia até gerar mais emprego dentro da ASCANOVI. Mais eu num entendo porque até hoje a prefeitura não fez isso, eles fica falando que tá com a gente, que tá ajudando, mais a ajuda de verdade que tinha que acontecer era primeiro essa, porque não adianta nada ficá indo lá dá migalha pra nós e depois ir pras rádio falá que tá apoiando nóis”. Segundo relatos dos catadores-associados mais antigos na ASCANOVI, a associação tem se tornado um “curral eleitoral”, sendo funcional à propaganda dos partidos políticos. Assim, a relação com a instituição torna-se extremamente clientelista, não existindo ações efetivas que colaborem com o processo organizacional da mesma. O fato dos Catadores exercerem as suas atividades na zona urbana da cidade de Teófilo Otoni contribui para manutenção da apatia e comodismo do Poder Público Municipal em implantar a Coleta Seletiva, concomitante ao investimento necessário à sustentabilidade da ASCANOVI. É notório que as atividades desenvolvidas pelos catadores-associados mantêm a cidade aparentemente limpa, sem necessidade de a prefeitura investir diretamente em funcionários concursados e/ou terceirizados para atuar na manutenção da limpeza urbana local. Quando a representante da Secretaria do Meio Ambiente de Teófilo Otoni é interrogada sobre a implementação da coleta seletiva dos resíduos sólidos urbanos no referido município, esta apresenta dificuldades de efetivar tal coleta, mas demonstra interesse em realizá-la. De acordo com o representante da Secretaria Municipal do Meio Ambiente: Excerto 8 “O governo municipal tem encontrado certa dificuldade, inclusive eu me coloquei a disposição, aceitei um cargo que a prefeitura municipal me ofereceu, sobretudo para fazer uma ligação entre ASCANOVI e prefeitura. Como nós não temos assim o hábito... nós nunca tivemos a ASCANOVI, os catadores de papel unidos em uma associação, a gente encontra realmente alguma dificuldade de caminhar. A gente quer saber o que é necessário por parte da prefeitura para fazer. Então isso nós temos feito e existem já algumas ações por parte da prefeitura que nós estamos desenvolvendo em 89 prol da própria associação. Como por exemplo, por parte da prefeitura nós temos feito alguns mutirões nos bairros para ajudar a associação, temos alguns bairros como o bairro Filadélfia que já existe a mini coleta seletiva e além do apoio de manutenção por parte da prefeitura, o apoio e manutenção em relação à limpeza do local, está sendo feito como eu já disse o levantamento para ver o que a prefeitura pode fazer e acompanhar na rede física da ASCANOVI. E o que é mais importante que nós pretendemos junto com a ASCANOVI e a comunidade implantar definitivamente uma coleta seletiva no município de Teófilo Otoni, porque sabemos que não é tão fácil, mas nós não podemos fugir mais dessa coleta seletiva. Eu costumo dizer até que a coleta seletiva é a impressão digital de uma sociedade. Uma cidade como Teófilo Otoni de porte médio já era pra ter começado ou então já está no momento de se fazer um trabalho de conscientização com o povo dessa cidade, para começar por ai a defender o meio ambiente, defender o catador, ajudar o catador, a preservar a natureza iniciando um trabalho de coleta seletiva. Nós podemos ver que os lixões estão cada vez mais crescendo e isso não é só em Teófilo Otoni, é no mundo inteiro. Quanto dinheiro é jogado nos lixões, quanto material reciclável poderia ser transformado em dinheiro para que este dinheiro se transformasse em alimento na mesa do catador, em remédio, educação. Então a prefeitura está tentando descobrir como ajudar. Nós temos então que buscar novas parcerias através de articulação com o poder público e universidades e outras organizações não governamentais para que a gente possa realmente montar em Teófilo Otoni uma coleta seletiva definitiva”. A não implementação da coleta seletiva é considerada também pelo grupo de apoio como um dos principais entraves no processo de auto-gestão da ASCANOVI e permanência dos catadores-associados na mesma. Isto pode ser verificado a partir do depoimento de um apoiador apresentado a seguir: Excerto 9 “Eu acredito no processo de auto-gestão da ASCANOVI, mas ela não aconteceu como o grupo de apoio pensou inicialmente, que seria um processo mais acelerado, e penso que não ocorreu porque a gente não tem uma permanência dessas pessoas para dar continuidade, mas a partir do momento que a ASCANOVI consiga viabilizar a permanência de seus membros, ou seja, que a cidade também começa a assumir a questão da coleta seletiva que é uma forma de dá um suporte a eles, porque a questão financeira mesmo, porque ali dentro muitos acabam sendo prejudicados em alguns momentos por causa da normatização em torno da coleta e o tratamento desse material, e pra muitos que ficam ali soltos, catando no lixão, esta é uma forma que a ASCANOVI já tem um posicionamento definido em relação a salubridade, a saúde, então é mais interessante do que está na associação seguindo uma série de normas. Mas a partir do momento que a cidade se propõe a realizar a coleta seletiva, que o volume de material conseqüentemente aumentar a renda, a permanência dos catadores se torna uma realidade e com a permanência é possível se ter um bom trabalho e conseqüentemente uma auto-gestão”. Para um outro apoiador entrevistado a coleta seletiva também se constitui em um fator fundamental para o processo de organização autogestivo da ASCANOVI: 90 Excerto 10 “O que pode assegurar a permanência do catador na associação é preciso que ele perceba que é viável para a sustentação da família dele, e enquanto a cidade não tiver uma política de coleta seletiva e de apoio à ASCANOVI e outras associações que possam está vinculadas a essa coleta seletiva, eu acho muito difícil, então a gente tem que conseguir algumas conquistas, para depois chegar nesse ponto de dar condições do catador permanecer e está realmente preparado e habilitado para gerenciar seu próprio negócio”. O outro fator relatado por grande parte dos catadores-associados que dificulta a garantia de uma maior arrecadação de materiais recicláveis que concomitantemente limita uma elevação na renda deste trabalhador diz respeito à monopolização dos principais pontos comerciais geradores de materiais recicláveis. Em pesquisa desenvolvida pela equipe do NAPE, a partir de visitas realizadas em 30 estabelecimentos que doam materiais recicláveis para associados da ASCANOVI, foram identificados 18 pontos exclusivos de apenas um associado. Não sendo possível circular por todos estes pontos diariamente, além de ter que separar todo o material, este mesmo catador-associado recruta dentro da própria associação àqueles trabalhadores associados que têm baixa produção, devido a dificuldade de garantir material diariamente e paga valores irrisórios aos mesmos. Excerto 11 “Tinha que pagar alguém pra cuidar da administração lá. Porque, por exemplo, tiro só 130 reais na quinzena porque não tenho ponto. Tem um atravessador lá dentro que finge ser associado que tem os ponto quase tudo da cidade e paga com cigarro e outras coisa pros outros catador buscar pra ele e separar os material, depois ele paga eles. Eu não trabalho pra ele porque senão vou contra o regimento da ASCANOVI. Ele explora os catador”. Uma das condições da permanecia das associações na Rede Solidária é a não exploração interna de catadores, por isso tal situação foi apresentada pelos apoiadores representantes da Rede aos catadores-associados, entretanto houve uma conivência de grande parte dos associados a esta situação. Os poucos que se manifestaram dizendo ser contra alegam sofrer perseguições e inclusive ameaças por parte destes exploradores até mesmo dos que estão sendo explorados, mas que acham um bom negócio o acordo interno firmado com alguns catadores. 91 Desconhecendo a organização da instituição em sua totalidade, no que tange aos princípios do associativismo, o catador-associado fica submetido àqueles que se sentem donos dos “outros” e utilizam o seu conhecimento para explorar os demais catadores, ferindo os objetivos propostos no Estatuto da associação. Tal situação exploratória pode ser comparada ao domínio de chefes de tráfico de drogas em comunidades pobres, onde os mesmos cumprem indiretamente o papel do Estado ofertando alguns benefícios de cunho social em troca da legitimação do seu poder e cumplicidade de suas ações ilícitas. Constata-se que não há mais, para este indivíduo explorado um projeto coletivo, só lhe restando as chances de trabalho e inserção social, neste caso a ASCANOVI, que se resume em seu lugar de trabalho e possibilidade de sobrevivência, sem muito envolvimento com outras questões da instituição, se submetendo então aquilo que for conveniente para cada um. 92 CONSIDERAÇÕES FINAIS Chegar ao final desta pesquisa não foi tarefa fácil, pelo contrário, este foi um processo desafiador devido os muitos questionamentos levantados na fase inicial da construção deste trabalho. Para não perder de vista o objeto de estudo em questão, ao longo desta pesquisa manteve-se o seguinte questionamento: em que medida é possível construir uma verdadeira organização de produção e auto-gestão do trabalho quando está inserida no mercado capitalista? A partir das experiências vivenciadas pelos catadores de materiais recicláveis da ASCANOVI, é possível compreender os impactos das transformações ocorridas no mundo do trabalho, na organização interna da associação, marcada pela emergência de formas “autônomas” do trabalho. Os associados da ASCANOVI inseridos em uma organização associativista continuam vivenciando o processo de exploração do trabalho encobertado pelo discurso de trabalho autônomo. No caso da referida organização a situação de exploração se torna ainda mais grave quando se verifica este processo entre os próprios catadoresassociados e entre catadores e atravessadores, devido a inexistência de equipamentos básicos (balança, prensa), no processo de produção da associação. Tal realidade torna os catadores-associados dependentes dos atravessadores que negociam esses equipamentos em troca da exclusividade na venda de materiais recicláveis segregados, que resulta na falta de autonomia da associação nas decisões sobre o tipo de material coletado e preço pago. 93 Percebe-se nos depoimentos dos associados da ASCANOVI que a discussão sobre mudanças na direção de uma sociedade solidária nos marcos da sociedade capitalista, pressupõe uma cultura associativa formada pela falta de opção dos trabalhadores e não uma escolha efetiva pela autonomia e solidariedade. A contraposição entre alternativa à espoliação do trabalho versus opção pela autonomia solidária ganha ainda mais destaque ao considerarmos a funcionalidade da organização de cooperativas em uma conjuntura de flexibilidade e crescente fragilidade dos direitos sociais. O catador-associado conduzido à condição de “desfiliação” busca alternativas de sobrevivência próprias, pois já não tem mais alternativas positivas capazes de fazer frente às suas próprias necessidades básicas. Percebe-se que este trabalhador mesmo inserido em um projeto associativista terá maiores dificuldades de se constituir como sujeito coletivo, pois perdeu substancialmente a referência de sua cidadania. O retorno financeiro obtido pela maior parte dos associados da ASCANOVI, dificilmente torna-se suficiente para suprir suas necessidades básicas de subsistência. Desta forma, estes catadores-associados não visualizam alguma vantagem em fazer parte desta organização, na verdade a sua permanência vai ocorrendo sem muito comprometimento com a coletividade, onde cada um vai encontrando suas estratégias próprias de sobrevivência, uns explorando, outros sendo explorados, até que surja uma oportunidade melhor. Este contexto inviabiliza a construção de trabalho participativo e coletivo. Segundo depoimentos dos catadores-associados, bem como dos representantes do grupo de apoio, verifica-se a necessidade de participação mais efetiva do governo municipal de Teófilo Otoni na ASCANOVI, especificamente para a implantação da coleta seletiva que viabiliza o aumento do volume de materiais recicláveis na organização, que resultará no aumento da renda dos catadores-associados. Foi destacada pelos catadores a necessidade de contratação pela prefeitura, de um funcionário para cuidar das questões administrativas da ASCANOVI, até o momento em que esta possa arcar com tais despesas. Conforme apresentado neste trabalho, esta contratação é permissível no processo de auto-gestão, desde que não comprometa a autonomia dos catadores-associados. A cadeia produtiva da reciclagem nos traz a configuração de um sistema de trabalho coletivo organizado a partir de uma ideologia de cooperação e associação para o trabalho, mas que ao final se submete a um sistema originalmente capitalista que 94 absorve os resultados deste tipo de prática porque o resultado da catação, isto é, a matéria prima para a reciclagem é oriunda da geração de produtos industrializados que retornam ao mercado de consumo, uma vez reciclados, logo, constata-se a funcionalidade ao capital. Por outro lado, o catador-associado tem a impressão que está realizando um trabalho autônomo que o conduzirá à emancipação social. No entanto, devido a que à ASCANOVI não possui o maquinário necessário para o processamento dos produtos destinados à reciclagem os obriga a caírem nas mãos dos atravessadores da cidade, portanto a riqueza do material reciclável é apropriada pelo capital, ou seja, os atravessadores, sem que os catadores-associados percebam que o seu trabalho produziu um valor de troca do qual ele possa se apropriar, configurando deste modo a sua alienação. A expressiva quantidade de interrogações e críticas que o assunto estabelece, não deve desanimar o leitor e o formulador de políticas públicas. Ao contrário, torna-se urgente começar a buscar, de imediato e com maior profundidade, as respectivas respostas. Parece-nos que, tais questões, espelham a importância desses empreendimentos no cenário econômico, político e social do Brasil contemporâneo. Acreditamos que daí decorrerão elementos que poderão ajudar a construir um efetivo e eficaz engajamento do Estado, mesmo sem criar maiores expectativas, de que possam constituir um núcleo germinador de transformações estruturais. Destaca-se que a luta não se esgota no imediato, em uma localidade, em uma organização, mas faz parte de uma perspectiva de classe maior, que passa pela negação da estrutura capitalista e pela estruturação de um poder daqueles que nessa estrutura são espoliados. É notório que, não seja possível uma organização completamente diferente no capitalismo, mas é possível diferenciar a organização mesmo no capitalismo. Cabe aos catadores-associados se organizarem para constituírem grupos de resistência, compostos de trabalhadores conscientes, bem como aos movimentos sociais, como o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis – MNCR, a tarefa de propor mudanças no modelo organizacional vigente, a partir de uma pressão maior sobre o poder público, no processo de fiscalização, a começar no âmbito local. Conforme depoimentos apresentados pelos catadores da ASCANOVI um dos principais entraves vivenciados pelos mesmos no processo de consolidação da organização trata-se da não implementação da coleta seletiva no município. Contrapondo este cenário adverso, todos os envolvidos na luta e organização dos catadores-associados vêem a criação da Rede Solidária Central Leste como “porta-de95 saída” para o enfrentamento dos problemas inerentes aos atravessadores e demais exploradores dentro da própria organização, já que a junção das Associações Regionais possibilita a criação de mecanismos justos na comercialização e organização da infraestrutura evitando as lacunas atualmente ocupadas por empresários exploradores de catadores, uma vez que tais fatos se reproduzem em outras regiões do Estado e do país. A efetivação desta rede se apresenta como um novo objeto de estudo de uma nova pesquisa que apresente os impactos causados no âmbito organizacional das associações parceiras da mesma. Fazendo uma leitura realista da situação vivenciada pela ASCANOVI, somos conduzidos pelos fatos ora comprovados a acreditar que apesar dos avanços e retrocessos ocorridos nestes últimos sete anos de funcionamento da Associação, os desafios são mutáveis conforme alterações sociopolíticas e econômicas. Porém, constata-se que a hipótese desta pesquisa foi comprovada, pois não foi possível identificar o cumprimento dos princípios da auto-gestão: participação, democracia e autonomia. Portanto, isso nos leva às seguintes deduções: é preciso trabalho de conscientização política e trabalhos pedagógicos sistemáticos dentro da ASCANOVI. Este deve ser assumido pelo poder público e pelo grupo de apoio. Além disso, o governo local deve sensibilizar a sociedade de que a reciclagem é uma demanda social e assumir a coleta seletiva. Somente isto pode enfrentar o estigma que está em torno da catação, pois a auto-gestão está intrinsecamente ligada à coleta seletiva. Esta pesquisa constitui-se numa contribuição para reflexão sobre o tema de como deverão organizar os catadores de materiais recicláveis em relação à sociedade civil e poder público para conduzir o processo de coleta seletiva considerando aspectos relevantes sendo tais: Como a comunidade vê e se comporta em relação aos catadores e o nível de disposição para doar o “lixo” com potencial para reciclar? Como as pessoas irão doar o lixo? Em que nível se dará a transferência desse novo capital chamado lixo? A economia solidária deve pensar em mecanismos para que os novos recursos sejam distribuídos como bens coletivos e não como bens de exploração. 96 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA ABREU. Marina Maciel. A questão Pedagógica e a hegemonia das classes subalternas – aportes da análise gramsciana. In: Revista Serviço Social & Sociedade, n. 51 ano: XX, São Paulo: Cortez, 1996. ALBUQUERQUE, Paulo Peixoto. Cooperativas de trabalho, mudança das relações de produção? In: Perspectiva, v.12, n.1, São Paulo, Jan/mar/2003. ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho. Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo. 1999. ARANHA, M. L. de A.; MARTINS; M. H. P. Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 1998. AZEREDO, Verônica Gonçalves. Os recicladores de miséria. Dissertação (Mestrado em Serviço Social). Escola de Serviço Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1999. BANDEIRA, Manoel. Poesia e Prosas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. BEHRING, Elaine Rossetti. Política Social no Capitalismo Tardio. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2002. ______________; BOSCHETTI, Ivanete. Política Social: fundamentos e história. São Paulo: Cortez, 2006. BIHR, Alain. Da grande noite à alternativa. O movimento operário europeu em crise. São Paulo: Boitempo, 1998. 97 BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília. Brasília/DF: s.e.p. 1988. BRANDÃO. Maria Helena Nagamine. Introdução à análise do discurso. 6. ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1997. CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. Petrópolis: Vozes, 1999. CHAUÍ, Marilena. Cultura e Democracia: o discurso competente e outras falas. Cortez: São Paulo, 2001. CMMAD COMISSÃO MUNDIAL DE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO, 1988, O futuro é nosso, Editora Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro – RJ. DEMO, Pedro. Pobreza da pobreza. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003. ESCOREL, Sônia. Vidas ao léu: trajetórias de exclusão social. Rio de Janeiro, Fiocruz, 1999. FERNANDES, Rubem César. C. Privado, porém público: o terceiro setor na América Latina. Rio de Janeiro: Relume – Dumurá, 1994. FOSTER, John Bellamy. A ecologia de Marx: metarialismo e natureza/ John Bellamy Foster; tradução de Maria Teresa Machado. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. FRAGA, Alexandre Barbosa. Da rotina à Flexibilidade: análise das características do fordismo fora da indústria. Revista Habitus, Rio de Janeiro, v. 3, n. 1, p. 36-43, 2005. GOHN, Maria da Glória. A força da Periferia. Petrópolis: Vozes, 1998. GONÇALVES, Pólita. A reciclagem integradora dos aspectos ambientais, sociais e econômicos. Rio de Janeiro: DP&A: Fase, 2003. GONÇALVES, Raquel de Souza. Catadores de materiais recicláveis: trabalhadores fundamentais na cadeia de reciclagem do país. In: Revista Serviço Social & Sociedade. São Paulo, Cortez, n.82, 2005. GRAMSCI, Antônio. Concepção dialética da história. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. 98 GUIMARAES. Roberto P. A ética da sustentabilidade e a formulação de políticas de desenvolvimento. In: Viana, Silva, Diniz (orgs.). O desfio da sustentabilidade - Um debate socioambiental no Brasil. São Paulo, Fundação Perseu Abramo, 2001. GUIMARÃES, Roberto P. A ecopolítica da sustentabilidade em tempos da globalização corporativa. In: As Dimensões Humanas da Biodiversidade. O desafio de novas relações sociedade-natureza no século XXI/ Irene Garay e Berta K. Becker(organizadoras). Petrópolis: Editora Vozes, 2006. HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992. HOFFMANN, Rodolfo. Queda da Desigualdade da Distribuição de Renda no Brasil, de 1995 a 2005 e Delimitação dos Relativamente Ricos em 2005. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/livros/desigualdaderendanobrasil/Cap_01_Quedada DesigualdadedaDistribuicao.pdf>. Acesso em 22 de setembro de 2007. IAMAMOTO, Marilda Villela. e CARVALHO, Raul. Relações sociais e Serviço Social no Brasil. São Paulo: Ed.Cortez, 1996. IAMAMOTO, Marilda Villela. O Serviço Social na Contemporaneidade: Trabalho e Formação Profissional. São Paulo: Cortez, 2001. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível no site http://www.ibge.gov.br , Acesso em 20 de fevereiro de 2006. INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA -IPEA. Nota técnica. Sobre a recente queda de desigualdade de renda no Brasil. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/publicacoes/NTquedaatualizada.pdf>. Acesso em 22 de setembro de 2007. JUNCÁ, Denise Chrysóstomo de Moura. Mais que sobras e sobrantes: trajetórias de sujeitos no lixo. Tese (Doutorado em Saúde Pública) – Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2004. LANDIM, Leilah. O Serviço Social em Questao. Rio de Janeiro: PUC RJ, 1999. LEFF, Enrique. Saber Ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001. LEFF, Enrique. Epistemologia Ambiental/ Enrique Leff; tradução de Sandra Valenzuela, revisão técnica de Paulo Freire Veira. – 3. ed. – São Paulo: Cortez, 2002 LIMA, Jacob Carlos. Cooperativas de produção industrial: autonomia e subordinação do trabalho. In: Nadya. A. Castro e Cláudio. S. Dedecca, A ocupação na América Latina: tempos mais duros, São Paulo/Rio de Janeiro: Alast, 1998. 99 ________________. O trabalho autogestionário em cooperativas de produção: A retomada de um velho paradigma – GT Trabalhadores, Sindicatos e a Nova Questão Social – XXVII Encontro Anual da ANPOCS (Caxambu, 21-25 de outubro de 2003). MacNEILL, Jim; WINSIEMUS, Pieter; YAKUSHIJI, Tazio (orgs.) Para além da interdependência: a relação entre a economia mundial e a ecologia da terra. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992. MAGALHÃES, Marcos Alves; MAGALHÃES, Adriana Barbosa Sales e MATOS, Antônio Teixeira de. Levantamento e diagnóstico das condições sócio-econômicas e culturais dos catadores de lixo e do mercado de recicláveis no município de Viçosa-MG. Trabalho apresentado no II Congresso Mundial de Educação Ambiental, Rio de Janeiro, 2004. MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Editorial Grijalbo, 1977. __________. O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann. 7 ed. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2002. MONTANO, Carlos. Das “lógicas do Estado às lógicas da sociedade civil”: Estado e “Terceiro Setor” em questão. In: Revista Serviço Social & Sociedade, n. 59 ano: XX, São Paulo: Cortez, 1999. ______________. Terceiro Setor e Questão Social: crítica ao padrão emergente de intervenção social. 3. ed. São Paulo, Cortez Editora, 2005. MOTA, Ana Elizabete. Cultura da crise e seguridade social. São Paulo, Cortez, 1995. _____________. Entre a rua e a fábrica: reciclagem e trabalho precário. In: Revista da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social – ABEPSS, n. 33, São Paulo: Temporalis, 2002. MOVIMENTO NACIONAL DOS CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS. Disponível no site http://www.movimentodoscatadores.org.br. Acesso em julho de 2007. NEDER, Henrique Dantas. Indicadores Sociais no Brasil: uma analise de sua evolução em período recente. Parcerias estratégicas, Brasília, v. 22, 2006. NETTO. José Paulo. O capitalismo monopolista e Serviço Social. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1996. 100 ___________. FHC e a política social: um desastre para as massas trabalhadoras, In: O Desmonte da Nação: Balanço do governo. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1999. NOBRE, Marcos. Desenvolvimento sustentável: origens e significado atual. In: Desenvolvimento Sustentável: a institucionalização de um conceito / Marcos Nobre, Maurício de Carvalho Amazonas, organizadores; contribuição de STÖHR, Gilberto Tadeu Lima – Brasília: Ed. IBAMA, 2002 – 368 p. ____________________________________________________. Trabalho decente nas Américas: uma agenda hemisférica, 2006-2015, Brasília: OIT, 2006. Disponível no site http://www.oit.org.br. Acesso em 27 de fevereiro de 2008. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS - ONU. Assembléia Geral. Declaração Universal dos Direitos Humanos, 10 dez. 1948. PEREIRA NETO, João Tinoco. Manual de compostagem processo de baixo custo. Belo Horizonte: UNICEF, 1996. PEREIRA, Potyara Amazoneida. A metamorfose da questão social e a reestruturação das políticas sociais. In: Programa de Capacitação em Serviço Social e Política Social – Módulo 02. Brasília: UnB, 1999. ______________. Questão Social, Serviço Social e Direitos de Cidadania. In: Revista Temporalis 3, Ano II. – ABEPSS -. Brasília: Grafline, 2001. PESQUISA NACIONAL DE SANEAMENTO BÁSICO – PNSB, 2000. Disponível no site http://www.funasa.org.br. Acesso em 10 de março de 2006. PINTO, João Roberto Lopes. Economia Solidária: de volta à arte da associação. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2006. PONTES, Lúcia e Bava; CACCIA, Silvio. As ONG’s e as políticas públicas na construção do Estado democrático. Serviço Social e Sociedade, n 50. Ano XVII. São Paulo: Cortez, 1996. PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO – PNUD. Desenvolvimento Humano e IDH. Disponível em www.pnud.org/idh consultado em julho 2007. PROGRAMA FOME ZERO, 2006. Disponível no site http://www.fomezero.gov.br. Acesso em 15 de novembro de 2006. RAMONET, Ignácio. Geopolítica do caos. Petrópolis: Vozes, 1998. 101 ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Abril Cultural, 1983a. (Os Pensadores). SACHS, Ignacy. Desenvolvimento: includente, sustentável, sustentado. Rio de Janeiro: Garamond, 2004. _____________. Primeiras Intervenções – Ignacy Sachs. In: Dilemas e desafios do desenvolvimento sustentável no Brasil/ organizadores, Elimar Pinheiro do Nascimento e João Nildo Vianna – Rio de Janeiro: Garamond, 2007. _____________. Trabalho decente – a ponte entre o econômico e o social. – In: Revista Desafios para o Desenvolvimento. – Setembro, 2004, Ano 1 – n. 2. – SBS Quadra D1 Edifício BNDES, sala 801 – CEP 70076 – 900 Brasília – DF. SILVA, Maria Amélia Rodrigues da. Economia dos Recursos Naturais. In: Economia do meio ambiente: teoria e prática/ Peter H. May, Maria Cecília Lustosa, Valéria da Vinha, organizadores. – Rio de Janeiro: Elsevier, 2003. SILVA, Maria Ozanira da Silva. O Programa Bolsa Família nos Marcos da Luta Contra a Pobreza no Brasil. Revista de Políticas Públicas, v. 10, 2006. SILVA, Maria Ozanira da Silva; GIOVANNI, Geraldo di; YAZBEK, Maria Carmelita. A Política Social brasileira no século XXI: a prevalência dos programas de transferência de renda. São Paulo: Cortez, 2007. SINGER. Paul. Globalização de Desemprego: Diagnóstico e Alternativas. 2 ed.. São Paulo: Contexto, 1998. SINGER, Paul, SOUZA, André Ricardo de (Orgs). A economia solidária no Brasil: a auto-gestão como resposta ao desemprego. São Paulo: Contexto, 2000. SINGER, Paul. Introdução a Economia Solidária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2003. SOARES, Laura Tavares. Os cultos sociais do Ajuste Neoliberal na América Latina. São Paulo: Cortez, 2000. STAHEL, Andri Werner Capitalismo e Entropia: os aspectos ideológicos de uma contradição e a busca de alternativas sustentáveis. In: Desenvolvimento e Natureza: estudos para uma sociedade sustentável/ Clóvis Cavalcanti, organizador. – 4. ed. - São Paulo: Cortez; Recife, PE: Fundação Joaquim Nabuco, 2003. 102 TAVARES, Maria Augusta. Os fios (in)visíveis da produção capitalista: informalidade e precarização do trabalho. São Paulo: Cortez, 2004. VALLE, Cyro Eyer do. Como se preparar para as normas ISO 14000: Qualidade Ambiental - o desafio de ser competitivo protegendo o Meio Ambiente. São Paulo: Copyright, 1996. VAN BELLEN, Hans Michael. Indicadores de sustentabilidade: uma análise comparativa. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006. VEIGA, Mayrink Sandra, FONSECA, Isaque. Cooperativismo: uma revolução pacífica em ação. 2. ed. Rio de Janeiro: FASE/DP&A. Série Economia Solidária n. 1, 2001. VIEIRA, Paulo Freire. Meio Ambiente, desenvolvimento e planejamento. In: Meio Ambiente, Desenvolvimento e Cidadania. São Paulo: Cortez, 1998. WANDERLEY, Mariângela Belfiore. As artimanhas da exclusão: análise psicossocial e ética da desigualdade social. Petrópolis, Rio de Janeiro, Editora Vozes Ltda, 1999. ZICA, Luciano. A história da catação no país. In: Catadores de vida. São Paulo, Lume Comunicação, edição 1/2002. 103 ANEXOS 104 ANEXO 1: Questionário semi-estruturado aplicado aos associados da ASCANOVI I – IDENTIFICAÇÃO DO ENTREVISTADO: 1 – Nome: _____________________________________________________________ 2 – Sexo: 2.1 ( ) Feminino 2.2 ( 3 – Idade: ___________ (em anos completos) ) Masculino 3.1 Data Nasc: _________________ 4 – Nível de escolaridade: 4.1 ( ) analfabeto 4.2 ( ) ensino fundamental 1ª a 4ª série – incompleto 4.3 ( ) ensino fundamental 1ª a 4ª série - completo 4.4 ( ) ensino fundamental 5ª a 8ª série – incompleto 4.5 ( ) ensino fundamental 5ª a 8ª série – completo 4.6 ( ) ensino médio incompleto 4.7 ( ) ensino médio completo 4.8 ( ) 3º grau incompleto Curso: _______________________________________ 4.9 ( ) 3º grau completo Curso: ________________________________________ Outro: ______________________________________________________________ 5 – Você é natural de Teófilo Otoni? 5.1 ( ) sim 5.2 ( ) não 6 – Qual a sua cidade de origem? (se a resposta acima for negativa) ________________ 7 – A quanto tempo você está em Teófilo Otoni? _______________________________ 8 – Pretende continuar morando em Teófilo Otoni? _____________________________ 8.1 ( ) sim 8.2 ( ) não por que? ___________________________ ___________________________________________________________________ 105 II – CONDUÇÃO DE TRABALHO E FORMA DE EXPLORAÇÃO DA ATIVIDADE: 9 – Há quanto tempo você trabalha com materiais recicláveis? 9.1 ( ) menos de 1 ano 9.2 ( ) entre 1 e 2 anos 9.3 ( ) entre 2 e 3 anos 9.4 ( ) entre 3 e 5 anos 9.5 ( ) entre 5 e 10 anos 9.6 ( ) mais de 10 anos 10 - Por que você se associou a ASCANOVI? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 11 – Quanto tempo você é associado da ASCANOVI? __________________________ 12 – Além de você tem outro membro da família que trabalha com a catação de materiais recicláveis? 12.1 ( ) nenhuma 12.2 ( )1 12.3 ( )2 12.4 ( )3 12.5 ( ) outros: _____________________________________________________ 13 – Com qual freqüência você trabalha na catação? 13.1 ( ) diariamente 13.2 ( ) uma vez por semana 13.3 ( ) duas vezes por semana 13.4 ( ) três vezes por semana 13.5 ( ) esporadicamente 106 14 – Renda estimada/mês com a venda de materiais recicláveis: 14.1 ( ) menos de um salário mínimo 14.2 ( ) um salário mínimo 14.3 ( ) entre um e dois salários mínimos 14.4 ( ) dois salários mínimos 14.5 ( ) mais de dois salários mínimos 15 – Você dispõe de outra(as) fonte(s) de renda além da venda de materiais recicláveis? 15.1 ( ) sim 15.2 ( ) não 16 – Caso a resposta do item 23 seja verdadeira, quais são as fontes? 16.1 ( ) Biscates 16.2 ( ) Aposentadoria 16.3 ( ) Pensão 16.4 ( ) Benefícios do Governo Federal 16.5 ( ) Instituições Filantrópicas 17 – Qual o local onde você realiza a catação de lixo? 17.1 ( ) somente no centro 17.2 ( ) somente nos bairros 17.3 ( ) em toda a cidade 17.4 ( ) somente na associação 18 - Qual é o seu grau de satisfação no trabalho? 18.1 ( ) pequeno 18.2 ( ) médio 18.3 ( ) grande 19 – De que forma o seu trabalho poderia ser melhorado? (Caso o grau de satisfação seja pequeno ou médio) ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 20 – Gostaria de exercer outra atividade? Se sim qual? 20.1 ( ) sim qual? _______________________________ 107 20.2 ( ) não 21 – Qual a sua opinião sobre a ASCANOVI? ______________________________________________________________________ ________________________________________________________ 22 - Onde são comercializados os produtos da ASCANOVI? 22.1 ( ) Atravessadores 22.2 ( ) Industrias 22.3 ( ) Não Sabe 23 - Quais as limitações que impedem a venda direta às fábricas que reciclam? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 24 - Que papel você cumpre dentro da ASCANOVI? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 25 - Você participa de todas as decisões dentro da ASCANOVI? 25.1 ( ) sim 25.2 ( ) não 26 - Como é o processo de tomada de decisões dentro da ASCANOVI? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 27 – A ASCANOVI promove reuniões periódicas com seus associados? 27.1 ( ) sim 27.2 ( 28 – No caso afirmativo, qual a periodicidade? 28.1 ( ) semanal 28.2 ( ) quinzena 28.3 ( ) mensal 28.4 ( ) esporadicamente 28.5 ( ) anualmente 108 ) não 28.6 ( ) não promove 29 – Quem convoca os associados para as reuniões? ____________________________ ______________________________________________________________________ 30 – Existe uma confiança dentro da ASCANOVI em relação aos associados? 30.1 ( ) nenhuma confiança 30.2 ( ) regular confiança 30.3 ( ) boa confiança 30.4 ( ) ótima confiança 31 – Como você analisa hoje, a presença do grupo de apoio dentro da ASCANOVI? Por que? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 32- Existe alguma ação importante que o governo deveria está promovendo, em benefício à ASCANOVI, entretanto não está sendo efetivada? Qual (is)? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 33- Em sua opinião a ASCANOVI tem condições de funcionar de forma autônoma? Por que? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 34 - Quem você considera como liderança dentro da ASCANOVI? Por que? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 35 – Em seu entender como poderia ser melhorado o processo de auto-gestão da ASCANOVI? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 109 36- O que é associativismo para você? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 110 ANEXO 2: Roteiro para entrevista do representante da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Teófilo Otoni 1- O Sr. conhece o processo de funcionamento da ASCANOVI? 2- Qual a importância da ASCANOVI hoje, para o município de Teófilo Otoni? 3- Quais ações são desenvolvidas hoje, por parte do governo municipal, direcionadas a ASCANOVI? 4- Existe alguma ação importante que o governo deveria está promovendo, em benefício à ASCANOVI, entretanto não está sendo efetivada? Em caso afirmativo, quais os principais entraves? 5- Existe alguma demanda apresentada a prefeitura pelos associados? Qual (is)? 6- O Sr. é a favor da auto-gestão da ASCANOVI? Por que? 7- Acredita na possibilidade desta auto-gestão ? 111 ANEXO 3: Roteiro para entrevista de membros do grupo de apoio da ASCANOVI 1 - Qual é o papel do grupo de apoio junto a ASCANOVI? 2 - Você enquanto apoiador acredita na auto-gestão da ASCANOVI? 2.1 ( ) sim 2.2 ( ) não Por que? 3 – Quais são os entraves internos e externos que você visualiza que atuam como barreiras para uma boa gestão da ASCANOVI? 4 – Quais seriam as ações necessárias para viabilizar uma gestão eficiente e auto consolidação da ASCANOVI? 5 – O que você entende por associativismo? 112 ANEXO 4: Estatuto da ASCANOVI Capítulo I DA DENOMINAÇÃO, SEDE, E FINS Art. 1º - A Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis Nova Vida, também designada pela sigla ASCANOVI, fundada em 23 de Novembro de 2002, é uma entidade civil sem fins lucrativos, que terá duração por tempo indeterminado, com sede e foro no município de Teófilo Otoni-MG Art. 2º - A ASCANOVI, tem por finalidades: I – Apoiar e defender os interesses dos catadores (as) de papel, papelão e materiais reaproveitáveis, favorecendo a união e organização dos mesmos; II - Proteção à saúde da família, da maternidade, da infância e da velhice; III – combate à fome e à pobreza através de campanhas de distribuição de alimentos e agasalhos; IV – Integração de seus beneficiários no mercado de trabalho através da promoção de cursos profissionalizantes ligado à todas as atividades e prestação de serviços à comunidade; V – Proteção ao meio ambiente através da integração com entidades afins que atuem na promoção de campanhas educativas e projetos de recuperação ambiental; VI – Elaborar projetos e firmar convênios com órgãos e entidades financiadoras para atendimentos às necessidades da comunidade; VII – Promover e implementar ações de desenvolvimento sócio-econômico e cultural dos associados através de grupos de produção, grupos de jovens, clubes de mães, creches, pré-escolas e difusão de tecnologias e bem estar social; I X – divulgação da cultura e do esporte; X – Desempenhar atividades de implementação e gerenciamento de infra-estruturas comunitárias de saúde, saneamento básico, habilitação, comunicação e educação. XI – Trabalhar pelo desenvolvimento da comunidade através da integração com entidades afins que visem a melhoria do bem estar social de todos os associados; XII – Manter serviços de assessoria jurídica, visando a defesa e os interesses e direitos de seus associados; XIII – Lutar para que seus associados possam trabalhar com segurança e protegidos da ação de atravessadores intermediários e outros tipos de exploradores; XIV – Lutar para que os catadores sejam respeitados na sua atividade e para que a mesma seja legalmente reconhecida. Art. 3º - No desenvolvimento das suas atividades, a entidade não fará qualquer discriminação de raça, cor, sexo ou religião. Art. 4º - A Entidade poderá ter um regime interno, que aprovado pela assembléia geral, disciplinará o seu funcionamento. 113 Art. 5º - A fim de cumprir suas finalidades a entidade se organizará em tantas unidades de prestações de serviços, quanto se fizerem necessárias, as quais se regerão pelo Regimento Interno. Capítulo II DOS ASSOCIADOS Art. 6º - A ASCANOVI, é constituída por número ilimitado de associados, que catam papel, papelão e/ou materiais reaproveitáveis, necessários à sua sobrevivência, que serão admitidos, a juízo da diretoria, dentre pessoas idôneas, maiores de idade, em pleno gozo de seus direitos civis, e que manifestem interesse em contribuir para a execução dos objetivos da instituição. $ 1º - A demissão dar-se-á a pedido do associado, mediante carta dirigida á Diretoria da instituição, não podendo ser negada; $ 2º - A exclusão será aplicada pela Diretoria com o aval da Assembléia Geral e ocorrerá por morte física ou por infringir qualquer disposição legal ou estatutária, 30 (trinta) dias o associado ter sido notificado por escrito; $ 3º - O associado poderá recorrer à Assembléia Geral dentro do prazo de 10 (dez) dias, contados na data de recebimento da notificação. $ 4º - O recurso terá efeito suspensivo até a realização da primeira Assembléia Geral. $ 5º- A eliminação considerar-se-á definitiva se o associado não recorrer da penalidade, no prazo previsto $ 3º deste artigo. $ 6 - Perderá automaticamente o direito de pertencer aos quadros da ASCANOVI, o associado que deixar de praticar suas atividades de catadores de papel, papelão e/ou materiais reaproveitáveis. Art. 7º - Haverá as seguintes categorias de associados: 1.Fundadores : São aqueles que participaram da assembléia de constituição da entidade e assinaram a respectiva ata. 2. Contribuintes: São os que contribuem com uma importância mensal no valor e na modalidade estabelecida pela diretoria. 3.Beneméritos: São aqueles que prestam à entidade relevantes serviços sendo os mesmos indicados espontaneamente pela assembléia geral ou pela diretoria, não tendo direito a voto e nem podendo ser votados; 4. Honorários : São aqueles que prestam serviços de notariedade e assim se fizeram credores dessa homenagem apontados por proposta da diretoria a Assembléia Geral, não tendo direito a voto e não podendo ser votados. Art. 8º - São direitos dos associados quites com suas obrigações sociais: I – votar e ser votado para os cargos eletivos; II – tomar parte nas Assembléias Gerais; Art. 9 º - São deveres dos associados: I – cumprir as disposições estatutárias e regimentais II – acatar as determinações da diretoria. Art. 10º - Os associados não respondem nem mesmo subsidiariamente pelas obrigações e encargos sociais da entidade. 114 Capítulo III DA ADMINISTRAÇÃO Art. 11º - A ASCANOVI , será administrada por: I – Assembléia Geral; II – Diretoria; e III – Conselho Fiscal. Art. 12º - A Assembléia Geral, órgão soberano da instituição, associados em pleno gozo de seus direitos estatutários. constituirse-á dos Art. 13º - Compete à Assembléia Geral I – eleger a Diretoria e o Conselho Fiscal; II – decidir sobre reformas de estatuto; III – decidir sobre a extinção da entidade nos termos do Art. 33º; IV – decidir sobre a conveniência de alienar, transigir, hipotecar ou permutar bens patrimoniais; V – aprovar o Regimento Interno; VI – destituir os administradores; VII – apreciar recursos contra decisão da diretoria; VIII – conceder o título de associados benemérito e honorário por proposta da diretoria; IX – aprovar as contas. Art. 14º - A Assembléia Geral realizar-se-á ordinariamente uma vez por ano para: I – apreciar o relatório anual da Diretoria; II – discutir e homologar as constas e o balanço aprovados pelo Conselho Fiscal; Art. 15º - A assembléia Geral realizar-se-á, extraordinariamente quando convocada: I – pela presidente da Diretoria; II – pelo Conselho Fiscal; III – por requerimento de 1/5 dos associados quites com as obrigações sociais. Art. 16º - A convocação da Assembléia Geral será feita por meio de edital afixado em local público (sede da entidade e/ou igreja), publicado na imprensa local, por circulares ou outros meios convenientes, se ordinária com antecedência mínima de 15 (quinze) dias, e se extraordinária com antecedência mínima de 07 (sete) dias. Parágrafo único - Qualquer Assembléia instalar-se-á em primeira convocação com maioria dos associados e, em segunda convocação com qualquer número, não exigindo a lei quorum especial. Art. 17º - Α Diretoria será constituída por um Presidente, um Vice- Presidente, Primeiro e Segundo Secretários, Primeiro e Segundo Tesoureiros. Parágrafo único - O mandato da Diretoria será de 03 (três) anos, sendo vedada mais de uma reeleição consecutiva. Art. 18º - Compete á Diretoria: I – elaborar e executar o programa anual de atividades; 115 II- elaborar e apresentar à Assembléia Geral, o relatório anual; III – estabelecer o valor da mensalidade para os sócios contribuintes; IV – contratar e demitir funcionários; V – entrosar-se com instituições públicas e privadas para mútua colaboração em atividades de interesse comum; VI – convocar a Assembléia Geral. Art. 19º - A Diretoria reunir-se-á mínimo uma vez por mês. Art. 20º - Compete ao Presidente: I – representar a ASCANOVI, ativa e passivamente, judicial e extrajudicialmente; II – cumprir e fazer cumprir este Estatuto e o Regimento Interno; III – convocar o presidir a Assembléia Geral; IV – convocar e presidir as reuniões da Diretoria; V – assinar, com o primeiro tesoureiro, todos os cheques, ordens de pagamento e títulos que representem obrigações financeiras da entidade. Art. 21º - Compete ao Vice-Presidente: I – substituir o Presidente em suas faltas ou impedimentos; II – assumir o mandato em caso de vacância até seu término; III – prestar, de modo geral a sua colaboração ao Presidente. Art. 22º - Compete ao Primeiro Secretário: I – secretariar as reuniões da Diretoria e Assembléia Geral e redigir as atas; II – publicar todas as notícias das atividades da entidade. Art. 23º - Compete ao Segundo Secretário: I – substituir o Primeiro Secretário em suas faltas ou impedimentos; II – assumir o mandato em caso de vacância, até seu término; III – prestar de modo geral a sua colaboração ao Primeiro Secretário. Art. 24º - Compete ao Primeiro Tesoureiro: I – arrecadar e contabilizar as contribuições dos associados, rendas, auxílios e donativos, mantendo em dia a escrituração; II – pagar as contas autorizadas pelo Presidente; III – apresentar relatório de receitas e despesas, sempre que forem solicitados; IV – apresentar relatório financeiro para ser submetido à assembléia Geral; V – apresentar semestralmente o balancete ao Conselho Fiscal; VI – conservar sob sua guarda e responsabilidade os documentos relativos à Tesouraria; VII – manter todo numerário em estabelecimento de crédito; VIII – assinar, com o Presidente, todos os cheques, ordens de pagamento e títulos que representem obrigações financeiras da entidade. Art. 25º - Compete ao Segundo Tesoureiro: I – substituir o Primeiro Tesoureiro em suas faltas ou impedimentos; II – assumir o mandato em caso de vacância até o seu término; III – prestar de modo geral a sua colaboração ao Primeiro Tesoureiro. Art. 26º - O Conselho Fiscal, será constituído por 03 (Três) , membros e seus respectivos suplentes, eleitos pela Assembléia Geral: $ 1º - O mandato do Conselho Fiscal será coincidente com o mandato da Diretoria; 116 $ 2º - Em caso de vacância o mandato será assumido pelo respectivo suplente até o seu término. Art. 27º - Compete ao Conselho Fiscal: I – examinar os livros de escrituração da entidade; II – examinar o balancete semestral apresentado pelo Tesoureiro, opinando a respeito; III – apresentar relatórios de receitas e despesas sempre que forem solicitados; IV – opinar sobre aquisição e alienação de bens. Parágrafo Único: O conselho reunir-se-á ordinariamente a cada 06 (seis) meses e extraordinariamente, sempre que necessário. Art. 28º - As atividades dos Diretores e Conselheiros, bem como as dos associados, serão inteiramente gratuitas, sendo-lhes vedado o recebimento de qualquer lucro, gratificação, bonificação ou vantagem. Art. 29º - A instituição não distribuirá lucros, resultados, dividendos, bonificações ou parcelas seu patrimônio, sob nenhuma forma ou pretexto. Art. 30º - a receita da ASCANOVI, necessária à sua manutenção será constituída por: I – doações de qualquer natureza recebidas; II – produto líquido de promoções de beneficência; III – rendas de emprego de capital ou patrimônio que possua ou venda a possuir; IV – auxílio de subvenções que venha a receber do poder público; V – auxílio ou recursos provenientes de convênio que venha a receber de entidades privadas. $ 1º - Essas rendas, recursos e eventual resultado operacional serão aplicados integralmente na manutenção e desenvolvimento dos objetivos institucionais, no território Nacional. Capítulo IV DO PATRIMÔNIO Art. 31º - O patrimônio da ASCANOVI, será Constituída de bens móveis, imóveis, veículos, semoventes, ações e apólices de divida pública. Art. 32º - No caso de dissolução da entidade, os bens remanescentes serão destinados a outra instituição congênere, com personalidade jurídica que esteja registrada no Conselho Nacional de Assistência Social – CNAS ou entidade pública. Capítulo V DAS DISPOSIÇÕES GERAIS 117 Art. 33º - A ASCANOVI , será dissolvida por decisão da Assembléia Geral Extraordinária, especialmente convocada para esse fim, quando se tornar impossível de suas atividades. Art. 34º - O presente Estatuto poderá ser reformado em qualquer tempo por decisão de 2/3 (dois terços) dos presentes à Assembléia Geral especialmente convocada para esse fim, não podendo ela deliberar, em primeira convocação, sem a maioria absoluta dos associados, ou com menos de 1/3 (um terço) nas convocações seguintes, e entrará em vigor na data de seu registro em cartório. Art. 35º - revogam-se os estatutos anteriores e todas as alterações e disposições em contrário a partir do registro deste em Cartório. Art. 36º - Os casos omissos serão resolvidos pela Diretoria e referendas pela Assembléia Geral. O presente Estatuto foi aprovado pela Assembléia Geral realizada no dia 10 de Agosto de 2006. Teófilo Otoni / MG, 10 de Agosto de 2006. ____________________________________ João Antonio Evangelista da Costa Presidente _____________________________ Sebastião Cardoso Alves Conselho Fiscal ____________________________________ Olimpio Gonçalves Pereira Vice – Presidente _____________________________ Eduardo dos Santos Conselho Fiscal ____________________________________ Luciana Ernestina dos Jesus 1º Secretario _____________________________ Elizabete Barbosa de Jesus Conselho Fiscal ___________________________________ Luzinete Fernandes da Silva 2º Secretario _____________________________ Crisolina Maria de Jesus Conselho Fiscal-Suplente ____________________________________ Jailton Santos da Silva 1º Tesoureiro _____________________________ Arenilda Ribeiro dos Santos Conselho Fiscal-Suplente ___________________________________ Gilvan Pereira 2º Tesoureiro _____________________________ Ana Oliveira Santos Conselho Fiscal-Suplente 118 ANEXO 5: Termo de Consentimento da ASCANOVI Declaro para os devidos fins que a Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis Nova Vida – ASCANOVI, localizada na cidade de Teófilo Otoni, MG, após análise do projeto de pesquisa de Simone Gomes da Silva, mestranda do Programa de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Centro Universitário de Caratinga (UNEC), sobre “Os desafios à construção de um processo de auto-gestão associativista na reciclagem de lixo frente as estratégias e conveniências do mercado capitalista” e entendendo a contribuição desse trabalho para a ASCANOVI, está de acordo com o estudo, permitindo a pesquisadora livre acesso ao galpão de triagem dos materiais recicláveis, acesso a dados e as informações que se fizerem necessárias, autorização para entrevistar os trabalhadores em horário de trabalho e inclusive, ter o direito de registro fotográfico. O trabalho terá início em Fevereiro de 2007 com término previsto em Outubro de 2007. Atenciosamente, __________________________________________ João Antonio Evangelista da Costa Presidente da ASCANOVI Teófilo Otoni, 13 de Fevereiro de 2007. 119 ANEXO 6: Termo de Consentimento Livre e esclarecido do membro ASCANOVI para conceder entrevista Eu, __________________________________________________ membro da ASCANOVI concordo em participar voluntariamente da pesquisa sobre “Os desafios à construção de um processo de auto-gestão associativista na reciclagem de lixo frente as estratégias e conveniências do mercado capitalista” na qualidade de entrevistado, estando informado e esclarecido de que os dados serão utilizados exclusivamente nesta pesquisa, sendo minha identificação mantida em sigilo. Teófilo Otoni (MG), de _________________________________ Assinatura do Entrevistado _________________________________ Assinatura da Pesquisadora 120 de 2007. Livros Grátis ( http://www.livrosgratis.com.br ) Milhares de Livros para Download: Baixar livros de Administração Baixar livros de Agronomia Baixar livros de Arquitetura Baixar livros de Artes Baixar livros de Astronomia Baixar livros de Biologia Geral Baixar livros de Ciência da Computação Baixar livros de Ciência da Informação Baixar livros de Ciência Política Baixar livros de Ciências da Saúde Baixar livros de Comunicação Baixar livros do Conselho Nacional de Educação - CNE Baixar livros de Defesa civil Baixar livros de Direito Baixar livros de Direitos humanos Baixar livros de Economia Baixar livros de Economia Doméstica Baixar livros de Educação Baixar livros de Educação - Trânsito Baixar livros de Educação Física Baixar livros de Engenharia Aeroespacial Baixar livros de Farmácia Baixar livros de Filosofia Baixar livros de Física Baixar livros de Geociências Baixar livros de Geografia Baixar livros de História Baixar livros de Línguas Baixar livros de Literatura Baixar livros de Literatura de Cordel Baixar livros de Literatura Infantil Baixar livros de Matemática Baixar livros de Medicina Baixar livros de Medicina Veterinária Baixar livros de Meio Ambiente Baixar livros de Meteorologia Baixar Monografias e TCC Baixar livros Multidisciplinar Baixar livros de Música Baixar livros de Psicologia Baixar livros de Química Baixar livros de Saúde Coletiva Baixar livros de Serviço Social Baixar livros de Sociologia Baixar livros de Teologia Baixar livros de Trabalho Baixar livros de Turismo