MUSEU: UMA EXPERIÊNCIA DE APRENDIZAGEM
Valéria Silva de Lima
e-mail [email protected]
Museu do Índio
Coordenadora da Ação Educativa
Relato de experiência
O homem, desde que nasce, está em constante processo educacional, esse se dá formalmente
nas instituições credenciadas ou informalmente na família, no bar, enfim, no contato com o outro.
Os Museus, instituições formadas para contribuir nessa formação, seja coletiva ou
individual, visam promover a inclusão social.
Ao longo da história, várias declarações foram feitas para formalizar a atuação dos museus.
Essas, em consonância com o momento social, apresentavam objetivos claros com a situação social
da época.
Temos a Declaração de Santiago do Chile de 1972, a de, Oxatepec no México em 1984 e
Caracas em 1992; todas refletiam o momento social, político e histórico da época na América
Latina.
Em 1984, a Declaração de Quebec anuncia seus objetivos partindo para uma Museologia
social.
O principio do Museu Integral (Chile), o princípio de uma Nova Museologia (Quebec), do
Patrimônio – território – Comunidade (Oxatepec) e o Museu como gestor do Patrimônio Cultural
(Caracas) denotam como o século XX participou na construção de Museus para comunidade.
O Museu do Índio em Uberlândia (Instituição Pública Federal) criado há 21 anos na cidade
de Uberlândia-MG tem como um de seus objetivos a função social.
A função do museu deve centrar-se em poder colocar a população
local em contato com a sua própria história, suas tradições e
valores. Por meio dessa atividade o museu contribui para que a
comunidade tome consciência de sua própria identidade que
geralmente tenha sido escamoteada por razões de ordem histórica,
social e racial (Documento do ICOM- Conselho Internacional de
Museus, 1986).
No museu, o sujeito tem a oportunidade de se colocar de frente com objetos criados, em que
é apresentada a sua história e a sua cultura.
Nesse aspecto a ação educativa é um dos pontos relevantes para o trabalho. Para que isso
seja colocado na prática, o museu exerce funções práticas, que dentre elas se encontram
planejamentos voltados a atender a comunidade. O Museu do Índio iniciou em 2009 suas atividades
recebendo as escolas do município.
A ação educativa planejada para esse processo desenvolveu-se em três etapas, nas quais
crianças e jovens de 3 a 15 anos puderam entrar em contato com a cultura indígena.
As etapas consistiram na realização de três ciclos de atividades. Primeiramente, uma
conversa com os alunos para apresentar a cultura indígena e posteriormente a apresentação de um
vídeo que retratava o cotidiano de uma comunidade indígena brasileira. No segundo momento, os
alunos visitaram os objetos expostos, e num terceiro momento participaram de uma oficina em que
realizaram desenhos de memória e uma pintura corporal.
Todas as etapas respeitaram as faixas etárias dos alunos e foram voltadas para formação e
ampliação dos conhecimentos já adquiridos ou não por eles ao longo de suas histórias.
Ao se planejar as oficinas, foi levado em consideração o tempo dos alunos no museu, os
materiais disponíveis, a fase de desenvolvimento dos alunos.
Nessa atividade, primeiramente havia a contação de uma lenda intitulada “origem da luz”
contada pelo grupo Karajá da região do Tocantins e Mato Grosso. Depois, as crianças eram
estimuladas a pintar o rosto com a mesma marca que esse grupo tem em seu corpo. Dentre todas as
crianças, de faixas etárias diferentes, adolescentes ou adultos, raríssimos foram os que não
aceitaram a pintura corporal.
Isso nos apresenta a conclusão de que uma cultura pode ser incorporada a outra, de forma
simples e, desse mesmo modo, podemos dizer que houve aprendizagem. Percebemos isso através
das expressões corporais dos alunos (olhos brilhantes, o cuidado para não borrarem a tinta, o querer
do olhar no espelho; dentre outras) e das opiniões expressas oralmente.
A oficina de desenho baseada no conhecimento apreendido da conversa, do filme e da visita
ao espaço de exposição dos objetos consistiu em fazer um desenho de memória do objeto que mais
lhes chamou a atenção.
Em folha de papel kraft e lápis de cera, todos os alunos executaram a atividade, sendo que os
desenhos apresentaram-se seguindo o nível de desenvolvimento de cada faixa etária.
Na educação pela arte tivemos três representantes que basearam suas concepções
epistemológicas no ensino da arte.
Na Inglaterra dos anos 30 e 40, seus representantes eram Herbert Read e Berklay-Russel e a
arte estava configurada pela espontaneidade da expressão. Para Herbert Read a arte deveria ser a
base de educação como um todo.
Nos Estados Unidos, seu representante era Viktor Lowenfeld que pesquisou as
características constantes de cada fase de desenvolvimento das crianças. A publicação do seu livro
Desenvolvimento da capacidade criadora, de 1954, teve em sua concepção os sentidos como sendo
o pilar da aprendizagem. Por exemplo, no estágio pré-esquemático de 4 a 6 anos, há a descoberta da
relação entre desenho, pensamento e realidade. A criança começa a representar coisas de sua
realidade e a exprimir sua fantasia, desenhando vários objetos ou o que imagina deles. A ação é
voltada para resultados concretos, maior poder de concentração e intensa formação de conceitos.
Podemos ver esse exemplo nas imagens dos desenhos feitos por crianças nessa faixa de idade.
Desenho de um aluno de 1 ano do E.F.
Recortes dos desenhos dos alunos em exposição no CEMEPE.
Os desenhos apresentados nos mostram a percepção dos alunos em relação aos objetos
visitados e apresenta-nos a sua apreensão.
Esses trabalhos foram resultado da ação educativa do Museu do Índio oferecido na oficina
em visitas dos alunos ao museu.
Nesse recorte de desenhos acima apresentados, podemos verificar a experiência de Viktor
Lowenfeld. Por exemplo, destaco o desenho feito com lápis de cera vermelho e branco. O aluno do
oitavo ano desenha o que viu no vídeo apresentado a eles, em que o índio pinta o fundo de uma
panela de argila. O aluno ao fazer o desenho apresentou as mesmas cores da pintura da panela vista
por ele no vídeo, mas só que agora na bidimensionalidade dando outra visibilidade de proporção,
repetição e ritmo.
Esse estágio, Lowenfeld define como crise da adolescência que vai dos 13 aos 17 anos e o
adolescente adquire consciência crítica ao meio e ao resultado representacional. Sabe identificar
mais claramente o tipo visual, ou seja, as impressões do meio no qual o criador se sente espectador,
tem perspectiva espacial, percebe a mudança das qualidades da cor em relação ao ambiente e seu
expressivo significado psicológico e emocional.
Fechando o ciclo das atividades, foi montada uma exposição no mês de junho no CEMEPE
(Centro de Estudo Municipal dos Professores da Rede Municipal de Ensino de Uberlândia-MG), em
que se contemplaram os desenhos de todas as faixas etárias das escolas recebidas no Museu do
Índio.
Vista total da exposição no espaço CEMEPE.
Podemos concordar com os autores citados acima que a aprendizagem pela arte deveria ser
espinha dorsal nos currículos escolares.
Pensando na Proposta Curricular do Estado de Minas Gerais que define: As propostas de
estratégias a serem desenvolvidas permitirão ao aluno, de forma geral, o contato com a expressão
artística através da apreciação, do fazer e da contextualização (p.13), as atividades desenvolvidas no
museu buscaram despertar no aluno o conhecimento da cultura indígena.
Em apresentação da exposição A ressacralização da Arte, no SESC Pompéia em São Paulo,
de março-abril de 1999, Jacob Klintowitz escreve:
O fazer no homem é um sistema de aprendizagem, apreensão,
vivência. Crescimento. O homem e seu saber, o homem é o seu fazer.
Não é possível apreender o novo, mas somente se por em sintonia,
colocar-se na mesma vibração de seu período, tornar a saber da
época o seu próprio ser. O que é possível é estar firmemente
ancorado no homem e no seu percurso (...) O homem pode tão
somente colocar-se em processo, a cada gesto um acréscimo, a cada
crescimento um outro estar com o em volta, a cada vez a
organização maior de um sistema único, o homem-entorno-homem.
Homem igual a história. Homem igual aos homens. Homem igual ao
gesto. Homem igual ao saber. Homem igual a si mesmo. Homem
igual ao novo.
Todas essas ações do museu procuram contribuir com o desenvolvimento da capacidade
individual e coletiva dos sujeitos que aprendem a informar e comunicar suas experiências por meio
da valorização do patrimônio cultural.
O Museu é preservação e suas ações estão voltadas para comunicação, sejam elas ações
sócio-culturais, educação informal e exposição.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LOWENFELD, Viktor. O desenvolvimento da capacidade criadora. Ed. Mestre Jou.
MINAS GERAIS. Conteúdos Básicos Comuns. Secretária de Educação de Minas Gerais: ArtesBelo Horizonte: SEE, 2007.
PEDROSA, Israel. Da cor à cor inexistente. 7ª Ed.
VYGOTSKY, L.S. A Formação Social da Mente; trad. José Cipolla Nt. - São Paulo: Martins
Fontes, 1994.
< http//www.icom.org.br. Acesso em 31 de julho de 2009.
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