Sandokam (Pereira Bussola) é um rapaz de 15 anos, tímido, porém se identifica com os documentários que tem que fazer para o desenvolvimento da oficina. Não gosta de ser entrevistado, gosta de entrevistar. Suas expectativas estão sendo alcançadas, pois sua vontade de
aprender é imensa. Aluno do CEU Aricanduva, cursa a 7ª série do Ensino Médio.
Cristina F. dos Santos
Obra Social São Mateus
Naldinho (Ednaldo Batista de Lima) está fazendo Oficina de Cinema com a professora Joana. Ele
acha o curso muito legal, porque ela não deixa a desejar em qualquer coisa ou explicação. Ele
estuda no Clotilde e espera melhorar seus conhecimentos tanto na escola quanto aqui no Sesc.
Sintia Martins Rodrigues
Centro Social Marista
Marcos (Eduardo Magalhães, da Emef Prof. Benedito Montenegro) disse que achou estranho
o primeiro dia, porque não estava acostumado a dialogar com as outras pessoas do projeto,
mas que aprendeu que conversar com estranhos não é um bicho de sete cabeças. “Não escolhi a Oficina, já fui encaminhado para a de Cinema. Mas gostei porque aprendi a trabalhar um
pouco mais com a mente, gravando as falas dos personagens que irei representar.” Quanto às
suas características, Marcos é um pouco nervoso, mas estudioso quando quer.
Bruno S. Profeta
Emef Prof. Benedito Montenegro
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Meio Ambiente
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Bacia do Rio Aricanduva: o difícil convívio com as enchentes
Trabalho realizado pelos
alunos Anderson Barbosa
da Silva, Amanda Fagundes
Magraner, Aryadne Nunes
Vasco, Gabriela Oliveira da
Ponte, Rodrigo Murillo de
Melo, Sandokam Pereira
Bússola e Willians de Mello
Oliveira, sob a orientação do
professor Marcelino Sutério,
da Escola Municipal de Ensino
Fundamental CEU Aricanduva.
O Rio Aricanduva forma a maior bacia hidrográfica da zona leste da cidade.
A cabeceira encontra suas nascentes nos terrenos da borda da bacia de São Paulo, nas regiões de Iguatemi, Cidade Tiradentes e São Mateus, tendo neste último
um ponto de interesse ambiental: o Morro do Cruzeiro. Percorre a cidade no sentido sudeste-noroeste, passando por vários bairros, alguns de ocupação mais antiga, outros de ocupação mais recente, para então desaguar no Rio Tietê entre os
bairros de Tatuapé, Carrão e Penha.
O rio tornou-se famoso por conta das tradicionais enchentes, que, sobretudo
no verão, aparecem em jornais e programas de televisão. Essas notícias começam a
ter maior evidência a partir das décadas de 70 e 80, momento em que ocorre uma
grande ocupação populacional, motivada pela retificação do curso do rio e asfaltamento da sua marginal, bem como pelo baixo custo dos lotes dessa região.
Nas imediações do bairro do Aricanduva, encontramos histórias que são
marcadas pelas enchentes do rio, às vezes mais fortes, às vezes mais fracas, sempre resultando na perda de bens como móveis, casas e carros, e movimentos políticos para a melhoria da qualidade de vida e infra-estrutura da região. Encontramos também relatos da boa convivência com o rio, quando ele ainda era limpo.
A professora aposentada Zélia Lopes Marino Biguidoro, 73 anos, é moradora
do bairro de Vila Matilde. Ela vivenciou as enchentes do Gamelinha, afluente do
Rincão – um dos formadores do Rio Aricanduva –, o que a fez atuar na luta política para a canalização desses córregos.
foto do fundo
Guilherme Bella Cruz de Paula
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Quando começou a sua luta política para a canalização do Córrego Gamelinha?
Em 12 de fevereiro de 1983, houve uma grande enchente do Córrego Gamelinha. Pessoas morreram, casas foram derrubadas pela água. Foi muito triste esse
dia. Eu era professora na Escola Estadual Dom Bernardo Rodrigues Nogueira, que
fica em Vila Matilde. Foi durante o carnaval que aconteceu essa enchente. Então,
na Quarta-Feira de Cinzas, quando voltamos para trabalhar, a escola estava ocupada pelos moradores que tiveram suas casas invadidas pelas águas do rio. Muitas
pessoas pegaram doença de pele, leptospirose. Isso fez com que a população ficasse
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mais unida e procurasse uma solução. Começamos a lutar pela limpeza do córrego.
Também arrecadamos alimentos e roupas. Fomos solicitar ao posto de saúde que
trouxesse mais médicos. Dali partimos para uma luta pela canalização. Primeiro
pedimos uma limpeza do córrego e depois fazíamos reunião todas as semanas para
discutir a questão do Gamelinha, com o apoio de alguns políticos. Foi uma luta de
cinco anos, até que conseguimos a canalização do córrego.
O córrego foi sempre poluído?
Não. Tinha uma lagoinha onde a gente tomava banho, umas nascentes. Teve
até umas pessoas que morreram afogadas. Tem duas minas d’águas que estão
misturadas com água de esgoto.
Vinda da Bahia no ano de 1976, Aurelita Alves, 49 anos, casada, é moradora do bairro Savoy City, desde 1985, época em que começou a atuar no movimento de moradia.
Quando a senhora veio morar no Savoy City?
Logo que me casei, fui morar no Colorado. Aí surgiu esse lote pra comprar aqui no Savoy. Saiu no jornalzinho de propaganda de venda – “Compre
seu lote na Vila Carrão na Rua Oswaldo Cordeiro com toda infra-estrutura,
inclusive água e luz.” Veio todo mundo. A gente chegou e viu aquela terrona,
aquele morro bonito, todo mundo se empolgou porque queria sair do aluguel
e o loteador prometia infra-estrutura. O loteamento era particular e irregular
por dois motivos: primeiro pela infra-estrutura que não fez, e o segundo, porque foi contra a natureza. Aí deu problema de erosão. Foi uma luta de mais de
dois anos até que a gente conseguiu regularizar o lote e trazer as benfeitorias.
Fizemos cursos de teoria política, de promotores legais popular.
Como era o Rio Aricanduva quando a senhora chegou aqui?
Na época tinha muita enchente. Mas não tinha tanta sujeira como agora.
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E as ruas, como eram?
Era uma terrona arada e, quando chovia, a lama misturava, vinha no joelho e
você não achava rua pra passar. Depois, o mato tomou conta.
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E o meio de transporte?
Não tinha. Era do Santa Teresinha pro Carrão. Minha vida era pegar embalagem de arroz, que o saco é mais resistente. Meu marido amarrava até o joelho pra
sair no asfalto no Santa Teresinha e lá pegava condução pro metrô. As mulheres
que trabalhavam usavam dois pares de sapato, um na sacola e o outro calçava. Ou
então escondiam atrás da moita. Saía com o sapato da lama, tiravam e colocavam
atrás da moita e na hora que voltava calçava de novo pra chegar em casa.
Av. Aricanduva, próximo ao Carrão,
margeada pelo Rio Aricanduva
retificado (1986)
Acervo da Companhia do
Metropolitano de São Paulo
(Metrô)
Neide, moradora da Vila Guilhermina, nasceu em Santa Fé do Sul, no Mato
Grosso do Sul, próximo à Ilha Solteira. Seus pais vieram pra cá na década de 60
e estão aqui até hoje. Morou a maior parte de sua vida na Vila Carrão. Gosta de
ler nas horas vagas e conversar com amigos. É professora de História do Ensino
Fundamental 2 e atualmente é auxiliar de direção na Escola Municipal de Ensino
Fundamental CEU Aricanduva.
Professora Neide, fale um pouco da história do bairro.
Eu me mudei pra cá em 1979, e lembro que as ruas eram sem asfalto. Quando chovia, era uma barreira grande, não existia a Avenida Aricanduva, apenas o
rio e algumas vielinhas. Era uma região sem moradia
com muito mato e perto do onde hoje é a Avenida
Itaquera, tinha uma olaria. Vivia-se muito mal naquela época. Existia muita violência e tinha até umas
musiquinhas que eram paródias. Cantava-se assim:
“Oh! Vila Carrão, tem maconheiro, tarado e ladrão!”
E o pessoal falava que quem comprava casas nessas
imediações não tinha condições de comprar no centro – aqui era a periferia da periferia.
Existiam lagos?
Existiam. Mas a minha mãe nunca deixou a gente entrar. O rio não era sujo. Tinha gente que pescava, as crianças brincavam em volta do rio. As pessoas
nadavam nas lagoas.
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Vamos estudar o Rio Aricanduva bem de pertinho, coisa que eu nunca imaginei fazer antes.
Comentei com algumas pessoas do bairro. Essas pessoas me disseram que o bairro do
Aricanduva mudou bastante, pois os meios de transporte eram poucos. Pessoas me contaram
que só existia um ônibus que conduzia de Guaianases até outro destino que não me lembro.
Enfim, para essas pessoas passarem de um lugar para outro só existia uma pequena ponte
de madeira podre.
Bom, com esses conhecimentos estou aprendendo bastante coisa, espero que no final desta
pesquisa rica, eu possa saber, sim, como é a história do meu bairro.
O meu bairro mudou bastante. Quero saber quando e como ocorreram essas mudanças.
Espero chegar no objetivo almejado!
Anderson Barbosa da Silva
CEU Aricanduva
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Bacia do Rio Aricanduva: um lugar para nadar e pescar
Trabalho realizado pelos
alunos Adla Daiane F. de
Almeida, Aline da Silva Santos,
Ana Claudia S. Serafim, Bruno
Andrade, Bruno César M. de
Oliveira, Bruno da S. Profeta,
Emily P. Maria, Enoque A. de
Souza, Jefferson F. Souza,
Juliana B. de Lima, Luiz
Guilherme de Carvalho,
Marcos Eduardo, Rúbia Ap.
Moreira Dias e Wando S.
Araújo, sob a orientação
do professor Jovenil F. de
Souza, da Escola Municipal
de Ensino Fundamental
Benedito Montenegro.
A Bacia do Aricanduva, por ser a mais extensa da região leste de São Paulo, possui paisagens bem diversas. Viveu o processo das primeiras ocupações, na região de
foz do Rio Aricanduva, com a construção dos pequenos povoados do bairro da Penha e com as fábricas do Tatuapé. Ao mesmo tempo, pôde resguardar uma paisagem
mais simples, com poucas casas, pequenas olarias e um ambiente natural pouco alterado, na região das cabeceiras do rio, nos bairros de São Mateus e Lageado.
É esse Aricanduva que constatamos nas entrevistas que ora apresentamos. Um
rio com cheias, mas que não entrava na casa das pessoas, até porque elas estavam
distantes de sua vazante. Um Aricanduva em que se era possível nadar e pescar.
José Almeida Marcondes, 90 anos, nascido em Pindamonhangaba, morou
em Itaquaquecetuba. Veio para São Paulo, em 1951, indo morar na Vila Antonieta. Recebeu do irmão, que voltou da II Guerra Mundial, um dinheiro que Getúlio Vargas havia pago aos pracinhas e, com ele, comprou uma olaria na Passagem
Funda. Após dois anos, ele e sua esposa, dona Antonieta, 78 anos, mais outro irmão, compraram um terreno na beira do Aricanduva e ali montaram outra olaria
que ainda está ativa. Nesta entrevista, o casal fala um pouco de sua história e da
transformação que viram ocorrer nessa região.
Vocês podem falar um pouco sobre como era esta região?
Sr. José e sra. Antonieta – A beira do Aricanduva é no Jardim Nove de Julho.
Aqui era só olaria, até o Iguatemi. A primeira capela de São Mateus, nós que doamos o tijolo, todos os oleiros. Aqui era só (capim) barba-de-bode. Chovia que dava
peixe! Nós caçávamos tatu e capivara. Tinha uma lagoa que não secava, então caçávamos rã. Na época em que viemos, o Mateo Bei estava vendendo os lotes. Junto
com os lotes ele doava uma viagem de tijolo e telha. Nós fornecemos tijolo pra ele.
Vista aérea das obras de duplicação
da Av. Aricaduva (1986)
Acervo da Companhia do
Metropolitano de São Paulo
(Metrô)
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Como eram as casas quando vocês se mudaram pra cá?
Sr. José e sra. Antonieta – A casa melhor que tinha aqui era a nossa. As casas
eram longe umas das outras. (Era) a companhia que vendia e dava os tijolos, então eles foram construindo longe que era pra ir ficando grande o bairro.
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Como as pessoas faziam para conseguir água? Ela era limpa?
Sr. José – A água era de poço, com bomba. Perto do Aricanduva, nós lavávamos roupa. Começou a poluir o rio mais ou menos de 1960, pra cá. Depois que
começaram a construir o esgoto e a vir mais pessoas.
Como era a paisagem do bairro?
Sr. José e sra. Antonieta – Ao longo do rio, tinha bastante árvore. São Mateus era um pasto, só tinha mato e cavalo. O lado do Parque do Carmo sempre foi
mais florestado. Não tinha ônibus, vinha uma jardineira de manhã e à tarde até a
igreja. Quando chovia, não tinha ônibus.
Vasco Almeida, nascido no interior do Estado de São Paulo, na cidade de
Marília, mora no bairro de São Mateus há 58 anos e trabalha como vigia da subprefeitura de São Mateus.
O senhor pode descrever como era a região há 30 anos?
Tinha três olarias. Eu e meu pai tínhamos um caminhão, vínhamos buscar
nas olarias tijolos e madeira. Era tudo calipau (eucaliptos), não havia mais nada,
fora isso. No Iguatemi não havia comércio, o que existia eram umas barraquinhas de madeira. Nessa pilha toda não havia mais nada e a Estrada do Iguatemi
era muito ruim porque era toda de terra. Para passar veículos, um tinha que parar para o outro passar porque a estrada era muito estreita. No começo da história de São Mateus, o ônibus nem chegava aqui. Parava lá no início da Mateo Bei.
Não tinha condição para chegar em nenhum bairro. As pessoas tinham que pegar
o ônibus que parava no Largo do Carrão. Em Guaianases também era assim.
De lá pra cá, o senhor acha que a situação melhorou ou piorou?
Melhorou. Acho que se estruturou mais o bairro. Antes, o pessoal chegava e
ia construindo casas onde queria. Depois é que foi urbanizando e melhorando.
Quando asfaltou, tinha bastante bicicleta e cavalo.
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Quais espécies animais tinha por aqui? Dizem que tinha capivara, gambá...
Cavalo, vaca, todo tipo de bicho. Aqui era mata virgem. Mais da metade não
se vê. Naquele tempo não havia ambulância, não havia carro de funeral. Meu pai
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tinha um caminhão e, quando falecia alguém, a gente colocava o caixão em cima
e amarrava (com) uma corda. Era o chamado pau-de-arara. Os médicos usavam
charrete, era o único meio que tinha. Meu pai foi o primeiro a ter caminhão aqui
neste bairro. Quando viemos de Marília pra cá, tinham dez casas e o resto era
chácara. Quer dizer, aqui não tinha nada.
O senhor prefere antigamente ou agora?
Há 58 anos você vivia melhor, não havia tanto ladrão e bandido como hoje.
Então, claro, eu preferia assim. Não tinha asfalto, não tinha luz nas ruas, não tinha nada, mas havia mais respeito.
O senhor conhece algum rio que foi aterrado e há uma avenida por cima?
Aqui não há rio, só córregos e nenhum é aterrado. Havia até peixes por
aqui. Agora é só sujeira das fábricas. A prefeitura devia cuidar mais. Antes
dava pra beber água desses rios, era tudo água de mina. Tem uma coisa muito interessante aqui no bairro: o Parque Industrial de São Lourenço. Ele pertence ao Jardim Iguatemi. É uma área industrial em crescimento, isso ajudou
muito aos moradores, trouxe trabalho e não tem nada melhor que trabalhar
perto da sua residência.
Você sabe informar se a Avenida Ragueb Chohfi sempre foi asfaltada?
Antigamente ela se chamava Estrada do Iguatemi, saía do Largo de São
Mateus e era estreita. Não tinha asfalto. Depois passou a se chamar Ragueb
Chohfi, o pai do Lourenço Chohfi, que é um dos proprietários do Parque Industrial de São Lourenço.
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Casou por procuração
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O português Armando Pereira de Cabo nasceu
em 1931, no distrito de Vila Pouca, cidade de Resende, Portugal. Ele veio para o Brasil, em 1957,
em busca de uma vida melhor. Na sua terra natal,
trabalhava como barbeiro e na lavoura. Tinha oito
irmãos. Quando seu pai faleceu, ele tinha 4 anos,
seu irmão mais novo, 4 meses, e o mais velho,
13 anos – muitos de seus irmãos casaram em
Portugal. Ele pôde vir para o Brasil graças a uma
carta mandada por seu irmão, que já morava
aqui. Essa carta, um tipo de contrato, só podia
ser feita no consulado.
Quando chegou em Santos não tinha ninguém esperando por ele, porque trocaram a data da chegada e não conseguiram avisar os parentes. Ele estava com um baú e uma malinha de mão. Como
ninguém foi buscá-lo, pegou carona com um amigo, mas teve que deixar as bagagens no Porto de
Santos. O amigo deixou-o no bairro do Ipiranga e
ele conseguiu encontrar a casa do irmão. No outro
dia foi buscar as malas.
No Brasil, seu primeiro emprego foi em um açougue, onde ficou cerca de três meses, depois foi trabalhar em uma barbearia. Em seguida, conseguiu
montar um bar com um sócio porque faltava 20%
do dinheiro para pagar. Ele trabalhava de 12 em 12
horas e só tinha folga a cada três semanas. Mandou a carta de chamada para sua esposa vir para
o Brasil. Em Portugal, eram vizinhos e iam a festas
juntos. Ele se casou por procuração (ela lá e ele
aqui no Brasil), em 1959. Ela chegou em 1961, dois
anos depois de casados.
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Comprou sua primeira televisão, em 1965. Quando
trabalhava no bar e perdia o ônibus, tinha que ir
embora a pé. Se pegava a condução, tinha que caminhar da 4ª Parada até sua casa, que era próxima à Vila Paulina. Depois, comprou um bar em Sapopemba, onde ficou oito anos. Mais tarde vendeu
(o estabelecimento) e, em 1970, comprou um açougue. Em 1977, nasceu sua filha Lúcia.
Ele tem um peão que tem mais ou menos 60 anos
e uma miniatura de capa de chuva que se chama
Laina e disse que sua brincadeira preferida (na infância) era um molhar o outro usando uma enxada
a 4 metros de distância. Ele acha aqui melhor do
que lá e não voltaria para Portugal. É que lá
comiam carne uma ou duas vezes por ano.
Juliana Bezerra de Lima
Emily Pereira Maria
Rúbia Aparecida Moreira Dias
Emef Prof. Benedito Montenegro
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Morro do Cruzeiro: natureza no coração da zona leste
Trabalho realizado por
Cristina Fontes dos Santos,
Karina Ribeiro Alves,
Renata Sapucaia de Lira,
Ricardo Pereira Francelino e
Reiler da Silva, sob a
orientação da professora
Angélica Romero de Camargo,
da Obra Social da Paróquia
São Mateus Apóstolo – Centro
de Formação Profissional
São Lucas.
O Morro do Cruzeiro está situado em um dos extremos da zona leste de São
Paulo, entre os bairros de São Rafael, Iguatemi e Jardim Santo André, próximo
à divisa com a cidade de Mauá. São Mateus é um bairro paulistano urbanizado
e densamente povoado, tomado por comércio em toda parte e com um trânsito
louco. Por tudo isso, ninguém imagina que, a menos de 20 minutos dali, pode-se
encontrar um local com a beleza e a riqueza natural do Morro do Cruzeiro, que
ainda preserva exemplares da flora nativa, como o passuaré e a aroeira, além de
um grande número de animais.
Em abril de 2004, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, em parceria com
a Pastoral da Ecologia, promoveu uma peregrinação que tinha como seu destino final o topo do morro. Lá foi realizada uma missa, celebrada por dom Pedro Luís, da
qual participaram aproximadamente 3 000 pessoas. O grande número de presentes
ao evento pode ser explicado pelo trabalho prévio desenvolvido tanto pela Pastoral
da Ecologia como pela SVMA, que buscaram mobilizar a comunidade e as associações locais para que essas se manifestassem publicamente, por meio da peregrinação
e da missa, em defesa de uma idéia: a criação do Parque Natural do Morro do Cruzeiro, iniciativa que pretende evitar que essa região seja devastada pela expansão urbana. Desde então, é crescente o número de moradores do morro que passaram a lutar
pela preservação local, não só da fauna e da flora, mas também das nascentes de rios
e córregos que ali se encontram, como a do Aricanduva e do Caguaçu, entre outros.
Valdecir, morador do Jardim Santo André, situado na zona leste de São Paulo, é uma das lideranças do Morro do Cruzeiro.
Por que você veio morar aqui?
Tem uns 15 anos que moro no Jardim Santo André. Eu diria que o local atrai
a gente porque aqui tem nascentes de rios, a mata nativa. Aqui também é rico em
fauna e flora. Este bairro tem muitas coisas que os bairros mais centrais perderam. Se eu descer cinco ruas, já estou em contato com a natureza: a nascente do
Rio Aricanduva, quaresmeira – que é uma planta nativa da mata atlântica. É interessante que muita coisa também foi depredada. No passado, aqui foi um berço
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onde a turma colhia camarões brancos. Hoje não tem mais, mas já teve. A poluição também. Eu até falo que aqui temos as nascentes, mas um quilômetro depois
delas já está poluído, contaminado. Não foge à regra. O importante é que todo o
ponto de partida de vida nós temos: nascentes, pássaros, animais, alguns bichos
que nem eu conheço. Às vezes tem um ou outro que captura, fica fazendo gracinha, mostra, mas depois a gente aconselha que solte e a pessoa acaba soltando.
Existem ocupações ilegais no Morro do Cruzeiro? Como elas surgiram?
Os loteamentos clandestinos foram feitos na falta de moradia, no passado.
Se fez num sistema irregular, uma verdadeira grilagem. As famílias de baixa renda acabaram subindo ali (aponta para um dos lados do morro), onde se juntavam
para que não derrubassem as casas. Aí derrubavam, eles faziam de novo. Conclusão: eles ficaram porque não tinham para onde ir.
Qual foi o tipo de impacto que essas ocupações provocaram?
Sobre a parte ambiental foi muito drástico. Aqui foi feito este tipo de loteamento clandestino. Um deles nem chegou a acontecer, mas é o grande marco para nós:
ali embaixo, eles limparam o morro todinho para lotear e não houve construção de
casa, não houve construção de nada. E o que aconteceu? Toda terra do morro, com
a chuva, passou a descer no Rio Caguaçu. Aí foi assoreado o rio e nós passamos a
ter enchentes na entrada do Jardim Santo André, coisa que não tinha antes.
Ademir Coalho Motro, morador do Morro do Cruzeiro desde a década de
90, é um dos líderes a favor da preservação do Morro do Cruzeiro.
Você é uma liderança local. Fale sobre a sua luta.
Temos uma luta aqui contra o lixo deste lugar (que até pouco tempo atrás era
depositado no morro por caçambeiros clandestinos). Lutamos pela preservação
ambiental e por todo o reflorestamento desta área, principalmente onde foi o lixão do aterro Sapopemba.
Que tipo de animais se encontra aqui no Morro do Cruzeiro?
Temos tatu, lagarto, joão-de-barro, jabutis. Há uns seis meses capturaram
uma capivara. De voar, temos garças, falcões...
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O que o governo tem feito para ajudá-los nessa
luta pela preservação?
A Secretaria do Verde e Meio Ambiente ajudou a
gente um pouco. Mas ainda não foi tudo, porque a verba
é muito pouca. Agora, depois da nossa intromissão, barrando o lixo que vinha pra cá, e da idéia de formação do
Parque do Cruzeiro (que saiu da nossa comunidade), fizemos a mobilização para que se preservasse tudo isso:
uma missa campal em prol da preservação dessa mata.
Mas, infelizmente, a gente não tem recursos.
João José Mendes, 75 anos, é mineiro de Campanha.
Veio para São Paulo ainda criança e morou grande parte da
vida na cidade de Santo André, no ABC paulista. Mora no
Morro do Cruzeiro desde 1986, onde possui três chácaras.
Quantos moradores antigos, chacareiros, ainda existem no Morro do Cruzeiro?
(Mostrando um mapa) O senhor está vendo este mapa? Essas 160 chácaras pertencem à fazenda que loteou o Jardim Santo André, são remanescentes
da área. O dono original destas terras era Carlos Pereira de Barros, engenheiro,
sobrinho do dr. Ademar de Barros. Essa Fazenda do Cruzeiro foi uma das desmembradas deste mapa: a Fazenda Oratório, que era propriedade de José Marinho de Carvalho. Essa fazenda originou, eu calculo, umas 20 fazendas iguais
a esta (Morro do Cruzeiro).
Faz quase 20 anos que vocês moram no Morro do Cruzeiro. Nesse tempo,
São Mateus cresceu muito, loteamentos irregulares aconteceram. Vocês
perceberam, durante esse tempo, mudanças no clima do morro, o
desaparecimento de animais, plantas?
Mudou completamente. Quando cheguei aqui tinha o jacu, a pomba, a raposa, veados, tartarugas, diversos animais.
Hoje o senhor não vê mais esses animais? O que aconteceu?
De jeito nenhum. Matam para comer. As pessoas também põem gaiola no
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meu muro para prender passarinho. Prendem e depois vendem por 20 reais
um tico-tico.
Alguma coisa mudou depois da peregrinação de abril de 2004 e o movimento
para criação do Parque do Morro do Cruzeiro?
(Intervenção de dona Conceição, esposa do sr. José) Nós ficamos muito orgulhosos com o surgimento desse movimento porque muita gente dizia, inclusive conhecidos da gente, que isso aqui não era nada, que o Morro não ia passar disso.
Como você gostaria que fosse o Morro do Cruzeiro daqui a 50 anos?
(Intervenção de dona Conceição) Na minha opinião, eu gostaria que houvesse progresso. Preservar a área, mas ter também lazer, fazer de um jeito que o
povo pudesse vir visitar.
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Bacia do Córrego Itaquera: uso e ocupação
Trabalho realizado por
Fabio Luiz da Silva, Leonardo
M. Albuquerque, Raquel Fontes
Avelar, Peterson Ap. da Silva
Araújo, Fernanda dos Santos,
Anderson da Silva, Fabiola
Rodrigues Faustinos, Danilo
Ap. Serafim e Henrique da
Silva, sob a orientação da
educadora Zora Ionara, da
ONG Ética e Arte.
Formado por três principais afluentes – Itaquera Mirim, Guaratiba e Rodeio –,
o Rio Itaquera constitui a bacia do Córrego Itaquera, uma das mais complexas,
tanto do ponto de vista ambiental como do ponto de vista populacional, do extremo leste da cidade de São Paulo.
Da nascente, localizada na região da Cidade Tiradentes e Lageado, até desaguar no Rio Tietê, no bairro de São Miguel, o rio percorre aproximadamente 10
quilômetros. Ao longo desse trajeto, atravessa diversos bairros desta que é uma
das áreas mais populosas de São Paulo.
O estudo da bacia do Córrego Itaquera revela as mudanças de uso do rio
e da região ao seu redor. Essas alterações ocorrem desde a construção da Capela de São Miguel, no século XVI, até a implantação do complexo da Nitro
Química e a conseqüente grande ocupação populacional que ocorre após as
décadas de 70 e 80. A alta densidade demográfica é reforçada pela construção
dos conjuntos habitacionais na região da cabeceira do rio, as Cohabs, e pelos
loteamentos clandestinos.
Nas entrevistas feitas com antigos moradores da região, percebemos em comum a preocupação com a questão da poluição do rio, assim como a estrutura de
grande desigualdade social, marca da ocupação da Bacia do Itaquera.
O pernambucano Valdemar Dias da Silva, 83 anos, é morador do bairro de
Vila Progresso há 35 anos. O aposentado conheceu o Rio Itaquera nos tempos em
que ainda era possível pescar nele.
O que o senhor teria para falar sobre o rio?
Antigamente o rio era limpo. Tinha uma lagoa com vários peixes: lambari,
cará, traíra. Desmancharam a lagoa para fazer essas casas. Aqui era uma chácara
de fora a fora. Não tinha nada, só o trem da Maria-Fumaça, máquina de carvão.
O senhor percebeu quando o rio começou a ser poluído?
Aqui ninguém polui. A sujeira dele vinha de lá pra cá.
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Esses terrenos próximos à sua casa foram vendidos ou invadidos?
A maior parte deles foi vendida. O restante foi invadido, não tem documento.
O que o senhor acha que poderia ser feito para melhorar as condições do rio?
Limpeza. Pra ficar limpo só se a prefeitura mandar limpar. Pobre que mora
perto da beira do rio não limpa. Eles fazem é sujar mais (risos).
A paulistana Ida Razzano Garcia, 79 anos, aposentada, trabalhou em comércio – foi dona de bazar – durante 22 anos. A descendente de italianos reside no
bairro desde que nasceu, em 1925.
Guilherme Bella Cruz de Paula
Qual a relação de sua família com o rio?
Meus filhos, meu pai, a sobrinhada, os vizinhos, todos os amigos aprenderam a
nadar no rio. A água era tão limpa que se podia ver o fundo do leito e os peixes. Esse
rio era lindo e limpo, descia essa rua (Albertina de Medeiros), que era de terra, e já
estávamos na margem. Só tinha chácaras de uva, pomar e verdura, que davam fundo para o rio. Depois fizeram um porto de areia. Eles acabaram com as chácaras de
verdura e aí ficaram aqueles buracos enormes e começaram
a morrer crianças. Depois tamparam os buracos. Começaram também a chegar pessoas e construir casas na beira do
rio por causa da água. Elas passaram a jogar o lixo dentro do
rio porque ainda não existia no bairro a coleta. Jogavam até
móveis de casa e quando chovia tudo voltava para a rua –
plástico, vidro –, o que ajudou a iniciar a poluição.
Como era a condução?
Meu pai trabalhava no Parque Dom Pedro e ia a pé
até Itaquera para pegar o trem, o Maria-Fumaça.
Quem foram os primeiros moradores?
Os filhos dos velhos que vieram pra cá. Começaram
a fazer casas e a trabalhar, todos no Brás. Era muito sacrificado. Eu nunca trabalhei fora, sempre em casa. Depois disso, foi amontoando de gente. Em Vila Progresso,
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começaram a vir portugueses, um atrás do outro, e começaram a montar vendinhas. Meus filhos também nasceram aqui.
José Damião da Silva Filho tem 73 anos. O pernambucano nasceu em 3 de novembro de 1931, e era foguista, trabalhando com fogo de vidro e caldeira. Três meses
após ter sido demitido de seu emprego por participar ativamente do movimento sindical e pela luta política por melhores condições de vida, decidiu vir ganhar a vida em
São Paulo. Chegou em 1º de junho 1964, às 17 horas, na Rua Almeida Lima, no Brás.
Tinha 32 anos de idade e seu primeiro endereço foi a Vila Nitro-Operária, no bairro de São Miguel. Dois anos depois, foi morar na Vila Nova Curuçá, próximo a um
afluente do Rio Itaquera Mirim, onde predominavam terrenos baldios e chácaras.
Bruno S. Profeta
Enoque A. de Souza
Como era o rio quando o senhor se mudou para cá? E como é hoje?
Quando vim pra cá, o Rio Itaquera tinha 2 metros de largura, não era poluído, tinha peixe. Eu fiz a primeira pinguela, com uma tábua de 4 metros, para passar meus
pertences de um lado para o outro. Ela ficou por um bom tempo. Com o aumento da
população, a vala começou a aumentar. E, com a construção da fábrica de papel, toda
a tinta que sobrava era jogada no rio. Acabou com os peixes
e com tudo. Quando eles estão lavando papel jogam a tinta,
fica um cheiro horrível. O rio hoje tem muito mais metros
de largura. Com a construção das moradias, foram jogando
esgoto a céu aberto. A rede de esgoto foi construída no governo Montoro. Mas todo o esgoto que ia para as ruas, agora
vai para o rio. Havia aqui perto duas olarias, e também duas
lagoas de onde tiravam barro para fazer o tijolo.
Como foi se desenvolvendo a infra-estrutura do bairro?
Foi por luta da entidade Sociedade Amigos do Bairro de Vila Progresso, da qual faço parte. Quando cheguei
aqui, só haviam duas ruas asfaltadas e um grupo escolar.
Na Sociedade fomos conquistando os novos equipamentos públicos e hoje temos água encanada, ruas asfaltadas,
escolas e postos de saúde. Fazer algo por nós mesmos é
um mérito, mas fazer pelo coletivo, o mérito é maior.
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Nós ficamos com o tema Bacia do Itaquera. Não está sendo muito difícil, pois já fazíamos
um trabalho parecido na nossa associação. Temos muitas fotos do rio, uma maquete
construída com nossas mãos e uma pesquisa com as pessoas que moram na margem
do Rio Itaquera-Itaqueruna, para podermos saber a relação delas com o rio. E também
conhecemos algumas pessoas que podem contar muitas histórias interessantes sobre o rio.
O que fizemos por último foi procurar a nascente do Rio Itaquera. Não tenho certeza se a que
achamos foi a correta, mas era espetacular ver aquela água brotando do chão e deslizando
sobre as pedras. A caminhada foi bem cansativa, mas bem interessante e acho que ainda
temos muito que aprender.
Raquel Fontes Avelar
Ética e Arte
Sobre o nosso tema, não sei ainda muitas coisas. Mas sei que estamos estudando o Rio
Itaquera, que um dia foi um rio limpo onde se podia nadar e pescar e hoje, devido ao
desequilíbrio ambiental que está havendo, o rio se encontra em péssimas condições.
O objetivo de tudo isto é colaborar com nossas pesquisas e estudos, e com a elaboração
do livro da zona leste que estará abordando o assunto que mais preocupa os seres vivos:
o meio ambiente.
Quero aprender a história ambiental de toda a zona leste e se possível de São Paulo. E quero
contribuir na conscientização dos cidadãos para que o meio ambiente não seja destruído.
Fernanda Aparecida Alves dos Santos
Ética e Arte
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O sonho de um futuro melhor
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Francisca Fernandes de S. Almeida veio aos 15
anos para São Paulo, da cidade de Juazeiro do
Norte, Ceará. Ela chegou em 1975 e morou no bairro de São Mateus. “As ruas eram cheias de buraco,
era cruel”, recorda. Como veio de uma cidade pequena, não entendia coisas como o metrô.
Na sua terra natal não havia opção: ou a pessoa trabalhava na roça ou como empregada doméstica. Lá
ganhava muito pouco e não conseguia ajudar a família. Por trabalhar demais, também não tinha condições de estudar. Ela veio para São Paulo em busca
de dinheiro e um futuro melhor. Quando chegou na
capital foi morar com os tios e seu primeiro serviço
foi de empregada doméstica. Depois conseguiu emprego em fábrica de brinquedo e metalúrgica.
Conheceu Domingos Fernandes de Almeida, em
São Mateus. Namoraram três anos e depois se casaram. Logo saiu do seu emprego, pois ficou grávida. Decidiram morar no Parque São Lucas, em uma
casa de apenas um cômodo. Sua vida era difícil.
Os dois estavam desempregados e passaram muitas dificuldades.
Resolveram se mudar. Conseguiram dinheiro e a
ajuda da dona da casa para comprar um terreno
no Jardim Iguatemi, pois seu marido havia arrumado emprego. Estavam construindo a casa e havia dias que não tinham nada para comer. Francisca diz que a maior dificuldade era quando levava
seu filho Fábio ao hospital. Além de sair de casa
às 4 horas sem tomar café da manhã e pegar ônibus para chegar ao centro, retornava às 24 horas
sem comer nada.
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Domingos perde o emprego e durante três anos
ela é obrigada a trabalhar de costureira para sustentar a casa. Finalmente, seu marido arruma um
serviço e pede à mulher que saia do trabalho.
Sua vida melhora e o casal tem uma menina chamada Adla. Aos 42 anos, Domingos falece com a
doença do barbeiro. Com 37 anos, Francisca dá
força para seus filhos para superarem a dor, principalmente para a mais nova, com 9 anos. Francisca agora tem 44 anos e continua a morar no
Iguatemi com seus dois filhos. Diz que não se arrepende de ter vindo para São Paulo. “Aprendi
muito, foi uma escola para mim.” Para ela, aqui é
possível ter um futuro para ela e seus filhos. Voltar para a cidade natal? Depende de seus filhos,
pois sua filha quer fazer Veterinária.
Adla Daiane Fernandes de Almeida
Aline da Silva Santos
Enoque Almeida de Souza
Bruno da Silva Profeta
Marcos Eduardo Magalhães
Ana Cláudia Serafim
Bruno Cesar Martins de Oliveira
Wando da Silva Araújo
Emef Prof. Benedito Montenegro
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APA Parque do Carmo: o segundo maior da capital
Trabalho realizado por
Adriana E. Koakutsu, Eliane F.
Souza, Gillis F. de Araújo
e Marcia Sete Lino, do
Instituto Maria de Nazaré.
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Criado em 1976, o Parque do Carmo está localizado no bairro de Itaquera,
na região leste do município de São Paulo, na bacia do Rio Aricanduva. É o segundo maior parque da capital paulista, com área de 1,5 milhão de m², e recebe
nos fins de semana mais de 90 000 pessoas. Nas proximidades do parque encontramos o Sesc Itaquera, residências, indústrias, chácaras de horticultura, olarias,
um aterro sanitário recuperado, uma usina de compostagem desativada e ocupações irregulares.
Em 1989, toda a área – são 6 milhões de m² – foi transformada em Área de
Proteção Ambiental (APA) por meio da luta da Sociedade Ambientalista Leste
(SAL). Criada por um grupo de moradores da região a partir do movimento SOS
Mata do Carmo, a Sociedade Ambientalista Leste conseguiu o fechamento do
aterro sanitário de São Mateus e a criação da APA do Carmo, com o objetivo de
proteger a área remanescente de mata atlântica ali localizada, que abriga grande
variedade de espécies nativas de flora e fauna.
Um dos participantes da mobilização de moradores, que resultou na criação
da APA do Carmo, foi o advogado Felippe Gaidarti, morador da região há 35 anos
e freqüentador do parque há mais de três décadas. O sr. Felippe afirmou que sem
a mobilização dos moradores, hoje não existiria nenhuma cobertura vegetal significativa na região. Ele também lamentou as transformações ocorridas no Parque do Carmo desde a sua fundação. Segundo o advogado, não existe mais um
grande viveiro de plantas com muitas bromélias, orquídeas e plantas exóticas, e
os macacos morreram por causa da alimentação inadequada oferecida pelos visitantes. Ele alerta para a preservação das espécies de animais que ainda restam no
parque, como gansos, marrecos e esquilos.
Existe uma rica biodiversidade no Sesc Itaquera localizado na APA do Carmo. Com ajuda da bióloga Daniela Nicolaev Silva, funcionária do Sesc desde
2000, conseguimos identificar várias espécies nativas, como as embaúbas (Cecropia sp), manacás (Brunfelsia uniflora), quaresmeiras (Tibouchina granulosa), ingás (Ingá uruguensis) e jerivás (Syagrus romanzoffiana). Quanto à fauna, encontramos uma grande variedade de pássaros, como o pica-pau-de-cabeça-amarela
(Celeus flavences), tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus), sabiás (Turdus
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sp), sanhaços (Thraupis sp) e coruja-buraqueira (Speotyto cunicularia). No lago
do Sesc podem ser vistos patos, garças e irerês. Além disso, alguns mamíferos
também podem ser encontrados na região, caso do bicho-preguiça (Bradypus
tridactylus) e de esquilos (Sciurus ingrami).
No viveiro do Sesc Itaquera existem mudas de mais de 30 espécies de plantas nativas. É o caso da pata-de-vaca (Bauhinia forficata), do angico (Anadenanthera macrocarpa), do pau-viola (Cytharexyllum myrianthum) e da pitanga (Eugenia uniflora). O parque é muito conhecido pela sua extensa área
de lazer, porém os freqüentadores pouco sabem sobre a origem, diversidade e
importância dessa região. Para conhecermos melhor a história do Parque do
Carmo, entrevistamos Sandra Aparecida dos Santos Stahchaver, coordenadora do Centro de Educação Ambiental do Parque do Carmo, que trabalha no
local há cerca de sete anos:
Como surgiu o Parque do Carmo?
O Parque do Carmo era uma fazenda que vem desde o período da divisão das
cidades em sesmarias pelos portugueses. (Esta área) ficou para João Ramalho,
que não se interessou em ficar com as terras e as doou para a Ordem Terceira do
Carmo Fluminense. Os padres carmelitas iniciaram o trabalho na região que deu
origem a Fazenda Nossa Senhora do Carmo. Eles começaram a produção agrícola com a mão-de-obra escrava baseada na força do negro da terra, os índios itaquerus, caguaçus e guaianases, que habitavam aquela região.
Até que ano os carmelitas ficaram na região?
Os carmelitas ficaram na região até 1889, quando as terras começaram a diminuir por conta das mudanças no panorama político econômico no Brasil: a
abolição da escravatura e a Proclamação da República, entre outros.
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Quem comprou as terras dos carmelitas?
As terras foram compradas pelo coronel Bento Pires de Campo. (Ele era)
presidente da Companhia Agrícola e Pastoril, que construiu uma estrada de ferro que ia até Mogi das Cruzes (ela atravessava a região de Itaquera e uma parte
ainda passa pelo bairro Engenheiro Goulart). Quem fez o projeto dessa estrada
foi o engenheiro Artur Alvim. O objetivo dessa construção era escoar a produção
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agrícola baseada principalmente na produção de café. Com a chegada da estrada de ferro, em cada estação começou a surgir pequenos povoados. Na região de
Itaquera, todas as áreas que circundam a antiga estação foram sendo doadas pelo
coronel com o objetivo de desenvolver um pequeno comércio local.
Até quando o coronel Bento Pires de Campo permaneceu na região?
Ele permaneceu na fazenda até 1930, ano em que o panorama de ocupação
da cidade estava todo modificado e (há o começo da industrialização) devido à
queda do café, que não tinha mais mercado. Então o coronel vendeu a fazenda
para o milionário paulista Oscar Americano de Caldas Filho, que era engenheiro e presidente da Companhia Brasileira de Projetos e Obras (CBPO), a mesma
que construiu o metrô.
Qual era o interesse do Oscar Americano ao comprar as terras? Ele modificou
alguma coisa na fazenda?
Oscar Americano não tinha interesses lucrativos. Comprou a fazenda porque queria uma área de lazer para passar os fins de semana com sua família. Ele
fez uma reforma milionária na fazenda: construiu a casa de hóspedes (atual administração), uma casa para os empregados (atual casa amarela) e outra para as
babás ficarem com seus filhos (atual Guarda Civil Metropolitana), um prédio redondo onde organizavam festas e uma piscina (que foi transformada em um pequeno teatro). Ele gostava muito de esportes náuticos por isso construiu também
um lago, aproveitando as nascentes que já existiam na fazenda. Plantou eucaliptos com o objetivo de fazer dormente. A idéia não deu certo, pois a madeira é
muito mole para agüentar o peso de uma locomotiva.
Para finalizar, quando a fazenda virou o Parque do Carmo?
Em 1974, faleceu Oscar Americano e sua família não teve interesses em
mantê-la, talvez porque não tinha acesso fácil, pois eles moravam no Morumbi. Assim, venderam a fazenda que já tinha sido loteada pelo próprio Oscar
Americano antes de sua morte: em uma parte ele fez investimentos imobiliários. A área restante – 9 milhões de m² – a prefeitura comprou, dividindo-a
novamente: área da Cohab e área que foi transformada em parque aberta ao
público, em 1976.
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O meu tema no projeto é APA do Carmo. Na minha opinião, foi o melhor tema, pois está
relacionado diretamente com o meio ambiente. Fazer esse trabalho está sendo divertido e
interessante, estou conhecendo vários lugares, algumas histórias, entrevistando pessoas.
Enfim, está sendo muito interessante. Projetos como esse nos ajudam a perceber a
importância da natureza, nos ajudam a nos conscientizar de que as nossas atitudes fazem
muita diferença e que podemos contribuir e salvar o pouco da natureza que nos resta.
Adriana E. Koakutsu
Instituto Maria de Nazaré
De professora a educadora ambiental
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Edna Aurora de Souza, 42 anos, formada em pedagogia, trabalhou durante 18 anos como professora de educação infantil. Após ter assumido por um
ano o cargo de coordenadora pedagógica, atendeu
a um anúncio de um jornal para trabalhar no Centro de Educação Ambiental (CEA) da Secretaria do
Verde e Meio Ambiente para o cargo de técnica em
educação, onde já trabalhava há dois anos.
Edna nos contou que, apesar de ter sido professora, não tinha conhecimentos específicos sobre o
meio ambiente e suas conseqüências na sociedade, mas superou essa dificuldade graças a sua dedicação ao trabalho e aos estudos.
Ela nos contou também que teve muito apoio e incentivo de seus pais, que sempre lhe deram muita
liberdade de escolha. E que seu sonho é propiciar
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aos seus dois filhos o ensino superior e fazer com
que eles contribuam para uma sociedade melhor.
Ela sonha também trabalhar com expressão artística, após se aposentar.
Hoje Edna trabalha criando trilhas de educação
infantil no Parque do Carmo. “Este trabalho é gratificante, porque estou em contato com a natureza e isso me traz a sensação de bem-estar e realização profissional.”
Adriana Emiko Koakutsu
Eliane Fernandes de Souza
Márcia Sete Lino
Gillis Ferreira de Araujo
Instituto Maria de Nazaré
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Diário de Bordo
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Oficina de Fotografia
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A Aline (da Silva Santos) falou calma, mas mexendo na caneta. Ela disse que não gostou muito do primeiro dia, pois não conhecia ninguém, mas gostou das palestras. Ela gostou principalmente do urbenauta. Urbenauta é um homem que ficou seis meses andando pela cidade
de São Paulo para conhecer melhor os locais. Ele se hospedava na casa das pessoas.
Voltando ao assunto, a Aline é da Oficina de Fotografia. A professora ensina como tirar fotos,
a ver se a luz é boa ou não, ensina como organizar fotos numa exposição. Enfim ensina muitas coisas sobre fotografia. A Aline acha a professora e o curso divertido. Ela já faz um curso
de fotografia na escola. Por isso, escolheu o curso de fotografia. Ah! Ela disse que está achando o máximo que o curso é no Sesc porque pode entrar sem pagar.
Valéria da S. Góes
Emef Carlos Chagas
Eu conversei com a Angélica (Ramos Barreto), que faz Oficina de Fotografia. Ela relata que
gosta da Oficina e diz que tem interesse no futuro, um futuro profissional. Ela diz que quer se
aperfeiçoar com essa Oficina. E eu me identifiquei com a Angélica porque ela também gosta e
se interessa pela história de São Paulo, como eu.
Karina Ribeiro Alves
Obra Social São Mateus
Eu entrevistei a Ana (Cláudia S. Serafim), da Escola Benedito Montenegro, e ela me disse que
faz a Oficina de Fotografia. Ela falou que está gostando de tudo, dos professores, das aulas, dos
colegas, etc. Ela disse que a professora leva fotos de pessoas humildes, e pediu que eles levassem fotos da família deles. Ela escolheu esse curso porque na escola onde ela estuda, ela já faz
um curso de fotografia e, por isso, ela quis conhecer um pouco mais sobre esse assunto.
Bruno Cesar Martins de Oliveira
Emef Prof. Benedito Montenegro
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Secretário da SVMA explica a
história ambiental da zona leste
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Adriano Diogo é geólogo formado pela Universidade de São Paulo, foi vereador durante 14 anos e
atualmente é secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente da cidade de São Paulo.
Com um currículo de atuação política que remete à época em que era estudante universitário nos
anos 70, Adriano Diogo possui vasto conhecimento e atuação nos movimentos populares de moradia
e do meio ambiente. Paulistano nascido na Mooca, quando a zona leste não ia além do Tatuapé, ele
nos fala sobre a sua militância nas lutas populares e sobre a preservação do meio ambiente.
Como foi a sua relação com o meio ambiente na infância?
Sou filho de brasileiros, meu pai, de portugueses, e minha mãe, de italianos.
Ela tinha cinco irmãos: meu tio Luís morreu afogado no Tamanduateí. Minha
avó materna morava na Rua Tabatingüera e eles lavavam roupa naquele rio. Nasci na Mooca. Estudei no Firmino de Proença. Minha mãe era professora da Escola Normal Padre Anchieta, no Brás. As imagens mais fortes que tenho da minha
infância são as das fábricas. Além delas, os cortiços, as vilas e padarias eram meu
universo. Vi muita greve. Todo dia via piquete, greve, piquete, greve... Milhares
de operários naquela região da Mooca antiga, das metalúrgicas. Nós não saíamos
muito. O Tatuapé era periferia naquela época.
Meu avô tinha um cinema na Vila Paulínia, perto da Vila Diva, Sapopemba.
Eu ia todo dia lá. Tinha um programa chamado Alegria dos Bairros e vinha uma
caravana de artistas. Eu achava a Estrada de Sapopemba maravilhosa. Havia sítios, chácaras.
Quando entrei na universidade, eu não tinha nenhuma familiaridade com a
questão ambiental. Só enxergava aquele mundo das passeatas, da literatura marxista, da preparação da revolução. Fui estudar na USP, entrei em Geologia. Então
a gente começou a viajar para conhecer outras realidades. Íamos para Registro,
nas grutas de calcário. Ir pro campo era fantástico. Comecei, então, a desenvolver
um pouco a consciência ambiental, que era mais rural. Eu nunca tinha ido para
o interior. Mas eu só volto pra zona leste depois de sair da prisão. Aí já era outra
zona leste, completamente diferente.
Vista aérea da região da
antiga Fazenda do Carmo
e Rio Aricanduva (s.d.)
Acervo da Companhia do
Metropolitano de São Paulo
(Metrô)
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E como foi esse retorno?
Eu volto pelo movimento operário, para ajudar na Oposição Sindical Metalúrgica na reorganização, e pela Igreja Católica, mais na questão da moradia, pra
dentro dos cortiços, pra dentro das favelas.
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Eu comecei a andar nos bairros da periferia, me envolvi na luta do lixão da
Vila Jacuí, comecei a conviver com as enchentes, com as áreas de risco. A coisa
mais interessante é a relação do ser humano com a natureza. Como o meio condiciona a trajetória pessoal. As pessoas modificam o meio, mas ele influi na vida
de uma forma impressionante. Isso acontece muito em Sapopemba, aqueles guetos, aqueles morros.
Quando fui vereador, e quando eu vim para a Secretaria, quis trabalhar a
consciência popular de meio ambiente. Uma coisa é você ser ambientalista olhando pelos olhos da classe média, da universidade. Outra é a visão ambiental na relação com a periferia, com as populações mais pobres e as raízes culturais do
povo, as formas de resistência.
A História Ambiental da Zona Leste, que vocês estão fazendo, é uma história
cruel, porque quem vê aqueles prédios bonitos da Mooca, do Tatuapé, do Belém,
não sabe quanta pobreza tem escondida atrás. Nos bairros a coisa é mais homogênea, não tem tanto contraste. Uma imagem forte da minha infância é um cortiço na Mooca, na Madre de Deus, que tinha 32 quartos em meio lote.
O povo sabe fazer a luta ambiental do jeito dele. O problema é que o povo não continua, não tem entidade, não tem financiamento. O povo gosta da questão ambiental.
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Você participou dos movimentos de habitação das Comunidades Eclesiais de Base?
O forte era o movimento de moradia e saúde. Eles faziam uma rede e tinham
como objetivo construir unidades de saúde e conseguir água para o bairro. A
moradia vem depois, com uma força impressionante. A gente tinha uma técnica
de organização que era cada igreja, cada paróquia criar um núcleo de habitação.
Nós reuníamos todo o pessoal que não tinha casa, que morava de aluguel, e começava a preparar um projeto habitacional.
Antes de o PT assumir a primeira vez o governo, a questão da moradia era
voltada para as ocupações e organização das pessoas que compravam terrenos
em loteamentos.
Era o fim da ditadura e todo mundo tinha que ter base social, o nosso recurso para conversar com o povo era através dos chamados movimentos sociais, já
que o movimento operário tinha uma organização que era dif ícil pra gente conseguir ganhar o sindicato. Então a gente optou pela chamada luta popular, que
era a luta dos bairros.
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