Formação e Políticas Públicas na Educação: Profissão e Condição Docente Apoio: Conselho Editorial Av Carlos Salles Block, 658 Ed. Altos do Anhangabaú, 2º Andar, Sala 21 Anhangabaú - Jundiaí-SP - 13208-100 11 4521-6315 | 2449-0740 [email protected] Profa. Dra. Andrea Domingues Prof. Dr. Antonio Cesar Galhardi Profa. Dra. Benedita Cássia Sant’anna Prof. Dr. Carlos Bauer Profa. Dra. Cristianne Famer Rocha Prof. Dr. Fábio Régio Bento Prof. Dr. José Ricardo Caetano Costa Prof. Dr. Luiz Fernando Gomes Profa. Dra. Milena Fernandes Oliveira Prof. Dr. Ricardo André Ferreira Martins Prof. Dr. Romualdo Dias Profa. Dra. Thelma Lessa Prof. Dr. Victor Hugo Veppo Burgardt ©2014 José Rubens Lima Jardilino; Daniel Abud Seabra Matos; Marcelo Donizete da Silva (Orgs.) Direitos desta edição adquiridos pela Paco Editorial. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação, etc., sem a permissão da editora e/ou autor. J373 Jardilino, José Rubens Lima; Matos, Daniel Abud Seabra; Silva, Marcelo Donizete da. Formação e Políticas Públicas na Educação: Profissão e Condição Docente/ José Rubens Lima Jardilino; Daniel Abud Seabra Matos; Marcelo Donizete da Silva (Orgs.). Jundiaí, Paco Editorial: 2014. 296 p. Inclui bibliografia. ISBN: 978-85-8148-755-7 1. Educação 2. Formação 3. Atuação 4. Política. I. Jardilino, José Rubens Lima ll. Matos, Daniel Abud Seabra lll. Silva, Marcelo Donizete da. CDD: 370 Índices para catálogo sistemático: Educação – Pedagogia Formação do Educador IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL Foi feito Depósito Legal 370 370.71 Sumário Apresentação.................................................................................................7 Prólogo...........................................................................................................13 Primeira Parte Políticas de Formação de Professores.................................................17 Capítulo 1 Políticas de Formação de Professores na América Latina: Intenções, Tensões e Realidade na Formação Emergencial de Professores no Brasil................................19 Iria Brzezinski Capítulo 2 Las Políticas Públicas en la Formación del Profesorado en Venezuela: (1999-2001), una Mirada Crítica a las Políticas de Investigación..........................41 José Pascual Mora García Capítulo 3 Formación Docente y Movimiento Pedagógico en Colombia....................................67 Álvaro Acevedo Tarazona Capítulo 4 Os Desafios das Licenciaturas no Brasil frente à Hegemonia da Educação Mercadológica e Empresarial............................................................................................89 Júlio Emílio Diniz-Pereira Capítulo 5 Apontamentos de Tendências da Pesquisa em Formação de Professores..........101 Joana Paulin Romanowski Capítulo 6 Fundamentos Históricos da Escola Moderna e sua Relação na Formação dos Professores...........................................................................................................................127 Marcelo Donizete da Silva Segunda Parte Políticas Educacionais............................................................................145 Capítulo 7 Interferências Privadas na Escola Básica: Sequestro do Público e Degradação do Pedagógico......................................................................................................................147 Vitor Henrique Paro Capítulo 8 Políticas para a Educação Profissional de Nível Médio: Perspectiva Histórica...159 Valter Luiz de Almeida Vitor; José Rubens Lima Jardilino Capítulo 9 O Professor e a Escola no Processo de Implementação de Políticas Públicas em Educação...............................................................................................................................181 Breynner Ricardo de Oliveira; Luciana Crivelari Dulci Terceira Parte Avaliação e Condição Docente............................................................209 Capítulo 10 Concepções de Avaliação de Professores Brasileiros: Representações múltiplas sobre o Ato de Avaliar.........................................................................................................211 Daniel Abud Seabra Matos; Luciano Campos da Silva; Karine Votikoske Roncete Capítulo 11 Avaliação de Professores: Perspectivas para o Contexto Educacional................233 Vandré Gomes da Silva Capítulo 12 Legislación e Imaginarios Sociales en el Escalafón y los Salarios de los Educadores de Primaria en Colombia 1952-1994..............................................................................253 Diana Elvira Soto Arango Autores........................................................................................................289 Apresentação O Simpósio de Formação e Profissão Docente (Simpoed) é um evento científico, de caráter nacional, realizado desde 2003 por iniciativa do Departamento de Educação da Universidade Federal de Ouro Preto (Deedu/Ufop). Atualmente, o Simpoed é organizado e realizado pelo Deedu e pelo Programa de Pós-Graduação-Mestrado em Educação (PPGE/Ufop). O evento articula ensino, pesquisa e extensão, reunindo profissionais da educação básica, ensino superior e sociedade civil, bem como estudantes de cursos de graduação e pós-graduação. O Simpoed tem como objetivo socializar e discutir trabalhos produzidos no campo educacional, com especial destaque para as temáticas de formação de professores, profissionalização e trabalho docente. Em 2013, o Simpoed completou dez anos, realizando sua edição comemorativa que teve como tema geral Formação de professores e Políticas públicas. Além da temática geral, oito eixos específicos orientaram toda a dinâmica de construção do evento: Identidade, profissão e condição docente; Formação de professores e as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs); Políticas de formação docente inicial e continuada; Avaliação educacional; Gestão da educação; Aprendizagem e prática docente; Educação quilombola, do campo, indígena, de Jovens e Adultos, Profissional; Educação inclusiva: pessoas com deficiência, em situação de vulnerabilidade, gênero e sexualidade. Na edição comemorativa, realizada na cidade de Ouro Preto (MG), vivenciamos duas novas experiências, pois compartilhamos parte da programação do evento com o VII Seminario Taller Internacional Vendimia, organizado pelo Centro de Investigación Vendimia e vinculado à Red del Doctorado Ciencias de la Educación de Rudecolombia – e com o IV Encontro do Núcleo de Educação Inclusiva (NEI/Ufop). A parceria de trabalho com o Centro Internacional de Investigación VENDIMIA, que agrega pesquisadores de língua espanhola e portuguesa em torno do tema Educação/docência, favoreceu uma troca de saberes e de produções brasileiras e latino-americanas, expandindo laços de trabalho e possibilitando a articulação de um intercâmbio acadêmico entre a Ufop e a Rudecolombia – uma rede colombiana que agrega dez 7 José Rubens Lima Jardilino; Daniel Abud Seabra Matos; Marcelo Donizete da Silva (Orgs.) universidades nas áreas da educação, engenharias, medicina, dentre outras. Integrantes do Centro Internacional de Investigación Vendimia participaram da programação do IX Simpoed e tiveram também seus momentos de discussão específica, mas aberta a todo o público interessado. A inserção do NEI/Ufop na programação do IX Simpoed possibilitou o aprofundamento de discussões sobre a inserção dos estudantes com deficiência no ensino superior, bem como a circulação de tecnologias voltadas para esse propósito, permitindo que os participantes tivessem um contato próximo com recursos tecnológicos diversificados da área da Educação Especial. É importante destacar, ainda, a presença ativa de professores e estudantes com deficiência no evento. Os trabalhos apresentados no IX Simpoed, no formato de comunicação oral e pôster, foram registrados nos Anais do evento, em CD-ROM. Entretanto, um conjunto relevante de discussões não havia entrado nesse registro e merecia ser socializado junto à comunidade acadêmica. Diante disso, a comissão de organização estruturou duas publicações destinadas aos oito eixos temáticos abordados no evento, envolvendo profissionais que participaram de mesas e oficinas, integrantes do Comitê Científico, professores e discentes da Ufop, em especial do Mestrado em Educação. As duas publicações que elaboramos – Formação e políticas públicas na educação: profissão e condição docente e Formação e políticas públicas na educação: tecnologias, aprendizagem, diversidade e inclusão – materializam a riqueza temática que experimentamos durante a realização do IX Simpoed e transmitem o clima propício a interlocuções e troca de ideias que marcaram de forma singular toda a programação dessa edição comemorativa. Este livro, intitulado Formação e políticas públicas na educação: profissão e condição docente, tem como objetivo ampliar o debate sobre políticas públicas dos vários setores da educação latino-americana. Os três grandes eixos que o livro aborda (Políticas de Formação de Professores, Políticas educacionais, Avaliação e Condição Docente) são alvo de grandes debates na Educação latino-americana. Os autores que aqui se encontram vêm, ao longo de suas trajetórias acadêmicas, pesquisando sobre esses temas. As ações e programas de formação de professores, cada vez mais incrementadas pelas políticas dos governos de plantão, não possibilitam vislumbrar políticas de Estado a longo prazo 8 Formação e Políticas Públicas na Educação: Profissão e Condição Docente que possam minimizar esse grande problema do século XXI. Embora, sobre o assunto, não possamos deixar de apontar que são muitas as contribuições de pesquisas latino-americanas que alertam para o problema. A condição e o trabalho docente, em especial o tema da avaliação, vem carregando um forte aparato político/legal e pressionando o coletivo de professores à adoção de políticas de ajuste, das quais o Brasil é signatário e seguidor da lógica do capital mundializado. Neste quesito, a educação joga um grande papel, por isso o tema da condição e do trabalho docente é um dos mais importantes para o debate atual. Assim, este livro é composto de doze capítulos e divido em três grandes blocos. Na primeira parte, os autores trazem a discussão sobre as políticas de formação de professores no Brasil, Colômbia e Venezuela. Na segunda parte, os autores analisam Políticas Educacionais de maneira mais ampla, olhando a escola e os seus sujeitos. E por fim, na terceira parte, os autores abordam os professores como sujeitos privilegiados signatários das políticas de avaliação sobre os quais jogam grande força coercitiva, discutindo inclusive o trabalho docente e as concepções de avaliação dos professores. A primeira parte deste livro traz as reflexões sobre as políticas de formação de professores no Brasil e América Latina. O livro inicia-se com o texto da professora Iria Brzezinski, no qual a autora faz um panorama da formação de professores na América Latina e enfoca com especial atenção a experiência brasileira de formação realizada em cursos emergenciais ministrados no Brasil, assim como a legislação que instituiu a Política Nacional de Formação de Profissionais do Magistério da Educação Básica e disciplinou as competências da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), atribuindo-lhe a responsabilidade também pelas políticas de formação dos professores da educação básica. No segundo capítulo, o professor Mora-García apresenta as políticas de formação de professores na Venezuela, com especial atenção para o nível superior e sua expansão na reforma educacional, demonstrando que essas políticas não têm superado as desigualdades no setor observado ao longo da história educacional venezuelana. O terceiro capítulo, assinado pelo professor Álvaro Tarazona, partindo de uma perspectiva histórica e mais otimista, olha a formação de professores na Colômbia, tendo como pano de fundo o movimento 9 José Rubens Lima Jardilino; Daniel Abud Seabra Matos; Marcelo Donizete da Silva (Orgs.) pedagógico do país, iniciado na década de 1980, para o qual aponta renovação nos saberes e articulação das demandas sociais e materiais que valorizam e possibilitam saídas para o setor da formação de professores da educação básica. O professor Julio Emilio Diniz-Pereria, no quarto capítulo, discute a formação de professores fazendo uma reflexão a partir de suas pesquisas sobre as Licenciaturas, berço da formação inicial de professores no Brasil. Discute os desafios desta formação para a educação básica num contexto de hegemonia da chamada educação superior privada, a qual é responsável pela formação massiva desses profissionais da educação. Em sua análise apurada, demonstra como o país tem permitido um viés mercadológico e empresarial na formação de nossos professores. No capítulo 5, a professora Romanowski aborda as tendências das pesquisas sobre Formação de Professores no Brasil, tendo como base os estudos que procuram apresentar os contornos para o estabelecimento de um campo científico de pesquisa na formação de professores no Brasil. O capítulo 6, de autoria do professor Marcelo Donizete, apresenta-se uma reflexão crítica e oportuna sobre as teorias educacionais contemporâneas. Parte da tese de que as teorias educacionais se apresentam como fomentadoras de uma “nova” tradição para a educação do nosso tempo, e que essa nova tradição vem sendo fortemente revestida com uma ideia da transformação paradigmática da educação e dos problemas educacionais que afligem a escola brasileira. A segunda parte compõe-se de reflexões sobre as políticas educacionais de maneira mais ampla. Inicia-se no capítulo 7 com a reflexão do professor Vitor Paro, denominado “Interferências privadas na Escola Básica: sequestro do público e degradação do pedagógico”. O autor, a partir da categoria de público como universalidade de direitos e deveres de cidadãos no estado democrático, faz uma apurada reflexão crítica da realidade brasileira sobre a interferência do privado na escola básica, especialmente por meio dos pacotes e “sistemas” de ensino comercializados pela iniciativa privada, que, ao atender a grupos particulares com interesses marcadamente mercantis, sonega dos educadores escolares o direito (e o dever) de planejarem, organizarem e executarem a aprendizagem em estreita colaboração com seus colegas e educandos. Denuncia essa privatização do pedagógico que, ao invadir o espaço público, não só 10 Formação e Políticas Públicas na Educação: Profissão e Condição Docente reduz a universalidade da cidadania, mas também solapa o terreno em que se constrói o educativo. O capítulo 8 traz a reflexão dos professores Breynner Oliveira e Luciana Dulci que analisam o papel do professor como agente público de base, dentro do processo de implementação de políticas sociais que elegem a escola como um de seus elos de disponibilização. Com base em suas referências, partem da tese de que o docente é um típico agente público de base e que a escola, além de ser uma instância burocrático-organizacional, é também uma arena política. Finalizando essa sessão, os professores Valter Vitor e José R. Jardilino apresentam uma reflexão sobre as políticas educacionais para a Educação Profissional de Nível Médio (EPNM) oriunda da Reforma dos anos 1990. A reflexão tem por base um conjunto de textos analíticos das políticas públicas educacionais, os atos governamentais e seus efeitos para a educação profissional, o contexto social e econômico no qual foram gerados, os agentes que dela participaram e as correlações de forças entre estes, os projetos em disputa e a implantação dessas políticas. A terceira parte que finaliza o livro discute a questão da avaliação e a condição docente. No capítulo 10, Daniel Abud Seabra Matos, Luciano Campos da Silva e Karine Votikoske Roncete abordam as concepções de avaliação dos professores por meio de uma revisão da literatura brasileira. Os autores apresentam e discutem concepções múltiplas de avaliação dos professores, enfatizando que as concepções dos docentes influenciam o modo como eles ensinam e o que os alunos aprendem. No capítulo 11, Vandré Gomes da Silva discute um tema complexo e polêmico no cenário nacional e internacional: a avaliação de professores. O autor analisa principalmente a utilização de resultados de desempenho discente em avaliações de larga escola como critério para a avaliação de professores. Nesse sentido, são discutidas questões como as políticas de responsabilização e a bonificação de professores. No capítulo 12, Diana Elvira Soto Arango, do Conselho Nacional de Educação da Colômbia, traz para uma abordagem histórica o ensino primário na Colômbia no período de 1952-1994. Nesse sentido, a autora discute os temas das condições docentes daquele país, como: legislação relativa à docência, reformas orientadas para o desempenho do profes11 José Rubens Lima Jardilino; Daniel Abud Seabra Matos; Marcelo Donizete da Silva (Orgs.) sor, salários dos professores, condições de ingresso e permanência na carreira docente, formação e capacitação dos professores, atuação dos sindicatos, demonstrando similitudes com a realidade das condições docentes nos países latino-americanos em tempo de globalização das Reformas do Estado que requisitaram as reformas na educação no contexto latino-americano. Os organizadores 12 Prólogo O pleno desenvolvimento da pessoa como meta máxima da educação, segundo magistral definição que a toma a Constituição Brasileira como direito do cidadão e dever do Estado, não poderia se realizar plenamente sem o concomitante desenvolvimento efetivo da capacidade cognitiva, marca registrada do homem. O conhecimento é a condensação de uma qualidade humana que não se materializa por si só, já que necessita de condições específicas para o desenvolvimento de suas capacidades. E o foco principal dessas condições mediadoras é o aluno-cidadão. Como diz a atual lei de diretrizes e bases: “a educação básica tem por finalidades desenvolver o educando, assegurando-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores” (art. 22). Não é sem motivo que a educação, em nossa Lei Maior, aparece como o primeiro dos direitos sociais (art. 6º da Constituição), sendo também direito político e direito civil. Ela é tão importante que se vê cercada de proteção jurídica, como a do direito público subjetivo. Ora, essa direção em torno do aluno se desenvolve adequada e plenamente pela mediação do docente e de uma instituição apropriada para tal, a escola. E esta só é como tal porque há aluno e dele decorre a existência necessária do docente. É em torno deste direito e deste dever que se dá o nascimento e a constituição da escola pública. Ela nasce sob o pressuposto de garantia do direito à educação inclusive pelo saber organizado. É desse direito de aprender, componente da cidadania mais ampla, que advém o dever do Estado de propiciar as condições para que, pelo exercício mediador do magistério na escola, se cumpra o dever de ensinar. O momento histórico de afirmação do sujeito moderno, como tal traduzido pelos ideais libertários da Revolução Francesa, rompeu com a ideia de uma reserva do conhecimento para alguns privilegiados. A escola pública se institucionalizou como direito de todos, encarnada no direito de apreender a si e no direito de aprender. O acesso ao conhecimento é um dos móveis para que deixe de existir o súdito e, em seu lugar, se erija o cidadão, livre e igual perante os outros. 13 José Rubens Lima Jardilino; Daniel Abud Seabra Matos; Marcelo Donizete da Silva (Orgs.) A modernidade trouxe consigo o aparecimento de uma sociedade letrada e, até para ler e assinar documentos ou cartazes, o indivíduo deve aprender as primeiras letras e ser capaz de apreender a si como sujeito de conhecimentos. Não dominar o aprender de conhecimentos básicos, mediatizado pela instituição escolar, ele correria o risco de queda na dominação da tirania e da ignorância. Para que tal não ocorresse, a escola pública comum foi se tornando cada vez mais universalizada, para homens e mulheres. A instrução retirando a trava da ignorância, algo fundamental para o gozo das liberdades, permite o saber necessário para a autonomização do indivíduo e para o exercício das prerrogativas da cidadania. Ao mesmo tempo, posto todo sujeito como titular do direito ao saber, a lei não ignora a importância de que o sujeito titular do dever de ensinar, o docente, tenha sua valorização afirmada por meio de uma formação à altura, remuneração condigna e um plano de carreira estimulante. A sala de aula e o ambiente escolar, espaços privilegiados do fazer docente, são os lugares apropriados do direito de aprender do discente. Mas o direito de aprender, componente específico do direito à educação, se liga intrinsecamente à função pública do Estado na medida em que só ele pode estender universalmente a escola para todos e, assim, atender o conjunto dos cidadãos com imparcialidade de modo a fazer cumprir os grandes objetivos da democracia e da justiça. Daí as obrigações do Estado quanto ao financiamento, qualificação desse direito e oferta de uma formação de qualidade. Só ele pode propiciar condições que, na oferta do ensino, vão equalizando novas oportunidades para grupos menos aquinhoados de capital cultural, com insumos diferenciados. A liberdade de ensino, terminologia para se dizer da autorização de funcionamento de escolas privadas, nasceu menos do direito de aprender, algo relativo à abertura das escolas aos alunos e mais do direito de ensinar. Ambas trabalham com docentes e discentes. A diferença se localiza no foco inicial: a emersão da escola pública, escola comum para todos, é o aluno-cidadão de cujo direito decorre o dever do Estado em oferecer educação de qualidade da qual o docente é pessoa-chave. Ora, para que esse direito seja respeitado em sua plenitude, adentra em nossa Constituição o princípio da gestão democrática como forma dialogal e participativa que vai desde o gestor responsável pelo sistema de ensino até o gestor do estabelecimento, em diálogo também com a 14 Formação e Políticas Públicas na Educação: Profissão e Condição Docente comunidade educacional. Essa, por sua vez, deve ter as condições e as responsabilidades de se levar a termo um projeto pedagógico de qualidade e do qual nasçam “cidadãos ativos”, participantes da sociedade. Desse conjunto respeitável, por vezes, de prescrições legais, é que devem nascer as políticas educacionais, aí incluídas as de formação docente a fim de que, concomitantemente, se produzam avaliações mais amplas do que apenas aquelas calcadas em testes de larga escala. E é destas últimas que o exercício do docente vem sendo posto em questão. A figura do docente é uma das mais analisadas, seja pela produção científica, seja pela mídia, seja por iniciativas oficiais e, enfim, pelas associações que congregam boa parte da categoria. Dissertações e teses saídas dos programas de pós-graduação e de agências de investigação expressam umas tantas linhas de pesquisa dedicadas ao assunto. A cada resultado de avaliações de larga escala, em geral insatisfatório, os jornais, o rádio e a televisão se mobilizam por reportagens sobre o assunto indagando causas e qual seria o peso do docente no fenômeno. As associações, por sua vez, não se cansam de (re)trazer o mais que sabido: salários desestimulantes, intensificação do trabalho, doenças profissionais e luta por uma carreira condigna. As iniciativas oficiais buscam no aparato legislativo ou normativo limitar a degradação da carreira ou a fuga da mesma. As saídas propostas nem sempre atingem as causas. Tais iniciativas abrangem não só o Brasil, como também vários países da América Latina. Contudo, outros fenômenos, antes inexistentes, começam a se sobrepor a esta situação de si já preocupante. Relatos de violência perpetrados contra docentes, alguns de natureza criminosa, já vêm ganhando espaço nos noticiários. A figura do docente, então, é vista por meio de uma subjetividade afrontada e, não menos, impotente ante um quadro inusitado. A escola, lócus institucional do docente que com o discente dá substância a ela em suas relações, é o espaço que cria condições para o exercício da cidadania. Diferentemente de pólemos (razão da força), a escola é o âmbito do lógos (força da razão). Neste sentido, ela é a habitação da não violência em que se transmitem e se aprendem os conhecimentos mais básicos para uma atuação consciente na sociedade. Mais do que isto, a ela se postula a formalização de valores fundamentais da vida cidadã: a tolerância, o respeito ao diverso, enfim, condições do exercício da democracia. Afinal, docentes e discentes são titulares de lógos e, por isso, a interação que lhes é inerente é dia-lógos. Um fala com o outro por meio de conhecimentos e valores que trazem consigo. 15