III SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENLAÇANDO SEXUALIDADES
15 a 17 de Maio de 2013
Universidade do Estado da Bahia – Campus I
Salvador - BA
RELAÇÃO ENTRE OS GÊNEROS E O NÍVEL DE INFORMAÇÃO DE ESTUDANTES
UNIVERSITÁRIOS EM RELAÇÃO AO HIV/AIDS
Maria Thereza Ávila Dantas Coelho1
Vanessa Prado Santos2
Márcio Pereira Pontes3
Resumo
O controle do HIV/AIDS ainda é um desafio na contemporaneidade. O objetivo desta pesquisa é
investigar o nível de informação sobre o HIV/AIDS de estudantes universitários e se existe
diferença entre os sexos. 182 estudantes da UFBA responderam a um questionário do Ministério da
Saúde; 123 eram do gênero feminino. 93% dos alunos e 98% das alunas responderam que a relação
sexual sem preservativo é uma forma de transmissão do HIV. O beijo na boca não leva à sua
transmissão para 82% das mulheres e 61% dos homens. A relação sexual com alguém de boa
aparência não foi considerada uma forma de proteção por 92% dos homens e 96% das mulheres.
60% das alunas e 66% dos alunos responderam que o leite materno de uma soropositiva transmite o
HIV. Entre universitários ainda há desinformação sobre o HIV/AIDS.
Palavras-chave: AIDS, HIV, sexualidades, Universidade.
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Introdução
A descoberta dos primeiros casos de HIV/AIDS diagnosticados na década de 80 trouxe uma
série de preconceitos, pois ainda não havia um conhecimento aprofundado sobre a síndrome
(BRITO et al., 2001). Entretanto, inicialmente acreditou-se que apenas um pequeno grupo da
sociedade era atingido por ela, o grupo dos “5 Hs”.
Isso ocorreu porque, no princípio,
homossexuais, hemofílicos, haitianos, heroinômanos (usuários de heroína injetável) e hookers
(profissionais do sexo) foram os maiores infectados. Denominada pela mídia como “a peste gay”, o
surgimento do HIV/AIDS causou furor na sociedade durante os anos 80 e 90 (BRITO et al.,
2001; FACCHINI, 2003). Segundo Soares (2006), toda a percepção que a sociedade possuía
sobre o sexo foi transformada depois do surgimento do vírus da AIDS. Nesse aspecto, com o
advento da AIDS, o panorama em relação à sexualidade, de forma geral, foi bastante alterado e
essa alteração afetou essencialmente a homossexualidade em virtude da relação que se
estabeleceu entre essa síndrome e os chamados “grupos de risco”, entre os quais o grupo dos
homossexuais era considerado central. Ainda na década de 80, o Brasil identificou em seu território
a primeira notificação mundial de uma criança infectada pelo HIV, além dos primeiros casos em
mulheres, profissionais da área da saúde e em heterossexuais (FIOCRUZ, 2007).
O aumento do número de casos e as pesquisas contínuas mostraram que a doença não
atingia apenas um grupo de risco, uma vez que a disseminação do vírus poderia ser pela via
sexual, pela sanguínea, pelo compartilhamento de seringas e agulhas e através de transfusões
de sangue e hemoderivados (SANTOS et al., 2002). Ainda há a possibilidade de transmissão
vertical do vírus através da mulher grávida infectada para seu filho, durante a gestação, parto
ou aleitamento (MARINGÁ, 2003). Com o passar dos anos, a AIDS foi chamada pela ciência
como “doença democrática”, pois o vírus pode atingir todas as parcelas da população (BRITO et
al., 2001). Apesar disso, sabe-se que ainda existe preconceito em relação a essa doença. Observase também que a associação entre o vírus da AIDS e o comportamento de risco envolve aspectos
de certa complexidade, pois nem sempre as informações veiculadas nos principais meios de
comunicação sobre a prevenção do HIV/AIDS tem por consequência um comportamento seguro
e preventivo. No ano de 2008, os dados acerca da contaminação pelo vírus HIV mostraram que
tem havido uma heterossexualização, feminilização e juvenização da doença (ANDREOLLI,
2008).
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De acordo com o boletim epidemiológico de 2011, o Brasil teve um total de 34.217 casos
de AIDS notificados nesse ano. Desses, 6.702 (19,6%) foram na Região Nordeste, sendo que
1.682 (25,1%) encontravam-se na Bahia. Atualmente, entre os grupos atualmente de maior
vulnerabilidade parecem estar pessoas de renda mais baixa e de menor escolaridade
(RODRIGUES-JÚNIOR et al., 2004). Sendo assim, esta pesquisa buscou analisar o conhecimento
de estudantes universitários do Bacharelado Interdisciplinar em Saúde da Universidade Federal da
Bahia (UFBA) a respeito do HIV/AIDS, suas formas de transmissão e as possíveis formas de
proteção diante do risco de contágio.
Metodologia
Foi realizado um estudo entre estudantes universitários do Bacharelado Interdisciplinar em
Saúde da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Na pesquisa, foi aplicado um questionário
desenvolvido pelo Ministério de Saúde, o Questionário para avaliação de programas de prevenção
das DST/AIDS (BRASIL, 2007), contendo 50 questões relacionadas a comportamento de risco,
opinião, prevenção, métodos de contágio e realização de testes diagnósticos da infecção pelo vírus.
Foram coletados dados a respeito da idade, gênero, orientação sexual e estado civil dos estudantes.
Antes de responder ao questionário, os alunos assinaram um termo de consentimento livre e
esclarecido, concordando em participar da pesquisa. O questionário era anônimo, não permitindo a
identificação do estudante, e continha perguntas diretas com respostas do tipo sim e não.
As informações demográficas foram apresentadas de forma descritiva, enquanto as
diferenças entre os gêneros nas respostas foram analisadas de forma comparativa. Analisamos nesta
fase da pesquisa os blocos de perguntas referentes às formas de contágio e formas de proteção
relacionadas ao HIV/AIDS, para saber o nível de informação dos estudantes. Os dados foram
tabelados em planilha do Microsoft Excel ®. Foram calculadas as porcentagem de respostas
afirmativas e negativas (sim e não) do grupo em relação às cinqüenta perguntas do questionário.
Realizamos a análise estatística, avaliando as diferenças entre as respostas de alunos e alunas,
através do programa EPI-INFO ® 2005. Foi considerado significante um valor de p menor que
0,05.
Resultados
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Caracterizando o grupo pesquisado, dentre os 182 estudantes entrevistados, 123 (68%) eram
do gênero feminino. A média de idade foi de 24 anos. Quanto à orientação sexual, 92% se
declararam heterossexuais, 4% bissexuais e 4% homossexuais. Cinquenta e três por cento da
amostra cursou o ensino médio em instituição pública. Nove por cento dos estudantes se declararam
casados e 91% solteiros. Setenta e seis por cento (76%) dos alunos informaram já ter tido relação
sexual pelo menos uma vez. A idade média da primeira relação sexual foi de 16,9 anos.
O primeiro grupo de perguntas foi sobre as formas de contágio do vírus HIV. Os estudantes
revelaram um alto grau de informação sobre o vírus, sendo que algumas respostas tiveram maior
índice de acertos, como as ligadas à transmissão sexual, enquanto outras como a transmissão pelo
leite materno obtiveram um menor número de acertos. As diferenças entre homens e mulheres
obtiveram significância estatística em relação à resposta sobre a transmissão através do beijo na
boca, em que os homens apresentaram um maior número de respostas incorretas. Também houve
significativamente mais acertos das mulheres em relação ao contágio através de seringas e agulhas.
Os detalhes se encontram na tabela 1.
Tabela 1: Percentual de resposta dos 182 estudantes a respeito das formas de contágio do
HIV/AIDS.
Sim, leva à transmissão do vírus
Forma de contágio do vírus
HIV/AIDS
Valor de p
Homens
Mulheres
Sexo sem preservativo
93%
98%
0,15
Talheres, pratos e copos
7%
5%
0,41
Usar o mesmo banheiro
8%
9%
0,46
Beijo na boca
39%
18%
0,001
Gravidez ou parto
95%
94%
0,58
Leite materno
66%
60%
0,24
Picadas de inseto
16%
17%
0,41
Sangue contaminado
98%
98%
0,6
Seringas e agulhas
90%
98%
0,03
3%
3%
0,6
Brincar
com
crianças
que
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tenham o vírus
O segundo grupo de perguntas analisado foi sobre as formas de proteção contra o vírus do
HIV/AIDS. O grau de conhecimento também foi menor quando a pergunta se referiu à transmissão
vertical, relacionada à gestação e à amamentação (tabela 2).
Tabela 2: Respostas dos 182 estudantes sobre se um determinado comportamento protege do
contágio do vírus HIV/AIDS
Este comportamento constitui-se
Sim, protege contra o HIV/AIDS
uma forma de proteção ao vírus
Valor de p
Homens
Mulheres
8%
4%
0,18
Sexo com preservativo
92%
97%
0,12
Medicação anticoncepcional
8%
4%
0,18
Tratar a gestante com HIV
76%
74%
0,37
95%
93%
0,42
71%
61%
0,09
HIV/AIDS
Sexo com alguém de aparência
saudável
Não usar agulhas/seringas
reutilizadas
Não permitir que gestantes com
HIV amamentem
Avaliamos também algumas respostas dos estudantes em relação ao comportamento dos
estudantes em relação ao uso de preservativo e à realização de testes diagnósticos para o
HIV/AIDS. A respeito da atividade sexual a pesquisa encontrou que 76% dos estudantes já haviam
tido relação sexual e que o início da atividade sexual foi em média com 16,9 anos. Sobre o uso de
preservativo, 60% dos estudantes revelaram ter feito uso na primeira relação. A ampla maioria dos
estudantes (99%) respondeu que a mulher tem o direito de solicitar ao parceiro que use o
preservativo (camisinha). Quando perguntados se já haviam feito, alguma vez, a sorologia para o
HIV, apenas 53% dos alunos e 37% das alunas revelaram que sim (p=0,02), mostrando que um
número significativamente maior de jovens do gênero masculino já realizou o teste sorológico.
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Oitenta e quatro por cento do grupo total de estudantes responderam que pretendem fazer tal exame
no futuro.
Discussão
Percebe-se que, apesar da maioria dos participantes conhecerem a síndrome e suas formas de
prevenção, ainda existe algum grau de desinformação, sendo que o uso de preservativo não é um
hábito para a proteção contra o HIV/AIDS. O Ministério da Saúde debate que um dos fatores que
influenciam a ampliação do número de casos da doença é a baixa escolaridade, porém, mesmo entre
estudantes universitários, questões concernentes à prevenção merecem ser estudadas. As
concepções e as práticas de saúde de uma população recebem influências sócio-culturais muito
complexas para serem analisadas apenas no âmbito da informação. O conhecimento sobre a doença
provavelmente não é o único fator que influencia as práticas dos estudantes.
Entretanto, discutindo a respeito da desinformação acerca do HIV/AIDS entre estudantes
universitários e a questão de gênero, encontrou-se poucas diferenças. No que concerne às formas de
contágio do HIV, um maior número de homens acredita que o vírus pode ser transmitido pelo beijo
na boca, enquanto as mulheres se encontram melhor informadas a esse respeito. Ainda existe a
crença da possibilidade de transmissão do HIV através de picadas de pernilongos e outros
mosquitos. O índice de acertos de ambos os grupos quanto à transmissão vertical foi em torno de
60%, o que sugere que este tipo de informação não vem atingindo este grupo. Sendo assim, nem
todos os jovens universitários têm a informação sobre as formas de contaminação do HIV, que,
segundo o Ministério da Saúde, podem ser: sexo sem camisinha, gestação, parto ou amamentação
da parte da mãe infectada (transmissão vertical), uso da mesma seringa ou agulha contaminada por
mais de uma pessoa, transfusão de sangue contaminado com o HIV e uso de instrumentos que
furam ou cortam, não esterilizados.
Relacionando as formas de prevenção, poucos entrevistados de ambos os gêneros
responderam que se relacionar sexualmente com uma pessoa aparentemente sadia é um modo de
evitar a contração pelo vírus, informação que vem sendo constantemente veiculada através dos
meios de comunicação de massa através do slogan “quem vê cara não vê AIDS”. Em relação à
transmissão vertical, cerca de dois terços dos estudantes responderam corretamente sobre o papel do
tratamento da gestante na prevenção do HIV/AIDS. Já sobre a necessidade das mães soropositivas
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não amamentarem seus filhos, o índice de acertos foi menor entre ambos os gêneros e ainda mais
baixo entre as mulheres. Sendo assim, o aumento nos índices da contaminação vertical (BRASIL,
2011) pode ter uma de suas origens na falta de informação sobre esse tipo de transmissão entre as
mulheres.
No que diz respeito à realização do teste sorológico para o diagnóstico do HIV/AIDS,
apenas 53% dos homens e 37% das mulheres revelaram já tê-lo feito, enquanto mais de 80% dos
estudantes de ambos os gêneros afirmaram que pretendem fazer tal exame no futuro. O teste
sorológico é citado como um dos fatores principais para que haja uma redução da contaminação de
HIV/AIDS no mundo (UNAIDS, 2011), mas múltiplos fatores interferem na vulnerabilidade do
jovem brasileiro ao HIV/AIDS, devendo os determinantes sócio-econômicos ser considerados. O
fato de um maior número de jovens do gênero masculino já ter realizado o teste pode ter várias
explicações, dentre elas o fato dos homens terem um maior número de parceiras e um
comportamento sexual culturalmente mais “liberal” na nossa sociedade. Sobre o uso do
preservativo, nota-se que pouco mais da metade dos jovens da nossa amostra o utilizaram na
primeira relação sexual, porcentagem semelhante à obtida em pesquisa de outros autores brasileiros
com mais de três mil jovens de três capitais brasileiras (TEIXEIRA, 2006). A nossa pesquisa contou
com um número pequeno de questionários, mas pode colaborar para uma melhor compreensão dos
indicadores epidemiológicos que envolvem o HIV/AIDS no Brasil, fomentar o debate sobre a
informação para saúde nas universidades brasileiras e discutir as possíveis diferenças entre os
gêneros e as questões de saúde.
Considerações finais
Os dados obtidos por esta pesquisa mostram que ainda existe algum grau de desinformação
dos jovens brasileiros de ambos os gêneros a respeito da transmissão e da prevenção do HIV/AIDS.
Mesmo tendo acesso a informações acerca do HIV/AIDS, uma parcela dos estudantes deixa de
tomar precauções necessárias para evitar a contaminação pelo vírus do HIV/AIDS. Nesse aspecto,
percebe-se que a prevenção passa por questões socioculturais complexas, necessitando maiores
estudos a respeito da motivação e dos hábitos de prevenção e promoção da saúde entre os jovens
brasileiros. No entanto, a difusão do conhecimento sobre o HIV/AIDS no ambiente universitário
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pode ser um aliado contra a doença, divulgando a importância dos saberes e práticas acerca do
HIV/AIDS entre os jovens e nas comunidades onde eles convivem.
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