III SEMINÁRIO POLÍTICAS SOCIAIS E CIDADANIA
AUTOR DO TEXTO: Silene Chacra Carvalho Marinho
Relato de Experiência: educação permanente e a multiplicação no
processo de trabalho.
RESUMO: Este trabalho tem como objetivo relatar a experiência da Educação
Permanente em Saúde em uma Instituição hospitalar pública re f e r ên ci a e m al ta
c ompl exi dad e m t ra u mat o - o rt op e di a na cidade de Salvador no Estado da Bahia.
Criou-se um dispositivo de formação de multiplicadores de conhecimentos construídos
coletivamente durante o processo de trabalho em parceria com os setores da Unidade
para multiplicação das ações. A metodologia escolhida foi a problematização nas rodas
de gestão e também em demandas espontâneas, centrada na reflexão do cotidiano das
necessidades de novos e diferentes saberes. Os processos de trabalho que já foram
multiplicados trouxeram como resultados novos aprendizados, um re-significado e
reorganização das práticas em consonância com os princípios do Sistema Único de
Saúde (SUS).
Introdução: Este trabalho vem relatar a experiência desenvolvida pelo Núcleo de
Educação Permanente – NEP, ligado ao Departamento de Recursos Humanos do
Hospital Manoel Victorino que é composto de 100 leitos e 864 funcionários de diversos
vínculos empregatícios e que desde maio de 2007 passa por uma mu d an ç a d e
r e e st ru tu ra çã o d e H o spi tal G e ral pa ra s e r u m a R e f e r ên ci a e m T rau mat o O rt op edi a , r ed efi n i u a mi s sã o qu e pa s s ou a s e r a d e p r e st ar as si st ên ci a
e sp e ci al i z ada par a a cl i en t el a r e f er en ci ada d o Si st e ma Ún i c o d e Saú d e –
SUS , n o E sta do da Bah i a r ef o r ça da p o r u m a g e st ã o pa r ti ci pati va, c om
u ma at en çã o h u ma n i z ada a o pa ci en t e e a o s e r vi do r , r e sp ei tan d o os
i n di ví du os
e
a
s oci eda de ,
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c o mp ro mi s so
e
r e sp on sabi l i dade p r o fi ssi on al , i n te g ran do o s s et o r e s e o e spí ri t o d e
equ i p e qu al i fi cada e p r e st an d o u m at e n di men t o e m e xc el ê n ci a e a vi s ão
de s e r re c on h e ci da n o âm bi to e st adu al pel a e x c el ên ci a n a g e stã o d e
s e rvi ç o s d e saú d e, c om o r e f er ên ci a em al ta c om pl exi da d e em t rau m at o o rt op edi a , d e f o r m a a a ss e gu ra r a s ati sf aç ã o da p op u l aç ão u su á ri a e
pr o fi ssi on ai s .
O Núcleo de Educação Permanente – NEP do hospital ao tomar conhecimento por
demandas espontâneas ou nas rodas de gestão de algumas dificuldades de profissionais
na efetivação de algumas práticas nos processos de trabalho e adotando o conceito de
educação permanente como um contínuo de ações de trabalho-aprendizagem que
ocorre em um espaço de trabalho, produção, educação em saúde criou o Programa de
Gestão coletiva:“ Nós somos MULTIPLICADORES”.
Por função multiplicadora entende-se a implicação dos trabalhos num processo de
educação permanente em saúde, desempenhando papeis de construtores e de
transmissores de conhecimento. São caminhos para construir um sujeito em estado
permanente de aprendizado, aprendendo a aprender, aprendendo a ensinar e
ensinando a aprender. Essa forma de aprendizado leva a pessoa, segundo Bordenave
(1988), a desenvolver habilidades de observação, analise avaliação, cooperação entre
os membros do grupo e superação de conflitos para ações eficazes de gestão,
promoção, prevenção, assistência e formação profissional.
A idéia é fomentar a capitalização do saber acumulado, promovendo a apropriação e
disseminação por parte dos trabalhadores. A metodologia escolhida foi a
problematização que, centrada na reflexão do cotidiano da necessidade de novos e
diferentes saberes.
O desafio da Educação Permanente nesta Instituição implicou na transformação de
concepção, de práticas com os aportes teóricos, metodológicos, científicos e tecnológicos
disponíveis, e uma necessária construção de relações e processos que vão do interior das
equipes em atuação conjunta, – implicando seus agentes –, às práticas organizacionais,
– implicando a instituição e/ou o setor da saúde –, e às práticas interinstitucionais e/ou
intersetoriais, – implicando as políticas nas quais se inscrevem os atos de saúde
(CECCIM, 2005).
Houve a preocupação em que os multiplicadores estivessem aptos a
desenvolverem ás ações de promoção, prevenção, proteção e reabilitação, para que sua
prática fosse realizada de forma integrada e contínua dentro dos princípios da bioética,
pois problemas aparentemente de natureza técnica podem expressar conflitos latentes
nos modos de pensar e de atuar dos profissionais.
Não há aprendizagem se os atores não tomam consciência do problema e se nele
não se reconhecem, na sua singularidade. Seguindo este raciocínio no primeiro momento
realizou-se uma Oficina de Sensibilização para os Multiplicadores identificados pelos seus
diretores, chefes de departamento ou coordenadores que foi trabalhada pelos Recursos
Humanos e pela Educação Permanente.
Foram repassados para os Multiplicadores dois Instrumentos um de Identificação
do Processo a ser multiplicado e o outro de Avaliação dos Resultados. Foi desembolsado
um cronograma de apresentação dos resultados e a partir dos relatos surgiram novos
processos de multiplicação.
Com a complexidade cada vez maior das tecnologias em saúde e indicadores da
qualidade dos processos de trabalho, paralelamente á expansão da noção de saúde para
além da cura e tratamento de doenças, tem influenciado a organização do trabalho,
exigindo que os trabalhadores adquiram novas habilidades de forma dinâmica. A
educação permite articular gestão, atenção, ensino e controle social no enfrentamento
dos problemas concretos de cada equipe de saúde.
A Política Nacional de Educação Permanente em Saúde é uma estratégia para a
formação de trabalhadores do SUS e absorveu a visão filosófica e humanística de Freire
sobre educação ao defender que os profissionais devem ampliar seus conhecimentos
sobre o próprio homem as formas de estar no mundo substituindo a visão ingênua para
uma visão crítica da realidade.
A educação tem sido considerada como instrumento para mudanças e
transformações em uma sociedade A educação permite articular gestão, atenção, ensino
e controle social no enfrentamento dos problemas concretos de cada equipe de saúde. As
transformações sociais e educacionais têm repercussões nos modos de produzir, nos
diferentes campos do saber e de produção de bens e de serviços (RICALDONI; SENA,
2006). A pedagogia institucional é um exemplo disso. A Educação Permanente se
apresenta como um dispositivo técnico-politico-pedagógico, pois acontece no trabalho.
Alvim (2007) convoca para que compartilhemos do pensamento em que
educadores e educandos, assumem posição de sujeitos que fazem e refazem o mundo.
Educação Permanente e o Contexto Histórico
Ministério da Saúde, ao propor um amplo processo de formação e qualificação
dos profissionais de saúde e de regulação profissional no âmbito do Sistema Único de
Saúde (SUS), encontra soluções de execução nacional para uma política de educação
permanente em saúde, para garantir uma oferta efetiva e significativa de cursos de
formação técnica, de qualificação e de especialização para o conjunto dos profissionais da
saúde e para diferentes segmentos da população e cria a câmara de regulação do
trabalho em saúde, ao mesmo tempo em que desencadeia a análise de projetos,
propostas e políticas para a desprecarização dos vínculos de trabalho no sistema de
saúde e retoma a mesa nacional de negociação permanente do SUS.
A Portaria nº. 198/GM/MS em 13 de fevereiro de 2004 institui a Política Nacional
de Educação Permanente em Saúde como estratégia do Sistema Único de Saúde para a
formação e o desenvolvimento de trabalhadores para o setor e dá outras providências.
A proposta para a política de educação permanente parte do pressuposto da
aprendizagem significativa, ou seja, educadores e estudantes têm papéis diferentes dos
tradicionais. O professor não é mais a fonte principal da informação (conteúdos), mas
facilitador do processo ensino-aprendizagem, que deve estimular o aprendiz a ter postura
ativa, crítica e reflexiva durante o processo de construção do conhecimento.
A lógica da educação permanente é descentralizada, ascendente, multiprofissional
e transdisciplinar. Envolve mudanças nas relações, nos processos, nos produtos e,
principalmente, nas pessoas. Desse modo, a formação e a gestão do trabalho em saúde,
passam a ser consideradas questões técnicas-políticas e não apenas técnicas, requerendo
ações no âmbito da formação, na graduação, na pós-graduação, na organização do
trabalho, na interação com as redes de gestão e de serviços e no controle social.
É importante assegurar qualidade, humanização e resolutividade aos serviços na
rede do SUS, que funcionam mediante as práticas realizadas pelos trabalhadores da
saúde.
É fundamental a participação política de vários segmentos e atores sociais na
perspectiva de construir mecanismos de solução e normas compatíveis com os interesses
coletivos e institucionais que permeiam os processos de educação permanente para o
trabalho no SUS.
Varias foram às estratégias de articulação adotadas pelo MS para assegurar a
educação permanente no SUS como: a interlocução com o Conselho Nacional da Saúde
(CNS) e a Comissão Intersetorial de Recursos Humanos do CNS; a Interlocução com o
Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde (CONASS) e Conselho Nacional de
Secretários Municipais de Saúde (CONASEMS); a interlocução com o MEC; a interlocução
com as universidades; a interlocução com as escolas técnicas de saúde: a construção da
política de qualificação e formação dos profissionais de nível técnico; a interlocução com
a Organização Pan-Americana da Saúde.
A política adotada pelo MS comprova a situação de descompasso entre a educação
formal e o crescente desenvolvimento do conhecimento em vários campos do saber, que
tem apontado para um mercado de trabalho cada vez mais exigente quanto à
qualificação dos trabalhadores e para uma carga de informações impossível de ser
assimilada apenas durante os anos escolares.
Considerações
O setor de saúde tem como missão cuidar do mais precioso bem humano: a vida.
No campo da saúde é indispensável à produção de conhecimento, uma formação
profissional e a prestação de serviço especializado.
Os trabalhadores de saúde são entendidos como sujeitos e agentes transformadores de
suas práticas, e o que se pretende é que os profissionais deixem de ser um mero
instrumento realizador de tarefas estabelecidas e passe a ser um protagonista do
desenvolvimento e melhoria do sistema de saúde.
Com a multiplicação dos processos de trabalho pretendem-se ter profissionais
mais capacitados, críticos, capazes de aprender a prender, de trabalhar em equipe, de
levar em conta a realidade social para prestar uma maior atenção humana e de melhor
qualidade.
Esta experiência buscou a valorização dos servidores da saúde da Unidade, o
resgate de suas identidades organizacional, a construção coletiva de conhecimentos
compartilhada e uma re-significação das suas práticas.
A educação deverá ser um processo permanente e contínuo também na vida
profissional, permitindo que os profissionais da saúde do hospital, atuem de acordo com
o contexto epidemiológico e com as necessidades apontadas na unidade em sua área de
atuação.
Referências
Salvador; 2003 Bahia. Secretaria de Saúde do Estado da Bahia.
Desenvolvendo Pessoas na Instituição: Manual do Facilitador. EESP.
Projeto
BORDENAVE, M. C. Tradução: Encontro de Linguagens e Ideologias. In: Trabalhos em
Lingüística Aplicada. Campinas, (11); 19-25, jan. /jun., 1988.
CECCIM, R.B. Educação Permanente em Saúde: descentralização e disseminação
de capacidade pedagógica na saúde. Ciênc. saúde coletiva vol.10 no.4 Rio de
Janeiro Oct./Dec. 2005.
___________.2004.O quadrilátero da formação para a área da saúde: ensino,
gestão,atenção e controle social. Physis - Rev. Saúde Coletiva, v.14, n.1, p.41-65.
______________. 2001.Educação na saúde coletiva. Saúde Debate, n.23, p.30-56.
CECÍLIO, L .C. O. (Org.) Inventando a mudança na saúde. São Paulo: Hucitec, 1994.
Minayo MCS. O Desafio do Conhecimento. 6ª ed. São Paulo (SP): Hucitec: Abrasco;
1999.
Ministério da Saúde (BR). Educação Permanente em Saúde. Mudanças na formação
de graduação. Profissionalização e escolarização. Brasília (DF): 2004. Disponível
em: <http://portal.saude.gov.br/saude/visualizar>. Acessado em: 06 junho de 2010.
SENA, Roseni R; RICALDONI, Carlos Alberto C. Educação permanente: uma
ferramenta para pensar e agir no trabalho de enfermagem. Revista LatinoAmericana de Enfermagem. 2006 doi: 10.1590/S0104-11692006000600002. Ribeirão
Preto.São Paulo.
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