Reitora
Vice-Reitora
Nádina Aparecida Moreno
Berenice Quinzani Jordão
Grupo de Estudos com Servidores Aposentados da UEL:
novos olhares sobre a Universidade, projeto cadastrado
na Pró-Reitoria de Extensão - PROEX.
Maria Aparecida Vivan de Carvalho
Fabiano Ferrari Ribeiro
Rosane da Silva Borges
(Organizadores)
Portal do Servidor Aposentado da UEL:
tempo de recordar
Londrina
2011
Catalogação elaborada pela Divisão de Processos Técnicos
da Biblioteca Central da Universidade Estadual de Londrina.
Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)
P842
Portal do servidor aposentado da UEL : tempo de recordar/
Maria Aparecida Vivan de Carvalho, Fabiano Ferrari
Ribeiro, Rosane da Silva Borges, organizadores. –
Londrina : UEL, 2011.
331 p. : il.
Projeto Portal do Servidor Aposentado.
ISBN 978-85-7846-009-9
1. Universidade Estadual de Londrina – Servidores aposentados – Hístória. 2. Comunidades de aposentados – Entrevistas. I. Carvalho, Maria Aparecida Vivan de. II. Ribeiro, Fabiano Ferrari. III. Borges, Rosane da Silva.
CDU 378.4-057.75UEL
Direitos reservados à
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Campus Universitário
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Fone/Fax: (43) 3371-4674
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www.uel.br/editora
Impresso no Brasil / Printed in Brazil Depósito Legal na Biblioteca Nacional
2011
Dedicatória
A todos os servidores aposentados da UEL
Agradecimentos
Agradecimento ao Departamento de Comunicação do Centro de
Educação, Comunicação e Artes pela parceria e incentivo.
Aos estagiários, estudantes do curso de Comunicação Social Jornalismo, pela disposição, alegria e entusiasmo com os quais
mantiveram acesas as luzes dessas inúmeras histórias de vida.
Agradecimento aos servidores da Divisão Central de Estágios e
Intercâmbios da Pró-Reitoria de Graduação pelo apoio.
Aos servidores aposentados e aos seus familiares que abriram as portas
de seus corações para contar um pouco de si mesmos e da Universidade.
Sumário
Prefácio ......................................................................................................................xiii
Apresentação ..............................................................................................................xv
Servidores Aposentados
Ademário Ferreira dos Santos e Ana Pereira dos Santos .........................................1
Alcides Vitor de Carvalho ...........................................................................................4
Alice Messias da Silva Oliveira ..................................................................................7
Alípio Rodrigues de Oliveira ......................................................................................9
Almerinda Ferreira Duarte.........................................................................................11
Altino Bispo de Oliveira .............................................................................................13
Amadeu Artur .............................................................................................................15
Ana Carolina Santini Betancurt de Abreo ..................................................................17
Ana da Silva Stuqui ....................................................................................................20
Ana Irma Rodrigues ...................................................................................................21
Ana Maria de Arruda Ribeiro .....................................................................................28
Angelina Silva Gonçalves Baggio ...............................................................................31
Anna Regina Jordão Ciuvalschi Maia ........................................................................33
Antonio Carlos Moraes Neto ......................................................................................36
Antonio José Miceli ....................................................................................................38
Antonio Nerez . ...........................................................................................................45
Arlinda Rodrigues Oliveira Barbosa ..........................................................................47
Ascêncio Garcia Lopes ................................................................................................48
Benedita de Oliveira Bruno ........................................................................................58
Carmen Garcia de Almeida ........................................................................................61
Casemiro Framil Sobrinho .........................................................................................65
Cleusa Maria Lopes de Oliveira..................................................................................66
David Roberto do Carmo ............................................................................................68
David Valentim da Silva Filho ....................................................................................71
Delícia Marcelino Ferreira .........................................................................................73
Denise Hernandes Tinoco ..........................................................................................75
Djalmira de Sá Almeida ..............................................................................................77
Domingos Dias da Silva ..............................................................................................79
Donato Parisotto..........................................................................................................81
Durval Adolar Weigert................................................................................................83
Durvali Emilio Fregonezi............................................................................................85
Edina Regina Pugas Panichi........................................................................................90
Edison Lúcio Ferreira Fava.........................................................................................93
Eliane Cristina Palaoro Pereira...................................................................................97
Elisabete Abelha Lisboa..............................................................................................103
Erlei Odino Gusso........................................................................................................105
Ernani Lauriano Rodrigues.........................................................................................108
Estela Okabayashi Fuzii..............................................................................................109
Euclides Francisco Salmento......................................................................................115
Francisca Soares Felizardo..........................................................................................117
Francisco Alves Pereira...............................................................................................119
Geir Rodrigues da Silva...............................................................................................123
Genival Ross................................................................................................................126
Georfrávia Montoza Alvarenga ..................................................................................128
Geraldo Carreira Polvora (in memorian)....................................................................132
Hélio Corrente.............................................................................................................133
Hélio Paula Vieira........................................................................................................138
Henrique Alves Pereira Júnior....................................................................................140
Hideo Nakayama.........................................................................................................143
Ines Buranello Vignadelli............................................................................................146
Ingracia de Oliveira.....................................................................................................148
Iraci Tutida..................................................................................................................150
Ivan Giacomo Piza.......................................................................................................153
Jacira Pereira da Silva.................................................................................................155
Jayme Nalim Duarte Leal ...........................................................................................157
Joana de Souza Nogueira............................................................................................160
Joana Sampar..............................................................................................................163
Joaquim Scarpin..........................................................................................................165
João Antônio Leite Ramos..........................................................................................167
João Luiz Sperandio....................................................................................................171
João Paulino da Silva Filho.........................................................................................174
José Aloyseo Bzuneck..................................................................................................178
José Aparecido Fidelis ................................................................................................181
José Leocádio da Silva.................................................................................................187
Kleber de Cássio Ferreira Arantes...............................................................................189
Laerte Matias...............................................................................................................190
Lauro Gomes da Veiga Pessoa Filho...........................................................................193
Leange Severo Alves e Ubiratan de Oliveira Alves . ...................................................196
Ledvina Piccelli ...........................................................................................................200
Leonel Martins Machado............................................................................................204
Leonilda de Souza e Silva............................................................................................206
Leslie Voigt Cosentino do Valle Rego..........................................................................208
Licéia Cianca Fortes e Waldyr Gutiérrez Fortes ........................................................209
Linda Bulik..................................................................................................................212
Liogi Suzuk..................................................................................................................214
Lourival da Silva .........................................................................................................215
Luiz Abdon Pereira......................................................................................................216
Luiz Antonio Felix ......................................................................................................219
Luiz de Melo Santos . ..................................................................................................222
Luzia Mitsue Yamashita Deliberador . .......................................................................224
Manoel Barros de Azevedo..........................................................................................225
Manoel Palma..............................................................................................................228
Maria Bernardo da Costa............................................................................................229
Maria Castro da Silveira..............................................................................................231
Maria Darci Moura Lombardi.....................................................................................234
Maria de Lourdes Mosseli ..........................................................................................236
Maria Elvira Alves Nunes............................................................................................237
Maria Helena Kley Vazzi.............................................................................................240
Maria Luiza Baccarin...................................................................................................242
Maria Pontes de Oliveira.............................................................................................244
Maria Regina Clivati Capelo........................................................................................246
Marina Zuleika Scalassara...........................................................................................248
Martha Augusta Correa e Castro Gonçalves...............................................................251
Mazília Almeida Rocha Zemuner................................................................................256
Mirza de Carvalho Ferreira.........................................................................................258
Nelson Dacio Tomazi . ................................................................................................260
Nelza Maria de Souza..................................................................................................262
Nilza Aparecida Freres Stipp.......................................................................................263
Olga Ribeiro de Aquino...............................................................................................266
Oswaldo Rubens Canizares.........................................................................................268
Otávio de Paula Nascimento.......................................................................................272
Paulo Roca...................................................................................................................276
Pedro Aloísio Kreling...................................................................................................278
Raimundo Nonato Teixeira.........................................................................................282
Raul Santos de Sá........................................................................................................286
Reginaldo Batista de Souza.........................................................................................289
Romilda Aparecida Cardioli dos Santos . ...................................................................291
Rosa Magalhães de Medeiros......................................................................................294
Rubens Ferreira Dias Júnior.......................................................................................299
Sadi Chaiben................................................................................................................301
Sebastiana Pereira.......................................................................................................303
Silza Maria Pasello Valente.........................................................................................310
Toshihiko Tan..............................................................................................................313
Valmir de França ........................................................................................................314
Vera Lúcia Lemos Basto Echenique............................................................................316
Vera Lúcia Resende Faria............................................................................................317
Yoshiriro Okano...........................................................................................................323
Zenshi Heshiki.............................................................................................................327
Zita Kiel Baggio............................................................................................................328
Prefácio
Aos que ajudaram a construir a UEL, o nosso eterno agradecimento
É com satisfação e imensa alegria que escrevo este simples texto, para
servir de abertura a um livro tão significativo. Planejar, construir, administrar,
colocar e manter em funcionamento uma universidade pública é obra coletiva
das mais grandiosas e gratificantes que existem. Os personagens principais
deste livro, os servidores aposentados, participaram durante as últimas
décadas da construção conjunta da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
A UEL completará, dia 7 de outubro de 2011, quarenta anos de pleno
funcionamento reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC). Ao longo
deste período, ela tornou-se a maior e mais importante escola de ensino
superior do interior do Paraná. E isto só foi possível graças ao empenho,
trabalho e dedicação de estudantes, funcionários e professores que por aqui
passaram nestas quase quatro décadas.
Ensino, pesquisa e extensão de boa qualidade sempre foram, ao longo
deste tempo, o objetivo principal de nossa Instituição; em grande parte
alcançado com base no esforço, carinho e mérito dos ex-servidores, agora na
condição de aposentados da UEL. Aos aposentados devemos ainda participação
efetiva na formação de milhares de profissionais – capacitados, competentes
e cidadãos – que nossos cursos de graduação e pós-graduação já colocaram
no mercado de trabalho. Por isto, os ex-servidores estão de parabéns. Assim
sendo, a todos e a cada um a nossa mais sincera e eterna gratidão.
Este agradecimento é extensivo à professora Maria Aparecida Vivan
de Carvalho – idealizadora e coordenadora do projeto Portal do Servidor
Aposentado, embrião que germinou este livro – e a sua equipe inteira;
notadamente ao técnico em informática e internet Fabiano Ferrari Ribeiro,
que desenvolveu e viabilizou o portal no site da Universidade, e à professora
Rosane da Silva Borges, orientadora dos estudantes de Jornalismo que atuam
no projeto.
Nádina Aparecida Moreno
Reitora da UEL
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
xiii
Apresentação
Este livro apresenta o Portal do Servidor Aposentado da Universidade
Estadual de Londrina - UEL, como iniciativa inédita destinada a valorizar os
servidores aposentados da Instituição sem perder as perspectivas do resgate
de histórias de vida desses personagens centrais cujas práticas catalisaram
fluidos bons que alavancaram a Universidade nestes 40 anos de existência.
Trata-se, portanto, de um livro de perfis que pode ser visto sob vários
olhares. Esses perfis representam uma realidade vivida e ainda viva na
memória de cada servidor aposentado.
Cada vez mais convencidos da necessidade de mostrar às novas e futuras
gerações quem foram as pessoas que atuaram na Universidade e dignificálas por meio de um expediente efetivo e palpável, sentimo-nos motivados a
concretizar esta publicação, na intenção de contribuir com a construção da
história da Universidade.
Os perfis dos servidores aposentados que constam deste livro foram
os primeiros a serem publicados no Portal do Servidor Aposentado da UEL,
criado em 22 de junho de 2008 e idealizado pela professora Maria Aparecida
Vivan de Carvalho, à época, pró-reitora de graduação da UEL, com a finalidade
de homenagear os aposentados durante as comemorações dos 37 anos da
Universidade.
Todas as informações são extremamente valiosas quando há a
premissa de recuperar a memória de uma caminhada que se revela especial,
considerando que cada um de nós guarda retratos de uma vida junto a esta
Universidade de concretização de sonhos, conquistas e realização de ideais.
O Portal permite à comunidade acompanhar as informações sobre nossos
servidores, bem como fortalece as relações entre os servidores que continuam
em atividade na Instituição e os servidores aposentados, com visibilidade
oportuna dos professores e funcionários que deram sustentabilidade às
diversas ações empreendidas na UEL, o que possibilitou a sua consolidação
como uma das melhores instituições de ensino superior do país. O empenho
e trabalho de cada servidor justificam o sucesso da Universidade ao longo dos
anos.
As ideias para a criação do Portal ganharam vida nas mãos do servidor
Fabiano Ferrari Ribeiro e aos poucos se materializaram com robustez a partir
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
xv
da inserção de estudantes estagiários e docentes do curso de Comunicação
Social - Jornalismo do Centro de Educação, Comunicação e Artes da UEL.
As entrevistas começaram a ser agendadas, inicialmente com um
professor de cada um dos nove centros de estudos, e servidores de diferentes
locais e profissões, como museu e creche, vigilantes, jardineiros, auxiliares de
enfermagem e, até mesmo, o primeiro reitor.
No Portal do Servidor Aposentado da UEL os perfis são o carro-chefe,
entretanto, inovações foram sendo incorporadas, a exemplo, a apresentação
de serviços de direito na Universidade, como o uso de biblioteca, restaurante,
e-mail institucional, entre outros, bem como houve a introdução de matérias
sobre saúde e direitos dos aposentados.
Algumas matérias foram divulgadas na forma de destaques com título
específico; outras trazem as informações postadas pelo servidor aposentado
que acessou o site e compôs a sua história, sendo que neste último caso não há
registro do nome de estagiários, pois o autor foi o próprio aposentado.
A inserção de hobbies e de uma ficha técnica com dados específicos dos
aposentados, como naturalidade, ano de aposentadoria, entre outros, veio a
incrementar e enriquecer as publicações do Portal, além de que postamos um
item inovador denominado ‘serviço’ que traduz informações e ou mostra a
definição de palavras cujo significado foge à rotina de parte dos servidores.
Esperamos que as atividades previstas para o desenvolvimento do Portal
possam ser intensificadas, no intuito de aprimorar o exercício de resgatar
fatos tão marcantes na vida das pessoas e transformá-los em mensagens
que expressem as vivências e as emoções em texto. Será questão de tempo e
paciência obter a regularidade na cobertura das aposentadorias pela equipe
do Portal.
Cabe destacar os estagiários - protagonistas das entrevistas do Portal:
Poliana Lisboa de Almeida, Léia Dias Sabóia, Janaina Assis de Castro Gomes,
Luiz Gustavo Ticiane de Oliveira e Rosane Mioto dos Santos, todos sob a
orientação cuidadosa e o olhar atento da professora Rosane da Silva Borges.
Durante as entrevistas com os servidores aposentados, as perguntas não
obedeceram a um roteiro, mas tinham o objetivo de captar uma história ainda
não contada e não registrada. Para nós foi um exercício espetacular de dar
ouvido aos servidores aposentados e dar palavra aos estudantes que, na flor de
sua juventude, souberam apreender as mensagens, buscar a sensibilidade nas
falas e dar voz, com uma precisão inigualável, aos que em gestos manifestavam
seus sentimentos.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
xvi
Ainda é preciso ressaltar que os estudantes, de forma brilhante,
souberam traduzir encantos e desencantos, perdas e ganhos, conquistas e
decepções. Segredos foram desvelados e apontaram caminhos percorridos na
certeza e na dúvida, com resultados acertados e outros que exigiram repensar
a trilha.
Solicitamos aos nossos ex-estagiários do Portal um depoimento sobre o
que significou para eles o exercício da profissão ainda enquanto estudantes e
recebemos as mensagens que transcrevemos a seguir.
“Estagiar no Portal do Servidor Aposentado foi uma experiência acima
de tudo gratificante.
Além da oportunidade de praticar a profissão que eu amo, pude
conhecer e ouvir pessoas maravilhosas. As entrevistas com os aposentados
foram sem dúvida a melhor parte do trabalho. As histórias de vida que ouvi
são lições que vou levar comigo para sempre. Cada conversa foi emocionante
e não posso descrever o que sentia ao ver pessoas tão incríveis, que dedicaram
suas vidas à UEL, chegarem às lágrimas com as lembranças.
Um aprendizado sem igual e sem preço, que agora pode ser
compartilhado com mais pessoas. Recomendo muito a leitura deste livro e
tenho certeza de que em suas páginas encontrarão a emoção, o amor, a força
daqueles que construíram a UEL quase do nada, e fizeram dela a Instituição
sólida e respeitável que é hoje.
Participar dessa produção me enche de orgulho e só tenho a agradecer à
professora Cidinha (Maria Aparecida Vivan de Carvalho), que um dia imaginou
este projeto, colocou-o em prática e me deu a satisfação de poder integrá-lo.”
Janaína Castro
Jornalista, estagiária do Portal do Servidor Aposentado
de março a dezembro de 2009
“Que a UEL hoje é reconhecidamente grande, ninguém discute. O que
poucos sabem, porém, é o trabalho que muitos - alguns anonimamente desenvolveram para que ela atingisse tamanha notoriedade.
A vida da instituição não está apenas nos belos gramados e jardins,
nem mesmo na fauna que também reconhece naquele lugar algo especial.
Não está apenas nos muitos alunos que, munidos do conhecimento, saem
da universidade para ganhar o mundo. Ela está essencialmente naqueles
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
xvii
servidores, que, desde quando aquela região ainda era um perobal, ajudaram,
cada um à sua maneira, tornar a instituição em uma das mais respeitadas no
Brasil e no exterior.
Trabalhar no Portal do Aposentado, que agora vira merecidamente
livro, foi uma das mais gratificantes experiências que o jornalismo pôde me
proporcionar. Algo que vou levar com carinho para a vida toda.
Viver cada história foi descobrir tudo isso. Certamente, é o que você,
leitor, vai também descobrir nas próximas páginas.”
Gustavo Ticiane
Jornalista, estagiário do Portal do Servidor Aposentado
de abril a dezembro de 2009
“Ter a chance de aprender um pouco mais sobre a profissão que escolhi
e, ao mesmo tempo, conhecer a história de minha cidade por meio dos
depoimentos dos aposentados que entrevistei foram as melhores experiências
que o estágio no Portal do Aposentado poderiam me proporcionar.
Perceber que a história de Londrina e da Universidade foi escrita com o
trabalho destas pessoas, vindas de vários cantos do país, é também reconhecer
que as grandes conquistas se fazem nos pequenos gestos cotidianos.
O que levo desta experiência é a satisfação de descobrir que minha
cidade natal e a Universidade também são obras desta gente anônima, que
meu trabalho no Portal ajudou a revelar.”
Rosane Mioto
Jornalista, estagiária do Portal do Servidor Aposentado
de março a dezembro de 2009
“Aproximadamente 20 mil pessoas circulam todos os dias pela
Universidade Estadual de Londrina. No entanto, pouquíssimas conhecem
verdadeiramente a história dos muitos servidores e idealizadores valentes,
que juntos edificaram - nos vários sentidos da palavra - a instituição. Não é
exagero dizer que muitos desses servidores aposentados amavam e se doavam
completamente ao trabalho, à UEL.
Os relatos de um começo difícil, sem muitos recursos, precário às
vezes, parece não condizer com a atual grandeza dessa universidade. Mas é
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
xviii
fato. Esses momentos realmente existiram. Assim como pude comprovar na
condição de estagiária.
Para uma aspirante a jornalista, jovem e inexperiente com um velho
sonho bobo de mudar o mundo, conhecer esses simpáticos senhores significou
muito. Pessoas agradáveis, receptivas, prontas para compartilhar momentos
tão singulares com uma ‘desconhecida’.
Suas histórias são repletas de conselhos, de otimismo. Elas são marcadas
pela perseverança e a esperança em um futuro melhor e maior. A sabedoria
que contém nestes textos não se encontra armazenada em bibliotecas. Mas, é
resultado de uma vida inteira de lutas, quedas e conquistas. Enfim, grandes
lições.”
Léia Dias Sabóia
Jornalista, estagiária do Portal do Servidor Aposentado
de agosto de 2008 a janeiro de 2009
Algumas entrevistas foram realizadas na UEL, mas a maioria aconteceu
na casa dos servidores aposentados, que acolheram nossa equipe com muito
carinho e aproveitaram a ocasião para mostrar fotos e recordações da época
de trabalho na UEL. Após a transcrição das fitas de gravação da entrevista,
organização da redação, correção dos textos e divulgação no Portal, as
entrevistas eram impressas, versão colorida, em papel couchê e entregues
pessoalmente por membros da equipe do Portal para o servidor aposentado
guardar de recordação.
Não foram poucas as vezes que nos pegamos com lágrimas nos olhos ao
ler as entrevistas dos servidores aposentados, sentindo a emoção nas linhas e
nas entrelinhas, a saudade batendo forte no peito, a lembrança de um tempo
que não volta mais. Saudosismo e um imenso orgulho é o que sentimos por
ver tantas vidas voltadas a um objetivo comum - o bem da nossa Universidade.
Os servidores aposentados abordaram, em suas falas, dimensões
de âmbitos pessoais e profissionais, bem como suas próprias reflexões
permitem entender as relações e nos levam a pensar sobre alguns de nossos
questionamentos a respeito do mundo universitário. Esteve sempre presente a
forma como viveram intensamente a Universidade, a importância do trabalho
e das atividades ali desempenhadas, do plantio e cultivo de flores ao exercício
da docência.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
xix
Acreditamos que o momento da entrevista tenha se caracterizado como
uma oportunidade de manifestar o olhar sobre si mesmo e sobre a vida, bem
como sobre a Universidade.
Nem todo o esforço dos servidores pôde ser contemplado pela
Instituição, por fatores diversos. Houve boa vontade e criatividade, mas nem
todas as ideias foram aproveitadas. Afinal, a Universidade passou, ao longo de
décadas, por muitas transformações para responder aos desafios peculiares
a cada período histórico, com flexibilização de fronteiras do conhecimento,
superação de crises, influência de modismos, diversas abordagens da educação,
mudanças na forma de pensar e de agir. Considerando-se, por outro lado, as
ações e intenções demonstraram comprometimento com o fazer universitário.
Os servidores aposentados mostraram exemplos bons de busca
e de encontro de novas atividades para serem desenvolvidas durante a
aposentadoria, a despeito de terem que superar, muitas vezes, problemas
físicos, psicológicos e emocionais, além dos financeiros. Não mediram esforços
para derrubarem barreiras no intuito de atingir um objetivo maior, conquistar
um novo sonho.
Sob diferentes visões, a aposentadoria manifestou-se de um período de
descanso e tranquilidade a um período de intensa produtividade, um período
de viver sonhos e desejos, mas também, de forma divergente, esse período se
caracterizou por árduo trabalho para a manutenção do sustento da família.
A leitura deste livro proporcionará reflexões que aproximarão os leitores
das histórias de vida e dos amigos servidores aposentados. É fato que, depois
das entrevistas, alguns já deixaram este mundo e outros que nem chegaram a
ser entrevistados abriram uma lacuna ainda maior em nossos corações.
Desejamos que os servidores aposentados cultivem sempre hábitos
saudáveis, retirem energia de coisas boas e acreditem, sobretudo, que a
juventude está no coração das pessoas, portanto, a importância de dar sentido
à vida está na tríade: estar ativo, cultivar amigos e se sentir útil.
Cá para nós, há necessidade permanente de conhecimento e
reconhecimento dos significados do espaço universitário e desenhá-los por
meio do resgate das memórias dos servidores aposentados é uma maneira de
restituir a eles o sentido da vida.
As lições do passado têm muito a nos ensinar, e reiteramos que sonhar
com uma instituição universitária que conhece e reconhece o trabalho e
a dedicação de seus servidores, valorizando-os enquanto aposentados,
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
xx
demonstra o desejo de ter e ver um mundo mais humano. Desejamos
também um futuro brilhante para a UEL, numa busca ininterrupta de relação
democrática, possibilitando aos seus servidores serem livres e iguais.
Finalmente, desejamos que o significado da trajetória dos servidores
aposentados possa servir de exemplo aos nossos jovens para o alcance e o
desenvolvimento de seus projetos de vida.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
xxi
Um casal de funcionários da Universidade
Ana Pereira dos Santos e Ademário Ferreira dos Santos,
zeladora e pedreiro. O casal dedicou ao todo quarenta e cinco anos de
trabalho à Universidade
Não foi na UEL que eles se
conheceram. Aliás, foi um pouco
mais longe. Ademário e Ana dos
Santos são baianos de Piritiba,
perto de Feira de Santana.
Eles eram vizinhos e quando
Ademário veio para Londrina,
onde o tio já morava, o casal
conversava e namorava por meio
de cartas.
Com o casamento, Ana também
veio para o sul. Aqui eles tiveram a primeira filha e quando tentaram
voltar, dois anos e meio depois, não se acostumaram com os salários
baixos do nordeste. O segundo filho nasceu na Bahia, mas o casal veio
para Londrina em seguida. Agora, Bahia só nos finais de ano, quando
eles chegam a ficar até um mês na casa de parentes passeando.
Uma vizinha avisou Ana que a Universidade estava contratando.
Ela lembra que foi simples e após uma ficha preenchida ficou
combinado. Era 1977, seu primeiro emprego registrado, e no segundo
mês ela estava ganhando mais do que o inicial, conta a funcionária com
orgulho. Ana dos Santos trabalhou na zeladoria do CEFE - Centro de
Educação Física e Esporte desde o começo até a sua aposentadoria
depois de 28 anos de trabalho no fim de 2004. Ela trabalhava com a
limpeza e fazia o café. Quando teve o quarto filho precisou da ajuda da filha mais velha.
Ana tinha uma hora para amamentar e fazia questão de voltar na hora
de sua janta para amamentar uma segunda vez. Mas, para ela o esforço
foi válido.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
1
Os turnos em que trabalhou mudaram conforme os anos. Às
vezes, quando Ana entrava de manhã, ela, que mora em Cambé perto
da Universidade, aproveitava e ia com uma amiga a pé para o trabalho.
“Dá meia hora caminhando sem pressa, e eu fazia exercício”.
Ademário, esposo de Ana, trabalhou muitos anos sem registro em
carteira aqui em Londrina. Em 1963 ele começou a trabalhar em uma
firma como servente na construção civil. Com os anos foi adquirindo
experiência e crescendo na empresa, orientando o trabalho junto com
o mestre de obras. Quando quiseram levá-lo para outra cidade ele
trocou de emprego.
Ficou pouco mais de um ano em outra empresa, quando surgiu
uma vaga de pedreiro na UEL. Ademário conta que conversou com os
patrões antes de sair, “sempre gostei de fazer as coisas direito, (...) no
outro dia comecei na Universidade.”
Com quatorze meses na UEL o contrato havia acabado e estava
acontecendo um corte de funcionários. Ele se lembra da entrevista que
enfrentou com psicólogos, em que perguntaram qual era o melhor prego
para pedreiro, e ele respondeu que era a água, que ligava o cimento,
já que quem prega mesmo é o carpinteiro. O funcionário estava com
medo de ser demitido, ainda mais depois da resposta ousada.
Ademário continuou trabalhando na UEL, mas com
aproximadamente três anos de pedreiro sua profissão passou para
graniteiro. Apesar de mais perigosa, a função nova não constou na
carteira e nem no salário do funcionário, que ficou por mais quatorze
anos na Universidade.
Ele se lembra de ter participado da construção de parte do Centro
de Ciências Biológicas, Departamento de Tecnologia de Alimentos,
reitoria, banheiros, isolamento do pavilhão do meio do Hospital
Veterinário e Hospital Universitário, onde, de acordo com Ademário,
a equipe de graniteiros da Universidade assumiu as obras junto com
funcionários de uma empreiteira contratada para concluí-las no prazo.
O funcionário sofreu um acidente no Laboratório de
Medicamentos da UEL, durante um trabalho por colocar a máquina
em uma tomada com voltagem diferente da que fora avisada a ele.
Ele se machucou e a máquina estragou, mas ele conta que depois o
problema foi superado.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
2
Ademário aposentou-se em 1997. Ana confirma que o marido
não para. Depois de construir quatro casas, duas no terreno antigo e
duas no que moram agora, ele continua a trabalhar quando algum dos
quatro filhos ou sobrinha precisa. E ele fala que Ana ajudou sempre.
“Eu nunca paguei pedreiro, usava o fim de semana para construir”.
Como a UEL foi o primeiro e único emprego registrado de
Ana, ela ficou até depois que o marido saiu. Trabalhou por 28 anos e
esperaria completar trinta, mas em 2004 ela teve um AVC (acidente
vascular cerebral) enquanto trabalhava no CEFE.
A funcionária descreveu a dor que sentiu e contou que por mais
de um ano continuou sentindo a cabeça muito pesada e uma sensação
estranha ao caminhar. Depois do período de licença, Ana pediu
aposentadoria.
Ela brinca, “eu não faço nada agora, só o serviço de casa”, e
quando o marido não está trabalhando eles costumam caminhar. “Eu
não gosto de caminhar sozinha, gosto de andar junto com ele. É bom
para a saúde e rende uma boa conversa.”
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
3
Entre uvas, letras e histórias
Academia e política se misturam na vida de Alcides Vitor de
Carvalho, professor de letras da Universidade Estadual de Londrina
desde sua fundação
Na garagem de Alcides Vitor
de Carvalho alguns galões com
aproximadamente 35 litros de
vinho cada um aguardam o
seu “período de gestação”: são
nove meses de espera até que
ele fique pronto. O cheiro do
álcool fica no ar neste canto da
casa do professor aposentado
da Universidade Estadual de
Londrina. Plantar uva e fazer vinhos é um prazer para o professor, que
só o faz para a família e amigos.
Alcides, mineiro de Carvalhópolis, veio para Londrina após
passar pelo Rio Grande do Sul, onde estudou por 12 anos; Adamantina,
interior de São Paulo, e Arapongas, onde trabalhou. Na cidade começou
a fazer o curso de Letras na Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências
e Letras de Londrina.
Em 1971 a UEL foi reconhecida pelo governador da época, Paulo
Pimentel. Cinco instituições da cidade se uniram para formar a UEL,
a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras; Faculdade de Direito;
Faculdade de Odontologia; Faculdade de Medicina e Faculdade de
Ciências Econômicas.
Alcides havia assumido como professor na Faculdade assim
que se formou. Com a criação da Universidade ele ajudou a criar o
Departamento de Letras no Centro de Letras e Ciências Humanas, o
CLCH. A época era de Ditadura Militar e Alcides participava da política.
No ano de 1968 o professor esteve no 30º Congresso Nacional da
União Nacional dos Estudantes em Ibiúna, representando Londrina.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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O Congresso acabou com a prisão de mais de 800 estudantes. Alcides
estava entre eles.
“Fiquei no presídio Tiradentes por muito tempo. Aí numa
perseguição política posterior de não poder trabalhar, uma espécie de
vigilância muito de cima, (...) eu estava numa situação complicada e
em 1973 eu fui para fora (França) e aproveitei para fazer o mestrado”,
relembra.
O professor recebeu uma bolsa do governo francês para cursar
mestrado e doutorado em literatura popular brasileira, desde que
continuasse vinculado à UEL. Após três anos fora, Alcides voltou para
o Brasil. Como a sua pesquisa de doutorado era sobre literatura de
cordel, ele viajou pelo país recolhendo material.
Alcides não voltou para a França para defender sua tese e doou
parte do material para a UEL. Hoje a Universidade tem um acervo com
cerca de 3.500 folhetos de literatura de cordel. A coleção, que fica na
Biblioteca Central, pode ser consultada por todos e possui o nome do
professor.
Em 1979, Alcides foi um dos fundadores do Sindiprol (Sindicato
dos Professores de Londrina) e presidiu a entidade de 1982 até 1985.
No início, o sindicato reunia professores e servidores de outras
instituições superiores da região, não apenas da UEL. Alcides estima
que o Sindiprol chegou a ter dois mil filiados na época.
Como ex-presidente do sindicato, o professor relembra da greve
de 45 dias que aconteceu em 1984, pedindo aumento de 150% em
alguns casos. O governador, José Richa (1982-1986) cortou o salário
dos servidores, que organizavam feiras em frente ao Centro de Ciências
Biológicas para aguentar a situação. Com isto o governo acabou
cedendo às exigências.
Alcides aposentou-se na Universidade Estadual de Londrina
em 1993, quando assumiu a Secretaria de Cultura de Londrina na
gestão do prefeito Luiz Eduardo Cheida (PT), de 1993 a 1997. Depois
da secretaria, Carvalho assumiu por quatro anos a Casa da Cultura da
UEL, responsável pelo Festival Internacional de Londrina, pelo Festival
de Música, pelo Teatro Ouro Verde e pela Orquestra Sinfônica da UEL.
Depois de um ano sem dar aulas, ele voltou a lecionar na
Faculdade Pitágoras nos cursos de comunicação. Alcides conta um
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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pouco deste encanto que o levou de volta às salas de aula, “(...) ser
professor é bom porque a cada semestre renova a turma, você tem que
se preparar de novo, enriquece a gente, quero dar aula até os 80, 90,
até 100 (...) enquanto der.”
Poliana Lisboa de Almeida
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Alice Messias da Silva Oliveira “Tudo o que eu tenho eu agradeço à
UEL, porque eu sou aposentada, tenho
o meu salário... Eu amo lá de coração,
eu gosto muito da UEL”, conclui a
aposentada Alice Messias Oliveira,
que trabalhou na Universidade
durante quase duas décadas. Período
de muitas alegrias, foi também nestes
18 anos de serviço que o talento de
Alice para a escultura se revelou.
Mineira de Guaranésia, veio para o
Paraná ainda pequena junto com a
família, que arriscou a sorte mudandose para este estado sem conhecer ninguém, atraída pela propaganda
que promovia o norte-paranaense. Chegaram em Cornélio Procópio
e depois foram para Uraí, cidade onde Alice casou-se e teve os cinco
filhos. No final da década de 1960, mudou-se para Londrina.
Trabalhando como doméstica, recebeu uma proposta para
trabalhar na Universidade, indicada por uma amiga de Uraí.
Contratada em 11 de setembro de 1975, Alice sempre esteve a serviço
do Centro de Educação, Comunicação e Artes (CECA) e serviu muitos
cafezinhos para os professores dos departamentos de Ciência da
Informação, Comunicação, Educação... “Ele [o professor Mário Salles,
do Departamento de Comunicação] chegava lá na copa, que eu fazia
café de manhã [e dizia]: ‘aí colega – porque lá eles me chamam de colega
– eu quero o primeiro cafezinho do saco’, que ia caindo do coador e ele
colocava a xícara lá, tomava e dava risada! (...) São amigos da gente, a
gente brincava muito!”, diverte-se a aposentada.
Nas pausas para o almoço, Alice descobriu seu dom para a
escultura em argila. Foi nas instalações do Departamento de Artes, nos
prédios de madeira ao lado do Centro de Letras e Ciências Humanas
(CLCH). “Na hora do almoço a gente corria para lá. Almoçava às vezes
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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até um pouquinho antes para render o serviço, corria para lá, montava
as peças e às vezes trazia um bom pedaço de argila e fazia em casa
também”. Nesta atividade, Alice e outros funcionários do campus eram
orientados pela professora Ruth Moraes Sant’anna Correa. Suas peças
eram tão boas que foram expostas em São Paulo (SP).
Mas as pausas para a arte eram apenas momentos de distração
de uma rotina não menos divertida. A aposentada relembra com alegria
e satisfação os dias que trabalhou na UEL, onde também colecionou
muitas amizades. “Pra nós trabalhar era festa! Chegava no terminal [de
ônibus], encontrava todas as colegas, ia tudo pr’um lugar só... era muito
bom!”, relembra sorridente. No ambiente de trabalho, as relações com
os outros funcionários também eram boas. “Não tinha briga, não tinha
converseiro, precisava ver! Era muito legal!”.
Não foi à toa que a aposentadoria deixou saudades. Durante 18
anos, Alice trabalhou todos os dias, das 6h30 às 15h, na companhia
de vários amigos. Hoje, viúva, mora com uma filha e, apesar de
fazer algumas atividades – limitadas pela osteoporose, que ela trata
no Hospital de Clínicas da Universidade –, sente falta do trabalho.
“Naquela época a gente não ficava doente, (...) a gente andava em cima
de geada, de chuva e não ficava doente. (...) Trabalhar é muito bom, a
gente não tinha tempo para pensar em doença, em morte, nada não.
Para nós era só alegria!”
Para Alice, que precisou criar sozinha os filhos depois que o
marido a abandonou, a UEL tem um significado especial e até hoje
ocupa um lugarzinho em sua vida. “A UEL para mim foi a minha mãe,
meu marido, criei meus filhos tudo lá. Eu só tenho que elogiar a UEL
e amo de coração, gosto muito dela (...). Eu fico com o radinho aqui
sempre ligado na rádio da UEL”.
Rosane Mioto
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Alípio Rodrigues de Oliveira Alípio Rodrigues de Oliveira é mineiro,
nascido em Teófilo Otoni. Mas, foi
criado no Paraná. Chegou aqui muito
pequeno, aos três anos, por isso, não
tem lembranças de sua cidade natal.
Segundo ele, os pais vieram em busca de
melhorar a vida. Primeiro a família de
Alípio morou em pequenas cidadezinhas
no interior da Paraná; Fênix é uma delas.
Passados alguns anos, a família veio para
Londrina. Em 1970, os pais decidiram
voltar para o interior. Alípio tinha 15
anos e resolveu ficar na cidade.
A princípio, morou com os tios. Depois, resolveu que já era
independente o suficiente para viver só. E mudou-se para um
pensionato. Morou sozinho, trabalhava com uns amigos. Morando no
centro, Alípio divertia-se muito nos fins de semana. Ele conta, saudoso,
que não havia nem metade dos perigos de hoje. Podia caminhar nas
ruas até tarde: “Não tinha violência, a gente andava tranquilo”. Porém,
ele conta que, se era bom viver sozinho, sair com os amigos e divertirse muito, havia o outro lado: Alípio não tinha muito controle sobre o
dinheiro que ganhava e muito menos como o gastava. “Era boa a vida
de solteiro. Mas, não tinha futuro nenhum. Tudo que você pegava,
gastava”. Ele assume que era menos responsável. A maturidade e
estabilidade vieram quando, aos 22 anos, Alípio casou-se.
Antes de se casar, Alípio já tinha encontrado sua profissão. Aos
15 anos começou como autônomo. “Eu fazia de tudo um pouco”, conta.
Ele fala que naquela época não tinha problema um menino de 15 anos
trabalhar ou mesmo morar sozinho: “As coisas eram diferentes”.
Trabalhando como autônomo teve a oportunidade de conhecer a
profissão de encanador. Assim, começou na atividade que exerceu por
muitos anos.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Antes de trabalhar na UEL, Alípio já tinha trabalhado em outras
empresas de Londrina, o que facilitou sua aprovação no concurso
para trabalhar na Universidade, em 1990. Prova teórica e prática, foi
aprovado e começou a exercer a sua função.
Nos primeiros anos trabalhou sem problemas. Com o tempo
vieram as dores, muitas dores. “Eu não aguentava andar. A minha
perna (esquerda) ficou mais curta que a outra. E eu não conseguia mais
esticar. Os pés inchavam”. Alípio conta que faltavam os equipamentos
de proteção e, em decorrência desse fato, adquiriu uma doença
chamada artrite crônica. Como as dores eram muitas, Alípio não
podia mais trabalhar como encanador. Então, passou a trabalhar na
área burocrática: “Eu mexia com orçamento, com as papeladas. Fazia
orçamentos, solicitações. Distribuía serviço quando o chefe não estava.
E acompanhava a execução de algumas tarefas no campus”. Alípio conta
que mesmo esses serviços mais leves lhe causavam muito sofrimento.
Ainda assim, trabalhou por oito anos, até se aposentar. “Foi uma vida
muito difícil até o médico entender que eu não tinha mais condição de
trabalhar. Eu travava tudo, os ombros, as mãos, os pés”. Alípio está aposentado há três anos, por invalidez. Já passou
por cirurgias e internações. Esteve por um tempo impossibilitado de
andar e por pouco não entrou em coma. Hoje está melhor. E vive com
restrições impostas pela doença. “A vida nunca mais vai ser normal”.
Os remédios têm um preço alto, mas são garantidos pelo governo.
Um alívio, já que não pode ficar sem eles. Ele fala que nem sempre foi
assim, já gastou muito com remédios.
Alípio tem muitas lições para ensinar. Apesar das dificuldades,
não perdeu a alegria de viver. E como disse um sábio: “Quem canta os
males espanta”. Alípio conta. No tempo em que era moço e se divertia
nas noites londrinenses, Alípio cantava nos bares. Hoje, alegra os
ambientes que frequenta, mas cantar mesmo só para os amigos. “Só
quando morrer eu vou parar”, afirma.
Léia Dias Sabóia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Almerinda Ferreira Duarte “Eu estava me arrumando para ir viajar
para a praia quando me chamaram.
Minha nora falou: ‘A senhora não vai para
a praia mais não. A universidade falou
para a senhora estar lá amanhã, às nove
horas’. Era para eu estar às nove horas do
dia nove de março e eu fui, muito feliz.”
Assim, em 1994, começava, na UEL, a
história de Almerinda Duarte. Os doze
últimos anos em um emprego registrado,
antes da aposentadoria, encerram um ciclo
de muito trabalho e dedicação à família.
Nascida em Sapucaia, no Rio de Janeiro, Almerinda mudou-se
para Além Paraíba, em Minas Gerais, com 11 anos. Nove anos mais
tarde chegou à Londrina. Aqui ela criou os filhos, trabalhando muito
em grandes hotéis e lojas de roupas. Olhando para trás, Almerinda
acredita que naquela época era mais fácil encontrar trabalho. “Ganhei
meu filho; criei ele trabalhando, mas era difícil financeiramente. A
gente trabalhava muito e ganhava pouco”, relembra.
Atraída pela estabilidade do emprego público e incentivada pelos
filhos, Almerinda prestou um concurso para trabalhar na UEL como
auxiliar de serviços gerais. No dia 23 de março de 1994 começou a
trabalhar no Hospital de Clínicas (HC) da Universidade, inaugurado
em 18 de maio do mesmo ano. “Eu entrei lá e o HC não tinha nada, era
novinho. Nós que lavamos para inaugurar”, explica.
No hospital, Almerinda trabalhou durante oito anos na clínica
de oftalmologia e, posteriormente, no Setor 4, onde passou a contar
com um ajudante, por causa de problemas na coluna. Após quase treze
anos trabalhando para a Universidade, precisou se aposentar por causa
deste problema de saúde. Além disso, Almerinda já havia completado
65 anos de idade e 30 de carteira assinada. O dia 10 de novembro de
2006 marca o seu último dia de trabalho na UEL. “Eu chorei muito
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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quando saí, sofri muito, fiquei doente, quase entrei em depressão. Pedi
para voltar, mas a minha chefia falou que não, que quem aposentou
tem que sair, não pode voltar. Mas agora já acostumei, graças a Deus
estou bem”, relembra.
Assim que saiu da Universidade, Almerinda pensou em buscar
um novo emprego, mas não levou a ideia adiante. Hoje, após 46 anos
de trabalho, dedica-se ao serviço doméstico e principalmente à família,
“muito unida e muito bonita”. Almerinda se separou do marido quando
os filhos ainda eram bem pequenos e trabalhou muito para criá-los
sozinha. Aos 14 anos todos começaram a trabalhar para ajudar nas
despesas. A família cresceu e hoje Almerinda tem quatro filhos, cinco
netos e dois bisnetos.
Nesta vida marcada por lutas e conquistas, a UEL tem um lugar
especial. Almerinda mantém contato com os colegas de trabalho, que,
como muitos outros amigos de outros empregos, já fazem parte de sua
história. “Com meus colegas de trabalho eu nunca tive problema. Até
hoje nós nos damos muito bem, nós nos falamos por telefone, toda vez
que nos encontramos a gente se abraça, adoro minhas amigas, gosto de
todos lá, não tenho queixa de nada, nunca tive”. Com o mesmo carinho
que reserva aos amigos, Almerinda emociona-se ao expressar o que o
emprego na UEL representou em sua vida. “Eu sou muito feliz, graças a
Deus. Eu passei muita tristeza financeiramente quando eu cheguei em
Londrina, com meus filhos pequenos, mas eu tive muitas recompensas.
Deus foi maravilhoso para mim e me deu essa benção desse emprego.
Então eu sou muito feliz, muito feliz mesmo”.
Rosane Mioto
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Altino Bispo de Oliveira “Com a mudança das leis, a Universidade
se transformou em uma instituição que não
pode ficar com funcionários sem estudos.
Essa oportunidade que a UEL oferece vem
nos tirar do buraco. Acredito que vai chegar
um tempo em que para trabalhar aqui se
precisará ter pelo menos um grauzinho de
estudo”.
O depoimento do pedreiro Altino Bispo
de Oliveira ficou registrado no livro do
Programa de Ação Educativa para Adultos,
publicado pela UEL e cujo título, “Um
Grauzinho de Estudo”, nasceu de seu texto. Analfabeto, Altino não
se conformava por não poder receber o pagamento com a assinatura
do nome, mas carimbando o polegar no papel - situação de outros
colegas também. Quando a universidade disponibilizou uma classe
de alfabetização para seus funcionários, Altino teve a chance de
aprender a ler e escrever. Infelizmente, o glaucoma não permitiu que
ele continuasse.
Apesar disso, Altino não perdeu o bom humor e foi entre muitos
sorrisos que nos contou sua história. Nascido em Ruy Barbosa, na
Bahia, chegou à Londrina em 1951. Sempre exercendo a atividade de
pedreiro, Altino trabalhou em duas construtoras até chegar à UEL. Em
novembro de 1980 começava uma história que deixou muitas obras – e
muitas amizades – espalhadas pelo campus.
Contratado por indicação de colegas dos outros empregos pelos
quais havia passado, Altino sempre se empenhou muito - e muito bem.
Ajudou a construir vários prédios no campus, como a sede do TAM o antigo Departamento de Tecnologia de Alimentos e Medicamentos.
Certa vez, a equipe de obras da universidade foi convocada para
construir um prédio de dois pavimentos - próximo ao TAM -, porque
nenhuma construtora aceitava a obra, por causa do apertado prazo de
entrega de 55 dias. Junto com a equipe, Altino trabalhou dia e noite
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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e, assim, conseguiram entregar o prédio antes do prazo final. “Eles [a
equipe da UEL] davam janta para nós e levavam todo mundo em casa
para dormir umas duas horas e voltar no outro dia. Às oito, nove horas
tinha que estar lá”, recorda.
Em dias normais, quando não havia um curto prazo de entrega,
Altino trabalhava das oito da manhã às cinco da tarde, de segunda a
sexta. Por causa do capricho, era muito requisitado para os serviços
que eram solicitados na prefeitura do campus. “Só dava eu! Às vezes
mandavam outro e ‘não, não quero fulano não, quero o seu Altino’”,
diverte-se. A esposa Ademália explica: “Ele era muito obediente. Os
serviços que os outros que já estavam lá há mais tempo não queriam
fazer ele fazia”. Tanta dedicação fez com que Altino deixasse a UEL como
um funcionário exemplar. “Dos anos que eu trabalhei na universidade
eu não tive nenhuma falha, nem me acidentei. E não teve uma pequena
reclamação de mim lá dentro da UEL. Eu tirei nota cem!”, relembra,
sempre sorridente. Aposentou-se em 1997.
O relacionamento com todos que frequentavam o campus
sempre foi bom. Para Altino, os estudantes e professores são sempre
“bacanas”. Além disso, a aposentadoria não o separou dos colegas de
trabalho, que até hoje ele visita. Mas Altino explica: “Se eu for com
pressa nem preciso ir, porque eles não deixam eu sair. Graças a Deus
eu deixei muitas amizades lá”. Então foi bom trabalhar na UEL, seu
Altino? “Uma beleza! Dos três empregos que eu tive aqui nenhum tem
defeito, mas em primeiro lugar eu fico com a universidade”.
Rosane Mioto
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Amadeu Artur Em 1971, ano em que a Universidade
Estadual de Londrina foi reconhecida,
Amadeu Artur começou a trabalhar
como servente no antigo Hospital
Universitário. Depois, o funcionário
passou para a construção civil na
UEL. Neste setor ajudou a construir a
reitoria e o centro esportivo.
Quando veio para a construção do
prédio que seria a reitoria, lembra
Artur, só havia a clareira, ou melhor,
ainda não havia nada. No lugar
eles chegaram a cultivar milho, por
exemplo.
O funcionário não se esquece do dia em que recebeu o primeiro
pagamento. O salário veio em cheque e ele recebeu em uma escada
no Centro de Ciências Biológicas (CCB), perto da antiga CAE
(Coordenadoria de Assuntos Estudantis).
Do tempo em que trabalhou na Universidade, o funcionário
guarda muitas recordações, como de quando, para construir o CEFE
(Centro de Educação Física e Esporte), tiveram que puxar uma
mangueira como aquelas de quintal desde o CCB.
Para resolver o problema da falta d’água no centro esportivo,
os pedreiros da Universidade cavaram um poço artesiano de quatro
metros de diâmetro. Cavaram até encontrar água, mas logo depois o
abastecimento da UEL deixou de ser dos poços e passou a ser de água
do rio Tibagi – que fica armazenada na caixa d’água perto do calçadão
na altura do CECA de madeira.
Em 1974 a CAE estava precisando de um auxiliar de serviços
gerais. “Então o mestre de obras, o Zezito, me mandou para lá. Era
para ser por alguns meses, acabei ficando três anos”, lamenta. Naquela
época, tinha que trabalhar também aos sábados.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Artur conseguiu “com muito custo” que o mandassem fazer o
mesmo serviço em uma obra na prefeitura do campus. Mais tarde o
funcionário ocupou-se de outra forma: fazendo ferramenta para os
pedreiros da UEL.
Naquele tempo a Universidade fornecia as ferramentas para os
pedreiros e Amadeu ficou responsável pela confecção, para que eles
sempre tivessem os instrumentos de trabalho adequados.
Na oficina ele também tinha a função de fazer telas. As telas,
confeccionadas em uma máquina própria, eram utilizadas nas
lixeiras, no Hospital Veterinário e até hoje podem ser encontradas nos
alambrados do Centro de Educação Física e nas divisas da UEL.
A experiência na construção ajudou-o a trabalhar no mutirão de
construção de casas do bairro em que mora e lá conseguiu uma casa.
Neste mutirão acabou conhecendo a esposa com quem está há 16 anos
e que também trabalha na UEL.
Amadeu se aposentou da UEL em 1998. Agora, ele conta que ajuda
em casa. “Eu lavo roupa, faço janta”, diz o funcionário aposentado.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Ana Carolina Santini O sotaque denuncia logo no primeiro
contato que Ana Carolina Santini
não é brasileira. Mais uns minutos
de conversa e já é possível identificar
o jeitinho brasileiro de falar. No
entanto, em alguns momentos, as
línguas se misturam. E o português
não dá conta de traduzir todas as
informações. Aí vem uma série de
palavras resultantes da combinação
de dois idiomas, aos leigos, parecidos
entre si, mas que na realidade,
guardam muitas diferenças. O importante mesmo é saber que o produto
final é totalmente compreensível ao interlocutor.
Ana Carolina é natural do Uruguai. Nasceu na cidade de
Taquarembó, a 100 km da cidade brasileira Santana do Livramento,
na fronteira do país. A menina camponesa, como ela mesma se define,
viveu a infância com a família no meio rural. Foi essa fase de sua vida
que determinou o seu futuro profissional.
Ana Carolina começou a fazer o curso de Serviço Social na capital
de seu país, Montevidéu. Simultaneamente cursava Belas Artes.
“Chegou o terceiro ano, e Serviço Social demandava muito, tive que
optar por uma das duas profissões. Optei por Serviço Social, achava
que eu me devia mais a população, a melhoria e o bem-estar, lutar um
pouco pelos direitos que a parte do belo, do artístico”.
Depois de concluir o curso, prestou concurso público, trabalhou
no Ministério do Trabalho e na Universidade. Ainda no Uruguai fez
mestrado. Ela conta que os anos 1960 foram complicados politicamente:
“De fato havia intervenção dos órgãos públicos e o Serviço Social,
principalmente, era muito perseguido”, relembra.
Duas décadas se passaram e Ana Carolina veio para o Brasil,
em 1979. O primeiro lugar onde esteve foi no interior do estado de
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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São Paulo. Não se passou muito tempo até ser convidada para vir a
Londrina: “Eu achei a cidade fantástica”. Em 1981 começou a trabalhar na UEL. “Entrei para o Departamento
de Serviço Social. Como eu havia atuado muito no Uruguai com
populações rurais, trabalhei com projeto de extensão por seis anos”. O
projeto era realizado nos distritos de Paiquerê e Guaravera. O objetivo
era criar um canal de comunicação entre os conhecimentos produzidos
na Universidade e a população. Sempre respeitando a cultura e os
valores da comunidade. Uma grande equipe interdisciplinar promovia
ações de desenvolvimento social e trabalhava conceitos de cidadania,
com o método de Paulo Freire.
Dentro do projeto existiam outros subprojetos, como o que era
realizado com os boias-frias em Guaravera, cujo um dos objetivos era
abrir caminho para o agrônomo: “Para que não parecesse ‘o menino
da cidade que vem com seus conhecimentos para uma pessoa que não
sabe nada’”.
Esse cuidado especial que Ana Carolina tem com a população
rural foi herdado dos tempos da infância. “Nasci no meio rural. Eu via
as dificuldades. Por isso me dediquei a essa parte do campesinato, o
universo rural para mim era muito conhecido. Eu queria compartilhar
os conhecimentos”. Ela relembra que aqui no Brasil também foi difícil
trabalhar com o método de Paulo Freire, justamente, por questões
políticas. O país ainda estava em processo de redemocratização. “Tudo
era aos poucos, devagar, tinha que tomar cuidado”.
Depois, Ana Carolina fez doutorado na USP. O tema de sua
tese veio da própria experiência no projeto. “Eu havia percebido, nos
últimos tempos, que a gente competia muito com a televisão. As pessoas
não queriam vir nas reuniões por causa da novela, se falava mais em
novela”. Ana Carolina analisou, por meio da Semiótica, a influência que
a mídia exercia sobre a população rural. Fez pós-doutorado, escreveu
um livro, ganhou bolsa de pesquisa no CNPq (Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico).
Os anos passados na Universidade faz Ana Carolina refletir: “A
UEL era uma pequena comunidade. As relações eram diferentes entre
os professores. O café era comum. Depois foi crescendo, crescendo (...)
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Hoje é uma grande cidade e não se conhece mais. Tudo é individualizado.
É a modernidade, mas, isso cria uma Universidade mais fria”.
Aposentou-se há menos de um ano. “Estou de férias”, brinca.
Mas isso não significa não fazer nada. Pelo contrário. Embora tenha
deixado o curso de Artes, Ana Carolina nunca abandonou a área.
Continuava pintando e esculpindo. E o hobby, por acaso, tornou-se sua
nova profissão.
De posse de uma câmera fotográfica digital, em frente a belas
flores e com muita sensibilidade, ela descobriu uma nova forma de
fazer arte. Com a ajuda de um programa de computador, as flores
são transformadas em mandalas. “A mandala é o átomo. O átomo
tem essa forma e se você separa (...) é a própria unidade. E tem lei
matemática, física”, explica. Posteriormente, essas imagens artísticas
são emolduradas e transformam-se em quadros, bolsas e luminárias. “Eu admiro a flor, porque a flor nasceu de uma semente, que você
tem que esperar, passa por tantas situações, nasce do próprio estrume
e depois nasce aquela coisa maravilhosa”, fala, orgulhosa da matériaprima de seu trabalho. E faz com que cada um seja único: “A flor não
será a mesma, o ângulo de sol não será igual, a cor também não”.
Léia Dias Sabóia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Ana da Silva Stuqui
Ana da Silva Stuqui entrou para a zeladoria
do CCE dia 14 de setembro de 1982. Antes, ela
costurava e trabalhara um ano em uma fábrica.
Já tinha pensado em prestar o concurso na
UEL, mas contaram para ela que tinha que
ficar sem roupa para o exame médico, o que
levou Ana a adiar a decisão. Na verdade ela
não precisou ficar nua na frente do médico e
entre 115 mulheres foi escolhida.
Ela conta que seus anos na Universidade
foram maravilhosos, que os professores do
Departamento de Física, em que trabalhou
desde o terceiro ano, sempre gostaram dela.
Mas Ana trabalhou muito. Limpava os banheiros duas vezes ao
dia, o corredor, fazia o café duas vezes e fazia pão de leite, bolo e bolacha
para os professores. E os alunos passavam e comentavam “hum... mais
que cheiro tia”.
Ela é natural de João Ramalho (SP), e veio para Urai com seis
anos de idade. Também morou em Rancho Alegre antes de se mudar
com o marido para Londrina. Eles sempre moraram no Jardim Tókio e
de lá Ana caminhava para a UEL antes do expediente.
Quando ela entrava ao meio-dia, passava a manhã costurando
para complementar o orçamento. Depois começou trabalhar de manhã.
Vinte e dois anos na UEL quando ela se aposentou. A coluna doía
e assim que parou começou a cuidar do marido, o porteiro aposentado
Hermes Stuqui. O casal tem três filhos, um de criação.
Depois da aposentadoria, além de ficar com o marido, Ana cuida
da casa, dos netos e do jardim. A funcionária também aproveita para
ler, atividade que sempre gostou. “Eu não estudei muito, mas sou
sensível e guardo as matérias que gosto”.
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Enfermagem: uma paixão
A enfermeira e professora Ana Irma Rodrigues ainda demonstra,
aos 71 anos, a força e o amor que a impulsionaram para estudar,
praticar e ensinar sua grande paixão: a enfermagem
No final da década de 1930, nascia em
Sertanópolis uma menina que no futuro
mudaria os rumos da enfermagem no
cenário nacional. Desde a infância, Ana
Irma Rodrigues chamava atenção pela
inteligência e aplicação nos estudos
e, por isso, fez nascer em seu pai o
sonho de vê-la formada em medicina.
Durante muito tempo, o veemente
incentivo não a deixou imaginar outro
ofício. Entretanto, após a mudança para Curitiba em busca de realizar
este desejo, um encontro inusitado desviou o caminho da jovem
estudante que se tornaria a primeira enfermeira formada do norte do
Paraná e uma das responsáveis pela criação do curso de enfermagem da
Universidade Estadual de Londrina, pioneiro na região. Sua atuação na
área da saúde é extensa, assim como sua batalha pela humanização dos
serviços prestados aos pacientes. Se, por um lado, a carreira escolhida
não foi a estimulada pelo pai, o orgulho proporcionado, sem dúvidas
não foi menor.
A simpática senhora que nos recebe na ampla e aconchegante
sala de estar do apartamento onde vive hoje ao lado da mãe marcou
para sempre seu nome na história da saúde do Brasil. Sem deixar o
sorriso cativante se apagar de seu rosto, nos conta como tudo começou:
“Éramos dez irmãos, cinco homens e cinco mulheres. Nosso primeiro
lar foi numa casa de palmito e teto de tabuinhas. Iniciamos os estudos
na escola rural, mas meu pai fez questão que estudássemos na cidade
para ter uma melhor formação. A partir do quarto ano primário, viemos
estudar no Colégio Londrinense em regime de internato”.
Ao encerrar o curso científico (ensino médio) no tradicional
colégio de Londrina, foi para Curitiba, onde se encontrou, por acaso
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
21
com uma colega da escola. Pensativa, ela explica que esta coincidência
mudou seus planos, às vésperas do vestibular: “Esta colega já estava
fazendo enfermagem e me convidou para fazer também. Não sei bem
por que, mas acabei aceitando o convite. Fiz o vestibular, passei e
gostei”. A princípio, a notícia causou nos familiares um espanto do qual
jamais irá se esquecer: “Ninguém entendia porque eu tinha escolhido
aquela profissão desconhecida, sem status nenhum e carregada de
preconceito”.
Felizmente, a jovem aspirante a enfermeira não se deixou
influenciar pela desconfiança inicial. Dedicou-se ao máximo à
formação e já se destacava em sua turma na Escola de Enfermagem
Madre Léonie, da Universidade Católica do Paraná, única a oferecer o
curso dentro do estado à época. Neste período encontrou a afinidade
com área de cirurgia, que permearia toda sua carreira profissional.
Os primeiros passos
Recém-formada, regressou a Londrina já com emprego
assegurado, garantia que o diploma favoreceu. “Comecei a trabalhar
no Hospital Modelo, que ainda era pequeno, mas tinha a pretensão de
crescer. Fui contratada para organizar o centro cirúrgico deles”. Em meio à realidade bastante precária comum aos hospitais
naquele tempo, a enfermeira não teve descanso nos primeiros anos de
profissão: “a assistência de enfermagem era mais de 90% exercida por
‘práticos’ de enfermagem [pessoas sem qualquer formação na área].
Essa situação obrigava as irmãs e a mim a cumprir longas jornadas de
trabalho, pois não havia a quem delegar tarefas de maior complexidade”,
explana. As irmãs estavam locadas na Santa Casa [Hospital Santa Casa
de Londrina] e Ana Irma, no Hospital Modelo, e posteriormente no
Hospital Evangélico [de Londrina].
A carência de profissionais qualificados era problema constante
nestes tempos. Ana Irma comenta que o panorama só começou a se
modificar a partir da fundação da Faculdade de Medicina do Norte do
Paraná, que aumentou a demanda por enfermeiras. No mesmo ano em
que a instituição começou a funcionar, ela foi contemplada com uma
bolsa da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
22
Superior) e cursou na USP (Universidade de São Paulo) a especialização
em chefia e assistência de enfermagem na unidade de centro cirúrgico.
Ao longo do curso, começou a desenvolver despretensiosamente suas
habilidades de professora. Por já possuir alguns anos de prática,
auxiliava os mestres na orientação das colegas que não possuíam a
mesma vivência.
Com o título de especialista, retornou a Londrina e foi contratada
pela Santa Casa para chefiar, ao lado da irmã Sílvia Esteves, companheira
da especialização, o centro cirúrgico do hospital e ministrar aulas no
curso de auxiliares de enfermagem da Instituição, seu primeiro emprego
como professora. Ana Irma ainda não sabia que o magistério seria uma
das muitas missões de sua vida e fala com carinho do início nas salas de
aula: “Foi muito bom, porque, até o curso de especialização, eu nunca
tinha pensado em dar aula, achava que não tinha jeito para isso”.
Antes de mergulhar de cabeça na vida acadêmica por meio da UEL,
a enfermeira ainda atuou no Hospital Evangélico, onde participou de
momentos importantes da medicina de Londrina. Em 1969, integrava
a equipe que realizou a primeira cirurgia cardíaca extracorpórea da
região. “Vencemos as deficiências de pessoal e material e organizamos
a assistência de enfermagem capaz de sustentar o êxito dessa cirurgia.
Ainda não existiam as unidades de terapia intensiva (UTI), portanto,
eu improvisei num quarto o ambiente próprio para a recuperação do
paciente”, gaba-se.
O curso de enfermagem na UEL
No início dos anos 1970, com quase dez anos de carreira
profissional, a enfermeira recebeu mais um convite importante.
Conhecida por sua ampla e competente atuação nos principais
hospitais da cidade, Ana Irma já havia conquistado a confiança
da maioria dos médicos com quem trabalhou. Um deles, o doutor
Ascêncio Garcia Lopes, primeiro reitor da recém-fundada UEL. Foi
ele que fez a “convocação” para ela organizar o curso de enfermagem
na Universidade. Com um semblante que certamente lembra a sua
surpresa à época, Ana Irma se recorda: “Eu não imaginava dar aula na
Universidade, muito menos organizar o curso! Mas aqueles médicos
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
23
que me conheciam, principalmente os cirurgiões, como o doutor
Ascêncio, me chamaram. Eu e mais uma colega, a Diva Cristóffoli,
fizemos a entrevista com ele e fomos contratadas imediatamente”.
O contrato foi sinônimo de muito trabalho, o que não desanimou
a brava enfermeira, acostumada a vencer desafios. A lembrança é
certamente agradável: “Foi bárbaro! A gente trabalhava sábado,
domingo, de dia e à noite. Éramos só nós duas para fazer tudo, mas era
bom”. Para assumir tamanha responsabilidade, ela passou a se dedicar
exclusivamente à UEL, tanto como docente quanto como profissional,
no Hospital Universitário da instituição (HU), chefiando o centro
cirúrgico.
Inicialmente ocupadas com as questões administrativas para
implantação do curso, as duas enfermeiras eram também as únicas
professoras da Instituição a princípio. De acordo com o avanço da
primeira turma de enfermagem para as séries seguintes da graduação,
novos professores foram contratados gradativamente. Mas Ana Irma,
que também lecionou para o curso de medicina, não deixou mais as
salas de aulas até se aposentar. Grande parte dos alunos tornava-se
colegas de trabalho posteriormente e, assim, mantinha o vínculo com
a maioria deles. “O relacionamento com os alunos era ótimo. Eles
eram muito próximos, procuravam a gente, pediam ajuda, sabiam que
estávamos ali o tempo todo à disposição. Muitas vezes nós passávamos
a tarde inteira estudando juntos, ensinando algum aluno que tinha que
instrumentar no dia seguinte, por exemplo. Era um ambiente que eu
gostava muito e sinto falta”, recorda-se.
O mestrado – a cirurgia no Brasil antes e depois de
uma tese
Sempre preocupada em aprimorar sua formação, depois de
ingressar na UEL, Ana Irma conseguiu outra bolsa de estudo da CAPES,
desta vez para realizar seu mestrado na USP. “Graças à oportunidade
dada pela UEL e a CAPES, tive o privilégio de ser aluna do primeiro
curso de mestrado do Brasil e a primeira mestre em enfermagem no
Paraná”, diz com gratidão. Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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A pesquisa foi a contribuição mais expressiva da mestra para
a área de enfermagem. O objetivo de Ana Irmã era contribuir para
melhorar a qualidade de atendimento aos pacientes no período
trans-operatório, como ela própria elucida: “A minha tese era sobre a
percepção e opiniões dos pacientes durante o transoperatório, ou seja,
desde quando entram no centro cirúrgico até o momento em que saem.
Como eles se sentiam naquele ambiente? Como ouviam o que era falado?
Isso tudo eles me contaram. Entrevistei mais de 400 pacientes”. Para
realizar o estudo, ela entrou em contato com anestesistas dos Hospitais
Evangélico, Santa Casa e HU e pedia que eles não aplicassem anestesia
geral nos pacientes. Acordados, mantinham a percepção durante toda
a cirurgia e, assim, tinham condições de relatá-la posteriormente.
Os resultados, surpreendentes para as equipes médicas da época
que não se atentavam à percepção do paciente durante a cirurgia,
revolucionaram a assistência aos pacientes nos centros cirúrgicos do
país. “A minha dissertação, graças a Deus, fez muito sucesso, porque
antes não existia nenhum estudo nessa área. Hoje, toda a assistência
no centro cirúrgico é mais humanizada: os anestesistas, por exemplo,
começaram a fazer as visitas pré-anestésicas, que não faziam antes.
Este trabalho foi um marco, muito citado em bibliografia não ficou só
aqui no Paraná, foi para todo o Brasil”, orgulha-se.
O maior amor
Durante os 35 anos no exercício da profissão, Ana Irma passou
seus melhores momentos. Graças a ela conquistou tudo o que tem e é
a pessoa feliz com quem conversamos hoje, que declara satisfeita: “Eu
não me realizaria em outra profissão. Trabalhei, ensinei, vivi e respirei
enfermagem”.
O casamento e filhos, que nunca vieram, foram os hospitais,
uniformes, instrumentos, plantões, cirurgias, pacientes, livros,
laboratórios e alunos. E preencheram com toda a propriedade o espaço
em seu coração. “Eu trabalhei muito, mas tinha tempo para me divertir,
não me faltou nada: fui a bailes, festas, dancei e tive vários amores, que
me alegraram, mas ficaram no passado. Não me casar foi uma opção:
eu não quis e não me arrependo, escolhi minha carreira profissional”,
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
25
afirma contundente. A alegria radiante e sincera que vem de seu rosto
não permite duvidar.
A vida familiar, contudo, nunca deixou de ser importante
para Ana Irma. Ela faz questão de destacar a presença constante e
fundamental dos pais, irmãos e mais tarde sobrinhos e sobrinhosnetos. É fácil constatar o forte elo que mantém com os familiares ao
observar a estante da sala repleta de fotografias destas pessoas especiais
em sua vida. “Eu sempre falo dos meus pais com muito respeito. Eles
tinham pouco estudo, mas não mediram esforços para que os dez
filhos estudassem e escolhessem suas profissões. Serei eternamente
grata a eles. Meus irmãos foram companheiros e hoje me alegro com
os sobrinhos e sobrinhos-netos”, emociona-se.
A rotina agitada e atarefada foi amenizada em 1995, quando
decidiu se aposentar, apesar dos apelos contrários de seus colegas da
UEL, como explica: “Resolvi parar porque percebi que havia chegado
a hora. Eu não tinha mais o vigor de antes, não conseguia mais
trabalhar com a mesma energia. Além disso, sentia que os tempos
haviam mudado. As coisas não eram mais como no começo, quando
todos se dedicavam mais, com mais amor e entrega pelo trabalho.
Muitos colegas pediram para eu ficar, mas sabia que o melhor era me
aposentar”. Depois do afastamento ainda retornou ao HU no ano 2000,
para organizar o laboratório para o novo currículo do curso de medicina
e acabou estendendo a atividade por mais três anos, quando deixou o
trabalho novamente. Hoje não perdeu o vínculo com o pessoal da UEL:
eventualmente dá palestras sobre a profissão, é convidada frequente
das festas realizadas e visita o HU para passear e rever os amigos.
E o que fazer para preencher todo o tempo que passava na UEL?
“Isso aqui”, responde, apontando para os diversos quadros nas paredes
de sua casa. “Eu sempre tive vontade de pintar, mas não sobrava tempo.
Depois que me aposentei, conversei com uma professora de pintura
numa exposição em um shopping e comecei a ter aulas com ela. Nunca
mais parei, é ótimo, uma terapia para mim”, garante. O talento para
as artes é encantador e a enfermeira revela que já é antigo: “Fiz teatro
durante muito tempo, desde criança na escola até os primeiros anos
de profissão. Às vezes penso em voltar, mas acho que não saberia mais
decorar os textos”, diz entre risos.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
26
Se é possível esperar mais vitórias e realizações na vida, Ana Irma
espera. A enfermeira que dedicou a vida a ajudar as pessoas com seu
trabalho planeja participar de projetos sociais para prosseguir nesta
missão. E esbanjando saúde e vitalidade, desfruta com grande prazer
a sua nova rotina entre telas, pincéis, a companhia da mãe e visitas
animadas dos sobrinhos-netos. Serena, tranquila e, acima de tudo,
feliz, muito feliz!
“O Portal do Servidor Aposentado da UEL é uma oportunidade
para que, como enfermeira e professora aposentada desta Instituição,
eu possa deixar parte de minha história registrada nas páginas da
Universidade. Quando escolhi a enfermagem, não fazia ideia de sua
grandeza. Não considerava a profissão um sacerdócio, e sim a busca
de um meio legítimo e gratificante de ganhar a vida, e o anseio de
ser útil. Exerci a enfermagem com a certeza de que não poderia me
realizar na profissão se não buscasse constante aprimoramento. Por
isso fiz os cursos de pós-graduação ofertados na época. E me extasiava
com as novas metodologias de ensino e assistência de enfermagem.
Trago no coração professores como a saudosa enfermeira doutora
Wanda de Aguiar Horta, que me ensinou que “enfermagem é gente que
cuida de gente”. Faz parte de minha vida, a lembrança de excelentes
profissionais, médicos e médicas, que partilharam comigo saber,
amizade e respeito profissional. Na profissão conquistei verdadeiras
amizades. Vários colegas marcaram indelével minha vida, entre os
quais tomo a liberdade de citar: Vanda Jouclas, Vilma Valielo, Diva
Aparecida Cristóffoli, Sonia de La Torre Salzano, Circe de Melo
Ribeiro, irmã Sílvia Esteves, Zoé Maria Lima, Lucilia Monti Magalhães,
Oswaldo Yokota, entre outros e tantos!”
Janaína Castro
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
27
Ana Maria de Arruda Ribeiro Ana Maria de Arruda Ribeiro é natural de
Campinas (SP). O pai era bancário e por
conta do trabalho mudou-se várias vezes de
cidade. No entanto, a transferência para a
cidade de São Paulo foi a que mais deixou
recordações para Ana Maria.
O ano era 1960, São Paulo era uma cidade
tranquila. “Logo que meu pai comprou o
primeiro carro, ele dormia na rua. O local
onde a gente morava foi um dos primeiros
prédios de apartamento. Naquela época
nem se pensava em ter garagem. Lembro
que o nosso primeiro carro foi um fusca que, logicamente, ficava lá em
baixo, na rua. E não tinha problema. Hoje falar isso é inacreditável.
Morei lá até 1970 e nunca aconteceu nada.”
Para Ana Maria esses anos foram inesquecíveis, pois presenciou
a história de uma geração. “Vivenciei a época da jovem-guarda, passear
na Rua Augusta. Eu tive essa oportunidade. Convivi com Sérgio Reis,
estudávamos na mesma escola. Os Vips, a Silvinha, Eduardo Araujo”,
relata, saudosa.
Da nostalgia dos tempos idos, a conversa ganha outro enfoque.
Ana Maria fala com amor da profissão que escolheu para si. “Sempre
quis ser professora. Desde quando terminei o ginásio (hoje ensino
fundamental). E eu gostava de exatas, então pensava sempre em me
direcionar para essa área, porque eu queria ensinar. Quando estava
no científico (hoje ensino médio), já dava aulas de matemática,
física. Depois comecei a fazer Agronomia e continuei dando aulas
particulares”.
O maior orgulho de Ana Maria é ter colaborado com a formação
de milhares de pessoas. Experiência, sensação que descreve como
“fascinante e gratificante”. Ela conta que sempre valorizou muito o
diálogo em sala de aula e que procurava ensinar não apenas o conteúdo.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
28
Tentava passar aos seus alunos lições de vida: “Tem que ter humildade
para reconhecer os erros; o respeito precisa existir em qualquer relação
humana”. Ela relata que sua sala sempre estava cheia: “Procurei ser
muito amiga dos meus alunos; aqueles que deixavam, porque têm os
que são mais reservados e nós temos que respeitar”. Em consequência
dessa atitude, Ana Maria não era mais só professora, passou a ser
amiga e conselheira: “Eles vinham falar comigo até sobre assuntos
particulares”, revela.
A professora conta que passou por situações difíceis com alguns
alunos. “Em alguns momentos você se decepciona. Mas, sempre parti
do seguinte princípio: a gente precisa guardar só os bons momentos”.
Os vários anos de profissão permitem que Ana Maria tenha um
olhar mais crítico sobre os alunos e jovens de hoje. Segundo ela, a
maturidade está chegando cada vez mais tarde. E a razões são as mais
diversas: “Talvez a palavra certa esteja com os pedagogos, psicólogos,
mas eu leio muito sobre o assunto. Os jovens são pouco cobrados
em relação à responsabilidade. Os pais, preocupados em prover, se
dedicam excessivamente ao trabalho e se esquecem da orientação. Não
é só dar o vestuário, a alimentação e o transporte, tem que conversar”.
Seguindo esse raciocínio Ana Maria educou sua única filha, da qual fala
com imenso orgulho. Outra preocupação que ela diz ter é o fato de que o “bichinho
da imaturidade” está acompanhando os alunos até mesmo na pósgraduação. Segundo ela, a pressão do sistema, dos pais, e a falta de
estrutura pessoal fazem com que alguns tomem rumos diferentes do
que pretendia para agradar outrem. E a consequência são profissionais
desmotivados: “Ou mesmo que seja um bom profissional, por dentro
não vai estar satisfeito. Quem vive no mundo de pesquisas e leituras,
imagina que não há nada além disso no mundo”, afirma.
Segundo ela, atualmente muitos veem a universidade como a
única entrada para o mercado de trabalho. “Nada impede que alguém
que não tenha esse perfil faça um curso técnico e se dê muito bem na
vida, ame sua profissão e seja um profissional com destaque”, garante.
Ana Maria foi a primeira mulher a obter o título de mestre em
Agro-Meteorologia no Brasil. Ela se formou na Escola Superior de
Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), em 1982. De posse do título foi
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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convidada a fundar o curso de Agronomia no estado do Amazonas. Lá
a paulista morou por seis anos. Depois de consolidado o curso e por
estar muito longe da família, com colegas que já trabalhavam na UEL,
veio a Londrina prestar o concurso.
Ana Maria faz questão de enfatizar o orgulho que sente da
Universidade. “Na UEL foi muito fascinante o trabalho. Em 1986 o curso
era relativamente novo. Os profissionais eram escassos. Foram 21 anos
de dedicação”. Quando a UEL implantou o curso de pós-graduação,
Ana Maria fez doutorado na Unesp. “Voltei e ainda colaborei com o
curso, lecionando, até a aposentadoria”.
Aposentada há apenas um ano, Ana Maria está aproveitando o
tempo livre. “Falei para a minha filha que, por um ano, só faço o que me
der vontade, ou seja, como quando tenho fome, durmo quando tenho
sono, passeio quando tenho vontade”, conta, dizendo que vai prorrogar
o prazo que vencerá em alguns dias.
Ana Maria pretende, mais tarde, dedicar suas horas livres aos
idosos. “As crianças são merecedoras, pois elas são o futuro. Mas,
na condição de aposentada, vejo o quanto o idoso é desrespeitado e
esquecido”.
Ela também quer continuar fazendo artesanato. E não para
por aí: “Outra paixão é a leitura, agora com todo o tempo do mundo.
Quando eu era menina, minha paixão pela leitura era tão grande, que
quando não tínhamos condições para comprar livros novos, ou já tinha
lido todos os livros da escola, meu livro de cabeceira era o dicionário,
ficava horas e horas lendo”.
Léia Dias Sabóia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Auxiliar do HU
A auxiliar de enfermagem Angelina Silva Gonçalves Baggio veio
para Londrina em busca de uma vida melhor, trocou um hospital
particular pelo Hospital Universitário e trabalhou lá até a
aposentadoria em 2003
Angelina é de Cruzeiro do Oeste,
norte novo do Paraná. “Lá não havia
opção de trabalho, minha irmã
trabalhava no hospital e a gente
aprendia fazendo”, lembra. Foi dessa
forma que começou a aprender como
se trabalhava em hospital, e chegou
a ser empregada na cidade vizinha,
Umuarama.
Em Londrina, Angelina fez cursos de auxiliar de enfermagem em
1984, no Colégio Londrinense, e de instrumentação cirúrgica no Senac.
Depois de atuar em um consultório de um cirurgião vascular, ela
começou a trabalhar no Mater Dei. “Eu era instrumentadora cirúrgica,
dava os materiais na mão do médico, conhecia todas as cirurgias”.
Com uma jornada noturna, foi possível prestar concurso para o
período matutino no Hospital Universitário em 1991. Depois de dois
anos, sobrecarregada com dois empregos, Angelina resolveu abrir mão
de um.
No HU, ela trabalhava na UTI 2, em que ficavam os pacientes com
mais riscos de contaminação. Angelina gostou da mudança na rotina.
Também havia sido implantada a jornada de 36 horas e 40 horas, como
ela fazia no outro hospital. Tudo isto levou a funcionária a optar por
continuar na UEL.
Ela passou a trabalhar à noite. A cada 12 horas cumpridas,
descanso de 36, e as folgas também podiam ser emendadas, dando até
para fazer algumas viagens. Em 2003, ela aposentou-se.
Até 2006, ela ajudava o marido a vender lanches. “Era muito
cansativo, mas era gostoso”. Angelina também começou a cursar
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
31
história na Unopar Virtual e teve que parar. Agora, terminou um curso
de seis meses de costura no Senai. Ela até recusou um emprego porque
a jornada era de oito horas diárias, incluindo os sábados. Mas ela
pretende aproveitar o que aprendeu no curso.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
32
O gosto por dar aulas
Anna Regina Jordão Ciuvalschi Maia, professora de
Administração da UEL, hoje usa seu conhecimento pedagógico na
atividade de evangelização
Na década de 1980 a carioca Anna Regina
Maia já pensava em deixar o Rio de
Janeiro. Era formada em Administração
pela Fundação Getúlio Vargas, trabalhara
nove anos como professora primária e há
15 estava atuando em empresas, a última
a Embratel. Na cidade grande em que
tudo era longe; ela costumava sair às 7
da manhã e voltar às 7 da noite. Quando chegava estava muito cansada
para brincar com suas filhas pequenas,
com seis e três anos. Encostada na cadeira e abrindo os braços Anna
simula como fazia com as filhas. “Eu só falava, vem cá ficar quietinha
com a mamãe. Eu estava tão cansada que só queria ficar quieta.”
Numa visita à irmã que morava em Londrina, Anna conheceu
a cidade, e resolveu morar aqui. Ela decidiu na hora em que chegou.
“Tinha gente que falava que eu ia sair do Rio para viver no meio do
mato, mas Londrina tinha tudo que eu precisava”.
O marido e o cunhado abriram uma mercearia, perto do Hospital
Mater Dei. Anna esperou as férias das filhas para vir. Quando chegou,
o cunhado não queria que as mulheres trabalhassem no negócio.
Resolvida a procurar um emprego, ela teve dificuldade por ser
mulher. Anna conta que alguns se entusiasmavam por seu currículo,
que incluía até um curso de mestrado – sem título, porque ela resolveu
não defender a tese: “coisa de jovem” – mas o fato de uma mulher
estar à frente de uma empresa mandando em homens era visto
com preconceito em Londrina. Com a experiência de magistério, foi
dar aulas no Senac. E lá ficou sabendo da Universidade Estadual de
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
33
Londrina. “No Senac me falaram, porque você não vai na UEL, você
tem até mestrado, experiência. E eu fiz o concurso”.
Em 1982, Anna Regina Maia começou a lecionar na UEL. O então
reitor, lembrava-se dela porque cursaram mestrado na FGV. Como a
professora, além de aluna, substituiu professores quando preciso e
chegou a trabalhar na Instituição, José Carlos Pinotti ofereceu para ela
a Diretoria de Pagamento na Coordenadoria de Recursos Humanos,
atual PRORH.
Mantendo uma disciplina no Departamento de Administração,
ela assumiu o cargo. Apesar da experiência anterior em administração,
Anna afirma que em empresas privadas tudo é muito diferente do que
é nos órgãos públicos. “Na primeira folha de pagamento que saiu, veio
metade da Universidade na minha sala reclamar”.
A professora conta que os 25 funcionários da Diretoria eram
responsáveis por verificar as folhas de horário de cada um dos mais de
mil professores da Universidade. Às vezes os professores deixavam de
assinar a folha. “Era um trabalho muito primário.”
A solução foi o controle por exceção, do qual Anna Maia fala com
orgulho, em que os funcionários do departamento eram responsáveis
por marcar, com códigos criados para cada situação, apenas o que estava
irregular: faltas, viagens, dispensa, por exemplo. Os departamentos
faziam isto e encaminhavam para a Diretoria. Segundo a professora
este modelo ficou por aproximadamente 10 anos em vigência na
Universidade.
Assim que a administração da UEL mudou, Anna perdeu o cargo
de confiança e voltou para o departamento. A professora conta que foi a
primeira a ser substituída e atribui isto ao fato de não ter sido afilhada
política de ninguém na Universidade. “O Pinotti só tinha me oferecido
o cargo porque me conhecia profissionalmente.”
No departamento a professora continuou a dar aulas até 1993,
quando completou 25 anos de serviço, o tempo exigido na época
para a aposentadoria. O divórcio, três anos antes fez com que Anna
ficasse meio desgostosa. “Não é fácil para ninguém” e ela resolveu
que precisava de tempo livre para se dedicar às atividades da Igreja
Católica, evangelizando.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
34
Anna Regina com seu sotaque de carioca faz piadas com o
magistério, comparando-o à cachaça, “se você tem vocação e começa
não quer mais parar”. E assim ela continuou dando palestras na Igreja,
usando aquilo o que ela aprendeu na prática ao longo dos anos.
Em 1996 começou a implantar a pastoral dos divorciados e casais
de segunda união em sua paróquia, “minha experiência valeu para
ajudar muitos outros”. E ela foi a outras cidades implantar a pastoral,
até ao interior de São Paulo.
A professora gosta da liberdade de ser aposentada. Com a maioria
da família no Rio de Janeiro, ela pode ir e ficar o quanto quiser. Uma
vez, lembra, foi em dezembro e voltou apenas em fevereiro.
O departamento da UEL chamava a professora aposentada
para fazer concursos ou entrar como substituta. Numa destas vezes
ela indicou a sua filha mais velha, que fora sua aluna na graduação
e que começou a dar aulas de Administração para o curso de Serviço
Social. Anna lembra que a filha foi homenageada pelos alunos, mesmo
não sendo do departamento deles e que agora leciona na Faculdade
Pitágoras. Sua outra filha, engenheira civil, também se formou na UEL.
“Minhas filhas são muito dedicadas, elas sempre me viram trabalhando,
acho que eu passei isto para ela”, diz Anna orgulhosa.
Até 2003 a professora assumiu alguns cursos no Sebrae, mas
resolveu sair porque seus exemplos “já estavam ficando velhos”. Há
dois anos Anna Regina começou a ajudar o irmão que tem uma empresa
de fundações em Salvador. Ele envia os dados por computador e ela
fica trabalhando. “Esse é o meu joguinho de computador”.
De 2000 a 2002 a professora frequentou o Curso de Assessores
Bíblicos em Curitiba e assim preparou-se melhor para a atividade que
escolheu após a sua aposentadoria. Desde então continua ministrando
cursos de evangelização em várias Paróquias da Diocese de Londrina e
na Escola Santo André. Poliana Lisboa de Almeida
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35
Antonio Carlos Moraes Neto “Eu adorava meu trabalho. É uma pena
que agora não posso trabalhar mais”. A
declaração é de Antonio Carlos Moraes
Neto. A profissão: técnico em radiologia.
Muitos não sabem nem o que faz um
técnico em radiologia. Então vamos
explicar e depois entender porque Antonio
gostava tanto. Técnico em radiologia faz
Raio-X nos hospitais e clínicas. Lembra
do moço ou da moça que diz: “Respira
fundo e segura; espera um pouco; agora
pode soltar”? Essa pessoa certamente é
um técnico em radiologia como Antonio.
Aos 19 anos, quando ainda morava na cidade de Cornélio
Procópio, ele recebeu um convite de um amigo para trabalhar no
Raio-X. Uma ótima oportunidade para quem estava iniciando a vida
profissional. Sendo assim, não recusou. Depois de efetivado, foi para
Curitiba fazer o curso e aprimorar-se mais: “Peguei o diploma e tudo”.
Com o certificado em mãos, voltou para Cornélio e lá trabalhou ainda
11 anos. E então se mudou para Londrina.
Antonio conta que adorava sua atividade. Então nada mais lógico
do que lutar por melhorias na profissão, para ele e para a categoria.
Outra oportunidade surgiu: “eu fui o primeiro presidente do Sindicato
dos Técnicos de Radiologia de Londrina”, conta, orgulhoso. Em função
da nova “empreitada” não podia mais exercer a profissão. Durante cinco
anos, período em que atuou no sindicato, ficou afastado da prática.
Esses cinco anos foram “barra”. “Mas eu deixei muita coisa boa,
muita gente se efetivou na profissão, teve curso, muita gente arrumou
emprego através do sindicato”, revela. E conta mais: “Eu lutei pelas 24
horas semanais e 96 horas mensais”, diz, em tom de discurso político
vitorioso.
Na UEL, Antonio começou a trabalhar em 1984. Dessa vez
ele também recebeu um convite. A diferença é que o trabalho seria
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
36
temporário. Antonio iria trabalhar por alguns meses no lugar de
uma terceira pessoa que logo retornaria. Passaram-se os meses e ela
não retornou: “Daí foram obrigados a me efetivar”. Trabalhou por
alguns meses no Hospital Veterinário e foi transferido para o Hospital
de Clínicas. Quando se aposentou estava trabalhando no Hospital
Universitário. Da UEL ele diz que sente saudades, principalmente dos amigos e
do setor de Radiologia. Faz três anos que Antonio se aposentou. Agora
ele faz caminhada e pesca sempre que pode, para se distrair. “A minha
vida foi Raio-X”, afirma Antonio, demonstrando mais uma vez a paixão
que tem pela profissão.
Léia Dias Sabóia
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37
Um músico allegro
Na vida do músico Antônio Miceli há espaço para a música, a
bioquímica, a família e até para a saudade dos bons tempos vividos.
Só não há espaço para a tristeza
Abertura
“Sem música, a vida seria um erro”,
diz a frase atribuída ao filósofo
alemão Friedrich Nietzsche (18441900). E, talvez, sem música, esse
perfil nunca existisse. Para contar
a história do músico Antônio José
Miceli, é necessário fazer uma viagem
no tempo e visitar os anos dourados,
o que nos fornece um período de mais
de 50 anos de (boa) música.
Natural de Nova Europa (SP), foi nesta cidade que Antônio teve
o primeiro contato com a música. O pai e os tios tocavam na Banda
Municipal, em uma época em que as retretas – apresentações de bandas
nos coretos das praças – ainda eram comuns, enquanto a mãe cantava
no coro da igreja. Mesmo com tantos parentes no ramo, Antônio teve
aulas com o único professor de música de Nova Europa, mas sem
deixar de seguir os passos do pai, que era clarinetista. “Eu comecei
tocando clarinete porque meu pai tocava e eu já tinha o instrumento
em casa. Tinha outro tio que tocava trombone, mas trombone de chave,
o irmão dele tocava bombardino, também instrumento de sopro. Os
instrumentos que eu mais conhecia eram aqueles ali”, recorda.
Quando o professor deixou a cidade, Antônio ficou sem ter
quem lhe ensinasse a tocar. Seu pai era alfaiate e, trabalhando muito,
não tinha tempo para ensiná-lo. Mas a situação de Antônio mudou
quando sua família deixou Nova Europa e mudou-se para uma jovem e
promissora cidade: Londrina.
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1º Movimento - Molto vivace [O Progresso]
Quando a família Miceli chegou à Londrina, por volta de
1950, a cidade estava em pleno desenvolvimento, impulsionada,
principalmente, pela produção de café, o nosso “ouro verde”. Apesar
do progresso, a zona urbana da cidade era pequena. Os limites de
Londrina no final da década de 1940, nas lembranças de Antônio,
eram a Vila Nova, o Cemitério São Pedro e a avenida Duque de Caxias.
A década seguinte, os anos dourados, assistiriam a modernização da
cidade, capital mundial do café.
O progresso inseria a todos no mercado de trabalho, e com
Antônio não foi diferente. Com cerca de 13 anos, começou a trabalhar
como protético, e, mesmo trabalhando e estudando, ainda encontrava
tempo para a música, embora as circunstâncias o tenham levado a
escolher outro instrumento.
Na fanfarra do Ginásio Estadual – onde hoje funciona o colégio
Marcelino Champagnat –, não havia lugar para o clarinete, mas, na
primeira oportunidade, Antônio encontrou o seu lugar. “Eu entrei na
fanfarra do colégio tocando a corneta de um cara que brigou com o
regente lá e saiu; e eu estava do lado do cara quando ele saiu (...) eu
passei a mão na corneta, entrei na formação e comecei a tocar; comecei
tocando corneta, aí depois eu passei para o trombone”.
E foi com este último instrumento – o mesmo que o levaria à
Orquestra Sinfônica da UEL anos mais tarde – que ele participou do
desfile de 7 de setembro de 1960, no Calçadão de Londrina. Outra
apresentação marcante foi na inauguração da Concha Acústica, em
1957, quando os professores de música da cidade reuniram seus alunos
e formaram um conjunto para animar a festa.
Antônio levava uma vida simples, mas bastante agitada:
estudava pela manhã, trabalhava à tarde e, nos finais de semana,
tocava no conjunto Continental, junto com o irmão e outros amigos.
Apresentavam-se nos bailes de sábado – das 22h às 4h – e nas
matinês de domingo, das 15h às 18, na sede da União Londrinense
dos Estudantes (ULE), onde hoje está localizado o edifício Palácio do
Comércio. “O programa da juventude era o baile da ULE e a matinê
da tarde”, explica. No repertório, samba, bolero, cha-cha-cha e música
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americana. “Mas não tinha nada dessa zoeira que tem hoje, era
música decente”, ressalta. Nessa época, a Orquestra do Gervásio fazia
sucesso na cidade. Porém, com a formatura no colegial, era necessário
abandonar a cidade e começar uma nova etapa: a universidade.
2º Movimento – Allegro Vivace [A Faculdade]
Em 1960, Londrina ainda não contava com o curso superior em
Odontologia, que viria ser instalado na cidade em 1962. Por causa
disso, Antônio precisou ir para Curitiba continuar seus estudos. Com
grande experiência na área de próteses dentárias, desejava se tornar
dentista. Não aprovado no primeiro vestibular, arriscou a bioquímica
no segundo e tornou-se aluno da Universidade Federal do Paraná
(UFPR).
Na capital do estado, novas oportunidades no campo da música
começaram a surgir. Antônio foi convidado a tocar na Orquestra
Sinfônica da UFPR (hoje Filarmônica), recentemente criada – embora
a Orquestra da Casa do Estudante, que deu origem à Sinfônica, já
existisse desde a década de 1940. Paralela a essa atividade, fundou
um novo conjunto e continuou animando os bailes e matinês – agora
chamadas de “saraus” – em Curitiba, o que o ajudou a se manter longe
de casa, já que a profissão de protético ocuparia um tempo precioso
dos estudos. E já que era o conjunto que o sustentava, toda a semana
precisavam encontrar um lugar para se apresentarem. “Durante a
semana a gente ligava pra um, ligava pra outro... Eu morava na Casa do
Estudante Universitário, então tinha a possibilidade de ir até o telefone
da casa e os contatos eram feitos por telefone ou, quando não podia, a
gente tinha que ir nos clubes, que eram um longe do outro. Durante
a semana você tinha que se bater, tinha que arranjar serviço. E toda
semana tinha que tocar”, relembra.
“Miceli e seu conjunto” fazia sucesso naquela cidade, tocando os
mesmos ritmos do antigo conjunto londrinense, mas incorporando a
bossa nova, sucesso naquele momento. Para tocar nos bailes, algumas
regras precisavam ser seguidas. “Tinha seleções de músicas durante
o baile. A gente começava normalmente com músicas mais agitadas
para empolgar, que normalmente era uma seleção de sambas. A gente
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tocava quatro, cinco, seis sambas, parava, dava um intervalozinho e
aí começava a seleção de boleros. Tocava 3, 4, 5, 6 boleros, parava, aí
mudava para cha-cha-cha. Quem gostava de dançar samba já ficava
esperando, então você podia escolher o ritmo que você queria”, explica. E se existiam normas para tocar, também existiam normas para
ouvir. Em um dos cartazes que anunciam a apresentação de “Miceli e
seu conjunto”, além da hora e local, o traje a ser usado pelos convidados:
“passeio completo”. E a regra era seguida à risca. “Não estava vestido
decentemente, não entrava, simplesmente voltava para casa”, explica.
Ou seja, falar daqueles anos é falar de um tempo muito mais distante
culturalmente, do ponto de vista dos costumes, do que temporalmente.
Terminada a faculdade, Antônio ainda cumpriu um ano de
residência em Curitiba até voltar para Londrina. “Miceli e seu conjunto”
ficava para trás e era hora de iniciar mais uma fase.
3º Movimento - Allegro maestoso [A Orquestra]
De volta à Londrina, Antônio começou a trabalhar na área em que
havia se formado, a bioquímica. Junto com alguns sócios, montou dois
laboratórios de análises clínicas, mas, com o tempo, a sociedade foi se
desgastando e ele preferiu deixar a bioquímica e dedicar-se inteiramente
à música. Por essa época, Antônio já havia feito o concurso para entrar
na Orquestra Sinfônica da UEL. Aprovado, começava oficialmente no
dia 1º de fevereiro de 1986 a trabalhar para a Universidade.
Mas Antônio esteve com a OSUEL desde o início, em 1984. A
Orquestra da UEL foi criada a partir do Conjunto Música, de 1978,
formado pelo maestro Othônio Benvenuto, que havia chegado à
Londrina dois anos antes com a tarefa de reativar o coral da Universidade
e criar a orquestra. Foi este mesmo maestro quem convidou Antônio
a se juntar à OSUEL, que durante os primeiros anos ainda não era
“oficial”.
De acordo com Antônio, que foi contratado em 1986, pouco mais
de um ano depois do primeiro concerto da orquestra – realizado no
dia 4 de dezembro de 1984 –, no começo os músicos tocavam “só por
prazer”. “Antes, no dia que você não podia, você não ia, então para
que tivesse essa obrigatoriedade de ensaiar, tivesse compromisso e
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responsabilidade de ensaiar, tinha que fazer alguma coisa que pudesse
dar um retorno, então ele [Benvenuto] achou o jeito de formar a
orquestra, com o pessoal participando como funcionário”, explica.
Portanto, após a contratação dos músicos aprovados em concurso
começavam a valer os direitos e deveres de qualquer funcionário
contratado pela Instituição.
Além da ausência de uma rotina de trabalho oficial, nos primeiros
anos, a Orquestra Sinfônica da UEL contava com jovens músicos, que,
com a realização do concurso, não foram aprovados porque, segundo
Antônio, não tinham nível técnico suficiente para integrar a orquestra.
Para ele, trabalhar na OSUEL representou “quase tudo” em matéria de
música. Acostumado a tocar nos conjuntos que formou e também “na
noite”, onde tocava outros instrumentos e também cantava, o músico
precisou adaptar-se ao rigor das partituras da música clássica. E o
esforço para acompanhar a orquestra era ampliado pela complexidade
do instrumento. “[O trombone de vara] É um dos instrumentos de
técnica mais difíceis que tem, porque todos os outros são com os
dedos. (...) Você tem muito mais agilidade nos dedos do que no braço”,
esclarece e, orgulhoso, reflete sobre a sua principal profissão: “Não é
fácil ser músico não (...). Não cansa como o serviço braçal, mas cansa
mentalmente. Estressa. Você pega um trecho de uma música que você
não está conseguindo tocar [e] você tem que se rachar para sair, porque
na hora do concerto a tua parte tem que sair. (...) Às vezes a gente vai
para o ensaio [e] tem uma peça que tem pouca interferência do meu
instrumento, por exemplo. Tem lá no terceiro movimento um trechinho
que toca três notas, mas as três notas têm que sair. (...) Se tiver uma
nota, você tem que tocar aquela nota exatamente como ela é”.
Sempre muito dedicado aos estudos da música, Antônio
permaneceu com a OSUEL até o dia que a aposentadoria – por idade
e por tempo de serviço – chegou. Com a orquestra, viajou para muitos
lugares e nessas viagens, que não ultrapassavam uma semana, a
OSUEL deslocava todos seus músicos, instrumentos, partituras...
“Tem que chegar, descansar, ensaiar, preparar o local. Nós fomos tocar
em Florianópolis, Itajaí, e é uma senhora viagem. Até que descarrega
todo aquele material, que monta tudo, que você vai conseguir ensaiar...
Então não podia ser menos de cinco, seis dias [de viagem]”, explica.
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O trombonista Antônio José Miceli deixou a Orquestra Sinfônica
da UEL oficialmente no dia 1º de julho de 2008, mas ainda sente
falta daquela rotina. “Vinte e cinco anos, toda manhã lá [nos ensaios],
mesmo que fosse para ir só por ir. De segunda a sexta era sagrado o
período da manhã”.
Além da experiência musical, a OSUEL lhe proporcionou boas
amizades, que permanecem até hoje. “De vez em quando aparece um
[músico da OSUEL] lá em casa.
Quando não aparece, alguém liga perguntando como é que eu
estou. Quando eu chego [nos ensaios da orquestra] vem todo mundo
me abraçar. Eu nunca briguei com ninguém, sempre me dei bem com
todo mundo”, explica.
4º Movimento - Andante com moto [Aposentadoria:
a vida continua]
“Eu sou um cara que posso me considerar feliz, porque vivi
épocas boas, épocas gostosas, crescimento de cidades, desenvolvimento
da música, aparecimento de novas propostas de música, participei
bastante... Eu posso me considerar um cara feliz.”
Apesar do otimismo ao olhar o passado, Antônio não esconde a
decepção com os rumos tomados pela música e pela sociedade. Para
quem viveu uma época em que valores como o trabalho, os estudos,
o bem falar e o bem vestir eram respeitados pela juventude, é difícil
acompanhar o empobrecimento cultural de nossos dias. “Quantas
escolas ensinam música? (...) Para a cultura não tem dinheiro.
Acham que é besteira investir, é preferível deixar a molecada na rua,
aprendendo coisa que não presta, do que incentivar”, desabafa.
O descaso com a cultura se reflete na falta de investimentos na
Orquestra Sinfônica da UEL, que hoje tem um desfalque de cerca de 17
músicos. Depois que Antônio deixou a OSUEL, ninguém assumiu sua
vaga.
Apesar de ter enfrentado sérios problemas de saúde, que inclusive
o prejudicaram na hora de tocar trombone, Antônio é um cara feliz.
Divorciado desde 1987, criou as quatro filhas com a ajuda da mãe e
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hoje uma delas segue os passos do pai na Orquestra Sinfônica da UEL.
Distante da rigorosa rotina de ensaios da orquestra, Antônio agora
tem mais tempo para se dedicar à família – inclusive à primeira neta,
que chegou há pouco tempo – e aos amigos. Antônio continua a ter
tempo para a música, companheira de toda a vida, afinal, nas palavras
atribuídas ao músico norte-americano Louis Armstrong (1901-1971),
“os músicos não se aposentam - param quando não há mais música em
seu interior”.
Rosane Mioto
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Trabalho nos campos da UEL O funcionário Antonio Nerez ajudou a plantar o gramado e a
preservar o jardim do campus por quase 30 anos
Antonio com a mulher Carmelita Rosa Alves Nerez
Imagine a extensão do gramado da
UEL. Agora pense em um grupo de
pessoas semeando esta grama. A
Universidade era uma fazenda de
café. Depois de retirada a plantação
foram necessárias muitas mãos
para jardinar o campus como
conhecemos.
Antonio Nerez começou a trabalhar
na UEL em 1976, como jardineiro
servente. Na época eram poucos prédios e ele conta que plantavam
milho e vassoura no lugar do mato. A vassoura era para uso na
Universidade e o milho, colhido, debulhado e ensacado, era vendido
para ajudar nos custos da Fundação.
O funcionário, de São Gonçalves do Campo (BA), veio para a
região em 1952. A tentação era a proposta de trabalhar em um lugar
onde “se dava dinheiro de rastelo”. Depois de trabalhar em Ivaiporã,
Paranavaí e Colorado, ele passou 18 anos na Fazenda Santa Helena,
onde conheceu a esposa e trabalhou 14 anos como fiscal. Antonio soube da vaga na Universidade por um compadre. Num
sábado – havia expediente aos sábados - ele foi conversar com o chefe
que lhe disse para voltar na segunda-feira, com a “boia”, para começar
a trabalhar. A jornada era de 48 horas semanais.
O funcionário, que não tinha o curso primário quando entrou
na UEL, estudou até a 7ª série enquanto trabalhava. Ele era liberado
duas horas mais cedo. “A Universidade dá chances, e eu já tinha idade
avançada.”
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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As árvores do calçadão já estavam lá quando ele chegou, mas
Nerez ajudou a plantar as 480 mudas de peroba-rosa, árvore típica,
pelo campus. Ele conta que as perobas nativas sofriam com os raios e
às vezes precisavam ser cortadas por segurança. Das mudas de peroba,
o funcionário lembra que muitas estavam onde hoje ficam o CECA, o
CTU, o CCA, o CESA. E foram tiradas para a construção deles.
Depois de servente de jardineiro e de dez anos como jardineiro,
Nerez trabalhou como encarregado especial e como chefe da
jardinagem. Ele, que se aposentou em 2005, conta que nos últimos
tempos o trabalho se tornou mais fácil de ser executado com a ajuda de
máquinas da UEL. Segundo Nerez, o serviço de um dia que antes era
feito por quatro ou cinco pessoas passou a ser feito por apenas uma, no
mesmo período de tempo.
Um dia, na hora do almoço, o aposentado conta que escorregou
o pé da carroceria do caminhão carregado de grama. Ele caiu de
ponta-cabeça e ficou desacordado. O médico do Núcleo do BemEstar à Comunidade (NUBEC, hoje SEBEC) mandou-o ao Hospital
Universitário, onde ficou 24 horas em observação.
O acidente não causou nenhum problema para ele, apenas a
lembrança das 24 horas sem comer. “Quando cheguei em casa, a
primeira coisa que fiz foi almoçar”.
Casado há mais de 52 anos com Carmelita Rosa Alves Nerez,
também baiana, ele aproveita a aposentadoria ficando em casa, já
que não gosta de sair muito. O funcionário também avisa que, por ter
trabalhado muito com jardinagem, ele se cansou. A casa deles não tem
jardim, mas na varanda da casa há alguns vasos de flor. E quem plantou
estas flores? Nerez confessa: “Fui eu, de flores eu gosto!”
Poliana Lisboa de Almeida
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Arlinda Rodrigues Oliveira Barbosa
Entrou na UEL em 11/10/75, na Reitoria como
servente. Quase todo o tempo em que trabalhou na
UEL, fez cafezinho para o pessoal que trabalhava
para as coordenadorias da Reitoria, para a turma
da jardinagem e do material.
Quando começou a trabalhar aqui na UEL vinha
do Jardim Tókio até a Reitoria a pé, saia de casa
às 5h, enfrentava barro e chuva e até geada: “a
UEL mandou fazer até uma pinguela para
gente passar”. Trazia bolo e salgadinho para vender para os
funcionários da Reitoria porque aqui não tinha cantina.
Não tem queixa nenhuma do pessoal daqui da Universidade,
“para mim são todos bons, inclusive me ajudaram muito”. Trabalhar
na UEL foi tudo de bom para mim. “Se não fosse o emprego na UEL,
não poderia criar meus filhos”. Em 1998, como estava passando mal do joelho e das pernas foi
transferida para a Central de Salas para fazer cafezinho, pois o serviço
lá era menor e não prejudicava tanto a sua saúde. Em 2002, sua filha não tinha com quem deixar os filhos quando
ia para o trabalho, então Arlinda pediu aposentadoria da UEL. Disse que, se fosse mais nova, voltava a trabalhar na Universidade,
pois “o dia passava e a gente nem via, o duro mesmo era só chegar
aqui”.
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O homem que começou a UEL
Ascêncio Garcia Lopes, primeiro reitor, fala sobre fatos
que antecederam à criação da Universidade e que não deixa de
acompanhar o que ocorre dentro dela
A Medicina estava em sua vida
desde quando a mãe decidira
que Ascêncio Garcia Lopes seria
médico. Exercendo a profissão,
deparou-se com o desafio
de implantar em Londrina a
Faculdade de Medicina, e, à sua
frente, começou a dedicar-se
a atividades que o levariam ao
posto de reitor da Universidade
Estadual de Londrina.
Hoje, com mais de 80 anos de idade e a “longevidade útil”
daqueles que não param de trabalhar, Ascêncio relembra sua trajetória
pela Universidade. Com muitas críticas, demonstra que não deixa de
acompanhar o que se passa na UEL.
Criação da Faculdade de Medicina
Quando eu era presidente da Associação Médica de Londrina,
em 1966, nós falamos em fazer uma faculdade de medicina aqui em
Londrina. Porque os jornais, as entidades como o Rotary, o Lions,
discutiam: precisa mais faculdades, os alunos daqui vão para São
Paulo, Curitiba. Alguma coisa tinha que ser feita. Então nós, da
Associação, tínhamos um compromisso. Atitude primeira, o que fazer
e como fazer? Por coincidência, estava no Hotel Bourbon, um senhor
que era pai de um médico do Rio de Janeiro, que tinha acabado de
fazer medicina na Universidade Gama Filho. Eu morava em uma casa
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atrás da Catedral, onde hoje é um restaurante. E este senhor viu no
jornal que queríamos criar a Faculdade de Medicina, e ele atravessou
a avenida, bateu na minha casa e falou: “Eu sou pai do doutor José
Roberto Ferreira que é especialista, médico formado na Gama Filho,
e eu tenho certeza absoluta de que se vocês o convidarem, ele viria até
Londrina, para trocar idéias com vocês.”
Ele veio para cá, ficou uma semana conosco, discutimos e
decidimos que para a Faculdade não íamos fazer nada de governo,
mas uma Fundação, autogovernada. E esta Fundação, mantida pelo
Estado, seguiria o conselho desta Fundação, e esta Fundação iria criar
e manter a Faculdade de Medicina. E iria manter outras faculdades
também. Fizemos um decreto, de como o governo do Estado deveria
fazer isto – a criação da Fundação – e saímos com o curso de Londrina
pronto. Era uma revolução, porque professor não é funcionário público,
funcionários não eram funcionários públicos, todos regidos pela CLT.
Se for bom fica, se não for bom não fica.
Segundo, a Fundação tinha autonomia. Ela é que escolhia
o diretor da medicina, ou de outra faculdade. Não era o governo.
O conselho tinha dois representantes do governo estadual, dois
representantes da prefeitura, dois representantes da Associação
Médica. Seis representantes compunham o conselho. E este conselho
é que mandava na Faculdade, é como se fosse um governo autônomo.
Fomos ao governador do Estado, Ney Braga, apresentamos o
projeto, ele gostou, chamou o secretário da Educação, que também
gostou e falou que iria estudar. Em um mês estava a lei pronta. A
Assembléia também aceitou, estava criada a Fundação e a verba do
Estado, liberada. E começou assim a Faculdade.
Faculdade de Medicina
O conselho me escolheu para diretor da Faculdade de Medicina,
porque eu vivi todo o problema na Associação Médica. Eu falei que
não queria, que era médico e tinha que trabalhar, mas eu podia
continuar trabalhando como médico, então fazia meio-período e noites
de consultório e de cirurgia, e a tarde toda eu ficava na Faculdade de
Medicina.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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A odontologia nos emprestou laboratórios, que já estavam
prontos, de Anatomia e Histologia. E eu tinha que arrumar professores.
Eu não chamei médicos de Londrina. Fiz concurso nacional. E para
estes concursos eu ia convidar em São Paulo, quase sempre em São
Paulo, professores possíveis para participar. E assim fui à faculdade em
que me formei, a Faculdade de Medicina da USP em São Paulo, e falei
com os professores de Histologia e Anatomia, que são disciplinas dos
primeiros anos: “Doutor, você teria alguém para me indicar, entre os
seus auxiliares e estagiários? E me indicou o doutor Lauro Beltrão, que
tinha interesse. O professor de Histologia não tinha ninguém disponível,
mas ficou responsável por montar todas as lâminas, nos vender, e enviar
o auxiliar para montar o curso todinho. Foi maravilhoso. O catedrático
veio aqui, as primeiras aulas foi ele quem deu.
Campus
No segundo ano tinha as disciplinas de Fisiologia, Patologia e
precisávamos de um local. O conselho reuniu-se, decidimos construir.
Neste momento dois londrinenses que estavam no Governo de Paulo
Pimentel influenciaram: Dalton Fonseca Paranaguá, que foi secretário
da Saúde, e Orlando Mayrink Góes, que foi secretário da Fazenda. Eles
andaram toda a cidade e escolheram aquele campus que está lá. Aquela
área de 49 alqueires maravilhosos, para o campus da Fesulon.
Delimitamos a área, que era uma fazenda de café, e aqui
na fazenda morava um peão administrador da fazenda (Fazenda
Santana). Ele me deu o endereço do proprietário, que morava em São
Paulo, família Gonzaga. Fui para São Paulo, e disse que gostamos da
área para a Universidade, e eles tiveram uma pequena resistência. Aí
eu falei que a terra seria desapropriada caso eles não nos vendessem.
Eles entenderam, mas na hora de falar em valores ficou sugerido que
se colocasse um valor maior por alqueire, que somasse o mesmo valor
total, que o resto a família doava. Então para nós do Estado era a
mesma coisa. O valor total era o mesmo.
A família concordou, e começamos a fazer o planejamento de
implantação da Universidade naquela área. Nós ainda não tínhamos
outros cursos, era só medicina, então pensei em ocupar o canto, por isto
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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a medicina está naquele cantinho de lá. A Fesulon chamou os arquitetos
Sérgio Bopp e Luis César da Silva. Fizemos então a implantação do
primeiro pavilhão, de ciências morfológicas, depois fizemos o segundo
pavilhão, o da ciências fisiológicas, construímos e no ano seguinte nós
transferimos para lá as disciplinas básicas todas, em 1968.
Hospital Universitário
A Faculdade de Medicina saiu da (área da) Odontologia e passou
para lá. Quando já havia turmas do terceiro e quarto anos de medicina,
surgiu a necessidade de um local para as cadeiras clínicas. Fui à Santa
Casa de Londrina e fiz um contrato com eles para os meus médicos
ensinarem os meus alunos lá dentro. Ela me cedeu uma sala no
porão, e esses professores contratados em clínica médica e cirúrgica,
começaram a trabalhar na Santa Casa. E lá foi dado o curso, um ano
ou dois.
Depois, veio uma grande solução. O Hospital Evangélico, que
era ali onde está a Cohab, na rua Pernambuco, estava mudando. Nós
fizemos uma coisa muito simples. Fomos lá e pedimos emprestado.
E, sem pagar nada, eles emprestaram o prédio. Nós fizemos uma
adaptação, antes tinha 40 leitos, nós passamos para quase 100 leitos, e
começamos a parte clínica. Contratamos, ao mesmo tempo, o sanatório
de tuberculosos, que hoje é o HU, para trabalhar as disciplinas de
moléstias infecciosas.
Fundação Universidade Estadual de Londrina
Estávamos ótimos, com essas entidades todas. Estávamos com
tudo implantado, eis que a cidade queria uma Universidade. Todo
mundo. Com toda esta solicitação o governador Paulo Pimentel resolveu
fazer a Universidade. Fez três ao mesmo tempo: Londrina, Maringá e
Ponta Grossa. Mas fez todas como fundação, da mesma maneira como
era nossa Fundação, a Fesulon, com conselhos, Estado participando,
aluno pagando – porque na nossa Fundação o aluno pagava mais ou
menos 20% do que seria o curso normal. O pagamento não afetava
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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ninguém, mas para a Fesulon era ótimo, era um dinheiro que entrava,
essa é a vantagem da Fundação.
O governo do Estado fez neste decreto em que ele criou a
Universidade, que uma das funções dos que tinham participado das
faculdades antigas era que cada uma indicasse dois professores para
comporem uma comissão – tinha 12 membros – responsável por redigir
o estatuto da Universidade e fazer uma lista sêxtupla para encaminhar
ao governo do Estado para a escolha do reitor (Os nomes tinham que
sair dentre os 12 da comissão). Fizemos o estatuto, mandamos ao governo, foi aprovado. Então
a Universidade estava institucionalizada através desses documentos.
Na lista sêxtupla eu entrei em sexto lugar de votos. Porque eram mais
representantes das faculdades isoladas e nós éramos menos: medicina
e economia. As faculdades isoladas eram odontologia, direito e filosofia.
Por acaso eu entrei em sexto e o Paulo Pimentel resolveu me escolher.
Por causa do meu relacionamento com Orlando Mayrink Góes e com
Dalton Paranaguá.
Reitoria
Eu peguei o papel com o decreto (risos)... Eu não imaginava, nem
queria, eu queria continuar com a medicina. E como reitor não podia
ser mais médico, porque era uma função de dedicação exclusiva. Peguei
o papel e me perguntei: “E agora, Ascêncio?” O decreto mandava juntar
todas as faculdades, para isto era preciso extinguir todas e eu as criaria
como Centro da Universidade. Centros básicos – humanas, biológicas
e exatas – e Centros Aplicados – direito, medicina, todos os outros.
Eu aluguei duas salas no Ipolon, e claro que eu já tinha autoridade
para pegar a Fesulon – que tinha dinheiro, as outras não tinham, mas
a Fesulon tinha autonomia, tinha dinheiro. Aí eu peguei funcionários
dela e levei para estas salas. Peguei funcionários que eram da Fesulon e
os recursos da Fesulon para eu começar. E, vamos começar.
Eu visitei todas as faculdades, marquei com os reitores para
reunir a congregação (o grupo que mandava na faculdade). Fui lá na
congregação e disse: “Olha, aqui está o decreto, eu vou extinguir a
faculdade de vocês, vou transferir todos para uma outra entidade que
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são os centros básicos, e vocês passarão a contar com todos os direitos,
mas temos que dissolver a sua faculdade, o seu diretor, o seu secretário
e a sua congregação”. Fui em todas e falei isto. Eu comecei e tinha que
arrumar um lugar para a reitoria, porque eu estava no Ipolon.
A Faculdade de Medicina tinha feito, onde é a reitoria hoje, o
que seria um hospital psiquiátrico. Transformei ali e mudei para lá. E
comecei. Contratei três professores de São Paulo – um de área biológicas,
um de exatas, um de humanas –, durante o tempo necessário, para
que eles transformassem todos os professores com as titulações que
eles tinham para o novo estatuto da Universidade. Professor titular,
professor associado, professor assistente, professor auxiliar de estudo.
Porque aqui nas faculdades não tinham essas classificações, então
tinha que ver a titulação de cada um para ver como enquadrar na nova
divisão, no novo estatuto. Tinha gente, por exemplo, que era professor
contratado da odontologia.
E esses professores fizeram isto durante um mês. Conversaram
com todos, entrevistaram, viam a categoria, titulação. Tudo por escrito,
fiz uma resolução transferindo todos os professores com as titulações
devidas. Extingui os diretores, os secretários e convoquei todos os
professores para eleger os diretores de cada Centro. Foram feitas
eleições, eu dei posse. Nesse momento, a Universidade começou a
funcionar no novo estatuto.
Mesmo sem espaço físico, já era a Universidade, já era Centro,
tudo certo. Então, nós alugamos a custo zero – deram de graça para
nós – onde hoje é a Unifil, o teatro que estava vazio. Transferimos
para lá o pessoal de direito, ciências econômicas e administração até
a construção no campus. Então aqui no centro da cidade ficaram a
odontologia e a filosofia. Mas todos funcionando como Centros, com
conselhos de cada um. Como é hoje. Com os diretores escolhidos.
Automaticamente estavam criados o Conselho de Administração
da Universidade, formado pelos diretores dos Centros; o Conselho
de Ensino e Pesquisa, em que haveria eleição para constituí-lo com
representantes do colegiado, para que tivessem representantes de
todos os cursos; e o Conselho Universitário, constituído por todos os
diretores, mais representantes da cidade.
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Instituída a Universidade, progressivamente, nós começamos
a construir lá mais coisas. Primeiro fiz um concurso nacional para
arquitetos, que fizessem planejamento do campus – nós chamamos
implantação da UEL, como ela ia se implantar naquela área retangular
que é o campus. Ganhou uma firma de São Paulo, especialista em
campus, e nós contratamos. Era responsável pelo sistema viário e
onde se localizariam os centros, porque não tínhamos dinheiro para o
projeto dos Centros; mas como o campus era retangular, e a medicina
estava no canto, o projeto determinou, aqui será a área da biológicas,
aqui será o centro de exatas, aqui de humanas, e aqui terá uma rua que
vai ligar os três centros. Está lá, não está? E atrás serão os centros de
ciências aplicadas, engenharia, direito,...
Então nós tínhamos uma orientação obrigatória de implantação
física do campus. E tínhamos que construir pelo menos os centros
básicos. Lógico, como vai ter uma Universidade sem centros básicos?
Conseguimos todo o dinheiro do Estado, o orçamento estourava.
Construímos mais um pouco da biológica, o prédio da exatas, ao lado
da rua, e fizemos os dois prédios das humanas. Aí com quatro anos
eu tinha feito, a básica da biológicas, a básica da exatas, a básica da
humanas, a rua de integração total, o sistema elétrico total, o sistema
de água e de esgoto total. A reitoria ficou daquele jeito, fiz também a
parte da CAE. Aí vieram os outros reitores, fazendo os pormenores.
Último dia da gestão
Não fui professor da Faculdade de Medicina, só fui diretor.
Porque depois nos últimos anos, quando vem a Cirurgia [especialidade]
eu já era reitor. E reitor era tempo integral de dedicação exclusiva,
então quando chegou a fase de cirurgia eu já não participei de nenhum
concurso.
Quanto a meus últimos dias na UEL, eu sou muito ortodoxo.
Quando foi para acabar meu mandato, o governo do Estado tinha que
indicar o reitor da lista sêxtupla que nós mandaríamos para ele. O
conselho se reuniu e, infelizmente, entrou o genro do Ney Braga, Oscar
Alves que não tinha nenhuma condição, ele era auxiliar de ensino. Eu
não tinha nenhum candidato. A política universitária é que tinha que
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
54
saber quais eram os melhores candidatos. Não participei, estava lá,
mas achava que não tinha direito, a instituição tem que saber quais são
os melhores. Totalmente fora desta esbórnia que é agora, com votação
dos alunos. Então eu achava que cada centro, cada diretor, traria nomes
que achavam os melhores possíveis da Universidade, isto é o que eu
chamo política universitária, não política partidária, como está agora.
No dia em que venceu o meu mandato, o governo não tinha
indicado um reitor ainda, eu convoquei o vice-reitor e dei posse a ele.
Falavam-me: “Continua”, mas no dia em que venceu, eu saí. E não
voltei mais, eu não tinha mais nada, não era professor.
Eu fui para São Paulo, fiquei oito meses para refazer a minha
medicina, porque se você fica fora da medicina, você fica fora mesmo.
Fiquei refazendo tudo e quando eu vi que estava bom outra vez, vim
para Londrina, abri outro consultório e comecei a trabalhar.
E aí está a história. Uma Universidade bem iniciada, os alunos
pagavam, era 20%, mas ajudava a instituição. Aquele centro de
educação física, a gente fez com o dinheiro dos alunos, depois da
medicina, porque a lei obrigava ter educação física para os alunos
de ensino superior. Como reitor, o primeiro prédio foi o de educação
física. E assim fomos construindo.
Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior
O Álvaro Dias me convidou para ser secretário de Ciência e
Tecnologia, em 1984, quando ele assumiu o governo. Eu falei que
só aceitava se ele transformasse em Ciência, Tecnologia e Ensino
Superior, porque todo o ensino superior do Estado não tinha o controle
do Estado.
Eu não inventei isto, de leitura eu sabia que São Paulo estava
criando uma Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior,
passando todas as universidades, da Secretaria de Educação, para esta
nova secretaria. Eu falei para o Álvaro Dias tirar da Educação todo o
ensino superior que, criando esta nova Secretaria, totalmente ligada,
eu aceitaria. O problema era que o secretário da Educação já estava
convidado. Falei com o secretário da Educação, na hora ele aceitou, e
ficou então a pasta da Educação com ensino primário e médio.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Quando nós fomos para Curitiba, falei: “O que eu vou fazer pelas
universidades?” A de Maringá precisava de uma biblioteca, em Londrina
eu pensei em comprar uma área para agronomia e veterinária, que eram
dois cursos teóricos, não tinha fazenda experimental – um absurdo. Eu
queria comprar uma área toda para uma fazenda experimental, porque
tínhamos perdido a reserva da área lá atrás do campus como utilidade
pública.
Como secretário, levantei uma nova área, por sorte, quando
reitor, tinha comprado aquele sítio do lado da educação física, que
chegava no córrego, que por ele a gente chegava na água e atrás, onde
não estava mais loteado. Levantei documentos, escrituras, falei com
Álvaro Dias e com Washington de Novaes, aqui em Londrina, para
salvar 100 alqueires para a fazenda experimental. O Álvaro e o prefeito
concordaram em desapropriar 100 alqueires para a fazenda.
No terceiro ano de governo, o Estado falava que não tinha
dinheiro para comprar aquela área. Fiquei quieto. Acabei saindo do
governo por um pormenor no mesmo ano. Saí e chamei o secretário de
Washington de Novaes e falei para comprar 50 alqueires pelo menos. E
ele comprou a metade que havia prometido e deu para a Universidade,
são aqueles 50 alqueires que hoje é a fazenda experimental.
A Universidade hoje
A Universidade hoje perdeu o entusiasmo. Nós queríamos fazer
coisas diferentes. Os médicos eram todos de fora, imagina chegar para
eles em São Paulo. Dezenas de professores vieram para cá, casaram.
Deficiências tinham, mas íamos corrigindo. A Universidade hoje
perdeu aquela áurea. A medicina, por exemplo, era a quarta do Brasil,
hoje não entra em uma lista. Era uma escola de primeiríssima.
A UEL está mal institucionalizada, algumas mudanças apenas
prejudicaram: a escolha do reitor por eleição entre estudantes,
servidores e professores, porque a Universidade não é lugar de
ideologias e nem de política partidária, mas de política universitária; a
transformação dos funcionários em funcionários públicos e a retirada
do pagamento da taxa de 20% do aluno.
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Ascêncio: Médico, Fazendeiro, Pai
Paralelamente com estas atividades, fui fazendeiro. Quando
comecei a ganhar dinheiro como médico em Londrina, comecei a
comprar terras e sempre tomei conta. Quando retornei da Secretaria
de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, teria que voltar a estudar medicina. Sou cirurgião gastro e as técnicas estavam mudando naquele
período. Eu teria que aprender novamente, então parei com a cirurgia.
Mas continuei a tomar conta de terras.
O homem não pode parar de trabalhar, este é o meu segredo de
longevidade útil. Também tenho um dos meus quatro filhos que fez
medicina. Falei para o meu filho que é necessário fazer algo para se
sentir bem também, e ele é professor da UEL. Eu me sinto continuado
por ele, porque ele é muito bom, capaz.
Poliana Lisboa de Almeida
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Benedita de Oliveira Bruno
“A senhora é de Londrina?”, pergunto
à simpática senhora Benedita, atenta à
minha frente. A resposta é imediata: “Sim”.
Depois pensa mais um pouco e completa:
“Eu nasci em Minas, mas vim para cá com
dois anos só. Não voltei mais!”. A mineira
virou uma londrinense autêntica que viveu
uma das fases áureas da cidade. Seus pais
vieram na década de 1940, para trabalhar
nas lavouras de café. Ela cresceu em meio
ao nosso ouro verde e também chegou a
trabalhar na roça e nas colheitas. Por isso não pôde estudar muito, o
que não a impediu de participar da história da Universidade Estadual
de Londrina. Universidade que ela conheceu antes de existir: passou os
primeiros anos de casada morando e trabalhando com a lavoura do
café na Fazenda Santana, onde hoje fica o campus da UEL.
Depois foi para a cidade, mais especificamente o Jardim Tókio,
onde mora até hoje. Trabalhou como diarista, sem registro em carteira,
até que soube da vaga de zeladora aberta para trabalhar no CEFE.
Veio para preencher a ficha e já foi contratada. “Fiz a entrevista com o
Guaraci, que era o diretor na época”, recorda.
Assim começa uma história de 31 anos e meio de muito trabalho,
principalmente no começo. “Passava o dia inteiro na UEL. Em casa era
só para dormir mesmo. Saia cedo, entrava às dez da manhã e saía dez
da noite. Fazia muita hora extra, porque estava faltando funcionário.
Era eu e mais duas senhoras só! Chegava em casa onze horas”. Para
isso, precisava deixar as duas filhas pequenas em casa. As meninas
iam para a escola, voltavam e esperavam. Cresceram testemunhando
o esforço incansável da mãe. “Agora já estão casadas. Ficamos só eu e
meu marido”, conta.
A simpática zeladora viu a estrutura que hoje existe no CEFE
– com várias quadras, pista de atletismo e piscinas – ser erguida do
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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zero. Quando ela chegou, havia apenas um prédio no centro e o resto
era uma imensidão de terra vermelha. “Nossa, era muita terra! Dava
um trabalho danado pra fazer a faxina. Vinha aquele vento forte, daí a
poeira subia. Aquela pista mesmo, antes de emborrachar era só terra.
Quando ventava, a gente tinha acabado de limpar as salas e
empoeirava tudo de novo”. Com chuva o esforço era maior, para dar
conta de limpar o rastro de lama que se formava pelos corredores.
Pouco a pouco o CEFE foi construído sob o olhar atento de
Benedita. Ela se lembra de cada obra e do espaço de trabalho que nunca
parou de aumentar. “Eu limpava tudo lá: salas, corredores, quadras e
até piscinas”.
Mas o local em que passou a maior parte do tempo foi a copa.
Os estudantes e funcionários a procuravam sempre por lá para pedir
aquele cafezinho incomparável. Sem falar das outras guloseimas que
ela preparava: “Estourava pipoca e fazia bolinho de chuva para eles.
Até hoje encontro as pessoas e elas pedem para eu voltar para fazer os
bolinhos”, comenta sorridente.
E não é só pelos quitutes que Dona Benedita deixa saudades.
Ela conta com muita satisfação que sempre foi querida por todos no
CEFE. “Eu conheci muita gente lá. Professores, funcionários, alunos...
gente que aposentou antes de mim, outros que faleceram... e sempre
fui muito bem tratada por todo mundo. Graças a Deus!”
Uma das demonstrações de reconhecimento por seu trabalho
veio dois meses depois da aposentadoria. Benedita foi chamada para
uma reunião importante no CEFE, mas quando chegou era uma
homenagem: recebeu presentes, e agradecimentos por tudo que fez. Por isso mesmo, que, em julho de 2007, aos 64 anos, a despedida
não foi fácil. Benedita conta que ninguém queria que ela se aposentasse.
Ouviu muitos pedidos para continuar no trabalho até o limite dos 70
anos. Mas depois de três décadas de completa dedicação – até doente
trabalhava para não ter faltas – o corpo sentiu o cansaço e era a hora
de descansar. Com problemas de artrose já não possuía o vigor de anos
atrás. Mas ao falar do tempo de serviço transparece emoção: “Foi uma
vida que passei dentro da UEL, sinto muita saudade da época em que
trabalhava”.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Saudade que nem fica tão grande assim, pois Dona Benedita não
deu adeus ao palco do seu trabalho. Depois de anos como zeladora do
CEFE, hoje ela usufrui o centro que ajudou a construir. Toda semana
- duas vezes -, ela frequenta as aulas de hidroginástica do Programa
NAFI. Momento para passear pelos queridos corredores e reencontrar
os velhos amigos. “Toda vez que o pessoal me vê por lá fica muito
contente e vem me abraçar!”, orgulha-se. E alguns continuam pedindo:
“Ê tia, volta aqui para o CEFE!”, comenta.
Ela volta sim: “Ah, enquanto eu for viva eu venho!”, garante.
Volte mesmo, Dona Benedita, pois será sempre bem-vinda como foi
até hoje.
Janaína Castro
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Qualidade de vida em primeiro lugar
Professora Carmen Garcia de Almeida conta um pouco dos seus
mais de 25 anos de atividades na UEL, onde foi muito mais que uma
docente
“Melhorar a qualidade de vida das
pessoas”. Assim a professora aposentada
Carmen Garcia de Almeida define a
psicologia. Fala com a autoridade de
um pós-doutorado na Universidade de
São Paulo (USP) e mais de 25 anos de
serviços prestados à UEL. Somam-se a
essa conta nove projetos de pesquisa,
oito artigos publicados, dois livros
escritos e participação em outros dez.
Tais resultados só vieram depois de muito esforço: noites
maldormidas e muitos quilômetros percorridos nas nem sempre
aconchegantes poltronas de ônibus foram uma constante na vida
da professora. Mas ela também guarda um carinho especial a quem
a ajudou muito nessa escalada: a UEL. “A Universidade contribuiu
muito não só com o meu desenvolvimento profissional, pois eu tive a
oportunidade de fazer todas as minhas pós-graduações, como pessoal
também”, reconhece.
Recém-graduada em psicologia pela Fundação Educacional
de Bauru em 1974, Carmen veio da cidade do interior paulista para
Londrina no ano seguinte. Tomou coragem de sair da casa dos pais e vir
morar com o irmão no norte do Paraná depois que soube do concurso
para a UEL. “Eu e mais duas colegas soubemos que abriria um concurso
para docentes. Era grande o ânimo! Eu era jovem, com toda energia,
com o potencial todo. Estava bastante disposta a arregaçar as mangas,
a vestir a camisa da instituição. Então fui à luta!”, lembra.
O talento para a psicologia e a vontade de lecionar vieram de
berço, já que o avô materno e a mãe tiveram experiência na área.
Carmen também percebeu que fez a escolha certa quando, ainda em
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Bauru, teve a oportunidade de trabalhar em uma escola de periferia. Os
meninos e meninas assistiam a brigas dos pais em casa. Eles eram filhos
de famílias “desestruturadas”, crianças que apresentavam dificuldade
de comportamento na escola. “Daí veio o interesse pela psicologia, pela
docência e a atuação profissional, no sentido de entender melhor essa
dinâmica”, diz.
Na UEL, o começo também foi cheio de desafios, principalmente
por uma rotina praticamente nômade que a professora teve de adotar
no começo da carreira. “Era difícil, pois eu ia de ônibus para a faculdade.
Quando chovia, pegava barro assim que eu descia no ponto de ônibus no
campus e precisava caminhar até o departamento, recém-construído.
Era aquela terrona vermelha!”, recorda-se com bom humor. Também
se lembra da fase em que a Universidade ainda se estruturava com
relação aos cursos de especialização.
“Hoje, nós temos bons cursos de pós-graduação na UEL, um
mestrado em educação, do qual eu já participei e lecionei. Temos ainda
os cursos de especialização e mestrado no departamento de psicologia,
mas, naquela época, nós não tínhamos nada disso”, recorda-se. “No
meu doutorado [na USP, em São Paulo], por exemplo, estava grávida.
Eu me lembro que terminava a aula meio-dia na segunda-feira e
esperava para ter uma disciplina na quarta, às duas horas da tarde.
Vinha pra Londrina e dava aula na quinta e sexta e voltava pra São
Paulo no domingo novamente. Foi bastante sacrifício, mas acho que
valeu a pena”, pondera.
Na sala de aula, mais que formar profissionais e disseminar
conhecimento, Carmen fez verdadeiros amigos e, por vezes, até o papel
de mãe. Ela fala de quando lançava mão do que ela chama de “a terapia
do terapeuta”, exercício no qual o estudante de psicologia é que ia para
o divã. “É importante. Os alunos têm de ter uma oportunidade de fazer
uma terapia”, recomenda. “Como nem todos tinham essa chance, eu é
que tinha de trabalhar com as dificuldades, as limitações pessoais deles
em sala de aula. Isso facilitava o autoconhecimento, o desenvolvimento
pessoal e o aprimoramento da formação profissional deles. Também
se transformou numa forma de aproximação maior do professor com
o aluno. Eu acabava me tornando amiga e até fazia um pouco o papel
de mãe, porque eles estavam longe de casa, distantes da família e, em
alguns casos, vivendo dificuldades”, justifica.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Amiga sim, mas não menos exigente. Carmen ressalta que
fazia questão de os seus estudantes capricharem no levantamento
bibliográfico e seguir as normas da Associação Brasileira de Normas
Técnicas (ABNT) nos relatórios clínicos e de pesquisa. “Se você
não fizer um bom levantamento, de literatura, por exemplo, você
não vai estar bem fundamentado e não vai saber nem por que usou
determinados procedimentos e estratégias em determinadas análises
com os seus clientes. Com essa atitude, acho que eu contribuí para
muitos deslancharem não só na carreira acadêmica, mas também na
parte clínica”, comenta.
O resultado desse trabalho e devoção pela profissão que escolheu
é facilmente notado quando ela novamente está em contato com os
estudantes egressos, para os quais deu aula. Aliás, ainda que sem deixar
de lado o sorriso e a simpatia que lhe são característicos, a lembrança
de cada reencontro faz a professora ficar com os olhos marejados. “O
que me marcou muito na UEL foi a gratidão de ex-alunos. Há uns três
ou quatro anos, recebi um cartão de final de ano de uma ex-aluna e
lá ela me dizia: ‘Professora, eu sou uma profissional bem-sucedida
hoje e agradeço muito a tudo que você me ensinou’. Uma outra aluna,
que hoje está atuando na área clínica, certa vez me disse: ‘Professora,
cada atendimento que faço, cada alta que dou para os meus clientes é
a sua presença que está ali, constantemente do meu lado. É a maneira
como você me ensinou, na teoria e na prática, no modelo que você me
deu, tudo isso foi muito importante’. Isso me emociona, porque você
percebe o quanto você pode contribuir”, relata com emoção.
A aposentadoria e o depois
O tempo passou e com ele veio a hora da aposentadoria em
2001. Carmen sentia a necessidade de se dedicar mais à família,
principalmente à mãe que passou a precisar ainda mais da companhia
dela para tratamento médico. Hoje, a professora também faz questão
de vivenciar experiências singelas, como os corriqueiros encontros com
os amigos e as viagens que faz com a filha que trabalha em um navio
cruzeiro. “Faço caminhadas diárias, pratico hidroginástica, gosto de
sair, de tomar cerveja com meus amigos, gosto de dançar... Acho que
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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tudo isso deve fazer parte do repertório de atividades de um aposentado,
porque fisicamente e psicologicamente é muito importante, para você
não se estressar, não entrar em depressão”, explica.
Mesmo aposentada, as atividades da professora Carmem não
pararam. “Eu ainda continuo dando aulas em pós-graduação, quando
eventualmente sou convidada, e atendendo em consultório”, afirma.
“Acho que não se deve abandonar tudo. Eu recebi muito em termos de
conhecimento e reuni experiência muito grande, então posso e devo
continuar a repassar isso.
Quando se tem esse contato com os alunos, é uma coisa que
rejuvenesce”, enfatiza. Mas também considera que vive uma fase
em que é necessário ter o “equilíbrio” certo entre os compromissos
profissionais e o lazer. “Tenho colegas que se aposentaram e continuam
trabalhando num ritmo alucinante! Eu acho que isso não é bom. Nessa
idade, mais do que nunca, é o momento de equilibrar a balança. O
meu lema é: ‘o que se leva da vida é a vida que a gente leva’, então,
se hoje a gente tem a oportunidade de ter um pouco mais de lazer, de
participação social, a gente deve aproveitar. Não deixar mais para a
frente, quando você vai ter menos condições e mais limitações físicas”,
aconselha.
Descanso mais que merecido depois de anos de dedicação à
instituição, à psicologia e à sociedade. “A sensação que fica hoje depois
de todos esses anos é de ter dedicado uma vida em prol do bem comum,
da comunidade, da comunidade científica, do ponto de vista do aluno,
de formação profissional, ter contribuído para o desenvolvimento e
aprimoramento deles. Com os meus clientes, sempre busquei diminuir
esse sofrimento, essa dor emocional que muitas vezes eles trazem, no
sentido de melhorar a qualidade das pessoas. Esse é o ponto alto da
psicologia, melhorar a qualidade de vida”, encerra.
Em nome da UEL, nosso muito obrigado, Professora Carmen.
Gustavo Ticiane
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Casemiro Framil Sobrinho
Fui professor dos Departamentos de
Economia, Matemática e Matemática
Aplicada, hoje, denominado Departamento
de Estatística.
O meu ingresso na UEL ocorreu em Março
de 1974 através de aprovações em concursos
públicos para os Departamentos de
Economia e Matemática, tendo, inicialmente,
ministrado aulas nos dois departamentos.
Acompanhei passo a passo o crescimento da UEL nos trinta e
três anos em que tive a honra de serví-la com a minha humilde
e modesta contribuição funcional ao seu desenvolvimento. Procurei
sempre ofertar à UEL a minha total dedicação e amor ao meu trabalho,
quer seja como docente ou nas funções administrativas que me
foram delegadas, tais como, representante do CCE no Conselho
Universitário e CEPE, chefia do Departamento de Matemática, como
representante dos referidos Departamentos em diversos Colegiados
de Cursos, membro de Comissões criadas pela Reitoria para criação
e implantação de novos cursos acadêmicos na UEL, diretorias, etc.
Para mim foi uma grande honra e um maravilhoso aprendizado
ter servido e participado do crescimento da UEL nestes mais de 30
anos de vida pública.
A UEL é uma grande família e, sinceramente, gostaria de poder
voltar a serví-la com a mesma dedicação e amor que lhe dediquei em
toda a minha juventude.
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Dedicação e carinho pela UEL
A funcionária e aluna Cleusa Maria Lopes de Oliveira trabalhou
por 24 anos na antiga CAEG (Prograd), estudou pedagogia e agora
cursa matemática na Universidade
Os 24 anos que Cleusa Maria
Lopes de Oliveira trabalhou na
Coordenadoria de Assuntos de
Ensino de Graduação (CAEG)
da UEL, hoje intitulada e
conhecida como Prograd (PróReitoria de Graduação) são
lembrados pela funcionária com
muito carinho. Por muitas vezes
ela ainda chama o lugar em que
trabalhou de CAE.
Cleusa Maria de Oliveira
começou a trabalhar na UEL em
1979 com contrato temporário. Durante todos os anos em que esteve
na Universidade, a funcionária trabalhou na parte administrativa. “Eu
sempre gostei mais de trabalhar na retaguarda, não importava dia, não
importava horário, eu fazia horas extras.”
Quando as matrículas eram por créditos, Cleusa conta que a
CAE se transferia para o CEFE (Centro de Educação Física e Esporte),
os funcionários ficavam em guichês. “A CAE passava janeiro e
fevereiro e julho inteirinho lá fazendo as matrículas com aquelas filas
quilométricas.”
Os problemas que Cleusa descreve deste tempo de atendimento
ao público são de ofensa e desrespeito pela sua função de funcionária.
Mesmo assim, ela conta que conseguia dosar as situações.
Ela também foi chefe da divisão do colegiado na época da
mudança do sistema de crédito para o regime seriado, na década de
1980. “As reuniões de colegiado eram feitas todas lá na Prograd, então
tinha dia com até seis reuniões, e para cada reunião tinha que escrever
ata, era cansativo.”
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Em 1993, a funcionária saiu de licença e ficou um ano no Mato
Grosso. Quando voltou, começou em algumas tarefas que considerou
desafios. Primeiro, trabalhou no reconhecimento de alguns cursos.
Depois, na organização dos catálogos dos cursos de graduação.
Nos catálogos, que hoje estão disponíveis na Internet, estão todos
os dados do curso – reconhecimento, dados de implantação, atos legais,
perfil do aluno, objetivos, carga horária, matriz curricular, ementas.
Para editar os catálogos, Cleusa Maria teve que usar o programa de
editoração Adobe PageMaker. “Na época eu não sabia nem mexer
no Word. E aprendi os recursos do Word e pensei, se tem aqui tem que
ter no Adobe PageMaker.”
A funcionária que trabalhou até 2003 na Prograd, também foi
aluna de Pedagogia quando esteve na chefia da Divisão de Colegiado.
Sobre ser aluna, Cleusa conta que “acho que foi tão bom que eu sou
aluna outra vez. Eu fiz minha matrícula no curso de Matemática, mas
como eu entrei 30 dias depois do início das aulas eu não dei conta de
acompanhar, mas a minha ideia é renovar a matrícula e ano que vem
estar lá no primeiro dia de aula.”
Londrinense, Cleusa morou no Mato Grosso durante um ano e
após a aposentadoria mudou-se para Rondônia, onde trabalhou em
uma faculdade. Ela teve que voltar para Londrina, mas ainda pretende
morar no norte do país. “Pelo menos uma viagem de barco de Porto
Velho a Manaus eu quero fazer. Tem gente que vai achar estranho, mas
eu gosto.”
Poliana Lisboa de Almeida
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Enfermeiro do HU e professor da Universidade
pela segunda vez
Mesmo depois de aposentado, David do Carmo voltou para a
Universidade como professor
David do Carmo, natural de
Cambé, estava na primeira turma
de Enfermagem da Universidade
Estadual de Londrina. Como a região
precisava de profissionais de saúde,
Carmo conta que o curso era dado em
dez horas diárias, para que os alunos
se formassem rápido.
Nesta época, o Hospital Universitário
(HU) funcionava no centro da cidade,
na esquina das ruas Pernambuco e
Alagoas. Os alunos tinham aulas no campus e no centro, onde hoje
funciona a Clínica de Odontologia.
Ele lembra do campus da UEL, ainda sem asfalto, “em dias de
chuva o ônibus não ia até a Universidade. (...) Quantas vezes nós não
colocamos sacos plásticos no pé para chegar até o CCB.”
David do Carmo morava em Arapongas e ia todos os dias para as
aulas. Ele também deu aulas em um cursinho de Apucarana e trabalhou
um período na Santa Casa de Londrina.
Depois de formado, foi contratado pelo HU, que o mandou
fazer um estágio de aperfeiçoamento na área de saúde mental na
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Era 1975 e ele se
interessara pela área ainda na faculdade.
Após um semestre em Florianópolis, Carmo voltou como
professor e funcionário do Hospital. “E eu voltei dando aula para a
segunda turma de Enfermagem”, relembra. No HU, foi supervisor dos
seis enfermeiros que trabalhavam lá na época.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Em 1976 o professor prestou o concurso e assumiu como docente
na Universidade. Dois anos depois, foi dispensado das aulas para fazer
o Mestrado em Enfermagem Psiquiátrica na USP de Ribeirão Preto.
O professor esperou até que a Universidade de São Paulo abrisse
um doutorado na área de saúde mental para fazê-lo. E apenas em 2002
ele conclui o curso.
A saúde mental a qual o professor faz referência está ligada a
pessoas e fatores de risco de adoecimento mental e a aqueles que já
sofrem com ele. David destaca que na área de saúde mental a equipe
deve ser interdisciplinar, médico psiquiatra, enfermeiro e assistente
social. Todos devem ser qualificados para lidar com estes pacientes.
Assim que descobriu que teria que trabalhar mais alguns anos
por não ter a nova idade mínima (65 anos para homem) para a
aposentadoria, David resolveu entrar na justiça para conseguir seu
direito. O professor ganhou a causa, aposentou-se, mas com 57 anos
está de volta à ativa. “Hoje um Doutor custa muito caro para o país, eu
não me sentiria bem ficando em casa”.
Em 1994, o professor coordenou o projeto de extensão no
Hospital de Clínicas da UEL, o PAARE. O projeto visava o tratamento
do alcoolismo, principalmente dentro da Universidade, e começou
pressionando a Instituição para que aplicasse a restrição ao consumo
de bebidas alcoólicas dentro do campus.
David do Carmo conta que, além dos alunos, que poderiam
fazer uso excessivo da bebida, mas que normalmente ainda não eram
alcoólatras, havia funcionários e professores que sofriam do problema.
Ele também alerta que a maioria das pessoas incentiva o consumo,
nas confraternizações de trabalho, por exemplo, mas “ninguém aceita
quando a pessoa se torna dependente”.
Na época em que alunos pediam a liberação da venda de bebidas
nas cantinas, e faziam festas dentro do campus, Carmo acredita que
a proibição foi uma vitória. Ele ficou na coordenadoria do projeto até
2001 e conta que agora o projeto é um serviço à comunidade.
Agora, nos mesmos moldes, ele fala que surgiu o combate
ao tabagismo. Desta vez o professor não participa, mas sabe que a
metodologia implantada é a do Ministério da Saúde, que fornece
material para o tratamento, como chicletes e adesivos de nicotina.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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O professor também é docente do curso de Especialização em
Saúde Mental. A especialização está em sua quarta turma e também foi
um dos motivos dele voltar a dar aulas. A área precisava de mais gente
especializada e ele poderia auxiliar.
David ainda brinca que faltavam alguns anos para a sua mulher,
que trabalha na mesma área, aposentar-se, então não quis ficar
sozinho em casa. Seja para não ficar sozinho, seja por querer continuar
a repassar o conhecimento adquirido, David do Carmo demonstra um
carinho muito grande pela Universidade Estadual de Londrina.
Ele, que começou ainda na primeira turma de Enfermagem e que
agora observa o Hospital Universitário da janela de sua sala, revela
“a UEL é reconhecida como séria, ela te dá condições para exercer
a profissão muito bem”. Garante o professor que cresceu pessoal e
profissionalmente na Universidade.
Poliana Lisboa de Almeida
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70
David Valentim da Silva Filho
Por um erro de cartório em Macaúba, na
Bahia, Davi virou David Valentim da Silva
Filho. Ele se acostumou. Quando David
tinha apenas três anos, a família mudou-se
para São Paulo. Moraram em várias cidades
do interior. A última parada foi Andradina.
Depois, vieram para o Paraná. A cidade
escolhida pela família de agricultores
foi Assaí. “Naquele tempo tinha muitas
plantações de algodão”.
Em 1969, David já tinha constituído a
sua própria família e decidiu morar em
Londrina. “Eu estava cansado da lavoura”.
Aqui, David encontrou o primeiro emprego em uma cervejaria. Depois
de três anos, foi trabalhar em uma empresa de café solúvel. Lá aprendeu
a profissão de jardinagem. “Eu cuidava dos jardins e gostava”. Ficou
três anos nesta empresa. “Eu trabalhei em outros lugares, mas, às
vezes não pagavam, enrolavam a gente. Sei que o único lugar em que
eu trabalhei durante muito tempo foi a UEL”, conta.
Foram 20 anos cuidando dos jardins da UEL. O filho de David,
muito jovem, já trabalhava de office boy e incentivou o pai a ingressar
na Universidade. “Naquele tempo não tinha muita gente concorrendo.
E ainda um deles não entendia nada de jardim, e eu já tinha trabalhado
com isso”.
Para cuidar de jardins, segundo David, paciência é imprescindível.
E isso ele tem de sobra: fala pouco, pausadamente e só o necessário. Mas,
fica chateado quando alguém joga lixo, pisa na grama e não respeita o
trabalho artesanal do jardineiro. “Geralmente jardim de firma você faz,
deixa tudo bonitinho. Daí um pouco tem gente que joga um papel e
outras coisas. E aí tem que limpar de novo. E quando termina, e deixa
bonitinho, todo mundo fica de olho”.
No início, David trabalhou no campus. Depois foi transferido
para Hospital Universitário. “Eu gostava muito de trabalhar na UEL,
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
71
principalmente no meu setor. Nós temos muita amizade. Até hoje
nós nos encontramos para bater papo”, revela. Ele lembra que um dia
encontrou cinco cruzados no jardim, mas só uma vez... David está aposentado há cinco anos. Faz ginástica duas vezes
por semanas e se exercita todas as manhãs. “Quando eu levanto a
primeira coisa que faço são os exercícios que o médico me ensinou”.
Para não ficar parado, planta mandioca em algumas datas próximas a
sua residência. David gosta mesmo é de lidar com a terra. Léia Dias Sabóia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
72
Câmara escura
Depois seis anos como zeladora do Hospital Universitário, Delicia
Marcelino Ferreira trabalhou como operadora no raio-x até se
aposentar, em 2005
Depois de dez anos fazendo a limpeza
em diversas empresas, como a
Caixa Econômica, Banco Mercantil
do Estado de São Paulo, Copel,
Telepar e Embratel, na década de
1970, para uma firma terceirizada,
Delicia Marcelino Ferreira começou
a trabalhar na UEL. Era 1981, e o
ingresso na Universidade não era
feito por concursos. Ela foi contratada
indiretamente pela Fundação de
Saúde Caetano Munhoz da Rocha.
Delicia continuou com a zeladoria, responsável pelo raio-x, do
qual, segundo ela, ninguém gostava. “Quando eu coloquei tudo em dia,
aí todo mundo quis. No começo eram dois funcionários, depois fiquei
sozinha.” E, sozinha, ela era a responsável pela área. “Só de banheiro,
tinha cinco”, conta.
Durante os seis anos na zeladoria, Delicia conta que às vezes
auxiliava a funcionária do raio-x, e ia aprendendo. Quando surgiu
a vaga na câmara escura, por causa de um acidente de trabalho, a
funcionária ajudava quando precisavam de revelações e estava muito
apurado.
Quando surgiu concurso interno para preencher a vaga, Delicia
não podia participar por ser funcionária da Fundação. Como nenhum
candidato foi classificado para a parte prática, ela acabou sendo
contratada como operadora de câmara escura. Delicia explica que havia
duas processadoras, cinco tipos de filme, muita química e barulho.
Era comum, naquele tempo, faltar máscaras, ou ter uma única para
todos os operadores. Hoje, ela diz ter dificuldades para sentir cheiro e
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
73
sabores das coisas, e não sabe se está relacionado com o contato com
os produtos químicos.
Como operadora, ela conta que sempre gostou muito dos
pacientes do Hospital Universitário, principalmente os mais humildes,
idosos e crianças. E no raio-x, ajudava como podia.
Em 2005, depois de muitas amizades feitas no trabalho, Delicia
aposentou-se. Tinha 23 anos de UEL, mas uma queda alguns anos
antes prejudicou a sua coluna e a funcionária sentia muita dor.
Ela e o marido têm uma chácara, onde gostam de ficar. Delicia
lembra quando os colegas do trabalho apareceram lá na época de sua
aposentadoria. Mas quando não está na chácara, a funcionária tem o
seu cantinho de terra no jardim para aproveitar e cuidar, com árvores
frutíferas, ervas, temperos e flores.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
74
Um lado de Denise
Estudante e professora da Universidade Estadual de Londrina, Denise
Hernandes Tinoco estava na segunda turma de Psicologia e ficou
até 2006
Na praia de Santos (SP), Denise Hernandes
Tinoco descobriu a sua vocação. Era
anterior a sua vontade de trabalhar com o
sofrimento humano, com o emocional, mas,
com o pai e a mãe médicos ela pensava em
fazer medicina e depois cursar psiquiatria.
Foi quando, conversando com uma amiga
na praia, aos 13 anos de idade, uma
professora de Psicologia da USP ouviu a
pretensão da menina e contou a ela sobre
este curso novo.
A Psicologia no Brasil surgiu em 1962, na USP e na PUC-SP, com
abordagens bastante amplas e várias correntes. Com a ditadura militar,
em 1964, Denise lembra que os cursos de ciências humanas sofreram
com a conversão para o técnico. O importante era fazer, mas sem muito
pensar, sem muito questionar.
Nessa tendência, o curso de Psicologia da UEL, da década
de 1970, seguia os moldes impostos pela ditadura, privilegiando o
behaviorismo. Denise estava na segunda turma do curso e percebeu
que faltava a visão humanista e a psicanálise em sua formação.
Em 1977, Denise se formou e começou a fazer Especialização em
Análise Transacional, que conhecera com um professor contratado
durante a graduação. Em 1978 o Departamento de Psicologia, querendo
mudar a vertente de estudo, chamou alguns ex-alunos e professores
que se interessavam por outras abordagens, e Denise começou a dar
aulas na UEL. Com 22 anos de idade, ela já era professora da Universidade.
Para compensar os anos de curso em que faltou o aspecto humano,
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
75
Denise fez mais três especializações antes do mestrado. “Eu estava
praticamente refazendo a faculdade”, diz.
Em 1979, a professora começou a clinicar, só interrompendo
durante quatro anos quando passou a ser vice-chefe e chefe de
departamento (na década de 1990) e estar mais envolvida com a UEL.
Depois, voltou à clínica.
No ano de 1987, Denise começou o Mestrado em Psicologia Clínica
na PUC-SP e teve a sua tese “Afetividade e Aprendizagem” publicada
em livro pela Editora da UEL (Eduel). Em 1990, o departamento foi
dividido em três. Ela foi para o Departamento de Fundamentos de
Psicologia e Psicanálise, onde teve cargos de chefia.
Denise tinha a possibilidade de tirar uma licença para pesquisa
(licença sabática) e aproveitou para fazer o seu doutorado, também na
PUC (1999-2003).
Em 2005 a professora pediu a aposentadoria e ficou afastada
esperando. No ano seguinte, quando a aposentadoria saiu, ela já havia
sido chamada para ser coordenadora do curso de Psicologia da Unifil,
onde está até hoje.
Denise esteve dos 17 aos 51 anos na UEL. “É uma vida”, destaca.
A professora diz que gostou muito de trabalhar na UEL, mas que foi
até banca de concurso para preencher a sua vaga e não pretende voltar.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
76
Djalmira de Sá Almeida
De muito longe, Djalmira de Sá
Almeida utiliza o e-mail para contar
com carinho a sua passagem de sete
anos pela UEL. A pernambucana, de
Terra Nova, fez primário e ginásio
na cidade próxima, Parnamirim.
Com a mudança da família para o
Paraná, em 1972, Djalmira concluiu
o magistério, atual ensino médio,
em Corbélia no ano seguinte.
Após cursar Letras em Cascavel,
Djalmira
teve
um
primeiro
contato com a Universidade Estadual de Londrina, quando fez aqui
uma especialização em 1980. Após o curso, começou a trabalhar em
Marechal Cândido Rondon como inspetora auxiliar. “Fui vice-diretora
da Escola Eron Domingues - 2º Grau naquela cidade. Fui a primeira
professora de linguística e de língua portuguesa do curso de Letras da
antiga FACIMAR - Faculdade de Ciências e Letras de Marechal Cândido
Rondon, hoje campus da Unioeste”, conta a professora.
Em Londrina, Djalmira trabalhou para o 4º Núcleo Regional
de Educação: “trabalhei de 1984 a 1994, primeiro como auxiliar
administrativo do setor de processos; depois passei a compor a equipe
pedagógica ministrando palestras e cursos para capacitação docente em
todos os municípios da região (Jaguapitã, Cambé, Rolândia, Alvorada
do Sul, Porecatu, Sertanópolis, Pitangueiras, Astorga, Primeiro de
Maio, etc.) jurisdicionados ao 4º NRE.” A professora também passou
por algumas escolas estaduais da cidade nestes anos: Nilo Peçanha,
Jácomo Violin, Mercedes Madureira, Rui Barbosa e Vicente Rijo.
De 1987 a 1997 a professora lecionou língua portuguesa a todos
os cursos do Centro Universitário de Londrina (Cesulon): “quando
fui aprovada no concurso da UEL com dedicação exclusiva, aí tive
que sair”, conta Djalmira. Na UEL, no Departamento de Letras
Vernáculas e Clássicas, ela deu aulas para diversos cursos: “Letras
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
77
(Língua Portuguesa, Produção Textual, Leitura e Recepção de
Textos e Morfossintaxe do Português); História (Leitura e Produção
de Textos); Administração (Língua Portuguesa); Ciências Sociais
(Produção Textual); Jornalismo (Teoria Literária e Análise Literária) e
em Secretariado Executivo (História da Língua Portuguesa e Redação
Comercial)”, lembra.
Deste período, a professora Djalmira dá o seguinte depoimento:
“muito feliz para mim. Aprendi muito e também ajudei muita gente.”
Com os alunos a professora teve um ótimo relacionamento: “Os alunos
e alunas eram muito bons e demonstravam gostar muito de mim.”
Djalmira declara que esta amizade chegou a ser vista com maus olhos
por alguns colegas de profissão, que a criticavam: “segundo eles era
‘um absurdo professora se misturar com alunos’”.
Em 2002, antevendo que a lei aumentasse para 30 anos o tempo
de aposentadoria, a professora, que já tinha 25 anos de prestação de
serviço, decidiu parar de trabalhar. “Também fui convidada por meus
irmãos para morar no Pará e abrir uma faculdade lá”, conta.
Hoje, na Faculdade de Itaituba, Djalmira além de sócia, dirigente,
orientadora de TCC, às vezes ainda ministra aulas quando falta
professor, “pois isto aqui é comum, em virtude de chuvas, enchentes,
dificuldades de transporte e comunicação. Afinal, estamos no oeste do
Pará, uma das regiões alagadas da Amazônia Legal.”
Mesmo geograficamente distante, a professora nos escreve com
dedicação por estar falando para pessoas da UEL e, principalmente, de
Londrina, cidade que Djalmira revela: “adoro”.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
78
O vigia que gosta de terra
Domingos Dias da Silva trabalhou por 22 anos na Universidade e
esteve em vários postos dela
Ele é baiano e foi agente de segurança
da Universidade Estadual de Londrina.
Por duas vezes. Com sete anos de idade,
Domingos Dias da Silva saiu de Morro
do Chapéu, na Bahia, com o pai, mãe
e dez irmãos. Eles vinham trabalhar
como colonos nas fazendas na região
de Londrina. Domingos conta que parte
da viagem foi feita de caminhão, outra
de vapor, mas ele se lembra dela muito
pouco. Apenas como um sonho distante.
Aos 17 anos ele deixou o campo para procurar trabalho na cidade.
Em 1971, começou a trabalhar na UEL. Durante os próximos cinco
anos, Domingos ficaria entre a portaria do Hospital Universitário, na
esquina das ruas Pernambuco com a Alagoas, e o Colégio Aplicação,
como inspetor de alunos.
Quando Domingos seria transferido para trabalhar no campus da
Universidade, resolveu que era a hora de sair. Ficaria muito caro pagar
duas passagens de ônibus a mais por dia – não havia integração entre
os ônibus e ele precisaria pegar dois para ir e dois para voltar da UEL. Neste tempo, trabalhou em portarias de prédios, como cobrador
de ônibus e na empresa de Café Iguaçu. Em 1989, prestou um concurso
para vigias no campus. Em julho, Domingos voltou a trabalhar na
Universidade.
Até 2007 o funcionário esteve presente em vários postos de
vigia: Reitoria, Setor de Material, Fazenda-Escola, Granja, Laboratório
de Medicamentos, nos Centros, Hospital Veterinário... “Eu trabalhei
bastante substituindo outros vigias. Alguns não gostavam, mas eu não
achava ruim”, conta Domingos.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
79
O grande problema de segurança no campus da UEL, segundo
o funcionário, é a localização: um campo aberto. Mas Domingos, que
sempre trabalhou às noites, uma sim, uma não, conta que nunca flagrou
nenhuma irregularidade. Ele, que entrou na Universidade quando os
vigias passaram a andar desarmados, fala também que o segurança
deve estar muito bem preparado para usar uma arma.
Com anos de experiência na segurança, o funcionário responde
que acredita que o problema de segurança na UEL vem mais de pessoas
externas à Universidade. “Pode até ocorrer alunos fazendo coisa errada
lá dentro, mas acredito que a maioria são pessoas de fora.” Por isto
ele considera importante a proibição de festas e consumo de bebidas
alcoólicas no campus, “na época de festas nos preocupávamos muito”.
Domingos mora com a esposa Iracema Amorim Dias da Silva,
que trabalha como cozinheira, e seus dois filhos, André e Anderson.
Anderson está no segundo ano de Química na UEL, “eu acho bom, peço
a Deus que ele tenha força e inteligência porque o curso não é fácil”, diz
o pai.
O aposentado também se dedica há mais de 16 anos a cuidar de
um terreno em frente a sua casa. “Eu planto um pouco, môo cana.”
Domingos lembra que Deus criou o homem a partir da terra e que
muitos a chamam de mãe. “Só o cheiro da terra me faz bem. Eu trabalho,
trabalho e saio com o corpo leve.”
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
80
Homem de Letras
Desde a sua vinda a Londrina, Donato Parisotto esteve ligado ao
ensino. O professor nos recebeu em sua casa e contou sobre seus anos
na UEL
Donato Parisotto trabalhava como
jornalista em São Paulo quando
veio ao norte do Paraná fazer uma
reportagem especial sobre o café,
nos anos 1960. Resolveu visitar o
Colégio Londrinense, referência de
ensino na época. Recém-formado
em letras, ele estava no hotel
quando Zaqueu de Melo apareceu
lá. Queria que Donato ficasse na
cidade.
Parisotto começou a dar aulas de
línguas no colégio de Zaqueu de
Melo. Posteriormente, na Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e
Letras de Londrina, que funcionava nas instalações do Colégio Hugo
Simas.
No começo, a Universidade foi dividida em Centros de Estudos.
O Centro de Letras e Ciências Humanas (CLCH), o Centro de Ciências
Biológicas (CCB), o Centro de Ciências Exatas (CCE), o Centro de
Ciências da Saúde (CCS), o Centro de Ciências Sociais Aplicadas
(CESA) e o Centro de Educação (CE). Hoje, além dos seis iniciais a UEL
tem mais três centros, o CEFE, de Educação Física, CCA, de Ciências
Agrárias e o CTU, de Tecnologia e Urbanismo.
O CLCH foi o primeiro a ser transferido para o campus. O prédio,
o mesmo de hoje, ainda estava inacabado. Donato Parisotto lembra
a visita do cônsul português ao prédio. O prédio não acabara de ser
construído e os alunos já estavam tendo aulas lá. A estrada que ligava
a cidade ao campus não era asfaltada. Parisotto gastou um carro novo
nela, mas lembra com carinho deste começo, quando também foi
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
81
diretor do Centro de Letras e Ciências Humanas, de 1971 a 1976 e de
1983 a 1984. Ele conta alguns episódios, como quando permitia a entrada
de alunos sujos de terra em sua aula. O prédio do CLCH ficava no
gramado e não tinha passarela ou nenhum caminho que o ligasse às
ruas do campus por conta da estética. Era comum alunos caírem. O
professor pegou um pouco de cimento da Universidade para construir
uma passarela e teve que responder por isto. Mas não se arrepende.
Donato acredita que a o caminho serviu para o bem-estar dos alunos.
O professor, que se aposentou em 1993, continua a dar aulas
particulares. São tardes e noites exercendo o ofício, e é com orgulho que
Donato diz que está sempre ocupado. Parisotto é membro da Academia
de Ciências e Letras de Londrina. Na estante de seu escritório, além de
instrumentos de trabalho de seus antepassados italianos, ele guarda
uma coleção de corujas em miniatura. “Elas representam a sabedoria.
Sempre que eu encontro uma, eu compro.”
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
82
Sem parar
O professor Durval Adolar Weigert foi um dos fundadores do
curso de Educação Física e trabalhou no CEFE até os 70 anos
Com 76 anos de idade, o professor
aposentado da UEL Durval Adolar
Weigert chega ao Centro de Educação
Física e Esporte onde todos o conhecem.
Ele nomeia os atuais professores do curso,
muitos deles foram seus alunos, lembra
Weigert.
O professor chegou em Londrina em
1971 para ajudar na criação do curso de
Educação Física, naquela que ainda era a
Fundação Universidade Estadual de Londrina, depois de 10 anos de
trabalho em Assaí.
O curitibano mudou-se para Assaí, no interior, em busca de mais
aulas. Weigert formara-se na UFPR (Universidade Federal do Paraná)
em 1960, fora atleta do Clube Atlético Paranaense de basquetebol e,
ainda durante o curso, fora professor no Colégio Militar da capital. A
aventura no interior rendeu para ele um emprego no Colégio Estadual
Conselheiro Carrão, na Escola Normal Duque de Caxias e o casamento
com Maria da Conceição dos Santos Weigert.
Em Londrina, ele começou a dar aulas no Colégio Estadual
Vicente Rijo, onde ficou até aposentar-se em 1998, enquanto lecionava
na UEL. Weigert lembra que chegou a dar aulas até no banheiro do
Santa Teresinha. “A parte prática era no campo, mas a projeção eu
precisava fazer no banheiro.”
Também houve aulas no atual Colégio de Aplicação. Weigert,
que fala que o campus mesmo era só cafezal, deu aulas nas salas da
Anatomia, no meio dos cadáveres.
Além do curso de graduação, ele fez cursos de técnica em
basquete e vôlei, especialização em basquete e cursos internacionais
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
83
de aperfeiçoamento em educação física e desportos no Brasil e na
Argentina.
As disciplinas ministradas por Weigert eram de prática em vôlei,
basquete, futebol, ginástica e handebol. No curso de licenciatura, o
professor dava Introdução ao Estudo da Educação Física – ele tem um
livro não publicado sobre este assunto – , mas hoje o curso não tem
mais a disciplina.
O professor conta que sempre foi festeiro e que gostava de fazer
algo a mais para os alunos, já que muitos vinham de outras cidades e
estavam distantes da família. Ele acredita que seus alunos produziam
mais desta forma e que ainda se lembram de sua matéria e do professor
como um amigo.
Para ele, é importante a socialização do aluno e a convivência
com os demais. Por isto gostava de dar exemplos e brincar com eles,
uma vez que no futuro os estudantes estariam na frente de uma turma
de crianças e teriam que fazer o mesmo.
Weigert lembra da construção do Centro de Educação Física e
Esporte. “O primeiro a ser construído foi o ginásio, mas sem salas de
aula.” Depois vieram as piscinas internas, que eram aquecidas à lenha.
“E formava aquela pilha de lenha ali.” As quadras externas, os campos,
a piscina externa, o outro ginásio, a secretaria. Assim ele viu o CEFE
nascer e crescer.
O professor conta que gosta do trabalho e que, em 42 anos de
aulas, nunca faltou a nenhuma. Ele também gosta do local de trabalho.
Weigert volta à Universidade de vez em quando e chega até a sonhar
que está ensinando.
Em 2002, ele se aposentou pela UEL, e já acumulava duas outras
aposentadorias da época do Vicente Rijo. Apesar de ter uma das três
aposentadorias cortadas e de afirmar que o salário anda defasado, ele
não deixa de aproveitar o tempo livre. Além de cuidar dos netos e de
pescar, Durval Adolar Weigert gosta de cozinhar e diz que o almoço de
domingo é ele quem faz.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
84
Camarada feliz
Satisfeito com tudo o que fez, Durvali Emilio Fregonezi afirma
ter encontrado a felicidade e não tem medo de continuar vivendo e
superando desafios
“Eu sou um camarada bastante feliz”.
Assim se define o cambeense Durvali
Emilio Fregonezi, nascido na época em
que a região ainda era o antigo distrito
de Nova Dantzig. O largo sorriso em
seu rosto e o ritmo pacato de sua fala
revelam a alegria tranquila de quem
soube aproveitar o melhor da vida e
segue confiante em sua jornada. “A vida
é um eterno aprendizado, a gente nunca
fica pronto, segue sempre aprimorando
e há sempre o que se descobrir. Felizmente: o bom da vida são os
problemas que se apresentam como um desafio a ser vencido, é o que
nos alavanca”, avalia.
Impulsionado pelos desafios postos pela vida, aos 66 anos,
Durvali trabalhou e estudou o máximo que pôde. Lecionou para
crianças e adultos, fez mestrado, doutorado, ganhou bolsas para cursos
no exterior, publicou livros, participou de seminários e passou 30 anos
na UEL. Mas ainda carrega consigo o menino da zona rural que nunca
deixou de ser. Não se esquece do tempo em que gostava de viajar
de carroça ao lado pai e tomar guaraná com o indefectível “sabor de
infância”, como definiu, certa vez, um amigo seu.
Recorda-se, também, de quando aos 12 anos viu aflorar o desejo
de ser professor, pela experiência precoce proporcionada por uma
prima. “Ela morava na nossa casa e trabalhava como professora.
Costumava me levar para a escola para ajudar em suas atividades.
Eram muitos alunos, de várias séries, e quando ela precisava se dedicar
a um grupo, eu auxiliava dando aula para os demais. Fiz isso várias
vezes e gostava bastante”, afirma. A convicção vocacional não demorou
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
85
a se consolidar, e após formar-se em letras na Faculdade de Filosofia
e Ciências de Londrina, Durvali, começou a dar aulas em Cambé, no
Ginásio Estadual de Cambé (5ª a 8ª séries do ensino fundamental)
e na Escola Normal Grau Colegial Gabriela Mistral (formação de
professores).
Na sala de aula, conviveu com os mais variados alunos e sabia,
astutamente, o que cada um tinha de melhor. “Os alunos de antigamente
eram diferentes, iam para a universidade mais velhos e maduros e o
relacionamento era mais respeitoso. Hoje possuem uma liberdade que
às vezes pode levá-los a exceder os limites, mas por outro lado, são
mais espontâneos, o que colabora para o aprendizado. Não há melhor
ou pior, é preciso valorizar os aspectos de cada época”, pondera.
O primeiro trabalho no ensino superior veio alguns anos mais
tarde na Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Cornélio
Procópio. E, tão logo foi fundada a UEL, Durvali passou a compor o
corpo docente da instituição. Aprovado no primeiro concurso público
para a Universidade, iniciou o ciclo que levaria três décadas para se
encerrar no ano de 2000.
O caminho inicial, porém, foi repleto de “ramificações”. Os
primeiros professores contratados pela UEL raramente possuíam
contratos para 40 horas-aula. Com Durvali não foi diferente. Casado, e
já com filhos, o professor complementava a renda da família prestando
serviços em outras instituições da região norte do Paraná. “Eu dei aula
simultaneamente em faculdades de Cornélio Procópio, Arapongas,
Jandaia do Sul, Mandaguari e na UEL. Mas em todos esses lugares
tinha uma carga horária muito pequena, uma disciplina só, por
exemplo. As viagens eram muito cansativas, mas necessárias”, recorda.
Somente depois da efetivação de seu contrato para 40 horas aula na
UEL, Durvali pôde deixar os demais estabelecimentos para dedicar-se
exclusivamente à Universidade.
Mas a poeira das estradas ainda acompanhou Durvali por mais
tempo, durante seus cursos de pós-graduação. Sem licença remunerada
para afastar-se da UEL, teve que fazer o mestrado nos meses de férias:
janeiro, fevereiro e julho. “Não tinha descanso: trabalhava o ano letivo
inteiro e depois viajava para Porto Alegre, onde cursava o mestrado
na PUC [Pontifícia Universidade Católica]. E ainda precisava pagar,
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
86
porque a UEL não dava ajuda de custo. Mas valeu a pena”, diz sem
arrependimento.
O doutorado igualmente foi realizado distante da UEL, na
Universidade Estadual Paulista (Unesp), porém de modo mais
tranquilo e confortável: Durvali conseguiu o afastamento e uma bolsa
de estudos para dirigir-se a Araraquara, interior de São Paulo, onde
fica o campus de letras da instituição. Desta vez pôde até levar a família
para acompanhá-lo durante os dois anos de estudo.
Orgulhoso da experiência que adquiriu ao longo do tempo,
o professor destaca a sua participação na implantação do curso de
mestrado em estudos da linguagem, a primeira pós-graduação “stricto
sensu” a funcionar no Centro de Ciências Humanas (CCH). Além de
cofundador do curso, Durvali lecionou para o mestrado, teve muitos
orientandos e, em seus últimos anos de UEL, dedicou-se quase que
exclusivamente a este trabalho. “Muitos destes meus alunos hoje
são professores do departamento de letras da UEL. Como resultado
das minhas orientações de mestrado, foram publicados alguns livros
na área de ensino da língua portuguesa. Isso foi muito importante”,
declara.
Sempre atento às oportunidades que pudessem surgir, Durvali
conseguiu de maneira imprevista a primeira chance de estudar no
exterior: “Eu li num jornal que o governo da Bélgica estava oferecendo
bolsas de estudos para estudantes brasileiros e resolvi tentar. Fiz o
projeto e fui contemplado. Eu e minha família fomos para a cidade
Liége e passamos um ano e meio lá. Foi uma experiência muito rica”.
Anos mais tarde, conseguiu uma nova bolsa, desta vez da
Fundação Calouste Gulbenkian de Portugal, que lhe proporcionou
um semestre de estudos sobre o ensino da língua portuguesa em seu
país de origem, um dos focos de seu trabalho acadêmico. A respeito,
o professor explica: “O meu objetivo era verificar como se dá o ensino
da língua materna, pois já estudava esta área. Foi uma excelente
oportunidade”.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
87
Um novo caminho
Durante o tempo em que esteve na UEL, Durvali ocupou cargos
administrativos dentro do CCH, mas não esconde que sua maior paixão
era a sala de aula. “Eu gosto muito de dar aulas e me realizei como
professor”, assegura entusiasticamente.
A declaração é sincera e pode ser comprovada nas atuais
atividades de Durvali, que mesmo aposentado não deixou de trabalhar:
“Quando chegou a época da aposentadoria não foi muito bom, não. Eu
já estava acostumado com a rotina, principalmente com o mestrado,
que exige bastante da gente. Mas essa sensação ruim foi minimizada
porque eu não me afastei por completo da minha profissão. Não houve
uma ruptura brusca, logo que deixei a UEL recebi convites de outras
universidades do Paraná e não cheguei a ficar parado”.
Hoje, continua lecionando em cursos de especialização e, além
disso, trabalha como avaliador do Sistema Nacional de Avaliação da
Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação (MEC).
Visivelmente satisfeito com mais essa função, Durvali nos relata
a sua nova rotina: “É um trabalho muito interessante. Todos os cursos
do ensino superior passam por uma avaliação periódica e eu faço
parte do grupo de avaliação na área de letras. É mais uma realização
profissional, porque posso conhecer outras realidades culturais e
educacionais. No ano passado, por exemplo, estive em uma instituição
em Macapá (AP), norte do Brasil, no primeiro semestre e três meses
depois fui designado para avaliar um curso em Rio Grande (RS) que
fica bem no sul. São contextos totalmente diferentes e é gratificante
para mim, ter esta oportunidade”.
Dos tempos de UEL, confessa sentir saudades do convívio
com colegas de profissão da Universidade e de outras instituições,
conhecidos nos congressos e eventos da área. Mas afirma, “é um ciclo
que se fecha e outro começa, novos caminhos surgem. Agora eu estou
numa fase com mais tempo para me dedicar à família. Meus quatro
filhos são casados e tenho seis netos. Então eu posso conviver mais com
eles, isso é muito bom”, diz animado. O tempo também é preenchido
por leitura e viagens.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
88
E assim, realizado por completo, Durvali continua em sua
trajetória, aceitando o desafio de percorrer as novas estradas
desbravadas pela vida. “As viagens e a companhia constante de Nilséia,
minha esposa, os encontros com as famílias dos filhos, os passeios com
os netos são os responsáveis pela luz especial que ilumina minha vida.
Representam o porto seguro no mar agitado da existência. E como diz
Guimarães Rosa, ‘o mais importante e bonito do mundo é isto: que as
pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas
que elas vão sempre mudando’. O homem ainda continua mudando,
amadurecendo, agora diante de nova realidade, em novo caminho com
outro tipo de relacionamento, enfim vivendo”, conclui.
A citação do grande mestre das letras, Guimarães Rosa, não
poderia ser mais acertada. Durvali, afinal, se encaixa perfeitamente na
definição do escritor. Que a experiência cotidiana permaneça na sua
interminável tarefa de moldar a pessoa que o senhor é e de quem a UEL
sente muitas saudades.
Janaína Castro
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Na obra de Pedro Nava
Edina Panichi, professora sênior da UEL, dedicou suas pósgraduações a estudar e escrever sobre o autor, o que lhe rendeu
inclusive uma indicação ao Prêmio Jabuti (2004)
Uma carta do médico e
romancista
Pedro
Nava
abriu para a professora
Edina Panichi uma carreira
na Universidade Estadual
de Londrina. O mesmo
motivo a fez continuar, como
professora sênior, mesmo
depois da aposentadoria.
Edina Panichi graduou-se
em letras anglo-portuguesas
em 1974 pela PUC de Curitiba e mudou-se no para Londrina após
seu casamento. Em 1982, Edina ingressou na UEL como aluna de
Especialização em Língua Portuguesa.
Para a monografia do curso, Edina estava decidida a trabalhar
estilística na obra de um autor que estivesse vivo na época. Com
indicação de Sebastião Querubim, seu orientador, Edina escolheu a
obra do mineiro Pedro Nava, médico e escritor de memórias que já
havia ganhado o Prêmio Jabuti e o Prêmio da Associação Paulista de
Críticos de Arte (APCA).
Depois de aprovado, Edina enviou o trabalho - Estilística léxica
em Baú de Ossos de Pedro Nava - para o autor, e recebeu a resposta
com as observações sobre o trabalho e um pedido para conhecê-la.
No final, “Sou como os ingleses, I insist, (eu insisto) desejo que outros
livros meus mereçam outros trabalhos seus.”
Edina esteve com o escritor seis vezes, “(...) nestas conversas
ele me mostrou o processo criativo dele. Ele anotava em fichas tudo
o que tivesse possibilidade de uso e guardava. Na hora de esboçar os
capítulos ele pegava todas aquelas fichas e fazia o que ele chamava de
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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boneco, que era um sumário, onde ele ia colocando todas aquelas fichas
selecionadas para depois fazer os originais (...). Para cada livro de 600
páginas ele tinha mais de três mil fichas, algumas com caricaturas.”
Em 1984, após atender um telefonema e falar para Antonieta,
sua mulher, que nunca havia ouvido nada tão obsceno em toda a sua
vida, Nava saiu de casa e cometeu suicídio. Edina, que já era professora
da Universidade e estava estudando a obra do autor em seu mestrado,
acreditou ter perdido o contato com todo o material de Nava, e com ele
a sua pesquisa.
Foi quando a professora recebeu uma carta do jornalista
Joaquim Inojosa, que escrevia no Jornal do Comércio e frequentava o
“sabadoyle” -uma reunião de intelectuais na casa de Plínio Doyle no Rio
de Janeiro. Pedro Nava levara a monografia de Edina à reunião em um
sábado e o jornalista que ficou com o material convidou a professora
para visitá-los.
“E eu fui ao `sabadoyle´ várias vezes. O Plínio Doyle que era o
anfitrião, era o presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa, onde
estavam os arquivos de Pedro Nava. Mas estava muito oneroso ir ao
Rio de Janeiro sempre e aí eu quis fazer cópias, conversei com a mulher
do Pedro Nava, e ela me lembrou da carta em que ele dizia que eu
continuasse trabalhando com a obra dele.”
Com a cópia registrada da carta de Pedro Nava em mãos a
professora Edina conseguiu copiar todo o acervo do professor. Desde
então ela vem coordenando projetos de pesquisa sobre o autor. O projeto que resultou no livro “Pedro Nava e a Construção do
Texto”, com coautoria do professor Miguel Contani foi o único livro
da Universidade Estadual de Londrina indicado ao Prêmio Jabuti –
um dos prêmios que Pedro Nava ganhou. A categoria em que o livro
concorreu foi teoria/crítica literária. No ano em que a indicação
aconteceu, 2004, a professora já era sênior, ou seja, apesar dos vínculos
com a Universidade, não recebe para isto.
A professora Edina Panichi, além de chefe do Departamento
de Letras Vernáculas e Clássicas, coordenadora da Especialização em
Língua Portuguesa, foi uma das idealizadoras e trabalhou no DisqueGramática da UEL por dez anos.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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A ideia era de fazer um serviço para a comunidade acadêmica.
Mas acabou extrapolando. Ela se lembra da época em que uma rede
de supermercados da cidade só veiculava suas propagandas depois de
passar pelo serviço.
Edina Panichi comenta que sempre teve muita curiosidade pela
língua portuguesa, por isto a vontade de trabalhar com livros, estilística
e gramática. A professora diz que não descarta a possibilidade de
escrever um livro literário. Por enquanto a certeza é de continuar
dando aula nos programas de mestrado e doutorado, como ela diz, “Eu
me orgulho muito de dizer que sou da UEL, faço questão de registrar
que sou da UEL e continuo sendo enquanto me aguentarem.”
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Pioneiro da Odontologia
Edison Lúcio Ferreira Fava foi pioneiro da criação da Faculdade
Estadual de Odontologia de Londrina, uma das que formaram a UEL
Paulista da cidade de Lins, Edison
Lúcio Ferreira Fava chegou a
Londrina aos quatro anos de idade,
em 1939. Sua família mudou-se
para o Paraná para a fazenda do avô
que já morava aqui antes.
Aqui, o menino Edison completou
os estudos até o antigo ginásio
(atual ensino fundamental). Depois,
foi para a capital de São Paulo estudar no Colégio Arquidiocesano, dos
Irmãos Marista, onde completou o científico (atual ensino médio).
Em seguida retornou a Londrina para fazer um curso de química,
relacionado a laboratório. Após encerrar o curso, prestou o vestibular
e em 1956 iniciou o curso de Odontologia na Universidade Católica de
Campinas.
Já graduado, Edison conseguiu através de contatos com familiares
que já trabalhavam na área de Odontologia na USP, entrar em uma
especialização na Universidade de São Paulo, em que se aprimorou em
periodontia.
Em 1961, voltou para Londrina e abriu seu primeiro consultório
no Edifício Júlio Fuganti, que fica na Rua Senador Souza Naves, centro
da cidade. Desde então, Edison e os colegas de profissão da cidade,
comandados pela Associação Odontológica, iniciaram um movimento
em prol da expansão da Odontologia e região. O grupo de dentistas se
uniu para forçar politicamente a criação de uma faculdade estadual de
Odontologia. “Queríamos uma escola em que ninguém precisasse pagar
mensalidade. Nós criamos um espírito de evolução na Odontologia
londrinense. Foi uma briga boa, gostosa”, lembra.
E em 1963 foi fundada a Faculdade Estadual de Odontologia de
Londrina (FEOL), pioneira no norte do estado. “O nosso pioneirismo
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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na odontologia no norte do Paraná foi grande. Tanto é verdade que
logo em seguida já nasceram as faculdades em Maringá e Ponta Grossa.
E também foi a nossa Faculdade foi quem deu o pontapé inicial para a
formação da Universidade”, garante.
Edison conta que não foi fácil e não faltou oposição ao projeto
dos dentistas. “Até a Associação Médica era contra. Não queriam que
tivesse a Faculdade de Odontologia antes da de Medicina. Mas nós
fizemos. A de medicina foi criada depois e usou os prédios que eram da
Odontologia,” comenta.
Edison foi efetivado como professor da FEOL em 1965, dois anos
depois da inauguração da faculdade. Ele revela que os salários iniciais
eram bastante pequenos e que todos trabalhavam mais pelo amor que
sentiam. “O ‘status’ que a gente tinha de professor era o suficiente para
a gente”, afirma.
Além disso, todo o trabalho na faculdade era realizado
simultaneamente às atividades nos consultórios particulares dos
dentistas. “Tudo foi feito ao mesmo tempo. A gente tinha que trabalhar
nos consultórios, mas muitas vezes até deixávamos nossos pacientes
para atender à escola”, recorda. Apesar da sobrecarga de trabalho,
o professor garante que não fazia nem ouvia reclamações. “A gente
gostava, éramos muito animados. Houve um entrosamento, uma união
muito grande naquela época”, lembra com saudosismo.
Em 1971, a FEOL foi uma das faculdades que formaram a
Universidade Estadual de Londrina. A partir daí, as turmas de
Odontologia começaram a receber mais estudantes. “No início eram
20 ou 30 alunos. Depois que foi para a UEL a turma ficou com 60. Veio
uma ‘enchente’ de odontólogos para Londrina”, comenta sorridente.
Edison começou a lecionar desde o começo da Universidade.
Foram mais 34 anos de dedicação ao ensino da Odontologia. Além de
professor, Edison chegou a ser chefe da disciplina de clínica integrada,
a partir de 1985. Deixou o cargo em 1995, após uma determinação do
MEC de que os dirigentes de disciplinas deveriam ter mestrado ou
doutorado, e ele tinha apenas especialização.
O aprendizado do dia a dia na sala de aula foi constante em toda
a sua carreira, principalmente no início: “A gente aprendeu a lidar
com o aluno na prática. A didática, o plano de aula... Qual a melhor
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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forma para o entendimento do aluno... assim a gente ia aprimorando o
método de ensino”, explica. O dentista e professor acompanhou muitos anos de evolução na
Odontologia, dos quais também participou. Sempre atento às novidades,
conferências e preocupado em levar tudo isso para a sala de aula. Por
este motivo, orgulha-se de ter integrado o curso de Odontologia que
durante muito tempo formou alunos mais bem preparados que os de
outras universidades tradicionais. “Os nossos alunos eram os mais
procurados. Porque aqui a prática era mais intensa até do que a USP.
Formamos bons profissionais e tínhamos consciência desta qualidade”,
garante.
Ao tocar neste assunto, Edison demonstra uma certa preocupação
com a responsabilidade do professor de transmitir os valores da futura
profissão aos alunos. “Muitas vezes os alunos saem da escola e prestam
o vestibular pensando no dinheiro que vão ganhar e não para usar com
amor aquilo que ele vai aprender. Eles vão para a Odontologia porque
ganha dinheiro... mas não é assim, tem que ter o carinho, a vontade de
aprender! Isso a gente também tem que ensinar”, afirma.
O relacionamento com os alunos também foi sempre agradável.
E as amizades extravasaram as paredes das salas de aula. “Uh! Até hoje
os alunos vêm me abraçar! E têm muitos que cresceram na profissão,
hoje são bem-sucedidos, dão até conferência!”, diz com orgulho.
A aposentadoria entrou gradativamente na vida do professor.
Primeiro, em 1992, ele deixou de clinicar e passou a dedicar-se apenas
as aulas na UEL. Assim foi possível se acostumar com um ritmo menos
intenso de trabalho, até que em 2006 chegou a hora de se despedir
também dos alunos. “Aí o ‘baque’ foi maior. Às vezes eu tinha até
insônia... sinto muita falta!”, diz emocionado. O professor não consegue
nem conter as lágrimas diante das lembranças do seu trabalho na UEL.
“Ah, sempre tem a saudade, né? Eu fico aqui em casa, sem consultório,
sem dar assistência aos alunos, sem ter os alunos em volta, os colegas
também... dá muita saudade!”, comenta.
Mas, para aliviar esta saudade, Edison tem a receita: “Ah de vez
em quando eu dou ‘um chego’ lá na escola, dou uma volta, cumprimento
todo mundo, converso com o pessoal... e volto! Não acho ruim a
aposentadoria... Estou bem!”, garante.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
95
Com o tempo todo livre em casa a vida passou por grandes
mudanças. Além de aproveitar mais a família, especialmente os onze
netos, Edison comenta como se reestruturou e ficou mais atento à
saúde: “Eu faço ginástica e cuido da alimentação, porque há quatro
anos descobri que sou diabético. E agora consigo controlar o peso. Já
faz dois anos que estou com 80kg. Antes não tinha essa regularidade”.
E é assim, comentando os benefícios do merecido descanso
sem deixar de transparecer a saudade, que o atencioso professor me
agradece com entusiasmo pela entrevista que acaba de me conceder:
“Muito obrigado por se lembrar de um simples aposentado como eu!”.
Surpresa com a demonstração de gratidão do professor, não me resta
nada a responder a não ser: “nós é que agradecemos professor Edison,
eu e a UEL”.
Janaína Castro
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
96
Uma gaúcha de opinião
Gaúcha, decidida, brava e competente, Eliane Cristina Palaoro
Pereira dedicou-se de corpo e alma ao seu trabalho na UEL
“Eu sempre fui muito decidida”. Ao ouvir
a história de vida desta gaúcha de Porto
Alegre (RS), não há como duvidar da pronta
afirmação. Com apenas sete anos de idade,
a pequena Eliane já sabia o que queria ser
quando crescesse: veterinária. Dez anos
depois, precisou superar a oposição do pai,
que preferia um curso mais ‘feminino’ para
a época. E conseguiu: “Fiz o vestibular para
veterinária escondida. Ele pensava que eu
estava prestando para pedagogia”, lembra.
Em 1970, Eliane ingressou no curso de medicina veterinária da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi lá também
que conheceu Nabor Augusto Pereira, seu atual marido. Os dois
estudaram na mesma turma, mas só começaram o namoro depois de
formados.
Recém-formada, Eliane saiu pela primeira vez do Rio Grande do
Sul para fazer estágio na fábrica de leite em pó da Nestlé em Araçatuba,
interior de São Paulo. Lá, a médica veterinária trabalhou durante oito
meses com inspeção e tecnologia de leite. A experiência foi decisiva
para seu posterior ingresso na UEL.
Encerrado o estágio, Eliane, que já estava noiva, voltou para
Porto Alegre com a intenção de casar. Mas Nabor, ainda estava
fazendo residência na cidade de Botucatu, em São Paulo. Foi quando
o destino direcionou suas vidas para o interior do Paraná. A convite
de um colega de turma, Nabor fez em Londrina uma prova para o
Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Aprovado, mudou-se para cá
e gostou da cidade. Pouco tempo depois veio o casamento e o casal
fixou residência na “Pequena Londres”. “Eu vim para cá com 15 dias
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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de casada. Uma semana depois saiu um edital de convocação da UEL
para professores de veterinária e fui tentar. Quando o professor Müller
viu o estágio da Nestlé no meu currículo, me indicou para dar aula de
inspeção e tecnologia de leite, carne, ovos e pescado. O contrato inicial
era de apenas 12 horas-aulas, mas eu aceitei e voltei para casa feliz da
vida!”, comemora. Assim, no dia 23 de fevereiro de 1976, iniciou-se o
trabalho da professora Eliane na Universidade.
Como não tinha experiência em dar aulas, o começo foi um desafio
para Eliane. Para enfrentá-lo, ela recorreu a seus antigos professores da
UFRGS, que “ajudaram muito”, ressalta a com veemência. Os desafios
enfrentados por ela ultrapassaram a busca por formação qualificada.
A jovem professora teve que encontrar coragem, como ela bem se
recorda: “A primeira vez que entrei numa sala de aula levei um susto.
Eu tinha 23 anos e a maioria dos alunos era homem e mais velha do
que eu. Eu me senti um passarinho fora da gaiola cheio de gavião para
pegar! Eu era magrinha, com estes olhos claros [aponta para o próprio
rosto], não era uma ‘Gisele Bündchen’, mas não era feia! Senti uma
necessidade muito grande de ser respeitada na sala de aula, para não
perder o controle da situação. Por isso, eu era muito brava, não dava
nem um sorriso!”. Mas, explica que tanta agressividade era “muito
mais defesa do que ataque”.
Hoje, Eliane acha graça da fama que conquistou por este
comportamento que manteve durante todos os anos em que esteve na
UEL. “Quando chegavam alunos novos, os mais velhos já diziam ‘cuidado
com a professora Eliane!’. Eles tremiam quando se aproximavam de
mim. Depois viam que não era tudo isso que o pessoal falava. Eu era
exigente e brava, mas nunca chamei a atenção sem ter necessidade e
jamais ridicularizei um aluno em público. Mas foi a fama que eu tive,
eu era a ‘gaúcha de faca na bota, com essa gaúcha não dá pra brincar!’”,
comenta com bom-humor.
Em agosto de 1979, Eliane saiu de licença para fazer mestrado na
UFRGS. A grande oportunidade de direcionar seu trabalho para a área
que sempre quis, como ela mesma conta: “Todo mundo preferia que
eu fizesse na área de tecnologia, pois era a minha disciplina, mas eu
queria clínica veterinária de pequenos animais. Essa era a chance de eu
mudar de área. Por isso assumi o risco e mudei. Fui para Porto Alegre
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
98
com meu marido, onde ele fez mestrado na mesma época, e ficamos lá
entre 1979 e 1981”.
Ao retornar a Londrina, no segundo semestre de 1981, Eliane,
então mestre em clínica médica veterinária, estava preparada para ter
que voltar para a disciplina de tecnologia, que havia deixado. Mas,o
destino reservou-lhe a oportunidade de assumir a disciplina que
desejava: “A professora titular de clínica médica estava no segundo
ano de mestrado, na UFRGS também, e decidiu não voltar para a UEL.
Como eu cheguei com o mestrado na área, a disciplina foi atribuída a
mim”, conta.
A partir daí, a professora pôde trabalhar com o que realmente
gostava e não parou mais. “Eu não saí da Universidade desde então.
Todo mundo que passou pela veterinária foi meu aluno. Em um
momento comecei a dar aula para duas gerações, porque os filhos
dos meus ex-alunos fizeram veterinária também! O atual reitor da
Universidade (2008), só não foi meu aluno porque ele fez a minha
disciplina na época do mestrado. Só esse pessoal da turma dele não
estudou comigo, do resto que se formou na UEL, eu dei aula para todo
mundo”, orgulha-se.
A dedicação incondicional ao trabalho não fez com que Eliane
deixasse a convivência e as preocupações com a família de lado. Mãe
de dois filhos, a veterinária abdicou da chance de fazer doutorado para
ficar ao lado deles. “Meus dois filhos eram pequenos e eu não tinha
ninguém da família por perto para ajudar, como mãe ou irmã... e não
existiam tantas creches com preços acessíveis como hoje: eram poucas
e muito caras. Então eu optei pela família. Quando chegava a minha
vez de sair para o doutorado eu cedia para um colega. Eu dizia ‘Vai tu e
eu fico, vai tu e eu fico’ e foi assim até a aposentadoria”, comenta.
Eliane não se arrependeu de permanecer todos estes anos na
Universidade e sempre trabalhou com muito e empenho e satisfação.
Especializou-se em dermatologia animal e, além das aulas, atuou
como profissional no Hospital Veterinário da UEL (HV), onde deixou
sua marca registrada: ajudar aqueles que precisassem. “O HV sempre
atendeu uma parcela mais carente da população. Para conseguir
consultas sem custos, as pessoas tinham de preencher uma ficha
declarando ser pobre. Cada professor do hospital tinha uma cota por
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
99
mês para usar como ‘interesse didático’, que funcionava assim: aquela
consulta era usada para dar aula. Então era muito mais demorada,
todos os alunos mexiam no animal, faziam perguntas e por isso a gente
não cobrava. Eu sempre estourava a cota, porque não tinha coragem de
cobrar de pessoas que eu via que não tinham dinheiro”, confessa.
Movida por este espírito altruísta, Eliane fazia mais do que apenas
atender aos necessitados. Ao receber os representantes de laboratório
que iam ao HV vender seus produtos, ela fazia uma exigência básica:
a “cota dos pobres”. “Quando eles chegavam, eu avisava que para ter
minha atenção tinha que deixar a ‘sacolinha dos pobres’. Eu tinha um
armário grande que era lotado de amostra grátis deixada por eles.
Então, quando eu via que a pessoa gostava do seu animal, mas não
tinha dinheiro, eu não tinha cara de cobrar. Remédio para cachorro
é muito caro! Aí eu dava: a pessoa saía com o remédio, a ração e até o
xampu para dar banho”, conta.
Em troca das ‘contribuições’ para os pobres, Eliane ‘vestia a
camisa’ dos produtos e fazia propaganda deles tanto em seu dia-a-dia,
quanto nas palestras que ministrava: “Os laboratórios sabiam o que eu
falava e que tinha repercussão. E eu nunca cobrei nada para mim: era
só a ‘cota dos pobres’ mesmo”, garante. A professora considera este
trabalho como uma de suas missões na UEL e lamenta que não tenha
conseguido deixar nenhum continuador desta obra: “Quando eu me
aposentei acabou! Agora tem até uma norma da direção do HV que
proibiu os professores de terem amostras grátis em suas salas. Eu não
sei porquê! Dizem que foi para controlar o uso de psicotrópicos, mas no
meu armário eu só tinha remédios comuns: antibióticos, vermífugos,
xampus...”.
O coração foi certamente o ‘guia-mor’ na vida de Eliane. Ela fala
com orgulho e saudosismo de um tempo em que “a UEL era diferente.
As coisas não eram tão corridas. Quando chegava um colega novo
eu literalmente adotava. Viravam meus filhos queridos e assim nós
vivíamos como uma grande família no HV. Ficávamos no hospital até
12 horas por dia, porque era prazeroso. E depois eu trazia o pessoal
para minha casa, fazia comida para todo mundo. Era a ‘casa da mãe’,
alguns me chamam de ‘mãezona’ até hoje. Eles vinham aqui até para
enrolar brigadeiro nos aniversários dos meus filhos. Foi a época em
que fomos mais felizes, mas infelizmente passou”, lastima.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
100
Aposentadoria, um novo começo
Nesses anos todos dedicados à UEL, a única lamentação de
Eliana é com relação ao que ela chama de “mudanças” que considera
ter acontecido na Universidade ao longo dos anos. Sem entrar em
detalhes, alega que “algumas pessoas” da UEL com quem trabalhava
haviam perdido um pouco o espírito de família, comum à instituição.
“Pessoas lá de dentro se comportaram de uma maneira que eu não
concordava e por isso preferi me afastar”. Mas tão logo releva: “Eu não
tenho nada contra a UEL. A Universidade me deu a oportunidade de
ser tudo o que eu sou hoje. Se eu não conseguisse esse emprego assim
que cheguei à cidade, não sei o que teria sido de mim”, encerra.
Os conflitos de consciência não foram os únicos reflexos do
momento difícil pelo qual Eliane passou. Gradativamente sua saúde
também começou a demonstrar sinais de fraqueza. Dois anos antes da
aposentadoria a professora foi acometida por uma úlcera no duodeno
e uma gastrite aguda difusa. O alerta máximo não demorou muito
a chegar: um AVC (acidente vascular cerebral). “O médico que me
atendeu avisou a meu marido que este AVC foi apenas um aviso e
não deixaria sequelas graves. Mas que o próximo eu não aguentaria”,
enfatiza.
Era definitivamente a hora de parar. Em 2005 Eliane solicitou sua
aposentadoria por tempo de trabalho. Emendou duas licenças-prêmio
e férias vencidas que possuía. Afastada em definitivo, deu sequência ao
tratamento.
A recuperação deste quadro é claramente perceptível. Eliane
não aparenta nenhuma sequela do episódio do AVC. A professora
demonstra ser a mesma pessoa alegre, decidida e “inquieta” de sempre.
Ainda com muita disposição, expressa o que é fácil perceber: “Eu sou
muito agitada. Quando vi que estava em casa sem fazer nada, não
aguentei e fui procurar as clínicas dos meus ex-alunos”. Hoje, trabalha
como uma espécie de assessora para os casos mais graves na área de
dermatologia que é sua especialidade. Atende em quatro clínicas de exalunos no período da tarde e garante: “todo dia tem um caso para mim.
Sempre tem o que fazer”. Apesar de continuar trabalhando, Eliane ressalta a liberdade e
tranquilidade das quais pode desfrutar. “Posso viajar quando preciso
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
101
e tenho mais tempo para estudar outras áreas que me interessam
como comportamento animal, que já até comecei a aplicar nas minhas
consultas”.
Além da atuação nas clínicas, a professora também participou
de um projeto de extensão, depois de aposentada: “Conhecer e
Respeitar”. Ao lado de colegas das áreas de educação artística e artes
cênicas, visitava as creches do Hospital Universitário e do campus para
apresentar um animal às crianças de até seis anos. “A gente escolhia
um animal, montava a apresentação que podia ser teatro ou fantoches,
por exemplo, e mostrava para as crianças as características dele: ‘Quem
é? O que come? Para que serve? Como está inserido na natureza? Por
que cuidar? Por que respeitar?’. No final, eu levava o animal vivo para
elas verem e tocarem. Era muito divertido”, lembra.
A versatilidade de Eliane alcançou até mesmo as frequências
do rádio. A convite do amigo José Makiolke (Zezão), que apresenta
o “Programa do Zezão” na Rádio Paiquerê AM, Eliane participou do
quadro “Mundo Animal”, em que respondia a perguntas de ouvintes
sobre seus animais de estimação. “O Zezão é um grande amigo meu. Eu
me diverti muito neste programa. E tinha bastante audiência”, afirma
entre risos. Eliane também não deixou de frequentar os congressos de
veterinária uma vez por ano, apesar do hábito causar surpresa em
seus colegas. “Quando me encontram, as pessoas me perguntam o
que estou fazendo em um congresso. Ora, estou aposentada, mas não
estou morta! Tem gente que pensa que quando se aposenta a pessoa
fica só fazendo tricô e pensando na vida... Não! Foi uma etapa muito
importante, mas que passou. Foi um ciclo que se fechou e outro que
começou!”, discursa.
E de onde vem energia para fazer tanta coisa, professora? A
resposta é tão rápida e objetiva quanto Eliane demonstra ser: “Quando
você faz o que gosta, sempre acha tempo!”. Sábias palavras, professora.
Por elas e por todos os anos dedicados de “corpo e alma” à instituição,
agradecemos em nome da UEL. A torcida é para que essa mestra siga
fazendo o que gosta, ainda por muito tempo.
Janaína Castro
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
102
Elisabete Abelha Lisboa
Elisabete Abelha exerceu durante 23
anos a função de secretária. Sua atenção
era disputada por alunos, professores e
telefones. Uma rotina difícil e cansativa, no
entanto, muito apreciada por Elisabete. A
cobrança diária, principalmente dos alunos,
era saudável: “Eu tinha que me manter
informada e sempre atualizada. Porque
eles perguntavam mesmo, e queriam
respostas”. Elisabete não gostava de deixar
pergunta sem resposta. Enquanto buscava
informações para esclarecer os alunos, aprendia muito e de tudo um
pouco.
Certa vez a prática de Elisabete causou uma enorme confusão.
Transferida recentemente da secretaria do curso de Veterinária para
a Engenharia Elétrica, ela recebeu um pedido de compra de mercúrio.
“Achei estranho um professor de Engenharia Elétrica pedir mercúrio
cromo, mas mandei comprar”. Pronto, estava feita a confusão. O
professor não especificou no pedido de qual mercúrio iria precisar.
Elisabete, acostumada na veterinária, pediu o medicamento mercúrio.
Ela conta que o professor chegou aos gritos na secretaria, indignado
com o erro. “Ele era um japonês bravo e eu fiquei muito envergonhada”.
A confusão rendeu muitas risadas e uma amizade sincera entre o
professor e Elisabete. “Ele dizia que eu era muito boa no vernáculo. E
era eu que datilografava todos os trabalhos dele e consertava algumas
coisinhas. Ele era japonês e tinha dificuldade com a nossa língua”.
Como secretária, Elisabete acompanhou e participou ativamente
da criação de alguns cursos: Agronomia, Arquitetura e Urbanismo,
Engenharia Elétrica. Segundo Elisabete, implantar um curso é um
processo lento e trabalhoso. É necessário que a instituição tenha
infraestrutura, livros, professores com especialização e atenda a uma
série de outros requisitos. Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
103
Elisabete é paulista. Quando ainda morava no interior de São
Paulo, cursou o magistério e lecionou por alguns anos. Ela veio para
Londrina em 1970, com a família. Assim que chegou se encantou com a
cidade. Entretanto, ela revela que estranhou a terra vermelha. “Quando
chovia era barro, quando tinha sol era poeira”. E, para piorar, o bairro
onde morava não era asfaltado. Tempos complicados aqueles, afirma Elisabete. “Não tinha
acesso para a Universidade. Eu morava no Orion, era mais perto ir
a pé. O ônibus demorava uma hora, a pé era rapidinho”. Entretanto,
no caminho de casa até a UEL ela só encontrava mato. “Era uma
desbravadora”, conta, risonha. Para Elisabete, o trabalho na Universidade foi o grande
responsável por seu crescimento intelectual, estava sempre
aprendendo. Além disso, foi pelo trabalho que ela decidiu cursar
Educação Artística. “Para assumir o cargo de secretária executiva era
preciso ter registro em carteira e ensino superior. Mesmo estando no
cargo, não achei justo não ter o ensino superior. Então, decidi fazer”.
Elisabete gostava de artes, já tinha experiência no magistério e, por
isso, optou por Educação Artística. Mas, nunca exerceu. “Gostei muito
de estudar Educação Artística. E sempre é muito bom aprender”.
Léia Dias Sabóia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Nas Notas do Saxofone
Erlei Odino Gusso começou a lecionar na UEL pouco antes da
primeira aposentadoria. Agora o professor aproveita o tempo livre
para aprender e se dedicar à música
A música e a religião fazem parte
do cotidiano do auditor e professor
aposentado. Há dois anos, Erlei Odino
Gusso toca saxofone e agora está fazendo
curso de flauta doce. Mas sua história
de carinho com a música é antiga, desde
a época de menino, quando o professor
começou os estudos para ser um irmão
Marista como seu tio – ordem que valoriza
esta arte.
O menino Erlei tinha apenas 10 anos e não sabia bem o que era
dedicar-se a vida religiosa. De Colombo – região metropolitana de
Curitiba – foi para Mendes (RJ) estudar nesta ordem. O professor conta
que “do levantar, até a hora de dormir, tudo era falado em francês” –
língua do patrono Marcelino Champagnat. Foi nos Maristas que ele
começou a lecionar latim e francês, nos colégios dos irmãos em Franca
(SP) e na capital paulista.
O trabalho pedagógico dos irmãos e a ordenação não eram o que
Gusso imaginava para o seu futuro, por isto ele saiu. Mas, depois da
aposentadoria na UEL, o professor retomou seus estudos religiosos e
cursou Teologia no seminário João VI, que na época não tinha um curso
voltado para leigos. Com mais este curso superior, pode compreender
as razões da fé e outras questões que não estudou na base que teve com
os maristas, afinal, lá ainda não era uma faculdade.
O trabalho em favor da religião católica continuou principalmente
em torno daquilo que ele mais gosta: a atividade missionária. Gusso
é secretário do Comire - Conselho Missionário Regional da CNBB
(Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) que tem como missão
“despertar o ardor missionário das paróquias”, explica. Para tanto,
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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ele lembra que é preciso manter-se atualizado e saber o que está
acontecendo ao redor do mundo. Destaca também que além da ajuda
em oração e comunicação, é imprescindível “por a mão do bolso” para
ajudar povos mais necessitados.
Experiência e opinião caracterizam este professor que começou
a dar aulas no ensino superior apenas dois anos antes de sua primeira
aposentadoria no serviço público. “Percebi que todo mundo se
aposentava e morria, então eu resolvi fazer outra coisa”, revela Gusso.
A experiência deu certo para ele e, com certeza, para a Universidade
Estadual de Londrina.
Gusso havia trabalhado como tributador na prefeitura de
Curitiba e no Tribunal de Contas estadual quando, em 1961, houve um
concurso para escrivão de coletorias federais, taxas que, ele explica,
hoje são pagas em agências bancárias e antes eram pagas diretamente
aos órgãos públicos. Em 1970, por meio de outro concurso que exigia
diploma superior, passou a técnico de tributação, até este se tornar
auditor federal.
Pela Receita Federal, Gusso trabalhou em Cornélio Procópio, em
Paranaguá (no porto), em Curitiba, até vir para Londrina. O primeiro
curso superior, inclusive, acompanhou as mudanças: os quatro
primeiros anos foram cursados na Universidade Federal do Paraná e o
último na Faculdade Estadual de Direito de Londrina. Nesta época, ele
morava em Cornélio Procópio e vinha todas as noites para a faculdade,
no prédio do Grupo Escolar Hugo Simas.
Mas, acabado o curso de Direito, sentindo que os contadores
o enganavam - ou como ele diz, o “logravam” - e que precisava dos
conhecimentos de Ciências Contábeis, Gusso partiu para a segunda
graduação, esta já na UEL. Ele lembra que nesta época a receita
também oferecia muitos cursos a seus funcionários, apesar de ser muito
específico: “A gente está sempre aprimorado, mas só para aquilo.”
Apesar do salário bom, Gusso sabia que a visão do auditor para o
mundo ficava restrita e via a aposentadoria chegar, por isto comentou
com o também contador e professor da UEL, Joaquim Scarpin, que
gostaria de assumir algumas aulas. Assim, Gusso conseguiu aulas na
Faculdade de Administração e Ciências Contábeis de Arapongas.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
106
Em 1986, o professor prestou concurso para a UEL e assumiu
novas aulas no Departamento de Ciências Contábeis. No começo, ele
lembra, “eu era muito rígido”, mas a Especialização em Metodologia
de Ensino Superior ajudou-o tanto que o professor diz que a turma que
esteve com ele naqueles dois anos sentiu a diferença. A especialização,
apesar de ser na Faculdade de Arapongas, era ministrada por
professores da UEL que tinham o mesmo curso em Londrina.
Apesar de ter dado aula no tempo do “giz, saliva e da
transparência”, o professor conta que pegou dois ou três anos de
implantação da informática. E brinca: “como sofri”.
Como as primeiras aulas eram só à noite e mesmo com algumas
de manhã o professor continuou com algum tempo livre, Gusso foi se
acostumando com a aposentadoria. Após deixar a UEL em 2003, ele
foi o responsável pela implantação do curso de Ciências Contábeis da
Faculdade Inesul e ficou dois anos lá. Depois de um tempo, readaptaram
todo o currículo, em outra experiência em que, além de valiosa, ele
perdeu “o resto dos cabelos”.
Há três anos se dedicando à música e à religião, Gusso também
procura ir à academia de ginástica todos os dias. Tudo porque sabe que
“não pode ficar parado, por o pijama”. Depois de tantos exemplos e histórias, o professor revela em tom
de confidência que é transplantado. Por três vezes, desde 1980, ele se
submeteu a cirurgias para substituir as córneas doentes. A primeira foi
rejeitada e teve que aguardar mais um ano na fila. Em 1995 foi o último
transplante, estava com menos de 10% da visão em um olho.
Apesar de nunca ter ficado cego de ambos os olhos ao mesmo
tempo, Gusso, que acabou de operar de catarata – o que pode ser
perigoso para um transplantado –, sabe valorizar o sentido da visão
nas coisas mais simples, como a leitura cotidiana. Para quem já esteve
em situação diferente, a saúde é um dom dos mais importantes para se
agradecer.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
107
Ernani Lauriano Rodrigues
Ernani Lauriano Rodrigues nasceu
em Sertanópolis. Mas, ainda recémnascido foi morar em Centenário do Sul.
Ele é filho de pequenos agricultores.
Contrariando a tendência da época, seus
pais o incentivaram a estudar e ter outra
profissão. E lá, na cidade interiorana,
Ernani começou a dar os primeiros passos
rumo a outro destino, diferente daquele de seus pais. Ernani ingressou
cedo na vida profissional, trabalhando em um escritório em Centenário
do Sul. Neste momento que percebeu a vocação e o interesse pelos
negócios, pela economia.
Em 1967, foi para Curitiba prestar o serviço militar. Lá continuou
para cursar Economia. Ernani é filho mais velho e, como fez os pais,
incentivou seus irmãos a estudar e ter uma profissão.
Chegou a Londrina, em 1978. Resolveu cursar Direito e em
1983, formou-se. Nunca exerceu a segunda atividade, no entanto, ele
acha extremamente importante para sua vida profissional, conhecer a
legislação. É que além de professor, Ernani também é empresário. Em 1985, prestou concurso na UEL. Sempre conciliou o trabalho
de professor com o trabalho em empresas particulares. Ele afirma que
essa é uma maneira interessante de unir prática a teoria, e, assim,
proporcionar experiências mais concretas a seus alunos. Enquanto lecionava, Ernani foi convidado para ser Secretário
Municipal de Planejamento de Londrina, durante a gestão do ex-prefeito
Wilson Moreira. A experiência, Ernani classifica como gratificante. Sempre ofereceu consultoria. Em 1994, passou a ser sócio de
uma empresa em Londrina. Ernani é casado há 32 anos, pai de três filhas, das quais fala com
muito orgulho.
Aposentou-se em 1996. Hoje ainda dá aulas, em uma faculdade
particular de Londrina.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Um elo entre Brasil e Japão
A professora Estela Okabayashi Fuzii herdou da mãe a missão de
favorecer e consolidar as trocas entre os dois povos e até hoje trabalha
incansavelmente para isso
A primeira filha de japoneses nascida em
Londrina, antes mesmo da emancipação
da cidade. Estela Okabayashi Fuzii,
professora de Pedagogia aposentada pela
UEL, e sua família assistiram à fundação
e crescimento do município: “Meus pais
vieram de São Paulo para cá e abriram
uma casa de comércio onde hoje é a Rua
Professor João Cândido. Acompanharam
todo o desenvolvimento de Londrina, e eu
também a partir do momento em que me tornei mais consciente das
coisas. Só saí de Londrina para fazer a faculdade em Curitiba, porque
aqui ainda não tinha ensino superior”, conta.
Diferente da maioria das famílias da colônia japonesa, os pais de
Estela motivaram as filhas para o aprendizado da língua portuguesa.
“A minha mãe falava fluente e corretamente o português. Com ela
nós falávamos em português e com o meu pai em japonês, e devido
a isso, nós ficamos com os dois idiomas. Isso ajudou também a não
ter o sotaque, que muita gente da minha época tem, porque só falava
japonês em casa”, explica.
Estudiosa e dedicada, ao ingressar no colegial (ensino médio),
Estela optou pela escola normal, - que formava professores na época
-, pois acreditava que ao concluir os estudos já teria uma profissão.
Durante o curso descobriu sua afinidade pela área da educação, como
ela mesma recorda: “À medida que fui aprendendo, passava a gostar
muito de todo o conteúdo. E quando já estava para me formar, comecei
a pensar que não queria parar por ali e sim me aprofundar mais”.
Para atender ao desejo da filha de ingressar em uma universidade,
os pais de Estela quebraram um tabu inominável (para a sociedade
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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machista era impensável uma moça sair de casa para estudar) e
permitiram que ela fosse para Curitiba, onde ingressou no curso de
Pedagogia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A professora
lembra que alguns vizinhos foram até sua casa aconselhar seus pais a
não permitirem a mudança. “Eles diziam que não podia mandar uma
mulher para fora de casa! Mulher era para casar, a escola normal já
estava ótimo, não precisava estudar mais!”.
Após se formar, Estela retornou a Londrina e assim que chegou
recebeu “por acaso” a primeira proposta de emprego de sua vida. “Eu
fui ao Colégio Mãe de Deus levar um recado de Curitiba para a escola
e a diretora me convidou para dar aulas na escola normal. Eu fiquei
meio na dúvida por causa da vaidade de moça... lá não se usa calça
comprida, roupa sem manga, ainda mais naquela época, e eu sempre
usei! Mas resolvi aceitar e tive que me adaptar”, comenta. Foram 14
anos de magistério no tradicional colégio de Londrina. A professora
só deixou a escola quando se casou para ter mais tempo de dedicação
à família. No Mãe de Deus, além de ministrar as disciplinas de Pedagogia,
Estela tornou-se uma importante aliada das alunas para resolver
impasses relacionados com as tradições da escola. “Como eu era a
única professora leiga lá dentro, elas recorriam muito a mim. E eu
tentava ajudar como podia. Elas pediam, por exemplo, permissão para
usar calça comprida durante as excursões que faziam. E eu fazia as
propostas nas reuniões dos professores”, relembra.
Durante este tempo a professora garante que aprendeu muito
com as freiras e cultivou um grande respeito pela instituição. Tanto que
fez questão de seus filhos estudarem lá (o filho cursou o ensino infantil,
o que era permitido para meninos; as meninas permaneceram nos
outros níveis). “Eu acho muito importante a criança ter uma educação
religiosa. Por isso meus filhos estudaram lá e se pudesse o menino teria
continuado até se formar!”, diz com convicção.
Na década de 1950, Estela participou da fundação da Faculdade
de Filosofia, Ciências e Letras, primeiro estabelecimento de ensino
superior da cidade, e, em 1962, do Curso de Pedagogia na mesma
instituição. Anos depois, em 1971, foi cofundadora da Universidade
Estadual de Londrina. “Eu acompanhei toda a história inicial. Faço
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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parte desta história do ensino superior na cidade e na UEL”, diz com
satisfação. Professora da área de Pedagogia desde o início, o trabalho de
Estela na UEL foi além das salas de aula. Ocupou cargos administrativos
como chefia do Departamento de Educação, direção do Centro
de Comunicação, Educação e Artes (CECA), direção do Núcleo de
Tecnologia Educacional (NTE – atual Labted) e sempre esteve muito
próxima de todos os reitores. “Eu tive esta felicidade de conviver com
todos os reitores. No começo, os chefes de departamento dialogavam
direto com o reitor, não tinha a burocracia de hoje. E todos os reitores
que passaram sempre me chamavam para dar um apoio quando vinha
visita do Japão ou para alguma coisa relacionada com o país, como o
intercâmbio, por exemplo”, explica.
Por causa das constantes “convocações” para assessorar a reitoria
nos assuntos relacionados ao país de seus ancestrais, a professora
idealizou a criação de um órgão que organizasse e se responsabilizasse
por essas atividades. Esta foi a semente para a criação do atual Núcleo
de Estudos da Cultura Japonesa (NECJ), do qual Estela é a atual
diretora. Ela redigiu pessoalmente o projeto, mas a implantação não
foi imediata, pois a gestão do reitor da época estava no fim e não
houve tempo hábil para a ideia ganhar materialidade. “O reitor [Jorge
Bounassar Filho] me pediu para escrever o projeto, mas logo depois
ele saiu. A administração seguinte não assumiu e eu tive que esperar a
próxima gestão. Quando o novo reitor [Jackson Proença Testa] tomou
posse, eu fui correndo mostrar o projeto. Na hora ele aceitou, achou
muito importante e prometeu implantar. E realmente, foi rápido! Em
alguns meses foi implantado num evento com mais de 500 pessoas e a
presença do cônsul de Curitiba”, comemora.
Inicialmente sem um prédio para funcionar, o NECJ foi
instalado numa “salinha” improvisada dentro de uma sala de projeção
do NTE. “Era muito pequena! Os intercambistas ficavam muito mal
acomodados”, lamenta. A solução veio da terra do sol nascente: em
uma viagem ao Japão para conhecer o sistema educacional do país,
Estela comentou a situação com o reitor da Universidade Meio, da
cidade de Nago (província de Okinawa), conveniada à UEL. O reitor
planejou um encontro com o prefeito da cidade, que encaminhou à
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
111
Câmara de Vereadores a proposta de uma verba de 50 mil dólares para
a construção de uma sede para o órgão. “Eu nem acreditei!”, comemora
sorridente. Com a verba aprovada, foi construído o prédio temático, com as
cores e a bandeira do Japão, localizado no calçadão do campus próximo
ao Departamento de Física. Infelizmente a inauguração veio somente
depois da aposentadoria da professora, em janeiro de 2006, e ela não
esteve presente na cerimônia. “Eu não sabia que ia ser naquele dia e
estava viajando. Vim depois para conhecer”, comenta.
Para além do seu reconhecido trabalho na UEL, Estela atuou,
ainda, fora dos muros acadêmicos. Quando assumiu a direção do
CECA, em 1978, ela coordenou um curso no Ministério da Educação
para a capacitação didático-pedagógica de professores dos ensinos
fundamental e médio. Seu projeto foi um dos dez escolhidos pelo
Ministério entre todas as universidades do Brasil. Ela ministrou o
curso também fora da UEL. “O MEC viu que o trabalho meu e da minha
equipe estava dando resultado aqui e pediu que nós deslocássemos
para outras universidades. Isto me enriqueceu muito”, afirma.
Outra atuação externa de Estela, foi a coordenação de um
programa latino-americano em parceria com universidades da América
Latina, uma “semente para a educação a distância”, conta. Na vigência
do programa viajou para vários países, relata satisfeita.
Mesmo com tantas atividades, Estela nunca deixou de ser uma
agente ativa no processo de intercâmbio entre Brasil e Japão. Ainda
na UEL realizou uma pesquisa sobre o movimento dekassegui (filhos
de japoneses que vão trabalhar no Japão), cujos resultados foram
solicitados pelo Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador no
Exterior, com sede em São Paulo. Graças a este trabalho, a londrinense
foi convidada a integrar o conselho acadêmico do órgão, onde
permanece como membro até hoje.
Encerrado o exercício da função de professora na UEL, em
2004, Estela foi convidada para trabalhar na Aliança Cultural Brasil
Japão, onde criou o Departamento do Dekassegui e do qual se tornou
a primeira diretora. O Departamento foi um dos principais legados
de Estela para o órgão e a cidade: “Eles [dekasseguis] passam por
muitas dificuldades e eu sempre fiz tudo o que podia para resolver
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
112
os problemas”, afirma. A passagem para o novo posto de trabalho foi
imediata: Estela nem chegou a vivenciar a experiência de aposentada
e migrou, com muita satisfação, para a Aliança Cultural. “Não fiquei
parada nem um dia sequer”, lembra.
Estela atua até hoje na Aliança Cultural, onde também acumula o
cargo de Assessora Internacional. E as tarefas são tantas que ela admite:
“Lá eu trabalhava mais que na UEL”. As atividades só foram deixadas
em parte – sob os cuidados de uma de suas filhas -, após o convite
que a professora recebeu em 2007, para retornar à Universidade,
desta vez como diretora do NECJ. Cargo mais do que oportuno, já que
o núcleo foi idealizado por ela. Aceito o convite, Estela assumiu mais
uma montanha de serviço e compromissos. Hoje é a responsável pelo
setor de intercâmbios e recebe pessoalmente todos os intercambistas
e demais visitantes da terra de seus pais. “Eu me preocupo muito
com a imagem que vamos passar da UEL. Qualquer coisa que é mal
feita aqui, ou se eles não são bem tratados, voltam com uma imagem
péssima! Então eu tomo um cuidado enorme, faço tudo o que puder...
já paguei muitas recepções do meu próprio bolso. E não cobro de volta
nem me arrependo: faço pensando não em mim, mas na imagem da
Instituição”, ressalta.
Toda uma vida de dedicação rendeu muitas homenagens a esta
londrinense. A mais expressiva foi o recebimento da “Comenda do
Tesouro Sagrado Raios de Ouro com Roseta”, entregue pelo imperador
do Japão. Honra com qual sua mãe já havia sido contemplada anos
antes, em reconhecimento ao seu não menor empenho em ajudar as
duas nações. Uma raridade: a maioria dos condecorados é composta por
homens e dificilmente de gerações seguidas da mesma família. “Essa
homenagem me deixou muito honrada e agradecida, mas nem acho
que sou merecedora...”, diz humildemente.
E em meio a tantas atividades sobrava tempo para a família?
“Claro que sim. Sempre me preocupei em garantir a qualidade do
tempo que passava com meu marido e meus filhos. Gostávamos muito
de passear, ir para locais com muito espaço e verde...”, responde.
Estela permanece com sua agenda repleta de atividades. Aguarda
o fim da atual gestão da Universidade para entregar o cargo, exercido
com muita dedicação e empenho. Mas, adverte, não planeja ficar
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
113
parada: “Eu acho que não vou parar não! Enquanto eu ainda estiver
bem, com condições de trabalho eu continuo! Só mesmo quando
alguém disser ou eu mesma perceber que minha cabeça não está mais
funcionando...”, diz entre risos.
Pelo visto, o livro sobre a saga dessa nissei, que já se tornou
patrimônio vivo da história de Londrina, ainda tem muitas páginas a
serem escritas. Que as próximas páginas sejam tão belas e produtivas
quanto as que a professora Estela escreveu e que eu tive, aqui, o prazer
de reescrever.
Janaína Castro
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Euclides Francisco Salmento
“Em 17 anos trabalhando na Universidade,
só me atrasei cinco minutos. Sabe o que
é isso?” Assim se inicia a conversa com
Euclides Francisco Salmento. Já é possível
perceber o imenso orgulho e dedicação
que ele tem pelo trabalho. Na verdade, as
palavras não são tão necessárias diante da
imagem de seo Euclides; basta um olhar
mais atento: curvado pelos anos, as mãos
bastante calejadas, a pele sofrida e o carrinho
de papelão estacionado na varanda.
Aos 82 anos, com muita disposição, sai todas as manhãs
na esperança de um “dinheirinho a mais”. No entanto, não é só a
necessidade de complementar a renda. Seo Euclides precisa trabalhar,
fazer algo: “Se eu paro eu morro, eu adoeço, duro pouco”. Em função
do trabalho viveu e vive ainda. Começa a narrar sua história omitindo
a infância e a adolescência. Como se ela realmente começasse com
o primeiro emprego. Fala com tanto orgulho dos anos dedicados à
Universidade e a outras ocupações que até emociona. Seo Euclides repete a história de vida de muitos nordestinos: em
1953, quando “era moço”, veio sozinho para o sul em busca de melhores
oportunidades. “Lá não era ruim, mas todo mundo dizia que aqui era
melhor. E é. Aqui nunca me faltou nada, criei meus oito filhos tudo
aqui”, relata.
Começou a trabalhar na UEL porque ouviu falar que na
Universidade tinha serviço. Seo Euclides não rejeita serviço e não se
incomoda em perguntar para quê. Mostrou-se interessado pela vaga
e foi “ajustado”. Quase não conseguiu, não queriam contratar pessoas
que não soubessem ler e escrever. Mas, seo Euclides teve sorte,
acabou sendo “ajustado” mesmo sem os requisitos e por uma única
razão: “Eu trabalho, tudo que manda fazer, faço”. Sendo assim, no
dia 27 de janeiro de 1980 começou a trabalhar na UEL. A princípio
como jardineiro, depois tomando conta das estufas: “plantei toda
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
115
sementinha, até de carrapicho. Eram seis estufas, e eu nunca deixei
morrer um pezinho de árvore de jeito nenhum. Porque se eu deixasse
morrer um ou dois pezinhos, a professora perdia quase um mês de
estudo”, diz, enfático. Seo Euclides plantava, cuidava e carregava água
em lata, nas costas, para preservar as plantas.
Ele conta orgulhoso que insistiu na prefeitura do campus para
instalar água perto das estufas: “Tudo foi eu que pedi, tudo que
precisava lá eu fazia, nunca teve defeito”.
Histórias é que não faltam... sobre trabalho. Conta que quando foi
se aposentar o gerente do “banco do calçadão” perguntou a ele se sabia
quantos dias havia “perdido” ou faltado na universidade. Seo Euclides
respondeu humildemente que não perdeu nenhum. “Eu trabalhava de
dia e de noite. Não tinha guardas (no período diurno), nem nada, eu
ficava até oito horas, enquanto não chegavam os guardas (noturnos)
eu não saía de lá. Trabalhei dia de domingo e em todo canto”. Até
domingo, porque era preciso por “sentido” nos passarinhos, cuidar
para que eles não comessem as plantinhas e destruíssem os trabalhos
dos professores. “Eu guardava tudinho. A metade da limpeza da Universidade,
quando ela comprou a fazenda, passou tudo por essas mãos, eu fiz tudo
aquela curva de nível do lado de lá, eu fazia, com a enxada”.
Hoje, só um motivo faz com que Seo Euclides fique em casa:
“Papai não gosta de chuva”, confidenciou o primogênito. Será por
quê? Na atividade atual do seo Euclides é difícil trabalhar com chuva.
Existe outra possibilidade. Foi ela que causou o atraso, aquele de cinco
minutos: “eu saí daqui na carreira, na hora tava chovendo muito e eu
parei no ponto de ônibus e me atrasei”. Mas, deixando as tristezas de lado ele confessa: “Eu tô bem
contente, eu quero bem a menina, o menino, o homem, a mulher.
Nunca desejei mal a ninguém. E depois de velho tô mais bem do que
quando eu era moço”.
Léia Dias Sabóia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Francisca Soares Felizardo
Os 22 anos de trabalho na Universidade
foram
cuidadosamente
arquivados.
Certificados,
portarias,
cartões
de
aniversário e outros atestados comprovam
uma vida dedicada à UEL. Com 82 anos e
muita energia, Francisca Soares Felizardo
recorre a essas provas reais para contar a
sua história.
Francisca nasceu em Taubaté (SP). Morou
em Sorocaba, na Penha, em Primeiro de
Maio e Sertanópolis. De Sertanópolis, Francisca, o esposo e as três
filhas pequenas mudaram-se para Londrina. O ano era 1952.
Francisca já lecionava. Ela foi nomeada professora do Estado em
1945. “Naquele tempo não precisava ter curso normal para lecionar,
um pouquinho que soubesse já era suficiente. Não tinha professor”.
Mas, em Londrina, concluiu os estudos. Francisca lecionou no terceiro
grupo escolar, hoje Escola Estadual Evaristo da Veiga: “Eu gostava
muito de lecionar”, confessa.
Antes de começar a trabalhar na UEL, Francisca foi requisitada
para o serviço eleitoral. E, tempos depois, foi novamente requisitada
para trabalhar na Faculdade de Direito. “Ainda não era universidade.
Funcionava no Hugo Simas. O Dr. Nilo (Nilo Ferraz de Carvalho) era
o diretor da Faculdade de Direito, tinha a Leslie. E depois foi criada a
Universidade”, relembra. “A Leslie foi transferida para o campus, e eu
fiquei como substituta dela. Aí quando me aposentei como professora
do Estado, o Dr. Ascêncio Garcia Lopes me nomeou como secretária”.
“Nós fomos para o campus. No CESA só tinha um pavilhão, e
ainda era incompleto”. Enquanto a obra era terminada, ela trabalhava
na secretaria: “Era uma barulheira; às vezes, era difícil trabalhar”.
O cargo de Francisca era de confiança, e sempre que havia novas
administrações, ela o colocava à disposição. “Mas, nunca aceitavam e
até me aposentar fiquei lá”, conta, orgulhosa.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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O caminho para chegar à Universidade, segundo Francisca, era
literalmente tortuoso. “Daqui até o campus era só poeira, não tinha
rua. Você tinha que dar uma volta enorme. Tinha uns professores
que atravessavam as fazendas para chegar à Universidade. Passavam
aperto para chegar lá, nas fazendas tinha gado, imagina”.
Superar todas as dificuldades é motivo de orgulho para Francisca.
E se alguém ousa falar mal da Universidade, ela já se põe na defesa:
“Eles não conheceram o início da Universidade. Eu acho que o Dr.
Ascêncio foi um herói. Quando ele foi para lá a sala dele era de chão
batido, um armarinho e uma mesa simples. Ele lutou até conseguir
tudo”.
Trabalhar naquela época também era muito diferente. Internet
e computadores não existiam, a máquina de escrever é que auxiliava
as secretárias. “Os mapas de notas, aquele movimento de secretaria,
era tudo feito manualmente. Tudo, tudo. Nós passávamos a nota,
passávamos a presença”. As médias dos alunos eram calculadas pelas
secretárias, uma por uma, manualmente. “Hoje é uma maravilha a
UEL, os computadores e a Internet”.
Outro fato marcante na história de Francisca foi sua participação
no projeto Universidade Aberta à Terceira Idade, o Unati. Foi aluna
da primeira turma. O projeto tinha como objetivo proporcionar
condições favoráveis à comunidade universitária da UEL: docente,
discente e população idosa de Londrina e região, para a construção
de conhecimentos aprofundados sobre o idoso na sociedade moderna
e em nossa realidade brasileira. Ela estudou de 22 de setembro de
1994 a 04 de julho de 1996. “Foi um curso muito bom. Uma turma
bem grande. E nós tínhamos muitas matérias, de diferentes cursos”.
Francisca está aposentada desde 1992. Atualmente, faz trabalhos
voluntários e participa de reuniões com as amigas.
Léia Dias Sabóia
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Direto do Ceará
Francisco Alves Pereira veio do interior do Ceará para
ajudar a construir a UEL. Entre idas e vindas, três períodos de
dedicação à Universidade e a satisfação de se aposentar aqui
Nascido na cidade de Crato, interior do
Ceará, o motorista Francisco Pereira já
era casado e tinha três filhos quando
resolveu tentar a vida no Paraná, em 1964.
“Vim no pau-de-arara: a carroceria de um
caminhão com uma lona em cima, cheia
de gente... demorou dez dias pra chegar”,
lembra. Quem o trouxe para o sul do país
foi um antigo patrão que tinha família
por aqui. Depois o patrão voltou para o
nordeste, mas Francisco não quis retornar do mesmo jeito que chegou
e resolveu ficar.
O primeiro local em que morou foi o distrito de Guaravera. Foi
um tempo difícil, pois não havia emprego para motorista. “Tive que
trabalhar na roça, mesmo sem saber! Fiquei um tempo na lavoura do
café, mas toda semana arranjava um ‘troquinho’ para ir pra Londrina
procurar emprego”, explica.
A primeira oportunidade veio graças a uma coincidência.
Francisco encontrou em Londrina o médico Dalton Fonseca Paranaguá,
secretário do Hospital de Tuberculose e candidato à prefeitura da
cidade. “Eu conhecia a família dele lá do Piauí, aí fui conversar com ele
e consegui uma vaga de motorista de ambulância no hospital”.
“Foi em 1969, meu primeiro emprego com carteira assinada aqui
no estado”. Em 1971, o antigo Hospital da Tuberculose deu lugar ao
Hospital Universitário, inaugurado em 1º de agosto. Este foi o primeiro
vínculo de Francisco com a UEL.
A chegada ao campus universitário foi em 1975, quando muito
da atual estrutura ainda não existia. “Quando cheguei aqui, não tinha
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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isso tudo não. Era só o prédio pequeno da Reitoria, o banco do lado
(Banestado) e o CCB. O resto era só mato, cafezal e terra”, afirma.
E aqui começa a participação deste cearense na construção de
grande parte dos prédios que hoje compõem a UEL. Francisco dirigia
o único caminhão que a Universidade possuía na época e trouxe
toda a areia para os novos prédios do campus. “Eu também tinha
que descarregar a areia com a enxada. Não tinha esses caminhões de
hoje que derrubam tudo para o chão. Era no braço, com muito suor.
Ajudei a levantar o CCE, CCH, setor de transporte, almoxarifado,
Hospital Veterinário, CTU, CEFE... Tudo!”, orgulha-se. O motorista
trazia também tambores de água para misturar a massa com a areia e
o cimento.
Depois do trabalho nas obras, Francisco iniciou um período de
“idas e voltas” da UEL. Primeiro recebeu uma proposta da Empresa
Transportes Coletivos Grande Londrina para receber um salário
maior e aceitou. Mas logo se arrependeu, pois não gostou do trabalho
na empresa. “Pedi para voltar para a UEL e me aceitaram. Naquele
tempo, ainda não tinha concurso público, era ‘apadrinhamento’. Então
eu consegui a vaga”, conta. Mas, o motorista sairia novamente, desta
vez para trabalhar na Viação Garcia. “Na Garcia, foi ruim porque eu
tinha que trabalhar à noite e não conseguia dormir de dia. Aí eu ficava
muito cansado. Saí de lá e tentei abrir um negócio com minha esposa,
uma fábrica de lingerie, mas não deu certo”, conta.
Foi quando surgiu o concurso público para preencher as vagas
na UEL. Francisco, já estava com 60 anos, mas conseguiu passar no
concurso e voltou a ser motorista da Universidade. Desta vez não quis
sair mais. “Trabalhei mais 10 anos. Pegava ônibus, caminhão, viajava.
Durante a semana entregava malote dentro da UEL e nos setores
fora também (Casa de Cultura, Museu Histórico, Colégio Aplicação)”,
comenta. E não fugia do trabalho, como ele mesmo conta: “Tinha
motorista que sumia na sexta-feira à noite para não pegar serviço no
fim de semana. Eu era diferente: perguntava se alguém ia precisar de
mim! E queria que precisasse!”, garante.
Quando fez 65 anos, Francisco foi “convidado” a se aposentar
pelo tempo de serviço. Mas o bem-disposto cearense não queria parar
de trabalhar e continuou até o limite dos 70 anos, em 2006. Aí, não
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teve jeito, apesar da vontade, Francisco não pôde continuar. “Eu pedi
muito pra ficar. Dizia ‘estou tão bem de saúde, deixa eu continuar, não
quero ficar em casa à toa!’. Mas não adianta, depois dos 70 não dá!”,
lamenta.
Mas não foi a aposentadoria compulsória que deixou o animado
Francisco desocupado. Ele ainda tinha uma “carta na manga”: “Fiquei
bem porque sou músico e logo consegui um contrato com a Prefeitura
de Cambé pra tocar pro pessoal da terceira idade”. E qual instrumento
ele toca? A lista é grande: “Lá eu toco cavaco, violão e sou o vocalista.
Mas também sei tocar pandeiro, triângulo, sanfona, bumbo... pode
trazer que eu toco!”, desafia.
Os companheiros de trabalho dos tempos de UEL também
conheceram os dotes musicais de Francisco. Ele sempre trazia um violão
ou cavaquinho e fazia a festa na hora do almoço. Era convidado certo
para tocar nas festas de fim de ano dos setores da Universidade. Um
detalhe que ele faz questão de ressaltar é que nunca teve um professor
de música. “Aprendi a tocar ainda menino lá no Ceará. Tinha uns nove
anos e olhava os músicos tocando. Ficava observando e quando chegava
em casa fazia igual!”. A história rendeu até reportagem de TV. Na época
do Festival de Música, Francisco participou de um desafio: foi chamado
para tocar junto com um estudante do curso de Música da UEL. E ele
não perdeu a oportunidade de mostrar seu talento: “O pessoal da TV
foi lá e eu toquei tudo que levaram. Depois quando perguntaram para
o rapaz o que ele achava, ele disse: ‘Eu já tô com cinco anos de estudo
e não faço o que ele faz!’, aí eu fiquei todo cheio de razão”, comemora.
Hoje, para alegria de Francisco, o antigo hobby virou trabalho:
“É uma coisa que eu gosto, acho que se eu não tocar eu fico doente!
Eu não paro: no fim de semana toco em aniversário, casamento, festa
de criança, onde me chamarem. Eu cobro mais barato porque não sou
profissional, então a concorrência perde!”, revela. Mas a saudade da UEL é grande e Francisco nem tenta esconder:
“Fiz muitos amigos aqui. Por isso já deixei minhas contas aqui e venho
receber na UEL já para ter um ‘pézinho’... todo mês pelo menos um dia
venho aqui! Sempre chego na hora do almoço pra encontrar o pessoal
do transporte e jogar ‘snooker’ com eles, igual quando eu trabalhava”,
diz empolgado. Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
121
A saudade é digna de quem ajudou a construir muitos prédios,
passou tantos anos dirigindo de um lado a outro do campus, e que se
pudesse, mesmo aos 72 anos, não pensaria duas vezes antes de voltar:
“Aqui é minha casa! É um lugar que a gente não esquece, o melhor
emprego que eu já tive. Me arrependo das vezes que eu saí, mas tive a
sorte de começar e terminar aqui. Gosto tanto que até hoje se me desse
serviço eu trabalhava com todo o prazer!”, diz, ainda com esperança
de poder retornar aos dias de trabalho por aqui. Infelizmente não é
possível, mas somos todos gratos pelos anos que o senhor já trabalhou
e que são parte da história da UEL.
Janaína Castro
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
122
Professor nordestino
Geir Rodrigues, professor do Departamento de Educação
do CECA, chegou com a família na cidade no começo de
Londrina e lecionou na Universidade até completar 70 anos
Sergipano, Geir Rodrigues é uma pessoa
do tipo que gosta de conversar e tem
muita história a contar. Da mudança
para o sul do Brasil, - quando tinha seis
anos de idade - para Ourinhos (SP) e em
seguida para Londrina, o professor ainda
tem recordações. A família era de Propriá,
Sergipe, e teve que sair fugida do bando de
Lampião. A viagem, na época de poucas
estradas no interior do país, foi de navio,
todo equipado, é claro, com redes de dormir. Como pioneiro desta nova terra, o pai da família teve que começar
outro emprego para sustentar os seis filhos, dos quais Geir é o quarto,
consertando trens. Geir, apesar da pouca idade, lembra de como era
a região de Londrina quando chegou, com muitas árvores e ícones,
como o sino da igreja: um triângulo feito de trilhos de trem que está no
Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss.
Geir teve a oportunidade de receber o diploma do primário pelo
Colégio Mãe de Deus em 1944, apenas um ano antes do colégio passar a
aceitar apenas meninas. Da época, ele ainda conserva fotos das turmas
reunidas em frente às escadarias da escola. O ginásio também foi em
outro tradicional colégio da época, o Vicente Rijo, que se localizava
onde hoje é o Colégio Estadual Marcelino Champagnat.
Durante os últimos anos do ensino fundamental, Geir e colegas
jogavam pingue-pongue no salão da Igreja Matriz de Londrina. As
aulas acabavam e eles iam para lá, onde os laços com a religião católica
se estreitaram até que em 1955 ele entrou para o seminário.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
123
Foram anos de seminário. Geir cursou Filosofia e Teologia em
Curitiba e foi ordenado padre. O trabalho o levou da grande São Paulo
a Santa Catarina, até que, a vontade de se casar, fez com que ele saísse,
embora nunca abandonasse a religião e os trabalhos. Tanto que,
quando voltou a Londrina foi responsável pela missa universitária e
participou do movimento religioso para construção da capela na UEL.
Quando deixou o sacerdócio, começou o ofício de professor pelo
estado do Paraná. Em Marumbi lecionou Língua Portuguesa e Educação
Moral e Cívica, enquanto em Arapongas e em Londrina assumiu aulas
de Filosofia e de Estudos de Problemas Brasileiros no ensino superior.
Para estes alunos, Geir gostava de apresentar instituições de ensino
técnico, como o Ipolon, o Senai e a extinta escola técnica da empresa
Carambeí. Também foi com alunos 14 vezes à Usina Hidroelétrica de
Itaipú. Na UEL foi lotado no Departamento de Educação - CECA. Ele
relembra da participação no projeto Rondon em Limoeiro do Norte
(CE): “Era uma boa experiência, os alunos cruzavam o Brasil para ir
para os campi avançados.” Assim como o dia do pioneiro promovido no
mês de agosto, do qual Geir foi coordenador em parceria com o Museu
Histórico.
Para Geir a Universidade não era apenas sala de aula, mas um
meio para se conhecer pessoas. “O que eu conheci de pessoas por
meio da UEL...”, recorda. E, com certeza, parte destas o professor
conheceu graças ao coral da UEL, do qual participou por 25 anos. Com
o coral vieram as viagens, entre elas a apresentação - com quase 90
participantes - na sala Cecília Meirelles no Rio de Janeiro, que rendeu
ao grupo o segundo lugar na classificação.
E depois de tantas histórias vividas na Universidade e carinho
sentido por ela, o professor foi obrigado a se aposentar quando
completou 70 anos no ano 2000. Por um tempo Geir ainda continuou
lecionando em outras instituições até achar que está “esquecediço”
para o ofício. Se fosse antes, ele diz com convicção, “eu continuaria
sim, nós temos muitos aposentados, muitos intelectuais à deriva. No
apogeu do seu conhecimento você é convidado a se retirar”.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
124
Hoje, o professor que chegou quando a cidade começava a se
formar, relembra a tranquilidade do povo em: “uma cidade pequena,
mas com pessoas de coração grande.” Geir acredita que o Hino de
Londrina consegue transmitir bem o que ela era. Da UEL, a grande
recordação é de uma família, com todos aqueles que lutaram para a
implantação da Universidade.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
125
Genival Ross
O professor Genival Ross começou
a lecionar logo após concluir o curso
superior de Economia na Universidade
Federal do Paraná (UFPR). Era 1964 e,
juntamente com outros três formandos,
assumiu turmas no norte do estado.
Ele conta que o decreto que o nomeou
estava assinado pelo ex-governador
Ney Braga. Dois professores foram para
a Universidade Estadual de Maringá
(UEM); ele e outro colega foram para a
Faculdade de Ciências Econômicas de Apucarana (Fecea). Os novos
professores estavam assumindo novas disciplinas criadas com a
reformulação do currículo dos cursos. Ross morava em Apucarana e dava aulas na Fecea quando, em
1971, o diretor da Faculdade de Ciências Econômicas de Londrina,
Odésio Franciscon, convidou-o para prestar o concurso para a
faculdade. Ele lembra que quando começou a dar aulas em Londrina
“a Faculdade de Ciências Econômicas funcionava no teatro da Unifil”.
As faculdades de Londrina se unificaram e formaram a
Universidade no final de 1971. Com o tempo, o curso de Ciências
Econômicas foi para o Centro de Estudos Sociais Aplicados (CESA)
– já no campus da UEL - e o professor Ross continuava no percurso
Apucarana – Londrina. Na cidade de Apucarana estava grande parte da vida do professor.
Além do trabalho na Fecea - como professor e três vezes chefe de
departamento -, lá Ross trabalhou em cargos de confiança na política
durante três mandatos de diferentes prefeitos, sendo secretário de
planejamento e secretário de administração. Foi também na Cidade
Alta que o professor se casou no ano de 1968. Atuando nas duas cidades, Ross acredita que a Universidade
Estadual de Londrina se sobressai a de Apucarana em sua área por
causa dos professores mais jovens e mais qualificados. Era comum um
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
126
professor daqui dar aulas lá, ele foi um dos poucos que fez a trajetória
inversa. Mas no início da década de 1990 Ross se aposentou na Fecea
e, como continuava a dar aulas na UEL, mudou-se para Londrina.
A mudança diminuiu os riscos a que o professor estava exposto nas
estradas da região, que antes eram estreitas, onde ele já enfrentou
tempestades e outros perigos.
Em 1995 o professor aposentou-se na UEL, mas prestou concurso
em seguida e voltou a dar aulas na Universidade. Ross lecionou
Economia nos cursos de Direito da Unopar e da Uninorte. Porque
“toda a vida gostei, me encontrei dando aula e sou disciplinado para a
preparação delas”, afirma.
Desde 2007, Genival Ross é “só aposentado”, como ele diz.
Faltava um ano para o professor completar 70 anos e então teria que
parar. “Já cumpri a minha função, agora tenho que deixar para os mais
jovens. Temos que ter um limite, saí satisteito”. A vida de aposentado
de Ross é ocupada com os seus cinco netos (dos três filhos que teve) e
também com atividades da igreja. “Dá para preencher o tempo”, brinca
o professor.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
127
Georfrávia Montoza Alvarenga
Era de 1949 e eu, segunda de quatro filhos, nascia
em Londrina, no tempo da terra vermelha sem
asfalto, filha de um pequeno agropecuarista, classe
média de postura educacional rígida. Família
pequena, a segunda, irmã de duas mulheres e um
homem. Até os sete anos criada na zona rural em contato
com a natureza, assumindo pequenas tarefas
determinadas por meu pai ou minha mãe, o que
me fez valorizar desde cedo o trabalho. Aprendi as
primeiras letras e números com a minha mãe que
com paciência fazia da sala de jantar um “jardim de infância” composto
também por árvores e flores que rodeavam a casa. A ideia de produtividade veio da força de ambos, meu pai e
minha mãe. Ele na “lida” com a terra, ela na “lida” com a casa, filhos,
alimentação...
O trabalho era a fonte da produção e mesmo os afazeres domésticos
eram valorizados como se cada um de nós fosse um elemento de uma
equipe.
Aos sete anos fui para a escola. Escola religiosa, professora brava,
seção A. Sim, pois quem entrava em abril como eu, começava na seção
A, dos fracos. À medida que tivesse boas notas passava a seção B.
Posteriormente à seção C dos “sabidos”.
Durante os quatro primeiros anos de escola fui aluna regular, mas
lia maravilhosamente em voz alta quando da solicitação da professora.
Acho que isso me valeu ser escolhida como oradora da turma na
formatura. Este evento fez nascer uma nova Geo, que ruborizava e morria de
vergonha, mas vestia uma armadura e ia...
Aprendi cedo ser estudiosa ou aparentar ser. Boa parte das vezes
havia um gibi no meio do livro que eu “estudava”. Estratégia para
escapar da vigilância da minha mãe que determinava tempo para as
tarefas escolares. De tanto fingir, acabei gostando dos livros. Não de
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
128
Matemática, não de Ciências. Dos gibis para fotonovelas e daí para
literatura. Foi natural a “passagem”. Isto me diferenciava. Na visão dos outros, não na minha.
Continuava achando que a profundidade de conhecimento de alguns
colegas era majestosamente maior que a minha.
Passei por todas as experiências escolares: castigo, cola,
suspensão, solidariedade dos colegas, premiação...
Na juventude minha opção pela Escola Normal como curso de
Ensino Médio ao terminar o ginásio foi natural. O destino da maioria
das garotas da época era preparar-se para o magistério. Durante o curso
que durou três anos fui adquirindo de verdade o gosto por ensinar, ler
ainda mais, pesquisar ou bisbilhotar que era o máximo que conseguia
fazer na época.
Prestei meu primeiro vestibular para o curso de Pedagogia.
Fui aprovada. Curso diurno. Durante os quatro anos frequentei com
empenho e prazer. Neste tempo fui presidente do Centro de Estudos
Pedagógico e aluna razoável, embora estudasse muito. Prestei concurso
para o magistério de primeiro grau, hoje ensino básico e fui aprovada.
Meu batismo de fogo foi uma sala com quarenta alunos de 1ª
série. Devo fazer justiça ao afirmar que ninguém está preparado para o
real combate ao sair do Ensino Superior. Eu “era” uma alfabetizadora e
nem sabia direito o que tinha que fazer. No entanto, ser professora aos
18 anos ensinou-me a ter autoconfiança e o poder extraordinário de lidar
com a diversidade. Além disso, ensinou-me participar efetivamente da
construção da cidadania e o respeito ao outro no saber que traz consigo
ao ingressar no sistema formal.
No espaço Universidade, enquanto aluna, ampliei minha praia.
O Campus parecia ser o modelo de comunidade sonhado pela minha
fantasia, onde os grandes heróis eram aqueles que se destacavam
intelectualmente. Discutir “2001 – uma odisséia no espaço”, “Laranja
mecânica”, guerra do Vietnã, discurso de Martin Luther King, tudo era
levado a sério. As discussões, no Diretório Acadêmico eram ardentes
e utópicas (aprendi esta palavra, neste período – utopia). Era “in,”
ler Herman Hesse, Kristnamurth, Huxley, Orwell, Sartre, Simone de
Beauvoir, Virginia Woolf, Thomas Mann, Heminguay. Ouvir Gil, Chico,
Caetano, Tom Jobim, Vinícius de Morais, Secos e Molhados (meu pai
odiava). Assim foram quatro anos. E ao final eu era Pedagoga.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
129
Fui então, convidada para assumir algumas aulas como
substituta de uma professora que entrara em licença na Universidade
Estadual de Londrina em 1972. Este sim era o maior desafio (os outros,
eu havia superado e não eram mais tão importantes). “Dar aula” para
meninas que “até esses dias atrás” eram minhas colegas. Sim, por que
a disciplina era Metodologia do Ensino e a turma era o 3º ano do curso
de Pedagogia. Eu tinha 20 anos e muitas das minhas alunas eram mais
velhas e experientes que eu.
Logo descobri que o “saber” que eu dominava era ínfimo e eu
ainda não dava conta da extraordinária ideia de juntar a experiência de
sala de aula, dos quatro anos de formação, com aquele mundo real ao
qual estava indelevelmente ligada. O problema era o saber fazer.
Aquele pouco tempo em sala de aula mostrou-me mais do que os
quatro anos do curso e aguçou o desejo de ir correndo para o Mestrado.
E anos depois ao Doutorado... E Pós-Doutorado. E não parei mais de
estudar.
Posso dizer sem medo de errar, que boa parte do meu sucesso
profissional deveu-se a uma boa formação acadêmica, tanto na
graduação como de pós-graduação. Se com meus pais aprendi os
conceitos e valores que me acompanharam por toda a vida: seriedade,
austeridade, firmeza e determinação, na escola adquiri uma fé inabalável
na formação teórica e técnico-científica, respeito pela importância da
educação no desenvolvimento do caráter e da personalidade além da
obtenção da minha formação profissional.
Perceber muito cedo que existe um sem número de variáveis,
incluindo competência, compromisso social e político, redes de
relacionamentos, mudou a minha maneira de ser enquanto aprendiz e
enquanto professora.
Empenhei-me arduamente no desempenho da tarefa de ser
professora. E para isso desenvolvi atividades de ensino, pesquisa
e extensão e trabalhei muito no sentido de produzir textos para
publicações, fruto de reflexões deste meu momento de “ensinante” e
aprendiz.
Estive durante trinta e cinco anos no Ensino Superior, maior
parte do tempo na UEL. Uma vida inteira dedicada à causa de ensinar.
E ensinar bem. Tive tempo e condições para consolidar o que aprendi
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
130
sobre educação e me promovi à “fase gerativa”, na qual continuo
aprendendo, talvez mais sabiamente. Tenho grande satisfação em
escrever, relatar minha experiência além de continuar dando parcela
de contribuição à formação de futuros educadores nas mais diversas
áreas. Durante este tempo todo, não sei quantas vezes me reinventei
para compor novos momentos de vida. Enfrentei grandes desafios.
Os dois últimos anos foram utilizados para repensar, desconstruir,
reconstruir a mim mesma e as minhas perspectivas profissionais.
Porque continuo trabalhando. Mas fiz uma renovação absoluta! Hoje
tenho prioridades diferentes das que tive aos 20, 30, 40 anos. Antigas
ansiedades desapareceram e deram lugar a uma espécie de calma mesmo
nos momentos mais turbulentos. Hoje como ontem e antes de ontem
se afirma em mim cada vez mais a certeza que a minha grande glória foi
ter gerado e educado dois filhos maravilhosos, Mariane e Fernando, e
adotado outros tantos, emocionalmente e profissionalmente.
O sucesso pessoal e profissional que obtive até agora me bastam.
Mas continuo na luta pela Educação.
Minha peleja aguerrida envolve outros desejos. Além de vida
produtiva contínua, sem cobranças histéricas, sem ansiedades
desnecessárias, me empenho cada vez mais na busca de crescimento
interior, especialmente no que tange a ser mais “generosa” e viver em
PAZ comigo mesma.
Se no futuro eu for lembrada pelos que me conheceram e fizeram
parte da minha vida pessoal e profissional como uma pessoa íntegra e
decente, ficarei extremamente sensibilizada e orgulhosa.
Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Estadual de
Londrina (1971), mestrado em Educação pela Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro (1979) e doutorado em Doutorado em
Educação pela Universidade de São Paulo (1989). Pós-doutorado em
Psicologia da Educação pela PUC de São Paulo.
Atualmente é professora associada aposentada da Universidade
Estadual de Londrina. Tem experiência na área de Educação, com
ênfase em Avaliação de Sistemas, Instituições, Planos e Programas
Educacionais, atuando principalmente nos seguintes temas: avaliação,
portfólio, avaliação formativa, classes especiais e formação de
professores.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
131
Geraldo Carreira Polvora (in memorian)
Nascido em 26/11/1921 - na cidade de Cambará
- PR. Quando adolescente, empregou-se como
ajudante de cozinheiro na obra de construção
da Ferrovia que vinha do Estado de São Paulo
em direção a então promissora região do Norte
do Paraná e a também constituída cidade de
Londrina.
Naquela época era comum preparar refeições com
carne de animais silvestres como: paca, cotia,
veado, capivara, pois havia muita caça.
Era uma época onde tudo estava por fazer: abrir ruas, formar
bairros, enfim, sentia-se o enfervecer de uma cidade que brotava para
o Brasil e para o mundo.
O tempo passava, e a cidade crescia e Geraldo chegava aos 18
anos indo prestar serviço militar na cidade de Ponta Grossa.
Foi soldado do exército por um ano, sendo inclusive, sido
convocado para ir à guerra, o que não aconteceu. Possivelmente, a
pedido de sua mãe, Adriana.
Em Ponta Grossa conheceu Izaura, moça de Quatiguá, no norte
do Paraná, com quem retornou para Londrina. Casaram-se, tiveram
sete filhos, dezoito netos e vinte e dois bisnetos.
Em fevereiro de 1972, começou a trabalhar na Universidade
Estadual de Londrina. Aposentou-se em setembro de 1986, mas
continuou a trabalhar pela UEL até completar setenta anos de idade,
quando foi aposentado compulsoriamente por idade.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
132
Hélio Corrente
Quem conhece o campus da Universidade
Estadual de Londrina, com uma área de
2.355.731,81 m², sabe da distância entre alguns
lugares. Quando se está no CECA e precisase ir até a reitoria, por exemplo, muita gente
sente falta de um transporte. E para atender
às inúmeras necessidades de uma Instituição
do porte da UEL, é necessário que as trocas de
informações sejam rápidas não só no mundo
virtual, mas também no mundo “físico”. Por
isso, o transporte de documentos, livros, móveis, eletrônicos, pessoas,
entre outras tantas coisas, dos centros para os setores administrativos
ou vice-versa, depende da rapidez dos automóveis e, consequentemente,
do bom trabalho dos motoristas da Universidade. Quem nos conta
um pouco mais deste trabalho tão fundamental é o aposentado Hélio
Corrente, motorista da UEL durante 26 anos.
Natural de Parnaso, distrito de Tupã, no estado de São Paulo,
Hélio chegou em Londrina com a família por volta de 1945. Seu pai,
que trabalhava nas lavouras de café do interior paulista, ao mudar-se
para o norte do Paraná, acabou fazendo o caminho inverso de muitos
migrantes que chegavam ao estado atraídos pela riqueza do “ouro
verde”. O pai de Hélio, ao chegar em Londrina, foi trabalhar nas olarias
da cidade, na fabricação de tijolos. E alguns deles, de acordo com o
aposentado, ainda sustentam as paredes do Cine Teatro Ouro Verde,
no centro da cidade.
Nestes primeiros anos vivendo em Londrina, a família de Hélio
morou nos arredores da cidade, que iniciava a expansão de sua zona
urbana. As coisas estavam mudando, a família crescia e, assim, o pai
de Hélio deixou as olarias e voltou a trabalhar nas plantações de café,
mudando-se para o distrito de Lerroville, onde trabalhou no sistema
de porcentagem – quando o empregado cuida da lavoura e recebe
parte dela como pagamento. Depois de alguns anos e muito esforço,
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
133
conseguiram comprar um sítio na região. Passado um tempo, foi a vez
de Hélio adquirir sua própria chácara ali por perto, no ano de 1961.
Primeiros quilômetros
Foi nesta propriedade que o aposentado aprendeu a dirigir. A
partir das instruções dos irmãos, que já possuíam automóveis, Hélio
aproveitava o sossego das estradas rurais para praticar a direção. Após
obter a habilitação, comprou seu primeiro carro, um “Volks 62” – ou
seja, um Fusca, ano 1962 –, muito útil em uma região afastada dos
grandes centros. “Minha mulher, mais duas ou três vizinhas queriam
aprender corte e costura. E lá em Lerroville tinha corte e costura, aí eu
colocava elas dentro do volksinho e levava lá em Lerroville”, relembra.
Nesta época, Hélio não imaginava que futuramente iria fazer da
condução o seu ofício. Apesar da mobilidade oferecida pelo automóvel, o aposentado
precisou voltar para a cidade quando os seus três filhos concluíram o
ensino primário na escola rural. “Naquele tempo não tinha o ônibus
que tem hoje, que passa pegando os alunos e leva tudo para Tamarana
e depois traz tudo de novo”, explica. Para que as crianças continuassem
os estudos, Hélio e a esposa decidiram voltar para a zona urbana e
foram morar no Jardim do Sol, onde ainda vivem.
Embora não tenha vendido o sítio, que mantém até hoje, o
aposentado precisava de uma fonte de renda extra depois que deixou o
campo. Assim, Hélio passou a procurar emprego e logo foi contratado
para trabalhar em uma moveleira. Após ser dispensado deste serviço,
tentou trabalhar como cobrador de uma empresa de transporte coletivo
da cidade, mas ainda durante a fase de testes foi indicado para uma
vaga em uma fábrica de móveis de aço. Na proposta, o empregador
disse-lhe: “Daqui uns dias vão comprar um caminhãozinho e eu
passo ele pro senhor”, relembra o aposentado. E foi exatamente o
que aconteceu. Depois de trabalhar um período dentro da fábrica,
Hélio passou a dirigir o Mercedes 608 adquirido pela empresa, com a
responsabilidade de fazer as entregas. Até que uma nova proposta fez
com que a Universidade Estadual de Londrina entrasse em sua vida.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
134
Vencendo distâncias
Por meio de um vizinho, ele ficou sabendo que a UEL iria
contratar motoristas e não deixou a oportunidade passar. Foi até a
Instituição, levou os documentos, fez os testes e foi aprovado. “A moça
falou pra mim ‘Seu Hélio, o senhor está contratado 99,9%’”, diverte-se
o aposentado. Era apenas o início de uma carreira não menos brilhante,
em que nunca houve reclamações de ambos os lados – da UEL ou do
motorista.
Inicialmente trabalhando para a Prefeitura do Campus, o
serviço consistia em atender o almoxarifado pela manhã, distribuindo
os materiais pelos centros, e a marcenaria à tarde, que, segundo
ele, era “buscar móveis quebrados e levar móveis que eles faziam,
reformavam e devolviam de novo”, nos departamentos espalhados pela
Universidade. Estas eram suas funções cotidianas, mas muitas vezes
surgiam outros serviços, como buscar animais nas localidades vizinhas
para serem tratados pelo Hospital Veterinário ou transportar materiais
e equipamentos durante os festivais de música e teatro, dos quais a
UEL, por meio da Casa de Cultura, participa ativamente. Outra função
muito importante dos motoristas da Universidade era buscar as provas
dos vestibulares – quando estas eram preparadas por uma instituição
de São Paulo – e distribuí-las nos locais de aplicação.
Já nos finais de semana, Hélio e os demais motoristas
transportavam professores e alunos para outras regiões. Eram
estudantes de Geografia, Agronomia, Medicina Veterinária, Educação
Física, que viajavam nos finais de semana, nos ônibus da Universidade,
para conhecerem diversas formações geológicas, plantações, doenças,
ou para competirem em jogos universitários. Todas estas atividades
dependiam dos motoristas da UEL. Realizando estas viagens, o
aposentado se impressionou com o trabalho da Instituição. “A UEL é
tão grande, ela é tão bonita, que faz pesquisa de tudo! Do que você
pensar eles fazem pesquisa lá dentro”, comenta maravilhado.
Mesmo estando satisfeito com o serviço da Prefeitura do Campus
– “Era muito bom ali, eu gostava demais, gostava demais...” –, Hélio
pediu transferência para trabalhar no Hospital de Clínicas (HC)
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
135
da Universidade, onde dirigiu ambulâncias e furgões, que faziam o
transporte de pacientes e roupas e prontuários, respectivamente. “O
HC é uma extensão do HU [Hospital Universitário, também da UEL],
então a gente tinha que levar roupa suja dali para o HU e eles lavavam
e a gente buscava no outro dia. Esses Fiorinos [os furgões usados pela
universidade] eram para isso. Os prontuários também, tinha que levar
todo dia e buscar todo dia”, explica o aposentado. É importante destacar
que a distância entre o Hospital de Clínicas e o Hospital Universitário
é de cerca de 10 km.
Hora de estacionar
Foram 26 anos vencendo estas distâncias, até que, enfim, chegou
a aposentadoria. Ao completar 70 anos, Hélio precisou deixar mais do
que o emprego na Universidade. O aposentado deixou para trás sua
segunda casa e sua segunda família. “Vinte e seis anos que eu trabalhei
lá eu agradeço a Deus até hoje. Eu deixei uma amizade tão grande lá
dentro! Eu nunca tive problema mais sério, nunca tive intriga”, avalia.
E como grande parte dos aposentados, Hélio só tem elogios para a UEL.
“Ninguém te aborrecia, se trabalhava direitinho não tinha problema
nenhum. Era muito bom!”.
Além da grande variedade de pesquisas realizadas pela
Instituição, Hélio se encantou com a socialização dentro do Restaurante
Universitário, onde todo o campus se encontra na hora do almoço. “Ali
no restaurante da UEL era muito gostoso. Uma comida boa... Vinha
todo o pessoal ali para almoçar e a gente se encontrava lá, sentava nas
mesas e batia aquele papo gostoso. Eu achei muito interessante aquilo
ali, pra mim foi muito legal!”.
Atualmente, o aposentado se dedica a família e ao seu sítio em
Lerroville, que ele define como “uma área de lazer”. Da Universidade,
Hélio preserva boas amizades e lembranças e guarda, carinhosamente,
o reconhecimento da UEL por seus 26 anos de trabalho, representado
em uma homenagem prestada por colegas de trabalho. Na placa
que Hélio exibe orgulhosamente se lê: “A Direção do Hospital
Universitário e a Gerência do Ambulatório do Hospital de Clínicas
agradecem e reconhecem sua conduta exemplar, destacando seu
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
136
senso de responsabilidade, dedicação e respeito aos colegas. Com
votos de felicidade em sua vida profissional e familiar”.
Rosane Mioto
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Hélio Paula Vieira
Religião e educação são assuntos
que fascinavam Hélio Paula Vieira.
O menino natural de Castro era
muito comunicativo e tinha prazer
em ouvir e aconselhar. Quem
conta é Laudiceia Paula Vieira.
Hoje ela é a memória do esposo
que está debilitado por uma
doença. Os anos de vida conjunta
lhe proporcionam este direito.
Hélio morou em Castro até os
11 anos. Ele estudava no Instituto Cristão de Castro. Depois morou
com a família em Nova Dantzig, atual cidade de Cambé. E estudava
em Londrina, no Colégio Vicente Rijo. Concluiu o ginásio e foi para
Campinas. “Ele fez o curso de Teologia, por cinco anos. Depois voltou
para o Paraná e pegou (para dirigir) uma igreja em Jaguapitã. Essa foi
a primeira igreja que ele foi pastor”.
Na volta ao Paraná, Laudiceia e Hélio já estavam casados. “Nos
casamos no dia 28 de março de 1959”. Em 1962, vieram para Londrina:
“Eu morava na rua Borba Gato, onde hoje é o Zerão. Naquele tempo
era do lado do Pito Aceso. Era uma favela, que tinha esse nome”.
Alguns anos depois, o casal foi morar próximo à avenida Bandeirantes.
“Naquela época só tinha mato, não tinha o hospital. Fomos os primeiros
a comprar data lá”, relembra.
Logo que se mudou para Londrina, Hélio resolveu estudar. Fez
História na Faculdade de Filosofia. “Ele foi colega de Álvaro Dias”,
conta a esposa. Em seguida, Hélio teve a oportunidade de ingressar na
ESG - Escola Superior de Guerra. Ele foi aprovado em primeiro lugar e
passou a ser pastor representante da Igreja Presbiteriana do Brasil na
ESG. “Ele ficou um ano morando no Rio de Janeiro, estudando lá. Eles
viajavam o Brasil inteiro conhecendo as capitais e as cidades principais,
naqueles aviões da FAB (Força Aérea Brasileira). Era uma turma
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
138
grande e boa. Cada pessoa representava um item, de uma determinada
instituição”. Assim que voltou do Rio de Janeiro, em 1977, Hélio teve outra
oportunidade importante: um convite para lecionar na UEL a disciplina
de Estudos dos Problemas Brasileiros (EPB). Hélio não recusou: “Ele
sempre gostou muito da UEL. Os alunos eram bem comportados e
gostavam da matéria. Apesar de ser uma época de ditadura, ele sempre
dava a oportunidade para todos os alunos falarem. Ele sempre foi uma
pessoa muito aberta”. A esposa se lembra da UEL e das dificuldades do início. “Era
longe, tinha aquele monte de árvore, era bonito, mas tinha muito
mato”.
Hélio também foi atuante e dedicado a sua religião. “Ele foi 14
vezes presidente do Presbitério de Londrina. Tomou conta de igrejas,
construiu doze templos”. E também foi um dos fundadores do curso
de História em Mandaguari. “Ele trabalhou na Faculdade de Filosofia,
Ciências e Medicina de Mandaguari”. Lecionou por 30 anos. “Fazia
essa viagem de ida e volta três vezes por semana”.
Hélio está aposentado desde 1996. As muitas atividades que
tinha acabaram se encerrando no mesmo período. Hoje, devido a um
problema de saúde, ele não se recorda mais delas.
Léia Dias Sabóia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
139
Henrique Alves Pereira Junior
Os 81 anos de Henrique Alves Pereira
são marcados por experiências bem
diversificadas. A memória não falha.
E ele relata com grande riqueza de
detalhes a sua longa jornada. Henrique
é mineiro, natural de Mirai. O pai era
médico na cidadezinha. E boa parte da
família também. “Eu pertenço a uma
família de médicos”. Só por essa razão
já fica fácil saber qual seria a profissão
adotada por ele. Não bastasse toda esta
influência, a mãe também contribuía:
“Eu ouvia ela dizer que queria que todos
os filhos homens fossem médicos”. E que assim seja, não sem antes
duvidar: “Pensei em fazer Odontologia ou Química”.
A dúvida não persistiu e, certo do que queria, Henrique partiu
para o Rio de Janeiro para estudar Medicina. “Saí de Juiz de Fora e fui
fazer vestibular no Rio, naquela época era a cidade-referência para os
mineiros daquela região”. Foi aprovado no ano de 1948 na Faculdade
Nacional de Medicina. “Eu costumo dizer que se eu não fosse médico,
eu seria o homem mais frustrado do mundo. Não me vejo fazendo outra
coisa. Sinto prazer em ser médico”, conta, orgulhoso.
Quando Henrique estudava Medicina as coisas eram bem
diferentes: “Não existia residência médica. Antigamente, durante o seu
próprio curso você fazia sua prática profissional. Eu saí da faculdade
sabendo tudo que eu sei: sabia operar, sabia fazer parto, pediatria. O
que necessitava para o atendimento da população eu sabia fazer”.
Henrique é contrário à tendência atual de especializar-se: “O
grande erro da Medicina é este. O médico bem-formado tem condições
de resolver, pelo menos, 85% das necessidades básicas do atendimento
médico da população”. Para ele, no Brasil, acontece errado. “Estamos
formando especialistas para não ter o médico geral, por isso temos
esses problemas todos”. Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
140
Mas, apesar da critica, Henrique considera fundamental a
existência de especialistas. “O problema é que eles têm deixado de
ser especialistas para atender os problemas gerais. Vão acumulando,
você vê um monte de gente aqui no neurologista, sem precisar de
neurologista”. Enquanto Henrique estudava no Rio de Janeiro, a família veio
para o interior do Paraná, em Ibiporã. E, assim que se formou, ele
também decidiu viver no estado paranaense. Henrique conta que
em Ibiporã já tinha muitos médicos. Então, seguiu para o nortenovíssimo do estado. “Jussara concentrou todo este movimento do
norte-novíssimo. E depois começou a aparecer Cianorte, Terra Boa,
Umuarama. E eu fiquei naquela região”.
Foi na cidadezinha de Terra Boa, que Henrique tornou-se político.
“Sempre fui homem de opinião política, talvez pela minha condição,
ou pela minha profissão”. Terra Boa era formada, segundo Henrique,
por mais de mil pequenas propriedades rurais. “Eu e o meu irmão
trabalhávamos dia e noite para dar conta de atender toda a população”. Ser prefeito nunca tinha sido cogitado por Henrique. “Fizeram
uma pressão muito grande para eu ser político, estávamos passando
por um momento de grande politização”. Henrique foi eleito em 1963,
e seu mandato foi prorrogado até 1969. Ele brinca dizendo que deve
ter feito um bom trabalho, já que foi homenageado pela cidade com os
títulos de cidadão honorário e benemérito. “Depois que eu fui prefeito,
isso não só me alicerçou na profissão, como também expandiu minha
visão de uma maneira extraordinária”, afirma. Depois que terminou o mandato, recebeu propostas para
prosseguir na política. Mas, ele queria era exercer a Medicina. Surge
então outra grande oportunidade: lecionar. “Estava no consultório,
peguei o jornal e vi que a Universidade estava se instalando em
Londrina. Resolvi prestar concurso”. Passou em primeiro lugar, revela,
modesto. Henrique também nunca havia pensado na possibilidade de
ser docente. “Nunca imaginei, eu queria ser só médico”. Vida atuante
também na Universidade: em 1982, foi coordenador da Comissão
de Reforma Curricular do Curso de Medicina (comissão constituída
também por docentes da área médica; comissão pedagógica da
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
141
reforma formada pelo Prof. Tomasi, Prof. Dorival Perez e Profa. Vera
Echenique); presidente da Comissão de Ética do Hospital Universitário
(HU) por várias gestões; idealizador e coautor do código de ética do
estudante de Medicina; coordenador e organizador das disciplinas de
Semiologia e Clínica Médica, por vários anos; e médico perito do HU.
De 1970 até 1994, ano em que se aposentou, todos os médicos foram
seus alunos.
Henrique é orgulhoso quanto à profissão e pelo fato de ser médico
de formação completa: clínica médica, cirurgia geral, obstetrícia e
medicina legal. Relata que o Código de Ética do Estudante de Medicina
da UEL é oficial e foi aprovado por uma Resolução de 09 de setembro de
1992. Aposentado há 14 anos, tem a agenda sempre cheia. E continua
fazendo o que mais gosta: Medicina.
Léia Dias Sabóia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
142
Hideo Nakayama
“Meu sonho era ser hippie e conhecer o
mundo. Fui covarde o suficiente para não
realizar”. O professor Hideo Nakayama,
que gosta de discutir a economia do
país e questões políticas, surpreende
com a declaração. Professor de Ciências
Contábeis, aposentado há dez anos, é
assim: surpreendente. Ele conta que
lecionou por 22 anos, mas que não se
sente nada bem ao falar em público, e esse
é ainda seu maior medo. É contraditório.
Entretanto, ele tem um motivo: “Era um desafio pra mim, eu me
dediquei ao máximo. Na realidade, era para me superar. Por isso, dei
aula de 15 matérias diferentes. Apostei de todos os jeitos para tentar ser
um bom professor”.
Hideo morou em São Paulo por cinco anos. Todavia, é
paranaense, nascido em Rolândia. Com um ano de idade mudou-se
com a família para São Paulo. Da experiência ele não guarda nenhuma
recordação: “Eu era muito menino”. Já a infância vivida em Londrina
está bem presente na memória, lembra-se com exatidão das ruas onde
morou, do caminho que percorria para chegar à escola, dos amigos
e das brincadeiras. As ruas, na cidade dos fins da década de 1940,
não possuíam calçadas: “Era tudo barro. Calçada era só no centro da
cidade, e ainda era de paralelepípedo. Não tinha esgoto. A água era
meio encanada, só depois fizeram tudo certo. Eu acompanhei a vida de
Londrina.”
Com seis anos de idade, Hideo começou a estudar na escola
Japonesa, campo da ACEL, a primeira escola nipônica de Londrina.
Segundo ele, para chegar até lá era preciso atravessar um pasto. Na
escola japonesa, Hideo aprendia a língua e a cultura de seus ancestrais.
Em 1951, entrou para o grupo escolar, o primário (1ª a 4ª), do Colégio
Hugo Simas. “Meu pai tinha uma quitanda, nós levávamos frutas para
a escola. Dividia com os colegas e, às vezes, até tentava comprar a
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
143
amizade deles, acontecia isso”, relata, divertindo-se com os próprios
pensamentos infantis. Depois de ser aprovado no exame de admissão,
cursou no Vicente Rijo o ginásio (5ª a 8ª). A próxima etapa foi a escola
técnica ou colegial (ensino médio), no Colégio Londrinense. Ali Hideo
começou a aprender contabilidade. Na verdade, algumas coisas ele
já vivenciava no escritório comercial, onde foi contratado, antes de
começar o curso técnico. Hideo começou na função de “boyzinho”, e
logo aprendeu a fazer escrituração fiscal e escriturações contábeis.
Por dois anos trabalhou no escritório. Depois, na Viação Garcia,
onde ele afirma que realmente aprendeu contabilidade. Aos 19 anos foi
chefe de escritório do Armarinho Paulista. Em seguida, subgerente em
uma cervejaria. Em 1964, quando já estava formado no curso técnico,
foi contador de um grande grupo, a segunda maior empresa do Paraná.
Ainda trabalhou como auditor externo e interno.
O professor conta com detalhes a função desempenhada enquanto
assessor e auditor interno do grupo Paulo Pimentel: “Fui contratado
para assumir e receber a TV Coroados, em 1963. A experiência foi boa,
eu nunca tinha visto uma televisão por dentro.” Ele lamenta o término
dos programas ao vivo. “A TV Coroados tinha, por exemplo, o palhaço
Picolino. Para economizar, financeiramente, foram tirados do ar.”
O espaço, Hideo conta que foi ocupado com as fitas estrangeiras, os
enlatados, no jargão jornalístico. Aliás, o campo do jornalismo é velho
conhecido de Hideo. Outra experiência importante foi a inauguração
do jornal Panorama, de vida curta, apenas 10 meses, formado por um
grupo de excelentes e renomados jornalistas. Segundo Hideo, o jornal
não resistiu às contas e por motivos financeiros faliu. “O prédio, onde
hoje fica o Banco do Brasil, na Tiradentes, foi construído para abrigar
as instalações do jornal”. Ele afirma que foi a primeira pessoa a abrir o
jornal, na inauguração, e depois de pouco tempo teve a difícil tarefa de
fechar as portas.
A experiência profissional de Hideo é extensa. Atuou como
contador em diferentes áreas. E a própria profissão lhe proporcionou
ou o incentivou a aprofundar-se em outros meios: hotelaria, arquivos,
rádios, televisão, jornal. Todas essas atividades, Hideo conciliava com
a carreira de professor na UEL. “Eu comecei a dar aula por acaso. Eu
tinha um amigo que me pediu para que eu o substituísse, ele iria viajar.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
144
Isso foi em 1973. Eu preparei a matéria e fui. Em 1976, entrei por
concurso e fiquei até 1998”. Quando começou a lecionar em Contábeis,
o curso era recém-inaugurado. Hideo conta que trouxe mais de 20
autores renomados para dar palestras na UEL e em Londrina. Também
ajudou a implantar a especialização – conta, reforçando que não gosta
de “aparecer”.
Didático como é, Hideo elenca os cursos que fez: técnico,
Economia, Ciências Contábeis, especializações, mestrado. E surpreende
mais uma vez: “Semestre passado terminei o curso de Direito (ICES)”.
Já deu para perceber que Hideo não vai parar tão cedo. Até hoje
ele continua suas pesquisas. Estuda a inflação no país, há cinco anos.
E a natureza também lhe desperta interesse. Paralelamente, pesquisa
sobre plantas medicinais. Diz que ainda não está se aposentando “de
vez”, apenas diminuindo o ritmo. “Eu tenho outras opções: de pesca,
de passeio”. Mas, continua trabalhando no escritório particular. Agora,
imagina se Hideo Nakayama tivesse mesmo virado hippie?
Léia Dias Sabóia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
145
Da família Universidade
Os 22 anos de Ines Buranello Vignadelli foram marcados por
amizades e aprendizado
Dezoito
anos,
curso
técnico
em
contabilidade comercial, e o terceiro
emprego, concursado. Era 17 de setembro
de 1973 quando Ines Buranello Vignadelli
começou a trabalhar na UEL no cargo de
escriturária-datilógrafa.
Ficou ali até 1995. O nome e os cargos é que
mudaram. Antes era a Divisão de Pessoal
da CAG (Coordenadoria de Administração
Geral), depois Diretoria de Pessoal,
também da CAG. Ainda na década de
1970 a diretoria passou a ser a Coordenadoria de Recursos Humanos,
até poucos anos atrás. Agora é PRORH, Pró-Reitoria de Recursos
Humanos.
Ines conta, que no começo, as únicas situações desagradáveis
que aconteceram foi quando precisou dar a notícia de demissão a
trabalhadores. Mas ela era apenas uma funcionária e sabe que, até
quem recebia o aviso, entendia sua função de portadora.
A partir de 1975, ela começou a trabalhar com legislação, época
em que a Universidade trabalhava com o INSS e a CLT (Consolidação
das Leis de Trabalho). Teve que aprender tudo isto e ainda lidar com a
máquina de escrever manual, para o controle do fundo de garantia dos
funcionários, por exemplo. Ela afirma que teve muitas oportunidades de crescer na profissão
dentro da UEL. Para passar nos concursos internos, ela lembra que
dormia com a CLT no colo. Em 1979 foi chefe da Divisão de Registro e
Legislação; em 1980, secretária executiva; e, três anos depois, assessora
técnica.
Em 1984 ingressou na Divisão de Concurso de Docentes, outra
função de que gostou muito porque, apesar de todo o trabalho para
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
146
preparar os editais, era bom atender as pessoas, os professores de fora
ligando, perguntando da cidade. E Ines percebeu o quanto era bom
trabalhar em uma empresa pública, porque, como ela exemplifica, “se
você diz não a alguém, é porque tem uma regra que não permite, você
tem uma base, e uma empresa pública é boa por isto”.
Uma das coisas de que sente falta da Universidade é o ambiente
cheio de opinião. Ela diz que trabalhar na UEL abre a mente das pessoas
e que todos só têm a ganhar convivendo com pessoas inteligentes.
A funcionária é formada em Administração pela Faccar
(Rolândia). Ela já trabalhava na Universidade e cursou a faculdade
junto com o marido. Depois da aposentadoria chegou a ajudá-lo em
sua empresa e ainda ajuda, mas só quando ele precisa.
Ines se aposentou proporcionalmente na UEL em 1995. Ela
lembra que os filhos eram adolescentes e que ela queria passar mais
tempo com eles. Ela sente falta dos amigos que fez quando estava na
Universidade, pois eles, escolhidos, acabavam sendo mais do que uma
família.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
147
Ingracia de Oliveira
Apesar de aposentada há mais de 10 anos,
Ingracia de Oliveira lembra muita coisa
de seu primeiro, único e bom trabalho.
Um ano depois de o marido falecer,
Ingracia começou a trabalhar no Hospital
Universitário, que se localizava na rua
Alagoas. “O HU inaugurou em agosto e eu
entrei em outubro”, conta.
Segundo a funcionária, naquela época, por
ser um hospital-escola, era um lugar de
aprendizado. As profissões relacionadas
com a área eram aprendidas no HU. Assim, Ingracia, que não conhecia
a profissão, aprendeu a ser lactária. O lactário é o local onde se produz leite para bebês e alimentos
para os que se alimentam por sonda. Ela aprendeu a fazer todos os
tipos de leite: de carne, de soja... “Não tinha pó para fazer e você ficava
sozinho ali dentro, porque era tudo esterilizado, então era tudo da sua
responsabilidade.”
O HU era muito pequeno e Ingracia diz que a falta de pessoal
qualificado levava à contratação de profissionais sem qualificação
nenhuma, como ela. Mesmo assim, o companheirismo predominava,
os chefes ensinavam os funcionários. “Foi muito bom”.
A funcionária chegou a fazer o curso de Enfermagem na Santa
Casa de Londrina, mas não quis abandonar o lactário, de que gostava
tanto.
Depois que o Hospital Universitário foi transferido para o antigo
sanatório de tuberculosos, ela diz ter aumentado o serviço. Ingracia
foi percebendo outras mudanças com o tempo. Antes, lembra, os
estudantes internos de Medicina vinham perguntar como era feito
o leite para passar orientações para os pacientes, sentavam com ela.
“Acho que não tem mais este coleguismo, isto foi mudando conforme
eu estava lá”.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
148
Com o tempo, o serviço também foi se tornando cansativo. “Se
eu tivesse estudado, teria ido para outros setores, mudava de serviço.
Quando aposentei estava cansada”, lembra. Depois de 25 anos, pediu
aposentadoria proporcional.
E a aposentadoria também veio de um desejo novo: o de cuidar
do neto, que já havia nascido, e estar livre para cuidar da neta que viria
depois. O acordo foi feito com a filha única, que também trabalhava no
HU. Ela fez Serviço Social na UEL e estágios no hospital.
Apesar de gostar muito do trabalho que teve, nunca mais voltou,
por achar que o HU não é um lugar para passeio. Aposentada, ela diz
que a sua vida é ótima, porque faz o que quer e o que gosta.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
149
Patchwork: é hora de sair da rotina
Iraci Tutida e outras seis aposentadas da UEL se reúnem para
trabalhar com os retalhos, relembrar os velhos tempos e firmar os
laços de amizade
Duas horas. Diva Mercedes Imperatriz
foi a primeira a chegar. Agora ela e
Marilena Uratani conversam, esperando
pelas demais. Não demora muito e a
campainha toca: é a professora e mais
duas alunas. Aos poucos o grupo de
sete mulheres aposentadas, seis delas
docentes da UEL, está completo. Antes
de começar, elas exibem orgulhosas o
resultado da aula anterior.
“É que não dá tempo de terminar tudo aqui, aí elas levam para
casa e dão o acabamento”, explica a professora. Na aula passada, elas
aprenderam a confeccionar uma sacola, muito discreta, para trazer
as compras do mercado. Quando não está em uso, ela é tão pequena
que cabe na palma da mão. Mas, não se engane: quando aberta ela
comporta uma quantidade considerável de itens. Tudo para facilitar a
vida, confessam.
A professora do grupo é Iraci Tutida. Funcionária aposentada
da Universidade Estadual de Londrina. Iraci fez parte da terceira
turma de Enfermagem da UEL. Assim que se formou, ela foi trabalhar
no ICL (Instituto de Câncer de Londrina) – antigo Hospital Antonio
Prudente. “Eu era muito nova ainda. Tinha 23 anos”. Iraci conta que
não era nada fácil conviver diariamente com tanto sofrimento, mesmo
assim, trabalhou quase dois anos. No entanto, a experiência que
adquiriu vivenciando essas situações foi de extrema importância para
a sua vida profissional e pessoal. Ela revela que aprendeu a conviver
com pessoas de todas as classes sociais e de diferentes personalidades.
Para Iraci, o curso de Enfermagem faz que o estudante reflita
muito sobre o valor da vida, pois está sempre em contato com situações
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
150
que o obrigam a isso. “Eu acho que os alunos de Enfermagem entram
bem imaturos, mas depois do terceiro ano eles já estão muito mais
maduros do que alunos de outros cursos. Quando se formam são
pessoas diferentes”, afirma. A segunda e última experiência profissional
de Iraci foi trabalhar no Hospital Universitário. Em 1978, ela prestou
concurso, em 2004, Iraci se aposentou.
É aí começa outro capítulo importante. Assim que se aposentou,
decidiu procurar uma nova ocupação. Conheceu o patchwork e se
apaixonou pelo artesanato, no início era só passatempo, hoje o hobby
gera lucro – Iraci dá aulas de patchwork. Patchwork significa trabalho
com retalhos, é uma técnica muito antiga que une tecidos de diferentes
formas e combinações.
A ideia de formar um grupo de aposentadas e ensinar o patchwork
surgiu durante um jantar, que reúne professores e funcionários
aposentados do Departamento de Enfermagem. No início, eram
apenas três: Marilena, Iraci e Nair Miyamoto Mussi. Aos poucos elas
foram convidando as amigas, que gostaram da ideia, e terminaram de
completar o grupo, que está junto há três anos. Laura Masako Obilcawa
Kyosen é a caçula: “Faz um ano que participo”. Antes, se reuniam com
mais frequência. Esse ano, as reuniões são quinzenais. No entanto,
elas não ficam paradas. A professora Iraci sempre se encarrega de
passar uma tarefa. Elas também são criativas e produzem peças para
presentear amigos ou para o uso próprio.
“Na aula de hoje, nós vamos aprender a confeccionar maçãs para
enfeitar guardanapos”, diz Iraci, mostrando um exemplo do que elas
vão produzir. Ela repassa a lista de materiais que vão ser utilizados
e: “mãos à obra”! Pouco tempo depois, a mesa fica toda coberta de
retalhos, tesouras, moldes (para as maçãs), pano de prato. E entre
conversas e risadas começam a aparecer os primeiros resultados.
Para Laura, a reunião é sinônimo de integração entre as antigas
colegas. “Não é por obrigação que estamos aqui. É pelo prazer. É sempre
uma nova descoberta, um momento de sair da rotina”. Enquanto
produzem, conversam sobre absolutamente tudo. Relembram os
velhos tempos, falam dos esposos, dos filhos, dos netos, de política, da
profissão, da saúde e até de carros.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
151
Depois de algumas horas produzindo: pausa para o lanche.
Marilena, que é a anfitriã da vez, preparou uma mesa farta. Saciada a
fome, elas decidem que nos próximos encontros não vão exagerar no
lanche, todas estão preocupadas com a saúde. Terminado a merenda, é
hora de retomar a atividade. Logo, elas começam a exibir as produções. Surgem maçãs de todas
as cores, ou melhor, de vários tipos de estampas: vermelhas, xadrez,
verdes, floridas. Iraci ajuda a finalizar o trabalho, ela é a mais orgulhosa
de todas. Iraci confessa que fica muito satisfeita em compartilhar um
pouco do seu conhecimento – ela não cobra para ensiná-las –, para ela,
o que vale mais é o progresso e o carinho que recebe em troca de excolegas de trabalho e agora amigas fiéis.
Léia Dias Sabóia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
152
Por uma Universidade melhor
Formado em Odontologia na Faculdade Estadual de Odontologia
de Londrina Ivan Piza narra uma parte da evolução do Centro de
Ciências Biológicas da UEL
No início era tudo poeira e barro... mas
era muito bom. Assim Ivan Piza começou
a contar sobre os anos que passou na
Universidade Estadual de Londrina, como
aluno e professor. Ele nasceu no bairro do
Bexiga em São Paulo. “Aquele do Adoniran
Barbosa”, cantarola. Não passou muito
tempo na capital paulista; logo sua família
mudou-se para Uraí, norte do Paraná. Para concluir os estudos, Ivan Piza foi para Curitiba. Voltou para
cursar a Faculdade de Odontologia de Londrina, a terceira criada na
cidade, em 1962. Newton Expedito de Moraes era o diretor do curso
que só começou a funcionar em 1965 nos porões da Catedral e no
Colégio Hugo Simas.
Ivan Piza começou a ser monitor: ajudava os professores nos
laboratórios e assim foi desenvolvendo laços com os coordenadores da
disciplinas. Segundo ele, para seguir como professor das disciplinas
básicas você tem que optar entre o consultório ou a Universidade,
porque é difícil de conciliar os dois.
Ele ainda tinha seis meses de curso pela frente quando o
professor de Histologia deixou a faculdade. Seu orientador achou
que Ivan poderia dar as aulas. “Eu era muito orgulhoso e fui. Acho
que meu professor quis me testar, parece que deu certo.” Depois de
concluir a Odontologia, Ivan Piza, estava envolvido “até a raiz” com a
Universidade. Em 1968, o professor foi para São Paulo fazer doutorado
na USP.
Ivan lembra com saudade do tempo em que todos os professores
do Departamento de Histologia trabalhavam tempo integral e com
dedicação exclusiva à Universidade Estadual de Londrina. “Vivíamos a
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
153
Universidade, não tinha horário. Nenhum aluno podia falar que ficou
sem aula de Histologia, se faltava professor outro descia dar aula no
lugar.”
Histologia é o estudo dos tecidos que compõem o corpo,
animal ou vegetal. O Departamento de Histologia da UEL é restrito à
Histologia animal, usado nas áreas da saúde e biológica. Na época em
que Piza esteve no Centro de Ciências Biológicas o departamento tinha
12 professores. Do apartamento que divide com a mulher, a também professora
de Histologia aposentada da UEL, Ana Maria, Ivan Piza fala do
achatamento salarial dos professores e o reflexo na educação: “Nós
comprávamos livros do nosso próprio bolso, porque podia. Chegou lá
pelas tantas, a gente não podia mais. Tínhamos recursos próprios para
produzir, para ensinar bem.”
A Especialização em Histologia, de responsabilidade do
departamento chegou a ser convertida em mestrado, mas durou quatro
turmas. O professor fala que não foi possível superar tanta dificuldade
de uma vez, e que era preferível encerrar o curso a continuá-lo com
uma qualidade ruim.
Com a mudança da legislação perto do período em que Piza
estaria para se aposentar, o professor teve que trabalhar mais cinco
anos. Mas ele ressalta que suas críticas são em favor da Instituição. “A
minha vida profissional foi muito boa”.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
154
Zelando pelo CCE
Jacira da Silva trabalhou no Centro de Ciências Exatas durante
todos os anos em que esteve na Universidade
Na hora de procurar um emprego que
oferecesse estabilidade de um cargo
público para cuidar da filha, Jacira
Pereira da Silva prestou concurso na
UEL. Após ter trabalhado 15 anos como
diarista para os mesmos patrões e até
mudar-se para o Rio de Janeiro com
eles, ela estava de volta a Londrina e
queria um emprego melhor.
Jacira começou a trabalhar no Centro
de Ciências Exatas, em 1978, como
servente. Quando saiu era zeladora do centro. Ela fazia café, limpava
o prédio e os banheiros. Durante estes anos a funcionária esteve
em contato com todos os departamentos que compõem o Centro:
Matemática, Física, Química e Geociências.
Os cursos no CCE duram cerca de quatro anos. Jacira da Silva,
que acompanhou muitas turmas entrando e deixando a Universidade,
de vez em quando reconhece alguns ex-alunos na rua.
O posto de funcionária e o fato de ser negra nunca foram motivos
para que Jacira sofresse nenhum tipo de preconceito dentro da UEL.
Ela conta que preconceito mesmo só de fora da Universidade, e por ser
pobre.
Uma das grandes alegrias da funcionária foi ter a filha formada
em Agronomia na UEL. Sua filha também fez mestrado em Agronomia
e aguarda para entrar no doutorado. Jacira lembra que na sua época
não podia estudar tanto, começou a cuidar de sua mãe e a trabalhar
cedo. Por isto parou os estudos na 7ª série, mas gostaria de ter sido
professora. Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
155
Uma vontade que tem é de fazer comida, salgados ou marmita
para vender. Além da cozinha e dos afazeres da casa, a funcionária
ainda cuida da mãe, que mora em uma casa nos fundos da sua, e não
pode se dedicar a estas atividades.
Dois anos antes da aposentadoria Jacira fez um curso na
Universidade sobre a aposentadoria. Ela já fazia musculação na
academia do Centro de Educação Física e Esporte e continua para não
ficar completamente parada. Já são cinco anos frequentando o CEFE.
Em casa, ela pega o jornal e avisa: “eu já tenho 64 anos, então tenho
que ler bastante, ativar a mente”.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Jayme Nalim Duarte Leal
Jayme Nalim Duarte Leal foi um
funcionário dedicado: “Dei meu sangue
à Universidade”. Não se arrepende.
Pelo contrário, as lembranças dos
dias difíceis e das conquistas chegam
a emocioná-lo. Jayme testemunhou
o crescimento da Universidade. “Em
cada vestibular o número de alunos
aumentava. Assim a UEL foi crescendo,
crescendo assustadoramente. Hoje tem
reconhecimento internacional”, afirma Jayme, que sempre acreditou
no desenvolvimento da Universidade.
Conforme aumentava o número de inscritos no vestibular,
aumentava o trabalho na CAE (Coordenadoria de Assuntos de
Educação). Jayme era o chefe da divisão de programação acadêmica:
“Era aquele sufoco: vestibular, matrícula, transferência interna,
externa. Era trabalhoso. A primeira matrícula era fácil, difícil é
quando a pessoa reprovava em alguma matéria. Aí tinha que montar
um horário diferente. Tudo era feito no cartão, cada matéria tinha
um cartão perfurado com todos os alunos que faziam aquela matéria.
Agora, imagine mais de 20 cursos?”.
O aumento no número de candidatos inscritos no vestibular fazia
com que o número de provas que Jayme buscava em São Paulo, na
Fundação Carlos Chagas, também aumentasse. “Depois que os alunos
acabavam as provas, eu e o João Sperandio colocávamos no carro e
íamos a São Paulo, na Fundação, levar as provas para a correção”,
conta. O relatório com os nomes dos aprovados chegava tempos depois.
Naquela época, segundo Jayme, transportar as provas de carro
não causava preocupações. Mas, havia imprevistos: “Uma vez nós fomos
de caminhão, e estragou no meio do caminho. E nós não podíamos nem
mexer nas caixas de prova. Então, nós contratamos outro caminhão e o
nosso veio em cima”, revela, ressaltando que não houve atraso.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
157
Não foi só na administração da CAE que Jayme atuou. Em
parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), a UEL passou a realizar o exame psicotécnico, para habilitação
de novos motoristas. Jayme participou ativamente deste processo. Do
ano ele não se lembra exatamente, mas fica satisfeito porque sabe que
a mudança só trouxe facilidades.
Facilidade, naquela época, era uma palavra que os funcionários
da Universidade pouco conheciam. Jayme diz que o acesso à UEL
era muito complicado. A estrada de chão e as pedras danificavam os
veículos. Contudo, não faltava vontade de ajudar. Jayme se recorda
de que no primeiro dia de aula no campus o pessoal ficou servindo
de guarda de trânsito para orientar os alunos. “Até o reitor, que era
o Ascêncio, estava de guarda de trânsito, indicando o lugar certo.
Imagine no meio da noite, aquela poeira toda...”.
Durante sua trajetória na Universidade, Jayme desempenhou
diversas funções. Ele é formado em Educação Física, mas não exerceu
a profissão. “Quando assumi a diretoria de programação acadêmica,
um dos requisitos era curso superior”. Jayme foi o primeiro diretor
de patrimônio. Foi coordenador de extensão à comunidade. Foi o
primeiro diretor administrativo do campus avançado no Ceará, no
Projeto Rondon. Jayme também foi o primeiro diretor da APUEL.
Foram muitas as ocupações, oficiais e não-oficiais. Segundo Jayme,
naquela época as atividades não eram restritas apenas à função.
Outro fato igualmente importante na trajetória de Jayme foi a
criação da APUEL. A idéia de uma associação para funcionários surgiu
das conversas entre Jayme, João Molinari, João Gilberto Martins e Raul
Lazarine. “A UEL já tinha muitos funcionários, por que não fazer uma
associação? No começo foi difícil, ninguém queria se associar”. Mas,
aos poucos, o número de associados aumentou e a APUEL começou
a crescer. “Eu lembro o dia que a gente estava concretando a piscina,
tinha que ser feito tudo no mesmo dia. Nossa, quando acabamos nos
abraçamos e choramos de felicidade”, conta o emocionado e orgulhoso
Jayme. “A APUEL começou com a gente”.
Quando Jayme voltou do Ceará, foi “emprestado” para a Secretaria
de Educação em Curitiba. “Eu fui emprestado, mas com o salário que
eu já ganhava aqui. A mudança eu paguei com o meu dinheiro. Cheguei
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
158
lá, paguei aluguel. E aqui eu tinha uma casa”. Jayme ficou emprestado
para o Estado até se aposentar. Ainda mora em Curitiba e tem um cargo
comissionado: é chefe de gabinete do diretor-presidente do Instituto
de Previdência do Município.
Léia Dias Sabóia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
159
Joana de Souza Nogueira
Paulista de Palmital, cidade que faz divisa
com o norte do Paraná, Joana veio ainda
pequena com a família para o Paraná, para
a cidade de Itambaracá, a 419 quilômetros
de Curitiba. Em Londrina, chegou aos 15
anos de idade, na década de 1960. Seus pais
vieram procurar emprego na lavoura de café
e ela mesma chegou a trabalhar na catação
do conhecido “ouro verde”, - que trouxe
muita riqueza para a região na época – as
máquinas que selecionavam os frutos para
serem industrializados. Depois trabalhou como doméstica alguns anos, sem registro. O
último emprego foi pela Indústria de Cerâmica Florença. Ela trabalhava
na casa do patrão em Curitiba, o dono da empresa, pela qual possuía
o registro em carteira. Ficou lá durante seis anos e quando voltou já
começou na Universidade. “O Doutor Marco Antônio Fiori era o Reitor
da UEL. E por coincidência ele era cunhado da minha patroa. Naquele
tempo não tinha concurso, era por indicação. Aí ela conversou com ele
e conseguiu a vaga para mim na lavanderia do HU. Comecei no dia 08
de maio de 1985 e fiquei até agosto do ano passado (2008)”, lembra.
Quando chegou, a lavanderia do Hospital Universitário era bem
diferente, como ela mesma relembra: “Era muito pequeno. Depois teve
a reforma e aumentou o espaço. No começo as roupas ainda secavam
lá fora, no sol. Eu cheguei a levar roupa para o varal. A gente estendia
depois levava para passar na calandra”. E o que é calandra? “É uma
máquina para passar lençol. São quatro rolos enormes, a temperatura
chega a 100ºC. Na última em que eu trabalhei a roupa podia ir direto da
centrífuga para a calandra, sem secar. Duas pessoas colocam o lençol
molhado de um lado e ele sai sequinho do outro”, explica.
No início da atual gestão do governo estadual, a lavanderia
ganhou uma calandra nova, mais moderna. Mas Joana não chegou a
vê-la em funcionamento. “Chegou a calandra nova, porque a antiga
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
160
quebrou. Mas nunca funcionou. Quando saí, ainda estava lá desativada”,
lamenta. Pela falta do equipamento as roupas não são mais passadas,
saem direto do secador, que atinge 90ºC de temperatura, para a dobra.
Apesar de trabalhar numa lavanderia, Joana nunca lavou roupas.
O setor em que passou mais tempo foi o de pacotes para o centro
cirúrgico. Seu serviço começava após as lavagens, nos processos para
secar, passar e dobrar. Um trabalho minucioso do qual Joana se recorda
perfeitamente: “A gente tem a técnica de dobrar, não é de qualquer
jeito não. Tem que ser certinho por causa da hora de abrir o pacote.
Tem a dobrada simples, a dobrada dupla. E tem a quantidade certa
para colocar em cada pacote. Se for errado eles reclamam e mandam
de volta para quem fez o pacote”, afirma. E não faltou trabalho. Joana atuou em vários horários diferentes.
Na época em que se aposentou, exercia uma carga horária de oito horas
diárias, que começava às sete da manhã e terminava só às 16 horas,
com folga aos sábados e domingos. Os pedidos de pacote chegavam
em grande quantidade. Uma lista pela manhã e outra pela tarde. “Era
muito corrido. Às vezes faltava material e eles reclamavam com a gente,
achavam que a culpa era nossa. Outras vezes tinha que fazer hora extra
para dar conta. Ainda mais porque reduziu o pessoal!”, justifica.
Além de trabalhar, Joana também passou a experiência adquirida
para os novos companheiros que chegaram. “Eu ensinei... prestava
atenção, porque às vezes a pessoa aprende, mas depois fica distraída
e erra!”. Caprichosa no seu trabalho, a aposentada que hoje leva uma
vida mais tranquila no Jardim das Palmeiras, zona norte de Londrina,
era exigente: “Eu falava: ‘ó, não é assim...’ pra ajudar porque não podia
deixar errar!”, lembra.
Após tantos anos de trabalho, Joana não achou tão ruim a ideia
de se aposentar. “Ah foi bom... eu estava muito cansada! Mas depois
que aposentei... eu acho que queria ter ficado mais um pouco. Eu sinto
muita falta!”, comenta entre risos. Para matar a saudade, de vez em
quando Joana retorna à lavanderia do hospital. Durante os passeios
revê os amigos que cultivou: “Dentro da lavanderia é uma família!
A gente ‘morava’ mais no trabalho do que em casa... Até hoje tenho
contato com elas. Telefono sempre pra elas!”, revela.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
161
A UEL agradece tamanha dedicação, Joana, mas agora é hora
de aproveitar a “boa idade” e o merecido descanso para curtir a vida.
Além das amizades e do descanso, Joana também encontrou outra
forma de usar o tempo livre: duas vezes por semana frequenta aulas de
hidroginástica, no bairro onde mora. A princípio, a atividade foi uma
indicação médica, mas hoje ela confessa que gosta: “É um horário que
eu tenho para mim, né!”.
Janaína Castro
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162
Os caminhos de Joana
Joana Sampar passou a juventude nos cafezais que deram
lugar ao campus, onde também trabalhou até a aposentadoria
Filha de trabalhadores rurais, Joana Sampar,
nascida em Araguaçu (SP), veio ao Paraná
ainda criança. No norte do estado, ela conta
que, sempre lidando com plantações – café,
arroz, milho, feijão -, morou nas cidades de
Uraí, Bandeirantes e Sertaneja antes de chegar
em Londrina.
Aqui, Joana acredita estar na faixa dos 20
anos quando a família começou a trabalhar
na Fazenda Santana, onde hoje está localizado
o campus da Universidade Estadual de Londrina. Do lugar, ela tem
muitas recordações boas na memória.
Os colonos moravam nas proximidades e as festas – católicas em
sua maioria – eram animadas. Aos domingos, além de ir à missa na
catedral no centro da cidade, o campo para os jogos de futebol era um
espaço de lazer.
Joana trabalhava na fazenda com os pais e mais quatro irmãos.
Todos acordavam bem cedo e carpiam café “para deixar a terra limpa”,
explica. A vida era difícil, mas ela lembra que tinham tudo o que
precisavam com fartura.
Nesta época, o ônibus da cidade só ia até a esquina da avenida
Higienópolis com a rua Humaitá, “na farmácia do Seo Toninho”,
recorda Joana. Dali até o perobal, só seguindo à pé. Enfrentando muita
poeira e barro nos dias de chuva.
Quando a Fazenda Santana foi desapropriada para a criação da
UEL, Joana e a família, mais uma vez, mudaram de cidade. Trabalharam
em Apucarana, mas acabaram voltando para Londrina, onde moraram
no Conjunto Avelino Vieira e mais tarde no Novo Bandeirantes, ainda
pouco povoado.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
163
Depois de trabalhar alguns anos como diarista, um primo de
Joana a indicou para uma vaga como zeladora na Universidade. E,
em 1977, depois de ter vivido na fazenda de café, como muitos outros,
ela retornava para fazer exames físicos no Núcleo de Bem-Estar à
Comunidade (antigo Nubec) do campus.
Acabados os exames, avisaram à Joana que ela estava contratada
e que poderia começar naquele instante. Mas, sem imaginar que a
contratação poderia ser imediata, nem almoço ela tinha levado. Então,
outras zeladoras que Joana conhecia da época da Fazenda Santana
acabaram repartindo suas refeições com a nova colega.
O começo na UEL foi difícil para a funcionária. No Biotério
Central do CCB, ela tinha que lavar as toalhas veterinárias. Joana
lembra que a veterana no serviço a ajudou muito, mas acredita que era
para ficar livre do afazer. Com o tempo, Joana começou a trabalhar em
outros setores do centro, limpando o chão, os corredores inteiros e,
eventualmente, substituindo algum funcionário que faltava.
Do Centro de Ciências Biológicas, a funcionária se lembra
especialmente das colegas e amigas: Dona Sebastiana, Maria Pontes,
Maria Erça, Maria Bernardo, Maria Meire e Maria Campos.
Durante a maioria dos 20 anos em que esteve trabalhando na
UEL, a funcionária continuou trabalhando como doméstica. Inclusive
depois da aposentadoria em 1997.
Joana, que vive sozinha, não abre mão de algumas atividades de
lazer para preencher seu tempo. Ela participa de um grupo de terceira
idade que se reúne uma vez na semana para dançar forró e dos diversos
tipos de bordado “só não sei o ponto-cruz”, avisa.
Poliana Lisboa de Almeida
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164
Datas, certificados, empregos
O professor de Ciências Contábeis Joaquim Scarpin trabalhou em
faculdades particulares, foi funcionário da prefeitura de Londrina e
tem o seu próprio escritório há 41 anos
Entre o barulho da impressora matricial,
as folhas ligadas umas às outras, com
aqueles furinhos na borda destacável,
vão se acumulando embaixo da primeira
mesa no escritório de contabilidade.
Homens e mulheres trabalhando,
Joaquim Scarpin está para chegar.
Em 1966, ele conclui o curso técnico em
contabilidade no Colégio Comercial e
Estadual de Londrina. Na época, lembra
Scarpin, ele optou pelo curso que substituía o ensino médio e abriu o
escritório assim que pegou o certificado.
Joaquim Scarpin apesar de poder ter o seu próprio escritório
com o diploma técnico, só podia fazer pequenas contabilidades. Deste
modo, em 1975 ele resolveu cursar Ciências Contábeis na Universidade
Estadual de Londrina, assim como muitos outros contadores.
Ele conta que até o meio do seu curso, o Centro de Estudos Sociais
Aplicados (CESA) funcionava no colégio Londrinense, onde hoje é a
Unifil. Algumas aulas também eram dadas no Colégio Hugo Simas.
Quando o Centro de Estudos foi para o campus, o asfalto só chegava
até a avenida Maringá, depois era estrada de terra.
Mesmo com a falta de asfalto nas ruas externas e internas, as
poucas salas de aula para os muitos alunos e outros eventuais defeitos,
quando questionado sobre o que lembra de sua época de estudante na
Universidade ele revela, “eu lembro de tudo, tudo era bom”.
Quando entrou na UEL, Scarpin já era casado e tinha filhos.
Maria Aparecida Scarpin, sua mulher, o ajudava desde o começo no
escritório, quando ainda era técnico. Ela formou-se em Psicologia,
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
165
mas resolveu estudar contabilidade também. E foi assim que Scarpin,
professor na Universidade a partir de 1980, deu aula a sua esposa.
Dois de seus três filhos também seguiram a carreira. Maria
Aparecida tornou-se professora da UEL também e hoje é chefe do
Departamento de Ciências Contábeis.
Enquanto Joaquim Scarpin contava sobre a sua carreira
profissional, foram algumas as vezes que precisou retirar a pasta de
plástico do armário com os certificados e diplomas para conferir as
datas. Ele deixou claro que não conseguia recordar todas as datas sem
aquele recurso. E que “catatau” de certificados.
Entre eles o da especialização nas Faculdades Integradas de
Marília, de 1983-1984. O professor comenta que antes não eram
muitos os professores que faziam mestrado ou doutorado. Ele optou
pela especialização.
Além de professor na UEL por 17 anos, de 1980 até 1997, quando
se aposentou, Scarpin trabalhou em outras faculdades. Na Faccar, de
Rolândia, e na Unopar, onde criou e coordenou o curso de Ciências
Contábeis de 1994 a 2002. O esforço, ele diz, era para melhorar o
salário.
O professor foi funcionário da prefeitura de Londrina por 28 anos
e é aposentado também como funcionário municipal. Na gestão do
prefeito Wilson Moreira (1983-1988), Joaquim Scarpin foi Secretário
de Auditoria. Entre tantas atividades já executadas, em um edifício comercial
no centro da cidade, a sala do contador fica no fundo, em um andar
médio. Porta à esquerda, meia parede de vidro. Embaixo do vidro da
mesa fotos da família entre fotos de Londrina ainda em preto e branco.
Nesta sala Joaquim conta de seu começo na contabilidade e que mesmo
depois de duas aposentadorias continua: o escritório, agora com 41
anos.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
166
Professor por vocação
João Antônio Leite Ramos dá aulas desde o primeiro ano do curso
de Letras e não pensa duas vezes antes de afirmar que lecionar é o seu
maior prazer
O paulista João Antônio Leite Ramos veio
para o norte do Paraná com a família em
1952, com apenas dois anos de idade.
Passou os primeiros anos na cidade de
Sertaneja – a pouco mais de 80 km de
Londrina – onde seus pais ainda moram.
Em 1958 foi para Assis, interior de São
Paulo, cidade em que estudou até concluir
o curso clássico (atual ensino médio).
No ano de 1967 ingressou no Curso de
Letras da Faculdade de Filosofia (FAFE) de Cornélio Procópio. “Já no
primeiro ano eu comecei a dar aulas numa escola do estado, porque
havia necessidade de professores. Quem entrava na faculdade já estava
à frente dos outros professores que só o tinham o 2º grau (ensino
médio) e cursos de capacitação”, explica. Mas não foi um começo fácil.
O calouro de Letras ainda não podia lecionar nas disciplinas de sua
área. Começou ministrando aulas de geografia, ciências, educação
física e matemática. “Não dava para pegar língua portuguesa e o inglês,
porque os outros professores escolhiam primeiro e eu pegava só as
sobras, que eram das áreas que não tinham curso superior na cidade”,
lembra.
O desafio tornou-se mais simples em virtude da afinidade que
João tinha com a área de exatas. “Eu gosto de Matemática. Tanto que
dou aulas particulares até hoje... no começo eu queria fazer faculdade
de Matemática, só não fiz porque não tinha aqui perto”, esclarece.
Apesar disso, o apreço pelas Letras não era menor: “Eu tinha uma
base boa de línguas do meu curso clássico (ensino médio), estudei
português, francês, inglês, italiano, grego e latim. Eu gostava muito,
por isso escolhi Letras”, afirma.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
167
Após concluir a graduação, o professor assumiu as disciplinas de
português e inglês na mesma escola em que já trabalhava e permaneceu
lá por mais onze anos. No ano de 1974, fez sua primeira pós-graduação:
uma especialização em língua latina na Unesp em Assis. Em 1983, novamente voltou ao norte pioneiro paranaense quando
passou em um concurso público para o Banco do Brasil. Foi para a
cidade de Santa Mariana – aproximadamente 80 km de Londrina.
Com a nova função, não teve jeito: precisou deixar a escola em que
trabalhava. No banco trabalhou como escriturário e fiscal do setor de
operações até 1995.
O trabalho no banco tinha remuneração mais atrativa, porém a
saudade das salas de aula fez João assumir uma jornada dupla a partir
de 1986. “Recebi um convite de um antigo professor meu, para dar
aulas de latim na UEL, onde foi lotado no Departamento de Letras
Vernáculas e Clássicas. Foi a primeira oportunidade de trabalhar
como professor efetivo em uma universidade. Aceitei, mas não deixei
o trabalho no banco. Foram quatro anos de viagens de Santa Mariana
para Londrina. Eu trabalhava no banco de dia e a noite eu vinha para
cá. Chegava em casa perto da meia-noite, era cansativo, mas eu sempre
gostei de dar aula, para mim é algo prazeroso”, garante. O sentido das
viagens foi invertido em 1990, quando João veio morar em Londrina
com a família.
O cansaço e desgaste das viagens levaram o professor a abandonar
o emprego no banco em 1995 e a continuar somente com o trabalho na
UEL. “Nos anos que eu fiquei só no banco, senti muita falta da escola,
tanto que voltei correndo quando me chamaram. Inclusive no banco eu
falava assim, ‘aqui eu faço o meu serviço o melhor que eu posso... mas
eu não gosto’”, revela.
Logo no ano seguinte, João retomou sua pós-graduação.
Começou o mestrado também na área de língua latina, com o mesmo
orientador da sua especialização na Unesp de Assis. E, em seguida, fez
o doutorado, dando continuidade aos estudos de latim. O professor
conta que esta última etapa foi feita sem bolsa nem licença. “Quando
comecei o doutorado eu já tinha tempo para aposentar... logo depois
me aposentei. Então eu fiz na raça, dando aula e tudo. Só tinha direito
a um dia para viajar”, comenta.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
168
Em 2004, João aposentou-se. Mas não por muito tempo. O
professor não chegou a ficar nem um mês parado. “Eu peguei algumas
aulas particulares e recebi uma proposta do coordenador do curso de
Letras da Faccar, em Rolândia. Eles estavam precisando de professores
e fui dar aulas lá. Viajava duas noites por semana. Fiquei o resto de
2004 e todo o ano de 2005. Aí me dispensaram”, lembra. Mas no dia
seguinte, João foi contratado pela Unopar para ministrar aulas no
programa de ensino a distância da Universidade. “Eu aceitei porque
era uma experiência nova para mim, dar aula para a câmera, era uma
coisa diferente, e também era aqui na cidade”, afirma.
João trabalhou na Unopar até 2007, quando foi convidado para
retornar à UEL. “A Esther [Gomes de Oliveira] coordenadora de Letras
na época, me chamou porque precisavam de um professor de latim e
ninguém passava no teste. Como os alunos corriam o risco de perder o
ano eu resolvi voltar e continuo até hoje. Vou parar de vez no fim deste
ano”, conta.
Dos momentos que passou no seu lugar preferido, à frente
dos alunos, João guarda lembranças especiais e verdadeiros amigos.
Os alunos o solicitavam inclusive para pedir conselhos pessoais.
“Eu tive também esse papel de orientador, amigo... E sempre tive o
reconhecimento e carinho dos alunos. Até hoje eles me cumprimentam,
conversam, abraçam”. Os reencontros com ex-alunos são sempre
carregados de emoção, como ele mesmo explica com os olhos brilhando:
“Uma vez encontrei um ex-aluno meu, numa padaria com a mulher e
os dois filhos. Hoje ele é dentista. E neste dia o filho dele me disse que
se chamava João Antônio. Eu fiquei olhando para ele, e ele me disse:
‘É por causa do senhor mesmo. O senhor para mim foi um exemplo
de professor e de vida. Eu quis fazer uma homenagem’. Aquele foi o
maior prêmio da minha atividade de professor... ter alguém com o meu
nome!”, emociona-se.
E não faltaram prêmios e homenagens para este dedicado
profissional. Seus ex-alunos de Sertaneja incentivaram o governo
da cidade a homenageá-lo com uma placa de cidadão honorário, em
agradecimento ao seu trabalho na escola. “As pessoas me perguntam
como é que os alunos gostam tanto de mim. E eu digo que eu sempre
procurei tratar o aluno como pessoa. Olhar a pessoa e valorizar. Eu
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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nunca briguei com um aluno e nunca alguém foi na diretoria reclamar
de mim. Se precisasse chamar a atenção eu chamava, corrigia, mas
sempre com o respeito. Isso é importante e esse é o papel do educador”,
diz com convicção.
Agora João se prepara para deixar o trabalho em definitivo. Mas
sabe que não vai ficar parado. “Vai ficar um vazio, saudade da sala
de aula, dos alunos e dos colegas professores. Mas eu tenho outras
atividades, como as aulas particulares que eu pretendo continuar. E
também faço um trabalho voluntário com minha esposa em um lar de
crianças carentes do meu bairro. Nós damos aulas de reforço e isso vai
ser importante para o futuro delas. É um trabalho gratificante”.
Os relatos do professor revelam a satisfação de um profissional
sempre dedicado ao exercício do magistério. Quando perguntado a
respeito, ele responde categoricamente que se sente satisfeito com o
ofício escolhido: “A gente olha para os alunos e vê que a maioria deles
cresceu na vida e eu sei que eu contribuí para isso. Muito diferente do
trabalho no banco. Na escola eu vejo o resultado do meu trabalho. A
realização pessoal do professor é fazer a outra pessoa crescer, ajudar
a realização do outro. Essa é a maior gratificação que a gente tem! Ser
professor é vocação”.
Janaína Castro
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Jardineiro da UEL
Uma breve mirada ao campus e a paisagem encanta. João Luiz
Sperandio teve autorização do primeiro reitor para ficar responsável
pela jardinagem, onde realizou trabalhos até a aposentadoria em 1995.
Depois retornou a UEL para se dedicar a outra função, o vestibular
João Luiz Sperandio faz jus ao título pelo
qual é conhecido: jardineiro do campus.
Em um dia de frio na Universidade, e
sabemos que temperaturas mínimas
beiram ao insuportável, ele é capaz de
olhar para uma árvore e responder não só
qual a espécie, mas também em que época
ela foi plantada aqui na UEL. Quem pensa
que o campus nasceu assim, com um belo
gramado salpicado com algumas árvores
esplendorosas, nunca conheceu Sperandio
ou sua equipe.
Outra atividade, bem diferente da jardinagem, também confere
popularidade a João Luiz Sperandio. Trata-se do trabalho que ele
exerce nos vestibulares.
Quando Sperandio começou a trabalhar na UEL, ele já havia
tido um pequeno comércio e um caminhão de transportes. Para
a Universidade, começou a trabalhar antes mesmo de ela existir
oficialmente, seu primeiro registro em carteira da instituição é da
fundação que administrava a Faculdade de Medicina e a Faculdade de
Ciências Econômicas, a Fesulon.
Nesta época, o campus estava sendo construído e Sperandio, que
viu tudo desde a “estaca zero”, era encarregado de cuidar dos trabalhos
no campus: “no começo o campus era pequeno então a gente tomava
conta do vigia, da limpeza externa e mais, cuidava do pessoal que
trabalhava na zeladoria.”
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Os prédios foram crescendo e as aulas transferidas para o
campus. Todo o antigo cafezal deu lugar à poeira: “Era só poeira, não
tinha asfalto, né? Aquele calcário,... então eu comentei com o reitor
[Ascêncio Garcia] e ele falou: ‘João, se você quiser fazer’. E eu comecei
lá no CCB a jardinar e aí foi geral. Aí fui juntando mais gente, mais
pessoal, e conseguimos fazer o campus todo. Esse campus todo nós
fizemos.”
Sperandio conta que no período de Oscar Alves foi criado um
horto atrás do CESA para o cultivo de mudas que mais tarde eram
plantadas na Universidade. Eles utilizavam sementes das próprias
árvores adultas do campus para as mudas, e procuravam diversificar
entre árvores frutíferas – para atrair pássaros e papagaios que eram
comuns no campus – e aquelas nativas, como a famosa peroba.
Quanto às árvores que caracterizam a vegetação do campus –
as perobas - o funcionário lembra que na década de 1990 houve uma
tempestade forte, responsável por quebrar muitas perobas antigas.
Sperandio conta que a maioria destas árvores morreu por fatores
climáticos e acrescenta que demoram muitos anos para alcançarem a
magnitude das que ainda restam no campus. Assim, mesmo plantando
novas mudas não dá para esperar que o campus volte a ser como era
antigamente.
Foi exercitando a arte de cultivo de plantas e árvores que
Sperandio adquiriu experiência em jardinagem. O funcionário também
viajava a cada 15 ou 20 dias para São Paulo para buscar doações de
animais e ração das universidades paulistas para o biotério do CCB,
por exemplo. Com o tempo, as funções foram sendo abrigadas em
áreas específicas e ele passou a coordenar as zeladoras da prefeitura e
da reitoria, a jardinagem e o vestibular.
No vestibular, Sperandio atua desde que a Fundação Carlos
Chagas era responsável pelas provas. Além de ajudar em toda a
organização externa, como a distribuição de carteiras e materiais para
as salas, ele ia buscar, na véspera, as provas e as trazia com um fiscal da
fundação. Passado este tempo, veio a época em que muitos estudantes
faziam as provas no ginásio do CEFE. Eram 10 viagens de caminhão
para transportar a média de 1.400 carteiras.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Em 1995, Sperandio se aposentou da UEL, mas não ficou mais de
seis meses parado. Com a experiência adquirida no vestibular, acabou
voltando para ajudar e está até hoje na Coordenadoria de Processos
Seletivos, a COPS. “A gente pega uma prática, conhece tudo qualquer
colégio da cidade, inclusive de Ibiporã e Cambé, então você mais ou
menos sabe quantos candidatos cabem em cada sala e o tamanho do
colégio, tudo se ajuda, não é?“, conta o funcionário.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Amor e dedicação ao trabalho
João Paulino aprendeu a trabalhar com Enfermagem na prática,
antes de existirem os atuais cursos técnicos e de graduação na área. E
mesmo aposentado continua praticando a arte de ajudar ao próximo
João Paulino nasceu em Cândido Mota
no interior de São Paulo, mas veio ainda
pequeno para o Paraná e cresceu na
cidade de Primeiro de Maio. Chegou a
Londrina com a família em 1969, após a
morte do pai. Logo em seguida começou
a trabalhar na Irmandade Santa Casa de
Londrina - na época, Hospital Escola da
Faculdade de Medicina de Londrina que mais tarde integraria a UEL. Assim
começa a história profissional deste
dedicado auxiliar de Enfermagem. “A minha irmã já trabalhava na
Santa Casa, e estava muito difícil conseguir emprego. Aí, ela falou
com as irmãs lá. Elas que ensinavam tudo, pois não tinha os cursos de
enfermagem que têm hoje e eu entrei para aprender lá”, explica.
Foram exatos 17 meses de trabalho e aprendizado com as freiras,
que o tornaram apto para buscar seu novo emprego. Em agosto de
1971, João conseguiu uma vaga no setor de Enfermagem do recéminaugurado Hospital Universitário da UEL, que ainda ficava na rua
Pernambuco, no centro da cidade. “Comecei a trabalhar no dia 20 de
agosto à uma hora da tarde. Lá era bem pequenininho, tinha muita
dificuldade. Eram poucos funcionários, poucas enfermarias, não tinha
quase nada”, recorda.
Desde o início a quantidade de pacientes era grande e por isso
nunca faltou trabalho. João sempre era escalado para os finais de
semana e feriados: “Vinha gente até do Paraguai! De toda a região. A
gente trabalhava direto. Às vezes fazia meu horário e depois, quando
estava em casa descansando, a ambulância vinha me buscar porque
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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faltou um funcionário. E tinha que ir. Quando precisava eu estava ali à
disposição!”, garante.
Alguns anos depois, em 1975, a sede do Hospital Universitário
foi transferida para o prédio do Sanatório Nutels, localizado na Av.
Robert Koch (zona leste da cidade). João assistiu e participou da
mudança. Ele lembra que foi um período difícil e de muito trabalho
para enfrentar as várias dificuldades técnicas: “Não tinha aparelhos
e material de segurança. A gente trabalhava exposto, sem luvas, era
contato direto, mexia com as mãos mesmo! As seringas eram de vidro,
todo o material era esterilizado, não tinha descartável”, conta. Mas
faz questão de ressaltar a qualidade de atendimento que o hospital
mantém atualmente: “Hoje é um dos hospitais mais bem preparados
da região. O atendimento melhorou muito. Agora é diferente”, afirma.
Durante a maior parte dos 35 anos em que prestou serviços na
Diretoria de Enfermagem do HU, João trabalhou no período noturno,
das 19h00 às 07h00 da manhã do dia seguinte. Ele confessa que foi
difícil se acostumar a princípio, pois “dormir de dia não é igual dormir
de noite...”, compara, mas conseguiu se acostumar e pegar o ritmo da
madrugada.
Nos primeiros 20 anos, João atuou na Unidade Masculina
do Hospital. Depois foi remanejado para a Unidade de Hemodiálise
e Diálise Peritoneal, em que conviveu com pacientes em situações
bastante complicadas, muitos à espera de um transplante de rim.
Nos anos de 1980, já experiente, fez o curso de auxiliar de
Enfermagem com duração de um ano e meio, oferecido pelo próprio
HU. E aproveitou para ampliar seus conhecimentos: “Começaram a
exigir e eu fiz o curso de auxiliar. É como se começasse do zero. Mesmo
já sabendo bastante do trabalho a gente sempre aprende”, diz com
convicção. Na época do curso, João cumpria jornada dupla: assistia às
aulas durante o dia e trabalhava normalmente à noite.
João também se recorda do contato com os pacientes no
Hospital. “Ali a gente convive com gente que vem com todo o tipo de
doença. Tem que fazer o possível para ajudar. Tem que trabalhar com
amor e vontade, ter um cuidado, um carinho com as pessoas. A gente
conversa, com paciência, explica que o procedimento é necessário.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
175
Mesmo quando é agredido! Tem uns que ficam revoltados, aí tem que
usar uma ‘psicologia’... porque o paciente tem sempre razão”, explica.
O amor à profissão é um dos pontos fortes da carreira de João e
que fica muito claro em seu depoimento. Ele faz questão de ressaltar
como gostava de seu trabalho. Por isso mesmo, durante todo o tempo
de serviço João não tinha faltas frequentes e só se afastou duas vezes
por razões de saúde, como ele esclarece: “Em 92 sofri um acidente
e fiquei nove meses parado. E agora, perto da aposentadoria, tive
problemas graves: uma midiocardite – infecção na válvula do coração
-, uma encefalite – inflamação aguda no cérebro – e um AVC, que foi o
que me atrapalhou mais”.
Após vencer tantas provações, o corpo sentiu o cansaço e o
trabalho ficou difícil. Por este motivo, que, mesmo com a vontade de
continuar, ao completar o tempo mínimo de contribuição em 2007,
João se aposentou. “Foi mais por necessidade mesmo. Eu pensava em
ficar mais tempo, mas aí eu vi que não dava mais, eu já não conseguia
acompanhar o ritmo. Trabalhei o último ano com dificuldade, até
completar o tempo para a aposentadoria e tive que parar”, lamenta.
A saudade é inevitável e por isso até hoje João ainda visita o HU
para rever antigos colegas de trabalho e até pacientes que continuam
internados. Pacientes que sempre demonstraram reconhecimento
e gratidão ao receber alta e se despedir. Alguns vão além do simples
agradecimento verbal, como conta sorridente: “Tem um paciente, o
senhor Paulo, que ficou muito tempo lá na hemodiálise e ainda lembra
da gente (funcionários do HU). Até hoje ele liga e chama para almoço
e churrasco! Ele já chamou várias vezes. É como se fosse um parente
nosso!”.
Apesar de não trabalhar mais no Hospital, João não deixou de
utilizar tudo o que aprendeu para continuar ajudando as pessoas.
Conhecido no bairro onde mora, ele é uma referência para os vizinhos:
“Eu gosto muito de ajudar as pessoas. Direto aparece alguém lá em casa
com a mulher doente ou o filho passando mal. Aí pedem pra eu olhar a
pressão, cuidar. Eu ajudo, mas sempre falo ‘melhor ir ao postinho’. Se
precisar eu levo, busco. O que puder eu faço”, garante. O tempo livre
também é preenchido pela presença do netinho de cinco anos, que
frequentemente fica na casa dos avós.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
176
Quando fala de sua história e tudo o que viveu nos corredores
do HU, João demonstra-se bastante satisfeito e guarda as melhores
lembranças: “Sabe qual é o melhor momento? É quando você vê uma
pessoa recuperada. Quando a pessoa é renal crônico a única coisa
que resta é um transplante. E a gente vê, nossa, muitos que foram
transplantados, a gente viu como vivia e agora é uma vida nova. E a
gente encontra com eles por aí e vê que o que você fez ajudou a pessoa a
sobreviver. E se sente um pouco responsável. Não tem coisa melhor do
que trabalhar no que você gosta e dedicar tudo da gente. Criei a família
com o serviço de Enfermagem. Eu sinto que cumpri minha missão.
Foram 35 anos bem trabalhados”, conclui.
Essa dedicação ao trabalho e ao próximo serviu como inspiração
para Ângela, uma das filhas de João, que seguiu os passos do pai: fez
os cursos de auxiliar e técnico em Enfermagem e hoje trabalha em
uma clínica psiquiátrica. Uma das muitas sementes que João plantou
durante sua carreira e que, certamente, é motivo de grande orgulho
para ele.
Janaína Castro
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
177
Ensinando e administrando
O professor da Educação José Aloyseo Bzuneck alternou sua
presença na sala de aula com cargos administrativos na Universidade
José Aloyseo Bzuneck, paranaense
de Lapa, estava em Curitiba após
formar-se em Filosofia na PUC de
Porto Alegre. De lá resolveu vir
ao interior do Paraná para fazer
o concurso de uma universidade
que, enquanto universidade,
ainda só existia no papel.
O concurso foi em 1971 e, desde
então, José Aloyseo Bzuneck
passou a ser professor da
Faculdade Estadual de Filosofia,
Ciências e Letras de Londrina. A disciplina ministrada pelo professor
era de Psicologia Educacional.
Com a constituição da Universidade Estadual de Londrina,
as antigas Faculdades tornaram-se seus Centros de ensino. Com
o nascimento do curso de Psicologia, Bzuneck assumiu a chefia
do departamento, ainda com poucos professores. Mais tarde os
professores de Psicologia ligados à educação preferiram mudar-se para
o Departamento de Educação.
Em 1973, ele começou a fazer Mestrado em Psicologia na USP.
“Naquele tempo quem ia fazer um curso destes não tinha nem bolsa
e nem licença. Eu continuava dando as aulas normalmente”, lembra.
O doutorado, que veio em seguida na mesma instituição, o professor
terminou em 1979.
Como professor, Bzuneck lecionou em diferentes cursos de
licenciatura da UEL. Mas sua trajetória de 35 anos de “ativa” na
Universidade estão marcados também pela passagem em alguns postos
administrativos. Depois de ter sido chefe do Departamento de Psicologia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
178
no começo, Bzuneck voltou a ser “só professor”, diz ele. A interrupção
no trabalho só de professor se deu quando ele foi convidado para ser
coordenador da CAE por um ano e meio para completar a gestão. “Foi
aí que começou”, lembra Bzuneck. Depois, ele foi diretor do Centro de
Educação Comunicação e Artes, chefe de departamento novamente, e
vice-reitor na gestão de Marco Antônio Fiori (1982-1986).
Apesar de não ter passado uma gestão inteira na CAE, o professor
se lembra de muitas coisas acontecidas lá dentro do órgão que tinha
“um pessoal muito competente e bom de se trabalhar”, diz. A época era ainda a de matrícula por créditos e a UEL só tinha um
minicomputador. O professor acredita que a Universidade não tinha
estrutura para trabalhar com aquele sistema e que ele ficava mal-feito. Bzuneck fala da confusão que havia quando ainda era possível
passar para o curso de Medicina, mediante transferência interna,
bastando para isso ter cursado algumas disciplinas da área. “Era uma
luta de foice para fazer matrícula nas disciplinas da Medicina, tanto que
uma vez os alunos derrubaram o balcão onde ficavam os funcionários
da CAE”, lembra o professor.
Ele ressalta que a UEL sempre foi muito rigorosa no processo
seletivo do vestibular. E que, quando ainda estava na CAE, um
fazendeiro e seu advogado vieram tentar uma vaga para o filho por
meio de uma lei conhecida como “Lei do Boi”, que reservava vagas em
cursos de Agronomia e Veterinária para filhos de produtores rurais.
Mas como esta lei só valia para instituições federais, Bzuneck teve que
falar desta diferença ao advogado, que veio crente do direito de seu
cliente.
Falando em pedidos, na época da vice-reitoria, como o professor
esteve algumas vezes como reitor, ele chegou a receber uma miss
Paraná no gabinete. No meio da conversa, lembra, percebeu que ela
estava lá para pedir uma vaga no Cesulon. Depois da CAE, Bzuneck também foi diretor do CECA (Centro
de Educação, Comunicação e Artes). Ele conta que, na verdade, nunca
buscou nenhum cargo administrativo, e na eleição para a diretoria do
CECA estava de licença. “Não movi uma palha, estava em casa e vieram
me contar que eu havia ganhado”, recorda.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Onze anos depois de chegar ao interior do Paraná, o professor
Bzuneck assumiu a vice-reitoria de Marco Antônio Fiori. Durante os
quatro anos da administração, parou de lecionar e ficou com todos os
bens penhorados para o caso de alguma irregularidade nas contas da
UEL.
“Como administradores, assinamos um termo penhorando
todos os bens, se o Tribunal de Contas pegasse alguma irregularidade,
seríamos solidários e responderíamos com os próprios bens”, explica.
Nessa gestão, Bzuneck assumiu a reitoria por até 40 dias consecutivos.
“Havia greves, exigências, tinha que administrar, mas passou”, diz.
Sobre toda a sua vida pública e de sala de aula, o professor
ressalta que nada disso é feito com pretensão de enriquecer. Em todos
os cargos, teve que lidar com conflitos, intrigas, oposição e, o mais
difícil, com outras pessoas. “É preciso fôlego”, diz. Ele acredita não ter
mais a disposição que tinha antes. Mesmo assim, desde a aposentadoria em 2005, Bzuneck assumiu
como professor sênior, que não tem contrato, horário, nem salário,
mas orienta, pesquisa, tem uma carga horária, mesmo que pequena,
e publica. Bzuneck assumiu compromissos com o Mestrado em Educação.
Para ele vale o esforço por ser uma ocupação da qual gosta. “Para mim
é interessante ter esta vida acadêmica”, diz. No ano de 2008, ele já
escreveu um livro e um capítulo de livro, que serão publicados em
2009, além de artigos. Com esta ligação não contratual, o professor
consegue trabalhar em casa, lugar em que recebe seus orientandos, os
alunos da UEL.
No dia 3 de novembro de 2008, José Aloyseo Bzuneck foi um dos
professores homenageados da Pró-Reitoria de Graduação na cerimônia
em homenagem aos cursos que tiveram maior reconhecimento neste
ano.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Matemática e o altruísmo
Apaixonado pela Matemática e pela sala de aula, José Aparecido
Fidelis dedicou-se a ajudar as pessoas dentro e fora da UEL
e transformou a vida de todos que cruzaram seu caminho
Barbeiro, cabeleireiro, professor, pai,
avô, bisavô, dançarino, brincalhão e
sorridente. São várias as faces de José
Aparecido Fidelis. Hoje, infelizmente
ele não se recorda mais de muitos
momentos da sua vida, por causa do
mal de Alzheimer, uma doença que o
acompanha há quase cinco anos. Mas
os que tiveram o prazer de conviver
com ele lembram-se de cada fato. O
Portal do Aposentado conversou com
a professora doutora Cristina Fidelis, filha do mestre Fidelis, e com
a senhora Maria Ignez, esposa, que nos contaram um pouco desta
história.
Nascido em Santo Antônio da Alegria, interior de São Paulo,
José Fidelis costumava ser de fato uma pessoa muito alegre. “Ele
estava sempre contente, brincando, de bom humor, não chegava em
casa bravo”, garante Maria Ignez, companheira há 54 anos. Ela afirma
que as brincadeiras e o sorriso, principais características do professor,
sempre foram marcas registradas de seu jeito de ser. “Tanto é, que
até hoje, mesmo com a doença, se você brincar com ele, ele entende.
Brincadeira ele entende! Mais do que outras coisas, porque ele sempre
foi muito brincalhão...”.
Após perder a mãe com apenas 19 anos, José tornou-se
praticamente responsável pelos dois irmãos mais novos e teve que
aprender a “ganhar a vida sozinho”. Conheceu Maria Ignez, na década
de 1950, logo depois que chegou ao Norte do Paraná. O casamento
veio em 1955, quando o rapaz ainda trabalhava como cabeleireiro. “Ele
não tinha estudo nenhum! Só até o 4º ano primário” recorda-se Maria
Ignez.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Mas, muito esforçado, o jovem foi buscar conhecimento nas
possibilidades oferecidas, como relata Maria Ignez: “Ele e mais alguns
amigos já adultos foram estudar no Colégio Vicente Rijo. Entraram
na 1ª série do ginásio [5ª série do ensino fundamental], junto com as
crianças! Eu sou formada em Letras e quando ele chegou na 4ª série
[8ª série do ensino fundamental], eu estava dando aula no colégio!
Mas não dei aula para ele, não”.
Após concluir os estudos básicos, Fidelis, que já apreciava os
números, fez um curso técnico de contabilidade no Colégio Londrinense.
Ao concluí-lo, foi convidado pela diretora do Instituto Estadual de
Educação de Londrina, em que a esposa já trabalhava, para dar aulas de
Matemática. “Faltavam muitos professores nas escolas porque o curso
superior estava começando aqui. A maioria tinha só o 2º grau [ensino
médio] e um curso de capacitação chamado Cades. Então, como ele
gostava muito de Matemática, e já tinha o técnico, foi dar aulas para o
1º grau [ensino fundamental]. Isso foi em 1964”, explica.
Fidelis também lecionou para o ensino fundamental e médio no
Colégio Vicente Rijo e no Mãe de Deus, onde conseguiu conquistar
a confiança das freiras. Esta, uma tarefa difícil, como revela Maria
Ignez: “Elas quase não aceitavam homens lá, mas dele elas gostavam.
E ele também gostava de lá e dizia que era um colégio muito bem
organizado”, recorda-se. A afinidade com as salas de aula não demorou a surgir na vida
de Fidelis, que começou a cursar licenciatura na primeira turma de
Ciências da UEL. Depois, completou sua formação com a licenciatura
em Matemática, assim que o curso foi iniciado na UEL.
O início de suas atividades como professor na Universidade deuse em 1976, inicialmente como substituto e, em seguida, como efetivo
no Departamento de Matemática. Lecionou Estatística, Matemática
Básica e Prática de Ensino e Didática da Matemática. Durante muitos
anos, foi responsável pelos estágios dos alunos da licenciatura que
eram direcionados para as escolas públicas da cidade. Especializou-se
em Prática de Ensino de Ciências pela UFPR e em Estatística pela UEL.
Ser professor logo se revelou como a grande paixão de Fidelis e
sua incansável dedicação tornou-o muito querido dos estudantes. “O
que ele tinha de especial é que sempre foi muito amigo dos alunos. Eles
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
182
gostam demais dele. Foi convidado várias vezes para ser paraninfo,
patrono e nome de turma. E foram muitos alunos que detestavam
Matemática e aprenderam a gostar por causa dele. Até hoje ele recebe
o carinho deles quando o encontram na rua”, afirma Maria Ignez. Mas
nunca se deixou ensoberbecer pelo reconhecimento recebido, como
Cristina explica: “Ele era muito humilde, não se vangloriava. Ficava
contente porque os alunos gostavam dele e para o professor não precisa
mais do que isso”.
Cristina teve o privilégio de, além de aluna, ser companheira
de trabalho do pai. Graduada em Matemática pela UEL, começou a
lecionar na Universidade em 1979. “Eu tinha 20 anos quando comecei
a dar aula na UEL. Ele já era professor há bastante tempo e me ajudou
muito: fazíamos planos de aula, exercícios... foi muito gostoso, uma
experiência muito boa!”, diz sorridente. Mais do que apenas dar aulas
junto com Fidelis, Cristina participou de projetos e escreveu um livro
em parceria com ele. Cristina conta que o primeiro projeto do qual participou ao
lado do pai chamava-se “Refletindo sobre a Matemática e a educação
do 1º grau [ensino fundamental]”. O objetivo era sanar as dúvidas e
dificuldades de ensino dos professores do ensino fundamental das
escolas públicas de Londrina. “A gente se reunia uma vez por semana
com esses professores e refletíamos sobre a metodologia de ensino da
Matemática. Eles é que traziam os problemas para as reuniões e nós
estudávamos juntos para melhorar o ensino daquele conteúdo. Meu
pai sempre foi muito preocupado com isso”.
Em seguida, começou um dos projetos mais expressivos de
Fidelis, do qual Cristina também fez parte: “Xadrez, Arte e Ciência”.
Na década de 1990, após fazer um curso de capacitação em ensino
de xadrez em Brasília, Fidelis iniciou o projeto na UEL ao lado de
outros professores de Matemática. Inicialmente o grupo capacitava
professores do Colégio de Aplicação da UEL, para ensinar xadrez a
seus alunos. Logo, criou-se uma verdadeira “corrente” de interessados
e gradativamente mais pessoas tiveram acesso ao milenar jogo de
tabuleiro. O trabalho estendeu-se também ao Instituto Londrinense
de Educação para Surdos (ILES), Centro de Atendimento Integrado à
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
183
Criança (CAIC), Usina de Conhecimento e o Instituto Londrinense de
Instrução e Trabalho para Cegos (ILITC).
“Qualquer pessoa pode aprender xadrez e ensinar também. Então
nós formamos equipes multiplicadoras do projeto em cada instituição
e depois só ficamos na assessoria, dando apoio a eles”, esclarece
Cristina. Para os deficientes visuais foram providenciados tabuleiros,
que permitem a identificação do espaço por meio do tato e encaixe das
peças por meio de pinos.
O sucesso deste projeto rendeu vários campeonatos entre
universitários e a comunidade externa, realizados inicialmente na
Biblioteca Central da UEL. Depois foi criado em frente ao prédio um
espaço apropriado para a prática do jogo, o “Recanto do Xadrez”: são
quatro mesinhas com tabuleiros, que a comunidade pode utilizar à
vontade. “A Biblioteca ficou pequena e a gente começou a atrapalhar
um pouco por causa do movimento e do barulho. Durante o projeto
doamos jogos pra a biblioteca e chegamos a ter mais de mil empréstimos
por mês. As pessoas gostavam muito. O Recanto foi um dos frutos que
nós conseguimos com o projeto. Pena que não tem nem uma placa lá
e muita gente não sabe o que é. Ficou faltando isso, eu até gostaria de
colocar...”, lamenta Cristina. O último projeto em que Cristina atuou ao lado do pai foi
“Ergonomia e Qualidade da Escola Pública”, voltado exatamente para
uma das grandes preocupações do professor Fidelis: a qualidade do
ensino. A pesquisa avaliou a qualidade de vida dos professores no local
de trabalho e os serviços prestados por eles. “Nós avaliamos cinco
escolas de ensino fundamental de Londrina e constatamos que onde
os professores estavam mais satisfeitos com a qualidade de vida no
trabalho, os alunos estavam mais satisfeitos com o serviço prestado
pela escola”, explana Cristina. A pesquisa transformou-se em livro,
publicado em parceria pelos dois, pela Editora da Universidade
Estadual de Londrina (Eduel), e leva o mesmo nome do projeto.
Mas não foi apenas dentro da UEL que José trabalhou e fez
amigos. Apesar da pesada rotina na Universidade e horários quase
sempre lotados, o professor dedicou-se durante toda a vida a ajudar as
pessoas. Maria Ignez relembra que “ele sempre foi muito desprendido
das coisas dele. Um dia chegou em casa só de meia e eu perguntei ‘Cadê
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
184
o tênis’? Ele disse ‘Ah eu vi um velhinho lá com o sapato furado, aí eu
dei o meu tênis para ele’. Fazia umas coisas assim como tirar o agasalho
e dar para a pessoa se estiver com frio, sempre se preocupava com os
outros”.
Na década de 1970, Fidelis fundou a “Comunidade dos Barbeiros
do Asilo São Vicente de Paula”. A instituição estava com dificuldades
para contratar barbeiros e a generosidade do professor fez nascer a
ideia: convidou alguns amigos e fundaram a Comunidade. “Foram 35
anos em que ele ia ao asilo todos os sábados de manhã para fazer barba
e cabelo dos velhinhos. Mesmo depois de doente ele ainda foi por uns
três anos. Ele conversava, brincava, levava música e dava um carinho
especial para eles. Foi um trabalho muito bonito e uma coisa boa que
ele deixou pra Londrina, que continua firme lá até hoje”, diz a esposa
com orgulho. Os internos mais antigos ainda se lembram do amigo
“Zézinho”, como era carinhosamente chamado e se emocionam nas
visitas que ele ainda faz, embora menos frequentes: “Ah eles abraçam,
dizem que estão com saudade...”, afirma Maria Ignez.
Fidelis também encontrava tempo para se dedicar e se entreter
com a família. “Ele trabalhava com bastante seriedade, mas sempre
valorizou muito a família. Este horário era sagrado. Eu lembro quando
eu era criança ainda, na horinha do almoço, a gente almoçava rápido
e depois batia uma bolinha no quintal”, revela Cristina. E igualmente
reservava momentos de diversão com a esposa: “Ele gostava muito
de dança de salão. A gente sempre ia a jantares dançantes, bailes. A
gente dançava bem, os amigos diziam que parecia que a gente estava
voando”, recorda com saudosismo.
A aposentadoria e a luta contra o Alzheimer
Parece inacreditável que uma pessoa que trabalhou a vida inteira
com números, cálculos, xadrez e nunca deixou de estudar tenha sido
acometida por uma doença como o mal de Alzheimer. Um dos mistérios
da vida, como comenta Cristina: “É, aconteceu apesar de tudo! Mesmo
trabalhando tanto com a cabeça... Por exemplo, ele resolvia todos os
anos a prova específica de Matemática do vestibular da UEL, só para
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
185
exercitar a mente. Ele ficava matutando e não parava enquanto não
terminava”. Maria Ignez conta que os sinais da doença surgiram lentamente.
“Ele começou notando que não conseguia mais fazer palavras cruzadas,
depois as contas. Eu tenho um sobrinho que era aluno dele e ele
percebeu algumas falhas, por exemplo, ele colocava os problemas na
lousa e depois ‘dava um branco’. Ele já devia estar doente há uns dois
anos sem perceber. Quando detectamos, o médico proibiu ele de dar
aulas e ele ficou muito triste, chorou muito! Depois foi aceitando”,
lastima a esposa.
Fidelis trabalhou até agosto de 2005. A confirmação da doença
fez com que antecipasse o seu afastamento da Universidade. Sempre
assíduo em seu trabalho, o professor possuía várias licenças-prêmio
que não havia tirado ainda. As licenças foram emendadas com a
aposentadoria compulsória, que foi efetivada em fevereiro de 2006. O maior foco da vida profissional de Fidelis foi, sem dúvida,
sua dedicação aos alunos e o carinho que até hoje recebe deles. “Eu
acho que o mais importante foi o que ele fez para ajudar os outros a
gostarem da Matemática. A maioria dos alunos não gostava e aprendeu
a gostar por causa dele. Ele se preocupava com o aluno, penetrava na
vida deles, trabalhava para a formação deles. Ele até rezava com eles
antes de começar as aulas”, afirma Maria Ignez.
A trajetória de Fidelis mostra que hoje ele é, acima de tudo,
uma pessoa que viveu bem. “Ele aproveitou ao máximo o tempo e as
coisas boas. Isso é que vale. Se não fizer coisas boas, o que você deixa
nessa vida? Ele achava tempo para tudo: trabalho, filhos, pra ajudar,
dançar... a gente não pode se queixar!”, emociona-se Maria Ignez. E
completa: “Por isso hoje eu faço todo o sacrifício, tudo o que precisa
por ele, pra que ele tenha, mesmo com a doença, um envelhecimento
com qualidade de vida, que não falte nada, porque ele sempre se doou
muito por todos nós”, conclui. Certamente todo o empenho da dedicada esposa, filhos, netos e
bisnetos que o cercam com muito amor e carinho é merecido por este
homem que, apesar de tudo, ainda tem muito a ensinar. Uma parte
desta lição fica registrada aqui. Em nome da UEL, muito obrigada
professor Fidelis.
Janaína Castro
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
186
José Leocádio da Silva
Com muito bom humor, José Leocádio da
Silva aproveita o descanso merecido depois
dos anos de trabalho. Ele é paranaense,
“de muito longe”, Cornélio Procópio. Nesse
município casou-se e teve os filhos, “dois
casais”. Com a família já formada, José
Leocádio resolveu mudar-se para Cambé:
“Faz 30 anos que eu moro nessa mesma
casa”. Começou a trabalhar na UEL quase por acaso:
“Eu tava desempregado e falei ‘vou andar a
toa’ e sai lá”. Ao chegar foi informado por
uns amigos que a Universidade estava contratando tratorista. “Eu não
tinha experiência com trator grande, eu fiz a ficha e depois eu consegui
entrar, em 1982”. Durante os anos em que trabalhou na Universidade
exerceu essa função: “Na Fazenda Escola eu arava a terra, gradeava,
plantava, colhia. Nos jardins, só roçava a grama”. A UEL, na lembrança do José Leocádio, era pequena: “Agora já
cresceu bem”.
Outra lembrança que ele faz questão de compartilhar é a da
tempestade que causou estragos na UEL, logo que começou a trabalhar.
“Deu uma tempestade que arrancou toda a estrutura dos equipamentos,
nós tiramos tudo nas carretas pra fora. Isso à noite, quando chegamos
no dia seguinte... o estrago”.
“Tinha um senhor que nós trabalhávamos juntos, ele era
administrador do CCA. Quando foi à tarde, tinha uma peroba bonita,
grandona, ai ele falou assim ‘ se o senhor tivesse a vida que essa peroba
tem, tava tranquilo’. Quando foi no outro dia, chegamos lá a peroba
no chão, depois da tempestade”, conta, divertindo-se com a própria
história. José Leocádio ainda mantém os hábitos do sítio, onde morou
por muitos anos em Cornélio. Na Universidade estava em contato
com a “lida”, rotinas do campo: arar, plantar e colher. Hábitos que
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187
parecem seduzi-lo. Atualmente, José Leocádio visita uma vez por mês
a propriedade que tem na cidade natal. Cria frango caipira. Nos fundos
da casa tem um pequeno viveiro, com alguns franguinhos: “Eu trago
os ovos pra cá (Cambé), pra chocar e depois eu levo pra lá (Cornélio)”. Por falar em ovos: “Na Fazenda Escola, todo dia vinha da granja
um ovo para cada funcionário, uns fritavam e outros levavam pra casa.
E eu pegava, furava um buraquinho de um lado e de outro, chupava e
guardava a casca. Ai eu tinha doze cascas de ovos guardados. Chegou
um colega meu e falou ‘Seo Zé, vamos pegar essas cascas de ovos e pôr
na bandeja e vamos pôr na mochila de alguém?’. E pegou a bandeja,
embrulhou os ovos e escreveu ‘ovos especiais’. Quando foi de tarde o
nosso amigo pegou a mochila e foi embora. Chegou em casa, colocou
a mochila na mesa e foi comprar leite. E a mulher, fazendo a janta,
mexeu na marmita e achou os ovos. Aí ela pegou a frigideira, quando
tava quente foi quebrar os ovos... era tudo casca. No outro dia chegou o
nosso amigo bravo, ‘Vocês vão ver, eu quase apanhei em casa ontem’”. José Leocádio gosta de contar histórias. É verdade que precisa
de um incentivo da filha e da esposa. É um homem de pouca fala, mas
riso fácil e sincero.
Léia Dias Sabóia
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Kleber de Cássio Ferreira Arantes
Nasci em Cafeara-PR em 16/09/1965. Morei em
Umuarama-PR até meus 18 anos (1983), quando
me mudei para Londrina-PR, pelo fato de ter
passado no vestibular na UEL.
Graduei-me em Educação Física pela UEL entre
1983 e 1986. Fiz o “Curso de Língua e Civilização
Francesa” na Aliança Francesa de Londrina de
1988 a 1993.
Trabalhei no Banco Bradesco de Umuarama
(1981-1982) e na UEL (1984-1990), sendo
aposentado por esta última em 1993. Trabalhei
na Aliança Francesa de Londrina, onde me capacitei como Professor,
Tradutor e Intérprete em Língua Francesa. Atualmente sou voluntário
da Rádio Universidade FM, onde, com mais dois amigos, é elaborado,
executado e transmitido o Programa “Arte e Palavra”.
Fui ator e cantor do “Coro Cênico Chaminé Batom” de 1988 a
1990.
Em 07/09/1990, já trabalhando na UEL, sofri um acidente
automobilístico, provocando uma lesão medular que me ocasionou,
desde aquela data, paraplegia.
Soube da criação e disposição deste Portal aos servidores através
do “Notícia” de 25/6/2008, o que me pareceu interessante, o suficiente,
para visitar, conhecer e inscrever-me nele.
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Laerte Matias
Um terço do tempo que o professor Laerte
Matias trabalhou na UEL foi longe das salas
de aulas, exercendo funções administrativas.
Esses 11 anos em cargos que não a docência
fizeram o professor de Design ter uma
visão crítica da Universidade mesmo após a
aposentadoria.
A trajetória de Matias, paulista de
Mirandópolis – entre Andradina e Araçatuba
-, como professor universitário, começou
quando, trabalhando para as Centrais Elétricas
de São Paulo (Cesp) mudou-se para Bauru. E foi lá que ele cursou o
Bacharelado em Desenho Industrial. Antes, porém, havia trabalhado
para a empresa na construção da Usina de Jupiá.
Formado, passou no concurso para professor da Universidade
Estadual de Londrina e veio para o norte do Paraná. Era 1979 quando
assumiu e o departamento ainda era Departamento de Comunicação
e Artes. Apenas mais tarde foi separado um para comunicação, outro
para artes e depois o de artes dividiu-se em artes visuais e design.
Na Universidade, o professor fez especialização em ensino
superior antes de começar o mestrado em 1981 no Rio de Janeiro. Neste
mesmo ano, Matias participou da comissão de elaboração do modelo
da bandeira da UEL – sendo dele o desenho - e da regulamentação do
uso de seu símbolo. “O símbolo já existia, nós só padronizamos o uso
dele”, revela.
O professor também atuou no Sindiprol (Sindicato dos Professores
de Londrina) desde o início. Um dos momentos mais marcantes, a
primeira greve, durou 42 dias e foi muito “pesada” para os servidores.
Matias conta que até houve desconto na folha de pagamento, mas
estavam todos juntos pela causa: funcionários, professores e alunos.
O Sindicato também foi muito importante para a redemocratização da
Universidade no fim da ditadura militar. Para o professor: “Era um
trabalho político intenso”.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
190
Matias lembra também de ter participado da primeira eleição
direta para reitor – que elegeu Jorge Bounassar Filho. Durante o
mandato do quinto reitor (1986-1990), o professor trabalhou na
Coordenadoria de Pós-Graduação (atual Proppg) no Núcleo de Inovação
Tecnológica. Outro projeto criado na CPG foi o Centro Integrado de
Pesquisa, que visava socializar instrumentos de pesquisa dos centros
de estudos.
“Queríamos quebrar as ‘gavetas’ que existem na pesquisa”, conta
o professor a respeito desta luta ainda atual. Na administração seguinte, de João Carlos Thomson (19901994), Matias assumiu o cargo de prefeito do campus pela primeira
vez. Após o cargo, o professor se afastou da Universidade para ser
secretário de obras de Londrina e diretor da Pavilon – Companhia
de Pavimentação de Londrina no mandato do prefeito Luiz Eduardo
Cheida (1993-1996).
Em 1997, Matias retornou como professor na UEL e voltou
à prefeitura do campus durante a administração de Lygia Lumina
Pupatto (2002-2006). Com a experiência de ter ocupado duas vezes
o cargo, ele brinca que “a prefeitura do campus é a que tem menos
verba, menos poder e a maior câmara de vereadores – que inclui os
funcionários, alunos e a comunidade”.
Na primeira vez que foi prefeito do campus, conta, a UEL não
tinha problemas com segurança, o que agora é visto como um dos
grandes desafios. Se parte da causa está na inserção geográfica do
campus, o professor acredita que a falta de aproximação da comunidade
com a Universidade também é um fator que contribui. “Principalmente
a comunidade mais próxima deve ser integrada, é importante até para
a preservação do campus”, completa.
O professor, que acompanhou o envelhecimento dos funcionários,
muitas aposentadorias e pouca reposição nos quadros, também é a
favor da terceirização de alguns serviços, como a jardinagem. Assim,
acredita, outras atividades poderiam ser mais valorizadas, por exemplo,
a manutenção na área eletrônica.
Mas, há uma outra observação que não envolve somente a questão
administrativa. Para o professor Matias a Universidade perdeu a sua
identidade: funcionários não vão com orgulho de trabalhar e estão
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
191
descompromissados com a Instituição. “A gente tinha uma relação
diferente, eu fico chateado ao perceber isto”, lastima o professor.
Como um último exemplo, ele lembra a forma como a sua
aposentadoria foi comunicada: com uma carta assinada pelo próreitor de Recursos Humanos. “Quem presta concurso entra com uma
portaria do reitor e sai com uma assinatura do pró-reitor, os alunos
têm a formatura quando terminam o curso, a gente aposenta...”
Apesar de ter passado anos na Universidade, até a aposentadoria
em 2007, e de confessar que não busca na Internet notícias da UEL,
o professor tem a comum - nem por isto pequena - queixa de muitos
aposentados: da pouca importância que dão para o aposentado nos
locais onde eles trabalharam.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
192
Ligado à UEL
O pai de Lauro Gomes da Veiga Pessoa Filho foi um dos
pioneiros da Universidade. Aposentado, o engenheiro sente saudades
O contato de Lauro Gomes da Veiga
Pessoa Filho com a Universidade Estadual
de Londrina começou muito antes do
engenheiro elétrico ser convidado por
Oscar Alves a assumir a Diretoria de
Equipamento do campus em 1977. O nome
de Lauro já era conhecido entre os pioneiros
da UEL, embora fosse mais conhecido por
ser herdado de seu pai, Lauro Gomes da
Veiga Pessoa.
Lauro – o pai - foi um dos fundadores e diretor da Faculdade
Estadual de Filosofia, Ciência e Letras e também da Faculdade
Estadual de Direito de Londrina. Ambas criadas em 1956 e autorizadas
a funcionar dois anos depois, foram as primeiras instituições de ensino
superior da cidade e, com outras três, originariam a Universidade em
1971.
O trabalho do pai, advogado, ajudou Lauro a confirmar o
seu desinteresse pela área de humanas, e sim da parte técnica das
coisas. Mas ele lembra que não escolheu outro caminho para evitar o
relacionamento com as pessoas, afinal, “o relacionamento acaba sendo
grande do mesmo jeito”.
Depois de acabar o curso técnico em edificações, no Instituto
Politécnico de Londrina (Ipolon), voltado ao desenho técnico, Lauro
quis trabalhar com a parte eletrônica dos desenhos, em vez de fazer
Engenharia Civil como a maioria dos que saiam deste curso. Como
eram poucos cursos de Engenharia de Telecomunicações no país, ele
foi para a faculdade em Santa Rita do Sapucaí (MG), onde, lembra,
muitos outros engenheiros da mesma área também se formaram.
Na década de 1970 era comum que os formandos saíssem
empregados da faculdade. Apesar de ter outra proposta de emprego em
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
193
Londrina, Lauro veio para a UEL, para a Diretoria de Equipamentos.
Trabalhou apenas alguns meses com o pai, que faleceu em 1978 quando
era diretor do Centro de Estudos Sociais Aplicados. Ser recém-formado era um desafio que ele superou com o
trabalho, “eu cheguei na Universidade e aprendi fazendo. Porque,
na escola, aprendíamos a fazer em uma sala e não em uma área tão
grande”. Lauro lembra que a central telefônica da Universidade, em
1977, tinha 60 ramais. Em um primeiro edital para central que foi feito,
o número subiu para 400. Hoje, o número estimado é de quatro mil
ramais em toda a UEL.
“Eu participei ativamente na construção da Universidade”,
conta Lauro, responsável pela elaboração de um plano diretor para
telecomunicações, que incluía a rede subterrânea - utilizada mais tarde
na colocação da Internet no campus.
Poucos prédios, ruas e acessos sem asfaltos, assim era a UEL de
que Lauro recorda no final dos anos 1970. Apesar disto, era preciso
uma equipe de manutenção eficiente. O engenheiro destaca que
todas as conquistas na Diretoria só foram possíveis por causa da
boa vontade do pessoal que trabalhava com ele. Estes profissionais
eram treinados e a Diretoria chegou a época em que quase 85% dos
serviços de manutenção (bebedouros, máquina de escrever – mais
tarde o computador —, micro-ondas,...) eram feitos por eles. “Pouco
era mandado para fora da Universidade, o que gerava uma economia”,
explica.
O funcionário explica que em telecomunicações nem tudo é um
monte de fios. As amizades também eram fortalecidas com os novos
desafios e era preciso ter vontade de resolver os problemas. Nessa época
a UEL chegou a ter uma das maiores centrais telefônicas particulares
do Paraná, perdendo para poucos municípios inteiros.
Com 44 anos Lauro se aposentou na UEL para administrar
o negócio próprio, sabendo que novas leis poderiam retardar sua
aposentadoria. Mesmo com bons frutos no trabalho, Lauro vinha
planejando a sua saída da Universidade. “Quem está trabalhando em
um órgão público é bom se preparar para a aposentadoria, porque é
difícil ficar parado e até financeiramente é interessante”, aconselha.
Sua empresa de pagers atendia a região sul do país. Com o
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
194
surgimento do celular, ele passou a trabalhar com operadoras desta
nova tecnologia, que deixava o pager ultrapassado, e ainda pretende
ampliar suas ofertas.
O engenheiro parou de trabalhar na Universidade, mas nem
por isto deixou de sentir falta dela e do relacionamento que tinha com
as pessoas. “Eu conhecia muita gente por trabalhar em prestação de
serviço”.
Quanto à aposentadoria na UEL, o funcionário ressalta a
importância de projetos como o Portal do Aposentado, para relembrar
pessoas conhecidas. “Porque quando o funcionário aposenta, ele não
sai avisando, então é bom saber o que aconteceu com aquela pessoa”,
finaliza Lauro – que fez a sua parte.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
195
Ubiratan de Oliveira e Leange Severo
A história dos jornalistas Ubiratan
de Oliveira Alves e Leange Severo
Alves começa a cerca de mil
quilômetros de Londrina. Mais
precisamente na cidade de Santa
Maria (RS). Ubiratan e a esposa,
Leange, foram convidados a
trabalhar na UEL pela atividade
que já faziam no interior gaúcho.
Na época não existiam muitos
cursos de jornalismo. Ubiratan aprendeu Comunicação Social na
Escola do Exército do Rio de Janeiro, tendo aulas de televisão na
extinta TV Excelsior e de Jornalismo impresso na redação do Correio
do Brasil. O restante foi adquirido com a experiência, como aconteceu
com outros profissionais.
De volta a Santa Maria, Bira, como o jornalista é conhecido,
trabalhou na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) a partir
de 1965, logo após o seu início. Foi assessor de imprensa do primeiro
reitor, José Mariano da Rocha Filho, um médico de quem recorda como
um batalhador do ensino superior no país. Não à toa, a UFSM, lembra
o professor, foi a primeira universidade federal brasileira a funcionar
em uma cidade de interior.
Ubiratan também assessorou o segundo reitor da Universidade,
coordenou o ensino a distância e projetos de extensão, como o Crutac
(Centro Rural de Treinamento e Ação Comunitária) e o Projeto Rondon.
Tudo isto, diz, não porque ele “fazia tudo”, mas porque no começo a
estrutura era diminuta e havia menos pessoas qualificadas.
O Crutac, explica, era realizado na região de acordo com o pedido
das prefeituras. A intenção era que os projetos ajudassem a comunidade
sem ser assistencialista. Já o Projeto Rondon envolvia algumas etapas.
Em 1968 ele foi criado com a chamada Operação Zero, que levou
estudantes do ensino superior para conhecer a floresta amazônica. Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
196
A partir do ano seguinte começaram a ser criados
os campi avançados. A UFSM foi a primeira a ter o seu campus, em
Boa Vista (RO). Os campi funcionavam o ano inteiro para a extensão
universitária e os alunos chegavam a passar um mês no local. Como a Universidade em Santa Maria foi a primeira a enviar
alunos para o projeto, Ubiratan foi, desta vez como jornalista, fazendo
matérias para O Globo, no Rio, e para Manaus. Ele conta, por exemplo,
que em 1969, lá no norte que os alunos – e ele – conheceram as bebidas
em lata. Era mais barato trazer latinhas de Miami do que pagar pelo
vasilhame – que custava muito e não compensava voltar para o sul –
toda a vez que alguém queria beber cerveja ou refrigerante.
No mesmo ano em que entrou para a UFSM, 1965, Ubiratan e
Leange se casaram. Na época do Projeto Rondon, formada em Letras
e dando aulas na Universidade, a professora passava algum tempo
no campus avançado lecionando cursos não regulares. Ela também
estava começando o novo curso de Jornalismo.
“Em 1975, o reitor me chamou porque tinha alguém que vinha
de Londrina para saber sobre a extensão”, conta Ubiratan. E aquela
pessoa era Marco Antônio Fiori, que mais tarde foi reitor da UEL. Depois da viagem a Santa Maria e de um encontro sobre o Crutac
em Vitória, a UEL estava disposta a trazer Leange e Ubiratan para
Londrina. Ele também tinha programa em uma rádio e na televisão
educativa. Leange estava se formando em Jornalismo e já assumiu
aulas no curso de Comunicação que também era novo aqui – de 1974.
Ele veio como chefe do Grupo Tarefa Universitária, com diretores de
centros e outros nomeados, que mais tarde viria a ser a Coordenadoria
de Extensão e, hoje, é a Pró-Reitoria de Extensão.
Leange foi a primeira jornalista formada a trabalhar na Folha
de Londrina. Ela entrou lá em 1976, mas como o Departamento de
Comunicação (na época ainda Comunicação e Artes) precisava de
professores, ela deixou o emprego para assumir as aulas. Ubiratan
entrou na sala de aula apenas em 1977, quando os primeiros alunos
começaram a ter as disciplinas de rádio e televisão. Mesmo assim o
professor lembra das dificuldades que eram, com as aulas no Edifício
Comendador Júlio Fuganti com uma câmera amadora. Mais tarde as
aulas passaram a ser no CCH.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
197
Comandando a extensão, Bira lembra que quando chegou aqui o
Crutac era um posto de saúde em que alunos atendiam a comunidade
de Paiquerê. Ele ressalta que este não é o papel da Universidade, porque
a saúde deve ser cobrada como um direito e os estudantes não devem
substituir o profissional, caso contrário uma prefeitura deverá parar de
contratar os seus profissionais.
O campus de Limoeiro do Norte, no Ceará, era cuidado pela UEL
no projeto Rondon e funcionava assim como o de Bela Vista. Ubiratan,
diretor, e Leange foram várias vezes e ficaram um tempo a mais para
concluir a estrutura que o campus tinha na cidade. Aquela fase do
projeto terminou nacionalmente em 1985, mas o professor acredita
que na comunidade daquela cidade cearense sempre haverá um pouco
de presença da UEL.
Ubiratan, que também foi diretor da Editora e Gráfica da UEL,
lembra da falta de estrutura física da Universidade. “Nós estacionávamos
o carro no barro lá no estacionamento da Reitoria, tinha até aqueles
ferros para limpar os pés antes de entrar nos prédios”. O barro também
estava na roupa dos alunos, principalmente nos dias de chuva, quando
eles chegavam em sala de aula com as calças sujas até o joelho.
Bira também falou da falta de estrutura física do Centro de
Comunicação, Educação e Artes, que era nas “casinhas de madeira”,
que estão lá até hoje. “A UEL física era muito mal equipada”, diz.
Mas eles compreendem que agora não há mais verbas como
antigamente, como na época em que a Universidade estava sendo
montada. Quanto aos problemas com equipamentos, ou a falta deles, a
professora Leange declara que a Universidade consegue contornar
estes problemas com a parte teórica. “A prática só é válida quando tem
embasamento. E não existe isto que a prática é diferente da teoria. A
prática mal feita é que é diferente da teoria.” Nos anos de UEL, além de estar em sala de aula, Leange foi chefe
de departamento, esteve no Conselho Universitário e foi diretora da
Rádio Universidade. Ubiratan preferiu não assumir mais cargos.
Quanto a dar aulas, ele compara o ofício ao sacerdócio quando se quer
fazer bem feito.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
198
O professor Ubiratan aposentou-se em 1993, mas continua dando
palestras. Ainda neste ano ele vai para Santa Maria dar uma palestra
sobre a importância da publicidade no jornalismo. A professora Leange aposentou-se em 1995. Em seguida prestou
concurso e voltou a dar aula na UEL, mas acabou pedindo demissão.
Desde 2002 ela é professora e coordenadora do curso de Jornalismo
na Unopar.
Depois de aposentados, os professores passaram dois anos no
Rio Grande do Sul. Ele como diretor, ela como editora de um jornal,
mas resolveram voltar para Londrina. O casal tem três filhos: um
engenheiro civil e professor da UEL, um arquiteto e uma jornalista,
que é formada na Universidade.
Poliana Liboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
199
Uma escolha, uma história
A auxiliar de enfermagem Ledvina Piccelli tem hoje como segunda
família todos aqueles que trabalharam com ela na Clínica Odontológica
da UEL. E pensar que tudo começou com uma indecisão...
A simplicidade e a simpatia da auxiliar de
enfermagem Ledvina Alvarez Piccelli ficam
evidentes assim que ela começa a contar a
sua história de mais de 30 anos de serviços
prestados à Universidade Estadual de
Londrina. História que, em certo ponto,
confunde-se com a da cidade de Londrina. A família veio do interior de São Paulo e
se estabeleceu no norte do Paraná para
trabalhar. Dono de propriedade na zona
leste da cidade, o avô materno de Ledvina
foi eternizado na região. Hoje, a rua
Arcílio Diassi, no Conjunto Eucaliptos é uma merecida homenagem ao
pioneiro.
Nascida na década de 1950, época em que o café estava em pleno
apogeu na cidade e região, a londrinense Ledvina passou a fazer parte
da UEL em 1976. Antes, estudou o primário (ensino fundamental)
ainda quando morava na zona rural e, depois de uma pausa nos estudos
que durou até os 21 anos, concluiu o ensino médio.
A partir desse momento, Ledvina enfrentou uma das dúvidas mais
comuns de todo aluno que conclui o ensino médio: o que fazer agora?
Foi quando, por volta de 1973, optou por um curso profissionalizante
de prótese dentária, no Colégio de Aplicação. “Meu irmão que deu
palpite nessa época, para que eu fizesse o curso. Ele dizia: ‘Ah! Faz,
porque vai ser bom, é uma profissão que você vai aprender’”, lembra.
Mal sabia ela que, a partir do momento em que optou em fazer o curso,
começava a trilhar o caminho que a levou para uma vida de dedicação
à Clínica Odontológica da UEL.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
200
Caminho que teve certa resistência no começo. “Lá no curso
de prótese, eu estava perto da Clínica Odontológica da UEL. Aí teve
o curso de auxiliar odontológica. Nos dois, entrei na primeira turma!
Foi quando o professor desse curso, que era o doutor Toshihiko [Tan,
professor de Odontologia aposentado pela UEL] me convidou para
trabalhar na Clínica Odontológica, mas aí não quis”, relembra.
Tempos depois, não teve jeito. Como numa obra do destino, um
rapaz que estudava com ela no curso de prótese dentária – Argemiro
– deu a dica para Ledvina procurar novamente Toshihiko, pois soube
que a Clínica Odontológica precisava de funcionários.
Foi o que ela fez e então passou a ser estagiária na Clínica. Cinco
meses depois, em 7 de dezembro de 1976, foi efetivada e virou funcionária
do laboratório, como celetista. Dois anos mais tarde, fez o concurso e
passou a ser servidora da UEL. Época de crescimento profissional, é
verdade, mas também não faltaram dificuldades. “Trabalhei dois anos
no laboratório, mas não consegui me acertar. Minha capacidade foi
pouca pra ficar ali, talvez me faltasse mais tempo [de experiência]”,
admite. “Então, em vez de o doutor Toshihiko me mandar embora
[risos], ele me transferiu para as atividades da Clínica”, relembra com
bom humor a fase difícil. A partir daí, a vida começou a mudar: veio o casamento e
a chegada do filho mais velho. Na Clínica Odontológica, não foi
diferente. “Precisavam de gente para trabalhar no centro cirúrgico.
Aí uma professora de lá, a Dra. Yoko [Eide Yoko Uchida Athanazio],
pediu para que eu passasse a trabalhar no centro cirúrgico.” Além do
convite, foi necessário fazer uma prova e Ledvina não decepcionou: foi
aprovada e promovida à instrumentadora cirúrgica. É, mas quanto
maior o cargo... “Chegava lá cedo, às seis horas da manhã e daí ia fazer
a rotina... por tudo em ordem, não é?”, brinca. Dedicada, ela realmente
procurava não falhar quando o assunto era organização: “Conferia o
que estava certo, o que era necessário ser feito e começava a atender
os professores, alunos e pacientes que ficavam na sala de espera.
Tinha professor que às sete horas começava a fazer cirurgia, então eu
ia para o centro cirúrgico atender eles, pegar material, instrumentos,
medicamentos, chamar aluno... Sempre dava atenção a eles, para tudo
que precisassem eu estava lá!”, gaba-se.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
201
Mais do que apenas ser um “braço direito” dos professores,
Ledvina fazia às vezes de orientadora dos estudantes universitários
quando necessário. Com um sorriso, ela se recorda: “Sempre fui muito
exigente com os alunos. Se é pra fazer certo, tem que fazer certo! Se
não pode pegar de luva aqui, então não pode pegar de luva! Hoje,
quando me encontro com eles, todos falam que não se esquecem de
mim porque eu sempre fui muito brava com eles. ‘Brava para vocês
aprenderem!’, respondo. Era obrigação da gente orientar”, analisa. E,
ao que parece, deu certo ser exigente. “Recentemente, eu me encontrei
com um ex-aluno que falou assim: ‘Nunca mais peguei num foco [de
contaminação. Na odontologia, pode ser a cuspideira, o refletor, a
estufa, o aparelho compressor, dentre outros] com luva porque você
gritou comigo aquele dia!”, conta. Mas, logo em seguida, não deixa de
amenizar: “Mas sempre surgia a oportunidade de brincar, bater um
papo, também... Não era assim tão rígido.”, esclarece.
A aposentadoria
Os anos se passaram e Ledvina já era mãe de quatro filhos na
década de 1990. Para ajudar no orçamento familiar, trabalhava em dois
empregos. Na ocasião, o seu cargo já era de auxiliar de Enfermagem na
Clínica Odontológica, mas o cansaço e a necessidade de, segundo ela,
dedicar-se mais à família pesaram na decisão de se aposentar na UEL
anos mais tarde. “Deixei muito de dar atenção aos filhos”, lamenta. “Se
eu tivesse trabalhado menos, talvez eu tivesse tido tempo de dar mais
atenção a eles... Mas eu tinha que trabalhar, pra ter dinheiro pra eles,
pra dar o estudo pra eles”, justifica. “Nunca os coloquei para trabalhar
enquanto novos. Eu dizia pra eles: ‘eu vou fazer o que eu posso pra vocês
estudarem’. Estou formando o último agora”, fala com orgulho. Até
hoje no mesmo “segundo emprego” dos anos 1990, Ledvina sonha
em se aposentar nele também. “Aí, é só passear! [risos] A viagem que
aparecer eu vou!”, promete. E se no passado havia dúvida quanto ao que escolher
como profissão, hoje ela mostra satisfação pela decisão tomada,
primeiramente com o auxílio do irmão e depois com o amigo lá no
início dos anos setenta. “Eu sempre gostei muito de trabalhar com
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
202
isso, principalmente quando eu passei a trabalhar mais na parte de
Enfermagem. A gente nasce destinada a um caminho na vida. Acho
que nasci pra isso”, discursa. Mais que a realização, a “escolha” deu
a Ledvina a oportunidade de, como ela mesma afirma, fazer parte de
uma outra família. “Eu tive duas famílias na verdade, uma aqui em
casa e outra lá na Clínica Odontológica. Ainda ligo pra eles, mantenho
contato. Eu me aposentei em 2007, saí de lá, mas, na verdade, ainda
estou lá dentro”, enfatiza. “Outro dia mesmo fui lá e tive uma recepção
emocionante. Então, faz parte da vida da gente, faz parte da minha
história... Um pessoal que nunca vou esquecer... Dá uma saudade
muito grande”, confessa. A UEL também sente saudades, Ledvina.
Gustavo Ticiane
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
203
Leonel e sua Monark
O funcionário Leonel Martins Machado trabalhou na Clínica
Odontológica por mais de vinte anos e o seu meio de locomoção para
percorrer os 8,5 quilômetros era uma bicicleta
Leonel Martins Machado nasceu no
ano de 1935. Começou a trabalhar na
Universidade Estadual de Londrina
com 46 anos. O emprego na Clínica
Odontológica foi para ele o mais
estável, depois de tantos anos de
trabalho duro. Durou até os 70 anos,
quando foi efetivada a aposentadoria
compulsória (obrigatória quando a
pessoa completa 70 anos de idade).
Este senhor, que mora no Cafezal I, a oito quilômetros e meio do
local de trabalho – medidos por uma Kombi – tinha uma companheira
durante estes anos e que, confessa, “agora está aposentada também”,
uma Monark 82. A bicicleta vermelha, sem marcha, ainda com os
adesivos originais carregou Leonel que economizava em passes
de ônibus enquanto observava pessoas mais novas descerem para
empurrar suas bicicletas nas Avenidas Inglaterra e Duque de Caxias.
O funcionário trabalhou a maior parte dos anos em que esteve
na Universidade na Clínica Odontológica, na Rua Pernambuco. Só não
esteve lá durante os quatro meses que trabalhou “emprestado” para o
Hospital Universitário. Ele entrara para a UEL em um concurso em
que outras sessenta e cinco pessoas concorriam.
Nos anos de Universidade, Leonel Machado ficou entre a zeladoria
e o almoxarifado da Clínica Odontológica Universitária. A experiência
anterior em limpeza fora pequena, quando esteve no exército, mas o
funcionário avisa que tinha noção de como era e contou com a ajuda
dos funcionários mais antigos. Quando ele entrou eram dois homens e oito mulheres no serviço
de limpeza, mas Leonel acredita que não tem diferença no trabalho. Ele
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
204
se diverte ao contar de quando teve que ajudar duas outras zeladoras
a limpar o vidro de uma clínica e da faxina pesada que fez quando
trabalhou no Hospital Universitário, “as pessoas de lá queriam que eu
ficasse no HU, me amarrar lá”.
Leonel Machado, que cursou até a 3ª série do ensino primário
substituiu um funcionário com ensino fundamental completo no
almoxarifado. Ele fala que a administração sempre acreditou nele, que
acompanhava sozinho as equipes de dedetização aos fins de semana,
quando era preciso.
Além do apoio dos superiores, o funcionário não esquece dos
outros que trabalharam com ele, “graças a Deus na UEL eu só fiz
amigos”. Uma parte deles também se deve ao futebol. Até os 59 anos
Leonel jogou na Apuel, “tinha um japonês que eu marcava sempre e
que me perguntava quando eu ia parar”, e depois foi para a categoria
manter. Sempre que passa pelo centro da cidade, Leonel vai lá na Clínica
fazer uma visita aos amigos. “Ah, se eu fico muito tempo sem aparecer
eles perguntam.”
Depois de uma conversa e na hora de registrar o momento,
Leonel que já havia sido fotografado com sua companheira de mais
de 25 anos em um cômodo vazio da casa a leva para a varanda. E lá, a
Monark 82 vermelha com o dono, que não tem nenhuma foto com ela.
Ele olha todo orgulhoso no visor da máquina digital sua bicicleta bem
conservada, ainda com os adesivos originais.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
205
Outra vida na UEL
Leonilda de Souza e Silva trabalhou como zeladora em vários
setores da Universidade antes de pegar transferência para o
Ambulatório do Hospital de Clínicas (AHC), onde ficou 13 anos até
a aposentadoria
A vida de Leonilda de Souza e Silva
mudou quando ela começou a trabalhar
na Universidade Estadual de Londrina.
Antes de 1977, a funcionária era dona de
casa e empregada doméstica, mas, depois
de entrar na UEL, ela conseguiu sustentar
a casa com o seu salário sem precisar da
ajuda do marido.
Leonilda revela que seu pai criou as
filhas para se casarem. Ele não deixava
elas estudarem – pois “o homem é que deveria sustentar a casa” - e só
registrou as filhas antes de seus casamentos, para que tivessem idade
suficiente. Assim, com 15 anos Leonilda foi registrada como tendo 17
para o matrimônio.
Ela lembra que veio do sítio para a cidade sem saber de muita
coisa. Como empregada na casa de um patrão de seu marido, acabou
descobrindo como se atender ao telefone depois de colocá-lo no gancho
enquanto ia chamar o patrão e perder a ligação.
Como seu vizinho era funcionário da UEL, Leonilda pediu para
que ele avisasse quando abrissem vagas na Universidade. Seis meses
depois de preencher a ficha, ela estava começando o trabalho. Daquela
época, diz em poucas palavras: “a UEL era muito linda”.
José Ramos da Silva, marido de Leonilda, trabalhava como
servente de pedreiro e começou a levar de bicicleta a mulher ao
trabalho. “Ele me levara na garupa até o pé de Santa Bárbara, onde tem
aquele letreiro escrito: Universidade Estadual de Londrina”, lembra.
Na UEL a funcionária sempre trabalhou como zeladora. Em
1977, começou na Coordenadoria de Recursos Humanos (CRH, atual
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
206
PRORH). Depois foi para a prefeitura do campus e passou pela CAE
(atual Prograd), pela Editora e Reitoria. Mas, quando começou a
construção do Ambulatório do Hospital das Clínicas (AHC), Leonilda
pensou que poderia trabalhar lá. Afinal, além de ter o salário um pouco
maior, ela estaria sempre no mesmo lugar.
Com o AHC pronto, pediu transferência e, em alguns meses, já
estava no novo local. O serviço era mais fácil; antes, quando trabalhava
na Reitoria, por exemplo, “tinha que pegar os sacos de lixo e levar lá
embaixo”, já no Hospital das Clínicas o lixo era recolhido lá mesmo.
A funcionária conta também que ficava responsável por limpar as
clínicas, mas os corredores eram lavados pelos homens com o “rodão”.
Até o marido de Leonilda veio trabalhar na Universidade, onde
foi jardineiro e segurança - depois de uma cirurgia no coração. Mas ela
conta que José não gostava de ficar sozinho como guarda e chegava
bravo quando levava bronca por chamar a atenção de alguém que
estacionava o carro errado. A funcionária lembra que os carros tinham
que estar estacionados certinho e o marido zelava por isto.
Leonilda, que achava a UEL um bom lugar para se trabalhar,
aposentou-se ano passado por estar muito cansada. O marido tinha
falecido alguns anos antes e ela pode começar a viajar – o que sempre
gostou, mesmo contrariando o companheiro. “Eu parei de trabalhar e
na outra semana estava na praia”, conta a funcionária que já foi para a
Bahia, Brasília, Minas Gerais, Foz do Iguaçu e outros destinos, muitas
vezes de excursão com amigas feitas na Universidade.
Além das viagens, a funcionária já reformou a casa que o marido
construiu, em que mora sozinha. Leonilda, mesmo com pouco estudo,
sabe que o dinheiro que ganha tem que servir para aproveitar a sua
vida. Sabedoria de quem viu o marido falecer e deixar para outros o
dinheiro que - a muito custo - conseguiu em vida.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
207
Da Faculdade de Direito
Leslie Voigt Cosentino do Valle Rego, advogada e ex-aluna
da Faculdade de Direito, é lembrada pelos anos em que esteve na
Assessoria de Legislação e Ensino da CAE
Leslie Voigt estudou na Faculdade de
Direito de Londrina, onde sua mãe
esteve na primeira turma. Leslie era
professora da rede estadual, no Colégio
Hugo Simas, e foi convidada pelo
diretor Nilo Ferraz de Carvalho para
ser secretária da Faculdade. Como a
Faculdade já estava ligada ao estado do
Paraná, ela foi cedida para trabalhar na
fundação.
Quando o governo cortou as
disposições, a funcionária manteve os
dois empregos até a Universidade ser reconhecida como instituição
pública.
Na CAEG (Coordenadoria de Assuntos de Ensino de Graduação)
Leslie passou pelo Colegiado dos Cursos, Assessoria de Currículos e
Programas e Assessoria de Legislação e Ensino, onde ficou por mais
tempo. Como assessora de legislação de ensino, ela era responsável por
pareceres que embasariam a defesa jurídica.
Em 2000 a advogada, que já trabalhava no período noturno
na Unopar, no mesmo cargo, aposentou-se da UEL. Ela conta que o
trabalho é muito parecido, embora na faculdade particular são incluídas
questões financeiras.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
208
Conheça o casal Fortes
Licéia Cianca Fortes e Waldyr Gutiérrez Fortes, professores
de Biblioteconomia e de Comunicação, participaram da história
da Universidade assim como a UEL faz parte da vida deles
A londrinense Licéia começou a trabalhar na
UEL em 1973 em um cargo administrativo
ainda no Colégio Hugo Simas. Ela
trabalhava na assessoria de planejamento,
porta com porta com a reitoria de Oscar
Alves.
Dois anos depois, foi para a secretaria
executiva do Centro que mais tarde viria
a ser o CECA (Centro de Educação, Comunicação e Artes), cargo
que ocupou até 1985. “Neste meio tempo”, conta Licéia, “apareceu o
Waldyr”.
O Waldyr de quem fala é Waldyr Gutiérrez Fortes. Em 1977,
o relações públicas paulistano, que trabalhava e dava aulas de
Comunicação em São Paulo, veio para Londrina para ajudar na criação
do curso da UEL.
No começo, o curso de Comunicação Social da Universidade
era polivalente, explica Waldyr. Os alunos tinham aulas juntos nos
primeiros anos da graduação e depois optavam pela habilitação de
Jornalismo ou de Relações Públicas. Waldyr e Licéia eram solteiros e lembram que havia uma
“campanha” para que eles namorassem. Deu tão certo que no ano de
1979 eles se casaram.
Quando o professor Waldyr começou a cursar a Especialização em
Metodologia em Ensino Superior, Licéia animou-se e resolveu voltar a
estudar. A funcionária cursou Biblioteconomia. Dez anos depois de ter
entrado como funcionária na UEL, em 1983, estava formada e em 1985
foi aprovada em concurso público para professora.
Desta feliz união, que começou graças à Universidade, os
professores tiveram os filhos Fellipe e Belliza, cujos nomes também
tiveram origem em discussões com amigos feitos na UEL.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
209
O casal demonstra cumplicidade e atenção à vida do profissional
do outro. Waldyr e Licéia participaram de momentos importantes
dos cursos para os quais lecionavam. Ela lembra, por exemplo, que o
marido esteve presente em quase todas as formulações de currículo do
curso de Relações Públicas, com exceção da primeira. Hoje, o curso tem
o currículo reconhecido nacionalmente. A professora também esteve
presente na comissão de Biblioteconomia responsável pela elaboração
do curso de Arquivologia.
Arquivologia, lembra Licéia, surgiu como resposta ao problema
de ocupação de vagas, pois com o regime seriado os cursos de História
e Biblioteconomia tinham pouca procura no vestibular. Uma comissão
com três professores de cada um destes cursos foi montada para a
elaboração de Arquivologia. Licéia fez parte desta comissão que teve
um trabalho complicado. “Eram poucos cursos no Brasil, cinco ou
quatro, o que dificultava até para fazer um currículo diferenciado. E
nós queríamos uma característica bem regional”, aponta a professora. O pioneirismo na comissão de Arquivologia rendeu à professora
uma indicação ao colegiado do curso recém-aberto em 1998. Licéia
estava requerendo a aposentadoria e não pode assumir o cargo. Em
2008, ano em que se comemorou uma década do curso na UEL, a
professora foi lembrada.
Waldyr aposentou-se em 2003 depois de ter dado aulas de
diversas disciplinas nas áreas de teoria e técnica a Jornalismo e Relações
Públicas. Ele conta que estava muito cansado quando deu esta pausa.
Pausa porque o professor diz que demorou a arrumar as suas coisas,
mas em 2006, por meio de concurso público, ele voltou a lecionar.
O professor conta que sempre trabalhou muito. “Ontem, por
exemplo, só estava eu no escritório (de Relações Públicas)”, diz à esposa.
Voltar como professor concursado evita a sobrecarga de disciplinas e
ficar com disciplinas que os outros não querem.
Licéia também voltou à UEL três vezes nestes dez anos. Sempre
como temporária. Logo após a aposentadoria, chegou a pensar em
prestar concurso novamente. No entanto, num dos concursos, o seu
diploma de mestrado não estava pronto; e um outro impedia a volta de
professor aposentado. Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
210
Ela acabou desistindo. Para os testes seletivos para o cargo
temporário, ela voltava a convite do pessoal do curso. Segundo Licéia,
nem ela nem o marido sofreram com a aposentadoria. “Até porque a
gente ocupou este tempo de outra maneira”, lembra, tranquila. Waldyr, que já tem cinco livros publicados, não parou de produzir.
Assim como Licéia, que além da Biblioteconomia deu aula em outros
cursos da graduação e na Unifil. Mas ambos, que já deram aula para cursos de especialização,
têm mais uma paixão em comum, os alunos da graduação. “A gente
prefere orientar três TCCs (trabalhos de conclusão de curso) a dar uma
disciplina em uma pós-graduação”, revela Licéia, com o que Waldyr
concorda.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
211
Linda Bulik
Linda Bulik é doutora em Ciências da Comunicação
pela Universidade de Paris II (Sorbonne), com
tese defendida com o título de As Doutrinas da
Informação no Mundo de Hoje. Concluiu PósDoutorado em Comunicação, na Universidade
de Paris VIII, com a pesquisa A Comunicação
do Homem em Situação de Representação (Por
uma Semiótica do Odin Teatret) realizada na
Dinamarca, no Nordisk Theatre Laboratorium.
Formou-se em Letras Franco-Portuguesas
pela Universidade Estadual de Londrina e
Jornalismo pela Ecole des Hautes Etudes Sociales / section École
Supérieure de Journalisme de Paris. Autora dos livros Doutrinas da
Informação no Mundo de Hoje (Loyola), Comunicação e Teatro (Arte
& Ciência) e Comunicação, Memória & Resistência. (Paulinas). Este
último, em parceria com Pedro Gilberto Gomes e Marcia Piva. Conta
com inúmeros artigos científicos e técnicos em revistas acadêmicas e
jornais de notícias. Antes de ingressar na carreira docente, Linda Bulik estudou na
UEL, no período de 1969 a 1973, tendo participado da efervescência
estudantil da época - política e cultural -, fazendo parte do Diretório
Acadêmico Rocha Pombo, como diretora cultural, e representando
o curso nos Festivais de Teatro da época. Vivenciou o período de
implantação da Universidade de Londrina e colou grau na primeira
turma de formandos da UEL. Tanto na vida acadêmica quanto profissional, sempre se
interessou e buscou agir na zona de interseção entre a comunicação e
a arte, primeiro no jornalismo escrevendo crítica de teatro, nos anos
70 e 80, na Folha de Londrina, e depois, na carreira acadêmica, como
Professora Titular concursada da Universidade Estadual de Londrina,
nos anos 80 e 90, de Teorias da Comunicação, com ênfase em Semiótica
e Estética da Comunicação.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
212
Ainda no jornal, criou a editoria de arte e foi editora-chefe
do Caderno 3 – suplemento hebdomadário cultural da Folha de
Londrina, no final dos anos de 1970, que discutiu os grandes temas
da época e refletiu as teses do estado de direito e do retorno do País à
democracia. Linda Bulik começou a trabalhar na UEL, em 12 de fevereiro
de 1979, e, já no final daquele mesmo ano, foi eleita por seus pares
para ocupar o mandato por dois anos de chefe do então Departamento
de Comunicação e Artes, que, em 1982, seria desmembrado. Posteriormente, ocupou a chefia do Departamento de Comunicação,
no biênio 1987-1989, e Coordenadora do Curso de 1982 a 1984 e de
1995 a l997. Participou ativamente da Comissão Especial encarregada
de elaborar o Projeto de Criação e Implantação do Curso de Graduação
em Artes Cênicas e quando se aposentou estava coordenando o Projeto
de Criação e Implantação do Mestrado em Comunicação.
A professora atuou ativamente na política universitária tendo
participado não só da criação como da diretoria de dois biênios
consecutivos da ADUEL (1981-1983 e 1983-1985) e se envolvido com
afinco no debate da ANDES em defesa da universidade pública. Embora aposentada da UEL, Linda Bulik continua na ativa e
viajando toda semana para Marília. Atualmente leciona na Graduação
em Jornalismo e é professora titular do Programa de Pós-Graduação
(Mestrado) em “Comunicação” da Universidade de Marília, atuando na
linha de pesquisa Produção e Recepção de Mídias. Sua obra apresenta duas vertentes: uma pesquisa descritiva e
crítica no campo dos estudos midiáticos, que trata da comunicação
política e das políticas de comunicação, e outra que explora as conexões
entre estética e a cultura das mídias.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
213
Liogi Suzuki
Com disciplina e dedicação, Liogi Suzuki,
tinha menos de cinco anos de idade quando
começou a treinar kendo ainda durante as
madrugadas. A obrigação era imposta e
ministrada pelo pai, “um exímio praticante
de kendo”, que aprendera a luta inspirada
nos samurais no país que deixara - Japão.
Tamanha rigidez, lembra Suzuki, devia-se
ao fato de o filho ser um pouco preguiçoso.
Agora, ele aproveita para brincar, que não
sabe “se a mãe chorava por minha moleza
ou se chorava pela rigidez do meu pai”.
Depois de um pouco de kendo, este filho mais velho teve de seu
pai algumas lições de judô. Foi assim, dentro de sua própria casa, que
Suzuki teve contato com a luta que esteve presente em momentos
importantes de sua vida.
Em 1948, a família tinha se mudado da cidade de Lins (SP) para
Londrina. Depois dos cursos primário e secundário, Suzuki fez o técnico
em contabilidade no Colégio Comercial de Londrina. Em seguida,
cursou Ciências Econômicas na Faculdade de Ciências Econômicas de
Apucarana. Muitos alunos de Londrina, assim como ele, iam todos os dias
para Apucarana frequentar às aulas. Isto porque na época em que
Suzuki começou a faculdade, a Universidade Estadual de Londrina
ainda não tinha o curso de Ciências Econômicas.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
214
Lourival da Silva
Lourival da Silva é natural de Terra Roxa, no
interior de São Paulo. Mas, foi em outra terra
roxa que a família se estabeleceu: Londrina.
Quando deixou Terra Roxa, Lourival era
ainda muito pequeno e, portanto, não guarda
lembranças da cidade natal. Elas começam
surgir após os cinco anos. Ele conta que teve
a infância diminuída pela necessidade de
trabalhar e ajudar os pais. Com apenas oito
anos, Lourival começou na “lida”.
Segundo ele, as coincidências parecem
marcar sua vida. A primeira foi deixar Terra
Roxa para habitar uma cidade famosa por sua terra roxa. Depois de
dois anos em Londrina, a fazenda que o pai empreitou chamava-se
Santa Rosa. Posteriormente, ali foi construída a Universidade, onde ele
iria trabalhar mais tarde. “Um dia chegou um caminhão com um trator
grande em cima. Subiu uma ruinha de terra e descarregou o trator. E o
trator começou a arrancar o café, bem na nossa lavoura”.
Como a lavoura cedeu lugar às construções da UEL, Lourival e
a família se mudaram para outra propriedade, onde moraram por 16
anos. Em 1969, casou-se. Ele trabalhava na construção. O próximo
emprego foi em uma fábrica de móveis. Lá ficou por dois anos e meio.
Depois veio o desemprego, num período difícil para Lourival. “Eu era
recém-casado, já com uma filha. Fiquei muito preocupado. O que eu
faço agora?, eu pensava”.
Léia Dias Sabóia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
215
Luiz Abdon Pereira
“Diz que vinha juntar dinheiro com rastelo,
aí eu vim juntar dinheiro com rastelo
aqui”. A riqueza gerada pelo café no norte
do Paraná atraiu gente de todo o Brasil,
que acreditava na promessa de uma vida
melhor nas terras férteis do sul do país. Foi
assim que, na década de 60, o operador de
equipamento pesado, Luiz Abdon Pereira,
chegou em Maravilha, na região rural de
Londrina, vindo de Aratuba, no Ceará.
Porém, a vida nos cafezais não era fácil.
Depois de seis anos vivendo aqui, Luiz
decidiu voltar para sua cidade natal, mas
chegando lá não conseguiu se readaptar
e voltou para o sul um ano e meio depois.
Vivendo em Tamarana, começou a trabalhar
nas construtoras que abriam as estradas
que ligavam Londrina a outras cidades do estado, como Curitiba, por
exemplo. Depois de se mudar para Cambé, Luiz chegou a trabalhar em
uma grande viação da cidade como lubrificador de ônibus, mas como
o serviço acabava muito tarde, perto de meia-noite, pediu as contas
por medo de voltar sozinho para a casa, depois de duas tentativas de
assalto.
A partir deste momento a vida de Luiz se cruza com a história
da UEL. Depois de trabalhar como servente em uma construtora
que prestava serviços à Instituição, foi contratado pela Universidade
em 1974 para trabalhar como operador de máquinas e continuou
nesta função – apesar das mudanças de cargo no papel – até o dia da
aposentadoria.
Assim, a trajetória de Luiz na Instituição começa nos primeiros
anos da UEL, época de muito trabalho para construir o campus. Com
o trator de esteira, Luiz fazia a terraplenagem para a construção de
prédios, inclusive arrancando os tocos das perobas que eram derrubadas
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
216
para que a Universidade pudesse crescer. A partir do momento que
a prefeitura do campus adquiriu uma retroescavadeira, esta máquina
passou a ser a grande companheira de Luiz, que precisou fazer um
curso para aprender a utilizá-la. E o novo equipamento potencializou
seu trabalho. “Eu trabalhava por 50 funcionários da UEL na máquina”,
explica.
Mas, mesmo com a retroescavadeira, o serviço continuou pesado.
Luiz era encarregado de abrir as valetas para a instalação das redes de
água e esgoto dos prédios do campus e a cavar covas para enterrar os
animais que morriam na clínica veterinária e até mesmo o sangue e
os pertences dos cadáveres da morfologia. Nos primeiros dias neste
serviço, Luiz nos conta que mal conseguia almoçar.
A procura pelos serviços destas máquinas era grande, mas só
havia duas retroescavadeiras para atender todo o campus e as extensões
da Universidade, como o Hospital Universitário e até o aeroporto e a
EMBRAPA. “Às vezes eu perdia até consulta [médica] para atender
a faculdade. (...) Até sábado, domingo, eu estava em casa, às vezes
almoçando, e a segurança ia me buscar pra enterrar animal”, afirma
Luiz, sem rancores. E, além da grande quantidade de serviços solicitados, havia
a preocupação com os riscos de se operar uma máquina dessas. Nos
33 anos que esteve na Universidade, Luiz sofreu três acidentes sem
muita gravidade. “Agora susto eu passei bastante. Muito perigosa
a ferramenta com que eu trabalhava. (...) Eu trabalhava com muito
cuidado pra não acidentar ninguém”.
Mas a história deste cearense também possui passagens curiosas.
O operador de máquinas já teve os seus dias de professor, quando era
chamado para explicar o funcionamento da retroescavadeira para
alunos dos cursos de agrárias. E até uma ponta em uma peça de teatro
ele fez! Foi em 2000, no projeto Città Invisibili (Cidades Invisíveis),
do Teatro Potlach da Itália, com participação de atores italianos e
brasileiros e direção de Pino Di Buduo. Hoje, casado e com os três filhos morando por perto, Luiz não
sente falta do trabalho que fazia na UEL, mas não se esquece dos amigos
e da sua segunda casa durante 33 anos, a Prefeitura do Campus. “Eu
sinto falta do pessoal e da terra, daqui do meu lugar. De vez em quando
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
217
eu venho aqui que eu tenho saudade. (...) Graças a Deus quando eu
venho aqui eu sou bem recebido por eles, os colegas de serviço”. E a ordem agora é aproveitar a aposentadoria e a recompensa
por todos estes anos de dedicação à Universidade. “Eu não tenho nem
vontade de trabalhar mais (...). Se eu ganhasse o salário mínimo que
eles pagam aqui eu era obrigado a trabalhar, mas graças a Deus eu
ganho um salário bom de viver, por isso que eu não trabalho”, explica
satisfeito.
Antes de encerrar a entrevista, Luiz deixa claro o desejo de que
as pessoas leiam este texto e vejam o que ele fez durante os anos de
trabalho na UEL, nas palavras dele, um dos melhores lugares onde
encontrou emprego. Buscamos então registrar da melhor maneira
possível este perfil, mostrando que a Universidade Estadual de
Londrina foi construída com o esforço de milhares de homens e
mulheres, principalmente daqueles que abriram espaço no campus
para que esta história começasse.
Rosane Mioto
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
218
Até a compulsória
No Departamento de Administração, o professor já aposentado Luiz
Antônio Felix pretende lecionar até ser afastado ao completar 70 anos
O professor de Administração da
Universidade Estadual de Londrina Luiz
Antônio Felix aposentou-se e ficou “parado”
por somente um mês. Então, voltou à UEL
como concursado. Agora, ele tem até 2012
para trabalhar antes de fazer 70 anos e ser
aposentado compulsoriamente.
A vida de Felix foi marcada pelo ensino. Sua
mãe, filha de imigrantes italianos, era uma
professora formada na Itália que dava aulas aos filhos, controlava os
seus estudos diários, além de impor-lhes trabalhos manuais e estudo
de música. “Na época a gente achava que nossa mãe era durona”,
lembra o professor que reconhece a importância da educação que teve
e a compara com padrões europeus.
Acompanhando o pai – cafeicultor –, Felix, que nasceu em Lavínia
(SP), e família vieram para o Paraná em 1946. Depois de três anos em
Assaí, mudaram-se para Londrina pela primeira vez, mas em dois anos
o pai abriu uma empresa de exportação de café em Curitiba e todos o
seguiram. Naquele ano, uma grande geada prejudicou cafeicultores e
a família passou o ano seguinte em São Paulo morando com os avós.
Depois da estada em São Paulo, voltaram para Londrina.
Na cidade, Felix estudou no Ginásio Diocesano Nossa Senhora
de Fátima, atrás do Hospital Evangélico, e fez o colegial no Colégio
Estadual de Londrina. Como a vontade dele era ingressar na Academia
Militar das Agulhas Negras (Aman), em 1962 Felix voltou para o estado
de São Paulo para servir o exército.
Felix não entrou para a Aman e trabalhou com seu pai até o
falecimento dele. Como sua mãe também morreu quando ele ainda era
jovem, começou a pesar sobre o irmão mais velho a obrigação de cuidar
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
219
dos mais novos. Ele então começou a trabalhar como caixa na loja de
departamentos Irmãos Fuganti.
Quando a empresa municipal de telefonia - a Sercomtel - começou
a funcionar, Felix ingressou na mesma função que exercia na Irmãos
Fuganti. Ele lembra que foi o primeiro funcionário a ser contratado pela
empresa e saiu em 1976 da Sercomtel, como Diretor Administrativo.
Felix também trabalhou em empresas como Cipare – do grupo
Cacique – como divulgador da técnica de inseminação artificial; como
gerente comercial na empresa Londrimalhas; e na Companhia Multiindustrial de Cilos Metálicos.
Em 1964, ele ingressou na Faculdade Estadual de Direito
de Londrina e se formou quatro anos mais tarde. O envolvimento
com o trabalho na Sercomtel o impediu de começar a advogar e,
em 1974, Felix sentiu a necessidade de cursar Administração na já
existente Universidade Estadual de Londrina. Na pós-graduação em
Administração e Gerência, o aluno saiu-se tão bem que foi convidado
para substituir um professor na UEL.
A carreira universitária do professor começou com 12 horas
semanais e aumentou até setembro de 1981, quando Felix assumiu
período integral na Universidade. Mas lecionar não foi uma grande
novidade para o professor que já dera cursos internos na Sercomtel e
lecionava como suplementarista Educação Moral e Cívica.
A facilidade em comunicar-se ajudou Felix a conquistar a vaga
na UEL e a definir o seu perfil como professor. “Eu não tenho perfil de
pesquisador, sou mais professor de sala de aula”, destaca. Ele acredita
que o aluno precisa, primeiramente, se interessar pela matéria, porque,
quando ela é motivadora para o aluno, os estudos avançam. Assim, diz
que o saber transformar o conteúdo em algo interessante é o segredo
do professor.
Em 1984 o professor começou o mestrado na Universidade
de São Paulo (USP), lugar em que fez descobertas em meio a um
convívio acadêmico forte. A presença de jovens talentosos e a vivência
naquele clima levaram o professor a concluir que, “o Brasil ainda tem
esperança”. Outras oportunidades – como viagens de negócios pelo Brasil e
países da América Latina e até um intercâmbio de estudo de 60 dias nos
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
220
Estados Unidos por meio do Rotary – permitiram que ele construísse
uma visão mais ampla do Brasil e do mundo.
Depois de voltar do mestrado, Felix assumiu a Coordenadoria
de Recursos Humanos (PRORH) a convite do quinto reitor da
Universidade, Jorge Bounassar Filho. A administração (1986–1990)
vivia um período marcante: a redemocratização da UEL após o longo
período de Ditadura Militar. No ano de 1995 passou por outro cargo
administrativo, como Chefe de Gabinete do reitor Jackson Proença
Testa.
Felix aposentou-se no ano de 1996 e chegou a pensar em começar
a advogar ou trabalhar como corretor de imóveis, mas logo prestou
concurso e voltou a dar aulas no Departamento de Administração.
Assim que retornou, começou o doutorado, também na USP, desta vez
mais acostumado com as novidades do ambiente.
O professor, que deu aulas em outras faculdades como Faccar,
Unifil e Metropolitana (hoje Pitágoras), coordena a pós-graduação em
Marketing da UEL e leciona também para o curso de Mestrado em
Administração. A preparação das aulas é o estudo de Felix.
Com toda experiência que tem, Felix acredita que a administração
é possível para qualquer pessoa. “A administração é arte e técnica”,
afirma, “a técnica pode ser aprendida.” Mas o professor não menospreza
a inclinação pessoal (mais conhecida como dom), aquela mesma que o
fez começar a lecionar e não conseguir ficar sem as salas de aula.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
221
Entre os versos e as rimas, a crítica social
Luiz de Melo Santos transformou suas inquietações em versos e
suas críticas em literatura de cordel
Luiz de Melo Santos sempre se interessou
pelo estudo das relações raciais no Brasil.
“Isso desde quando eu me entendo por
gente. Sempre fui curioso em procurar as
causas da desigualdade e as saídas”. Luiz
nasceu em Sergipe, morou em Salvador e
no Rio de Janeiro. Era um excelente aluno,
mas resolveu não prestar vestibular quando
concluiu o científico. Optou por concursos
públicos. Foi bancário e telegráfico.
No entanto, quando foi para o Rio, a vontade de estudar foi novamente
despertada. Luiz escolheu Ciências Sociais. “Eu queria fazer esse curso
para entender os problemas da nossa sociedade e tentar colaborar
de alguma maneira para resolvê-los”. E a forma que Luiz encontrou
para contribuir foi lecionar. “Eu sempre achei que meu compromisso
primeiro era com as minhas origens”.
Assim que se formou, Luiz prestou concurso na Universidade
Federal de Sergipe e foi aprovado. “Eu lembro que a minha primeira
aula, em 1977, foi exatamente num Estado onde a porcentagem maior
da população é negra. Então, comecei discutindo as questões raciais.
E muitos ficaram com medo, indignados. Diziam que no Brasil não
existia preconceito”. Nas aulas ministradas por Luiz, a questão racial
era um assunto constante. É este também o tema que norteia toda a
sua produção.
Em 1983, Luiz estava morando no Rio de Janeiro e fazendo
mestrado em São Paulo, quando conheceu Romilda Aparecida Cardioli
dos Santos. Ela era professora da UEL. Dois anos depois eles se
casaram e vieram morar em Londrina: “Fui me encantando com essa
cidade”, afirma. No mesmo ano, Luiz começou a dar aulas na UEL.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
222
Lecionou para diferentes cursos, sempre promovendo discussões sobre
as questões raciais.
Além das aulas, Luiz tem outra maneira de expor seus
pensamentos e suscitar o debate. “Eu resolvi usar a poesia como
instrumento da minha angústia, das minhas reflexões sobre o negro
no Brasil”. Luiz é poeta desde a adolescência. Escreveu também sobre
outros assuntos e, a partir de 1987, sempre lançou livros. Foram mais
de 30 publicados entre cordel e poesia.
Quando lecionava a disciplina de cultura brasileira, Luiz, que
conhecia a técnica de cordel, resolveu mostrar aos seus alunos como
se fazia. “E aí o cordel saiu espontaneamente”. “Na minha origem
nordestina, cresci ouvindo literatura de cordel. Fui praticamente
alfabetizado lendo literatura de cordel. Claro que tinha alfabetização na
escola, mas a leitura, a convivência e os violeiros me ensinaram muito”.
O cordel de Luiz lhe rendeu certo prestígio no Brasil e até no
exterior. “Um antropólogo suíço se interessou e traduziu meu cordel, o
tema era Dengue. Também alguns estudiosos americanos e franceses
se interessaram”.
Luiz, que tanto discute os problemas sociais, acredita que já
ocorreram muitas mudanças. Hoje – acredita –, as pessoas não se
assustam quando são convidadas para debater a questão racial. “Os
movimentos negros estão mais organizados e mais atuantes. As ações
são mais concretas. Claro que não são suficientes, pelo contrário, são
medidas paliativas”. Para que haja uma verdadeira transformação,
Luiz – professor, escritor e poeta – é enfático: “Fundamental é investir
em educação”.
Luiz se aposentou em 1999. Durante alguns anos lecionou em
outra instituição de ensino superior. Depois decidiu aposentar-se de
vez. Não dos escritos e nem da música, que são suas grandes paixões.
Atualmente, ele faz aula de violão.
Léia Dias Sabóia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
223
Para uma comunicação diferenciada
Desde 1974 a professora Luzia Yamashita Deliberador trabalha
pelo curso de comunicação da UEL
Em 14 de agosto de 1974, Luzia
Yamashita Deliberador começou a
trabalhar na Universidade Estadual de
Londrina. A professora fazia mestrado
na Escola de Comunicação e Artes
(ECA) na Universidade de São Paulo
e, juntamente com o professor Rui
Fernando Barbosa, foi encarregada de
montar o curso de Comunicação Social
na UEL.
Luzia, nascida em Urai (PR), formou-se em Economia Doméstica
na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) em
Piracicaba (SP), mas durante o curso escrevia para um jornal em São
Paulo. Para o Mestrado em Comunicação teve que fazer nivelamento.
Doze disciplinas em um semestre.
Ela conta que os professores de disciplinas específicas da
Comunicação eram ela e Rui Barbosa. O curso começou no porão da
Unifil e depois passou pelo atual almoxarifado da UEL, pelos barracões
de madeira até chegar ao prédio do CECA.
Poliana Lisboa de Almeida
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Cidadão Honorário de Londrina
Manoel Barros de Azevedo - O professor que trabalhou em várias
instituições de ensino por cinquenta anos é aposentado da UEL e tem
título de honra da cidade
O sotaque não esconde. Manoel Barros de
Azevedo não é paranaense. Ele nasceu em
Santa Maria Madalena (RJ) eram doze irmãos
e trabalhavam em fazenda. Quando a família
converteu-se e passou a frequentar a Igreja
Batista, Manoel Azevedo admirou o pastor
Samuel Scheidegger.
Resolveu estudar para ser pastor também e foi
para o Colégio Americano Batista de Vitória,
no Espírito Santo, mantido por norte-americanos. O aluno era
considerado um pré-seminarista e trabalhava na própria instituição
em troca do estudo e alimentação. Foram oito anos e meio lá e, embora
houvesse desistido de ser pastor durante o percurso, deixaram que ele
permanecesse. A família se mudara para Ibiporã e quando ele deixou o Colégio
Americano Batista foi para Curitiba concluir o 3º ano do científico e
fazer a faculdade. Primeiro pensara em Medicina, mas começou a fazer
História Natural enquanto se preparava melhor. Acabou gostando do
curso, que incluía Biologia e Geologia.
Em 1953, logo após formar-se, foi convidado pelo professor
Zaqueu de Melo para trabalhar no Instituto Filadélfia em Londrina.
Também começou a dar aulas no Colégio Vicente Rijo, ainda no prédio
antigo. Na época da construção do novo prédio, Manoel de Azevedo
assumiu a diretoria do Vicente Rijo e ficou dividido entre os dois
prédios. Alguns alunos ainda estudavam no antigo, outros já estavam
no novo.
Em 1964, fez uma especialização de seis meses na Universidade
Federal do Paraná, a mesma em que se graduara. Era raro quem fazia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
225
mestrado ou doutorado. Em 1953, Azevedo recorda, quando chegou a
Londrina, apenas três ou quatro professores tinham o ensino superior.
O professor foi um dos fundadores da Faculdade Estadual
de Filosofia e Letras de Londrina e era professor titular do curso de
Geografia, onde deu aulas de Geologia. No Filadélfia lecionava no
ensino médio.
Durante o governo de Dalton Paranaguá (1969-1972) foi
secretário da Educação de Londrina. Azevedo conta que era uma se
época que Londrina só perdia para Goiânia em crescimento no país. O
professor lembra que as administrações, em sua maioria, construíam
casas, mas não construíam escolas. Os bairros todos cresciam, mas não
havia escola para toda a população.
No governo de José Richa (1973-1977), Manoel de Azevedo foi
vice-prefeito de Londrina. O professor lecionava na UEL, mas ficava
afastado durante mandatos políticos. Durante esta gestão, devido a
uma viagem do prefeito, Azevedo assumiu a prefeitura por 30 dias.
O professor voltou para a Universidade, dirigiu o Centro de
Ciências Biológicas e integrou a Assessoria de Planejamento e Controle,
na administração do reitor Oscar Alves. Em 1983 assumiu como viceprefeito da gestão Wilson Moreira (1983-1988) e atuou como secretário
de Educação novamente.
Em sua casa há muitos porta-retratos com fotos da família.
Ele, que conheceu a esposa durante a graduação, quando morava em
Curitiba, conta que escreveu para ela quando resolveu se casar. São
mais de cinquenta anos de casamento, três filhos e sete netos.
Dos filhos, um seguiu o caminho da política. Azevedo fala que o
filho gosta mesmo da área, mas que ele gostava mesmo de trabalhar
com a educação e que fazia isto com muito amor.
Em 1987 Manoel Barros de Azevedo aposentou-se da UEL e conta
que não ficou muito tempo parado. Após dois meses foi trabalhar como
diretor auxiliar da Unopar. Depois de pouco mais de um ano, assumiu
a diretoria do Centro de Ensino Superior de Londrina, Cesulon, agora
Unifil.
Manoel Azevedo lembra que foi bom trabalhar no Cesulon, pois
fôra lá que começara quando era recém-formado. O professor dirigiu a
instituição por 10 anos e parou em 2001. Ele, que costumava dar aulas
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
226
de Genética, diz que agora não pensa em dar aulas. “Foram muitos
anos longe da Biologia, agora cuido da minha esposa.”
Em 2002, o professor recebeu o título de Cidadão Honorário
conferido pela Câmara Municipal. A cidadania normalmente é dada
a pessoas que, como Manoel Azevedo, não são naturais da cidade
mas que trabalharam para destacar o nome dela. Além de uma placa
especial, a honra de servir Londrina.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
227
Manoel Palma
Possui 72 anos, nasceu em 1936 na cidade de Barra
Bonita, estado de São Paulo.
Chegou em Londrina aos 29 anos de idade.
Ingressou na UEL no ano de 1979, trabalhando
durante 20 anos como “Armador” na Prefeitura
do Campus. É casado, possui duas filhas e quatro
netos.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
228
Maria Bernardo da Costa Sem marido e com cinco filhos para
criar, Maria Bernardo da Costa
começou a trabalhar na UEL antes
mesmo do reconhecimento dela como
Universidade. Era abril de 1969 quando
a dona Maricota - como ficou conhecida
entre tantas outras Marias durante os
anos de trabalho - entrou no serviço de
auxiliar de serviços gerais do Centro de
Ciências Biológicas (CCB).
Logo nos primeiros dias, Maria, que
tinha sido criada para nem entrar em
cemitérios – “Diziam que se a gente
afundasse o pé no cemitério naquele ano mesmo a gente morria” –,
teve que aprender a conviver com os cadáveres da Anatomia. Ela era a encarregada de lavar os plásticos de proteção quando
eles estavam sujos. Esquentava a água em um fogão de lenha, colocava
os plásticos no chão e jogava a água em cima.
O medo foi superado pela necessidade do emprego. Mesmo
assim, Maricota lembra quando ficou sozinha em uma sala com uma
cabeça e saiu correndo de medo. Também chegou a confundir uma
estátua preta de Paulo Pimentel com um cadáver, achando que algum
morto tinha se levantado.
Na Universidade, Maria só foi transferida uma vez, dentro do
CCB mesmo. Foi trabalhar na Biblioteca, Secretaria e ser a responsável
pelo café. Só na Reitoria não chegava o café de dona Maricota. Quando
tinha vestibular, conta, era ela quem preparava o café e o lanche de
quem trabalhava.
Quando saía para o trabalho, os filhos mais velhos cuidavam dos
mais novos. Os filhos foram crescendo e Maria conseguiu ter três filhas
empregadas também na UEL, no Colégio de Aplicação, no CEFE e na
Biblioteca.
A aposentadoria veio em 1992, depois de 23 anos de serviço e
muita caminhada. Isto porque, com uma turma de mulheres, Maria
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
229
vinha a pé para o serviço todos os dias. Ela conta que tomou muita
chuva neste caminho e que não foram poucas as vezes em que a roupa
molhada teve que secar no corpo. Apesar da ajuda da Universidade na criação de seus filhos, dos
amigos e das coisas boas que viveu, na época da aposentadoria, Maria
estava muito cansada e achou que parar era o melhor a fazer. Maricota
ainda trabalhou alguns anos na Biblioteca Pública Municipal depois da
aposentadoria.
Os seis filhos (os cinco naturais e uma adotiva) de Maria só
fizeram a família crescer. Agora são 12 netos e sete bisnetos. “Eu sou
muito feliz com a minha família, que é linda”, diz, tranquila, depois de
tantas batalhas.
Maria, ou dona Maricota, é uma pessoa que gosta da UEL. E fez
questão que este carinho ficasse registrado: “Amei a Universidade, amei
as pessoas que viviam comigo e respeitei todos para ser respeitada, e
eu fui”.
A única tristeza da funcionária é de não ter o SAS (Sistema de
Atendimento à Saúde), de funcionários estaduais. Tudo isto porque ela
era uma servidora celetista (regida pelas normas da CLT – Consolidação
das Leis do Trabalho). Até 1992, os funcionários da UEL eram celetistas.
Contribuíam para o INSS e tinham fundo de garantia, por exemplo.
Em dezembro do mesmo ano, um mês depois da aposentadoria de
Maria, os funcionários da Universidade passaram a ser estatutários –
funcionários do Estado do Paraná.
Com a mudança, os servidores da UEL, além do atendimento no
antigo NUBEC (atual SEBEC), começaram a contar com os sistemas de
saúde destinados aos funcionários estaduais, como o SAS (posterior ao
IPE).
Atendida pelo SUS (Sistema Único de Saúde), Maria ainda volta
para a Universidade de vez em quando. No Hospital das Clínicas tem
a oportunidade de reconhecer muitos ex-alunos que passaram pelo
CCB enquanto ainda estava “na ativa”. “Eu via aqueles estudantes de
Medicina e pensava que eles não me atenderiam porque eu já estava
muito velha. E não é que estão me atendendo?”, brinca.
Poliana Liboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
230
Plantões no HU deixaram boas histórias
Aposentada há cinco anos, Maria Castro Silveira aproveita os
filhos e o tempo livre
O registro de nascimento prova que ela
é paraibana, mas, na verdade, Maria
Castro Silveira é paranaense. A família
veio para Londrina com Maria ainda
muito menina. “Eu tinha uns dois
ou três anos. Minha mãe não lembra
direito. Não lembro nada, nada da
Paraíba”.
Entretanto, se faltam as lembranças da
Paraíba, sobram as de Londrina, cidade que a família escolheu para
“se instalar”, como diz Maria. “Eu lembro muito da Catedral, era de
madeira. Tinha muito mato”, conta. Aqui a primeira residência da
família foi na Vila Brasil. “Era bem diferente. Tinha pouco asfalto. Nós
morávamos perto de uma chácara, lá descia os aviões. Tinha caqui,
muitas frutas”, conta, relembrando a infância. E continua: “Depois
fomos morar num sítio. Agora não é mais sítio, é um lugar para lá do
Hospital Universitário, bem para lá. Tinha um matadouro. E quando
estávamos indo para a escola, às vezes, os bois ‘estouravam’, nós
corríamos para toda banda. Nos escondíamos embaixo dos pés de cafés
e até rasgava o uniforme da escola”.
Maria, enquanto relata esses momentos, parece realmente
revivê-los. Fala com saudade do tempo de infância. Mostra que
aproveitou muito essa fase. “Eu não era arteira. Claro que santinha eu
não era, tinha a parte das artes também”, revela, sorrindo. Não estudou
muito: “Só até o quarto ano; hoje, seria só o primário”. Passou por uma
experiência muito difícil que a obrigou a parar com tudo, conta. “Tem
coisas que é melhor nem lembrar”, afirma, com tristeza.
Maria conseguiu o primeiro emprego na casa de uma família. Ela
não lembra quantos anos tinha. A memória não ajuda e, às vezes, pede
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
231
auxílio à filha ou às próprias anotações que faz em um caderno. Logo
depois trabalhou em uma fábrica de móveis, por três anos. “Naquele
tempo foi uma ótima experiência, para quem só tinha trabalhado como
doméstica. Pra mim foi realizado um sonho”. E faz questão de ressaltar:
“Esse sonho só se realizou por causa da minha vó. Eu morava com ela,
que me criou. Ela me ajudou em muita coisa. E esse serviço foi ela que
arrumou”.
A fábrica foi fechada e Maria ficou sem emprego. Não por muito
tempo. A avó trabalhava como zeladora em uma escola de Londrina,
ficou doente e Maria assumiu o trabalho por um ano. “Mas era sem
registro. O governo não registrava, não sei porquê”. Depois trabalhou
mais um tempo em casa de família.
Nesse intervalo, a casa da avó foi alugada. “Morou uma japonesa
que era enfermeira no sanatório. Ela arrumou um trabalho lá para
mim”.
Assim começa a história de Maria com a Universidade. No ano
de 1975, quatro anos após ser inaugurado, o Hospital Universitário
foi transferido para as instalações do Sanatório Noel Nutels, segundo
o Portal Web HU. Maria lembra que o HU era no centro, na Rua
Pernambuco. “Foi numa época em que deu um surto de meningite.
Eles mandavam os pacientes para lá, que era o único lugar que tinha
vaga. Acho que eles gostaram do ambiente e ficaram lá”.
Com a transferência houve muitas mudanças. “Antes do HU,
lá era um sossego. Eram poucos funcionários e menos pacientes”.
Maria continuou exercendo a sua função de copeira, mas passou a ser
funcionária da Universidade Estadual de Londrina.
Trabalhou muito, muitos plantões. “Eu não vi meus filhos
crescer”, lamenta. Porém, o que ela não pôde aproveitar da infância, ela
compensa hoje. Os filhos já são adultos, mas para ela vão ser sempre
crianças. O filho se formou pela UEL. Quando ele cursava Educação
Física ganhou uma bolsa para estudar em Cuba, conta a mãe, orgulhosa.
A filha também trabalha e a auxilia nos afazeres domésticos.
Como copeira Maria trabalhou todo o tempo em contato direto
com os pacientes. “Os pacientes, às vezes, acham que a gente é
enfermeira. Mas, nosso trabalho é só com a comida mesmo”. Ela se
emocionava com as crianças, no setor de Pediatria: “Adulto sabe o que
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
232
está acontecendo. E a criança? Às vezes, quando eles estavam de jejum
e escutavam o barulho do carrinho sabiam que era almoço e choravam
atrás da gente. Mas, a gente não podia dar”.
Os adultos também aprontavam. “A comida depende da dieta, às
vezes, eles pegam a comida do outro e comem, sendo que não podia.
Tem a quantidade certa, a comida certa. E algumas vezes, eles faziam
isso e nós levávamos broncas. Mas, não é. Às vezes, um paciente vê que
o outro ainda está com fome e dá a comida dele”.
Mas, tudo isso ficou na lembrança. Maria está aproveitando a
aposentadoria: “Você levanta mais à vontade. Tem mais tempo. Não
tem correria”. Satisfeita, diz que não tem o que reclamar da UEL: “Eu
fiz minha casa, tenho as minhas coisas, graças ao meu trabalho na
UEL”.
Léia Dias Sabóia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
233
Paixão no Museu
Enquanto aluna, Maria Darci Moura Lombardi já se aventurava
no Museu Histórico, que seria seu local de trabalho por 30 anos na
UEL
Em 1976, quando Maria Darci Moura
Lombardi foi trabalhar no Museu Histórico
da UEL, ela já sabia o que queria. Na
verdade a sua paixão pelo Museu começou
nos primeiros anos do curso de História na
Universidade. Enquanto aluna, Darci não
saía do Museu; ela gostava de ajudar nas
exposições, no arquivo (hoje no CDPH,
Centro de Documentação e Pesquisa
Histórica) e no que precisasse.
O curso de História, assim como o museu,
era no Colégio Hugo Simas. Algumas aulas
eram no Colégio Aplicação. Da faculdade, a aluna lembra os professores
bons que ajudaram na sua formação. Ela acredita que foi a melhor
época do curso de História. Darci ainda estava no último ano da faculdade quando passou no
concurso da UEL e foi trabalhar na APC (Assessoria de Planejamento e
Controle), com os funcionários do alto escalão.
Apesar de estar aprendendo muito, a vontade de trabalhar no
Museu já tinha levado a funcionária a fazer, por exemplo, um curso em
Curitiba. O ano ela não esquece, 1975, nos dias em que nevou na capital
paranaense. “Lá nos ensinaram a tratar o objeto como gente”, conta.
A transferência para o museu aconteceu ainda em 1976. E foi
com muito amor que ela passou 30 anos em seu trabalho. “Eu estudei
para entrar no Museu. Casei, tive filhos, mas nunca saí daqui.” Darci conta das vezes em que os funcionários pagavam a papelaria
com seus cheques pessoais para montarem uma exposição e depois de
um mês a Universidade ressarcia.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
234
Foram muitas exposições nas salas do Museu. Darci lembra de
algumas, como de quando colocaram um avião teco-teco na sala; as
fantasias do Rei-Momo do carnaval de Londrina, Dinho, que foram
doadas ao Museu após sua morte; a do povo que fez e que faz, sobre
as pessoas que vieram para a cidade de diversas regiões do Brasil e do
mundo.
A funcionária conta que para lidar com o público da cidade
é preciso estar preparado. Segundo ela, os londrinenses são muito
exigentes. Talvez por isto Darci, que diz ser curiosa desde pequena, goste
tanto do museu e de agradar o público de Londrina. Uma funcionária
que consegue enxergar a sensibilidade das pessoas na exposição.
Ela diz que os cuidados da instituição com os objetos também
refletem em uma maior confiança da população. “Primeiro, esta pessoa
queria guardar o objeto, e quando vê que o museu é de confiança, doa”,
conta.
O Museu Histórico de Londrina e região é considerado um museu
grande. Darci ressalta a importância da população e da Universidade
em se preocupar e guardar a memória dos que vieram para cá.
Darci, sempre defensora do Museu, lembra que para trabalhar
lá é preciso gostar e ter muita seriedade. Também vai contra aqueles
que esperam cheiro de coisas velhas vindo de lá: “Se há cheiro, vai ter
bicho. Aí não tem objetos”.
A aposentadoria, em 2006, conta Darci, foi muito triste, mas
ela aceitou. Agora a funcionária faz artesanato para passar o tempo.
“Minha cabeça não para, não sei ficar parada”, diz.
Na tarde de visita ao Museu, a funcionária relembra: “A maioria
destas peças eu limpei”, e ainda elege as suas preferidas, um santuário
japonês, uma palmatória (pelo processo da doação) e as fantasias de
Dinho, o Rei-Momo.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
235
Maria de Lurdes Mosseli
Eu morava no Jardim Tókio e uma vizinha
disse que precisava de pessoas para trabalhar
na UEL. Aí me inscrevi. Deixei o número do
telefone da minha cunhada. No dia 01/05/74,
recebi um recado que passei no concurso e que
era para ir na UEL para trabalhar. Passei em 22º
lugar. Fui na UEL no dia 03 de maio e já fiquei
trabalhando. Sei que trabalhei 32 anos e sete
meses. Quando comecei, trabalhei no CCH e fiquei lá por 2 anos e meio.
O meu marido me levava e me buscava, porque eu saia de casa de
madrugada, pois não tinha outra companhia para vir. Depois comecei
a fazer amizade e começamos a vir juntos, sempre a pé. No final de 1976 estavam precisando de pessoas para trabalhar
na CAF e eu e mais uma amiga fomos emprestadas e eu fiquei por mais
de 30 anos.
Gostava muito de saber da vida de todos. Quando entrava um
funcionário novo, os outros colegas que trabalhavam comigo, falavam
“Oh Lurdes, vai levantar a ficha dela”. Gostava muito de brincar com
todos, dizia “toma preceito de homem velho; ou, você acha bom ou
não?”. Sempre mexia com todos. Sempre brincalhona, tratava todos
com muito carinho. “Quando estava trabalhando na UEL, o tempo
voava”.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
236
Aposentada, mas não tanto
Para Maria Elvira Alves Nunes Londrina seria muito diferente
sem a Universidade, a começar pelo desenvolvimento
A história de Maria Elvira Alves Nunes tem
muito em comum com a história da UEL. Seu
crescimento profissional, acadêmico e pessoal foi
paralelo ao desenvolvimento da Universidade.
Elvira, como é chamada, nasceu no interior de
São Paulo. Mas, aos sete anos mudou-se com a
família para o Paraná. “Era início dos anos 1960,
a fase áurea do café. Meu pai decidiu morar
aqui”. A família morava em Cambé, mas Elvira
sentia-se londrinense: “Tinha uma forte ligação com Londrina. Estudei
no Colégio Vicente Rijo e as minhas atividades eram praticamente
todas aqui”.
Assim que Elvira concluiu o 2º grau, prestou vestibular para
Ciências Econômicas, na UEL. Foi aprovada. Ela planejava seguir
a carreira bancária. “Naquela época quem não tinha vocação para o
magistério, pensava logo em trabalhar nos bancos”. Mas, antes de
tentar conquistar uma vaga em algum banco, ela prestou o concurso
da UEL. É dessa forma que a história de Elvira se encontra com a da
Universidade.
Em janeiro de 1975, ela começou a cursar Ciências Econômicas
e, em agosto desse mesmo ano, iniciou suas atividades na função
de escriturária. Foi seu primeiro emprego e, até o ano de 2000, o
único. Essas não são as únicas peculiaridades dessa relação. Elvira
também trabalhou sempre no mesmo local. “Quando comecei era
CAE (Coordenadoria de Assuntos de Ensino de Graduação). Hoje é a
PROGRAD. Convivi com todos os pró-reitores de graduação”. Foram
aproximadamente 30 anos no mesmo cargo.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
237
Ela conta que teve uma ascensão rápida. Entrou como
escriturária, dois anos depois participou de um concurso interno e foi
promovida para oficial de administração. E, em 1979, passou para chefe
de divisão – cargo de confiança – em que esteve até a aposentadoria. As
promoções, segundo Elvira, se devem a sua dedicação: “Vesti a camisa.
Naquela época existia um caráter de pioneirismo”. A Universidade
estava se expandindo, criando novos cursos. “E a parte administrativa
também estava se consolidando”, afirma.
Ela faz questão de ressaltar que permaneceu por muitos anos no
cargo de confiança, mas que em todas as mudanças de administração
ela o colocava à disposição. “O que eu fazia era muito específico. Exigia
dinamismo. Não que outra pessoa não pudesse fazer, mas ia demorar
até que aprendesse”. Elvira conta que houve uma situação em que um
grupo pediu ao pró-reitor para que a tirasse do cargo. “Mas, ele disse
em reunião que não podia fazer isso, porque eu era fundamental para
o andamento das coisas”, relata, reforçando que era pelo trabalho
específico que realizava.
Elvira acompanhou um momento importante na Universidade:
as mudanças tecnológicas. Logo que começou a trabalhar na UEL, era o
início da informática. O serviço era parte terceirizado e parte realizado
por um computador chamado 3090. Antes as notas e a frequência eram
lançadas em fichas individuais. “Rede de computadores não existia,
era máquina de escrever, umas eram elétricas”, lembra Elvira. Com
poucos recursos à disposição, as informações demoravam a chegar.
“Nós ficávamos sabendo das mudanças na legislação, por exemplo,
com semanas ou meses de atraso”. O ritmo de trabalho era lento. E a
demora causava insatisfações nos alunos. “Um histórico escolar levava
umas três semanas ou mais para ficar pronto”.
Assim que terminou Ciências Econômicas, Elvira cursou Ciências
Sociais também na UEL. Nunca exerceu. Ela revela que gosta de analisar
a política e desejava entender mais sobre o assunto. “Fiz mais por
conhecimento próprio, queria compreender os mecanismos políticos”.
Também fez especialização na UNIFIL. “Hoje na UEL tem o plano de
cargo e carreira que é um incentivo para o funcionário. Mas, naquela
época, não. Para ter ascensão tinha que sair da carreira administrativa
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
238
e entrar para a docência, senão os cursos de especialização nem valiam
a pena”. Elvira se aposentou há alguns meses. Desde 2000, ela trabalhava
na UEL e em outra instituição de ensino superior. Agora só reduziu a
carga horária. “Ainda me sinto muito produtiva, a aposentadoria não
trouxe grandes mudanças, só estou trabalhando menos“.
Apesar de ter trabalhado muito e afirmar que deu à Universidade
toda a sua juventude, quando trabalhava até muito tarde e, às vezes,
nos fins de semana, Elvira não reclamava. Pelo contrário, se orgulha:
“Tenho a UEL com muito carinho. Devo a ela toda a minha formação.
Acompanhei e ajudei a construir a UEL”.
Léia Dias Sabóia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
239
Maria Helena Kley Vazzi
Filha de pioneiros, Maria Helena Kley só
poderia ser uma apaixonada por Londrina.
“Meus pais vieram em 1943-1944. Nasci aqui
e nunca quis sair”, afirma. Seu pai é uma
referência quando o assunto é radio e televisão:
“Ele é um exemplo muito bonito”. Aimoré Kley
foi precursor de programas de auditórios e de
músicas sertanejas. Maria Helena conta que
trabalhou com o pai por algum tempo, como
secretária, para ajudá-lo. A sua vocação era
outra, formou-se em Odontologia.
Um endereço famoso também merece o mesmo carinho dedicado
a cidade: “No Counp (Centro Odontológico Universitário do Norte do
Paraná) estudei e trabalhei por 32 anos. Na verdade, durante a minha
vida eu só saí desse prédio por quatro anos, três para o magistério e um
para o cursinho”.
Quando Maria Helena se formou, optou por não seguir a
carreira acadêmica. “Eu teria que sair de Londrina. Eu me casei no
terceiro ano do curso, e não podia deixar os filhos e o esposo. Preferi
ser mãe”. Tempos depois foi implantado um Mestrado em Histologia
(estuda a estrutura microscópia, composição e função dos tecidos dos
seres vivos). No entanto, não despertou o interesse de Maria Helena:
“Naquela época o título não valia muita coisa. Não era um diferencial,
a não ser o título”, explica.
O terceiro ano de faculdade foi muito importante para ela. Além
de ter se casado, foi durante esse ano que conheceu o professor Waldir
Edgard Carnio, que lecionava a disciplina de Periodontia. Nome a que
ela se refere com muita ternura: “Ele era meu irmão, eu era irmã dele,
meu pai, meu filho”. E Maria Helena era aplicada: “Sempre ia bem
na matéria de Periodontia”. Ela conta que o professor Waldir, chefe
de colegiado, a colocou como representante discente. Era o início de
uma relação que perdurou por 35 anos. “Todos esses anos de trabalho
juntos, sem haver nunca uma rusga”.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
240
Quando estava no quarto ano, ela foi convidada a conhecer o
consultório do professor Waldir. “Quando cheguei tinha uma paciente
esperando e ele me disse para eu atendê-la, porque era só para fixar
uma peça”, relembra. E a visita foi adiada, com a promessa de que no
dia seguinte ele mostraria o consultório.
Porém, no dia seguinte a mesma situação: “Tinha uma governanta
com dor de dente, e ele pediu para que eu atendesse”. O professor Waldir também contribuiu para o ingresso e início da
vida profissional de Maria Helena na UEL. “Quando me formei, ele me
levou para a Universidade, para fazer estágio. Trabalhei como docente
– contratação temporária – depois prestei o concurso e continuei lá”.
Desde a conclusão do curso, Maria Helena trabalhou com o professor
na UEL e no consultório particular. Isso até o ano passado, quando, aos
80 anos, o professor e amigo faleceu.
Maria Helena, mesmo aposentada da Universidade, continuava
trabalhando no consultório. Ela conta que aos poucos foi desacelarando
o ritmo e já está atendendo os últimos pacientes. Assim, vai sobrar mais
tempo para cuidar do neto, recém-nascido: “Ser vovó foi um privilégio
que Deus me deu”. E pretende investir em uma nova empreitada. Agora
ela é sócia da filha num estúdio infantil. Maria Helena terá a função de
cuidar do neto e da organização e burocracias da nova atividade.
O recém-chegado ainda não sabe, mais tem uma vovó moderna:
“Eu não sou daquele saudosismo, que fala ‘no meu tempo’... Eu adoro
ter microondas, gosto de computador”. Sobre o momento que vive
hoje, Maria Helena define: “Estou em lua-de- mel comigo”.
Léia Dias Sabóia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
241
Na Comissão de Seleção
A funcionária Maria Luiza Baccarin trabalhou desde formada até
a aposentadoria na Universidade, a maior parte deles na organização
dos vestibulares
Maria Luiza Baccarin formou-se na
primeira turma do curso de Educação Física
da Universidade Estadual de Londrina.
Em 1972 ela entrara na faculdade e após
três anos alternando aulas teóricas no
Colégio de Aplicação, práticas no campo de
futebol da Vila Santa Terezinha – algumas
com instruções teóricas nos banheiros do
campo – e, apenas no final, no campus,
Baccarin se graduara. Mas ainda não tinha
o diploma reconhecido.
A solução foi prestar alguns concursos
e começar a trabalhar logo. O primeiro que Maria Luiza passou, de um
banco, exigia dela mudar-se da cidade. Ela nascera aqui. O segundo,
logo em seguida era da UEL. E assim, começou a trabalhar, dia 1° de
julho de 1976, na prefeitura do campus como auxiliar de secretaria.
Depois passou a ser uma Diretoria onde Maria Luiza foi chefe de
uma divisão. Mas a carreira dela dentro da Universidade ficou marcada
quando, em abril de 1979 foi criada a Copese, a Comissão Permanente
de Seleção. Maria Luiza foi a primeira funcionária da Comissão, que
era vinculada à CAE – atual Pró-Reitoria de Graduação – e responsável
pelos processos seletivos, os vestibulares. Naquela época, e até a saída
dela, em 2003, quando a Comissão passou a ser a Coordenadoria
de Processos Seletivos, COPS, as provas não eram elaboradas pela
Universidade.
“Como os alunos eram poucos no começo a CAE mesmo
que organizava a seleção. A Fundação Carlos Chagas, que era uma
instituição muito respeitável de São Paulo, que elaborava as provas e
nós só aplicávamos”, conta a funcionária. Com a mudança da Copese para COPS o órgão ainda teve
alguns vestibulares vindos da Universidade Federal do Paraná para se
estruturar. Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
242
A funcionária conta que a Copese funcionava com três a quatro
funcionários o ano todo, e que na época dos vestibulares, a maior parte
dos anos teve dois vestibulares por ano, eram chamados alunos para
colaborarem. “A gente chegou a ter 2.200 pessoas para cuidar de até
vinte e cinco mil candidatos.”
Antes de a Internet ajudar no processo da inscrição, Maria
Luiza lembra que elas costumavam ser feitas pessoalmente. Não era
comum voltar para a casa antes das dez horas da noite naqueles dias,
“os funcionários da CAE ajudavam muito a gente, antes era no próprio
balcão da CAE, depois começamos a fazer as inscrições no Pinicão, lá
no Centro de Ciências Biológicas. Era muita gente, muita inscrição,
muito trabalho, mas também muita realização pessoal.”
A funcionária destaca, que como o órgão era responsável apenas
pela execução da prova, tratava de fazê-la bem feita. “A estrutura de
segurança era muito grande e isto tinha repercussão nacional”. Maria
Luiza Baccarin acredita a segurança durante as provas, a exposição da
classificação assim que foi permitido, tudo foi responsável por criar
uma cultura de “aqui não” é possível fraudar o resultado do vestibular.
Depois de passar tanto tempo cuidando de dois vestibulares
por ano, quando “tirar umas férias era quase impossível, nós nem
acabávamos um vestibular e começávamos outro”, a funcionária da
Universidade conta que teve que se preparar para a aposentadoria, em
2003.
“Eu saí muito cansada da Universidade, e outros precisavam
entrar. Eu me preparei para poder sair, e eu aconselho a todos saber o
que é ter outras atividades. Eu não parei um minuto, e só tenho alegrias
em dizer que saí da UEL”.
Cinco anos longe da UEL e Maria Luiza Baccarin já estudou
Teologia na Universidade dos Ministérios da Arquidiocese de Londrina
e agora faz um curso de extensão na Pontifícia Universidade Católica
de Londrina. Além das lembranças e de todo o currículo que levou da
Universidade, ela falou dos amigos que fez. Os relacionamentos que
realmente importam, como Baccarin avisa, foram poucos, mas estes
estão enraizados. “Este sábado mesmo estava com eles!”
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
243
Colona e funcionária
Maria Pontes de Oliveira, zeladora do CCB, tinha contato com o
campus quando ele ainda era a Fazenda Santana
Maria Pontes de Oliveira era uma das
colonas da Fazenda Santana, da família
Gonzaga. A fazenda foi transformada
em campus universitário e aos poucos o
cafezal foi removido. A região do Centro
de Educação Física e Esporte foi uma das
últimas a perder seus pés de café.
Ela morava perto da Universidade, onde
hoje é o Portal de Versailles. A casa era
dos patrões e, mesmo com o surgimento
da UEL, ficou lá até 1996.
A cunhada começou a trabalhar no campus. Maria veio também,
preencheu uma ficha e diz que, simples assim, começou a trabalhar
como auxiliar de serviços gerais. Mas depois de 20 anos a despedida
foi difícil, e fez a funcionária sair chorando. O marido também ficou na
Universidade até a aposentadoria como tratorista, depois de 35 anos
de serviço. Quando ela começou a trabalhar no Centro de Ciências
Biológicas, não tinha asfalto nas ruas internas e era preciso limpar a
terra que invadia as salas. Mas o importante para a funcionária era
estar empregada.
Nesse início ela passou um ano trabalhando na
morfologia. Era preciso limpar as salas onde os cadáveres ficavam.
Mesmo eles estando cobertos ela lembra que sua companheira tinha
um pouco de receio de ficar na sala.
Durante estes 20 anos de CCB, Maria diz que conhecia o Centro
como se ele fosse a sua casa. Chegava lá às 6h10, pois vinha rápido de
casa, limpava o “piniquinho” e antes da aposentadoria passou a ficar
na cozinha.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
244
Ela lembra que ria muito com as amigas e que trabalhava com
pessoas muito boas, colegas, professores e diretores de Centro. Maria
se recorda também de quando uma chuva forte inundou as salas de
aula e tiveram que ficar até tarde da noite limpando.
A funcionária tem cinco filhos, dois deles enfermeiros formados
na UEL. Durante o curso do filho, ela diz que era bom vê-lo todos os
dias no CCB. Maria aposentou-se em 1995 e diz que foi difícil deixar a
UEL. Agora ela cuida de uma das seis netas e da casa, onde gosta de
cozinhar, bordar e costurar um pouco.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
245
Era política brasileira
Maria Regina Clivati Capelo, professora do Departamento de
Ciências Sociais, teve que ir atrás da habilitação em outras disciplinas
para que a política não a deixasse de lado
Estudo de Problemas Brasileiros, EPB. Na
década de 1980, a disciplina imposta pelo
governo militar a todos os alunos de ensino
superior e com discussões orientadas pela
Escola Superior de Guerra não era uma das
mais populares na UEL. E foi esta disciplina
que a professora Maria Regina Clivati Capelo
começou a lecionar na Universidade.
Maria Regina é filha de pioneiros da cidade e
nasceu em um sítio entre a Warta e o Heimtal. “No sítio as famílias
eram grandes e meu pai veio para a cidade para acolher os primos que
precisassem estudar”, lembra.
Ela estudou no Colégio Vicente Rijo, o ginásio foi no prédio antigo,
e o ensino médio, no novo. Maria Regina conta que as aulas eram de
manhã, e de tarde tinha que voltar para a prática de Educação Física.
O uniforme era todo branco e todos se sujavam muito. As maiores
lembranças são dos professores, muito exigentes no curso clássico.
Tanto que, conta a professora, o francês que aprendeu no colégio foi o
que a habilitou para cursar o mestrado mais tarde.
Maria Regina cursou Direito na Faculdade de Direito de Londrina,
mas, formada em 1976, advogou apenas por um ano. Depois, fez o
curso de Esquema Um, com disciplinas de licenciatura, e começou a
lecionar em cursos profissionalizantes e OSPB, Organização Social e
Político-Brasileira, no ensino médio.
Como monitora, Maria Regina começou a trabalhar no Cesulon,
até passar por um teste seletivo e assumir a disciplina de EPB.
Em 1984, houve o concurso para novos professores de EPB na
UEL. A professora entrou na Universidade em 1983 para cobrir uma
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246
licença-gestação e ficou em segundo lugar no concurso, com uma carga
horária de 20 horas semanais.
A disciplina não era vista com bons olhos entre os professores
também, que preferiam que as contratações para o Departamento de
Ciências Sociais fossem para disciplinas básicas.
A professora conta que não concordava com a obrigação da
disciplina do jeito que a Escola Superior de Guerra enviava o programa
com a política conservadora. “Eu achava que estaríamos seguros se
resolvêssemos a fome e a questão da terra”, e neste espírito dava aula a
200 alunos reunidos no “piniquinho”.
Como todos os alunos eram obrigados a cursar a disciplina, uma
mesma sala de aula abrigava estudantes de Administração, Engenharia,
Medicina, Direito, o que era outro problema para a professora.
Quando a disciplina deixou de existir, a professora já havia
feito duas especializações e Mestrado em Fundamentos da Educação
na Ufscar e começou a trabalhar com Sociologia da Educação. Maria
Regina deu aula no Direito, Psicologia, Economia, Ciências Sociais e
Letras. Com tantos alunos que teve, ela brinca: “Houve uma época em
que sair comigo na rua era difícil”.
A professora acabou o Doutorado em Educação, Sociedade e
Cultura em 2000. Cinco anos depois, quando pediu sua contagem para
a aposentadoria, faltavam cinco dias de trabalho. Com a mudança da
lei, ou Maria Regina se aposentava ou teria que esperar mais cinco
anos.
Para aumentar os ganhos, a professora começou a dar aulas
no programa de Mestrado em Educação na Unoeste, em Presidente
Prudente (SP). Depois de três anos, há alguns dias Maria Regina pediu
demissão. “No programa de mestrado você tem que publicar muito. E
acho que tem que deixar espaço para os doutores mais jovens”.
Agora, ela quer aproveitar o tempo com qualidade e descansar
da cansativa carreira acadêmica. Em seu escritório, a professora conta
que quer ler romances que comprava e não tinha tempo para ler e que
não precisa de muito dinheiro para continuar a sua vida.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
247
Museóloga da UEL
A funcionária Marina Zuleika Scalassara começou a trabalhar
no Museu Histórico de Londrina quando ele ainda funcionava nos
porões do Colégio Hugo Simas
Em 12 de janeiro de 1970, Marina Zuleika
Scalassara começou a trabalhar onde ficaria por
34 anos. Zuleika, como é mais conhecida, já era
funcionária da Faculdade Estadual de Filosofia
e Letras desde o ano anterior, mas nesta data
começou a trabalhar no Museu, mesmo sem
experiência nenhuma.
Sua família viera do interior de São Paulo. A
cidade, Joaquim da Barra, era pequena, mas
como ela já estudava em Ribeirão Preto, no começo dos anos 1960 era
difícil de acostumar. Zuleika, então, fez o curso normal em Assis e o
superior em São Paulo.
Ela voltou para Londrina e começou a lecionar no Colégio Mãe
de Deus. De lá foi trabalhar na Faculdade de Filosofia e Letras como
auxiliar de tesouraria. A funcionária acompanhou o surgimento e o
crescimento do Museu Histórico de Londrina, que começou como uma
atividade de duas disciplinas do curso de História, com os professores
Padre Carlos Weiss e Maria Dulce Alho Dotti.
Zuleika conta que no
começo a arrecadação do acervo era feita pelos próprios alunos que
recebiam notas por isto. Também neste início ficou estabelecido que o
Museu abrangeria a região e não apenas a cidade de Londrina.
Em setembro de 1970 o Museu foi inaugurado. Ele ficava nos
porões do Colégio Hugo Simas e a funcionária trabalhava lá seis horas
semanais, tempo em que deixava a tesouraria. “Eu não entendia nada e
fazia as fichas copiando o modelo de outras.”
Quando a parte administrativa da Universidade mudou-se
para o campus, Zuleika foi junto. Então o professor e vice-reitor Iran
Sanches transferiu-a para o Centro de Ciências Humanas para que ela
voltasse ao Museu.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
248
Ele era dividido entre Arquivo (de papel), organizado pela
professora Maria Dulce e Museu (tridimensional), organizado pelo Pe.
Carlos Weiss. No começo alunos de 1º e 2º grau não visitavam o local,
a comunidade não era próxima a ele, conta a funcionária.
Deste começo, Zuleika lembra que a estrutura do Hugo Simas
não era apropriada, se os alunos derrubavam alguma bebida lá em
cima, escorria para o Museu. O barulho do colégio também era grande.
Como Pe. Carlos Weiss não gostava da idéia de abrir o Museu
para exposição antes que estivesse pronto, a funcionária diz que
aproveitavam as férias dele para abrir o Museu. E era um sucesso.
Em 1978, Marina Zuleika participou de um encontro em Bagé
sobre o tema. O encontro foi uma oportunidade para estabelecer
contatos e se integrar no mundo dos museus, pois aqui o Museu estava
“sozinho”, assim como a funcionária.
Em 1980 ela foi para São Paulo fazer uma pós-graduação em
Museologia. A graduação em Pedagogia fora nos primeiros anos de
Faculdade. Até 1982 ela dedicou-se ao curso que a UEL ofereceu, fez
seis meses de estágio em São Paulo e voltou.
Marina Zuleika contou o processo de transferência do Museu
para o prédio da antiga estação ferroviária. A inauguração foi no dia 10
de dezembro de 1986, mas apenas em 22 de agosto do ano seguinte que
se deu a mudança definitiva. Não havia lugar planejado para guardar
acervo, o lugar era ponto de convergência de vento, etc.
Mas passados vários obstáculos, a museóloga lembra com orgulho
de iniciativas do Museu. Os bailes do lampião que foram promovidos
pelo órgão, são exemplos. Ela conta que era comum quando acabavam
de cobrir as casas de madeira, que marcaram o início da colonização de
Londrina e região, as pessoas darem um baile, pois as divisórias eram
colocadas depois da casa pronta e nesta etapa o que se tinha era um
salão, próprio para a festa. Para relembrar o costume, alguns bailes
foram promovidos, em especial para a terceira idade. A plataforma
do Museu e até mesmo o salão interno (quando ele foi reformado na
década de 1990) foram palco.
Aproveitando a história recente e a existência de pioneiros que
chegaram à cidade em seu início, também houve o projeto Cuco. Alunos
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
249
de escolas da região eram convidados a entrevistar um pioneiro. O
projeto durou muitos anos e o material, gravado, está no acervo.
No entanto, uma das maiores iniciativas não foi tomada pelo
Museu. Zuleika conta que a última reforma do Museu, em 1996, foi
feita com dinheiro da comunidade que colaborou com doações. No
túnel de entrada do Museu consta o nome de todos os que ajudaram.
Durante esta reforma o Museu contou com a presença da museóloga da
Universidade de São Paulo, Maria Cristina de Oliveira Bruno.
Zuleika aposentou-se compulsoriamente em 2003, depois de 33
anos dedicados à Universidade, dos quais a maioria ao Museu Histórico
de Londrina Pe. Carlos Weiss. O nome de Pe. Weiss foi incorporado ao
nome do Museu como um patrono em uma homenagem póstuma.
Ela diz sentir muito orgulho de ter feito parte e que a Universidade
pode sentir orgulho por ter um Museu de vanguarda. Com o Museu quase na hora de fechar, no saguão de entrada,
Zuleika apontava alguns relógios e explicava sobre eles a um grupo
de meninos que passavam por lá. Aquele lugar sempre terá e será um
pouquinho de Zuleika.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
250
Carioca da gema
Alegre e animada, a professora Martha Augusta Correa e
Castro Gonçalves é só sorrisos ao contar sua longa história
de vida e carreira, repletas de livros, trabalho, e dedicação
Bastam poucas palavras da animada
professora Martha para identificar seu forte
sotaque carioca. Nascida e criada no Rio de
Janeiro, capital, ela não nega suas origens:
esbanja uma simpatia contagiante, típica do
seu povo. “Eu vivi no Rio da melhor época,
antes da ditadura, quando o Rio era Estado da
Guanabara. Era menos violento e eu desfrutei
daquela terra, tirei dela o melhor que pude”.
Fissurada por leitura desde menina, como
ela mesma se define, foi na cidade natal que fez a Faculdade de Letras
na antiga UEG (Universidade do Estado da Guanabara), atual UERJ
(Universidade Estadual do Rio de Janeiro).
Lá também se casou e iniciou uma jornada por vários estados
brasileiros e uma passagem pelo exterior, antes de chegar à UEL. “Meu
marido foi fazer pós-graduação em São Paulo e eu fui junto. Lá comecei
a dar aulas para o ensino médio na escola pública. Ficamos uns dois
anos, aí teve concurso para professor no Rio e eu passei”, explica. De
volta ao Rio de Janeiro, Martha deu aulas em várias escolas da cidade,
sempre públicas. Em seguida, retornou à capital paulista por mais
dois anos, até que seu esposo conseguiu ir para a UFV – Universidade
Federal de Viçosa, em Minas Gerais. Na primeira passagem pela cidade
mineira, Martha não deu aulas.
Após um período na UFV, o marido foi fazer outra pós-graduação,
desta vez nos Estados Unidos. “Morei quatro anos em Madison,
no norte dos Estados Unidos, onde fiz meu primeiro mestrado, na
Universidade de Wisconsin. Era um curso de Língua Portuguesa para
alunos americanos, por isso não é reconhecido aqui”. Ao terminar o
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
251
mestrado, Martha recebeu um convite da Universidade para continuar
como professora oficial e iniciar o doutorado. Mas, preferiu voltar
ao Brasil: “E eu quero morar na terra dos outros? Não gostei de ser
estrangeira... eu gosto é dessa terra aqui”, diz sorridente.
Após a experiência de quatro anos no exterior, a professora voltou
para Viçosa. Foi um período de mudanças em sua vida. Separou-se do
marido e começou a tomar seus próprios rumos. Conseguiu emprego
como professora, mas sem vaga efetiva. Por isso procurou todos os
concursos possíveis, até que uma amiga avisou da vaga aberta na UEL.
“Eu vim para Londrina em 1991. Já tinha mais de 50 anos. Fiz a prova
e depois fui para São Paulo encontrar uma amiga. Assim que abri a
porta na casa dela, já tinha a notícia que eu tinha passado. Avisaram
meu filho em Viçosa e ele ligou para contar!”, lembra. Foi a primeira
vez que Martha foi contratada por uma Universidade. “Eu não tinha
experiência nenhuma no ensino superior. Cheguei aqui crua. Os alunos
até ‘mexiam’ comigo, porque eu não tirava o olho do livro”, revela.
Foi lotada no Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas.
Como seu título de mestre não foi reconhecido pela UEL, por ter
sido feito no exterior, a professora iniciou um mestrado nacional na
primeira oportunidade. Após dois anos lecionando na Universidade,
começou seu segundo mestrado na Unesp (Universidade Estadual de
São Paulo), mesmo sem conseguir licença das aulas. “Ah eu dei um jeito!
Arranjava carona e o pessoal da diretoria do departamento facilitava
na hora de distribuir a carga horária: sobrecarregavam as segundas,
terças e quartas e deixavam as quintas e sextas livres”, comenta. O
doutorado veio logo em seguida. “Eu emendei praticamente... foi
com muito esforço, porque é muito difícil terminar a pós-graduação
trabalhando. Quando você faz uma tese, só fica pensando naquilo, não
dá para pensar em outra coisa!”, afirma.
Uma das paixões de Martha, durante os anos que passou na
UEL foi um projeto de extensão, do qual participou desde o início: “É
um trabalho que pega o estudante de Letras dos últimos anos e põe
na sala de aula trabalhando com leitura e produção de texto”, explica.
A realização era em conjunto com escolas públicas da cidade. Os
estagiários do projeto eram apresentados aos alunos das turmas como
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
252
professores de uma disciplina ligada à Língua Portuguesa. Martha
destaca que suas alunas eram muito bem orientadas pelos supervisores
do projeto antes de começar o trabalho. E o resultado era sempre
positivo, para orgulho da professora: “Eu sempre acreditei muito neste
projeto. E a gente via o resultado. As meninas chegavam no começo
do ano inseguras, sem nunca ter entrado numa sala de aula, mas com
o incentivo e as orientações que a gente dava elas cresciam e aí nos
relatórios, você via como é que elas se revelavam”.
Para Martha a importância de trabalhar bem com a produção de
texto nas escolas é inestimável. Por isso, apesar de ministrar outras
disciplinas, sempre priorizou esta área. “Eu acredito que se o aluno sair
do ensino médio dominando a leitura e a escrita, como leitor pleno,
aquele que lê e entende as entrelinhas, tem as suas opiniões próprias
e sabe escrever sobre algum assunto, a escola já cumpriu a sua meta.
Ele está preparado. O resto vem por acréscimo. Se você vai estudar
qualquer outra disciplina e não domina a leitura, não adianta...”,
assegura.
Martha atuou ainda na pós-graduação, como coordenadora da
Especialização de Letras. Ela optou por não iniciar no Stricto Sensu,
devido à proximidade da aposentadoria.
A contribuição do trabalho da professora foi além dos limites da
UEL. Ao mesmo tempo em que se dedicava às aulas, ela participou de
atividades e projetos fora da Universidade. Atuou em um programa
do Governo do Estado para a capacitação de professores em diversos
municípios do Paraná. “Acho que eu conheci o Paraná inteiro!”,
comenta. E deu apoio à Prefeitura de Cambé, na orientação dos
professores do ensino fundamental. A carioca também teve tempo de conhecer Londrina e aprender
a gostar daqui. Ela valoriza muito o aspecto cultural da cidade. “Gosto
muito dos eventos que tem aqui, do Festival de Teatro, Festival de
Música. Sempre compareci e fiz meus alunos comparecerem. Eu pedia
para eles assistirem às peças e fazer uma resenha. Fazia isso para
provocar os meninos a descobrirem o patrimônio que tem na cidade.
Faz parte da formação”, garante.
E em meio a tantas atividades simultâneas, Martha avalia o quanto
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
253
aprendeu e cresceu em 17 anos de UEL. “Eu devo a essa Universidade
toda a minha formação, toda a minha vida profissional. Porque aqui
que eu me realizei como professora. Não que eu não tenha me realizado
no ensino médio antes, mas aqui é que consegui aproveitar ao máximo
a carreira na academia. Fazendo todo este percurso, até chegar o
doutorado e me aposentar confortavelmente”, afirma.
E quanto aos frutos de seu trabalho na sala de aula, demonstrase satisfeita e orgulhosa: “A melhor coisa do mundo é você saber que
você está deixando sementes. Alguma coisa sempre fica na sala de aula.
Se você tem uma relação legal com o aluno, você deixa até mais que o
conteúdo, até para vida do aluno! Eu não queria ter sido outra coisa, na
vida, de jeito nenhum!”, afirma.
Os alunos, alvos principais de todo o trabalho de Martha
tornaram-se algo mais em sua vida: “Eu sempre me dei muito bem
com os alunos. Muitos ficaram meus amigos... amizade fora da UEL!
Sempre chamo esse povo pra feijoada na minha casa, que eu faço no
meu aniversário!”, conta. No ano passado – último em que lecionou – a
professora foi uma das homenageadas na colação de grau da turma de
Letras. “Eu desci com eles lá no Moringão, foi muito legal!”, comenta.
Foi assim, com muito amor, alegria e dedicação que Martha
trabalhou os últimos anos de sua carreira no CCH, até completar a
idade limite. “Tem gente que reclama quando chega a aposentadoria
compulsória, mas eu não! Recebi uma cartinha muito simpática. E com
70 anos de idade, vou te dizer que você não tem a mesma energia. Hoje
em dia eu olho para a sala de aula e sinto muita falta dos alunos, mas
não achei ruim entrar numa mais ‘light’. Chega um momento em que
você tem que dar um descanso, uma refrescada. E tem muitas pessoas
boas aí para ocupar os lugares”, conclui.
Mas apesar da despedida das salas de aula, Martha ainda não
deu adeus à UEL. Em julho de 2007, ela foi convidada a ocupar um
cargo na Eduel – Editora da Universidade – como revisora de texto.
Depois da aposentadoria, em outubro de 2008, foi desligada, mas em
dezembro do mesmo ano assumiu novamente o cargo, que vai ocupar
até o fim da gestão atual. “É bom porque você não para de vez e faz um
outro tipo de trabalho, que é ler, e eu adoro. Leio uma diversidade de
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
254
coisas, num ambiente de trabalho muito bom e um pouco mais calmo”,
compara.
É na Editora que a professora aposentada passa agora por um
momento de transição até chegar a hora de parar de trabalhar em
definitivo. E os planos já estão feitos: “Ah... depois que terminar eu
vou me embora pra perto do mar de novo... Quero ir para um lugar
tranquilo de praia!”. No Rio de Janeiro? “Não sei se na capital, talvez
no interior... mas até lá eu decido!”, completa.
Janaína Castro
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
255
Mazília Almeida Rocha Zemuner
Para aqueles que pensam que no setor de
Assessoria de Tecnologia de Informação
(ATI) a maioria dos trabalhadores é homem,
Mazília Almeida comprova o contrário:
quando ela entrou, lá havia mais mulheres.
Mazília começou a trabalhar como contratada
em 1979 na UEL, mas ela já tinha outro
vínculo com a Universidade, como estudante
do último ano de Estudos Sociais. Em 1980
ela se formou e o curso que englobava
disciplinas de História e Geografia foi extinto.
No trabalho, Mazília tinha prestado concurso e decidiu continuar. “Eu
gostava do que fazia”, diz. Ela trabalhava com atendimento ao usuário da ATI, que naquele
tempo ainda era o Núcleo de Processamento de Dados (NPD). A
funcionária lembra que o setor era responsável por informatizar aquilo
que lhes era passado pelas outras áreas, como as pautas de notas, faltas
dos alunos e os pagamentos. Tudo estava escrito à mão, então o trabalho
era feito de forma cuidadosa e conferido duas vezes. O trabalho exigia
treinamento e aprendizado. A funcionária lembra que às vezes quando
“pegava o jeito” de uma máquina ou sistema, era hora de mudar. “Nas
mudanças a gente sofre (...) Mas era gostoso.”
Mazília lembra também que em época de vestibular, como
os nomes dos aprovados eram desconhecidos para eles também,
os funcionários da ATI tinham que providenciar o material para a
matrícula em um período muito curto. Com o tempo, alguns setores da
Universidade passaram a ter seus próprios setores de informática, os
professores enviam as pautas já informatizadas e o setor de Mazília na
ATI foi desativado. E a funcionária foi para o atendimento à Internet.
Ela era responsável por criar contas de e-mail e checar senhas.
Mazília lembra que havia uma união grande entre os funcionários
da ATI, como uma família. Tanto que até hoje ela volta lá de vez em
quando e é muito bem recebida.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
256
Depois de ter o marido e filhos estudando na UEL, de 27 anos
trabalhando na Universidade, Mazília aposentou-se no final de 2006.
Uma aposentadoria muito tranquila. “Eu faço um monte de coisa, vou
na academia, na igreja, tenho a agenda cheia”, revela.
Poliana Lisboa de Almeida
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Mirza da Biblioteca
Aposentada há mais de 10 anos, Mirza de Carvalho Ferreira,
que trabalhou na antiga Biblioteca Setorial do CCB e na Biblioteca
Central, faz visitas semanais à Universidade
A mineira Mirza de Carvalho Ferreira contou
em seu cadastro no Portal do Aposentado
que foi uma das primeiras funcionárias da
Universidade Estadual de Londrina. Quando
ela estava chegando ao CCB no seu primeiro
dia de trabalho, em 23 de agosto de 1972,
depois de esperar a chuva passar, estavam
colocando a placa da Universidade.
Mirza é só elogio à UEL, onde diz ter
encontrado todas as portas abertas, todo mundo solidário e muita
acolhida. Na Universidade, ela fez uma família de amigos e nela criou
os seus dois filhos, Carla e Eduardo.
A timidez de menina foi superada trabalhando na Biblioteca
Setorial do CCB. Foram nove anos lá. Mirza começou a trabalhar com a
irmã na biblioteca, que saiu logo após o casamento, e já era responsável
pela setorial quando todas foram extintas para a criação da Biblioteca
Central.
Ela se lembra do dia em que estava em seu horário de almoço,
ainda na Biblioteca Setorial, e avisou a dois senhores que esperavam
do lado de fora que o horário de abertura era somente às 14 horas.
Ela só abriu as portas na hora exata. Depois, a diretora da Biblioteca
lhe contou que os senhores eram o então reitor Ascêncio e o cônsul do
Japão em visita à UEL.
No início, a BC - Biblioteca Central ficava perto da Reitoria, no
prédio hoje utilizado pelo Cursinho e Apuel. Ela conta que foi difícil se
adaptar, pois tinha mais liberdade antes. Na BC, durante a ditadura
militar, sentia-se vigiada e com pouca liberdade.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Depois de um tempo de trabalho na BC, Mirza foi para o processo
técnico. Ela conta que, quando recebia os livros da área biológica, fazia
de tudo para que eles voltassem ao acervo o mais rápido possível.
Dezessete pessoas trabalhavam nesta etapa.
A funcionária lembra que, em 1997, quando se aposentou, sofreu
muito por ficar longe da UEL e acabava voltando todos os dias. Alguns
meses depois, a Biblioteca Central recebeu uma doação de livros de
Arquitetura, e ela foi chamada a ajudar na catalogação. E esta foi a
despedida de Mirza, apesar de revelar que vivia nas festinhas na
Universidade e que volta pelo menos uma vez por semana para fazer
uma visita.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
259
Sociologia na Universidade
O professor Nelson Dacio Tomazi trabalhou na implantação de
cursos no começo da Universidade e no Departamento de Ciências
Sociais até a sua aposentadoria
Nelson Tomazi graduou-se na Universidade
Federal do Paraná e veio para Londrina
trabalhar na implantação de 22 novos cursos
da Universidade Estadual de Londrina. O
cargo administrativo assumido na segunda
gestão da UEL, de Oscar Alves, permitiu a
Tomazi conhecer um pouco da história da
Universidade, pois ele precisava saber as
condições dos cursos e dos prédios para que
se destinavam.
Ele conta que em 1975 existiam apenas os prédios do Centro de
Ciências Biológicas, algumas partes do que hoje é a Reitoria, o Centro
de Ciências Exatas e o Centro de Ciências Humanas. “O prédio da
atual reitoria era o prédio da Faculdade de Medicina,(...) o Hospital
Universitário era lá na Pernambuco com a Alagoas, onde funciona a
Cohab hoje”, exemplifica Tomazi.
Em 1977, ele assumiu o cargo de professor no Departamento de
Ciências Sociais, acumulando com o cargo administrativo. Quando
a terceira administração assumiu a reitoria, Tomazi se afastou por
dois anos para fazer parte de seu Mestrado em Sociologia. Na volta,
o professor foi assessor da Reitoria e, depois, professor em tempo
integral. Enquanto conciliava os cargos Tomazi lembra, “era um terror,
apesar de que eu dava aulas apenas de noite”.
Tomazi destaca a improvisação nesta fase de construção da
Universidade Estadual de Londrina, onde “tudo era necessário”.
A maratona era fazer com que os cursos mais novos implantados
começassem a funcionar já no campus, que hoje concentra a maioria
deles.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Para concluir o mestrado, os créditos do mestrado em Sociologia
pela USP (Universidade de São Paulo) foram convertidos e sua tese em
História do Paraná foi feita na UNESP de Assis. Em 1997, o doutorado
na Universidade Federal do Paraná aprofundou o mesmo tema.
O professor conta que sempre gostou de dar aula na graduação
e que lecionou para vários cursos da Universidade que contavam com
disciplinas do departamento. Ele deu aula de Sociologia, “as mais
diversas”, e também de Ciências Políticas. Eram até 22 aulas por
semana. “Esta foi a vida dos primeiros que chegaram”, lembra. Mas
Tomazi conta que se divertia. Ele era mais jovem e tinha mais energia.
Segundo Tomazi a burocracia da Universidade desgasta muito
as pessoas e os alunos de hoje já não são mais os mesmos. Segundo
o professor, os alunos são muito focados no específico e esquecem a
cultura geral, “o conhecimento não tem que servir para alguma coisa,
mas deve fazer parte da vida.”
Depois da aposentadoria em 2003, ele passou a trabalhar com a
Sociologia no ensino médio. O professor tem um livro didático publicado
(versões para aluno e professor), uma série em DVD e publica artigos
de apoio a professores e estudantes em um site na Internet que é feito
junto com o professor da UEL, Ronaldo Baltar.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Nelza Maria de Souza
Meu nome é Nelza Maria de Souza. Sou filha
de Sebastião Antonio de Souza e Izaira Maria
dos Santos. Nasci em Botucatu, mais meus
pais são mineiros. Somos em 12 irmãos, 33
sobrinhos, 20 sobrinhos segunda geração, 9
cunhados. A minha família é o maior tesouro
da minha vida. Entrei para trabalhar na UEL
em 10/09/1981.
Trabalhava no comércio em Londrina desde
de 1969. Quando entrei na UEL, comecei a
trabalhar como auxiliar de bibliotecário.
No 13º dia não conseguia aprender o trabalho,
pois para mim foi uma mudança radical, de
vendas para informações... Mas quando peguei a bolsa fui falar com a
diretora que eu iria embora. Ela sabiamente me falou “de jeito nenhum,
uma pessoa não pode falar que não aprendeu o serviço em apenas 13
dias, você vai ficar e tentar aprender, coloca todo seu potencial e sua
boa vontade, eu sei que você pode”. E a partir daquele momento eu
pensei: vou ficar e fazer tudo que eu puder, para merecer a confiança da
diretora e dos meus amigos que também não me deixaram ir embora.
Dediquei tanto que me apaixonei pelo meu trabalho na biblioteca.
No ano de 1982, passei no vestibular. Terminei o curso de
Biblioteconomia em 1985.
Nunca pedi transferência para outro setor da Universidade,
porque os meus amigos da Biblioteca Central foram, são e sempre
serão para sempre a minha segunda família. Amo a minha profissão,
fiz o que gosto com muito amor e dedicação.
Trabalhei 27 anos e 8 meses na Universidade Estadual de
Londrina, lotada na Biblioteca Central, prestando serviço na Biblioteca
Setorial da Clínica Odontológica, onde pude aprender e realizar ainda
mais dentro da minha profissão. Só aposentei agora porque acho que
ainda tenho mais coisas para serem feitas.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
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Nilza Aparecida Freres Stipp
Quando Nilza Aparecida Freres Stipp deu os
primeiros passos como professora, ela ainda
era aluna. Ela cursava o 4º ano de Geografia
na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de
Botucatu, no interior de São Paulo. Aceitou
um convite para substituir um professor no
colégio onde havia estudado quando criança. Lecionou para o ensino fundamental e médio
por dez anos. Experiência que ela define como
necessária, pois foi assim que adquiriu didática
e aprendeu como se portar diante de uma sala de aula. Nilza foi do
ensino médio direto para a especialização. Foi no ensino superior que
ela se encontrou enquanto professora: “Lá eles questionam, debatem,
há mais interesse. Eles querem aprender mesmo. Aí eu percebi o que
eu queria”, afirma. Nilza deu aulas na especialização por quatro anos,
na Fundação Educacional de Avaré, também em São Paulo.
Mas ela queria lecionar no ensino superior, e decidiu prestar
concursos. Foi aprovada em Londrina, Maringá e Curitiba. Optou por
Londrina. Segundo Nilza, Curitiba é uma cidade muito fria e a sua
saúde estaria comprometida. Londrina, ela já conhecia: “Gosto muito
daqui, o clima me faz muito bem”.
Quando foi contratada para lecionar na UEL, Nilza soube da
responsabilidade que a aguardava: reativar o curso de Geografia. O
Departamento, naquela época, contava com apenas cinco professores
e somente dois eram doutores, incluindo Nilza. O curso havia sido
extinto para dar lugar ao de Estudos Sociais. Segundo a professora,
em grande parte das universidades do país, os cursos de Geografia já
tinham sido reincorporados. “Eu e a profa. Dra. Yoshiya Nakagawara
fomos para Porto Alegre, São Paulo, pegamos o modelo das melhores
faculdades para começar o nosso curso”.
Nilza lembra que havia muitas dificuldades: faltavam salas,
laboratórios e professores, mas sobrava determinação. “Fomos fazer
propaganda do curso nos cursinhos preparatórios de vestibular e nos
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
263
colégios para aqueles que estavam terminando o colegial”. A atitude
inusitada resultou na primeira turma, com 42 alunos.
E as conquistas continuaram. Em 1983, foi criada a primeira
publicação do curso. No início, um boletim de Geografia; hoje,
uma revista on-line de grande prestígio. “A nossa revista assumiu
definitivamente um caráter de divulgação nacional e podemos dizer
até internacional, pois vem veiculando trabalhos de autores das mais
variadas instituições de pesquisa do Brasil e já tem alguns autores do
exterior”, afirma Nilza. Em 1989, nasceu o NEMA (Núcleo de Estudos
em Meio Ambiente), que no início era apenas um projeto, mas com o
tempo cresceu e se transformou em núcleo.
Outras grandes conquistas são os cursos de especialização, em
duas modalidades diferentes. E a criação do Mestrado, em Geografia.
A professora também destaca a credibilidade que o curso conquistou
junto ao meio acadêmico e ao mercado de trabalho. “Conquistamos
projeção nacional e internacional. Atualmente estamos, através do
coordenador do Mestrado, iniciando um convênio com a Universidade
de Alicante, na Espanha”. Mas, para ela, os melhores frutos são os
alunos, que têm se destacado com brilhantismo por onde passam.
A professora, durante muito tempo, esteve envolvida com as
questões administrativas. E conta, com orgulho, que foi a primeira
mulher a ser diretora do Centro de Ciências Exatas da UEL. “Isso em
1986 e por eleição direta”, enfatiza. Sobre o período, Nilza afirma que a
fez amadurecer muito, mas que não foi fácil: “A Universidade era ainda
muito machista”. Ela também colaborou na elaboração e construção
do ITEDES (Instituto de Tecnologia e Desenvolvimento Econômico e
Social), o primeiro instituto da UEL. Foi a segunda diretora-presidente
e presidente por dois mandatos (alternados). Em 1993, Nilza foi contemplada com uma bolsa na Université de
Rennes II, França, para divulgar os resultados de uma pesquisa que
desenvolvia com outros professores do departamento. “Dei palestras
nos cursos de graduação e pós-graduação de Geografia, estagiei junto
ao laboratório de Geoprocessamento Costel em 93 e início de 94.
Funcionou com um estágio pós-doctor que culminou com a publicação
do livro Macrozoneamento Ambiental da Bacia do Rio Tibagi”.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
264
Quando retornou ao Brasil, Nilza teve uma grande surpresa:
estava aposentada. “Foi um choque. Pensei: o que vou fazer agora?”.
A professora ficou preocupada quando recebeu a notícia, porque
coordenava alguns projetos vinculados ao CNPq (Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e Capes (Coordenação
de Aperfeiçoamento do Ensino Superior), junto ao Departamento.
Então, decidiu prestar novo concurso. Voltou para a Universidade
como professora adjunta. Ela conta que, depois que se aposentou,
produziu muito mais cientificamente, pois não estava mais envolvida
com as questões administrativas. E já publicou seis livros.
Para terminar, conta como criou e equipou o Laboratório de
Geologia: “Fomos atrás dos ex-alunos de Engenharia Civil, da primeira
turma para quem dei aula na UEL, quando lecionava Geologia. Hoje,
há uma placa em homenagem a eles no laboratório.
Léia Dias Sabóia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
265
Trinta anos trabalhando na Educação
A professora do CECA Olga Ribeiro de Aquino estudou e trabalhou
no curso de Pedagogia da UEL desde o início
A goiana Olga Ribeiro de Aquino morava
em Uberlândia no triângulo mineiro com
dezesseis anos, quando resolveu se casar e vir
para Londrina. Após concluir os estudos no
colégio Londrinense, Olga frequentou uma das
primeiras turmas de Pedagogia da Faculdade
Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de
Londrina.
Quando acabou a graduação, Olga de Aquino, que já lecionava no
Cesulon (Centro Universitário de Londrina), continuou na recente
Universidade Estadual de Londrina, agora para fazer a Especialização
em Educação. Mesmo a pós-graduação era dada nas salas de aula do
Colégio Hugo Simas, no centro da cidade. “Era muito apertado, a gente
estudava naquela parte antiga do colégio. Eram edículas que seriam
provisórias.”
Apenas em 1983, depois de prestar concurso para professora,
Olga foi dar aulas no Perobal – atual campus da Universidade. Dos
primeiros anos de docência em didática, a professora comenta que
trabalhava com alunos de áreas diferentes juntos na mesma sala. “A
sorte é que eu já tinha um pouco de experiência do Cesulon (...) eu dava
conta, mas sofria.”
Cinco anos depois Olga iniciou o mestrado na Universidade de
Campinas, Unicamp. Na época a professora voltava para dar as aulas.
Ela acredita que o gosto pelo estudo veio por ser filha única. “Os
livros eram minha companhia.” Ser filha única também fez a professora
gostar bastante de crianças. Assim que surgiu a oportunidade, a
professora começou a trabalhar na área de educação infantil.
Deste trabalho surgiu a Ludoteca da UEL, da qual Olga foi uma
das fundadoras. A Ludoteca tem dezessete anos e atende crianças com
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
266
uma única regra: aquilo que a criança tirar do lugar, tem que colocar
de volta.
A Universidade chegou a implantar uma Brinquedoteca, Brinque
UEL, no Conjunto Violin. O projeto durou dez anos, mas Olga acredita
que o fato de não ter uma sede própria para o programa inviabilizou o
projeto.
A professora teve quatro filhos. O mais velho morreu ainda
criança, mas os outros três passaram pela Universidade. A própria
Olga antes do doutorado voltou a ser aluna da UEL cursando Letras.
Era uma vontade que ela sempre teve. E serviu para reforçar o quanto
a professora gostava da área de Educação.
O Doutorado em Educação na Unimep, Universidade Metodista
de Piracicaba, explorou a sensibilidade estética do homem para a arte.
Olga deixa bem claro que não é uma artista, mas, como gosta muito da
área, resolveu estudar e se aprofundar no tema.
A professora está aposentada desde o início de 2008 e ainda não
se acostumou com a nova vida. Ela orienta alguns estudantes e diz que
está se sentindo muito sozinha sem frequentar as salas de aulas com
seus alunos.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
267
Com os reitores
O professor de Educação Oswaldo Rubens Canizares deu aulas
na Faculdade de Filosofia e trabalhou no Registro de Diplomas por
20 anos. Seu cargo esteve ligado aos reitores que não o “devolviam”
à sala de aula
Logo que surgiu, a Faculdade Estadual de
Filosofia, Ciências e Letras de Londrina
formava
apenas
bacharéis.
Muitos
graduados tiveram que aguardar um
ano para poder cursar mais um ano de
licenciatura. Era 1962, quando o professor
Oswaldo Canizares entrou para lecionar
Princípios e Métodos de Administração
Escolar para esses futuros licenciados.
Canizares passou quase 10 anos na
Faculdade, até a criação da Universidade.
Sob a direção de Iran Martin Sanches, o professor participou da
comissão que organizou o Estatuto da UEL. “E aí começou a minha
história na Universidade, como a de muitos outros professores.”
A gestão era do primeiro reitor nomeado: Ascêncio Garcia Lopes,
da Faculdade de Medicina (1970-1974). As cinco faculdades unificadas
viraram Centros de Estudos, sendo que a Faculdade de Filosofia se
desmembrou em dois, o de Ciências Humanas e Letras, o CCH, e o de
Educação, o CE. Canizares foi o primeiro diretor do CE.
Nessa gestão de quatro anos surgiu o curso de Educação Física.
O professor lembra que, conversando com o reitor Ascêncio Lopes,
ambos decidiram que o curso seria locado no CE por sua ligação com
a Educação e como uma forma de aumentar o Centro, que era um dos
menores.
Como o primeiro reitor assumiu um ano antes dos diretores de
Centro, com a missão de organizar a Universidade, o último ano de
administração dos primeiros diretores de Centro se deu sob a segunda
gestão na Reitoria.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
268
O professor lembra o último dia de Ascêncio Lopes na UEL.
Canizares acompanhou o reitor após seu último dia de trabalho. “Foi
até esquisito, como ele não era professor ele saiu da UEL. Fui até o
carro com ele, foi triste.”
Canizares guarda da eleição do segundo reitor a lembrança de ter
feito oposição. Oscar Alves era favorito para o cargo e, por ser genro do
Ministro da Educação, muitos já contavam com sua vitória, segundo o
professor. Canizares chegou a integrar a lista sêxtupla como candidato
e a dizer a Alves que não o apoiaria por se tratar de política. Mesmo com oposição declarada, o segundo reitor convidou-o
para a Subsecretaria de Recursos Humanos e Acadêmicos, sob a direção
de Pinotti. Naquele ano Canizares avaliou a situação acadêmica dos
cursos da UEL e constatou que havia muitos exageros de disciplinas e
carga horária, o que encarecia os cursos.
Também foi encarregado pelo reitor Oscar Alves de ver a
possibilidade de implantar os cursos de Arquitetura, Agronomia e,
atendendo à região, Tecnologia de Laticínios. “Interessado em atendêlo comecei a trabalhar inclusive indo a Brasília conversar com o Diretor
do Setor de Ciências Agrárias para eu ter orientação de vida para
montar um projeto da criação do curso de Agronomia.”
Os cursos de Arquitetura e Tecnologia de Laticínios não poderiam
ser viabilizados na época, mas o curso de Agronomia foi montado.
Canizares lembra que todo o primeiro período foi montado com
professores que a UEL já dispunha e que foi feito levantamento de todas
as instalações e instrumentos que poderiam ser aproveitados. “Até hoje
muita gente não sabe que eu tive a ver com o curso de Agronomia. Tudo
isto está na minha história. Eu vivia a UEL.”
Canizares também esteve por dois anos na Diretoria de Controle
Acadêmico da CAE. Ali, começou o seu contato com as leis do ensino
superior que se aperfeiçoou quando foi transferido para a Divisão
Especial de Registro de Diplomas (DERD).
Como trabalhou 20 anos no registro de diplomas, Canizares
explica como surgiu a Divisão. Quando ele se graduou, conta, os
diplomas eram mandados para o Ministério da Educação fazer o
reconhecimento. Com o tempo a Universidade Federal do Paraná
começou a reconhecer todos os diplomas das Instituições de Ensino
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
269
Superior do Estado, até que a demanda obrigou a “divisão” do Paraná
em dois. O distrito com sede em Curitiba e o distrito 33, com sede em
Londrina, na UEL.
O cargo inicialmente era de uma professora de Cornélio Procópio,
mas ela acabou deixando a Universidade e Canizares assumiu. Foram
20 anos e contato com todos os reitores que passaram pela Universidade
na época.
“Meu maior desejo era entender completamente a legislação do
ensino superior no Brasil. Comecei pelo mais difícil. Peguei o número
um da documenta e comecei a ler e a anotar tudo o que eu achava
que era importante. Este trabalho eu fiz durante 20 anos”, conta. O
professor diz que não tinha medo de enfrentar o Conselho de Educação,
pois sabia tudo sobre legislação.
Tanto que ele cita um caso histórico, de ter indeferido diplomas
provenientes de uma determinada faculdade por dois anos. Ele diz
que enfrentou o Conselho Federal de Educação e que só reconheceu os
diplomas quando o Diário Oficial publicou um novo currículo. Na nova
forma os diplomas daquela faculdade estavam adequados.
Canizares lembra com orgulho quando, em nome da Universidade,
foi dar um curso na Universidade Bolivariana. Segundo ele, nos 15 dias
em que esteve lá os jornais noticiaram sua presença e foi condecorado
pelo consulado por serviços à Educação. “Foi uma página luminosa da
minha vida e bom ver como a Universidade tem reconhecimento.”
Contra o excesso de documentos que invadia a DERD - eram
dois mil diplomas por ano - Canizares idealizou a instalação da
microfilmagem na Universidade, processo no qual os documentos são
fotografados e depois arquivados em filmes, o que ocupa menos espaço.
Os equipamentos ficaram dois anos parados após a compra, mas agora
os documentos da Universidade, de seus alunos e dos alunos da região
que precisam reconhecer o diploma, passam pela microfilmagem.
O professor aposentou-se quando Jackson Proença Testa
assumiu a Reitoria. Então, foi convidado a trabalhar como assessor do
novo Reitor por meio período. “Eu pedi colaboração para as colegas da
DERD e continuei por quatro anos”. Canizares deixou definitivamente
a UEL quando o reitor, em uma circular, dispensou o serviço de seus
assessores.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
270
Oswaldo Canizares conta que sempre teve o prestígio dos reitores
da Universidade. Na saída de Oscar Alves, por exemplo, ele se lembra
do reitor dizendo que tinha aprendido muito com o professor. “Minha disciplina não é uma que eu possa abrir um escritório ou
dar consultorias”, diz Canizares. O professor continua então com aulas
no Seminário Pequena Missão Para Surdos, e lecionando Psicologia no
curso de Teologia quando há seminaristas, como já faz há anos.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
271
Lições de uma vida dedicada ao futebol
Na década de 1970 pouco se falava sobre responsabilidade social,
mas Otávio de Paula Nascimento já estava fazendo a sua parte
Otávio de Paula Nascimento descobriu
cedo o prazer pelo futebol. Quando
criança, em Campo Largo, preferia a
bola aos livros. “Naquela época a gente
ficava até 11 horas jogando futebol na
rua e não tinha problema nenhum,
era espetacular. Eu adorava futebol”.
Gostava tanto que fugia da escola
para jogar. E, quando retornava, o pai
sempre o esperava para corrigi-lo. “Eu sabia que ia apanhar, mas não
me importava, no outro dia eu ia de novo”.
Otávio seguiu dando preferência para a bola, até que duas professoras
– Helena Dobrzanski e Tereza Menezes – perceberam que poderiam
negociar: “Nós vamos formar time aqui e vocês vão jogar, mas têm que
estudar”. E assim foi feito. As notas aumentaram, não houve mais fuga
e o interesse pela escola dobrou.
No entanto, Otávio continuou preenchendo as horas vagas com
as partidas de futebol e sem a permissão de seu pai. Por isso, apanhou
muito. “Um dia falei para o diretor que eu não podia participar mais do
time. Expliquei que meu pai não gostava e que eu sempre apanhava. Aí
ele foi à minha casa e pediu para o meu pai.”
O pai de Otávio disse que ele poderia jogar se aceitasse algumas
condições: continuar estudando, não beber e não fumar. “Como eu não
ia aceitar? Aceitei. Mas aí meu pai falou que tinha mais uma condição e
que iria conversar comigo mais tarde. Depois que todos foram embora,
fui conversar com ele, que falou: ‘É a última vez que você vai apanhar
por causa de futebol’”, conta Otávio, que apanhou em silêncio, tamanha
a vontade de mostrar ao pai o que realmente desejava. Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
272
Naquela época as categorias, no futebol, eram divididas em
infantil, juvenil, segundo quadro e primeiro quadro – equivalente ao
profissional. Otávio com 14 anos já jogava no segundo quadro e, aos 15,
passou para o primeiro quadro. “Minha estréia no Campo Largo foi muito
interessante. Entrei em campo com a camisa abaixo do joelho, parecia
de manga comprida, muito maior que eu. O árbitro me abraçou e disse
que era pra eu sair que o jogo já ia começar. Assustei. E ele continuou
dizendo que mascote tinha que ficar do lado de fora”, relembra Otávio.
Foi preciso que o técnico do time interferisse e explicasse ao árbitro
que Otávio era um dos jogadores: “Eu era o camisa dez”.
Em 1956, Otávio foi para o exército. No entanto, não se distanciou
do futebol. “O coronel falava: ‘Tavinho você vai jogar futebol’”. Então,
Otávio foi fazer testes em outros times. Ficou no Operário de Ponta
Grossa. “Eu cheguei na terça, treinei na quarta e na quinta. Na sexta
meus documentos já foram para a Federação”. O primeiro jogo de
Otávio era um clássico, contra o Guarani: “A torcida era sensacional.
Existia sim rivalidade, mas não era como hoje, não tinha confusão, não
tinha briga”.
Otávio treinava todas as tardes e decidiu trabalhar no período da
manhã. “Aí eu fui dar aula de futebol para a garotada numa escola do
Estado”. Continuou nessa rotina até 1961, quando foi transferido para
Arapongas. Mudou de emprego e de time. Enquanto permaneceu na
cidade, jogou pelo Arapongas.
De volta a Curitiba, em 1967, para cursar Educação Física, Otávio
foi chamado para jogar no Coritiba. “Eu fui bicampeão, em 1968 e 1969”.
Além de jogar, ele estudava e trabalhava como técnico de categorias
menores do Coritiba. Quando estava prestes a se formar, surgiu a
oportunidade para o Coritiba jogar na Europa. Otávio ponderou e
optou por concluir o curso: “Eu lembrei que as minhas professoras,
quando nos colocaram para jogar na escola, tinham dito que o esporte
era importante, mas que nós nunca deveríamos abandonar os estudos
por causa dele”. Ele afirma que nunca pensou como teria sido se tivesse
feito uma escolha diferente: “Uma das coisas difíceis do futebol é parar,
ainda mais quando se está no auge. Mas, eu parei com satisfação. Eu
estava decidido, queria estudar”. Nessa época, Otávio preferia os livros
à bola.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
273
Depois de formado, Otávio prestou concurso. “Queria ser
professor no Estado. E nós tínhamos que escolher a cidade”. Ele
escolheu Arapongas. Permaneceu por dois anos, até que um dia viu
um anúncio no jornal: “Falava que na UEL ia ter o curso de Educação
Física”. Otávio fez a inscrição e foi aceito.
O ano era 1972. Assim que iniciou suas atividades na UEL, Otávio
já reclamou um campo de futebol. “Nós começamos com a metade de
um campo, só depois foi feita a outra metade”. Uma de suas primeiras
providências foi convidar as crianças da comunidade para entrar na
escolinha de futebol. “O nosso objetivo era a parte educacional e social,
por isso não era pago. Houve semana que passaram por nós quase
300 crianças”. Entretanto, só um campo, mesmo que inteiro, não
era suficiente para atender todo o grupo. “Tudo o que eu pedia nós
conseguimos. O pessoal da marcenaria fazia as traves, todos ajudavam
como podiam e com o tempo nós conseguimos mais campos. Às vezes
usávamos até o de atletismo”.
Dessa forma, Otávio foi ensinando as lições que aprendeu na
infância por meio do futebol. “O importante é entrar no campo e
não chutar o adversário, não xingar, não brigar, tem que obedecer e
respeitar, ser honesto. Não arrumar confusão”. Ele conta que foi um
jogador disciplinado. Prova disso é a conquista do Prêmio Belfort
Duarte de disciplina. “Ganhei uma medalha de prata do profissional.
Também ganhei uma carteirinha que me dá o direito de entrar em
qualquer campo do Brasil”. Para receber o prêmio é necessário que o
jogador tenha participado de mais de 200 partidas, e não ter sofrido
nenhuma punição durante dez anos. “Não tem mais esse prêmio, hoje
acho que é até impossível”. Otávio revela que grandes talentos foram descobertos na
escolinha. “Aqui na Universidade nós privilegiávamos a formação
educacional. Mas, muitos jogadores foram para times grandes. Um
exemplo é o Wagner – jogou no Londrina, Santos, São Paulo, São João
de Araras e depois no Roma, Itália. Hoje ele mora em Londrina, teve
um problema no joelho e não pôde continuar”.
A lista de craques que começaram nos gramados da UEL, sob a
supervisão de Otávio, é bem extensa. No entanto, seu maior orgulho é
ter mostrado a todas as crianças, que passaram pela escolinha, outras
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
274
possibilidades. Modesto, ele quase não fala das dificuldades superadas.
Mas, de vez em quando deixa escapar que passou muitos finais de
semana na Universidade e às vezes que pagava o passe para as crianças
com o próprio dinheiro. Tudo isso porque ele realmente acredita que “o
esporte é o caminho para transformar, principalmente, o adolescente”.
Otávio está aposentado desde 1993. Não abandonou o futebol,
mas aprendeu a gostar de outro esporte: o atletismo. “Em 2002, quando
eu estava indo jogar uma partida, vi um grupo de pessoas correndo na
rua. E aí eu segui só para ver até onde eles iriam. Acabei encontrando
dois amigos que me convidaram para correr também e eu fui”. Ele
conta que participa de todas as corridas promovidas pela prefeitura
de Curitiba – são seis por ano. Ele conta que até 2006 chegava sempre
em segundo lugar. “Em 2007 comecei a treinar para valer, um treino
intenso”. Naquele ano Otávio foi campeão. “E, por incrível que pareça,
em 2008, dia 19 de outubro foi encerrada a corrida e eu já era bicampeão
antecipadamente”.
Para finalizar ele revela que hoje é homem feliz, pois sempre
conquistou tudo o que desejou. E se Otávio era um craque? “Eu nunca
fui craque, mas era muito dedicado”.
Léia Dias Sabóia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
275
Paulo Roca
Nasceu em Guaxupé, MG em 17/07/1937. Veio
para o Paraná à cidade de Santa Mariana, em
1959. Ficou lá por 9 anos.
Casou-se e mudou-se para Ivaiporã, em um sítio
chamado Quatro Encruzo. Depois de dois anos
mudou-se para Primavera, em São João do Ivaí,
permanecendo por mais 10 anos.
Mudou-se para Londrina em 1978, trabalhando
em uma construção civil chamado TETO,
trabalhando com pedras de mármore e fazendo
tubos de águas e esgoto. “Daí o Paulo vidraceiro
disse que a UEL estava ajustando trabalhadores para a construção.
Vim aqui e já deu certo.”
Começou a trabalhar na UEL em 1981 como servente de pedreiro. Ajudou a construir a APUEL, o TAM, a REITORIA, a BIBLIOTECA, e o
CEFE. O lugar que mais gostou de trabalhar foi no CEFE.
Aqui na UEL aprendeu a ler e escrever na alfabetização de
adultos, tendo mais ou menos 5 anos de aula, “diz a Bíblia que tudo
tem o seu tempo, e eu aprendi a ler e escrever em 1989”.
Trabalhou na UEL por 24 anos, aposentando-se depois por
tempo de serviço. “Se fosse contar o tempo de serviço que trabalhei,
dava pra ter duas aposentadorias. Não tinha nem sete anos de idade e
já trabalhava com o pai no sítio. Mesmo com os mosquitos picando e
com dor de estômago, trabalhava”, conta.
“Os pais educavam os filhos de forma mais severa, queria que
eles trabalhassem. Hoje é diferente, pois esses “baitas” homens na rua
não fazem nada e se a gente vai chamar a atenção quando faz alguma
coisa de errado, eles até xingam a gente”.
Teve três filhos, mas o primeiro morreu. “Hoje tenho um casal:
uma moça e um rapaz”.
O que ele gosta de lembrar era o trabalho da UEL, pois quando
chegava em casa era só dormir e depois voltar para trabalhar. Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
276
Gosta também da cidade de Londrina, embora tenha sido
agredido uma vez, mas “Deus me guardou”.
Hoje, se fosse para voltar a trabalhar, não tem mais tempo, pois
tem muitas coisas para fazer, dentre elas, visita pessoas doentes que
“ficam muito felizes e até melhoram o ânimo quando recebem uma
visita”.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
277
Apaixonado pelo coração
Aposentado recentemente, o médico e professor Pedro Aloysio
Kreling conta como surgiu seu interesse pela Medicina e a
oportunidade de lecionar
Pedro Aloysio Kreling nasceu
gaúcho, em Selbach, cidade próxima
de Carasinho. Mas, seu lar mesmo foi
o Paraná. Pouco antes de completar
seis anos, a família veio para o
norte do Estado, em 1944. A cidade
de Rolândia, colônia de alemães,
abrigou a família de Pedro – também
de origem alemã.
Pedro cursou o primário e o ginasial
em Rolândia. Ele relembra que a
cidade contava com uma população
de 20 mil habitantes. Era a década de 1950 e o auge do café: “O norte
do Paraná cresceu muito”, afirma. No entanto, ela não oferecia mais
opções para quem desejava seguir com os estudos. E este era o caso
de Pedro e de um grupo de amigos. “A possibilidade de progredir na
vida era muito remota. Tinha muitas máquinas de café, o Banco do
Brasil e a Caixa Econômica, não tinha outro futuro”. Eram estas as
possibilidades de trabalho que existiam em Rolândia.
Pedro queria fugir deste destino quase certo. Então, com o grupo
de amigos, decidiu vir a Londrina para prosseguir nos estudos. Mas,
no caminho uma surpresa. “Eu lembro que eles estavam construindo
o asfalto. Nós íamos pelo acostamento, beirando o café. Porque era
só café que tinha aqui. E todos os cafezais totalmente pretos. Onde é
que você olhava, preto. Tudo preto, queimado. A gente achava aquilo
interessante”.
Pedro conta que eles achavam interessante porque eram
meninos e não podiam avaliar o impacto que a grande geada de 1955
teria na economia do Estado. Pedro cursou dois anos do científico em
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
278
Londrina, no Colégio Londrinense. Mas, no ano escolar que antecede
o vestibular, foi para Curitiba estudar no Colégio Estadual do Paraná.
“Tinha sido inaugurado recentemente. Era o maior colégio do Estado e
uns dos maiores do sul do Brasil. Eram linhas modernas de ensino. As
pessoas iam lá ver a construção”. Em tempo de poucas opções, Pedro tinha outra escolha
importante: “Naquela época tinha que escolher entre três coisas: curso
Normal para as moças; e Medicina, Engenharia ou Direito para os
homens”. Decidiu-se pela Medicina.
O primeiro vestibular foi na Universidade Federal do Paraná
(UFPR). “Na primeira tentativa não passei. Eu não fiz cursinho.
Eu estudava o científico à noite, e trabalhava durante o dia para me
sustentar”. Depois de reprovar, Pedro conta que ficou sem saber o que
fazer. Decidiu voltar para Rolândia.
Mesmo querendo fugir do futuro certo, Pedro não teve alternativa.
E, como a maioria dos jovens, começou a trabalhar em uma máquina
de café. Período do qual ele se lembra com saudade e ao mesmo tempo
com receio. Trabalhando na máquina conheceu uns amigos de vida
boêmia: “Era uma turminha meio da pesada. Nós saíamos do trabalho e
íamos fazer um aperitivo todos os dias”. Só que a rotina estava seguindo
um caminho diferente daquele que ele havia planejado. Ele percebeu
que, se quisesse algo mais, deveria tentar novamente o vestibular. E
assim o fez. No segundo vestibular da UFPR foi aprovado no curso de
Medicina. “Fui ver o resultado na Universidade, e comecei a ver a lista
do fim para o começo. Fiquei em segundo lugar. Peguei o lugar 119, e
eram 120 vagas”, conta, orgulhoso.
A festa de comemoração foi em Rolândia, com a família e os
amigos. “Naquele tempo cortava o cabelo e tinha um boné verde
da Medicina. Eu andava de boné verde em Rolândia, todo exibido”,
relembra, concluindo que foi uma aventura. Cursou Medicina de 1959 a 1964 - ano de instabilidade no país.
Pedro, apesar de não atuar diretamente, acompanhava o caminhar
tumultuoso da política. “Eu era do interior e estava mais preocupado
com o meu futuro”. Pedro discursa sobre o período, relembrando fatos
históricos e personagens importantes da época. “Lembro-me bem
quando Marechal Castelo Branco veio para Curitiba, já empossado
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
279
como presidente, primeiro presidente militar. Ele desfilou nas ruas, e a
população toda aclamando. E eu estava na calçada observando”.
“Então eu tinha o título de médico. E me orgulhava disto. A
nossa festa de formatura foi dia 19 de dezembro de 1964. Foi uma festa
bonita”, recorda. A maior parte dos médicos, recém-formados, tinham
como destino o interior - eram os clínicos gerais. Em meados da década
de 1960, começou a surgir uma nova tendência: a especialização.
Pedro e mais alguns amigos resolveram segui-la e foram para
São Paulo. “Desci na rodoviária e liguei para o Hospital de Clínicas”.
Pedro procurava pelo homem que foi referência para a sua conduta
como médico e professor, Luiz Venere Décourt. Estagiou por três anos.
O estágio equivalia à Especialização em Cardiologia.
A Cardiologia teve uma razão toda especial para ser escolhida.
“Meu pai tinha falecido de uma maneira súbita. Eu estava no segundo
ano. Houve um erro médico, ele estava com 58 anos, era novo ainda.
E aquilo ficou no meu subconsciente. Eu acho que foi por esse motivo
que eu escolhi Cardiologia”.
De São Paulo, Pedro veio para Londrina. O ano era 1967. “E estou
até hoje aqui”. São 41 anos na cidade exercendo a profissão em tempo
integral. “Não faço outra coisa”, afirma.
A história com a Universidade também é duradoura. “Em 1969,
eu estava no hall da Santa Casa e encontrei o Dr. Ascêncio Garcia
Lopes. Ele me convidou para ser docente da recém-fundada Faculdade
de Medicina”. E, no mesmo dia, Pedro assinou contrato para lecionar
na UEL. Foram quase 38 anos como docente da UEL, sendo que a
possibilidade de ser professor nunca havia sido cogitada. Todos os
médicos formados na UEL, desde a primeira turma, foram seus alunos. Revelando as características de sua personalidade, Pedro diz
que se adaptou bem à Medicina. “Eu faço Medicina Clínica, que é mais
conversar com o paciente. Você usa muito a entrevista e o raciocínio
clínico. Me adaptei pela minha maneira de ser... Mais pacata, mais
observador”. A família numerosa e religiosa também contribuiu
na formação humana. Característica que preserva como médico e
professor: “Os alunos sempre me cercavam, sempre tinha algum aluno
por perto”.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
280
Eu acredito que fui um bom professor e um bom médico”. Pedro
sente-se realizado, porém, guarda algumas frustrações. Critica a falta
de pesquisa na área da Medicina. “A maior parte das reuniões de que
participávamos, eram sempre discutidos problemas de burocracia,
política. E nunca alguma pesquisa de grande porte, de nível estadual
ou nacional”, reflete. Aposentado recentemente não teve muitas alterações no seu
cotidiano. Agora finaliza uma monografia sobre o coração: “Para sair
da Universidade eu achei que tinha que deixar alguma coisa escrita.
Resolvi fazer uma história sobre a minha especialidade: o coração.
Levantei muitos dados sobre o coração. O significado filosófico, o
simbolismo, o símbolo do profano, religioso, do amor. O coração é um
símbolo universal”. No primeiro semestre do ano que vem, Pedro acredita que já
estará finalizado seu projeto. O nome: “O coração: seus mitos, sua
história, seus males”.
Léia Dias Sabóia
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
281
Para ser um médico
Depois de muito trabalho, Raimundo Nonato Teixeira formouse na sexta turma de Medicina da UEL. O médico voltou
para Londrina como funcionário do hemocentro do HU
“Medicina não é um curso para
pobres”, disse um professor de
Medicina da UEL para o cearense
de Jericoacoara, Raimundo Nonato
Teixeira. O estudante da sexta turma
do curso trabalhava noite sim, noite
não e estudava de dia. Sabia que
Medicina não era um curso fácil,
principalmente para os pobres que
precisavam conciliá-lo com uma
profissão. “Mas eu era teimoso”, lembra hoje o médico.
Raimundo veio para o sul do Brasil com 16 anos. Veio sozinho. Viajou
em pau-de-arara como outros nordestinos. No caminhão, conheceu
uma família que o ajudou, por ele ser “pequeno e magro como uma
criança”.
O destino final de Raimundo era Goioerê, mas ele acabou ficando
em São Paulo. O primeiro emprego foi em uma casa de família. Ele
engraxava sapatos e fazia um pouco de tudo, até ensinava o trabalho
aos empregados mais novos. Mas, com dois anos no emprego e sem
nenhum aumento de salário, Raimundo saiu. “Até este momento minha
vida estava boa, depois eu comecei a fazer um monte de coisas”, conta.
Conseguir entrar no ginásio em São Paulo também foi uma
luta. Raimundo não tinha os documentos da escola rural que tinha
frequentado no nordeste. Lá, ele lembra que as classes tinham aulas
juntas e ele gostava de ser o primeiro a levantar o braço para responder.
Ser o primeiro também era uma forma de evitar a temida palmatória.
Para provar o passado escolar, em São Paulo foi atrás de um professor
que assinou um documento – como se ele tivesse sido o seu aluno até
então. Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
282
Com os documentos, Raimundo pode fazer o exame de admissão
e entrar no ginásio. Enquanto ainda trabalhava em casa de família foi
bem nos estudos. Depois, começou a ir mal e chegou a repetir alguns
anos.
Outra época boa que viveu na capital paulista, lembra Raimundo,
foi quando após o curso de colocador de piso paviflex começou a
trabalhar com isto. E o primeiro salário – um salário mínimo da época
– era um dinheirão para o menino que estava acostumado a ganhar
metade daquilo. “Foi uma alegria”, diz.
Ele foi pegando prática e ficando rápido no serviço, mas como
o pagamento era por metro, conta, eram-lhe dadas mais residências.
Em uma casa a colocação dava o mesmo trabalho e ocupava o mesmo
tempo e assim não precisavam pagar tanto. Desta maneira Raimundo
sentiu-se prejudicado. Também o salário mínimo que antes comprava
muito, depois do início da Ditadura Militar de 1964, teve seu poder
aquisitivo diminuído.
Raimundo também foi servidor estadual de São Paulo. Foi pintor,
eletricista, carregador de caminhão. Quando ele estava trabalhando em
um laboratório no Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público
de São Paulo, não fazia um ano, um médico residente de lá foi convidado
para vir para Londrina, onde Raimundo teria emprego também. Raimundo tinha prestado vestibular em São Paulo um ano
antes e não entrou, então resolveu aceitar a proposta de se mudar
para Londrina mesmo recebendo menos. A intenção dele era cursar
Medicina aqui. E, em 1971, ele entrou na sexta turma de Medicina da
UEL.
Trabalhando no período noturno e estudando no diurno,
Raimundo conseguiu provar que é possível conciliar trabalho e o curso
de Medicina, embora ele se lembre de que ficava muito cansado com
as atividades.
Durante a faculdade, ele conheceu Cândida, na época funcionária
da UEL. Mesmo quando Raimundo voltou para São Paulo para fazer
residência onde havia começado e só tinha sábados de folga, fazia
questão de vir para Londrina de avião para vê-la. Em 1979, Raimundo e Cândida casaram-se e ela foi para São
Paulo. No ano seguinte, o médico serviu como voluntário no exército.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
283
Nos anos seguintes, ele prestou um concurso federal e passou a ter um
vínculo estadual e outro federal.
Mas Raimundo ainda voltaria a Londrina. Jabour,
superintendente do Hospital Universitário da UEL, convidou-o para
trabalhar no laboratório do mestrado e ele veio. Mas conta que não era
possível cuidar de um laboratório sozinho, porque faltava pessoal para
ajudá-lo.
Ainda no primeiro ano trabalhando na UEL, o médico - que
fumava - teve câncer de pulmão. Cândida lembra que o médico de
Raimundo disse que, com a retirada do pulmão direito, ele poderia
viver de dois a cinco anos, caso contrário poderia morrer a qualquer
hora. E faz quase 20 anos que seu marido passou a viver só com o
pulmão esquerdo.
Depois do câncer, conta, ele nunca mais teve a mesma saúde. E o
fôlego diminuiu com apenas um pulmão.
Em 1992, Raimundo foi trabalhar no Hemocentro do HU. Lá,
o médico fazia a triagem dos doadores de sangue, conferindo se eles
tinham peso adequado e avaliando outros critérios, como doenças ou
comportamentos de risco que impedem a doação, poderiam levar a uma,
os remédios que tomavam. O trabalho de Raimundo no Hemocentro,
que ainda era anexo ao pronto-socorro do HU, exigia também que
médico e funcionário fizessem horas extras. Além das coletas no
Hemocentro, havia as coletas externas da qual ele participava.
Ele trabalhou no Hemocentro até 2003, quando descobriu um
problema no coração que o impediu de continuar na atividade. Em
2005, Raimundo aposentou-se da UEL devido a seus problemas de
saúde.
O médico conta alguns casos em que teve a oportunidade de
exercer clínica em São Paulo. Ele lembra de ter diagnosticado um caso
de hanseníase em uma paciente sem vê-la, apenas ouvindo o relato do
pai dela. Depois, esta filha foi agradecer ao médico.
O horário de trabalho de Raimundo o impediu de exercer a
clínica. Hoje, Raimundo e Cândida têm três filhos e uma neta. A filha
mais nova seguiu o caminho trilhado pelo pai e está cursando Medicina
na UEL.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
284
Depois de tanto falar em doenças e em passado, Raimundo revela
seu interesse por outras línguas, como o inglês e o francês, e a curiosidade
em conhecê-las corretamente. Também reclama do descuido com que
a língua portuguesa é tratada nos jornais, que cometem muitos erros.
Uma xícara de café e algumas fotos depois, é hora de se despedir
deste cearense batalhador e de fôlego, mesmo com apenas um pulmão.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
285
Raul Santos de Sá
Nascido em Londrina em 1933, primogênito
de família de descendência portuguesa,
pioneiros da cidade, com seus nomes
gravados, indelevelmente, nos totens
instalados na praça da Concha Acústica.
Na época em que nasceu, Londrina era um
pequeno Distrito de Jataí (atual Jataizinho)
e todos os nascimentos eram lavrados no
Cartório do Registro Civil, daquela cidade.
Seus pais, José Silva Sá e Célia dos Santos
Sá, transferiram residência para Ibiporã, em 1935, onde também
foram pioneiros com comércio de secos e molhados, em cuja cidade fez
o curso primário, participando da primeira turma do Grupo Escolar Dr.
Francisco Gutierrez Beltrão. Lembra-se que nos primórdios da região,
principalmente de 1939 a 1945, época da II Grande Guerra, foram anos
difíceis, já que o Brasil, no rol dos países aliados, passou por uma fase
de racionamento em que tudo era difícil de se obter, como querosene
para iluminação, gasolina, açúcar, farinha de trigo, etc. Foram 6 anos
de muitas privações. Com a falta de açúcar, muitas vezes, o café era
feito com caldo de cana ou adoçado com rapadura. De 1946 a 1949 fez o
curso ginasial no Rio de Janeiro, no Colégio Republicano. Retornando
a Londrina, em 1950, iniciou o curso científico (hoje ensino médio)
no Colégio Estadual Professor Vicente Rijo, à época situado abaixo da
linha férrea. Recorda-se que muitas vezes, tinha que transpor, à noite,
os vagões estacionados no pátio da Estação Ferroviária (atual Museu
Padre Carlos Weiss) para chegar ao Colégio. Casou-se em 1954, na
antiga Catedral, com Ignez Parente de Sá, também filha de pioneiros de
nossa querida Londrina, de cujo enlace, nasceram duas filhas: Fátima
Cristina de Sá e Ana Paula de Sá Pereira, respectivamente, odontóloga
e advogada, formadas pela Universidade Estadual de Londrina (UEL),
sendo a primeira, docente do Curso de Odontologia desde 1987.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
286
Vida Acadêmica:
Primário – Grupo Escolar Dr. Francisco Gutierrez Beltrão –
Ibiporã - primeira turma 1941/1945.
Ginasial – Colégio Republicano – Vaz Lobo - Rio de Janeiro
1946/1949.
Colegial – Colégio Estadual Prof. Vicente Rijo, 1º ano científico
em 1950.
Curso Técnico de Contabilidade – Escola Técnica de Comércio
Londrinense 1955/1957 - Colégio Londrinense.
Colégio Estadual Prof. Vicente Rijo 2º e 3º ano Científico
1961/1962.
Superior – Curso de Odontologia – Faculdade Estadual
de Odontologia de Londrina – FUEL, de 1964/1967
– 3ª turma, tendo sido agraciado com a Medalha de Honra ao Mérito por ter se classificado em 1º lugar durante o
transcorrer do Curso.
No período de sua graduação, já era casado, tinha uma filha e
trabalhava como contador e apesar de todas as dificuldades para
subsidiar o sustento da família, foi agraciado com a “Láurea Acadêmica”,
como melhor aluno durante todo o Curso de Odontologia.
Como penhor de sua gratidão, faz menção especial à pessoa de
José Breno Ferraz, que além da ajuda material, sempre o incentivou na
consecução de seu ideal de se tornar odontólogo.
Como cirurgião-dentista atuou, ininterruptamente, na cidade
de Londrina de 1968 à 1992. A partir desse ano, passou a dedicar-se
unicamente à docência em tempo integral e dedicação exclusiva na
UEL – Universidade Estadual de Londrina.
Como docente do curso de Odontologia, iniciou suas atividades
na antiga Faculdade Estadual de Odontologia de Londrina, como
estagiário voluntário no ano de 1970, na Disciplina de Dentística
Restauradora. Posteriormente, já com a Faculdade Estadual de
Odontologia de Londrina (FEOL) anexada à Fundação Universidade
Estadual de Londrina (FUEL), na mesma disciplina atuou como
Auxiliar de Ensino (1972/73). Em 1975 retornou à docência, ainda
como Auxiliar, passando por todas as classes e níveis até junho de
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
287
2003, quando encerrou a carreira docente, compulsoriamente, na
condição de Professor Adjunto 4.
Como tesoureiro geral e secretário da Associação Odontológica do
Norte do Paraná (AONP) por várias gestões, lembra-se que no início da
construção da sede atual situada à Rua Rolândia, em Londrina, a verba
disponível era escassa e vários empréstimos foram obtidos no antigo
Banco do Estado do Paraná, com o aval sendo feito pelos membros da
Diretoria. Os bens particulares dos mesmos ficavam hipotecados junto
ao banco como garantia dos empréstimos. Por esse motivo, durante
o tempo da construção, sempre que era necessária nova eleição da
diretoria raramente aparecia candidato, sendo os cargos preenchidos pelos mesmos diretores num sistema de rodízio, já que para ser dirigente
da AONP era necessário assumir o aval dos empréstimos contraídos.
Durante os anos de acadêmico de Odontologia (1964/1967), participou
ativamente, como secretário do Centro Acadêmico XXI de Abril, época
em que a sede que situava-se na esquina das ruas Pref. Hugo Cabral
com Piauí, por concessão do governo estadual, foi cedida ao Centro
Acadêmico.
A mensagem que deixa para a família, suas filhas, genro Leonardo
e neto Breno é a de luta diária e incansável baseada em princípios de
honestidade, responsabilidade e ética com que sempre pautou sua vida.
Com muito orgulho deixa aqui registrado neste Portal a sua passagem
de 33 anos pela UEL, como um colaborador na sua construção e
perpetuação.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
288
A visita do vigia
Reginaldo Batista de Souza, vigia do Museu, que não gosta de
sair na rua, veio contar sua história na UEL para o Portal
Reginaldo Batista de Souza é outro
baiano que veio para o sul em busca de
oportunidades e emprego. Foi criado em
Assis (SP), de onde se mudou para Tarumã
(SP), cidade em que começou sua família
casando-se com Maria de Lourdes Souza.
Para o Paraná, a família veio depois que
Reginaldo comprou uma chácara de café em
Sertanópolis. Ele conta que a produção de
café já estava decaindo. Plantou soja no lugar, que venderia depois de
uns anos.
Reginaldo tinha experiência de três meses em uma empresa de
segurança em Londrina, mas não gostou do serviço. “Eu pensava, eu
não sou cachorro, e acabei voltando para a chácara”. Então, quando um
amigo lhe contou que a UEL estava contratando resolveu tentar a vaga.
A foto para a ficha foi tirada pelo lambe-lambe do bosque, e
Reginaldo já estava na chácara quando a filha lhe deu a notícia de
sua convocação. No primeiro dia de serviço, com a marmita pronta,
e depois do encontro com o chefe da segurança, cada vigia foi deixado
em um posto. “Fiquei por último, lá no NUBEC [hoje SEBEC, Serviço
de Bem-Estar à Comunidade]”.
Do Nubec, Reginaldo passou pelo CEFE (Centro de Educação
Física e Esporte) e foi transferido para o Museu Histórico, quando
ele ainda funcionava nos porões do Colégio Hugo Simas. Na estação
ferroviária, a nova casa do Museu, o vigia continuou até a aposentadoria.
O trabalho ficava perto de casa e ele fazia, praticamente, o horário
comercial. Da época em que o Museu não tinha grades, Reginaldo conta
que tinha que tirar pessoas que dormiam na plataforma e também
usuários de drogas.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
289
Em 2000, Reginaldo sofreu um acidente vascular cerebral (AVC)
e depois de passar por perícia aposentou-se por invalidez. Ele conta
que agora fica a maior parte do tempo em casa, e só sai quando assume
um compromisso.
Quando não tem com quem competir, Reginaldo fica treinando
sozinho escopa, um jogo de cartas. Também tem a sua preferência no
rádio, o sertanejo.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
290
Olhar para frente
A aposentadoria da professora de Psicologia Romilda Aparecida
Cardioli dos Santos serviu para novos planos e horizontes
Londrinense,
Romilda
Aparecida
Cardioli dos Santos estava na segunda
turma de psicologia da Universidade
Estadual de Londrina. No dia de
sua formatura, uma amiga ouviu
um comentário de que Romilda
seria convidada para dar aula na
Universidade.
Na segunda-feira seguinte, a recémformada levou seu currículo no departamento e na mesma semana fez
a entrevista. Veio o convite para trabalhar como professora e no dia 13
de fevereiro de 1978 Romilda assinou seu contrato. ‘Saí pela porta de
aluna e entrei pela de professora’, relembra.
Após os cinco anos de graduação, a professora ficou mais 26 anos
lecionando até a aposentadoria em 2004. Romilda diz ter passado ‘pelas
mãos de todos’ - fundadores do curso, professores mais antigos - e
considera que foi ‘filha deles’. Também vê que o curso foi se ampliando
e fornecendo uma visão de vida além da Instituição.
Os anos de ensino de Romilda foram em Psicologia Social. A
professora explica a área com comparações, nas quais cada pessoa é um
conjunto de personagens inseridas em uma perspectiva sócio-histórica
dialética. Cabe então a esta Psicologia estudar o comportamento
afetando as relações sociais. ‘O elemento na instituição é o objeto
de estudo da Sociologia. Os vínculos, como eles se constróem e se
desfazem, o conjunto de papéis, são objetos da Psicologia Social’.
Assim, conclui Romilda, o direito de um não pode invadir o direito
de outro. E o que é público exige de todos mais responsabilidade por ser
de todos, do que permite direitos. Para a professora, a responsabilidade
de usufruir com consciência do que é público faz parte do ser cidadão.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
291
A professora responsabiliza a UEL por tudo o que tem: amigos,
conhecimento, perspectiva e vida. A Universidade, diz Romilda, ‘além
de um pilar é uma grande amiga minha’. De Ascêncio Garcia Lopes a Lygia Puppato, Romilda teve
acesso a todos os reitores enquanto esteve na UEL. Participou da vida
universitária e sindical mesmo sem ter exercido outra função que não
a de professora.
Ela conta que durante as greves - ‘gigantescas’ - praticamente
toda a Universidade se envolvia. ‘Grande parte das nossas assembleias
era no Ouro Verde ou no setor esportivo, e lotava’, lembra. O auditório
do CCB, o Pinicão, era pequeno para estes eventos e só era usado para
informes.
As discussões, lembra a professora, não giravam apenas em torno
da questão salarial, mas também das condições de trabalho, do papel
do Hospital Universitário - ‘e os funcionários do HU vinham para a
UEL discutir’ - e da Biblioteca Central.
Os alunos apoiavam os professores e funcionários, o que, segundo
Romilda, demonstrava o envolvimento entre professores e alunos.
A professora fez questão de lembrar que as mudanças na
UEL foram acontecendo gradativamente. As gerações foram se
aposentando, alguns até morreram. A abstenção na política também
é um fator responsável. Abstenção a que Romilda credita à mesma
responsabilidade de uma ação: ‘a abstenção é o voto do covarde, minha
filosofia foi não me abster’.
Mas, depois de tantos anos lecionando e vivendo a UEL, Romilda
decidiu aposentar-se e apostar no sonho de morar no exterior. Foi
então para a Inglaterra, com marido, filha, irmão, sobrinhos e sua mãe.
De 2004 para cá Romilda já esteve lá três vezes. Trabalhou em
uma fazenda de flores, em uma fábrica de embalagens e em distribuidora
de brinquedos. No exterior, a professora esteve em contato com pessoas de
lugares diferentes, brasileiros com pouca instrução e chegou até a
morar com uma ex-aluna, que conseguiu trabalho para Romilda e o
marido.
‘Não é só porque minha vida na UEL foi boa que tem que durar
para sempre’, diz a professora que encerrou esta fase em sua vida.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
292
Aos 13 ou 14 anos de idade, Romilda recebeu uma frase de uma
amiga: se você ver uma estrela e não seguir pensando que ela pode te
levar ao pântano e dele não conseguirá sair, lembre-se de que pode
perder a chance de seguir a estrela que seria a luz da sua vida.
E a professora continua aproveitando as suas chances - ou
estrelas - sem medo, para não se arrepender depois de perdê-las. “Tudo
na minha vida é chance”.
Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
293
Funcionária vitoriosa
Entre muitas dificuldades, Rosa Magalhães superou o preconceito
e provou que era capaz de chegar à universidade como aluna e
funcionária
“Eu venci”. Essas duas palavras, pequenas
no tamanho, mas enormes no significado,
permeiam toda a nossa conversa com a técnica
de biblioteca Rosa Magalhães de Medeiros.
A história de sua vida confirma claramente
estas palavras e demonstra que o orgulho
demonstrado procede e suas conquistas são
mais do que merecidas.
De origem humilde, desde cedo Rosa precisou
trabalhar para ajudar a família e isto em uma
época em que se acreditava que as mulheres não precisavam estudar.
Após concluir a quarta série primária e até mesmo passar pelo exame
de admissão – uma prova para ingressar no ginásio – Rosa foi impedida
pelo pai, que acreditava naquela concepção machista, de continuar os
estudos. Assim, o sonho de ser professora teve que ser abandonado,
mas a vida ainda levaria Rosa de volta aos bancos escolares.
Trabalhando como costureira em confecções da cidade, Rosa
casou-se e teve os quatro filhos, até que surgiu um concurso estadual
para trabalhar como auxiliar de serviços gerais em um colégio da
cidade. Aprovada, ingressou no Colégio Antônio de Moraes Barros
nesta função. “Mas como eu sou bem extrovertida, eu logo passei a
trabalhar como inspetora de alunos. Já saí da limpeza – acho que eu
trabalhei dois anos na limpeza –, aí eu comecei a sentir preconceito
(...), porque eu trabalhava na área de educação e [era] uma pessoa que
não tinha estudo”, relembra. Porém, como diz o ditado, “há males
que vêm para o bem”. Antes de se calar e aceitar o preconceito, Rosa
resolveu dar a volta por cima e decidiu: “Eu vou provar que sou capaz
também”.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
294
De volta à escola
Decidida a retomar os estudos, Rosa teria um longo caminho a
percorrer. E ele não seria fácil, mas daria um outro sabor à conquista.
Para vencer, Rosa enfrentou vários adversários. Um deles foi a própria
família.
Estudando no antigo CES – Centro de Estudos Supletivo e hoje
CEEBJA –, o primeiro desafio que Rosa superou foi o ciúme do marido,
que a pressionava para que desistisse de estudar. “Quando eu me
aprontava para ir lá [no CES] ele brigava e falava que achava que eu
não ia estudar (...). Eu chorava lágrimas de sangue, ia chorando pelo
caminho, mas [pensava] ‘não vou desistir’, porque o preconceito que
eu sentia era muito grande”, explica.
Além do marido, Rosa encontrou resistência da própria filha,
que também não concordava com sua retomada dos estudos. “Minha
filha mesmo, quando eu me formei, ela falou ‘para quê que você quer
diploma? Só se for pra pôr no seu túmulo’”, relembra. Mesmo assim,
Rosa não desistiu e terminou o ensino médio em 1993. No mesmo
ano prestou vestibular na UEL e foi aprovada. Como estudante de
biblioteconomia começava mais uma batalha a ser vencida.
O dia inteiro na UEL
Fazer faculdade pela manhã, trabalhar tarde e noite no colégio
como inspetora de alunos, auxiliando na biblioteca e na secretaria, e
cuidar da casa, do marido e dos filhos. A rotina de Rosa não era fácil.
“O marido sempre exigente - que eles fazem isso para pressionar, para
ver se você desiste, só que eu não desisti, fui em frente”.
E logo surgiu a oportunidade de trabalhar na UEL, quando
Rosa foi aprovada em dois concursos – para agente administrativo
e auxiliar de biblioteca. Mas, quando foi chamada para o segundo
cargo, na área de biblioteconomia, já estava trabalhando como
agente administrativo, onde o salário era melhor. Nesta função, Rosa
trabalhou nos Departamentos de Educação e de Biblioteconomia, cada
período em um deles. “Mas aí eles acharam que não era muito legal
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
295
porque eu estava fazendo o curso e de repente tinha acesso a alguma
informação, à prova, essas coisas. Aí eu acabei ficando as oito horas no
departamento de Educação”, explica.
Assim, a vida de Rosa era passar os dias na Universidade.
Trabalhava até às 11 horas da noite e no dia seguinte estava de volta
pela manhã, para dar continuidade à faculdade de biblioteconomia.
Durante o curso, precisou enfrentar problemas familiares que fizeram
com que a filha e o marido saíssem de casa. Todo esse estresse deixou
Rosa doente no último ano da faculdade. “Olha, para você ver o tumulto
que foi a minha vida! Mas eu não desisti e acabei vencendo”, comenta.
A motivação de Rosa para vencer o preconceito era maior do
que as dificuldades que precisou enfrentar durante a faculdade. A
arrogância com que era tratada pela chefia quando trabalhava no
colégio levou Rosa a se superar e mostrar que era capaz. “Elas falavam
‘Ah, mas quem mandou vocês não estudarem? Vocês têm que obedecer,
porque vocês não estudaram. A gente está aqui porque estudou, porque
sofreu’. E hoje eu tenho certeza que eu tenho mais estudo que algumas
daquelas que estavam lá”.
No trabalho, a vida de Rosa não era diferente. Durante o estágio
probatório – período de teste para os servidores contratados como
efetivos – precisou exercer funções que não eram suas, como fechar
portas e banheiros. Em sala de aula, mais uma vez Rosa foi vítima de
preconceito, mas agora por ser a aluna mais velha da turma. Apesar
de ter o apoio dos professores, precisou superar a rejeição de algumas
colegas. “Pode dizer que não existe, mas existe o preconceito de uma
pessoa mais velha em sala de aula junto com os mais jovens. E eu senti
isso na pele”, confessa.
E foi superando todas estas dificuldades que Rosa conseguiu
o diploma de bacharel em Biblioteconomia em 1997. Com uma nova
profissão, Rosa partiu para outro setor – aquele sobre o qual estudou
durante quatro anos: a biblioteca.
A recompensa entre livros
Assim que se formou, Rosa pediu transferência para a biblioteca
da UEL, mas, segundo ela, a chefia do Departamento de Educação
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
296
só a liberou quatro anos depois. Quando mudou de setor, foi para a
Biblioteca Central do campus. Na Biblioteca Setorial de Ciências
Humanas, Rosa trabalhou somente durante um mês, logo depois que
esta foi inaugurada.
Como técnica de biblioteca era lotada no setor de referência,
mas também trabalhava meio período na circulação, atendendo no
balcão, realizando empréstimos e recebendo devoluções de livros. No
outro meio período, quando estava no setor de referência, o serviço era
guardar os livros consultados, atender usuários, encontrar para eles
as obras de referência – que são aquelas que não saem da biblioteca,
como os dicionários e as enciclopédias, por exemplo – e fazer pesquisas
on line, ou seja, busca por artigos, monografias, dissertações, entre
outros, em diferentes bibliotecas ou bases de dados.
Mas, afinal, porque a biblioteconomia? Entre tantas outras
opções de cursos, o que a teria levado a escolher justamente este?
Rosa explica que desde jovem desejava ser professora, mas quando
começou a trabalhar no colégio também ajudava na biblioteca e,
portanto, na hora de escolher o curso, optou pela biblioteconomia por
já estar envolvida com esta área. “E eu gostava de mexer com os livros,
trabalhar na biblioteca, por isso eu escolhi [biblioteconomia]. Só não
consegui ser bibliotecária mesmo, no papel”, explica.
Durante boa parte do período em que Rosa trabalhou na UEL
depois da formatura, não foram realizados concursos para a contratação
de bibliotecários e, assim, mesmo realizando os mesmos serviços destes
profissionais, Rosa nunca foi registrada como bibliotecária. Porém, no
último ano antes da aposentadoria, em 2008, a Universidade abriu
concurso interno para a área de biblioteconomia e, apesar de ter feito a
inscrição, Rosa não participou da seleção e se aposentou, em 2009, sem
ter sido bibliotecária oficialmente. “Se eu tivesse feito [o concurso] eu
teria me transformado em bibliotecária, que era o sonho, eu estudei para
isso, só que, como se passaram 10 anos sem ter um concurso interno
nem nada, quando teve eu não quis fazer (...) porque aí eu teria que
trabalhar mais cinco anos para me aposentar como bibliotecária”,
explica.
Assim, em 2009, depois de trabalhar 34 anos, registrada, - 13
deles na UEL -, Rosa se aposentou. Além do tempo de serviço, outros
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
297
motivos a levaram a tomar essa decisão, como a falta de tempo para
ficar com os pais e os netos. Mesmo assim, Rosa ainda pretende voltar a
trabalhar. Junto com o conhecimento adquirido nestes anos de estudo, a
faculdade também trouxe recompensas financeiras, provando que todo
o esforço valeu a pena. “Graças a Deus eu achei que foi legal, que me
aposentei bem até, mas tudo graças a meu esforço, porque se eu tivesse
ficado desde quando eu entrei lá no colégio naquele marasmo, não ter
voltado a estudar, hoje eu teria me aposentado com muito menos (...),
então eu acho que valeu muito a pena eu ter estudado”, analisa.
Aposentadoria só no papel
Além da faculdade, Rosa também fez uma pós-graduação em
Comunicação Empresarial, tornando-se um exemplo na família. Entre
os irmãos e cunhados, ninguém continuou os estudos. Porém, os filhos
de Rosa seguiram o exemplo da mãe e hoje dois deles são formados
em Administração, um filho é formado em Ciências Contábeis –
este também pela UEL – e cada um deles tem duas pós-graduações.
Somente a filha mais nova não quis continuar os estudos.
E como muitos funcionários da instituição, Rosa esteve envolvida
com as diversas extensões da universidade. Os netos ficaram na creche
e na ludoteca da UEL, uma nora trabalha no Hospital de Clínicas (HC)
e a própria Rosa participou de atividades físicas do NAFI (Núcleo de
Atividades Físicas), além de cantar até hoje no Coro do Campus. Tudo
isso fez com ela criasse laços de amizade em vários setores do campus.
Deixar a UEL não foi fácil, mas era preciso parar por um tempo. Porém,
essa funcionária vencedora pretende voltar e chegar ainda mais longe.
“Eu nunca esperava que eu fosse ter uma experiência tão bacana assim
na minha vida (...), mas graças a Deus e ao meu esforço também eu
consegui ir mais alto do que eu almejava. Ainda não parei aqui (...),
ainda quero, de repente, ser docente no departamento de bibi [apelido
carinhoso para “biblioteconomia”], fazer um mestrado ano que vem,
até esse final de ano já começar a pensar em alguma coisa, mas não
parar por aqui não. (...) Eu só estou de férias!” E a gente aguarda
ansiosamente o seu retorno, Rosa!
Rosane Mioto
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298
Um ano de Aposentadoria
O professor Rubens Ferreira Dias Júnior, do CCA, fala de sua
vida na UEL e de como foi deixar as aulas
Em 1971, aos 18 anos de idade, Rubens
Ferreira Dias Júnior começou a trabalhar
na antiga Faculdade de Medicina
como auxiliar de laboratório. Era seu
primeiro emprego dele. Com a criação da
Universidade e de novos cursos, prestou
vestibular para medicina veterinária e em
1973 começou as aulas. “Eu nunca pensei
em mexer com animal”, confessa ele. A
intenção era, desde o princípio, trabalhar
com análises clínicas.
Naquela época o estudo na Universidade era pago e, como ele não
tinha dinheiro suficiente, a Universidade ofereceu uma bolsa-trabalho.
Rubens fazia plantões de noite no laboratório, que já funcionava no
Hospital Universitário da Rua Pernambuco, e frequentava as aulas em
período integral.
Rubens entrou na primeira turma de Veterinária da UEL, mas
se formou com a turma posterior por causa da grande mudança de
currículo que houve durante o curso. Com um mês de formado, em
1977, ele iniciou como professor na Universidade.
Em 1982 o professor começou o mestrado na Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). O doutorado foi na UEL,
na primeira turma de Sanidade Animal, entre 2002 e 2004. A tese de
Rubens foi a primeira a ser defendida no programa.
Ele afirma que encarava com tranquilidade a profissão. Foram
30 anos dando aulas, o que nas contas dele significa que cerca de dois
mil alunos frequentaram as suas classes. Rubens destaca que, se fosse
para classificá-lo com algum nome, seria relacionado à família de
veterinários, pois depois dele sete parentes próximos fizeram o curso. Rubens deu aula a sua irmã, sobrinha, três primos e dois dos três
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
299
filhos. Ele chegou a ser colega de turma do filho, quando cursaram
disciplinas juntos, o pai para o doutorado e o filho para o mestrado. A
família de veterinários chegou a ser destaque no jornal Notícia da UEL
em 2002.
Rubens Dias Junior nasceu em Ibiporã, mas com dois anos de
vida seus pais se mudaram para a Vila Nova, de Londrina, onde passou
quase toda a vida. “Até agora, eu não estou lá, mas fico lá perto”. O
professor fez o primário no Colégio Nilo Peçanha e o ginásio e colegial
no Vicente Rijo antigo.
A aposentadoria, depois de 35 anos na Universidade, é
considerada um prêmio pelo professor. Ele ressalta que o funcionário
público tem vantagem sobre os demais trabalhadores por se aposentar
recebendo o mesmo salário de quando estava trabalhando, o que
possibilita a dedicação a alguns passatempos.
Rubens não quis voltar a trabalhar. Ele acredita que a
aposentadoria exige uma preparação, caso contrário corre mesmo o
risco de ficar deprimido. “A pessoa tem que se preparar e realmente
tentar fazer aquilo que gosta, ampliando o horizonte. Para o casamento,
por exemplo, você se prepara, para a aposentadoria também é preciso.”
Na preparação do professor foi incluída a compra de dois carros
antigos. “São carros antigos, e não velhos, tá?” Ele conta que gosta de
mexer na mecânica simples, arrumar os carros, participar de desfiles e
encontros. E brinca que só não tem mais carros porque a mulher não
deixa.
Ele também gosta de músicas da década de 1960, que tocavam nos
rádios à válvula de antigamente, filmes de bangue-bangue e românticos
de época. Com o auxilio da Internet e do computador Rubens assiste
vídeoclipes das músicas e cataloga o arquivo.
Pouco mais de um ano de aposentadoria já fez o professor refletir
nas melhoras que a sua vida teve. Além de possibilitar tempo livre para
os passatempos e viagens, Rubens afirma que também pode praticar
algum esporte, visando melhorar a saúde. Ele começou a deixar mais
o carro na garagem e caminhar, assim como dominar o tempo com
maior tranquilidade, sem tanto nervosismo. No entanto, o aspecto
mais importante foi aproximar-se da família e da religião. Poliana Lisboa de Almeida
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
300
Sadi Chaiben
Como discente
Em 1970 entrei no curso de Economia,
trancando matrícula em junho do mesmo ano
por motivos familiares. Em 1983 matriculei-me
no curso de Ciências Contábeis formando em
dezembro de 1986.
Como docente
Em fevereiro de 1987 fui, com muita honra,
convidado para pertencer ao quadro de professores do Departamento
de Ciências Contábeis, aposentando em 2000 para cuidar da atividade
profissional (Auditoria Independente), continuando ministrando aula
de Perícia Contábil e Auditoria em cursos de pós-graduação.
Como assessor
Em agosto de 2001 fui novamente, com muita honra, convidado
pelo então reitor Dr. Pedro Gordan, para assessorar, montar e
treinar uma equipe para a Auditoria Interna, ocupando o cargo de
Assessor. Mesmo prejudicando a atividade profissional aceitei o cargo
como uma forma de recompensar à UEL por tudo aquilo que me
proporcionou na vida acadêmica, como docente e profissionalmente,
independentemente da baixa remuneração.
Em 2002 a magnífica reitora Lygia Lumina Pupatto, solicitou
que continuasse o trabalho, ficando até o término da sua gestão. Em
seu mandato estendemos a Assessoria de Auditoria Interna ao Hospital
Universitário, onde ocupei o cargo de Assessor.
Em junho de 2006, o então reitor solicitou a colaboração onde
permaneci até outubro de 2007.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
301
Entendendo que a missão que me solicitaram estava cumprida,
e precisando dedicar um tempo maior a minha atividade profissional
solicitei exoneração, deixando, graças a ajuda de outros professores do
Departamento de Ciências Contábeis, a Assessoria de Auditoria Interna
com uma equipe técnica treinada e atualizada, com uma organização
dos papéis de trabalho, uniformização dos relatórios de auditoria,
pareceres e orientações.
Mensagem
Sempre que necessário sentirei honrado em poder contribuir
com a nossa Universidade Estadual de Londrina.
Levarei para sempre o orgulho de poder ter pertencido ao
Departamento de Ciências Contábeis e colaborado com a Assessoria de
Auditoria Interna da minha querida UEL.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
302
Zeladora de coragem
Com muita determinação, a zeladora Sebastiana Pereira venceu
todas as dificuldades que a vida lhe apresentou. Hoje, ela curte a
aposentadoria com os filhos e netos e conta um pouco da sua história
de mais de 17 anos de dedicação à UEL
O sorriso é fácil e o bom-humor é comum a
poucos. Nos primeiros minutos de conversa com
a ex-zeladora do Centro de Ciências Biológicas
da UEL (CCB), Sebastiana Pereira, é pouco
provável alguém perceber o quão difícil foi o
começo da história dela e da família que veio
a Londrina na década de 1970. Para vencer os
obstáculos e hoje curtir a aposentadoria ao lado
dos cinco filhos e 11 netos, a servidora aposentada não deu espaço a
lamentações. Em vez disso, teve na coragem a sua principal aliada.
Meados de 1976. Aos 39 anos de idade, Sebastiana desembarcava
em Londrina com os cinco filhos. O mais novo ainda necessitava de
colo. Deixou para trás as lavouras de café e algumas más lembranças
em Miraselva (a 70 quilômetros de Londrina) para tentar a sorte numa
cidade maior. A viagem esteve longe de ser das mais agradáveis... “Vim
na carroceria de um caminhão basculante, com os meus cinco filhos.
Não conhecia nada aqui, mas eu precisava muito arrumar um emprego
para sustentá-los”, recorda-se.
Mas antes de dar início à sua história, talvez na tentativa de
“emoldurar” tudo que estava prestes a contar, ela oferece uma das suas
especialidades nos tempos de UEL: uma aconchegante xícara de café.
“Tudo que eu fiz, todos aqueles cafezinhos que eu caprichava para os
professores, todo o trabalho que eu fazia na UEL era como se fizesse
para o meu filho”, adianta.
E é bom não duvidar dessa senhora de 73 anos quando fala em
devoção aos filhos e netos. Aficionada por futebol, é corintiana com
convicção, daquelas que seguem os desdobramentos de uma partida até
tarde da noite. Também não deixa de acompanhar os jogos de futebol
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
303
do time em que joga o neto e o genro nos campeonatos na Associação do
Pessoal da Universidade Estadual de Londrina (Apuel). E o “incentivo”
por bons resultados deixa muito dirigente de futebol de olho na receita.
Para cada gol feito pelo “time da família”, ela paga uma cerveja a ser
desfrutada depois do “embate”. Promessa que às vezes pode sair cara,
já que ela conta que passou apuros em uma recente partida quando a
equipe “dela” aplicou uma implacável goleada de 9 a 1 nos rivais.
Um teste inusitado
Assim como o café, a história é boa. Sebastiana conta que, antes de
completar o primeiro mês de estada em Londrina, já estava empregada
na UEL. Sorte? Talvez. O fato é que novamente a até então lavradora
precisou pôr sua astúcia à prova. Em busca de emprego, chegou até
o campus da Universidade, um lugar muito diferente da beleza que
exibe hoje. “Ali onde era o Hospital de Clínicas (HC), só tinha mato. Só
tinha a morfologia e a reitoria, o CCB [Centro de Ciências Biológicas],
o CCH [Centro de Ciências Humanas] e o CESA [Centro de Estudos
Sociais Aplicados]. Hoje, a UEL parece uma cidade!”, compara. Em
meio ao mato, ela chegou até o CCB, onde avistou algumas zeladoras e
um funcionário - a quem depois ela veio a conhecer como “Nelsinho”
– conversando e tomando um pouco de sol para se proteger do frio
que fazia. Uma oportunidade e tanto para ela. “Cheguei, entrei no meio
deles e disse: ‘eu sei que vocês não me conhecem, mas eu estou aqui
porque preciso muito de um ‘padrinho’, de batismo ou de crisma”,
disse em tom de brincadeira, em referência à sua necessidade de ter
um emprego. “Vim de Miraselva sem nada, só com os filhos. Quero
trabalhar para dar recursos a eles”, complementou.
O amistoso e sincero apelo da ex-lavradora parecia ter dado
certo. O grupo que tomava sol deu a boa notícia de que havia uma
vaga para zeladora no Centro. Mas, após vencer a timidez, Sebastiana
teve que passar pelo teste que consideraria depois como o mais difícil:
a morfologia. Vinda de uma família bastante tradicional e apegada
a costumes religiosos, nunca havia sido “apresentada” a um cadáver
em uma mesa de laboratório. “Nelsinho” foi o idealizador do “teste”
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
304
para medir até onde ia o ímpeto da candidata à vaga. “‘A senhora tem
coragem?’, ele perguntou pra mim em tom desafiador. Eu retruquei:
‘claro que eu tenho!’, recorda-se. Mas logo ela esclarece o que sentiu
naquele inusitado teste. “Na verdade, eu tinha um receio imenso de
estar naquele lugar. Eu era muito ignorante. Fui criada numa época
em que tudo era pecado. Só que a necessidade era maior”, relembra.
“Assim que ele levantou o plástico e eu vi aquele corpo nu, sem vida,
fiquei com medo e ao mesmo tempo muita vergonha, por ver um corpo
naquelas condições e ao lado de uma pessoa que eu nem conhecia.
Nunca tinha visto um cadáver nu antes! Tive muita vergonha, mas
precisava do trabalho. Fiz de conta que estava corajosa”, confessa. Vitoriosa no desafio, Sebastiana foi apresentada para o “doutor
Ivan” [Ivan Giacomo Piza, diretor do centro à época]. “Aí foi por Deus!
Ele gostou de mim e dali 28 dias eu estava empregada. Quando recebi
a notícia de que fui contratada, saí pulando de alegria, brincando até
com os capins mais altos daquele mato da UEL de tanta felicidade!
Eu realmente necessitava de trabalho!”, conta. Tempos depois, fez o
concurso e passou de celetista a servidora pública.
Desempenho nota 10
Aqueles que visitam a residência de Sebastiana hoje, além da
hospitalidade e de boas histórias a ouvir, também têm privilégio de
observar um belo jardim cultivado pela aposentada. Gosto pelas flores
que também era percebido no seu ambiente de trabalho. Levava para
o CCB mudas de rosas, samambaias e até as mesas das secretárias não
ficavam sem o mimo.
Mas nem tudo eram flores. A rotina começava cedo e, às quatro
horas da manhã, ela já estava acordada. Não havia ônibus no horário
e como iniciava o expediente às seis horas, ia a pé até o campus. Sem
perder tempo, começava as atividades do dia. “Chegava, batia o cartão
e já saía para trabalhar. Às vezes largava quem quisesse ficar batendo
papo lá e me mandava pra fazer o serviço. E caprichava!”, orgulha-se.
E não para por aí: “Eu e as demais zeladoras tínhamos avaliações a
cada seis meses. Cada departamento dava nota para o funcionário. E
em todas eu ganhava nota 10! Todas!”, gaba-se.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
305
Mesmo no ambiente de trabalho havia espaço para descontração.
Conta que quando havia alguma zeladora do CCB fazendo aniversário, gostava de recolher um dinheiro com as demais companheiras de
trabalho para comprar uma recordação para a aniversariante. Nas
festividades de fim de ano, construía presépio e levava no natal. Seu
nome também nunca faltava dentre os participantes do “amigo secreto”
entre professores e demais servidores do setor. “Sempre procurei ser
animada. Eu chegava cantando no meu trabalho, para me distrair e
preencher o meu espírito. Só não cantava nos horários de aula, para
não atrapalhar”, brinca.
Quanto ao segredo para tamanha alegria, ela explica: “Nunca
cheguei com cara feia para trabalhar. O trabalho com alegria rende, a
gente ultrapassa barreiras quando trabalha com alegria. Também sabia
da minha necessidade, por que eu precisava do emprego. Eu tinha que
cuidar dos filhos, buscar o sustento deles”, encerra.
Derrubando a crítica
Um dos pontos que Sebastiana destaca na sua passagem pela UEL
ocorreu em meados da década de 1980, mas que ela ainda guarda na
lembrança e conta com riqueza de detalhes. Recém-filiada ao sindicato
de sua categoria, ela lia um jornal da entidade que fazia oposição à
administração do reitor Marco Antonio Fiori. “No jornal, havia muitas
críticas ao reitor. Em uma delas, dizia que as zeladoras não tinham
condições de ir nem à porta da reitoria, não era possível sequer falar
com o reitor”, lembra. Aquelas palavras entristeceram Sebastiana, mas
foram suficientes para instigá-la a “investigar” o caso.
A oportunidade de esclarecer a história surgiu num evento que
ocorreu no CEFE (Centro de Educação Física e Esporte). De acordo
com Sebastiana, ela foi a esse “congresso” que contou com a presença
do reitor e do governador do Estado, José Hosken de Novais. A exzeladora ainda guarda na memória o discurso de Fiori no evento. “Ele
falou que para ele a Universidade era uma verdadeira família, tinha
valor tanto aquele que estava com o seu balde e o seu rodinho quanto o
professor doutor”, declama. Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
306
A contradição entre o discurso do reitor e as linhas do jornal
foi determinante para ela ir a fundo no seu intento. “O doutor Barros
[Manoel Barros de Azevedo, diretor do CCB de 1980 a 1982] estava no
evento e veio me cumprimentar. Ele estava próximo ao reitor, então
aproveitei a chance e perguntei ao reitor se eu podia ir lá conhecer o
gabinete dele”, relembra. Prontamente, Marco Fiori abriu a agenda e
marcou o encontro.
Três dias depois, Sebastiana visitava pela primeira vez o gabinete
do regente da Universidade. E não faltou ansiedade até o momento.
“Cheguei às 10 horas, horário que estava marcada a visita e pensava:
‘o que eu vou falar para ele? Eu não tenho leitura, vou falar tudo
errado! Não deveria ter feito isso [solicitado a visita]! Não posso falar
bobagem!’, temia. Mas, temores à parte, a conversa não poderia ter
sido mais agradável. “Conversamos e fui falando que estava contente e
feliz com a instituição. Também contei a história do jornalzinho, disse
a ele que pensei naquilo que foi escrito”, revela. Sebastiana também
foi enfática quando deu sua visão quanto à crítica que leu e ao papel
do reitor em uma instituição: “O senhor aqui é como um pai de toda
a universidade, dos docentes, dos funcionários, dos alunos... É um pai
para mim. E se a gente não pode chegar perto de um pai, o que a gente
pode fazer?”, opinou diante de Fiori.
As palavras da funcionária pareciam ter comovido o administrador
máximo da instituição que, segundo Sebastiana, replicou: “Ah, se todas
as pessoas que fizessem uma crítica viessem como a senhora: ver se
realmente é verdade. A senhora teve coragem, veio aqui conversar
comigo. Parabéns! Pode vir aqui quantas vezes quiser”. Em seguida,
ela conta que ele se levantou e dirigiu-se a um armário. “Vou lhe dar
um presente”, teria dito. Dele, Fiori tirou um disco de Vinil (LP) com
interpretações do Coral da UEL e deu de presente à zeladora. “Deu até
um autógrafo no envelope que protegia o disco”, brinca Sebastiana.
“Cheguei em casa e já coloquei para tocar e colocava outras muitas
vezes. Quase que acabei com o disco de tanto ouvir!”, conta aos risos a
aposentada. “Foi o momento que fiquei mais feliz na UEL”, reconhece.
O disco que Sebastiana recebeu de presente é o segundo LP do
Coral da UEL, já sob a regência do maestro Othonio Benvenuto. Foi
nessa época que o Coral passou a se destacar no cenário nacional,
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
307
quando em 1980 foi vencedor do Concurso de Corais do Rio de Janeiro,
promovido pelo Jornal do Brasil. Criado em 1972, na administração do
reitor Ascêncio Garcia Lopes, em 2003, passou a contar com 12 grupos
corais que integram hoje o “Movimento Coral da UEL”. Também foi
quando recebeu a “Comenda Ouro Verde”, uma das mais importantes
honrarias do município de Londrina. Desde fevereiro de 2008, a
regência do Coral é do professor Jailton Paulo Santana.
Eu nunca vou te abandonar
Os cuidados com as vistosas flores do jardim e uma coleção de
canários são os principais compromissos de Sebastiana hoje. Também
capricha no bordado que é colocado com harmonia em cada canto da
casa e de vez em quando viram um rendimento extra no fim do mês. Na
estante da sala, os vários retratos mostram a trajetória dela e da família,
histórias que se confundem com a da UEL. Uma de suas três filhas, por
exemplo, pouco tempo depois de a mãe ter conquistado o emprego, foi
aprovada em concurso e igualmente passou a ser funcionária da UEL,
auxiliar de enfermagem no HU. Um dos dois filhos, que já foi aprendiz
na instituição, hoje enche a mãe de orgulho com um doutorado em
química. Sebastiana também aproveita o tempo livre para viajar e passear
com a família e nem espera convite dos filhos para isto. “Se os filhos
não ligam pra mãe, eu ligo pra eles. Se eles não me convidam para
passear, eu me convido!”, conta aos risos. Mas, em meio às viagens e
passeios, não deixa de lado o interesse pela UEL. Sempre acompanha
os acontecimentos da Universidade pelo jornal “Notícia” e se mostra
bastante atualizada com relação ao dia-a-dia da instituição. Também
cuida da saúde e do corpo com as atividades oferecidas pelo Nafi
(Núcleo de Atividades Físicas), da UEL.
Tal como na sua torcida pelo time do coração nas quartas-feiras
e domingos de futebol, Sebastiana mostra que nunca vai abandonar o
seu apreço pela UEL. E a prova disso não poderia ficar mais evidente na
explicação dela: “Sou feliz. Essa casa que eu tenho hoje, por exemplo,
agradeço a Deus e à UEL pela eternidade, não tem fim. Pra mim, a UEL
é um pedacinho do paraíso: aquele verde, aqueles alunos no calçadão,
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
308
os professores... Estar no campus me dá uma sensação muito boa!
Tenho saudade”, encerra.
Nós também, Sebastiana.
Construindo a história. “Seus pais são João Fidelis Pereira e Rita
Maria de Moraes. (...) Para Sebastiana, o primeiro dia na Morfologia
foi difícil, pois achou tudo ‘meio estranho’, afinal, nunca tinha visto um
cadáver. ‘Tinha um pouco de receio. Alguns funcionários contavam
histórias de assombração, vultos, luzes que acendem e apagam
sozinhas... Rezava todos os dias para as almas dos cadáveres’, lembra.
(...) Durante todos os anos em que esteve na Universidade, ‘trabalhei
com amor (...) é um ótimo lugar para se trabalhar!’”
Texto extraído do livro: “A Anatomia em Londrina - Personagens
que Construíram a História”, de Maria Aparecida Vivan de Carvalho.
Editora: UEL.
Gustavo Ticiane
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
309
Silza Maria Pasello Valente
Silza Maria Pasello Valente descobriu cedo
o prazer e os benefícios proporcionados pela
leitura. Ela conta que se escondia nos cantos
da casa, em busca de tranquilidade para que
pudesse mergulhar numa nova história.
Cresceu assim, em Santa Margarida, distrito
de Bela Vista do Paraíso, em uma família
formada por educadores.
O convívio prolongado com os professores
despertou o interesse de Silza pela Educação.
O primeiro passo foi cursar o normal
superior, no Instituto de Educação Estadual
de Londrina (IEEL). Logo em seguida, Silza prestou o vestibular para
Pedagogia, a primeira turma da UEL. Foi aprovada. Quatro anos depois
estava formada e casada.
De 1971 – ano em que concluiu Pedagogia – até 1982, Silza
lecionou em escolas de ensino básico, fundamental e médio. “Durante
o curso de pedagogia eu atuei como professora da segunda série (1970)
e como diretora (1971) da rede municipal de ensino de Londrina. Em
dezembro de 1971 me diplomei, casei e passei a residir em Bela Vista.
Durante os primeiros anos, me dediquei somente à família. Em 1978
passei a atuar no então segundo grau, onde ministrei aulas no curso
propedêutico e no curso normal”.
Mas, Silza tinha maior interesse pelo ensino superior. Foi em
1982 que a UEL precisou de novos docentes para o Departamento
de Educação. “Em março fui convidada a ministrar aulas de didática
no Departamento de Educação. Fui contratada por 24 horas para
ministrar aulas de Didática para o curso de Enfermagem; no segundo
semestre minha carga horária foi ampliada a 44 horas e assumi as aulas
de didática na licenciatura em Educação Física. Em 1983 ingressei no
curso de Especialização em Metodologia do Ensino Superior. Em 1985
prestei concurso e fui efetivada na UEL”. Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
310
Silza se especializou em Metodologia do Ensino Superior e seu
mestrado seguiu a mesma linha: Metodologia do Ensino. Em 1993,
Silza assumiu a coordenação de especialização do Departamento de
Educação. Ela permaneceu na coordenadoria por duas gestões. “Na
oportunidade, impulsionei a reformulação curricular do curso que
passou a se denominar Metodologia da Ação Docente, isso porque o
foco do ensino e da pesquisa passou a abranger os demais níveis de
ensino, não somente o ensino superior, como até então. Essa mudança
de foco possibilitou o enriquecimento das situações ligadas ao ensino e
da produção monográfica”.
Em 1996, Silza participou da comissão que criou o Núcleo
de Estudos e Pesquisas em Avaliação Educacional. Também foi
coordenadora, por três gestões, do curso de Especialização em
Avaliação Educacional.
Em 1998, Silza foi convidada para desempenhar a função de
Diretora de Apoio à Ação Pedagógica, na Prograd. Ela conta que nessa
época a UEL estava passando por um período de transição: a prova
do vestibular, que anteriormente era realizada pela Fundação Carlos
Chagas passaria a ser desenvolvida na própria UEL. Silza atravessou
este período conturbado trabalhando e escrevendo sua tese de
doutorado, simultaneamente. Ela revela que se ausentou só por um
ano, para finalizar a tese. Em seguida, retornou ao Departamento e à
coordenação de Especialização em Avaliação do Aprendizado. Cargo
que ocupou até se aposentar em 2007.
A aposentadoria não trouxe grandes alterações. Silza continua
trabalhando: “E muito”, afirma. “Atuo como professora convidada
em cursos de especialização, presto consultorias, participo como
voluntária, e coordeno, em Bela Vista do Paraíso, o projeto de leitura:
Viajando com as palavras”. Para ela, a maior diferença é que agora não
tem compromisso com nenhuma instituição. “O que me dá liberdade
para gerenciar minha vida. Ainda não consegui ler todos os livros
de literatura que me havia proposto, nem assistir aos filmes com a
frequência desejada, ou escrever as poesias que desejo. Por outro lado,
convivo mais com minha família e curto meus seis netos. O que me faz
muito bem”, afirma.
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311
Desde 2006, Silza coordena, voluntariamente, um projeto social
realizado em Bela Vista do Paraíso, em parceria com o Departamento
de Educação da UEL e a Secretaria de Educação e Cultura daquele
município.
O projeto “Viajando com as palavras” tem o objetivo de incentivar
a leitura, desenvolver a criatividade dos alunos e ainda auxilia na
formação de novos professores. Segundo Silza, o acervo do projeto foi
conquistado por meio de doações. Os livros são guardados em baús e as
bibliotecas são itinerantes, percorrendo os colégios da cidade.
Para Silza, o projeto é sinônimo de satisfação. Tem grande
visibilidade, receptividade e já ganhou um prêmio nacional. E mais:
cria novas possibilidades e oportunidades. Léia Dias Sabóia
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312
Toshihiko Tan
Filho de imigrantes japoneses, nikkei (nissei)
com muito orgulho, nasci dentro de uma família
humilde de lavrador, de uma irmandade de 10
filhos, 7º na ordem de nascimento, sendo dos
4 últimos remanescentes, o mais velho, natural
do município de Santo Anastácio, na Alta
Sorocabana , do estado de São Paulo, Brasil.
Embora de família pobre, os meus progenitores
tiveram a luz e a graça de nos dar oportunidades,
educação e encaminhar no caminho do bem,
nos formando numa profissão universitária,
nos tornando alguém na vida.
Em 1963 participei da criação e fundação da Faculdade Estadual
de Odontologia de Londrina, na ocasião atuava como presidente da
Associação Odontológica Norte do Paraná onde nasceu esta faculdade,
por este motivo participei ativamente na sua concretização, junto aos
poderes políticos e governo do Estado do Paraná.
Neste ano de 2008 comemoramos o Centenário da Imigração
Japonesa ao Brasil, as nossas saudações efusivas a todos aqueles que
deixaram a sua pátria amada e vieram aventurar para concretizar os
seus sonhos e ideais para se ter uma vida melhor nesta terra da Santa
Cruz que é o Brasil.
Ao mesmo tempo em que agradecemos a todos os brasileiros
que receberam os nossos antepassados. Os imigrantes se sacrificaram,
batalharam e sofreram enfrentando todas as vicissitudes, doenças
tropicais, desconhecimento da língua, hábitos, costumes e alimentação
diferentes de sua terra. Finalmente a nossa gratidão a todos aqueles que propiciaram
uma vida melhor e bem-estar fazendo deste país a pátria dos seus filhos
e familiares.
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313
Em busca de novos horizontes
O professor de Geociências Valmir de França já tinha uma
carreira em União da Vitória quando começou na UEL. Agora, na
Universidade, ele procura contribuir com os seus projetos de pesquisa
Para encontrar o professor de Geociências
aposentado Valmir de França hoje em dia
é preciso procurá-lo no Departamento
de Medicina Veterinária no Centro de
Ciências Agrárias. Isto porque, depois
da aposentadoria em 2003, Valmir
pretendia trabalhar com desenvolvimento
regional da bacia hidrográfica na Unemat
(Universidade do Estado do Mato Grosso),
mas, como a mudança não seria boa para
a saúde de sua mulher, continuou em
Londrina atuando como convidado em projetos.
Um destes projetos que o professor participa é em parceria com
o Departamento de Medicina Veterinária, no laboratório de inspeção
de produtos de origem animal. Com experiência em Geografia Física e
Hidrografia, ele explica que há padrões equivalentes nas pesquisas de
água e leite e foi convidado como consultor sênior na implantação do
Centro Mesorregional de Excelência em Tecnologia do Leite do Norte
Central da UEL.
A história de Valmir começa lá no nordeste. O professor brinca
que, “como todo nordestino morou em vários estados”. Em Recife (PE),
no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, ele começou a estudar
Química. Já no sul, a graduação em Geografia foi cursada na Fundação
Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da Vitória.
Na década de 1970, no município paranaense que faz fronteira
com o Estado de Santa Catarina, Valmir começou a lecionar Química,
primeiramente, e depois Geografia para alunos de 1° e 2° graus da rede
estadual. Foi também em União da Vitória que o professor se casou.
Seus dois cursos de especialização tiveram reconhecimento na
cidade. O primeiro – de Ensino de Ciências – montou um “clube de
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314
ciências” aberto a alunos de todas as classes sociais. “Provei que é
possível superar a realidade, tanto que eu ganhei uma bolsa da Unesco
pelo trabalho”, relembra. A intenção era despertar a vocação nos
alunos que participassem e apoiar a conquista da carreira. Além disto,
o clube, lembra Valmir, “era um espaço de estágio para todas as áreas
da faculdade”.
Na outra especialização, Valmir e seus estagiários fizeram a
recolocação de uma favela que havia à beira do Rio Iguaçu. Eles fizeram
inventários dos bens, diagnósticos, reeducação em outro local daqueles
que lá viviam. Todo este trabalho aconteceu no ano de 1982, apenas
um ano antes da grande enchente do rio, que começou à noite e deixou
35 dos 40 mil moradores da cidade desabrigados. O professor acredita
que a mudança daquelas famílias evitou muitas mortes, além dos
conflitos e saques – que não aconteceram em União da Vitória. Além
de uma bolsa da Organização Mundial da Saúde, ele foi homenageado
pela defesa civil do estado por este outro trabalho.
Nesta época o professor estava dando aula na faculdade da cidade
e já tinha contatos com a Universidade Estadual de Maringá. Em 1986,
Valmir veio dar aulas na UEL lotado no Departamento de Geociências.
Dois anos depois começou seu mestrado na Unesp de Presidente
Prudente em Hidrogeografia e Análise Ambiental. Logo em seguida,
em 1994, iniciou o doutorado na UEM em Ecologia de Ambientes
Aquáticos Continentais com aplicações de satélite.
Durante o doutorado, Valmir passou dois anos na França, na
Universidade de Rennes 2. “Eu fui com a esposa e com os três filhos”,
conta o professor. Uma de suas filhas inclusive casou-se e continua lá,
agora com a neta de Valmir. Por causa da família e da pesquisa, ele
continua em contato com o país que o recebeu. Em 2007 esteve lá para
uma visita e foi homenageado pela Universidade.
Valmir, apesar de ter se dedicado muito à pesquisa, sente falta da
sala de aula. Por um momento, a emoção deixa o professor sem fala e com
lágrimas nos olhos diante da recordação dos alunos. E quando retoma a
fala é para declarar o carinho pela profissão: “eu sou professor por vocação
e sinto saudade de dar aulas. Minha mulher costuma até dizer que, no dia
anterior a algum curso meu, pareço noiva antes do casamento”.
Poliana Lisboa de Almeida
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315
Vera Lúcia Lemos Basto Echenique
Passei bons 17 anos de minha vida na UEL. Foi
um período de crescimento pessoal e profissional
e de alargamento dos laços de amizade com
colegas, funcionários e alunos, dos Cursos de
Graduação e de Pós-Graduação.
Sempre lotada no Departamento de Educação
do CECA e dando aulas, trabalhei na CRH/
Divisão de Docentes, na CPG/Diretoria de PósGraduação, fui vice-chefe do Departamento,
representante do Depto na CPCD, membro do
Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão, do
Conselho de Administração, do Conselho Universitário , participando
de suas diversas comissões internas. Coordenei o primeiro Curso de
Pós-Graduação em nível de Aperfeiçoamento, realizado em convênio
com a CAPES e destinado a docentes das Instituições de Ensino
Superior do Norte do Paraná, além de ajudar a criar o primeiro Curso de
Especialização da UEL, o CEMES, em funcionamento até hoje, embora
como nova denominação. Dirigi o CECA por quatro anos e, em agosto
de 1993, após 25 anos de trabalho no ensino superior aposentei-me.
A UEL representou muito na minha vida profissional, ao mesmo
tempo em que acompanhei seu crescimento, pois quando lá comecei a
trabalhar, a Universidade tinha apenas 6 anos.
Tenho um carinho muito grande pela UEL e guardo as recordações
dos anos em que lá trabalhei como algo muito especial.
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316
Ensinando a ensinar
Em mais de três décadas trabalhando na UEL, a pedagoga Vera
Lúcia Resende Faria passou por diversas funções, mas nenhuma
foi tão gratificante quanto o cargo de técnica de assuntos educacionais
Muitas vezes, quando se pensa em um
ambiente de ensino como uma universidade,
é difícil imaginar que algumas pessoas têm
dificuldades para aprender ou ensinar.
Porém, esta situação é frequente e chega
a aumentar os níveis de desistência dos
cursos de graduação. Algumas pessoas não
conseguem aprender e outras não conseguem
ensinar. O que talvez essas pessoas não
saibam é que a UEL conta com o Labted,
o Laboratório de Tecnologia Educacional,
que, entre outras funções, oferece cursos para que estes estudantes
com dificuldade de aprendizagem possam continuar seus estudos.
Quem conta um pouco mais da história deste trabalho é a técnica em
assuntos educacionais Vera Lúcia Resende Faria, que trabalhou quase
três décadas no Labted, boa parte deles quando o laboratório era
conhecido como NTE, Núcleo de Tecnologia Educacional.
Primeiros passos na universidade
A trajetória de Vera na UEL começa em 1974, quando ela
trabalhou na Associação do Pessoal da Universidade Estadual de
Londrina (Apuel) durante dez meses. No ano seguinte, foi aprovada
em um concurso para trabalhar na Universidade como escriturária,
onde atuava junto ao gabinete da reitoria, no setor de comunicação
– hoje conhecido como COM, Coordenadoria de Comunicação. No
cargo, exercia funções administrativas, como atender as pessoas que
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317
procuravam os serviços do setor, fazer fotocópias e clipagem – ou
seja, reunir em um arquivo as matérias sobre a Instituição publicadas
na imprensa –, datilografar o boletim Notícia e até mesmo ajudar a
entregá-lo nas TVs e jornais da cidade. Enfim, os serviços eram aqueles
comuns à assessoria de imprensa.
Contudo, em 1979, Vera foi transferida para o Labted, agora na
função de oficial de administração, cargo conquistado em 1977, mesmo
ano em que começou a faculdade de Serviço Social. A função de Vera no
novo setor era controlar a entrada e saída de serviços – solicitações de
gravações em áudio e vídeo, fotografias e todos os serviços que até hoje
o laboratório oferece. Com a implantação do setor pedagógico, muitos
professores começaram a procurar este novo serviço do Labted e Vera
descobriu sua verdadeira vocação. “Eu fiquei de olho no trabalho [do
setor pedagógico] porque eu achava extraordinário, eu me apaixonei
pela educação”, confessa.
Para ela, o Labted era “um pronto-socorro”. Lá, os professores
encontravam atendimento didático-pedagógico e aprendiam a
preparar planos de aula e de cursos, ou mesmo a se preparar para
concursos, apresentações de bancas de mestrado, doutorado... “O
professor é formado, às vezes, só bacharel, não tem licenciatura, então
é difícil ele saber como planejar uma aula. Eles iam buscar aprender
o planejamento de aula”, explica. Da mesma forma, muitos alunos
começaram a procurar este serviço, buscando aprender a falar em
público ou apresentar seminários, por exemplo.
Realizando um sonho
À medida que o setor pedagógico crescia, a admiração por
este trabalho se tornava cada vez maior. “De tanto observar o setor
pedagógico, decidi estudar pedagogia e todos os cursos na área de
educação eu procurava fazer. Ficava cada vez mais encantada com a
educação”, nos conta Vera. Quando terminou a faculdade de Pedagogia,
por volta de 1986, ficou aguardando o momento de fazer um concurso
para passar pro setor pedagógico. A oportunidade tão esperada veio
em 1991, quando Vera foi aprovada em um concurso para aquele setor.
“Foi um sonho realizado”, explica.
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318
Um sonho que só trouxe boas recompensas. Com a pedagogia,
Vera pôde ajudar várias pessoas a se aperfeiçoarem em suas áreas
ou a darem a volta por cima. Como, por exemplo, quando trabalhou
com o CODE – Comissão Permanente de Acompanhamento a Alunos
com Necessidades Educacionais Especiais, atualmente conhecido
como Proene, Programa de Acompanhamento ao Estudante com
Necessidades Educacionais Especiais –, atendendo alunos com
problemas de aprendizagem, entre eles muitos estrangeiros, que não
se adaptavam ao ensino brasileiro. A principal dificuldade desses
estudantes, segundo Vera, era com a apresentação de trabalhos.
Em meio a vários casos, Vera destaca um, de uma aluna com
problemas emocionais que não conseguia aprender e estava prestes a
ser jubilada. “Foi muito demorado o atendimento [desta aluna], creio
que mais de dois anos. Um dia ela apareceu dizendo que foi aprovada
em concurso e já está trabalhando em uma escola. Para nós é a melhor
recompensa, é o nosso trabalho ecoando no mundo”. Porém, mais do
que técnica, o que conta neste trabalho é o lado humano do pedagogo.
“A gente dá bastante abertura, porque para fazer um trabalho desses
a pessoa tem que ter um certo tato para lidar com as emoções, porque
é difícil trabalhar com técnica e separar, só apresentar técnica. É ser
humano, né? A gente tem que ter um olhar integral: corpo, alma,
espírito...”
“Esse tempo foi preciso para mim”
Outro momento da trajetória de Vera Lúcia na UEL que merece
destaque é a sua participação no PAE, Programa de Ação Educativa,
criado em 1989 com o objetivo de alfabetizar adultos, principalmente
os funcionários da universidade. Neste trabalho, era necessário
ensiná-los até mesmo a pegar o lápis, pois como trabalhavam com
ferramentas pesadas, não tinham habilidades com objetos leves. “A
gente ajudava, pegava na mão, fazia bolinhas de papel pra amassar,
para poder desenvolver a habilidade motora fina de pegar o lápis, que
é um elemento leve diante do trabalho deles que é enxada, vassoura,
dirigir trator, carregar massa para construção, tijolos...”, explica. Com
os adultos, era trabalhado o método de alfabetização de Paulo Freire,
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319
a palavração, onde eram ensinadas primeiramente as palavras do
universo destes trabalhadores. “E eles levavam tão a sério que mesmo
com a greve dos ônibus eles iam de bicicleta para a aula, não perdiam
um dia. (...) E uma coisa que eles queriam muito era ter cartilha,
porque os filhos e os netos tinham, então a gente tinha que elaborar
uma cartilha”, relembra Vera. Desse projeto nasceu o livro “Um grauzinho de estudo”, com
depoimentos escritos pelos próprios alunos. “Eles falavam que eram
como cegos, então o depoimento deles [era] ‘aí, eu me sentia cego,
porque eu tinha que perguntar para as pessoas o nome do ônibus,
o número do ônibus’, tem que estar sempre dependente dos outros,
então foi uma certa independência, porque com o acesso à leitura e
à escrita você vai ficando mais independente”, reflete. Muitos deles,
segundo Vera, chegaram até a faculdade. “Isto não tem preço para
quem acredita na educação”.
Um pouco mais sobre o Labted
De todos os serviços oferecidos pelo Labted, o mais requisitado,
segundo Vera, é o microensino, onde são os alunos aprendem
“habilidades técnicas de ensino”: como dar aula, como planejar uma
aula, como fazer com que ela tenha uma sequencia lógica, seja didática,
específica para a sala de aula. “[O aluno] leva o tema, apresenta e o
microensino é feito em gravação de vídeo (...). Depois o grupo discute
aquilo que ele apresentou”, explica Vera. O procedimento é realizado
até que o aluno apresente melhoras e tenha um desempenho desejado.
Para Vera, o trabalho feito pelo Labted sempre será necessário,
pois os educadores precisam se adaptar à evolução das novas
tecnologias. “Hoje, com o desenvolvimento tecnológico, não combina
só usar o quadro de giz e a oratória, nosso tempo exige mudanças
tecnológicas e o papel do Labted é oferecer este conhecimento para
educadores e educandos. É importante ter domínio sobre a tecnologia
em sala de aula. Facilita o aprendizado.”
E o microensino também gerou recompensas para a pedagoga,
que até hoje colhe os frutos deste trabalho. “É uma coisa muito
interessante, que agrada muito a gente, é quando eu vejo na televisão,
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
320
na mídia, pessoas que a gente pôde atender, o pessoal que solicitou
o trabalho do Labted (...). É juíza, o pessoal da área da comunicação,
os médicos, a área da saúde, arquitetos, contabilistas, todas as áreas
procuram o Labted pra ter essa orientação didática. (...) Fico feliz por
ter participado um pouco na vida profissional deles”, comemora.
Aposentadoria: hora de colher os frutos
Além de deixar um trabalho maravilhoso, Vera Lúcia também
deixou muitas amizades na UEL. “As pessoas do meu trabalho, da
universidade, olha, eu encontrei só gente boa, graças a Deus, foi uma
trajetória em que eu aprendi muito com os meus colegas”. E a pedagoga
faz questão de nomear as pessoas que colaboraram com o Labted e
foram exemplos para ela: Estela Okabayashi Fuzii, Maria Nilce Missel,
Terezinha Vilela de Magalhães, Darcy Nampo (já falecida, mas que,
nas palavras de Vera, “ajudou muito o setor pedagógico”), entre tantos
outros companheiros de jornada. “Eu posso dizer que cresci vendo o
desenvolvimento da universidade”, reflete Vera, que esteve com a UEL
durante quase 33 anos. Aposentou-se em 2007.
Agora, distante do Labted, resta a saudade do trabalho e dos
amigos, mas também tempo livre para desfrutar daquilo que foi
conquistado em todos estes anos. Vinda de uma família com boas
condições financeiras, Vera Lúcia viu a situação mudar quando
problemas familiares fizeram com que ela – a mais velha de nove
filhos – precisasse ajudar nas despesas de casa, começando, ainda
muito jovem, a trabalhar. As dificuldades a afastaram da escola por um
tempo, mas, perseverante, Vera, assim como muitos estudantes que
pôde ajudar em seu trabalho, deu a volta por cima. Casada e mãe de três filhos, todos formados, Vera olha com
carinho para os anos vividos na Universidade que, mais do que uma
situação financeira confortável, lhe proporcionaram algo que não
tem preço: “A Universidade para mim foi um campo riquíssimo de
aprendizagem e experiências. Tudo o que eu sou hoje, tenho hoje, [foi]
porque Deus me encaminhou para lá. Eu aprendi muito. Muito, muito,
muito. É muito rico. Esse conhecimento que eu adquiri lá vale mais que
o ouro, mais que a prata. Por isso é muito importante a gente buscar
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
321
o conhecimento, buscar crescer, se dedicar naquilo que gosta de fazer.
Não tem jeito, você vai melhorando, às vezes demora um pouco, mas
a gente chega no objetivo. Eu queria muito trabalhar com educação e
consegui”. E com a dedicação de educadores como Vera, conquistar os
objetivos fica ainda mais fácil!
Rosane Mioto
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322
Música e judô, práticas que fazem bem ao corpo e
ao coração
Os títulos de benemérito e cidadão honorário são provas de
reconhecimento pela dedicação de Yoshiriro Okano ao judô
Nas paredes, as condecorações; e no
currículo, atividades bem diferentes.
Yoshiriro Okano tem duas paixões: judô e
karaokê. A primeira o acompanha desde
os tempos de menino. Já o karaokê é mais
recente. Resultado de uma brincadeira que,
por fim, virou coisa séria.
Yoshiriro se mostra determinado. Revela
que gosta de desafios. A personalidade e o
espírito competitivo já lhe renderam muitas
medalhas e títulos. Para o judô já são 53
anos de dedicação. Para a música, apenas três, que estão longe de
serem os últimos.
As origens
Cambé já foi distrito de Londrina, e chamava-se Nova Dantzig
Yoshiriro nasceu nesse distrito, o que lhe confere o direito de afirmar
que é londrinense. “Conheço Londrina como a palma da minha mão.
Desde quando a Avenida Paraná era terra ainda. Não tinha calçada, era
uma poeira só. Quando chovia era muito barro”. Orgulhoso, enfatiza
que cresceu, estudou, trabalhou e se aposentou “tudo aqui nesta
cidade”.
Só por um período esteve longe. Yoshiriro foi aluno da primeira
turma de Educação Física (1974), no período noturno, da UEL. Já era
professor havia sete anos, quando foi contemplado com uma bolsa de
estudo para fazer mestrado no Japão. Para qualquer profissional, uma
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
323
oportunidade como essa é única, mas, para Yoshiriro, a viagem foi
ainda mais especial. Além de estudar e ter uma qualificação melhor,
ele pôde conhecer o país de seus ancestrais.
Aqui no Brasil a família sempre preservou a cultura japonesa,
fez questão que Yoshiriro aprendesse a língua e os costumes. E, lá no
Japão, ele vivenciou os ensinamentos: “Cada parte do Japão que ia
conhecer, cultura, né, relacionava com alguma coisa que tinha ouvido
dos pais. Então, foi muito boa essa experiência”.
Por dois anos, Yoshiriro estudou no Japão. A viagem foi muito
proveitosa. “Pode-se dizer que fui o primeiro mestre de Educação Física
da Universidade Estadual de Londrina”. Naquela época, ele já ensinava
judô. Por isso, a Universidade do Japão preparou um programa
especial. “Essa experiência até hoje está me servindo, porque vários
Estados do Brasil me convidam para dar cursos na área do judô. E,
assim, pude conhecer vários Estados”.
O judô
O primeiro contato com o judô foi aos 15 anos, em 1955,
casualmente, como ele define. Curioso, resolveu praticar o esporte,
sem nenhuma pretensão de ser professor. Mas, em 1968, no mês de
maio, recebeu um convite para ensinar judô no colégio Marista: “Esse
foi o primeiro passo e até hoje. Só de ensino de judô está fazendo 40
anos”. No ano 1970, outro convite: “Fui convidado pelo Clube Canadá
e até hoje estou lá. Este ano está fazendo 38 anos que dou aula lá”.
Todas as atividades praticadas por Yoshiriro têm em comum a longa
duração. “Parece que sou meio persistente, quando começo com uma
coisa não paro, vou até...”, conta, divertindo-se com a constatação.
Como atleta, Yoshiriro fez participações importantes: “Apesar de não
ter bons resultados na liga nacional, participei por quatro vezes da
Seleção Estadual de Judô”.
O reconhecimento pela dedicação ao esporte veio por meio dos
títulos de benemérito e de cidadão honorário. Em 2003, Yoshihiro
Okano completou 50 anos de dedicação ao Judô. E foi homenageado
com o título de cidadão honorário de Londrina. O título de benemérito
foi concedido pela Fundação Paranaense de Judô. Yoshiriro conta que
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
324
quando foi convidado para o evento, sem saber que seria homenageado,
solicitaram a presença de sua esposa. “Disseram que era uma
comemoração. Ah, quando eu chego lá... Fiquei pensando, será que
estou merecido mesmo dessas coisas? Eles disseram pra mim: ‘Você
é uma pessoa que colaborou todo esse tempo para o judô. Tem muitos
colaboradores, mas você fez algo mais. Além de colaborar, contribuiu
para o enriquecimento cultural, cientifico e pedagógico do judô’”.
Desde a volta do Japão, em 1980, Yoshiriro, anualmente, dá de
dois a três cursos para os futuros faixas pretas. “Os faixas pretas, já
no grau de 1°, 2° e 3°, todo ano têm que fazer cursos de atualizações
e adquirir mais conhecimento. E todo esse período sou eu que dou o
curso”. Ele acredita que essa atividade lhe rendeu o título de benemérito.
“Talvez esse seja o motivo”.
Na placa de cidadão honorário, a justificativa: “Pelos relevantes
serviços prestados à comunidade londrinense”. Em 2003, quando
estava completando 50 anos de dedicação ao judô e 35 anos de ensino,
Yoshiriro recebeu uma ligação: “Num belo dia, recebo o comunicado
da Câmara dizendo que eu era o homenageado. Fiquei pensando: por
que eu?”, relata, modesto. “Disseram que eu tenho um trabalho mais
voltado para a formação do cidadão. Não só de competidores, mas
campeões. ‘Você formou cidadãos, e como consequência, campeões
também. Por isso, nós valorizamos seu trabalho e estamos concedendo
esse título de cidadão honorário pra você’”.
A música
“Há três anos eu arrumei um hobby, o karaokê, de música popular
japonesa”. Tudo começou por acaso. Segundo Yoshiriro, em Londrina
existem 27 associações nipo-brasileiras. “Normalmente tem concurso
de karaokê interbairros, entre associações. E a pessoa responsável
por essa parte do canto me inscreveu para o concurso de 2005, sem
me falar nada”. Quando soube, Yoshiriro teve uma grande surpresa e
a princípio recusou, mas, como gosta de desafios, acabou aceitando.
Decidiu se preparar e foi ter aulas de canto. Mas, no grande dia, uma
catástrofe: “Cantei a primeira estrofe, a segunda estrofe esqueci. Não
lembrei mais nada. Aí eu desci e pensei que isso não podia ficar assim”.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
325
Ao contrário do que se imaginava, a experiência mal-sucedida o
incentivou a continuar e melhorar. “No segundo campeonato já comecei
a ganhar troféus. Nos dois anos, em quase todos que eu participei
consegui alguma coisa. Neste ano já passei pra turma de veteranos”.
Aposentado desde 1998, Yoshiriro se divide entre suas paixões:
família, judô e karaokê. Cultiva sempre hábitos saudáveis, herança da
cultura japonesa. E vive em equilíbrio, proporcionado pelo judô. Já o
karaokê fez com que o círculo de amizades fosse ampliado. Tudo isso,
graças à sua persistência e muita dedicação.
Léia Dias Sabóia
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326
Zenshi Heshiki
Filho de Zenziro e Nabe Heshiki nasceu na
cidade de Promissão no Estado de São Paulo
em 1936. Quarto filho masculino de uma prole
de 10 pessoas. O ZEN deriva do ZEN Budismo
como relatado no texto e quatro em japonês é o
mesmo SHI e daí o nome ZENSHI. Na linguagem
eletrônica passou para ZENFOUR, introduzindo
o quatro em inglês que é FOUR.
Graduado em Medicina de Ribeirão Preto-Sp
em 1961 e em Administração Hospitalar na
Faculdade de Saúde Pública na USP - SP. Fez a
especialização no Hospital de Clínicas em São Paulo, na Universidade de
Bordeaux em França e na Universidade de Minnesota em Minneapolis
– USA. Tem os títulos de Doutor em Medicina e Livre Docente pela
Faculdade de Medicina da USP - São Paulo e de Professor Adjunto
pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP. Em 1977 assumiu
o cargo de Professor Titular na UNESP de Botucatu e de Professor
Associado em 1996 na UEL de Londrina. Atualmente está aposentado
destas instituições universitárias e exerce a função de Médico
Otorrinolaringologista na Otolon de Londrina.
Fez viagens a vários paises para conhecer a história, os hábitos e
costumes de seus povos e dos familiares. Este é o resumo parcial destes
estudos.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
327
Da Lituânia para a cultura brasileira
Zita Kiel Baggio, além de professora do Departamento de Letras
e depois de Ciências Sociais da UEL, deu aula em cursos ginasiais,
clássicos e normal na cidade
Quase 20 anos como aposentada da
Universidade Estadual de Londrina; 50
vividos nesta cidade; mais de 80 de idade. A
lituana Zita Kiel Baggio veio com os pais para
o Brasil com um ano de idade. Viveram em
Porto Alegre. Quando ficaram apenas ela e a
mãe em casa, sua mãe começou a trabalhar
como professora.
Jovem, Zita entrou para o colégio interno
Instituto Adventista Cruzeiro do Sul de Taquara do Sul (RS), para onde
sua mãe foi trabalhar logo depois. Zita mudou-se para São Paulo para
cursar o clássico e depois foi para Curitiba: fez Letras Neolatinas na
UFPR (Universidade Federal do Paraná).
Ela sempre gostou da língua francesa, que naquela época se
aprendia desde o ginásio. Depois da graduação, cursou especialização
na Aliança Francesa.
Ainda em Curitiba, Zita ingressou na faculdade de Jornalismo,
na primeira turma do curso na Pontifícia Universidade Católica (PUC).
No último ano, o secretário da escola de jornalismo indicou Zita para o
diretor do Colégio Londrinense, Zaqueu de Melo, que precisava de uma
professora de francês. Era 24 de fevereiro de 1958 quando ela veio como professora
para Londrina. Dava aulas nos cursos ginasial, clássico e científico.
E voltava para Curitiba fazer as provas da faculdade de Jornalismo.
Formada, nunca exerceu essa profissão. Preferia ser professora.
Zita prestou concurso e lecionou um ano no Colégio Vicente Rijo.
Depois optou pelo IEEL (Instituto Estadual de Educação de Londrina),
pois o colégio estava ligado ao curso normal.
Portal do Servidor Aposentado da UEL: tempo de recordar
328
Em 1964, a professora Zita Kiel Baggio ingressou na Faculdade
de Filosofia, Ciências e Letras de Londrina. Antes, porém, por ser uma
das poucas que trabalhavam com a língua francesa na cidade, já havia
participado de bancas de seleção para a Faculdade de Direito. Segundo ela, o ambiente pequeno da Faculdade estimulava a
competição para o bem. “Todos os colegas trabalhavam juntos e os
alunos eram sedentos de informação”. Ela lembra de alunos de outras
cidades, como Sertanópolis, que enfrentavam estradas sem asfalto
para chegar à Faculdade e levavam toalhas para limpar o rosto e até
sapatos para trocar.
Zita compara as fases vividas pela UEL a um caleidoscópio, em
que qualquer mudança gera outras figuras. Da transição da Faculdade
para Universidade, a professora destaca que o espírito de colaboração
continuou. E ela passou para o Departamento de Letras.
Quando o MEC mudou a disciplina de Cultura Brasileira, Zita
transferiu-se para o Departamento de Ciências Sociais. O tempo da
disciplina passou de dois anos a seis meses, o que exigiu uma diminuição
de conteúdo, lembra a professora, que gostava de dar um mês de aulas
sobre pintura, por exemplo.
A aposentadoria veio em 1989. Ela então diz que aproveitou o
tempo e foi fazer tudo o que não havia feito antes. Casou-se com mais
de 50 anos de idade. Com o marido, também aposentado, viajou por
vários países. Tiveram uma chácara em São Jerônimo da Serra, onde
ela idealizou a casa e plantou flores e árvores.
Emocionada de contar sobre a sua vida, a perda da mãe e do
marido, Zita Kiel Baggio revela porque uma professora tão apaixonada
pela profissão não sofreu na hora de se aposentar. “Eu fiz com tanto
amor que eu olho para trás e vejo que fiz tudo... Então não senti
saudades nenhuma. Você tem que fazer o seu melhor”.
Poliana Lisboa de Almeida
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329
Título
Organizadores
Produção Gráfica
Capa e Projeto gráfico
Editoração
Revisão
Formato
Tipografia
Papel
Número de páginas
Tiragem
Impressão e acabamento
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Maria Aparecida Vivan de Carvalho; Fabiano
Ferrari Ribeiro; Rosane da Silva Borges
Maria de Lourdes Monteiro
Keila Akemi Komori
Maria de Lourdes Monteiro
José Feres Abdala
16 x 23 cm
Georgia(miolo)
250g/m2 (capa)
75g/m2 (miolo)
330
500
Gráfica da UEL
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